Fepal - XXIV Congreso Latinoamericano de Psicoanálisis - Montevideo, Uruguay
“Permanencias y cambios en la experiencia psicoanalítica" – Setiembre 2002
Identificação
Projetiva: algumas reflexões
Paschoal Di Ciero Filho*
Sabemos que as pesquisas levam ao progresso da ciência. Elas, além de novas
descobertas, possibilitam reflexões que ampliam e aprofundam as concepções
existentes a respeito do objeto de estudo. Desse modo, além de enriquecer o
conceito original contribuem para a sua validade. Porém, às vêzes, surgem novas
concepções, ditas serem baseadas no conceito original, que pouco tem a ver com
este. Além disso, se afastam muito da obervação do fenômeno que deu origem a
esse conceito original.Essas novas concepções são frutos de reflexões apressadas,
sem uma observação cuidadosa do fenômeno em estudo. Tornam-se modismos e
como tal são superficiais, tendo uma rápida aceitação e popularização. Essa
tendência está acontecendo com o conceito de Identificação Projetiva.
Melanie Klein em seu trabalho"Notas sobre alguns mecanismos
esquizóides"(l946) define o mecanismo de Identificação Projetiva como sendo
característico da posição esquizo-paranóide,tornando-se este um conceito chave e
específico da mesma. Sua validade, tanto teórica quanto clínica é inquestionável
para os kleinianos como comprovam,muitos trabalhos a
respeito:Bion(l959),Rosenfeld(l97l-a),Joseph(l989).
A partir do trabalho de Bion(l959) a Identificação Projetiva que até então era
considerada um mecanismo que expressava uma fantasia, portanto, um fenômeno
intrapsíquico,passou também a ser considerada como um fenômeno interpsíquico
entre o paciente e o analista, e consequentemente um meio de comunicação. O
analista, através de sua continência,poderia captar a angústia e sentimentos que o
paciente colocaria nele, via
Identificação Projetiva. O analista, após uma elaboração, poderia devolver na
forma de interpretação essas angústias e sentimentos de uma forma mais tolerável
para o paciente.Muitos kleinianos passaram a usar o mecanismo de Identificação
Projetiva como um meio de comunicação,mas sempre dentro do referencial
kleiniano, inclusive Bion. A contribuição de Bion, a meu ver,ampliou e enriqueceu o
conceito original de Klein. Como um meio de comunicação, e portanto de
compreensão da mente do paciente , o uso desse mecanismo passou a ser usado
por outros seguidores de outras escolas teóricas. Nesse sentido sofreu adaptações
e distanciou-se do referencial kleiniano,tornando fàcilmente assimilável,banalizado
,perdendo o sentido instigante e profundo que contém no seu contexto original. Nos
Estados Unidos, por exemplo, como aponta Hinshelwood(l992),o conceito foi
retirado do contexto kleiniano e colocado no contexto teórico da Psicologia do Ego.
Dentro deste referencial teórico,conforme esse autor, enfatizou-se o aspecto
interpessoal e negligenciou-se aspectos importantes, tais como, a natureza
fantasiosa do mecanismo, o grau de onipotência das fantasias, seu propósito
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intrapsíquico específico, se a projeção é feita com ódio ou não.Ogden aglomerou
conceitos de diferentes autores e chamou a manifestação clínica dos mesmos de
Identificação Projetiva.A ênfase no aspecto interpessoal do mecanismo tende a
rebaixar a importância da experiência subjetiva do sujeito e de suas fantasias
inconscientes.
*membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.
Críticas e alertas a respeito desse uso indiscriminado tem sido feitas.
Sandler(l993) tenta delimitar o seu uso, afirmando que nem tudo que ocorre entre o
paciente e o analista é via Identifcação Projetiva,mais especìficamente,nem todas
as vivências do analista são colocadas pelo paciente, e nem toda forma de
comunicação entre ambos é através desse mecanismo. Nesse sentido é curioso
que um não kleiniano,Meissner- citado por Hinshelwood(l992)- criticou a própria
Klein quando esta usa o conceito fora do contexto da posição esquizo-paranóide.
Ela diz que a empatia é baseada na Identificação Projetiva,não havendo perda das
fronteiras do ego,como ocorre com o mecanismo dentro de um contexto
psicótico.Meissner pensa que o conceito perde a sua referência precisa se não for
confinada estritamente à experiência psicótica.
Pretendo neste trabalho refletir sobre a Identificação Projetiva em seu
contexto de origem: a posição esquizo-paranóide.Neste sentido parto da descrição
do fenômeno feita por Klein (l946) e nomeada em l952. Considerando a agressão
ela diz que há duas linhas de ataque à mãe em fantasia: uma é a do impulso
predominantemente oral que ela examinará em relação à introjeção;a outra deriva
dos impulsos anais e uretrais e implica a expulsão de substâncias
perigosas(excrementos) do self para dentro da mãe."Junto com os excrementos
nocivos expelidos com ódio, partes excindidas do ego são também projetadas na
mãe, ou como prefiro dizer,para dentro da mãe. Esses excrementos e essas partes
más do self são usados não apenas para danificar mas também para controlar e
tomar posse do objeto. Na medida em que a mãe passa a conter as partes más do
self ela não é sentida como um ser separado, e sim como sendo o self máu. Muito
do ódio contra partes do self é agora dirigido para a mãe. Isso leva a uma forma
particular de identificação que estabelece o protótipo de uma relação objetal
agressiva. Sugiro o termo Identificação Projetiva para esses processos."
Saliento que para Klein a Identificação Projetiva era uma fantasia arcáica,
inconsciente, onipotente, que inclui mecanismos de cisão e estabelece uma
relação agressiva com o objeto.
Klein fala da Identificação Projetiva ora como sendo uma fantasia ora como sendo
um mecanismo de defesa ou processo. Acho útil o esclarecimento que Segal(l966)
faz entre ambos. Diz que os mecanismos de defesa são experienciados pelo sujeito
como fantasias e estas, a nível insconsciente.
Para fundamentar o meu trabalho quero considerar algumas idéias de Klein a
respeito da cisão, desenvolvidas em Notas Sobre Alguns Mecani s mos
Esquizóides.. Refiro-me a cisão como uma defesa contra a ansiedade primária de
ser aniquilado pelo impulso de morte sendo que o self sente esse perigo como vindo
de fora; a divisão de um mesmo objeto entre bom e máu; a impossibilidade de cindir
o objeto sem cindir o ego e o fracasso dessa cisão em cumprir inteiramente o seu
próposito, isto é, o self não obtém alívio porque a ansiedade de ser destruido por
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uma força interna permanece ativa. Ela considera também que o processo de cisão
´pode ser contrabalançado pelo sentimento de um objeto bom interno, responsável
pela integração e coesão.Quando o sentimento de ter um objeto bom interno é
abalado resulta em indiscriminação entre bom e mau.Considerando, como Klein diz,
que a Identificação Projetiva é uma relação objetal agressiva havendo expulsão do
ódio e partes más do self entendo que a projeção das mesmas pode ser vista como
um sinal de que o self sente que esse objeto tornou-se onipotente, apossou-se do
ego,sendo sua única alternativa expulsá-lo para poder sobreviver. A onipotência
não dá lugar para o sentimento de um objeto bom interno, que possibilitaria a
contenção. Urge que esse objeto bom venha de fora- contenção e amor do
objeto,receptáculo dessas projeções. Acrescento que o desespero do self só pode
ser resolvido pela sua capacidade de introjeção e reconhecimento do bom objeto
vindo de fora e identificação com o mesmo.
Na definição do conceito Klein diz que a mãe é alvo da projeção das partes más
do self passando a ser vista como o self máu, não mais como um objeto separado.
Estabelece-se pois uma relação narcísica, como ela mesma irá reconhecer
algumas páginas adiante, como uma característica da Identificação Projetiva. Diz
também que essas partes más do self são usadas também para controlar a mãe,
danificá-la ou tomar posse dela. Isso indica, a meu ver que nesse caso o self está
percebendo um objeto diferente dele, isto é, há alguma disciminação em relação ao
objeto. Senão porque iria o self querer possui-lo ou controlá-lo?Suponho que, essa
contradição é aparente e talvez haja alguma coerência se pensarmos que há uma
alguma discriminação junto à uma indiferenciação em um nível perceptivo Como
nos processos oníricos onde o sonhador X, sonha que é X e ao mesmo tempo é Y.
A indiscriminação talvez esteja a nível afetivo.Neste o self sente que o objeto está
cheio de ódio como ele e controlar esse objeto seria controlar o seu próprio ódio que
empurra para dentro do objeto e evitando que ele se volte contra si. A meu ver,essa
corrente afetiva seria um dos fundamentos que estabelece o caráter narcisísta da
relação. Há um movimento recíroco de projeção e introjeção do ódio, e a meu ver,
nesse campo que se daria a identificação. Minhas conjecturas se aproximam do
pensamento de Petot(l982) que estudando a obra de Klein diz que "as identificações
encontram-se indistintamente num contexto introjetivo ou projetivo. Amiúde
combinam movimentos projetivos e introjetivos, sejam eles sucessivos ou
simultâneos" e "É essa irrupção de partes do self no objeto que fundamenta a
dimensão identificatória do mecanismo, sobre o qual se dirá ser de ordem
confusional."
Sabemos que na relação narcísica a percepção de um objeto diferente pelo ego
pode gerar ódio. Freud, no seu trabalho "Os Instintos e suas Vicissitudes"(l9l5),
supõe que, no início da formação do ego,o mundo externo, os objetos e o que é
odiado são idênticos. As partes do ego sentidas como desagradáveis são por ele
isoladas,sentidas como estranhas. Estas são projetadas no mundo exterior que
passa a ser sentido como hostil e ameaçador. A finalidade do ego é atingir um
estado purificado que coloca as características do prazer acima de todas as outras.
Entendo que Freud está reconhecendo uma cisão do ego seguida de uma
projeção.Em relação ao ódio que o ego sente pelo mundo externo e pelos objetos,
ele diz que este sentimento é mais antigo que o amor. Considera que o ódio provém
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do repúdio primordial do ego narcisista ao mundo externo e a fonte desse ódio é o
desejo de auto-preservação. O objeto não é reconhecido em suas características
próprias, mas depósito para as partes indesejáveis do ego ou um meio de satisfazer
as suas necessidades.A maioria dessas características Klein também atribui à
posição esquizo-paranóide. Para ela, a deflexão é da própria destrutividade que o
ego sente como vinda de dentro consitutindo uma ameaça para sua
auto-preservação. Ela explora e enfatiza mais o sentimento de ódio em sua relação
como os objetos e sua complexa rede de interação - projeção, introjeção e
identificação - como se observa na Identificação Projetiva. Se Freud diz que esses
processos do ego primordial estão a serviço da obtenção de um ego purificado livre
de frustrações e perigos, Klein diz da tentativa do self se identicar com um objeto
ideal, protetor, que o livre das ameaças dos impulsos destrutivos e preserve a sua
vida. A idealização seria a expressão de uma cisão extrema: os aspectos bons do
seio seriam exagerados como proteção à ameaça do seio persecutório que seria
projetado para o exterior. Muitos trabalhos esclarecedores foram desenvolvidos a
partir dos germens narcisismo e auto destrutividade. Rosenfeld(l97l-b) refletiu sobre
os aspectos libidinais e destrutivos do narcismo, detendo-se nos aspectos auto
destrutivos da idealização. Segal(l983) considerou que na obra de Klein está
implícito ter que haver uma relação íntima entre narcisismo e inveja.
Joseph(l987),dentre outros vértices, considerou a Identificação Projetiva como um
meio para se manter um equilíbrio narcísico. Penso que a contribuição de Bion com
a teoria de Continente e Conteúdo veio de encontro às reflexões de Klein a respeito
da falta de coesão do self, seu medo de se despedaçar e necessidade de introjetar
um objeto bom que dê segurança e alívio à perseguição. Bion, considerando a
função de continência do analista,diz que um dos objetivos da análise seria a
introjeção dessa função continente pelo paciente, a fim de poder conter por si
mesmo suas ansiedades. Procuro mostrar no material clínico,a seguir, como a
continência do analista e a introjeção de um objeto bom pelo paciente atenuou o
uso da identificação projetiva, com uma característica fortemente narcísica, e
possibilitou a mudança para um estado de maior diferenciação e serenidade: a
posição depressiva.
Trata-se de um paciente, jovem universitário que procurou a análise durante
uma crise de depressão. Esta se manifestava por grande desânimo,idéias de
suícidio, não econtrando sentido nos valores que acreditava até então e nos
objetivos pelos quais lutara. Praticava esportes de risco- alpinismo, karatê, corrida
de carros- sendo comuns os acidentes decorrentes destes. Porém difìcilmente
reconhecia sua responsabilidade nesses acidentes, e se reconhecia era por pouco
tempo, negando logo em seguida. Era habitual transformar suas derrotas - onde sua
auto-destrutividade era um fator importante- em triunfos. Uma ocasião contou-me,
vangloriando-se, que no fim de semana, durante uma luta, perdera um dente
incisivo, gabando-se de sua iniciativa em ter ido ao dentista sem ter avisado os pais
para não preocupá-los. Acreditava que suas capacidades intelectuais eram maiores
que as reais. Também era habitual que as frustrações que sofria servissem de
estímulo para ataques auto destrutivos. Eram frequentes as alternâcias de estados
de excessiva valorização com estados de desvalia e descrença pessoal. Era muito
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requisitado pelas jovens, mas não tinha um interesse especial por nenhuma. As
pessoas eram vistas como meio para realizar seus desejos e ficava muito indignado
quando se sentia contrariado por elas, como se tivessem obrigação de lhe servirem.
Em relação a mim havia ocasiões em que demonstrava excessiva admiraçãoquase sempre ligada a intenções de conseguir algo de mim- e outras ocasiões
demonstrava uma grande indiferença. Esperava resoluções mágicas e rápidas,
reclamando por se ver frustrado nessa expectativa. Quando eu mostrava alguma
coisa real e benéfica que havíamos conseguido na análise não reconhecia isso
como resultado de nossos esforços. Numa dessas ocasiões disse com
indiferença:"Não vejo como a análise pode ter me ajudado. Se eu melhorei nesse
ponto era porque tinha que melhorar. O tempo se encarregou de resolver o
problema."
A sessão que relatarei é a terceira de uma semana em que ele estava muito
deprimido por não ter sido aprovado na seleção de um emprego que almejava. Nas
sessões anteriores aos exames de seleção falara bastante destes, com muito
entusiasmo acreditando que sua vitória era certa.Nesta sessão ele rememorava a
sua reprovação, alternando queixas sofridas com expressões de arrogância .
Falava com irritação , dizendo ter sofrido uma injustiça. Estava revoltado dizendo
que a reprovação não poderia ter acontecido com ele. Em seguida desanimava,
dizendo que não valia mais a pena viver, sentindo-se um incapaz, prevendo para si
um futuro de fracassos. Apesar de me parecer claro o seu narcisimo ferido eu
achava que interpretar nessa linha não iria ser bem recebido por ele. Eu estava
preocupado naquele momento com o grande potencial agressivo do paciente e de
como me dirigir a ele para evitar um incremento desnecessário de agressão. Por
outro lado me sensibilizava com a grande dor que ele manifestava. Com muito tacto
comecei a falar algo da mágoa que ele sentia, visando mais, por intermédio da
minha fala, que ele pudesse sentir minha presença, meu interesse por ele e isso
pudesse talvez trazer-lhe conforto.Ele me interrompeu logo de início dizendo
agressivamente em voz alta:
Pare com isso!
Eu o atendi, impactado pela agressão. Em seguida ele falou gaguejando,
tentando, com dificuldade, controlar a sua agressividade:
- Não fale nada. Tudo o que você fala são como facas que me penetram. É
verdade. Sinto facas entrando em mim.
O clima emocional intenso não dava lugar para as palavras. No silêncio eu
alternava entre o sentimento de permanecer afastado, conforme o desejo do
paciente, e o meu desejo de me aproximar. Via-o muito solitário, fechado em si
mesmo. Quando percebi que nossa relação estava ficando cada vez mais
desvitalizada tentei novamente:
- Quando você se mostra sofrido, com muita dor por não conseguir o que
queria, quer minha ajuda, mas quando me percebe perto de você acredita que sou
perigoso e posso machucá-lo ainda mais. Então se irrita, se fecha e me quer longe
de você.
Ele emite um som de assentimento e diz de forma serena e mais próximo de
mim:
Lembra o meu cachorro. Outro dia ele estava ganindo de dor. Tinha a orelha
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machucada, cheia de vermes. Dava pena. Fui cuidar. Ele ficou bravo e quiz me
morder.
Penso que está claro no material o uso que o paciente faz do mecanismo de
identificação projetiva: a projeção de sua agressividade e partes de seu self máu para dentro de mim,passando a me ver dessa forma e temendo-me. Essa figura
cruel projetada em mim tem características de um superego sádico,possìvelmente
decorrente do fracasso em se identificar com uma imagem idealizada de si mesmo,
narcísica, onde não há limitações nem frustrações. Na medida em que passo a ser
esse superego agressivo tenta me controlar, querendo me calar e deixar distante
dele. Devido ao fracasso na identificação com um objeto idealizado -que ao ver do
paciente se daria quando conseguisse a colocação profissional - a única alternativa
que conhece é um auto-arrasamento total, e no dizer dele, não mais valendo a pena
viver. Entrega-se a pulsão de morte,identificando-se com os objetos destrutivos.
Estes, tornando-se intoleráveis são cindidos e projetados em mim, tentando se
aliviar da ameaça de morte. Outra tentativa fracassada,porque agora passa a
sentir-se ameaçado pelo perigo que acredita que vem de mim- as facas.Há nesse
movimento um caráter de concretude física que imprime às minhas palavras,
esvaziando o sentido original delas de simpatia e ajuda. Ele as transforma em facas
que lhe penetram. O uso da identificação projetiva,suponho, é um meio para se
tentar alcançar novamente uma posição idealizada. Como ja disse, a idealização é
o resultado de uma cisão extrema, que o self usa como defesa contra a própria
destrutividade. Livre desta, em sua maneira de sentir, ele estaria livre dos perigos,
das frustrações, garantindo a sua imortalidade,como Freud nos mostra em seu
estudo sobre o narcisismo(l9l4). Esta posição narcísica o paciente já vinha tentando
anteriormente quando arrogantemente não admitia que tivesse falhas e estivesse
sujeito às reprovações.
As defesas esquizo-paranóides se estruturam par o self lidar com os impulso
destrutivos pelos quais se sente ameaçado, temendo por eles ser aniquilado. A
idealização é uma das formas de se proteger desta ameaça, como mostra
Klein(l946), e quanto mais intenso estes impulsos maior a cisão do ego para
afastá-los e atingir um estado onde se sente seguro. Penso que a identificação
projetiva, com seus processos de cisão e projeção, além de ser um meio para a
idealização está ìntimamente ligada, em sua origem, a esta defesa.
Para terminar meus comentário do material clínico farei algumas
considerações sobre a técnica que usei.Apesar de estar claro o uso que o paciente
faz da identificação projetiva eu interpretar o que observava à nível verbal, dizendo
algo como"Você colocou seus aspectos máus dentro de mim, passando a ver-me
como perigoso e tenta me por longe de vocêr" pareceu-me que só iria agravar seus
sentimentos persecutórios e seu sofrimento, e êle, provávelmente, continuaria a
sentir minhas palavras como facas. Nossa única alternativa era o silêncio. Relatei
que durante este eu alternava entre o meu desejo de aproximar e me manter
afastado, conforme queria o paciente. Relatei essa nossa experiência emocional e
o clima turbulento e pesado da sessão transformou-se em mais ameno e límpido, e
o paciente de forma serena expressou-se, lembrando do cachorro. A sua
identificação com este foi a maneira de conscientizar-se do que fizera na sessão,
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isto é, a sua maneira de compreender por ele mesmo o uso que fizera do
mecanismo de identificação projetiva. Penso que de alguma forma à minha
interpretação funcionou para ele como a introjeção de um objeto bom que
possibilitou o alívo da perseguição. Finalmente ,constato que a introjeção de um
objeto bom teve um papel importante na ruptura do vínculo narcísico que o paciente
estabelecia comigo enquanto fazia uso da identificação projetiva.
Conclusão
Reflito neste trabalho sobre o mecanismo de Identificação Projetiva, em seu
contexto de origem, a posição esquizo-paranóide. Procuro explicitar o que me
parece implícito nesse fenômeno psíquico, e as idéias que desenvolvo são
decorrências do pensamento de Klein. Parti do princípio que esta é uma relação
objetal agressiva. Nesse sentido a destrutividade e as defesas contra ela foram
muito consideradas. Detive-me mais nos mecanismos de cisão, mais
especìficamente, a idealização e as relações desta com a Identificação
Projetiva.Quero enfatizar que essas defesas são a favor da preservação do ego que
sente-se ameaçado pela destrutividade,Observo que há uma visão frequente que
enfatiza mais os aspectos destrutivos da posição esquizo-paranóide que seus
aspectos de preservação. A fonte das defesas esquizóides é o desejo de
preservação do ego .Ele se defende das ameaças e tenta preservar a sua vida
mental através das cisões, a sua possibilidade de defesa em estágios mais
primitivos. .
Aproximo o conceito kleiniano de idealização às considerações feitas por
Freud a respeito do narcismo em seu trabalho de l9l5. Neste ele se refere a um ego
primitivo que usa o objeto como depósito daquilo que sente que lhe é indesejável.
Antes deste ser projetado, o ego isola e sente como não sendo sua essa parte
indesejável. Entendo que Freud está considerando uma cisão do ego e
consequente projeção. Essa cisão e projeção também faz parte do mecanismo de
Identificação Projetiva. Para Freud a expulsão do que é indesejável tem por
finalidade a obtenção de um estado de purificação do ego.São essas as suas
concepções a respeito do narcismo nessa obra e completam suas reflexões feitas
no trabalho de l9l4,Neste concebe o ego ideal como uma expressão do narcisismo.
Em seu trabalho de l9l5 diz também do ódio que o ego sente pelo mundo externo e
pelos objetos, considerando que a fonte deste último é seu desejo de
auto-preservação -tudo o que é estranho ao ego é sentido como ameaçador.Como
já considerei, para Klein, a tentativa de o self se identificar com um objeto idealizado
é para preservar a vida que sente ameaçada pelos impulso destrutivos.
Apesar de Klein reconhecer que na Identificação Projetiva há uma relação
narcísica do self com o objeto, pouco tratou do narcisismo, pois, ao
contrário de Freud, ela achava que desde o início havia uma relação de objeto.
Mesmo com essas discordâncias acredito que ela, com sua ênfase na pulsão de
morte voltada paa o ego, contribuiu para complementar e dar mais sentido à própria
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teoria de Freud a respeito do narcisismo. Isto é, neste estado, não é só a líbido
voltada para o ego, mas também a pulsão de morte. Penso que a pulsão de morte
voltada para o ego pode ser inferida em Freud em seu trabalho "Luto e Melancolia",
quando considera os ataque que o ego, identificado com o objeto perdido, dirige a si
mesmo. Seguidores de Klein (Rosenfeld,l97l-b) explicitou mais as relações entre
narcisismo e destrutividade.
O conceito de Identificação Projetiva,a meu ver, condensa quase todo o
pensamento kleiniano a respeito da posição esquizo-paranóide, sendo um retrato
da mesma. Retrata também a visão kleiniana do psiquismo humano: um mundo
interno de objetos vivos onde, como sintetiza Baranger(l98l), o self vive relações
intensas, intercambiáveis, onipotentes, com um caráter fluido em contínua variação
de posições e sentidos.
Se as reflexões me aprofundaram no conhecimento da Identificação
Projetiva, fortalecendo minha crença na validade do conceito, por outro lado
continua causando a mesma estranheza e inquietação. Refletir sobre êle leva-me a
pensamentos contraditórios, em parte devido a necessidade de mais reflexões , em
parte devido a complexidade do fenômeno que o conceito espelha. Em nota de
rodapé, na página onde Klein(l946) define o fenômeno da Identificação Projetiva ela
diz que a descrição dos processos contidos nele sofre uma grande desvantagem,
pois essas fantasias surgem numa época em que o bebê ainda não começou a
pensar com palavras. Há referências (Grosskurth,l992) de que ela própria achava
inadequado o nome que deu ao fenômeno. A meu ver, ela se dava conta da
defasagem entre o fenômeno observado e a conceituação dele. Penso que , apesar
de toda a profundidade e complexidde contida em sua definição esta não abarca
toda a profundidade e complexidade do fenômeno psíquico por ela descoberto.
Essa defasagem entre conceito e fenômeno psíquico ocorre também no conceito de
narcisismo de Freud. Nesse sentido, o espanto que o conceito de Identificação
Projetiva pode nos causar, a ambiguidade, não é motivo para rejeitá-lo ou
acomodá-lo a formas mais facilmente assimiláveis. Espanto e ambigüidade são
sentimentos próprios a aspectos ainda desconhecidos de um fenômeno. Penso que
os aspectos desconhecidos da Identificação Projetiva podem vir a ser conhecidos
se pudermos observar e refletir, à luz do pensamento kleiniano, sobre o fenômeno
psíquico que o termo retrata e não sobre o conceito em si mesmo.
Sumário
Reflito neste trabalho sobre o mecanismo de Identificação Projetiva em seu
contexto de origem: a posição esquizo-paranóide. São reflexões que procuram
explicitar o que penso estar implícito no pensamento kleiniano e as idéias que
desenvolvo são decorrências desse. Detenho-me nas defesas de cisão e no uso
que o ego faz da Identificação Projetiva como um meio para atingir um estado de
idealização. Aproximo a idealização às considerações que Freud fez a respeito do
narcisismo em "Os intintos e suas vicissitudes",onde penso que ele falava de uma
cisão do ego que antecede a projeção, a fim de se atingir um estado de purificação.
Pondero que a idéia de Klein de uma pulsão destrutiva voltada para o ego contribuiu
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para dar mais sentido à teoria do narcismo de Freud. Termino reconhecendo a
validade do conceito de Identificação Projetiva,como o definiu Klein,mas que este
não abarca em sí toda a complexidade do fenômeno psíquico.
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_______ (l97l-b) - Uma abordagem clínica para a teoria psicanalítica das
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Sandler,J.(l993) -
Acerca de la comunicación del paciente al analista:no
todo es identificación projetiva.In: Libro Anual de
Psicoanálisis.Tomo IX.l993,pp. l7l-l8l.
Segal,H.(l966) -
Introdução à obra de Melanie Klein.São
Paulo.Companhia Editora Nacional.
_______(l983) - Some clinical implications of Melanie Klein
work.In:Int.J.Pschyco-Anal.,6:269-276.
Paschoal Di Ciero Filho
e-mail: [email protected]
Rua Caçapava,49 - cj.22
0l408-0l0 - São Paulo - SP
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