Página 10 - Bauru, domingo, 12 de janeiro de 2014
GERAL
Geração ‘canguru’ estica gasto de família
Bauru repete fenômeno econômico-social do País, onde jovens
bancados pelos pais por mais tempo ajudam a manter taxa de
desemprego baixa apesar do País crescer pouco
Nélson Gonçalves
Na flor da idade, eles estão cheios de
energia, ávidos por ferramentas digitais,
são mais consumistas que seus antepassados, querem antecipar liberdades dentro e
fora de casa e continuam dependentes do
bolso dos pais por mais tempo que outras
gerações. A chamada “geração canguru”
repete em Bauru o fenômeno econômico-social apontado por economistas como
um dos principais motivos do nível de desemprego continuar baixo no País, apesar
do pífio crescimento da economia.
Beneficiados pelo aumento da renda
familiar e uma espécie de “compensação
emocional” dentro dos lares, jovens com
idade para alimentar a estatística da população economicamente ativa estão procurando emprego cada vez mais tarde. Boa
parte continua grudada no contracheque
dos genitores até a formação superior.
Em Bauru, os jovens de 15 a 19 anos
somavam 26.699 cidadãos pelo censo de
2010, conforme o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE). Mas, ao
contrário da geração de seus pais, 16.762
bauruenses desses estavam sem trabalho.
E, segundo a pesquisa, 4.464 eram da
turma apelidada de “nem nem’: nem trabalho nem estudo. Já entre os com idade
de 20 a 24 anos, sendo 17,2 milhões em
todo o País e 29.742 em Bauru, a situação
se acomoda. 9.274 foram identificados
como sem trabalho, embora 21.560 estivessem fora da escola, conforme o IBGE.
São jovens apontados por estudos
em economia como os responsáveis em
boa dose pela estagnação da População
Economicamente Ativa (PEA), embora
tecnicamente estejam em idade de geração de trabalho, produção e renda. Bancados pelos pais, eles ajudam na dinâmica
de mercado que minimiza os indicadores
de desemprego, apesar do Produto Interno Bruto (PIB) continuar em nível abaixo
do necessário para dar vazão à iminente
demanda social por trabalho.
De outro lado, cada vez mais as famílias bauruenses (e brasileiras) geram
menos filhos e os mantêm por tempo mais
prolongado sob a custódia financeira dos
pais. “É a combinação de famílias com
menos filhos com um contingente que já
tem mais de 18 anos, mas vai procurar
emprego mais tarde, o que interfere diretamente na redução da pressão sobre a
taxa de desemprego”, define o economista Wagner Smanhoto.
Conceito de desemprego
Wagner Smanhoto lembra do conceito de desemprego para avaliar o quadro. “O conceito de desemprego é de
alguém que procura e não encontra vaga
por falta de experiência ou de capacitação ou porque não tem mesmo oferta para
contratação no mercado. Nós estamos falando de menos gente procurando emprego exatamente na idade de buscar emprego, ingressar no mercado”, cita.
O economista se inclui no raciocínio
do tema para ponderar que, além de serem
bancados pelos pais por mais tempo na
fase adulta, esses jovens são pertencentes
a famílias de poucos filhos. “Os pais da
minha geração tiveram mais de cinco filhos, muitos geraram bem mais que isso,
o que apressou a buscar por emprego logo
cedo para ajudar na divisão das contas da
família. Mas a taxa de natalidade despencou de uma geração para a outra e nossos
filhos já são de núcleos familiares onde
poucos pais arriscam gerar mais de dois.
Com isso, os novos pais estão destinando
recursos para a formação dos filhos por
mais tempo, o que retarda da busca pelo
mercado”, aborda.
Ou seja, a “vida mais cara” mudou o
comportamento e a consciência das famílias, com os casais povoando menos os
lares brasileiros. “Isso também ajuda na
baixa taxa de desemprego, como o adiamento da busca pelo contrato de trabalho”, reforça Smanhoto.
A economista Naiara Fracaroli
aponta um elemento adicional nesse histórico. “Mudou a faixa de entrada real da
massa de trabalho na equação da população economicamente ativa. Não é mais
os 18 anos das gerações anteriores, mas a
partir da formação do curso superior para
uma boa parte desse contingente. É mais
tarde que antes, com certeza. E o fato é
que isso despressuriza a taxa de desemprego e não teria trabalho para todos, até
porque a economia cresce menos do que
o necessário”, pontua.
Naiara acrescenta que o contexto
tem influência sobre a ansiedade desses
jovens. “Se antes a pressão estava mais
sobre o fim do colegial, a pressa em ganhar dinheiro para sobreviver até, hoje
esses jovens ficam mais tempo ansiosos
porque convivem com a busca da vocação no curso superior e o maior tempo
sem condições de se sustentar. Pensa a
ansiedade que precisa ser cuidada porque o jovem quer tudo para ontem, quer
entrar no primeiro emprego já abalando,
ganhando bem e isso só vem após alguns
anos”, completa.
pais
Fabri adverte para o risco dos
A gestora de pessoal Alexandra
s
lho
fi
os
pel
mercado
retardarem o enfrentamento do
Compensação emocional
Pais que vieram de uma geração que teve de trabalhar muito cedo
podem, agora, adotar uma espécie de
compensação emocional em relação aos
filhos, como se a extensa jornada dedicada ao emprego tivesse de ser compensada pelo pouco tempo de relação com
a próxima geração.
Este é um dos ingredientes levantados pela gestora de pessoal e relacionamentos humanos Alexandra Fabri. “Os
jovens da chamada geração “y” e “z” são,
em boa parte, filhos de pais que tiveram
de trabalhar muito cedo, ralaram ainda
na adolescência para ajudar em casa e
se viraram sozinhos ainda adolescentes.
Seus filhos estão sendo poupados, seus
pais colocam o estudo como prioridade e
nisso está embutido o sentimento de que
esses pais não querem que eles enfrentem as mesmas batalhas”, argumenta.
A consultora, entretanto, aponta
para o risco da compensação desmedida. “Uma questão é investir na felicidade dos filhos através do estudo,
bancando esses jovens por mais tempo
durante a fase de emancipação. Outra
questão é tratar isso como uma compensação emocional. O pior é quando
isso inclui certa dose de culpa pelo
tempo que esses pais não tiveram para
conviver com os filhos. Há questão
comportamental, sociológica, psicológica e de reflexos de mercado envolvidos nisso. Se houver exagero, esse
filho perde referência sobre responsabilidade e não amadurece”, aborda.
Alexandra Fabri adverte para a
forma como empresários estão “vendo” essa questão. “Alguns empresários
reclamam que essa é a geração que não
quer nada, não está nem aí. Na verdade
esses jovens querem sim escolher seus
destinos, mas essa compensação retardada amadurecimento e decisões e o que
está acontecendo é que os empresários
estão recebendo jovens sem experiência
e só com formação mais tarde”, cita.
Assim, é uma geração que chega
com maturidade de mercado retardada
em relação à prática. “São jovens com
20 anos mais imaturos para o mercado
por falta de vivência, com amadurecimento tardio e mais despreparados para
as rotinas competitivas do mercado. Mas
isso não significa que não estão em aí.
É o processo pelo qual são submetidos
esses jovens. Portanto, a reflexão para
os pais é se é bom poupar o jovem do
trabalho com esses elementos. O pai que
trabalhou para dar conforto aos filhos em
sua fase de formação não tem de compensar nada”, posiciona Fabri. (NG)
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Geração `canguru` estica gasto de família