FACULDADE SANT’ANA
FERNANDA PIMENTEL SANTOS
LORENA FIUZA FERREIRA
ECONOMIA SOLIDÁRIA: Uma Experiência Coletiva em uma Sociedade
Individualista - A Construção de uma Narrativa
PONTA GROSSA
2014
FERNANDA PIMENTEL SANTOS
LORENA FIUZA FERREIRA
ECONOMIA SOLIDÁRIA: Uma Experiência Coletiva em uma Sociedade
Individualista - A Construção de uma Narrativa
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado à Faculdade Sant’Ana, como
requisito parcial para obtenção do título de
bacharel em Psicologia.
Orientadora: Profª. Ms. Glaucia Mayara
Niedermeyer Orth.
PONTA GROSSA
2014
Dedicamos este trabalho a todas as pessoas que
acreditam em um modelo econômico solidário,
que possa por suas ações lutar pelos excluídos.
AGRADECIMENTOS
A vida passa a ter um sentido especial, quando nos debruçamos nos nossos
sonhos e lutamos pelo nosso ideal. É claro que quando encontramos alguém que
simbolize a amizade este caminho acaba ficando cada vez mais apaixonante e agradável,
por isso não tem como começar os agradecimentos se não recordar a nossa amizade que
se construiu no decorrer da graduação.
Nosso percurso acadêmico foi permeado pelo apoio, incentivo e carinho dos
nossos familiares, que apostaram nas nossas potencialidades e estiveram ao nosso lado
nas maiores dificuldades.
Agradecemos a oportunidade que tivemos de conhecer e vivenciar a Economia
Solidária que nos foi apresentada com muito amor e sabedoria pela Dra. Manuela Salau
Brasil, a qual inspirou a nossa trajetória e escolha do tema para este trabalho.
Agradecemos também à equipe da Incubadora de Empreendimentos Solidários (IESol)
que nos acolheram e contribuíram para a realização desta pesquisa, construindo e
fortalecendo os laços de solidariedade.
Em especial agradecemos aos trabalhadores/as do empreendimento investigado
por depositarem confiança em nosso trabalho ao compartilharem suas histórias de vida,
pois a partir das suas narrações tivemos oportunidade de visualizar a prática da
Economia Solidária.
À nossa querida orientadora Glaucia Orth que soube nos guiar durante a
estruturação deste trabalho, fomentando o nosso interesse em buscar formas de
ressignificar e empoderar os marginalizados da sociedade.
Para finalizar agradecemos de forma particular duas pessoas que tiveram um
papel muito significativo na nossa história, não apenas acadêmica, mas que
contribuíram motivando o nosso caminhar com as suas reflexões e capacidades de ouvir
até mesmo o nosso silêncio.
E a todos aqueles que de algum modo colaboraram para a realização deste
trabalho, deixamos nosso muito obrigado!
“A pobreza não é um acidente. Assim como a
escravização e o Apartheid, a pobreza foi
criada pelo homem e pode ser removida pelas
ações dos seres humanos”.
(Nelson Mandela)
RESUMO
O presente trabalho visa compreender a vivência pessoal das integrantes de um grupo
que faz parte da Incubadora de Empreendimentos Solidários da Universidade Estadual
de Ponta Grossa – IESol, buscando perceber suas motivações para integrar uma
experiência coletiva. Esta incubadora tem como metas promover em grupos de
economia solidária a possibilidade de autogestão, a geração de trabalho e renda, a
organização baseada no associativismo e cooperativismo, a sustentabilidade e
autonomia nos empreendimentos. Dessa forma, a economia solidária enfatiza a
importância de se criar caminhos de autonomia coletiva, sendo o oposto da visão
tradicional do sistema capitalista. Utilizando como método a História Oral foi possível
compreender como os princípios da Economia Solidária interferem na subjetividade dos
sujeitos envolvidos nesta dinâmica, evidenciando por meio de entrevistas e discursos a
subjetividade de cada entrevistada. Foram entrevistadas três mulheres integrantes de um
empreendimento de Economia Solidária da cidade de Ponta Grossa. Após a realização
das entrevistas, as mesmas foram transcritas e categorizadas conforme a sua pertinência
ao objetivo da pesquisa. Com isso, foram construídas três categorias: A experiência de
trabalho no capitalismo; Individual x Coletivo: motivações para integrar uma
experiência de Economia Solidária; Significado do trabalho na Economia Solidária.
Observou-se, ainda, que os valores narrados pelas participantes, construídos ao longo da
sua vida, assemelham-se aos princípios da Economia Solidária, o que fortalece a sua
participação nesse empreendimento.
Palavras-chave: psicologia do trabalho, economia solidária, história oral.
ABSTRACT
This study aims to understand the personal experience of the members of a group that is
part of the Cooperative Business Incubator of the State University of Ponta Grossa IESol, trying to notice their motivations to join a collective experience. The incubator’s
goals are to promote, in groups of Solidarity Economy, the possibility of selfmanagement, the generation of employment and income, as well as organization based
on association and cooperation, sustainability and autonomy in the businesses. Thus,
Solidarity Economy emphasizes the importance of creating paths of collective
autonomy, opposing the traditional view of the capitalist system. Using oral history as a
method, it was possible to understand how the principles of Solidarity Economy
interfere with the subjectivity of the subjects involved in this dynamic, showing through
interviews and speeches the subjectivity of each interviewee. Three members from a
Solidarity Economy business in the city of Ponta Grossa were interviewed. These
interviews were transcribed and categorized according to their relevance to the
research's objective. From that, three categories were divided: Work experience in
capitalism; Individual vs. Collective: the motivations to integrate the experience of
Solidarity Economy; The meaning of work in the Solidarity Economy. It was also
observed that the values narrated by the participants, built throughout life, resemble the
principles of Solidarity Economy, which strengthens their participation in this project.
Keywords: labour psychology, solidarity economy, oral history.
SUMÁRIO
1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS ..................................................................................... 8
2 A ECONOMIA SOLIDÁRIA COMO UMA ALTERNATIVA ECONÔMICA ....... 10
2.1 O capitalismo e suas contradições ........................................................................ 10
2.2 Capitalismo e realidade nacional: Conjuntura Política ......................................... 13
2.3 A Economia Solidária como enfrentamento da desigualdade social produzida
pelo Capitalismo ......................................................................................................... 16
3 O TRABALHO COMO CONSTRUÇÃO DE SI ....................................................... 22
3.1 Trabalho como categoria fundante do ser humano e produtor de consciência ..... 22
3.2 Quando o trabalho resulta em alienação ............................................................... 26
3.3 Trabalho e Saúde Mental ...................................................................................... 29
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ................................................................ 32
4.1 Caracterização da pesquisa ................................................................................... 32
4.2 Procedimentos da pesquisa e caracterização das participantes ............................. 33
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO ................................................................................ 35
5.1 A experiência de trabalho no capitalismo ............................................................. 35
5.2 Individual X Coletivo: motivações para integrar uma experiência de Economia
Solidária ...................................................................................................................... 38
5.3 O significado do trabalho na Economia Solidária ................................................ 41
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 46
REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 49
APÊNDICE A – AS NARRATIVAS DE VIDA DAS PARTICIPANTES DA
PESQUISA ..................................................................................................................... 55
APÊNDICE B - ROTEIRO DE QUESTÕES PARA A HISTÓRIA ORAL ................. 60
8
1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A economia solidária é um tema que vem sendo discutido constantemente no
meio acadêmico e social, por realizar uma forte crítica ao sistema econômico dominante
e por propor um estilo de economia que luta contra as desigualdades sociais presentes
no capitalismo. Segundo o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (2014), o
documento da I Conferência Nacional de Economia Solidária que aconteceu em 2005
alega a necessidade de trabalhadores solidários atuarem na superação das contradições
próprias do capitalismo, encontradas como dificuldade para o desenvolvimento do
homem.
A Economia Solidária na cidade de Ponta Grossa tem apoio de diversas
entidades, sendo uma delas a Incubadora de Empreendimentos Solidários (IESol), que
faz parte de um programa de extensão da Universidade Estadual de Ponta Grossa
(UEPG) que surgiu para articular, organizar e consolidar empreendimentos solidários,
promovendo nos grupos de trabalhadores incubados os princípios da Economia
Solidária.
Singer (2002) comenta que a economia solidária compreende diferentes tipos de
associações voluntárias com o fim de proporcionar a seus associados benefícios
econômicos, e surgem como reações a carências, como a pobreza que o sistema
econômico dominante se nega a resolver.
De acordo com Singer (2002) a economia solidaria permite que todos os
trabalhadores possam tomar as decisões do empreendimento, possuindo os mesmos
direitos, afirmando que cada um “[...] tem a mesma parte do capital, e portanto os
mesmos direitos de decisão. Pratica-se a autogestão, que é administração da empresa
por todos que trabalham nela democraticamente” ( p. 11).
Assim, o autor define a economia solidária como um modo de produção que se
caracteriza pela igualdade de direitos, onde os meios de produção são de posse coletiva
dos que trabalham com eles, favorecendo e incentivando a autonomia e autogestão.
Por outro lado, a Economia Solidária inserida no capitalismo tem como
resultado um sujeito que encontra mensagens contraditórias, pois os princípios da
Economia Solidária, como autogestão e cooperação encontram dificuldades em uma
cultura individualista e competitiva.
Diante dessas considerações, o presente trabalho tem como objetivo principal
compreender, por meio da história oral, a vivência pessoal das integrantes de um grupo
9
incubado pela IESol e suas motivações para integrar uma experiência coletiva. Para
atingir esta finalidade, este trabalho contou com um levantamento da bibliografia que
trata do assunto trabalho, capitalismo e economia solidária, além de pesquisa de campo,
operacionalizada por meio das entrevistas de história oral, após a aprovação do conselho
de ética e pesquisa da Faculdade Santana, conforme protocolo 2541-2014. Este trabalho
está organizado em quatro sessões, que serão a seguir apresentadas.
Na primeira sessão é abordada a Economia Solidária como uma alternativa
econômica, apontando a estrutura do capitalismo, suas contradições e crises e a
realidade nacional dentro desse modelo econômico. Na segunda sessão é teorizado o
trabalho como construção do homem, sendo uma categoria fundante do ser humano,
capaz de produzir consciência ou alienar o homem frente à realidade do seu trabalho.
Dessa forma, essa sessão apresenta que o trabalho pode ser tanto causador de sofrimento
psíquico quanto gerador de saúde mental.
Na próxima sessão apresentamos a metodologia na qual foi realizado este
trabalho que surgiu por vinculação ao campo de estágio, o que facilitou a construção
desse trabalho pelo vínculo estabelecido com aequipe da incubadora e com os sujeitos
que compõem o empreendimento pesquisado. A construção metodológica dessa
pesquisa foi realizada por meio de três etapas. Onde primeiramente foi dado início à
pesquisa bibliográfica, em um segundo momento realizou-se o convite para os seis
trabalhadores do empreendimento solidário, onde três feirantes concordaram em
participar da História Oral, e em seguida as entrevistas foram transcritas e analisadas.
Por fim, apresentamos na quarta sessão os resultados da pesquisa, com a
finalidade de compreender como os princípios da Economia Solidária interferem na
subjetividade dos sujeitos envolvidos nesta dinâmica, e qual a influência da estrutura
capitalista imposta socialmente. Contemplamos, ainda, a motivação de trabalhadores no
ingresso a um empreendimento coletivo através das narrativas construídas durante a
história oral.
10
2 A ECONOMIA SOLIDÁRIA COMO UMA ALTERNATIVA ECONÔMICA
2.1 O capitalismo e suas contradições
O capitalismo passou por um processo evolutivo que teve seu início no século
XVI com as grandes navegações que buscavam a interligação marítima, domínio e
exploração de territórios (SINGER, 1991). Singer (1991) realça que a estratégia de
expansão deste período estava baseada na unificação do mercado nacional e dominação
por meio do monopólio político, sendo organizado o modo de produção que fundamenta
a era do mercantilismo.
Paul Singer (1991) ainda destaca que o modo de produção capitalista acontece
pela propriedade privada, desigualdade e competição entre as classes sociais, que teve
sua origem com a economia de mercado existente na Idade Média. Dobb (1976 apud
ROIZ, 2009) demarca o surgimento e desenvolvimento do capitalismo, a partir da crise
estrutural do sistema feudal que deu origem à circulação de mercadorias.
Posteriormente, no século XVIII com a Revolução Industrial que inicia na Grã
Bretanha, os mercados locais e nacionais passaram a estabelecer competições livres.
Paul Singer (1991) comenta que:
No século XVIII sucessivas guerras resultam no triunfo da Grã- Bretanha
sobre seu maior rival, a França. Em consequência, o capitalismo
manufatureiro alcançou maior desenvolvimento na Grã-Bretanha, criando as
condições para a Revolução Industrial que aconteceu logo a seguir (p. 12).
Assim, o capitalismo desenvolveu-se como modelo econômico no século XIX, o
qual representou a derrocada do feudalismo, estabelecendo a divisão de trabalho e a
especialização da produção em diferentes cidades (MARX, 1985). Marx (1985) ainda
destaca que essas transformações na produção foram fortalecidas à medida que as
propriedades existentes foram modificadas em capital industrial ou comercial,
resultando no desenvolvimento do capitalismo.
Com as revoluções e invenções das máquinas, o capitalismo passou a prover
parte das atividades econômicas da época. Dessa forma, Singer (1991) define que o
avanço do capitalismo foi lento e gradual, se fazendo presente a partir do momento em
que as máquinas industriais passaram a sobrepor o homem.
Segundo Scholz (2009), a Revolução Industrial na Grã-Bretanha ocorreu junto
com a expulsão em massa de camponeses dos domínios senhoriais na Europa, que se
11
transformaram no proletariado moderno, ocasionando o êxodo rural e a exploração do
trabalho nas fábricas pelo contingente de demanda de mão-de-obra. Essa excessiva
exploração que os trabalhadores sofriam afetava diretamente sua saúde fisíca e psíquica,
resultado das péssimas condições de trabalho e jornadas extensas que ocasionaram
grande morbidade e mortalidade, impedindo que a produtividade do trabalho pudesse se
elevar (SINGER, 2002).
Frigotto (2000) cita que Marx em sua obra O Capital explora este modelo
econômico como um modo social de organização que tem como objetivo central a
maximização do acúmulo do capital, tendo como prioridade a concentração e
centralização ampliada do capital da renda. Deste modo, Roiz (2009) aponta que a
economia política do capitalismo produz desigualdades sociais que são apresentadas
como circunstâncias constantes da luta de classes e intensificadas pelo modo de
produção capitalista.
O’Donnell (1981) confirma:
O capitalismo tem que engendrar o sujeito livre e igual ante o direito, o
contrato e a moeda, sem que não poderiam existir sua ação seminal: compra e
venda de força de trabalho e apropriação de valor. Essa liberdade implica
como paralelo seu a igualdade própria da cidadania (p.74).
Dessa forma, o autor pontua que o sujeito é livre e desamparado para vender a
sua força de trabalho, pois a relação entre o trabalho e o poder do capital exercido sobre
o trabalhador é estruturalmente desigual. Marx, em seus estudos sobre o capitalismo,
demostra que esse sistema sobrevive da exploração do trabalho como forma de obter a
dominação do capital. Assim, esta acumulação de capital deriva de relações desiguais.
Marx (2011) traz como principal característica do capitalismo a circulação de
mercadorias, tendo como ponto de partida o capital, que resulta no dinheiro. Logo,
Marx (2011) diferencia o capital de dinheiro pela sua forma de circulação dentro da
sociedade, sustentando como principal objetivo do capitalismo a apropriação crescente
da riqueza, ou seja, do dinheiro.
Dessa forma, o próprio trabalho é considerado mercadoria, cujo valor é
estabelecido pelo mercado. Marx (2011) corrobora essa afirmação:
Por força de trabalho ou capacidade de trabalho compreendemos como o
conjunto das faculdades físicas e mentais existentes no corpo e na
personalidade viva de um ser humano, as quais ele põe em ação toda vez que
produz valores-de-uso de qualquer espécie (p.197).
Portanto, a força que o trabalhador exerce na empresa capitalista é considerada
como parte do processo, ou seja, uma mercadoria necessária para exceder a mais-valia,
12
seguindo a dinâmica de compra e venda.
Na perspectiva de Marx (2011), o dinheiro é a forma necessária de se
manifestar a medida do valor das mercadorias e do tempo de trabalho. O autor critica o
sistema capitalista, no qual ocorre, constantemente, a transformação de mercadoria em
dinheiro (venda) e dinheiro em mercadoria (compra). Assim, o produto excedente é
vendido para gerar dinheiro e poder adquirir novas mercadorias (m1→d1→ m2),
passando a converter dinheiro em mercadoria e mercadorias em dinheiro (d1→ m1→
d2), esse processo de desenvolvimento tem como objetivo gerar e acumular riquezas
sustentando a competição no mercado de trabalho, aumentando a desigualdade social
(MARX, 2011).
De acordo com Needleman (s/d apud KORTEN, 1996), no capitalismo o
dinheiro passou a ser um determinante social:
Em outros tempos e lugares, nem todos queriam o dinheiro acima de
qualquer coisa; as pessoas desejavam a salvação, a beleza, o poder, o prazer,
a propriedade, explicações, alimento, aventura, conquistas, conforto. Mas
aqui e agora, o dinheiro – não necessariamente as coisas que o dinheiro pode
comprar, mas o dinheiro – é o que todos querem. O gasto da energia da
humanidade agora acontece no e através do dinheiro (p. 303).
Para Marx (2011) o homem dentro da perspectiva do capitalismo é visto como
“personificação da força do trabalho, um objeto natural ou uma coisa, embora seja uma
coisa viva e consciente, e o próprio trabalho é a manifestação externa, objetiva dessa
força” (p.238). Neste pensamento, o homem é apenas considerado um fator de produção,
desconsiderando a sua subjetividade, não sendo visto como um indivíduo vivo, criativo,
com metas, sonhos e potencialidades. O homem é um meio que serve para um fim
maior, que é ganhar dinheiro.
Ocorre uma espécie de alienação do trabalho e da vida do homem em
decorrência dos princípios da valorização do capital. Altvater (2010) afirma que Marx
compreende por capital uma relação social específica entre capitalistas, e aqueles que
trabalham para eles são explorados nesta relação, cuja finalidade é gerar mais-valia, ou
seja, lucro. Altvater (2010) ainda ressalta que o modo de produção capitalista é um
sistema flexível, dinâmico, mas extremamente instável e contraditório, que provoca
crises econômicas e políticas recorrentes.
Assim a continuação do sistema capitalista no mundo, como afirma Altvater
(2010), não apenas trará uma euforia impensada, que constrói o universo simbólico de
que é uma sociedade democrática, que possui liberdade de escolha, economia de
mercado e o bem-estar social, mas carregará a destruição do ser. O autor critica que o
13
capitalismo está tão enraizado na vida do homem contemporâneo tornando-se difícil
refletir ou encontrar outra possibilidade de economia. A visão de outro mundo torna-se
utopia, pois o fim do capitalismo é pensado como uma “era apocalíptica”, sendo
reforçada a ideia de um sistema permanente (ALTVATER, 2010).
2.2 Capitalismo e realidade nacional: Conjuntura Política
Há dois lados na divisão internacional do
trabalho: um em que alguns países
especializaram em ganhar, e outro em que se
especializaram em perder. Nossa comarca do
mundo, que hoje chamamos de América Latina,
foi precoce: especializou-se em perder (Eduardo
Galeano).
O jornalista crítico Eduardo Galeano inicia sua obra “As veias abertas da
América Latina”, destacando o quanto os países desse continente são marcados pela
exploração, o que os levou à categoria de oprimidos especialistas. O autor ainda enfatiza
que estes países possuem uma gama de recursos naturais, mas se limitam a sustentar as
necessidades dos países desenvolvidos.
Assim, Galeano (2010) entende que a América Latina é composta por países que
foram explorados desde sua descoberta, tendo como resultado o trabalho excessivo da
população para suprir outras necessidades que não são as suas, conforme cita:
É a América Latina, a região das veias abertas. Desde o descobrimento até
nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte
americano, e como tal tem-se acumulado e se acumula até hoje nos distantes
centros de poder (GALEANO, 2010, p.5).
O autor ainda localiza esta exploração contínua com o desenvolvimento do
capitalismo, que funciona a partir de ganhadores e perdedores, enfatizando que a
miséria encontrada atualmente é resultado das vitórias de outros países.
O Brasil, durante três séculos, foi colônia de exploração dos portugueses,
colaborando para a constituição do capitalismo manufatureiro europeu. Apenas na
metade do século XIX iniciou-se o processo de substituição industrial através das
importações, estando subordinada aos interesses da agricultura (SINGER, 2002). A
produção brasileira exportada em 1930 era predominantemente agrária, porém com a
industrialização do país foram criadas condições para a acumulação capitalista, com
interferência direta do Estado (SCHOLZ, 2009).
Com a industrialização do Brasil na década de 1950 e 60, segundo Freitas (1979
14
apud FREIRE, 1996) o desemprego atingiu números assustadores, a inflação e o custo
de vida tornaram-se insuportáveis para a classe trabalhadora e para a população em geral.
De acordo com Beatriz (2012), neste período ocorreu a migração abundante da
população rural para as cidades, acarretando o excesso de pessoas para uma
infraestrutura pouco adequada às necessidades básicas da população. “A população
pobre do país, expulsa ontem do campo e hoje excluída do emprego urbano, gera a
situação explosiva que constatamos na cidade e no campo neste início do século”
(DOWBOR, 2002 apud BEATRIZ, 2012, p. 37).
A crise econômica da década de 30, recorrente nas décadas de 70 a 90, é
explanada por Frigotto (2000) como uma problemática de ordem político-econômica
que foi marcada pelos altos índices de desemprego e desigualdade social. De acordo
com este autor a acumulação capitalista financiada pelo fundo público para manter o
padrão de acumulação do capital solucionou a crise da década de 30, entretanto deu
origem às crises econômicas das próximas décadas, tornando-se, portanto uma crise
estrutural e não uma crise decorrente das intensas intervenções do Estado.
Se na década de 30, período marcado pelo Estado Novo, o Brasil construiu as
bases para o desenvolvimento do capitalismo, foi a partir da década de 60 que o Brasil
firmou-se como um país capitalista. Numa conjuntura internacional configurada pela
Guerra Fria, estabelecida entre Estados Unidos e União Soviética, mais precisamente
marcada por uma guerra entre modelos econômicos distintos, a elite conservadora do
país escolheu o rumo que o país adotaria (ORTH, 2013).
Em decorrência dessa
conjuntura, os Estados Unidos na tentativa de efetivar seu modelo econômico, realizou
inúmeros investimentos na América Latina, contemplando o Brasil. Dessa forma, a
autora afirma que a ditadura brasileira teve como base a efetivação do capitalismo como
modelo econômico vigente, conforme segue:
Em troca da extração das riquezas brasileiras, os estadunidenses deixaram
aqui sua ideologia capitalista, sua supremacia econômica, a desvalorização da
cultura nacional e a manutenção do país no submundo do desenvolvimento.
A presença dos valores, da ideologia e da influência dos Estados Unidos no
país é indiscutível, e a ditadura militar representou, apenas, mais uma etapa
da intervenção daquele país no Brasil (ORTH, 2013, p. 62).
Assim, o capitalismo ganha destaque no Brasil, apoiado pela ditadura militar
com a propaganda de efetivar a democracia no país. De acordo com Freitas (1998), a
repressão política, cultural, o aumento da pauperização e o acirramento das
desigualdades sociais caracterizaram este período ditatorial.
O governo ditador, a fim de garantir a hegemonia nas decisões tomadas, afastou
15
a população dos assuntos políticos, acarretando “[...] uma despolitização em massa de
grandes setores da sociedade que simplesmente diziam amém aos arbítrios políticos”
(ORTH, 2013, p 62).
No início do Regime Militar, o Brasil vivenciou uma sensação de pleno
desenvolvimento econômico, o que propiciou a urbanização do país. Vale lembrar,
entretanto, que essa situação foi impulsionada pelo baixo preço do petróleo em âmbito
internacional, matéria-prima que contribuiu para o desenvolvimento da infraestrutura do
país, mas que seria, também, a responsável pela derrocada do Regime e pela imersão do
país na grande crise econômica que viria na década de 1980 (GASPARI, 2003).
Até a década de 1970, o Brasil não se preocupou em investir na exploração dos
combustíveis fósseis no país, por conta da abundância dessa matéria-prima no mundo e
pelo baixo preço de importação. Porém, com o aumento do preço do petróleo importado
a economia brasileira não resistiu, provocando escassez de matéria-prima e aumento do
preço dos produtos derivados do petróleo. O Regime, a fim de manter a sensação de
pleno desenvolvimento e sustentar sua posição de poder, passou a subsidiar o petróleo
importado, o que gerava um gasto de 150 milhões de dólares por mês (GASPARI,
2003). Dessa forma, o brasileiro passou a consumir mais, levando a um déficit na
produção e inflação de preços (GASPARI, 2003). Não conseguindo mais dar conta
desse prejuízo, principiando a crise dos anos 80, os militares iniciaram o longo processo
de abertura democrática.
Assim, a instabilidade econômica atingiu o regime político e toda a população,
pois a crise econômica dos anos 1980 resultou no aumento da desigualdade social e na
pobreza (GASPARI, 2003). Costa e Souza (2005) enfatizam que a pobreza é gerada por
ações humanas, responsabilizando o Estado por toda a desigualdade social visualizada
atualmente. As autoras, ainda, apontam que no Brasil a falta de políticas públicas para
distribuição de renda e riquezas gerou uma sociedade desigual, decorrente de decisões
humanas que seguem a lógica capitalista, ou seja, a incapacidade de inclusão no
mercado de trabalho. A pobreza ainda é analisada pelas autoras como um fenômeno
global, pois está vinculada a fatores que dificultam o desenvolvimento do ser humano,
afetando o convívio social, padrão cultural, acesso a serviços básicos, à justiça, enfim
interferindo integralmente na vida social do sujeito.
Singer (1991) aponta que nas décadas de 1980 e 1990, as grandes empresas
eram responsáveis por fornecer a maior parte do emprego e os custos trabalhistas eram
repassados aos preços dos produtos, assim, quem pagava o salário eram os
16
consumidores. Neste momento, de acordo com Beatriz (2012), a abertura do mercado
brasileiro a produtos importados e a modernização da tecnologia e indústrias
acarretaram o aumento da competição e prejuízo das empresas do país, sendo obrigadas
a cortar custos. Singer (2004) exemplifica este período comentando:
[...] comunidades pobres podem ser classificadas pelo seu grau de integração
ao mercado global. Há as excluídas desde há muito tempo e que vivem em
economia de subsistência, de forma quase auto-suficiente. E há as recém
excluídas, como o cinturão da “ferrugem” cujos moradores foram
empregados de indústrias, que encolheram ou desapareceram em função da
abertura do mercado interno e do progresso tecnológico (p.3).
Segundo Serafim (2012), a década de 1980 foi marcada por altas taxas
inflacionárias e baixas taxas de crescimento econômico, levando ao aumento do
desemprego em massa e à precarização do mercado de trabalho. Nesse cenário
econômico e político, Fernandes (2007) ressalta:
A abertura nada tem de “democrática”: os governantes que assaltaram o
Estado brasileiro e o amoldaram a seus fins políticos engendraram uma forma
policial-militar de ditadura burguesa que pode oscilar, “endurecendo” ou
“liberalizando-se” de acordo com a conjuntura econômica, social e política e
com o volume de pressões contra a ordem ilegal estabelecida como
“institucional” e “revolucionária” (p. 208).
Galeano (2010) enfatiza o quanto as formas autoritárias construídas através das
ditaduras são disseminadas como “ordem e paz social” (p.8), sustentando a proibição de
greves, extinguindo sindicatos trabalhistas, com o objetivo de impossibilitar qualquer
ato de liberdade do sujeito.
No Brasil, a industrialização, acompanhada da Guerra Fria e depois da ditadura
implantada a partir da ideologia política, trouxe o capitalismo como opção democrática
de modelo econômico (GALEANO, 2010).
Assim, frente à alienação da mídia que fortalece o sistema capitalista e aos
problemas da conjuntura socioeconômica do Brasil, começa-se a valorizar e consolidar
o embasamento para se pensar em alternativas de solidarismo popular (SINGER, 2002).
2.3 A Economia Solidária como enfrentamento da desigualdade social produzida
pelo Capitalismo
A economia solidária nasce pelo resultado das desigualdades sociais produzidas
pelo capitalismo, em decorrência da Revolução industrial nos séculos XVII e XIX
(RANGEL e MANOLESCU, 2012), conjuntura trabalhista preenchida pelos baixos
17
salários, esgotamento físico, inúmeros acidentes, jornadas de trabalho exorbitantes e
uma classe de produção industrial que inclui crianças, sustentando um modelo de
produção dominante com condições precárias (DEJOURS, 1992). Diante deste cenário,
nasce o movimento nomeado como cooperativismo, explanado por Santos (2005 apud
RANGEL e MANOLESCU, 2012) como um movimento que inicia novas práticas,
baseadas em princípios solidários.
Rangel e Manolescu (2012) descrevem que este movimento cooperativista é
apreciado por alguns pensadores, entre eles o britânico Robert Owen denominado como
“socialista utópico”. Singer (1998) explica que este pensador participou das primeiras
experiências no cooperativismo, construindo colônias cooperativas perto das fábricas
com o objetivo de tornar esses trabalhadores autônomos.
De acordo com Singer (2002), no capitalismo é produzida desigualdade
crescente e constante competição, tendo como princípios o direito à propriedade
individual aplicado ao capital que acaba dividindo a sociedade em proprietários e a
classe que vende sua força de trabalho.
Durante as décadas de 40 e 50 o Brasil passou por mudanças no seu modelo de
produção, Freitas (1988) destaca que a mudança do sistema agropecuário para o
agroindustrial produz consequências intensas, como a rápida necessidade de mão-deobra qualificada, com jornadas de trabalhos desgastantes e baixos salários. Assim, a
Economia Solidária surge em vários países como um movimento amplo e profundo, que
tem como origem a luta dos trabalhadores marginalizados desse novo modelo
econômico (BRASIL, 2007).
Na década de 1960, segundo Freitas (1996), o Brasil passou por fortes
confrontos entre o Estado, as forças capitalistas e as necessidades básicas da população,
a qual sofria com o desemprego e reivindicava direito à saúde e à educação. Freire
(1979) ressalta que este período foi marcado pelos cinturões de pobreza e miséria que
íam crescendo ao redor dos pólos industriais e centros de riqueza.
Em decorrência da crise da década de 1980 e 1990 o Brasil enfrenta altos índices
de desemprego. Durão (2003) caracteriza essas décadas pelo alto grau de desigualdade
de renda, resultando em uma exacerbada desigualdade social. Dessa forma,
reivindicações por melhoria nas condições de trabalho, direito à saúde e educação foram
ganhando destaque, dando abertura aos movimentos sociais que ascenderam durante a
ditadura militar, enfrentando repressão, mas que promoveu a maior participação da
população dando lugar à democracia.
18
Os trabalhadores passaram a buscar outros meios de renda, os empregos
informais, como cooperativas, associações, ressurgindo 1 a “Economia Solidária” no
Brasil que traz como base o ser humano e o trabalho coletivo, sobrepondo o
individualismo e a competitividade, fomentando a horizontalidade (SINGER, 2002).
Dentro deste contexto a psicologia demarcou a sua participação na atuação com
os marginalizados, sendo desenvolvida na década de 1980 a Psicologia Social
Comunitária, caracterizada pela construção de uma psicologia social crítica, histórica e
comprometida com a realidade concreta da população brasileira (FREITAS, 1996).
De acordo com Veronese (2008), esta psicologia passa a ser uma ciência
transformadora por visar o empoderamento social das comunidades. Segundo Freitas
(1996), a psicologia passa a atuar junto de diversos setores da população enfatizando
práticas emancipatórias, autogestão e empoderamento dos sujeitos.
A economia solidária e a psicologia comunitária passam a desenvolver suas
teorias baseadas nas desigualdades sociais, realizando uma forte crítica à economia
dominante que produz desemprego, destruição do meio ambiente e a possibilidade de
crescimento para poucos, colocando o lucro em primeiro lugar. Singer (2002) comenta
que a Economia Solidária reage à crise do desemprego em massa, caminhando na
direção oposta ao capitalismo e priorizando os trabalhadores com princípios e valores
que promovem a autogestão, democracia, cooperação, emancipação, reivindicando
melhorias e autonomia da população brasileira.
Segundo Veronese (2004):
Com a crise social das duas “décadas perdidas” (80 e 90), a economia
solidária renasce no Brasil; após algumas experiências isoladas nos anos 80,
em 1991 a empresa calçadista Makerli, em Franca (SP) ressuscitou como
cooperativa, inaugurando uma série de eventos semelhantes nos anos 90.
Ainda nos anos 80, a Cáritas, entidade ligada à CNBB (Confederação
Nacional dos Bispos do Brasil), financiou milhares de pequenos projetos, os
PACs (Projetos Alternativos Comunitários), a princípio para gerar renda para
as populações de periferia. Alguns deram origem a empreendimentos
autogestionários, outros dependem mais de ajuda externa (p. 121).
Assim, a Economia Solidária, através do trabalho coletivo, envolve as demandas
econômicas e sociais dos sujeitos marginalizados, possibilitanto consolidar um
movimento social, afirmação que é corroborada por Paul Singer (2002):
[...] a economia solidária hoje é uma opção adotada por movimentos sociais e
importantes entidades da sociedade civil, como Igreja, sindicatos,
universidades e partidos políticos. Na passagem do século, políticas públicas
1
Não existe uma data específica para o surgimento da Economia Solidária no Brasil, porém considera-se
que o movimento ganhou destaque significamente na década de 1980.
19
de fomento e apoio à economia solidária foram adotadas por muitas
municipalidades e alguns governos estaduais (p. 3).
Dessa forma, a Economia Solidária cria a possibilidade de dar voz aos
marginalizados, consolidar a luta pela desigualdade social e fortalecer alguns
movimentos sociais. De acordo com Scholz (2009), a economia solidária é uma resposta
ao capitalismo, ao desemprego e à exclusão social, sendo uma alternativa de inclusão do
marginalizado no mercado de trabalho. Singer (2002) afirma que o desemprego é um
dos principais fatores para a exclusão social e econômica, necessitando dar
oportunidades e espaços de trabalhos que se organizem coletivamente.
A economia solidária busca enfrentar as desigualdades sociais, como sustenta
Icaza (2004, p. 22), visto que “a economia solidária é um campo de construção de
alternativas econômicas ao modelo dominante, alicerçado em um discurso crítico
transformador e em práticas solidárias e autogestionárias muito próximas dos
movimentos sociais”. Tornando-se uma nova economia que tem como princípios:
autogestão, democracia, cooperação, centralidade do ser humano, valorização da
diversidade (igualitarismo), emancipação, reconhecer o saber local (cultura e tecnologia
popular) e responsabilidade social (BRASIL, 2007).
Singer (2002) destaca que a autogestão é a principal característica dos
empreendimentos de economia solidária, exigindo um esforço adicional desses
trabalhadores, pois além de terem sua ocupação dentro do empreendimento, devem
preocupar-se com os problemas gerais da mesma, envolvendo decisões democráticas e
informações que procedem dos próprios trabalhadores.
Dessa forma, os princípios da Economia Solidária vão contra o modelo vigente,
apresentando dificuldades em sua efetiva prática. Segundo Veronese (2008), a
Economia Solidária nega a base do capitalismo que separa o trabalho da posse dos
meios de produção. A autora enfatiza que as formas de trabalhar nesta economia não
estão ligadas apenas à produção e distribuição de produtos e serviços, mas contribuem
na criação e recriação da vida em sociedade.
A economia solidária reconhece o papel ativo da mulher dentro dos
empreendimentos, promoção da cidadania, valorizando a criatividade tecnológica e o
respeito ao meio ambiente, conforme o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (2014):
A Economia Solidária constitui o fundamento de uma globalização
humanizadora, de um desenvolvimento sustentável, socialmente justo e
voltado para a satisfação racional das necessidades de cada um e de todos os
cidadãos da Terra seguindo um caminho intergeracional de desenvolvimento
sustentável na qualidade de sua vida (p.4).
20
No Brasil, de acordo com Gaiger (2004), começam a ser estruturadas redes de
federação, federações cooperativas, sistemas de trocas e uniões diversas entre os
empreendimentos, sendo instaurado apenas no ano de 2003 a Secretaria Nacional de
Economia Solidária (SENAES), ligada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE),
definida como:
O conjunto de atividades econômicas – de produção, distribuição, consumo,
poupança e crédito organizados sob a forma de autogestão, isto é, pela
propriedade coletiva dos meios de produção de bens ou prestação de serviços
e pela participação democrática nas decisões dos membros da organização ou
empreendimento (BRASIL, 2008, p. 3).
Segundo Singer (2004), a pobreza é condição social, na qual “a falta de dinheiro
obriga as pessoas a morar juntas onde o custo é baixo, como em favelas, cortiços ou na
rua” (2004, p. 27). A necessidade que as pessoas encontram nessas comunidades faz
com que a prática da ajuda mútua seja fundamental para a sua sobrevivência. Deste
modo, o autor sugere que para combater a pobreza é necessário o desenvolvimento da
economia das comunidades pobres com a finalidade de beneficiar todos os integrantes,
proporcionando autonomia e condições emancipatórias.
Dessa maneira, os empreendimentos que têm como estrutura econômica a
economia solidária buscam estabelecer a autogestão de forma democrática, sem
envolver exploração ou desnivelamento entre os trabalhadores. A autora Veronese
(2004) enfatiza a importância da autogestão nesses empreendimentos:
A autogestão é outro critério importante no campo da economia solidária; ela
diferencia-se da heterogestão onde um patrão, chefe, supervisor, ou consultor
nos modelos de gestão contemporâneos, decide, orienta e define os rumos
dos processos e das relações da e na produção. Na autogestão, cada um
deverá ser gestor, discutindo em grupo quais são as ações prioritárias, como
férias, ganhos financeiros etc. O sujeito é interpelado a ser seu próprio gestor,
geralmente tendo toda uma história de subordinação nas experiências
anteriores de trabalho, heterogestionárias e autoritárias (p. 109).
A igualdade de direitos e a horizontalidade das decisões contrapõem a ideia de
liderança e hierarquia das empresas capitalistas. Scholz (2009) defende que para a
gestão de um grupo ser bem exercida nas organizações, precisa valorizar aspectos
sociológicos, psicológicos, econômicos e administrativos, além da particularidade de
cada indivíduo, na qual se busca substituir o autoritarismo individual pela democracia
do grupo.
Veronese (2008) ressalta que a formação da identidade do grupo gera conflitos,
pois esbarra na identidade de cada um, podendo ter como consequência a
21
individualidade e competitividade internalizando a ética do capital e perdendo seu
caráter e valores solidários.
Veronese e Scholz (2013) trazem a dificuldade da prática desses princípios nos
empreendimentos econômicos solidários, encontrando como justificativa a dificuldade
de cada sujeito ser seu próprio gestor e discutir em grupo suas ações. Esse processo, de
acordo com as autoras, gera expectativas no grupo de uma vivência solidária nas
relações, construíndo uma consciência crítica em si e com o uso dos recursos do meio
ambiente e sustentabilidade social, norteados pela autogestão. Entretanto essas
expectativas são vivenciadas como um desafio porque esses trabalhadores possuem uma
história de subordinação nas experiências anteriores.
A economia solidária, de acordo com Beatriz (2009), pode ser um elo entre o
abismo social e a possibilidade de uma economia voltada para a inclusão e diminuição
dos graves problemas sociais. Porém, tem enfrentado como desafio a dificuldade de
convencer a sociedade sobre a necessidade de se pensar na trasformação social e
emancipação do ser humano.
22
3 O TRABALHO COMO CONSTRUÇÃO DE SI
3.1 Trabalho como categoria fundante do ser humano e produtor de consciência
Uma aranha executa operações semelhantes às
do tecelão, e a abelha supera mais de um
arquiteto ao construir sua colméia. Mas o que
distingue o pior arquiteto da melhor abelha é
que ele figura na mente sua construção antes de
transformá-la em realidade. No fim do processo
do trabalho aparece um resultado que já existia
antes idealmente na imaginação do trabalhador.
Ele não transforma apenas o material sobre o
qual opera; ele imprime ao material o projeto
que tinha conscientemente em mira, o qual
constitui a lei determinante do seu modo de
operar e ao qual tem de subordinar sua vontade
(Karl Marx).
Marx (2011) ilustra com este exemplo, o trabalho como categoria fundante do
ser humano, pois a partir dele o homem transforma e organiza a natureza pelas suas
necessidades. Para Marx o conteúdo da essência humana é o trabalho, o qual diferencia
o homem dos demais seres vivos que garantem a sua sobrevivência adaptando-se à
natureza, enquanto o homem age transformando-a, adaptando a natureza a si (DUARTE,
2004). Deste modo, é pelo trabalho que o homem se produz a si mesmo, de acordo com
Duarte (2004) “o que o homem é, o é pelo trabalho” (p.28).
Barbosa (2002) aponta que no decorrer da existência humana, existem registros
da ação do homem transformando a natureza, o que possibilitou obter os bens
necessários para sua sobrevivência. Dessa forma, é possível falar da história do trabalho
que expressa as capacidades de criar o mundo natural e social, sendo passada
culturalmente por uma trajetória progressiva e histórica. Barbosa (2002 apud ARANHA,
1997, p 23) afirma:
À medida que o trabalho muda o jeito de ser, de pensar e de agir de cada ser
humano e de cada cultura, torna-se condição de humanização e instrumento
da liberdade, porque é pelo trabalho que o homem viabiliza a realização de
seus projetos (desejos) no mundo, ao mesmo tempo em que se torna
propriamente humano.
Leontiev (1978) se apropria do pensamento de Marx para afirmar que o homem
é sujeito do processo histórico-social de trabalho, sendo a hominização resultado da
passagem do homem a uma sociedade organizada na base do trabalho. Comenta que o
desenvolvimento do homem decorre de leis biológicas, cujos órgãos se adaptaram às
condições e necessidades da produção e leis sócio-históricas que regem o
23
desenvolvimento da própria produção de trabalho.
Leontiev (1978), ainda, distingue o homem dos animais por construir sua
natureza e reproduzir culturalmente, enquanto o animal se contenta com o
desenvolvimento da sua natureza. Nesse sentido Engels (2004) evidencia:
[...] o que podem fazer os animais é utilizar a natureza e modificá-la pelo
mero fato de sua presença nela. O homem, ao contrário, modifica a natureza e
a obriga a servir-lhe, domina-a. E aí está, em última análise, a diferença
essencial entre o homem e os demais animais, diferença que, mais uma vez,
resulta do trabalho (p. 28).
Ataíde (s/d) apresenta que na perspectiva do pensamento de Marx o trabalho é o
que permite o homem a transformar a natureza para satisfazer as suas necessidades por
meio de uma forma específica historicamente determinada de organização social. Para
Marx (2011), pelo processo do trabalho, os homens passam a produzir a própria vida
material, superando seus limites naturais e produzindo a si humanamente. Assim, o
autor afirma:
O processo de trabalho, como o apresentamos em seus elementos simples e
abstratos, é atividade orientada a um fim para produzir valores de uso,
apropriação do natural para satisfazer as necessidades humanas, condição
universal do metabolismo entre o homem e a Natureza, condição natural
eterna da vida humana e, portanto, independente de qualquer forma dessa
vida, sendo antes igualmente comum a todas as suas formas sociais (MARX,
2011, p. 153).
Segundo Leontiev (1978), o ser humano se apropria de instrumentos e transmite
seu conhecimento e experiências de geração em geração, por meio das suas relações
sociais e operações de trabalho historicamente elaboradas. Nesse sentido, o autor
enfatiza que o desenvolvimento da humanidade decorre da capacidade do homem passar
para as gerações seguintes suas criações e instrumentos, multiplicando e aperfeiçoando
o trabalho.
Pela sua atividade, os homens não fazem senão adaptar-se à natureza. Eles
modificam-na em função do desenvolvimento de suas necessidades. Criam os
objetos que devem satisfazer as suas necessidades e igualmente os meios de
produção desses objetos, dos instrumentos às máquinas mais complexas.
Constroem habitações, produzem as suas roupas e outros bens materiais. Os
progressos realizados na produção de bens materiais são acompanhados pelo
desenvolvimento da cultura dos homens; o seu conhecimento do mundo
circundante e deles mesmos enriquece-se, desenvolvem-se a ciência e a arte
(LEONTIEV,1978, p. 3).
Oliveira (2010) comenta que sob a ótica de Marx o trabalho humano se
diferencia da atividade produtiva dos demais seres vivos por envolver consciência,
volição e capacidade de produção universalmente. Aguiar (2000) confirma que o
24
homem “é mediado pelo social, determinado histórica e socialmente, e que não pode
jamais, ser compreendido independentemente de suas relações e vínculos” (p. 127).
Oliveira (2010) acrescenta que o trabalho possui caráter antropológico, pois ao trabalhar
o homem não utiliza apenas uma atividade instintiva para satisfazer suas necessidades,
mas desenvolve constantemente um processo de criação e autocriação humana.
Carvalho et al. (2010) destacam que Vygotsky ao tratar sobre consciência, a
considerava um fenômeno histórico e social, pois o homem apropria-se da sua história a
partir do discurso social, repassando para as próximas gerações. Isto é, o homem ao se
constituir através do social torna-se resultado deste convívio social. Assim Vygotsky
(1924 apud CARVALHO et al., 2010) conceitua a consciência a partir da palavra como:
[...] detentora de propriedades da consciência. Esses significados são
convertidos em sentidos pessoais, de acordo com as necessidades e emoções
que motivaram o seu uso. Dessa forma, o sentido é soma de todos os eventos
psicológicos que a palavra desperta na consciência. A palavra, como
detentora de significado, ao mesmo tempo em que desperta eventos na
consciência, é base para a sua formação. Nesse sentido, a consciência possui
origem social, já que os reflexos reversíveis originados da palavra servem de
fundamento para a comunicação social e para a coordenação coletiva do
comportamento (p.18).
Dessa forma, a consciência é explicitada como algo originado pelo relevo social
e regido através da fala, esta que é preenchida por significados que envolvem o homem.
Assim, para Vygotsky o papel do trabalho atua como um formador da consciência
humana (TOASSA, 2006).
A autora Ataíde (s/d) apresenta que nos legados da obra de Marx é abordado o
homem como transformador da natureza, ao mesmo tempo que também transforma a si
mesmo. Afirma que por intermédio do trabalho, o homem produz e é produto da sua
obra, ou seja, faz-se duplamente a si próprio, “de modo que chega a contemplar-se
dentro de um mundo feito por ele” (s/d, p.332).
De acordo com Barbosa (2002) o trabalho existe para satisfazer integralmente as
necessidades humanas, construindo a identidade e o reconhecimento do sujeito, e à
medida que a sociedade se complexifica, a integração plena entre trabalho teórico e
prática também acaba tornando-se mais complexo. O autor comenta que a hierarquia
das classes sociais que organiza as sociedades, fez com que alguns trabalhadores não
tivessem acesso à educação formal. Porém, o modo de produção capitalista é regido
pela necessidade de ampliar a formação do trabalhador por meio da educação formal,
favorecendo os sujeitos que correspondem às necessidades do mercado de trabalho, mas
o acesso à educação formal é destinado para poucos, de tal modo que a oportunidade
25
seja para poucos trabalhadores.
Vygotsky (1924) nomeia a relação de transformação do meio pelo homem
através de instrumentos, e este sendo transformado ao realizar esta manobra, como
atividade humana. Aguiar (2000) enfatiza que o homem constrói a sua existência por
meio da sua ação na sociedade, objetivando satisfazer suas necessidades, ou seja, o
homem modifica o meio em que vive através de sua ação para satisfazer suas demandas,
confirmando que esta ação é preenchida por “um movimento de apropriação que
envolve a atividade do sujeito, isso significa que o sujeito modifica o social, de forma
que o social modificado representa a possibilidade do novo, da criação” (AGUIAR,
2000, p. 129).
Aguiar (2000) ainda ressalta que a atividade ocorre por meio do processo social,
existindo pelo significado, conceituando a consciência por um processo dialético
entendido por Aguiar (2000) como:
A consciência, dessa forma, é semioticamente estruturada, resultado dos
próprios signos, ou seja, de instrumentos construídos pela cultura e pelos
outros que, quando internalizados, se tornam instrumentos internos e
subjetivos da relação do indivíduo consigo mesmo (p.130).
Assim, Aguiar (2000) trata a consciência como integrada ao coletivo e ao
singular de cada sujeito, possibilitando uma condição de mudança e transformação de
sua vida através da ação, permitindo uma relação dialética que constitui o sujeito,
descrita pela autora como:
O homem transforma a natureza com sua atividade por meio dos
instrumentos e, assim, transforma-se a si próprio. Dessa maneira, se o ser
humano forma-se por meio de uma relação dialética com a realidade social,
não cabe a idéia de que a constituição do sujeito resulte de uma mera
transposição do plano social para o individual. A constituição do sujeito é
vista, pois, como resultado de um processo de conversão do social no
individual, sem que indivíduo e sociedade mantenham entre si uma relação
isomórfica (AGUIAR, 2000, p.131).
Dessa forma a categoria atividade é entendida como sinônimo de transformação
social a partir da construção de uma consciência crítica, tratando do trabalho como algo
relevante à constituição dessa dialética (FURTADO, 2007). De acordo com Duarte
(2004), o trabalho é visto como uma atividade vital “que garante a existência não só da
vida individual, mas de toda sociedade que a sustenta” (p.57).
O trabalho é visto pelos autores com embasamento no materialismo histórico e
dialético como central na construção da identidade do sujeito. De acordo com Codo
(2010), o trabalho representa uma transformação da natureza, gerando significados ao
26
homem. Veronese (2009) comenta que as experiências de trabalho produzem
significados que interferem na maneira como o sujeito aprende, expressa e vivencia suas
relações subjetivas. A autora complementa que o trabalho é vivenciado de forma
singular partindo de uma experiência coletiva. Assim, a subjetividade é um fenômeno
que ao mesmo tempo trata-se do sujeito individual e do seu mundo social, sendo o
trabalho uma fonte de subjetivação.
Veronese (2006) afirma que a subjetividade antes de ser individual responde a
uma instância coletiva, social e histórica, onde cada pessoa entende o mundo de uma
forma única, de acordo com a sua história de vida e das suas relações sociais.
Dessa maneira, Rey (2003 apud VERONESE, 2009) define a subjetividade
como “um processo complexo de construção simbólica de sentidos, sobre si e o mundo,
simultaneamente um fenômeno da pessoa ou sujeito singular e de seu lugar sócio
histórico” (p. 91). Para os autores Codo e Jaques (2002) parte do processo de
subjetivação do homem se forma a partir do trabalho que trás um significado para cada
sujeito, englobando suas motivações e sofrimentos.
3.2 Quando o trabalho resulta em alienação
A sociedade mecânica é a sociedade do ter.
Estamos dizendo todo dia que nós precisamos ter
para ser. E para ter é preciso comprar. Para
comprar é preciso ter renda. Para ter renda é
preciso trabalhar. Logo, a minha vida se
transforma basicamente em trabalho (Márcio
Pochmann).
A alienação, abordada por Duarte (2004), pode ser resultado de um trabalho que
não integra o ser humano. Duarte (2004) utiliza a alienação para referir-se aos sujeitos
que não têm consciência da sua própria situação, perdendo a condição de sujeitos de
seus próprios atos e obras, não se reconhecendo como responsáveis pela autoria de sua
própria vida e história.
Em Marx, a alienação, de acordo com Duarte (2004), consiste na capacidade do
não reconhecimento do homem enquanto sujeito e criador do seu trabalho, pois a sua
produção e atividade passa a ser considerado como algo externo à sua subjetividade, “no
qual o homem não encontra a sua realização, mas a sua perdição, um fator de
sofrimento e não de satisfação” (p. 34).
Dessa forma, o predominante modelo econômico, o capitalismo, produz a
27
separação do trabalho com o capital interessando-se apenas pelo produto final: o capital.
Assim, o salário adquirido pelo trabalhador por meio da venda da sua força de trabalho,
gera lucro, o interesse fundamental do capitalismo (MARX, 2004).
Marx (2004) destaca que este modelo econômico torna o trabalhador uma
mercadoria, valorizando o que se produz, e desvalorizando o homem que a produz.
Segundo Duarte (2004), o trabalho alienado ao mesmo tempo em que realiza a produção
de mercadorias, produz o próprio homem como mercadoria. Esta relação reduz o
homem a um objeto, pois esquece que o trabalho não gera apenas produtos, também
gera a si mesmo, de tal modo que o trabalho diminui o homem ao se igualar à
mercadoria (MARX, 2004).
Portanto, o trabalhador e o seu trabalho são considerados objetos, que têm como
finalidade produzir o capital. Oliveira (2010) ressalta que Marx em seus estudos
apresenta o trabalho como algo de “estranhamento ao homem” (p. 80), pois o mesmo é
subordinado ao capital, reduzindo este homem à produção. Dessa forma, o trabalho
perde sua finalidade criadora, para se tornar uma atividade de estranhamento, que
apenas satisfaz suas necessidades básicas como comer e beber, através do salário
recebido (OLIVEIRA, 2010).
Leontiev (1978) enfatiza que o homem se apropria dos objetos quando
estabelece uma relação histórica com os mesmos, ou seja, se reorganiza com os
instrumentos e métodos instintivos para produzir. Entretanto, o autor realça que ao
separar o homem do trabalho (meios de produção) realizado, separação nomeada pelo
autor como “alienação econômica” (p. 8), opera-se uma divisão social do trabalho, que
consequentemente modifica o produto do trabalho em objeto, tornando este trabalho
impessoal para o trabalhador, conforme confirma o autor:
Assim, enquanto globalmente a atividade do homem se enriquece e se
diversifica, a de cada indivíduo tomado à parte estreita-se e empobrece. Esta
limitação este empobrecimento podem tornar-se extremos, sabemo-lo bem,
quando um operário, por exemplo, gasta todas as suas forças para realizar
uma operação que tem de repetir milhares de vezes (LEONTIEV, 1978, p. 9).
Com isso, o trabalho perde seu significado e o homem iguala-se à mercadoria,
que pode se vendida e/ou comprada. Oliveira (2010) apresenta que Marx vai além da
análise antropológica do trabalho, expondo a condição negativa do trabalho, como as
contradições determinadas pela propriedade privada, na qual o homem perde a sua
essência ao objetivar-se nos produtos do trabalho.
De acordo com Oliveira (2010), no capitalismo ocorre a perda subjetiva e
28
histórica do homem no trabalho, sendo valorizado o trabalho assalariado e produtor de
mercadorias. Dentro da perspectiva do pensamento de Marx, Oliveira (2010) comenta
que o trabalho apresenta um elemento de subordinação ao capital, ocorrendo à
mortificação do homem, no qual se sente fora de si e subtraído ao sistema capitalista.
Marx (2004) conclui que no modo de produção capitalista o trabalhador torna-se
mera mercadoria, ressaltando que: “o trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais
riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O
trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadoria cria”
(MARX, 2004, p. 80). Oliveira (2010) apresenta como consequência dessa situação a
supervalorização do mundo material (dos objetos produzidos) e uma desvalorização do
homem. Dessa forma, Marx (2004) afirma:
A efetivação do trabalho tanto aparece como desefetivação que o trabalhador
é desefetivado até morrer de fome. A objetivação tanto aparece como perda
do objeto que o trabalhador é despojado dos objetos mais necessários não
somente à vida, mas também dos objetos do trabalho. [...] A apropriação do
objeto tanto aparece como estranhamento que, quanto mais objetos o
trabalhador produz, tanto menos pode possuir e tanto mais fica sob o domínio
do seu produto, do capital (p. 80-81).
Com os dilemas e contradições do sistema capitalista, segundo Oliveira (2010),
uma realidade de sofrimento, desigualdade e miséria submetem uma parcela social, a
classe trabalhadora. Oliveira (2010) afirma que o “homem é produto do seu trabalho”,
assim a humanidade se torna mais objetiva e material quanto o próprio ato de produção,
restando ao trabalhador uma pobreza exterior e interior.
Segundo Duarte (2004), dentro da concepção de Marx o homem se constitui
pelo conjunto das suas relações históricas e sociais. Duarte (2004) reflete que dessa
forma, o homem só se torna um “ser humanizado” a partir do momento que assimilar e
incorporar a sua própria vida, suas atividades, produções, comportamentos e as suas
relações cotidianas com os outros homens. Oliveira (2010) comenta que por meio do
trabalho alienado o homem inverte esta relação de construção de sua subjetividade, já
que transforma sua atividade, seu trabalho em simples meio para prover sua existência.
Veronese (2006) realiza uma crítica a este sistema capitalista por produzir
sujeitos no seu modo de trabalhar que correspondam à demanda de uma produção que
resulte na lucratividade dos mercados, reduzindo o ser humano a um objeto para gerar
lucro.
Furtado (2010) explana que as condições de trabalho produzem alienação do
homem, onde as empresas capitalistas passam a “coisificar o próprio corpo do
29
trabalhador” (p. 116). O autor ainda acrescenta que o operário não opera apenas as
máquinas, mas seu corpo passa a ser uma extensão da máquina, transformando o seu
próprio ser em uma máquina de produção. Dessa forma, Furtado (2010) conclui que este
sistema capitalista competitivo propicia a alienação do homem frente à sua própria
identidade profissional de trabalhador, sendo que o “mais forte elimina o mais fraco e a
regulação é realizada pelas exigências do mercado, [...] exigindo desse trabalhador mais
que a sua força de trabalho, exigindo o seu corpo, a sua saúde” (p.117).
3.3 Trabalho e Saúde Mental
Jacques Christophe Dejours, psicanalista, que contribuiu para o entendimento da
saúde mental no trabalho, destaca que as vivências dos operários são marcadas por
sentimentos como a ansiedade e insatisfação, estes que se sentem como máquinas
robotizadas, sem espaço para reconhecimento da imaginação e inteligência de cada um,
carregando um significado frustrante, preenchido pelo ciclo de inutilidade (DEJOURS,
1992). Dessa forma, o autor realça que o trabalho passa a ser um significante, logo, ao
executar uma tarefa sem investimento material ou afetivo exige uma máxima produção
de esforço, o que gera nos trabalhadores um sentimento de inutilidade, acompanhados
de ansiedade e insatisfação.
Assim, Dejours (1992) apresenta uma crítica ao modelo econômico dominante,
o capitalismo que produz exclusão e desigualdade social, envolvendo uma vivência
conflituosa associada à perda do emprego, ou seja, à possibilidade de viver a miséria e a
pobreza, esquecendo que muitas vezes já se vive ela. Dejours (1992) problematiza este
sofrimento: “o afrontamento do homem com a sua tarefa põe em perigo sua vida mental”
(p. 11), pois coloca em risco sua identidade, sua subjetividade.
Heloani e Capitão (2003) apontam que o capital através do trabalho organiza a
estrutura do mundo, visto que o trabalho exerce um papel fundante na vida do sujeito,
abrindo possibilidades de constituição da sua subjetividade. Entretanto, os autores
trazem que:
As pessoas parecem não mais estarem preocupadas com o significado do seu
trabalho ou com a oportunidade de vivência e troca coletiva. A preocupação
volta-se para a acumulação de um valor de troca, como se todos se
convertessem em uma ação de mercado, cujo preço é julgado por outrem (p.
103).
De tal modo, o sujeito e o trabalho são mediados pelo significado que traz o
30
capital. Codo (2010) ainda apresenta uma discussão sobre a forma como a divisão no
trabalho organiza também as relações sociais, familiares e seu cotidiano, pois o trabalho
“determina as possibilidades de vínculo” (p.178), tornando-se um fato social capaz de
intervir na dinâmica da vida do trabalhador.
Codo (1988) também traz que o trabalho tem função determinante na produção
ou ausência da saúde mental, enfatizando que o capitalismo monopolizado e financeiro
contribui para um trabalho “vazio” (p.21), o que diminui o trabalhador ao produto, ao
lucro, de tal modo que o trabalho é visto como uma mercadoria.
Pochmann (2010) ainda complementa: “Estamos todos consumidos com o
trabalho. Estamos gerando uma sociedade do individualismo profundo, uma sociedade
da depressão. Quer dizer, uma sociedade do medo, com doenças como o Burn out” (p.
3).
Assim, Codo (2010) acrescenta que o trabalho tanto pode alavancar o sofrimento,
quanto ser capaz de promover prazer e saúde mental. Codo (2002) apresenta algumas
variáveis que podem ser determinantes para o nível de saúde mental do trabalhador:
O significado do trabalho, ou seja, o controle do trabalhador sobre o trabalho,
a importância social do trabalho, a rotina, o sentido do trabalho, as relações
sociais de produção, ou seja, o relacionamento com os colegas e com a
hieranquia, as atitudes do trabalhador frente ao trabalho, sua satisfação e seu
comprometimento, a carga mental no trabalho, as dificuldades no
relacionamento social do trabalhador devido ao trabalho, suporte social,
suporte afetivo, conflito-trabalhador-família, são todas variáveis já
conhecidas como importantes para determinar o nível de saúde mental do
trabalhador (p.187).
Codo, nesta afirmação, aponta para a importância do controle do trabalho pelo
trabalhador, este que apenas acontece, de acordo com o mesmo autor, quando ele tem
conhecimento de todas as etapas pela qual passam os produtos que confecciona. Marx
(2004) ao explanar sobre a divisão do trabalho como fragmentação da consciência,
ressalta que este leva ao adoecimento, logo, o oposto, leva à saúde mental. Neste sentido,
a Economia Solidária traz a construção de um modelo econômico baseado nas práticas
autogestionárias, convocando o trabalhador para integrar-se ao produto construído,
caminho contrário à prática capitalista.
Codo e Sampaio (1994) propõem uma reflexão sobre os antagonismos que
acompanham o trabalho que pode produzir prazer acompanhado de adoecimento
psíquico, apontando que o trabalho coloca o homem diante de algumas contradições
como a possibilidade de exercer a interrelação entre objetividade e subjetividade, pois
ao mesmo tempo em que o trabalho constitui a identidade é antagonicamente
31
responsável por revelar uma face alienada do trabalhador.
Uma das características marcantes de empresas capitalistas é justamente seu alto
grau de hierarquização e divisão do trabalho. Ou seja, o sistema capitalista faz uso dessa
fragmentação do trabalho, uma vez que os trabalhadores localizados nos níveis mais
baixo desta hierarquia não possuem conhecimento e muito menos direito à opinião
naquilo que é decidido nas escalas superiores. Assim, considera-se que o exercício do
trabalho na sua plenitude é incompatível com o capitalismo.
Por outro lado a economia solidária vai ao encontro deste exercício. Isto porque
a economia solidária, através de seus princípios norteadores, permitem que todos os
trabahadores exerçam sua criatividade além de poder decidir ou tomar conhecimento2
de todas as decisões tomadas no empreendimento.
2
Em empreendimentos em que o número de associados é grande, é inviável que todos participem
diretamente de cada decisão tomada. Não obstante, todos os trabalhadores participam da escolha de
comissões que são responsáveis por decidir determinados assuntos. Além disso, essas comissões
divulgam internamente e de maneira transparente o seu trabalho.
32
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
4.1 Caracterização da pesquisa
Este trabalho contempla uma pesquisa qualitativa, descrita por Rey (2012) como
uma pesquisa que visa entender através das experiências práticas o problema pesquisado,
proporcionando um maior entendimento e conhecimento acerca do assunto no “cenário
social” (p.81). A pesquisa qualitativa visa, sobretudo, ao conhecimento dos sentidos
subjetivos que os sujeitos atribuem à realidade que vivenciam, num aprofundamento
dos valores, ideologias, experiências e sentidos que carregam a subjetividade humana
(REY, 2012). Assim, Rey (2012) destaca que o pesquisador estará imerso no campo
pesquisado, podendo visualizar o problema de pesquisa de forma completa.
Nesta pesquisa foi utilizado como método a História Oral que buscou evidenciar
por meio das entrevistas a subjetividade de cada entrevistada, resgatando a
singularidade no discurso. Rey (2012) considera a pesquisa qualitativa essencial para
produção de teoria, ou seja, de estudos que não são diretamente acessíveis. Portanto, o
autor define a pesquisa qualitativa como a construção de representações capazes de
articular diferentes assuntos e gerar inteligibilidade sobre o que pretende conhecer na
pesquisa.
A História Oral configura-se como um método de compreensão do passado,
procurando buscar em documentos orais elementos significativos da história contada
pelo sujeito, garantindo a subjetividade de cada história e indagando novas percepções
do objeto estudado (SILVEIRA, 2007). Isso justifica a escolha desse método, pois de
acordo com Delgado (2003), produz uma narrativa de um saber real ou imaginário, por
meio da recordação de memórias aleatóriamente. O autor ainda cita que a história oral
visa compartilhar o registro de lembranças, confirmando que na história oral o sujeito:
Fala, escuta e troca olhares para compor
único e essencial à vida humana, pois
possibilidade escutar, de contar histórias
conhecimento, ou melhor, de sabedoria,
2003, p.23).
essa dinâmica, sendo um processo
não se vive em plenitude sem a
e de se apreender sob a forma de
o conteúdo narrado (DELGADO,
Dessa forma, a História Oral foi utilizada como um método para levantamento
das narrativas e experiências de vida das participantes. Utilizou-se uma entrevista
semiestruturada (disponível no apêndice B), para orientar a condução da história oral, na
qual buscou elucidar a problemática do trabalho, respeitando as memórias, lembranças
33
do sujeito, sem procurar organizar seu discurso ou interromper suas lembranças. Sobre
isso, Andrade (2010) aponta:
Cada indivíduo carrega consigo uma trajetória histórica referente aos anos
vividos, influenciada pelo local de onde o sujeito fala, ou seja, sua cultura,
visão, comunidade e família. Toda a história é subjetiva, pois ela é formada
por autores distintos, sendo esses os próprios viventes. O que pode acontecer
é que em grupos de pessoas que têm algo em comum, como por exemplo,
trabalho, alguns fatos dentro de suas histórias particulares podem ser também
percebidos em outras pessoas desse mesmo grupo (p. 43).
Levando isso em consideração, a pesquisa foi desenvolvida em um
empreendimento incubado pela Incubadora de Empreendimentos de Economia Solidária
(IESol) da cidade de Ponta Grossa. O empreendimento em questão é composto por seis
(6) trabalhadores, no qual três (3) mulheres participaram da pesquisa.
4.2 Procedimentos da pesquisa e caracterização das participantes
Este trabalho contemplou pesquisa bibliográfia e empírica. Após o projeto ser
aprovado pelo comitê de ética em pesquisa da Faculdade Sant’Ana, foi realizado o
convite para as feirantes participarem da História Oral, onde as próprias feirantes se
organizaram para decidir quais seriam as voluntárias do grupo para participar da
pesquisa.
Os dados coletados foram gravados e transcritos com a autorização das
entrevistadas. O equipamento utilizado foi um gravador e posteriormente foi realizada
as transcrições de cada relato de história de vida. Após as transcrições das entrevistas,
foram realizadas leituras exaustivas para selecionar as falas que chamassem atenção
para o objetivo da pesquisa. Em seguida foi categorizado cada discurso em suas
semelhanças e diferenças, destacando o objeto de estudo do projeto e os pontos
relevantes de cada relato. Pode-se verificar a história das feirantes no apendice A,
porém para fins éticos, foram atribuídos pseudônimos às entrevistadas, para que assim
tivessem a sua identidade preservada.
A primeira História Oral foi realizada com a feirante Manu no mês de setembro
de 2014, tendo duração de 2 horas e 57 minutos. O local para a realização da entrevista
foi escolhido pela própria feirante que decidiu realizar na sua casa, mais
específicamente no seu quarto e deitada na cama. Manu é uma senhora de 59 anos que
tem três filhos, é separada e vive atualmente com o filho de 31 anos, a filha de 35 anos e
o neto. Trabalha como feirante há 20 anos e depende financeiramente da renda do
34
empreendimento.
Outra participante é a Lilian de 57 anos, a sua entrevista foi realizada no mês de
outubro de 2014, tendo duração de 1 hora e 27 minutos. A mesma aconteceu em sua
casa.
Lilian é de Minas Gerais e se mudou para o Paraná ainda criança após o
falecimento da sua mãe. A feirante é casada e tem 4 filhos, aprendeu a costurar e a fazer
artesanato na infância observando a sua mãe e depois de casada passou a realizar
costuras em casa, porém o seu sonho era vender o que produzia e encontrou na feira de
Economia Solidária a possibilidade de mostrar seu trabalho.
A última História Oral foi realizada com a Lívia Maria de 59 anos que trabalha
vendendo alimentos na feira de Economia Solidária. A entrevista ocorreu na casa da
feirante no mês de outubro de 2014 com a duração de 1 hora e 50 minutos. Lívia foi
criada em um sítio e relatou que durante a sua infância já vivenciava a Economia
Solidária, explicando o quanto as pessoas no campo eram solidárias, pois repartiam a
colheita e ajudavam uns aos outros. É casada, tem dois filhos e depente exclusivamente
da renda do emprendimento solidário. Atualmente Lívia é coordenadora do
empreendimento.
As histórias contadas foram organizadas em três categorias que buscaram
atender aos objetivos de pesquisa. As categorias são: A experiência de trabalho no
capitalismo; Individual x Coletivo: motivações para integrar uma experiência de
Economia Solidária; Significado do trabalho na Economia Solidária.
apresentadas individualmente na sequência.
Estas serão
35
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A produção de uma narrativa é construída através do discurso de cada sujeito
que carrega uma história, podendo ser visualizada através do método da história oral
(DELGADO, 2003). Veronese (2006) ressalta que a subjetividade não é apenas algo
individual, mas sim uma instância coletiva, social e histórica. E essa subjetividade pode
ser definida como uma complexa construção simbólica de sentidos sobre si mesmo e o
mundo (VERONESE, 2006).
Delgado (2003) descreve que a metodologia da história oral é voltada para a
produção de uma narrativa contada, sustentando um saber através do discurso do
entrevistado. Assim, as histórias que serão apresentadas foram baseadas nos discursos
de três mulheres que compõem um empreendimento que exerce como modelo
econômico a Economia Solidária.
5.1 A experiência de trabalho no capitalismo
“Mas eu tinha o maior gosto para trabalhar. Era
forte para trabalhar. Tentava arrumar um
serviço e não dava certo” (LÍVIA MARIA, 57
anos).
De acordo com Frigotto (2000), o sistema econômico capitalista interessa-se
pelo excesso de mercadorias que resultam no acúmulo de mais-valia, usando como
estratégias produzir mercadorias com o menor custo, consequentemente excluindo
trabalhadores excedentes e impulsionando as desigualdades sociais.
Sendo assim, é possível identificar na fala da entrevistada Lívia Maria esta
dificuldade de inclusão no mercado de trabalho capitalista. Este que objetiva-se em
valorizar o acúmulo de riquezas, marginalizando os sujeitos, pois há uma crescente
demanda, fazendo com que a mão de obra seja entendida como mercadoria. Marx (2011)
afirma que a força do trabalhador dentro das empresas capitalistas é considerada
necessária para aumentar a mais-valia, sendo essencial para o funcionamento deste
modelo econômico, seguindo a lógica competitiva, de tal modo que não existam vagas
para todos, sustentando um exército de reservas dentro do capitalismo. Esta entrevistada
trata-se de uma senhora que morou no campo até o nascimento do seu primeiro filho,
apontando que não era seu desejo morar na cidade, mas em busca de melhores
condições de saúde para o seu filho submeteu-se a sair do campo para a área urbana.
36
Nesta mudança a família se deparou com dificuldades para entrar no mercado de
trabalho, pois tinham baixa escolaridade e apenas conhecimentos rurais. Como pode ser
verificado na seguinte fala:
“Daí lá no sítio você pode não ter nada, mas você não passa fome, aqui você
passa. Aqui se você não trabalhar você não come” (LÍVIA MARIA, 57 anos).
A família de Lívia Maria ao deparar-se com a realidade competitiva e
individualista do mercado de trabalho acabou encontrando nos empregos informais
condições para a sua sobrevivência, aceitando empregos precários. Neste discurso podese identificar historicamente a crise ocorrida no Brasil na década de 1980, pois foi neste
contexto que aconteceu o êxodo rural da família da entrevistada.
Durão (2003) em sua teorização sobre a crise da década de 1980 e 1990 aponta o
excessivo índice de desemprego que elevou a desigualdade social, caracterizada pela
mão de mão-de-obra barata e desvalorizada, onde o trabalhador estava submetido a
péssimas condições de trabalho.
As entrevistadas Lilian e Livia Maria reafirmam esta exclusão no modelo
econômico capitalista, enfatizando sua experiência, pois a mesma depois de casada
também saiu do campo para a cidade, afirmando a dificuldade em encontrar emprego e
o desejo de adentrar no mercado de trabalho:
“Eu tinha muita vontade de trabalhar, mas nunca tive a oportunidade de
trabalhar fora” (LILIAN, 59 anos).
“Eu pensava: „Aí meu Deus do céu... Tanta vontade que tenho de trabalhar e
não tenho a oportunidade de mostra o que a gente sabe fazer‟. Ninguém dava
oportunidade para a gente” (LÍVIA MARIA, 57 anos).
Marx (2011) destaca que o capitalismo prioriza a excedente movimentação de
mercadorias, estando centralizado no aumento da mais-valia deixando de lado os
sujeitos que não atingem as expectativas do capitalismo. Marx (2011) explana que para
converter dinheiro em capital, parte do funcionamento do capitalismo, é imprescindível
o valor-de-uso, ou seja, a força do trabalhador, que dessa maneira transforma-se em
mercadoria, afirmado na fala de Manu:
“[...] mas eu já cansei de pegar amanhecer na mesa da cozinha, pintando
pano de prato, fazendo bordado, assim a noite inteira fazendo aqueles panos
de prato, 6 horas eu esperava abrir uma padaria que tinha aqui na rua
grande, a única padaria e quando a mulher abria eu ia oferecer os panos de
pratos e eu ai dizia: - „Mas eu não quero dinheiro, eu vim vender pra
senhora porque eu quero mercadoria‟, ai eu pegava leite, pão, chineque,
doce, margarina” (MANU, 59 anos).
Nesta fala a entrevistada Manu fala sobre um modo de organização social para
37
inserir-se no mercado de trabalho, confeccionando seu artesanato exaustivamente para
sua sobrevivência. Frigoto (2000) explana a teorização de Marx sobre o modelo
econômico capitalista que interfere diretamente na organização social. Assim, o
capitalismo centraliza seu objetivo no acúmulo do capital, de tal modo que o trabalho é
considerado mercadoria, escamoteando o ser humano que a produz.
Singer (1991) indica a gradual forma de consolidação do capitalismo como
modelo econômico vigente, marcado pela substituição do homem pelas máquinas
industriais, podendo ser visualizado na seguinte fala:
“[...] daí eles não precisavam mais de ninguém pra fazer cafezinho porque
dentro da Altonal tinha as máquinas de café tudo, tiraram dois rapazes e
deixaram eu porque o meu patrão confiava em mim” (MANU, 59 anos).
Nesta fala é possível perceber a exclusão ampliada com a demissão de dois
trabalhadores que foram substituídos pela máquina de café, sem levar em consideração
suas necessidades objetivas e subjetivas com o emprego, aumentando o desemprego, a
desigualdade social e consequentemente a competitividade.
“Tinha um prazo. E pegava por exemplo no início da semana, até o final da
semana tinha que entregar. Ou era assim, ganhava por peça, a pressa era
minha. Então eu trazia aqui costurava e se conseguisse fazer tudo em menos
dias eu levava lá e trazia mais cortada” (LILIAN, 59 anos).
Esse modo de organização social baseado na exploração dos trabalhadores
resulta diretamente nos seus sofrimentos físicos e psíquicos, impedindo a produtividade
do trabalhador e a possibilidade de ampliar as perspectivas desse sujeito (SINGER,
2002).
Em decorrência da consolidação dos valores capitalista no país, sistema esse que
tem como prioridade a competitividade, o lucro e individualidade, observamos o
aumento da desigualdade social e da pobreza. Costa e Souza (2005) apontam a pobreza
como uma consequência das ações humanas que seguem a lógica capitalista de exclusão
do trabalhador.
Frente a esta realidade algumas pessoas passaram a valorizar e
consolidar alternativas coletivas, baseadas no solidarismo popular (SINGER, 2002).
“Mas a Economia Solidária é uma semente, é uma sementinha ainda, que
está colocada na terra, mas ela nem deu os frutos, porque nós dependemos
do capitalismo” (LÍVIA MARIA, 57 anos).
Na fala acima é possível observar a consciência crítica da feirante, que percebe a
economia solidária sendo desenvolvida, mas ainda submetida a valores priorizados no
capitalismo.
38
5.2 Individual X Coletivo: motivações para integrar uma experiência de Economia
Solidária
Como modelo econômico, a Economia Solidária abrange os resultados da
crescente desigualdade social gerada pelo capitalismo (RANGEL e MANOLESCU,
2012). Singer (1991) ainda complementa apontando que o modo de produção capitalista
é sustentando pela propriedade privada, consequentemente resultando na desigualdade e
competição entre os trabalhadores.
Dobb (1976 apud ROIZ, 2009), ainda, aborda a origem e o desenvolvimento
desse modelo econômico a partir de uma crise, a do sistema feudal, dando ascendência à
circulação de mercadorias, que logo são consideradas imprescindíveis para o aumento
da mais-valia. Singer (1991) ainda acrescenta que após a revolução das máquinas, estas
passaram a sobrepor o homem, gerando exploração do trabalho e aumento da
competitividade no mercado de trabalho, realizando a exclusão de uma massa de
trabalhadores, podendo ser confirmada através da fala de Lívia Maria, que ao migrar do
campo para a área urbana, não conseguiu incluir-se no mercado de trabalho capitalista.
“Eu queria um serviço, eu queria poder mostrar o que eu fazia, eu queria
uma oportunidade, eu queria uma chance na minha vida, eu fui procurar pra
ver se, porque já que não queriam que eu trabalhasse de empregado, nunca
me quiseram” (LÍVIA MARIA, 57anos).
A partir desta realidade Lívia Maria ainda relata:
“Porque daí não dava, só um trabalhando e ainda ganhando pouco. Daí eu
vivia triste porque lá no sítio eu plantava milho o dia inteiro com o meu pai,
antes de casar. Plantava arroz pra mim, o meu pai marcava um pedaço lá e
falava „Esse é teu‟, daí eu mesma cuidava com as minhas amigas e vendia.
Daí eu casei e plantava eu e o meu marido juntos, nossa lavora era muito
linda, eu tenho muita saudade” (LÍVIA MARIA, 57anos).
Lívia Maria nessa fala encontra-se na crise da década de 1980 e 1990 no Brasil,
caracterizada pelas altas taxas de desemprego, resultando em uma acentuada
desigualdade social (DURÃO, 2003). Dessa forma, Singer (2002) aponta o ressurgir da
Economia Solidária no Brasil, fomentando o trabalho coletivo, trazendo como base do
trabalho o ser humano e as práticas autogestionárias. As entrevistadas trazem uma
história de vida semelhante, que foram permeadas por valores solidários, o que tornou a
experiência na economia solidária mais próxima das suas vivências, ressignificando os
valores apreendidos na infância, conforme podemos verificar nas falas abaixo:
“Quando eu era criança, eu tenho muitas recordações lindas do meu pai
sabe, o meu pai foi uma pessoa muito bondosa, uma pessoa boa e solidária,
39
mas a gente não via, não sabia esta palavra” (LILIAN, 59 anos).
“E a gente trocava com os vizinhos e não era só trocado cereais ou alimento,
era trocado serviço. Quando tinha que limpar a roça do vizinho todo mundo
se juntava e fazia tipo uma reunião de gente e limpava a roça do amigo. Daí
se chamava „trocar dia de serviço‟, quando era pra limpar o da gente vinha
todos para a casa da gente” (LIVÍA MARIA, 57anos).
“[...] fiz na minha adolescência com o maior prazer do mundo... De ir
trabalhar no coletivo e ajudar a fazer as coisas para fazer o bazar no final
do ano. Sem pensar no retorno do dinheiro, fazer pelo prazer de ajudar. E
daí poder ver aquelas pessoas querendo aprender a fazer as coisas, por isso
que eu falei assim... Eu só lidava com adolescentes carentes” (MANU, 59
anos).
Nestas falas é possível identificar práticas da Economia Solidária na história de
vida de cada feirante, onde todos possuíam o poder de escolha. Singer (2002) enfatiza
que a principal diferença entre a economia capitalista e a economia solidária é a forma
como as empresas são administradas, onde uma empresa capitalista segue um modelo
hierárquico, no qual as ordens e instruções fluem de cima para baixo, sendo que os
níveis considerados superiores devem tomar todas as decisões sobre os rumos do futuro
da empresa, ou seja, a heterogestão. Algo que marca a fala de Lilian.
“Eu penso assim não tem que ter uma pessoa que manda, a gente é tudo
igual, e naquela época „tinha uma pessoa que ditava o que que era pra fazer,
isso, isso, e desse jeito, mas eu quero fazer daquele outro jeito que é melhor,
não você tem que fazer e pronto, não é bem assim, pra gente obedecer, e dai
eu como sou muito tímida, eu sei lá‟, eu tinha um pouco de receio...”
(LILIAN, 59 anos).
Assim, Lilian vem afirmar a autogestão nos empreendimentos de economia
solidária como algo que deve ser efetivo, pois relata um sentimento de opressão, ao não
ter sua opinião como válida. Neste sentido, Veras Neto (2005) ressalta que os
trabalhadores
de
economia
solidária
são
responsáveis
pelas
decisões
do
empreendimento, realizando a autogestão no grupo, podendo encontrar dificuldades
nesta prática por estarem inseridos na dinâmica capitalista, isto é, a hierarquia. Veronese
e Martins (2009) ainda apontam que a omissão ou passividade, é característica em
grupos que centralizam as decisões, afastando-se dos valores solidários.
Lilian ao deparar-se com a realidade capitalista buscou outros meios para voltar
a praticar os valores solidários, adquiridos na infância, encontrando em uma feira, que
mais tarde se consolidaria como uma feira de Economia Solidária, afirmando:
“A gente praticava a Economia Solidária, mas a gente não entendia, agora
parando para pensar a gente pensa –„nossa como já era Economia
Solidária!‟ -, porque a gente começou a feira, eu não tinha uma mesa, não
tinha uma barraca, eu não tinha nada, a pessoa que tava lá me acolheu na
40
barraca, cedeu um espacinho ali sabe, então eu não entendia o que que era
Economia Solidária, não sabia bem, mas era pura né pura Economia
Solidária” (LILIAN, 59 anos).
“[...] e daí a gente fazia, eu fazia o tapete de crochê e ela também fazia, dai
eu colocava na mesa dela, dai, se eu colocava 4 tapetes e ela colocava 4
tapetes, se ela vendia um tapete dela, metade era meu, se ela vendia um
tapete meu metade meu metade era dela, a gente repartia assim” (LILIAN,
59 anos).
Assim, Lilian ao relatar como conheceu as outras feirantes demarca o
acolhimento e a inclusão, enfatizando na fala supracitada o quanto a economia solidária
já era praticada pelas outras feirantes. Veronese (2008) realça que as narrativas dos
trabalhadores que exercem a economia solidária são marcadas pela identificação dos
projetos deste modelo econômico, idealizando um mundo/sociedade a ser construído,
mas ainda encontram dificuldades dentro do empreendimento coletivo, pois estão à
margem do modelo econômico individualista, afirmado na seguinte fala:
“Mas e daí o problema da nossa feira que é esse individual... É esse
individual que às vezes desanda o molho da maionese. Sabe por quê? Porque
a pessoa está apegada no seu individual e não se joga totalmente no coletivo.
E o coletivo se fosse para você abraçar o coletivo...” (MANU, 59 anos).
Singer (2002) enfatiza que a Economia Solidária tem como princípio os valores
que alavancam a autogestão, democracia, cooperação, emancipação, reivindicando
melhorias e autonomia da população brasileira. Entretanto, Veronese (2008) destaca que
a realidade vivida nas relações de poder é hierarquizada, são sentidas e relatadas pelas
entrevistadas como um desafio para efetivar as práticas da Economia Solidária. Os
valores em que a Economia Solidária está fundamentada podem ser burladas pela
prática do capital, quando o grupo se depara com a identidade de cada participante que
está inserido em uma sociedade capitalista, pois ao construir o que Veronese e Scholz
(2013) colocam como identidade do grupo, os princípios da Economia Solidária podem
encontrar dificuldades em sua prática.
A autora Veronese (2008) ainda aponta que “mesmo que em suas vidas tenham
assumido muitas vezes posições de combate às formas de subjetivação capitalista, os
narradores são chamados a uma reestruturação subjetiva” (p. 125), afirmado por Lívia:
“[...] eu não sou tão realizada no trabalho sabe por que, eu queria ter uma
saúde boa, saúde que eu falo é um bom atendimento, eu queria poder
comprar um remédio sem ser à prestação, no cartão, eu queria chegar no
supermercado e não pegar só o necessário eu queria pegar mais coisa no
supermercado, eu queria viajar conhecer mais o Brasil, porque a gente só
conhece onde a gente mora, eu queria poder dar mais coisas pros meus
filhos, queria poder ajudar mais eles sabe, então nesse ponto eu não sou tão
41
realizada, mas eu tô lutando pra isso, não é por causa disso que eu vou ser
triste, porque eu vou parar, eu quero morrer, eu não quero, eu quero
trabalhar, eu quero lutar, porque se um dia eu não conseguir eu quero que
eles consigam” (LÍVIA MARIA, 57anos).
Assim, a Economia Solidária, através das práticas autogestionárias possibilitam
empoderar os sujeitos, responder às demandas econômicas e sociais das pessoas que
vivem à margem da sociedade (VERONESE, 2004), sustentando a construção de um
modelo econômico que seja preenchido por atores que carregam um discurso crítico que
por suas ações com práticas solidárias e autogestionárias possam transformar realidades
(ICAZA, 2004).
Dessa maneira, as entrevistadas mostram em seus discursos que os valores da
economia solidária são semelhantes a valores adquiridos em suas infâncias, e ao não
encontrar tais práticas no modelo econômico capitalista, encontram-se como atores de
sua história na possibilidade de praticar a economia solidária, o que é expresso na fala a
seguir:
“A economia solidária eu acho que faz parte da minha vida, desde que eu
era pequena” (LILIAN, 59 anos).
5.3 O significado do trabalho na Economia Solidária
O trabalho, conforme Marx (2011), é visto como uma condição eterna e
categoria fundante do ser humano que é capaz de transformar e organizar a natureza
para satisfazer suas necessidades. De acordo com o legado de Marx, o processo do
trabalho permite que o homem passe a produzir a si mesmo, sendo capaz de engendrar,
criar e arquitetar o seu próprio produto:
“O meu trabalho... Eu amo o que eu faço, eu amo o meu trabalho! Eu adoro
assim fazer as minhas costuras, criar os modelinhos, eu não sou dessas que
„Eu vou fazer igualzinho o de lá‟, eu posso até ver lá na vitrine, eu adoro ver
vitrine e olhar „olha aquele vestidinho‟, mas eu não vou fazer igual aquele,
eu vou modificar um pouquinho porque eu acho assim que na minha cabeça
tem um modo que vai ficar ainda melhor do que aquilo lá, eu gosto do que eu
faço, eu amo o que eu faço” (LILIAN, 59 anos).
O exemplo acima mostra uma clara diferenciação entre o trabalho executado
pelo homem dos demais animais, como o exemplo que Marx (2011) utilizou quando fez
a distinção entre a produção do tecelão e o da aranha, mencionado no início da sessão
três deste trabalho. A fala de Lilian demonstra que ao trabalhar não transforma apenas o
material, reproduzindo os vestidos da vitrine, mas projeta conscientemente o que deseja
42
produzir de acordo com a sua vontade, sendo idealizado previamente na sua consciência.
[...] o homem afirma-se como ser criador: não só como indivíduo pensante,
mas como indivíduo que age consciente e racionalmente, visto que o trabalho
é atividade prático-concreta e não só espiritual. [...] Ao transformar a
realidade, o homem transforma a si próprio: o processo de criação, do ponto
de vista do sujeito, é processo de autocriação humana (IAMAMOTO, 2006, p.
41).
Assim, como descreve Iamamoto, o homem ao realizar o seu trabalho atribui
significados para transformar a si mesmo. De acordo com Duarte (2004) “o que o
homem é, o é, pelo trabalho” (p.28), sendo uma atividade vital que garante a existência
não só individual, mas da sociedade que depende do seu trabalho. Desse modo, o autor
coloca como fundamental para construção da própria identidade do sujeito.
“Eu vim pra cá e me sentia inútil, porque não era acostumada a ficar
esperando que só ele [marido] trabalhasse e eu ficasse sem fazer nada. Sou
dessas que não aceita depender, agora até acho que aceito, não acho que
não... Bom nem sei se aceito. Daí eu não trabalhava e sentia... A mesma
coisa se estivesse morrido, pra mim eu morri, só vivia para o meu marido e
filhos. Vivi morta nesse lugar”(LÍVIA MARIA, 57anos).
“Que nem eu já falei pra você, significa a minha vida, o trabalho significa a
minha vida! Eu sem trabalhar eu não consigo viver, eu fico triste, se eu ficar
aqui em casa quinze dias sem ir na feira, pra mim parece um ano” (LÍVIA
MARIA, 57anos).
“[...] é um lazer pra mim a feira sabe, não é só trabalhar, é claro que eu
preciso trabalhar e é o meu trabalho, mas junto com o trabalho é um lazer,
não é um tédio que nem trabalhar de empregado, que você não aguenta mais”
(LÍVIA MARIA, 57anos).
Com o relato de Lívia Maria, o trabalho é percebido com um profundo
significado, capaz de atribuir um sentido à sua existência. Codo (2010) apresenta o
trabalho não apenas como transformação da natureza, mas um ato que gera significados
ao homem, podendo interferir nas suas relações sociais, motivações e sofrimentos. Codo
e Jaques (2002) afirmam que parte do processo de subjetivação do homem se forma a
partir do trabalho, trazendo um significado para cada sujeito. Como na fala acima, a
ausência do trabalho pode carregar significados negativos, como frustração ou
inutilidade, tendo um efeito direto na subjetividade do sujeito e determinante para
promover saúde mental. Por outro lado, pode ser gerador de qualidade e promoção de
vida e saúde.
Dentro do legado de Marx o trabalho mantém o seu caráter sócio-histórico,
promovendo a interação social dos sujeitos envolvidos, sendo repassado para as
próximas gerações. Vygotsky (2004) afirma que o homem ao se constituir através do
43
social torna-se resultado deste convívio social, enfatizando que o desenvolvimento que
garante o que Zanella (2004) pontua como “condição de humanização”, acontece
através do convívio e das relações sociais. Duarte (2000) ainda explana a concepção de
Marx sobre o trabalho no homem:
[...] o trabalho é, para Marx, uma atividade que distingue o ser social do ser
natural, isto é, define a especificidade do ser humano como um ser histórico,
social e cultural, por possuir essas três características: a de ser uma atividade
conscientemente dirigida por uma finalidade previamente estabelecida na
consciência, a de ser uma atividade mediatizada pelos instrumentos e a de ser
uma atividade que se materializa em um produto social, um produto que não
é mais um objeto inteiramente natural, um produto que é uma objetivação da
atividade e do pensamento do ser humano (p. 208).
Zanella (2004) aponta para as contribuições de Marx e Vygotsky, concluindo
que toda a produção humana é realizada através da atividade humana, que produz
cultura, e que durante o seu processo pode objetivar e subjetivar o resultado da
construção do homem, podendo resgatar e ressignificar suas ações. Dessa forma, é
possível notar que as feirantes formulam suas concepções de trabalho a partir das suas
histórias, vivências e relações sociais, como foi o caso de Lívia Maria que ao ser
indagada sobre o motivo que a levou a se interessar por trabalhar com a economia
solidária, a mesma respondeu relembrando as relações que viveu no passado enquanto
morava no sítio:
“Sabe o que, que foi, eu me interessei porque era o que eu vivia no sitio. No
sítio que você, que aí você partilhava as coisas, que aquilo era teu, você não
tava trabalhando de empregado dos outros, você tava se esforçando para
vender o teu produto, pra mostrar o que você fazia” (LÍVIA MARIA, 57anos).
A subjetividade, segundo Veronese (2009), é um fenômeno que ao mesmo
tempo trata-se do sujeito individual e do seu mundo social. A feirante Lilian recorda que
aprendeu o artesanato apenas observando sua mãe costurando, mostrando o
conhecimento sendo repassado por gerações em gerações:
“Mas eu via a minha mãe costurar e achava a coisa mais linda do mundo,
ela lá pedalando, não era de pedal era com a mão. E a minha mãe fazia
todas as coisas da casa, roupa para a gente, lençol, fronha, tudo ela fazia
assim de saco, era tudo muito simples. Mas eu amava sentar e chega do lado
dela, era bem pequena mas me lembro muito bem de ficar olhando ela
costurar”(LILIAN, 59 anos).
Aguiar (2000) enfatiza que o homem constrói a sua existência por meio da sua
ação na sociedade, objetivando satisfazer suas necessidades. Ou seja, o homem modifica
o meio em que vive através de sua ação para satisfazer suas demandas, confirmando que
esta ação é preenchida por “um movimento de apropriação que envolve a atividade do
44
sujeito, isso significa que o sujeito modifica o social, de forma que o social modificado
representa a possibilidade do novo, da criação” (AGUIAR, 2000, p.129). As feirantes
apresentaram exemplos onde os conhecimentos foram reproduzidos socialmente, como
o caso da Manu que se sentia realizada ao ensinar adolescentes a fazer os artesanatos,
enfatizando:
“Então de janeiro a julho a gente ensinava as pessoas carentes a fazer seu
crochê, a grávida a fazer seu enxovalzinho, ensinava as meninas a pintar,
fazer crochê, tricô, fazer flor, um monte de coisa e pra mim não tinha custo
nenhum, não recebia nada, era voluntária, mas pra mim sair, me misturar
com meninas, mulheres, mocinhas... Dava 4 quadras pra cá da igreja de
Uvaranas neh?! Ali, então nossa... Eu não acreditava o dia de ir pra mim me
misturar com aquelas pessoas e fui ficando muitos anos ali dos 14 até os
21anos” (MANU, 59 anos).
Manu conta que a experiência que teve ao ensinar as pessoas carentes não
apenas modificou a vida daquelas adolescentes, como também permitiu um aprendizado
significativo e importante para poder conduzir a sua vida após a separação:
“Aí eu usei aquilo que eu aprendi para ensinar as pessoas a ganhar um
dinheirinho com aquilo. Aquilo que eu ensinava lá... Eu vivi pra mim depois,
porque mulher com três filhos e uma casa pra pagar... Eu tinha que me
levantar e aí usei tudo o que eu sabia” (MANU, 59 anos).
As entrevistadas relataram os desejos de ter o seu trabalho reconhecido,
comentando que por meio da Economia Solidária conseguiram expressar suas
criatividades, passando a ter um espaço social que as reconhecessem e valorizassem não
apenas os seus produtos, mas sua identidade.
“O meu sonho é assim, vender o que eu faço. E surgiu uma oportunidade [na
feira de economia solidária]” (LILIAN, 59 anos).
“Nossa, mas foi tudo de bom! Porque tava realizado o meu sonho, eu podia
mostrar o que eu faço. Eu sou muito tímida não sou dessas que pega a sacola
e sai na casa dos outros oferecer. Não sei oferecer nada pros outros. Eu sei
muitas vezes mostrar, não eu fazia e mostrava para os vizinhos. E eu estando
na feira as minhas coisas estão na mesa tá expostas para as pessoas ver e
era o meu sonho isso. Daí quando surgiu a oportunidade da feira, nossa foi
muito bom. Até eu parece que me sentia assim... Era muito tímida não
conversava. Até o meu filho[...] comenta que depois que comecei a fazer
feira fiquei diferente, diz que não falava e agora falo, converso” (LILIAN, 59
anos).
Codo (2002) apresenta que o trabalho pode representar algumas variáveis
determinantes para a saúde mental, como no relato acima em que Lilian atribui ao
trabalho a possibilidade de ter se tornado uma pessoa mais comunicativa e espontânea.
Manu ao se referir ao artesanato realizado com a reciclagem de materiais,
45
ressalta também a transformação do seu ser, mostrando o quanto este trabalho interferiu
diretamente na sua própria constituição, pois comenta que por meio dos princípios da
economia solidária se “reciclou”:
“Mas eu amei lidar com a reciclagem, porque às vezes eu tô fazendo ali
sozinha e olho ali... Tá tudo lá aquilo lá... Quem olha ali vê lixo, né?! E eu
olho no meu arame e vejo assim que tem 200 reais de avental pendurado
naquele arame, pois são as pernas boas que estão penduradas lá que vão
virar avental”(MANU, 59 anos).
“[...] conforme as formações [de economia solidária], as conversas, pude
usar aquilo pra mim, me reciclei” (MANU, 59 anos).
As feirantes apresentaram que a economia solidária permitiu que entrassem no
mercado de trabalho e apresentassem suas produções dentro das suas possibilidades de
serem mães, mulheres, dentro de uma sociedade onde prevalece a desigualdade de
classe e gênero. Dessa forma, podemos percerber a expectativa e esperança que
atribuem a esta economia:
“Economia Solidária é muito boa, é ótima, foi onde eu me criei na Economia
Solidária quando eu morava no sitio, mas a Economia Solidária tem muito o
que crescer... A Economia Solidária tem que formar cooperativa,
cooperativa de vamos dizer de fazendeiro que crie bovino, que crie tudo sabe,
tudo o tipo, tem que formar cooperativa de gente que faz, de gente que tem
fábrica de açúcar, sal, de todas essas coisas, daí sim. A Economia Solidária
é só uma semente, é uma areia no oceano”(LÍVIA MARIA, 57anos).
Assim, a economia solidária ultrapassa o sentido de ser uma fonte de renda, pois
atribuem significados e valores na vida das pessoas que vivenciam esta prática e
acreditam em uma sociedade mais justa e igualitária, situação ilutrada na frase a seguir:
“[...] porque a economia solidária não é só a economia, vender, comprar,
ser solidário, a economia solidária faz parte da família, faz parte do amor,
da convivência com os outros” (LÍVIA MARIA, 57anos).
46
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O modelo de desenvolvimento capitalista traz consigo diversos impactos
negativos, tais como o desemprego. A existência desses impactos fez com que diversos
estudiosos se dedicassem a propor alternativas e críticas a esse sistema. Apesar da
importância de se estudar tais autores, faz-se necessário escutar as pessoas que sofrem
no seu dia a dia as consequências do capitalismo. Nesse sentido, o presente trabalho
evidenciou as memórias narradas de três trabalhadoras de um empreendimento
econômico solidário, possibilitando dessa maneira aliar o conhecimento teórico com a
experiência de cada uma dessas mulheres.
Retomando o objetivo principal desse trabalho de compreender as motivações de
trabalhadores ao ingressarem uma experiência coletiva, foi possível entender por meio
da história oral a construção e ressignificação das narrativas. As histórias narradas
basearam-se em um ontem apontando para o presente e como construíram uma relação
próxima à Economia Solidária, tendo como base valores adquiridos na infância e
ressignificados ao adentrar em um empreendimento coletivo.
Zanella (2004) ressalta que o homem abrange uma totalidade histórica, sendo
relevante visualizar seu contexto histórico-cultural, apontando para ser considerado “[...]
o movimento de significações (re)produzidas, transformadas e apropriadas em contextos
sociais específicos” (p. 133). Nesse sentido, as narrativas construídas evidenciam o
trabalho como engrandecedor, quando há a possibilidade de criar, o que Iamamoto
(2006) coloca como um homem que pode ser criador, onde a realidade do sujeito é
transformada e também transforma o sujeito que a produz, por meio dos significados e
das relações que constrói.
Dentro das narrativas foi possível visualizar a história de cada trabalhadora, suas
dificuldades, sonhos e obstáculos enfrentados, onde mostra cada sujeito integrado
historicamente em sua realidade, o que Zanella (2006) afirma ser um conjunto, onde o
sujeito é preenchido pelo seu “contexto, história, relações e lugares sociais” (p. 134),
que é transformado pelo homem através da atividade produzida.
O autor destaca a importância de considerar o contexto histórico-cultural de cada
sujeito, sua relação com a atividade que exerce para poder compreender o significado e
a história do trabalho efetuado. Nas histórias contadas, as trabalhadoras descrevem a
infância dentro de uma realidade onde a solidariedade se prolongou, pois seus pais e
responsáveis repassam ações colaborativas para vizinhos, parentes e amigos.
47
Dessa forma, ao serem inseridas em uma sociedade que prioriza a mais-valia,
conforme já foi descrito no decorrer do trabalho, esses sujeitos relatam um sofrimento
advindo do trabalho e do modo de organização social que o modelo econômico
capitalista assume. Assim, a individualidade, competitividade e exclusão que estas
trabalhadoras relatam ter vivido, ressignificaram os valores da infância, buscando em
outras formas de trabalhar esses mesmos valores que viveram.
As integrantes tiveram alguns pontos em comum em suas histórias, como a
relação forte com a igreja apontando para uma oportunidade de se vivenciar a
fraternidade e a preocupação com o próximo. Também apresentaram a relação familiar
como inspiração para poder superar os obstáculos financeiros, problemas relacionados à
saúde física e psicológica.
Suas histórias mostraram-se permeadas por dificuldades, mas fortalecidas por
um ideal de solidariedade, o qual adquire um significado maior a partir do momento que
se depara com a possibilidade de trabalhar na Economia Solidária. Dessa forma, pode-se
perceber que as entrevistadas conseguiram um espaço na sociedade enquanto mulheres
da terceira idade, com baixa escolaridade e que estavam afastadas do mercado de
trabalho, sofrendo com as marcas da desigualdade social e o machismo predominante na
época, para poder encontrar um caminho em que se tornassem sujeitos de sua própria
história.
Por meio das memórias, narradas as entrevistadas apresentaram as suas
percepções de si, da sociedade e do trabalho, onde ressaltaram a importância de ter suas
produções expostas e reconhecidas socialmente. Assim, o trabalho passa a ser visto
como essencial para promover a saúde mental, uma vez que foi a partir deste que
deixaram o papel de marginalizadas.
No decorrer da história oral as entrevistadas mostraram-se emocionadas ao
recordar situações vividas, resgatando valores familiares de solidariedade que ganharam
um novo significado na atualidade. Por meio desses relatos é possível evidenciar que
essas mulheres conseguiram ser empoderadas ao encontrar práticas de trabalho que não
fossem baseadas na heterogestão, subordinação e coisificação do homem como mero
objeto para gerar lucro. Foi no trabalho coletivo que elas encontraram a emancipação do
ser, atribuindo um novo sentido à sua subjetividade.
Materializando os princípios de solidariedade vivenciados pelas feirantes do
empreendimento estudado, percebemos entre as entrevistadas uma relação não só
comercial ou de emprego, mas uma relação de trocas afetivas tanto com as outras
48
feirantes, consumidores e familiares, quanto com as atividades que elas desenvolvem.
Disso, podemos depreender que elas desenvolveram um princípio ético muito caro à
humanidade, expresso nos dizeres de Sawaia (2011, p. 115), ao se apropriar do
pensamento de Espinosa: “A ética só aparece no homem quando ele percebe que o
que maior bem faz para o seu ser é um outro ser humano”.
49
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55
APÊNDICE A – AS NARRATIVAS DE VIDA DAS PARTICIPANTES DA
PESQUISA
1 História de Manu, 59 anos
Manu nasceu em Ponta Grossa e quando criança foi criada pelos seus tios
maternos, pois sua mãe não tinha condições financeiras para criá-la. O pai de Manu
nunca lhe foi apresentado por ser casado e conviver com outra família. A entrevistada
comenta que sempre teve desejo de conhecer o seu pai, dizendo que gostaria de ter sido
o seu orgulho, mas só pode conhecê-lo no dia em que o pai faleceu, ressaltando: “amei a
minha vida toda um pai que nunca conheci” (sic).
Manu enfatizou que seus tios lhe deram uma ótima educação e que nunca lhe
faltou nada. Na adolescência foi incentivada pela tia a fazer cursos de artesanatos e
posteriormente passou a ensinar voluntariamente outras adolescentes carentes,
permanecendo como voluntária dos 14 aos 21 anos.
Com 21 anos Manu se casou com um conhecido dos tios, com o marido teve três
filhos (2 meninos e 1 menina). Porém como o marido passou a beber frequentemente e a
tornar-se agressivo com ela e os filhos, resolveu se separar após aproximadamente 12
anos de casamento. Em uma noite de natal Manu tomou a decisão que iria se separar e
criar os filhos sozinha, neste momento Manu enfatizou: “deixei de ser mulher e passei a
ser apenas mãe” (sic).
Manu comenta sobre as dificuldades que passou e o preconceito que sofreu por
ser uma mulher de 33 anos separada, sendo por vezes mal vista entre os vizinhos. A
entrevistada relembra o quanto foi difícil conseguir terminar de pagar a casa e sustentar
os filhos, mas orgulhosa por nunca ter permitido que os filhos passassem por
necessidades, retomando que abandonou todos os seus desejos de mulher para poder se
dedicar aos filhos.
Após uma conversa com a tia, Manu decidiu que iria sobreviver dos artesanatos
que aprendeu na adolescência: “Aquilo que eu ensinava lá, eu vivi pra mim depois,
porque mulher com três filhos e uma casa pra pagar... Eu tinha que me levantar e aí usei
tudo o que eu sabia” (sic).
Assim, Manu começou a fazer seus artesanatos para vender, inicialmente
oferecia para conhecidos, vizinhos ou trocava nas mercearias por alimentos. Depois,
Manu conheceu as feiras que eram organizadas em uma das praças no centro da cidade,
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onde trabalhou por muitos anos como feirante. Participou também de várias feiras de
verão que aconteciam no litoral, porém Manu percebeu que mais da metade do que
vendia era direcionado para pagar as lojas de armarinhos. Assim, trabalhou 20 anos
como feirante em praças e igrejas.
Manu teve outras experiências de trabalho, como quando era funcionária em
uma empresa em que realizava desde a limpeza até serviços particulares para seu patrão.
Nesse período, Manu disse que pôde visualizar a competitividade no mercado de
trabalho quando seus colegas foram despedidos após a compra de uma máquina de café.
O primeiro contato de Manu com a economia solidária se deu por meio das
feiras realizadas nas igrejas, no momento em que começou a entender o que era essa
economia Manu disse que se recordou da época em que ensinava voluntariamente as
adolescentes a fazer seu enxoval, comentando que decidiu falar para sua filha: “A
barraca da feira é tua eu vou seguir a economia solidária” (sic).
A partir desse momento, Manu passou a participar das formações e fóruns de
economia solidária, demonstrando uma valorização do trabalho coletivo e da associação
das feirantes. No seu relato fica evidenciado a importância de se trabalhar com a
reciclagem no artesanato, sendo uma forma de dar “vida a aquilo que ninguém se
importa” (sic).
2 História de Lilian, 59 anos
Lilian nasceu em Minas Gerais e morou com sua família neste estado até os oito
anos, depois da morte de sua mãe migrou com o pai e seus irmãos para o estado do
Paraná. Quando chegaram ao Paraná foram morar em um sítio no interior do referido
estado, onde conheceu seu esposo aos 10 anos. Lilian relata ter frequentado a escola até
a 4° série, sendo impedida pelo pai que afirmava não ser necessário.
Aos 19 anos seu esposo pediu a seu pai para namorar, noivar e casar com Lilian,
enfatiza que seu pai aceitou porque conhecia sua família, indo morar em Ponta Grossa
após casar.
Durante sua infância, Lilian conta o sonho de sua mãe de vir morar no Paraná,
ressaltando que este sonho também era de seus familiares, pois depositavam esperança
em uma melhor condição financeira neste estado do sul. Lilian ainda relembra o quanto
seu pai era solidário, explicando que o mesmo dividia com os outros agricultores
sementes, enfatizando o quanto a entrevistada já presenciava essa nova economia,
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destacando que os valores solidários foram apreendidos em sua infância.
Enquanto morou no sítio, Lilian não teve a oportunidade de trabalhar, pois seu
pai e posteriormente seu esposo não encontravam explicação para a mesma ter que
trabalhar, apontando para uma sociedade machista. Frente a esta realidade, Lilian
apreendeu a costurar, contando que via sua mãe na máquina de costura e depois a irmã
mais velha, realçando seu enorme desejo de costurar. Assim, começou a produzir peças
de roupas, destacando que cada roupa produzida era única, trazendo como arquitetava
seu próprio produto.
Ao mudar-se para Ponta Grossa, começa a vender suas confecções para as
vizinhas, enfatizando o enorme desejo que tinha em mostrar aquilo que produzia. Dessa
forma, ao procurar um emprego que conciliasse sua vida como mãe, começa a trabalhar
em uma loja de confecções que possibilitava levar as costuras para casa. Esse trabalho
fornecia todas as peças já cortadas, Lilian apenas tinha que montar as roupas. Ao relatar
sobre esta experiência, lembra da máquina que sua mãe costurava, exemplificando sobre
as roupas que a mãe confeccionava e depois sobre as roupas que passou a construir,
descrevendo os detalhes e o quanto eram exclusivas, únicas, pois cada peça produzida
ela canaliza uma nova ideia.
Lilian, após ser demitida dessa loja, é convidada a participar de uma feira para
vender o que produzia, lembra que na feira as participantes já praticavam os valores
solidários, pois foi acolhida e inclusa na feira, mesmo não possuindo barraca, nem
experiência com feiras. Após algum tempo, conta que ao receberem um convite da
IESOL para tornarem-se uma feira de economia solidária, começaram a participar das
formações e a visualizar o quanto suas práticas já possuíam valores solidários
apreendidos na infância.
Atualmente, Lilian é integrante de um empreendimento de Economia Solidária,
onde realiza costura em uma das máquinas da associação, enfatizando que a divisão das
sobras e dos serviços é realizada por meio das habilidades de cada feirante, destacando
“tudo que a gente faz a gente reparte junto, não tem uma faz mais que a outra vai
receber mais, todas recebem igual” (sic).
No fim, Lilian realça que se sente realizada com seu trabalho, pois recebe o
apoio da família, tendo a possibilidade de mostrar o que produz, e ainda aponta como
considera importante o trabalho desenvolvido no grupo com o reciclável.
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3 História de Lívia Maria, 57 anos
A entrevistada Lívia Maria viveu sua infância e adolescência na área rural no
interior do estado do Paraná. Ao resgatar suas lembranças desta época, relata que
trabalhava com seu pai no sítio, e o quanto gostava de realizar aquele trabalho, daquela
forma, pois havia a cooperação de outros vizinhos e também a possibilidade de auxiliar
esses mesmos vizinhos em suas colheitas. Lembra que seu primeiro brinquedo foi uma
enchada, e que adorou, ressaltando “Porque nós queríamos trabalhar, pois o meu pai
trabalhava, minha mãe trabalhava e todo mundo trabalhava, nós também queria carpi. E
daí o meu pai comprou uma enchada mais pequena pra mim e outra pra minha irmã, a
deles era grande a nossa era mais pequena. E foi maior alegria do mundo, sabe?! Eu
nunca ganhei uma boneca na minha vida” (sic).
Lívia Maria relembra que durante sua infância aprendeu a repartir e cooperar
com os outros, vizinhos, colegas, contando “Minha tia passava e deixava um pouco pra
mim, um pouco para a mãe e pra ela. Era tudo repartido” (sic). Assim, a entrevistada ao
relembrar sua infância conta os valores solidários que aprendeu com o pai em sua
infância. Lívia Maria relata que seu pai não deixava ela e suas irmãs irem para a escola,
completando que nunca havia visto um caderno ou uma caneta. Relembra que quando
seus vizinhos foram para a escola, chorou por todo um dia, dessa maneira, convenceu o
pai a levar ela e sua irmã para a escola, onde estudou até a 4°série.
Durante sua adolescência conheceu seu esposo (também integrante do
empreendimento), em um evento realizado na quaresma chamado “Recomendação”,
onde os jovens cantam nas casas da vizinhança à noite no tempo da quaresma,
começando a namorar aos 13 anos e casando-se aos 18 anos.
Depois de casada e com o seu primeiro filho, Lívia Maria conta como era
precária a assistência à saúde no campo, afirmando que por esse motivo migrou com sua
família para a área urbana. Ao se mudarem do sítio para a cidade, morava em uma casa
toda a sua família: pai, mãe, irmãos, esposo e o filho. Nesta época, todos sentiram a
dificuldade de encontrar um emprego, buscando nos empregos informais um meio de
sobrevivência. Demonstra a diferença que a familia sentiu entre o campo e a área urbana,
enfatizando “Daí lá no sítio você pode não ter nada, mas você não passa fome, aqui
você passa. Aqui se você não trabalhar você não come” (sic).
Após algum tempo, quando seus filhos já estavam maiores, relata ter procurado
por muito tempo um emprego, mas teve muita dificuldade, pois não era aceita pelo
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mercado de trabalho. Conta que seu pai, pela dificuldade encontrada, começou a vender
laranja, poncan e também coxinhas feitas pela entrevistada. Em seguid,a ao retomar
seus estudos, volta a vender coxinhas para os professores, e depois em festas. Com a
renda desse trabalho, paga um curso profissionalizzante de confeitaria para sua filha, e
Lívia Maria sem nenhum curso, começa a comercializar outros alimentos. Relata que
através de uma propaganda na televisão, vai em busca da feira, a feira de economia
solidária, relembrando a prática de trocas dentro dos grupos, e conta ainda que
interessou-se pela feira porque “Sabe o que, que foi, eu me interessei porque era o que
eu vivia no sítio” (sic).
Atualmente, Lívia Maria é presidente do empreendimento, e diz não se sentir
realizada totalmente com o seu trabalho porque gostaria de ter uma condição financeira
melhor dizendo “então nesse ponto eu não sou tão realizada, mas eu tô lutando pra isso,
não é por causa disso que eu vou ser triste, porque eu vou parar, eu quero morrer, eu não
quero, eu quero trabalhar, eu quero lutar, porque se um dia eu não conseguir eu quero
que eles consigam” (sic). Lívia Maria termina seu relato de história demostrando seu
desejo em poder ver a economia solidária mais ampla, atingindo a todas as classes
sociais.
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APÊNDICE B - ROTEIRO DE QUESTÕES PARA A HISTÓRIA ORAL
- Poderia nos contar um pouco sobre a sua vida desde a sua infância?
- Como foi a infância e juventude?
- Como foi sua vida escolar?
- Como são as relações familiares (filhos, casamento)?
- Dificuldades ao longo da vida.
- Quando começou a trabalhar e qual foi seu primeiro emprego?
- Trabalhou em outro segmento, empresa antes da Associação?
- Como foi a sua entrada na economia solidária, como estava sua vida naquela época e o
que te motivou?
- A intenção no empreendimento (Caso tenha trabalhado em alguma empresa, o que é
diferente o trabalho lá e na associação?)
- Nós já sabemos como funciona o trabalho na AFESOL, mas poderia contar para que
todas as pessoas que vão escutar possam entender, como vocês se organizam no
trabalho? Qual o principal produto?
- Dificuldades em permanecer na economia solidária;
- Consegue pagar as contas com o dinheiro desse trabalho?
- Como se deu o relacionamento com a IESOL ao longo do tempo?
- Qual a visão que tem do trabalho que desempenha? (Reaproveitamento de resíduos
sólidos).
- Se relaciona com os trabalhadores (as) além da associação?
- Como vê a autogestão no grupo?
- Contribuições dos princípios da economia solidária na sua vida;
- Deseja continuar na ECOSOL?
- O que deseja para sua vida?
- Hoje, você se sente uma pessoa realizada?
- Tem algum assunto, alguma coisa que não perguntamos que você gostaria de dizer?
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FACULDADE SANT`ANA FERNANDA PIMENTEL SANTOS