SABER POR ONDE NAVEGAMOS Hilário Dick Sabemos onde é o mar; sabemos onde se plantaram as coxilhas; sabemos onde as cascatas se escondem; sabemos onde a beleza se veste de paisagem. Sabemos, sim. E nós sabemos por onde deveria navegar, esvoaçar, aterrissar e tantos outros verbos, a nossa espiritualidade, isto é nosso jeito interior de ser banhado de divino? Mesmo vestidos com a farda, ocasional ou não, de maristas? Claro que sabemos. E nosso pensamento se levanta para Deus (Pai e Mãe), para Jesus Cristo (homem e Deus), para o Espírito que sentimos (e não entendemos bem, no coração), para a Igreja (que cheira à santidade e sujeira), para a Eucaristia (que não deixo de olhar com certa saudade), para a oração (adormecida porque não a acordei), mas podemos olhar nosso jeito divino de ser de outra forma. Digamos assim: de forma “marista”. Perguntar-nos por onde navega e poderia navegar nosso jeito divino de ser é a tentativa destas pequenas considerações. Não sabemos se adianta muita aula sobre “espiritualidade”... Espiritualidade não é de cabeça; é de tesão. Vários jeitos que a história e a teologia nos ensinam e apontam, ótimo saber, mas não basta. Coisas boas de estudar, compreender e ruminar. Somos mais – digamos assim – “imediatistas”, “interesseiros” porque, afinal, não nos dão e não nos damos muito tempo para pensar no gratuito, apesar de sabermos que este gratuito, essa curtição do divino também tem seus resultados, até na produção, até na convivência, na maneira de olhar a vida e as pessoas de forma mais bem vestida, com formas que nos agradam. Onde, afinal, poderia navegar o jeito divino de ser do educador/a marista? Desculpem o atrevimento, mas vou tentar dizer algo. Aterrissar em Rosey 1. Além de tudo que já sabemos e ouvimos, vou repetir algumas coisas. Primeiramente, vamos aterrissar em Rosey, um vilarejo que vocês, bem mais do que eu, conhecem. Para chegar lá temos que atravessar um riacho, isto é, fazer um esforço, desviar-nos de pedras. Só imagino... É que queremos chegar na “casa do grão”, encontrar 10 filhos e muito trabalho. Rosey é infância, é família, é Belém... É uma casa. Ter um coração de Rosey, para um/a educador/a marista é ser casa. Ser casa, muitas vezes, dos filhos de ninguém. Não é só o pobre que é de ninguém; também meninos e meninas bonitos/as conseguem esconder, até certo ponto, sua fome de acolhida e de uma Rosey “familiar”, onde se tem tempo de olhar nos olhos, brigar por coisas pequenas, atirar-se no chão. É ser casa acolhedora que gosta de receber as “visitas”: ser curioso de juventude, ser encantado e, até, deixar-se seduzir pelos/as adolescentes e crianças que encontramos. Nem sempre ser acolhedor/a é fácil. Ler, compreender, perceber o que dizem algumas coisas não faladas exige espiritualidade. Fazê-lo é ter mística. Em Rosey tem um canto onde tudo isso é ruminado, ao som do riacho que cai... Espiritualidade de Rosey... cheia de ternura inteligente com as pessoinhas e pessoas que trabalhamos. Sempre saber mais. Não ficar na superfície. Rosey é exemplo de quem está de bem com a vida (o que depende só de nós), acarinhando o Espírito que gostaria de estar mais vivo em nós. É preciso "navegar” em Rosey. Em Rosey constroem-se pessoas, projetos de vida, idealismos que nos superam. Verrières não pode ser rotina 2. Nossa espiritualidade precisa revestir-se, em segundo lugar, de Verrières, lugar de confusão, superação, descoberta, discernimento e esperança. Foi a mãe de Champagnat que lhe garantiu a continuidade no caminho da vocação... porque Jean Baptiste era lento demais. Até dizem que Verrières é como Nazaré: família, trabalho, estudo, juventude... Tempo complicado, também. O mundo se abrindo. Nem sempre sabemos encarar a aula, a correção, o dia-a-dia, o ler, o comprar livro e revistas, o agüentar as gritarias de quem vai descobrindo tudo, o preparar, como algo vindo de dentro. Verrières e Nazaré se encontram nas pequenas confusões da vizinhança. Quando Verrières vira rotina, é uma desgraça. Como é importante ter no olhar um olhar que vê a vida brotando. Um dos caminhos que começa a aparecer é a busca de autonomia. E o pior é que esta autonomia nunca é dada; é sempre conquistada, fruto de conflito. Se não carrego em mim o protagonismo de educador, terei pouca chance de favorecer o protagonismo querendo florescer nesta meninada que quer saber o que é ter personalidade. Bonito o educador/a que sabe crescer com o crescimento do/a outro/a, ajudando-o e não tirando o cavalinho da chuva. Aliás, sem a vivência grupal de Verrières, é bem provável que sejamos mais alguém que deixa de acreditar no coletivo. Em Nazaré se ia para a sinagoga; em Verriéres para a capela pequena e feia, com uma cruz bonita. O ninho do comunitário que pulsa em nós. Coração de La Valla 3. Além de Rosey, de Verrières, precisamos ter, em nossa espiritualidade, um coração de La Valla. Ter um coração de La Valla é ter um coração rodeado de montanhas e vales, em meio a um mundo de inquietações e revoltas, de busca de justiça, de construção de solidariedade. Foi o lugar de “pastoreio” de Champagnat. É preciso sair de si mesmo, convencer-nos que em nós mora um coração missionário, que nossa felicidade exige sermos como os pelicanos que alimentam os filhotes com o que eles mesmos são. Em La Valla acontece algo semelhante ao que aconteceu na festa de casamento de Caná. Assim como casar é sair de casa, Caná, com a ajuda da Boa Mãe, vai ser a despedida de Jesus para ir para fora, para Cafarnaum, isto é, para o mundo. De vez em quando perdemo-nos em nós mesmos/as, cegos para os que desejam a nossa mão. La Valla é o começo do caminho para Cafarnaum. Aliás, foi em Caná que a Mãe começou a ser Discípula... Boa Mãe é aquela que sabe ser discípula. Ser como João Batista que deixa o outro crescer e abraçar o missionário que está chamando. Assim como Champagnat começa a sonhar – em meio aos rochedos - uma Congregação... Nossa espiritualidade nos leva a comprometer-nos com o mundo vasto da educação e dos educadores. Afinal, não é o nosso chão? É o Reino mais perto de nós. Para isso é preciso superar medos, acomodações, preconceitos e subir montanhas. Falamos de responsabilidade, de ousadia, de serviço, de projeto de vida, de entusiasmo, de sensibilidade... Por isso não podemos esquecer-nos do vinho da alegria de Cana, transformando água em vinho... A educação, a dedicação, o cumprimento das “normas”, a pontualidade, a atenção aos alunos e colegas, tudo pode ser, de repente, só água, e as montanhas de Valla só pedra seca e não um ninho de águias ou, ao menos de aves que não são galinhas. O milagre da água se tornando vinho depende de nós, de mais ninguém. A inspiração de Montagne 4. Assim vamos aterrissando, com nossa espiritualidade, em Le Palais. Claro que chama a atenção o menino enfraquecido pela fome das minas e que todos conhecemos: Jean-Baptiste Montagne que, para nossa espiritualidade, é o símbolo do pobre, do jovem pobre, exterminado, chamado de violento, daqueles que não são atirados de uma janela, mas empurrados pela porta do desemprego, pela porta da falta de carinho para a sarjeta que a sociedade cuidou de construir. Você já olhou bem para este Montagne? Montagne encarna, também, a importância de comprometer-nos com a Campanha contra o extermínio da juventude, indo além dos muros dos nossos colégios e penetrando nas periferias das samambaias e das vilas cruzeiros, ajuntando os pedaços de jovens que a sociedade parece que se esqueceu de amar. Na dor de Montagne, fazer que nem Champagnat: deixar-se seduzir, mesmo que seja pela dor. Um educador/a marista que não sabe indignar-se é porque perdeu a capacidade sonhar ou porque só sabe sonhar pequeno. Podemos dizer, até, “sonho de umbigo”. Le Palais vai unido a Cafarnaum, o lugar em que Jesus se perdeu no meio do povo. É como o Che que, montado em sua moto, descobriu a dor da América Latina. É da nossa espiritualidade viver o espírito missionário, na alegria que há em enfrentar o êxodo da dependência, do ensimesmamento, do egoísmo besta e do individualismo ignorante que desaprendeu que a felicidade mora mais adiante, nas planícies de Le Palais. O triste é que para encontrar a dor, não precisamos viajar muito. É só olhar além da cerca de nosso curral. Contudo, não se trata somente de uma Cafarnaum de ativismos e correrias. Como fazem falta nossas saídas, nossas fugas estratégicas para o morro e para o deserto, com a única finalidade de beber a água do sentido. Coragem em L´Hermitage 5. Pois é. Todos sabemos as conseqüências de quem se compromete. Nem todos gostam de ver-nos abraçando de verdade os Montagne do mundo e gritar que não somos feitos para nós. Por isso a nossa espiritualidade e a nossa mística vai encontrar aquelas línguas venenosas porque tivemos a coragem de chegar até L´Hermitage. “Como ficaria bem uma casa de noviciado nesta solidão!” “Loucura!” diziam os medrosos. Até parecem Pedro dizendo a Jesus que não fosse a Jerusalém... “Todas as dioceses do mundo estão em nossos planos”, escrevia Champagnat a um bispo. Se Jesus disse “amai-vos como eu vos amei”, Champagnat escrevia “oxalá se diga de vocês: vejam como se amam os Irmãos”. Humildes, simples e modestos como as violetas, mas no espírito de Jerusalém, a cidade santa e maldita, ao mesmo tempo. A cidade da acolhida e do conflito, da paz e do medo. Eucaristia, início da Igreja, peregrinação e, ao mesmo tempo, traição, exploração religiosa e morte, centro do poder. Conflitos na vivência da fé, enfrentar os desafios pela raiz, ser autoridade no que somos e fazemos, consciência da realidade... L´Hermitage e Jerusalém se encontram na doçura e no sofrimento dos que abraçam a cruz do mundo. É engano pensar que a coerência de vida seja sem conseqüências. A espiritualidade que se quer cristã e marista precisa aterrissar em Jerusalém para não esquecer os bonitos sonhos cultivados em L´Hermitage. Na espiritualidade marista a fé e a vida, a fé e a realidade social, a reza e a luta, a doação aos excluídos e a severidade evangélica se encontram e, por isso, a perseverança, a sensação de abandono getsemaníaco, a dor sem medidas da traição exigem que sejamos violetas tão fortes, capazes de dizer “dou a vida porque quero”... Diante dos Caifases e dos gritos que não querem a novidade da vida, sermos como os mártires, os profetas e os educadores com raiz científica e teológica. Por exigência de L ´Hermitage e de Jerusalém o educador/a marista não brinca de educar: ele/a é educador/a com suas alegrias e suas cruzes, sabendo – contudo – que o que vale é a vida que aprendemos, também em Jerusalém, a vida na qual navegamos, é a vida que não teme nem a injustiça nem a morte. Não esquecer as Betânias 6. Para vivermos, contudo, todos estes espaços, precisamos – assim como Jesus – das Betânias, lugares de descanso, de refúgio, de recompor as forças e acarinhar a fé que vai brotando em nossa vida. A espiritualidade marista sugere estas loucuras que nem todos compreendem: como é importante termos Betânias para curtir nossos sonhos, beber vinhos de novas inspirações, encontrar amigos/as que nos façam mais, nos façam retomar a bandeira. Nestas Betânias estão Lázaros, Marias, crianças, adolescentes e jovens, velhos vividos que nos fazem rir e chorar, educadores/as que nos vão dizer que as Betânias são tão importantes que se podem tornar ameaça para os que pensam que a vida é ter dinheiro, ter poder e ser auto-suficiente e tem medo das violetas que acreditam que o que importa é ter um coração desapegado; que o que importa é ser serviço e deixar que o/a outro/a seja mais importante que nós, porque a felicidade verdadeira tem raiz no outro/a.