Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura O DIZER E O SER EM RESPINGOS: POESIA ANTIGA, DE MARIJÔ. Aurora Cardoso de Quadros1 Vem a Vida passando e me pergunta: Que fizeste por mim? Tua obra junta, Eu quero vê-la agora! E eu, atordoada com a surpresa, Começo a procurar por sobre a mesa E pela casa a fora. A fora? a dentro? Não sei. Mas eu procuro! Na gaveta, no chão, no quarto escuro... E a vida lá. Esperando. É inútil e eu, desesperada, Disponho-me a dizer que não fiz nada, Que não estava me lembrando... Então, ela me lança um olhar cínico E, pondo-me, na testa o dedo clínico, Diz em tom baixo e grave: Há excessivo calor na tua testa! Então, o seu olhar é quase festa E ela é quase suave. - O que me fizeste eu sei de cor E devo assegurar que foi melhor Do que tu pretendias Tuas verdades são tristes, mas inteiras. Tens nove filhos, uma velha mangueira, E um livro de poesias.2 1 Professora do Departamento de Letras - UNIMONTES - Doutora pela USP - Teoria Literária e Literatura Comparada. 2 RODRIGUES, Maria José do Carmo-Marijô. Minha obra. In: Respingos: poesia antiga. Belo Horizonte: Cuatiara, 1993, p. 45. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Estes versos encontram-se na obra Respingos: poesia antiga, de Maria José do Carmo Rodrigues, que reúne cinquenta e três poemas. Não foi por acaso que foi escolhido para ser o intróito dessa leitura da sua poesia. Sua obra projeta, em muitos pontos, a pessoa por trás das palavras. A poesia cria uma relação harmônica entre o eu-lírico, a pessoa e uma outra instância, a personagem, inerente ao gênero da narrativa, mas que é identificada aqui também, para além do eu lírico. Tal relação envolve implicações de identidades que se interpenetram em um jogo dual de realidade e fantasia fornecendo sentidos que se movimentam na reflexão do próprio fazer poético. O resultado nos é apresentado pelos seus Respingos. Além das coincidências do poema Minha obra, várias vezes se pressente um coração palpitante, na energia verbal e no talento poético. Às vezes também é possível arriscar um movimento que dissocia pessoa e eu-lírico. Outras, a relação torna-se dual e o jogo entre pessoa e personagem poético dá novo contorno às imagens que possam identificar certa projeção. E embora a referência não importe muito no envolvimento das emoções do eu-lírico, esta parece ser natural, tornando-se instigante, talvez sobretudo a quem já teve contato com a criadora, o envolvimento e o embalar das sugestões que trafegam nas construções. As palavras e o jogo que se processa reúnem os sentidos, unindo a instâncias poética e a humana. Refratando o eu-lírico do poema acima, a personagem que, após cumprir os quesitos de plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, escuta, na voz da vida, a consciência do dever mais que cumprido (“E devo assegurar que foi melhor/ Do que tu pretendias/ Tuas verdades são tristes, mas inteiras”). A voz da vida, que aprova o produto da poetisa/personagem, propicia uma dinâmica de prisma que condensa as entidades do fazer poético e propicia a intuição dos sujeitos que se instalam: estes se mesclam a partir dos seus papéis e configurações, conforme emergem, quer sejam no sentido mnemônico, ideal, poético ou corpóreo. Alternando em imagens poéticas, as figuras do poema definem os lugares e papéis que nele atuam. Observam-se três instâncias: a mente, que se expõe e relata a própria experiência num momento imaginário de balanço imposto pela vida; a vida, que lhe cobra sua obra; e a obra, consistente em uma mangueira, nove filhos e um livro de poesias. Na leveza Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura das palavras, a obra é definida como tuas verdades. Caracterizadas como tristes, mas inteiras, as verdades do eu-lírico permitem devaneios em torno da instigante expressão. Melhores do que o pretendido, mas tristes. Tristes, mas inteiras... Estamos diante da dor que deveras sente? Da dor do poeta fingidor? Difícil responder, mas é fato que, aos moldes do Pessoa, os que a lêem sentem bem. Pelo jogo com as palavras, pelas ondas de poesia, pela forma e pela beleza da mensagem. A mente, que cria o ser de sentimento, transita entre o próprio ser que sente e o que pensa? A mão que escreve está diretamente ligada ao ser ideal que sente? Alcançar o ponto de chegada não importa. O que vale é exatamente a trilha múltipla e o eterno trilhar a poesia de Marijô. Torna-se iluminada a face em que se percebe pela construção poética um relacionamento de amor e reconhecimento que, no decorrer da obra ou em movimentos de avanços e digressões, cresce e tece novos rumos. Nessa dinâmica, ocorrem várias metáforas para o próprio processo de construção dos poemas e o labor da palavra. Uma delas toma a criação poética por um parto: À noite, à meia sombra do meu quarto, Realizo meu parto, À luz de quinze velas. A mente se contrai e nascem versos3 O ato criador se faz em meia luz, impurezas e recompensa, cuja operação “sem assepsia” brotam os efeitos estéticos: Ele vem com todos os catarros E melenas e escarros E muita hemorragia 3 RODRIGUES, Maria José do Carmo-Marijô. Pétalas de estrelas. In: Respingos: poesia antiga. Belo Horizonte: Cuatiara, 1993, p. 44. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Mas ao cair no papel Ele é como um troféu Como resultado, as palavras no papel repercutem pelo ambiente, parecendo projetar-se na história e essa história, no procedimento reflexo, no quarto, ambiente do parto/poema. Ele é como medalha, Ou como eu disse: pétalas de estrelas Que, à luz de mil velas, no meu quarto se espalham As formulações imagéticas dispensam comentários sobre o efeito estético que mistura suor e triunfo. São essas construções que vão deflagrar e desenhar nuances e fatos interiores da relação semântica pessoa/personagem, que multiplicase e revela-se sutilmente. O exprimir-se e o relatar os fatos e sentimentos não possuem correspondentes exatos de modo a constituir uma grande chave. Mas evidente é sua empreitada em convidar para o descortinar do sujeito poético. E, se os mistérios não trazem a chave dos sentimentos mais profundos, esses, muitas vezes, deixam em suspense os sentidos que se insinuam na dualidade da correspondência entre a vida vivida e a vida imaginada: Luz da minha noite Bálsamo do açoite Que a vida me dá, Você é meu ócio, É meu sacerdócio E meu saravá. Meu mal desejável Querer incurável, Que não cicatriza. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Meu canto crescendo, Meu filho nascendo Do ventre da brisa. Meu “front” de guerra, Meu céu, minha terra Meu pacto, meu grito, Minha alma penada, Na encruzilhada Do espaço infinito... Você é o sossego, E o desapego Que juro e que minto. Meu tédio, meu medo, Notícia e segredo De tudo o que sinto.4 Misto de drama e amor, o coração dispõe tanto as cartas quanto a intenção de não resolução do jogo. Decifrá-lo torna-se impossível, embora se sinta a proximidade de fazê-lo. O paradoxo está posto e consolidado. O enigma sentimental do ser que deseja, em vez de sanar a dúvida, expor seu tormento, retrata um eu desmoronado e reconstruído pela antítese interior. Ao mesmo tempo em que anuncia seu próprio enigma, preserva a integridade mental por reconhecê-lo e fazê-lo objeto de poesia. Você é um ele, um ser amado, um misto de verdade e mentira, o pacto e o grito, o céu e a terra, o mal desejável. A força antitética constrói o ser amado, e sua busca mnemônica se realiza em pensamento em notícia e em segredo. E a procura revela a sensibilidade de quem ama. Se, para o eu-lírico, tal comportamento preserva o consciente, para o leitor, as pistas fornecidas pelos paradoxos e antíteses dispensam nesse momento evidências da voz de um eu latente por trás desse ser criado que expressa seu íntimo. 4 RODRIGUES, Maria José do Carmo-Marijô. Você. In: Respingos: poesia antiga. Belo Horizonte: Cuatiara, 1993, p. 12. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura O confronto entre eu-lírico, enigma e a corporificação desse enigma, aludiria ao confronto entre a criadora e o mundo, mesclando um duplo sentido: a poetisa é uma evocação do próprio fazer poético, cuja construção vai se dando em forma de renovação dos significados. Na poesia afigura-se o novo e o surpreendente através da originalidade na manifestação do “eu” e da sensibilidade poética expressa por ele. O início do sentido processa-se desde as primeiras páginas na fusão de identidades ( grande marca, tanto no valor semântico paralelo das idéias, como no significado que a pessoa evoca na obra). O “eu” intui-se mais pela manifestação das idéias, sentimentos e sensações revelados do que propriamente pela confissão explícita. Esse ser pode se tornar um fingidor, como em “Poema de um cego”, em que a falta de visão valoriza as coisas que passam imperceptíveis no dia-a-dia: Ouvi dizer que há pássaros voando... Que ao fim da tarde, o prado ondula ao vento; Que, nos bancos da praça, há casais se beijando E, o que ouvi dizer, guardei no pensamento. Que há um bebê num carrinho e uma babá cuidando, Que no parque as crianças brincam de cabra-cega; Uma de olhos vendados e as outras gritando: Ei! Você não me pega! Você não me pega!5 Na atmosfera criada, a mente do cego imagina, dentre cenas reais, uma cena em que há um personagem que atua em um papel espelhado em sua própria condição de cegueira: o cabra-cega. A brincadeira relatada envolve o mundo exterior e o interior. O ritmo e a medida dão ao drama a leveza da harmonia melódica, misturando sentimentos e impressões. 5 RODRIGUES, Maria José do Carmo-Marijô. Poema de um cego. In: Respingos: poesia antiga. Belo Horizonte: Cuatiara, 1993, p. 29. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Ou/vi/ di/zer/que há/ pás/sa/ros/ vo/an/do... Que ao/ fim/ da/ tar/de, o/ pra/do on/du/la ao/ vem/to; Que,/ nos/ ban/cos/ da/ pra/ça, há/ ca/sais/ se/ bei/jan/do E, o/ que ou/vi/ di/zer,/ guar/dei/ no/ pen/sa/men/to. O olhar interior seleciona o que ficou guardado. A arte da palavra toca pela naturalidade como os fatos são expostos. É como se chamasse a atenção para além da vida cotidiana. É como se o chamado fosse para que acordemos para o essencial, para as pequenas coisas, que, na verdade são as maiores. E lembrando o ditado que diz ser a simplicidade o mais alto grau de sofisticação, as palavras, ditas tão simplesmente, tocam imensamente mais do que se apelassem para o drama da situação de certas dores ou de vazios, como deve ocorrer a um cego. Elas tocam fundo. Remetem-nos ao interior de nós mesmos e nos fazem achar que, após elas, algo fica diferente. As imagens, normalmente, sendo vistas por alguém com visão perfeita, restariam despercebidas. Assim, a poesia define-se por um olhar dinâmico interior. Pode ainda que o olhar diferenciado se volte a elementos inertes, revelando, por exemplo, a sensível distinção de uma mera pedra, pequenina, ignorada, à margem do caminho. Sem voz, sem presença, sem lugar, a pedra assume conotação hiperbólica: Tão relegada, tão pouco importante Depois de ser tropeço do viajante, Parou sozinha, ao sopé da montanha. É filha dela, a minúscula pedra. Não tem esporos, não influi, não medra, Não manifesta, não requer, não ganha. Tão pequenina, tão pouco evidente, -embora escura- é quase transparente. Descaminhando pelo nada afora, Varrida para a margem do caminho, Envolta em pó, sem rosa e sem espinho, É aí que ela, solitária, mora. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura É só uma pedra e não desabrocha. Apenas se soltou da grande rocha E estacionou na poeirenta estrada. Sem voz, sem movimento, sem queixume, Não tem presença, nem lugar, nem lume... Não vale riso ou pensamento. Nada. Tenho-a comigo- a tal pedra ignara. Guardo-a como se fosse jóia rara Pois me distrai e os pensamentos tristes, Por um momento, ficam esquecidos. Se a paz chegou ao meu peito sofrido, Só foi possível porque ela existe.6 Numa leitura superficial, esses versos em torno de uma pedra poderiam parecer parnasianos, não fosse o substrato que alude à incongruência da pequenez das coisas em face da sua valoração subjetiva circunstancial. Ou seja, a pedra deixa de ser apenas uma pedra para transformar-se em totem do eu-lírico. Interessante notar que a elevação da pedra é apresentada como algo natural e inerente ao mundo interior. E, ainda que os detalhes sejam inseridos de modo a esclarecer o mérito atribuído à pedra, o inexorável destino da pedra aproxima-se em lamento e desvalor daquele ser que a detém e aprecia. As condições espirituais desfavoráveis do coração sofrido encontram guarida numa pedra. Em contrapartida, a relação totêmica anima o inerte objeto e o preenche de um valor pelo espelhamento do ser que o guarda e estima. Assim, as apreciações apologéticas à pedra possivelmente direcionem-se ao modo de ser e de agir de um ego tomado pela tristeza. A relação torna-se recíproca. Para o objeto que se retira do descaminho, a honra. Para o sujeito, a matéria virtuosa do bálsamo. Outra elevação de determinado ser desvalorizado ocorre em “O Nordestino”, aquele que é solo perdido, que é de granito e que aprende a ser sem fome e sem pranto: 6 RODRIGUES, Maria José do Carmo-Marijô. A pedra e eu. In: Respingos: poesia antiga. Belo Horizonte: Cuatiara, 1993, p. 28. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Solo perdido, de feição agreste; Assim é a cara pobre do nordeste, Cuja célula máter É o morador do casebre de palha, Que tem uma indelével cordoalha, No corpo e no caráter. É de granito, o camponês do agreste Confunde-se com o seu duro Nordeste. Sua férrea vontade Não permite o vadiar inconseqüente Dá-lhe sim, o proveito consciente De sua liberdade. Ele é um lutador que não se rende E a luta encarniçada, nele, acende Sentimentos de herói. Não há adversidade que o dome. Aprende, na caatinga, a ser sem fome E a esmola lhe dói. Sim, é um lutador que não se rende E, desde bem pequeno, é que ele aprende Seu ofício de herói. Aprende, com o cerrado, a ser sem pranto E a ver, na tempestade, tais encantos, Que, a nós outros, não dói. Se menino, é adulto, porque sabe Dominar sua sede. Se adulto, é menino, porque cabe Em exíguas paredes.7 7 RODRIGUES, Maria José do Carmo-Marijô. O nordestino. In: Respingos: poesia antiga. Belo Horizonte: Cuatiara, 1993, p. 26. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura A emoção que envolve o poema envolve-se também de um efeito estético de introjeção com relação ao sertanejo, homem sofrido, calejado, porém anestesiado, tamanha é a dor. Tal sensibilidade percebe-se também, como uma consciência de estar propiciando os elementos necessários à busca semântica da humanidade do seu ser, sobre cuja arte lança um olhar próprio. Em outro ponto, a arte da palavra caminha construindo a percepção do paradoxo existente no mundo da própria arte: o caráter sublime da inspiração, representado pelo vôo do artista, e o caráter mundano da retomada à realidade, representada pelo seu pouso: Um dia, Deus condoeu-se do homem, Vendo-o infeliz, a emaranhar-se todo, Nas teias de angústias que o consomem E escorregando no seu próprio lodo. E, então, criou os poetas e os pintores, P’ra aliviar a angústia dos mortais; Para que o homem esquecesse as dores, Pintando telas, compondo madrigais. Mas o artista é como o albatroz: Pode alcançar alturas indizíveis, Pairando acima de qualquer de nós, Em vôos magníficos impossíveis. Porém, é no seu pouso que se vê, Que, ao contrário do vôo apoteótico, Como o albatroz, o artista pode ser Desajeitado, singular, exótico.8 8 RODRIGUES, Maria José do Carmo-Marijô. Albatroz. In: Respingos: poesia antiga. Belo Horizonte: Cuatiara, 1993, p. 41. Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura Interessa que a poesia de Marijô não se perde em beletrismo nem ruptura, mas se encontra em pura poesia. A pessoa, o eu-lírico e a personagem, ora uma, ora outro, caminham, às vezes “quase” se encontrado. Em paralelo, vamos nós leitores, desfrutando e descobrindo... descobrindo..., eternamente, quase chegando. Se fosse possível entender todos os significados do poema, ainda assim seria apenas o começo para apreciar a poesia de Marijô. Mais do que o significado, a forma dinâmica que se movimenta entre o eu e o mundo da poesia dos respingos nos deixa com a sensação de que não é o que dizem, mas também e principalmente como dizem. Resta-nos vê-los como sentidos que tocam porque, mais que significados, foram expressos ao estilo simples de Marijô. Bibliografia RODRIGUES, Maria José do Carmo-Marijô. Respingos: poesia antiga. Belo Horizonte: Cuatiara, 1993.