Fepal - XXIV Congreso Latinoamericano de Psicoanálisis - Montevideo, Uruguay “Permanencias y cambios en la experiencia psicoanalítica" – Setiembre 2002 Identificação Projetiva: algumas reflexões Paschoal Di Ciero Filho* Sabemos que as pesquisas levam ao progresso da ciência. Elas, além de novas descobertas, possibilitam reflexões que ampliam e aprofundam as concepções existentes a respeito do objeto de estudo. Desse modo, além de enriquecer o conceito original contribuem para a sua validade. Porém, às vêzes, surgem novas concepções, ditas serem baseadas no conceito original, que pouco tem a ver com este. Além disso, se afastam muito da obervação do fenômeno que deu origem a esse conceito original.Essas novas concepções são frutos de reflexões apressadas, sem uma observação cuidadosa do fenômeno em estudo. Tornam-se modismos e como tal são superficiais, tendo uma rápida aceitação e popularização. Essa tendência está acontecendo com o conceito de Identificação Projetiva. Melanie Klein em seu trabalho"Notas sobre alguns mecanismos esquizóides"(l946) define o mecanismo de Identificação Projetiva como sendo característico da posição esquizo-paranóide,tornando-se este um conceito chave e específico da mesma. Sua validade, tanto teórica quanto clínica é inquestionável para os kleinianos como comprovam,muitos trabalhos a respeito:Bion(l959),Rosenfeld(l97l-a),Joseph(l989). A partir do trabalho de Bion(l959) a Identificação Projetiva que até então era considerada um mecanismo que expressava uma fantasia, portanto, um fenômeno intrapsíquico,passou também a ser considerada como um fenômeno interpsíquico entre o paciente e o analista, e consequentemente um meio de comunicação. O analista, através de sua continência,poderia captar a angústia e sentimentos que o paciente colocaria nele, via Identificação Projetiva. O analista, após uma elaboração, poderia devolver na forma de interpretação essas angústias e sentimentos de uma forma mais tolerável para o paciente.Muitos kleinianos passaram a usar o mecanismo de Identificação Projetiva como um meio de comunicação,mas sempre dentro do referencial kleiniano, inclusive Bion. A contribuição de Bion, a meu ver,ampliou e enriqueceu o conceito original de Klein. Como um meio de comunicação, e portanto de compreensão da mente do paciente , o uso desse mecanismo passou a ser usado por outros seguidores de outras escolas teóricas. Nesse sentido sofreu adaptações e distanciou-se do referencial kleiniano,tornando fàcilmente assimilável,banalizado ,perdendo o sentido instigante e profundo que contém no seu contexto original. Nos Estados Unidos, por exemplo, como aponta Hinshelwood(l992),o conceito foi retirado do contexto kleiniano e colocado no contexto teórico da Psicologia do Ego. Dentro deste referencial teórico,conforme esse autor, enfatizou-se o aspecto interpessoal e negligenciou-se aspectos importantes, tais como, a natureza fantasiosa do mecanismo, o grau de onipotência das fantasias, seu propósito Fepal - XXIV Congreso Latinoamericano de Psicoanálisis - Montevideo, Uruguay “Permanencias y cambios en la experiencia psicoanalítica" – Setiembre 2002 intrapsíquico específico, se a projeção é feita com ódio ou não.Ogden aglomerou conceitos de diferentes autores e chamou a manifestação clínica dos mesmos de Identificação Projetiva.A ênfase no aspecto interpessoal do mecanismo tende a rebaixar a importância da experiência subjetiva do sujeito e de suas fantasias inconscientes. *membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Críticas e alertas a respeito desse uso indiscriminado tem sido feitas. Sandler(l993) tenta delimitar o seu uso, afirmando que nem tudo que ocorre entre o paciente e o analista é via Identifcação Projetiva,mais especìficamente,nem todas as vivências do analista são colocadas pelo paciente, e nem toda forma de comunicação entre ambos é através desse mecanismo. Nesse sentido é curioso que um não kleiniano,Meissner- citado por Hinshelwood(l992)- criticou a própria Klein quando esta usa o conceito fora do contexto da posição esquizo-paranóide. Ela diz que a empatia é baseada na Identificação Projetiva,não havendo perda das fronteiras do ego,como ocorre com o mecanismo dentro de um contexto psicótico.Meissner pensa que o conceito perde a sua referência precisa se não for confinada estritamente à experiência psicótica. Pretendo neste trabalho refletir sobre a Identificação Projetiva em seu contexto de origem: a posição esquizo-paranóide.Neste sentido parto da descrição do fenômeno feita por Klein (l946) e nomeada em l952. Considerando a agressão ela diz que há duas linhas de ataque à mãe em fantasia: uma é a do impulso predominantemente oral que ela examinará em relação à introjeção;a outra deriva dos impulsos anais e uretrais e implica a expulsão de substâncias perigosas(excrementos) do self para dentro da mãe."Junto com os excrementos nocivos expelidos com ódio, partes excindidas do ego são também projetadas na mãe, ou como prefiro dizer,para dentro da mãe. Esses excrementos e essas partes más do self são usados não apenas para danificar mas também para controlar e tomar posse do objeto. Na medida em que a mãe passa a conter as partes más do self ela não é sentida como um ser separado, e sim como sendo o self máu. Muito do ódio contra partes do self é agora dirigido para a mãe. Isso leva a uma forma particular de identificação que estabelece o protótipo de uma relação objetal agressiva. Sugiro o termo Identificação Projetiva para esses processos." Saliento que para Klein a Identificação Projetiva era uma fantasia arcáica, inconsciente, onipotente, que inclui mecanismos de cisão e estabelece uma relação agressiva com o objeto. Klein fala da Identificação Projetiva ora como sendo uma fantasia ora como sendo um mecanismo de defesa ou processo. Acho útil o esclarecimento que Segal(l966) faz entre ambos. Diz que os mecanismos de defesa são experienciados pelo sujeito como fantasias e estas, a nível insconsciente. Para fundamentar o meu trabalho quero considerar algumas idéias de Klein a respeito da cisão, desenvolvidas em Notas Sobre Alguns Mecani s mos Esquizóides.. Refiro-me a cisão como uma defesa contra a ansiedade primária de ser aniquilado pelo impulso de morte sendo que o self sente esse perigo como vindo de fora; a divisão de um mesmo objeto entre bom e máu; a impossibilidade de cindir o objeto sem cindir o ego e o fracasso dessa cisão em cumprir inteiramente o seu próposito, isto é, o self não obtém alívio porque a ansiedade de ser destruido por Fepal - XXIV Congreso Latinoamericano de Psicoanálisis - Montevideo, Uruguay “Permanencias y cambios en la experiencia psicoanalítica" – Setiembre 2002 uma força interna permanece ativa. Ela considera também que o processo de cisão ´pode ser contrabalançado pelo sentimento de um objeto bom interno, responsável pela integração e coesão.Quando o sentimento de ter um objeto bom interno é abalado resulta em indiscriminação entre bom e mau.Considerando, como Klein diz, que a Identificação Projetiva é uma relação objetal agressiva havendo expulsão do ódio e partes más do self entendo que a projeção das mesmas pode ser vista como um sinal de que o self sente que esse objeto tornou-se onipotente, apossou-se do ego,sendo sua única alternativa expulsá-lo para poder sobreviver. A onipotência não dá lugar para o sentimento de um objeto bom interno, que possibilitaria a contenção. Urge que esse objeto bom venha de fora- contenção e amor do objeto,receptáculo dessas projeções. Acrescento que o desespero do self só pode ser resolvido pela sua capacidade de introjeção e reconhecimento do bom objeto vindo de fora e identificação com o mesmo. Na definição do conceito Klein diz que a mãe é alvo da projeção das partes más do self passando a ser vista como o self máu, não mais como um objeto separado. Estabelece-se pois uma relação narcísica, como ela mesma irá reconhecer algumas páginas adiante, como uma característica da Identificação Projetiva. Diz também que essas partes más do self são usadas também para controlar a mãe, danificá-la ou tomar posse dela. Isso indica, a meu ver que nesse caso o self está percebendo um objeto diferente dele, isto é, há alguma disciminação em relação ao objeto. Senão porque iria o self querer possui-lo ou controlá-lo?Suponho que, essa contradição é aparente e talvez haja alguma coerência se pensarmos que há uma alguma discriminação junto à uma indiferenciação em um nível perceptivo Como nos processos oníricos onde o sonhador X, sonha que é X e ao mesmo tempo é Y. A indiscriminação talvez esteja a nível afetivo.Neste o self sente que o objeto está cheio de ódio como ele e controlar esse objeto seria controlar o seu próprio ódio que empurra para dentro do objeto e evitando que ele se volte contra si. A meu ver,essa corrente afetiva seria um dos fundamentos que estabelece o caráter narcisísta da relação. Há um movimento recíroco de projeção e introjeção do ódio, e a meu ver, nesse campo que se daria a identificação. Minhas conjecturas se aproximam do pensamento de Petot(l982) que estudando a obra de Klein diz que "as identificações encontram-se indistintamente num contexto introjetivo ou projetivo. Amiúde combinam movimentos projetivos e introjetivos, sejam eles sucessivos ou simultâneos" e "É essa irrupção de partes do self no objeto que fundamenta a dimensão identificatória do mecanismo, sobre o qual se dirá ser de ordem confusional." Sabemos que na relação narcísica a percepção de um objeto diferente pelo ego pode gerar ódio. Freud, no seu trabalho "Os Instintos e suas Vicissitudes"(l9l5), supõe que, no início da formação do ego,o mundo externo, os objetos e o que é odiado são idênticos. As partes do ego sentidas como desagradáveis são por ele isoladas,sentidas como estranhas. Estas são projetadas no mundo exterior que passa a ser sentido como hostil e ameaçador. A finalidade do ego é atingir um estado purificado que coloca as características do prazer acima de todas as outras. Entendo que Freud está reconhecendo uma cisão do ego seguida de uma projeção.Em relação ao ódio que o ego sente pelo mundo externo e pelos objetos, ele diz que este sentimento é mais antigo que o amor. Considera que o ódio provém Fepal - XXIV Congreso Latinoamericano de Psicoanálisis - Montevideo, Uruguay “Permanencias y cambios en la experiencia psicoanalítica" – Setiembre 2002 do repúdio primordial do ego narcisista ao mundo externo e a fonte desse ódio é o desejo de auto-preservação. O objeto não é reconhecido em suas características próprias, mas depósito para as partes indesejáveis do ego ou um meio de satisfazer as suas necessidades.A maioria dessas características Klein também atribui à posição esquizo-paranóide. Para ela, a deflexão é da própria destrutividade que o ego sente como vinda de dentro consitutindo uma ameaça para sua auto-preservação. Ela explora e enfatiza mais o sentimento de ódio em sua relação como os objetos e sua complexa rede de interação - projeção, introjeção e identificação - como se observa na Identificação Projetiva. Se Freud diz que esses processos do ego primordial estão a serviço da obtenção de um ego purificado livre de frustrações e perigos, Klein diz da tentativa do self se identicar com um objeto ideal, protetor, que o livre das ameaças dos impulsos destrutivos e preserve a sua vida. A idealização seria a expressão de uma cisão extrema: os aspectos bons do seio seriam exagerados como proteção à ameaça do seio persecutório que seria projetado para o exterior. Muitos trabalhos esclarecedores foram desenvolvidos a partir dos germens narcisismo e auto destrutividade. Rosenfeld(l97l-b) refletiu sobre os aspectos libidinais e destrutivos do narcismo, detendo-se nos aspectos auto destrutivos da idealização. Segal(l983) considerou que na obra de Klein está implícito ter que haver uma relação íntima entre narcisismo e inveja. Joseph(l987),dentre outros vértices, considerou a Identificação Projetiva como um meio para se manter um equilíbrio narcísico. Penso que a contribuição de Bion com a teoria de Continente e Conteúdo veio de encontro às reflexões de Klein a respeito da falta de coesão do self, seu medo de se despedaçar e necessidade de introjetar um objeto bom que dê segurança e alívio à perseguição. Bion, considerando a função de continência do analista,diz que um dos objetivos da análise seria a introjeção dessa função continente pelo paciente, a fim de poder conter por si mesmo suas ansiedades. Procuro mostrar no material clínico,a seguir, como a continência do analista e a introjeção de um objeto bom pelo paciente atenuou o uso da identificação projetiva, com uma característica fortemente narcísica, e possibilitou a mudança para um estado de maior diferenciação e serenidade: a posição depressiva. Trata-se de um paciente, jovem universitário que procurou a análise durante uma crise de depressão. Esta se manifestava por grande desânimo,idéias de suícidio, não econtrando sentido nos valores que acreditava até então e nos objetivos pelos quais lutara. Praticava esportes de risco- alpinismo, karatê, corrida de carros- sendo comuns os acidentes decorrentes destes. Porém difìcilmente reconhecia sua responsabilidade nesses acidentes, e se reconhecia era por pouco tempo, negando logo em seguida. Era habitual transformar suas derrotas - onde sua auto-destrutividade era um fator importante- em triunfos. Uma ocasião contou-me, vangloriando-se, que no fim de semana, durante uma luta, perdera um dente incisivo, gabando-se de sua iniciativa em ter ido ao dentista sem ter avisado os pais para não preocupá-los. Acreditava que suas capacidades intelectuais eram maiores que as reais. Também era habitual que as frustrações que sofria servissem de estímulo para ataques auto destrutivos. Eram frequentes as alternâcias de estados de excessiva valorização com estados de desvalia e descrença pessoal. Era muito Fepal - XXIV Congreso Latinoamericano de Psicoanálisis - Montevideo, Uruguay “Permanencias y cambios en la experiencia psicoanalítica" – Setiembre 2002 requisitado pelas jovens, mas não tinha um interesse especial por nenhuma. As pessoas eram vistas como meio para realizar seus desejos e ficava muito indignado quando se sentia contrariado por elas, como se tivessem obrigação de lhe servirem. Em relação a mim havia ocasiões em que demonstrava excessiva admiraçãoquase sempre ligada a intenções de conseguir algo de mim- e outras ocasiões demonstrava uma grande indiferença. Esperava resoluções mágicas e rápidas, reclamando por se ver frustrado nessa expectativa. Quando eu mostrava alguma coisa real e benéfica que havíamos conseguido na análise não reconhecia isso como resultado de nossos esforços. Numa dessas ocasiões disse com indiferença:"Não vejo como a análise pode ter me ajudado. Se eu melhorei nesse ponto era porque tinha que melhorar. O tempo se encarregou de resolver o problema." A sessão que relatarei é a terceira de uma semana em que ele estava muito deprimido por não ter sido aprovado na seleção de um emprego que almejava. Nas sessões anteriores aos exames de seleção falara bastante destes, com muito entusiasmo acreditando que sua vitória era certa.Nesta sessão ele rememorava a sua reprovação, alternando queixas sofridas com expressões de arrogância . Falava com irritação , dizendo ter sofrido uma injustiça. Estava revoltado dizendo que a reprovação não poderia ter acontecido com ele. Em seguida desanimava, dizendo que não valia mais a pena viver, sentindo-se um incapaz, prevendo para si um futuro de fracassos. Apesar de me parecer claro o seu narcisimo ferido eu achava que interpretar nessa linha não iria ser bem recebido por ele. Eu estava preocupado naquele momento com o grande potencial agressivo do paciente e de como me dirigir a ele para evitar um incremento desnecessário de agressão. Por outro lado me sensibilizava com a grande dor que ele manifestava. Com muito tacto comecei a falar algo da mágoa que ele sentia, visando mais, por intermédio da minha fala, que ele pudesse sentir minha presença, meu interesse por ele e isso pudesse talvez trazer-lhe conforto.Ele me interrompeu logo de início dizendo agressivamente em voz alta: Pare com isso! Eu o atendi, impactado pela agressão. Em seguida ele falou gaguejando, tentando, com dificuldade, controlar a sua agressividade: - Não fale nada. Tudo o que você fala são como facas que me penetram. É verdade. Sinto facas entrando em mim. O clima emocional intenso não dava lugar para as palavras. No silêncio eu alternava entre o sentimento de permanecer afastado, conforme o desejo do paciente, e o meu desejo de me aproximar. Via-o muito solitário, fechado em si mesmo. Quando percebi que nossa relação estava ficando cada vez mais desvitalizada tentei novamente: - Quando você se mostra sofrido, com muita dor por não conseguir o que queria, quer minha ajuda, mas quando me percebe perto de você acredita que sou perigoso e posso machucá-lo ainda mais. Então se irrita, se fecha e me quer longe de você. Ele emite um som de assentimento e diz de forma serena e mais próximo de mim: Lembra o meu cachorro. Outro dia ele estava ganindo de dor. Tinha a orelha Fepal - XXIV Congreso Latinoamericano de Psicoanálisis - Montevideo, Uruguay “Permanencias y cambios en la experiencia psicoanalítica" – Setiembre 2002 machucada, cheia de vermes. Dava pena. Fui cuidar. Ele ficou bravo e quiz me morder. Penso que está claro no material o uso que o paciente faz do mecanismo de identificação projetiva: a projeção de sua agressividade e partes de seu self máu para dentro de mim,passando a me ver dessa forma e temendo-me. Essa figura cruel projetada em mim tem características de um superego sádico,possìvelmente decorrente do fracasso em se identificar com uma imagem idealizada de si mesmo, narcísica, onde não há limitações nem frustrações. Na medida em que passo a ser esse superego agressivo tenta me controlar, querendo me calar e deixar distante dele. Devido ao fracasso na identificação com um objeto idealizado -que ao ver do paciente se daria quando conseguisse a colocação profissional - a única alternativa que conhece é um auto-arrasamento total, e no dizer dele, não mais valendo a pena viver. Entrega-se a pulsão de morte,identificando-se com os objetos destrutivos. Estes, tornando-se intoleráveis são cindidos e projetados em mim, tentando se aliviar da ameaça de morte. Outra tentativa fracassada,porque agora passa a sentir-se ameaçado pelo perigo que acredita que vem de mim- as facas.Há nesse movimento um caráter de concretude física que imprime às minhas palavras, esvaziando o sentido original delas de simpatia e ajuda. Ele as transforma em facas que lhe penetram. O uso da identificação projetiva,suponho, é um meio para se tentar alcançar novamente uma posição idealizada. Como ja disse, a idealização é o resultado de uma cisão extrema, que o self usa como defesa contra a própria destrutividade. Livre desta, em sua maneira de sentir, ele estaria livre dos perigos, das frustrações, garantindo a sua imortalidade,como Freud nos mostra em seu estudo sobre o narcisismo(l9l4). Esta posição narcísica o paciente já vinha tentando anteriormente quando arrogantemente não admitia que tivesse falhas e estivesse sujeito às reprovações. As defesas esquizo-paranóides se estruturam par o self lidar com os impulso destrutivos pelos quais se sente ameaçado, temendo por eles ser aniquilado. A idealização é uma das formas de se proteger desta ameaça, como mostra Klein(l946), e quanto mais intenso estes impulsos maior a cisão do ego para afastá-los e atingir um estado onde se sente seguro. Penso que a identificação projetiva, com seus processos de cisão e projeção, além de ser um meio para a idealização está ìntimamente ligada, em sua origem, a esta defesa. Para terminar meus comentário do material clínico farei algumas considerações sobre a técnica que usei.Apesar de estar claro o uso que o paciente faz da identificação projetiva eu interpretar o que observava à nível verbal, dizendo algo como"Você colocou seus aspectos máus dentro de mim, passando a ver-me como perigoso e tenta me por longe de vocêr" pareceu-me que só iria agravar seus sentimentos persecutórios e seu sofrimento, e êle, provávelmente, continuaria a sentir minhas palavras como facas. Nossa única alternativa era o silêncio. Relatei que durante este eu alternava entre o meu desejo de aproximar e me manter afastado, conforme queria o paciente. Relatei essa nossa experiência emocional e o clima turbulento e pesado da sessão transformou-se em mais ameno e límpido, e o paciente de forma serena expressou-se, lembrando do cachorro. A sua identificação com este foi a maneira de conscientizar-se do que fizera na sessão, Fepal - XXIV Congreso Latinoamericano de Psicoanálisis - Montevideo, Uruguay “Permanencias y cambios en la experiencia psicoanalítica" – Setiembre 2002 isto é, a sua maneira de compreender por ele mesmo o uso que fizera do mecanismo de identificação projetiva. Penso que de alguma forma à minha interpretação funcionou para ele como a introjeção de um objeto bom que possibilitou o alívo da perseguição. Finalmente ,constato que a introjeção de um objeto bom teve um papel importante na ruptura do vínculo narcísico que o paciente estabelecia comigo enquanto fazia uso da identificação projetiva. Conclusão Reflito neste trabalho sobre o mecanismo de Identificação Projetiva, em seu contexto de origem, a posição esquizo-paranóide. Procuro explicitar o que me parece implícito nesse fenômeno psíquico, e as idéias que desenvolvo são decorrências do pensamento de Klein. Parti do princípio que esta é uma relação objetal agressiva. Nesse sentido a destrutividade e as defesas contra ela foram muito consideradas. Detive-me mais nos mecanismos de cisão, mais especìficamente, a idealização e as relações desta com a Identificação Projetiva.Quero enfatizar que essas defesas são a favor da preservação do ego que sente-se ameaçado pela destrutividade,Observo que há uma visão frequente que enfatiza mais os aspectos destrutivos da posição esquizo-paranóide que seus aspectos de preservação. A fonte das defesas esquizóides é o desejo de preservação do ego .Ele se defende das ameaças e tenta preservar a sua vida mental através das cisões, a sua possibilidade de defesa em estágios mais primitivos. . Aproximo o conceito kleiniano de idealização às considerações feitas por Freud a respeito do narcismo em seu trabalho de l9l5. Neste ele se refere a um ego primitivo que usa o objeto como depósito daquilo que sente que lhe é indesejável. Antes deste ser projetado, o ego isola e sente como não sendo sua essa parte indesejável. Entendo que Freud está considerando uma cisão do ego e consequente projeção. Essa cisão e projeção também faz parte do mecanismo de Identificação Projetiva. Para Freud a expulsão do que é indesejável tem por finalidade a obtenção de um estado de purificação do ego.São essas as suas concepções a respeito do narcismo nessa obra e completam suas reflexões feitas no trabalho de l9l4,Neste concebe o ego ideal como uma expressão do narcisismo. Em seu trabalho de l9l5 diz também do ódio que o ego sente pelo mundo externo e pelos objetos, considerando que a fonte deste último é seu desejo de auto-preservação -tudo o que é estranho ao ego é sentido como ameaçador.Como já considerei, para Klein, a tentativa de o self se identificar com um objeto idealizado é para preservar a vida que sente ameaçada pelos impulso destrutivos. Apesar de Klein reconhecer que na Identificação Projetiva há uma relação narcísica do self com o objeto, pouco tratou do narcisismo, pois, ao contrário de Freud, ela achava que desde o início havia uma relação de objeto. Mesmo com essas discordâncias acredito que ela, com sua ênfase na pulsão de morte voltada paa o ego, contribuiu para complementar e dar mais sentido à própria Fepal - XXIV Congreso Latinoamericano de Psicoanálisis - Montevideo, Uruguay “Permanencias y cambios en la experiencia psicoanalítica" – Setiembre 2002 teoria de Freud a respeito do narcisismo. Isto é, neste estado, não é só a líbido voltada para o ego, mas também a pulsão de morte. Penso que a pulsão de morte voltada para o ego pode ser inferida em Freud em seu trabalho "Luto e Melancolia", quando considera os ataque que o ego, identificado com o objeto perdido, dirige a si mesmo. Seguidores de Klein (Rosenfeld,l97l-b) explicitou mais as relações entre narcisismo e destrutividade. O conceito de Identificação Projetiva,a meu ver, condensa quase todo o pensamento kleiniano a respeito da posição esquizo-paranóide, sendo um retrato da mesma. Retrata também a visão kleiniana do psiquismo humano: um mundo interno de objetos vivos onde, como sintetiza Baranger(l98l), o self vive relações intensas, intercambiáveis, onipotentes, com um caráter fluido em contínua variação de posições e sentidos. Se as reflexões me aprofundaram no conhecimento da Identificação Projetiva, fortalecendo minha crença na validade do conceito, por outro lado continua causando a mesma estranheza e inquietação. Refletir sobre êle leva-me a pensamentos contraditórios, em parte devido a necessidade de mais reflexões , em parte devido a complexidade do fenômeno que o conceito espelha. Em nota de rodapé, na página onde Klein(l946) define o fenômeno da Identificação Projetiva ela diz que a descrição dos processos contidos nele sofre uma grande desvantagem, pois essas fantasias surgem numa época em que o bebê ainda não começou a pensar com palavras. Há referências (Grosskurth,l992) de que ela própria achava inadequado o nome que deu ao fenômeno. A meu ver, ela se dava conta da defasagem entre o fenômeno observado e a conceituação dele. Penso que , apesar de toda a profundidade e complexidde contida em sua definição esta não abarca toda a profundidade e complexidade do fenômeno psíquico por ela descoberto. Essa defasagem entre conceito e fenômeno psíquico ocorre também no conceito de narcisismo de Freud. Nesse sentido, o espanto que o conceito de Identificação Projetiva pode nos causar, a ambiguidade, não é motivo para rejeitá-lo ou acomodá-lo a formas mais facilmente assimiláveis. Espanto e ambigüidade são sentimentos próprios a aspectos ainda desconhecidos de um fenômeno. Penso que os aspectos desconhecidos da Identificação Projetiva podem vir a ser conhecidos se pudermos observar e refletir, à luz do pensamento kleiniano, sobre o fenômeno psíquico que o termo retrata e não sobre o conceito em si mesmo. Sumário Reflito neste trabalho sobre o mecanismo de Identificação Projetiva em seu contexto de origem: a posição esquizo-paranóide. São reflexões que procuram explicitar o que penso estar implícito no pensamento kleiniano e as idéias que desenvolvo são decorrências desse. Detenho-me nas defesas de cisão e no uso que o ego faz da Identificação Projetiva como um meio para atingir um estado de idealização. Aproximo a idealização às considerações que Freud fez a respeito do narcisismo em "Os intintos e suas vicissitudes",onde penso que ele falava de uma cisão do ego que antecede a projeção, a fim de se atingir um estado de purificação. Pondero que a idéia de Klein de uma pulsão destrutiva voltada para o ego contribuiu Fepal - XXIV Congreso Latinoamericano de Psicoanálisis - Montevideo, Uruguay “Permanencias y cambios en la experiencia psicoanalítica" – Setiembre 2002 para dar mais sentido à teoria do narcismo de Freud. Termino reconhecendo a validade do conceito de Identificação Projetiva,como o definiu Klein,mas que este não abarca em sí toda a complexidade do fenômeno psíquico. ------------------------- Referências Bibliográficas Baranger,W.(l98l) - Posição e objeto na obra de Melanie Klein.Cap.II P.Alegre.Ed.Artes Médicas. Bion,W.R.(l959).- Ataques al vinculo.In:Volviendo a pensar. B.Aires,Paidós,l977. Freud,S.(l9l4) - Introdução ao Narcismo.Vol. XIV.Ed. Standard Brasileira.Rio,Imago,l977. ______(l9l5) - Os instintos e suas vicissitudes.Vol. XIV.Idem. Grosskurt,P.(l992) - O mundo e a obra de Melanie Klein.Rio,Imago,l992. Hinshelwood,R.D. Dicionário do pensamento kleiniano.P.Alegre,Artes Médicas,pp 2l5-2l6. Joseph,B.(l987) - Identificação Projetiva:alguns aspectos clínicos. In:M.Klein hoje.Vol. I .Rio,Imago, l99l. Klein,M.(l946) - Notas sobre alguns mecanismos esquizóides. In:Inveja e Gratidão e outros trabalhos..Vol III .Rio,Imago,l99l. Petot,J.M.(l982)Melanie Klein,II.S.Paulo,Perspectiva,l988.ppl20-l26. Rosenfeld.H.(l97l-a) - Uma contribuição à psicopatologia dos estados psicóticos: a importância da identificação projetiva na estrutura do ego e nas relações de objeto do paciente psicótico. In: Melanie Klein hoje.Vol.I.Rio, Imago,l99l _______ (l97l-b) - Uma abordagem clínica para a teoria psicanalítica das pulsões de vida e de morte: uma investigação dos aspectos agressivos do narcismo. Idem. Fepal - XXIV Congreso Latinoamericano de Psicoanálisis - Montevideo, Uruguay “Permanencias y cambios en la experiencia psicoanalítica" – Setiembre 2002 Sandler,J.(l993) - Acerca de la comunicación del paciente al analista:no todo es identificación projetiva.In: Libro Anual de Psicoanálisis.Tomo IX.l993,pp. l7l-l8l. Segal,H.(l966) - Introdução à obra de Melanie Klein.São Paulo.Companhia Editora Nacional. _______(l983) - Some clinical implications of Melanie Klein work.In:Int.J.Pschyco-Anal.,6:269-276. Paschoal Di Ciero Filho e-mail: [email protected] Rua Caçapava,49 - cj.22 0l408-0l0 - São Paulo - SP