As mudanças na representação visual dos jornais, com o surgimento dos tablets Changes in visual representation of the newspapers, with the emergence of tablets Cordeiro, Raquel Corrêa; Mestranda; Escola Superior de Desenho Industrial, UERJ [email protected] Lessa, Washington Dias; DSc; Escola Superior de Desenho Industrial, UERJ [email protected] Resumo Este artigo aborda as mudanças de visualização de conteúdo nos jornais surgidas com o advento de novas mídias. Contextualiza o design de notícias e o novo contexto do trabalho do designer nesta área, e compara uma mesma cobertura nas edições de três mídias do grupo O Globo: o jornal impresso, o site e o tablet. Palavras Chave: Design de notícias; interação; tablets Abstract This article discusses the changes in viewing content in newspapers emerged with the advent of new media. Contextualizes the news design and the new context of the designer's work in this area, and compares the same coverage in editions of three medias of the group O Globo: the newspaper, the website and the tablet. Keywords: news design; interaction; tablets Introdução No cenário da imprensa contemporânea surgem novas referências para a atividade jornalística a partir do desenvolvimento tecnológico e caracterização de novas mídias. Comentando, por exemplo, o tablet como uma das principais novidades para a disponibilização de conteúdo jornalístico, Gilson Schwartz, economista, sociólogo, jornalista e professor do Departamento de Cinema, Rádio e TV da ECA-USP indica que “a economia da interface continuará evoluindo como parte da nossa busca por conhecimento e informação a toda hora, em todo lugar e para os mais variados propósitos” (Mattiolli e Costa, 2011, p. 5). Freire ressalta que essa evolução das tecnologias de informação e comunicação estimula o “crescimento da relevância do design para o webjornalismo como estratégia de diferenciação” (Freire, 2008, p. 576). A inteligência do design, conforme definida por Cross, “envolve uma interação intensa e reflexiva com representações de problemas e soluções, e uma capacidade de mudar facilmente e rapidamente entre as representações concretas e pensamentos abstratos, entre fazer e pensar” (Cross, 2010, p. 101). Alexiou, por seu turno, se refere à base neurológica da cognição presente na prática do design: Comparadas com a resolução de problemas, (atividade cognitiva), tarefas de design recrutam uma rede mais extensa de áreas cerebrais. Sugere-se que estas áreas do cérebro trabalhem em conjunto para realizar operações semânticas, avaliar os meios e finalizar respostas adequadas e representações, apoiar a resolução de conflitos e modular tomada de decisão sob incerteza (Alexiou et al., 2009). O design começa a participar da cadeia produtiva do jornalismo no Brasil a partir dos anos 1960 e seu papel vem sendo redefinido à medida que vão ocorrendo mudanças nesse setor. O desafio do momento é o de aprimorar o jornalismo online e implantar o jornalismo em aplicativo móvel. E isto implica não apenas na atualização tecnológica constante, mas também no acompanhamento analítico da recepção dos novos modos de visualização de conteúdo por parte do leitor. A partir de uma caracterização do novo design de notícias, este artigo visa subsidiar a compreensão das especificidades editoriais e visuais no jornalismo impresso, no computador e em tablet. Para isso, compara uma mesma cobertura veiculada nessas três mídias pelo grupo O Globo. A análise do material publicado foi complementada pelo levantamento de informações básicas quanto ao processo junto às equipes responsáveis. Design de notícias Moraes (1998, p. 242) afirma que esse campo corresponde à interseção entre o design e o jornalismo, e que é responsável pelo planejamento, organização, produção e direção do relato jornalístico, nas suas manifestações visuais impressas e/ou digitais. Sousa relata o crescimento da importância do design, mostrando a evolução e o surgimento de uma área que, no início, não tinha o seu valor reconhecido: Hoje em dia, valoriza-se significativamente o design de imprensa, mas nem sempre foi assim. Melhor dizendo, até meados dos anos sessenta do século XX não foi assim. Até essa década seria opinião reinante que o que interessava (mais) era o conteúdo das notícias, não a forma como estas eram apresentadas. Porém, mesmo que o design não fosse muito valorizado, a utilização, ao longo do tempo, de gráficos, diagramas, mapas e formas gráficas de hierarquizar e sistematizar a informação permite concluir que se foi dando conta de que a atitude dos leitores 4o Congresso Sul Americano de Design de Interação seria mais receptiva se os conteúdos fossem interessantes e a paginação garantisse uma maior legibilidade das páginas e tornasse o jornal um produto mais bonito (Sousa, 2001, p.339). Dentro do design de imprensa está a diagramação, que é um trabalho de design editorial que também faz parte do jornalismo. Diagramas são utilizados tanto para complexos projetos visuais quanto para projetos pequenos que não utilizam muitos elementos na sua composição. À ação de ordenar, de combinar elementos nestes espaços midiáticos, deu-se o nome de “diagramação”. Assim, diagramação é a atividade de coordenar corretamente o material gráfico com o material jornalístico, combinar os dois elementos com o objetivo principal de persuadir o leitor. O gráfico orientando o texto e vice-versa (Hoeltz, 2001, p.6). Logo, é função da diagramação conceber as páginas, criar uma relação entre todas as partes ou elementos necessários para elaborar uma publicação. “A concepção total das páginas articula a mais completa concepção de design, na hipótese de que design auxilia o conteúdo verbal” (Ames, 1989, p.5). Outro elemento presente no trabalho do designer de notícias é a infografia, cuja área pertence ao design de informação, também conhecida como design da comunicação. Trata-se de uma área voltada para o design gráfico, mas que se relaciona com a linguística e a psicologia aplicada, como a ciência da informação, entre outras áreas. O design da informação está voltado aos sistemas de comunicação, com o objetivo de otimizar o processo de aquisição de informação (SBDI, 2008). A inclusão de infográficos nestes sistemas de informação ocorre quando explicações gráficas tornam mais eficiente a aquisição de conteúdos informacionais (Lima, 2009, p.23). Lima também destaca o conceito de “transformadores” da informação, “um tipo de profissional que reinterpreta a informação, ou transforma a mesma, para adequá-la a contextos sociais diferentes”. O trabalho de diagramação e infografia está presente no dia-a-dia da produção da notícia, mas existe um trabalho anterior de design, o processo de estruturação do fluxo. Para a notícia ser publicada em diferentes mídias e, consequentemente, para o design ser adaptado, é necessário um estudo prévio de produção. A coordenação da implantação do ‘projeto gráfico’, do ‘projeto de hipermídia’, da organização do ‘projeto de fluxo de produção’ e da gestão do ‘projeto de fluxo de publicação e distribuição’ num sistema, parcial ou totalmente automatizada, necessita de um mapeamento geral dos seus elementos e da sistematização das possibilidades da sua organização, dentro de uma aplicação integrada, a qual focalize na publicação do jornal, para diferentes meios, o seu design, o seu conteúdo editorial e a sua interação (Faria e Moura, 2009, p. 795). Logo, a produção de um jornal, independente da mídia, necessita de um suporte de design, tanto para o planejamento, quanto para a produção. O design de notícias vai além da representação gráfica: se insere também na organização estrutural e estratégica. Focalizando o âmbito visual/editorial, a tecnologia digital traz novas questões e exigências para o design. Considerando de modo geral o repertório projetual da imprensa, Faria e Moura (2009) dividem os elementos do jornal em três grande grupos, que são organizados segundo suas funções. O primeiro grupo é chamado de elementos estruturais, que são: a grade, o layout, o logotipo, o cabeçalho, o rodapé, os brancos, os boxes, os fios, as linhas e as cores. Em seguida, aparece o conteúdo em forma de texto, que são: os títulos, os 4o Congresso Sul Americano de Design de Interação bigodes, o olho, as chamadas, a cartola ou chapéu, os entretítulos, os créditos, e o foguete ou a janela. E, por último, os elementos de conteúdo em forma de imagens, como por exemplo: a foto texto ou a foto legenda, os desenhos, as charges, os infográficos, os gráficos e as ilustrações. Acrescenta-se, para um jornal eletrônico, um quarto grupo de elementos, alguns também presentes no jornal impresso, mas com outra ênfase: Os elementos de navegação ou interatividade podem ser apresentados como sistemas que garantem a manipulação e a troca entre o meio e o “indutor atividade’’, ou seja, por exemplo, as áreas sensíveis que formam o sistema navegação e interatividade, com sons, trilhas e animações, e a aplicação hipertexto na plenitude de sua concepção (Faria e Moura, 2009, p. 796). os de de do No caso dos infográficos, quando são veiculados em formato digital interativo ou participando de reportagens multimídia, o design assume papel especialmente estratégico, dando uma nova visão e representação às notícias. “Inovar, e ao mesmo tempo manter identidade e reputação de empresas já bastante conhecidas no meio impresso é o grande desafio”, afirma Weber (2012). A informação está na imagem, no som, no texto, nas possibilidades de navegação, transformando o ato de leitura em uma experiência visual e estética e de interatividade (...). A diferenciação se dá, então, no uso inovador da união das diversas linguagens através do design multimídia (Weber, 2012). Quando esses projetos são pensados para tablets, outras questões são levantadas. A comunicação através das telas sensíveis ao toque difundiram, por exemplo, “notícias, fotos, infográficos, ilustrações, charges, anúncios, crônicas e editoriais que se tornaram dinâmicos, com a inclusão de áudio de qualidade, vídeos, animações, vibrações e fotografias manipuláveis” (Agner, 2012). Estes dispositivos eletrônicos tendem a ampliar e reconfigurar o padrão de recepção e os requisitos de produção da linguagem jornalística. Hábitos de leitura Para analisar os diferentes modos de visualização de conteúdo nas diferentes mídias é importante saber como elas tendem a ser lidas e usadas pelos leitores. Neste sentido, citamos pesquisa de cunho etnográfico desenvolvida com leitores habituados a consultar o portal Zerohora e o Zero Hora impresso, publicada por Knewitz e Jacks em 2011. As autoras consideraram três modalidades de leitura: a) de contextualização, que busca uma visão geral e que pode ser cumulativa (leitura do jornal impressos e do digital) ou substitutiva (leitura apenas do jornal digital); b) de atualização, que retorna ao jornal para acompanhar o desdobramento de notícias; c) de projeção, que busca retomar fatos e antecipar assuntos do dia seguinte. Essas modalidades são associadas a outras categorias em uma tabela (Knewitz; Jacks, 2011, p. 218). Síntese das características das leituras de contextualização, de atualização e de projeção. Categoria Leitura de contextualização Leitura de Leitura de analítica atualização projeção Leitores Leitores cumulativos substitutivos Suporte Papel Tela Tela Tela 4o Congresso Sul Americano de Design de Interação Local Predominantemente no trabalho Para se deslocar diretamente da capa para certas notícias ou, por meio da diagramação, para prover a leitura alinear das notícias dentro de uma mesma página Predominantemente no trabalho Para promover uma leitura mais profunda e desordenada e facilitar a seleção dos conteúdos e a consulta a outras fontes Uso dos recursos multimídia Consulta a textos e imagens Escasso e focado Uso mais predominantemente intenso quando em infográficos vinculados às notícias de última hora Duração Pelos menos 30 minutos No máximo 30 minutos Em geral, pelo De 20 minutos menos três a uma hora acessos de cerca de cinco minutos cada Profundidade Alta Média Baixa. A Média proposta da leitura é justamente ser superficial Memorização Alta e ampla Média e restrita Baixa e restrita Média e restrita Uso do hipertexto Trabalho e faculdade Escasso, pois as pessoas costumam se contentar com a leitura dos títulos da capa, sem explorar os demais níveis do site Casa Para promover uma leitura mais profunda e desordenada e facilitar a seleção dos conteúdos e a consulta a outras fontes Momento em que os áudios e vídeos são mais acessados Podemos perceber que, dependendo do contexto de leitura, o usuário pode estar propício a aceitar diferentes modos e complexidades de comunicação. Com base nas entrevistas realizadas, por exemplo, Knewitz e Jacks observam em relação ao jornal online que: Os informantes expressaram não gostar de “compor” as notícias ou de ter que clicar em algum link para tomar contato com o conteúdo; preferem ter as informações expostas em um mesmo plano. É por isso, por exemplo, que alegaram prestar mais atenção em fotos na versão impressa do que na web. Sobre os vídeos e áudios, os sujeitos investigados salientaram alguns ganhos de seu uso para reforçar, contextualizar, precisar e validar informações, mas assumiram fazer uma exploração bastante restrita desses recursos. Entre os motivos para essa utilização limitada foram citados: falta de tempo, baixa qualidade ou relevância dos materiais disponíveis, bloqueio de acesso no ambiente de trabalho e obstáculos de ordem técnica (Knewitz e Jacks, 2011, p. 214). Isto evidencia que não deve haver uma correlação necessária entre a tecnologia mais recente e a abundância de recursos. Apesar das variadas possibilidades oferecidas pelos 4o Congresso Sul Americano de Design de Interação tablets, nem sempre há a necessidade da utilização exaustiva. Deve-se analisar cada caso isoladamente e não usar elementos dispensáveis, entre outros motivos, pois eles também podem tornar o arquivo mais pesado e dificultar o download. Criticando o uso indiscriminado de novas tecnologias, Donald Norman enfatiza, por exemplo, que “a recente corrida dos engenheiros de software para desenvolver interfaces gestuais tem levado ao esquecimento dos princípios e dos padrões sedimentados do Design de interação” (Norman e Nielsen, 2010). Investigação A partir dessas considerações de design de notícias e particularidades das mídias, foi feita a análise de uma mesma cobertura jornalística editada/diagramada em diferentes suportes. O caso analisado foi a reportagem especial sobre quatro cantores brasileiros – Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Paulinho da Viola – que estavam completando 70 anos. Três versões desta reportagem foram publicadas no dia 24 de junho de 2012, na versão impressa do jornal O Globo (no Segundo Caderno), no site do jornal (http://oglobo.globo.com/infograficos/os-setentoes/) e no produto especial para tablet do mesmo grupo jornalístico (O Globo a Mais). Na determinação das pautas, inicialmente a reportagem foi sugerida para ser publicada no jornal impresso, sendo o infográfico produzido por um designer especializado nesta área. É importante salientar que isto não acontece necessariamente segundo esta hierarquia para todo o noticiário. Há uma independência em cada mídia, e pautas especiais podem ser propostas por qualquer uma delas. Neste caso, depois da matéria elaborada pela mídia impressa, foi feita a adaptação pelos respectivos profissionais de cada área. Figura 2: Capa do Segundo Caderno especial O projeto gráfico deste Segundo Caderno especial foi criado pelo artista gráfico Luciano Figueiredo, responsável por capas emblemáticas de discos de Caetano Veloso e Gal Costa. Foram usadas cores e formas geométricas inspiradas na capa do disco Velô, de 1984. Os 4o Congresso Sul Americano de Design de Interação designers responsáveis pelas mídias digitais tiveram liberdade na adaptação do projeto original do caderno, respeitando porém o conceito proposto. 4o Congresso Sul Americano de Design de Interação Figura 3: Infográfico veiculado na versão impressa O infografista, a partir das cores estabelecidas no projeto gráfico, apresentou todas as informações necessárias em uma página dupla do jornal. Todos os elementos já deveriam estar claramente expostos, sem causar confusão ao leitor. A linha do tempo, apresentada em uma única página dupla, recorreu a fotografias documentais, reproduções de capas de disco, uma codificação cromática e à representação icônica do sinal sonoro. Naturalmente, a versão impressa não podia disponibilizar as gravações mencionadas. Figura 4: Infográfico veiculado na versão do site A adaptação do infográfico para a versão do site descartou o recurso icônico do sinal sonoro mas, de modo mais substancial, as gravações marcantes na carreira de cada cantor foram disponibilizadas em arquivos de áudio. Havia também um link associado à imagem de cada artista, remetendo ao texto respectivo. Não houve mudança no projeto gráfico do site, como ocorreu no papel em relação ao projeto do jornal. Como única caracterização visual especial, foi feita uma montagem das fotos dos cantores com o mesmo padrão de cores utilizado na versão impressa. Figura 5: Imagem para ilustrar o especial no site Os textos foram divididos em links, mantendo o padrão de tipografia e cores do site. O trabalho dos designers esteve presente na montagem da foto para abertura e adaptação do infográfico para o novo formato. Já na versão para tablet, os designers atuaram repensando a ordem da edição, pois não teriam um caderno inteiro dedicado à cobertura, como no jornal impresso, nem a matéria estaria articulada em links, como no site. Por outro lado, a reportagem foi o tema da capa de O Globo a Mais. Nela, foi aproveitada a mesma identidade de cores do Segundo Caderno do jornal impresso e criou-se uma animação, na qual as fotos iam se colorindo aos poucos (Figura 6). Os áudios foram disponibilizados na página de abertura da reportagem, sendo sinalizados com um ícone para cada cantor. O projeto gráfico do tablet foi preservado, mas foram utilizadas as cores de identificação em algumas soluções ao longo da edição (Figura 7). Quanto ao infográfico, a solução utilizada na versão impressa foi separada em várias partes, que foram posicionadas junto aos textos referentes a cada cantor. Na versão para tablet, não é necessário apresentar todo o conteúdo no primeiro nível, então foi adicionado um scroll horizontal na linha do tempo e outro vertical nos textos (Figura 8). Figura 6: Capa do Globo a Mais Figura 7: Página de abertura da reportagem Figura 8: Adaptação dos infográfico para O Globo a Mais, produto exclusivo para tablet Resultados Conforme indicado, a produção desse material foi feita primeiramente para a mídia impressa, depois para o site e, finalmente, para o tablet. Designers diferentes atuaram em cada mídia e podese observar que, no caso do tablet, ocorreu uma junção de características dos outros dois suportes. Pelo formato rígido das páginas, a versão para tablet se aproximou do caderno impresso, podendo aproveitar elementos produzidos previamente para o papel. Mas, com a possibilidade de reproduzir áudio e interação dos leitores, a versão de O Globo a Mais agregou características também utilizadas no site. Isto vem confirmar a tendência identificada em 2011 por Lohman, Bitarello e Rocha na diagramação de artefatos jornalísticos para tablet. Segundo eles: A experiência retorna ao conceito de leitura sequencial, com uma ordem de leitura “sugerida” editorialmente, a exemplo dos modelos impressos. Entretanto, a qualquer momento o usuário pode alterar o fluxo de navegação, seja através de atalhos e menus contextuais, seja retornando a uma página de índice que tem a função de home-page. Percebe-se, dessa forma, que o modelo implementado busca mesclar características das duas mídias anteriores. Além disso, a interatividade é levada ao seu limite, com a utilização cada vez maior de infográficos, vídeos e hipermídias (Lohmann, Bitarello e Rocha, 2011). Dessa forma, percebe-se o retorno do “manuseio” da notícia e da navegação sequencial, e também mantém-se a possibilidade do usuário estabelecer o seu próprio fluxo de leitura. Mas a tecnologia digital é acionada para diferenciar esta experiência, como demonstra o recurso à animação no exemplo analisado de O Globo a Mais. Já em relação ao site, constatou-se que a adaptação do impresso envolveu menos iniciativas de caracterização visual específica, ou seja, a estrutura gráfico-editorial básica do site tendeu a prevalecer. Sintetizando: foi observado um modelo para tablet que busca mesclar características das mídias anteriores, juntando conteúdo interativo sem abrir mão da estrutura de códice, própria da versão impressa. Esta condição é dada pela formatação tecnológica de “sucessão linear de páginas” do e-book. Porém, esta simulação do livro impresso, conforme também constatam Lohman, Bitarello e Rocha, ganha uma nova dimensão tanto graças à tecnologia touchscreen quanto pela interatividade hipermidiática, envolvendo texto, imagens, infográficos, vídeos e áudios. Considerações finais Com esta pesquisa, desenvolvida através da revisão de referências e de análise de cobertura jornalística feita pelo grupo O Globo, constata-se que o tablet apresenta amplas possibilidades de interação do usuário e novas frentes para a atuação do designer de notícias. Como toda nova tecnologia, não é uma inovação total, mas uma releitura do que já era produzido previamente. O trabalho do designer se modificou, surgiram novas possibilidades projetuais e novas preocupações analíticas ao longo da elaboração de um projeto editorial interativo. Assim como a mídia agrega funções anteriores, o profissional também passa a ser multitarefa. Precisa conhecer o trabalho de diagramação do papel e a organização de elementos em um layout, como também precisa estudar a interação e usabilidade de uma publicação digital. Dessa forma, constata-se que o designer de notícias que trabalha para tablet deve aliar conhecimentos de design editorial, de design de informação e de interação, o que no momento se dá de um modo mais integrado do que na segmentação existente no jornalismo impresso. Referências AGNER, Luiz. Usabilidade do Jornalismo para Tablets: Uma Avaliação da Interação por Gestos em um Aplicativo de Notícias. In: Congresso Internacional de Ergonomia e Usabilidade de Interfaces Humano-Computador, 12. Natal: UFRN, 12 a 16 ago. 2012. ALEXIOU, Katerina et al. Exploring the Neurological Basis of Design Cognition Using Brain Imaging: Some preliminary results. Design Studies, vol. 30, p. 623-647, 2009 AMES, Steven E. Elements of newspaper design. New York: Praeger Publishers, 1989. CROSS, Nigel. 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