ano XI | série II | 2008 | anual | número cinco | 25 euros | issn 0874-2901 ANO XI | SÉRIE II | 2008 | ANUAL | NÚMERO CINCO 4 4 Margarida Mouta | Licenciada em Filologia Românica e Docente Património tangível, memórias intangíveis presidente do conselho de administração 130 anos animados e imortalizados por gestos, palavras, vozes e rostos. Exposição no Museu dos CTT, nas Picoas. Ao centro, Maria da Glória Firmino, 19??, acervo iconográfico da FPC. JOSÉ LUÍS C. ALMEIDA MOTA cado,aquele que lhe calçava que nem uma luva,dado o seu gosto pela «...e aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando.... História e pelo ensino. Cantando espalharei por toda a parte...» Escutando a Dr.a Maria da Glória e de mãos dadas com a Dr.a Alva, res- Luís de Camões, Lusíadas, canto I. surgirmos e partilhamos construtos construídos e a construir : Património tangível, memórias intangíveis 130 anos animados e imortalizados por gestos, palavras, vozes e rostos 130 anos... «...se hace camino al andar.» R eiteramos e seguimos o propósito do poeta, não deixando apa- António Machado gar para o futuro, memórias, vozes e rostos. Em diversos contex- Poeta espanhol Margarida Gírio Mouta tos,mas sobretudo no da museologia,sabemos que os legados de sabe«Não é possível ignorar que a história do correio e, de imediato, a das res são importantes e únicos,e que toda a caminhada de volta ao pas- director sado tem reflexos imediatos no futuro. telecomunicações estão intrinsecamente ligadas à história da civilização. Algumas palavras... pendentemente de serem naturais ou políticas. As comunicações vencem o obstáculo de quaisquer fronteiras, indeConhecer e ouvir a Dr.a Maria da Glória Firmino, terceira conservadora A institucionalização do correio surge em finais do século XVIII. A par- do Museu dos CTT, é um privilégio a partilhar. tir deste momento, nasce uma nova história. A história contada é Em situações formais, nas reuniões dos Amigos do Museu, ou num como nos relata Godofredo Ferreira, nasça a ideia da criação e cons- referenciada com objectos museológicos. Daí que um século depois, ISABEL SANTIAGO simples «olá, como está?», encontros do aqui e do agora, é sempre tituição de um Museu Postal e com ela o simples gesto de seleccionar um deleite ouvi-la . Mais do que fazer notícia, reportagem ou crónica e preservar objectos em uso na Empresa.» Alva Santos in Códice do que ouvimos e cumplicemente experienciámos, não conseguindo Do Museu Postal ao Museu dos CTT registar o que ouvimos e sentimos,as emoções vivenciadas e partilhadas, aqui depomos e ofertamos algumas das suas estórias, histórias e 4 Em Portugal, a primeira referência a um museu do correio foi sugerida, em instrucções enviadas à Direcção Regional dos Correios e Pos- memórias: tas do Reino pelo Ministro das Obras Públicas, a Guilhermino Barros, Primeiro Director Geral dos Correios Telégrafos e Faróis ( 1877-1893), e, « ... comecei, com pés de lã, a ler relatórios e a ir ao passado...» dizia que « consignavam que a Direcção Geral dos Correios forcejaria coordenação editorial Foi em 1953 que ingressou nos serviços do Museu, a pedido do seu por ir criando a Biblioteca e museus postais» . chefe, Dr. António Mora Ramos. Embora tivesse sido admitida nos CTT Importante é mencionar que, de acordo com o primeiro relatório de em 1944, pouco ou nada sabia do Museu, mas não teve dúvidas que, gerência 1877-1878 ,Guilhermino de Barros afirmou que o museu foi ini- de todos os serviços possíveis nos CTT,seria o museológico o mais indi- cialmente dotado de um primeiro núcleo de trinta peças que se pre- RITA SEABRA assessoria RITA SACRAMENTO MONTEIRO colaboraram neste número 18 A usabilidade educativa dos museus de empresa, enquanto centros de ciência e tecnologia Novas perspectivas didácticas. 18 Joel de Almeida | Licenciado em Comunicação Multimédia, Doutorando em Ciências da Educação, Santiago de Compostela A usabilidade educativa dos museus de empresa, enquanto centros de ciência e tecnologia Novas perspectivas didácticas Algumas paragens nas paisagens percorridas pela intervenção pedagógica do Serviço Educativo do Museu das Comunicações. ANTERO DE SOUSA Algumas paragens nas paisagens percorridas pela intervenção pedagógica do Serviço Educativo do Museu das Comunicações Sala de exposição permanente do Museu dos CTT, na Rua D. Estefânia, Lisboa, acervo iconográfico da FPC. ALFREDO ANCIÃES ISABEL VARÃO JOEL DE ALMEIDA JÚLIA SALDANHA MARGARIDA GÍRIO MOUTA direcção gráfica LUÍS SOARES, PAULO FRÓIS Pontos de vista uma visão heurística construtivista, hermenêutica positivista da cultura científica ciência e técnica voltadas para a interpretação do sentido das men- Visão heurística, enquanto ciência que tem por objecto a descoberta método de comunicação, o esclarecimento das coisas no seu contex- comunicação, das notícias, daí o termo hermenêutica como a arte, a sagens, das palavras, dos signos e do seu valor simbólico; enquanto de factos; o ramo da história voltado para a pesquisa de fontes docu- to;assim,também relacionamos a hermenêutica com a semiologia e/ou mentais; um método de investigação baseado na aproximação pro- a semiótica. Neste âmbito, relevamos a importância da cognição, da busca do apreender a essência e compreensão das coisas; a necessi- gressiva a um dado problema com vista à sua (re)solução; uma metodologia educacional que consiste em fazer descobrir pelo educando dade de percepcionar a (in)formação da ciência com e/ou a tecnolo- o que se lhe quer ensinar. gia de uma forma esclarecedora e amigável. Visão construtivista, enquanto teoria sobre a produção social do Visão positivista enquadrada em duas perspectivas:por um lado,o méto- conhecimento; entende que o ser humano aprende motivado por do geral do positivismo de Auguste Comte, que consiste na observa- 18 uma necessidade real, por meio de interacções com os vários objectos ção dos fenómenos,subordinando a imaginação à observação;Comte do conhecimento; contrapõe-se radicalmente ao ensino pela repeti- definiu a palavra «positivo» com sete acepções: real, útil, certo, pre- ção exaustiva.O aluno deve ser o protagonista do próprio processo cog- ciso, relativo, orgânico e simpático; o conceito de «simpático» impli- nitivo; perante estímulos externos, deve agir sobre eles para cons- ca afirmar que as concepções e acções humanas são modificadas truir e organizar o seu próprio conhecimento, de forma cada vez mais pelos afectos das pessoas (individuais e colectivos); Comte indicou a elaborada e experimentada. subjectividade como um traço característico e fundamental do ser Visão hermenêutica, segundo a mitologia grega: Hermes era o deus humano,que deve ser respeitado e desenvolvido.Comte explicitou ainda mensageiro, o arauto intérprete da vontade dos deuses; deus da que um espírito positivo é maior e mais importante que a mera cien- 52 Alfredo Anciães | Licenciado em História e pós-licenciado em Bibliotecas; Arquivos; Museologia e Gestão do Património. Património museológico de telecomunicações: criação e gestão em contexto Joel de Almeida 52 52 Património museológico de telecomunicações: criação e gestão em contexto Conselheiro e director dos Telégrafos – Guilhermino Augusto de Barros, acervo iconográfico da FPC. paginação DUPLADESIGN, LDA 1. A criação então chamado Museu Postal que, como acima referimos, era pre- Em 1878,os Correios Telégrafos e Faróis deram início ao projecto de cria- dominantemente de telegrafia, ou seja, de telecomunicações. ção de um museu, tal como se depreende do relatório de Guilhermi- A relação entre a biblioteca (que ao tempo englobava também documentação de arquivo) e o museu apontava já um interesse didáctico no Augusto de Barros:«Quanto à Biblioteca e Museu Postal procurarei ir coligindo quanto lhe respeita e for possível obter, compenetrando- e científico para o sector das comunicações. Porém,a vertente român- me do pensamento civilizador que inspira tal lembrança» (Barros, tica da altura, embora criativa, começou a ceder a outras preocupa- 1878) 1. Porém, este projecto de Museu Postal, assim era designado, ções. Em 1886, surgiu a questão do «mapa cor-de-rosa» e a crise tratava também de telecomunicações e sinalização costeira 2. Este relacionada e, em 1890, o «ultimato inglês». momento do início de um museu, em 1878, foi uma acção meritória, De ora em diante, os investimentos públicos não imediatamente ren- preconizada pelo ministro das «Obras Publicas, Comercio e Indus- táveis iriam ficar condicionados. Assim, o museu da actividade de Cor- Alfredo Anciães reios Telégrafos e Faróis permaneceu sem visibilidade durante déca- tria» João Guarberto de Barros, em 1877. Classificamos, porém, este das, o que justificará a falta de documentação técnica, como catá- primeiro acto de «cariz romântico» em conformidade com a menta- logos, desenhos, fotografias, planos e relatórios que demonstrem a lidade da época e que se terá extinguido nas décadas seguintes. evolução do museu entre os anos 80 do século XIX e os anos 30 do sécu- Assim se explica a chegada ao século XX e inclusivamente o ano de 1934 lo XX. sem documentação relevante que ateste a evolução do museu,exceptuando ligeiras notas de que são exemplo o capítulo «Melhoramen- 2. Refundação tos e emprehendimentos» do Relatório Postal de 1877-1878. fotografia JOSÉ CARLOS ALEIXO Este museu foi inicialmente dotado de um primeiro núcleo de 30 Após o longo período de falta de visibilidade, Godofredo Ferreira 4 veio peças 3 que se presume serem na quase totalidade de telecomunica- em 1934 relançar a ideia do Museu dos CTT, chegando a sua sugestão ções. Com efeito, analisando os registos antigos, começando pelo ao correio-mor Luís de Albuquerque Couto dos Santos. A sugestão número um e até ao trigésimo, verificamos que das trinta peças ini- foi bem acolhida. O Sr. correio-mor despachou favoravelmente a pro- ciais, vinte e duas são de telegrafia eléctrica. Foi reservado para estas posta, nomeando o chefe de divisão Godofredo Ferreira para traba- peças um pequeno móvel, o que denota um interesse do tipo «gabi- lhar no sentido de «encarar-se rapidamente a efectivação da criação nete de curiosidades», ainda ao jeito do século XVIII. Não obstante, [que na realidade foi uma recriação ou refundação] do museu» 5. este embrião de museu surge-nos associado a um órgão afim - a Não obstante a corrente favorável à criação de museus no início do biblioteca, também instalada num móvel igual ao do património Estado Novo,juntamente com a acção de Godofredo Ferreira,o Museu museológico. dos CTT só voltou a ter existência oficial,não em 1934 conforme as indi- Os dois móveis ainda se encontram etiquetados e preservados no patri- cações do Sr. correio-mor,mas sim em 1947. Entretanto,Godofredo Fer- mónio museológico da Fundação Portuguesa das Comunicações e reira iniciou uma acção tão urgente quanto meritória, de recolha de testemunham o core memory ou o primeiro cartão de identidade do documentação histórica. Em 1947,a par da refundação do museu, ins- MADALENA ALEIXO pré-impressão, impressão e acabamento TEXTYPE, ARTES GRÁFICAS, LDA Estrada de Benfica, 212 A, 1500-094 Lisboa 68 O Museu dos CTT 68 Antero de Sousa | Antigo Conservador do Museu dos CTT O Museu dos CTT Antero de Sousa Palestra profissional, acervo do arquivo histórico da FPC. sede de redacção Rua D. Luís I, 22, 1200-151 Lisboa E administrador-geral a concretização do museu que Guilhermino de -mor Eng.Couto dos Santos nestes termos:«Foi por proposta de V.Exa. ção-Geral dos Correios, Telégrafos e Faróis. que S. Exa. o Ministro das Comunicações se dignou criar o Museu dos O palestrante,ao fazer uma ronda pelos museus congéneres já em fun- m palestra proferida em Outubro de 1949, o primeiro conservador do Museu dos CTT,Dr. Mário Gonçalves Viana,dirigiu-se ao correio- Barros congeminara no século XIX,quando os Correios passaram a Direc- Correios, Telégrafos e Telefones, velha aspiração deste organismo, cionamento, apresenta a experiência do museu dinamarquês, que mas aspiração que, há longos anos, não passava de um vago sonho, chegou à conclusão de que «era necessário percorrer as estações do (...)» país, à procura de objectos de interesse para o Museu. (...) É que só os Esta palestra, a n.0 61 das Palestras Profissionais que periodicamen- Conservadores sabem o que lhes interessa (...)». te reuniam o pessoal dirigente superior dos CTT,quase sem excepções, E, considerando a selecção do material para o Museu dos CTT, inter- para darem comum testemunho das várias áreas de actividade come- roga-se se «deverá um museu postal recolher «em espécime» todos os objectos que lhe digam respeito? A admitir resposta afirmativa tidas à Administração-Geral, serviu para o conferencista apresentar a sua visão do Museu em geral e daquilo que o Museu dos CTT deve- para esta pergunta, qualquer museu da categoria do nosso se trans- ria vir a ser. Consciente das dificuldades que iria encontrar, diz mais à formaria numa ... Babilónia! Não haveria espaço que chegasse para «recolher» todas as coisas utilizadas nos Correios, Telégrafos e Tele- frente que «um museu que se organize traz consigo um número infi- fones: ambulâncias postais, barcos postais, mobiliário, postos emis- nito de assuntos a resolver, que pouca gente estará em condições de sores, furgonetas, etc.» avaliar, com justeza, à primeira vista. (...) com muito mais razão pode Afinal, parece que tudo seria muito mais simples. Embora a uma dis- fazer-se tal afirmativa acerca de um Museu dos Correios, Telégrafos propriedade FUNDAÇÃO PORTUGUESA DAS COMUNICAÇÕES Rua D. Luís I, 22, 1200-151 Lisboa tância considerável em tempo, em Março de 1955, os Serviços Cultu- e Telefones. Com efeito, ele não é um museu de arte, não é um museu rais dos CTT editam,sob o título «Museu dos CTT» e subtítulos ordem industrial, não é um museu etnográfico, não é um museu técnico, de serviço N.o 5501,1, Regulamento do Museu dos CTT, o que iria ser o não é um gabinete de estampas, não é um gabinete de fotografias, não é um gabinete de moedas, não é um museu de mobiliário, não é Museu dos CTT, quais seriam os seus sectores (o que implica que acer- um museu histórico, mas participa de todas estas modalidades e tem vo teria), quais os serviços que comportaria, com que pessoal funcio- de obedecer, em cada uma delas, às técnicas respectivas. Nisto resi- naria e quais as respectivas funções, que horário praticaria ... de a sua dificuldade.» Indicando-se aqui serviços como os de Secretaria, Inventariação,Téc- nicos e de Conservação, apenas o pessoal da Secretaria é especificado, pois «Os Serviços de Secretaria são desempenhados por pessoal Estava-se nesse momento em fase de arranque da instituição, os pri- do quadro administrativo (...)». meiros passos destinavam-se a juntar as peças que tinham sido guar- Nada é esclarecido quanto a classificação,inventariação e registo,ser- dadas desde o célebre relatório de Guilhermino de Barros,peças desen- viços técnicos,serviços de conservação (para utilizar a terminologia do cantadas por Godofredo Ferreira e base que lhe serviu para propor ao Regulamento citado). NIPC: 504 166 255 editor FUNDAÇÃO PORTUGUESA DAS COMUNICAÇÕES, 68 A fazermos fé nestas afirmações, pesando tudo o que um Museu dos Correios,Telégrafos e Telefones não era,o que viria a ser um tal museu? 76 Júlia Saldanha | Licenciada em História (UC). Arquivista (UC). António Rodrigues da Luz Correia Um percurso singular, 1925-2008 ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO E IMAGEM escultura de Luz Correia, acervo da FPC. Biografia In memoriam Oriundo de uma classe média do Portugal do século XX descapitalizado depósito legal «Uns têm uma personalidade mais espacial, outros uma personali- e com crises políticas constantes,enfrentou as dificuldades económicas dade mais temporal. da grande maioria da população,colmatadas por um tipo de instituições Estaria aqui a distinção entre heróis e artistas?» que os impérios coloniais tecem, as militares e para-militares. Novalis, Fragmentos Luz Correia não fugiu à regra e entre 1937 e 1968 adquire a sua formação, É e cumpre a sua vocação na Escola de Belas-Artes do Porto, concluin- 76 António Rodrigues da Luz Correia Um percurso singular, 1925-2008 Júlia Saldanha frequentando durante dez anos o Instituto dos Pupilos do Exército, com este tipo de inquietações que iniciamos a tentativa de abor- do o curso de Escultura. dagem à personalidade de Luz Correia, patente no seu percur- so profissional, e os múltiplos e diversificados testemunhos que dei- O pedagogo. Ensinar brincando 76 xou. 125 540/98 Detentor de uma carácter forte, muitas vezes polémico, Luz Correia «A criança é sempre um mundo por conhecer.» é simultaneamente tímido e modesto na sua afirmação artística, pro- Luz Correia, Garatujas vavelmente fruto da sua dupla formação científica e artística. Entre a psicologia, a escultura e a medalhística, todos estes mundos Num dos seus primeiros cruzamentos de vida, Luz Correia ao ingres- formais foram utilizados, por vezes simultaneamente para preencher sar na Escola Industrial da Póvoa do Varzim, revelou de imediato a sua o seu espírito de «fazedor», na acepção borgeana do termo. sensibilidade e espírito artístico inovador ao fundar em 1951 o Centro Dir-se-ia que o Luz Correia que alguns de nós tivemos o privilégio de Artístico Infantil, CAI, para aí observar o que as crianças entre os 10 conhecer na sua multiplicidade artística atravessa o universo dico- e 14 anos pintavam e «ensinar brincando». Mais tarde promove uma tómico do século XX e as caóticas incertezas dos primeiros anos do issn 0874-2901 exposição destes trabalhos na Póvoa do Varzim. século XXI, tentando interpretar sob uma luz muito própria o mundo Como bolseiro do SNI, promove a exposição «O que é arte infantil», e o os seus contemporâneos, legando a todos nós os testemunhos largamente noticiada na imprensa da época. da suas inquietações. Ele próprio relata este período: Ferro, bronze, vidro, quais elementos da pedra filosofal, são os mate- «Em 53-54, ... obtive uma bolsa da Administração das Minas do Pejão, riais de eleição, na sua expressão artística, que com mestria traba- onde estagiei 6 meses. Consegui que os mineiros dos 20 aos 60 anos lha desde a medalha de dimensões reduzidas à arte urbana de gran- desenhassem e pintassem. Para além do documentário fotográfico, de volumetria. teve lugar uma grande Exposição do SNI «Arte de Crianças e Adultos», Poderemos afirmar sem sombra de dúvida que durante o seu percurso que obteve assinalável êxito, na comunicação social e no público.» 1 de vida tentou aproximar-se com algum êxito a «sabedoria», no sen- A esta exposição largamente ilustrada no magazine O Século Ilustrado, tido alquímico do conceito. refere-se o filósofo e pedagogo Delfim Santos: «... documenta pro- tiragem 1500 EXEMPLARES Códice é uma publicação registada sob o número 122 468 84 84 Isabel Varão | Licenciada em História (UL), Pós-Graduada em Ciências Documentais (UL) A Biblioteca da Fundação Portuguesa das Comunicações: uma questão de património A Biblioteca da Fundação Portuguesa das Comunicações: instalação inicial no 1º andar. O princípio... capa e verso da contra-capa: «passarola e mala posta» painéis de azulejos da autoria de Rosário da Silva, produzidos na fábrica «Viúva Lamego», acervo da FPC. www.fpc.pt se ficou a dever, aliás, a introdução do ensino da electrotecnia em O Relatório do Anno Económico 1877-1878 da autoria do Dr. Guilhermi- Portugal, foi reunindo vasta bibliografia sobre telegrafia, engenha- no Augusto de Barros declara, a dado passo 1, que se criou um Museu ria electrotécnica, telefonia e tracção eléctrica, bem como revistas Postal, dotando-o com trinta objectos e que a Biblioteca foi enrique- da especialidade. cida com quatrocentos volumes. Na nova Organização dos Correios,Telégrafos,Telefones e Fiscalização É este o momento fundador que assinala o início da existência destas das Indústrias Eléctricas de 1911, a Biblioteca reaparece em anexo ao duas instituições, tão profundamente ligadas, associando-as ao entretanto criado Laboratório Electrotécnico, e nela é incorporada a desenvolvimento dos serviços postais que, por esta época, conhece- bibliografia de Paulo Benjamim Cabral, além de se tornar obrigatória ram um período particularmente inovador. a recolha de regulamentos, instruções e demais legislação. É, pela pri- Já em 1877, o ministro das Obras Públicas, João Gualberto de Barros e meira vez, nomeado um bibliotecário, João Gualberto do Nascimento Cunha,que tutelava os Correios e Postas do Reino,dava instruções no Pires,substituído no ano seguinte por Joaquim Chagas,que empreen- sentido de se envidarem esforços para a sua criação.E assim se fez,com de um esforço de sistematização da colecção, sendo publicado o pri- o concurso abnegado do conceituado editor David Augusto Corazzi, meiro catálogo onomástico das 3500 obras já então existentes. que era simultaneamente oficial da Administração do Correio de Lis- A Biblioteca, até então instalada no Terreiro do Paço, junto do gabi- boa. Este editor ofereceu os primeiros vinte e nove exemplares da nete do inspector-geral acompanha, em meados de 1912, a mudança Biblioteca Postal, conjunto formado por obras de Júlio Verne e Mayne- dos restantes serviços centrais para a Rua de S. José, 20, sendo colo- Reid. Embora não se enquadrasse nos objectivos de apoio técnico- cada, numa primeira fase, nas antigas cozinha e copa do Palácio profissional que estiveram na base da criação da Biblioteca, o seu Sousa Leal,e posteriormente remetida para a antiga cavalariça do palá- contributo foi aceite pelo Dr. Guilhermino de Barros que lhe enco- cio. menda a edição do «Repositório Mensal de documentos da Direcção No entretanto, em 1920, o Decreto 6822 de 10 de Agosto aprova o pri- Geral de Correios»,instrumento que se tornou fundamental para a uni- meiro Regulamento da Biblioteca, elaborado por uma comissão che- formização da prestação de serviço postal e cujo primeiro número sai fiada por Manuel Pinto de Melo,com contributo determinante de Joa- logo em Janeiro de 1879. quim Chagas e Godofredo Ferreira, então 3o oficial dos Correios. Sabemos que após este entusiasmo inicial e a unificação entre Correios Os anos trinta do século XX e inícios da década seguinte foram mar- e Telégrafos promovida pela Reforma de 1880, que coloca a guarda e cados por um certo apagamento, situação que veio a ser alterada a arrumação da Biblioteca sob a responsabilidade da 1a Secção da Secre- partir de 1945, com o contributo de Amália Duarte dos Santos Ferrei- taria da Direcção-Geral dos Correios, Telégrafos e Faróis, se faz silên- ra.Trata-se da filha de Godofredo Ferreira, ele próprio bibliotecário de cio sobre a sua existência. formação, cujos contributos directos ou indirectos originaram a cons- Entretanto, Paulo Benjamim Cabral, inspector-geral dos Telégrafos tituição de um importante património cultural,base dos actuais Arqui- entre 1888 e 1910, eminente professor do Instituto Industrial a quem vo Histórico e Biblioteca da Fundação. Amália Ferreira conseguiu a 84 A Biblioteca da Fundação Portuguesa das Comunicações: Uma questão de património Isabel Varão José Luís C. Almeida Mota | Presidente do Conselho de Administração da Fundação Portuguesa das Comunicações editorial A Códice tem sido, ao longo dos últimos anos, repositório fiel de enorme visão, sem as quais seria impossível passar o nosso testemu- investigação conduzida por especialistas no âmbito da História nho de hoje ao público que nos visita. das Comunicações nacionais ou até, de modo mais lato, da Comuni- Mais de 500 anos de História fazem os milhares de pequenas histó- cação e a forma como esta mudou o nosso mundo. rias que são a nossa memória colectiva do Sector. Essas pequenas his- O objectivo da Fundação foi utilizar a revista para, de forma coleccio- tórias só chegaram até nós pelo empenho de colaboradores e diri- nável e perpetuável, disponibilizar informação e conhecimento sobre gentes que fizeram questão de guardar para a História o que de temáticas cuja preservação e divulgação fazem parte da nossa Mis- importante se foi passando ao longo dos tempos, com vista a uma par- são e razão de existir. tilha com as gerações vindouras de um presente feito passado pelo cor- Nesta edição, o grande tema é esta actividade que é a nossa, porque rer dos anos. ela existe e tem uma História e várias histórias ligadas às empresas e Este número da Códice é uma homenagem a estes homens e estas aos colaboradores das empresas nacionais. mulheres que tornaram possível a nossa existência, hoje. E espelha tam- A História da fundação da biblioteca e as várias tentativas de activi- bém a nossa vontade de fazer perpetuar na História a memória de quem dade museológica que vieram a originar o nosso Museu das Comuni- possibilitou que não se perdesse, até hoje, a memória do Sector em Por- cações constituem um passado de iniciativa individual e colectiva de tugal. 4 Maria da Glória Pires Firmino, recolha biográfica de Margarida Gírio Mouta | Licenciada em Filologia Românica e Docente Património tangível, memórias intangíveis 130 anos animados e imortalizados por gestos, palavras, vozes e rostos. Exposição no Museu dos CTT, nas Picoas. Ao centro, Maria da Glória Firmino, acervo iconográfico da FPC. «...e aqueles que por obras valerosas cado, aquele que lhe calçava que nem uma luva, dado o seu gosto pela se vão da lei da morte libertando.... História e pelo ensino. Cantando espalharei por toda a parte...» Escutando a Dr.a Maria da Glória e de mãos dadas com a Dr.a Alva, res- Luís de Camões, Lusíadas, canto I. surgirmos e partilhamos construtos construídos e a construir : 130 anos... «...se hace camino al andar.» R eiteramos e seguimos o propósito do poeta, não deixando apa- António Machado gar para o futuro, memórias, vozes e rostos. Em diversos contex- Poeta espanhol tos, mas sobretudo no da museologia, sabemos que os legados de saberes são importantes e únicos, e que toda a caminhada de volta ao pas- «Não é possível ignorar que a história do correio e, de imediato, a das sado tem reflexos imediatos no futuro. telecomunicações estão intrinsecamente ligadas à história da civilização. As comunicações vencem o obstáculo de quaisquer fronteiras, inde- Algumas palavras... a pendentemente de serem naturais ou políticas. Conhecer e ouvir a Dr. Maria da Glória Firmino, terceira conservadora A institucionalização do correio surge em finais do século XVIII. A par- do Museu dos CTT, é um privilégio a partilhar. tir deste momento, nasce uma nova história. A história contada é referenciada com objectos museológicos. Daí que um século depois, Em situações formais, nas reuniões dos Amigos do Museu, ou num como nos relata Godofredo Ferreira, nasça a ideia da criação e cons- simples «olá, como está?», encontros do aqui e do agora, é sempre tituição de um Museu Postal e com ela o simples gesto de seleccionar um deleite ouvi-la . Mais do que fazer notícia, reportagem ou crónica e preservar objectos em uso na Empresa.» Alva Santos in Códice do que ouvimos e cumplicemente experienciámos, não conseguindo registar o que ouvimos e sentimos, as emoções vivenciadas e partilhadas, Do Museu Postal ao Museu dos CTT aqui depomos e ofertamos algumas das suas estórias, histórias e Em Portugal, a primeira referência a um museu do correio foi sugeri- memórias: da, em instrucções enviadas à Direcção Regional dos Correios e Postas do Reino pelo Ministro das Obras Públicas, a Guilhermino Barros, « ... comecei, com pés de lã, a ler relatórios e a ir ao passado...» Primeiro Director Geral dos Correios Telégrafos e Faróis ( 1877-1893), e, dizia que « consignavam que a Direcção Geral dos Correios forcejaria Foi em 1953 que ingressou nos serviços do Museu, a pedido do seu por ir criando a Biblioteca e museus postais» . chefe, Dr. António Mora Ramos. Embora tivesse sido admitida nos CTT Importante é mencionar que, de acordo com o primeiro relatório de em 1944, pouco ou nada sabia do Museu, mas não teve dúvidas que, gerência 1877-1878 ,Guilhermino de Barros afirmou que o museu foi ini- de todos os serviços possíveis nos CTT, seria o museológico o mais indi- cialmente dotado de um primeiro núcleo de trinta peças que se pre- 7 Palácio dos Condes de Valadares, no Largo do Carmo, em Lisboa, acervo iconográfico da FPC. Godofredo Ferreira, acervo iconográfico da FPC. sume serem na quase totalidade de ção-Geral. Em 1887, a Direcção-Geral telecomunicações. mudou-se para o Terreiro do Paço e aí se A esse tempo, a Direcção-Geral dos Cor- manteve até 1912 . reios estava instalada no edifício da Cal- A terceira mudança ocorreu em 1919. çada do Combro, no Palácio dos Mar- O Museu, criança ainda, é deslocado queses de Olhão, local onde, de 1799 a para o Convento das Trinas, ficando a 1880, funcionou o Correio Geral. Foi aqui, cargo da «Verificação Técnica de Ma- com o Dr. Guilhermino Augusto de Bar- terial». Iniciam-se procedimentos que ros, então primeiro director-geral dos privilegiam a organização e a conser- Correios Telégrafos e Faróis (1877-1893), vação dos aparelhos, instrumentos e que nasceu o «Museo do Correio». acessórios, em uso e fora de uso, empre- O Relatório Postal/Anno Económico de gados nos serviços de correios, telégra- 1877-1878 refere: «Dotou-se a biblio- fos e telefones. Porém, quando alguns theca do correio com 400 volumes» e serviços saíram do Convento das Trinas, «Dotou-se o museu postal com 30 objec- deu-se a quarta mudança. O Museu foi, tos…». Os trinta objectos, o embrião então, deslocado para a Rua Mousinho do Museu, foram arrumados numa das da Silveira, onde ficou abandonado. estantes existentes, que foi brasona- Muito embora na cerimónia da posse do da com a designação «Museo do Cor- primeiro conservador o correio-mor refe- reio». risse «o que está na casa da Rua Mou- Tinha nascido o Museu dos CTT. Este foi, sinho da Silveira, foi cuidado e ordena- sem dúvida, o seu embrião, o seu pri- do e articulado, há anos», só com a meiro acervo histórico-documental. Já intervenção do inspector Ataíde se era um ente, mas sem casa. Só com andaimes na casa por construir, começou a ordenar o material do Museu. teve de lutar para crescer. Qual criança enjeitada, andou de mão em No ano de 1934 começa a reorganização do Museu. Godofredo Ferreira, mão. investigador e cronista da história dos CTT, inicia a primeira recolha metó- A unificação dos Serviços do Correio e Telégrafo impôs a transferência dica do material para o Museu e começa a sua inventariação. Todavia, deste acervo histórico documental, em 1880, para o Palácio dos Con- Godofredo Ferreira não se fica por aí e sugere ao então correio-mor Couto des de Valadares, junto do Convento do Carmo. Daí que, de 1880 a 1887, dos Santos a viabilidade do Museu. A sua sugestão foi de tal modo aco- a o Museu ficasse a cargo da 4 Repartição ( Telégrafos) da nova Direc- lhida, com um entusiasmo tal, que Godofredo Ferreira foi nomeado chefe 8 Mário Gonçalves Viana, primeiro conservador chefe do Museu dos CTT, no seu gabinete na rua de São Mamede ao Caldas, Lisboa, 1949, acervo iconográfico da FPC. Telégrafos em exposição no Museu dos CTT, na rua de São Mamede ao Caldas, Lisboa, 1949, acervo iconográfico da FPC. de divisão para trabalhar no sen- deslocado para S. Mamede ao tido de «encarar-se rapida- Caldas. Só tinha duas pessoas a mente a efectivação da criação si adjudicadas, no entanto fun- do museu». cionava muito bem, graças ao Diz-nos a terceira conservadora, empenhamento de seres extra- a Dr. Maria da Glória Firmino, que ordinários, como, por exemplo, o a investigação de Godofredo pai do engenheiro Maia Ataíde Ferreira e a publicação dos seus que ía lá orientar, o funcioná- trabalhos constituíram uma rio da portaria, um senhor des- base tão poderosa para a vida tacado, que tinha sido cartei- do Museu que, mesmo após os ro/monitor, e que era fantás- curtos períodos de trabalho do tico a fazer visitas, isto é, «um primeiro (1947 a 1952) e segundo homem, da parte postal, que conservadores ( 1952 a 1958), fazia visitas guiadas!» e, tam- continuaram a alimentar o seu bém os contínuos. Lembram-se crescimento. do Rufino? – «O Rufino ficou li- No entanto, apesar de o correio- gado às coisas do Museu». Mas -mor, em 1934, ter referido a não esqueçamos que nestas efectiva criação rápida do instalações ainda trabalhou, Museu, e de este ter sido criado entre outros, o inspector Ataíde em 1878, depressa ficou, novamente, pendente ou esquecido. Ainda que, segundo informação do correio-mor, já tinha começado a orde- que a política inicial do Estado Novo fosse favorável à criação de nar e articular todo o material depositado na casa da Rua Mouzinho museus, este só voltou a ter existência oficial em 1947. da Silveira. Em simultâneo com a refundação do museu, institui-se, pela primei- O espaço estava ainda longe de se ajustar aos conteúdos, aos objec- ra vez, o cargo de conservador chefe, e o Dr. Mário Gonçalves Viana foi tos e, em 1954, sendo segundo conservador o Dr. Mora Ramos (1952- nomeado primeiro conservador (1947/1952). -1958), o Museu mais uma vez muda de casa, e vai, então, para a Ave- No tempo do primeiro conservador, o Dr. Mário Gonçalves Viana, os nida Fontes Pereira de Melo. museus desempenhavam um importante papel na cultura portu- O Dr. Mora Ramos não pára. Era, diz-nos a Dr.a Maria da Glória Firmino: guesa. Era, por consequência, urgente uma nova mudança (1947). «um chefe dinâmico e cheio de entusiasmo pelo seu mister, pois, além Assim, e na perspectiva de crescimento do Museu, todo o material foi da sua competência como professor, tinha, sempre, um sentido prá- 10 Museu dos CTT, nas instalações da Avenida Fontes Pereira de Melo, década de 50, acervo iconográfico da FPC. tico para o objectivo mais idea- sos antecessores... não poderá lizado». Transfere, da primiti- ela jamais afectar o nosso dever! va e acanhada instalação do Isto é, faremos o que puder- Museu em S. Mamede ao Caldas mos, quando pudermos!» para a Avenida Fontes Pereira A Mora Ramos se deve, tam- de Melo, o diminuto pessoal e bém, o aparecimento, em 1955, material, aumentando-o rapi- do primeiro regulamento do damente. Prepara o Sector Pos- Museu dos CTT, onde são bem tal das Picoas. Aí reconstitui evidentes as suas capacidades uma estação dos CTT, pois uma organizativas e visão prática CTF, como dizia Mora Ramos, dos objectivos a atingir e a cum- «representa o aspecto mais prir. importante da história da Não podendo conciliar a sua carta», e cria um espaço para actividade de professor com a o Sector Telegráfico e Telefóni- de chefe do Museu, pediu a exo- co da Rua Castilho. «Os seus neração deste cargo em 1958. ideais e a sua maneira de ser Estas suas palavras são a evi- estão bem patentes na pales- dência do seu saber multiface- tra profissional que proferiu em tado: 1955, subordinada ao tema “O «Se é certo que o Museu dos Valor Psico-Pedagógico de um CTT já ultrapassou a sua fase Museu Profissional”». embrionária, não é menos certo Importa também salientar o apoio decidido e recebido do correio- que apenas começa agora a definir os seus contornos e que o cami- -mor, Couto dos Santos, que permitiu e incentivou o desenvolvimen- nho ainda a percorrer é árduo e difícil» Mora Ramos, Palestra... 1958 to do Museu. A meta que este pretendia alcançar é evidente nas palavras proferidas a 26 de Maio de 1954: Do Museu dos CTT ao Museu das Comunicações «Só poderemos ficar de bem com a consciência quando tivermos com- Em 1962 procede-se a mais uma mudança de instalações. Os objectos pletado a representação de tudo quanto hoje serve os CTT. E essa é a e todo o material são transferidos para o Palacete Henrique Seixas, na nossa obrigação. Como amanhã será dos nossos sucessores! Quanto Rua D. Estefânia, 162. É então terceira conservadora a Dr.a Maria da Gló- à representação das épocas passadas... obrigação esquecida pelos nos- ria Firmino (1959-1986). O Museu, instalado e inaugurado em 1967, já 13 Sala da exposição permanente do Museu dos CTT, na Rua D. Estefânia, Lisboa, acervo iconográfico da FPC. Fachada do Museu dos CTT, na Rua D. Estefânia, Lisboa, acervo iconográfico da FPC. arquitectado, um construto construído e a construir pelos que lá vivem No que concerne ao Museu dos CTT da Estefânia, há que referir que, e trabalham, é encerrado em 1987. no 2o andar do edifício, sala das exposições temporárias, Luís Trindade é o autor das bases das miniaturas de edifícios dos CTT e das minia- Pequenas histórias da grande história do Museu turas de transportes postais. Também são da sua autoria, na galeria «O Museu dos CTT, instalado em 1967, deve grande parte da sua mon- utensílios, pequenos auxiliares das operações postais. Neste 2o andar, de acessórios postais, as vitrinas para exposição de balanças e outros tagem a Luís Trindade. Excluindo os além da estação de CTF, havia também sectores telegráficos e telefónicos, a sala dos diagramas e a colecção entregues aos respectivos profissio- montada e ilustrada por Luís Trindade. nais, pode dizer-se que o auxílio de Porque o seu talento para o desenho Luís Trindade esteve presente nos era já bastante conhecido quando o suportes indispensáveis à apresen- Museu abriu ao público em 1967, em tação ao público das muitas colec- 1968, com o concurso do artista, con- ções que o Museu possuía. seguiu realizar, numa sala do r/c, uma Importa relembrar que este membro exposição temporária dedicada aos dos CTT, oriundo da Madeira, prestou desenhos de Luís Trindade.» M. G. Fir- inicialmente serviço numa CTF da ilha mino da Madeira e apresentou, em 1957, Conduzidos pela Dr.a Maria da Glória, no concurso de texto para o Caderno revisitámos o Museu, abrimos portas Profissional sobre serviço de balcão, e janelas, afastámos cortinados, e uma obra plena de humor, nascida do encontrámo-nos com uma série de contacto com o público e imortaliza- pessoas fundamentais, pilares impres- da em desenhos pertinentes. Obteve cíndíveis na edificação da Casa que o primeiro prémio com Trezentos Dias hoje somos – Fundação Portugesa das ao Postigo. Quando veio para o Museu, Comunicações – Museu das Comuni- além de auxiliar na montagem de mui- cações. tas colecções, de ilustrar, com os seus A sua voz, inefável mas audível, ecoa desenhos, muitas salas, colaborou, e permanece no tempo: ainda, em muitas exposições fora do «...comecei com pés de lã a fazer rela- Museu. tórios e a ir ao passado...». 14 Painel patente no Museu dos CTT na Rua D. Estefânia, Lisboa, acervo iconográfico da FPC. Visionária consciente de que «não existe Museu sem colecção e todo a ca, se traduziam na respeitabilidade pela história e seus interve- o percurso cultural do Museu é todo o Museu», a Dr. Maria da Gló- nientes, exigindo aos intervenientes, enquanto portadores de ria depressa percebeu que o Museu não parava ali e que era pre- uma identidade, um critério de selecção na recolha. ciso recolher tudo, visitar armazéns, arquivos mortos, etc. A sua prio- Os objectos, mais do que o seu valor intrínseco tinham que trans- ridade foi então salvar material, mobiliário, testemunhos, e pôr tudo mitir informações ligadas à história, ao ambiente social, à econo- a funcionar, trazendo para Portugal o melhor do que havia lá fora. mia, ao progresso tecnológico (por si ou em conjunto com os outros). Acreditava e dizia: «É preciso continuar as colecções, senão o Tanto a conservadora chefe como a conservadora adjunta tiraram Museu acaba». Nela acreditou, também, Couto dos Santos, que o curso de museus. Porém a conservadora chefe, Maria da Glória tudo orientou para que, em pouco tempo, muitos móveis ficassem Firmino estudou Museologia com o professor João Couto, e com ele cheios. aprendeu a eleger o Serviço Educativo do Museu como sua priori- Nos anos 50, as práticas museográficas herdadas do século XIX dade. No seu tempo, vários licenciados, após ingresso nos serviços foram profundamente postas em causa. Questionou-se a coloca- fizeram cursos em áreas fundamentais inerentes ao Museu. Quase ção em vitrina de uma proliferação de objectos repetitivos, sem iden- todos, com formação competente e provas dadas, foram encami- tidade, ou articulação de discurso coerente entre si. Sobre essa prá- nhados para os Serviços Artísticos e Culturais. a tica, conduzidos pela Dr. Maria da Glória, ouvimos as palavras de Crentes nos seus desígnios e paixões, as conservadoras dedica- Couto dos Santos: «Mais vale mostrar numa sala uma única obra ram especial atenção à formação museológica do pessoal de lim- boa, do que rodeá-la de outras secundárias que a prejudiquem e peza do material exposto e na reserva. Muitos se dedicaram de alma desvalorizem». Daí que toda a exposição devesse ser um instru- e coração; a actuação da Sra. Rosa, pela sua vontade de fazer mento da linguagem e da identidade de um Museu. mais e dar sempre mais, é digna de ser destacada e relembrada. Considerando que o Museu deveria proporcionar ao visitante uma Igualmente inolvidáveis são os guardas do Museu: o contínuo matéria de pesquisa tão variada quanto possível, criaram-se reser- Francisco Guapo, que acompanhou o Museu de S. Mamede ao Cal- vas ou galerias de estudo. Igualmente, neste período, surgiram os das até à Estefânia; o Sr. Martins que, com competência, orienta- espaços destinados a exposições temporárias. va e guiava os visitantes dos domingos na Estefânia; o Sr. Dias Tratar de todas estas questões que têm a ver não só com a reco- que, com muito aprumo, na portaria, recebia os visitantes; e o lha, classificação, agrupamento por colecções, mas também com jovem Rufino, que se adaptou de tal ordem ao Museu dos CTT que a conservação, restauração e arquitectura, conduziu a que a pro- o acompanhou até às novas instalações na Fundação. fissão nos museus se organizasse à escala internacional. No que respeita aos primórdios do Serviço Educativo, também não O interesse pela museologia e museografia crescia e gerava em inter- podemos deixar cair no vaso do esquecimento o grupo de monitores disciplinaridade as diversidades de culturas e símbolos que, deter- que, constituído por estudantes universitários, magnificamente fez minando uma filosofia, mas também uma consciência museológi- com que o Museu fosse conhecido de escola em escola. BIBLIOGRAFIA 17 ANCIÃES, Alfredo Ramos, O Museu dos CTT, Lisboa: Arquivo UNL, 1988/1989. Disponível também em Arquivo do Grupo dos Amigos do Museu das Comunicações. ANCIÃES, Alfredo Ramos. FIRMINO, Maria Glória, Testemunhos Orais. FIRMINO, Maria Glória, António Mora Ramos, 2º Conservador – Chefe do Museu dos CTT, ( 1952-1958). FIRMINO, Maria Glória, Luís Trindade. SANTOS, Alva, «O museu da Génese à Fundação», in revista Códice , ano X, série II, 2007, anual, número quatro. CTT, CDI. O Museu dos CTT, Pequena história desde a sua fundação até à actualidade, Lisboa, SEP – CTT, 1975. CTT, Jornal dos CTT e TLP, nº 13, Abril 1989. CTT, O Museu dos CTT Português, Lisboa, Serviços Culturais dos CTT, 1973. Exposição temporária de folhas iluminadas de Francisco Sá Nogueira, no Museu dos CTT, na Rua D. Estefânia, Lisboa, acervo iconográfico da FPC. No Sector Postal, destaca-se o trabalho de D. Maria da Guia,no regis- soal da Secretaria, em especial da D. Ilda Franco. E entre os vários to de fichas e no inventário do material. colaboradores, não colocados no Museu, destacamos o trabalho No Sector Filatélico e Artístico, tanto a dedicação, o empenho e a do arquitecto Martins Barata, com publicações e quadros a óleo cientifícidade do trabalho da D. Filomena Ferrão, evidenciados e a contribuição do Sr. Rosário Silva, sobretudo com os azulejos da com a montagem de selos para exposição, como o perfeccionismo fachada do Pavilhão da Mala-Posta. Acácio Santos e Vasco Lapa fica- do Sr. Daniel Almeida, no que respeita a registo e arquivo de selos, rão para sempre connosco na concepção e edição de publicações constituiram-se em correntes de átomos transformadores do devir. e montagem de exposições. O contributo do arquitecto Luz Correia, que introduziu uma nova «Quando nos detemos nesta matéria, confrontados com a histó- imagem e uma nova política na vertente artística, constituíu mais ria de vida do nosso Museu e dos intervenientes que nos legaram um pilar das pontes culturais a partir das quais o Museu se vem pro- não só um património de objectos, mas toda uma escola de con- longando. Tendo ingressado no Museu dos CTT em 1974, cons- duta e aprendizagem, damo-nos conta de como as pessoas envol- ciente das escassas possibilidades económicas do Museu e mesmo vidas nesse projecto, estavam atentas e em consonância com o evo- condicionado pelas instalações, acreditou nos objectivos peda- luir dos conceitos e das aplicações práticas.» (Maria da Glória Fir- gógicos do Museu e apostou na dinâmica de projectos inovadores, mino) fazendo com fosse visível a dinâmica do Museu dos CTT, nessa Para compreendermos o presente e prepararmos o futuro é preci- época convidado a fazer parte da APOM – Associação Portugue- so conhecermos o passado. O verdadeiro valor histórico está nos sa de Museus. A convite de Luz Correia, vários artistas gráficos factos e nas pessoas que transcenderam a sua época, ou seja, aque- colaboraram na elaboração de cartazes, vinhetas e edições de les que se projectaram no tempo e, materializando-se ou não, publicações, cujo sucesso se estendeu à Direcção da Filatelia dos não entram no vaso do esquecimento. CTT. Se é inegável a acção dos presidentes, directores, chefes, já refe- Com saberes e aptidões multifacetadas, colaborou empenhada- renciados e dos quais a história já fez história, também jamais mente nas diversas áreas do Museu, instalações para restauros, será possível olvidar os actos, as vozes e os rostos daqueles que, arranjos e beneficiação de peças diversas, telefones, telégrafo e com alma, esforço e dedicação, tudo fizeram para sermos a Casa até nas próprias diligências. A ele se deve o calcetamento do logó- que hoje somos. tipo dos Correios, no passeio da rua onde se situava o Museu. Ao ouvirmos a Dr.a Maria da Glória Firmino, narradora e protago- Sem fazer crónica ou história, mas no propósito de laurear aque- nista desta aventura, ora nos tornámos figurantes, ora protago- les cujo mérito deveria ter sido coroado, relembramos que também nistas, ora espectadores atentos. Com ela desvendamos o passado, ao Sr. Luís Trindade se deve a concepção do equipamento e mon- conhecemos as memórias daqueles que, de mãos dadas consigo tagem da exposição permanente, bem como a ilustração de page- e com a história, contruíram o Museu dos CTT e alicerçaram o las e decoração de selos. Regista-se a colaboração eficiente do pes- Museu das Comunicações. 18 Joel de Almeida | Licenciado em Comunicação Multimédia, Doutorando em Ciências da Educação, Santiago de Compostela A usabilidade educativa dos museus de empresa, enquanto centros de ciência e tecnologia Novas perspectivas didácticas Algumas paragens nas paisagens percorridas pela intervenção pedagógica do Serviço Educativo do Museu das Comunicações. Sala de exposição permanente do Museu dos CTT, na Rua D. Estefânia, Lisboa, acervo iconográfico da FPC. Pontos de vista uma visão heurística construtivista, hermenêutica positivista da cultura científica comunicação, das notícias, daí o termo hermenêutica como a arte, a Visão heurística, enquanto ciência que tem por objecto a descoberta método de comunicação, o esclarecimento das coisas no seu contex- de factos; o ramo da história voltado para a pesquisa de fontes docu- to; assim, também relacionamos a hermenêutica com a semiologia e/ou mentais; um método de investigação baseado na aproximação pro- a semiótica. Neste âmbito, relevamos a importância da cognição, da gressiva a um dado problema com vista à sua (re)solução; uma meto- busca do apreender a essência e compreensão das coisas; a necessi- dologia educacional que consiste em fazer descobrir pelo educando dade de percepcionar a (in)formação da ciência com e/ou a tecnolo- o que se lhe quer ensinar. gia de uma forma esclarecedora e amigável. Visão construtivista, enquanto teoria sobre a produção social do Visão positivista enquadrada em duas perspectivas: por um lado, o méto- conhecimento; entende que o ser humano aprende motivado por do geral do positivismo de Auguste Comte, que consiste na observa- uma necessidade real, por meio de interacções com os vários objectos ção dos fenómenos, subordinando a imaginação à observação; Comte do conhecimento; contrapõe-se radicalmente ao ensino pela repeti- definiu a palavra «positivo» com sete acepções: real, útil, certo, pre- ção exaustiva. O aluno deve ser o protagonista do próprio processo cog- ciso, relativo, orgânico e simpático; o conceito de «simpático» impli- nitivo; perante estímulos externos, deve agir sobre eles para cons- ca afirmar que as concepções e acções humanas são modificadas truir e organizar o seu próprio conhecimento, de forma cada vez mais pelos afectos das pessoas (individuais e colectivos); Comte indicou a elaborada e experimentada. subjectividade como um traço característico e fundamental do ser Visão hermenêutica, segundo a mitologia grega: Hermes era o deus humano, que deve ser respeitado e desenvolvido. Comte explicitou ainda mensageiro, o arauto intérprete da vontade dos deuses; deus da que um espírito positivo é maior e mais importante que a mera cien- ciência e técnica voltadas para a interpretação do sentido das mensagens, das palavras, dos signos e do seu valor simbólico; enquanto 20 tificidade, na medida em que esta abrange apenas questões intelectuais Saberes de conhecimentos teórico-práticos fundamentados, de e aquele compreende, além da inteligência, também os sentimentos experiências feitos, de descobertas partilhadas por inventores, pro- (ou, em termos contemporâneos, a subjectividade em sentido amplo) fessores, educadores, cientistas, promotores de uma cultura ins- e as acções práticas. Por outro lado, o positivismo é uma corrente filo- trutiva, que se pretende cada vez mais participada, acessível, ami- sófica que afirma que o único conhecimento autêntico é o conhecimento gável, útil, usável, abrangente, experimental, compartilhada, real e científico e que tal conhecimento só pode surgir da afirmação positi- rigorosa. va das teorias através do método científico; outra doutrina filosófica Uma cultura científica, que se entende relacional, transdisciplinar, trans- associa o positivismo a uma interpretação das ciências, e uma classi- versal aos nossos quotidianos, impulsionadora de atitudes conducentes ficação do conhecimento a uma ética humana; o positivismo como um à necessidade de saber mais coisas; de nos fazermos compreender modo de pensar que é consistente com os resultados positivos: que os melhor; de entendermos a causa dessas coisas; de percepcionar um relaciona com factos que podem ser aproveitados através dos senti- conhecimento científico aos mais diversos níveis, numa perspectiva dos e sujeitos a verificação empírica – método científico. de aprendizagem ao longo da vida e do muito com a vida. Neste sentido, acreditamos que os museus de ciência e tecnologia Uma cultura organizacional pessoal reflexiva, pelo despertar da (MCT) foram concebidos, na sua maioria, como espaços de deslum- necessidade colectiva de continuar a aprender para empreender; de bramento para tempos de prazer à descoberta de saberes autónomos apreender a ciência com vontade, de uma forma interessada e inte- relacionados; reconhecimentos de conhecimentos pertinentes; sabe- ressante, actual e actuante, num processo colaborativo de aprendi- res partilhados em aprendizagens colaborativas que se pretendem sig- zagem complementar com interesses comuns e indispensabilidades nificativas. das nossas actividades quotidianas. 21 Exposição permanente do Museu das Comunicações, «Mundos Comunicantes», 1997/2003. Uma cultura do saber «saber», dos saberes teóricos (fazer saber com- mos em partilha, na prospectiva do saber conviver melhor connosco preender, saber interpretar), do conhecimento pertinente, para uma e com os outros, mas também com o aprendizado. aprendizagem significativa e colaborativa. Uma cultura do saber fazer saber com sabor, do prazer de aprender com Uma cultura do comunicar ciência, do saber fazer ciência acessível a amor, com vontade, intencionalidade, interesse e necessidade de todos, (dos saber-fazer experienciais, desde o saber fazer em situa- causa e efeito – resultado, transformação, desenvolvimento; o que, ção real ao saber actuar); do descobrir, do experimentar, capaz de no nosso entender pretender, passa pela consciência de comunicar ciên- nos motivar para a ciência; de estimular o nosso espírito científico cia com consequência – enquanto melhoria de práticas instrutivas nato, inerente da nossa condição humana de seres eminentemente consequentes da nossa comunicabilidade e educabilidade, enquan- cognitivos, capazes da nossa educabilidade. to resultados (trans)formadores de usabilidade educativa, pela satis- Uma cultura da consciência da consequência positiva da nossa comu- fação no usufruto dos/nos museus de ciência e tecnologia. nicabilidade com a arte, a ciência e a tecnologia em sociedade; da cons- Em suma, valorar uma cultura social do apreender, do saber fazer ciencialização da importância de sermos curiosos, do saber ser objec- saber, ser/estar em atitude científica, do aprender a compreender, de tivos com os nossos propósitos, projectos e planeamentos estratégi- percepcionar o conviver com a arte, a ciência e a tecnologia, do saber cos. comunicar ciência, dos saber-fazer processuais (saber como proce- Uma cultura relacional, de interacção e intervenção sociocultural, der, saber operar) à promoção/divulgação da cultura científica. arte, ciência e tecnologia em sociedade; dos saber-fazer sociais (saber comportar-se, saber relacionar-se), ao saber interagir, inter-relacionar Enquadramento conjuntural saberes/pessoas. Pressupostos museológicos no contexto sociocultural e educativo dos Uma cultura de empreendedorismo educacional, de (des)envolvimento museus de empresa enquanto potenciais Museus de Ciência e Tec- pessoal e de intervenção social, como individualidades de colectivas nologia – o germinar do Museu das Comunicações enquanto museu vontades, no afecto para e com a cultura científica, pelo aprender a de empresa e museu de ciência e tecnologia – «caldo comunicacional aprender, apreender, compreender das causas e das coisas; dos sabe- artístico, técnico-científico e cultural», substratos para o desenvolvi- res-fazer cognitivos (saber tratar a informação, saber raciocinar, saber mento do seu serviço educativo denominar o que se faz, descrever como se faz), ou seja, do saber Recorremos à definição de museu da APOM (Associação Portuguesa aprender ao fazer compreender para melhor conviver. de Museologia), 1979: Uma cultura científico-tecnológica, capaz de intervir de uma forma colec- «O Museu é uma instituição ao serviço da sociedade, que incorpora, tiva e de interacção social (escola/pessoas – pessoas/museu), centrada inventaria, conserva, investiga, expõe e divulga bens representati- nas necessidades e interesses das pessoas, ao reconhecermos sermos vos da natureza e do homem, com o objectivo de aumentar o saber, capazes de aprender de uma forma formal, não formal e até informal; de salvaguardar e desenvolver o património e de educar, no verdadeiro de conseguirmos aprender de uma forma colaborativa; de aprender- sentido dinâmico da criatividade e cultura.»1 22 Recolha de correspondência Segundo o Código de Ética Profissional do Conselho Internacional de político-estratégicos, recomendados como lugares ideais para deter- Museus – ICOM aprovado por unanimidade na 15a Assembleia Geral do minados eventos, homenagens, apenas a pessoas politico-economi- ICOM realizada em Buenos Aires, Argentina, em 4 de Novembro de camente importantes, tributos, muitos deles unicamente consegui- 1986. Na 20a Assembleia Geral realizada em Barcelona, Espanha, em dos como fruto de individualismos oportuníssimos e/ou de reconhe- 6 de Julho de 2001, foi revisto e as suas emendas foram aprovadas na cimentos póstumos; ou ainda, para acautelar alguns distúrbios con- a 21 Assembleia Geral realizada em Seul, Coreia do Sul, em 8 de Outu- sequentes de más consciências provocadas do não reconhecimento, bro de 2004, um museu é: em tempo, de trabalhos relevantes. «Uma instituição permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da socie- O museu de empresa, hoje, como contributo de reflexão para o pro- dade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, con- gresso sustentado de um país e da cidadania do seu povo, e no con- serva, pesquisa, divulga e expõe, para fins de estudo, educação e texto da cultura e do mercado, é realmente muito mais do que uma 1 lazer, testemunhos materiais e imateriais dos povos e seu ambiente.» importante viagem às suas origens: é também uma ferramenta de ges- Recorrendo à definição de museu da APOM (Associação Portuguesa tão da cultura de empresa, imagem de prestígio, um meio de comu- de Museologia), 1979: nicação e marketing empresarial; é um instrumento fundamental, «O Museu é uma instituição ao serviço da sociedade, que incorpora, em processos de reposição de memórias colectivas, essencialmente as inventaria, conserva, investiga, expõe e divulga bens representati- relacionadas com aspectos conjunturais, laborais e sociais, tanto do vos da natureza e do homem, com o objectivo de aumentar o saber, envolvimento e desenvolvimento dos trabalhadores na construção e de salvaguardar e desenvolver o património e de educar, no verdadeiro melhoramento socioeconómico da empresa, como do investimento sentido dinâmico da criatividade e cultura» 2 técnico-científico, económico e sociocultural, no percurso de crescimento Neste âmbito questionamo-nos: e melhoramento da empresa ao longo do tempo. Porque será que um país ou uma instituição, que não tem memória das Um museu de empresa moderno, porque actual e actuante, pode res- pessoas, que não valoriza o seu património tangível e intangível, e não ponder pelo (re)conhecimento do passado organizacional da empre- (re)conhece o seu passado, acrescenta dificuldades à preparação do sa, tanto na sua importância para o desenvolvimento sustentável do seu presente, ou pura e simplesmente não tem futuro? seu sector de actividade, no que se refere à produção, aos impactos Neste contexto e conjuntura, o museu de empresa não deve ser visto que se provocaram, às mudanças que se efectuaram, às atitudes que apenas como uma materialização do regresso ao passado da instituição, se tomaram, às transformações que se conseguiram, como enquan- pela acumulação organizada dos seus objectos museológicos, ou to recurso (in)formativo, sociocultural, educacional, no que se refere peças em desuso e/ou documentação em arquivo morto; não deve ser aos meios e materiais, às ferramentas de fabrico, aos equipamentos entendido, apenas, como retorno a reviveres saudosistas, de tempos de aplicação e/ou utensílios de uso comum, no sentido de saber- que já lá vão, dos seus produtos e serviços únicos e/ou monopolistas; mos/compreendermos: ou até, o que muitas vezes acontece, que não são mais que expedientes o que é…? 24 Maria da Glória Firmino, Conservadora do Museu dos CTT, na Rua D. Estefânia em Lisboa, acervo iconográfico da FPC. quem inventou e/ou desenvolveu…? fas foram extintas e/ou estão em vias de extinção, mas cujos contri- para que serve…? butos permitiram que as empresas onde trabalharam fossem o que são como funciona…? hoje. Consideramos que, além do (re)conhecimento justo e louvável, quem utilizou…? esse registo, é também uma atitude e actividade de homenagem da como evoluiu…? empresa à própria empresa, não só, enquanto empreendimento para que mudanças comportamentais e/ou novas actividades pro- a realização de objectivos, sejam estes de exploração negocial, eco- moveu…? nómico-social, mas também, de cidadania, educação e cultura, ou Neste âmbito, consideramos fundamental desenvolver na empresa um seja, de divulgação e melhoria da sua cultura empresarial e imagem constante e colectivo espírito museal, de atitudes (in)formativas con- de marca. ducentes à manutenção, para futuro estudo e conservação de objec- Se reconhecermos que por detrás da colecção do museu, em volta de tos com vista a transformar (coisas, eventos do passado e presente da cada peça, documento, e/ou objecto material tangível, há sempre empresa em peças de museu), ou seja, musealizar o passado presen- memórias imateriais de sentimentos intangíveis ao olhar dos visitan- te da empresa, perpetuando o seu futuro, pela construção do seu tes fora das empresas, mas que são valores fundamentais que fazem património museológico. parte da própria cultura de empresa; se considerarmos como principal O museu de empresa funciona como uma excelente ferramenta de valor empresarial o reconhecimento técnico, a forma de produzir, a qua- gestão de todo o património museológico empresarial: o património lidade dos materiais, produtos e serviços, porque isso se reflecte na con- material e, também, o património imaterial – uma oportunidade, fiabilidade dos seus clientes, então este conjunto de qualidades, a que muitas vezes única, de recolha, tratamento e registo, preservação e chamamos de capacidades técnica, tecnológica e de gestão, com- musealização de vivências de memórias perpetuadas ligadas pelas põe o acervo intangível da cultura de empresa – isto é reproduzível no peças museais, numa preocupação constante pela constituição do museu, nas exposições que se preparam e na forma como se exploram, seu património imaterial – o tangível e intangível, ambos como um todo se mostram, se animam. patrimonial. Razão porque consideramos fundamental, para além colecção, tam- Neste sentido e contexto, é emergente e necessária a recolha conti- bém trabalhar o discurso expositivo museológico na perspectiva da filo- nuada, tratamento, preservação, estudo, conservação e divulgação sofia de vida da empresa, do espírito da instituição: da evolução histórica da empresa, bem como a posterior exposição dos Expor um acervo material não trata apenas de mostrar os objectos da seus documentos, objectos, ferramentas, equipamentos, métodos e colecção, como o próprio produto, o equipamento, a matéria-prima, processos de fabrico, produtos e serviços, e, acima de tudo, promovendo, a embalagem, as tecnologias, ou antigos anúncios publicitários, mas simultaneamente, o valor profissional das pessoas e suas memórias. também de materializar, pelo musealizar um acervo intangível, modos É, consequentemente, fundamental e prioritário o registo sistémico de fazer, processos de produção, modelos de gestão, hábitos de rela- de testemunhos dos vários profissionais, cujas actividades e/ou tare- cionamento, práticas quotidianas – memórias imateriais. 25 Como consequência, podemos comunicação marketing e/ou con- explorar as sensações humanas solidação da imagem de marca; 3 criando espaços sensoriais, por Uma reconhecida imagem de exemplo no projecto comunicar marca empresarial sociocultural, com ausência de som e luz explo- educativa, científico-tecnológica e ramos outros sentidos como o chei- de pujança, porque mecenas cul- ro, o tacto e, simultaneamente, turais, com investimento na sua sensibilizamos para a importân- própria história – futuro empresa- cia da acessibilidade para todas rial, no conceito de modernidade as pessoas com necessidades comunicacional e de marketing especiais. organizacional contemporâneo. Se aceitarmos que as memórias Um museu de empresa que comu- imateriais, (in)tangíveis, muitas nica a própria empresa… vezes se podem materializar Neste sentido, os museus de enquanto contributo tangível para o envolvimento das vivências pes- empresa, em vez de se arraigarem, orgulhosamente sós, a um passa- soais no colectivo identitário dessas empresas, então o (re)conhecimento do, que até muitas vezes foi glorioso, (mas outras não tanto), notá- do valor da empresa passa pelo desenvolvimento do autoconheci- vel por vezes, também à custa de muitos sacrifícios e de excelentes mento e consequentemente a melhoria da auto-estima dos seus ex- (des)empenhos dos seus trabalhadores e colaboradores anónimos, trabalhadores e actuais colaboradores, podem e devem (trans)formar os seus museus empresariais em memo- Deste modo, consideramos fundamental (re)construir o património cul- riais, enquanto tempo e espaço de matérias e materiais autênticos tan- tural da instituição, tanto material como imaterial, enquanto contri- gíveis e/ou intangíveis. buto para o progresso económico, porque a origem e passado das Assim, as colecções ganham vida face aos relatos das memórias empresas sectoriais afins no seu tecido socioeconómico muitas vezes das pessoas: ora tangíveis pelo seu acervo exposto; ora intangíveis se revela não só de uma forma material tangível, mas também intan- enquanto espólio de pertenças individuais, ou enquanto experiências gível, porque de influência transformativa. comuns vivenciadas que se constituem património colectivo imaterial. Um museu de empresa pode ser um elemento fundamental para a ima- Os depoimentos individuais das pessoas, que fazem parte de cada peça gem da empresa, um instrumento central de cultura de modernidade desse património, agora colectivo porque partilhado, porque com ele e inovação empresarial, um meio imprescindível na (in)formação da iden- trabalharam, viveram, conviveram, se associaram, continuam a fazer tidade da empresa, no fortalecimento de seu perfil organizacional e parte integrante de um todo patrimonial da empresa, enquanto na gestão de mercados emergentes, pela divulgação promocional, testemunhos materiais e/ou imateriais – acervos museológicos. 26 Exposição permanente do Museu das Comunicações, «Vencer a distância — Cinco séculos de comunicação em Portugal» Patrimónios esses de acontecimentos, cumplicidades tangíveis que inter- países que asseguram a permanência de todo um espólio ligado ao sec- relacionam pessoas/objectos/factos, agora mais abrangentes e muito tor das comunicações através de fundações. Manteve-se, porém, mais enriquecidos. noutros casos, os museus de empresa, que são visões mais restritivas Deste modo, ao contrário do habitual, os museus de empresa podem e mais orientadas para a lógica empresarial. A opção portuguesa per- constituir-se como museus vivos, interessantes e atractivos, como mite manter indiviso um espólio que, tendo a ver com o passado his- uma mais-valia inovadora para a empresa, como uma forma de capi- tórico dos CTT, diz respeito, no final de contas, a toda a história das comu- talizar melhor o seu passado, pelo seu respeito, preservação, estudo nicações em Portugal. Numa primeira fase, foi nomeada uma Comis- e divulgação patrimonial, para um melhor posicionamento na com- são Instaladora que deu origem à Fundação Portuguesa das Comu- preensão do seu presente e, quiçá, no prospectar um futuro melhor nicações, onde só estavam representados os Correios e a Portugal da e para a própria empresa, pela compreensão e (re)conhecimento Telecom. Entendeu-se, posteriormente, que a Fundação ficaria mais do seu passado presente. apetrechada se o Instituto das Comunicações de Portugal também Consideramos que é neste contexto e conjuntura que se enquadra e pudesse estar representado, e isso fez com que o projecto evoluísse posiciona o actual Museu das Comunicações, inaugurado a 10 de para a actual Fundação Portuguesa das Comunicações. Este institu- Outubro de 1997, não só como instrumento de divulgação do espólio to traz, igualmente, um espólio valioso, o dos selos do ex-Ultramar, per- das comunicações, mas porque integrado na Fundação Portuguesa das tencente ao Estado, para além das tecnologias ligadas à fiscalização Comunicações, à qual, pela natureza dos seus estatutos, cabe promover do espectro radioeléctrico.» 4 o estudo e a investigação do património histórico das comunicações. A partir de 1998 (Junho) foi editada a revista Códice propriedade da «O projecto da Fundação remonta a 1990, quando se começou a pre- Fundação Portuguesa das Comunicações, que logo no seu primeiro parar a cisão da empresa CTT, que deu origem à Portugal Telecom e aos número se torna: Correios tal como actualmente são. Por questões que tinham a ver com «…um veículo divulgador do Museu das Comunicações e da sua acti- a separação das empresas, em que se punha a possibilidade de o vidade. acervo histórico e cultural se dividir por arrastamento, e perante a O vasto património museológico e cultural acumulado ao longo de necessidade de se manter a unidade de todo um passado histórico que mais de um século terá, nesta publicação, uma oportunidade acres- no final de contas faz parte da história do País e das empresas (have- cida de ser conhecido e apreciado. Procurando não ser só um reposi- ria sempre alguma perda ao dividir esse espólio), foi decidida a cons- tório de memórias a revista será, também, por contraponto, um veí- tituição da Fundação Portuguesa das Comunicações. Esta solução culo onde se poderá visionar o futuro das comunicações bem como o não foi inteiramente nova, visto já se ter colocado noutros países seu contributo para a evolução sócio-económica da sociedade.»5 quando se fizeram cisões idênticas. A Fundação France Telecom nas- Assim, desde 1998 o Museu das Comunicações passou a dispor de ceu na sequência da cisão da empresa, e na Alemanha ou na Holan- uma ferramenta de comunicação institucional imprescindível para a da também existem fundações do mesmo tipo. Há, portanto, vários publicitação e promoção das suas exposições e respectivas activida- 27 des educativas; desde a difusão da exploração pedagógica dessas expo- Primeiro, porque pode cultivar o existir em toda amplitude do acto de sições, das notícias inerentes às animações socioculturais e (in)for- comunicar, enquanto acção inerente ao desenvolvimento da condição mativas, das actividades lúdico-educativas à divulgação patrimonial da presença humana no planeta, ou seja, o homem, como ser comu- – espólio expositivo no Museu das Comunicações, herança continua- nicante por natureza está impossibilitado de deixar de comunicar, o da pelo valor do trabalho museal/educacional desenvolvido pela meri- que faz do Museu das Comunicações um museu humanista das comu- tória equipa do Museu dos CTT. nicações das pessoas e para todas as pessoas, nomeadamente e pri- Importa salientar, no número um da revista Códice, numa entrevista vilegiadamente, com mais valia exponencial, para as/os (a)gentes com o então presidente da Fundação, Dr. Leiria Viegas, acerca da cons- das comunicações – os colaboradores das Instituições Fundadoras. tituição da Fundação Portuguesa das Comunicações, a resposta à Segundo, porque pode explorar a evolução do seu sector de activida- pergunta: de, das técnicas e tecnologias da comunicação e das (tele)comunica- Que tipo de peças compõem o espólio? ções e respectivos transportes, por exemplo da mala-posta ao correio «O espólio tem a ver com a actividade de cada Instituidor, portanto electrónico, de investigar os fundamentos das suas cientificidades, de vai desde o primeiro telefone até aos mais recentes, passando pela colec- experimentar e descobrir as suas causas e implicações sociais, eco- ção da mala-posta até às novas tecnologias dos Correios. Temos ainda nómicas e culturais, o que faz do Museu das Comunicações um museu colecções de selos que incluem desde o primeiro selo português data- sociocultural de ciência e tecnologia. do de 1853, até à actualidade. Dispomos também de um espólio de selos Terceiro porque pode estudar a arte de fazer a sua arte de comunicar, do mundo inteiro e das ex-colónias portuguesas, composto no seu con- tanto pelo percurso histórico das comunicações/telecomunicações, como junto por milhares de peças. Temos ainda uma significativa colecção pelo fazer saber comunicar arte, por exemplo através dos selos; ou ainda, de arte, associada à elaboração dos selos, visto que os artistas que tra- da possibilidade de que hoje se pode comunicar em qualquer lugar, a balhavam para os Correios desenhavam os selos cujos originais estão qualquer momento, o que quer que seja, da voz à palavra escrita, da 6 na Fundação.» fotografia à vídeo-arte. É neste contexto que o Museu das Comunicações da Fundação Por- Deste modo, o Museu das Comunicações pode ser considerado e reco- tuguesa das Comunicações através do seu riquíssimo espólio se pode nhecido, para além de museu de empresa, como museu de ciência e considerar em Portugal um museu com uma singularidade específica tecnologia, mas também, como um museu humanista da arte das abrangente: O Universo das Comunicações; comunicações, com os mais diversificados meios, produtos e serviços Mas, precisamente porque se trata de um museu de empresa, oriun- ao longo do tempo. do de empresas e/ou instituições públicas das comunicações, tem Por outro lado, o Museu das Comunicações é um museu contemporâ- uma tripla responsabilidade: neo de plena actualidade e modernismo, em constante evolução sis- 28 Interior da CTF do Terreiro do Paço, Lisboa, acervo iconográfico da FPC. témica no sector dos correios e telecomunicações, de inovação técni- Espaço tempo de oportunidades para (re)descobrir, experimentar o acto ca e tecnológica, evolutivo das e nas recentes formas de comunicar hoje, de comunicar (transmitir, passar, tornar comum – conhecimento, infor- o que faz do Museu das Comunicações um museu integrado e integrador mação, ordem, opinião, ideia, mensagem, uma nova (re)solução…,) das novíssimas infotecnologias interactivas da comunicação multi- a alguém, algo com um novo olhar abrangente capaz de nos fazer dis- média, logo hipercomunicacional, abrangente, moderno e futurista. cernir (conseguir distinguir de modo claro através dos sentidos) da Por outro lado, o Museu das Comunicações, enquanto museu de ciên- importância da comunicabilidade e usabilidade comunicacional, cia e tecnologia, no contexto educacional global, desenvolve inte- enquanto qualidade do que é comunicável, ou do estado comuni- racções educativas complementares com os processos de aprendiza- cante, enquanto disposição para entrarmos em comunicação com gem formal, privilegiando as suas intervenções pedagógicas na edu- determinada intencionalidade e satisfação no seu usufruto – inova- cação não formal e informal. O Museu das Comunicações e da educação ção comunicativa. para a comunicação, assim muito sinteticamente caracterizado, tem Deste modo, o Museu das Comunicações estrutura a sua funcionali- como perspectivas (in)formativas, no âmbito da educabilidade não for- dade operativa no âmbito do seu Serviço Educativo enquanto CPAE – mal, na aprendizagem ao longo da vida e do muito com a vida, as Centro de Pedagogia e Animação das Exposições/Oficinas Pedagógi- inter-relações espácio-temporais seguintes: cas do Conhecimento, em três grandes áreas de actuação que pre- Espaço de preservação, conservação, de estudo e investigação da tendem responder a linhas de intervenção educativa, não formal e infor- evolução técnica e tecnológica do universo das comunicações – edu- mal, aos mais diversos níveis de ensino, em complementaridade com cação patrimonial. projectos e parcerias com as escolas públicas ou privadas, universidades, Lugar tempo de futuro hoje, porque no presente damos futuro ao associações e/ou outras instituições formativas oficiais: passado das inovações (tele)comunicacionais, que permitiram alicer- 1 > Visitas guiadas às exposições patentes çar as (trans)formações infotecnológicas actuais – desenvolvimento Actividades assim preconizadas: comunicacional. > Contribuir para a promoção e divulgação das exposições paten- Tempo espaço de reflexão, com uma preocupação constante: a de tes ao público visitante do museu pelo empenho, desempenho fazer apreender a importância das circunstâncias do acto de comu- e qualidade do serviço prestado, numa perspectiva de satisfação nicar através dos tempos e dos sentidos, sabendo que desde sempre e cognição dos visitantes, do seu deleite, usufruto, assim como o homem tenta comunicar mais e melhor, interagindo com a necessi- na prospectiva da sua fidelização e dedicação, ou seja, de os dade de contribuir para fazer compreender o valor do passado evolu- fazer ter a necessidade, desejo de voltar ao Museu das Comuni- tivo das comunicações/telecomunicações, na perspectiva da melho- cações, com curiosidade intelectiva, estima, prazer... e/ou de nos ria da qualidade da comunicação hoje, e de que comunicar/teleco- recomendar a outros potenciais visitantes utilizadores. municar foi, é sempre uma aventura sem fim – valoração da comunicabilidade. > Adequar o roteiro da visita guiada às características, interesses e necessidades (in)formativas do público destinatário. 30 > Efectuar a visita guiada, de acordo com os percursos expositivos longo dos tempos e a necessidade de aprender ao longo da vida, e suas didácticas previamente estudados e compartilhados com para a premência, cada vez maior, de eficácia comunicacional os usuários, numa perspectiva SIM – sensibilizar, (in)formar moti- moderna, sua apreensão cognitiva evolutiva, para a indis- var: pensabilidade formativa, funcional e operativa de agora, no com- > Sensibilizar para a educação patrimonial para a importância do bate à iliteracia e infoexclusão e/ou pela compreensão da património exposto e da contínua necessidade de preservação, diversidade contemporânea dos «Mundos Comunicantes», como acto de cidadania global; perante o desafio da mudança de sempre, criando condições > (In)formar para a usabilidade das tecnologias de informação comunicativas de fruição pessoal e/ou colectiva do acervo e comunicação sobre a evolução artística, técnica, tecnológi- exposto, enquanto pretexto para novas interacções sobre a ca, dos produtos, equipamentos e serviços das comunicações comunicabilidade do presente futuro hoje. ao longo do tempo, explicando e exemplificando, com uma lin- > Articular e adequar o discurso narrativo à volta das peças museais, guagem clara e acessível, o seu funcionamento – ciência e tec- ao longo dos percursos expositivos, aos respectivos conteúdos elu- nologia, demonstração das várias técnicas e equipamentos cidativos e estes às várias temáticas das comunicações em geral, para comunicar melhor e mais rápido, apresentação do enge- dos correios e telecomunicações em particular tornando visível o nho e da arte dos inventos, dos inventores, técnicos e opera- mostrado, evidente o explicado, interagindo com o saber mais, dores dos sistemas, as pessoas e personalidades, as profis- dos quiosques multimédia interactivos. sões e profissionalismos, suas singularidades, os usuários envol- 2 > Animação pedagógica das exposições – com base na metodolo- vidos, suas exigências e expectativas, estabelecendo relacio- gia de trabalho de projecto e nos princípios didáctico-pedagógicos namentos e descrevendo as benfeitorias, mudanças e/ou o CEM – comunicação educacional multimédia. impacto sócio-cultural provocados; Actividades essenciais de interacção educativa preconizadas: > Motivar para a importância da comunicabilidade na educabi- > Preparar e estudar as matérias referentes aos conteúdos técni- lidade para a constante melhoria do acto de comunicar ao co-científicos e tecnológicos, inerentes aos percursos expositivos 31 Exposição permanente do Museu das Comunicações. Estúdio de TV com os cenários das primeiras emissões em 1957 e os da actualidade. do museu com a aquisição dos novos conhecimentos necessários, ticas, pelo empenho, desempenho e qualidade dos serviços técnicas e tecnologias da comunicação e das comunicações, com prestados, nas e das actividades de animação das exposições vista a proporcionar aos visitantes uma presença agradável, um propostas. olhar global sobre a evolução histórica das comunicações em > Sensibilizar, informar e motivar os visitantes para o processo de Portugal e uma visão particular sobre determinados períodos avaliação construtiva/sugestões para melhoria, com vista às importantes nas e das comunicações, sobre os objectos museo- boas práticas, para recolha, analise e tratamento de dados obti- lógicos específicos do património exposto, duma forma comuni- dos, com vista à reformulação de actuações – caso necessário e cativa, interactiva, segura e eficaz. estudo de públicos. > Integrar as equipas de animação das exposições e/ou projectos > Articular com as direcções pedagógicas das escolas e respectivos especiais, a desenvolver no âmbito do Centro de Pedagogia e Ani- professores das disciplinas específicas, ou grupos multidisciplinares, mação das Exposições, articulando com as colaborações exter- os trabalhos de projecto pedagógico a desenvolver, com vista à nas e desenvolvendo em parceria os conteúdos pedagógico- preparação prévia (necessária) das visitas de estudo aos per- didácticos, assim como os recursos educativos a explorar e/ou no cursos temáticos expositivos, integrados nas actividades do âmbito da comunicação educacional multimédia, necessários Museu. ao projecto a incrementar, à preparação das actividades, desde 3 > Comunicação marketing cultural, promoção e divulgação de a concepção à realização e avaliação do percurso, processo, do acções de comunicação educacional e empresarial projecto incrementado. Actividades essenciais assim preconizadas: > Contribuir para a informação, formação e divulgação das maté- > Contribuir para a promoção e divulgação das intervenções e ria e temáticas tratadas nas exposições patentes ao público visi- missão da FPC/MC, assim como dos seus Instituidores, preser- tante do museu, no fomentar, desenvolver e animar activida- vando e consolidando junto do público a «imagem de marca» des didácticas, lúdico-pedagógicas – pelo proporcionar de aces- – empresarial, cultural, educacional da instituição sos aos «saberes» comunicacionais, através da criação de ateliers, oficinas pedagógicas e trabalho de projecto partilhado, > Agenda das Exposições – Marcações e distribuição de mapa de visitas numa perspectiva de aquisição e/ou recapitulação de conhe- > Guia de Serviço – Recepção do público visitante, comunicação pro- cimentos; pela demonstração, descoberta e/ou experimenta- mocional para eficaz usufruto dos espaços FPC/MC, acompa- ção de meios suportes e sistemas de comunicação – numa nhamento e visita guiada aos visitantes individuais, encami- abordagem interactiva, «saber mais», com base numa apren- nhamento organizacional e operacional de visitantes em grupos dizagem colaborativa, duma forma agradável e divertida em ensi- da entrada à saída da Instituição no informal, mas com rigor técnico-científico, tecnológico e didáctico-pedagógico, sempre numa procura de melhoria de prá- > Relações Públicas Institucionais – Actos de comunicação marketing cultural institucional e apoio informativo. 32 Alguns exemplos de modelos temáticos de intervenção relacional espácio-temporal que contribuíram para desenvolvimento de um Ser- > da convergência e interactividade tecnológica à mobilidade comunicacional viço Educativo actual e actuante, do CPAE – Centro de Pedagogia e Ani- > dos media e da educação para, com e dos media… mação das Exposições às Oficinas do Conhecimento – OC’s, a evolução > da sociedade da informação à economia do conhecimento… pedagógica da interacção educativa do Museu das Comunicações. > das infotecnologias interactivas da comunicação multimédia Inicialmente e, ainda sempre como princípio presente, na exploração (in)formativa do discurso expositivo actual, o cuidado com o rigor cro- ao…, com vista a contribuir para prospectar do futuro (previsível??!!) das comunicações em linha e em rede nológico da evolução histórica das comunicações – correios e teleco- Permanentemente nas perspectivas da construção de novos saberes municações, numa perspectiva de educação patrimonial, actualizan- autónomos relacionados e da aprendizagem ao longo da vida e do muito te e interventiva relacional, cujas temáticas tratadas são um bom com a vida: exemplo: Primeiro, com o acto de comunicar com intencionalidade, subs- > da mensagem aos mensageiros e respectivos transportes tância e sustentabilidade, através da utilização das várias téc- > dos correios à filatelia, da sua arte à tecnologia nicas e tecnologias das comunicações telecomunicações actuais > do telégrafo à radiotelefonia – agora com a importância ética das comunicações em rede e em > do fio de cobre à fibra óptica linha; > das antenas ao espectro radioeléctrico Segundo, com a utilização das novas infotecnologias interacti- > do analógico ao digital vas da comunicação pessoal, social, política, educacional e/ou Depois, numa perspectiva mais abrangente da educação patrimo- empresarial multimédia, enquanto ferramentas facilitadoras nial, para a continuação da importância da recolha, preservação, da interacção ACTS – arte, ciência, tecnologia e sociedade em rede, estudo e conservação, a evolução constante do património material real/virtual, buscando a comunicabilidade, a educabilidade e a e imaterial das comunicações/telecomunicações; trabalham-se os usabilidade, assim como a responsabilidade da procura da melho- conteúdos inerentes do acto de comunicar por excelência e das comu- ria da qualidade de vida na era digital, enquanto contributo nicações por inerência do património tangível (equipamentos, técni- para o desenvolvimento sustentável do nosso País; cas e tecnologias) às memórias intangíveis das pessoas das comuni- Terceiro, de uma forma articulatória e complementar, a intervenção cações (histórias de vida pessoal e empresarial e ainda memórias rein- pedagógica (in)formativa, tangível vs intangível, numa pers- ventadas do colectivo dessas memórias comunicantes) recriadas de uma pectiva inter-relacional indivíduo-sociedade, ou seja, o que con- forma transdisciplinar, multicultural e de transversalidade relacional sideramos bom (usável na melhoria de práticas comunicacio- social/educacional/comunicacional: nais numa sociedade em rede global) para agora comunicar- > da mala-posta ao correio electrónico mos melhor – no conviver global material/imaterial – real vs vir- > da globalização da informação às redes sociais virtuais tual, ou seja, aprender a saber conviver melhor com a multicul- 33 turalidade a diversidade e inclusão social, as técnicas e tecno- > da comunicação e media, numa perspectiva ética, estética e lógicas – economia do conhecimento para o (des)envolvimento; deontológica e educacional: educação com os media (enquan- porque no nosso entender não há desenvolvimento sustentá- to recurso (in)formativo); educação para os media (distanciamento vel sem envolvimento comunicacional, pelo menos aceitável; crítico-analítico das notícias mediáticas, enquanto recurso ético- Sempre, na procura da melhor promoção social da cultura cien- estético das/nas mensagens); educação dos media (das neces- tífica. sidades contemporâneas da deontologia dos media, enquan- Uma outra linha de acção educativa é trabalhar a cibercultura, a cul- to recurso de credibilidade e confiança da/na difusão criterio- tura cibernética na interacção humano-computador, com a devida sa das mensagens) apreensão e compreensão em interacção com o público destinatário, Uma outra grande inquietação contemporânea, fruto da inovação tec- em matérias como a inteligência artificial, tanto nas funções ético-esté- nológica e constante modernidade/facilidade nas e das comunicações ticas como deontológicas, da e na comunicação, sejam estas através actuais, é a integração de uma deontologia ético-estética no usufruto da arte da ciência e/ou da (nano)tecnologia, assim como nas suas da/na comunicação interactiva em rede. dimensões simbólicas e representativas do real vs virtual, do espaço Comunicação em linha, no seu todo funcional e operativo, seja esta comunicacional verbal presencial ao ciberespaço de uma sociedade em comunicação pessoal, colectiva, empresarial, política, social, educa- rede: cional, informativa, formativa, cientifico-tecnológica e/ou artística, > da semântica construtiva da palavra falada e/ou escrita à semiologia da mensagem, seus signos e significados > da semiótica da imagem à universalidade comunicacional dos pictogramas > da comunicação marketing, seus sinais de poder e sedução, à imagem de marca de uma Instituição, produto e/ou serviço pelo questionar da sua usabilidade educativa e de tipo de comunicabilidade. Com isto, podemos reflectir para analisar/avaliar da importância e qualificação pessoal/social da nossa maneira de fazer comunicação, ou seja, até que ponto e a que nível o usufruto das novas infotecnologias interactivas nos permitem o acesso com sucesso a uma (in)for- > dos (pré)conceitos de belo aos mitos, ritos e ritmos sociocultu- mação credível, a uma aprendizagem significativa, a um conheci- rais comunicacionais de educabilidade do e no nosso tempo mento pertinente, capaz de nos fazer questionar como poderemos > da cibercomunicação da ciberjuventude ao cibercafé e ciber- comunicar melhor, com essas novas infotecnologias interactivas da webjogos interactivos comunicação multimédia, no sentido da melhoria da qualidade de vida > da cibersaúde sénior aos cibercuidados continuados da era digital. > do ciberturismo científico-cultural e da natureza ao ciberem- Hoje, a comunicação moderna distingue-se pelo saber projectar de novas preendedorismo > dos cibercentros aos novos CRIE – Centros de Recursos Infotecnológicos Educativo-Empresariais ideias, experimentar ultrapassar barreiras, atravessar fronteiras, descobrir novas estruturas de comunicabilidade, para novas maneiras de ver, ouvir, sentir, fazer comunicação, promover, divulgar, articular. 34 Exposição «Telecomunicações Militares», actividade no âmbito do projecto educativo do Museu das Comunicações A arte, a ciência e a tecnologia, como bens sociais escola / museu, como às consequências positivas, activas e dinâmicas Trabalhar a transversalidade da comunicação interactiva como ponto « Não há dúvida de que, no ensino pré-primário, o aspecto primacial infinito de união convergente entre arte, ciência, tecnologia e socie- é a educação dos sentidos, o contacto com as coisas. No primário, dade (ACT/S). A sociedade como centro de triangulação equilátera da temos o alargamento deste princípio, e o carácter formativo e infor- comunicabilidade/educabilidade/usabilidade educativa, que con- mativo deste grau do ensino passa ao seguinte, o secundário, onde centra em si o social/educacional, desde o paradigma de Laswell à prevalece, com excepção dos últimos anos quanto ao ensino liceal, em cibercultura. que uma certa especialização se introduz com vista à entrada nas A importância das novas infotetecnologias interactivas da comunicação escolas superiores, e quanto às escolas técnicas, em que natural- educacional multimédia (CEM), enquanto agentes facilitadores de mente, na totalidade dos cursos, predomina a especialização, embo- comunicabilidade, enquanto palco, encenador, actor e espectador, da ra se tente dar ainda uma certa cultura geral.» 10 e na intervenção educativa, formal, não formal/informal no que con- É notória a clarividência pedagógica e a modernidade demonstrada cerne às três vertentes primordiais que enformam a da construção autó- pela Dr.a Maria da Glória Pires Firmino. As suas evidências; preocupa- noma participada/compartilhada dos «saberes complementares rela- ções didácticas em função do público-alvo escolar, meta-construções, cionados»: pedagogias diferenciadas, e em situações diferenciadas, continuam para o ensino: > Saber «saber» – conhecer/compreender actuais e actuantes: > Saber fazer – experimentar/descobrir «Assim, de acordo com o grau de ensino, o adiantamento dos cursos > Saber ser/estar – reconhecer, conviver/incluir (primeiros ou últimos anos), finalidade da visita (lição de cultura geral Neste contexto, não podemos deixar de evidenciar a postura sócio-cul- ou lição especializada sobre os transportes ou meios de comunicação tural e educativa da mui digna Dr.a Maria da Glória Pires Firmino7, expli- a distância, aplicações da electricidade, etc.), poder-se-á chamar a citada na sua comunicação: atenção apenas para os objectos expostos, dar uma explicação mais 8 ou menos sumária, salientar a a evolução das comunicações entre os «O resultado satisfatório das visitas feitas ao Museu dos CTT por gru- homens, no sentido mais amplo, ou descer ao pormenor e focar o pro- pos escolares, quer do ensino pré-primário, quer primário ou secundário, gresso técnico dos meios empregados nessas mesmas comunicações.»11 anima-me a esperar que se reconheça a vantagem da colaboração a A componente humanístico-histórica do Museu, está sempre presen- prestar por este Museu, uma vez integradas nos programas as visitas te no seu discurso expositivo: e aulas a realizar nos locais onde a lição poderá ser ilustrada e exem- «O Museu dos CTT é essencialmente destinado a mostrar a evolução plificada de molde a tornar o ensino activo e dinâmico.»9 do serviço dos correios, telégrafos e telefones em Portugal, mas, assim Realçamos a importância das visitas de estudo ao Museu, tanto no que como o homem isolado não tem sentido, assim a obra humana não se se refere ao reconhecimento da vantagem colaborativa da interacção compreende sem uma perspectiva histórica.» 12 «O Museu dos CTT e a colaboração que poderia prestar às escolas». 35 Somos ainda «presenteados», nesta comunicação para o Seminário Decorridos mais de quarenta anos da comunicação da Dr.a Maria da Gló- da APOM, com uma belíssima viagem, uma visita guiada pela compo- ria Pires Firmino, no seminário da APOM, apresentamos, agora, algu- nente humanístico-histórica do Museu, que está sempre presente no mas (apenas três modelos, exemplos significativos) das actuais acti- seu discurso expositivo. vidades de intervenção pedagógica do Serviço Educativo do Museu das Foi uma visita pormenorizada em torno das colecções, através das Comunicações: salas do então Museu dos CTT que muito gostaríamos de (re)visualizar/realizar em multimédia, integrada num projecto de trabalho de equipa, apresentado no âmbito do GAMC. Oficinas Pedagógicas15 13 Após a visita guiada, de mãos dadas pela escrita e memórias faladas Oficina de Escrita pelo passado presente da nossa muito querida, estimada e venera- E... ainda dizem que já não se escrevem cartas como antigamente... da Dr.a Maria da Glória, esta comunicação conclui-se desta forma bri- Num tempo em que os SMS prevalecem, recuperar o hábito da escri- lhante e inspiradora de futuro melhor: ta, quase abandonado, é o desafio que o Museu das Comunicações «Podemos concluir, portanto, que todos os acontecimentos funda- faz a professores e alunos, a pensar no programa curricular da disci- mentais desta história fascinante do correio (incluindo neste termo todos plina de Português. No âmbito das visitas às exposições que estão rela- aqueles que asseguram as comunicações), do mensageiro, que desde cionadas com o transporte da mensagem escrita (ex: mala-posta e a mais alta Antiguidade até ao presente é parte integrante e indis- núcleo dos correios da exposição permanente), os monitores do Museu pensável do progresso da humanidade, todos os passos decisivos da criaram uma «oficina de escrita», na qual os participantes podem humanidade estão apresentados, quer através da cópia fiel, da recons- aprender a escrever diversos tipos de cartas (formal, comercial, fami- tituição pictural, da miniatura, quer sobretudo de épocas mais chegadas, liar, de amor, etc.). de colecções mais ou menos completas, que nos permitem avaliar a gran- Objectivo: Recuperar e incentivar o hábito da escrita deza de tal missão.» 14 Destinatários: Alunos do 3o ciclo e do secundário 36 Tempo de duração: 2h sibilizá-los para a utilização da internet como ferramenta de aprendi- Marcação: Os professores interessados deverão contactar o Serviço Edu- zagem, de conhecimento, de criação e de partilha de conteúdos on-line. cativo de forma a efectuar a marcação e a preparar a actividade, em Objectivo: Criar novas valências e combater a iliteracia informática e conjunto com os monitores tecnológica junto do público sénior Destinatários: Seniores Oficinas do Conhecimento – Jovens No máximo de participantes: 12 O Museu das Comunicações, em parceria com a Portugal Telecom, Tempo de duração: 9 sessões de 1h30m cada (esta actividade funcio- desafia as escolas a participarem numa experiência inédita, onde os nará dentro do horário do Museu) às quartas e sextas-feiras alunos, acompanhados pelo respectivo professor e de monitores espenet e blogues, contemplando todos os passos necessários: pesquisa, Centro de Pedagogia e animação das exposições publicação e indexação, passando pela selecção e citação de fontes, O Serviço Educativo do Museu das Comunicações proporciona pro- e pela captação e edição de vídeos e fotografias. gramas de acção pedagógica e percursos temáticos organizados em Objectivo: Promover a utilização da internet como uma experiência de função dos interesses, necessidades e acessibilidades dos visitantes. aprendizagem, investigação e produção de conteúdos Estas «viagens» didácticas interactivas são preparadas e conduzidas cializados, terão oportunidade de criar e publicar páginas para a inter- o o Destinatários: Alunos do 7 ao 12 ano por especialistas em animação de exposições, em ateliês e oficinas peda- No máximo de participantes: 25 gógicas. Tempo de duração: 1h30m (esta actividade funcionará dentro do Interagindo com os três ciclos do ensino básico e com o ensino secun- horário do Museu) dário, numa atitude de parceria e troca de saberes, são propostas actividades complementares aos programas das disciplinas de Lín- Oficinas do Conhecimento – Seniores gua Portuguesa, História, História de Arte, Técnicas de Comunicação, As Oficinas do Conhecimento, Escola do Futuro, foram concebidas pelo Tecnologias da Informação e Comunicação, Geografia, Física, Oficinas Museu das Comunicações em parceria com o Grupo Portugal Telecom de Arte, entre outras. e visam contribuir para o desenvolvimento das competências, na área Os professores são convidados a participar neste desafio que acredi- dos sistemas de informação (SI), dos seus formandos, bem como sen- tamos ser uma mais-valia para o nosso público. O Serviço Educativo do 37 Oficinas do conhecimento. Escola do futuro do Museu das Comunicações. Museu está disponível para, em conjunto com os docentes e as escolas, interagir na concepção e partilha de ideias, que produzam actividades ajustadas aos programas e aos alunos. > como responsáveis imersos e/ou emersos num/dum processo formativo? > como (re)conhecedores do conhecimento profissional docente Deste modo, consideramos que ontem, tal como hoje, e na prospec- na didáctica da construção de saberes autónomos relacionados? ção de um futuro melhor, pelo acesso com sucesso à construção social > com investigadores e/ou especialistas na acção de conceber/rea- do conhecimento pertinente, de usabilidade educativa ao longo da vida, lizar actividades lúdico-participativas de forma rigorosa, crítica o essencial, na interacção escola/museu – público-alvo escolar, está fundamentado, alicerçado e consolidado nas e pelas preparações prévias das visitas de estudo que se pretendem motivadoras, integradas e integradoras de transdisciplinaridades multiculturais conducentes a aprendizagens significativas e cooperativas em RAC – rede de aprendizagem colaborativa. Ou seja, para preparar as actividades didáctico-pedagógicas, são rea- e criativa? > com profissionais experimentados no acto comunicacional de praticar acções com alegria, encanto, harmonia, prazer...? > com instituições motivadas para o (des)envolvimento de parcerias e pessoas capazes de partilhar projectos? > de como desenvolver e envolver pessoas com capacidades de promover cumplicidades em «crescimentos»? lizadas sessões prévias, através das quais se pretende estreitar a rela- > de como proporcionar alternativas e complementaridades arti- ção entre o professor e o museu, ir ao encontro do projecto formati- culatórias a práticas educativas formais, não formais e/ou infor- vo das escolas, do programa anual de actividades educativas e de mais? visitas de estudo dos diferentes estabelecimentos de ensino. No entanto, no nosso entender, agora também, mais do que nunca, no planeamento e programação da intervenção pedagógica e/ou > de possibilitar acessos com sucesso a conhecimentos pertinentes, num processo de aprendizagem colaborativa, capazes de provocar mudanças reais e enfrentar desafios? interacção (in)formativa do serviço educativo, devemos questionar > que tipo de didácticas exploramos? para reflectir. > que metodologia de trabalho de projecto? > que tipo de (in)formação prestamos e que projectos desenvol- Qual o papel sociocultural educativo dos museus de hoje? vemos? Quando falamos de intervenção pedagógica fala-se de: Neste sentido, consideramos necessário desenvolver uma atitude de > sensibilizar, incluir, mobilizar reflexão constante; por exemplo, na conjuntura actual da educação > informar, formar, compartilhar para, com e pela ciência, quando falamos de pedagogia/didáctica > literacia, diversidade, multiculturalidade das ciências – acção educativa num museu de ciência e tecnologia – > interacção, inter-relação, complementaridade MCT, fala-se de como, com quem e de quê: > investigação-acção participada, avaliação, reformulação > como profissionais sistematicamente reflexivos? > comunicabilidade, usabilidade, educabilidade, sustentabilidade 38 Quando falamos de interacção (in)formativa fala-se de: > promoção, divulgação e marketing cultural > estudo de públicos e adequação de intervenções > preparação de acções culturais educativas complementares Face a que tipologia de públicos: > Um público em geral e/ou em missão junto dos alunos (público escolar específico)? > Para quem a educação patrimonial e comunicacional (sensibili- > saber ser, «atitude» face a uma nova perspectiva da cultura científica para o quotidiano, para a melhoria da qualidade de vida em… Consideramos fundamental, enquanto equipa de trabalho de projecto de interacção educativa escola/museu, professores e animadores pedagógicos das exposições, a convicção da importância dos seus conhecimentos profissionais docentes, conscientes da consequente complementaridade articulatória da trilogia educacional – aprendizagem zar, informar, motivar para a preservação de…, comunicar o formal, não formal e informal quê, para quem, quando, como, com que efeito)? Neste sentido: > Para quem a educação para, com e pela ciência (na perspecti- O que precisamos mesmo é de dialogar – sejamos o que quer que seja- va da divulgação do conhecimento científico e/ou promoção da mos, enquanto postura pedagógica: ou «agentes educativos for- cultura científica)? mais», tal como a imagem que nos passam dos «professores do sis- Consideramos que, hoje, um museu é para todas as comunidades tema educativo oficial», ou estagiários em profissionalização, usan- aprendentes – entendemos que o papel (in)formativo, lúdico-peda- do os mesmos sistemas pedagógicos, métodos, processos, metodo- gógico, sociocultural dos serviços educativos de todos os museus e prin- logias, estratégias, modelos de ensino/aprendizagem…, enquanto répli- cipalmente dos museus de ciência e tecnologia – MCT, enquanto cen- cas reprodutoras do sistema educativo vigente; ou professores cria- tros de recursos educativos articulatórios de «saberes» relaciona- tivos, tutores, inovadores, animadores socioculturais e/ou interventores dos são multiculturais, inclusivos, economicamente diversificados, activos, artistas superdotados, ou simples artífices promotores de multiétnicos, multi-etários, em suma, abrangentes, tendo consciên- actividades como ateliês/oficinas pedagógicas do conhecimento, cia que, hoje, o público dominante é o publico escolar oriundos das cha- capazes de desafiar, questionar e relacionar em busca de novas e madas visitas de estudo, seguido das suas famílias: óptimas soluções comunicacionais lúdico-educativas, sedutoramen- Saber estar, «conviver» com os vários processos e metodologias for- te contextualizadas, recusando acções pedagógicas duplicadoras de mativas não-formais e/ou informais, complementares ao sistema procedimentos formais educativos, enquanto meras cópias auto- educativo formal da escola, da educação infantil à educação de adul- reprodutoras de respostas pré-estabelecidas sem novidade e renovação, tos, contemplando os seniores e o desenvolvimento da sua generati- ou seja, uma visita de estudo a um MCT, no nosso entender, não é ape- vidade, pelo prazer de compartilhar «saberes» com sabor: nas mais uma aula, mas a complementaridade transdisciplinar de um > saber «saber», conhecimentos sobre… tempo de prazer pela vontade de aprender, numa ambiência comu- > saber «fazer», experimentação em oficinas pedagógicas do nicacional educativa diferente. Daí a importância da comunicação conhecimento e/ou ateliê de práticas de… educacional multimédia, na exploração das colecções do acervo patri- 39 monial do museu, face ao seu discurso expositivo, sempre que possí- > um contribuir para a mudança de didácticas, novas formas de vel em oficina pedagógica do (re)conhecimento das comunicações e pensar, actuar…, sabendo que uma visita de estudo é um tempo do aperfeiçoamento do acto de comunicar essencial à articulação de trabalho, inserido num projecto abrangente de acção edu- dos «saberes», tanto do saber fundamentar, pelo descobrir experi- cativa. mentar, como do saber conviver pelo comungar, tornar comum o nosso É emergente mudar – mudar a maneira usual de programar e prepa- compartilhar. rar a visita de estudo – mas, antes de pensar em mudar, é funda- Neste propósito, o fundamental é mesmo preparar muito bem as mental mudar de pensar – no sentido de que temos que ser sistema- visitas de estudo em conjunto, professores/alunos/museu, centrados ticamente crítico-reflexivos dos nossos projectos de interacção edu- nos alunos, porque o que conta, no final de contas, é criar cumplici- cativa, numa perspectiva integrada e integradora de intervenção dades aprendentes, desenvolvendo um espírito de causas comuns, pedagógica, enquanto resultado de um processo continuado de inves- um entendimento dialogante com o que fazemos e/ou como pro- tigação – acção participada – IAP, conducente e/ou consequente a novas movemos as coisas…, para quem as destinamos e, acima de tudo, impli- perspectivas didácticas, ou seja: cando os destinatários, no trabalho de projecto de interacção edu- > Consideramos a investigação-acção como um excelente guia cativa. orientador das práticas pedagógicas, com um propósito fun- O necessário e premente é a tomada de consciência de como comu- damental – melhorar os ambientes comunicacionais de apren- nicar ciência com consequência, com resultado (trans)formador, de usa- dizagem na sala de aula, com vista a aumentar a qualidade de bilidade educativa, assumindo compromissos cúmplices, com paixão ensino; enquanto metodologia é uma estrutura de interven- e não compaixão permissiva para com o aluno/visitante, envolvendo ção sistémica em espiral; uma didáctica de partilha, reflexão e desenvolvendo: e/ou de (re)formulação dinâmica; assim, em conjunto com a > um espírito de planeamento conjunto, de trabalho de projecto equipa do programa de acção, os intervenientes na metodo- colaborativo, baseado em metodologias activas centradas no logia de trabalho de projecto de interacção educativa – TPIE, estudo para a resolução de problemas comunicacionais e de partimos da focalização do problema – pelo sentir ou experi- objectivos de conteúdo de aprendizagem, em função dos inte- mentar das dificuldades – para estudos centrados na possível resses e necessidades dos visitantes e centrados nestes, nas resolução desse problema – planificação, imaginando, pela suas expectativas, propósitos, perspectivas… sua compreensão, como ultrapassar essa(s) dificuldade(s) – > um serviço educativo comum, complementar, gratificante e gra- fundamentando as suas relações causais; uma vez designa- tificador, enquanto missão de interesse tanto para quem cria, das as hipóteses de interacção – pondo em prática a (re)solu- desenvolve e põe em prática, como para quem se envolve e par- ção traçada, estabelecemos o processo de experimentação- ticipa de uma forma activa e (re)compensadora pela motivação acção participada, à luz dos resultados obtidos pela avaliação e vontade de aprender… contínua tutorizada, logo (in)formativa de causa-efeito – 40 capaz de modificar, aperfeiçoando, a prática – observação 6 > Trabalhar o projecto com o museu a visitar – de acordo com o reflexão crítico-analítica – com vista à melhoria progressiva PAA – Plano Anual de Actividades da Escola – Museu das Comu- da qualidade da acção educativa – seguindo novas direcções, recriando novas hipóteses de interacção que nos permitem a eventual ou necessária reformulação do problema, dando nicações. Desenho do projecto: 1 > Constituição da equipa do programa de acção educativa – tra- continuidade a um ciclo em espiral colaborativa de e na intervenção pedagógica. balho de projecto 2 > Planificação e calendarização do trabalho: visitas de estudo Neste sentido, não podíamos deixar de referenciar quão gratificantes foram e são os trabalhos de projecto de interacção educativa que ao Museu das Comunicações de acordo com o PAA da Escola 3 > Apresentação dos resultados dos trabalhos realizados temos vindo a desenvolver com a Escola Secundária Miguel Torga em Monte Abraão, Sintra 16, com vários grupos/turma.17 Etapas, base de trabalho, de Investigação-Acção Participada O propósito fundamental é trabalhar a usabilidade educativa da inte- – focalização do problema/planificação/hipóteses de interacção racção escola/alunos/museu, numa perspectiva de comunicabilidade 1a fase > Acções de formação de preparação de visitas de estudo (enquanto qualificação do comunicável, da facilidade e intencionali- a museus centro de ciência e tecnologia para constitui- dade no comunicar, partilhar o aprendido) e da educabilidade (enquan- ção da equipa do programa de acção educativa – traba- to envolvimento e desenvolvimento cognitivo das capacidades construtivistas para reagir positivamente às propostas de informação- lho de projecto. a 2 fase > Visitas de estudo prévias a MCT’s (só com professores da formação, motivados pela vontade de aprender e compreender), no equipa do programa de acção educativa) a sentido de reconhecer aos alunos (em visita de estudo ao MC) a sua 3 fase > Preparação prévia da visita de estudo inter-relação esco- competência para a integração em projectos de intervenção educa- la/museu (professores preparam a visita com o Serviço tiva, tanto pela construção autónoma de saberes relacionados, como Educativo do Museu) pela produção dos seus meios e materiais de aprendizagem colaborativa. > experimentação-acção participada/avaliação/observação reflexão 4a fase > Preparação conjunta da visita de estudo (professores Pré-requisitos base para trabalho de projecto de interacção educati- preparam com os alunos) a va: 5 fase > Visita de estudo ao Museu com os alunos acompanhados 1 > Concepção e planeamento do projecto de intervenção educativa 2 > Seleccionar turmas 3 > Envolver os conselhos de turma 4 > Preparação prévia das visitas de estudo 5 > Implementar a prática dos «Diários de Aula» pelos professores a 6 fase > Apresentação dos constructos – avaliação/reformulação > melhoria progressiva/novas hipóteses/reformulação do problema 7 a Fase > Ateliê e/ou oficinas pedagógicas do conhecimento – elaboração de materiais 41 8a Fase > Elaboração de novos materiais de aprendizagem a 9 Fase > Fase – Reformulação/adequação se necessário Como, em geral, não tem ideia precisa do que se pretende demonstrar, não tomará realmente consciência do fenómeno a que acabou de assistir.» 19 > novo ciclo em espiral colaborativa 10a Fase > Reapresentação de construtos Por um lado, porque hoje a grande maioria dos visitantes usuários a dos museus exigem interacção, pois querem fazer e ter alguma coisa a onde actuar e esperam encontrar nos vários percursos expositivos 11 Fase > Reavaliação de resultados 12 Fase > Apresentação pública – discussão do trabalho de projecto de interacção – escola/alunos/museu. muitas actividades que considerem atractivas, fascinantes e, simul- Em suma, consideramos que, quando falamos de museus e educação taneamente, educativas participativas, no contexto dos MCT e dos res- e/ou educação nos museus, falamos essencialmente de metodologias pectivos módulos interactivos participativos. «A visão moderna de de trabalho de projecto de interacção educativa – escola/museu – museu, surgida após a Revolução Francesa com a formação de colec- público-alvo escolar, para intervenções pedagógicas resultantes de ções particulares, criou uma vinculação com o público a partir de uma novas perspectivas didácticas transdisciplinares. acção pedagógica. Neste novo cenário, o museu adaptou-se à mudan- Evocando o eminente Professor Bragança Gil: 18 ça do perfil dos seus frequentadores, surgindo como um espaço em que «Ao contrário dos museus tradicionais – em que o público está sujei- a acção educativa ganhou amplitude e tem extrapolado o âmbito to a normas do tipo «não tocar nos objectos expostos» – o visitante interno das instituições, envolvendo cursos de formação e parcerias de um museu de ciência de segunda geração é constantemente enco- com outras instituições, principalmente ligadas à educação não for- rajado a «participar» na exibição, utilizando o equipamento que aí se mal, abrindo-se a um largo espectro de destinatários.» 20 encontra com esse objectivo. Estes museus, designados, por vezes, por Apostamos na convergência para a compartilha – complementarida- centros de ciência, tiveram um extraordinário desenvolvimento após de/interactividade – articulação; na nossa opinião, são as palavras binó- a Segunda Guerra Mundial, sobretudo nas últimas décadas. Embora mios conceitos chave para uma aprendizagem não-formal interven- de origem europeia, eles começaram por se desenvolver nos Estados tiva, complementar e articulatória de outras tipologias de aprendizagem, Unidos e Canadá. Apenas em época mais recente – já quase nos nos- nomeadamente a formal e informal, na perspectiva da aprendiza- sos dias – o «fenómeno» da proliferação dos museus de segunda gem-ao-longo-da-vida e do muito com a vida, ou seja, convergência geração se estendeu à Europa. para um objectivo, propósito comum – melhorar a qualidade do apren- As exibições interactivas existentes nesta segunda geração de museus der e do aprendente21. ciência e técnica, são, em parte, baseadas na utilização de dispositi- Um serviço educativo convergente é o instrumento eficaz, ideal para vos de demonstração que são postos em funcionamento automáti- conseguir uma educação comunicacional, patrimonial consistente, co pelo visitante. Esta utilização carece de alguma reflexão. Na reali- com base em três grandes objectivos globais: dade, verifica-se frequentemente que o visitante apressado limita-se 1 > fazer reconhecer valor pelo dar a conhecer o património cul- a «carregar no botão» esperando passivamente o que vai acontecer. tural/educacional, científico-comunicacional à comunidade 42 Sala de exposição permanente do Museu dos CTT, na Rua D. Estefânia, Lisboa, acervo iconográfico da FPC. aprendente, no contexto social do museu e sua educabilida- modelo de apresentação e acesso a museus e centros de divulgação de; científica, redefinindo seu papel como instituições dedicadas a aumen- 2 > consciencializar (des)empenho das comunidades sociais envol- tar o grau de percepção pública da ciência e da tecnologia. Surgem, ventes e parcerias institucionais para a necessidade e impor- portanto, as questões de como utilizar o ambiente virtual como meio tância da sua contribuição na preservação desse património educacional, e quais são os tipos de aprendizagem mais adequadas e sua comunicabilidade; para a internet, especialmente relacionados à educação científica. Trata- 3 > interagir social pelo proporcionar à população, meio social se, então, de analisar de forma crítica quais são as possibilidades e limi- envolvente, o gosto da contemplação e compreensão do valor tações únicas da internet para os museus científicos.» e significado do património cultural, científico e educacional, Neste âmbito, consideraremos que não podemos nem devemos falar como contributo para o enriquecimento pessoal e colectivo e de interacção educativa formal, não formal, informal no contexto da sua usabilidade educativa. intervenção escola/museu de ciência e tecnologia, junto dos públicos Importa, também, referir a convergência espácio-temporal do patri- escolares, sem referenciar os seus respectivos sítios na internet. mónio cultural, no seu todo comunicacional, científico, educacional…, Neste sentido, a sustentabilidade funcional, operativa, sociocultural porque não se deve, ou pode, falar de passado sem pensar prospec- dos serviços educativos museais, passa também por uma atitude de tar o futuro, atendendo a que, cada vez mais, os lugares de futuro são empreendedorismo na aprendizagem não-formal. os museus que se transvazam de si próprios, na medida em que se per- Importa, pois, que reflictamos agora sobre os MCT e, para isso, recor- mitem entender, envolver, porque possibilitam a compreensão do seu remos de novo ao questionamento que nos inquieta: passado, presente tangível e intangível e estes se tornaram maiores > Serão os MCT capazes de fazer os seus visitantes usufruir com que as suas colecções, e estas tiveram que sair de si próprias e do seu prazer, na e pela aquisição, apropriação e/ou consolidação de universo museal, para se imiscuírem interagindo de uma forma cúm- conhecimentos científicos, despertando posturas de valoração 22 plice, viva e atractiva com as pessoas e os seus quotidianos . da ciência, estima pelas instituições científico-tecnológicas e Por outro lado, os MCT não existem na sua plenitude sem o respecti- acima de tudo contribuir para o desenvolvimento, alargado, de vo sítio na internet, sem um «lugar cativo» no ciberespaço, sem cons- um «espírito científico» contemporâneo? tar referenciados nas primeiras páginas da internet dos motores de > Serão os MCT uma bolsa de recursos educativos capazes de uma busca globais, nacionais e até mundiais, sem interagir em rede com construção contributiva para fazer produzir e realizar a comu- outros museus e/ou instituições culturais e educativas internacionais. nicação da ciência, tendo como consequência uma educabilidade 23 De acordo com Sabbatini , num artigo publicado na revista electró- social sustentada, pela promoção e desenvolvimento de uma nica de jornalismo científico ComCiência pode ler-se: «cultura científica» melhor e mais adequada às necessidades «O surgimento dos sistemas de comunicação digitais através de redes do nosso tempo? de computador, e especificamente internet, estão criando um novo Assim, consideramos fundamental: 44 > focalizar as nossas atenções na forma e conteúdo do comunicar ciência hoje, através dos MCT; > investigar, com vista a melhor nos consciencializarmos da impor- internet e qual o seu verdadeiro papel, tanto nas conjunturas educacionais (educação formal/educação não formal), quanto na contextura institucional e sócio-cultural. tância e necessidade de preocupações reflexivas, promotoras de Aprender como aperfeiçoar o fazer saber, pelo comunicar ciência e resultados inerentes à satisfação dos públicos destinatários tecnologia através dos SIMCC, promovendo o prazer da aquisição de dos MCT; conhecimentos científicos de uma forma agradável, não formal, mas > contribuir, com propósito, para uma melhoria, que pretende- complementar e articulatória da educação formal, é o perspectivar da mos significativa, dos serviços educativos dos MCT, realizando acti- aprendizagem (colaborativa) ao longo da vida. vidades de acção pedagógica mais credíveis, mais úteis, mais cria- Apreender conceitos como comunicabilidade das ciências, usabilida- tivas e funcionais; em suma, mais fáceis de apreender o conteúdo de das tecnologias, com vista à educabilidade social, é prepararmo- a transmitir, esteticamente apelativas, agradáveis, capazes de nos para melhor entendermos como contribuir para a construção de fazer usufruir o utilizador da satisfação de aquisição de saber saberes autónomos relacionais dos visitantes dos museus de ciência com sabor. e tecnologia (MCT) e respectivos sítios na internet (SIMCT). Evocamos, a propósito, Barthes (1978, p. 21), quando, na sua lição Assim, consideramos imperiosos termos a preocupação de responder inaugural no Collège de France, reinventando a semiologia literária, em pertinência: fala do sabor da sabedoria – a «sapientologia», lugar, onde «a escri- O que essencialmente apreendem os nossos visitantes, com vista à aqui- ta faz do saber uma festa»; diríamos nós, aqui, na realidade com que sição e/ou consolidação de conhecimentos científicos, técnicos e tec- nos confrontamos, onde a museologia da ciência e tecnologia pretende nológicos, artísticos…, pertinentes, úteis, significativos para a interacção fazer também do «saber uma festa» sociocultural. relacional de saberes, transformativos (para melhor) de quotidianos, Fomos constatando, cada vez mais, por experiência pessoal e profis- modos de vida? sional, da importância cada vez maior dos sítios na internet dos museus Deste modo, passou a constituir uma das nossas preocupações prin- centros de ciência (SIMCC), da necessidade de uma percepção realis- cipais, ou seja: ta do que se ensina e se aprende num museu centro de ciência, tanto Que tipo de divulgação de ciência proporcionamos e quais os contri- nas visitas presenciais, como nas visitas virtuais ao respectivo sítio na butos reais para a promoção da cultura científica, promotora de qua- 45 Exposição filatélica «Portugal em selos», 2005. lificação e que tipo de cultura científica realmente promovemos para de partilha positiva e rigor cognoscível, no tratamento museológico a melhoria da qualidade de vida na era digital? do seu acervo: Assumem-se assim, no Serviço Educativo do Museu das Comunicações, no aprender a fazer saber, um saber fazer comunicativo, para melhor experimentar, dar a descobrir novas realidades comunicativas, em pla- sabermos conviver com a diversidade, com o (des)entendimento da con- taformas de interacção comunicacional, pelo criar, proporcionar, dição humana, com a percepção da identidade terrena, com o admi- analisar e avaliar novas soluções de acesso com sucesso à (in)formação, tir o erro e a ilusão; numa perspectiva de solidariedade inclusiva, para ora como instrumentos de aprendizagem ao longo da vida, ora como apreendermos com os outros, o «sabor do saber ser» em cidadania ferramentas facilitadoras de contactos, entretenimentos e de novas total, local e global. socializações em comunidades reais/virtuais, função das necessida- Museu de arte, ciência e tecnologia, numa perspectiva cognitivista de des e interesses do seus usuários. novos saberes relacionais: Museu das Comunicações enquanto museu de empresa, da preservação enquanto contributos articulados para uma educação integral, for- do património comunicante, do perpetuar das memórias colectivas da mação profissional e desenvolvimento de novas capacidades e com- história das comunicações em Portugal, museu do valor das pessoas petências qualificadoras, na área das novas infotecnologias interac- das comunicações e telecomunicações e suas actividades no evoluir tivas da comunicação empresarial, educacional multimédia; dos tempos; museu ícone, cujo Serviço Educativo pretende também con- Museu oficina da comunicação empresarial educacional, do aprender tribuir, hoje, para o desenvolvimento sustentável das comunicações a fazer ser bons comunicadores, transmissores usuários da constru- em Portugal e da qualidade de vida comunicacional na «era digital», ção da tolerância, da paz e do progresso, enquanto comunicantes enquanto processo contributivo para: causadores, geradores de sustentabilidade: > um novo saber relacional, pelo saber ser, estar, actuar na socie- > numa postura de aprendizagem colaborativa, virada para a dade da informação, conducente a uma nova sociedade da compreensão dedutiva dos produtos e serviços empresariais, aprendizagem, do conhecimento e da competência; indutiva na avaliação de métodos, processos educativos, numa > (re)conhecer o valor histórico e patrimonial do processo evo- atitude construtivista do saber aprender a fazer um saber com- lutivo do «acto de comunicar», pelo proporcionar acessos partilhado e a descobrir no presente, a importância do conhe- ao passado do passado das comunicações, ao estudo dos cimento pertinente; meios e ferramentas fundamentais de transmissão de men- > no sabermos hoje, afrontar a incerteza, preparados para o desa- sagens, para aprendermos a saber fazer agora, melhor comu- fio da mudança permanente e promovermos uma melhor comu- nicação; nicabilidade da ciência nas comunicações. Museu missão da Fundação Portuguesa das Comunicações, marca de Museu das comunicações interactivas, educacionais e/ou empresariais, prestígio dos seus instituidores, que responde aos seus desafios ins- enquanto meio privilegiado para saber fazer, experimentar, (des)envol- titucionais, empresariais e comunicacionais, numa atitude investigativa, ver e empreender no futuro do presente; para prospectivar o presen- 46 te futuro, hoje, para que possamos ter saudades do futuro ama- > que todos os usuários de um espaço tempo de cognição, se con- nhã… vertam em melhores gestores desses novos conhecimentos, Na altura (2002) e tempos consequentes, as nossas crescentes preo- capacidades e competências. cupações eram cada vez mais acentuadas pela influência do apren- Que sejam orientadores e/ou utilizadores mais eficazes de novos enca- dizado nos seminários do programa de doutoramento da Universida- deamentos de «saberes» relacionais (pelo uso de hardware e software de de Santiago de Compostela, novas perspectivas didácticas em educativos em rede),tanto do apreender a arte pela tecnologia, do áreas curriculares: aprender ciência, com a tecnologia e/ou do compreender a tecnolo- > absorvidas pela constante evolução da realidade; gia com ciência... enquanto arte de comunicar cientificamente o apren- > inquietantes, porque desassossegadas pelo alcançar platafor- dido. mas experimentais de acção investigativa com vista a captar dinâmicas abrangentes, sejam estas dos quotidianos específicos da relação escola/museu centro de ciência, aos fenómenos educacionais sociais da interacção da ciência, tecnologia, sociedade (CTS) globais; Síntese Evolutiva, numa perspectiva holística. Os museus como ferramentas facilitadoras da construção social do conhecimento e educação patrimonial > promotoras de estudos centrados na resolução de problemas pela No sentido da busca de um entendimento integral dos fenómenos, procura de soluções transformadoras de realidades cada vez entendemos hoje, cada vez mais, que os museus são espaços de con- mais complexas, como compreender o articular complementar ciliação de ambiências comunicacionais; do deslumbramento mara- do currículo escolar formal e o recurso educativo não formal, vilhado, da erudição cognitiva recolhedora, do prazer de aprender de onde, no nosso entender, se inserem os museus centros de ciên- formas mais lúdico-pedagógicas e de novas perspectivas didácticas; cia (MCC), públicos e/ou privados. discursos expositivos adaptados, tanto ao visitante individual, como Pretendemos ainda contribuir para > a construção de novas relações pedagógicas, mais gratificantes, em grupo; conteúdos adequados do interesse pessoal, saber mais e/ou colectivo, mais acessíveis às massas populares; capazes de transformar actividades e atitudes educativas em Os MCT – museus de ciência e tecnologia são hoje, cada vez mais, acções motivadoras de novos interesses, conducentes a novas lugares de futuro, entidades visionárias porque articulatórias da cien- envolvências comunicacionais, mais amigáveis, produtivas e tificidade tecnológica com a arte e intervenção sociocultural, ou seja, fruidoras de novos entendimentos, para novas comunicabili- promovem, no presente, uma nova cultura tecnológica, artística, cien- dades, em rede tífico-educacional, pelo (re)conhecimento do passado numa pers- > que a construção de conhecimento seja, por excelência, um pectiva de futuro. acto comunicativo com o prazer de fazer saber, um saber expe- Um futuro que se projecta, que se prepara na medida em que se cons- rimentado em partilha comungante trói pela compreensão da transformação do presente (em mudança 47 permanente), pela elaboração da percepção comunicacional/enten- acervo museológico, aos módulos interactivos participativos; dimento da causa das coisas que nos rodeiam, em que nos envolve- > da exploração do discurso expositivo analógico (espólio museal mos, desenvolvemos de uma forma pessoal e/ou colectiva. em vitrina), linear e cronológico, ao discurso multimediatizado inte- Mas um verdadeiro visionário vê o invisível e portanto consegue fazer ractivo, não linear, em suportes digitais multimédia; o impossível… > da organização de oficinas pedagógicas tradicionais, formais, Mas só conseguimos fazer o «impossível invisível» (o melhor possível) especifico-temáticas, à intervenção lúdico-educativa, articula- com muita «inspiração e transpiração», ou seja, com trabalho criati- tória (educação formal/não formal/informal) e complementar vo e colectivo. dos saberes – saber «saber», conhecimento; saber fazer, expe- Trabalho criativo positivista, articulado e compartilhado complemen- riência; saber ser, atitude; saber estar, conviver – aos quiosques tarmente, numa abordagem integrada e integradora porque conci- interactivos participativos do tipo «saber +», com vista à des- liatória do tangível com o intangível, do tradicional com a modernidade, coberta do acervo tangível e/ou intangível relacional do Museu do discurso museológico analógico com a nova museografia digital. das Comunicações. Uma abordagem museal com contemporaneidade e modernidade, Hoje, cada vez mais, as visitas guiadas, segundo os princípios da nova pela actualidade artístico-tecnológica, criatividade comunicacional, museologia interactiva, reafirmam a importância da função social do na diversidade dos discursos expositivos, multimediatizados interac- museu e do carácter global das suas intervenções inter-relacionais ACTS tivos e dos vários procedimentos museais (museologia e museografia) – arte, ciência, tecnologia, sociedade. inerentes a processos técnico-artísticos conceptuais dinâmicos, edu- Intervenções ACTS científico-artísticas, técnicas e tecnológicas, socio- cativos (in)formativos… socioculturais interventivos – com inovação. culturais/educacionais que assentam em intercâmbios de saberes e Inovação, enquanto renovação (re)construção promotora novidade, experiências, interacções relacionais analógico-digitais, presenciais de mudança, de transformação, pela originalidade da utilização reais e/ou em visitas virtuais online (em presença em linha – rede mun- criativa de todos os recursos educativos (humanos e/ou mate- dial – sítio na internet do Museu), multiculturais, multidisciplinares de riais) disponíveis: transdisciplinaridade complementar de interacção/intervenção peda- > os meios e materiais de aprendizagem, desde os tradicionais gógica (no conceito e contexto da necessidade de aprendizagem ao guias e/ou áudio-guias, audiovisuais, aos livros temáticos, aos longo da vida – educação formal, não formal e informal). «cadernos didáctico-pedagógicos» analógico-digitais, cons- Actividades lúdico-formativas desenhadas especificamente para trutivos / multimédia interactivos, com miniaturas, jogos, maque- crianças, jovens, adultos, seniores, comunidades profissionais, edu- tas manipuláveis, aos esquemas dinâmicos, simuladores (com info- cativas e/ou famílias nas quais as intervenções (in)formativas implicam tecnologias 3D) de funcionamento de mecanismos e/ou siste- um estudo fundamentado de públicos, das suas necessidades e inte- mas operativos; resses, da «usabilidade educativa» das visitas ao museu e implicam > das réplicas manipuláveis de objectos à escala, inerentes do a necessária inerente preparação de novas equipas de interacção 48 Guarda-fios em 1864, aguarela de Luís Jardim Portela, 1962, acervo iconográfico da FPC. interventiva (museólogos, professores, técnicos, artistas... enfim, Os museus devem ser actualmente (e alguns são – sendo o Museu das novos pedagogos criativos), com vista a proporcionarmos ao visitan- Comunicações um excelente exemplo), tempos de interacção social, te do nosso Museu a consequente satisfação no/do seu usufruto. de reflexão permanente, de investigação-acção participada (IAP) Equipas de trabalho de projecto multi-especializadas, desde o recur- face ao necessário e pertinente estudo continuado de públicos e ava- so à experiência e/ou aos saberes dos museólogos tradicionais às liação da sua adequação conteudística; espaços de comunicabilida- novas actividades relacionais perspectivadas pela nova museologia edu- de funcional e operativa, amigáveis, interactivos, participativos; espa- cacional às quais, hoje, modernas equipas de animação pedagógico- ços-tempos de intervenção educativa, de aprendizagem comple- museal sociocultural darão cabal resposta. mentar articulatória do formal, não formal e informal; tempos de No nosso entender há que promover intercâmbios intergeracionais, para satisfação no usufruto do seu espaço expositivo e de intervenção que esta animação pedagógica sociocultural seja promotora de mul- sociocultural, lúdico-didáctica, oficinas pedagógicas promotoras de edu- ticulturalidade e transversalidade multidisciplinar. cabilidade pela construção de saberes autónomos relacionados, em Agora a transdisciplinaridade sociocultural educativa, em RAC – redes suma, da construção criativa de usabilidade educativa. de aprendizagem colaborativa tem um papel fundamental na cons- Com efeito, devemos aprender a aprender continuamente a conciliar trução de novos «saberes autónomos» relacionados e os serviços as mais diversas «artes», articulando várias formas de expressão e educativos dos museus, nomeadamente os museus de empresa e de representação artística, tecnológica, científica e social, conducentes ciência, que é o caso do MC – Museu das Comunicações. à melhoria de práticas educativas inovadoras, atractivas, sedutoras, Assim, os espaços do Museu das Comunicações proporcionam tempos interventivas, lúdico-pedagógicas, capazes de cumplicidades visitan- privilegiados para a (des)construção criativa da escola, pela criação com- te/visitado, públicos/museus, tornando o usufruto do museu «ines- preensão de ambiências comunicacionais favoráveis ao «saber com quecível» numa perspectiva inter-relacional, articulatória e comple- sabor», pelo aprender a fazer saber com o prazer de comunicar edu- mentar ACTS – arte, ciência, tecnologia, sociedade; reinventando cacionalmente... memórias, pelo «parar o olhar para ver» para apreender o ver/ler a Experiências comunicacionais «inesquecíveis», porque facilitadoras arte de fazer, «ver para fazer saber», promovendo uma cultura cien- de novas tipologias de aprendizagens lúdico-(in)formativas relevan- tífica, pelo explicado, fundamentado, compreendendo, humanizan- tes, importantes, significativas activas e actuantes, que provocam e do as (info)tecnologias, enquanto ferramentas facilitadoras de novos promovem (trans)formação pelo (des)envolvimento pessoal, pela inter- acessos com sucesso a novos (re)conhecimentos – fazer saber com venção sociocultural, artística e/ou técnico-científica. sabor. Agora, as intervenções educativas devem funcionar como ferramen- Deste modo, num processo «mágico» lúdico-educativo, de viagem tas SiM – sensibilizar, informar, motivar, causadoras da melhor com- intemporal no tempo passado, presente, futuro presente, em espa- preensão do exposto e da necessidade de voltar a usar e fruir por ços de «deslumbramentos» vivenciados à volta das colecções, da todos e, acima de tudo, recomendados por estes a outros. vida própria de cada peça, objecto museológico. Aí, as colecções 50 ganham forma e conteúdo rela- como valorizar no presente os cional de cumplicidades com as talentos potenciais das pes- pessoas e profissionais, com as soas e suas capacidades indi- técnicas e profissões e/ou seus viduais e competências em utilizadores usufrutuários. equipas de trabalho de pro- Assim, como viajantes desse jecto-oficina, envolvidas na tempo envolvente de partidas construção do conhecimento e «à descoberta das comunica- desenvolvimento da usabili- ções» da preservação, estudo dade educativa dos museus e conservação do seu, nosso, de empresa. património museológico, numa Promover pelo (re)descobrir os perspectiva colectiva de acha- museus de empresa enquanto mento e construção social do museus centros de ciência e conhecimento e da Educação tecnologia ao serviço da comu- Patrimonial, com enquadra- nidade educativa envolvente, mento artístico, técnico-cien- abrangendo desde grupos de tífico, tecnológico e social, que visitantes, aprendentes indi- se pretende relacional, diver- viduais, alunos e suas famílias, sificado, interactivo, inclusivo e solidário com as histórias de vida das grupos de professores, guias, monitores, animadores, estagiários, pessoas das comunicações em Portugal, reconhecendo o valor passado, investigadores, historiadores e todos os profissionais da museologia..., compreendendo melhor o perspectivar do presente, prospectando o aos empresários investidores – mecenas. futuro, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida desta «era É nesta conjuntura de preocupação com o património das comu- digital», cada vez mais globalizada e globalizante, em que a «humil- nicações de Portugal, e sua aplicabilidade como recurso educati- dade do conhecimento partilhado» nos leva a novas aprendizagens vo, neste caldo construtivo de preservação, num contexto de cisão colaborativas, para novos conhecimentos pertinentes. Ou seja, à che- e união empresarial e de compartilha, que contributos funda- gada, voltar a redescobrir o experimentando, a fazer melhor saber mentais, desde a decisão política de criar a Fundação Portugue- com o «sabor» de aprender/compreender o viver melhor em sociedade sa das Comunicações – Museu das Comunicações aos gestores, qua- – saber conviver. dros das respectivas instituições, da cooperação (in)formativa, Porque, para melhor empreendermos no presente, preparando o técnica e tecnológica das mais variadas pessoas, técnicos espe- futuro, necessitamos de (re)conhecer tanto o passado do passado, cialistas, amantes conscientes do valor e importância da conser- NOTAS 51 1 Conclusões do relatório da APOM 79, cit. Por Garcia Nuno Guina; O Museu entre a cultura e o mercado: um equilíbrio instável, p. 21. 15 Do sítio na internet da Fundação Portuguesa das Comunicações – Museu das Comunicações. 2 em http://www.icom.org.br/codigoeticaICOM2006.pdf 16 3 Trata-se de representações simbólicas de entidades, produtos e serviços que criaram e desenvolveram o seu próprio valor e poder; algumas delas tornaram-se símbolos incontornáveis de qualidade e prestígio. Ícones de referência, assim como representações de natureza artística, educacional, social e cultural – signos que atravessam o tempo. No nosso contexto são exemplos os logótipos dos CTT – Correios de Portugal, PT – Portugal Telecom e ANACOM – Autoridade Nacional de Comunicações. A Escola Secundária de Miguel Torga é parceira do Museu das Comunicações – Serviço Educativo em Projectos de Interacção Educativa desde o ano lectivo de 2002-2003 até à presente data. 17 Nomeadamente com os alunos da estimada professora Margarida Mouta. 18 Professor Fernando Bragança Gil, fundador e ex-diector do Museu de Ciência, profundo conhecedor da história da Escola Politécnica, dos seus professores e da investigação aí realizada, em http://www.cictsul.ul.pt/projecto.htm – Centro Interdisciplinar de Ciência tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa. 19 Em manual de museologia, no capítulo XI, referente a Museus de Ciência e Técnica, pode ler-se, Rocha-Trindade et al (1993, p. 251). 20 HOMS, Mª Inmaculada Pastor, (2004), Pedagogía Museística – Nuevas Perspectivas y Tendencias Actuales. Barcelona: Ariel. 21 «Só é útil o conhecimento que nos torna melhores» – Sócrates. 22 Percepcionamos, face ao que constatamos, o que acontece com as famílias que visitam os MCT, motivadas, impulsionadas pelos filhos/alunos que antes os usufruíram nas visitas de estudo; de tal modo que, na grande maioria das vezes observadas, são os próprios filhos que se assumem como «guia/monitores» da visita familiar ao museu. 23 Marcelo Sabbatini é doutorado em Teoria e História da Educação pela Universidade de Salamanca, Espanha, e pesquisador associado do Instituto Universitário de Estudos da Ciência e da Tecnologia da mesma universidade. Editor do boletim de divulgação científica Infociencia.Net. 4 em Códice, 1998 Junho, número um, pp. 10 e 11. 5 em Códice, 1998 Junho, número um, p. 4. 6 em Códice, 1998 Junho, número um, p. 11. 7 Dr.ª Maria da Glória Pires Firmino, conservadora-chefe do Museu dos CTT. 8 Aquando da sua alocução no Seminário «Museus e Educação» organizado pela Associação Portuguesa de Museologia (APOM) em 29 e 30 de Maio de 1967 e publicada pela APOM, MUSEUS E EDUCAÇÃO, Lisboa, 1971, pp. 65 a 69. 9 APOM, MUSEUS E EDUCAÇÃO, Lisboa, 1971, p. 65. 10 APOM, MUSEUS E EDUCAÇÃO, Lisboa, 1971, pp. 65 e 66. 11 APOM, MUSEUS E EDUCAÇÃO, Lisboa, 1971, p. 66. 12 APOM, MUSEUS E EDUCAÇÃO, Lisboa, 1971, p. 66. 13 GAMC – Grupo de Amigos do Museu das Comunicações. 14 APOM, MUSEUS E EDUCAÇÃO, Lisboa, 1971, p. 69. Animação da exposição «Os 100 anos do telefone», 2005. vação do nosso património histórico das comunicações, nomea- Confiamos na vontade colectiva, interesse e necessidade da procura damente de equipas específicas de museólogos, arquitectos, da essência da (in)formação para o (des)envolvimento pessoal e inter- engenheiros, conservadores, documentalistas, estudiosos, histo- venção social, como via para a promoção de uma nova cultura cientí- riadores, investigadores, artistas e artífices... são relembrados. fica acessível a todos; Todavia, e acima de tudo, é às valorosas e voluntariosas indivi- Acreditamos no desenvolvimento e sustentabilidade de uma nova dualidades que fazem parte dessa, para sempre memorável, equi- Sociedade em Rede Colaborativa, que passa pela (re)construção de sabe- pa de trabalho colaborativo, que deu forma e conteúdo ao anti- res relacionados, porque estamos cada vez mais convictos, de que na go Museu dos Correios, que aqui se presta muito modesta home- melhoria da Qualidade de Vida na Era Digital, a trilogia comunicabili- a nagem, na pessoa da Dr. Maria da Glória Pires Firmino, sustentá- dade / educabilidade / usabilidade configuram o sucesso pessoal e colec- culo na continuidade do ex-Museu dos CTT que germina o actual tivo que se projecta; Museu das Comunicações seu herdeiro. Reconhecemos que o progresso educativo-institucional se constrói Porque, na medida em que compartilhamos saberes relacionados, agora, em (RAC) redes de aprendizagem colaborativa, pela comple- de vivências feitos, com a experiência das pessoas e para as pes- mentaridade relacional de «saberes», num processo educacional soas, em cumplicidade, em equipa de trabalho de projecto, com estu- construtivo (formal, não formal e informal) através de «novas expe- dos centrados na (re)solução de problemas, com vista à constan- riências didáctico-pedagógicas» em parcerias compartilhadas de te melhoria de práticas e qualificações, em consciência da impor- investigação-acção participante. tância de comunicar ciência com competência... mas com e para o Assumimos que a indispensabilidade de um salto para o desenvolvi- nosso quotidiano sempre. mento futuro da museologia interactiva educativo-empresarial passa Confirmamos a importância do acesso com sucesso ao conhecimento pela (re)qualificação da usabilidade educativa dos museus de empre- pertinente; sa, enquanto museus de arte, ciência e tecnologia, ao serviço do Certificamos o valor da aprendizagem significativa, ao longo da vida, público, usuários da comunicabilidade/educabilidade na satisfação do como construção desse sucesso; usufruto – usabilidade. 52 Alfredo Anciães | Licenciado em História e pós-licenciado em Bibliotecas; Arquivos; Museologia e Gestão do Património. Património museológico de telecomunicações: criação e gestão em contexto Conselheiro e director dos Telégrafos, Guilhermino Augusto de Barros, acervo iconográfico da FPC. 1. A criação então chamado Museu Postal que, como acima referimos, era pre- Em 1878, os Correios Telégrafos e Faróis deram início ao projecto de cria- dominantemente de telegrafia, ou seja, de telecomunicações. ção de um museu, tal como se depreende do relatório de Guilhermi- A relação entre a biblioteca (que ao tempo englobava também docu- no Augusto de Barros: «Quanto à Biblioteca e Museu Postal procurarei mentação de arquivo) e o museu apontava já um interesse didáctico ir coligindo quanto lhe respeita e for possível obter, compenetrando- e científico para o sector das comunicações. Porém, a vertente român- me do pensamento civilizador que inspira tal lembrança» (Barros, tica da altura, embora criativa, começou a ceder a outras preocupa- 1 1878) . Porém, este projecto de Museu Postal, assim era designado, ções. Em 1886, surgiu a questão do «mapa cor-de-rosa» e a crise tratava também de telecomunicações e sinalização costeira 2. Este relacionada e, em 1890, o «ultimato inglês». momento do início de um museu, em 1878, foi uma acção meritória, De ora em diante, os investimentos públicos não imediatamente ren- preconizada pelo ministro das «Obras Publicas, Comercio e Indus- táveis iriam ficar condicionados. Assim, o museu da actividade de Cor- tria» João Guarberto de Barros, em 1877. Classificamos, porém, este reios Telégrafos e Faróis permaneceu sem visibilidade durante déca- primeiro acto de «cariz romântico» em conformidade com a menta- das, o que justificará a falta de documentação técnica, como catá- lidade da época e que se terá extinguido nas décadas seguintes. logos, desenhos, fotografias, planos e relatórios que demonstrem a Assim se explica a chegada ao século XX e inclusivamente o ano de 1934 evolução do museu entre os anos 80 do século XIX e os anos 30 do sécu- sem documentação relevante que ateste a evolução do museu, excep- lo XX. tuando ligeiras notas de que são exemplo o capítulo «Melhoramentos e emprehendimentos» do Relatório Postal de 1877-1878. 2. Refundação Este museu foi inicialmente dotado de um primeiro núcleo de 30 Após o longo período de falta de visibilidade, Godofredo Ferreira 4 veio peças 3 que se presume serem na quase totalidade de telecomunica- em 1934 relançar a ideia do Museu dos CTT, chegando a sua sugestão ções. Com efeito, analisando os registos antigos, começando pelo ao correio-mor Luís de Albuquerque Couto dos Santos. A sugestão número um e até ao trigésimo, verificamos que das trinta peças ini- foi bem acolhida. O Sr. correio-mor despachou favoravelmente a pro- ciais, vinte e duas são de telegrafia eléctrica. Foi reservado para estas posta, nomeando o chefe de divisão Godofredo Ferreira para traba- peças um pequeno móvel, o que denota um interesse do tipo «gabi- lhar no sentido de «encarar-se rapidamente a efectivação da criação nete de curiosidades», ainda ao jeito do século XVIII. Não obstante, [que na realidade foi uma recriação ou refundação] do museu» 5. este embrião de museu surge-nos associado a um órgão afim - a Não obstante a corrente favorável à criação de museus no início do biblioteca, também instalada num móvel igual ao do património Estado Novo, juntamente com a acção de Godofredo Ferreira, o Museu museológico. dos CTT só voltou a ter existência oficial, não em 1934 conforme as indi- Os dois móveis ainda se encontram etiquetados e preservados no patri- cações do Sr. correio-mor, mas sim em 1947. Entretanto, Godofredo Fer- mónio museológico da Fundação Portuguesa das Comunicações e reira iniciou uma acção tão urgente quanto meritória, de recolha de testemunham o core memory ou o primeiro cartão de identidade do documentação histórica. Em 1947, a par da refundação do museu, ins- 54 Retrato de Godofredo Ferreira, acervo iconográfico da FPC. Imagem da peça inventário Nº 1, relé telegráfico, acervo iconográfico da FPC. titui-se, pela primeira vez, o lugar de con- forma como evolucionam ao longo do tempo. servador-chefe, com a nomeação do Dr. Mário 2) Da definição resulta, em primeiro lugar, Gonçalves Viana. que o Museu tem um sentido e uma função Nesta época, os museus vinham desempe- eminentemente históricos, mas o mesmo pre- nhando um papel no desenvolvimento de tende igualmente servir a cultura profissional uma «política do espírito» como costumava dos Correios Telégrafos e Telefones [...]. 6 referir António Ferro , e o segundo conser- 3) O Museu procura, finalmente, proporcionar vador do Museu dos CTT António Mora Ramos. ao público o conhecimento global dos mate- Foi então atribuída ao Museu uma sede pro- riais utilizados pela administração nas dife- o visória na Rua Mouzinho da Silveira, n. 23, indo rentes épocas e dos métodos de trabalho depois para a Rua de S. Mamede ao Caldas. seguidos no desenrolar dos anos» (CTT: OS, 1955,1).8 Organização, objectivos, finalidades e património o Não obstante todos os condicionalismos encontrados, o conservador Mário Gonçal- Na circular n. 33/A de 1947, ano da nomea- ves Viana apresentou em 1947 cerca de 1500 ção de Mário Gonçalves Viana, sob o título registos de inventário, relativos ao mesmo Organização do Museu dos CTT, podemos número de peças, sendo para isso preparada verificar que: «Estando, presentemente, em uma sede para o Museu na Rua de S. Mame- organização activa o Museu dos CTT, no qual de. Em 1949, o primeiro conservador Mário se devem recolher e catalogar, além de todo Gonçalves Viana foi autor da publicação «Um o material em uso, todos os aparelhos e utensílios antigos ou postos Museu dos CTT: Objectivos – Organização – Realização – Funciona- de parte susceptíveis de documentarem, de uma forma viva e expres- mento» (Lisboa: CTT. Ed. dos Serviços Culturais). Trata-se de um estu- siva, a múltipla e extensa actividade da nossa corporação, é de abso- do de excepcional qualidade e que constitui ainda uma obra de refe- luta conveniência fazer recolher ao referido museu tudo quanto, de rência entre os estudos de museologia a nível internacional. qualquer maneira, ofereça interesse para a história dos CTT em Por- Em Julho de 1952, foi nomeado o segundo conservador-chefe, António tugal» (CTT: 1947). 7 Mora Ramos. Este conservador geriu as actividades do museu e preparou Os objectivos e as finalidades da política museológica dos CTT nos anos a exposição do sector de telecomunicações na Rua Castilho, n.o 15 - 20 1950 estão expressos na «ordem de serviço n.o 5505, 1 de Março de 1955: andar, que viria a ser inaugurada em 1959. Integraram a exposição de 1) O Museu dos CTT será a representação viva das múltiplas activida- telecomunicações, além de peças funcionais, várias miniaturas e docu- des dos CTT nos variados sectores por que aqueles se desdobram e na mentação iconográfica. Foi outra lufada de ar fresco na museologia que 56 o antecessor terá ajudado a realizar com trabalhos prévios e com o seu e ainda um jardim com cerca de 340 m2. A exposição da Estefânia legado de saber: na museologia, na arquivística e na biblioteconomia, integrava pela primeira vez em simultâneo e no mesmo edifício as três áreas onde Mário Gonçalves Viana foi autor e inovador. principais colecções: Correio, Filatelia e Telecomunicações. O pensamento do conservador António Mora Ramos e o tipo de acção A classificação de peças deste período caracteriza-se na seguinte que caracteriza o seu trabalho podem ser analisados pelo contexto da tabela de colecções: sua palestra, editada em livro, cujo título é sugestivo, O Valor Psico-pedagógico de um Museu Profissional, em que ele próprio refere: «Tratase não apenas de uma palestra mas de mais uma das muitas dezenas de palestras que a Administração Geral ao serviço de uma constante 9 política do espírito [...]» (Ramos: 1954) . Estas referências dão-nos uma ideia do ambiente social, político e profissional da organização > Telegráficas Metropolitanas do Continente e Ilhas Adjacentes; Ultramarinas; Internacionais > Telefónicas Metropolitanas do Continente e Ilhas Adjacentes; Ultramarinas; Internacionais > Radioeléctricas Metropolitanas do Continente e Ilhas Adjacentes; Ultramarinas; Internacionais estatal dos CTT. Quanto aos novos funcionários da Administração CTT, o conservador Mora Ramos refere que deveriam passar, aquando da sua admissão, por um Esta terminologia de colecções subdivide-se em equipamentos e mate- estágio no museu, a fim de conhecerem o passado e o presente da riais, tais como: «Aparelhos, Utensílios, Desenhos; Esquemas; Mapas; «Casa» que iriam servir: «Interessa, sobretudo, que cada funcionário Fotografias; Impressos; Publicidade e Propaganda; Representação [...] veja e sinta que é um elo da cadeia, um pormenor indispensável no Documental dos Serviços CTT; Documentação Profissional e História; arranjo do conjunto. Interessa sobretudo, que encontre na grandeza da Indumentária, Numismática e Diversos» 11. Administração o estímulo indispensável para levar avante o seu próprio Nos finais dos anos 60, o acervo museológico de telecomunicações ron- trabalho com entusiasmo, com dinamismo, com justificado orgulho! [...]. dava cerca de 1500 peças, tratadas com um inventário sumário basea- Este Museu vivo que corresponde a uma necessidade da nossa época e do em listagens e fichas (umas manuscritas, outras dactilografadas). É da nossa Administração, este Museu que, se Deus quiser, permitirá criar sintomático da época, anos 40 a 60, a classificação de peças em «Publi- 10 uma colectiva consciência profissional» (Ramos: 1954) . cidade e Propaganda», «Documentação Profissional e História», «Numismática» e «Ultramarinas», fazendo jus à «política do espírito», a 1 exposição de telecomunicações do Portugal do Minho a Timor e ao «elo da cadeia» que cada funcionário Neste contexto da «política do espírito» do Estado Novo, foi inaugu- «deveria ser», como refere o conservador António Mora Ramos. 12 rada, em 1959, a primeira exposição do sector de telecomunicações no 2o andar da Rua Castilho, no 15, e o primeiro edifício utilizado por intei- 3. Democratização ro para o museu foi o da Rua de D. Estefânia números 173-175, com uma A partir de meados da década de 70, desenham-se novas políticas área total de aproximadamente 745 m2 distribuídos por quatro pisos museológicas. É exercida uma acção pedagógica na sede do museu, 57 que reabrira em finais dos anos 60 na Rua de D. Estefânia. As instituições ções e dos recursos para as guerras de África, não permitindo repen- museológicas nesses anos 60 e 70 passaram por um certo abandono. sar a política museológica ou mesmo reactivar a tradicional acção; refor- Verifica-se que os museus portugueses, após uma intensificação das ço da emigração, revelando um desinteresse de permanência no Por- suas actividades relacionadas com a ideologia no que toca a uma tugal de regime ditatorial. certa exaltação nacionalista com epílogo na exposição do «O Mundo O desinteresse pelas exposições e museus repercutia-se na área patri- Português» (1940), começaram a entrar em crise. monial. Porém, na década de 80, algo mudou. A loja do Museu, melhor Com o objectivo de pôr cobro a esta crise, alguns museólogos apela- preparada, veio reforçar o interesse dos visitantes. Começou uma ram para novos valores, como a integração de programas educativos nova política de relações públicas e marketing, com a oferta e venda e culturais em consonância com o processo de democratização da de materiais de âmbito cultural e publicitário. Deste modo se cativou sociedade. Nesta perspectiva, citamos Domingos Pinho Brandão: o público escolar num panorama museológico nacional de museus «Logicamente, um Museu deverá ser uma escola de educação e cul- com poucos recursos. tura [...] não se destinando somente aos especialistas, mas a todo o Depois de um trabalho notável na primeira metade da década de 80 homem mesmo ao menos culto, para que seja mais culto» (Brandão: com promoção de exposições itinerantes pelo País e deslocações a 13 1976) . escolas e colectividades, o Museu dos CTT encerrou inesperadamen- Esta política implicaria a necessidade de investir em nova formação e te as portas em Maio de 1985. Desta feita, alegou-se que as instala- investimentos compatíveis para alterar as tradicionais práticas museo- ções de água e electricidade da Rua de D. Estefânia, 173-175, estavam lógicas e museográficas e cativar novos públicos: «No mundo dos em perigo de provocar uma situação de catástrofe. Esteve o museu museus, o ponto crítico do problema da sua sobrevivência, da sua encerrado ao público desde essa altura, Maio de 1985, até Outubro de resolução das suas carências, da sua integração na vida das regiões 1997, data em que reabriu com outra administração e outro estatu- [...] é constituído, precisamente pelo divórcio entre a teoria e a práti- to. Nesse meio tempo, promoveram-se exposições itinerantes tem- ca. [...] Ao meditar sobre a situação dos nossos museus e consideran- porárias de curta e de longa duração, recolheram-se, incorporaram- do o que tenho lido, visto e ouvido, dos que têm tentado com todo o se, registaram-se, inventariaram-se, informatizaram-se, classifica- entusiasmo e sacrifício próprios enfrentar a crise que atravessamos, ram-se em nova tabela de colecções, conservaram-se e restauraram- verifiquei o seguinte: Entre nós - os Museus de Comunicações e Trans- se milhares de peças de telecomunicações. portes - deixamo-nos absorver de tal maneira pelos nossos próprios (Firmino: 1976) . Tabela (ou chave) de classificação das colecções utilizada desde 1985 a 1998 Esta anotação da 3a conservadora-chefe do Museu deixa antever os Esta tabela foi muito útil durante uma dezena de anos. Entretanto, inúmeros problemas que, em nossa opinião, radicavam no seguinte: o sector das telecomunicações evoluiu com novas tecnologias e novos crise do Estado Novo, afectando o museu devido à mobilização das aten- serviços, e a tabela de classificação começou a não responder às assuntos que estamos cada vez mais afastados uns dos outros [...]» 14 59 Sala de exposição permanente do Museu dos CTT, na Rua D. Estefânia, Lisboa, acervo iconográfico da FPC. necessidades. No início dos anos 80, o Museu dos CTT ainda utiliza- Trata-se de uma tabela simples para a variedade e quantidade de peças va, embora já desactualizada, a velha classificação designada por a classificar, cerca de 40 000, em 17 000 registos (segundo dados de «catálogo do material museográfico». Quanto à nova tabela (1985- 2006) e, é muito pertinente na classificação e recuperação da infor- 1998) para a época da democratização dos museus, esta foi elabo- mação (Anciães: 2002).15 rada por um grupo de trabalho dos CTT, entretanto integrado nos Amigos do Museu e coadjuvado pelos recursos da área museológica de telecomunicações. Esta tabela de classificação foi elaborada com 7 (sete) Tabela de classificação das colecções da primeira década de 2000 colecções principais de equipamentos, tais como: Número de Tabela versão de 2002 para classificação do património I – Terminais; II – Transmissão; III – Radioeléctrico; IV – Comutação; categoria museológico de telecomunicações seguida de exem- V – Energia; VI – Medição e Ensaio; VII – Ferramentas. ou colecção plos das peças mais conhecidas. Estas sete colecções desdobram-se em várias subcategorias que aqui 01 Telegrafia óptica e visual seria fastidioso apresentar. A classificação de uma única peça atra- Telégrafos chappe e de persianas; maquetas e ima- vés desta tabela implica, em alguns casos, 6 caracteres e 5 pontos divi- gens de facho; tam-tams; trompas; faróis; bandeiras; sores, tal como no seguinte exemplo: I.2.2.3.1.1 para classificar o item galhardetes; cadernais; telescópios; lanternas; helió- PPCA – Posto Principal de Comutação Automática de Relés. Trata-se grafos; equipamentos para aprendizagem de códi- de uma classificação demasiado precisa e complexa. Esta tabela de gos. classificação de colecções e subcolecções apresenta-se em dez páginas A4. Acontece que passado uma dezena de anos, com os métodos 02 Telegrafia eléctrica informáticos de pesquisa, o património não carecia mais deste siste- Transmissores e receptores tipo: morse; breguet; stel- ma de classificação, complexo e demasiado pormenorizado, por um jes; hughes; baudot; fac-simile; telex; videotex; cor- lado, e por outro lado insuficiente, já que não contemplava as novas fac/telecópia. tecnologias entretanto aplicadas nas telecomunicações. A reorganização do acervo, em 1998, não se compadecia com este tipo 03 de classificação e a mesma foi remetida para histórico do Arquivo Novos terminais Em rede, tipo internet e intranet. técnico da Fundação Portuguesa das Comunicações. Como a necessidade «aguça o engenho» e o património não parou de aumentar 04 Telefonia - terminais em quantidade, foi criada para esta fase da primeira década do Precursores: de bateria local; de bateria central; auto- segundo milénio uma nova classificação constituída por 19 colecções. máticos analógicos; automáticos digitais; visiotelefones. 60 05 Telebip 10 Equipamento electrónico e diverso de centrais Terminais - emissores/receptores. Equipamentos de Placas de processamento, matrizes, interfaces, placas estação e de exterior: emissores; retransmissores; ante- e outros objectos de sinalização; relógios remotos; gera- nas. dores de corrente-de-chamar; memórias de massa, modems. 06 Radiotelegrafia/radiotelefonia Manipuladores de sinais, emissores; receptores; bobi- 11 Energia alimentação protecção e afim nas; coesores; detectores; sintonizadores; onduladores; Geradores; alimentadores; motores; pilhas; baterias; antenas; relés; osciladores; válvulas; filtros. transformadores; condensadores; resistências; páraraios; fusíveis. 07 Televisisão/teledifusão Receptores; emissores; retransmissores; sintonizadores; 12 Ensaios, medidas, controle, aparelhos e objectos vuboscópios; osciloscópios; demoduladores; analisa- didácticos dores; monitores; válvulas; clistrões. Carrilhões; dinamómetros; galvanómetros; calculógrafos; ohmímetros; voltímetros; multímetros; medidores 08 09 Comutação: telefónica, telegráfica e dados de intensidade de campo; ondâmetros; medidores de Comutadores de parede, de pavimento e de mesa; cen- distorção de ruído; medidores de resistência de terra; trais tipo strowger; ATU – centrais telefónicas automá- localizadores de perturbação de telegrafia e telefonia ticas de uniselectores; ANC – centrais nodais de comu- sem fios; pesquisadores de ruído; zumbidores; conta tação automática; ATC - centrais telefónicas automá- minutos/fiscalizadores de chamadas; inclinómetros de ticas com selectores de coordenadas; ALD - centrais via; leitores de elongação e desvios; frequencímetros; telefónicas automáticas locais digitais; selectores; rege- pontes de localização de avarias; relógios reguladores neradores; relés. de impulsos; contadores de estação. Transmissão de exterior e de centrais 13 Ferramentas comuns e específicas Equipamentos de linha; postes; ferragens; fios; isola- Kits de ferramenta especial de electricistas e mecâni- dores; linhas partilhadas de comutação manual; linhas cos; extractores; escariadores; flectores; chaves de tor- partilhadas de comutação automática; cabos, retrans- çadas; fornalhas; ferros de marcar postes; trados; ana- missores; torres; antenas, satélites. lisadores de postes; estribos; colheres para terra; pás, colheres para solda; cadernais; maçaricos; cintos de 61 segurança; esticadores; alavancas; forjas; machados; Nos anos 80, abriu uma galeria no Largo da Trindade como exposição martelos; almotolias; mandris; cadinhos de soldar. de carácter provisório até se instalar um novo museu pensado para a Rua da Palma, que não chegou a concretizar-se. Outra exposição de refe- 14 Serviços e administração rência esteve no Fórum Picoas, «Comunicações: Uma Aventura Sem Máquinas de escrever; calculadoras; outros objectos que, Fim». Os serviços e o património museológico continuaram pulveriza- não sendo específicos para a temática comunicações, aju- dos pela galeria no Largo da Trindade, a secretaria e administração dam a complementar contextos e/ou cenários expositivos. andaram primeiro pela Rua Casal Ribeiro, depois pela Rua Tomás Ribeiro e Rua Castilho. Houve entretanto exposições temporárias em Lisboa 15 Sinalização logótipos outros distintivos e algumas itinerantes por diversas localidades do País. O património e Pedras «Cabo do Tejo 27 Abril 1871»; placas e indicadores oficinas ficaram instalados nas ruas de D. Estefânia, D. Luís, Moeda, Vis- do serviço de telecomunicações; objectos com logótipos; conde de Santarém, Av. Casal Ribeiro e Campo Grande. Esta dispersão placas comemorativas de centrais e outros serviços. das várias áreas de serviços, depósitos de peças e exposição, bem como as sucessivas mudanças e reinstalações provocaram sérios atrasos na 16 Transportes recolha, restauro, investigação, estudos e documentação de peças. Viaturas; atrelados; bobinas para cabos; guindastes, Mobiliário 1.4 Evolução do sector de correios e telecomunicações e novas políticas museológicas Específico - cabinas telefónicas; locutórios; mesas; Ainda nos 80 e primeira metade de 90, surgiu um grupo denomina- cadeiras. Mobiliário comum: usado nas telecomunica- do GRRMIM - Grupo de Recolha, Recuperação e Manutenção de Objec- ções e com interesse para contexto de exposições. tos de Interesse Museológico para o sector das telecomunicações, com tractores; dumpers. 17 afectação de pessoal: um engenheiro electrotécnico, um electrotéc18 Telecartofilia nico assistente, um fiel de armazém com conhecimento na área de Cartões telefónicos com leitura por banda magnética; manutenção de materiais, um técnico oficinal e uma agente de lim- por chip; nacionais e internacionais. peza. Foram atribuídos espaços para os trabalhos de instalação e manutenção de peças na Praça de D. Luís I, edifício onde funcionavam 19 Fardamentos e manequins de profissionais os serviços de telecomunicações, central telefónica e telegramas tele- Vigias do mar; oficiais e praças do corpo telegráfico; fonados. guarda-fios; outros profissionais relacionados com as Dado o desconhecimento do GRRMIM no seio do Museu dos CTT, não telecomunicações. pôde este grupo beneficiar dos meios ao alcance do museu, nomea- 62 Edifício do Museu e Fundação Portuguesa das Comunicações. damente de um corpo de cerca de 60 pessoas e uma oficina de con- Desenvolvimento de uma imagem servação e restauro, de modo que a criação de uma segunda equipa Uma nova ordem de serviço emitida pelo Conselho de Administração para tratar do património denotou uma mudança táctica na política de 21 de Julho de 1988 incluiu o museu numa outra direcção: o Gabi- empresarial e, por arrastamento, na política museológica. nete de Imagem e Acção Cultural Institucional do Conselho de Admi- Em 1992, deu-se a separação entre Correios e Telecomunicações, e com nistração (CTT: 1988) 19. Reportando-nos ainda à ordem de serviço de esta separação começou o processo de privatização e de reestrutu- 21 de Julho de 1988 na alínea c), o no 5 define para o GIACICA, onde se rações sucessivas que vieram a ter consequências na política museo- enquadrava o museu, as seguintes funções: «Elaborar um programa lógica. de acções tendentes a uma boa aceitação pública das valências das Empresas, nomeadamente do seu património histórico-cultural» Tendência para a «mercantilização» do museu (CTT: 1988) 20 . Atente-se na seguinte citação: «Justifica-se amplamente o facto de A alteração que consideramos mais evidente em termos legislativos se ter associado a função Marketing à área do Património Cultural das para o recuo no projecto de «mercantilização» é a que resulta da alí- Empresas, pois que, através dela e muito particularmente do Museu nea d) do mesmo número e que se refere a: «Reintrepretar em termos dos Correios e das Telecomunicações, sairá de certo modo reforçada de MKT [Marketing] social os planos estratégicos [...]». Repare-se 16 a acção envolvente desta actividade» (CTT: 1987) . Noutro texto de que o termo social não entra na anterior organização da Direcção de introdução ao plano de actividades do Museu dos CTT, de 1987 foi abor- Marketing e do Património Cultural do Conselho de Administração, antes dada a definição e orientação dos museus do seguinte modo: «Os porém se referia ao «êxito dos negócios» e à «satisfação dos clien- museus são instituições públicas e existem para benefício público, tes». E no que respeita às funções específicas do GIACICA, a alínea quer sejam administrados por instituições públicas ou privadas. c) do no 6 reforçava o conceito de função social, referindo-se a: «Imple- A incorporação, a conservação, a documentação e a pesquisa são mentar progressivamente a função da contribuição social nos CTT e tão importantes para o seu objectivo «público» como a educação e TLP, como quarto meio de comunicação social ao serviço da gestão glo- a promoção. A pressão do mercado tende a privilegiar só os aspectos bal das empresas e das estratégias específicas dos produtos» (CTT: visíveis, mas ignorar os outros aspectos pode provocar sérios dese- 1988) 21 . quilíbrios na função do Museu» (LOPES: 1986) 17. publicação em ficha de legislação no 84-87 em que figura a estrutu- O papel do Estado, a concorrência no sector das comunicações e a ideia da criação de uma fundação ra da DMCCA – Direcção de Marketing e do Património Cultural do Em 1989, o administrador Dr. Ferreira de Lemos pronunciou-se no Tudo parece indicar nos textos citados que no museu foi abordada uma certa política comercialista da cultura. É o que se infere também da 18 Conselho de Administração , que aliava expressamente a Direcção de sentido dos patrimónios museológicos virem a constituir-se em fun- Marketing ao Património Cultural e ao Museu dos CTT e TLP. dação: «Uma entidade autónoma tipo fundação comparticipada por 63 todas as Empresas do sector das Comunicações. Esta solução, mais mes e não podia ser ignorada esta riqueza patrimonial, sob pena de consentânea com a vocação de um museu de sector de actividade dispersão, abandono e porventura alienação para sucata. e não apenas de museu de empresa, permitirá um maior enriqueci- Existiram, grosso modo, nos últimos quinze a vinte anos do século XX, mento do seu património e uma autonomia de gestão que poderá o Museu dos CTT, o Museu dos TLP, o Museu da TDP – Teledifusora de ter reflexos muito positivos no desenvolvimento das actividades» (CTT: Portugal, o Museu da Marconi e os núcleos museológicos da Direcção 22 1989) . Entretanto, em finais da década de 80, começou a deli- Geral de Telecomunicações e da DSR - Direcção dos Serviços Radio- near-se uma alteração na economia europeia e mundial. A fusão e eléctricos dos CTT, actual ANACOM. A reorganização do sector das concentração empresarial, mas também a separação dos correios e comunicações implicou a reunião destes patrimónios que foi necessário telecomunicações deram origem aos CTT Correios, SA, e à TP - Tele- incorporar e documentar. Foram delineadas novas acções para a sua com Portugal. Esta empresa veio a englobar as telecomunicações dos guarda e preservação. O enriquecimento do acervo com mais colecções CTT, os TLP - Telefones de Lisboa e Porto, a TDP - Teledifusora de Por- e mais peças e o saber entretanto partilhado foram determinando novas tugal e a CPRM - Companhia Portuguesa Rádio Marconi, dando ori- práticas no tratamento e descrição/catalogação do património. gem a um grupo liderado pela nova denominação PT - Portugal Telecom. Os serviços radioeléctricos dos CTT passaram para o domínio do 1.5 Reorganização Estado, dando origem ao então Instituto das Comunicações de Por- Em 1998, uma conferência e inventário de objectos provenientes das tugal, actualmente ANACOM – Autoridade Nacional de Comunica- novas empresas e a incorporação de novos acervos não dispensou a ções. elaboração de uma nova tabela de classificação, mais simplificada e Algumas empresas fundidas ou adquiridas eram detentoras de patri- simultaneamente mais abrangente. Enquanto a anterior era consti- mónio museológico e documental. As mudanças esperadas eram enor- tuída por 7 colecções (apresentada em mais de uma dezena de pági- 64 nas) e desdobrada em várias sub-colecções, a nova tabela apresen- b) Valor nacional quando a utilização e imagem das tou-se então com 15 colecções, de forma simplificada em apenas peças nos públicos tem uma dimensão nacio- uma página. Esta tabela veio fazer face aos novos tempos em que o nal; património mais abrangente passou a ser gerido pela Fundação Por- c) Valor de interesse regional quando a utiliza- tuguesa das Comunicações (Anciães: 1998) 23. A reorganização do ção e imagem das peças nos públicos tem uma património de telecomunicações era eminente a partir da reorgani- dimensão regional; d) Valor de interesse local quando a utilização e zação do sector, a criação de novas empresas e a divulgação de novas imagem das peças nos públicos tem uma dimen- tecnologias. são local; Avaliação do património e) Valor de interesse institucional quando a utili- Foi necessário também avaliar ou reavaliar o acervo, quer para efei- zação e imagem se reporta em especial a uma tos de seguro, quer para dar conhecimento às entidades proprietá- instituição (exemplo: autarquia, hospital; cor- rias. Para isso foi elaborada uma metodologia de critérios de valor que, poração de bombeiros; CTT; PT ...) em síntese, é apresentada no seguinte quadro (Anciães: 1998): 24 Quadro auxiliar de avaliação das peças de telecomunicações, ver- B > Valor artístico Peças que encerram valor atractivo no (s) seguin- e de raridade te (s) ponto (s) de vista: modelo, design, estilo, cor e material. são de 1998 C > Valor de auto- Peças com autoria pertencentes a organiza- Classe Descrição A > Valor histórico Peças cujo valor se relaciona com a preservação ria científica e ções relevantes na ciência, técnica e persona- das memórias das populações e das empresas, técnica e sociológico lidades facilmente reconhecidas pelos públicos; podendo subdividir-se em itens de interesse e valor relevante sob os pontos de vista da estru- valor seguintes: tura e função. Interesse tecnológico: a) peças uti- a) Valor internacional quando as peças se rela- lizadas numa fase precursora ou experimental cionam com a utilização por vastas camadas das de um serviço; b) peças utilizadas numa fase populações e com as memórias que as mesmas de desenvolvimento de um serviço; c) peças uti- populações guardam deste património (exem- lizadas numa fase de obsolescência e retirada plo: centrais, telefones, cartões telefónicos, tele- de serviço; d) peças utilizadas numa fase de bips, telemóveis, novos equipamentos plurifun- raridade e coincidindo com a procura para o cionais); coleccionismo. 65 D > Valor de conservação Peças que associando algum ou alguns dos inte- Em termos de património cultural, documental e museológico, a figu- resses (A;B;C) estão operacionais ou sejam facil- ra mais destacável dos anos 1930 foi a do célebre funcionário dos mente recuperáveis e documentadas ou docu- CTT Godofredo Ferreira, autor e compilador incansável de documen- mentáveis. tos históricos nas áreas postal e de telecomunicações. O museu foi então repensado como memória da organização estatal que eram os CTT – E > Valor documental Peças que associando algum ou alguns dos inte- Correios, Telégrafos e Telefones. resses (A;B;C;D) estão suficientemente docu- Contudo, a política museológica do Estado Novo privilegiava os museus mentadas ou são facilmente documentáveis. etnográficos, artísticos e arqueológicos, em detrimento das áreas de ciência e técnica, e da memória institucional das organizações. Peças que, não sendo específicas das comunica- O acervo de telecomunicações reunido e inventariado até finais de 1947 de contexto e ções, ajudam a completar contextos e/ou cená- rondou as 800 peças. de cenário rios expositivos de época. O primeiro curador do Museu dos CTT foi o Dr. Mário Gonçalves Viana F > Valor que deu seguimento ao plano de inventariação e pensou o museu com Com esta metodologia foi avaliado o património inventariado e clas- interesse para vários públicos. Viana foi um curador e museólogo sificado como reservado. A aplicação dos critérios não dispensou na exemplar. A sua ciência nas áreas de museus, bibliotecas e arquivos prática o conhecimento dos acervos técnicos e museológicos de tele- era muito prática, de modo que, já nessa altura, fez alusão a uma polí- comunicações. tica de contenção e eliminação do acervo sem viabilidade de recuperação ou o que não se enquadrasse nas colecções. Embora tal não tenha Conclusão sido então posto em prática, esta acção veio a verificar-se nos anos Em 1878, surgiu um despacho do ministro da tutela que deu início ao 90, quando a par de variada incorporação, foram excluídas criterio- Museu dos Correios Telégrafos e Telefones, tendo sido, no primeiro samente milhares de peças consideradas irrecuperáveis ou em exces- momento da criação, reservado um pequeno núcleo de peças, sendo so. que de então até 1934 o museu terá, quase de certeza, reunido mais De finais de 1947 até finais de 1982, o acervo de telecomunicações inven- objectos, não se sabendo exactamente quantos nem exactamente tariado andava na ordem das 2400 peças e o não inventariado, peças quais. e componentes, já era superior àquele número. Na segunda metade Possivelmente, as duas décadas finais do regime monárquico e as de 80 e inícios de 90, foram criados dois Grupos de recolha de peças, duas primeiras do regime republicano não eram favoráveis ao desa- tudo indicando que sem o conhecimento do Museu dos CTT. Um des- brochar de um museu de ciência, técnica e sociedade. Assim, só em 1934, tes grupos tinha uma sigla própria – o GRRMIM – Grupo de Recolha, já no período do Estado Novo, foi repensada a ideia de criar um Museu Recuperação e Manutenção de Objectos de Interesse Museológico, dos CTT (na realidade, tratou-se de uma refundação). com instalações na Praça de D. Luís I, em Lisboa. O outro grupo tinha 66 como instalações armazéns na zona norte do País, nomeadamente em Portugal. Ambas envolveram o desenvolvimento do inventário ini- em Marco de Canaveses, entre outros locais. O GRRMIM teve o méri- cial e a investigação documental. Não obstante o desenvolvimento iné- to de reunir, conservar e tratar cerca de 1200 peças e componentes, dito do sector das telecomunicações nos finais do século XX e início do algumas restauradas por este grupo que funcionava na influência da século XXI, a Fundação Portuguesa das Comunicações conseguiu sal- Direcção Geral de Telecomunicações. O «Grupo do Norte», ao que vaguardar, conservar e restaurar um acervo que em termos de quan- tudo parece indicar, não teve nome oficial próprio. Funcionava mais tidade e de qualidade estará entre os mais ricos e variados a nível mun- na lógica dos CTT, empresa vista como um todo, de correios e teleco- dial. municações. De facto, o Museu enquanto órgão da empresa CTT passou por orien- Ainda nos anos 90 e inícios de 2000, deram entrada no património tações museológicas associadas à política organizacional do Esta- museológico outros acervos provenientes do Museu dos TLP, Museu da do; depois, como empresa pública, as políticas museológicas começaram TDP e armazéns CTT, TP e PT. Este património foi objecto de pré-selecção, a ficar dependentes das administrações; finalmente, a separação conservação técnica e restauro. O tratamento do inventário preliminar em correios e telecomunicações, a privatização das empresas e a só acabou de ser feito em Dezembro de 2006, sendo para isso adopta- separação e passagem da actividade fiscalizadora e reguladora para dos documentos orientadores (Anciães: 2004; FPC e FPT: 2006). 25 a esfera do Estado, ditaram alterações políticas que se repercutiram O acervo proveniente das várias empresas e depósitos e do Estado (ANA- na gestão e orientação das actividades do museu, nomeadamente COM) teve de ser instalado em espaços exíguos, o que levantou difi- na incorporação do património, que foi decidida mais a partir das culdades de armazenamento e tratamento. A entrada de tanto acer- políticas empresariais do que em decisões integradas de gestão o vo para o espaço disponível na Reserva Visconde de Santarém, n 69, museológica. que já nos inícios dos anos 90 se considerava praticamente lotado, tor- O património de telecomunicações tem, pois, uma história que foi nou difícil a sua gestão, tanto do acervo entrado de novo, como do influenciada pelas tutelas dos regimes e políticas culturais, bem assim anterior. As dificuldades foram acrescidas, dado que nesta época de como pelos estilos de gestão empresariais. A passagem da gestão patri- 90 os recursos humanos do património museológico de telecomuni- monial e cultural para uma fundação veio implementar uma visão cações foram reduzidos ao mínimo, ao mesmo tempo que a quanti- mais concertada no panorama da ciência, técnica, sociedade, cultu- dade do acervo disparou de forma inédita. ra e sociedade. A política de contenção de recursos coincidiu com a expansão de A história das políticas museológicas e das práticas subsequentes outras actividades: criação e instalação da Fundação Portuguesa pode/deve, em nosso entender, ser aprofundada nomeadamente das Comunicações, reabertura do museu, planeamento, organização em relação às incorporações, salvaguarda, conservação, informatização, e concretização de duas exposições permanentes e duas temporárias: arquivo e exposições, não só para conhecimento do património, bem uma sobre o centenário da inauguração dos telefones entre Lisboa como ferramenta auxiliar das administrações, gestão pertinente e eco- e Porto e outra sobre os 150 anos da introdução da telegrafia eléctrica nómica das colecções e dos recursos. 1 BARROS, Guilhermino Augusto de, in O Museu dos CTT Português, Ed. CTT, 1973, p. 9. 2 Em telecomunicações incluem-se os serviços de telegrafia visual e a telegrafia eléctrica. A telefonia, a radiodifusão e a teledifusão não existiam ainda naquela época. Na sinalização costeira da altura compreende-se o sistema de faróis, fachos e bandeiras para informação da actividade marítima. Este sector de sinalização esteve integrado na organização de Correios Telégrafos e Faróis. ANCIÃES, Alfredo Ramos, Ensaio de investigação e organização da telegrafia do Museu dos CTT. Lisboa: Arquivo UAL, 1987. ANCIÃES, Alfredo Ramos, O Museu dos CTT. Lisboa: Arquivo UNL, 1988/1989. Disponível também em Arquivo do Grupo dos Amigos do Museu das Comunicações. ANCIÃES, Alfredo Ramos, Sugestões para a inventariação, classificação, conferência, acondicionamento e transferência do acervo. Versão de 2004. Este documento encontra-se nos arquivos técnicos dos patrimónios museológicos de telecomunicações da FPC e da FPT. 3 DIRECÇÃO GERAL DOS CORREIOS, Relatório. Relatório Postal do Anno Económico de 1877-1878, p. 154. 4 Godofredo Ferreira ficou célebre nos CTT como autor de várias obras e como exímio compilador de documentos históricos que trouxeram ao museu uma das maiores contribuições para a divulgação da memória da empresa. 5 CTT – SEP. O Museu dos CTT: Pequena história desde a sua fundação até à actualidades, p. 5. 6 António Ferro foi o homem que criou e geriu a «máquina de propaganda» do regime do Estado Novo entre 1933 e 1949. 7 CTT: Organização do Museu dos CTT, Nov. 1947. 8 CTT OS Nº 5505, 1. Ed. Dos Serviços Culturais dos CTT, Março, 1955, p. 3. 9 RAMOS, António Mora, O Valor Psico-pedagógico de um Museu Profissional, pp. 5-6. 10 RAMOS, António Mora. Id., pp. 9-11. 11 MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES: Administração Geral dos Correios Telégrafos e Telefones. Ficheiro – Catálogo do Material Museográfico, 1947 ca. 12 RAMOS, António Mora, O Valor Psico-Pedagógico de um Museu Profissional, pp. 5-6. 13 BRANDÃO, Pinho Domingues in APOM: Actas do Colóquio APOM/76. 14 FIRMINO, Maria da Glória Pires in APOM: Actas do Colóquio APOM/76. 15 ANCIÃES, Alfredo Ramos, Tabela versão de 2002 para classificação do património museológico de telecomunicações seguida de exemplos das peças mais conhecidas. 16 CTT, OS nº 33, 87. FIRMINO, Maria da Glória Pires, in Actas do Colóquio APOM/76: Panorama museológico português – carências e potencialidades. 17 LOPES, Paula Ferreira. Texto de introdução ao plano de actividades do Museu dos CTT, 1986. FPC; FPT. Metodologia para a conferência do património museológico de telecomunicações, versão 2006. 18 CTT: OS nº 33,87 FL 84-87. LOPES, Paula Ferreira. Texto de introdução ao plano de actividades do Museu dos CTT, 1986. 19 CTT: OS 42,88 FL 194-88. 20 CTT: OS 42,88 FL 194-88. MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES. Administração Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones. Ficheiro – catálogo do material museográfico, 1947, ca. 21 CTT: OS 42,88 FL 194-88. 22 CTT: Jornal dos CTT e TLP, nº 13, Abril, 1989. 23 ANCIÃES, Alfredo Ramos, Tabela de categorias do património museológico de telecomunicações. Versão de 1998. Esta tabela encontra-se no arquivo técnico do património museológico de telecomunicações da FPC. 24 ANCIÃES, Alfredo Ramos. O original deste quadro auxiliar de avaliação das peças museológicas de telecomunicações, versão de 1998 encontra-se no arquivo técnico do património museológico de telecomunicações da FPC. 25 ANCIÃES, Alfredo Ramos. Sugestões para a inventariação classificação conferência acondicionamento e transferência do acervo, versão de 2004. FPC e FPT. Tabela de metodologia para a conferência do património museológico de telecomunicações, versão de 2006. Estes documentos encontram-se nos arquivos técnicos dos patrimónios museológicos de telecomunicações da FPC e da FPT. ANCIÃES, Alfredo Ramos. Tabela de categorias do património museológico de telecomunicações, versão de 1998. Encontra-se no arquivo técnico do património museológico de telecomunicações. ANCIÃES, Alfredo Ramos. Quadro auxiliar de avaliação das peças museológicas de telecomunicações, versão de 1998. ANCIÃES, Alfredo Ramos, Tabela para classificação do património museológico de telecomunicações seguida de exemplos das peças mais representativas, versão de 2002. Esta tabela também se encontra no arquivo técnico do património museológico de telecomunicações. BIBLIOGRAFIA NOATS 67 APOM: Actas do Colóquio APOM/76: Panorama museológico português – carências e potencialidades. CTT: CDI. O Museu dos CTT: Pequena história desde a sua fundação até à actualidade. Lisboa: SEP – CTT, 1975. CTT: Jornal dos CTT e TLP, nº 13, Abril, 1989. CTT: O Museu dos CTT Português. Lisboa: Serviços Culturais dos CTT, 1973. CTT: Museu. Plano de Actividades, 1986. CTT: Ordem de serviço Nº 33, 87, ficha legislativa Nº 84-87, 1987. CTT: Ordem de serviço Nº 33, 87, ficha legislativa Nº 84-87, 1987. CTT: OS 42,88 FL 194-88. Estrutura do Gabinete de Imagem e Acção Cultural Institucional do Conselho de Administração (GIACICA). RAMOS, António Mora. O valor psico-pedagógico de um museu profissional, 1954. Palestra Profissional Nº 129. Lisboa: Serviços Culturais dos CTT, 1955. VIANA, Mário Gonçalves. Um Museu dos CTT - objectivos - organização - realização e funcionamento. Lisboa: Serviços Culturais dos CTT, 1949. (palestra profissional, Nº 61). Editado em primeira mão nas colecções de palestras e depois em livros. 68 Antero de Sousa | Antigo Conservador do Museu dos CTT O Museu dos CTT Palestra profissional, acervo do arquivo histórico da FPC. E m palestra proferida em Outubro de 1949, o primeiro conservador administrador-geral a concretização do museu que Guilhermino de do Museu dos CTT, Dr. Mário Gonçalves Viana, dirigiu-se ao correio- Barros congeminara no século XIX, quando os Correios passaram a Direc- -mor Eng. Couto dos Santos nestes termos: «Foi por proposta de V. Exa. ção-Geral dos Correios, Telégrafos e Faróis. que S. Exa. o Ministro das Comunicações se dignou criar o Museu dos O palestrante, ao fazer uma ronda pelos museus congéneres já em fun- Correios, Telégrafos e Telefones, velha aspiração deste organismo, cionamento, apresenta a experiência do museu dinamarquês, que mas aspiração que, há longos anos, não passava de um vago sonho, chegou à conclusão de que «era necessário percorrer as estações do (...)» país, à procura de objectos de interesse para o Museu. (...) É que só os Esta palestra, a n.0 61 das Palestras Profissionais que periodicamen- Conservadores sabem o que lhes interessa (...)». te reuniam o pessoal dirigente superior dos CTT, quase sem excepções, E, considerando a selecção do material para o Museu dos CTT, inter- para darem comum testemunho das várias áreas de actividade come- roga-se se «deverá um museu postal recolher «em espécime» todos tidas à Administração-Geral, serviu para o conferencista apresentar os objectos que lhe digam respeito? A admitir resposta afirmativa a sua visão do Museu em geral e daquilo que o Museu dos CTT deve- para esta pergunta, qualquer museu da categoria do nosso se trans- ria vir a ser. Consciente das dificuldades que iria encontrar, diz mais à formaria numa ... Babilónia! Não haveria espaço que chegasse para frente que «um museu que se organize traz consigo um número infi- «recolher» todas as coisas utilizadas nos Correios, Telégrafos e Tele- nito de assuntos a resolver, que pouca gente estará em condições de fones: ambulâncias postais, barcos postais, mobiliário, postos emis- avaliar, com justeza, à primeira vista. (...) com muito mais razão pode sores, furgonetas, etc.» fazer-se tal afirmativa acerca de um Museu dos Correios, Telégrafos Afinal, parece que tudo seria muito mais simples. Embora a uma dis- e Telefones. Com efeito, ele não é um museu de arte, não é um museu tância considerável em tempo, em Março de 1955, os Serviços Cultu- industrial, não é um museu etnográfico, não é um museu técnico, rais dos CTT editam, sob o título «Museu dos CTT» e subtítulos ordem não é um gabinete de estampas, não é um gabinete de fotografias, de serviço N.o 5501,1, Regulamento do Museu dos CTT, o que iria ser o não é um gabinete de moedas, não é um museu de mobiliário, não é Museu dos CTT, quais seriam os seus sectores (o que implica que acer- um museu histórico, mas participa de todas estas modalidades e tem vo teria), quais os serviços que comportaria, com que pessoal funcio- de obedecer, em cada uma delas, às técnicas respectivas. Nisto resi- naria e quais as respectivas funções, que horário praticaria ... de a sua dificuldade.» Indicando-se aqui serviços como os de Secretaria, Inventariação, Téc- A fazermos fé nestas afirmações, pesando tudo o que um Museu dos nicos e de Conservação, apenas o pessoal da Secretaria é especifica- Correios, Telégrafos e Telefones não era, o que viria a ser um tal museu? do, pois «Os Serviços de Secretaria são desempenhados por pessoal Estava-se nesse momento em fase de arranque da instituição, os pri- do quadro administrativo (...)». meiros passos destinavam-se a juntar as peças que tinham sido guar- Nada é esclarecido quanto a classificação, inventariação e registo, ser- dadas desde o célebre relatório de Guilhermino de Barros, peças desen- viços técnicos, serviços de conservação (para utilizar a terminologia do cantadas por Godofredo Ferreira e base que lhe serviu para propor ao Regulamento citado). 70 Na sua palestra, em força do decreto-lei n.o 1949, Gonçalves Viana 49368, a Empresa dos cita o Museu Postal Correios e Telecomuni- Sueco como sendo cações de Portugal era exclusivamente uma empresa pública. um museu postal. O organigrama apre- Dada a riqueza enorme sentado por Gonçalves em termos de objectos Viana na sua conferên- que o Museu dos CTT cia considera os vários viria a ter, os denomi- «sectores» que dariam nados sectores postal, corpo ao Museu, e faz de filatelia e de teleco- uma referência a arqui- municações (é lícita vo, reservas e depósi- esta denominação, tos. Se dermos atenção dado existir, ao tempo às declarações produ- da edição do Regula- zidas por várias entida- mento do Museu cita- des que, ao tempo, do, telégrafo, telefone, viviam na órbita dos rádio e até fax – na CTT, o acervo desse figura do fac–simile que era como que um seu ancestral), constituíam «sonhado» Museu dos CTT esteve acomodado em edifícios ou zonas na prática museus dentro do Museu, exigindo a existência de con- de edifícios dos Correios, a maior parte do tempo separado, só vindo servadores. a encontrar um espaço comum estável em 1962, vindo a abrir ao públi- E a actividade cultural do Museu impunha igualmente a existência de co em 1967, conforme se lê num opúsculo sem data de publicação mas um responsável devidamente habilitado, o que só seria possível sendo editado pelo Serviço de Edição de Publicações, com o código CDI 1975- ele um profissional de museu, um conservador. Entretanto, o Regula- 18-1 MUSEU, intitulado «O Museu dos CTT - Pequena história desde a mento diz apenas que «(...) o correio-mor designará o substituto do fundação até à actualidade». CCM; (...)». Essas instalações situavam-se na Rua D. Estefânia e eram consti- É bom que se entenda que o Museu dos CTT não era um museu de tuídas por um palacete com uma cave, um sótão e três andares, dois empresa, mas sim um museu estatal, tutelado por um Ministério, per- dos quais em galerias que originalmente se destinaram a expor tencente a um serviço público; mesmo quando surge em 1970, por colecções de miniaturas de barcos pertencentes ao proprietário e 71 Organograma da palestra profissional, acervo do arquivo histórico da FPC. Museu dos CTT, na Rua D. Estefânia, Lisboa, acervo iconográfico da FPC. que hoje se encontram no Museu de Marinha; no jardim existente ram as vicissitudes das peças destinadas à vida nobre da exposição ao nas traseiras veio a construir-se um Pavilhão dos Transportes do Cor- público, onde ficaram? reio que expôs quatro carruagens da mala -posta (recuperadas ao No que respeita ao acervo postal, conseguiu-se nos finais dos anos Ministério das Finanças a que setenta do século passado a os Correios em tempos per- cedência, por parte dos Servi- tenceram), depois de pro- ços Telegráficos da Praça D. fundo restauro, dado o esta- Luís, de três andares na Rua do de ruína a que tinham che- da Moeda, onde se tornou pos- gado. As paredes interiores sível tratar de colecções tão do pavilhão expunham qua- díspares como mobiliário, na dros de Martins Barata alu- sua maioria de madeira, indu- sivos aos transportes postais mentária, portanto de teci- e, na fachada, aplicaram-se dos, sinalização (a mais antiga painéis de azulejo da auto- de madeira e a restante em ria de Rosário Silva, simboli- grande maioria de metal, que zando as vias terrestres, marí- até aí tinha sido mantida empi- timas e aéreas, ou seja, todas lhada escariando-se e enfer- as vias conhecidas e que o rujando-se mutuamente, e de transporte do correio desde plástico a mais recente), recep- sempre utilizou. táculos postais, idem, idem ... A cave e o sótão do edifício Quanto à colecção de indu- principal foram destinados ao mentária, urgia subtraí-la à pessoal do Museu, com excep- ameaça da traça e à dificul- ção do conservador-chefe que dade de manutenção em que ficava instalado na suite que se encontravam as peças, o fora a habitação do proprie- que aconteceu com a aquisição tário original do palacete. de um móvel-arquivo desli- Daqui nasce uma pergunta: e zante que acomodou os far- as reservas e os depósitos, que damentos actuais e as répli- anteriormente acompanha- cas das fardas do passado, 73 Recriação de um posto de correios no Museu dos CTT, na Rua D. Estefânia, Lisboa, acervo iconográfico da FPC. facilitando o trabalho das funcionárias (do quadro administrativo dos acomodado, atentemos nas colecções existentes nos inícios da últi- CTT) entregues ao sector postal, que os escovavam, cosiam, passavam ma década do século XX e sua valorização na altura: a ferro... O mobiliário, que comportava uma CTF completa, peças de mobiliário Miniaturas de edifícios de estação diverso, de cadeiras, de móveis-arquivo, etc., tudo fabri- (incluindo a maqueta da estação de muda da Mala-Posta) cado com madeiras escolhidas por marceneiros funcionários das Ofi- 18.800.000$00 cinas dos CTT com formação da própria Instituição de alta exigência profissional, contava com uma pequena oficina e dois marceneiros des- Sinalização locados a título permanente para o Museu. 12.170.000$00 Maquetes dos edifícios cons- Malas e sacos truidos ao abrigo do programa 22.170.000$00 de renovação do serviço de correios, telégrafos e telefones Mobiliário obrigavam por vezes a restau- 810.000$00 ros por especialistas, na maioria externos aos CTT. Receptáculos postais E além da colecção de miniaturas 31.620.000$00 dos transportes, algumas das quais se expunham permanen- Transportes temente, havia que tratar das 210.385.000$00 peças existentes em reserva e também das peças reais, de que Indumentária são bom exemplo as ambulân- 5.046.000$00 cias postais, estacionadas em instalações da CP, e das auto- Suportes e instrumentos de ambulâncias, sujeitas a manu- escrita tenção nas oficinas dos CTT. 1.450.500$00 Para se ter uma ideia da importância e valor do acervo do Sec- Pesos e medidas tor Postal em grande parte aqui 10.480.000$00 75 Ambulância ferroviária postal E3, acervo iconográfico da FPC. Máquinas e cunhos Peças como a ambulância de via larga estacionada na estação da CP 32.690.000$00 de Alcântara-Terra e a de via estreita estacionada na Secção Museológica da CP em Macinhata do Vouga, obrigam a inspecções periódi- Utensílios postais cas para além da manutenção regular, e exigem evidentemente ins- 2.590.500$00 talações adequadas em espaços do próprio Museu. Tudo o que tem motor de combustão, como é o caso das auto-ambu- Temos aqui um total de 348.172.000$00, ou seja, a usar-se nesse lâncias Borgward e OM, os ciclomotores e motociclos, impõe a manu- tempo a moeda que temos hoje, 1.740.860,00 euros. Façamos a cor- tenção normal dos veículos por técnicos da especialidade, que enten- recção monetária e veremos o seu valor actual, para além do valor que dam tanto de carburadores como de pneus. o tempo vai acrescentando às peças únicas. Na colecção de pesos e medidas, os relógios, por exemplo, obrigam a Sendo o acervo do Sector Postal constituído em larga medida por cuidados específicos, como sejam a exigência de corda por vezes quo- peças que exerceram as suas funções no trabalho dos CTT, a sua tidiana, e a lubrificação e limpeza por relojoeiros. manutenção revela-se relativamente facilitada. Não há aqui a exigência De maneira geral, podemos entender que o acervo de um museu como de ambientes artificiais, considerando índices de luz, calor, humidade, é o Museu dos CTT, que alia características de museu técnico às de etc., que preocupam os conservadores de outras áreas e obrigam a museus de outras áreas, obriga o seu pessoal a uma posição muito espe- arquitecturas complicadas devido à fragilidade ou exotismo das peças, cial e atenta, quer ao tratamento das peças quer ao desenvolvimen- ou mesmo ao seu cariz de bens transaccionáveis nos mercados da to que pode advir da prospecção do mercado, com vista a eventuais arte ou outros. aquisições que venham complementar ou completar as colecções, Esta mais-valia, no entanto, não dispensa a existência de salas e que já são muito ricas mas, como é lógico, dificilmente acabadas. arquivos amplos e constantemente limpos e arejados, em que as Os Correios sempre tiveram uma importância económica e social ímpar peças sejam encaradas com a dignidade que merecem, nunca como na história de Portugal. O Museu dos CTT nasceu e evoluíu sob a tute- se de objectos armazenados se tratasse. la do Estado. Como qualquer outro museu do Estado, por imperativo As colecções de sinalização, mobiliário, receptáculos postais, transportes, do papel desempenhado pelos Correios ao serviço do País durante pesos e medidas, máquinas e cunhos, e utensílios postais, tirando séculos, não se entende a inexistência de um museu especificamen- alguma situação especial, por exemplo, no caso de mobiliário, são te dedicado à memória da missão que lhes esteve confiada. constituídas por peças provenientes dos locais de trabalho onde foram Impõe-se a existência de tal museu instalado de raiz com todas as con- usadas no labor normal dos funcionários dos CTT; que cuidados devem dições actuais propiciatórias das funções inerentes aos museus, ins- merecer? Aqueles a que no seu tempo útil estavam habituadas a tituições culturais que espelham a vida de um país pertencente à cul- receber, isto é, limpeza escrupulosa e manuseamento cauteloso quan- tura ocidental, o qual desbravou o mundo e deve recordar-se do seu to baste, num ambiente natural e desafogado. passado no seu presente. 76 Júlia Saldanha | Licenciada em História (UC). Arquivista (UC). António Rodrigues da Luz Correia Um percurso singular, 1925-2008 escultura de Luz Correia, acervo da FPC. In memoriam Biografia Oriundo de uma classe média do Portugal do século XX descapitalizado «Uns têm uma personalidade mais espacial, outros uma personali- e com crises políticas constantes, enfrentou as dificuldades económicas dade mais temporal. da grande maioria da população, colmatadas por um tipo de instituições Estaria aqui a distinção entre heróis e artistas?» que os impérios coloniais tecem, as militares e para-militares. Novalis, Fragmentos Luz Correia não fugiu à regra e entre 1937 e 1968 adquire a sua formação, frequentando durante dez anos o Instituto dos Pupilos do Exército, É com este tipo de inquietações que iniciamos a tentativa de abor- e cumpre a sua vocação na Escola de Belas-Artes do Porto, concluin- dagem à personalidade de Luz Correia, patente no seu percur- do o curso de Escultura. so profissional, e os múltiplos e diversificados testemunhos que deixou. O pedagogo. Ensinar brincando Detentor de uma carácter forte, muitas vezes polémico, Luz Correia «A criança é sempre um mundo por conhecer.» é simultaneamente tímido e modesto na sua afirmação artística, pro- Luz Correia, Garatujas vavelmente fruto da sua dupla formação científica e artística. Entre a psicologia, a escultura e a medalhística, todos estes mundos Num dos seus primeiros cruzamentos de vida, Luz Correia ao ingres- formais foram utilizados, por vezes simultaneamente para preencher sar na Escola Industrial da Póvoa do Varzim, revelou de imediato a sua o seu espírito de «fazedor», na acepção borgeana do termo. sensibilidade e espírito artístico inovador ao fundar em 1951 o Centro Dir-se-ia que o Luz Correia que alguns de nós tivemos o privilégio de Artístico Infantil, CAI, para aí observar o que as crianças entre os 10 conhecer na sua multiplicidade artística atravessa o universo dico- e 14 anos pintavam e «ensinar brincando». Mais tarde promove uma tómico do século XX e as caóticas incertezas dos primeiros anos do exposição destes trabalhos na Póvoa do Varzim. século XXI, tentando interpretar sob uma luz muito própria o mundo Como bolseiro do SNI, promove a exposição «O que é arte infantil», e o os seus contemporâneos, legando a todos nós os testemunhos largamente noticiada na imprensa da época. da suas inquietações. Ele próprio relata este período: Ferro, bronze, vidro, quais elementos da pedra filosofal, são os mate- «Em 53-54, ... obtive uma bolsa da Administração das Minas do Pejão, riais de eleição, na sua expressão artística, que com mestria traba- onde estagiei 6 meses. Consegui que os mineiros dos 20 aos 60 anos lha desde a medalha de dimensões reduzidas à arte urbana de gran- desenhassem e pintassem. Para além do documentário fotográfico, de volumetria. teve lugar uma grande Exposição do SNI «Arte de Crianças e Adultos», Poderemos afirmar sem sombra de dúvida que durante o seu percurso que obteve assinalável êxito, na comunicação social e no público.» 1 de vida tentou aproximar-se com algum êxito a «sabedoria», no sen- A esta exposição largamente ilustrada no magazine O Século Ilustrado, tido alquímico do conceito. refere-se o filósofo e pedagogo Delfim Santos: «... documenta pro- 78 escultura de Luz Correia, acervo da FPC. fusamente essa luta pela expressão e indica em alguns casos o sentido da vitória». 2 Cronologia de percurso profissional 1947 Curso de Civil e Minas do Instituto dos Pupilos do Exército A dinâmica que Luz Correia aqui inicia de desenvolvimento educativo através do desenho junto dos sectores mais desfavorecidos da popu- 1950 Professor de Matemática e Desenho na Escola Industrial lação, as crianças carenciadas e o operariado, demonstram não só uma grande sensibilidade social, mas sobretudo o pioneirismo em Portugal de um movimento iniciado por Herbert Read nos anos 40, em que da Póvoa de Varzim 1952 Bolseiro do Secretariado Nacional de Informação e a educação deverá ser muito mais facilmente apreendida através do desenho e da arte. Instituto de Alta Cultura 1954 Durante os anos 50 e 60, dedicou grande parte da sua energia a rea- Frequenta o curso de Ciências Pedagógicas da Faculdade lizar experiências nesta área, também como bolseiro da Fundação de Letras e o curso de Psicologia do Instituto Superior de Calouste Gulbenkian, trabalhando com os ardinas de Lisboa, os filhos Psicologia Aplicada dos empregados do Jardim Zoológico, e até as crianças do Funchal, onde 1954 Ingressa nos quadros dos Correios, Telégrafos e Telefones funda um novo CAI, Centro Artístico Infantil, promovendo simultaneamente, com a ajuda do SNI, exposições cujo eco se faz sentir na 1957-1970 Integrado na Direcção de Serviços de Edifícios, destacado imprensa local e nacional. na Ilha da Madeira, colabora na montagem da primeira Colabora ainda com a Fundação Calouste Gulbenkian no Centro de rede de telefones automáticos e na instalação e Preparação de Monitores para o Ensino Artístico Infantil, integrado reinstalação de todas as estações de Correios da Ilha e numa comissão de especialistas. Porto Santo. Assim, quando esta comemora os 40 anos da sua acção educativa, 1959-1966 Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian na Educação publica o catálogo «Educação, Arte e Cultura. 40 Anos da Fundação Artística Infantil Calouste Gulbenkian no desenvolvimento Estético Infanto-Juvenil» em 1996, que inclui Luz Correia como um dos pioneiros em Portugal da educação através da arte. Por último, e talvez como forma metafórica de aplicar e ensaiar todos 1968 Curso de Escultura da Escola de Belas-Artes do Porto 1974 Relações públicas do secretário-geral da Administração os seus conhecimentos teóricos e vivências da sua vasta experiência na expressão plástica infantil, publica em 1963 o ensaio Garatujas. Estu- dos CTT 1975 do psicopedagógico do grafismo infantil, obra surpreendente na sua auto-análise. O autor do seu prefácio, Professor Victor Fontes 3, define-o assim: Ingressa no Museu dos CTT como consultor artístico 1990 Aposentação CTT 81 escultura de Luz Correia, acervo da FPC. «Luz Correia é um autodidacta e, como tal, sofre as consequências posi- de Depósitos, Metropolitano de Lisboa, Diário de Notícias, Instituto tivas e porventura negativas dessa situação. dos Pupilos do Exército, Siemens, Cimpor, Regiões Autónomas dos Espírito de uma aguçada sensibilidade, aberto ao estudo e investigação, Açores e Madeira até à estreita colaboração com as Câmaras Muni- debruçou-se sempre com grande interesse sobre a psicologia infantil cipais da Amadora, Damaia, Loures, Caldas da Rainha, Seixal e Ton- e por uma das suas formas mais expressivas: as suas manifestações dela, entre outras, legando um espólio artístico de centenas de peças. gráficas. ... Luz Correia é, pode dizer-se, uma personalidade rara na época Entre exposições colectivas, concursos oficiais e convites para a exe- presente... Tem feito e conseguido uma formação instrutiva muito cução de obras, Luz Correia concebeu e executou inúmeras peças vasta, não deixa de sofrer a acção, às vezes benéfica, duma inde- que foram objecto de reconhecimento público, como o demonstram pendência na forma de pensar. os prémios recebidos: em 1967, 1o Prémio de Artes Plásticas na Quei- O trabalho do Sr. Luz Correia, refere, sem dúvida, um interessante 4 aspecto das manifestações exteriorizáveis da psicologia infantil». ma das Fitas, em Coimbra; em 1968, Prémio do V Salão de Arte Moderna, no Estoril; em 1973, Medalha de Prata do VI Salão de Arte Moderna, no Estoril; em 1978, 1o Prémio do Troféu da Caixa Geral de Depósi- O artista tos. «O que é um atlas para nós, Borges? Não sendo objectivo desta memória fazer uma biografia artística, que Um pretexto para entretecer na urdidura do tempo os nossos sonhos, com toda a justiça deverá ser realizada, propomo-nos realçar os tra- feitos da alma do mundo.» balhos que consideramos mais emblemáticos da criatividade de Luz Jorge Luís Borges, Atlas Correia. Na escultura, Luz Correia, ao seleccionar preferencialmente o vidro, Digamos que, na magnífica metáfora de Borges, a actividade artísti- o bronze e o ferro, matérias-primas primordiais, revela uma procura ca de Luz Correia preencheu de um modo indelével o espaço que lhe consciente de captar o «essencial da vida e do mundo», no sentido era reservado. filosófico e universal. A par das suas funções nos CTT, Luz Correia desenvolve a sua criativi- O troféu que concebeu em 1989 para comemorar as Bodas de Ouro dade artística entre medalhas comemorativas, esculturas e arte urba- dos Finalistas de 1939 do Instituto dos Pupilos do Exército, onde se inclui na, revelando a sua versatilidade plástica, onde o bronze, o ferro e o o autor, revela magistralmente este princípio: «Constituída por uma vidro são normalmente a sua matéria-prima, condensando de forma cavilha de bronze e lâminas de vidro, meio cristal, como o desenho mos- magistral a sua formação científico-tecnológica a uma sensibilidade tra um movimento helicoidal, quer representar o próprio ciclo da única. vida». A personalidade multifacetada de Luz Correia é reflectida de uma Também este movimento está presente no monumento ao Emigrante forma constante durante todo o seu percurso artístico entre 1967 e 2005, de Tondela inaugurado em 1994, que realiza em colaboração com o desde as concepções de objectos comemorativos nos CTT, Caixa Geral Prof. Joaquim Machado, e onde grandes colunas helicoidais mate- 82 rializam o «desenrolar da vida» que, de forma singularmente simples, Foi membro da FIDEM, Federação Internacional da Medalha, que Luz Correia caracteriza: «é a Humanidade que está aqui representa- reúne escultores e artistas de todo o mundo, com trabalhos na área da». 5 da medalhística, promovendo desde 1937 congressos de dois em dois O monumento aos Combatentes do Ultramar, em 2003, simbolizado anos, sendo Luz Correia um artista habitual destas exposições desde por uma grande coluna, será o último testemunho de Luz Correia em 1987. terras beirãs. Recentemente, em 2004, o Seixal foi palco do XXVI Congresso da A diversidade e o número de peças que concebe, em função quer de FIDEM, onde Luz Correia esteve representado e, em 2005, a Câmara concursos, quer de convites da sua própria empresa, os CTT, ou de Municipal promoveu igualmente a IV Bienal Internacional da Meda- outras instituições públicas ou privadas, demonstram uma atenção e lha Contemporânea, onde, para além de figurar entre os artistas, Luz análise muito particular ao mundo que o rodeia, procurando sempre Correia foi homenageado por António Nogueira, que lhe dedicou uma traduzir num estilo muito próprio a mensagem pretendida. medalha comemorativa do seu 80o aniversário. Notável é a sua versatilidade na dimensão e volumetria das peças Neste certame, foi distinguido de forma especial pelo Júri da IV Bienal, que concebe, variando entre um pisa-papéis e um monumento públi- que passamos a citar: «O Júri... deliberou distinguir o professor escul- co, o que demonstra um nível de mestria fora do comum. tor Joaquim Correia e o escultor Luz Correia pela qualidade artística que É assim que Luz Correia é considerado um dos nossos melhores meda- se tem traduzido numa constante criatividade de que têm dado mos- lhistas, e internacionalmente esteve presente nas principais mani- tras pela sua tenacidade e coerência profissional.» 6 festações. Ambos prestigiam a classe dos escultores medalhistas portugueses». 1 In “Do Polígono Militar de Tancos à Fundação Portuguesa das Comunicações”. Espólio Luz Correia, Arquivo Histórico da Fundação Portuguesa das Comunicações. 2 In “Educação, Arte e Cultura. 40 Anos da Fundação Calouste Gulbenkian no desenvolvimento estético infanto-juvenil”. 1996, p.11. 3 Investigador da psicologia evolutiva e às suas alterações. 4 In “Garatujas. Estudo psicopedagógico do grafismo infantil”, p.14; p. 20. 5 In “Planalto Beirão”, SET, 1994. 6 In “IV Bienal Internacional de Medalha Contemporânea. Seixal. 2005”, [Catálogo]. 7 In “No Museu dos CTT”. Impressos CORREIA, Luz, Garatujas. Estudo psicológico do grafismo infantil. Lisboa: Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, 1963, 115p. BIBLIOGRAFIA NOATS 83 Educação, Arte e Cultura. 40 anos da Fundação Calouste Gulbenkian no desenvolvimento Estético Infanto-Juvenil. Lisboa, FCG, 1996. FRANCASTEL, Pierre, Arte e técnica nos séculos XIX e XX. Lisboa: Livros do Brasil, 1963, 345p. IV Bienal da Medalha Contemporânea. Seixal. Câmara Municipal do Seixal, 2005. Planalto Beirão. Setembro, 1994. Documentos Espólio Luz Correia “Do polígono Militar de Tancos à Fundação Portuguesa das Comunicações”. 2003, DEZ, 16 fl. “No Museu dos CTT, a partir de 1974”. 2004, MAI, 2 fl. exposição de esculturas de Luz Correia. No entanto, já anteriormente Luz Correia tinha sido alvo de homena- E no entanto há algo que se queixa.» gens pelos seus pares (1993, I Exposição de medalhística da Amadora Jorge Luís Borges, São os rios 93, com homenagem aos escultores António Marinho e Luz Correia, na Como parágrafo último deste breve memorial a Luz Correia, não pode- Galeria Municipal da Amadora; 1994, António Marinho homenageia o mos deixar referir a sua actividade no Museu dos CTT nos anos 70 e 80, escultor, com bronze, Ø 84mm; em 1999, Carlos Raposo faz o mesmo com como consultor técnico, deixando testemunhos significativos da sua cria- construção mecânica em latão, Ø 80mm). tividade como artista plástico, como o cartaz comemorativo do cente- A profusão de medalhas que concebeu, desde 1972, grande parte liga- nário do Museu dos CTT de 1978, que, pelo seu grafismo e dinâmica de da ao mundo das comunicações a que estava ligado profissionalmen- imagem, quase se transforma num ícone do Museu; ou a construção te, lega aos CTT dos melhores exemplos da sua criatividade entre come- do logótipo dos Correios no passeio da rua de acesso ao Museu. morações dos Correios portugueses, telecomunicações, inauguração «Pessoalmente, congratulo-me de ter feito parte de uma equipa de fun- de edifícios, telefone móvel, ou digitalização telefónica, onde simboli- cionários especialistas de grande mérito...»7, eis como Luz Correia defi- za magistralmente a essência formal e funcional das comunicações. ne a sua passagem pelo Museu. Na área filatélica, foi ainda autor de uma emissão de quatro selos Este mesmo Museu que comemora este ano, 2008, o seu 130o aniver- comemorativa do Segundo Centenário da criação do Ensino Primário Ofi- sário, apesar dos muitos condicionalismos sofridos, permanece vivo, com cial, de 1973, que a revista filatélica italiana Il Colezionista, considerou todo o seu acervo já multiplicado, inserido na Fundação Portuguesa das «o mais belo do mundo». Comunicações. Para além dos CTT, Luz Correia é criador de peças comemorativas muito Foi justamente a esta Fundação que Luz Correia doou o seu espólio artís- diversas, como a do restauro da capela-mausoléu da S. Frutuoso de Mon- tico e documental em 2000, inserido no Património Artístico e Filatéli- télios, Braga, colaborando ainda com grandes instituições como a Fun- co e no Arquivo Histórico, respectivamente. dação Calouste Gulbenkian, Metropolitano de Lisboa, ou a Siemens, ou Ainda neste período e até 2005, Luz Correia concebeu para a Funda- outras entidades como o Parque de Campismo das Fontainhas, Seixal, ção diversas peças comemorativas, onde é sempre visível a sua indelé- ou o Grupo dos Amigos do Museu dos CTT. vel criatividade. O despojamento que revelava, face ao seu vasto espólio medalhístico, Na exposição que a Fundação Portuguesa das Comunicações promo- demonstra a sua personalidade de «cidadão do mundo». veu em 2004, apresentando a sua obra, foi assim sintetizada a acção de Luz Correia: uma formação científica e artística; um olhar atento sobre Transições museológicas o mundo e os outros; um sentido de missão pedagógica invulgar, des- «Somos o tempo. pertando nos universos infantil e adulto as suas potencialidades artís- ... Tudo nos diz adeus, tudo nos deixa. ticas, através do grafismo; um raro sentido estético na simbologia da A memória não cunha moeda lesta. forma e da matéria; e uma surpreendente conciliação entre tecnolo- E no entanto há algo que ainda resta gia e arte. 84 Isabel Varão | Licenciada em História (UL), Pós-Graduada em Ciências Documentais (UL) A Biblioteca da Fundação Portuguesa das Comunicações: uma questão de património A Biblioteca da Fundação Portuguesa das Comunicações: instalação inicial no 1º andar. O princípio... se ficou a dever, aliás, a introdução do ensino da electrotecnia em O Relatório do Anno Económico 1877-1878 da autoria do Dr. Guilhermi1 Portugal, foi reunindo vasta bibliografia sobre telegrafia, engenha- no Augusto de Barros declara, a dado passo , que se criou um Museu ria electrotécnica, telefonia e tracção eléctrica, bem como revistas Postal, dotando-o com trinta objectos e que a Biblioteca foi enrique- da especialidade. cida com quatrocentos volumes. Na nova Organização dos Correios, Telégrafos, Telefones e Fiscalização É este o momento fundador que assinala o início da existência destas das Indústrias Eléctricas de 1911, a Biblioteca reaparece em anexo ao duas instituições, tão profundamente ligadas, associando-as ao entretanto criado Laboratório Electrotécnico, e nela é incorporada a desenvolvimento dos serviços postais que, por esta época, conhece- bibliografia de Paulo Benjamim Cabral, além de se tornar obrigatória ram um período particularmente inovador. a recolha de regulamentos, instruções e demais legislação. É, pela pri- Já em 1877, o ministro das Obras Públicas, João Gualberto de Barros e meira vez, nomeado um bibliotecário, João Gualberto do Nascimento Cunha, que tutelava os Correios e Postas do Reino, dava instruções no Pires, substituído no ano seguinte por Joaquim Chagas, que empreen- sentido de se envidarem esforços para a sua criação. E assim se fez, com de um esforço de sistematização da colecção, sendo publicado o pri- o concurso abnegado do conceituado editor David Augusto Corazzi, meiro catálogo onomástico das 3500 obras já então existentes. que era simultaneamente oficial da Administração do Correio de Lis- A Biblioteca, até então instalada no Terreiro do Paço, junto do gabi- boa. Este editor ofereceu os primeiros vinte e nove exemplares da nete do inspector-geral acompanha, em meados de 1912, a mudança Biblioteca Postal, conjunto formado por obras de Júlio Verne e Mayne- dos restantes serviços centrais para a Rua de S. José, 20, sendo colo- Reid. Embora não se enquadrasse nos objectivos de apoio técnico- cada, numa primeira fase, nas antigas cozinha e copa do Palácio profissional que estiveram na base da criação da Biblioteca, o seu Sousa Leal, e posteriormente remetida para a antiga cavalariça do palá- contributo foi aceite pelo Dr. Guilhermino de Barros que lhe enco- cio. menda a edição do «Repositório Mensal de documentos da Direcção No entretanto, em 1920, o Decreto 6822 de 10 de Agosto aprova o pri- Geral de Correios», instrumento que se tornou fundamental para a uni- meiro Regulamento da Biblioteca, elaborado por uma comissão che- formização da prestação de serviço postal e cujo primeiro número sai fiada por Manuel Pinto de Melo, com contributo determinante de Joa- logo em Janeiro de 1879. quim Chagas e Godofredo Ferreira, então 3o oficial dos Correios. Sabemos que após este entusiasmo inicial e a unificação entre Correios Os anos trinta do século XX e inícios da década seguinte foram mar- e Telégrafos promovida pela Reforma de 1880, que coloca a guarda e cados por um certo apagamento, situação que veio a ser alterada a a arrumação da Biblioteca sob a responsabilidade da 1 Secção da Secre- partir de 1945, com o contributo de Amália Duarte dos Santos Ferrei- taria da Direcção-Geral dos Correios, Telégrafos e Faróis, se faz silên- ra. Trata-se da filha de Godofredo Ferreira, ele próprio bibliotecário de cio sobre a sua existência. formação, cujos contributos directos ou indirectos originaram a cons- Entretanto, Paulo Benjamim Cabral, inspector-geral dos Telégrafos tituição de um importante património cultural, base dos actuais Arqui- entre 1888 e 1910, eminente professor do Instituto Industrial a quem vo Histórico e Biblioteca da Fundação. Amália Ferreira conseguiu a 86 reinstalação mais adequada do 2 xas da população CTT, testemu- vasto espólio existente e pro- nhada pela crescente frequên- cedeu à elaboração de um catá- cia das suas instalações na Av. logo sistemático exaustivo repor- Casal Ribeiro. tado ao ano de 1950. É, no entanto, necessário espe- ... e o fim. rar pelos anos setenta para Os anos 90 assistiram a altera- assistir a uma verdadeira revo- ções estruturais profundas que lução qualitativa no que se refe- ditaram um fim inglório a este re à Biblioteca. Em 4 de Julho de edifício tão laboriosamente cons- o truído desde finais do século XIX. 20, é criado o Centro de Docu- Com o decréscimo do âmbito dos mentação e Informação (CDI) CTT, enquanto empresa de Cor- dos CTT, na dependência da reios e Telecomunicações, e a secretária-geral, vocacionado assunção de uma vocação exclu- essencialmente para o forneci- siva de prestação de serviços pos- mento de informação técnico- tais, todos os serviços centrais da profissional de forma descen- empresa foram questionados 1973, pela ordem de serviço n tralizada e em rede, suportada pela existência de núcleos de docu- quer na sua dimensão quer nos seus objectivos e utilidade. A esta mentação associados às diversas direcções da Empresa e baseada problemática não escapou a existência da própria Biblioteca. numa informatização progressiva. Em 1992, quando a cisão entre os CTT, Correios de Portugal e a então A Biblioteca que estava na dependência da Direcção dos Serviços de Telecom Portugal se concretizou, a Biblioteca entrou num limbo de Pessoal é desanexada desta estrutura e fica como um dos sectores do indefinição que ditou uma transferência apressada para instalações CDI, mantendo-se as suas habituais atribuições de aquisição, trata- provisórias na Rua de S. José, 10, de parte do acervo considerado his- mento, divulgação e conservação. tórico e com interesse informativo para os objectivos estatutários da Esta situação mantém uma certa estabilidade e progressiva moder- futura Fundação Portuguesa das Comunicações. Porém, nesta tran- nização dentro da mesma linha programática à qual é acrescentada, sição perdeu-se irremediavelmente parte do espólio documental e a partir de 1977, a vertente de desenvolvimento cultural junto dos tra- mesmo bibliográfico, nomeadamente documentação técnica, publi- balhadores com um impacto conhecido na aquisição de novos conhe- cações periódicas e monografias cujas cotas de classificação não se cimentos e competências escolares e académicas junto de largas fai- enquadravam nos critérios entretanto definidos. 87 Os primeiros armários da Biblioteca. Intérieur ou L’harmonium, la bibliothèque, les échecs, 1945, têmpera sobre cartão, 24x37,2 cm, colecção Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. Novas perspectivas obras mais danificadas. Paralelamente, foi feito um esforço de orga- A situação arrastou-se até finais de 1997, quando a criação da Fun- nização do acesso ao acervo de que resultou a aprovação do novo Regu- dação Portuguesa das Comunicações, a sua instalação na Rua D. Luís lamento da Biblioteca da FPC (DE00312003CA). I e a fundamentação jurídica e financeira entretanto obtida permiti- É então promovida a divulgação interna das novas aquisições, incluin- ram inverter a situação de armazenagem provisória até então verifi- do a das publicações periódicas por perfil de utilizador. O serviço ao uti- cada, em condições muito deficientes, na Rua do Açúcar. lizador é tornado prioritário, seja ele constituído por público interno ou De facto, em finais de 1998, este espólio é finalmente resgatado e colo- externo, e promove-se o acompanhamento personalizado na orien- cado no primeiro andar do edifício da Fundação, em instalações tação da pesquisa. De facto, a Biblioteca começa a registar uma pro- ambientalmente adequadas à sua preservação. cura positiva, ainda que incipiente, sobretudo por público especializado, Como as anteriores condições de conservação tinham sido particu- universitários, mestrandos e investigadores. larmente severas, tornou-se prioritário salvaguardar a integridade Já que da multifacetada história desta Biblioteca, dos muitos contri- física das espécies, promovendo a limpeza e restauro pontual das butos e necessidades informativas a preencher resultou um patrimó- 88 nio tão especial em termos de qualidade, raridade e originalidade, urge Dos livros mais antigos presentes na Biblioteca, destaque para a His- continuar a valorizá-lo e enriquecê-lo, numa perspectiva cada vez toire Générale de Portugal, da autoria de Lequien de la Neufville, edi- mais aberta à comunidade. tado em Paris no ano de 1700. Dedicado a D. Pedro II, é ilustrado com requintadas gravuras em miniatura no pórtico de cada capítulo de O património da biblioteca: uma escolha pessoal que se destacam, por serem particularmente interessantes, duas alu- Após esta breve passagem sobre a história secular da Biblioteca, sobre nização (reinado de D. Pedro I) e uma outra ilustrando o Terreiro do Paço as suas «grandezas e misérias» e porque, como afirmou Umberto e a Ribeira das Naus (D. Manuel I). Trata-se de uma obra em dois tomos Eco «a função ideal de uma biblioteca é semelhante à de um alfarra- cujo segundo volume é inteiramente dedicado a D. Manuel I, conten- bista onde se descobrem raridades» 3, peço-vos que me acompanhem do, além das já descritas gravuras, uma outra assinalável, de página à descoberta de algumas das preciosidades que ela contém. Têm sido, inteira, que retrata D. Pedro II. de facto, muitas as décadas em que por variados motivos, incluindo No capítulo quer da História Geral quer da História de Portugal em que nos últimos anos estrita responsabilidade profissional, me aproximei a Biblioteca é particularmente rica, surge uma verdadeira raridade a deste importante acervo. Desta proximidade e progressivo conhecimento Historia da feliz acclamação do Senhor Rei D. João o Quarto publica- resultou uma «biblioteca imaginária», cuja visita não programada vos da em Lisboa na oficina de Simão Thaddeo Ferreira (administrador do desafio a acompanhar. Correio do Reino) em 1803. Esta obra panegírica contém a lista dos sivas a D. Inês de Castro, à sua morte (reinado de D. Afonso IV) e entro- 89 fidalgos que apoiaram o futuro D. João IV no dia 1 de Dezembro de 1640. O século XIX e a sua turbulência política e militar dão origem ao texto Nas generalidades, aparecem-nos também dois tomos das Obras comentado Relação dos sucessos ocorridos no Tejo... desde 8 de Julho Completas de Voltaire publicados em Paris em 1792. até 15 de Agosto de 1831, folheto escrito pelo vice-almirante Roussin, 90 publicado em Lisboa por José Baptista Morando em 1832, e à Memoria Entretanto, o período entre finais do século XVIII e meados do sécu- sobre a conspiração de 1817: vulgarmente chamada a conspiração de lo XIX é abordado nas Recordações de Jacome Ratton: sobre ocorrências Gomes Freire, escripta e publicada por um português amigo da justiça do seu tempo: de Maio de 1747 a Setembro de 1810, numa edição e da verdade, texto que procura reabilitar o bom-nome e a integrida- revista (a primeira é de 1813) publicada pela Imprensa da Universida- de de Gomes Freire de Andrade, publicada em Londres em 1822. de de Coimbra no ano de 1920. Aparece também ilustrado num curio- 92 síssimo folheto sem local nem data de edição intitulado Portugal obra fundamental da historiografia portuguesa, encontra-se tam- desafia Napoleão: 1807-1814, que contém boas imagens sobre as bém entre o vasto acervo de cariz histórico, enriquecido igualmente por invasões francesas e as suas principais batalhas, bem como repro- outros clássicos como a História da Administração Pública em Portu- duções de retratos dos principais protagonistas. gal: nos Séculos XII a XV, de Henrique da Gama Barros em edição diri- A História de Portugal, edição monumental de Damião Peres e Eleu- gida por Torquato de Sousa Soares de 1945, ou a História da Igreja em tério Cerdeira, publicada em Barcelos pela Portucalense em 1928, Portugal de Fortunato de Almeida, de 1910. A acrescentar a estes ver- 94 dadeiros monumentos de síntese histórica, podemos ainda citar pelo O olhar de estrangeiros sobre a sociedade portuguesa em diversas seu valor documental, as Memórias da Academia Real das Sciências épocas é, igualmente, um aspecto que mereceu a atenção dos res- (1797-1825), sobre os mais diversos temas desde ciências (trabalhos de ponsáveis da Biblioteca ao longo do tempo. Assim, podemos encontrar engenharia hidráulica, meteorologia, ciências naturais) a história, lite- obras tão interessantes como A formosa Lusitânia (1877), de Lady Jack- ratura e outros ou ainda, pelo seu contributo, a edição crítica de Lindley son, com prefácio e notas de Camilo Castelo Branco, Voyage en Portu- Cintra da Crónica Geral de Espanha de 1344 (texto português), dada à gal et Espagne (1776), de Richard Twiss, ou Travels in Portugal (1795), de estampa em Lisboa pela Imprensa Nacional em 1951, e que seguiu o códi- James Murphy. ce iluminado conservado justamente na Academia de Ciências. Quanto a obras de referência, além de variadas enciclopédias e dicio- As ciências auxiliares da história, como a arqueologia, contêm exem- nários, devemos destacar a riqueza do acervo em dicionários geográ- plos de grande valor bibliográfico como a obra completa do pioneiro Está- ficos e corográficos relativos ao território nacional, não esquecendo o cio da Veiga, de que destaco as obras Antiguidades de Mafra (1879), Anti- Portugal Antigo e Moderno (1873), de Pinho Leal, o Diccionario Biblio- guidades Monumentaes do Algarve: tempos prehistoricos (1886), ou A graphico Portuguez (1858-1958), de Inocêncio Francisco da Silva, o Elu- tabula de bronze de Aljustrel: lida, deduzida e commentada em 1876 cidário (1798/99-1895), de Sousa Viterbo, e a obra em dezoito tomos His- (1880), primeira notícia da existência das famosas tábuas de Vipasca. tória dos estabelecimentos scientíficos, litterarios e artísticos de Por- A juntar a estas obras de grande valor documental, podemos falar tugal (1871), de José Silvestre Ribeiro. ainda de sínteses como a História do Exército Português, da autoria do As publicações periódicas estão também muito bem representadas, par- general Ferreira Martins, edição muito cuidada e com restauro recen- ticularmente as do século XIX e início do século XX, como as revistas O te, publicada pela Inquérito em Lisboa em 1945, ou ainda de um livro bas- Panorama (1837-1858), O Occidente (1878-1915), Ilustração Portuguesa tante raro da autoria de Fernando Emygdio da Silva, As greves, publi- e Brasileira (1884-1891) e Ilustração Portuguesa (1906-1924). cado em 1912 pela Imprensa da Universidade de Coimbra, que aborda Para finalizar, refira-se a existência de três verdadeiras pérolas deste acer- de forma exaustiva as primeiras manifestações grevistas e de associação vo: a obra Tôjos e rosmaninhos: contos da serra, de Alfredo Keil, de que de trabalhadores no nosso país. existem dois exemplares mas apenas um com a encadernação original, A lista já vai longa mas, entre muitas outras escolhas possíveis, não posso publicada em 1907 em Lisboa, e que vale acima de tudo pelas magnífi- deixar de referir a rica colecção de memórias que integra as do conde cas ilustrações da sua autoria, com uma poesia dedicada à diligência e do Lavradio, do marquês de Fronteira e Alorna, do conde de Mafra bem onde quer esta quer uma estação de muda na carreira Tomar-Sertã são como as da marqueza de Rio Maior coligidas por Branca de Gonta Cola- profusamente e realisticamente retratadas no seu percurso (não esque- ço, importantes dada a proximidade destas personalidades ao poder cendo o autor a presença das caixas de correio nas várias situações); a no final da monarquia e à abundância de relatos contemporâneos de História Natural Illustrada, de Júlio de Matos, publicada no Porto pela Livra- alguns dos mais importantes acontecimentos entre os finais do sécu- ria Universal em 1880 e contendo a descrição física e comportamental lo XVIII e a implantação da República. de muitas dezenas de espécies animais com o respectivo desenho cien- 1 Relatório Postal do Anno Economico de 1877-78, p. 154. 2 Palácio Sousa Leal, p. 54. 3 De Bibliotheca, p. 22 (tradução livre). CTT – Boletim Oficial. Lisboa: Ed. do autor. BIBLIOGRAFIA NOATS 96 CTT – Palácio Sousa Leal. Lisboa: Museu dos CTT e TLP, 1984. ECO, Umberto – De Bibliotheca. Caen: L’Échoppe, 1986. PORTUGAL. ADMINISTRAÇÃO GERAL DOS CORREIOS, TELÉGRAFOS E TELEFONES – Catálogo sistemático da Biblioteca da Administração Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones. Lisboa: CTT, 1950. PORTUGAL. DIRECÇÃO-GERAL DOS CORREIOS – Relatorio Postal do Anno Economico de 1877-78… Lisboa: Lallement Frères, 1879. tífico; e finalmente, o Album dos Costumes Portuguezes, da editora de o seu saber e gosto deram um cunho eclético a este acervo inestimá- David Corazzi, publicado em 1888 com ilustrações de Roque Gameiro, vel, muito baseado no que de melhor cada época produziu, provoca Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro, entre outros, e textos de Fialho em quem a frequenta e sabe utilizar o sentimento que muito há ainda de Almeida , Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão e Xavier da Cunha. para descobrir. É a esta descoberta que vos convido pois, numa época De facto, o enriquecimento constante da Biblioteca ao longo destes de expansão do digital como a nossa, o livro continua a ser, sem dúvi- mais de cem anos, o empenhamento de gerações sucessivas que com da, um dos instrumentos privilegiados de acesso ao conhecimento.