VULNERABILIDADE À OCORRÊNCIA DE EVENTOS EXTREMOS DE PRECIPITAÇÃO NA REGIÃO METROPOLITANA DE RECIFE, PERNAMBUCO Lucas Suassuna de Albuquerque Wanderley, Roberto Correia Moretti, Tiê Oliveira Pordeus UFPE-Recife-Brasil- [email protected] Universidade Federal de Pernambuco- Departamento de Ciências Geográficas RESUMO: Este trabalho procurou avaliar a vulnerabilidade da cidade do Recife-PE, Brasil, aos eventos extremos de precipitação. A análise de um evento de alta concentração de chuvas ocorrido nos meses de abril e maio de 2011 foi realizada correlacionando-se dados de precipitação com dados quantitativos dos principais problemas sociais gerados pelo extremo climático, a fim de contribuir para uma melhor convivência com tais eventos no futuro. Os dados de precipitação foram fornecidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e os dados acerca dos impactos das chuvas na cidade pela Coordenadoria de Defesa Civil do Recife (CODECIR). Ficou evidente, a partir desse estudo, que as grandes chuvas associadas a problemas crônicos de ocupação e uso do solo, trazem graves conseqüências sociais e econômicas à cidade, colocando em questão essa lógica de ocupação, diante da previsão de eventos extremos de precipitação cada vez mais freqüentes. PALAVRAS-CHAVE: Variabilidade e vulnerabilidade climática, precipitação pluviométrica, espaço urbano. ABSTRACT: This study aimed to evaluate the vulnerability of the city of Recife, Pernambuco, Brazil to extreme precipitation events The analysis of an event of high concentration of rainfall occurred in April and May 2011 was made by correlating the precipitation data with an account of the major social problems generated by the event in order to contribute to a better coexistence with such events in the future. Rainfall data were provided by the National Institute of Meteorology (INMET), and data about the impacts of rainfall in the city were provided by the Coordination of Civil Defense of Recife (CODECIR). It was evident from this study that the heavy rains associated with chronic problems of occupation and land use bring serious social and economic consequences to the city, calling into question the logic of occupation, even more urgently as extreme precipitation events are predicted to become more frequent. KEY WORDS: Climate variability and vulnerability, rainfall, urban space. INTRODUÇÃO: A região tropical do planeta é a que apresenta maior vulnerabilidade às mudanças climáticas, em virtude de eventos extremos (secas, precipitações intensas) cada vez mais freqüentes e de sua carência sócio-econômica. Essa região destaca-se por intensa variabilidade climática, sendo a precipitação o elemento climático que apresenta maior variação. As constantes mudanças no clima estão provocando aumento nas ocorrências de eventos climáticos extremos no mundo inteiro. No Brasil, esses eventos ocorrem, principalmente, como enchentes (fortes chuvas) e secas prolongadas (Marengo et al., 2010) As ocorrências de desastres em decorrência de chuvas volumosas no Brasil vêm sendo intensificadas nos últimos anos, causando enorme transtorno, principalmente nas grandes cidades. Nas áreas urbanas, as chuvas associadas a fenômenos geomorfológicos típicos do mundo tropical (como os deslizamentos de terra), e as inundações sazonais trazem grandes prejuízos sociais e econômicos. A região Nordeste do Brasil é uma das que apresenta maiores sinais de variabilidade de precipitação na América do Sul, com anos extremamente secos e outros bastante chuvosos. A costa Leste dessa região, a área mais povoada e onde se encontra a cidade do Recife, apresenta os maiores valores médios de chuva, superando os 1.500 mm anuais, no entanto, (STRANG, 1972) mostrou que a precipitação apresenta uma concentração de 50% entre os meses de maio e julho. Nesse período (outono e inverno), as precipitações no Nordeste oriental ocorrem de maneira intensa com grande concentração diária. Como demonstrou (ANJOS, 2005), as chuvas intensas constituem um aspecto importante do clima da Região Metropolitana do Recife, e que normalmente nesse período são esperados uma freqüência de 28 dias com chuvas a, cima de 20 mm, com contribuições mensais acima de 60% entre maio e julho. Porém, eventos catastróficos de precipitação em Pernambuco têm a tendência de se tornarem cada vez mais comuns, como demonstraram (FARIAS & NÓBREGA, 2010), causando transtornos diversos na cidade do Recife. Durante o ano de 2011, chuvas intensas atingiram a capital pernambucana entre os meses de maio e abril, acumulando 1380 mm no bimestre, volume que representa 63% da média histórica anual que é de 2197 mm, segundo o Laboratório de Meteorologia de Pernambuco (LAMEPE). Por esta razão, torna-se necessário fazer um estudo desse evento e analisar as principais causas e conseqüências, a fim de contribuir com iniciativas de prevenção de desastres dessa magnitude. MATERIAL E MÉTODOS Para o levantamento das informações e execução do trabalho foram utilizados gráficos dados e notícias fornecidos pelo INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) e LAMEPE (Laboratório de Meteorologia de Pernambuco), a partir dos quais foram feitas as análises das precipitações. As informações a respeito das conseqüências das chuvas, para o período estudado, na cidade do Recife, foram cedidas pela CODECIR (Coordenadoria de Defesa Civil do Recife) e pela Prefeitura da cidade. RESULTADOS E DISCUSSÕES As precipitações dos meses de abril e maio de 2011 na cidade do Recife superaram a média histórica do bimestre em 232% para o período (ver gráfico I, onde aparece a média histórica mensal de precipitação para a cidade do Recife e a registrada nos meses de 2011 até agosto). A chuva prevista para toda a quadra chuvosa foi superada em apenas nos dois meses, em que foi acumulado 1380 mm, o que corresponde a 63% da média histórica anual que é de 2197 mm (LAMEPE), causando grandes transtornos na capital pernambucana. Gráfico I: Chuva acumulada mensal x Média histórica mensal Essa quantidade de chuva foi ocasionada pelo posicionamento mais austral da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), que intensificou a convergência de umidade para a costa leste da Região Nordeste no período. Além do mais, Em praticamente todo o litoral do Nordeste houve o predomínio da advecção de leste, o que favoreceu a intensificação da convergência de umidade do oceano para a faixa leste desta Região. Outro fator que pode ter contribuído para intensificar a instabilidade é a temperatura da superfície do Atlântico Sul, que se encontrava mais aquecida do que o normal. Esta condição aumenta a disponibilidade de vapor d’água na atmosfera através da evaporação da água do oceano, também contribuindo para o aumento da atividade convectiva e ocorrência de chuvas intensas (INPE, 2011). Os gráficos abaixo (II e III) ilustram as chuvas diárias para os meses de abril e maio de 2011, mostrando acumulados de precipitação elevados por dias seguidos. Em abril houve cinco dias em que as precipitações diárias superaram os 60 mm e representaram pouco mais de 50% do volume mensal acumulado, acontecendo uma concentração semelhante no mês de maio. Gráfico II: Chuva diária acumulada – Abril Gráfico III: Chuva diária acumulada - Maio Como conseqüência dessas chuvas, a cidade enfrentou alagamentos e deslizamentos de encostas, problemas típicos do mundo tropical úmido e das grandes cidades brasileiras. Segundo dados da CODECIR (Coordenadoria de Defesa Civil do Recife), foram registrados 284 deslizamentos de barreiras em abril e 276 em maio, totalizando 550 nesses dois meses, o que representa 54% de todos os deslizamentos ocorridos entre janeiro e agosto. Além do mais, 53% dos alagamentos registrados na cidade e 78% dos transbordamentos de canais, durante o ano de 2011, ocorreram nesses dois meses. Como conseqüências desses eventos, foram removidas 897 famílias para abrigos ou casa de parentes, o que representa um total de 93% das remoções ocorridas entre janeiro e agosto. Tais problemas são intensificados por uma série de falhas na infra-estrutura, ocupações de áreas irregulares (várzeas de rios e encostas com declividade acima de 45º) e impermeabilização de antigas áreas de recarga de aqüífero. A sobrecarga do sistema de drenagem se deve, em parte, pela falta de planejamento urbano, como conseqüência do grande crescimento da cidade e aumento do número de edifícios, sem que houvesse correspondente melhoria na vias de escoamento das águas pluviais. Ainda de acordo com o Mapa das Unidades Geológicas do Recife (1995), os maiores problemas ambientais da cidade resultam de sua expansão desordenada, feita a partir de aterros e desmontes sucessivos, que vem modificando a paisagem natural, dificultando a drenagem, além de outros fatores que causam inundações, queda de morros. No tocante as ocupações irregulares, a grande especulação imobiliária foi capaz de agravar problemas sociais históricos ao deslocar grande parte da população para áreas impróprias de moradia, nas encostas de morros, várzeas de rios e manguezais. Esse tipo de ocupação deixa as pessoas vulneráveis a episódios dessa magnitude, pois tais volumes de chuva são capazes de causar grandes deslizamentos de terra e transbordamento dos cursos de água, desalojando pessoas e, por vezes, causando vítimas fatais. Outro problema que contribuiu para o aumento da vulnerabilidade aos eventos climáticos extremos é o crescente e intenso processo de impermeabilização do solo, que aumenta a quantidade de água em escoamento, na superfície, e durante as fortes chuvas, dificulta o processo de drenagem dessas águas, elevando o risco de alagamentos. CONCLUSÕES Os grandes volumes de precipitação pluviométrica diária fazem parte da climatologia da cidade do Recife, e apresentam maior ocorrência durante o período de outono e inverno em que ocorre metade de todo volume pluviométrico anual, como foi dito anteriormente. Essa concentração de chuvas traz conseqüências como o aumento na vazão dos rios e deslizamentos de terra, por isso requer uma política que garanta uma ocupação adequada do solo, além de um melhor planejamento no sítio urbano. Portanto, as grandes cidades brasileiras, como o Recife, subordinada a um clima tropical úmido e sujeita a eventos catastróficos ocasionados por um regime torrencial, necessitam repensar as lógicas de desenvolvimento seguidas, bem como planejar o crescimento da cidade e ocupação do solo, de forma que garanta maior capacidade de convivência com fenômenos climáticos extremos, cada vez mais freqüentes, segundo a maioria das previsões feitas pelos modelos climáticos. AGRADECIMENTOS: A Coordenadoria de Defesa Civil do Recife e a Prefeitura da Cidade do Recife pelo fornecimento dos dados. REFERÊNCIAS: ANJOS, R.J. Aguaceiros em Recife-PE: uma climatologia de 36 anos. Recife: INMET FARIAS, R.L.; NÓBREGA, R.S.Tendência espacial da precipitação pluviométrica em Pernambuco. In: GALVÍNCIO, Josiclêda Domiciano. Mudanças Climáticas e Impactos Ambientais. Recife: Editora Universitária UFPE, 2010. p. 251-264. MARENGO, J. A.; SCHAEFFER, R.; ZEE, D.; PINTO, H. S. Mudanças climáticas e eventos extremos no Brasil. Disponível em: http://www.fbds.org.br/cop15/FBDS_MudancasClimaticas.pdf. Acessado em outubro de 2010. SÁ CARNEIRO, A.R.; MESQUITA, L. B. Espaços livres do Recife. Recife: Prefeitura da Cidade do Recife/ Universidade Federal de Pernambuco, 2000. STRANG, D.M.G. Análise climatológica das normais pluviométricas do Nordeste brasileiro.São José dos Campos:CTA/IAE, 1972