FACULDADE SANT’ANA FERNANDA PIMENTEL SANTOS LORENA FIUZA FERREIRA ECONOMIA SOLIDÁRIA: Uma Experiência Coletiva em uma Sociedade Individualista - A Construção de uma Narrativa PONTA GROSSA 2014 FERNANDA PIMENTEL SANTOS LORENA FIUZA FERREIRA ECONOMIA SOLIDÁRIA: Uma Experiência Coletiva em uma Sociedade Individualista - A Construção de uma Narrativa Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade Sant’Ana, como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Psicologia. Orientadora: Profª. Ms. Glaucia Mayara Niedermeyer Orth. PONTA GROSSA 2014 Dedicamos este trabalho a todas as pessoas que acreditam em um modelo econômico solidário, que possa por suas ações lutar pelos excluídos. AGRADECIMENTOS A vida passa a ter um sentido especial, quando nos debruçamos nos nossos sonhos e lutamos pelo nosso ideal. É claro que quando encontramos alguém que simbolize a amizade este caminho acaba ficando cada vez mais apaixonante e agradável, por isso não tem como começar os agradecimentos se não recordar a nossa amizade que se construiu no decorrer da graduação. Nosso percurso acadêmico foi permeado pelo apoio, incentivo e carinho dos nossos familiares, que apostaram nas nossas potencialidades e estiveram ao nosso lado nas maiores dificuldades. Agradecemos a oportunidade que tivemos de conhecer e vivenciar a Economia Solidária que nos foi apresentada com muito amor e sabedoria pela Dra. Manuela Salau Brasil, a qual inspirou a nossa trajetória e escolha do tema para este trabalho. Agradecemos também à equipe da Incubadora de Empreendimentos Solidários (IESol) que nos acolheram e contribuíram para a realização desta pesquisa, construindo e fortalecendo os laços de solidariedade. Em especial agradecemos aos trabalhadores/as do empreendimento investigado por depositarem confiança em nosso trabalho ao compartilharem suas histórias de vida, pois a partir das suas narrações tivemos oportunidade de visualizar a prática da Economia Solidária. À nossa querida orientadora Glaucia Orth que soube nos guiar durante a estruturação deste trabalho, fomentando o nosso interesse em buscar formas de ressignificar e empoderar os marginalizados da sociedade. Para finalizar agradecemos de forma particular duas pessoas que tiveram um papel muito significativo na nossa história, não apenas acadêmica, mas que contribuíram motivando o nosso caminhar com as suas reflexões e capacidades de ouvir até mesmo o nosso silêncio. E a todos aqueles que de algum modo colaboraram para a realização deste trabalho, deixamos nosso muito obrigado! “A pobreza não é um acidente. Assim como a escravização e o Apartheid, a pobreza foi criada pelo homem e pode ser removida pelas ações dos seres humanos”. (Nelson Mandela) RESUMO O presente trabalho visa compreender a vivência pessoal das integrantes de um grupo que faz parte da Incubadora de Empreendimentos Solidários da Universidade Estadual de Ponta Grossa – IESol, buscando perceber suas motivações para integrar uma experiência coletiva. Esta incubadora tem como metas promover em grupos de economia solidária a possibilidade de autogestão, a geração de trabalho e renda, a organização baseada no associativismo e cooperativismo, a sustentabilidade e autonomia nos empreendimentos. Dessa forma, a economia solidária enfatiza a importância de se criar caminhos de autonomia coletiva, sendo o oposto da visão tradicional do sistema capitalista. Utilizando como método a História Oral foi possível compreender como os princípios da Economia Solidária interferem na subjetividade dos sujeitos envolvidos nesta dinâmica, evidenciando por meio de entrevistas e discursos a subjetividade de cada entrevistada. Foram entrevistadas três mulheres integrantes de um empreendimento de Economia Solidária da cidade de Ponta Grossa. Após a realização das entrevistas, as mesmas foram transcritas e categorizadas conforme a sua pertinência ao objetivo da pesquisa. Com isso, foram construídas três categorias: A experiência de trabalho no capitalismo; Individual x Coletivo: motivações para integrar uma experiência de Economia Solidária; Significado do trabalho na Economia Solidária. Observou-se, ainda, que os valores narrados pelas participantes, construídos ao longo da sua vida, assemelham-se aos princípios da Economia Solidária, o que fortalece a sua participação nesse empreendimento. Palavras-chave: psicologia do trabalho, economia solidária, história oral. ABSTRACT This study aims to understand the personal experience of the members of a group that is part of the Cooperative Business Incubator of the State University of Ponta Grossa IESol, trying to notice their motivations to join a collective experience. The incubator’s goals are to promote, in groups of Solidarity Economy, the possibility of selfmanagement, the generation of employment and income, as well as organization based on association and cooperation, sustainability and autonomy in the businesses. Thus, Solidarity Economy emphasizes the importance of creating paths of collective autonomy, opposing the traditional view of the capitalist system. Using oral history as a method, it was possible to understand how the principles of Solidarity Economy interfere with the subjectivity of the subjects involved in this dynamic, showing through interviews and speeches the subjectivity of each interviewee. Three members from a Solidarity Economy business in the city of Ponta Grossa were interviewed. These interviews were transcribed and categorized according to their relevance to the research's objective. From that, three categories were divided: Work experience in capitalism; Individual vs. Collective: the motivations to integrate the experience of Solidarity Economy; The meaning of work in the Solidarity Economy. It was also observed that the values narrated by the participants, built throughout life, resemble the principles of Solidarity Economy, which strengthens their participation in this project. Keywords: labour psychology, solidarity economy, oral history. SUMÁRIO 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS ..................................................................................... 8 2 A ECONOMIA SOLIDÁRIA COMO UMA ALTERNATIVA ECONÔMICA ....... 10 2.1 O capitalismo e suas contradições ........................................................................ 10 2.2 Capitalismo e realidade nacional: Conjuntura Política ......................................... 13 2.3 A Economia Solidária como enfrentamento da desigualdade social produzida pelo Capitalismo ......................................................................................................... 16 3 O TRABALHO COMO CONSTRUÇÃO DE SI ....................................................... 22 3.1 Trabalho como categoria fundante do ser humano e produtor de consciência ..... 22 3.2 Quando o trabalho resulta em alienação ............................................................... 26 3.3 Trabalho e Saúde Mental ...................................................................................... 29 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ................................................................ 32 4.1 Caracterização da pesquisa ................................................................................... 32 4.2 Procedimentos da pesquisa e caracterização das participantes ............................. 33 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO ................................................................................ 35 5.1 A experiência de trabalho no capitalismo ............................................................. 35 5.2 Individual X Coletivo: motivações para integrar uma experiência de Economia Solidária ...................................................................................................................... 38 5.3 O significado do trabalho na Economia Solidária ................................................ 41 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 46 REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 49 APÊNDICE A – AS NARRATIVAS DE VIDA DAS PARTICIPANTES DA PESQUISA ..................................................................................................................... 55 APÊNDICE B - ROTEIRO DE QUESTÕES PARA A HISTÓRIA ORAL ................. 60 8 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A economia solidária é um tema que vem sendo discutido constantemente no meio acadêmico e social, por realizar uma forte crítica ao sistema econômico dominante e por propor um estilo de economia que luta contra as desigualdades sociais presentes no capitalismo. Segundo o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (2014), o documento da I Conferência Nacional de Economia Solidária que aconteceu em 2005 alega a necessidade de trabalhadores solidários atuarem na superação das contradições próprias do capitalismo, encontradas como dificuldade para o desenvolvimento do homem. A Economia Solidária na cidade de Ponta Grossa tem apoio de diversas entidades, sendo uma delas a Incubadora de Empreendimentos Solidários (IESol), que faz parte de um programa de extensão da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) que surgiu para articular, organizar e consolidar empreendimentos solidários, promovendo nos grupos de trabalhadores incubados os princípios da Economia Solidária. Singer (2002) comenta que a economia solidária compreende diferentes tipos de associações voluntárias com o fim de proporcionar a seus associados benefícios econômicos, e surgem como reações a carências, como a pobreza que o sistema econômico dominante se nega a resolver. De acordo com Singer (2002) a economia solidaria permite que todos os trabalhadores possam tomar as decisões do empreendimento, possuindo os mesmos direitos, afirmando que cada um “[...] tem a mesma parte do capital, e portanto os mesmos direitos de decisão. Pratica-se a autogestão, que é administração da empresa por todos que trabalham nela democraticamente” ( p. 11). Assim, o autor define a economia solidária como um modo de produção que se caracteriza pela igualdade de direitos, onde os meios de produção são de posse coletiva dos que trabalham com eles, favorecendo e incentivando a autonomia e autogestão. Por outro lado, a Economia Solidária inserida no capitalismo tem como resultado um sujeito que encontra mensagens contraditórias, pois os princípios da Economia Solidária, como autogestão e cooperação encontram dificuldades em uma cultura individualista e competitiva. Diante dessas considerações, o presente trabalho tem como objetivo principal compreender, por meio da história oral, a vivência pessoal das integrantes de um grupo 9 incubado pela IESol e suas motivações para integrar uma experiência coletiva. Para atingir esta finalidade, este trabalho contou com um levantamento da bibliografia que trata do assunto trabalho, capitalismo e economia solidária, além de pesquisa de campo, operacionalizada por meio das entrevistas de história oral, após a aprovação do conselho de ética e pesquisa da Faculdade Santana, conforme protocolo 2541-2014. Este trabalho está organizado em quatro sessões, que serão a seguir apresentadas. Na primeira sessão é abordada a Economia Solidária como uma alternativa econômica, apontando a estrutura do capitalismo, suas contradições e crises e a realidade nacional dentro desse modelo econômico. Na segunda sessão é teorizado o trabalho como construção do homem, sendo uma categoria fundante do ser humano, capaz de produzir consciência ou alienar o homem frente à realidade do seu trabalho. Dessa forma, essa sessão apresenta que o trabalho pode ser tanto causador de sofrimento psíquico quanto gerador de saúde mental. Na próxima sessão apresentamos a metodologia na qual foi realizado este trabalho que surgiu por vinculação ao campo de estágio, o que facilitou a construção desse trabalho pelo vínculo estabelecido com aequipe da incubadora e com os sujeitos que compõem o empreendimento pesquisado. A construção metodológica dessa pesquisa foi realizada por meio de três etapas. Onde primeiramente foi dado início à pesquisa bibliográfica, em um segundo momento realizou-se o convite para os seis trabalhadores do empreendimento solidário, onde três feirantes concordaram em participar da História Oral, e em seguida as entrevistas foram transcritas e analisadas. Por fim, apresentamos na quarta sessão os resultados da pesquisa, com a finalidade de compreender como os princípios da Economia Solidária interferem na subjetividade dos sujeitos envolvidos nesta dinâmica, e qual a influência da estrutura capitalista imposta socialmente. Contemplamos, ainda, a motivação de trabalhadores no ingresso a um empreendimento coletivo através das narrativas construídas durante a história oral. 10 2 A ECONOMIA SOLIDÁRIA COMO UMA ALTERNATIVA ECONÔMICA 2.1 O capitalismo e suas contradições O capitalismo passou por um processo evolutivo que teve seu início no século XVI com as grandes navegações que buscavam a interligação marítima, domínio e exploração de territórios (SINGER, 1991). Singer (1991) realça que a estratégia de expansão deste período estava baseada na unificação do mercado nacional e dominação por meio do monopólio político, sendo organizado o modo de produção que fundamenta a era do mercantilismo. Paul Singer (1991) ainda destaca que o modo de produção capitalista acontece pela propriedade privada, desigualdade e competição entre as classes sociais, que teve sua origem com a economia de mercado existente na Idade Média. Dobb (1976 apud ROIZ, 2009) demarca o surgimento e desenvolvimento do capitalismo, a partir da crise estrutural do sistema feudal que deu origem à circulação de mercadorias. Posteriormente, no século XVIII com a Revolução Industrial que inicia na Grã Bretanha, os mercados locais e nacionais passaram a estabelecer competições livres. Paul Singer (1991) comenta que: No século XVIII sucessivas guerras resultam no triunfo da Grã- Bretanha sobre seu maior rival, a França. Em consequência, o capitalismo manufatureiro alcançou maior desenvolvimento na Grã-Bretanha, criando as condições para a Revolução Industrial que aconteceu logo a seguir (p. 12). Assim, o capitalismo desenvolveu-se como modelo econômico no século XIX, o qual representou a derrocada do feudalismo, estabelecendo a divisão de trabalho e a especialização da produção em diferentes cidades (MARX, 1985). Marx (1985) ainda destaca que essas transformações na produção foram fortalecidas à medida que as propriedades existentes foram modificadas em capital industrial ou comercial, resultando no desenvolvimento do capitalismo. Com as revoluções e invenções das máquinas, o capitalismo passou a prover parte das atividades econômicas da época. Dessa forma, Singer (1991) define que o avanço do capitalismo foi lento e gradual, se fazendo presente a partir do momento em que as máquinas industriais passaram a sobrepor o homem. Segundo Scholz (2009), a Revolução Industrial na Grã-Bretanha ocorreu junto com a expulsão em massa de camponeses dos domínios senhoriais na Europa, que se 11 transformaram no proletariado moderno, ocasionando o êxodo rural e a exploração do trabalho nas fábricas pelo contingente de demanda de mão-de-obra. Essa excessiva exploração que os trabalhadores sofriam afetava diretamente sua saúde fisíca e psíquica, resultado das péssimas condições de trabalho e jornadas extensas que ocasionaram grande morbidade e mortalidade, impedindo que a produtividade do trabalho pudesse se elevar (SINGER, 2002). Frigotto (2000) cita que Marx em sua obra O Capital explora este modelo econômico como um modo social de organização que tem como objetivo central a maximização do acúmulo do capital, tendo como prioridade a concentração e centralização ampliada do capital da renda. Deste modo, Roiz (2009) aponta que a economia política do capitalismo produz desigualdades sociais que são apresentadas como circunstâncias constantes da luta de classes e intensificadas pelo modo de produção capitalista. O’Donnell (1981) confirma: O capitalismo tem que engendrar o sujeito livre e igual ante o direito, o contrato e a moeda, sem que não poderiam existir sua ação seminal: compra e venda de força de trabalho e apropriação de valor. Essa liberdade implica como paralelo seu a igualdade própria da cidadania (p.74). Dessa forma, o autor pontua que o sujeito é livre e desamparado para vender a sua força de trabalho, pois a relação entre o trabalho e o poder do capital exercido sobre o trabalhador é estruturalmente desigual. Marx, em seus estudos sobre o capitalismo, demostra que esse sistema sobrevive da exploração do trabalho como forma de obter a dominação do capital. Assim, esta acumulação de capital deriva de relações desiguais. Marx (2011) traz como principal característica do capitalismo a circulação de mercadorias, tendo como ponto de partida o capital, que resulta no dinheiro. Logo, Marx (2011) diferencia o capital de dinheiro pela sua forma de circulação dentro da sociedade, sustentando como principal objetivo do capitalismo a apropriação crescente da riqueza, ou seja, do dinheiro. Dessa forma, o próprio trabalho é considerado mercadoria, cujo valor é estabelecido pelo mercado. Marx (2011) corrobora essa afirmação: Por força de trabalho ou capacidade de trabalho compreendemos como o conjunto das faculdades físicas e mentais existentes no corpo e na personalidade viva de um ser humano, as quais ele põe em ação toda vez que produz valores-de-uso de qualquer espécie (p.197). Portanto, a força que o trabalhador exerce na empresa capitalista é considerada como parte do processo, ou seja, uma mercadoria necessária para exceder a mais-valia, 12 seguindo a dinâmica de compra e venda. Na perspectiva de Marx (2011), o dinheiro é a forma necessária de se manifestar a medida do valor das mercadorias e do tempo de trabalho. O autor critica o sistema capitalista, no qual ocorre, constantemente, a transformação de mercadoria em dinheiro (venda) e dinheiro em mercadoria (compra). Assim, o produto excedente é vendido para gerar dinheiro e poder adquirir novas mercadorias (m1→d1→ m2), passando a converter dinheiro em mercadoria e mercadorias em dinheiro (d1→ m1→ d2), esse processo de desenvolvimento tem como objetivo gerar e acumular riquezas sustentando a competição no mercado de trabalho, aumentando a desigualdade social (MARX, 2011). De acordo com Needleman (s/d apud KORTEN, 1996), no capitalismo o dinheiro passou a ser um determinante social: Em outros tempos e lugares, nem todos queriam o dinheiro acima de qualquer coisa; as pessoas desejavam a salvação, a beleza, o poder, o prazer, a propriedade, explicações, alimento, aventura, conquistas, conforto. Mas aqui e agora, o dinheiro – não necessariamente as coisas que o dinheiro pode comprar, mas o dinheiro – é o que todos querem. O gasto da energia da humanidade agora acontece no e através do dinheiro (p. 303). Para Marx (2011) o homem dentro da perspectiva do capitalismo é visto como “personificação da força do trabalho, um objeto natural ou uma coisa, embora seja uma coisa viva e consciente, e o próprio trabalho é a manifestação externa, objetiva dessa força” (p.238). Neste pensamento, o homem é apenas considerado um fator de produção, desconsiderando a sua subjetividade, não sendo visto como um indivíduo vivo, criativo, com metas, sonhos e potencialidades. O homem é um meio que serve para um fim maior, que é ganhar dinheiro. Ocorre uma espécie de alienação do trabalho e da vida do homem em decorrência dos princípios da valorização do capital. Altvater (2010) afirma que Marx compreende por capital uma relação social específica entre capitalistas, e aqueles que trabalham para eles são explorados nesta relação, cuja finalidade é gerar mais-valia, ou seja, lucro. Altvater (2010) ainda ressalta que o modo de produção capitalista é um sistema flexível, dinâmico, mas extremamente instável e contraditório, que provoca crises econômicas e políticas recorrentes. Assim a continuação do sistema capitalista no mundo, como afirma Altvater (2010), não apenas trará uma euforia impensada, que constrói o universo simbólico de que é uma sociedade democrática, que possui liberdade de escolha, economia de mercado e o bem-estar social, mas carregará a destruição do ser. O autor critica que o 13 capitalismo está tão enraizado na vida do homem contemporâneo tornando-se difícil refletir ou encontrar outra possibilidade de economia. A visão de outro mundo torna-se utopia, pois o fim do capitalismo é pensado como uma “era apocalíptica”, sendo reforçada a ideia de um sistema permanente (ALTVATER, 2010). 2.2 Capitalismo e realidade nacional: Conjuntura Política Há dois lados na divisão internacional do trabalho: um em que alguns países especializaram em ganhar, e outro em que se especializaram em perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder (Eduardo Galeano). O jornalista crítico Eduardo Galeano inicia sua obra “As veias abertas da América Latina”, destacando o quanto os países desse continente são marcados pela exploração, o que os levou à categoria de oprimidos especialistas. O autor ainda enfatiza que estes países possuem uma gama de recursos naturais, mas se limitam a sustentar as necessidades dos países desenvolvidos. Assim, Galeano (2010) entende que a América Latina é composta por países que foram explorados desde sua descoberta, tendo como resultado o trabalho excessivo da população para suprir outras necessidades que não são as suas, conforme cita: É a América Latina, a região das veias abertas. Desde o descobrimento até nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte americano, e como tal tem-se acumulado e se acumula até hoje nos distantes centros de poder (GALEANO, 2010, p.5). O autor ainda localiza esta exploração contínua com o desenvolvimento do capitalismo, que funciona a partir de ganhadores e perdedores, enfatizando que a miséria encontrada atualmente é resultado das vitórias de outros países. O Brasil, durante três séculos, foi colônia de exploração dos portugueses, colaborando para a constituição do capitalismo manufatureiro europeu. Apenas na metade do século XIX iniciou-se o processo de substituição industrial através das importações, estando subordinada aos interesses da agricultura (SINGER, 2002). A produção brasileira exportada em 1930 era predominantemente agrária, porém com a industrialização do país foram criadas condições para a acumulação capitalista, com interferência direta do Estado (SCHOLZ, 2009). Com a industrialização do Brasil na década de 1950 e 60, segundo Freitas (1979 14 apud FREIRE, 1996) o desemprego atingiu números assustadores, a inflação e o custo de vida tornaram-se insuportáveis para a classe trabalhadora e para a população em geral. De acordo com Beatriz (2012), neste período ocorreu a migração abundante da população rural para as cidades, acarretando o excesso de pessoas para uma infraestrutura pouco adequada às necessidades básicas da população. “A população pobre do país, expulsa ontem do campo e hoje excluída do emprego urbano, gera a situação explosiva que constatamos na cidade e no campo neste início do século” (DOWBOR, 2002 apud BEATRIZ, 2012, p. 37). A crise econômica da década de 30, recorrente nas décadas de 70 a 90, é explanada por Frigotto (2000) como uma problemática de ordem político-econômica que foi marcada pelos altos índices de desemprego e desigualdade social. De acordo com este autor a acumulação capitalista financiada pelo fundo público para manter o padrão de acumulação do capital solucionou a crise da década de 30, entretanto deu origem às crises econômicas das próximas décadas, tornando-se, portanto uma crise estrutural e não uma crise decorrente das intensas intervenções do Estado. Se na década de 30, período marcado pelo Estado Novo, o Brasil construiu as bases para o desenvolvimento do capitalismo, foi a partir da década de 60 que o Brasil firmou-se como um país capitalista. Numa conjuntura internacional configurada pela Guerra Fria, estabelecida entre Estados Unidos e União Soviética, mais precisamente marcada por uma guerra entre modelos econômicos distintos, a elite conservadora do país escolheu o rumo que o país adotaria (ORTH, 2013). Em decorrência dessa conjuntura, os Estados Unidos na tentativa de efetivar seu modelo econômico, realizou inúmeros investimentos na América Latina, contemplando o Brasil. Dessa forma, a autora afirma que a ditadura brasileira teve como base a efetivação do capitalismo como modelo econômico vigente, conforme segue: Em troca da extração das riquezas brasileiras, os estadunidenses deixaram aqui sua ideologia capitalista, sua supremacia econômica, a desvalorização da cultura nacional e a manutenção do país no submundo do desenvolvimento. A presença dos valores, da ideologia e da influência dos Estados Unidos no país é indiscutível, e a ditadura militar representou, apenas, mais uma etapa da intervenção daquele país no Brasil (ORTH, 2013, p. 62). Assim, o capitalismo ganha destaque no Brasil, apoiado pela ditadura militar com a propaganda de efetivar a democracia no país. De acordo com Freitas (1998), a repressão política, cultural, o aumento da pauperização e o acirramento das desigualdades sociais caracterizaram este período ditatorial. O governo ditador, a fim de garantir a hegemonia nas decisões tomadas, afastou 15 a população dos assuntos políticos, acarretando “[...] uma despolitização em massa de grandes setores da sociedade que simplesmente diziam amém aos arbítrios políticos” (ORTH, 2013, p 62). No início do Regime Militar, o Brasil vivenciou uma sensação de pleno desenvolvimento econômico, o que propiciou a urbanização do país. Vale lembrar, entretanto, que essa situação foi impulsionada pelo baixo preço do petróleo em âmbito internacional, matéria-prima que contribuiu para o desenvolvimento da infraestrutura do país, mas que seria, também, a responsável pela derrocada do Regime e pela imersão do país na grande crise econômica que viria na década de 1980 (GASPARI, 2003). Até a década de 1970, o Brasil não se preocupou em investir na exploração dos combustíveis fósseis no país, por conta da abundância dessa matéria-prima no mundo e pelo baixo preço de importação. Porém, com o aumento do preço do petróleo importado a economia brasileira não resistiu, provocando escassez de matéria-prima e aumento do preço dos produtos derivados do petróleo. O Regime, a fim de manter a sensação de pleno desenvolvimento e sustentar sua posição de poder, passou a subsidiar o petróleo importado, o que gerava um gasto de 150 milhões de dólares por mês (GASPARI, 2003). Dessa forma, o brasileiro passou a consumir mais, levando a um déficit na produção e inflação de preços (GASPARI, 2003). Não conseguindo mais dar conta desse prejuízo, principiando a crise dos anos 80, os militares iniciaram o longo processo de abertura democrática. Assim, a instabilidade econômica atingiu o regime político e toda a população, pois a crise econômica dos anos 1980 resultou no aumento da desigualdade social e na pobreza (GASPARI, 2003). Costa e Souza (2005) enfatizam que a pobreza é gerada por ações humanas, responsabilizando o Estado por toda a desigualdade social visualizada atualmente. As autoras, ainda, apontam que no Brasil a falta de políticas públicas para distribuição de renda e riquezas gerou uma sociedade desigual, decorrente de decisões humanas que seguem a lógica capitalista, ou seja, a incapacidade de inclusão no mercado de trabalho. A pobreza ainda é analisada pelas autoras como um fenômeno global, pois está vinculada a fatores que dificultam o desenvolvimento do ser humano, afetando o convívio social, padrão cultural, acesso a serviços básicos, à justiça, enfim interferindo integralmente na vida social do sujeito. Singer (1991) aponta que nas décadas de 1980 e 1990, as grandes empresas eram responsáveis por fornecer a maior parte do emprego e os custos trabalhistas eram repassados aos preços dos produtos, assim, quem pagava o salário eram os 16 consumidores. Neste momento, de acordo com Beatriz (2012), a abertura do mercado brasileiro a produtos importados e a modernização da tecnologia e indústrias acarretaram o aumento da competição e prejuízo das empresas do país, sendo obrigadas a cortar custos. Singer (2004) exemplifica este período comentando: [...] comunidades pobres podem ser classificadas pelo seu grau de integração ao mercado global. Há as excluídas desde há muito tempo e que vivem em economia de subsistência, de forma quase auto-suficiente. E há as recém excluídas, como o cinturão da “ferrugem” cujos moradores foram empregados de indústrias, que encolheram ou desapareceram em função da abertura do mercado interno e do progresso tecnológico (p.3). Segundo Serafim (2012), a década de 1980 foi marcada por altas taxas inflacionárias e baixas taxas de crescimento econômico, levando ao aumento do desemprego em massa e à precarização do mercado de trabalho. Nesse cenário econômico e político, Fernandes (2007) ressalta: A abertura nada tem de “democrática”: os governantes que assaltaram o Estado brasileiro e o amoldaram a seus fins políticos engendraram uma forma policial-militar de ditadura burguesa que pode oscilar, “endurecendo” ou “liberalizando-se” de acordo com a conjuntura econômica, social e política e com o volume de pressões contra a ordem ilegal estabelecida como “institucional” e “revolucionária” (p. 208). Galeano (2010) enfatiza o quanto as formas autoritárias construídas através das ditaduras são disseminadas como “ordem e paz social” (p.8), sustentando a proibição de greves, extinguindo sindicatos trabalhistas, com o objetivo de impossibilitar qualquer ato de liberdade do sujeito. No Brasil, a industrialização, acompanhada da Guerra Fria e depois da ditadura implantada a partir da ideologia política, trouxe o capitalismo como opção democrática de modelo econômico (GALEANO, 2010). Assim, frente à alienação da mídia que fortalece o sistema capitalista e aos problemas da conjuntura socioeconômica do Brasil, começa-se a valorizar e consolidar o embasamento para se pensar em alternativas de solidarismo popular (SINGER, 2002). 2.3 A Economia Solidária como enfrentamento da desigualdade social produzida pelo Capitalismo A economia solidária nasce pelo resultado das desigualdades sociais produzidas pelo capitalismo, em decorrência da Revolução industrial nos séculos XVII e XIX (RANGEL e MANOLESCU, 2012), conjuntura trabalhista preenchida pelos baixos 17 salários, esgotamento físico, inúmeros acidentes, jornadas de trabalho exorbitantes e uma classe de produção industrial que inclui crianças, sustentando um modelo de produção dominante com condições precárias (DEJOURS, 1992). Diante deste cenário, nasce o movimento nomeado como cooperativismo, explanado por Santos (2005 apud RANGEL e MANOLESCU, 2012) como um movimento que inicia novas práticas, baseadas em princípios solidários. Rangel e Manolescu (2012) descrevem que este movimento cooperativista é apreciado por alguns pensadores, entre eles o britânico Robert Owen denominado como “socialista utópico”. Singer (1998) explica que este pensador participou das primeiras experiências no cooperativismo, construindo colônias cooperativas perto das fábricas com o objetivo de tornar esses trabalhadores autônomos. De acordo com Singer (2002), no capitalismo é produzida desigualdade crescente e constante competição, tendo como princípios o direito à propriedade individual aplicado ao capital que acaba dividindo a sociedade em proprietários e a classe que vende sua força de trabalho. Durante as décadas de 40 e 50 o Brasil passou por mudanças no seu modelo de produção, Freitas (1988) destaca que a mudança do sistema agropecuário para o agroindustrial produz consequências intensas, como a rápida necessidade de mão-deobra qualificada, com jornadas de trabalhos desgastantes e baixos salários. Assim, a Economia Solidária surge em vários países como um movimento amplo e profundo, que tem como origem a luta dos trabalhadores marginalizados desse novo modelo econômico (BRASIL, 2007). Na década de 1960, segundo Freitas (1996), o Brasil passou por fortes confrontos entre o Estado, as forças capitalistas e as necessidades básicas da população, a qual sofria com o desemprego e reivindicava direito à saúde e à educação. Freire (1979) ressalta que este período foi marcado pelos cinturões de pobreza e miséria que íam crescendo ao redor dos pólos industriais e centros de riqueza. Em decorrência da crise da década de 1980 e 1990 o Brasil enfrenta altos índices de desemprego. Durão (2003) caracteriza essas décadas pelo alto grau de desigualdade de renda, resultando em uma exacerbada desigualdade social. Dessa forma, reivindicações por melhoria nas condições de trabalho, direito à saúde e educação foram ganhando destaque, dando abertura aos movimentos sociais que ascenderam durante a ditadura militar, enfrentando repressão, mas que promoveu a maior participação da população dando lugar à democracia. 18 Os trabalhadores passaram a buscar outros meios de renda, os empregos informais, como cooperativas, associações, ressurgindo 1 a “Economia Solidária” no Brasil que traz como base o ser humano e o trabalho coletivo, sobrepondo o individualismo e a competitividade, fomentando a horizontalidade (SINGER, 2002). Dentro deste contexto a psicologia demarcou a sua participação na atuação com os marginalizados, sendo desenvolvida na década de 1980 a Psicologia Social Comunitária, caracterizada pela construção de uma psicologia social crítica, histórica e comprometida com a realidade concreta da população brasileira (FREITAS, 1996). De acordo com Veronese (2008), esta psicologia passa a ser uma ciência transformadora por visar o empoderamento social das comunidades. Segundo Freitas (1996), a psicologia passa a atuar junto de diversos setores da população enfatizando práticas emancipatórias, autogestão e empoderamento dos sujeitos. A economia solidária e a psicologia comunitária passam a desenvolver suas teorias baseadas nas desigualdades sociais, realizando uma forte crítica à economia dominante que produz desemprego, destruição do meio ambiente e a possibilidade de crescimento para poucos, colocando o lucro em primeiro lugar. Singer (2002) comenta que a Economia Solidária reage à crise do desemprego em massa, caminhando na direção oposta ao capitalismo e priorizando os trabalhadores com princípios e valores que promovem a autogestão, democracia, cooperação, emancipação, reivindicando melhorias e autonomia da população brasileira. Segundo Veronese (2004): Com a crise social das duas “décadas perdidas” (80 e 90), a economia solidária renasce no Brasil; após algumas experiências isoladas nos anos 80, em 1991 a empresa calçadista Makerli, em Franca (SP) ressuscitou como cooperativa, inaugurando uma série de eventos semelhantes nos anos 90. Ainda nos anos 80, a Cáritas, entidade ligada à CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), financiou milhares de pequenos projetos, os PACs (Projetos Alternativos Comunitários), a princípio para gerar renda para as populações de periferia. Alguns deram origem a empreendimentos autogestionários, outros dependem mais de ajuda externa (p. 121). Assim, a Economia Solidária, através do trabalho coletivo, envolve as demandas econômicas e sociais dos sujeitos marginalizados, possibilitanto consolidar um movimento social, afirmação que é corroborada por Paul Singer (2002): [...] a economia solidária hoje é uma opção adotada por movimentos sociais e importantes entidades da sociedade civil, como Igreja, sindicatos, universidades e partidos políticos. Na passagem do século, políticas públicas 1 Não existe uma data específica para o surgimento da Economia Solidária no Brasil, porém considera-se que o movimento ganhou destaque significamente na década de 1980. 19 de fomento e apoio à economia solidária foram adotadas por muitas municipalidades e alguns governos estaduais (p. 3). Dessa forma, a Economia Solidária cria a possibilidade de dar voz aos marginalizados, consolidar a luta pela desigualdade social e fortalecer alguns movimentos sociais. De acordo com Scholz (2009), a economia solidária é uma resposta ao capitalismo, ao desemprego e à exclusão social, sendo uma alternativa de inclusão do marginalizado no mercado de trabalho. Singer (2002) afirma que o desemprego é um dos principais fatores para a exclusão social e econômica, necessitando dar oportunidades e espaços de trabalhos que se organizem coletivamente. A economia solidária busca enfrentar as desigualdades sociais, como sustenta Icaza (2004, p. 22), visto que “a economia solidária é um campo de construção de alternativas econômicas ao modelo dominante, alicerçado em um discurso crítico transformador e em práticas solidárias e autogestionárias muito próximas dos movimentos sociais”. Tornando-se uma nova economia que tem como princípios: autogestão, democracia, cooperação, centralidade do ser humano, valorização da diversidade (igualitarismo), emancipação, reconhecer o saber local (cultura e tecnologia popular) e responsabilidade social (BRASIL, 2007). Singer (2002) destaca que a autogestão é a principal característica dos empreendimentos de economia solidária, exigindo um esforço adicional desses trabalhadores, pois além de terem sua ocupação dentro do empreendimento, devem preocupar-se com os problemas gerais da mesma, envolvendo decisões democráticas e informações que procedem dos próprios trabalhadores. Dessa forma, os princípios da Economia Solidária vão contra o modelo vigente, apresentando dificuldades em sua efetiva prática. Segundo Veronese (2008), a Economia Solidária nega a base do capitalismo que separa o trabalho da posse dos meios de produção. A autora enfatiza que as formas de trabalhar nesta economia não estão ligadas apenas à produção e distribuição de produtos e serviços, mas contribuem na criação e recriação da vida em sociedade. A economia solidária reconhece o papel ativo da mulher dentro dos empreendimentos, promoção da cidadania, valorizando a criatividade tecnológica e o respeito ao meio ambiente, conforme o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (2014): A Economia Solidária constitui o fundamento de uma globalização humanizadora, de um desenvolvimento sustentável, socialmente justo e voltado para a satisfação racional das necessidades de cada um e de todos os cidadãos da Terra seguindo um caminho intergeracional de desenvolvimento sustentável na qualidade de sua vida (p.4). 20 No Brasil, de acordo com Gaiger (2004), começam a ser estruturadas redes de federação, federações cooperativas, sistemas de trocas e uniões diversas entre os empreendimentos, sendo instaurado apenas no ano de 2003 a Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), ligada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), definida como: O conjunto de atividades econômicas – de produção, distribuição, consumo, poupança e crédito organizados sob a forma de autogestão, isto é, pela propriedade coletiva dos meios de produção de bens ou prestação de serviços e pela participação democrática nas decisões dos membros da organização ou empreendimento (BRASIL, 2008, p. 3). Segundo Singer (2004), a pobreza é condição social, na qual “a falta de dinheiro obriga as pessoas a morar juntas onde o custo é baixo, como em favelas, cortiços ou na rua” (2004, p. 27). A necessidade que as pessoas encontram nessas comunidades faz com que a prática da ajuda mútua seja fundamental para a sua sobrevivência. Deste modo, o autor sugere que para combater a pobreza é necessário o desenvolvimento da economia das comunidades pobres com a finalidade de beneficiar todos os integrantes, proporcionando autonomia e condições emancipatórias. Dessa maneira, os empreendimentos que têm como estrutura econômica a economia solidária buscam estabelecer a autogestão de forma democrática, sem envolver exploração ou desnivelamento entre os trabalhadores. A autora Veronese (2004) enfatiza a importância da autogestão nesses empreendimentos: A autogestão é outro critério importante no campo da economia solidária; ela diferencia-se da heterogestão onde um patrão, chefe, supervisor, ou consultor nos modelos de gestão contemporâneos, decide, orienta e define os rumos dos processos e das relações da e na produção. Na autogestão, cada um deverá ser gestor, discutindo em grupo quais são as ações prioritárias, como férias, ganhos financeiros etc. O sujeito é interpelado a ser seu próprio gestor, geralmente tendo toda uma história de subordinação nas experiências anteriores de trabalho, heterogestionárias e autoritárias (p. 109). A igualdade de direitos e a horizontalidade das decisões contrapõem a ideia de liderança e hierarquia das empresas capitalistas. Scholz (2009) defende que para a gestão de um grupo ser bem exercida nas organizações, precisa valorizar aspectos sociológicos, psicológicos, econômicos e administrativos, além da particularidade de cada indivíduo, na qual se busca substituir o autoritarismo individual pela democracia do grupo. Veronese (2008) ressalta que a formação da identidade do grupo gera conflitos, pois esbarra na identidade de cada um, podendo ter como consequência a 21 individualidade e competitividade internalizando a ética do capital e perdendo seu caráter e valores solidários. Veronese e Scholz (2013) trazem a dificuldade da prática desses princípios nos empreendimentos econômicos solidários, encontrando como justificativa a dificuldade de cada sujeito ser seu próprio gestor e discutir em grupo suas ações. Esse processo, de acordo com as autoras, gera expectativas no grupo de uma vivência solidária nas relações, construíndo uma consciência crítica em si e com o uso dos recursos do meio ambiente e sustentabilidade social, norteados pela autogestão. Entretanto essas expectativas são vivenciadas como um desafio porque esses trabalhadores possuem uma história de subordinação nas experiências anteriores. A economia solidária, de acordo com Beatriz (2009), pode ser um elo entre o abismo social e a possibilidade de uma economia voltada para a inclusão e diminuição dos graves problemas sociais. Porém, tem enfrentado como desafio a dificuldade de convencer a sociedade sobre a necessidade de se pensar na trasformação social e emancipação do ser humano. 22 3 O TRABALHO COMO CONSTRUÇÃO DE SI 3.1 Trabalho como categoria fundante do ser humano e produtor de consciência Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colméia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade (Karl Marx). Marx (2011) ilustra com este exemplo, o trabalho como categoria fundante do ser humano, pois a partir dele o homem transforma e organiza a natureza pelas suas necessidades. Para Marx o conteúdo da essência humana é o trabalho, o qual diferencia o homem dos demais seres vivos que garantem a sua sobrevivência adaptando-se à natureza, enquanto o homem age transformando-a, adaptando a natureza a si (DUARTE, 2004). Deste modo, é pelo trabalho que o homem se produz a si mesmo, de acordo com Duarte (2004) “o que o homem é, o é pelo trabalho” (p.28). Barbosa (2002) aponta que no decorrer da existência humana, existem registros da ação do homem transformando a natureza, o que possibilitou obter os bens necessários para sua sobrevivência. Dessa forma, é possível falar da história do trabalho que expressa as capacidades de criar o mundo natural e social, sendo passada culturalmente por uma trajetória progressiva e histórica. Barbosa (2002 apud ARANHA, 1997, p 23) afirma: À medida que o trabalho muda o jeito de ser, de pensar e de agir de cada ser humano e de cada cultura, torna-se condição de humanização e instrumento da liberdade, porque é pelo trabalho que o homem viabiliza a realização de seus projetos (desejos) no mundo, ao mesmo tempo em que se torna propriamente humano. Leontiev (1978) se apropria do pensamento de Marx para afirmar que o homem é sujeito do processo histórico-social de trabalho, sendo a hominização resultado da passagem do homem a uma sociedade organizada na base do trabalho. Comenta que o desenvolvimento do homem decorre de leis biológicas, cujos órgãos se adaptaram às condições e necessidades da produção e leis sócio-históricas que regem o 23 desenvolvimento da própria produção de trabalho. Leontiev (1978), ainda, distingue o homem dos animais por construir sua natureza e reproduzir culturalmente, enquanto o animal se contenta com o desenvolvimento da sua natureza. Nesse sentido Engels (2004) evidencia: [...] o que podem fazer os animais é utilizar a natureza e modificá-la pelo mero fato de sua presença nela. O homem, ao contrário, modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, domina-a. E aí está, em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais, diferença que, mais uma vez, resulta do trabalho (p. 28). Ataíde (s/d) apresenta que na perspectiva do pensamento de Marx o trabalho é o que permite o homem a transformar a natureza para satisfazer as suas necessidades por meio de uma forma específica historicamente determinada de organização social. Para Marx (2011), pelo processo do trabalho, os homens passam a produzir a própria vida material, superando seus limites naturais e produzindo a si humanamente. Assim, o autor afirma: O processo de trabalho, como o apresentamos em seus elementos simples e abstratos, é atividade orientada a um fim para produzir valores de uso, apropriação do natural para satisfazer as necessidades humanas, condição universal do metabolismo entre o homem e a Natureza, condição natural eterna da vida humana e, portanto, independente de qualquer forma dessa vida, sendo antes igualmente comum a todas as suas formas sociais (MARX, 2011, p. 153). Segundo Leontiev (1978), o ser humano se apropria de instrumentos e transmite seu conhecimento e experiências de geração em geração, por meio das suas relações sociais e operações de trabalho historicamente elaboradas. Nesse sentido, o autor enfatiza que o desenvolvimento da humanidade decorre da capacidade do homem passar para as gerações seguintes suas criações e instrumentos, multiplicando e aperfeiçoando o trabalho. Pela sua atividade, os homens não fazem senão adaptar-se à natureza. Eles modificam-na em função do desenvolvimento de suas necessidades. Criam os objetos que devem satisfazer as suas necessidades e igualmente os meios de produção desses objetos, dos instrumentos às máquinas mais complexas. Constroem habitações, produzem as suas roupas e outros bens materiais. Os progressos realizados na produção de bens materiais são acompanhados pelo desenvolvimento da cultura dos homens; o seu conhecimento do mundo circundante e deles mesmos enriquece-se, desenvolvem-se a ciência e a arte (LEONTIEV,1978, p. 3). Oliveira (2010) comenta que sob a ótica de Marx o trabalho humano se diferencia da atividade produtiva dos demais seres vivos por envolver consciência, volição e capacidade de produção universalmente. Aguiar (2000) confirma que o 24 homem “é mediado pelo social, determinado histórica e socialmente, e que não pode jamais, ser compreendido independentemente de suas relações e vínculos” (p. 127). Oliveira (2010) acrescenta que o trabalho possui caráter antropológico, pois ao trabalhar o homem não utiliza apenas uma atividade instintiva para satisfazer suas necessidades, mas desenvolve constantemente um processo de criação e autocriação humana. Carvalho et al. (2010) destacam que Vygotsky ao tratar sobre consciência, a considerava um fenômeno histórico e social, pois o homem apropria-se da sua história a partir do discurso social, repassando para as próximas gerações. Isto é, o homem ao se constituir através do social torna-se resultado deste convívio social. Assim Vygotsky (1924 apud CARVALHO et al., 2010) conceitua a consciência a partir da palavra como: [...] detentora de propriedades da consciência. Esses significados são convertidos em sentidos pessoais, de acordo com as necessidades e emoções que motivaram o seu uso. Dessa forma, o sentido é soma de todos os eventos psicológicos que a palavra desperta na consciência. A palavra, como detentora de significado, ao mesmo tempo em que desperta eventos na consciência, é base para a sua formação. Nesse sentido, a consciência possui origem social, já que os reflexos reversíveis originados da palavra servem de fundamento para a comunicação social e para a coordenação coletiva do comportamento (p.18). Dessa forma, a consciência é explicitada como algo originado pelo relevo social e regido através da fala, esta que é preenchida por significados que envolvem o homem. Assim, para Vygotsky o papel do trabalho atua como um formador da consciência humana (TOASSA, 2006). A autora Ataíde (s/d) apresenta que nos legados da obra de Marx é abordado o homem como transformador da natureza, ao mesmo tempo que também transforma a si mesmo. Afirma que por intermédio do trabalho, o homem produz e é produto da sua obra, ou seja, faz-se duplamente a si próprio, “de modo que chega a contemplar-se dentro de um mundo feito por ele” (s/d, p.332). De acordo com Barbosa (2002) o trabalho existe para satisfazer integralmente as necessidades humanas, construindo a identidade e o reconhecimento do sujeito, e à medida que a sociedade se complexifica, a integração plena entre trabalho teórico e prática também acaba tornando-se mais complexo. O autor comenta que a hierarquia das classes sociais que organiza as sociedades, fez com que alguns trabalhadores não tivessem acesso à educação formal. Porém, o modo de produção capitalista é regido pela necessidade de ampliar a formação do trabalhador por meio da educação formal, favorecendo os sujeitos que correspondem às necessidades do mercado de trabalho, mas o acesso à educação formal é destinado para poucos, de tal modo que a oportunidade 25 seja para poucos trabalhadores. Vygotsky (1924) nomeia a relação de transformação do meio pelo homem através de instrumentos, e este sendo transformado ao realizar esta manobra, como atividade humana. Aguiar (2000) enfatiza que o homem constrói a sua existência por meio da sua ação na sociedade, objetivando satisfazer suas necessidades, ou seja, o homem modifica o meio em que vive através de sua ação para satisfazer suas demandas, confirmando que esta ação é preenchida por “um movimento de apropriação que envolve a atividade do sujeito, isso significa que o sujeito modifica o social, de forma que o social modificado representa a possibilidade do novo, da criação” (AGUIAR, 2000, p. 129). Aguiar (2000) ainda ressalta que a atividade ocorre por meio do processo social, existindo pelo significado, conceituando a consciência por um processo dialético entendido por Aguiar (2000) como: A consciência, dessa forma, é semioticamente estruturada, resultado dos próprios signos, ou seja, de instrumentos construídos pela cultura e pelos outros que, quando internalizados, se tornam instrumentos internos e subjetivos da relação do indivíduo consigo mesmo (p.130). Assim, Aguiar (2000) trata a consciência como integrada ao coletivo e ao singular de cada sujeito, possibilitando uma condição de mudança e transformação de sua vida através da ação, permitindo uma relação dialética que constitui o sujeito, descrita pela autora como: O homem transforma a natureza com sua atividade por meio dos instrumentos e, assim, transforma-se a si próprio. Dessa maneira, se o ser humano forma-se por meio de uma relação dialética com a realidade social, não cabe a idéia de que a constituição do sujeito resulte de uma mera transposição do plano social para o individual. A constituição do sujeito é vista, pois, como resultado de um processo de conversão do social no individual, sem que indivíduo e sociedade mantenham entre si uma relação isomórfica (AGUIAR, 2000, p.131). Dessa forma a categoria atividade é entendida como sinônimo de transformação social a partir da construção de uma consciência crítica, tratando do trabalho como algo relevante à constituição dessa dialética (FURTADO, 2007). De acordo com Duarte (2004), o trabalho é visto como uma atividade vital “que garante a existência não só da vida individual, mas de toda sociedade que a sustenta” (p.57). O trabalho é visto pelos autores com embasamento no materialismo histórico e dialético como central na construção da identidade do sujeito. De acordo com Codo (2010), o trabalho representa uma transformação da natureza, gerando significados ao 26 homem. Veronese (2009) comenta que as experiências de trabalho produzem significados que interferem na maneira como o sujeito aprende, expressa e vivencia suas relações subjetivas. A autora complementa que o trabalho é vivenciado de forma singular partindo de uma experiência coletiva. Assim, a subjetividade é um fenômeno que ao mesmo tempo trata-se do sujeito individual e do seu mundo social, sendo o trabalho uma fonte de subjetivação. Veronese (2006) afirma que a subjetividade antes de ser individual responde a uma instância coletiva, social e histórica, onde cada pessoa entende o mundo de uma forma única, de acordo com a sua história de vida e das suas relações sociais. Dessa maneira, Rey (2003 apud VERONESE, 2009) define a subjetividade como “um processo complexo de construção simbólica de sentidos, sobre si e o mundo, simultaneamente um fenômeno da pessoa ou sujeito singular e de seu lugar sócio histórico” (p. 91). Para os autores Codo e Jaques (2002) parte do processo de subjetivação do homem se forma a partir do trabalho que trás um significado para cada sujeito, englobando suas motivações e sofrimentos. 3.2 Quando o trabalho resulta em alienação A sociedade mecânica é a sociedade do ter. Estamos dizendo todo dia que nós precisamos ter para ser. E para ter é preciso comprar. Para comprar é preciso ter renda. Para ter renda é preciso trabalhar. Logo, a minha vida se transforma basicamente em trabalho (Márcio Pochmann). A alienação, abordada por Duarte (2004), pode ser resultado de um trabalho que não integra o ser humano. Duarte (2004) utiliza a alienação para referir-se aos sujeitos que não têm consciência da sua própria situação, perdendo a condição de sujeitos de seus próprios atos e obras, não se reconhecendo como responsáveis pela autoria de sua própria vida e história. Em Marx, a alienação, de acordo com Duarte (2004), consiste na capacidade do não reconhecimento do homem enquanto sujeito e criador do seu trabalho, pois a sua produção e atividade passa a ser considerado como algo externo à sua subjetividade, “no qual o homem não encontra a sua realização, mas a sua perdição, um fator de sofrimento e não de satisfação” (p. 34). Dessa forma, o predominante modelo econômico, o capitalismo, produz a 27 separação do trabalho com o capital interessando-se apenas pelo produto final: o capital. Assim, o salário adquirido pelo trabalhador por meio da venda da sua força de trabalho, gera lucro, o interesse fundamental do capitalismo (MARX, 2004). Marx (2004) destaca que este modelo econômico torna o trabalhador uma mercadoria, valorizando o que se produz, e desvalorizando o homem que a produz. Segundo Duarte (2004), o trabalho alienado ao mesmo tempo em que realiza a produção de mercadorias, produz o próprio homem como mercadoria. Esta relação reduz o homem a um objeto, pois esquece que o trabalho não gera apenas produtos, também gera a si mesmo, de tal modo que o trabalho diminui o homem ao se igualar à mercadoria (MARX, 2004). Portanto, o trabalhador e o seu trabalho são considerados objetos, que têm como finalidade produzir o capital. Oliveira (2010) ressalta que Marx em seus estudos apresenta o trabalho como algo de “estranhamento ao homem” (p. 80), pois o mesmo é subordinado ao capital, reduzindo este homem à produção. Dessa forma, o trabalho perde sua finalidade criadora, para se tornar uma atividade de estranhamento, que apenas satisfaz suas necessidades básicas como comer e beber, através do salário recebido (OLIVEIRA, 2010). Leontiev (1978) enfatiza que o homem se apropria dos objetos quando estabelece uma relação histórica com os mesmos, ou seja, se reorganiza com os instrumentos e métodos instintivos para produzir. Entretanto, o autor realça que ao separar o homem do trabalho (meios de produção) realizado, separação nomeada pelo autor como “alienação econômica” (p. 8), opera-se uma divisão social do trabalho, que consequentemente modifica o produto do trabalho em objeto, tornando este trabalho impessoal para o trabalhador, conforme confirma o autor: Assim, enquanto globalmente a atividade do homem se enriquece e se diversifica, a de cada indivíduo tomado à parte estreita-se e empobrece. Esta limitação este empobrecimento podem tornar-se extremos, sabemo-lo bem, quando um operário, por exemplo, gasta todas as suas forças para realizar uma operação que tem de repetir milhares de vezes (LEONTIEV, 1978, p. 9). Com isso, o trabalho perde seu significado e o homem iguala-se à mercadoria, que pode se vendida e/ou comprada. Oliveira (2010) apresenta que Marx vai além da análise antropológica do trabalho, expondo a condição negativa do trabalho, como as contradições determinadas pela propriedade privada, na qual o homem perde a sua essência ao objetivar-se nos produtos do trabalho. De acordo com Oliveira (2010), no capitalismo ocorre a perda subjetiva e 28 histórica do homem no trabalho, sendo valorizado o trabalho assalariado e produtor de mercadorias. Dentro da perspectiva do pensamento de Marx, Oliveira (2010) comenta que o trabalho apresenta um elemento de subordinação ao capital, ocorrendo à mortificação do homem, no qual se sente fora de si e subtraído ao sistema capitalista. Marx (2004) conclui que no modo de produção capitalista o trabalhador torna-se mera mercadoria, ressaltando que: “o trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadoria cria” (MARX, 2004, p. 80). Oliveira (2010) apresenta como consequência dessa situação a supervalorização do mundo material (dos objetos produzidos) e uma desvalorização do homem. Dessa forma, Marx (2004) afirma: A efetivação do trabalho tanto aparece como desefetivação que o trabalhador é desefetivado até morrer de fome. A objetivação tanto aparece como perda do objeto que o trabalhador é despojado dos objetos mais necessários não somente à vida, mas também dos objetos do trabalho. [...] A apropriação do objeto tanto aparece como estranhamento que, quanto mais objetos o trabalhador produz, tanto menos pode possuir e tanto mais fica sob o domínio do seu produto, do capital (p. 80-81). Com os dilemas e contradições do sistema capitalista, segundo Oliveira (2010), uma realidade de sofrimento, desigualdade e miséria submetem uma parcela social, a classe trabalhadora. Oliveira (2010) afirma que o “homem é produto do seu trabalho”, assim a humanidade se torna mais objetiva e material quanto o próprio ato de produção, restando ao trabalhador uma pobreza exterior e interior. Segundo Duarte (2004), dentro da concepção de Marx o homem se constitui pelo conjunto das suas relações históricas e sociais. Duarte (2004) reflete que dessa forma, o homem só se torna um “ser humanizado” a partir do momento que assimilar e incorporar a sua própria vida, suas atividades, produções, comportamentos e as suas relações cotidianas com os outros homens. Oliveira (2010) comenta que por meio do trabalho alienado o homem inverte esta relação de construção de sua subjetividade, já que transforma sua atividade, seu trabalho em simples meio para prover sua existência. Veronese (2006) realiza uma crítica a este sistema capitalista por produzir sujeitos no seu modo de trabalhar que correspondam à demanda de uma produção que resulte na lucratividade dos mercados, reduzindo o ser humano a um objeto para gerar lucro. Furtado (2010) explana que as condições de trabalho produzem alienação do homem, onde as empresas capitalistas passam a “coisificar o próprio corpo do 29 trabalhador” (p. 116). O autor ainda acrescenta que o operário não opera apenas as máquinas, mas seu corpo passa a ser uma extensão da máquina, transformando o seu próprio ser em uma máquina de produção. Dessa forma, Furtado (2010) conclui que este sistema capitalista competitivo propicia a alienação do homem frente à sua própria identidade profissional de trabalhador, sendo que o “mais forte elimina o mais fraco e a regulação é realizada pelas exigências do mercado, [...] exigindo desse trabalhador mais que a sua força de trabalho, exigindo o seu corpo, a sua saúde” (p.117). 3.3 Trabalho e Saúde Mental Jacques Christophe Dejours, psicanalista, que contribuiu para o entendimento da saúde mental no trabalho, destaca que as vivências dos operários são marcadas por sentimentos como a ansiedade e insatisfação, estes que se sentem como máquinas robotizadas, sem espaço para reconhecimento da imaginação e inteligência de cada um, carregando um significado frustrante, preenchido pelo ciclo de inutilidade (DEJOURS, 1992). Dessa forma, o autor realça que o trabalho passa a ser um significante, logo, ao executar uma tarefa sem investimento material ou afetivo exige uma máxima produção de esforço, o que gera nos trabalhadores um sentimento de inutilidade, acompanhados de ansiedade e insatisfação. Assim, Dejours (1992) apresenta uma crítica ao modelo econômico dominante, o capitalismo que produz exclusão e desigualdade social, envolvendo uma vivência conflituosa associada à perda do emprego, ou seja, à possibilidade de viver a miséria e a pobreza, esquecendo que muitas vezes já se vive ela. Dejours (1992) problematiza este sofrimento: “o afrontamento do homem com a sua tarefa põe em perigo sua vida mental” (p. 11), pois coloca em risco sua identidade, sua subjetividade. Heloani e Capitão (2003) apontam que o capital através do trabalho organiza a estrutura do mundo, visto que o trabalho exerce um papel fundante na vida do sujeito, abrindo possibilidades de constituição da sua subjetividade. Entretanto, os autores trazem que: As pessoas parecem não mais estarem preocupadas com o significado do seu trabalho ou com a oportunidade de vivência e troca coletiva. A preocupação volta-se para a acumulação de um valor de troca, como se todos se convertessem em uma ação de mercado, cujo preço é julgado por outrem (p. 103). De tal modo, o sujeito e o trabalho são mediados pelo significado que traz o 30 capital. Codo (2010) ainda apresenta uma discussão sobre a forma como a divisão no trabalho organiza também as relações sociais, familiares e seu cotidiano, pois o trabalho “determina as possibilidades de vínculo” (p.178), tornando-se um fato social capaz de intervir na dinâmica da vida do trabalhador. Codo (1988) também traz que o trabalho tem função determinante na produção ou ausência da saúde mental, enfatizando que o capitalismo monopolizado e financeiro contribui para um trabalho “vazio” (p.21), o que diminui o trabalhador ao produto, ao lucro, de tal modo que o trabalho é visto como uma mercadoria. Pochmann (2010) ainda complementa: “Estamos todos consumidos com o trabalho. Estamos gerando uma sociedade do individualismo profundo, uma sociedade da depressão. Quer dizer, uma sociedade do medo, com doenças como o Burn out” (p. 3). Assim, Codo (2010) acrescenta que o trabalho tanto pode alavancar o sofrimento, quanto ser capaz de promover prazer e saúde mental. Codo (2002) apresenta algumas variáveis que podem ser determinantes para o nível de saúde mental do trabalhador: O significado do trabalho, ou seja, o controle do trabalhador sobre o trabalho, a importância social do trabalho, a rotina, o sentido do trabalho, as relações sociais de produção, ou seja, o relacionamento com os colegas e com a hieranquia, as atitudes do trabalhador frente ao trabalho, sua satisfação e seu comprometimento, a carga mental no trabalho, as dificuldades no relacionamento social do trabalhador devido ao trabalho, suporte social, suporte afetivo, conflito-trabalhador-família, são todas variáveis já conhecidas como importantes para determinar o nível de saúde mental do trabalhador (p.187). Codo, nesta afirmação, aponta para a importância do controle do trabalho pelo trabalhador, este que apenas acontece, de acordo com o mesmo autor, quando ele tem conhecimento de todas as etapas pela qual passam os produtos que confecciona. Marx (2004) ao explanar sobre a divisão do trabalho como fragmentação da consciência, ressalta que este leva ao adoecimento, logo, o oposto, leva à saúde mental. Neste sentido, a Economia Solidária traz a construção de um modelo econômico baseado nas práticas autogestionárias, convocando o trabalhador para integrar-se ao produto construído, caminho contrário à prática capitalista. Codo e Sampaio (1994) propõem uma reflexão sobre os antagonismos que acompanham o trabalho que pode produzir prazer acompanhado de adoecimento psíquico, apontando que o trabalho coloca o homem diante de algumas contradições como a possibilidade de exercer a interrelação entre objetividade e subjetividade, pois ao mesmo tempo em que o trabalho constitui a identidade é antagonicamente 31 responsável por revelar uma face alienada do trabalhador. Uma das características marcantes de empresas capitalistas é justamente seu alto grau de hierarquização e divisão do trabalho. Ou seja, o sistema capitalista faz uso dessa fragmentação do trabalho, uma vez que os trabalhadores localizados nos níveis mais baixo desta hierarquia não possuem conhecimento e muito menos direito à opinião naquilo que é decidido nas escalas superiores. Assim, considera-se que o exercício do trabalho na sua plenitude é incompatível com o capitalismo. Por outro lado a economia solidária vai ao encontro deste exercício. Isto porque a economia solidária, através de seus princípios norteadores, permitem que todos os trabahadores exerçam sua criatividade além de poder decidir ou tomar conhecimento2 de todas as decisões tomadas no empreendimento. 2 Em empreendimentos em que o número de associados é grande, é inviável que todos participem diretamente de cada decisão tomada. Não obstante, todos os trabalhadores participam da escolha de comissões que são responsáveis por decidir determinados assuntos. Além disso, essas comissões divulgam internamente e de maneira transparente o seu trabalho. 32 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 4.1 Caracterização da pesquisa Este trabalho contempla uma pesquisa qualitativa, descrita por Rey (2012) como uma pesquisa que visa entender através das experiências práticas o problema pesquisado, proporcionando um maior entendimento e conhecimento acerca do assunto no “cenário social” (p.81). A pesquisa qualitativa visa, sobretudo, ao conhecimento dos sentidos subjetivos que os sujeitos atribuem à realidade que vivenciam, num aprofundamento dos valores, ideologias, experiências e sentidos que carregam a subjetividade humana (REY, 2012). Assim, Rey (2012) destaca que o pesquisador estará imerso no campo pesquisado, podendo visualizar o problema de pesquisa de forma completa. Nesta pesquisa foi utilizado como método a História Oral que buscou evidenciar por meio das entrevistas a subjetividade de cada entrevistada, resgatando a singularidade no discurso. Rey (2012) considera a pesquisa qualitativa essencial para produção de teoria, ou seja, de estudos que não são diretamente acessíveis. Portanto, o autor define a pesquisa qualitativa como a construção de representações capazes de articular diferentes assuntos e gerar inteligibilidade sobre o que pretende conhecer na pesquisa. A História Oral configura-se como um método de compreensão do passado, procurando buscar em documentos orais elementos significativos da história contada pelo sujeito, garantindo a subjetividade de cada história e indagando novas percepções do objeto estudado (SILVEIRA, 2007). Isso justifica a escolha desse método, pois de acordo com Delgado (2003), produz uma narrativa de um saber real ou imaginário, por meio da recordação de memórias aleatóriamente. O autor ainda cita que a história oral visa compartilhar o registro de lembranças, confirmando que na história oral o sujeito: Fala, escuta e troca olhares para compor único e essencial à vida humana, pois possibilidade escutar, de contar histórias conhecimento, ou melhor, de sabedoria, 2003, p.23). essa dinâmica, sendo um processo não se vive em plenitude sem a e de se apreender sob a forma de o conteúdo narrado (DELGADO, Dessa forma, a História Oral foi utilizada como um método para levantamento das narrativas e experiências de vida das participantes. Utilizou-se uma entrevista semiestruturada (disponível no apêndice B), para orientar a condução da história oral, na qual buscou elucidar a problemática do trabalho, respeitando as memórias, lembranças 33 do sujeito, sem procurar organizar seu discurso ou interromper suas lembranças. Sobre isso, Andrade (2010) aponta: Cada indivíduo carrega consigo uma trajetória histórica referente aos anos vividos, influenciada pelo local de onde o sujeito fala, ou seja, sua cultura, visão, comunidade e família. Toda a história é subjetiva, pois ela é formada por autores distintos, sendo esses os próprios viventes. O que pode acontecer é que em grupos de pessoas que têm algo em comum, como por exemplo, trabalho, alguns fatos dentro de suas histórias particulares podem ser também percebidos em outras pessoas desse mesmo grupo (p. 43). Levando isso em consideração, a pesquisa foi desenvolvida em um empreendimento incubado pela Incubadora de Empreendimentos de Economia Solidária (IESol) da cidade de Ponta Grossa. O empreendimento em questão é composto por seis (6) trabalhadores, no qual três (3) mulheres participaram da pesquisa. 4.2 Procedimentos da pesquisa e caracterização das participantes Este trabalho contemplou pesquisa bibliográfia e empírica. Após o projeto ser aprovado pelo comitê de ética em pesquisa da Faculdade Sant’Ana, foi realizado o convite para as feirantes participarem da História Oral, onde as próprias feirantes se organizaram para decidir quais seriam as voluntárias do grupo para participar da pesquisa. Os dados coletados foram gravados e transcritos com a autorização das entrevistadas. O equipamento utilizado foi um gravador e posteriormente foi realizada as transcrições de cada relato de história de vida. Após as transcrições das entrevistas, foram realizadas leituras exaustivas para selecionar as falas que chamassem atenção para o objetivo da pesquisa. Em seguida foi categorizado cada discurso em suas semelhanças e diferenças, destacando o objeto de estudo do projeto e os pontos relevantes de cada relato. Pode-se verificar a história das feirantes no apendice A, porém para fins éticos, foram atribuídos pseudônimos às entrevistadas, para que assim tivessem a sua identidade preservada. A primeira História Oral foi realizada com a feirante Manu no mês de setembro de 2014, tendo duração de 2 horas e 57 minutos. O local para a realização da entrevista foi escolhido pela própria feirante que decidiu realizar na sua casa, mais específicamente no seu quarto e deitada na cama. Manu é uma senhora de 59 anos que tem três filhos, é separada e vive atualmente com o filho de 31 anos, a filha de 35 anos e o neto. Trabalha como feirante há 20 anos e depende financeiramente da renda do 34 empreendimento. Outra participante é a Lilian de 57 anos, a sua entrevista foi realizada no mês de outubro de 2014, tendo duração de 1 hora e 27 minutos. A mesma aconteceu em sua casa. Lilian é de Minas Gerais e se mudou para o Paraná ainda criança após o falecimento da sua mãe. A feirante é casada e tem 4 filhos, aprendeu a costurar e a fazer artesanato na infância observando a sua mãe e depois de casada passou a realizar costuras em casa, porém o seu sonho era vender o que produzia e encontrou na feira de Economia Solidária a possibilidade de mostrar seu trabalho. A última História Oral foi realizada com a Lívia Maria de 59 anos que trabalha vendendo alimentos na feira de Economia Solidária. A entrevista ocorreu na casa da feirante no mês de outubro de 2014 com a duração de 1 hora e 50 minutos. Lívia foi criada em um sítio e relatou que durante a sua infância já vivenciava a Economia Solidária, explicando o quanto as pessoas no campo eram solidárias, pois repartiam a colheita e ajudavam uns aos outros. É casada, tem dois filhos e depente exclusivamente da renda do emprendimento solidário. Atualmente Lívia é coordenadora do empreendimento. As histórias contadas foram organizadas em três categorias que buscaram atender aos objetivos de pesquisa. As categorias são: A experiência de trabalho no capitalismo; Individual x Coletivo: motivações para integrar uma experiência de Economia Solidária; Significado do trabalho na Economia Solidária. apresentadas individualmente na sequência. Estas serão 35 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO A produção de uma narrativa é construída através do discurso de cada sujeito que carrega uma história, podendo ser visualizada através do método da história oral (DELGADO, 2003). Veronese (2006) ressalta que a subjetividade não é apenas algo individual, mas sim uma instância coletiva, social e histórica. E essa subjetividade pode ser definida como uma complexa construção simbólica de sentidos sobre si mesmo e o mundo (VERONESE, 2006). Delgado (2003) descreve que a metodologia da história oral é voltada para a produção de uma narrativa contada, sustentando um saber através do discurso do entrevistado. Assim, as histórias que serão apresentadas foram baseadas nos discursos de três mulheres que compõem um empreendimento que exerce como modelo econômico a Economia Solidária. 5.1 A experiência de trabalho no capitalismo “Mas eu tinha o maior gosto para trabalhar. Era forte para trabalhar. Tentava arrumar um serviço e não dava certo” (LÍVIA MARIA, 57 anos). De acordo com Frigotto (2000), o sistema econômico capitalista interessa-se pelo excesso de mercadorias que resultam no acúmulo de mais-valia, usando como estratégias produzir mercadorias com o menor custo, consequentemente excluindo trabalhadores excedentes e impulsionando as desigualdades sociais. Sendo assim, é possível identificar na fala da entrevistada Lívia Maria esta dificuldade de inclusão no mercado de trabalho capitalista. Este que objetiva-se em valorizar o acúmulo de riquezas, marginalizando os sujeitos, pois há uma crescente demanda, fazendo com que a mão de obra seja entendida como mercadoria. Marx (2011) afirma que a força do trabalhador dentro das empresas capitalistas é considerada necessária para aumentar a mais-valia, sendo essencial para o funcionamento deste modelo econômico, seguindo a lógica competitiva, de tal modo que não existam vagas para todos, sustentando um exército de reservas dentro do capitalismo. Esta entrevistada trata-se de uma senhora que morou no campo até o nascimento do seu primeiro filho, apontando que não era seu desejo morar na cidade, mas em busca de melhores condições de saúde para o seu filho submeteu-se a sair do campo para a área urbana. 36 Nesta mudança a família se deparou com dificuldades para entrar no mercado de trabalho, pois tinham baixa escolaridade e apenas conhecimentos rurais. Como pode ser verificado na seguinte fala: “Daí lá no sítio você pode não ter nada, mas você não passa fome, aqui você passa. Aqui se você não trabalhar você não come” (LÍVIA MARIA, 57 anos). A família de Lívia Maria ao deparar-se com a realidade competitiva e individualista do mercado de trabalho acabou encontrando nos empregos informais condições para a sua sobrevivência, aceitando empregos precários. Neste discurso podese identificar historicamente a crise ocorrida no Brasil na década de 1980, pois foi neste contexto que aconteceu o êxodo rural da família da entrevistada. Durão (2003) em sua teorização sobre a crise da década de 1980 e 1990 aponta o excessivo índice de desemprego que elevou a desigualdade social, caracterizada pela mão de mão-de-obra barata e desvalorizada, onde o trabalhador estava submetido a péssimas condições de trabalho. As entrevistadas Lilian e Livia Maria reafirmam esta exclusão no modelo econômico capitalista, enfatizando sua experiência, pois a mesma depois de casada também saiu do campo para a cidade, afirmando a dificuldade em encontrar emprego e o desejo de adentrar no mercado de trabalho: “Eu tinha muita vontade de trabalhar, mas nunca tive a oportunidade de trabalhar fora” (LILIAN, 59 anos). “Eu pensava: „Aí meu Deus do céu... Tanta vontade que tenho de trabalhar e não tenho a oportunidade de mostra o que a gente sabe fazer‟. Ninguém dava oportunidade para a gente” (LÍVIA MARIA, 57 anos). Marx (2011) destaca que o capitalismo prioriza a excedente movimentação de mercadorias, estando centralizado no aumento da mais-valia deixando de lado os sujeitos que não atingem as expectativas do capitalismo. Marx (2011) explana que para converter dinheiro em capital, parte do funcionamento do capitalismo, é imprescindível o valor-de-uso, ou seja, a força do trabalhador, que dessa maneira transforma-se em mercadoria, afirmado na fala de Manu: “[...] mas eu já cansei de pegar amanhecer na mesa da cozinha, pintando pano de prato, fazendo bordado, assim a noite inteira fazendo aqueles panos de prato, 6 horas eu esperava abrir uma padaria que tinha aqui na rua grande, a única padaria e quando a mulher abria eu ia oferecer os panos de pratos e eu ai dizia: - „Mas eu não quero dinheiro, eu vim vender pra senhora porque eu quero mercadoria‟, ai eu pegava leite, pão, chineque, doce, margarina” (MANU, 59 anos). Nesta fala a entrevistada Manu fala sobre um modo de organização social para 37 inserir-se no mercado de trabalho, confeccionando seu artesanato exaustivamente para sua sobrevivência. Frigoto (2000) explana a teorização de Marx sobre o modelo econômico capitalista que interfere diretamente na organização social. Assim, o capitalismo centraliza seu objetivo no acúmulo do capital, de tal modo que o trabalho é considerado mercadoria, escamoteando o ser humano que a produz. Singer (1991) indica a gradual forma de consolidação do capitalismo como modelo econômico vigente, marcado pela substituição do homem pelas máquinas industriais, podendo ser visualizado na seguinte fala: “[...] daí eles não precisavam mais de ninguém pra fazer cafezinho porque dentro da Altonal tinha as máquinas de café tudo, tiraram dois rapazes e deixaram eu porque o meu patrão confiava em mim” (MANU, 59 anos). Nesta fala é possível perceber a exclusão ampliada com a demissão de dois trabalhadores que foram substituídos pela máquina de café, sem levar em consideração suas necessidades objetivas e subjetivas com o emprego, aumentando o desemprego, a desigualdade social e consequentemente a competitividade. “Tinha um prazo. E pegava por exemplo no início da semana, até o final da semana tinha que entregar. Ou era assim, ganhava por peça, a pressa era minha. Então eu trazia aqui costurava e se conseguisse fazer tudo em menos dias eu levava lá e trazia mais cortada” (LILIAN, 59 anos). Esse modo de organização social baseado na exploração dos trabalhadores resulta diretamente nos seus sofrimentos físicos e psíquicos, impedindo a produtividade do trabalhador e a possibilidade de ampliar as perspectivas desse sujeito (SINGER, 2002). Em decorrência da consolidação dos valores capitalista no país, sistema esse que tem como prioridade a competitividade, o lucro e individualidade, observamos o aumento da desigualdade social e da pobreza. Costa e Souza (2005) apontam a pobreza como uma consequência das ações humanas que seguem a lógica capitalista de exclusão do trabalhador. Frente a esta realidade algumas pessoas passaram a valorizar e consolidar alternativas coletivas, baseadas no solidarismo popular (SINGER, 2002). “Mas a Economia Solidária é uma semente, é uma sementinha ainda, que está colocada na terra, mas ela nem deu os frutos, porque nós dependemos do capitalismo” (LÍVIA MARIA, 57 anos). Na fala acima é possível observar a consciência crítica da feirante, que percebe a economia solidária sendo desenvolvida, mas ainda submetida a valores priorizados no capitalismo. 38 5.2 Individual X Coletivo: motivações para integrar uma experiência de Economia Solidária Como modelo econômico, a Economia Solidária abrange os resultados da crescente desigualdade social gerada pelo capitalismo (RANGEL e MANOLESCU, 2012). Singer (1991) ainda complementa apontando que o modo de produção capitalista é sustentando pela propriedade privada, consequentemente resultando na desigualdade e competição entre os trabalhadores. Dobb (1976 apud ROIZ, 2009), ainda, aborda a origem e o desenvolvimento desse modelo econômico a partir de uma crise, a do sistema feudal, dando ascendência à circulação de mercadorias, que logo são consideradas imprescindíveis para o aumento da mais-valia. Singer (1991) ainda acrescenta que após a revolução das máquinas, estas passaram a sobrepor o homem, gerando exploração do trabalho e aumento da competitividade no mercado de trabalho, realizando a exclusão de uma massa de trabalhadores, podendo ser confirmada através da fala de Lívia Maria, que ao migrar do campo para a área urbana, não conseguiu incluir-se no mercado de trabalho capitalista. “Eu queria um serviço, eu queria poder mostrar o que eu fazia, eu queria uma oportunidade, eu queria uma chance na minha vida, eu fui procurar pra ver se, porque já que não queriam que eu trabalhasse de empregado, nunca me quiseram” (LÍVIA MARIA, 57anos). A partir desta realidade Lívia Maria ainda relata: “Porque daí não dava, só um trabalhando e ainda ganhando pouco. Daí eu vivia triste porque lá no sítio eu plantava milho o dia inteiro com o meu pai, antes de casar. Plantava arroz pra mim, o meu pai marcava um pedaço lá e falava „Esse é teu‟, daí eu mesma cuidava com as minhas amigas e vendia. Daí eu casei e plantava eu e o meu marido juntos, nossa lavora era muito linda, eu tenho muita saudade” (LÍVIA MARIA, 57anos). Lívia Maria nessa fala encontra-se na crise da década de 1980 e 1990 no Brasil, caracterizada pelas altas taxas de desemprego, resultando em uma acentuada desigualdade social (DURÃO, 2003). Dessa forma, Singer (2002) aponta o ressurgir da Economia Solidária no Brasil, fomentando o trabalho coletivo, trazendo como base do trabalho o ser humano e as práticas autogestionárias. As entrevistadas trazem uma história de vida semelhante, que foram permeadas por valores solidários, o que tornou a experiência na economia solidária mais próxima das suas vivências, ressignificando os valores apreendidos na infância, conforme podemos verificar nas falas abaixo: “Quando eu era criança, eu tenho muitas recordações lindas do meu pai sabe, o meu pai foi uma pessoa muito bondosa, uma pessoa boa e solidária, 39 mas a gente não via, não sabia esta palavra” (LILIAN, 59 anos). “E a gente trocava com os vizinhos e não era só trocado cereais ou alimento, era trocado serviço. Quando tinha que limpar a roça do vizinho todo mundo se juntava e fazia tipo uma reunião de gente e limpava a roça do amigo. Daí se chamava „trocar dia de serviço‟, quando era pra limpar o da gente vinha todos para a casa da gente” (LIVÍA MARIA, 57anos). “[...] fiz na minha adolescência com o maior prazer do mundo... De ir trabalhar no coletivo e ajudar a fazer as coisas para fazer o bazar no final do ano. Sem pensar no retorno do dinheiro, fazer pelo prazer de ajudar. E daí poder ver aquelas pessoas querendo aprender a fazer as coisas, por isso que eu falei assim... Eu só lidava com adolescentes carentes” (MANU, 59 anos). Nestas falas é possível identificar práticas da Economia Solidária na história de vida de cada feirante, onde todos possuíam o poder de escolha. Singer (2002) enfatiza que a principal diferença entre a economia capitalista e a economia solidária é a forma como as empresas são administradas, onde uma empresa capitalista segue um modelo hierárquico, no qual as ordens e instruções fluem de cima para baixo, sendo que os níveis considerados superiores devem tomar todas as decisões sobre os rumos do futuro da empresa, ou seja, a heterogestão. Algo que marca a fala de Lilian. “Eu penso assim não tem que ter uma pessoa que manda, a gente é tudo igual, e naquela época „tinha uma pessoa que ditava o que que era pra fazer, isso, isso, e desse jeito, mas eu quero fazer daquele outro jeito que é melhor, não você tem que fazer e pronto, não é bem assim, pra gente obedecer, e dai eu como sou muito tímida, eu sei lá‟, eu tinha um pouco de receio...” (LILIAN, 59 anos). Assim, Lilian vem afirmar a autogestão nos empreendimentos de economia solidária como algo que deve ser efetivo, pois relata um sentimento de opressão, ao não ter sua opinião como válida. Neste sentido, Veras Neto (2005) ressalta que os trabalhadores de economia solidária são responsáveis pelas decisões do empreendimento, realizando a autogestão no grupo, podendo encontrar dificuldades nesta prática por estarem inseridos na dinâmica capitalista, isto é, a hierarquia. Veronese e Martins (2009) ainda apontam que a omissão ou passividade, é característica em grupos que centralizam as decisões, afastando-se dos valores solidários. Lilian ao deparar-se com a realidade capitalista buscou outros meios para voltar a praticar os valores solidários, adquiridos na infância, encontrando em uma feira, que mais tarde se consolidaria como uma feira de Economia Solidária, afirmando: “A gente praticava a Economia Solidária, mas a gente não entendia, agora parando para pensar a gente pensa –„nossa como já era Economia Solidária!‟ -, porque a gente começou a feira, eu não tinha uma mesa, não tinha uma barraca, eu não tinha nada, a pessoa que tava lá me acolheu na 40 barraca, cedeu um espacinho ali sabe, então eu não entendia o que que era Economia Solidária, não sabia bem, mas era pura né pura Economia Solidária” (LILIAN, 59 anos). “[...] e daí a gente fazia, eu fazia o tapete de crochê e ela também fazia, dai eu colocava na mesa dela, dai, se eu colocava 4 tapetes e ela colocava 4 tapetes, se ela vendia um tapete dela, metade era meu, se ela vendia um tapete meu metade meu metade era dela, a gente repartia assim” (LILIAN, 59 anos). Assim, Lilian ao relatar como conheceu as outras feirantes demarca o acolhimento e a inclusão, enfatizando na fala supracitada o quanto a economia solidária já era praticada pelas outras feirantes. Veronese (2008) realça que as narrativas dos trabalhadores que exercem a economia solidária são marcadas pela identificação dos projetos deste modelo econômico, idealizando um mundo/sociedade a ser construído, mas ainda encontram dificuldades dentro do empreendimento coletivo, pois estão à margem do modelo econômico individualista, afirmado na seguinte fala: “Mas e daí o problema da nossa feira que é esse individual... É esse individual que às vezes desanda o molho da maionese. Sabe por quê? Porque a pessoa está apegada no seu individual e não se joga totalmente no coletivo. E o coletivo se fosse para você abraçar o coletivo...” (MANU, 59 anos). Singer (2002) enfatiza que a Economia Solidária tem como princípio os valores que alavancam a autogestão, democracia, cooperação, emancipação, reivindicando melhorias e autonomia da população brasileira. Entretanto, Veronese (2008) destaca que a realidade vivida nas relações de poder é hierarquizada, são sentidas e relatadas pelas entrevistadas como um desafio para efetivar as práticas da Economia Solidária. Os valores em que a Economia Solidária está fundamentada podem ser burladas pela prática do capital, quando o grupo se depara com a identidade de cada participante que está inserido em uma sociedade capitalista, pois ao construir o que Veronese e Scholz (2013) colocam como identidade do grupo, os princípios da Economia Solidária podem encontrar dificuldades em sua prática. A autora Veronese (2008) ainda aponta que “mesmo que em suas vidas tenham assumido muitas vezes posições de combate às formas de subjetivação capitalista, os narradores são chamados a uma reestruturação subjetiva” (p. 125), afirmado por Lívia: “[...] eu não sou tão realizada no trabalho sabe por que, eu queria ter uma saúde boa, saúde que eu falo é um bom atendimento, eu queria poder comprar um remédio sem ser à prestação, no cartão, eu queria chegar no supermercado e não pegar só o necessário eu queria pegar mais coisa no supermercado, eu queria viajar conhecer mais o Brasil, porque a gente só conhece onde a gente mora, eu queria poder dar mais coisas pros meus filhos, queria poder ajudar mais eles sabe, então nesse ponto eu não sou tão 41 realizada, mas eu tô lutando pra isso, não é por causa disso que eu vou ser triste, porque eu vou parar, eu quero morrer, eu não quero, eu quero trabalhar, eu quero lutar, porque se um dia eu não conseguir eu quero que eles consigam” (LÍVIA MARIA, 57anos). Assim, a Economia Solidária, através das práticas autogestionárias possibilitam empoderar os sujeitos, responder às demandas econômicas e sociais das pessoas que vivem à margem da sociedade (VERONESE, 2004), sustentando a construção de um modelo econômico que seja preenchido por atores que carregam um discurso crítico que por suas ações com práticas solidárias e autogestionárias possam transformar realidades (ICAZA, 2004). Dessa maneira, as entrevistadas mostram em seus discursos que os valores da economia solidária são semelhantes a valores adquiridos em suas infâncias, e ao não encontrar tais práticas no modelo econômico capitalista, encontram-se como atores de sua história na possibilidade de praticar a economia solidária, o que é expresso na fala a seguir: “A economia solidária eu acho que faz parte da minha vida, desde que eu era pequena” (LILIAN, 59 anos). 5.3 O significado do trabalho na Economia Solidária O trabalho, conforme Marx (2011), é visto como uma condição eterna e categoria fundante do ser humano que é capaz de transformar e organizar a natureza para satisfazer suas necessidades. De acordo com o legado de Marx, o processo do trabalho permite que o homem passe a produzir a si mesmo, sendo capaz de engendrar, criar e arquitetar o seu próprio produto: “O meu trabalho... Eu amo o que eu faço, eu amo o meu trabalho! Eu adoro assim fazer as minhas costuras, criar os modelinhos, eu não sou dessas que „Eu vou fazer igualzinho o de lá‟, eu posso até ver lá na vitrine, eu adoro ver vitrine e olhar „olha aquele vestidinho‟, mas eu não vou fazer igual aquele, eu vou modificar um pouquinho porque eu acho assim que na minha cabeça tem um modo que vai ficar ainda melhor do que aquilo lá, eu gosto do que eu faço, eu amo o que eu faço” (LILIAN, 59 anos). O exemplo acima mostra uma clara diferenciação entre o trabalho executado pelo homem dos demais animais, como o exemplo que Marx (2011) utilizou quando fez a distinção entre a produção do tecelão e o da aranha, mencionado no início da sessão três deste trabalho. A fala de Lilian demonstra que ao trabalhar não transforma apenas o material, reproduzindo os vestidos da vitrine, mas projeta conscientemente o que deseja 42 produzir de acordo com a sua vontade, sendo idealizado previamente na sua consciência. [...] o homem afirma-se como ser criador: não só como indivíduo pensante, mas como indivíduo que age consciente e racionalmente, visto que o trabalho é atividade prático-concreta e não só espiritual. [...] Ao transformar a realidade, o homem transforma a si próprio: o processo de criação, do ponto de vista do sujeito, é processo de autocriação humana (IAMAMOTO, 2006, p. 41). Assim, como descreve Iamamoto, o homem ao realizar o seu trabalho atribui significados para transformar a si mesmo. De acordo com Duarte (2004) “o que o homem é, o é, pelo trabalho” (p.28), sendo uma atividade vital que garante a existência não só individual, mas da sociedade que depende do seu trabalho. Desse modo, o autor coloca como fundamental para construção da própria identidade do sujeito. “Eu vim pra cá e me sentia inútil, porque não era acostumada a ficar esperando que só ele [marido] trabalhasse e eu ficasse sem fazer nada. Sou dessas que não aceita depender, agora até acho que aceito, não acho que não... Bom nem sei se aceito. Daí eu não trabalhava e sentia... A mesma coisa se estivesse morrido, pra mim eu morri, só vivia para o meu marido e filhos. Vivi morta nesse lugar”(LÍVIA MARIA, 57anos). “Que nem eu já falei pra você, significa a minha vida, o trabalho significa a minha vida! Eu sem trabalhar eu não consigo viver, eu fico triste, se eu ficar aqui em casa quinze dias sem ir na feira, pra mim parece um ano” (LÍVIA MARIA, 57anos). “[...] é um lazer pra mim a feira sabe, não é só trabalhar, é claro que eu preciso trabalhar e é o meu trabalho, mas junto com o trabalho é um lazer, não é um tédio que nem trabalhar de empregado, que você não aguenta mais” (LÍVIA MARIA, 57anos). Com o relato de Lívia Maria, o trabalho é percebido com um profundo significado, capaz de atribuir um sentido à sua existência. Codo (2010) apresenta o trabalho não apenas como transformação da natureza, mas um ato que gera significados ao homem, podendo interferir nas suas relações sociais, motivações e sofrimentos. Codo e Jaques (2002) afirmam que parte do processo de subjetivação do homem se forma a partir do trabalho, trazendo um significado para cada sujeito. Como na fala acima, a ausência do trabalho pode carregar significados negativos, como frustração ou inutilidade, tendo um efeito direto na subjetividade do sujeito e determinante para promover saúde mental. Por outro lado, pode ser gerador de qualidade e promoção de vida e saúde. Dentro do legado de Marx o trabalho mantém o seu caráter sócio-histórico, promovendo a interação social dos sujeitos envolvidos, sendo repassado para as próximas gerações. Vygotsky (2004) afirma que o homem ao se constituir através do 43 social torna-se resultado deste convívio social, enfatizando que o desenvolvimento que garante o que Zanella (2004) pontua como “condição de humanização”, acontece através do convívio e das relações sociais. Duarte (2000) ainda explana a concepção de Marx sobre o trabalho no homem: [...] o trabalho é, para Marx, uma atividade que distingue o ser social do ser natural, isto é, define a especificidade do ser humano como um ser histórico, social e cultural, por possuir essas três características: a de ser uma atividade conscientemente dirigida por uma finalidade previamente estabelecida na consciência, a de ser uma atividade mediatizada pelos instrumentos e a de ser uma atividade que se materializa em um produto social, um produto que não é mais um objeto inteiramente natural, um produto que é uma objetivação da atividade e do pensamento do ser humano (p. 208). Zanella (2004) aponta para as contribuições de Marx e Vygotsky, concluindo que toda a produção humana é realizada através da atividade humana, que produz cultura, e que durante o seu processo pode objetivar e subjetivar o resultado da construção do homem, podendo resgatar e ressignificar suas ações. Dessa forma, é possível notar que as feirantes formulam suas concepções de trabalho a partir das suas histórias, vivências e relações sociais, como foi o caso de Lívia Maria que ao ser indagada sobre o motivo que a levou a se interessar por trabalhar com a economia solidária, a mesma respondeu relembrando as relações que viveu no passado enquanto morava no sítio: “Sabe o que, que foi, eu me interessei porque era o que eu vivia no sitio. No sítio que você, que aí você partilhava as coisas, que aquilo era teu, você não tava trabalhando de empregado dos outros, você tava se esforçando para vender o teu produto, pra mostrar o que você fazia” (LÍVIA MARIA, 57anos). A subjetividade, segundo Veronese (2009), é um fenômeno que ao mesmo tempo trata-se do sujeito individual e do seu mundo social. A feirante Lilian recorda que aprendeu o artesanato apenas observando sua mãe costurando, mostrando o conhecimento sendo repassado por gerações em gerações: “Mas eu via a minha mãe costurar e achava a coisa mais linda do mundo, ela lá pedalando, não era de pedal era com a mão. E a minha mãe fazia todas as coisas da casa, roupa para a gente, lençol, fronha, tudo ela fazia assim de saco, era tudo muito simples. Mas eu amava sentar e chega do lado dela, era bem pequena mas me lembro muito bem de ficar olhando ela costurar”(LILIAN, 59 anos). Aguiar (2000) enfatiza que o homem constrói a sua existência por meio da sua ação na sociedade, objetivando satisfazer suas necessidades. Ou seja, o homem modifica o meio em que vive através de sua ação para satisfazer suas demandas, confirmando que esta ação é preenchida por “um movimento de apropriação que envolve a atividade do 44 sujeito, isso significa que o sujeito modifica o social, de forma que o social modificado representa a possibilidade do novo, da criação” (AGUIAR, 2000, p.129). As feirantes apresentaram exemplos onde os conhecimentos foram reproduzidos socialmente, como o caso da Manu que se sentia realizada ao ensinar adolescentes a fazer os artesanatos, enfatizando: “Então de janeiro a julho a gente ensinava as pessoas carentes a fazer seu crochê, a grávida a fazer seu enxovalzinho, ensinava as meninas a pintar, fazer crochê, tricô, fazer flor, um monte de coisa e pra mim não tinha custo nenhum, não recebia nada, era voluntária, mas pra mim sair, me misturar com meninas, mulheres, mocinhas... Dava 4 quadras pra cá da igreja de Uvaranas neh?! Ali, então nossa... Eu não acreditava o dia de ir pra mim me misturar com aquelas pessoas e fui ficando muitos anos ali dos 14 até os 21anos” (MANU, 59 anos). Manu conta que a experiência que teve ao ensinar as pessoas carentes não apenas modificou a vida daquelas adolescentes, como também permitiu um aprendizado significativo e importante para poder conduzir a sua vida após a separação: “Aí eu usei aquilo que eu aprendi para ensinar as pessoas a ganhar um dinheirinho com aquilo. Aquilo que eu ensinava lá... Eu vivi pra mim depois, porque mulher com três filhos e uma casa pra pagar... Eu tinha que me levantar e aí usei tudo o que eu sabia” (MANU, 59 anos). As entrevistadas relataram os desejos de ter o seu trabalho reconhecido, comentando que por meio da Economia Solidária conseguiram expressar suas criatividades, passando a ter um espaço social que as reconhecessem e valorizassem não apenas os seus produtos, mas sua identidade. “O meu sonho é assim, vender o que eu faço. E surgiu uma oportunidade [na feira de economia solidária]” (LILIAN, 59 anos). “Nossa, mas foi tudo de bom! Porque tava realizado o meu sonho, eu podia mostrar o que eu faço. Eu sou muito tímida não sou dessas que pega a sacola e sai na casa dos outros oferecer. Não sei oferecer nada pros outros. Eu sei muitas vezes mostrar, não eu fazia e mostrava para os vizinhos. E eu estando na feira as minhas coisas estão na mesa tá expostas para as pessoas ver e era o meu sonho isso. Daí quando surgiu a oportunidade da feira, nossa foi muito bom. Até eu parece que me sentia assim... Era muito tímida não conversava. Até o meu filho[...] comenta que depois que comecei a fazer feira fiquei diferente, diz que não falava e agora falo, converso” (LILIAN, 59 anos). Codo (2002) apresenta que o trabalho pode representar algumas variáveis determinantes para a saúde mental, como no relato acima em que Lilian atribui ao trabalho a possibilidade de ter se tornado uma pessoa mais comunicativa e espontânea. Manu ao se referir ao artesanato realizado com a reciclagem de materiais, 45 ressalta também a transformação do seu ser, mostrando o quanto este trabalho interferiu diretamente na sua própria constituição, pois comenta que por meio dos princípios da economia solidária se “reciclou”: “Mas eu amei lidar com a reciclagem, porque às vezes eu tô fazendo ali sozinha e olho ali... Tá tudo lá aquilo lá... Quem olha ali vê lixo, né?! E eu olho no meu arame e vejo assim que tem 200 reais de avental pendurado naquele arame, pois são as pernas boas que estão penduradas lá que vão virar avental”(MANU, 59 anos). “[...] conforme as formações [de economia solidária], as conversas, pude usar aquilo pra mim, me reciclei” (MANU, 59 anos). As feirantes apresentaram que a economia solidária permitiu que entrassem no mercado de trabalho e apresentassem suas produções dentro das suas possibilidades de serem mães, mulheres, dentro de uma sociedade onde prevalece a desigualdade de classe e gênero. Dessa forma, podemos percerber a expectativa e esperança que atribuem a esta economia: “Economia Solidária é muito boa, é ótima, foi onde eu me criei na Economia Solidária quando eu morava no sitio, mas a Economia Solidária tem muito o que crescer... A Economia Solidária tem que formar cooperativa, cooperativa de vamos dizer de fazendeiro que crie bovino, que crie tudo sabe, tudo o tipo, tem que formar cooperativa de gente que faz, de gente que tem fábrica de açúcar, sal, de todas essas coisas, daí sim. A Economia Solidária é só uma semente, é uma areia no oceano”(LÍVIA MARIA, 57anos). Assim, a economia solidária ultrapassa o sentido de ser uma fonte de renda, pois atribuem significados e valores na vida das pessoas que vivenciam esta prática e acreditam em uma sociedade mais justa e igualitária, situação ilutrada na frase a seguir: “[...] porque a economia solidária não é só a economia, vender, comprar, ser solidário, a economia solidária faz parte da família, faz parte do amor, da convivência com os outros” (LÍVIA MARIA, 57anos). 46 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS O modelo de desenvolvimento capitalista traz consigo diversos impactos negativos, tais como o desemprego. A existência desses impactos fez com que diversos estudiosos se dedicassem a propor alternativas e críticas a esse sistema. Apesar da importância de se estudar tais autores, faz-se necessário escutar as pessoas que sofrem no seu dia a dia as consequências do capitalismo. Nesse sentido, o presente trabalho evidenciou as memórias narradas de três trabalhadoras de um empreendimento econômico solidário, possibilitando dessa maneira aliar o conhecimento teórico com a experiência de cada uma dessas mulheres. Retomando o objetivo principal desse trabalho de compreender as motivações de trabalhadores ao ingressarem uma experiência coletiva, foi possível entender por meio da história oral a construção e ressignificação das narrativas. As histórias narradas basearam-se em um ontem apontando para o presente e como construíram uma relação próxima à Economia Solidária, tendo como base valores adquiridos na infância e ressignificados ao adentrar em um empreendimento coletivo. Zanella (2004) ressalta que o homem abrange uma totalidade histórica, sendo relevante visualizar seu contexto histórico-cultural, apontando para ser considerado “[...] o movimento de significações (re)produzidas, transformadas e apropriadas em contextos sociais específicos” (p. 133). Nesse sentido, as narrativas construídas evidenciam o trabalho como engrandecedor, quando há a possibilidade de criar, o que Iamamoto (2006) coloca como um homem que pode ser criador, onde a realidade do sujeito é transformada e também transforma o sujeito que a produz, por meio dos significados e das relações que constrói. Dentro das narrativas foi possível visualizar a história de cada trabalhadora, suas dificuldades, sonhos e obstáculos enfrentados, onde mostra cada sujeito integrado historicamente em sua realidade, o que Zanella (2006) afirma ser um conjunto, onde o sujeito é preenchido pelo seu “contexto, história, relações e lugares sociais” (p. 134), que é transformado pelo homem através da atividade produzida. O autor destaca a importância de considerar o contexto histórico-cultural de cada sujeito, sua relação com a atividade que exerce para poder compreender o significado e a história do trabalho efetuado. Nas histórias contadas, as trabalhadoras descrevem a infância dentro de uma realidade onde a solidariedade se prolongou, pois seus pais e responsáveis repassam ações colaborativas para vizinhos, parentes e amigos. 47 Dessa forma, ao serem inseridas em uma sociedade que prioriza a mais-valia, conforme já foi descrito no decorrer do trabalho, esses sujeitos relatam um sofrimento advindo do trabalho e do modo de organização social que o modelo econômico capitalista assume. Assim, a individualidade, competitividade e exclusão que estas trabalhadoras relatam ter vivido, ressignificaram os valores da infância, buscando em outras formas de trabalhar esses mesmos valores que viveram. As integrantes tiveram alguns pontos em comum em suas histórias, como a relação forte com a igreja apontando para uma oportunidade de se vivenciar a fraternidade e a preocupação com o próximo. Também apresentaram a relação familiar como inspiração para poder superar os obstáculos financeiros, problemas relacionados à saúde física e psicológica. Suas histórias mostraram-se permeadas por dificuldades, mas fortalecidas por um ideal de solidariedade, o qual adquire um significado maior a partir do momento que se depara com a possibilidade de trabalhar na Economia Solidária. Dessa forma, pode-se perceber que as entrevistadas conseguiram um espaço na sociedade enquanto mulheres da terceira idade, com baixa escolaridade e que estavam afastadas do mercado de trabalho, sofrendo com as marcas da desigualdade social e o machismo predominante na época, para poder encontrar um caminho em que se tornassem sujeitos de sua própria história. Por meio das memórias, narradas as entrevistadas apresentaram as suas percepções de si, da sociedade e do trabalho, onde ressaltaram a importância de ter suas produções expostas e reconhecidas socialmente. Assim, o trabalho passa a ser visto como essencial para promover a saúde mental, uma vez que foi a partir deste que deixaram o papel de marginalizadas. No decorrer da história oral as entrevistadas mostraram-se emocionadas ao recordar situações vividas, resgatando valores familiares de solidariedade que ganharam um novo significado na atualidade. Por meio desses relatos é possível evidenciar que essas mulheres conseguiram ser empoderadas ao encontrar práticas de trabalho que não fossem baseadas na heterogestão, subordinação e coisificação do homem como mero objeto para gerar lucro. Foi no trabalho coletivo que elas encontraram a emancipação do ser, atribuindo um novo sentido à sua subjetividade. Materializando os princípios de solidariedade vivenciados pelas feirantes do empreendimento estudado, percebemos entre as entrevistadas uma relação não só comercial ou de emprego, mas uma relação de trocas afetivas tanto com as outras 48 feirantes, consumidores e familiares, quanto com as atividades que elas desenvolvem. Disso, podemos depreender que elas desenvolveram um princípio ético muito caro à humanidade, expresso nos dizeres de Sawaia (2011, p. 115), ao se apropriar do pensamento de Espinosa: “A ética só aparece no homem quando ele percebe que o que maior bem faz para o seu ser é um outro ser humano”. 49 REFERÊNCIAS AGUIAR, Wanda Maria Junqueira. Reflexões a partir da psicologia Sócio-Histórica sobre a Categoria Consciência. Caderno de Pesquisa, n°110, p.125-142, 2000. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/cp/n110/n110a05>. Acessado no dia 05 de outubro de 2014. ALBERTI, Verena. Histórias dentro da História. In: PINSKY, Carla Bassanezi (Org.). Fontes históricas. 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Porém como o marido passou a beber frequentemente e a tornar-se agressivo com ela e os filhos, resolveu se separar após aproximadamente 12 anos de casamento. Em uma noite de natal Manu tomou a decisão que iria se separar e criar os filhos sozinha, neste momento Manu enfatizou: “deixei de ser mulher e passei a ser apenas mãe” (sic). Manu comenta sobre as dificuldades que passou e o preconceito que sofreu por ser uma mulher de 33 anos separada, sendo por vezes mal vista entre os vizinhos. A entrevistada relembra o quanto foi difícil conseguir terminar de pagar a casa e sustentar os filhos, mas orgulhosa por nunca ter permitido que os filhos passassem por necessidades, retomando que abandonou todos os seus desejos de mulher para poder se dedicar aos filhos. Após uma conversa com a tia, Manu decidiu que iria sobreviver dos artesanatos que aprendeu na adolescência: “Aquilo que eu ensinava lá, eu vivi pra mim depois, porque mulher com três filhos e uma casa pra pagar... Eu tinha que me levantar e aí usei tudo o que eu sabia” (sic). Assim, Manu começou a fazer seus artesanatos para vender, inicialmente oferecia para conhecidos, vizinhos ou trocava nas mercearias por alimentos. Depois, Manu conheceu as feiras que eram organizadas em uma das praças no centro da cidade, 56 onde trabalhou por muitos anos como feirante. Participou também de várias feiras de verão que aconteciam no litoral, porém Manu percebeu que mais da metade do que vendia era direcionado para pagar as lojas de armarinhos. Assim, trabalhou 20 anos como feirante em praças e igrejas. Manu teve outras experiências de trabalho, como quando era funcionária em uma empresa em que realizava desde a limpeza até serviços particulares para seu patrão. Nesse período, Manu disse que pôde visualizar a competitividade no mercado de trabalho quando seus colegas foram despedidos após a compra de uma máquina de café. O primeiro contato de Manu com a economia solidária se deu por meio das feiras realizadas nas igrejas, no momento em que começou a entender o que era essa economia Manu disse que se recordou da época em que ensinava voluntariamente as adolescentes a fazer seu enxoval, comentando que decidiu falar para sua filha: “A barraca da feira é tua eu vou seguir a economia solidária” (sic). A partir desse momento, Manu passou a participar das formações e fóruns de economia solidária, demonstrando uma valorização do trabalho coletivo e da associação das feirantes. No seu relato fica evidenciado a importância de se trabalhar com a reciclagem no artesanato, sendo uma forma de dar “vida a aquilo que ninguém se importa” (sic). 2 História de Lilian, 59 anos Lilian nasceu em Minas Gerais e morou com sua família neste estado até os oito anos, depois da morte de sua mãe migrou com o pai e seus irmãos para o estado do Paraná. Quando chegaram ao Paraná foram morar em um sítio no interior do referido estado, onde conheceu seu esposo aos 10 anos. Lilian relata ter frequentado a escola até a 4° série, sendo impedida pelo pai que afirmava não ser necessário. Aos 19 anos seu esposo pediu a seu pai para namorar, noivar e casar com Lilian, enfatiza que seu pai aceitou porque conhecia sua família, indo morar em Ponta Grossa após casar. Durante sua infância, Lilian conta o sonho de sua mãe de vir morar no Paraná, ressaltando que este sonho também era de seus familiares, pois depositavam esperança em uma melhor condição financeira neste estado do sul. Lilian ainda relembra o quanto seu pai era solidário, explicando que o mesmo dividia com os outros agricultores sementes, enfatizando o quanto a entrevistada já presenciava essa nova economia, 57 destacando que os valores solidários foram apreendidos em sua infância. Enquanto morou no sítio, Lilian não teve a oportunidade de trabalhar, pois seu pai e posteriormente seu esposo não encontravam explicação para a mesma ter que trabalhar, apontando para uma sociedade machista. Frente a esta realidade, Lilian apreendeu a costurar, contando que via sua mãe na máquina de costura e depois a irmã mais velha, realçando seu enorme desejo de costurar. Assim, começou a produzir peças de roupas, destacando que cada roupa produzida era única, trazendo como arquitetava seu próprio produto. Ao mudar-se para Ponta Grossa, começa a vender suas confecções para as vizinhas, enfatizando o enorme desejo que tinha em mostrar aquilo que produzia. Dessa forma, ao procurar um emprego que conciliasse sua vida como mãe, começa a trabalhar em uma loja de confecções que possibilitava levar as costuras para casa. Esse trabalho fornecia todas as peças já cortadas, Lilian apenas tinha que montar as roupas. Ao relatar sobre esta experiência, lembra da máquina que sua mãe costurava, exemplificando sobre as roupas que a mãe confeccionava e depois sobre as roupas que passou a construir, descrevendo os detalhes e o quanto eram exclusivas, únicas, pois cada peça produzida ela canaliza uma nova ideia. Lilian, após ser demitida dessa loja, é convidada a participar de uma feira para vender o que produzia, lembra que na feira as participantes já praticavam os valores solidários, pois foi acolhida e inclusa na feira, mesmo não possuindo barraca, nem experiência com feiras. Após algum tempo, conta que ao receberem um convite da IESOL para tornarem-se uma feira de economia solidária, começaram a participar das formações e a visualizar o quanto suas práticas já possuíam valores solidários apreendidos na infância. Atualmente, Lilian é integrante de um empreendimento de Economia Solidária, onde realiza costura em uma das máquinas da associação, enfatizando que a divisão das sobras e dos serviços é realizada por meio das habilidades de cada feirante, destacando “tudo que a gente faz a gente reparte junto, não tem uma faz mais que a outra vai receber mais, todas recebem igual” (sic). No fim, Lilian realça que se sente realizada com seu trabalho, pois recebe o apoio da família, tendo a possibilidade de mostrar o que produz, e ainda aponta como considera importante o trabalho desenvolvido no grupo com o reciclável. 58 3 História de Lívia Maria, 57 anos A entrevistada Lívia Maria viveu sua infância e adolescência na área rural no interior do estado do Paraná. Ao resgatar suas lembranças desta época, relata que trabalhava com seu pai no sítio, e o quanto gostava de realizar aquele trabalho, daquela forma, pois havia a cooperação de outros vizinhos e também a possibilidade de auxiliar esses mesmos vizinhos em suas colheitas. Lembra que seu primeiro brinquedo foi uma enchada, e que adorou, ressaltando “Porque nós queríamos trabalhar, pois o meu pai trabalhava, minha mãe trabalhava e todo mundo trabalhava, nós também queria carpi. E daí o meu pai comprou uma enchada mais pequena pra mim e outra pra minha irmã, a deles era grande a nossa era mais pequena. E foi maior alegria do mundo, sabe?! Eu nunca ganhei uma boneca na minha vida” (sic). Lívia Maria relembra que durante sua infância aprendeu a repartir e cooperar com os outros, vizinhos, colegas, contando “Minha tia passava e deixava um pouco pra mim, um pouco para a mãe e pra ela. Era tudo repartido” (sic). Assim, a entrevistada ao relembrar sua infância conta os valores solidários que aprendeu com o pai em sua infância. Lívia Maria relata que seu pai não deixava ela e suas irmãs irem para a escola, completando que nunca havia visto um caderno ou uma caneta. Relembra que quando seus vizinhos foram para a escola, chorou por todo um dia, dessa maneira, convenceu o pai a levar ela e sua irmã para a escola, onde estudou até a 4°série. Durante sua adolescência conheceu seu esposo (também integrante do empreendimento), em um evento realizado na quaresma chamado “Recomendação”, onde os jovens cantam nas casas da vizinhança à noite no tempo da quaresma, começando a namorar aos 13 anos e casando-se aos 18 anos. Depois de casada e com o seu primeiro filho, Lívia Maria conta como era precária a assistência à saúde no campo, afirmando que por esse motivo migrou com sua família para a área urbana. Ao se mudarem do sítio para a cidade, morava em uma casa toda a sua família: pai, mãe, irmãos, esposo e o filho. Nesta época, todos sentiram a dificuldade de encontrar um emprego, buscando nos empregos informais um meio de sobrevivência. Demonstra a diferença que a familia sentiu entre o campo e a área urbana, enfatizando “Daí lá no sítio você pode não ter nada, mas você não passa fome, aqui você passa. Aqui se você não trabalhar você não come” (sic). Após algum tempo, quando seus filhos já estavam maiores, relata ter procurado por muito tempo um emprego, mas teve muita dificuldade, pois não era aceita pelo 59 mercado de trabalho. Conta que seu pai, pela dificuldade encontrada, começou a vender laranja, poncan e também coxinhas feitas pela entrevistada. Em seguid,a ao retomar seus estudos, volta a vender coxinhas para os professores, e depois em festas. Com a renda desse trabalho, paga um curso profissionalizzante de confeitaria para sua filha, e Lívia Maria sem nenhum curso, começa a comercializar outros alimentos. Relata que através de uma propaganda na televisão, vai em busca da feira, a feira de economia solidária, relembrando a prática de trocas dentro dos grupos, e conta ainda que interessou-se pela feira porque “Sabe o que, que foi, eu me interessei porque era o que eu vivia no sítio” (sic). Atualmente, Lívia Maria é presidente do empreendimento, e diz não se sentir realizada totalmente com o seu trabalho porque gostaria de ter uma condição financeira melhor dizendo “então nesse ponto eu não sou tão realizada, mas eu tô lutando pra isso, não é por causa disso que eu vou ser triste, porque eu vou parar, eu quero morrer, eu não quero, eu quero trabalhar, eu quero lutar, porque se um dia eu não conseguir eu quero que eles consigam” (sic). Lívia Maria termina seu relato de história demostrando seu desejo em poder ver a economia solidária mais ampla, atingindo a todas as classes sociais. 60 APÊNDICE B - ROTEIRO DE QUESTÕES PARA A HISTÓRIA ORAL - Poderia nos contar um pouco sobre a sua vida desde a sua infância? - Como foi a infância e juventude? - Como foi sua vida escolar? - Como são as relações familiares (filhos, casamento)? - Dificuldades ao longo da vida. - Quando começou a trabalhar e qual foi seu primeiro emprego? - Trabalhou em outro segmento, empresa antes da Associação? - Como foi a sua entrada na economia solidária, como estava sua vida naquela época e o que te motivou? - A intenção no empreendimento (Caso tenha trabalhado em alguma empresa, o que é diferente o trabalho lá e na associação?) - Nós já sabemos como funciona o trabalho na AFESOL, mas poderia contar para que todas as pessoas que vão escutar possam entender, como vocês se organizam no trabalho? Qual o principal produto? - Dificuldades em permanecer na economia solidária; - Consegue pagar as contas com o dinheiro desse trabalho? - Como se deu o relacionamento com a IESOL ao longo do tempo? - Qual a visão que tem do trabalho que desempenha? (Reaproveitamento de resíduos sólidos). - Se relaciona com os trabalhadores (as) além da associação? - Como vê a autogestão no grupo? - Contribuições dos princípios da economia solidária na sua vida; - Deseja continuar na ECOSOL? - O que deseja para sua vida? - Hoje, você se sente uma pessoa realizada? - Tem algum assunto, alguma coisa que não perguntamos que você gostaria de dizer?