BIBLIOTECA DIGITAL DE TESES E DISSERTAÇÕES
UNESP
RESSALVA
Alertamos para ausência de Figuras 11, 12, 19, 20 e 29
não incluídas pelo autor no arquivo original.
UNESP
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
Instituto de Geociências e Ciências Exatas
Campus de Rio Claro
Kátia Cristina Ribeiro Costa
O CENTRO DE RECIFE E SUAS FORMAS
COMERCIAIS:
transformações e persistências
Orientadora: Profª. Dr.ª Silvana Maria Pintaudi
Tese elaborada junto ao Curso de Pós-Graduação em
Geografia - Área de Concentração em Organização do
Espaço, para obtenção do Título de Doutor em
Geografia.
Rio Claro (SP) - 2003
910h.381 Costa, Kátia Cristina Ribeiro
C837c
O centro de Recife e suas formas comerciais :
transformações e persistências / Kátia Cristina Ribeiro Costa.
– Rio Claro : [210], 2003
210 f. : il., figs., tabs., fots., mapas
Tese (Doutorado) – Universidade Estadual Paulista,
Instituto de Geociências e Ciências Exatas
Orientador: Silvana Maria Pintaudi
1. Geografia urbana - Brasil. 2. Geografia econômica. 3.
Comércio. 4. Consumo. 5. Centro urbano. 6. Espaço urbano.
I. Título.
Ficha catalográfica elaborada pela STATI – Biblioteca da UNESP
Campus de Rio Claro/SP
BANCA EXAMINADORA
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_________________________________________
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- aluno(a)
Rio Claro, ______de_______________ de 2003.
Resultado:_______________________________________________
Dedico com amor:
Ao meu companheiro Francisco Hernandez,
E com muita gratidão, aos de sempre,
À minha mãe e ao meu pai,
Aos meus irmãos e sobrinhos.
À minha tia Mêves, in memorian.
À minha Recife.
AGRADECIMENTOS:
Agradeço a meu companheiro Francisco Hernandez, com quem dividi os
prazeres e as angústias de um doutoramento. Sem dúvida, sem seu estímulo,
amor e amizade, essa etapa chegaria ao final com um doçura a menos. Obrigada,
por você existir.
Logo que conheci minha orientadora, senti uma imensa paixão por tudo que
ela faz, com sua força, preparação e maturidade. Foi tentando seguir suas
orientações que conheci um mundo acadêmico muito mais rico do que conhecia
até então. O conhecimento que obtive, foi conquistado a duras penas. Estou certa
que ele ficará por muito tempo. Obrigada, Professora Dr.a. Silvana Maria Pintaudi.
Ao longo de meu Mestrado o Professor Jan Bitoun me fez acreditar em
possibilidades de investigação até então não vistas. No Doutorado, tornou-se meu
eterno conselheiro, a quem eu recorri para leituras de rascunhos, idéias afloradas
em reflexões iniciais. A tudo isso, sempre esteve pronto a atender. Meu respeito e
estima em forma de agradecimento a você, Jan, como carinhosamente seus exeternos orientandos lhe chamam.
Amigos são cada vez mais raros. Mas em Recife, tenho a felicidade de
contar com uma amizade que vem desde a graduação: meu amigo, Genovan.
Dedicou-se a ler com atenção meus escritos iniciais, trazendo o rigor e as
reflexões das mais profundas. Fomos juntos ao centro da cidade, com máquina
fotográfica em mãos, sob chuva e sol, para refletir sobre a delimitação do centro
tradicional de comércio . Obrigada, amigo, por tudo.
Ao longo do Doutorado, os alunos envolvem-se nos núcleos. O Núcleo de
Comércio e Consumo possibilitou minha aproximação com duas pessoas
maravilhosas. Aos meus amigos distantes: a Professora Silvia Ortigoza,
(Departamento de Geografia da UNESP/Rio Claro) e o Professor Sidney
Gonçalves Vieira (UFRS- Pelotas), meus agradecimentos pelos conselhos e
apoios, de toda ordem. Ainda no NECC, sinceros agradecimentos ao Henrique, a
Fabiane e a Susi.
Aos amigos da graduação e de sempre, ainda que distantes, geógrafos,
estimuladores de minha carreira profissional: Ana Maria, Alzenir, Iraquitan, Cristina
e Domingos.
Agradeço a Cida, amiga com quem dividi as angústias do processo de
seleção do doutorado, como os primeiros meses de curso em Rio Claro.
Aos Professores do Departamento de Geografia da UFPB- JoãoPessoa,
especialmente a Sinval Almeida Passos e Fátima Rodrigues, pelo apoio sempre.
Ao Sr. Petrônio, Diretor da CESURB, meu sincero agradecimento pelos
depoimentos de uma História de vida do Plano de Revalorização do Centro de
Recife, sem a qual seria impossível entender tal problemática.
Aos funcionários da FIDEM, especialmente a Manoel Feliciano, aos da
URB e da Secretaria de Planejamento da Prefeitura de Recife, que
disponibilizaram mapas, plantas e projetos, além de fornecer dados e informações
em suas entrevistas, sem as quais não seria possível a realização dessa
pesquisa. A todos aqueles que se prestaram às entrevistas, como aos Presidentes
da ACRIA, Sr. Marcos Galo, e do CDL, meu muito obrigada.
Às bibliotecárias da UNESP- Rio Claro, que carinhosamente se dedicavam
a nos ajudar, mesmo a 3.000 Km de distância. Aos bibliotecários do Arquivo
Público Estadual, da Biblioteca Estadual de Pernambuco e da Biblioteca da URB e
da Prefeitura da Cidade de Recife.
Ao desenhista Cláudio Martins, pela dedicação aos desenhos dos mapas,
bem como a todo pessoal do Observatório de Políticas Públicas da UFPE/ FASE
em Recife, por terem disponibilizado o acervo do banco de dados.
Ao programador visual, Agnaldo Cardoso, por sua dedicação na formatação
das fotos e, ao desenhista Gilvan da Silva, pelas ilustrações das capas
introdutórias dos capítulos e pelo desenho do mapa 06.
À Professora Josefa Elionita de Almeida Sá, pela atenção na leitura e crítica
da redação deste documento. E ao Professor Francisco Sousa Alves, pela
contribuição na revisão do Abstract.
Aos professores do Departamento de Geografia da UFPE, em especial ao
Professor Dr. Nilson Crócia pelas orientações e ensinamentos ao longo de meus
trabalhos em Recife, bem como na viabilização do trabalho de campo,
conjuntamente com a Professora-orientadora, realizado nessa cidade.
Ao Professor Dr. Cláudio de Moura Castilho, pois sua contribuição
intelectual, presente na leituras preliminares da tese, muito nos honra e nos
estimula a compartilharmos futuros projetos.
Aos Professores do Departamento de Ciências Sociais de Cajazeiras, pela
liberação de meu afastamento para qualificação. Em especial, ao Diretor do
Centro de Formação de Professores da UFCG/ Cajazeiras, Prof. José Maria
Gurgel, pelo apoio irrestrito à conclusão do meu Doutorado.
Ao Programa de Capacitação Docente, PICDT/UFPB -CAPES, pelo apoio
financeiro, sem os quais essa pesquisa se tornaria inviável.
Agradeço ainda à minha mãe, meu pai, irmãos e sobrinhos, pelo eterno
apoio e compreensão. Agradeço ainda, às minhas doces cachorra-filhas, pelo
apoio em forma de carinho e afeto: Chiquinha Gonzaga (in memorian), Tieta e
Karol.
Enfim, a todos aqueles que direta ou indiretamente contribuíram para a
realização deste trabalho, o meu muito obrigado.
Esse lugar é uma maravilha.
Mas como é que faz pra sair da ilha?
Pela ponte, pela ponte.
A ponte não é de concreto.
Não é de ferro, não é de cimento.
A ponte é até onde vai o meu pensamento.
Lenine e Lula Queiroga
SUMÁRIO
Páginas
ÍNDICE....................................................................................................................II
ÍNDICE DE MAPAS................................................................................................III
ÍNDICE DE FOTOS................................................................................................IV
ÍNDICE DE TABELAS............................................................................................V
ÍNDICE DE QUADROS..........................................................................................VI
RESUMO...............................................................................................................VII
ABSTRATC..........................................................................................................VIII
INTRODUÇÃO........................................................................................................1
CAPÍTULO I: CENTRO TRADICIONAL DE COMÉRCIO: CONFLITOS E
CONTRADIÇÕES...........................................................................10
CAPÍTULO II:A REPRODUÇÃO DAS FORMAS COMERCIAIS NO CENTRO DE
RECIFE...........................................................................................77
CAPÍTULO III: A GENERALIZAÇÃO DA MERCADORIA: ARTICULAÇÃO E
FRAGMENTAÇÃO ESPACIAL..................................................133
CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................174
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................182
II
ÍNDICE
Páginas
INTRODUÇÃO..........................................................................................................1
CAPÍTULO
I:
O CENTRO TRADICIONAL DE COMÉRCIO: Conflitos
Contradições................................................................................10
e
1.1 A paisagem do centro através de suas ruas...........................................16
1.2 O contexto histórico do comércio.............................................................36
1.3 O centro e suas intervenções...................................................................62
1.3.1 Histórico das intervenções e o Plano de 1992....................................62
CAPÍTULO II: A REPRODUÇÃO DAS FORMAS COMERCIAIS NO CENTRO DE
RECIFE.......................................................................................77
2.1 As ruas-shopping: transformações e persistências..................................84
2.1.1 A rua versas a rua-shopping ............................................................88
2.2 As mercadorias do centro da metrópole.................................................102
2.3 O vestuário do centro.............................................................................108
2.3.1 O consumidor e seu depoimento....................................................125
CAPÍTULO
III:
A
GENERALIZAÇÃO DA MERCADORIA: Articulação
Fragmentação Espacial....................................................133
e
3.1 Os Camelódromos: contradições e possibilidades...................................134
3.2 Em busca da padronização do comércio informal - os quiosques de
Camelôs...................................................................................................154
3.2.1 Novas formas do comércio de rua: o camelô faz a novidade.............160
3.3 A Fragmentação sócio - espacial: A pulverização de centros no
Centro..............................................................................................................162
CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................174
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................182
III
ÍNDICE DE MAPAS
Páginas
MAPA 1: Centro Tradicional de Comércio de Recife - delimitação.....................15
MAPA 2: Percorrendo as ruas do centro de Recife............................................20
MAPA 3: As ruas-shopping e os Camelódromos................................................35
MAPA 4: O Centro Tradicional de Comércio e os subcentros de Recife............40
MAPA 5: Os shopping centers e supermercados de Recife................................50
MAPA 6: Cidade de Recife: localização de centros de comércio e respectivo
rendimento médio nominal das pessoas responsáveis.........................53
MAPA 7: O Camelódromo da Avenida Dantas Barreto e o sistema viário.......142
IV
ÍNDICE DE FIGURAS
Páginas
FIGURA 1: Quiosques fechados no Camelódromo do Cais de Santa Rita...........22
FIGURA 2: Os becos e os camelôs.......................................................................24
FIGURA 3: O Mercado de São José.....................................................................26
FIGURA 4: Rua da Praia.......................................................................................27
FIGURA 5: Pátio do Livramento............................................................................28
FIGURA 6: Rua D. Henrique.................................................................................29
FIGURA 7: Praça da Independência.....................................................................30
FIGURA 8: Lojas Brasileiras..................................................................................31
FIGURA 9: Ponto de encontro em frente ao Teatro do Parque.............................32
FIGURA 10: Shopping Boa Vista e Loja Mesbla....................................................33
FIGURA 11: Camelôs saem amanhã. É ver para crer - matéria jornalística..........69
FIGURA 12: "Ruas fechadas: é a batalha contra sujeira e camelô" - matéria
jornalística...............................................................................................................71
FIGURA 13: Policiais e fiscais do comércio do centro...........................................72
FIGURA 14: Camelôs da Av. Dantas Barreto, entrada da Rua-shopping Nova Fotos A,B, C e D...............................................................................................73-74
FIGURA 15: A Rua-shopping Nova........................................................................80
FIGURA 16: A Rua-shopping Duque de Caxias.....................................................80
FIGURA 17: A Rua-shopping Imperatriz................................................................81
FIGURA 18: Pólo Imperatriz - painel......................................................................81
FIGURA 19: O Calçadão dos Pedestres- Rua da Imperatriz.................................95
FIGURA 20: O Calçadão dos Pedestres- Rua Nova.............................................96
FIGURA 21: Loja de vestuário da Rua-shopping Duque de Caxias.....................124
V
FIGURA 22: Camelódromo de Santa Rita - Recife..............................................135
FIGURA 23: Quiosques abertos do Camelódromo do Cais de Santa Rita..........135
FIGURA 24: Camelódromo da Dantas Barreto - módulo 02................................136
FIGURA 25: O vazio do espaço interno do camelódromo...................................137
FIGURA 26: Praça da Alimentação - Camelódromo do Cais de Santa Rita........143
FIGURA 27: Jogos e conversas: os consumidores não aparecem .....................143
FIGURA 28: Vendedores do Camelódromo e suas mercadorias.........................144
FIGURA 29: O Calçadão dos Mascates...............................................................152
FIGURA 30: Os camelôs na Rua Tobias Barreto - Recife...................................154
FIGURA 31: Quiosques padronizados para os camelôs......................................155
FIGURA 32: Os camelôs voltam às ruas .............................................................155
FIGURA 33: Quiosques de flores da Rua das Flores...........................................156
FIGURA 34: Grades da Praça da Independência................................................160
FIGURA 35: Guardas de Apoio Lojista a rua sob vigília......................................161
FIGURA 36: Portões de entrada e saída das ruas-shopping - foto A e B............165
FIGURA 37: Loja de vestuário da rua-shopping Nova.........................................170
VI
ÍNDICE DE TABELAS
Páginas
TABELA 1: Região Metropolitana de Recife - População 1960-2000..................48
TABELA
2:
Cidade de Recife e subcentros comerciais - população
rendimentos.......................................................................................51
e
TABELA 3: Lojas da Rua-shopping Duque de Caxias........................................104
TABELA 4: Lojas da Rua-shopping Imperatriz...................................................105
TABELA 5: Lojas da Rua-shopping Nova...........................................................107
TABELA 6: Ruas-shopping Duque de Caxias, Imperatriz e Nova - lojas de vestuário
e
sub-ramos
comerciais,
segundo
participação
absoluta
e
relativa..........................................................................................109-111
TABELA 7: Rua-shopping Nova - elementos atrativos .......................................128
TABELA 8: Rua-shopping Imperatriz - elementos atrativos................................130
TABELA 9: Rua-shopping Duque de Caxias - elementos atrativos.....................132
VII
ÍNDICE DE QUADROS
Páginas
QUADRO 1:Lojas de tecidos no centro de Recife em 1977...................................64
QUADRO 2:Associações de Ruas do CTR- setembro/1999..................................85
QUADRO 3:Mercadorias comercializadas segundo comerciantes da Rua-shopping
Imperatriz...........................................................................................112
QUADRO 4: Mercadorias comercializadas segundo comerciantes da Ruashopping Nova...................................................................................113
QUADRO 5: Mercadorias comercializadas segundo comerciantes da Ruashopping Duque de Caxias................................................................115
QUADRO 6: Mercadorias comercializadas segundo comerciantes do
Camelódromo da Dantas Barreto, setembro/2001............................123
QUADRO 7: Rua-shopping Imperatriz - mercadorias comercializadas segundo
consumidores....................................................................................126
QUADRO 8: Mercadorias comercializadas, segundo comerciantes do
Camelódromo da Dantas Barreto, setembro/2001............................145
QUADRO 9: Camelódromo da Dantas Barreto: depoimento dos comerciantes,
setembro/2001...................................................................................147
QUADRO 10: O Pólo Imperatriz e o comércio informal no centro - suas ruas e
estabelecimentos - Recife, abril de 2000.........................................159
VIII
RESUMO
Este trabalho objetiva analisar o processo de produção e reprodução de um
centro tradicional de comércio em Recife. Parte-se de um estudo de caso, para
atingir a elaboração de um arcabouço teórico-metodológico que possa contribuir
para o entendimento de outras localidades. Associando-se, assim, aos estudos de
produção
e
reprodução dos
espaços
internos
das
cidades,
a
partir
das
intervenções de um Plano de Gestão, procura-se identificar como, através e a
partir dele, pode ser percebido o processo de (re) produção espacial. O Plano de
Intervenção será analisado através do nível de transformação e de persistência de
novas e velhas formas comerciais. O procedimento de nossa análise será a
decomposição
da
paisagem
geográfica,
tendo
sido
eleitas
as
ruas
Nova,
Imperatriz e Duque de Caxias como nosso lugar de análise, onde seus elementos
serão articulados ao processo de reprodução do espaço metropolitano. A análise,
desenvolvida a partir de levantamento bibliográfico, pesquisa de campo e trabalho
de laboratório, envolve aspectos de ordem: a) conceitual: entendimento das
características do Centro Tradicional de Comércio, espaço que de longa data
abriga casas comerciais tradicionais e, no passado, era o principal espaço de
compras e lazer da cidade; b) descritiva: apresentação dos Planos de Intervenção
que buscavam uma programação para o uso daquele espaço; c) avaliativa:
identificação do grau de atuação do Plano de Intervenção no processo de
reprodução
espacial
do
Centro,
a
partir
da
análise
das
estratégias
sobrevivência do comércio formal e informal frente a generalização da mercadoria.
de
IX
ABSTRACT
The purpose of this paper is to analyze the process of production and reproduction of
a traditional tradecenter. From the city of Recife a specific case has been studied in order to
reach the making of a theoretical-methodological framework that may contribute in the
understanding of other places. Associating then with the studies of production and
reproduction of inner spaces in the cities from the interventions of a Management Plan, we
have tried to identify how, through and from it the process of spatial (re)production can be
seen. The Intervening Plan will be analyzed through the level of change and persistence of
new and old trading ways. The proceedings of our analysis will be the decomposition of the
geographical landscape; so we have chosen the Nova, Imperatriz and Duque de Caxias,
streets as our places of analysis, and where their elements will be joined to the metropolitan
reproduction process. The analysis, which has been developed from bibliographical data,
and field and laboratory research, involves the following aspects: a) conceptual: to
understand the characteristics of the Traditional Tradecenter, which has held traditional
shops for a long time, and where it had formerly been an attractive area of shopping and
leisure; b) descriptive: to present the Intervening Plans, which searched for programs for
using that place; c) evaluative: to identify the acting level of the Intervening Plan in the
process of the Center’s spatial reproduction from the analysis of survival strategies of
formal and informal trade before the generalization of the goods.
Key-Words: trade, consumption, routine, space, traditional center of the city.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Introdução
1
INTRODUÇÃO
Neste trabalho enfocaremos o espaço urbano como lugar da produção e
reprodução das relações sociais que geram novos conflitos e novas contradições,
tendo como categoria de análise o consumo do e no espaço, que se renova e
apresenta novas formas de comércio e de sociabilidades.
O processo de produção e reprodução espacial será analisado no Centro de
Recife, lugar tradicional do comércio varejista, exemplo da reprodução de um espaço
à semelhança dos shopping centers: ruas com nome de shopping center, abrigando
“praças de alimentação”, com gerenciamento a cargo do Poder Público e privado,
que vão compondo uma paisagem diferente das áreas não contempladas pelo Plano
de Revalorização1; galerias e promoters shopping, que surgem ao longo das ruas
comerciais,
abrigando-se
em
lugares
de
antigas
lojas
e
magazines;
e
“camelódromos”, os shoppings de camelôs, espaços destinados aos vendedores
ambulantes, com quiosques padronizados, criados e afixados em locais previamente
estudados; enfim, formas espaciais e comerciais, para as quais as pessoas se
dirigem e onde passam a acreditar que estão protegidas da violência, em local
asséptico, belo e confortável, o lugar do espetáculo, como analisa Debord 2: "O
espetáculo apresenta-se ao mesmo tempo como a própria sociedade, como uma parte da
sociedade e como instrumento de unificação (...). O espetáculo não é um conjunto de
imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens".
Nesse sentido, a especificidade dessa pesquisa está em analisar em que
medida
a imagem de shopping centers e a programação do lugar de consumo do
centro recifense, e em particular das ruas-shopping atrai antigos consumidores para
suas ruas. As estratégias criadas para sua produção, os escapes e resíduos do
cotidiano das pessoas que usam esse espaço serão sistematicamente analisados.
1
O Plano de Revalorização do Centro de Recife foi criado em 1992, pela Prefeitura de Recife em parceria com o
Clube de Diretores Lojistas.
2
DEBORD, Guy. A sociedade do Espetáculo. p.14.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Introdução
2
Neste trabalho, utilizaremos a análise regressiva-progressiva que caracteriza o
método de abordagem da transduction de LEFÈBVRE3 segundo o qual se deve partir
de um grau de verdade histórica, para o nível do subjetivo, individual, desenvolvendo
uma análise crítica da sociedade, através de suas representações ideológicas e dos
conceitos cotidianos.
A transduction constrói um objeto virtual a partir de informações, atingindo as
soluções com base em seus fundamentos, ou seja, vai do real
para o possível.
Surgem os tranducteurs sociologiques (teóricos) para designar a operação acoplada
aos grupos sociais e aos indivíduos (tranducteurs effectifs) desses grupos. A análise
dos sociólogos parte do presente ao virtual e do real ao possível, numa incessante
prospecção, que não se esgota no ritmo das noções psicológicas habituais, fora de
alcances e previsões.
A vida cotidiana é designada por Lefèbvre como o nível da práxis e da
sociedade global. Esse nível é designado por um aspecto da realidade, mas não se
reduz a uma tomada de vida dessa realidade e não se dissocia de outros conceitos
(palavras, degraus e planos, suas conjunturas e quadros de referências, suas
perspectivas e aspectos). Os níveis não coincidem entre si, mas contribuem para
exprimir uma complexidade diferencial e estrutural de um todo, de uma "totalidade".
A noção de nível envolve a noção de desnivelação, quando se procede à crítica das
determinações dos diferentes níveis da vida cotidiana.
A análise da sociedade, através do nível de sua vida cotidiana, permite uma
perspectiva, assegura um conteúdo objetivo. Em uma realidade onde se discernem
suas implicações sucessivas, o nível da vida cotidiana representa um degrau ou uma
palavra, mas com mais consistência da "realidade" que, por exemplo, os símbolos,
os modelos. Entretanto, mesmo que as realidades afloradas e emergentes se
3
LEFÈBVRE, Henri. Le Instruments Formels - Transduction et tranducteurs In: Critique de La Vie Quotidienné
II. Fondements d'une sociologie de la quotidienneté. p. 121.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Introdução
3
consolidem momentaneamente em um certo nível, o conceito de vida cotidiana
implica uma situação relativamente estável. Assim, o nível do cotidiano e o nível da
história possuem interferências.
Os lugares considerados neste trabalho (as ruas-shopping, os camelódromos
e os quiosques de camelôs) serão analisados como níveis de análise "encaixados", o
que para Lefèbvre4
refere-se às escalas espaciais que interferem, ora percebidas
isoladas, ora "encaixadas", com seus efeitos de reencontros e conjunturas. Assim,
"Qualquer nível resulta de uma análise que resgata e que explicita o conteúdo dos outros
níveis. Cada um deles, segundo uma fórmula desde já empregada, é pois à sua vez, resíduo
e produto".
Portanto, para analisar o Centro de Recife, que se reproduz de forma
fragmentária e complexa, e as ruas-shopping especificamente, é importante levar em
consideração os vários níveis espaciais de análise, visto que eles interagem entre si,
resultante de um processo de intervenções isoladas, em áreas específicas do
comércio, criando novas formas comerciais que invadem as ruas, substituindo
lugares públicos por privados, e estabelecendo novos hábitos de consumo do lugar e
no lugar.
Este trabalho procurará ainda discutir as transformações e as persistências
das formas comerciais do Centro Tradicional de Recife (CTR) decorrentes das
intervenções urbanísticas desse espaço. O desencadeamento das intervenções
urbanas, resultante do Plano de Revalorização gerou conflitos e contradições cujos
efeitos são identificados no cotidiano do lugar, através da análise das estratégias de
apropriação do espaço.
Assim, seu entendimento deve se situar entre a descrição e a imaginação,
entre a compreensão e a análise. Deve-se desenvolver um estudo analítico e crítico
da vida cotidiana, onde se juntem os fatos aos conceitos5.
4
LEFÈBVRE, Henri. Critique de La Vie Quotidienné II: fondements d'une sociologie de la quotidienneté. op.
cit.. p.124.
5
Idem. p. 11.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Introdução
4
Entre as hipóteses que nortearam o trabalho, uma delas relaciona-se ao fato
de a programação do espaço de consumo não atingir o objetivo de seus
planejadores, não atraindo os consumidores dos centros comerciais planejados, os
shopping centers, para suas ruas. Essa hipótese revela que "A estratégia que visa à
programação do cotidiano é global; é uma estratégia de classe. Desse plano, da sua
realização, alguns se beneficiam; os outros, a maioria, o suportam mais ou menos"6.
Ao contrário disso, há o fortalecimento de um comércio popular e diversificado,
principalmente no ramo de vestuário, que compete com outras formas comerciais
especializadas nesse tipo de mercadoria, a saber: os camelódromos e o comércio de
rua.
Sem
dúvida,
essa
transformação
foi
desencadeada
pelo
Plano
de
Revalorização do Centro, criado pela Prefeitura da Cidade em 1992, na medida em
que fez convergir para o Centro de Recife e, em particular, para as ruas-shopping, as
principais ações para elas solicitadas.
No que se refere às ruas-shopping, destaca-se a intenção do Clube de
Diretores Lojistas (CDL) de torná-las semelhantes aos SC, para isso, adotou a ruashopping Imperatriz para iniciar o processo. Além disso, há cada vez maior número
de ruas cujos comerciantes se agrupam em Associações de Ruas, passando a
programar o uso desses espaços, tomando como principal medida para o resgate de
antigos consumidores, a proibição do comércio de rua, dos camelôs e ambulantes.
É importante, portanto, identificar os níveis de coesão de cada uma das ruasshopping analisadas, a saber: as ruas-shopping Nova, Imperatriz e Duque de Caxias
e a partir de então, distinguir as necessidades dos comerciantes de cada rua, bem
como, dos consumidores. Para tanto, deve-se identificar as necessidades dos
homens que vivem nesse cotidiano procurando distinguir o desejo social do
individual, tal qual se manifesta na vida cotidiana.
6
LEFFBVRE, Henri. A Vida Cotidiana no Mundo Moderno. p.203.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Introdução
5
De fato, a administração das ruas-shopping procura otimizar sua função,
viabilizando as lojas comerciais dessas ruas. Tem-se como efeito o aumento do ramo
de
vestuário,
com
mercadorias
populares
que
se
assemelham
àquelas
comercializadas nos camelódromos, impedindo que os camelôs permaneçam nesses
estabelecimentos, restando-lhes a alternativa de voltar às ruas, à exemplo do que
ocorre com a Avenida Dantas Barreto, na Bairro de Santo Antônio e as ruas Sete de
Setembro e do Hospício, no bairro da Boa Vista.
Percebe-se, portanto, que as transformações das formas comerciais não estão
ocorrendo como o planejado, ou seja, os consumidores que se dirigem para os SC
não retornaram para o Centro. Como alternativa aos comerciantes das ruas do
Centro restou a possibilidade de comercializar produtos populares. Acredita-se que o
ramo de vestuário foi adotado pelos lojistas das ruas-shopping pelas particularidades
de mercado regional, representado pelas cidades de Santa Cruz do Capibaribe,
Caruauru e Toritama, e do mercado global, pelos países dos tigres asiáticos.
Nesse sentido, os conflitos decorrentes da retirada dos camelôs das principais
ruas da cidade, destinando-os aos camelódromos, persistem com o retorno do
comércio de rua, uma vez que nas ruas-shopping se comercializa a mesma
mercadoria dos camelódromos. Essa contradição resulta em um centro fragmentado
e conflituoso. A fragmentação do espaço é, ao mesmo tempo prática, pois o espaço
torna-se mercadoria e por isso a disputa pelo lugar se acentua no jogo de compra e
venda do solo, e teórica, pois os estudiosos recortam o espaço para analisá-lo. O
conflito entre os espaços mais ou menos centrais reside na relação entre a
fragmentação do espaço e a gerência científica, ou seja, a capacidade que as
empresas possuem em produzir espaços7.
Em nosso espaço de análise, o Centro Tradicional da cidade de Recife - CTR,
por um lado, os lugares programados são orientados pela não permanência do
comércio de rua. Os Planos Urbanísticos criam espaços à imagem de shopping
7
LEFÈBVRE, Henri. A Re - Produção das Relações de Produção. p19.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Introdução
6
center - SC, tentando, assim, capturar a espontaneidade do ato de comprar e vender
sem, contudo, oferecer os atrativos dos SC, cada vez mais procurados por pessoas
interessadas em lazer, conforto, encontros e compras. De outro lado, camelódromos
ficam
abarrotados de mercadorias que os ambulantes tentam vender, criando
modalidades e resgatando outras formas antigas de comércio de rua.
Assim, é questionável a preocupação apresentada por programas eleitorais de
Prefeituras em adotar o camelódromo como solução para o comércio de rua, a
exemplo de João Pessoa e Campina Grande, na Paraíba, onde os camelôs deixam
os boxs dos camelódromos por não conseguirem continuar pagando as parcelas do
financiamento do imóvel.
Enfim, a fragmentação do Centro de Recife é hoje bastante expressiva e sua
(re)produção espacial cria formas comerciais que se transformam e convivem junto a
outras que persistem, no constante conflito da disputa pelo lugar.
Por tratar-se de um tema novo na Geografia e face ao crescente dinamismo
do espaço de análise, procurou-se obter um quadro conceitual para a construção de
uma abordagem sob a ótica do espaço urbano, entendido como expressão da
contradição entre usos de diversos grupos sociais.
Como adiantamos atrás, procura-se desenvolver essa pesquisa a partir do
método da transducção, conforme Henri Lefèbvre8, segundo o qual deve-se partir de
um grau de verdade histórica, para o nível subjetivo, individual, desenvolvendo uma
análise crítica da sociedade, através de suas representações ideológicas e dos
conceitos cotidianos.
Como método de investigação utilizamos a) Documentação indireta: etapa que
compreendeu levantamento bibliográfico, teórico e relativo ao tema. Para tanto, a
descrição contribuiu na delimitação dos níveis de análise, ou seja, das escalas
espaciais que interferem, ora percebidas isoladas, ora “encaixadas”, com seus
efeitos de reencontros e conjunturas. Assim, nesse primeiro momento de análise,
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Introdução
7
veremos no nível da história, como as realidades afloradas, emergentes, consolidamse em um certo nível espacial; b) Documentação direta: consistiu em observações,
coletas de dados e informações empíricas, através de entrevistas com os produtores
do espaço. Nessa etapa pretendeu-se captar uma parte do vivido “um aspecto do
drama escondido, a situação dessa cotidianidade
9
”. A técnica da entrevista será aqui
utilizada procurando uma relação do entrevistador e do entrevistado, onde possam
aflorar os fatos mais simples da cotidianidade.
A produção e reprodução do espaço resulta em formas espaciais. Essas formas,
por sua vez, criam e recriam necessidades de consumo do e no espaço, renovandoas com novas imagens. Os Centros Tradicionais de Comércio das cidades se
reproduzem a partir de uma nova imagem, criada pelas novas formas de comércio
para sociedade urbana atual. Nesse sentido, a análise do cotidiano dos indivíduos
envolvidos
na
teia
de
relações
sociais
dessas
novas
formas
de
comércio,
investigados através da categoria de análise mercadoria, possibilitou compreender
que novas formas do comércio surgiram em solicitação a essas necessidades de
consumo do e no espaço, no atual contexto histórico-espacial. Procuramos, portanto,
analisar as novas formas de comércio e de consumo do espaço surgidas do
confronto das ações do Projeto de Revalorização do Centro Tradicional de Comércio
com as realizações do cotidiano, do concebido com o vivido.
A cidade real e virtual é o espaço delimitado. As ruas-shopping: Nova, Imperatriz
e Duque de Caxias, passam a ser um lugar da cidade “transfuncional, durável, obra
conseguida e não conseguida, mas obra de um grupo social e de uma sociedade global10.
Procuramos ainda desenvolver o método das variações imaginárias, proposto por
Henri Lefèbvre11 “Essas variantes podem ser mais ou menos audaciosas, seguindo a
qualidade da imaginação que lhes constrói (...) Nós operamos sobre um objeto virtual, à
realizar. Como o atingir sem usar as imagens?”
8
LEFÈBVRE, Henri. Critique de La Vie Quotidienné II: fondements d’une sociologie de la quotidienneté.p.105.
Ibidem, p.106.
10
Idem.Ibidem, p.208.
11
Idem, Ibidem,p.118.
9
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Introdução
8
Essa pesquisa se apoiou também em instrumentos como a pesquisa bibliográfica,
a coleta de dados estatísticos, entrevistas e cartográfica.
Dessa forma, procuramos mostrar a fundamentação teórica, os conceitos que dão
embasamento à análise e os métodos utilizados para o desenvolvimento da
pesquisa. Inseridos na produção do pensamento geográfico, está colocado o
momento de encontro da geografia brasileira com os conceitos de reprodução das
relações sociais, onde as formas comerciais possibilitam o entendimento das
transformações sociais no espaço urbano. Acompanhando a idéia de que o comércio
traduz as estratégias de sobrevivência do capitalismo, apresentamos o método de
orientação do trabalho, com as etapas de operacionalização da pesquisa e as
variáveis a serem investigadas, dando suporte à análise dos fatos.
No
primeiro
capítulo
é
apresentado
o
Centro
Tradicional
de
Recife
privilegiando a descrição, primeira etapa do método regressivo-progressivo, quando
o pesquisador deve reconhecer a complexidade horizontal, ou seja, a diversidade
das relações sociais através da reconstituição, identificando e descrevendo o que vê.
Nesse momento, "o tempo de cada relação social ainda não está identificado".12 Há,
nesse
capítulo,
a
reconstituição
dos
momentos
históricos
que
criaram
as
intervenções nas ruas comerciais do Centro de Recife. Busca-se nesse capítulo,
entender a identidade do Centro Tradicional da cidade, criada pelo conjunto de
intervenções
urbanas
e
arquitetônicas,
como
também
pelas
relações
sociais
calcadas no lento tempo da metrópole. Há nesse capítulo, um quadro cronológico
com as principais políticas públicas, organizadas pelos comerciantes e executadas
pelas empresas públicas de urbanização municipal.
O segundo capítulo contempla a etapa seguinte do método analítico regressivo, quando nos aprofundamos na complexidade vertical, ou seja, quando nos
aprofundamos na vida cotidiana das ruas-shopping, reconhecida como resultante de
relações sociais desiguais. Nesse momento procuramos datar as relações sociais
12
MARTINS, José de Sousa. As Temporalidades da História na dialética de Lefèbvre In: Henri Lefèbvre e o
retorno à dialética. p.21.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Introdução
9
para desvendar as aparentes contemporaneidades e simultaneidades, descobrindo
as épocas específicas de cada relação social presente nessa ruas, produzidas com
suas velhas formas comerciais e suas novas estratégias de sobrevivência do
comércio. Elaborado a partir das entrevistas dos comerciantes e consumidores das
ruas-shopping,
os
depoimentos
possibilitaram
averiguar
as
transformações
e
persistências do comércio do Centro, onde destacamos: a) a popularização do ramo
de comércio de vestuário, em específico, e do comércio em geral; b) a reprodução
ampliada da concentração do capital, como indicador de um amplo processo de
revalorização espacial e c) a segregação social do Centro. Foram analisadas suas
estratégias, instrumentos e repercussões à luz de documentos oficiais, técnicos e
políticos que participaram de sua concretização. Procurou-se confrontar o discurso
oficial com a prática.
No
terceiro
e último capítulo, procura-se analisar as contradições não
resolvidas e os conflitos latentes, ou seja, a terceira etapa do método históricogenético, possibilita o reencontro do presente, porém se elucida o percebido pelo
concebido teoricamente, definindo, assim, as condições e possibilidades do vivido. A
generalização da mercadoria no Centro Tradicional de Comércio cria conflitos com o
comércio de rua. A programação é destinada a todos os lugares, públicos e privados,
criando uma centro fragmentado, onde afloram contradições. Analisaremos nesse
capítulo, dois lugares que representam o desencontro de tempos e de possibilidades:
o Camelódromo da Dantas Barreto e o Pólo Imperatriz, apontando as virtualidades e
as
possibilidades futuras de um e de outro. Descobre-se, através desse método
regressivo-progressivo que na origem contraditória de relações e concepções,
persistem contradições não resolvidas, alternativas não consumadas, necessidades
insuficientemente atendidas, virtualidades não realizadas. Aponta-se, enfim, para um
caminho de possibilidades criadas no seio dessa contradição.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 11
CAPÍTULO I: CENTRO TRADICIONAL DE COMÉRCIO:
CONFLITOS E CONTRADIÇÕES
Para muitos moradores da cidade do Recife e sua Região Metropolitana
(RMR), a remoção dos camelôs do Centro representa uma melhoria do comércio do
centro
da
cidade,
traduz
o
retorno
de
ruas
tradicionais
de
comércio
aos
consumidores que outrora se dirigiam para suas lojas e foram absorvidos por outro
modo de consumo, aquele difundido pelas novas formas comerciais no interior da
cidade. A implantação de hipermercados e shopping centers, mais que uma inovação
da atividade comercial, marcou um novo conceito e uma nova modalidade no
comércio recifense. Estes empreendimentos surgidos a partir da década de 80 nessa
cidade, desencadeiam efeitos que, entre outros, produziram uma fase de mudanças
na centralidade comercial da RMR, quando a proximidade do centro tradicional do
Recife, o fluxo de consumidores em determinadas ruas e a oferta de produtos
especializados nas galerias dos bairros de classe média têm parte de seu valor
apreendido pelo novo centro de consumo.
Essas mudanças de dinâmica espacial que ocorrem geralmente com o
surgimento de shopping centers (SC) e hipermercados são decorrentes da formação
estrutural desse tipo de empreendimento que abriga, além de um considerável
número de lojistas tradicionalmente conhecidos no local, os lojistas de outros
mercados regionais, que se concentram em um mesmo espaço e são regidos por
uma mesma política administrativa. Frente a esses fatos, surgem várias indagações:
em
que
contexto
hipermercados
no
sócio-econômico local, se coloca a expansão dos SC e
interior
de
uma
metrópole?
Quais
as
transformações
e
persistências podem ser detectadas em movimento no Centro Tradicional de Recife
(CTR)?
Para dar início à análise das estratégias e particularidades do CTR, reformado
com o objetivo de resgatar antigos consumidores, apoiado em um dos planos de
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 12
intervenção que criaria as ruas-shopping,
consistindo, entre outros pontos, na
retirada dos camelôs das principais ruas de comércio do CTR, na tentativa de tornar
o Centro da cidade semelhante ao que era no passado, desenvolveremos a primeira
etapa do método de análise, onde se faz necessário descrever o visível para nele
encontrar a aparente simultaneidade e contemporaneidade das relações sociais no
presente.
A primeira questão a ser realçada é o caráter fragmentado que os Planos tem
em relação ao centro. Ou seja, o mesmo é pensado pelos planejadores aos pedaços
e não por uma totalidade dentro da cidade. Isto nos coloca um problema
metodológico: delimitar o que estamos chamando o CTR. Mesmo tomando como
ponto
de
partida
as
delimitações
oficiais,
situamos
nelas
a
localização
das
intervenções, das ruas-shopping propriamente ditas, dando luz às reais contradições
não resolvidas.
As ruas-shopping são ruas comerciais tradicionais cujas intervenções a elas
se dirigiram a partir de 1992, seja em aspectos de infra-estrutura (restauração de
seus calçamentos, fechamento de suas entradas e saídas com portões), seja nos
aspectos da dinâmica do comércio (retirada dos camelôs, fiscalização e manutenção
das ruas "livres" dos camelôs sob a responsabilidade de uma guarda municipal). O
gerenciamento das ruas-shopping ficou a cargo de uma Associação de Rua, que
através da formação de um sistema de condomínio, desenvolve campanhas de
divulgação de suas promoções e liquidações, renovação de letreiros e fachadas.
Cada rua fechada teve seu nome antecedido da denominação de "shopping centro",
a exemplo de Shopping Centro Imperatriz, Shopping Centro Nova, Shopping
Centro Duque de Caxias.
A escolha desse tema foi motivada pela necessidade de estudos que
analisem o Centro Tradicional de Comércio das metrópoles13, não só a partir de
novas centralidades, surgidas com a criação de centros comerciais (shoppings,
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 13
galerias, hipermercados) bem como de centros empresariais (especializados em
negócios), em quase todos os bairros de classe média das cidades, dos planos de
revalorização do espaço.
Para isso, entendendo que nem sempre as delimitações oficiais dos Centros
Tradicionais das cidades contribuem para o esclarecimento dos fatos, as que
apresentadas neste trabalho são múltiplas e complementares. Buscou-se extrair
delas uma delimitação onde a realidade descrita apresentasse o afloramento das
formas comerciais, surgidas a partir das contradições não resolvidas que, por sua
vez, refletem os conflitos desencadeados pelas transformações e persistências do
comércio da cidade.
Portanto,
esse
tema
parte
da
investigação
das
ruas-shopping
como
resultantes de uma ampla dinâmica espacial do CTR e do comércio da cidade. Para
enfocar essa dinâmica, são apresentados os principais Planos de Intervenção do
Centro e reflexões acerca do processo de sua revalorização, do consumo do centro e
no centro.
A metrópole recifense escolhida para análise, entretanto, foi contemplada
com escassos trabalhos que investigaram seu CTR, o que nos apresentaria um
primeiro desafio: a delimitação de seu centro, como já foi referido (MAPA 01).
Desde 1961, o Centro vem sofrendo alterações de delimitação pelos órgãos
públicos. A Lei 7427/61 definia uma Zona Portuária (ZP1) e uma Zona Comercial
Central (ZC1), respectivamente formadas pelos bairros de Recife e Santo Antônio.
Em 1995, o Plano Setorial de Uso e Ocupação do Solo14 propõe a Zona
Centro Principal, composta de 04 unidades, formadas por vários bairros centrais.
Entre os aspectos da Zona Centro Principal, destacam-se aqueles ligados aos
13
O termo “centro tradicional de comércio” aqui é designado por “um território que se sobressai pela
concentração, desde longa data, de casas comerciais tradicionais” In FREIRE, Ana Lucy Oliveira. O Comércio
Tradicional na cidade que se produz: o centro de Belo Horizonte. p. 63 -77.
14
PREFEITURA DA CIDADE DO RECIFE - Secretaria de Planejamento Urbano e Ambiental. Plano Setorial de
Uso e Ocupação do Solo. Recife, 1995.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 14
aspectos ambientais e sócio- econômicos, pois constituem-se em um conjunto de
estreitas ilhas e camboas, resultantes das ações de depósitos, trazidos pelos rios e
pelas correntes marítimas e do aterro de manguezais, em diversos momentos
históricos e abriga o Porto Marítimo da cidade15.
Esse zoneamento subsidiaria a criação das Regiões Político- Administrativas RPAs, o que insere o Centro na RPA 1, envolvendo os bairros de Recife, Santo
Amaro, São José, Boa Vista, Santo Antônio, Cabanga, Ilha do Leite, Paissandu,
Soledade, Coelhos e Ilha Joana Bezerra16.
O fato desse estudo enfocar as formas comerciais do centro tradicional de
comércio, exigiu esforço em apresentar uma delimitação que possibilitasse uma
melhor compreensão das transformações das formas comerciais e de sua dinâmica
no movimento de apropriação do espaço a partir da decomposição da paisagem real.
Partimos, então, do entendimento das formas comerciais como formas
sociais
17
, criadas a partir das relações sociais que, segundo Pintaudi,
"Analisar as
formas comerciais, que são formas comerciais históricas, permite-nos a verificação das
diferenças presentes no conjunto urbano, o entendimento das distinções entre espaços
sociais. As formas comerciais dão ensejo à análise das diferenças".
Recorremos ao Trabalho de Campo para descrever a paisagem do centro,
delimitando nossa área de interesse.
Portanto, ao analisar o Centro Tradicional de uma metrópole, que se reproduz
de forma fragmentária e complexa é importante levar em consideração os vários
níveis espaciais, visto que eles interagem entre si, e, uma vez resultantes de um
processo de intervenções isoladas, em áreas específicas do comércio, criam novas
formas comerciais que invadem as ruas, substituindo lugares públicos por privados, e
estabelecem novos hábitos de consumo do lugar e no lugar.
15
Idem, p. 11.
Prefeitura Municipal de Recife. Recife em números. Recife, 1997.
PINTAUDI, Silvana Maria. A Cidade e as Formas do Comércio. In: CARLOS, Ana Fani A. Novos Caminhos
da Geografia. p.145.
16
17
Mapa 01
CENTRO TRADICIONAL DE COMÉRCIO DE RECIFE - DELIMITAÇÃO
BASEADO NA LEI 7427 DE 1961
Olinda
Casa Amarela
Encruzilhada
Centro
Várzea
Madalena
Porto
Afogados
Pina
Areias
N
0
Ibura
Aeroporto
1km
Boa Viagem
Limite Municipal
Limite do Setor Urbano
Limite do Setor Suburbano
Centro de Comércio
Jaboatão dos
Guararapes
Fonte: FIDEM, PCR, Recife/2002.
Organizadores: Jan Bitoun e Kátia Ribeiro
Desenho: Cláudio Martins
Zonas Industriais
Zonas Portuárias
Zona Universitária
Centro Tradicional de Comércio
Espaço de Análise
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 16
O método lefèbvriano prevê três momentos de investigação: o descritivo, o
analítico-regressivo e o histórico-genético. No primeiro momento - o descritivo - parte
de observações sistemáticas do objeto de estudo. Em nosso estudo temos as ruas
comerciais do centro da metrópole, que veremos agora.
1.1
A Paisagem do Centro através de suas ruas comerciais
Nosso trabalho teria início no bairro do Recife, lugar que guarda como
principal traço histórico o início do povoamento do Recife, produzido com a função de
intermediação entre portos além-mar. Seu uso atual está voltado para o consumo do
lazer turístico, onde o Plano de Revalorização “Recife Antigo” estimulou a abertura
de restaurantes, bares e boates em suas ruas. Nesse bairro, não há um comércio
representativo como aquele do passado. Convivem apenas algumas agências de
bancos (Banco do Brasil, BANDEPE), o Teatro Apolo, o Museu Militar no Forte do
Brum, construído em 1631, agência dos Correios e prédios residenciais, algumas
lojas, bares e boates. Diferentemente do passado, quando o bairro do Recife era o
segundo em importância entre os anos de 1875-1881, pois reunia o grande comércio
atacadista exportador e importador, perdendo para o bairro de Santo Antônio, com
uma quantidade de casas comerciais duas vezes menor. "Nesse bairro o comércio
varejista não era muito importante18".
Foram
desenvolvidos
vários
estudos
sobre
o
bairro
do
Recife,
lugar
atualmente conhecido como espaço “da diversidade de bares, restaurantes, boates e
pensões e a concentração de atividades públicas e privadas19". Ao trabalhar o tema
18
19
ZANCHETI, Silvio Mendes. Distribuição da Atividades Econômicas no Espaço: 1850-1881.p.45.
MADUREIRA, Sevy. Bairro do Recife- porto seguro da boemia.p.21.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 17
boemia, a Autora apresentou o espaço “que do ponto de vista urbanístico carrega as
marcas históricas da sua ocupação e expansão, guardando as marcas do Recife
Antigo”. Ao longo do trabalho podem ser vistas as imagens (fotos) do Recife Antigo
de outrora, recurso utilizado para se conhecer o aspecto do bairro que abrigou a
boemia do passado; a boemia do presente foi registrada nos testemunhos orais.
Para nossa análise, esse trabalho contribuirá na delimitação espacial do tema, pois
enquanto nesse espaço busca-se um retorno ao passado, no CTR (espaço de nossa
análise) será a imagem do presente (dos shopping centers) aquela idealizada.
Tal constatação fez-nos deixar de inserir esse bairro em nossa investigação.
Além disso, o Bairro de Recife vem sendo alvo de planos de Revalorização que aliam
a imagem do passado, representada pelo seu casario, a imagem de centros
modernos, criando um dos principais pólos de animação noturna da cidade. Entre as
várias intervenções encontram-se aquelas obras que substituem usos existentes no
Porto, tais como: vários armazéns de açúcar desativados foram sendo utilizados
como casa de shows , espetáculos teatrais, Terminal Marítimo de Passageiros; no
molhe foi implantado o Parque das Esculturas, do artista plástico Francisco
Brennand; a Praça Rio Branco (ou do Marco Zero, como é popularmente conhecida)
foi criada com o painel "A Rosa dos Ventos", pintado no piso pelo pernambucano
Cícero Dias, fazendo referência ao Plano "Eu Vi O Mundo e Ele Começava Aqui"; O
Espaço Cultural BANDEPE, instalado em um prédio do início do século XX; o
Observatório Cultural Malakoff, situado na Torre Malakoff, onde funcionam uma
biblioteca virtual, sistema de informações culturais e observatório astronômico; a Rua
do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus, onde estavam sediados estabelecimentos
comerciais judaicos e a Sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira das Américas, hoje
objeto de estudos arqueológicos e de restauração.
Uma parte do Bairro do Recife vai sendo amplamente valorizado e, apesar de
semelhante ao que acontece nos outros bairros do centro, onde há a
programação
do uso e consumo do espaço. Nesse bairro o Plano de Intervenção substituiu ou
ocupou espaços existentes, alguns deles que estavam ociosos, destinando-os
a
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 18
usos pré-definidos, criando um valor para o espaço. Nos bairros à oeste, também
componentes do Centro, o Plano de Intervenção não encontrando espaços livres, ou
seja, as ruas comerciais estavam ocupadas por usos definidos, criará estratégias de
eliminar usos e impor um novo uso, a partir da programação do comércio tradicional
da cidade.
Se no bairro do Recife a dinâmica sumariamente descrita é essa, nos bairros
de Santo Antônio, São José e Boa Vista, a dinâmica é outra, bastante diferente. Alvo
de várias intervenções isoladas, as ruas comerciais tradicionais desses bairros
passam por transformações criadas pelos Planos de Revalorização, cujo objetivo é a
criação de um novo uso para um espaço comercial antigo, cujo mix de lojas
apresenta uma complexa estrutura de relações sociais. O Plano que partiu da
utilização da imagem de shopping centers para resgatar antigos consumidores,
proibindo o comércio de rua, a partir da criação de um sistema de segurança que
permitiria a viabilização da comercialização das mercadorias, apresentando-se como
uma estratégia de revalorização do espaço.
As intervenções nas ruas comerciais, as ruas-shopping conseguem apenas
dinamizar um comércio predominantemente popular. O cotidiano das ruas comerciais
não seguiria a suposta programação destinada ao espaço. Como resultado das
intervenções, há uma fragmentação do centro gerada pela criação das Associações
das Ruas, onde cada rua possui um gerenciamento específico, desencadeando
conflitos entre o comércio formal e informal.
Procuraremos analisar o CTR que, embora inserido no Centro da Metrópole,
apresenta como traço característico, a predominância de casas comerciais cujas
estratégias de apropriação do espaço, diferentemente daquelas do bairro do Recife,
são ditadas pelos comerciantes, através de Associações de Ruas e do Clube de
Diretores Lojistas - CDL. Sendo assim, a delimitação de nossa área de estudo não
obedece às delimitações oficiais do CTR, nem se refuta a restringir vários bairros
distintos e heterogêneos a um uso específico, aquele do comércio e serviços. Há
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 19
portanto, uma delimitação dentro do CTR pois o alvo de nossa análise são algumas
das ruas comerciais desse centro.
Consideramos que os estereótipos e imagens difundidos pelos centros
comerciais regionais (shopping centers) foram influentes na gestão do espaço
comercial recifense. Essa hipótese se consubstancia na constatação em trabalho de
campo, de grande quantidade de formas comerciais que seguem os padrões
funcionais dos shopping centers ou apenas a sua imagem, para exercer atração aos
consumidores. São novas formas comerciais surgidas no CTR ao longo dos últimos
20 anos, num contexto de novas centralidades urbanas, quando os planos de
intervenção e os comerciantes tentaram cooptar a imagem dos shopping centers
para seus empreendimentos. Convivem lado a lado, novas e velhas formas do
comércio. Diante dessa constatação perguntamos: Onde predominam as novas
formas? Quais foram as relações sociais de associações entre agentes e produtores
do espaço (poder público, comércio e o CDL)? Onde restam as velhas formas do
comércio? O que motiva a sua resistência frente a esse novo contexto?
Com todas essas inquietações, dirigimo-nos para uma análise da paisagem do
CTR. Através de suas ruas comerciais, iniciamos o percurso pelo bairro de Santo
Antônio, tradicional em comércio desde o final do século XVIII, quando abrigava mais
de 50% das lojas da cidade, sendo considerado o bairro nobre para o comércio de
luxo e especializado20. Seu dinamismo se iniciou com a construção da ponte
Maurício de Nassau, quando o então Bairro do Recife estaria interligado à ilha
homônima, construída em 1634 e reinaugurada em 1917. Um testemunho do
comércio tradicional da cidade é a Livraria Ramiro Costa, localizada à rua 1º de
Março existente desde 1889. (MAPA 02)
20
Idem, p. 46.
Mapa 02
PERCORRENDO AS RUAS DO CENTRO
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São José
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Trajeto percorrido na pesquisa
Camelódromos
Escala Gráfica
0
Prédios e monumentos histórico-culturais
Limite de Bairro
Organizador: Kátia Ribeiro.
Desenho: Cláudio Martins
Fonte: UNIBASE, FIDEM, Recife/2000.
8
20 m
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 21
Dirigindo-se a oeste, entramos no bairro de Santo Antônio (que juntamente
com os bairros São José e Boa Vista, fazem parte de nossa área de estudo) e
localizamos a Rua do Imperador, onde os serviços públicos (Jornal do Comércio,
Arquivo Público, Palácio da Justiça), igrejas e escritórios predominam desde longa
data e atraem novos serviços públicos, como a Secretaria de Assuntos Jurídicos e o
Ministério Público que se alojaram ao longo da rua D. Pedro II, dividindo espaço com
lojas, bancos, cartórios e praças, formando uma área especializada em serviços
jurídicos. Vários monumentos históricos localizam-se nesse bairro: o teatro Santa
Isabel (século XIX), o Palácio do Campo das Princesas (1841) e o Palácio da Justiça.
A Capela da Ordem Terceira de São Francisco (1696-1724), juntamente com o
Convento e a Igreja de Santo Antônio, o prédio do antigo Hospital e a casa da
Oração da Ordem Terceira, compõem o Conjunto Franciscano do Recife, marco
inicial da ocupação da Ilha de Antônio Vaz, no início do século XVII, formando um
importante conjunto arquitetônico. Outros prédios de grande valor cultural estão
também nesse bairro : a Casa da Cultura, instalada no prédio onde funcionou até
1973 a Casa de Dentenção e que hoje funciona como espaço comercial e cultural,
com lojas de artesanato, banco (câmbio), galerias de arte e área para apresentações
folclóricas. Em suas proximidades, vê-se a antiga estação Central do Recife (1880),
onde estão instalados o Museu do Trem e a Estação Terminal do Metrô.
Seguindo em direção ao sul, chegamos às ruas comerciais do bairro de São
José, o bairro dos camelódromos. No Recife, tem-se dois shoppings de camelôs,
sendo um deles, o Shopping Santa Rita, localizado na avenida Martins de Barros no
Cais de Santa Rita. Segundo Rocha21, essa avenida foi conquistada ao leito maior do
rio Capibaribe: "era o cais de Santa Rita ou a praia de Santa Rita, até que as obras
do porto, na ilha de Santo Antônio determinaram o seu aterro e urbanização".
Segundo o autor, "o local teria sido escolhido para abrigar um mercadinho sui generis
constituído
de
compartimentos
dos
pequenos
negociantes
ambulantes,
que
obstruíam as ruas centrais desta capital (mas foram substituídos por outros...)". Esse
teria sido o primeiro camelódromo da cidade e se mostrou ineficaz para a questão do
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 22
comércio de ambulantes. Percebe-se que o
(re)surgimento dos camelódromos na
década de 90, vem sob uma forte influência da imagem dos shopping centers: áreas
destinadas aos quiosques padronizados que comercializam mercadorias de ramos
comerciais similares (roupas, sapatos, bolsas, cintos, brinquedos), não dividem lugar
com outros quiosques que comercializam comida, destinados a uma "Praça da
Alimentação", a exemplo dos shopping centers. Os quiosques não são vendidos,
sendo a concessão de uso dada a antigos ambulantes das ruas centrais, mediante
sua permanência no camelódromo. Apesar de não existir um sistema de condomínio,
a Prefeitura atua como síndico e locatária, recolhendo taxas de água e luz. Embora,
em visita ao local, tenhamos constatado seu completo abandono, seja por parte dos
camelôs, que não pagam taxas e poucos sobrevivem do que vendem, seja por parte
da Prefeitura que não recolhe taxas e não destina verbas para benfeitorias e
manutenção da obra. Localizado em torno do Terminal Integrado de Passageiros do
Cais de Santa Rita, o lugar apresenta obras inacabadas, com barracas improvisadas.
No
interior
do
Camelódromo,
vários
quiosques
fechados,
abandonados
ambulantes.
Figura 1: Quiosques fechados do Camelódromo do Cais de Santa Rita.
21
ROCHA, Tadeu. Roteiros de Recife (Olinda e Guararapes). p. 57.
pelos
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 23
A escolha desse espaço apresenta problemas. Trata-se de uma via de
circulação rápida, com uma Terminal de ônibus que servem aos municípios da zona
da mata sul, cuja população de poder aquisitivo baixo, tem uma
pequena e
insignificante circulação em seus arredores.
O Camelódromo da Avenida Dantas Barreto apresenta um maior dinamismo
que o Camelódromo do Cais de Santa Rita. A longa Avenida Dantas Barreto que
"cortando a Praça da Independência, de norte a sul e perpendicular à Avenida
Guararapes, começou a ser aberta em 1943, segundo o Plano urbanístico do
engenheiro Ulhôa Cintra"22 receberia o Camelódromo ou Calçadão dos Mascates em
1995, para abrigar os ambulantes. A Prefeitura Municipal do Recife reconhece como
comércio ambulante aquele "exercido de forma correta, legalizado e sindicalizado; o
que compõe um parcela significativa da PEA desta cidade. É um micro-empresário
que segundo o Sindicato de Ambulantes do Recife, Olinda e Jaboatão possuía cerca
de 14.000 associados, em 1989. O camelô é aquele que trabalha nas ruas centrais
da cidade e constitui parte da economia informal, não sendo legalizado e nem
sindicalizado".23
Para o Camelódromo da Dantas Barreto foram os ambulantes localizados nas
principais ruas comerciais. De um conjunto de 5 módulos, porém, o dinamismo do
comércio limita-se apenas aos dois primeiros módulos, onde há uma concentração
de mercadorias e pessoas, o que não é visto nos últimos módulos, com presença de
poucos quiosques abertos. Percorremos grande parte do Camelódromo com a
sensação de que houve um dinamismo, mas apenas do comércio tradicional situado
em seu entorno, com presença de lojas de ferragem, eletro-eletrônico, entre outros.
A circulação dos ônibus trouxe mais benefícios aos lojistas tradicionais que aos
antigos ambulantes. Cabe analisar, em que medida essa é uma tendência do centro
como um todo. No Camelódromo, o espaço entre um módulo e outro é disputado
22
23
ROCHA, op. cit.p.40.
SOUTO MAIOR, José. Comércio Ambulante. p.4
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 24
com arranjos de proteção às chuvas. A placa do Sindicato dos Ambulantes,
ofertando
serviços diversos, e o endereço da sede está presente na paisagem,
enfatizando a origem profissional daqueles comerciantes.
Os camelódromos e os camelôs do bairro de São José, bairro que desde
longa data apresenta grande concentração de casas comerciais e de ambulantes,
vem passando por grandes transformações o que exige uma pesquisa específica e
detalhada de seu comércio. Em suas ruas e becos comerciais, sai o camelô e surge
um quiosque de camelô: o ambulofixo24, a exemplo da intervenção da CSURB ao
longo do ano de 2000 no Beco do Viado, tradicional em comércio de carnes e seus
derivados, como também de serviços de amolar alicates, facas e tesouras.
Figura 2: Os Becos e os camelôs. Esse é o Beco do Viado, atualmente " limpo"
de camelôs, mantendo-se apenas dois quiosques em seu lugar, afixados nas
laterais dos imóveis. Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
24
Denominação dada pelo Diretor da CSUB àqueles ambulantes fixados em locais previamente estabelecidos
pela Prefeitura.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 25
Vários comerciantes tradicionais também saem das ruas comerciais, a
exemplo da rua do Livramento onde se abrigavam as lojas Fortunato Russo e as
Casas José Araújo, que vendiam tecido e confecção em geral, abrindo lugar para
novos comerciantes, quase sempre os Lojões de Cabeleireiro, Atacadão dos
Presentes, entre outras. Em trabalho de campo com um grupo de especialistas
portugueses25, foi constatado que essa área abriga um representativo número de
estabelecimentos comerciais com grande extensão de áreas, lojas com duas
fachadas, com frente para duas ruas, o que facilitava a concentração do capital26.
Apesar de sua proximidade com o Bairro de Santo Antônio (4 Km·²) e Boa
Vista (3 Km²) , o Bairro de São José é conhecido como um dos bairros do centro que
possui maior população residente e de baixa renda e reduto de pequena produção
mercantil, apresentando um comércio diversificado no varejo e no atacado. Em suas
ruas localizam-se desde um dos mais antigos mercados públicos da cidade até um
especializado comércio de decoração e utensílios para casa, com lojas de artigos
"faça você mesmo" . Referimo-nos ao Mercado de São José, inaugurado aos 7 de
setembro de 1875, uma construção de ferro do engenheiro Victor Lieutier, com seus
363 compartimentos e 46 pavilhões, sendo um ponto de atração turística, entre
outros por seu tradicional comércio de ervas (em barracas e lojas do entorno do
Mercado de São José).
25
Em Trabalho de Campo desenvolvido em março de 2000, com os professores portugueses: Profª. Dr.ª Teresa
Barata Salgueiro, Prof. Dr. Alan Fernandes e o Prof. Dr. Herculano Cachinho, a Professora Teresa Barata
Salgueiro, teria chamado a atenção para o fato de existir uma grande quantidade de ambulantes no Recife, o que
exigiria maior dedicação à questão do comércio dessa cidade.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 26
Figura 3: O Mercado de São José, em constante reforma. Kátia Ribeiro, 1999.
Até 1999, os ambulantes comercializavam desde frutas a utensílios em geral,
como praticavam serviços de amolador de faca e tesoura. Dividiam espaço com ruas
especializadas, como a Rua da Praia, com seu comércio de material de construção,
cujo dinamismo se mantém até hoje, constatado pelo grande fluxo de veículos e
consumidores que para ela se dirigem. Entre a Rua da Praia e a do Rangel surgiu a
galeria Shopping Praia Moda – Pronta Entrega, constituída por várias lojas de
vestuário popular. O comércio ambulante que se espremia pelas estreitas ruas de
traçado português, a exemplo da Rua da Praia e do Rangel, Rua das Calçadas e
Rua Direta, foi lentamente sendo transferido para o Camelódromo da Dantas Barreto.
Em seu lugar, um ou outro camelô surge com tabuleiros de fácil deslocamento, em
frente às lojas de comércio popular.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 27
Figura 4: Há no centro da metrópole recifense, inúmeras placas e prédios com
nomes de shopping, a exemplo do Shopping Praia, na Rua da Praia, sem
nenhuma característica que o denomine como tal.
Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
Há no centro de Recife um mercado de comércio misto: o Mercado de São
José, com seus produtos pitorescos e tradicionais para o povo da cidade e turistas
em geral. Para ele convergem várias pessoas que transitam pelas ruas: do Rangel,
da Praia, da Direita e das Calçadas, atualmente sem qualquer camelô. Todas elas
possuem um comércio diversificado mas com predomínio de lojas de tecido e
vestuário, eletrodoméstico, decoração e presentes. Em meio a essa paisagem,
cinemas
de
filmes
pornô,
presentes
em
várias
ruas
do
centro,
indicam
a
popularização dos serviços e comércio predominante nessa área. No prolongamento
da Rua Direita em direção ao Forte das Cinco Pontas, vêem-se algumas lojas
atacadistas, a exemplo do Atacadão dos Presentes, cuja filial foi recentemente
aberta no município de Jaboatão, Bairro do Curado.
Seguimos em direção ao Pátio do Livramento, inserido no projeto de
Revalorização, através da Avenida Nossa Senhora do Carmo, uma das principais
vias de circulação de veículos dessa área, a Camboa do Carmo limita-se com os
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 28
bairros Santo Antônio e São José e representa um dos principais corredores de
circulação de transportes coletivos, ônibus e vãns, que conduzem pessoas das
várias partes da cidade, com destaque para a porção sul. Como grandes
representantes do comércio, podem ser citados os Magazines Jurandi Pires,
Insinuante, Casa Costa e Silva, Lojas Tebas, entre outros. O dinamismo desse
comércio esteve ligado à via de tráfego.
Figura 5: O Pátio do Livramento, atualmente sem camelôs, já foi uma das áreas
do Centro com maior concentração de vendedores de roupas íntimas e para
bebês.
Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
Agora estamos na Rua Camboa do Carmo (denominação dada em alusão a
um braço de rio ali existente no passado) cuja presença de óticas e relojoarias,
conferem a esse lugar uma especialização desse ramo comercial, inserindo-a no
Polígono do Carmo27. Passando pelo Pátio de São Pedro, cujo espaço foi
revitalizado, com reformas de fachadas de prédios e da Igreja de São Pedro,
tornando-se um ponto de encontro da classe média da cidade, com bares e
restaurantes ocupando os prédios antigos voltados para o palco de shows,
27
O Polígono do Carmo é um Plano de Intervenções que se destina a várias ruas especializadas em relojoaria,
óticas e ourivesaria, a serem administradas por uma Associação.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 29
percebemos que o lugar especializado em serviços informais, prestados por camelôs
durante anos no "Beco do Viado", foi alvo do Plano de Revalorização. Atualmente,
vê-se o "Viado", estátua sobre um dos prédios da esquina, até então escondido pelo
dinamismo
do
comércio
informal.
Sobrevivem
poucos
ambulantes,
com
seus
tablados encostados nas paredes das lojas, afixados em pontos previamente
planejados. Um mesmo tipo de intervenção foi encontrado na rua Infante D.
Henrique, com seus quiosques padronizados comercializando CDs, livros, revistas,
cdroom, etc.
Figura 6: Os Quiosques da Rua D. Henrique, vendem CDs piratas, revistas e
livros usados, o demonstra apresentar um certo dinamismo no comércio do
centro.
Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
Chegamos à rua-shopping Duque de Caxias, com seu comércio diversificado
em vestuário, decoração, tecidos, cine-foto, entre outros. Destacam-se nessa rua, as
lojas de artigos ao preço de R$ 1,99 se sinalizando a popularização dos artigos
comercializados pelos lojistas. A infra-estrutura criada com a intervenção do Plano de
Intervenção de 1992 (central de som, cadeiras e quiosques), quase não mais
aparecem na paisagem. Essa rua apresenta sinais de pouca coesão entre os lojistas,
fato investigado adiante. Entre as casas de maior tradição, as Casas José Araújo é a
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 30
mais representativa, com filiais nos shopping centers da cidade. Saindo dessa rua,
chega-se à Praça da Independência que abriga vários quiosques padronizados, os
quais dividem o espaço com o comércio ambulante tradicional.
Figura 7: Na Praça da Independência, as mercadorias transbordam e os
consumidores passam, alheios.
Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
Passamos em seguida para a Rua das Flores que abriga quiosques de venda
de flores e outros de serviços de relojoeiros e amoladores de facas. Na esquina
dessa rua com a Rua da Palma, a antiga Loja de Departamento Viana Leal, hoje,
apresenta uma placa: Viana Leal Centro Shopping. Deve-se salientar que a rua
chama-se rua-shopping Palma.
Em direção à rua-shopping Nova, percebemos lojas de ramos comerciais
diversos, onde predomina o vestuário. Em sua extensão, apenas duas lojas são
testemunhos do comércio de luxo, existente no passado: as Lojas Marconi e a Casas
das Rendas. Com um comércio diversificado em artigos que vão do luxo ao mais
popular, essas lojas se integram ao contexto atual de popularização do comércio,
com presença de diversificado comércio, predominando os ramos de calçado e de
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 31
vestuário, acompanhados das lanchonetes e eletrodoméstico. Vários bancos se
deslocaram dessa rua para outros lugares.
As ruas Duque de Caxias e Nova foram transformadas em Calçadões em
1978. Mais tarde, nos anos 80, o comércio ambulante se apropriaria das vias de
circulação o que traria um dos grandes conflitos existentes na cidade: a retirada dos
camelôs das principais ruas comerciais da cidade. Esse assunto será melhor tratado
adiante. Cabe aqui, precisar mais uma vez que essas ruas serão nosso espaço de
análise.
Em direção a oeste, chega-se no bairro da Boa Vista pela rua-shopping
Imperatriz que apresenta nas prateleiras artigos por R$ 1,99 ( Lojas Cattan). Entre as
lojas dessa rua destacava-se a "Lojas Brasileiras", fechada em novembro de 1999, e
a Padaria Imperatriz, com mais de 100 anos de existência.
Figura 8: A antiga Lojas Brasileiras da rua-shopping Imperatriz, meses antes de
seu fechamento.Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 32
Passamos pela Rua do Hospício, lugar com tentativas bem sucedidas de
recriação do ponto de encontro em frente ao Teatro do Parque. Também abrigando
comércio diversificado, essa rua vai-se dirigir para a Avenida Conde da Boa Vista,
com lojas de vestuário, calçados, Lojas Americanas, prédios públicos, Arquivo
Histórico
Geográfico,
IBGE
e
várias
galerias
de
escritórios
e
apartamentos
residenciais.
Figura 9: Um dos melhores pontos de encontro do centro: depois do café
expresso na Padaria Imperatriz, sentar-se em frente ao Teatro do Parque
aguardando um bom espetáculo, na Rua do Hospício.
Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
Concluímos o percurso com a imagem do Shopping Boa Vista, único no centro
da cidade e localizado ao lado da antiga Loja de Departamentos Mesbla, fechada em
outubro de 1999, situada na Av. Conde da Boa Vista, recentemente substituída pelas
Lojas Riachuelo, inaugurada em 2000.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 33
Figura 10: O Shopping center Boa Vista e a antiga Loja Mesbla, meses antes de
seu fechamento.
Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
Apesar de ser identificado como “lugar dos pobres”
28
, o CTR ainda apresenta
grande dinamismo, guardando consigo parte da memória da cidade, atraindo
consumidores e transeuntes para suas ruas.
Alvo de intervenções urbanísticas, esse centro passa a se reproduzir a partir
de uma corrente de idealizadores urbanistas, caracterizada pela “busca do passado”
tendo como principais projetos “o Recife Antigo”, destinado ao Bairro do Recife, lugar
onde a cidade se originou; e os Calçadões de pedestres, as atuais ruas-shopping,
que se utilizam da imagem dos shopping centers, para atrair antigos consumidores.
Portanto, o CTR está inserido nos bairros de Santo Antônio, São José e Boa
Vista, onde se encontram diversas lojas do comércio varejista e de atacado, com
forte presença do comércio informal e de vários serviços. Em suas ruas, diversas
ações indica a perspectiva fragmentada de intervenção. Somando-se a isso, a falta
de dados especializados e séries históricas sobre as estatísticas do comércio
28
FUNDAJ /PCR. Centro do Recife: Atores, Conflitos e Gestão. Recife, abril/1992.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 34
tradicional
dessa
cidade
29
,
exigiu
que
adotássemos
uma
metodologia
de
investigação onde a rua é privilegiada. (MAPA 03)
Inseridas nos bairros centrais, essas ruas apresentam testemunhos, entre
prédios públicos, que reforçam a antiga função comercial e de serviços dessa área:
um
comércio
bancárias,
diversificado
livrarias,
e
predominantemente
restaurantes
e
popular,
lanchonetes.
transformações e persistências das formas comerciais
com
Portanto,
lojas,
a
agências
análise
das
dessas ruas permitirá uma
avaliação da produção do espaço e das estratégias de reprodução das relações
sociais que, mesmo com seu encadeamento em níveis espaciais mais distantes,
seguramente é no nível local que seus desdobramentos tornam-se mais evidentes.
29
VILLAÇA, Flávio. Espaço Intra - Urbano no Brasil..p.285.
Mapa 03
RUAS-SHOPPING E CAMELÓDROMOS
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Recife
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Rua-shopping Imperatriz
Rua-shopping Nova
Rua-shopping Duque de Caxias
Camelódromos
Limites dos Bairros
Organizador: Kátia Ribeiro.
Desenho: Cláudio Martins
Fonte: UNIBASE, FIDEM, Recife/2000.
Escala Gráfica
0
8
20 m
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 36
1.2
Contexto Histórico do Comércio em Recife:
uma análise regressiva
Do ponto de vista histórico, a produção do espaço do CTR se deu a partir da
área onde a cidade se originou, o Bairro de Recife, para os bairros de Santo Antônio,
São José, Boa Vista e Santo Amaro. O Bairro do Recife tem como principal traço
histórico a função de intermediação comercial, representada pelo porto marítimo.
Após os mascates, vendedores de ruas e bairros, o comércio fixo surgiu no
Bairro de Recife. Era um comércio misto "sabão e chita, carne-do-ceará e chapéu,
manteiga e xale". Um comércio que se localizava no térreo, sendo nos andares
superiores a morada do comerciante. Quando os holandeses dominaram a cidade,
passaram a construir vários aterros e pontes, interligando - o às ilhas vizinhas. O
Bairro de Santo Antônio surgiu a partir da construção da Ponte Maurício de Nassau,
a primeira ponte do Brasil, em 1641.30 Surgiu desses aterros, a Rua Nova, com
várias lojas e casas de negócios 31.
No contexto do século XIX, por volta de 1830, o Recife assistia a uma
especialização das casas comerciais 32 "aventuravam-se as casas de moda, em geral
estrangeiras, notadamente francesas(...) ". O cenário político econômico era de
independência brasileira, cujos ideais franceses ancoraram no porto recifense com
ares constitucionalistas e românticos. O comércio atraía as mulheres que até então
não visitavam as lojas das ruas, adquirindo quase tudo em domicílio, fazendo suas
compras aos mascates. A partir de então, as senhoras passaram a ver no comércio
das boticas, das lojas, o encontro: "Alegrava-se a vista, topavam-se conhecidas,
discutia-se por trás dos leques, padrões e figurinos"33
30
CAVALCANTI, Vanildo Bezerra. O Recife e a origem de seus bairros Centrais. In PEREIRA, Nilo ett alli. Um
Tempo do Recife. p.238.
31
SETTE, Mário. ARRUAR - História Pitoresca do Recife Antigo.p.260.
32
SETTE, Mário. op. cit. p. 262..
33
Idem, p. 256.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 37
A influência francesa no comércio recifense contribuiu para o comércio de
vestuário, pois surgiram vários alfaiates ofertando serviços de costura nas ruas
comerciais, criando o ambiente de elegância do Recife da época. Chegavam os
estilistas franceses, que não se limitavam a coser e cortar. Logo abriam suas casas
de nouveautés. Eram feitos vestidos de gorgozão, seda, gros de Naples e popeline,
de cambraia ou gaze, de lã, de chita e vestido de noiva. Os homens procuravam
casacas debruadas, pretas ou de cores, sobrecasacas, jaquetas de pano, calças e
colete de veludo. No Bairro de Santo Antônio, surgem os cabeleireiros do centro,
sendo o primeiro na Rua Duque de Caxiais, o Delsuc, especializado em fazer
penteados com tranças e cachos bem armados, à moda de Paris. As sapatarias
cresciam em número, ofertando salas reservadas, onde as damas experimentariam
os calçados com a "decência desejada".
Nessa época, surgiram os consultórios de dentistas no centro, servindo de
pretexto de muitos passeios às ruas. Um outro fato marcante da cidade foi a
implantação da Casa de Banhos do Pátio do Carmo: "Tratava-se de um grande
estabelecimento, com 18 quartos, 10 para homens, 4 para senhoras, 2 chuviscos e 2
de duchas. Cadeiras à vapor para banhos mornos. Respeito e boa ordem, absoluta
separação dos sexos e ...aguardente." 34
Várias lojas de jóias surgiram na Rua do Cabugá (atualmente Avenida Cruz
Cabugá). Surgiram também: o gás, a água encanada, o bonde de burros, as
carruagens a vapor. O comércio passa, a partir de então, a incorporar
novos
costumes e artigos, como as festas de Momo no carnaval. "Os bailes, os teatros, os
prados, as partidas e as festas das igrejas"35 . Chegaríamos ao início do século XX,
quando o comércio apresentava grande dinamismo, principalmente na Rua da
Imperatriz, ofertando tinturas para os cabelos e para as barbas no salão do
cabeleireiro Odilon36.
34
Ib. Ibidem. p. 257.
Ibidem, p. 258.
36
Idem, ibid. p.260.
35
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 38
No final dos anos 20 do século passado, a indústria nacional direcionou sua
produção para dois setores: setor tradicional, que atendia ao mercado popular e o
setor moderno, com a produção de bens sofisticados37. Surgiram as primeiras Lojas
de Departamento, que se dedicavam à importação e exportação de mercadorias. No
Recife, as Lojas Pernambucanas foram uma das poucas de capital nacional, cujos
donos embora de origem alemã, a família Lundregn, possuíam
indústrias têxteis e
de pólvora no Nordeste brasileiro com sede de seus escritórios em Pernambuco.
Infelizmente, não dispusemos de dados históricos sobre as Lojas Departamentais de
Recife. Sabendo que existiram posteriormente, as Lojas Mesbla, as Lojas Viana Leal,
as Lojas Sloper e as Lojas Americanas.
Atualmente, existem apenas as Lojas Americanas, sendo uma no centro e
outras localizadas em shopping centers da cidade. Nos anos 30, essas lojas se
organizavam, concentrando financeira e espacialmente uma grande quantidade de
produtos. "Essas lojas tornavam o fluxo de mercadorias mais rápido e se localizavam
no centro da cidade, juntamente com lojas que vendiam produtos nacionais e outros
pequenos, de caráter mais artesanal. As Lojas Americanas também surgem nesse
período, introduzindo a técnica do auto-serviço, comercializando produtos mais
populares."38.
Nos anos 50, os bairros do Recife, de Santo Antônio, São José e Boa Vista
abrigavam parte significativa das empresas industriais, do comércio de mercadorias
e dos serviços da cidade, tornando-se o centro tradicional de comércio da cidade.
Mas este centro já havia se expandido para os terrenos do Bairro da Boa Vista desde
1737, quando foi criada a segunda ponte da Boa Vista (1737- 1746). Até então, as
lojas comerciais se localizavam na Rua da Imperatriz, criada com os serviços de
aterragem, denominando essa rua de Aterro da Boa Vista. "Embora, à princípio com
muitas casas residenciais em prédios de um só andar, a Rua do Aterro foi ganhando
37
Pintaudi, Silvana Maria. A Cidade e as Formas do Comércio In CARLOS, Ana Fani Alessandri. Novos
Caminhos da Geografia. São Paulo: Contexto, 1999. p148.
38
Idem, p. 147.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 39
sobrados e conhecendo
lojas"39. Na rua da Imperatriz Teresa Cristina, a conhecida
Rua da Imperatriz, mesmo com um comércio retalhista que dominou o "aterro", ainda
no século XIX as famílias continuaram habitando os pavimentos superiores dos seus
sobrados. No de número 147, nasceu o abolicionista Joaquim Nabuco"40.
Por vários
anos, no bairro da Boa Vista se localizaria, predominantemente, as classes média
alta e alta 41.
O
Bairro
de
São
José,
apresentava
características
predominantemente
residenciais, com exceção de ruas nas quais se localizavam estabelecimentos
comerciais no Cais de Santa Rita. A proximidade com o bairro de Santo Antônio
pode ser uma das explicações para a existência de um lento crescimento do número
de lojas nesse bairro; um outro fato pode ser o poder aquisitivo da população
residente, pois a diferenciação entre os bairros se notava considerando o segmento
social que os habitava. O Bairro de São José era habitado por famílias da classe
média e média baixa.
Atualmente, o Bairro do Recife, tem ruas revitalizadas, onde surgiram os
serviços de lazer e entretenimento. São bares, boates, restaurantes, teatros e palcos
para shows, lugares do encontro da classe média. Entres outros usos, destacam-se
as sedes de bancos públicos, órgãos públicos e privados. Entretanto, as casas
comerciais são quase inexistentes, exigindo o deslocamento dos consumidores para
os bairros à oeste.
Além do CTR podia-se consumir nos subcentros comerciais da Encruzilhada,
Casa Amarela, Afogados, Areias e Tejipió. Este último, posteriormente, perdeu parte
de sua área de atuação com a emergência do Centro de Cavaleiro. Mercados
Públicos e centros comerciais situados em alguns bairros da cidade, que surgiram
por volta dos anos 60. Nesse período,
os subcentros
comerciais não colocam o
centro em questão. (MAPA 04)
39
40
41
SETTE, Mário. Op. Cit. p. 262.
ROCHA, Tadeu. Roteiros do Recife (Olinda e Guararapes).Através do Centro Urbano. Recife, 1981.p.67.
ANDRADE, Manoel Correia de. Recife : Problemática de uma Metrópole de Região Subdesenvolvida. p. 101200.
Mapa 04
O CENTRO TRADICIONAL DE COMÉRCIO E OS SUBCENTROS DE RECIFE
BASEADO NA LEI 17.01.1983
Beberibe
Água Fria
Olinda
Casa Amarela
Campo
Grande
Encruzilhada
Parnamirim
Iputinga
Casa
Forte
Torre
Graças
Espinheiro
Cordeiro
Centro
Comercial Centro
Madalena
Expandido Tradicional Porto
de Comércio
Derby
Várzea
Tejipió
Afogados
Areias
Pina
N
Cavaleiro
IPSEP
0
1km
Ibura
Aeroporto
Boa Viagem
Centro Tradicional de Comércio
Limite Municipal
Centro Comercial Expandido
Subcentros comerciais e Eixos de
atividades múltiplas (1983)
Jaboatão dos
Guararapes
Fonte: FIDEM, PCR, Recife/2002.
Organizadores: Jan Bitoun e Kátia Ribeiro
Desenho: Cláudio Martins
Eixos de atividades múltiplas
acrescentados de 1983 a 1996
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 41
Nas décadas de 1960 e 1970 se faz notar o crescimento do Centro Comercial
do bairro de Boa Viagem e a expansão do Centro Tradicional de Comércio por novas
ruas do bairro da Boa Vista, tais como a Conde da Boa Vista, Sete de Setembro,
União e Aurora, assim como o surgimento de novos centros comerciais de bairro:
Pina, Boa Viagem (partindo da praça do terminal e estendendo-se pela Avenida
Barão de Souza Leão), Madalena e Torre.
Outros subcentros comerciais destacavam-se no Recife. Localizados em
bairros com população de renda média e alta, que dispõe dos melhores serviços e
equipamentos urbanos da cidade, encontravam-se os bairros de Boa Viagem,
Campo Grande, Casa Amarela, Afogados, Encruzilhada, Graças, Madalena, Pina,
Poço, Casa Forte e Parnamirim. O subcentro de Casa Amarela possui um Mercado
Público desde a década de 30, quando houve o deslocamento do Mercado da
Avenida Caxangá para o largo da feira de Casa Amarela na gestão do Prefeito
Francisco da Costa Maia (1928-1930), fato que viria a fortalecer seu comércio42. Na
gestão do Perfeito Jarbas Vasconcelos, foram construídos na mesma rua, mais dois
locais para a feira livre, com a finalidade de retirar das ruas o comércio ambulante.
São espaços delimitados, onde em suas entradas e saídas foram construídos portais
com o nome "Feira Livre", exemplo da contraditória inversão dos espaços livres e
confinados que tanto tem caracterizado as intervenções públicas dessa cidade.
No subcentro da Madalena temos um Mercado Público construído desde
192543, na gestão do Governador Sérgio Loreto e do Prefeito Antônio de Góes
Cavalcanti. Naquela época o mercado funcionava no horário noturno, com uma feira
livre e uma feira de passarinhos. Na década de 80, o Supermercado Bompreço viria
se instalar em suas proximidades, contribuindo para o desaparecimento da feira livre.
Em torno de 1991, o Supermercado foi fechado, em seus bairros vizinhos, Torre e
Casa Forte, viriam se instalar os Hipermercados Carrefour e Bompreço Casa Forte,
respectivamente, levando o Mercado da Madalena a mudar de função tornando-se
42
43
BRAGA, João. Trilhas do Recife - guia Turístico, Histórico e Cultural. p. 148.
Idem, p. 136.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 42
um espaço de lazer, mantendo a tradicional Feira de Passarinhos em meio a bares e
exposição de artes, tendo em seu espaço interno, apenas um comércio de secos e
molhados.
Outro importante Mercado Público de Recife é o Mercado da Encruzilhada,
construído em 195044, na gestão do Prefeito Moraes Rego, no local onde funcionava
uma velha estação ferroviária. Em suas proximidades via-se o cinema Encruzilhada,
no atual Banco Bradesco, e na rua Salvador, transversal da Avenida Beberibe, o
Clube Carnavalesco Madeira do Rosarinho.
O subcentro de Boa Viagem apresenta um diversificado comércio espalhado
em torno das avenidas Domingos Ferreira, Conselheiro Aguiar e Beira Mar,
abrigando o primeiro shopping center da cidade, o Shopping center Recife, que além
de passar a ser um dos principais centros de compras e de serviços, é um forte
promotor imobiliário dessa área45. Sua implantação contribuiu para que o centro
comercial de Boa Viagem extrapolasse o mercado local, atingindo os limites dos
outros municípios da Região Metropolitana.
Os subcentros de bairros, por fim, são aqueles cuja atuação atinge a
população habitante, predominantemente, de baixa renda e próximos aos limites do
município, mais distantes do Centro Tradicional e de reduzida infra-estrutura,
representados
por
Água
Fria,
Beberibe,
Monteiro,
Engenho
do
Meio,
Ibura,
Imbiribeira, Mustardinha, Nova Descoberta, Tejipió, Areia, Várzea e Cordeiro. Nos
subcentros de Água Fria, Beberibe, Tejipió e Areia, existem também importantes
Mercados Públicos.
Inaugurado em 195446, o Mercado de Água Fria foi construído na gestão do
Governador Etelvino Luis, próximo a um feira livre, que teria passado por processo
de confinamento semelhante a feira de Casa Amarela. O Largo de Água Fria se
mantém como um subcentro comercial, diversificado em ramos comerciais. No final
44
45
Idem, Ibidem, pág. 180.
COSTA, Kátia Cristina Ribeiro. Shopping center Recife: Conflitos e Valorização do Espaço. p.143.
46
BRAGA, op. cit. p. 182.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 43
da década de 70 , o Supermercado Balaio viriam se instalar no Cinema Água Fria,
importante centro de lazer da porção norte da cidade.
Na década de 70, a expansão comercial
favoreceu a implantação de
empresas de capital estrangeiro, com a concentração e centralização do capital o
que favoreceu a expansão dos supermercados. Outros fatores fundamentais para
essa expansão foi a difusão da geladeira e do automóvel. Assim, os primeiros
supermercados do Brasil surgiriam a partir de 1953 e os hipermercados passariam a
surgir a partir de 1974, em São Paulo, localizados nas vias marginais dos rios Tietê e
Pinheiros47. Todavia esse contexto se acentuaria em Recife, a partir de meados da
década de 80 até os dias atuais.
O supermercado surgiria no Recife. Denominado de Mercado Moderno S/A, foi
inaugurado no Bairro da Torre em 1966, pelo recifense Silvio Roberto Sá de
Azevedo, quando o Cotonifício e Confecções Torre, onde trabalhava, transformou a
cooperativa de consumo de seus funcionários em um supermercado. O Mercado
Moderno se expandiu no Recife e, na época chegou a possuir 13 lojas48. Passado
algum tempo, o Mercado Moderno passou a se chamar Comprebem Supermercados
S/A. Em 1992, viria a ser adquirido pelo grupo Pão de Açúcar.
Os supermercados Bompreço surgiriam em 1966, implantando suas unidades
nos subcentros comerciais de Casa Amarela (onde viria a surgir o primeiro
hipermercado), Encruzilhada, Arruda e Iputinga. Os subcentros existentes em bairros
cuja população possuía poder aquisitivo baixo, receberam os supermercadinhos
Balaio.
Pertencente
ao
Bompreço,
essa
modalidade
era
criada
pelos
supermercadistas para atender a uma população numerosa e de baixo poder
aquisitivo. O Comprebem também possuía sua modalidade popular: o Minibox.
Essas modalidades desapareceriam nos anos 80, quando o supermercado passaria
a se dirigir a camadas de rendas mais populares e os hipermercados assumiriam os
consumidores mais abastados.
47
48
PNTAUDI, Silvana. A Cidade e as Formas do Comércio. op. cit. 151.
APES - Associação Pernambucana de Supermercados. Revista Super Nordeste. p. 5.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 44
Atualmente, existem 06 redes de supermercados no Recife e várias unidades
menores: Bompreço S/A - Supermercados do Nordeste; Comprebem - Empresa
Pernambucana de alimentação Ltda.; Extra - Econômico Supermercados; Carrefour
Comércio e Indústria Ltda.; Lojas Americanas; Macroservy CDA; Pague Menos Ltda.;
PB Supermercados PB Ltda. e Santiago - Supermercados Ltda.49.
Os anos 80 assistiriam a uma acelerada e difusa implantação desses centros
de compras em toda a malha urbana da cidade de Recife e sua Região
Metropolitana.
Localizados
no
espaço
interno
do
município,
essas
unidades
gigantescas causariam profundas transformações no centro tradicional de Recife e
em todos os subcentros comerciais de bairro.
O supermercado significou concentração financeira e territorial, porque passou
a concentrar, sob a propriedade de um único empresário ou grupo e em um
único local, a comercialização de produtos anteriormente dispersos no espaço,
que se constituíam em comércios especializados de pequenos capitais, tais
como a padaria, o açougue, a peixaria, o bazar, a quitanda (frutas, verduras e
legumes) e a mercearia (produtos de limpeza e gêneros alimentícios não
perecíveis) 50.
Em Recife, a localização dos supermercados e hipermercados não seria
regularizada em lei, o que facilitaria sua implantação próximo às feiras e mercados
públicos, concorrência que, seguramente, contribuiu para o fechamento de várias
lojas existentes nos subcentros comerciais, bem como na inserção de grande
contingente de pessoas no mercado de desempregados. Essa dinâmica é algo muito
importante a ser investigado em pesquisas futuras, pois de sua análise depende a
compreensão da complexa questão do camelô.
Paralelamente, o poder público passou a atuar no CTR criando os Calçadões
de Pedestres em 1978, pois já se iniciaria o abandono do centro para outros lugares,
como para o Bairro de Boa Viagem e as várias galerias comerciais
que surgiriam
nos bairros de classe média, com suas butiques e lojas diversas.
49
50
ANUÁRIO BRASILEIRO DE SUPERMERCADOS. Edição Histórica: ABRAS 30 anos (1968-1998). p.21.
PINTAUDI, Silvana M. op. cit. 151.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 45
A competição entre os comerciantes ficaria maior com a chegada dos
shopping centers, pois haveria uma mudança no padrão de consumo. As lojas de
Departamento sofreriam mudanças, passando a integrar o mix dos shoppings como
lojas âncoras, ou criando marcas próprias 51, a exemplo das Casas José Araújo, Lojas
Pernambucanas, Sloper e C&A.
Acredita-se que a produção do espaço do comércio recifense se articula ao
processo de reprodução da metrópole, dos últimos 20 anos. Nesses últimos anos,
não só o surgimento dos SC e hipermercados ocorreu de forma acelerada e
localizada no interior da área metropolitana, nos bairros de classe média alta dos
municípios ou ao longo das principais vias expressas, a exemplo da Avenida
Agamenon Magalhães, espaços desarticulados do Centro de Recife.
De fato, a administração dos shopping centers produz, ao mesmo tempo, seus
espaços internos e externos de forma a otimizar sua função, viabilizando, assim, o
empreendimento. Tem-se, como exemplo, o Plano Urbanístico do Shopping center
Recife (SCR) que, após detectar as potencialidades do mercado consumidor por ele
atingido, solicitou as necessárias obras de engenharia que favoreceram sua
viabilização 52.
O primeiro shopping da cidade, o SCR surgiu em 1980 a partir do
levantamento dos elementos favoráveis à sua viabilidade, tendo-se, dentre outros
fatores, a localização desse centro “no bairro de Boa Viagem, o mais rico e populoso
do Recife”.
Nota-se que o surgimento do SCR representou uma “nova opção de compras
para os pernambucanos, que antes tinham apenas o comércio do centro tradicional,
expandido pelas ruas estreitas e congestionadas do Recife” 53.
51
PINTAUDI, Silvana M. op. cit. p.154.
COSTA, Kátia Cristina Ribeiro. op. cit.p.52
53
VEJA. Shopping center Recife: O Grande Ponto de Encontro da Cidade In: Revista 28 Graus. Recife, abril, 15
de agosto de 1990. P. 4-7.
52
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 46
Percebe-se assim, que o surgimento do SCR influenciou a dinâmica de outros
centros comerciais, tendo em vista as transformações das formas comerciais do
CTR. Tratando-se de um empreendimento eminentemente comercial, o estudo que
realizamos
anteriormente54
procurou analisar, mesmo que secundariamente, as
funções e especificidades do SCR face à dinâmica comercial da qual faz parte. A
partir dessa análise identificou-se que a "crise" do CTR, caracterizada pela mudança
de perfil do seu consumidor como também pelo surgimento da necessidade de
políticas de Revalorização dos seus usos, emergiu ainda mais com o processo de
surgimento de subcentros comerciais.
Dessa forma, entende-se que o SCR contribuiu para a consolidação do
processo de concentração e descentralização do capital comercial (e imobiliário) da
Região Metropolitana de Recife, que se acelera com a implantação de grandes
empresas de comércio e serviços (shopping centers, supermercados, galerias,
centros empresariais) em sua área55.
Parte-se do entendimento de que a implantação dos shopping centers e
(Hiper) supermercados permitiu a ampliação do capital imobiliário da cidade de
Recife, mesmo não tendo permitido uma grande expansão do capital comercial, visto
que os comerciantes instalados nos shoppings ou já possuíam estabelecimentos no
CTR ou são originados de centros urbanos de outras regiões.
Evidentemente que mudanças dessa natureza não se processam em curto
espaço de tempo, porém entende-se que houve uma reprodução do capital comercial
e imobiliário na esfera metropolitana da cidade de Recife, indicada pelo surgimento
dos shopping centers e hipermercados.
Reconhece-se também que tais mudanças não poderiam ser desenvolvidas
sem que houvesse conflitos de ordem fundiária (mudanças de uso e ocupação do
solo) e financeira (redirecionamento de fluxos de consumidores). No entanto,
percebe-se que as estratégias empreendidas na formação de um especializado
54
COSTA, Kátia Cristina Ribeiro. op. cit.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 47
centro de negócios no CTR (as ruas-shopping, em geral, e o Pólo Imperatriz, em
particular) conferem a esses espaços a singularidade detectada na escolha do
espaço de análise.
Segundo
Pintaudi,
um
shopping
center
se
caracteriza
como: "
...um
empreendimento imobiliário de iniciativa privada que reúne, em um ou mais edifícios
contíguos, lojas alugadas para o comércio varejista ou serviços" 56.
As
inovadoras
práticas
de
mercado,
consubstanciadas
em
políticas
de
marketing, representadas sobretudo pelo tenant mix e o mix, organizam o espaço
interno dos shoppings a partir da diversificada disposição dos ramos comerciais,
produzindo, assim, um espaço dirigido para o consumo dos bens e serviços nele
encontrados. Dessa forma, ao espaço interno de um SC, articula-se seu espaço
externo, cuja delimitação atende aos limites de um Plano Urbanístico, encarregado
de atrair fluxos de capitais e valorizar seus terrenos circunvizinhos. Esses últimos,
por sua vez, vão sendo induzidos a acompanhar o processo de valorização, uma vez
que as intervenções urbanísticas e legislativas (Lei Municipal do Uso do Solo
Urbano) passam a se adequar ao novo dinamismo da área, transformando o
"zoneamento funcional" de alguns de seus trechos, de uso em âmbito local para uso
de âmbito regional, corroborando, dessa forma, com a identificação da centralidade
do lugar. Tal mecanismo vem ocorrendo no CTR, com a criação das ruas-shopping.
A Região Metropolitana do Recife (Tabela 01) - RMR - assistiria ao surgimento
de outros shoppings, como também de hipermercados, em bairros e municípios que
até então possuíam uma centralidade menor, constituindo-se em centros comerciais
regionais, com seus magazines, galerias e demais estabelecimentos de comércio e
serviços, fortalecendo a especialização. Como resultado, o CTR e os centros
comerciais de bairros passaram a ofertar bens e serviços elementares a uma
população de poder aquisitivo baixo.
55
Idem, p. 200.
PINTAUDI, Silvana Maria. O Shopping center no Brasil Condições de Surgimento e Estratégias de
Localização In: PINTAUDI, Silvana M.e JÚNIOR, Heitor Frúgoli. Shopping centers - Espaço, Cultura e
Modernidade nas Cidades brasileiras. pp. 15-16.
56
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 48
A expansão dos hipermercados em Recife vem ocorrer na metade da década
de 80 e obedece a três tipos de localização: como lojas âncoras em shopping
centers, em subcentros comerciais de bairro e próximos de vias expressas da
cidade. Surgem paralelamente aos shoppings de bairro, a exemplo do Shopping
Espinheiro (1984), no bairro do Espinheiro, do Derby Center (s/d), no bairro do
Derby, do Market Place (1989), em Piedade e do Shopping Parnamirim (1991), no
Bairro de Parnamirim.
TABELA 01:
REGIÃO METROPOLITANA DO RECIFE
Evolução da População
1960-1991
População
Municípios
Abreu e Lima
Araçoiaba
Cabo
Camaragibe
Igarassu
Itamaracá
Itapissuma
Jaboatão
Moreno
Olinda
Paulista
Recife
S. L. da Mata
Ipojuca
1960
—
—
51.900
—
37.100
6.300
—
105.300
29.700
110.000
51.900
797.200
51.100
—
1970
—
—
76.000
—
55.100
7.100
—
201.500
31.300
196.500
70.300
1.060.800
94.100
—
A N O S
1980
47.254
—
104.157
93.284
60.730
8.256
12.515
330.414
34.943
282.203
118.634
1.200.378
54.378
—
1991
76.568
—
126.756
99.431
79.713
11.602
16.398
486.774
39.059
341.059
211.017
1.296.995
85.889
—
2000
77.744
15.108
152.977
128.702
82.277
15.858
20.116
581.556
49.205
367.902
262.237
1.422.905
90.402
59.281
TOTAL
1.240.500
1.792.700
2.347.146
2.871.261
3.326.180
Fonte: IBGE, Censos Demográficos de 1960, 1970, 1980, 1991 e 2000.
Entretanto, os hipermercados destacar-se-iam pelo seu gigantesco tamanho e
variada oferta de mercadorias, nada comparáveis aos minishopping. Estes últimos
surgiriam a partir de 1984, quando foi inaugurado o Shopping Espinheiro, pioneiro na
cidade como shopping de bairro, com 24 lojas e ocupando uma área de 1,5 mil
metros quadrados, dentro de uma área construída de 2,6 mil metros quadrados.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 49
Surgiu um mercado altamente competitivo, representado pela implantação do
Shopping center Recife, no bairro de Boa Viagem, o que o fez criar uma campanha
publicitária com o seguinte slogan: "Ganhar uma boa viagem é melhor que comprar
em Boa Viagem" 57.
Seu sucesso decorreu de sua localização no subcentro comercial da
Encruzilhada, que teria se expandido para o Espinheiro. Em virtude da expansão do
comércio
e
adensamento
de
novos
bairros,
foram
surgindo
diversos
estabelecimentos comerciais em ruas e avenidas, a exemplo da Caxangá, José
Rufino, 21 de Abril, Padre Lemos, José Osório, Real da Torre, entre outras.
Alguns
desses
estabelecimentos
comerciais
eram
os
hipermercados
de
grande porte, ou strip center que além de suas grandes dimensões, esses centros
possuem uma loja âncora, um hipermercado, várias lojas satélites, praça de
alimentação, estacionamento, centrais de auto atendimento bancário. (MAPA 05)
Implantado em 1992, o primeiro foi o Hiper Center Casa Forte. Com uma área
bruta locável (ABL) de 24 mil metros quadrados, o centro possui um hipermercado
com 7,5 mil metros quadrados, 30 lojas de apoio, agência bancária 24 horas, uma
praça de alimentação e um amplo estacionamento. O empreendimento, que é de
propriedade do Grupo Bompreço, foi implantado no bairro de Casa Forte em função
de o bairro possuir uma centralidade na zona norte da cidade e o alto poder
aquisitivo
de
sua
população
(Tabela 02). Em seu entorno, estabelecimentos
comerciais e de serviços especializados surgiriam, fortalecidos ainda mais pelo
Shopping center Plaza, inaugurado em 1998.
57
JORNAL DO COMÉRCIO. Caderno Economia. Minisshopping conquistam espaço. Recife, Domingo, 30 de
junho de 1991.
Mapa 05
OS SHOPPING CENTERS E SUPERMERCADOS DE RECIFE
Beberibe
Extra
Água Fria
Olinda
Casa Amarela
Parnamirim
Iputinga
Casa
Forte
Carrefour
Torre
Cordeiro
Várzea
Campo
Grande
Encruzilhada
Graças
Espinheiro
Centro
Comercial
Expandido
Madalena
Centro
Derby
Tradicional
de Comércio
Porto
N
Tejipió
Afogados
Pina
Areias
0
1km
Cavaleiro
IPSEP
Macro
Centro Tradicional de Comércio
Ibura
Aeroporto
Boa Viagem
Centro de atividades
múltiplas
Eixos de atividades
múltiplas (1983)
Limite Municipal
Eixos de atividades múltiplas
acrescentados de 1983 a 1996
Shopping centers 1980 a 2000
Shopping de bairros
Jaboatão dos
Guararapes
Supermercados “Bompreço”
Outros hipermercados
Fonte: FIDEM, PCR, Recife/2002.
Organizadores: Jan Bitoun e Kátia Ribeiro
Desenho: Cláudio Martins
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 51
TABELA 02:
BAIRROS DE RECIFE E MUNICÍPIOS DA REGIÃO METROPOLITANA COM
SUBCENTROS COMERCIAIS
COM RESPECTIVOS RENDIMENTOS NOMINAL MÉDIO NOMINAL DAS PESSOAS
RESPONSÁVEIS PELOS DOMICÍLIOS PARTICULARES
2000
UNIDADES ESPACIAIS
RENDIMENTOS(R$)
Bairro do Recife
150,00
S. Antônio
304,00
S. José
190,00
Boa Vista
1.097,50
S. Amaro
300,00
Graças
3.000,00
Encruzilhada
1.200,00
Afogados
300,00
Madalena
1.000,00
Torre
800,00
Tejipió
400,00
Casa Forte
3.000,00
Boa Viagem
2.000,00
Poço
2.000,00
Casa Amarela
600,00
Várzea
220,00
Derby
3.000,00
Iputinga
400,00
Espinheiro
2.200,00
Pina
300,00
Areias
500,00
Ibura
280,00
Água Fria
210,00
Parnamirim
2.800,00
Campo Grande
300,00
Beberibe
210,00
Cordeiro
700,00
Recife
350,00
Paulista
348,00
Jaboatão dos Guararapes
300,00
Olinda
302,00
FONTE: IBGE. Censo Demográfico, 2000.
O Grupo Bompreço seria um dos empreendedores dos shopping centers da
cidade: o Shopping Tacaruna e o Shopping Piedade. O mercado de hipermercados e
shopping centers não apresentava grandes concorrentes do Grupo Bompreço, que
ampliava seu número de unidades por todos os bairros da cidade e municípios da
RMR.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 52
O supermercado Carrefour representou uma ameaça ao Grupo Bompreço,
quando veio se instalar no bairro da Torre, vizinho ao Bairro de Casa Forte.
Inaugurado em 1996, o Hipermercado Carrefour, de origem francesa surge como um
supermercado de cerca de 11 mil metros quadrados, com 50 mil itens, envolvendo
mais 06 lojas satélites, praça de alimentação, estacionamento de 1.300 vagas. Em
seu slogan publicitário, um anúncio testemunhava uma transformação no setor de
comércio da cidade: "Recife agora tem um padrão inédito de atendimento e conforto
com sua primeira loja Carrefour, a mais moderna do Brasil. Venha conferir, no bairro
da Torre. E veja como os outros hipermercados gostariam de ser." 58
Esses grandes empreendimentos trariam inovações para o comércio da
cidade: salsicharias, peixaria e açougue, abertos para conferir a qualidade e o
preparo do produto, sortimento de queijos, frutas, verduras e legumes; seção de
eletrodomésticos;
adega
com
degustação,
padaria
com
produtos
de
padrão
importado (donuts, pão italiano, croissants); garden center, seção de CDs (com
extintas torres de escuta), fitas e perfumaria; enfim, a concentração em um só
espaço de vários produtos dos principais ramos comerciais. As pessoas que para lá
se dirigem, desfrutam de um ambiente climatizado, seguro e com estacionamento
gratuito. O bairro da Torre fica distante do Centro apenas 5 Km², o que provocou
forte influência no comércio de suas ruas tradicionais.
O surgimento dos SC na cidade de Recife passaria a influenciar no dinamismo
das formas comerciais dessa cidade, pois seus aspectos e características continham
elementos formadores de novos subcentros comerciais no interior da metrópole,
desencadeando novas centralidades. (MAPA 06)
58
JORNAL DO COMMÉRCIO. Encarte Publicitário: Chegou o Carrefour Recife - Tudo Para Você. Recife: 1996.
Mapa 06
Cidade de Recife
Localização de Centros de Comércio e respectivo
Rendimento Médio Nominal das Pessoas Responsáveis
2002
17
16
10
26
11
14
25
23
24
07
12
09 15
18
05
13
01
04 02
03
08
22
19
21
Classes de Rendimento
(em R$)
3000 - 2000
2000 - 1000
1000 - 500
500 - 300
300 - 100
Escala: 1:25 000.
Fonte: IBGE. Censo demográfico.
Rio de Janeiro, 2000.
Org.: Kátia Cristina Ribeiro Costa.
Desenho: José Gilvan R. da Silva.
20
06
01 - Recife
02 - Santo Antonio
03 - São José
04 - Boa Vista
05 - Santo Amaro
06 - Boa Viagem
07 - Encruzilhada
08 - Afogados
09 - Madalena
10 - Casa Amarela
11 - Poço
12 - Graças
13 - Espinheiro
14 - Parnamirim
15 - Derby
16 - Água Fria
17 - Beberibe
18 - Campo Grande
19 - Pina
20 - Ibura
21 - Imbiribeira
22 - Tejipió
23 - Várzea
24 - Cordeiro
25 - Torre
26 - Casa Forte
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 54
A expansão dos SC no Brasil, inicia-se na década de 1980. Conhecida como
“década perdida”, o período econômico dos anos 80 vislumbrou a expansão dos SC
no território brasileiro através de um modelo econômico concentrador de capital que,
excluindo a maior parcela da população brasileira não detentora da riqueza, volta-se
para os estratos de renda mais elevados, oferecendo-lhes cada vez mais opções de
compra e lazer.
Os SC surgem sob um padrão de acumulação de capital que se desdobra por
todo país. A consolidação desse padrão de acumulação de capital no Brasil, se deu
na década de 80, através da ampliação do circuito financeiro da economia e sua
inserção, ainda maior, no setor comercial.
As condições sócio - econômicas em que surgiram e expandiram-se os SC no
Brasil foram analisadas por Pintaudi59. Interrelacionando o momento de surgimento
dos SC no Brasil com o desenvolvimento do capitalismo monopolista, a Autora afirma
que o processo de acumulação de capital se faz contínuo através do poder de
mercado. Tal processo ocorre quando as grandes lojas ou grandes empresas de
supermercado dirigem-se para os SC, pois, sendo empresas de grande capital, a
estratégia usada para dar continuidade à acumulação do seu capital é localizar-se
em espaço concentrador de atividades comerciais, monopolizando o espaço que
deverá assegurar um número cada vez maior de consumidores. Segundo Pintaudi:
No Brasil, o primeiro SC se instalou em 1966 em São Paulo - O Iguatemi permaneceu único até o período seguinte, quando surgiram mais dois SC, um
no Distrito Federal (1971) e outro no Paraná (1973). Entre 1975 e 1979 foram
inaugurados mais quatro SC (dois em São Paulo, um em Minas Gerais e um
na Bahia) e foi só a partir de 1980 que o fenômeno se difundiu por outros
estados brasileiros.60
59
PINTAUDI, Silvana Maria. O Shopping center no Brasil - Condição de Surgimento e Estratégias de
Localização. op. cit
60
Idem. p.17.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 55
O intervalo de tempo entre a implantação dos primeiros SC (no período de
1966 a 1979) e o início de sua expansão pelos vários estados brasileiros (a partir de
1980) teria sido reflexo do “período de maturação do fenômeno se deu a partir dos
anos 80, o Shopping center já estava consolidado” 61.
Além disso, cumpre observar que o surgimento e a localização dos SC no
Brasil obedecem a um padrão de concentração de suas unidades na região sudeste
do país, por ser essa a região “mais industrializada e urbanizada e onde vive a maior
parte da população brasileira, que detém, inclusive, maior poder de compra”
62
.
A expansão dos SC no Brasil, além de obedecer a essa “lógica espacial”, vem
se apoiar, a partir da década de 80, no circuito financeiro- econômico, que se alia ao
setor comercial. As grandes lojas de magazines e supermercados passam a
direcionar a distribuição e circulação de mercadorias, na medida em que se tornam
poderosos agentes econômicos no processo de concentração e centralização do
capital.
Os Shopping centers aparecem no momento em que a economia brasileira se
desenvolve com a formação de monopólios, e eles representam esta
tendência das atividades comerciais varejistas, que antes não concentravam
poder econômico, exceto as grandes lojas e as grandes redes de
supermercados. Estes empreendimentos criam as condições necessárias e
cobram por isso, sendo que tais iniciativas, quando não contam com recursos
financeiros, vão buscá-los em bancos públicos. 63
Portanto, o surgimento de um SC se apoia no trinômio: capital financeiro (que
pode ser público ou privado), capital comercial (que pode ser local ou não) e capital
imobiliário (quase sempre local). Em sua obra, Pintaudi apresenta um quadro
ilustrativo com o universo de SC brasileiros naquele momento64.
O capital comercial se relaciona com um SC a partir do momento em que
comerciantes
61
experientes
no
setor,
ao
se
abrigarem
em
suas
instalações,
Id.; Ibid; p.18.
Id.; Ibid.; p. 26.
63
Ibidem, p. 26.
64
PINTAUDI, Silvana Maria. O Templo da Mercadoria - estudo sobre os Shopping- Centers do Estado de São
Paulo. Tese (Doutorado em Geografia), USP/São Paulo, 1989. p. 43.
62
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 56
responsabilizam-se pelo bom desempenho das vendas do SC. Após criteriosa
seleção dos lojistas, que passam a usar os equipamentos do SC por meio de
pagamento de aluguel, há uma remuneração do investimento feito, apenas através
do capital comercial que circula no SC. Para assegurar sua circulação, planeja-se a
localização das lojas, cuja disposição deve atender a uma lógica que situe as lojas
“âncoras” nas extremidades do SC, para onde convergirão os consumidores com
mais freqüência, tendo, entretanto, que transitar em frente às demais lojas. O capital
financeiro/imobiliário, por sua vez, relaciona-se com um SC através do pagamento do
condomínio feito pelos lojistas. A localização escolhida para a instalação de um SC é
de grande importância por se tratar, fundamentalmente, de um investimento de
capital no âmbito do comércio varejista que necessita rapidamente se ampliar.
Porém, Pintaudi 65 considera que:
No caso de um SC, o investimento é grande, então o componente localização
tem um peso muito maior, aliás, fundamental, porque é estratégia para a
reprodução de um capital imobilizado numa construção de grande dimensão e
que, se não der certo, fica difícil, para não dizer impossível, destiná-la a outra
atividade que permita o retorno do capital de forma ampliada.
Corrêa66, ao analisar a Região Metropolitana de Recife, aponta o processo ora
em desenvolvimento nesse espaço. Tal processo é caracterizado pelo Autor como
uma “descentralização espacial e centralização do capital” que “apoiam a gestão do
território sob a égide das grandes empresas e do Estado capitalista”. Derivada de
uma aliança entre diversas frações do capital, que se associam aos interesses de
proprietários fundiários (empreiteiros, bancos, grandes cadeias de lojas, varejistas e
incorporadores imobiliários), a descentralização espacial cria uma nova configuração
espacial na metrópole.
Na fase atual do capitalismo, segundo o mesmo autor, as grandes empresas
desempenham enorme papel na gestão do território, tanto em escala metropolitana
como regional. Suas atuações na gestão do território metropolitano “podem se dar
65
Id.; Ibid.; p. 29.
CORRÊA, Roberto Lobato. Gestão do Território, Metrópole e a Empresa (resumo) In: Anais do Seminário de
Políticas Territoriais e Gestão Metropolitana do Norte e Nordeste. Recife: UFPE, pp. 55-57, 1989.
66
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 57
através da descentralização das atividades Terciárias — administrativas, comércio
varejista e outros serviços — para os novos subcentros comerciais ou para os
modernos shopping centers”, acarretando o esvaziamento do núcleo central da
cidade que se torna, em muitos casos, lugar dos pobres, do circuito inferior da
economia.
Uma outra mudança no setor é a presença das franquias, sistema entre o
franqueador e o franqueado, iniciado no Brasil em 1925, com a General Motors.
Pesquisa detalhada sobre esse setor foi desenvolvida por Ortigoza67.
Seu desenvolvimento deu-se de forma lenta, até a década de 1960. No
período, entre 1960 e início dos anos 80 o sistema de franquia manteve-se
sem muitos avanços quantitativos e/ou qualitativos. Somente no final da
década de 1980, com a constituição em São Paulo da ABF- Associação
Brasileira de Franchising (1987), passou a ocorrer um grande boom, pois o
sistema foi mais divulgado e nosso país tornou-se um enorme mercado
potencial para esse tipo de investimento.
Na década de 1990, o Brasil passava por um período de crise política e
econômica e aumento dos níveis de desemprego. Segundo a Autora, no entanto,
para o sistema de franquias essa foi a "grande década", pois foi a partir da primeira
metade da década de 90 que o setor de franquias apresentou índices de crescimento
surpreendentes.
Cabe destacar a necessidade de estudos sobre as diferentes estratégias de
crescimento do sistema de franquias e suas repercussões locais, pois esse sistema
viria fortalecer a perversa desigualdade regional, fortalecendo a Região Sudeste em
detrimento do Nordeste, através de mecanismos legislativos e financeiros que
inserem o Brasil no ranking mundial, como um país que se destaca em número de
empresas franqueadoras. Ao se instalarem, as lojas franqueadas provocam várias
alterações no comércio tradicional do lugar, pois:
No que tange à franquia, em todas as regiões em que ela se instala, pela sua
capacidade de uniformização, acaba proporcionando modernidade nas
técnicas gerenciais, oferecendo suporte ao franqueado, libertando-o da parte
67
ORTIGOZA, Silva Aparecida Guarnieri. As Franquias e as novas estratégias do Comércio Urbano no Brasil.
p.61
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 58
burocrática do empreendimento. Sendo assim, o franqueado pode dedicar-se
às questões-chave do negócio, como atração e atendimento especial aos
clientes. Essas vantagens, bastante divulgadas pela imprensa nacional,
fizeram com que muitos empreendedores aderissem ao sistema, tornando-se
franqueados 68.
Na Região Nordeste, as redes franqueadoras vieram se instalar nos SC,
galerias e hipermercados a partir da década de 80. Nota-se que o centro tradicional
vai receber lojas franqueadas do ramo de cosmético e perfumaria, a exemplo da
Boticário, da L' acqua di Fiore, Clorofila e Ácqua Fresca, entre outros. O ramo de
vestuário vai assistir ao surgimento de empresas locais e regionais franqueadoras
que se pulverizaram por várias partes da região, das capitais às pequenas cidades.
Esse assunto merece um estudo específico e detalhado, pois se diferenciam muito
entre os setores e entre os espaços.
Cabe aqui destacar que, embora haja concentração de maior número de lojas
franqueadas na região sudeste, deve-se investigar em que medida a rede de lojas
franqueadas contribui para acirrar a desigualdade regional do país, fortalecendo uma
em detrimento do empobrecimento de outras, ou seja, as matrizes instaladas no
Sudeste possuem benefícios fiscais que favorecem à concentração do capital nessa
região, causando assim, prejuízos para o comércio tradicional daquela região ou
cidade acolhedora da loja franqueada, uma vez que a geração de riquezas não
permaneceria em seu local.
Tal fenômeno pôde ser constatado no ramo de vestuário da cidades de Recife,
onde vários escritórios de representação dos artigos vendidos nessa cidade, estão
instalados no Sudeste. Os escritórios recebem as mercadorias produzidas em outras
regiões, fazem sua embalagem e enviam para as suas filiais. Muitas vezes, a
localização geográfica das filiais coincide com aquela região produtora.
Essa transformação do comércio tem no modelo SC uma de suas matrizes
impulsionadoras, cuja influência vão recair sobre as mudanças ocorridas no Centro
68
Idem, p. 66.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 59
de Recife, pois vieram a se constituir imagem referência ao Plano de Revalorização
das ruas comerciais, as ruas-shopping e os shoppings de camelôs.
Paralelamente às várias intervenções do Centro pelos poderes público e
privado, o comércio viria assistir a um crescente número de fechamentos de suas
lojas. Antigos magazines e lojas departamentais existentes no Centro viriam a
desaparecer de suas ruas, como a Sloper e a Viana Leal, localizadas à rua da
Palma; as Lojas Brasileiras, da Rua da Imperatriz; e a loja Mesbla69, localizada na
Avenida Conde da Boa Vista, atualmente substituída pela Loja Riachuelo, desde 06
de novembro de 200070. Outro magazine a desaparecer do cenário recifense e
nacional, foram as Casas Pernambucanas.
Várias centralidades surgiram em Recife, desde o final da década de 70 até o
ano 2000, e certamente o surgimento de shopping centers e hipermercados
desencadearam esse processo, consolidando o papel de Recife, "como segundo
maior comércio de varejo da região Nordeste" 71
Atualmente, existem cerca de 6 shopping centers em Recife: o Shopping
center Recife, localizado no bairro de Boa Viagem, porção sul de Recife, cujo maior
acionista é o Grupo Bompreço. A terceira etapa de ampliação conferiu ao centro o
total de 469 pontos de venda, distribuídos em 80 mil metros quadrados de área
locável, com 12 cinemas, 03 praças de alimentação, com cerca de 26,5 mil de
clientes por dia.
O Shopping Tacaruna, localizado em Recife ao norte da cidade, foi inaugurado
em 1996. Esse centro possui cerca de 30,8 mil metros quadrados de ABL e 194
lojas, 08 cinemas e três lojas âncoras: Hiper Bompreço, C&A e Americanas, uma
praça de alimentação e grande parque de estacionamento.
69
As lojas Mesblas tiveram processos de desaparecimento diferentes, tendo sido uma localizada à Rua da Palma,
vítima de um incêndio,
70
JORNAL CDL - Recife. Especial : Ruas do Centro. p. 10-11.
71
RELATÓRIO DA GAZETA MERCANTIL. Shopping center s. São Paulo, terça feira, 20 de agosto de 1996.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 60
O Shopping Guararapes, situado em Jaboatão dos Guararapes, na porção
sul
da Região Metropolitana foi inaugurado em 1993, no bairro de Piedade, com 30 mil
metros quadrados de ABL e ancorado por um hipermercado Bompreço, de 12 mil
metros quadrados, as Lojas Americanas e a C&A; 130 lojas satélites, uma
praça de
alimentação, três cinemas e um play park. Em 1996, sua ampliação elevaria para o
total de 212 lojas que recebem cerca de um milhão de pessoas por dia.
Existem outros SC menores mas não menos dinâmicos. O Plaza Shopping
center, localizado em Casa Forte, noroeste de Recife; o Shopping Olimpyus, em
Paissandu, porção oeste de Recife; e o Shopping Boa Vista, no Centro de Recife. No
município de Paulista, um outro shopping será logo inaugurado no bairro do Janga.
Segundo a análise de Pintaudi72, os SC seriam a expressão de um processo de
reorganização do capital na esfera do comércio, cuja estratégia é alcançar
consumidores de maior poder aquisitivo. Quando se iniciou a expansão desses
centros comerciais planejados, na década de 80, ainda não havia sinais fortes de
crise nos centros tradicionais, como observamos atualmente nas grandes cidades
brasileiras.
Sobre a crise na cidade, a mesma Autora73 considera que a cidade está cada
vez
mais
caracterizada
por
um
“espaço
produzido e reproduzido de modo
fragmentário, no qual não há um centro, mas diferentes centralidades”. Afirma
também que a cidade é englobada pelo urbano, entendido como produto do
esfacelamento do espaço social da cidade, fruto das crises.
Entendemos que o CTR, aqui analisado, consiste na reunião dessa complexa
fragmentação. Nossa pesquisa tentará analisar esses sinais de crise, procurando
compreender as principais medidas encontradas para sua recuperação, produção e
reprodução espacial.
72
PINTAUDI, Silvana Maria. Os Shopping centers Brasileiros e o Processo de Valorização do Espaço Urbano
In: Boletim Paulista de Geografia.
73
SILVANA, Maria Pintaudi. A Cidade e a Crise. In: DAMIANI, Amélia Luisa; CARLOS, Ana Fani e
SEABRA, Odette C de Lima (org.) O Espaço no Fim do Século – a nova raridade.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 61
Atualmente, cada vez mais pessoas dirigem-se para os SC e hipermercados
com a intenção de comprar produtos, usufruir dos serviços ou mesmo circular em
suas “ruas” e “praças”, buscando segurança, conforto e lazer.
A partir dos anos 80, o CTR passou a representar para os consumidores um
lugar de ruas mal conservadas pelo setor público e susceptíveis a roubos e violência.
As ruas eram disputadas pelos camelôs, representantes do comércio informal e
pelos lojistas.
Esse conflito foi alvo de discussões entre a administração municipal e os
proprietários de lojas do centro da cidade na gestão do Prefeito Gilberto Marques
Paulo, em 1992, resultando no Plano de “Humanização da Cidade”74, que consistia,
entre outros pontos, na retirada dos camelôs das principais ruas de comércio do
Centro Tradicional do Recife, na tentativa de tornar o centro da cidade semelhante
ao que era no passado.
Reconhece-se
o papel do Estado na formação de lugares especializados, o
que o caracteriza como principal agente de segregação sócio - espacial dos espaços
urbanos. A contradição dos lugares públicos e privados é portanto, produzida pelo
capital público e privado.
Nesse
sentido,
a
especialização
das
ruas-shopping
foi
acelerada
por
intervenções urbanísticas desenvolvidas, sobretudo, pelo Estado, que contribuiu para
o processo de retirada dos camelôs e para a criação dos Camelódromos, levando o
Centro a ofertar serviços e equipamentos populares, num primeiro momento, mas
com gradativas e lentas substituição de mercadorias para os extratos de renda mais
elevados. Esse será nosso objeto de investigação, a seguir.
74
JORNAL DO COMMERCIO. Caderno Cidades. Recife: domingo, 17 de maio de 1992.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 62
1.3 O Centro e suas intervenções
Analisaremos aqui, a produção e a reprodução de um espaço onde a
implantação de um conjunto de intervenções públicas e privadas, desencadeadas
por vários Planos de Revalorização, teria resultado na expulsão dos camelôs de ruas
comerciais tradicionais de um centro metropolitano seguido de um amplo processo
de revalorização do espaço.
1.3.1 Histórico das Intervenções e o Plano de 1992
O Plano de Revalorização de 1992, criado na gestão do Prefeito Gilberto
Marques Paulo para o CTR, trouxe expectativas de que seu centro teria de volta a
antiga centralidade que exercia na cidade. Ao contrário disso, o Plano não impediu
que o comércio do centro ofertasse cada vez mais artigos populares, reflexo de
mudanças que vão além do difícil convívio com os ambulantes. Como bem elucida
Correia 75:
O papel desempenhado pelo comércio de rua no processo de afastamento
das classes de renda mais alta do centro talvez seja bem menos relevante que
o atribuído por esses lojistas [os do centro ] (...) Uma visão empírica do
processo nos leva a supor que esteja havendo uma mudança qualitativa na
atividade, materializada na expansão do comércio de artigos populares e no
quase desaparecimento do comércio destinado às classes altas, cujas lojas
fecharam ou estão progressivamente passando a vender artigos populares.
O CTR teria mudado, passando a ofertar mercadorias populares em lojas e
tabuleiros de camelôs. Entendendo essas características como sinais de crise do
comércio do centro, os comerciantes solicitariam um Plano de Revalorização com
estratégias de reversão desse processo, dentre elas as ruas-shopping e os
camelódromos.
75
CORREIA, Telma de Barros. A Prefeitura do Recife e o Comércio Informal de Rua. pp. 18-33.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 63
Os sinais de crise nas cidades, e especificamente em seus Centros Tradicionais
de Comércio, são estudados por cientistas76 de vários países. Analisando o Recife e
seu centro Histórico e comercial, Andrade77 apontava que:
O crescimento urbano levou governadores e prefeitos a procurarem
modernizar a cidade (...) Após a Revolução de 30, foi feita a modernização do
bairro de Santo Antônio, com a destruição de velhas ruas e a abertura da
Avenida Guararapes e posteriormente, a dos bairros da Boa Vista - Avenida
Conde da Boa Vista - e de São José - Avenida Dantas Barreto. Este processo
de modernização foi feito sem a menor sensibilidade, sem o menor respeito à
memória nacional, com a destruição das características da velha cidade e de
monumentos históricos do maior valor e importância.
Esse montar e desmontar de prédios e avenidas que o autor descreve, os
letreiros luminosos a esconder fachadas mal conservadas, os congestionamentos de
pessoas e veículos, o comércio informal crescente, representavam uma época de
grande dinâmica do Centro Tradicional de Recife, cidade que “apresentava uma
supremacia quanto ao comércio varejista e que se firmava como grande centro
atacadista da região metropolitana
78
” e destacava-se também como centro varejista
de bens especializados, com grandes magazines em suas ruas.
Naquela época (década de 70), a vida do Centro de Recife seguia um ritmo de
dinamismo e simbolizava até então, a principal centralidade da cidade, tanto é que,
no imaginário do recifense, ainda está presente a idéia de quando para lá se dirige,
está indo "à cidade”, lugar onde se encontrava tudo o que podia oferecer a
metrópole, comércio, atacadista - varejista, e serviços.
Analisando o resultado de uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto Paulista
de Mercado, vemos as principais lojas do ramo de tecidos existentes no Centro, em
197779. Entre elas, as Casas José Araújo, Lojas Narciso, Lojas Tebas e Casa das
Rendas, ainda hoje permanecem nas ruas do centro. (QUADRO 01).
76
O Centro Tradicional de Comércio foi o enfoque mais representativo no Simpósio Internacional de Comércio e
Consumo, ocorrido em março de 2000, em São Paulo.
77
ANDRADE, Manoel Correia de. Recife: Problemática de uma região subdesenvolvida. op. cit. p.25.
78
Idem, p. 26.
79
INSTITUTO PAULISTA DE MERCADO. Recall das Principais Lojas de tecido do Centro de Recife.
(Biblioteca Particular da loja Casas José Araújo).
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 64
QUADRO 01:
LOJAS DE TECIDO NO CENTRO DE RECIFE
1977
Lojas do Ramo de
Tecido
Casas José Araújo
Casas Pernambucanas
Center Fabril
Tecidos Mota
Gigante dos Tecidos
BBB
Mesbla
Sul Fabril
Nações Unidas
Sady Tecidos
A Primavera
Armazém Narciso
Lívio Lima
Jurandir Pires Galdino
A Girafa
Casa das Rendas
Armazém Campinense
Lojas Tebas
FONTE: BIBLIOTECA PARTICULAR DAS CASAS JOSÉ ARAÚJO.
RECIFE, JULHO DE 2001
Entendemos que o Estado, desde o final dos anos 70, negligenciou a gestão
do Centro Tradicional de Comércio. Andrade 80 já nos alertava para o fato de :
O descongestionamento do centro, que vem se procedendo de forma
espontânea e, até certo ponto, anárquica, deveria ser orientado através de
uma escala de prioridades, levando-se em conta a demanda dos serviços, o
custo dos mesmos e as facilidades de acesso, a fim de que, nos bairros
periféricos, se dispusesse da oferta de mercadorias e de serviços mais
elementares, de maior demanda e que, à proporção que se caminhasse para
o centro ou para bairros com funções específicas, fosse aumentando o nível
de oferta de mercadorias e serviços mais caros, mais especializados, e menos
procurados.
Em 1976, foi criado o primeiro Projeto de Humanização da Área Central,
quando as ruas da Imperatriz, Nova e Duque de Caxias seriam as primeiras ruas do
centro a se tornarem "Calçadões de Pedestres". O projeto foi solicitado pela
Prefeitura ao arquiteto Jaime Lerner e objetivava assim, restabelecer "o antigo
80
ANDRADE, Manoel Correia de. op. cit., p.28.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 65
itinerário
percorrido
a
pé
por
seus
habitantes".
Inserido
no
Programa
de
Revalorização da Área Central da cidade, os Calçadões propiciariam "a valorização
dos pontos de encontro tradicionais e da montagem de uma estrutura de animação
permanente" 81
Cerca de 20 anos se passaram e o quadro sofreu profundas transformações.
Os bens e serviços voltados para consumidores mais abastados estão nos SC,
hipermercados e galerias de bairros e não no Centro. Esse processo seria acentuado
a partir de 1980, quando
foi criado o primeiro SC da cidade do Recife, o Shopping
center Recife, representando o início do processo de contenção do fluxo de
consumidores nas porções norte e sul da Região Metropolitana do Recife, quando
essa região cada vez mais receberia novos SC, onde foram se
instalar as lojas-
âncoras (que atuam como geradoras de fluxo de pessoas, ao ofertar produtos a
preços mais baixos).Os Calçadões de pedestres passariam a ser usados não como
"ponto de encontro da classe média" mas sim pelo comércio de rua.
Os anos 80 assistiriam a um crescimento do número de camelôs, ocupando
ruas, pátios e canteiros do centro da cidade. Em 1983, a Rua da Imperatriz passaria
a fazer parte do Setor de Preservação Rigorosa da Zona Especial de Preservação 8 Conjunto Antigo da Boa Vista (Lei 14.511/83), significando que os sobrados de dois
ou mais pavimentos, teriam suas características preservadas, pois guardam consigo,
na sua maioria, as características do estilo colonial: fachadas com o predomínio de
sacadas com grades de ferro; frontões e cornijas de coroamento; portais em
argamassa de cimento pintadas; panos de azulejos; pinhas, estátuas, taças e outros
adornos.
Em parceria com a Associação dos Comerciantes da Imperatriz (ACRIA), a
Prefeitura através do Escritório de Revalorização do Centro e do Departamento de
Preservação dos Sítios Históricos da Empresa de Urbanização do Recife (URB)
assumiria uma das ações do projeto: a intervenção física (global e individual),
81
URB/SEPLAN. Planejamento Urbano. Estrutura Urbana do Recife. LERNER, Jaime. Programa de
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 66
representando a relocação dos camelôs existentes no "Corredor dos Pedestres",
correspondentes, a partir de então, ao seguinte trecho: Praça do Carmo, Rua Duque
de Caxias, Praça do Diário, Rua Nova, Ponte da Boa Vista e Rua da Imperatriz, onde
"todo o comércio ambulante foi deslocado, sendo o Escritório do Centro o agente de
fiscalização e de manutenção da área".82
O programa de "relocação" dos camelôs ocorreu em 1983, quando teriam sido
eleitas as ruas: Matias de Albuquerque, das Flores,
Frei Caneca, João Souto Maior,
Direita, da Penha, do Porão e os Largos do Rosário e do Carmo, estacionamento do
Cais de Santa Rita, para a ocupação dos quiosques dos camelôs.
Seguindo uma estrutura disciplinar serão selecionadas por setores e tipos de
atividades, o comércio ambulante, a destacar os seguintes ramos: lanches,
bijuterias, confecções, artigos plásticos, calçados, artesanatos, frutas,
alimentos regionais, cigarros, miudezas, discos, livros, revistas e jornais 83.
O Projeto assentaria cerca de 4.000 camelôs, de um total de 6.385 localizados
no centro e nos subúrbios, pesquisados no período de 01 de maio a 15 de junho de
1983. O fato de não incorporar cerca de 2.385 camelôs foi justificado pelo projeto
como "tratar-se de camelôs de menor idade com desejo de freqüentar cursos
profissionalizantes e profícua vontade de não permanecer como camelôs".
As ruas que apresentavam maior número de camelôs eram as ruas da
Imperatriz (150), Duque de Caxias (379) e Nova (274). No período de 18 a 22 de
julho de 1983, os camelôs foram "remanejados" das ruas da Imperatriz, Nova e
Duque de Caxias, e da Praça da Independência (Praçinha do Diário) para as artérias
laterais. Mas, em seguida retornariam aos seus antigos lugares.
A Rua da Imperatriz seria a primeira inserida em um novo Plano de
Revalorização que seria criado em 1988, na gestão de Jarbas Vasconcelos84.
Revalorização da Área Central - Os Calçadões de Pedestres. Recife, 1978. p. 39.
82
PCR. SECRETARIA DE ABASTECIMENTO. Proposta Estrutural Ação Camelô. Recife, junho, 1983.
83
Idem,
p. 11.
84
PCR. Programa de Revalorização do Centro da Cidade. Recife/junho de 1988.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 67
O Projeto de Revalorização da Rua da Imperatriz procura alcançar os
seguintes objetivos: a) resgatar a importância comercial da rua; b) resgatar o
conjunto arquitetônico, c)ofertar melhores serviços aos clientes e
consequentemente, aumentar a demanda consumidora. Atingidos estes
objetivos, tem-se como resultado o Shopping Aberto Imperatriz.
Segundo entrevista concedida pelo Sr. Petrônio Fernandes da Silva Filho,
Diretor do Departamento de Engenharia da CSURB - Companhia de Serviços
Urbanos, o Escritório de Revalorização passaria por várias mudanças, ao longo do
período de 1986 a 1992. Inicialmente, o escritório foi desmembrado em dois: o
Escritório do Recife Antigo e o Escritório de Revalorização do Recife.
Criado com o objetivo de revitalizar o Centro de Recife, ele teria sido
absorvido apenas pelo Plano de Intervenções do "Recife Antigo", destinado ao Bairro
de Recife. Entretanto, crescia a necessidade de intervenção no Centro Tradicional de
Comércio, pois as que haviam sido feitas não teriam alcançado os níveis esperados,
ou seja, os camelôs não teriam sido retirados das ruas comerciais.
Sendo assim, o Escritório de Revalorização do Recife - ECR - foi criado em
1986, com o objetivo de revitalizar o centro expandido, tendo em sua composição:
empresas representativas localizadas nas ruas comerciais e técnicos da URB Recife. Cabia aos planejadores do ECR solicitar às empresas comerciais um elenco
de prioridades de ações para as ruas comerciais. Surgiria a partir de então, a
solicitação dos comerciantes em adotar as ruas da Imperatriz, Nova e Duque de
Caxias para iniciar o Plano de Revalorização, com a definitiva expulsão dos camelôs.
O Escritório de Revalorização seria deslocado da Empresa de Urbanização
(URB) para a Empresa de Limpeza Urbana (EMLURB), sob a justificativa de que a
necessidade
de
grande
efetivo
de
funcionários,
solicitado
pelas
ações
de
"intervenção física", ou seja, da expulsão dos camelôs das ruas do centro, era
impossível de ser atendida pela URB.
Em 1990, a Secretaria de Abastecimento englobaria o escritório. A gestão do
Prefeito Joaquim Francisco traria para os camelôs ações enérgicas para sua
expulsão, sem atingir, contudo, seus objetivos de total erradicação dos comerciantes
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 68
das ruas. Ficariam comuns, nesse período, as cenas de conflito entre os camelôs e a
Guarda Municipal, com apreensão de mercadorias pelas "carrocinhas". Os camelôs
reagiam com gritos, choros e apedrejamentos, em defesa de seu comércio. Essas
ações, até então, poderiam ser aguardadas pelos camelôs que se organizavam em
grupos e impediam maiores danos, conseguindo sensibilizar a população, seja
através das cenas de conflito, seja pela veiculação de notícias na imprensa. Mas
chegaria o período do golpe da intervenção de 1992, considerado o nosso 'marco de
mudança'. (Figura 11)
Com o afastamento do então Prefeito Joaquim Francisco em 1992, para que o
mesmo pudesse concorrer ao cargo de Governador do Estado, assumiria o Prefeito
Gilberto Marques Paulo, deslocando mais uma vez, o Escritório de Revalorização,
para o Secretário de Infra – Estrutura, João Braga, que criaria o Plano “Ação
Camelô”.
O planejamento das ações ocorreu em "portas fechadas", com um pacto de
silêncio entre os técnicos envolvidos. Dessa forma, comerciantes, consumidores e
camelôs foram surpreendidos no dia 20 de abril de 1992, com um dos maiores
conflitos armados já existentes nas ruas comerciais do centro recifense.
O Memorial Descritivo do Plano de Revalorização de 1992 jamais foi
encontrado. Quando o solicitamos à Biblioteca da Prefeitura, os funcionários
lembraram das ações contra os camelôs do Centro, mas reconhecem que fotos e
relatórios não ficaram registrados em memorial descritivo, apenas nos jornais locais.
Em nossa pesquisa, encontramos as principais matérias jornalísticas do período,
inseridas ao longo do trabalho, para que os fatos possam ser melhor elucidados.
Naquela ocasião (1992), entretanto, integrávamos um grupo de pesquisadores
(geógrafos, arquitetos, sociólogos) que teriam sido solicitados a percorrer as ruas do
centro da cidade, com o objetivo de analisar a dinâmica da paisagem, cujo relatório
seria exigência da disciplina de Mestrado em Geografia. O trecho teve início na
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 69
Figura 11: Camelôs saem amanhã. É ver para crer. Matéria jornalística
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 70
Praça Maciel Pinheiro, Bairro da Boa Vista, e terminaria na Avenida Nossa Senhora
do Carmo.
Ocorreram tentativas de camuflar as fortes cenas de violência desencadeadas
pelas estratégias das Guardas Municipal e Estadual em conter os camelôs, ao usar
de espancamentos físicos como punição aos que tentavam romper os limites das
ruas-shopping. O uso de tapumes, usados para fechar as ruas transversais onde
estavam amontoados, bem como o feriado comercial do período que denominamos o
golpe do comércio, foram algumas das ações escondidas que podem ser analisadas
nas figuras 11 e 12 e no histórico da criação da CSURB, empresa que atualmente
fiscaliza o comércio informal em Recife. (Figura 12)
A etapa seguinte da intervenção foi a fiscalização das ruas, sendo o Escritório
de Revalorização transformado em uma Empresa, entre 1993 - 1996 que, juntamente
com a Companhia de Abastecimento de Recife (COMPARE), criaria a Companhia de
Serviços Urbanos de Recife (CSURB), cuja Diretoria de Revalorização, Fiscalização
e Engenharia, exerceria a função
de fiscalização e disciplinamento do comércio do
centro expandido.
As Diretorias de Revalorização e Fiscalização, cujo Diretor atual é o C.el.
Lucinaldo Guimarães Pimentel, e de Engenharia da CSURB, foram criadas no Plano
de Revalorização de 1992, e "surgiu da solicitação dos comerciantes das ruas
comerciais, preocupados com a influência dos SC sobre o comércio do centro, onde
cada vez menos consumidores de classe média procurariam as lojas situadas ao
longo de ruas repletas de camelôs".
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 71
Figura 12: Ruas Fechadas : é a batalha contra sujeira e camelô. - Matéria
Jornalística
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 72
Atualmente, essa Diretoria possui um efetivo de cerca de 1.500 fiscais em
todo o centro, e passaria a exercer uma função de policiamento das ruas do centro,
através do seu efetivo de fiscais da CSURB, da Guarda do CDL, da Guarda
Municipal, da Guarda da Polícia Militar, da Guarda das Associações de ruas e da
Guarda de Apoio Lojista, segurança particular dos comerciantes. (Figura 13)
Figura 13: Após a "limpeza" das ruas-shopping, os Policiais e fiscais tentam
manter a imagem de rua-shopping.Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
Ao longo dos anos 90, o centro assistiria a várias intervenções, iniciando pelas
ruas Imperatriz, Nova e Duque de Caxias em direção a outras ruas. Na Rua
de
Albuquerque,
seriam
instalados
quiosques
que
abrigariam
uma
Matias
feira
de
artesanato e uma praça de alimentação; a Rua das Flores, onde existia uma feira de
flores, atualmente comercializadas em quiosques; a Rua da Palma, teve um de seus
trechos, entre a Rua Nova e a Rua das Flores, transformado em um estacionamento,
e o trecho entre a Rua Nova e a Avenida Guararapes, tradicionalmente conhecida
como o lugar das frutas, passaria a abrigar
de um lado, quiosques de flores
artificiais, de outro, alguns pontos de comércio de frutas e coco verde.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 73
Outras ruas seriam utilizadas para abrigar os quiosques, a exemplo da Rua
Infante Dom Henrique (que dá acesso ao Pátio do Carmo) e Rua das Flores e Rua
da Palma, entre outras. A execução do “disciplinamento” do comércio de rua, através
de sua fixação em quiosques é feita pela CSURB, cabendo as Associações de Rua
sua fiscalização e manutenção.
As associações de rua assumiriam o gerenciamento das ruas comerciais do
centro. Cada rua criaria sua associação representativa, onde uma diretoria passaria
a gerir o uso da rua, através de um sistema de condomínio, aplicando recursos em
benefícios apenas para suas ruas de origem. Como resultado, o centro assumiria
uma política de gerenciamento fragmentada e privatizada, ampliando ainda mais os
conflitos existentes entre comerciantes e camelôs.
Outros camelôs que teriam sido retirados das ruas-shopping passariam a
ocupar os camelódromos (assunto a ser tratado mais adiante), ou locais próximos
aos portões de entrada e saída dos principais Calçadões.
Os grandes estabelecimentos conhecidos por shopping de camelôs foram
criados em 1995. Atualmente, os shoppings
de
camelôs
ou
camelódromos,
encontram-se com vários quiosques abandonados pelos camelôs que, por sua vez,
retornariam às ruas do centro de menor policiamento, criando diversas formas e
alternativas de comercialização de seus produtos, através de meios de exposição
fáceis de serem transportados. (Figura 14)
Figura 14: Camelôs da Av enida Dantas Barreto, entrada da
rua-shopping Nova.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 74
Fotos A, B, C e D, respectivamente: Kátia Ribeiro, 2002.
Em 2000, a gestão do Prefeito Roberto Magalhães teria solicitado uma
pesquisa a ARCONSULT, com o objetivo de detectar os principais problemas dos
camelódromos, cada vez com maior número de quiosques abandonados.
Entre os projetos resgatados pelo Prefeito Roberto Magalhães, encontra-se o
"Corredor dos Mascates", que consiste na criação de um corredor interligando o
camelódromo do Cais de Santa Rita ao camelódromo da Dantas Barreto, através da
Rua Tobias Barreto. Segundo entrevista concedida pelo Sr. Petrônio, em maio de
2001
foi criado o Plano 7, com o objetivo de retirar os camelôs de várias ruas
transversais.
Entre o período de 2000 -2001, foi desenvolvido o Plano 7, com alterações de
várias ruas transversais do corredor de pedestres, havendo um deslocamento
dos camelôs para os camelódromos. Os camelódromos passariam a servir
como válvulas de escape para amenizar os conflitos do centro, uma vez que
ao deslocar os camelôs das ruas do centro seria necessário fixá-los em um
lugar. Esse procedimento obedece a critérios de tempo de existência do
camelô no seu ponto comercial (local), e a relação de distância entre o ponto e
as ruas principais de comércio do centro. Um outro critério é o seu
cadastramento. Portanto, os camelôs que estão mais distantes das ruas
componentes do Corredor de Pedestres, com pouco tempo de função e sem
cadastramento é destinado ao camelódromo do Cais de Santa Rita, em
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 75
quiosques mais afastados de suas entradas e saídas. Aqueles camelôs que
estariam mais próximos ao Corredor de pedestres, com mais tempo de função
e cadastrados, seriam destinados ao camelódromo da Dantas Barreto.
Entretanto, dentro dos camelódromos há um outro tipo de conflito, que reside
na aceitação dos critérios de alocação dos camelôs descritos acima, como também
na condição de abandono do local. O camelódromo da Dantas Barreto, o mais
disputado pelos comerciantes, assistiu em maio de 2001, a um ato de manifestação
dos seus comerciantes em desacordo com o descaso em que se encontram suas
instalações.
Segundo o Diretor da CSURB, Sr. Petrônio, a solicitação dos comerciantes dos
camelódromos se pauta pela mudança do sistema viário, com criação de um sistema
de paradas de ônibus.
O sistema de paradas pode ser modificado, mas isso é pouco. Planejamos a
construção de um Mini – Terminal rodoviário com linhas de tráfego não
disponíveis no Terminal Integrado de Passageiros (TIP) , onde atualmente
existe o Mercado das Flores, situado na extremidade do camelódromo da
Dantas Barreto, cujos comerciantes solicitam seu retorno ao Cais de Santa
Rita. O Mercado das Flores passaria para o Shopping Santa Rita, onde no
passado funcionava o terminal de ônibus. Ao longo do shopping, surgiriam
paradas de ônibus.
Segundo o Sr. Petrônio, a gestão do atual Prefeito João Paulo (2001), vem
discutindo, através do Secretário de Serviços Públicos, José Ailton, as seguintes
propostas: a) o corredor dos mascates, com inserção da Rua Direita (onde apenas
permaneceria o comércio de renda e bico, em atendimento à solicitação da Igreja do
Livramento e dos comerciantes desde 1995), do Pátio do Terço, da Rua Passos da
Pátria e da Rua Tobias Barreto, finalizando na Casa da Cultura e na Estação Central
do Metrô, que abrigará a nova linha centro-sul; o projeto prevê a remoção de
barracas e desobstrução da passagem da rua da Pátria, com a construção de um
restaurante
popular
(equipamento
âncora
do
corredor
dos
mascates);
b)
os
camelódromos passariam por uma reestruturação que se iniciaria com a setorização
das mercadorias, a cobrança de taxas de uso do solo e condomínio e a implantação
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 76
de terminais de ônibus ao longo de sua extensão; e d) a reestruturação do Mercado
de São José, com a remoção de barracas e a implantação de estacionamento.
Em entrevista concedida pela arquiteta Sandra Walmsley, da Secretaria de
Planejamento da Prefeitura de Recife, fomos informados que a atual administração
vem procurando analisar o CTR a partir do levantamento dos projetos já existentes.
Entre as inovações está o Plano "Morar no Centro", o norteador das discussões, e o
Plano "Novas Calçadas, Novos Rumos para uma cidade saudável", iniciado pela
gestão de João Paulo a partir de um diagnóstico da Conde da Boa Vista e do Pólo
Imperatriz.
Enquanto o Poder Público planeja um novo empreendimento para o CTR,
como os Planos Urbanísticos "Calçadão dos Mascates e Pólo Imperatriz", os
camelôs
fazem
a
novidade.
Na
tentativa
de
driblar
o
policiamento,
surgem
alternativas de comercialização dos produtos através de banquetas e painéis, como
possibilidades criadas para uma sobrevivência no comércio do Centro. Trataremos
desse assunto no capítulo três, o que poderá nos fazer incorrer em repetições, ao
nosso ver, necessárias para melhor elucidar os fatos.
Entendemos que o CTR aqui analisado consiste na reunião de uma complexa
fragmentação do espaço. Nossa pesquisa tentará analisar
os sinais de crise do
Centro, procurando compreender as principais medidas encontradas para sua
recuperação, produção e reprodução espacial.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 78
CAPÍTULO II: A REPRODUÇÃO DAS FORMAS COMERCIAIS
NO CENTRO DE RECIFE
A segunda etapa do método de Lefèbvre - o Analítico Regressivo - indica a
reconstituição das relações sociais e da própria realidade como possibilidade de
encontrar suas origens específicas no passado.
Por meio dele mergulhamos na complexidade vertical da vida social e da
coexistência de relações sociais que tem datas desiguais. Nele a realidade é
analisada, decomposta. Ë quando o pesquisador deve fazer um esforço para
datá-la exatamente 85 .
Entendemos que as estratégias criadas para resgatar antigos consumidores
do Centro Tradicional de Comércio de Recife teria iniciado nas ruas da Imperatriz,
Nova e Duque de Caxias, ruas que teriam sido alvo das principais intervenções
urbanísticas dos últimos 15 anos e que, no passado, eram o lugar do encontro e do
consumo da sociedade recifense.
Sendo assim, iniciaremos nossa análise, apresentando as formas comerciais
criadas
pelo
Plano
de
Intervenção
de
1992,
o
marco
de
mudança
das
transformações dessas ruas do Centro para, em seguida, analisarmos as ruasshopping Imperatriz, Nova e Duque de Caxias, lugar de análise, tempo de
decomposição
e
de
articulação
ao
processo
de
reprodução
do
espaço
metropolitano.
Os lugares considerados neste trabalho (as ruas-shopping, os camelódromos
e os quiosques de camelôs) serão analisados como níveis de análise "encaixados", o
que para Lefèbvre86
refere-se às escalas espaciais que interferem, ora percebidas
isoladas, ora "encaixadas", com seus efeitos de reencontros e conjunturas. Assim,
"Qualquer nível resulta de uma análise que resgata e que explicita o conteúdo dos outros
85
86
MARTINS, José de Sousa. As Temporalidades da História na dialéti ca de Lefèbvre. op. cit. p 21.
LEFÈBVRE, Henri. Critique de La Vie Quotidienné II: fondements d'une sociologie de la quotidienneté.op.
cit.. p 124.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 79
níveis. Cada um deles, segundo uma fórmula desde já empregada, é pois à sua vez, resíduo
e produto".
O CTR se reproduz de forma fragmentária e complexa. Ao analisar as ruasshopping especificamente, levando em consideração os vários níveis, ou seja, as
várias escalas espaciais de interferência, percebe-se que seu espaço é resultante de
um processo de intervenções isoladas (mas integrantes de um único plano), em
algumas ruas.
Tais estratégias seriam a introdução de elementos que evocam a imagem de
shopping
centers,
uma
vez
que
antigas
ruas
comerciais
passariam
a
ser
denominadas de ruas-shopping, utilizando-se de placas com nomes "Rua- shopping
Imperatriz", "Rua-shopping Nova" e "Rua-shopping Duque de Caxias", e de um
sistema
de
condomínio
administrado
pelas
Associações
de
Ruas,
cujo
gerenciamento ficaria a cargo de sua diretoria e do Clube de Diretores Lojistas CDL. Inicialmente, o objetivo era resgatar antigos consumidores, mas a classe
média, conforme depoimentos de vários comerciantes, não voltou para o Centro. As
estratégias
foram
desencadeadas
para
um
plano
de
revalorização das ruas
comerciais, culminando no Pólo Imperatriz, com conflitos e contradições de ordem
imobiliária e financeira, específicos dos Planos Urbanísticos criados pelo Estado, por
sua vez, aliado aos proprietários das lojas.
Em nossa análise, optamos por três ruas-shopping, por terem sido as
primeiras inseridas no Plano de Revalorização e por terem sido, no passado, lugar
do comércio de classe média de Recife. São elas: as ruas-shopping Imperatriz,
Duque de Caxias e Nova, estando elas inseridas em dois bairros do Centro de
Recife, o Bairro de Santo Antônio e o de Boa Vista.
No Bairro de Santo Antônio, o comércio surgiu nas ruas Nova e Duque de
Caxias onde, no passado, lojas especializadas, cafés, cinemas e livrarias, atraíam os
consumidores mais afortunados e dividiam o espaço com vendedores ambulantes.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 80
As ruas Nova e Duque de Caxias, localizadas no bairro de Santo Antônio, foram
pioneiras no comércio especializado da cidade (FIGURA 15 e 16).
Fig. 15: Rua-Shopping Nova
Fig. 16: Rua-Shopping D. de Caxias
Foto: Kátia Ribeiro, 1999
Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
Atualmente, essas ruas são conhecidas como rua-shopping Duque de Caxias
e rua-shopping Nova e nelas, agências bancárias e magazines deram lugar a lojas e
prédios de fachadas ora preservadas, ora transformadas, dividindo espaço com
quiosques padronizados situados em sua extensão.
O Bairro da Boa Vista localiza-se à oeste dos bairros de São José e de Santo
Antônio, que compõem o Centro Tradicional de Recife, onde lojas e restaurantes
convivem em meio a teatros e cinemas, órgãos públicos e prédios de escritórios
(muitos deles fechados). Nesse bairro, localiza-se a avenida Conde da Boa Vista,
que abriga o Shopping center Boa Vista, o único existente no Centro de Recife.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 81
Também
nesse
bairro
localiza-se
a
rua-shopping
Imperatriz,
que
se
assemelha às outras ruas-shopping e está inserida no projeto Pólo Imperatriz, que
veremos com detalhes no capítulo 03. (FIGURA 17e 18 )
Fig. 17: Rua-shopping Imperatriz
Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
Fig. 18: Pólo Imperatriz: o painel
Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
O projeto surge como possibilidade de “transformações visíveis, que poderiam
revitalizar esta área através da criação de algumas características identificáveis aos
modernos centros comerciais contemporâneos (os SC)"
87
, sendo ousado em
conceber para a rua não só a restauração das fachadas de seus prédios como
também o seu “fechamento” e “cobertura”, climatizando o ambiente de compras.
Entre os problemas estruturais das áreas centrais, indicados no Projeto, são
apontados: a dificuldade de acessibilidade, estacionamento, carência de áreas livres
e o esvaziamento. A recuperação da rua está pautada na relocação do comércio
ambulante, com a padronização dos fiteiros e bancas de revista e na sua distribuição
87
PCR/Secretaria de Planejamento, Urbanismo e Meio Ambiente/Empresa de Urbanização do Recife/Diretoria de
Projetos Urbanos/ Depto. de Preservação de Sítios Históricos. Projeto Galeria Imperatriz.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 82
uniforme ao longo da rua que será coberta e refrigerada, aberta 24 horas, com
execução e gerenciamento a cargo do poder público e iniciativa privada.
Apoiamo-nos no conceito de reprodução das relações de produção de
Lefèbvre que procura analisar a sociedade através de sua inserção na totalidade,
sobre o movimento desta sociedade no nível global88.
A análise parte dos aspectos particulares e eleva-se aos aspectos mais
globais, quando se deve perguntar onde, como e por quê se perpetuam as relações
entre aqueles que decidem e os que executam o trabalho. A argumentação deve
atingir o nível global e do total, procurando no vivido suas contradições (a dialética) e
resistências. "O cotidiano, e não já o econômico em geral, a base sobre a qual se pôde
estabelecer o neo-capitalismo"
89
. Tal análise está longe
de não se deixar cair nas
"armadilhas, num mundo que não muda como se diz que muda". Nesse processo da
repetição, da imitação, do falso novo, "este pobre pequeno mundo da riqueza (...) é
condenado a apresentar como novo o repetido e como tanto mais novo (neo) quanto mais
arcaico for".90
A pesquisa identificou como operação científica recomendável para analisar o
mundo moderno, o que parece mudar permanece imutável, e que parece estagnar,
modifica-se91, a análise do vivido, das estratégias e das
combinações práticas de
coisas, relações e concepções que de fato não são contemporâneas. "O que no
primeiro momento, parecia simultâneo e contemporâneo é descoberto agora como
remanescente de época específica" 92.
Assim
sendo,
as
relações
sociais
de
produção
são
o
resultado
incessantemente renovado do processo de produção. A reprodução é também
reprodução das relações sociais. Vai além de uma generalização da mercadoria num
88
LEFÈBVRE, Henri. A Re- Produção das Relações de Produção. Op. cit. p.58.
Idem. p.66.
90
Idem. p. 34.
91
Idem, p 67.
92
MARTINS, op. cit. p 21.
89
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 83
mundo da mercadoria em que o capital se reproduz a si mesmo. "Como sair do
mundo da mercadoria, que parece ser o meio que alimenta o capital?"93
Além disso, a reprodução do espaço, como acentua Lefèbvre, não se dá sem
a produção de novas relações, muitas vezes inesperadas pelos gestores do espaço:
"O repetitivo gera diferenças", ou seja, "a reprodução não se efetua sem uma
produção de novas relações" 94. São as contradições não resolvidas.
Assim, nas ruas-shopping, lugar da absorção das intervenções do Plano de
Revalorização de 1992, há uma estratégia que o inspira, contrário ao que o programa
espera, há um "projeto que visa à produção de uma diferença, diferente das que podem
induzir-se nas relações de produção existentes"
95
. Nossa investigação levará em conta o
conjunto daquela sociedade, detectando suas transgressões, alargando o possível,
pensando, proclamando o impossível:
A ação e a estratégia consistem em tornar possível amanhã, o impossível de
hoje. Um tal projeto só ganha sentido por via de uma impossibilidade: ater-se
às relações (sociais) existentes. Ele detecta o que esta impossibilidade torna
possível e inversamente o que o "real" de hoje oculta e bloqueia.
Nas ruas-shopping ocorre uma multiplicidade de relações sociais a partir da
produção e reprodução das relações sociais do seu espaço, de novas e antigas
formas de comércio do Centro de Recife, de sua fragmentação e do seu modo de
vida urbano, que impossibilita os anseios da sociedade, às reais necessidades
sociais da população da cidade. É o que analisaremos agora.
93
LEFÈBVRE, Henri. A Re- Produção das Relações de Produção. Op. cit. pp.52-53
Idem, p.36.
95
Idem, p. 38.
94
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 84
2.1 As ruas-shopping: transformações e persistências
Iniciaremos com o marco de mudança, representado pelo Plano de Intervenção
de 1992. Para implantar o Plano de Humanização da Cidade, a Prefeitura Municipal
se fundamentou em uma pesquisa desenvolvida pela Fundação Joaquim Nabuco
(FUNDARJ) integrante de um estudo abrangente sobre a vocação do Centro do
Recife. Nessa pesquisa foram revelados vários aspectos do dinamismo do comércio
ambulante, entre eles, a indicação de que, nos
dez anos anteriores, a maioria das
pessoas que freqüentavam o Centro Tradicional de Comércio da Cidade (CTR)
situava-se entre as camadas de renda mais baixa, não tendo como hábito
preferencial
entrar
em
lojas,
fazendo
suas
compras
entre
os
vendedores
ambulantes96.
Procurando mudar a tendência apontada pela pesquisa, atraindo para o CTR
a população de classe média que outrora dirigia-se para suas lojas, a Prefeitura
pavimentou ruas, restaurou calçamentos e “fechou” com grades entradas e saídas
principais,
deixando
a
manutenção
das
áreas
“livres”
responsabilidade dos guardas municipais. As lojas
dos
camelôs
sob
a
renovaram seus letreiros e
fachadas e, através da administração do CDL, desenvolveram um sistema central de
divulgação de suas promoções e liquidações.
Atualmente a ausência de congestionamento das ruas, por veículos e,
principalmente, por camelôs, é mantida por severa vigilância dos comerciantes.
Segundo o Presidente das Associações de ruas do Centro, do CDL, em entrevista97
por ele concedida, a segurança das ruas é mantida por três tipos de guardas:
Guardas de Apoio Lojista, função desempenhada pelos Policiais Militares em
horários livres, pela Guarda Municipal do Recife e pelos Auxiliares de Apreensão ou
Remoção, os Guardas das Carrocinhas.
96
FUNDAJ. O Centro de Recife: Atores, Conflitos e Gestão. Recife, abril/1992. p. 3
Entrevista realizada no dia 08 de setembro de1999, no Clube de Diretores Lojistas, ao Sr. Eduardo de Oliveira,
Presidente das Associações de Rua do Centro de Recife. Recife/PE.
97
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 85
Cada uma das associações de ruas administra sua rua através de um sistema
de condomínio, arrecadando um fundo de renda e
aplicando-o da forma que melhor
lhe convém. O Clube de Diretores Lojistas - CDL, tem a função de administrar as
associações de ruas. No Centro Comercial de Recife, existem 8 Associações de ruas
de comércio, integradas por lojistas, e 2 Associações de ruas de Empresários,
integradas por bancos, escolas e profissionais liberais, além dos lojistas. Cada uma
dessas Associações apresenta sua Diretoria e um nome próprio, conforme se
evidencia no QUADRO 02, a seguir.
São as Associações que administram as ruas-shopping, cada uma das ruas
“fechadas”,
que
receberam
Imperatriz,
Shopping
Centro
a
denominação
Rua
de
"shoppings" (Shopping
Nova, Shopping
Centro
Duque
de
Centro
Caxias,
Shopping Centro Palma). Elas foram inseridas no Plano de Revalorização em
períodos distintos, seguindo um ritmo acelerado de transformações, haja vista que
em uma delas (Rua da Imperatriz) uma “Praça de Alimentação” foi criada e,
posteriormente, desativada para dar lugar às obras da "Galeria Imperatriz".
QUADRO 02 : ASSOCIAÇÕES DE RUAS DO
CENTRO TRADICIONAL DE COMÉRCIO DE RECIFE
SETEMBRO/1999
Associações de ruas
Presidentes
Associação dos Comerciantes das ruas
Geraldo Marques- Loja Radical
Nova/ Palma
Associação dos Comerciantes da rua da
Marcos Galo- Loja Veneza Calçados
Imperatriz
Associações das Ruas Duque de Caxias/
Cristiane Cavalcanti – Loja Radical
Estreita e Larga do Rosário
Associação dos Comerciantes do Pátio do Onório Hermeto – Restaurante Livre Acesso
Livramento e rua da Penha
Associação da rua Direita
Vicente Cavalcanti- Loja Vimael
Associação da Rua Matias de
Joaquim Esteves- Bar Savoy
Albuquerque
Associação das Ruas Unidas do Carmo
Carlos Santos – Ótica Igarassu
Associação da Rua das Calçadas
Administrada pelos lojistas, após sua criação
pelo CDL
Associação dos Empresários da Conde da
Prof. Nivan – Colégio Marista
Boa Vista
Associação dos Empresários da rua da
Carlos Sampaio - Lojas Sonzão
Concórdia
FONTE: ENTREVISTA COM O PRESIDENTE DAS ASSOCIAÇÕES DE RUAS DO
CLUBE DE DIRETORES LOJISTAS REALIZADA EM 08 DE SETEMBRO DE 1999.
AUTORA: COSTA, KÁTIA CRISTINA RIBEIRO. RECIFE, 1999.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 86
A partir de então, o Plano de Revalorização provocaria mudanças no tocante à
problemática
do
comércio
informal
do
centro
recifense.
O
Prefeito
Jarbas
Vasconcelos, que iniciou sua gestão em janeiro de 1993, daria continuidade a
projetos da gestão anterior, dentre os quais, os projetos de “Humanização da
Cidade” e de “Revalorização do Centro do Recife”. Ao longo de sua gestão, foi
considerada como uma de suas principais obras a construção do Camelódromo da
Dantas Barreto, constituído por vários prédios situados ao longo da Avenida Dantas
Barreto, destinados a abrigar os camelôs que se encontravam alojados nos pátios
das igrejas (Carmo, Livramento e Santo Antônio), nas praças e nas ruas do centro
tradicional.
Para viabilizar ainda mais o camelódromo, a prefeitura transferiu para suas
proximidades vários terminais de ônibus, que se ocupam de escoar o fluxo da
população residente nas zonas sul e sudoeste da cidade, buscando, com essa
medida, viabilizar os anseios de venda dos camelôs já instalados em seus
quiosques, gerando um fluxo dirigido de consumidores. Mas o fluxo não foi suficiente
para manter os camelôs nos camelódromos, estimulando-os a voltar às ruas, criando
novas formas e modalidades de comercialização para sobreviver em meio a vigilante
proibição de sua permanência na cidade.
Esse seria o foco da crescente preocupação quanto às transformações do
CTR, cada vez com mais formas de comercialização informal, em contraste com
outras formas do comércio da cidade, caracterizada
pela expansão de centros
comerciais planejados (galerias, shopping centers, hipermercados) e de centros
empresariais (especializados em negócios), em quase todos os bairros de classe
média.
Os comerciantes renovaram letreiros e fachadas de suas lojas. Além das
formas arquitetônicas, ocorreram mudanças junto à gestão desse espaço, cuja
administração ficaria a cargo do CDL (Clube de Diretores Lojistas), através das
associações de rua, do Estado e da Prefeitura, sendo o primeiro responsável pela
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 87
divulgação de promoções e liquidações através de uma central de som: surgiriam as
ruas-shopping, formas antigas com uma nova imagem.
A partir de 1992, essas ruas passariam por um processo que segundo
Pintaudi se observa com relação aos espaços comerciais antigos:
É uma tendência de sujeição desses espaços comerciais mais antigos ao
novo momento econômico, caso contrário não sobreviveriam por muito tempo.
Embora nem tudo (ainda) possa ser reduzido à esfera econômica, antigas
formas comerciais adquirem uma nova conotação, uma nova roupagem à
semelhança de novos centros, e parecem capturados pelo social tornado
espetáculo, o que não deixa de ser uma forma de sujeição ao econômico 98.
Percebe-se, portanto, que as ruas comerciais do Centro recifense possuem
antigas formas comerciais embaladas em um nova roupagem: as rua-shopping ,
exemplos de espaços que buscam sobreviver frente ao novo contexto econômico.
Procuraremos identificar as transformações das antigas formas comerciais e as
novas estratégias de sujeição econômica das ruas de um comércio tradicional
desencadeadas no processo de revalorização do espaço.
Para isso, nossa análise abordará o comércio urbano a partir de dois
conceitos: a cotidianidade e a mercadoria.
Na análise do cotidiano das ruas
procuraremos compreender em que medida o Plano de Revalorização, criador das
ruas-shopping, atingiu a programação do cotidiano dessas ruas, avaliando em que
estágio as ruas obedecem a uma ampla programação, em que medida "os espaços
comerciais são cada vez mais o produto de uma alta racionalidade na gestão do
grande capital e a condição de existência de um cotidiano programado, a exemplo
das grandes empresas" 99.
Por
outro
lado,
a
análise
da
mercadoria,
aqui
entendida
como "a
materialização do valor no modo de produção capitalista e sua realização faz a
98
99
Pintaudi, Silvana Maria. A Cidade e As Formas do Comércio. op. cit., p.157.
Idem, p 157.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 88
sociedade se reproduzir"
100
, sua análise possibilitará avaliar as estratégias do
comércio, a produção e reprodução espacial do Centro.
2.1.1 A rua versus a rua-shopping
A sociedade urbana recifense, entendida em sua pluralidade metropolitana,
baseada na sociedade moderna de consumo e nas relações de sociabilidade a partir
do comércio, engendrou novas formas de sociabilização em espaços planejados
para o consumo. A reprodução do espaço do CTR criou formas de cidade idealizada,
a partir da idéia dos projetos de shopping centers, em ruas tradicionais do comércio,
a exemplo das ruas-shopping, do Pólo Imperatriz e dos Camelódromos.
O CTR é plural, diversificado e heterogêneo. Entendemos que as ruasshopping simbolizam tais características uma vez que, mesmo utilizando-se da
imagem dos shopping centers, permanecem as antigas estratégias de vendas no
cotidiano das ruas, oriundas do mix das antigas formas comerciais. O comércio
permanece alheio ao objetivo dos Presidentes das Associações de rua, que buscam
a programação do uso, a criação de um tenant mix, ou seja, de um planejamento que
prevê a presença de várias lojas do mesmo ramo para permitir a compra por
comparação. A falta de resposta dos comerciantes a esse planejamento, resulta na
absorção por parte de alguns comerciantes e resistências por outros. Na rua
tradicional de comércio, diferentemente dos SC, as lojas são privadas, cada uma
delas pertence a um proprietário distinto.
Como resultado, as rua-shopping têm em sua área, várias pessoas que
circulam com ritmo acelerado passando quase sem perceber que ocorrem rápidas e
constantes mudanças oriundas das novas relações sociais entre comerciantes e
Presidentes das Associações de Rua, e entre estes e o Poder Público, todas elas
voltadas à produção de um novo Centro, ou melhor, a um falso novo Centro.
100
Idem, Ibidem, p.158.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 89
Em uma rua tradicional do comércio, a rua Imperatriz, as pessoas passam
apressadas com suas bolsas presas em baixo do braço enquanto em um intervalo de
menos de meia hora, 05 viaturas da polícia trafegam com seus 4 homens armados. É
o medo, a insegurança de estar no Centro.
Mas nas ruas-shopping Imperatriz, assim como nas ruas-shopping Duque de
Caxias e Nova, os lojistas utilizam-se dos serviços de Guardas Civis para manter a
segurança da rua, ou ao menos, da frente de suas lojas. É a vigília do Centro. A falta
de identificação dos seguranças pelos que ali transitam, permite que eles observem
sem embaraços, todo o cotidiano da rua que tem seu ritmo mais acelerado, a partir
das 09:00 horas da manhã e encerra-se às 19:00 horas. Além da circulação das
pessoas em ritmo lento, carregando embrulhos nos braços, vindo do Bairro de São
José e indo em direção aos pontos de ônibus das ruas 1º de Março e Siqueira
Campos, ou àqueles das avenidas Guararapes e Dantas Barreto.
Observa-se na rua-shopping Duque de Caxias um movimento de pessoas que
passa a um ritmo rápido, em direção à Rua Camboa do Carmo à 1.º de Março e viceversa. Percebe-se que os consumidores que circulam com mercadorias são
geralmente aqueles oriundos da Rua Camboa do Carmo, vindos das lojas do bairro
de São José. Em todas as esquinas há uma placa sinalizando "Proibido Comércio
Ambulante nesta Via", com a presença de apenas uma comerciante vendendo bolsas
para crianças, ao lado de um funcionário da CSURB, empresa fiscalizadora do
comércio ambulante, observado ainda pelo Guarda de Apoio
Lojista em frente à loja
"Calçabem Calçados".
Atualmente, nas ruas-shopping, a maior parte das lojas possui um segurança
particular,
vestidos
à "paisana", ou seja, sem fardamento ou qualquer outra
identificação. Diferentemente de outras ruas, a rua-shopping Duque de Caxias tem
um policiamento da Guarda Estadual mas sem fardamento, também. Entre as ruasshopping analisadas, a Duque de Caxias apresenta o maior movimento de circulação
de pedestres e o menor número de bancos, para que os consumidores fiquem
sentados, apreciando e encontrando as pessoas, que passam com mercadorias
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 90
penduradas nos braços e olhar dirigido para suas paradas de ônibus, muitos deles,
em frente à Praçinha do Diário. Próximo ao término do horário de funcionamento do
comércio, às 18:00 horas, há uma alteração do ritmo, cujo aumento do movimento
das lojas é dado pelos funcionários do CTR que vêm fazer suas compras. São
consumidores rigorosos na análise das mercadorias, a quem o comércio deveria
dedicar maior atenção.
Em 20 de maio de 2001, já vão chegando às 16:00 horas e a temperatura
chega a uns 35 graus, quando Ana Paula chega ao Centro para comprar o presente
do Dia das Mães. Tinha folga de seu emprego de recepcionista do Aeroporto e
resolveu desafiar o congestionamento da Avenida Conde da Boa Vista, onde teria
havido uma passeata do MST - Movimento dos Sem Terra. Ela vem da cidade de
Paulista, bairro de Artur Lundregn, e busca mercadorias de preços baixos e de
qualidade, além de água de coco e de conhecer as belas igrejas do centro. O início
do trajeto da recepcionista parte da parada de ônibus da Rua do Hospício, em frente
às Lojas Americanas, magazine que comercializa mercadorias de vários ramos,
através também da Internet. Ela atravessa o sinal de trânsito e chega à Rua Sete de
Setembro e depois na rua-shopping Imperatriz e compra um coco, "bem geladinho".
Chega o momento de pesquisar o preço, sendo necessário ampliar o percurso,
chegando até a Avenida Camboa do Carmo, quando atravessa as rua-shopping
Nova e a Duque de Caxias. Ana Paula compra de tudo, menos o presente de sua
mãe, pois o que queria era um celular mas os preços estão mais altos que nos dias
normais, fazendo Ana comprar um sapato da Esplende, loja pela qual tem paixão,
além da blusa na Bali, que vende artigos de surfistas. Volta pelo mesmo caminho
pois é melhor pegar o ônibus na Rua do Hospício para não voltar em pé.
Percebe-se assim, que as ruas-shopping são lugares de passagem e
circulação. A retirada dos camelôs foi aceita pelos consumidores, pois o camelô
impossibilitava atingir o objetivo: passar rápido e chegar ao ponto de ônibus. O
objetivo da rua não era mais aquele do passado, quando ela era o espaço de toda a
vida social e urbana da cidade.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 91
A origem da Rua da Imperatriz ou Rua do Aterro, seriam lembradas por
Andrade:
A origem da atual rua Nova (que já tentam se batizar sem êxito como rua
Barão da Vitória e rua João Pessoa) prende-se a construção da primitiva
ponte da Boa Vista durante o governo (1737-1746) de Henrique Luís Pereira
Freire. Dessa construção, aliás, e graças aos aterros de acesso à ponte feitos
a partir de ambas as margens do rio, não só resultou a rua Nova como
também a da Imperatriz101 .
Nessa rua existiam bares, cafés, livrarias e cinemas, lugares animadores da
rua. O lugar da paquera, da sociabilidade, do encontro. Encontro entre desiguais,
onde se dá a mistura das pessoas, com objetivos distintos. A ruas tradicionais de
comércio de Recife são uma lembrança desse espaço.
A turma jovem não se lembra, nem pode imaginar cinemas na Rua Nova. E,
no entanto, aí funcionaram os mais antigos cinemas da cidade do Recife (...).
Eram três na Rua Nova. Juntos um dos outros. Parede meia. Ao lado da
Matriz de Nossa Senhora da Conceição dos Militares (...) Um dia, o Vitória
fechou. Depois, foi a vez do Pathéx cerrar as portas. O que mais resistiu, o
Royal, baixou de categoria e, em seu lugar, surgiu uma loja de quatro mil e
quatrocentos 102.
A Rua da Imperatriz surgiu de um "Aterro da Boa Vista" e tornou-se a principal
rua comercial desse bairro, depois da construção da ponte em 1740 ( a Ponte da Boa
Vista). Em 1845, recebeu calçamento e viu nascer em um de seus imóveis uma
ilustre personalidade: Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, abolicionista que
morou num sobrado de três andares, esquina com a rua Bulhões Marques (n.º 147).
A Rua da Imperatriz viu desaparecer seus cafés e teatro, vai-se, pouco a pouco,
produzindo-se um lugar, eminentemente do consumo.
Na rua da Imperatriz funcionou, durante vários anos, um teatro- café-concerto,
bem ao estilo parisiense - o "Teatro Helvética" - localizado nos fundos de um
restaurante e casa de chá, depois transformada padaria e hoje
desaparecida103.
Outra rua de destaque na História comercial do Recife é a Rua Duque de
Caxias, uma das mais antigas do bairro de Santo Antônio, denominada inicialmente
101
DIÁRIO DE PERNAMBUCO. ANDRADE, Gilberto Osório de. A rua Nova. Recife: 13 de setembro de 1977.
JORNAL DO COMÉRCIO. Parahym, Orlando. Os Cinemas da Rua Nova. Recife, sexta-feira, 07 de julho de
1978.
103
MENEZES. Painel Histórico de Algumas Ruas do Centro. Recife: CDL, s/d. op. cit. p 01.
102
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 92
de Rua do Queimado, referência a um sobrado incendiado e abandonado por muito
tempo, por volta de 1763. "Seu nome foi substituído pela municipalidade sem
justificativa alguma, por nomes sem a menor tradição e constatada importância
histórica". Desde o início do século passado, teve grande prestígio pela relação de
seus moradores, onde podem ser destacados nomes de médicos famosos, padres e
generais, representando "o palco de grandes lutas libertárias que tiveram presença
de pais e filhos, heróis residentes"
104
e pelo seu comércio: "Longa existência possui
essa rua tão recifense que em 1794 o andar térreo, ocupado por um estabelecimento
comercial rendia mensalmente a importância de 3$333rs...
O cabeleireiro Delsuc, com a Tesoura de Ouro teve muita fama e anunciava
enfaticamente dispor de doze oficiais para barbear, seis para cortar cabelos e
três ditos para o postiço. A Casa de Victor Préalle, onde o público achará
sempre o que há de melhor em pianos. Oferecia também pianos de diversos
autores, como sejam: Herz, Pleyel, etc., e garante a boa qualidade de todos os
pianos que se venderem nessa casa105.
A importância da história econômica e social dessas ruas é ressaltada por
vários estudiosos da cidade, como também por jornalistas e cidadãos em geral.
Ressalta Freyre que os hábitos da sociedade recifense do início do século XX,
encontrava na Rua Nova seu lugar de inter-relação: “os troncos femininos só
transitavam nas ruas e nas festas encarceradas nos espartilhos; as mãos nas luvas de seda,
fio da Escócia, retrós, de pelica atacados a dois botões, “como se usa em Paris”, ou de
Jouvin. Na Rua Nova, manteve-se até cerca de 1920 a Casa da Luvas de Madame Curard”
106
.
Nos anos 50 e 60 o lugar da moda era a Rua Nova: "Ponto elegante até a
década de 60, foi preferida pelos grandes magazines, confeitarias e primeiros cinemas,
sendo, nos anos 50 e 60 local de encontro da "jeneussse dore" recifense, com os seus
tradicionais "footings" de final de tarde, assim como dos tradicionais "passeios para ver as
vitrines" 107.
104
Idem, p.3.
Idem, ibidem, pp. 50- 51
106
FREYRE, Gilberto. Modos de Homens, Modas de Mulher.
107
MENEZES, op. cit. p.3.
105
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 93
A Rua Nova, espaço do encontro e da passagem, foi alvo de vários planos de
intervenção, sendo submetida a várias influências das administrações públicas.
Antes mesmo de chegar ao início do século XX, quando as ruas: Imperatriz, Nova e
Duque de Caixas possuíram "grandes magazines, lojas de ferragens e farmácia
nova", destacava-se, por volta de 1929, a existência nessa rua do grande comércio
do Recife:
O Comércio se foi transformando, surgindo modernas e importantes lojas: a do
Coelho de J. L. Salgado & Irmãos (miudezas e perfumarias); Ave do Paraizo;
Bazar do Alfredo Lopes; Casa Apolo; A Fábrica de Cigarros A Malacofe
("fabricados com fumo especiais"), Barbearia Odilo; Atelier dos Virgas; A
Ainda; O Paradis des Dames; A Casa de Madame Patelle e de Madame
Louise (modista de fama); A Cama Higiênica; A farmácia Pasteur, do poeta
Mariano Lemos; O Paredes Pôrt, com a sua Casa da Moda; o Café Santos
Dumont e o Modelo sempre procurados; A Imperatriz de J. Muller & Irmãos; A
Tabacaria Oitenta e Oito; A Livraria Sapientia; A Fotografia do Flósculos.
Viana de Castro anunciando os mais modernos candeeiros de querosene,
"para as mais requintadas residências dispondo de 140 modêlos de
lâmpadas...108
Chegaria a época dos bondes elétricos da Pernambuco Tramways em 1914,
pois até então por ali circulavam os bondes de burro. A Rua da Imperatriz também
viu surgir "A luz clara da eletricidade com os primeiros letreiros da cidade; foram
instalados os primeiros gramofones tocando na porta da Casa Ribas, e chamando a
atenção dos curiosos para a grande novidade".
Esse processo de produção e reprodução do CTC de Recife restritamente a um
espaço de consumo seria acentuado na segunda metade do século XX, quando
surgem os projetos de “humanização” da cidade. Com objetivo de trazer de volta
aqueles aspectos do passado — pois dos anos 30 aos anos 60, as ruas comerciais
do Centro foram tomadas por veículos de todos os tipos — os Planos de
Revalorização
surgiram
para
minimizar
a
dificuldade
encontrada
entre
os
consumidores, que todo movimento fazia da Rua Nova "a mais passeada e
108
Idem, ibidem, p. 62.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 94
concorrida, a mais leviana, indiscreta, bisbilhoteira, esbanjadora, fútil, noveleira,
poliglota e enciclopédia de todas as ruas da cidade de Recife"109.
A Matias de Albuquerque - uma das ruas de maior movimento e trânsito
confuso - amanheceu hoje sem seu costumeiro estacionamento de veículos
de toda espécie e passagem ininterrupta de antes de todos os tipos, porque
entrou no contexto da humanização do centro do Recife, a exemplo do que
ocorre em relação às ruas Nova, Duque de Caxias e, em futuro próximo,
Imperatriz110.
Considerando
que
o
Centro
da
Cidade
estava
"aos
poucos
sendo
desfigurado"111, pois sua fisionomia foi sendo alterada: as áreas interiores foram
demolidas para dar lugar a aterros, objetivando conquistar espaço ou abrir largas
avenidas (que poucos resultados práticos trouxeram à circulação de veículos); os
automóveis
invadiram
indiscriminadamente
suas
estreitas
vias;
setores
nobres
deterioraram-se em função do tipo de uso; os habitantes sofreram mudanças
qualitativas e quantitativas.
Surge o Plano do arquiteto Jaime Lerner de criação dos Calçadões de
Pedestres do Centro de Recife, a partir da constatação de que o Centro atingiu o
limite de sua capacidade de suportar tamanha somatória de sobrecargas, exigindose a retomada dos Calçadões de Pedestres em várias partes do Centro. (FIGURA
19 e 20).
Entretanto, o Plano de "Humanização da cidade" de 1977, não impediria que o
CTR fosse considerado como um “caos” no dizer de alguns comerciantes,
entrevistados na pesquisa da FUNDAJ112, conclusão que pressionaria a retomada do
Plano de "Humanização da cidade", na gestão de Gilberto Marques Paulo, em 1992,
que retiraria todos os camelôs dos Calçadões.
109
Idem, ibidem, p. 69.
DIÁRIO DA NOITE. O Recife está mudando. Recife, 25 de outubro de 1977.
111
Prefeitura da Cidade de Recife. Plano dos Calçadões. op. cit., p.29.
112
FUNDAJ. op. cit. pág. 180.
110
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 95
Figura 19 : Calçadão de Pedestres da Rua da Imperatriz: desenho
ilustrativo do Projeto Jaime Lerner, onde podem ser vistos: à
frente, a cobertura de acrílico, iluminárias, plantas, pessoas
passeando em torno das jardineiras; ao fundo, as fachadas dos
prédios, apresentando seu traçado original. Recife, 1978. [Os
Calçadões nunca chegaram a ser cobertos.]
Fonte: URB/SEPLAN. Planejamento Urbano e Estrutura Urbana de Recife.
LERNER, Jaime. Programa de Revitalização da área central. Recife, 1978
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 96
Figura 20: Calçadão de Pedestres da Rua Nova: em desenho ilustrativo do
Projeto de Jaime Lerner, podem ser vistos: em primeiro plano, a
cobertura de acrílico, mesas, plantas, pessoas passeando em torno
das jardineiras ou sentadas conversando; ao fundo a Ponte da Boa
Vista, separada plea Rua da Aurora, onde o trânsito de carros é
permitido, dá acesso à Rua da Imperatriz. Recife, 1978.
Fonte: URB/SEPLAN. Planejamento Urbano e Estrutura Urbana de Recife.
LERNER, Jaime. Programa de Revitalização da área central. Recife, 1978
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 97
O processo de reprodução espacial do Centro a partir da descrição e análise
do seu cotidiano possibilita entender o que se passa nas suas ruas. Entende-se que
"o cotidiano cria as formas, a dinâmica e o seu conteúdo"113 e que através do estudo
analítico e crítico da vida cotidiana, juntando-se os fatos aos conceitos114, pode-se
dizer quais as transformações das formas e das funções urbanas .
Detectamos, assim, que o desencadeamento de intervenções urbanas em
lugares isolados
do
CTR,
gerou
conflitos
e
contradições
cujos
efeitos
são
identificados no cotidiano das ruas, nas principais relações sociais engendradas pela
coexistência de formas comerciais, antigas e novas.
Tais conflitos e contradições agrupam-se em 2 esferas. Uma delas refere-se
às formas comerciais que, embora tentando assemelhar-se aos shopping centers,
não oferecem bens e serviços especializados que exerçam atrativo para os
consumidores de maior poder aquisitivo da cidade, não atraindo os consumidores
dos centros comerciais planejados, os shopping centers, para suas ruas.
A outra esfera relaciona-se ao fato de a programação do espaço de consumo
atingir o objetivo de seus planejadores, ou seja, a criação de um espaço da ordem,
apenas "entre grades", no interior das ruas-shopping.
Nesse lugar, estabelece-se o
mundo da mercadoria onde as pessoas buscam sempre encontrar alguma coisa, em
ritmo acelerado. A rua passa a ser "uma vitrine, um desfile entre as lojas. A
mercadoria tornada espetáculo (provocante, atraente) transforma as pessoas em
espetáculo umas para outras"115.
Nas ruas-shopping o valor de troca e a troca prevalecem sobre o uso. Em todo
tempo, os consumidores são instigados a consumir as mercadorias que se lançam
para fora das lojas, em tabuleiros de promoções, apregoadas pelos vendedores em
microfone. O espaço onde é proibido o comércio ambulante é o lugar privilegiado da
113
114
CARLOS, Ana Fani A. A (Re)Produção do Espaço Urbano. São Paulo: EDUSP, 1994. p. 46.
LEFÈBVRE, Henri. Critique de la Vie Quotidienné II: fundement de l'sociologie. op. cit. p. 11.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 98
repressão. Nela os comerciantes não podem expor suas mercadorias de toda e
qualquer forma e devem obedecer a um condomínio. As relações que ali se
estabelecem é alienante, nem consumidores e nem comerciantes, ou pelo menos
alguns deles, sabem bem como sobreviver frente a essa imposição. Como resultado,
há o fortalecimento de um comércio popular e diversificado, principalmente no ramo
de vestuário, que compete com outras formas comerciais especializadas nesse tipo
de mercadoria, a saber, os camelódromos.
As ruas-shopping vão se convertendo em "uma rede organizada pelo/para o
consumo"
de
um
comércio
popular
e
diversificado,
porém,
seguro
e
descongestionado, por onde muitos transeuntes passam, muitas vezes, apenas à
procura das vitrinas, das compras dos objetos expostos e em promoção. Todo esse
ritual é possibilitado pela programação da velocidade da circulação dos pedestres,
pois na rua-shopping é proibido permanecer, sentar, encontrar-se com as pessoas.
As ruas vão se transformando em ruas-cenários, que através das mudanças
de infra-estrutura, decorrentes do Plano de Revalorização do Centro, moderniza as
ruas antigas, dando a elas o caráter de mercadoria. Por trás de toda essa
embalagem, novas relações de apropriação e reapropriação do espaço são
gestadas.
As ruas-shopping são resultantes das profundas transformações surgidas pela
"explosão da cidade antiga e pela urbanização generalizada" a que a cidade de
Recife vem se submetendo, criando novos hábitos de consumo da sociedade, esta,
cada vez mais, voltada às novas formas comerciais: aos shopping centers,
hipermercados e galerias e ao comércio on line.
Sendo assim, a forma comercial surgida nesse contexto, as rua-shopping
revela e oculta a representação de uma sociedade. Para Fani,
O mundo fenomênico - das formas, das representações do dia-a-dia - constitui
um mundo em que as coisas aparecem de forma independente, de onde
115
LEFÈBVRE, Henri. A Revolução Urbana. p. 30.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 99
ocorrem as manipulações; pois, além de a essência não se revelar
imediatamente, pode se manifestar em algo que é o seu contrário. Porém,
enquanto momento necessário e fundamental, não significa que esta lhe seja
radicalmente oposta 116.
Percebe-se, portanto, a pulverização de centros no centro, que na nossa
visão, constituem-se em espaços segregados, sem vida urbana, mas separação. A
rua deixa de ter seu movimento espontâneo, a mistura e a possibilidade de trocas de
funções informativa, lúdica e simbólica. Nas ruas do
CTR, congelam-se os
elementos da vida urbana.
O Poder Público se associa a um grupo de lojistas, através de suas
Associações de Rua, e lentamente estabelece o espaço da ordem. Cada camelô
existente passa para o camelódromo ou torna-se um ambulofixo, confinado a um
quiosque de camelô. Assim, o CTR vai se transformando em espaços sob formas de
relações desiguais, resulta, assim, em espaços com manifestações desiguais de
apropriação,
cujo
estabelecimento
e
hierarquização
dos
seus
nexos
internos
apresentam uma paisagem no CTR que reproduz a história do comércio da cidade
de Recife, aquela do combate ao comércio informal.
Sem dúvida, a história do comércio de Recife apresenta especificidades e
generalidades que partem dessas transformações desencadeadas pelo Plano de
Revalorização do Centro, criado pela Prefeitura da Cidade, na medida em que fez
convergir para o Centro de Recife e, em particular, para as ruas-shopping, as
principais ações solicitadas pelos comerciantes.
No que se refere às ruas-shopping, procura-se através e a partir de sua
paisagem, perceber o movimento do processo de reprodução do espaço e seu
conteúdo. As estratégias criadas pelo CDL em tornar as ruas semelhantes aos
shopping centers e de inserir cada vez maior número de ruas em Planos de
Intervenção, cujos comerciantes se agrupam em Associações e passam a programar
o uso desses espaços, apresenta um discurso de tomar como principal estratégia o
116
CARLOS, Ana Fani A. A (Re)Produção do Espaço Urbano. Op.cit. p.45.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 100
resgate de antigos consumidores, com a proibição do comércio de rua, dos camelôs
e ambulantes. No entanto, tal medida é concebida e praticada apenas por um
pequeno grupo social, os comerciantes, através de antigas relações sociais,
apresentadas com uma nova roupagem: as Associações de Ruas.
Procuramos, portanto, identificar os níveis de coesão de cada uma das
associações das ruas-shopping analisadas e a partir de então, distinguimos as
necessidades dos comerciantes de cada rua, bem como dos consumidores.
Como tentativa dessa administração, do emprego e do tempo de cidade nova,
identificamos o estatuto do aumento das vendas do ramo de vestuário popular, com
mercadorias que se assemelham àquelas comercializadas nos camelódromos.
O
resultado é uma relação em que os lojistas impedem que os camelôs permaneçam
nessas ruas, destinando-os aos camelódromos, mas comercializam mercadorias
semelhantes às deles. As ruas passam a se assemelhar às cidades colonizadas :
"bem divididas em quadras e estritamente vigiadas", além da falta do lugar de prazer,
do ficar e apreciar o movimento das pessoas. "A colonização da metrópole afasta as
ocasiões de fuga ao comportamento padrão" 117.
Ruas que, no passado, eram visitadas nas noites natalinas, que eram o
espaço do encontro nos cafés e livrarias da cidade teriam mudado de uso. A
estratégia de fazer as ruas reproduzirem-se à semelhança dos shoppings, e não ao
que eram no passado, está relacionada ao modo de vida
urbano, onde as pessoas
buscam aliar as compras ao lazer, em ambiente seguro e confortável.
A década de 80, assistiria a vários conflitos de disputa dos comerciantes e
camelôs pelos Calçadões de Pedestres, em várias cidades brasileiras. Em Recife, foi
a partir da construção de um discurso higienista e saudosista de tornar o Centro
semelhante ao que era no passado e articulado ao discurso da cidade idealizada,
semelhante aos grandes shopping centers, que iniciaram o Projeto de Revalorização,
quando surgiriam as ruas-shopping.
117
Idem, p. 67.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 101
Quando
iniciamos
nossa
pesquisa
percebíamos,
portanto,
que
as
transformações das formas comerciais não estavam ocorrendo como o planejado, ou
seja, os consumidores que se dirigiam para os shopping centers não retornaram para
o Centro. Começamos a indagar quais seriam as alternativas dos comerciantes das
ruas do Centro frente a essa constatação? Como essa intervenção foi subvertida
pelo cotidiano das ruas?
Ao iniciarmos a etapa de levantamento direto, entendemos que havia a
necessidade de termos em mãos um panorama atual das principais ruas comerciais,
suas lojas e mercadorias mais comercializadas, e os equipamentos
urbanos
surgidos após a retirada dos camelôs.
Sendo assim, percorremos as principais ruas comerciais do centro com o
apoio da Planta Topográfica Cadastral118, onde estão registrados todos os imóveis
de cada rua, reconhecidos e demarcados com nome e respectivo ramo comercial.
Através do tratamento desses dados, foi-nos possível elaborar as tabelas 03, 04 e
05. A construção dessas tabelas teve como objetivo demonstrar o panorama atual do
comércio do CTR através das ruas-shopping, qualificar e quantificar as empresas
dos diversos ramos existentes no Recife.
O conhecimento desse dados permitiu que identificássemos o significado do
ramo de vestuário dentro do panorama geral do comércio do CTR, melhor analisado
no tópico a seguir.
118
Planta Topográfica Cadastral da UNIBASE. Escala 1: 1000.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 102
2.2 As mercadorias do centro da metrópole
Ao longo das ruas-shopping, letreiros luminosos e lojas de um comércio
diversificado em ramos de vestuário, sapataria, farmácia, cosmética tentam atrair
consumidores que, em sua maioria, utilizam as ruas como local de passagem. Uma
central de som divulga as principais promoções das lojas. Tenta-se imitar as "ruas' de
um shopping center, mas as lojas não obedecem a um tenant-mix, uma distribuição
heterogênea de ramos de comércio, previamente planejados, nem apresentam uma
única política de vendas entre os lojistas das ruas.
Ao
contrário
disso,
vê-se
que
cada
lojista
busca
terrivelmente
pelo
consumidor, expondo mercadorias em tabuleiros em frente às lojas, ou mesmo
oferecendo créditos longínquos (30,60,90,120,150 dias para pagar). O uso do
espaço tenta ser novo, à semelhança de uma empresa privada mas a forma
comercial é antiga, envolvida na relação de barganha e competição mais remota.
Cria-se a moda de vender por R$ 1,99. O ramo de vestuário é um bom
demonstrativo desse processo. Veremos mais adiante que os ramos de vestuário de
roupas femininas e masculinas e o de sapatos são os mais expressivos em número.
Nesse caso, trata-se de produtos que muitas vezes procuram imitar os produtos
comercializados nos shoppings, lançados ao consumo massivo.
A persistência das formas comerciais das ruas-shopping pode ser confirmada
através da análise dos ramos de comércio de cada uma das ruas em análise, a partir
de levantamento de campo.
Para isso, apresentamos as tabelas: 03, 04 e 05 a seguir, elaboradas com
uma relação de ramos comerciais e respectivos tipos de lojas, existentes nas ruasshopping Duque de Caxias, Imperatriz e Nova em levantamento de campo.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 103
Essa
análise
se
faz
importante
para
avaliar
em
que
medida
houve
transformações das formas comerciais que existiam à época anterior ao Plano de
Revalorização,
bem
como
persistências,
a
despeito
do
ramo
de
vestuário,
representado pelo vestuário geral e calçado, cada vez mais popularizado, como pode
ser percebido adiante.
Em primeiro momento, podemos destacar que há uma expressiva participação
do ramo de vestuário em todas as ruas analisadas. Como pode ser visto na Tabela
03 (que representa a Rua-shopping Duque de Caxias), destaca-se a participação dos
ramos de vestuário e calçados, com mais da metade do total de lojas (55 %). Já nos
ramos de alimentação e artigos para o lar, a Rua-shopping Duque de Caxias tem
pequena e inexpressiva participação de 2,12% das lojas. O grupo de lojas de artigos
diversos apresenta uma participação intermediária de 27,62%, com destaque para as
farmácias (6,38%).
A Tabela 04 representa a Rua-shopping Imperatriz, que apresenta o mais
expressivo número de lojas dentre as ruas-shopping analisadas. As 80 lojas dessa
rua apresentam-se distribuídas em ramos de vestuário (40%) e de artigos diversos
(37,5%). Os grupos de lojas com participação intermediária , mas com pouco
expressão, são dos ramos de alimentação (8,75%) e de serviços (8,5%).O grupo de
lojas de menor expressão engloba o ramo de artigos para o lar (4,75%).
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 104
T ABELA 03:
LOJAS DA RUA-SHOPPING DUQUE DE CAXIAS
RAMOS COMERCIAIS E RESPECTIVOS TIPOS DE LOJAS
SEGUNDO PARTICIPAÇÃO ABSOLUTA E RELATIVA
JULHO/1999
L OJAS
NÚMEROS
Ramos
Sub-ramos
Abs.
(%)
Departamento
Vestuário
Variedade
Vestuário Geral
Calçados Geral
00
14
12
0,00
29,78
25,53
Lingerie /Meias
Bolsas e Cintos
Restaurantes/Lanchonete
Casas de Chá
Lanchonete
00
00
26
01
00
00
0,00
0,00
55,31
2,12
0,00
0,00
Eletrodoméstico
01
00
2,12
0,00
00
00
01
00
01
00
00
02
00
01
00
02
02
02
00
01
03
00
00
00
13
01
00
00
00
00
02
03
47
0,00
0,00
2,12
0,00
2,12
0,00
0,00
4,25
0,00
2,12
0,00
4,25
4,25
4,25
0,00
2,12
6,38
0,00
0,00
0,00
27,62
2,12
0,00
0,00
0,00
0,00
4,25
6,62
100
Subtotal
Alimentação
Subtotal
Artigos para o lar
Acessório p/Decoração
Móveis
Tapetes e cortinas
Utilidades p/ Festas
Subtotal
Artigos Diversos
Subtotal
Serviços
Jóias e Relógios
Esporte e Praia
Material Elétrico/Ilum.
Perfumaria e cosmético
Cine/foto/som
Revistas/jornais
Tecidos
Papelaria/Livraria
Óticas
Brinquedos
Discos/Fitas
Farmácias
Bijuterias
Informática
Floricultura
Bancos
Correios
Cabeleireiro
Agência de viagem
Diversões Eletrônicas
Loterias
Subtotal
Total Geral
FONTE: TRABALHO DE CAMPO APOIADO NO CADASTRO DE IMÓVEIS/ FIDEM-UNIBASE,1999.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 105
TABELA 04:
LOJAS DA RUA-SHOPPING IMPERATRIZ
RAMOS E SUB-RAMOS COMERCIAIS SEGUNDO PARTICIPAÇÃO ABSOLUTA E RELATIVA
JULHO/1999
LOJAS
NÚMEROS
Ramos
Sub-ramos
Abs.
(%)
Departamento
Vestuário
Variedade
Vestuário Geral
Calçados Geral
00
19
11
0,00
23,75
13,75
Lingerie/Meias
00
0,00
Bolsas e Cintos
02
2,50
32
40,00
Restaurantes/Lanchonetes
07
8,75
Casas de Chá
00
0,00
Eletrodoméstico/Utilidades
Material elétrico/ iluminação
07
01
01
8,75
1,25
1,25
Acessório p/Decoração
00
0,00
Móveis
02
2,25
Tapetes e cortinas
00
0,00
Utilidades p/ Festas
00
04
06
0,00
4,75
7,50
02
01
01
02
01
00
02
02
10
00
01
03
00
00
31
02
00
00
00
01
2,25
1,25
1,25
2,25
1,25
0,00
2,25
2,25
12,5 0
0,00
1,25
3,75
0,00
0,00
37,5 0
2,25
0,00
0,00
0,00
1,25
0,00
5,00
8,50
100,00
Subtotal
Alimentação
Subtotal
Artigos para o lar
Subtotal
Artigos Diversos
Jóias/ Relógios/Bijuterias
Presentes
Esporte e Praia
Material Elétrico/Ilum.
Perfumaria e cosmético
Cine/foto/som
Revistas/jornais
Tecidos
Papelaria/Livraria
Óticas
Brinquedos
Discos/Fitas
Farmácias
Informática
Floricultura
Subtotal
Serviços
Bancos
Correios
Cabeleireiro
Agência de viagem
Diversões Eletrônicas
Loterias
Lojas Fechadas
Subtotal
Total Geral
05
08
80*
FONTE: TRABALHO DE CAMPO APOIADO NO CADASTRO DE IMÓVEIS/ FIDEM-UNIBASE,1999.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 106
A Tabela 05, que representa a Rua-shopping Nova, demonstra que de um
total de 47 lojas, 32 delas são do ramo de vestuário (68,06%). Cumpre observar que
no ramo de artigos diversos, a Rua-shopping Nova, com participação de 16,96%, é a
menos expressiva dentre as ruas-shopping analisadas. Observa-se ainda que as
lojas dos ramos de artigos para o lar e de serviços apresentam pequena participação
(6,38 e 6,36%, respectivamente). O ramo de alimentação tem uma inexpressiva
participação de 2,12%, ou seja, com presença de apenas 01 restaurante - lanchonete
em seu trecho.
Conforme se pode observar nas referidas tabelas, são vários os tipos de lojas
nas ruas-shopping, com vários ramos e sub-ramos de comércio, que vão desde o
vestuário e calçado até o de alimentação e serviços.
Há grande concentração de lojas nos ramos de vestuário e calçados,
representadas pela maioria das lojas, quase todas com promoções de artigos
vendidos a R$ 1,60. Os restaurantes e lanchonetes (geralmente agrupados em um
único estabelecimento) representam pequena parcela das lojas O grupo de serviços
é representado por uma parcela maior de loterias, cujos serviços de pagamentos de
taxas de luz, água e telefone atraem grande fluxo de usuários que antes se dirigiam
para os Bancos, cada vez em menor número no Centro.
O que os dados das tabelas apresentadas revelam de significativo é o grande
número de lojas de vestuário e calçado, artigos populares e com facilidade de
compra a créditos elásticos, levando-nos a hipótese de que restou a possibilidade de
comercializar produtos populares.
Assim, no cotidiano das ruas-shopping vêem-se vendedores tentando atrair
consumidores, apregoando suas mercadorias com técnicas que vão desde o uso do
microfone a números teatrais. Os consumidores não têm o hábito de adentrar nas
lojas. Por isso, os lojistas expõem seus artigos em
tabuleiros, nas portas dos
estabelecimentos. As mercadorias, assim, saem do espaço interno das lojas e vão
para as ruas, procedimento proibido pelas associações de ruas.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 107
TABELA 05:
LOJAS DA RUA-SHOPPING NOVA : RAMOS E SUB-RAMOS COMERCIAIS
SEGUNDO PARTICIPAÇÃO ABSOLUTA E RELATIVA
JULHO/1999
LOJAS
NÚMEROS
Ramos
Tipos
Abs.
(%)
Departamento
Vestuário
Variedade
Vestuário Geral
Calçados Geral
01
18
13
2,12
38,29
27,65
Lingerie/Meias
00
0,00
Bolsas e Cintos
00
0,00
32
68,06
Restaurantes/Lanchonetes
01
2,12
Casas de Chá
00
0,00
Eletrodoméstico/Utilidades
Material elétrico/ iluminação
01
03
00
2,12
6,38
0,00
Acessório p/Decoração
00
0,00
Móveis
00
0,00
Tapetes e cortinas
00
0,00
Utilidades p/ Festas
00
03
01
0,00
6,38
2,12
00
00
00
02
02
00
00
00
01
00
01
01
00
00
08
00
00
01
00
00
01
01
03
47
0,00
0,00
0,00
4,24
4,24
0,00
0,00
0,00
2,12
0,00
2,12
2,12
0,00
0,00
16,96
0,00
0,00
2,12
0,00
0,00
2,12
2,12
6,36
100,00
Subtotal
Alimentação
Subtotal
Artigos para o lar
Subtotal
Artigos Diversos
Jóias/ Relógios/Bijuterias
Presentes
Esporte e Praia
Material Elétrico/Ilum.
Perfumaria e cosmético
Cine/foto/som
Revistas/jornais
Tecidos
Papelaria/Livraria
Óticas
Brinquedos
Discos/Fitas
Farmácias
Informática
Floricultura
Subtotal
Serviços
Bancos
Correios
Cabeleireiro
Agência de viagem
Diversões Eletrônicas
Loterias
Lojas Fechadas
Subtotal
TOTAL GERAL
FONTE: TRABALHO DE CAMPO APOIADO NO CADASTRO DE IMÓVEIS/ FIDEM-UNIBASE,1999.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 108
Para demonstrar mais claramente que o segmento vestuário popular tem
maior destaque no CTR, procedemos a uma análise das ruas-shopping através da
produção e reprodução das relações sociais, o que exigiu uma compreensão de
como o comércio do Centro sobrevive através das crises.
Partimos para a análise da mercadoria vestuário por acreditar que ela seja
uma
possibilidade
de
desvendamento
dessa
realidade.
Segundo
Granou119 ,
a
mercadoria permite identificar quais as relações sociais que ela dissolveu, engendrou
e reproduziu ao longo do seu processo histórico, como modelou a vida dos homens.
Supondo,
portanto,
que
a
investigação
da
mercadoria
vestuário,
comercializada nas ruas citadas, abriria caminhos para o entendimento do lugar e do
seu cotidiano no atual contexto de um comércio globalizado, nosso próximo passo foi
a análise das lojas de vestuário das ruas.
2.3
O Vestuário do Centro
O agrupamento de sub-ramos de vestuários (feminino, masculino, geral,
calçados
e
variedades)
para,
assim,
poder
identificar
os
lojistas
a
serem
entrevistados. O resultado está apresentado na Tabela 06 onde pode ser observada
a relação das lojas de vestuário de cada uma das ruas em análise.
Ao analisar o comércio das ruas-shopping, percebemos que o ramo de
vestuário engloba cerca de 50% do total dos ramos comerciais, ou seja, a Ruashopping Nova (68%), Imperatriz (40,0%) e Duque de Caxias (55,31%). Sendo
assim, adotamos o ramo de vestuário para investigar as estratégias de sobrevivência
119
GRANOU, Andre. Capitalismo e Modo de Vida. p.10
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 109
do comércio formal dessas ruas, novos usos de um espaço que se renova sob
relações comerciais antigas.
TABELA 06:
RUAS-SHOPPING I MPERATRIZ, NOVA E DUQUE DE CAXIAS
LOJAS DE VESTUÁRIO E SUB- RAMOS COMERCIAIS RESPECTIVOS
SEGUNDO PARTICIPAÇÃO ABSOLUTA E RELATIVA
Julho- Setembro/2000
RUASHOPPING
Duque de
Caxias
SUB-RAMOS
DE
VESTUÁRIO
Vestuário
Feminino
Variedade
Vestuário Geral
NÚMEROS
L OJAS DE VESTUÁRIO
Rebeka (50)
Radical (83)
Rebeka (s/n)
Tropical (95)
Tirateima (94)
Farrapos (227)
Emanuele (245)
Sub-total
Narciso (324)
Casas José Araújo (236/256/245)
Sub-total
Sub-total
Malhas Famosas (233)
Lojas Marçal (208)
Ele e Ela (259)
WBK (253)
Marconi Modas(362)
Bunnys (356)
Branner(167)
Marcus (276)
Casa das Rendas (243)
Sub-total
Lingerie/Meias
Bolsas e Cintos
Duque de
Caxias
Total
RUASHOPPING
Imperatriz
SUB-RAMOS
DE
VESTUÁRIO
Vestuário
Feminino
ABS
%
07
23,33
02
9,09
05
16,66
09
28,12
22
100
NÚMEROS
L OJAS DE VESTUÁRIO
Rebeka (50)
Radical (83)
Rebeka (s/n)
Tropical (95)
Tirateima (94)
Farrapos (227)
Emanuele (245)
Sub-total
AB S.
%
07
23,33
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 110
Variedade
Vestuário Geral
Calçados Geral
Esplanada (22)
Marisa
Narciso (77)
Kilomania (217)
Casas José Araújo (239)
Sub-total
Cattan(28)
Malhas Famosas (s/n)
Ele e Ela (70)
Cattan (102/)
Cattan (118)
Cattan (139)
Via Jeans (208)
Lojas Marçal (218)
Ele e Ela (233) *
Sub-total
Exótica (s/n)
Elegância Calçados (s/n)
Casa Pio Calçados (58)
Esposende (68)
Marcus Sapatus (115)
Estoril Calçados (185)
Esposende (222)
Veneza Calçados (257)
Yang Calçados (254)
Sub-total
Lingerie/Meias
Bolsas e Cintos
Total
RUASHOPPING
Nova
SUB-RAMOS
DE
VESTUÁRIO
Vestuário
Feminino
Variedade
Vestuário
Geral
05
16,66
09
30,0
09
30,0
30
100
NÚMEROS
L OJAS DE VESTUÁRIO
Radical (359)
Radical (271)
Tutti Barreti (271 A)
Emanuele (s/n)
Emanuele (225)
Arraso (230)
Charme Modas (197)
Kanys Modas (193)
Tutti Barreti (181)
Radical (171)
Sub-total
Marisa(163)
Sub-total
Malhas Famosas (233)
Lojas Marçal (208)
Ele e Ela (259)
WBK (253)
Marconi Modas(362)
Bunnys (356)
Branner(167)
Marcus (276)
Casa das Rendas (243)
Sub-total
ABS
%
10
31,25
01
3,12
09
28,12
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 111
Calçados Geral
Lingerie/Meias
Exótica (318)
Exótica (244)
Exótica (226)
Casa Pio Calçados (223)
Esposende (306)
Esposende (294)
Figueiras Calçados (286)
Esposende (152)
Esposende (218)
Exótica (200)
Sub-total
Casas das Rendas (247)
Armazém das Rendas (175)
Sub-total
10
31,25
02
6,25
32
100
Bolsas e Cintos
Total
*Lojas fechadas
FONTE:
TRABALHO DE CAMPO APOIADO NO CADASTRO
Recife, 2000. Autora: COSTA, Kátia Cristina Ribeiro.
DE
IMÓVEIS,
Identificamos como o novo uso, a criação de um sistema de condomínio para
as ruas, onde os lojistas criam mecanismos de venda, tanto individualmente, como
em conjunto. Cada rua-shopping apresenta um conjunto de lojas que, em geral,
também vão estar presentes nas outras ruas, bem como apresentam mais de uma
loja na mesma rua, como pode ser visto na Tabela 06, acima.
Essa multiplicação de lojas de um mesmo dono representa o processo de
concentração do capital, uma das estratégias de sobrevivência do comércio do
Centro. Tal fenômeno, ora aparece com lojas de um mesmo nome, ramo e tipos de
mercadorias comercializadas ora aparece com lojas de nomes e ramos comerciais
diferentes, impossíveis de serem percebidas apenas pela análise empírica.
A partir do conhecimento desses dados, buscamos obter informações quanto
às características da loja, quanto à sua idade e origem espacial. Localizar as lojas de
vestuário mais antigas foi nosso passo seguinte. Constatamos que a maioria das
lojas de vestuário possuem menos de 12 anos.
Através dessa constatação, ou seja, que há um universo reduzido de lojas
com grande tempo de existência nas ruas, selecionamos os dois critérios que iriam
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 112
nortear nossa entrevista: a) ser comerciante do ramo de vestuário em cada ruashopping; b)
com cerca de mais de 10 anos de existência; c) disposição em ser
entrevistado e d) convivência com o Plano de Intervenção de 1992. Como resultado
tivemos uma amostra de 05 comerciantes em cada rua.
Porém, com um universo da pesquisa restrito procurou-se elaborar um roteiro
de entrevistas semi-estruturadas. A partir das primeiras visitas ao local, apresentavase uma estrutura de questões que permitia ao comerciante, ou seu gerente,
responder no intervalo de tempo que lhe fosse conveniente, pois nem sempre havia
disposição dos participantes. Sempre que necessário, observações adicionais eram
acrescidas ao roteiro original.
A análise das entrevistas tem como objetivo analisar as transformações e as
persistências do comércio do CTR, a partir do tipo de mercadoria comercializada
pelos lojistas das ruas-shopping. Para representar os dados obtidos nas entrevistas,
a partir das respostas às questões: quais as mercadorias mais procuradas em sua
loja? Indique três, apresenta-se os QUADROS 3, 4 e 5, a seguir.
QUADRO 3: MERCADORIAS COMERCIALIZADAS SEGUNDO COMERCIANTES
DA RUA-SHOPPING IMPERATRIZ
MAIS VENDIDAS, RESPECTIVOS PREÇOS E ORIGENS
RECIFE/ JULHO DE 2001
Lojas
Yang Calçados
Ele Ela Modas
Emmanuelle
Marçal
Cattan
Tipos de
Sandálias da
Blusas, Blusa de
Blusa , Saias e
Calça de sarja,
Calça
mercadorias
Azaléia, Tênis
mangas
calças em
Calça
masculina, calça
Olympus e
compridas e
malhas
Jeans/brim,
feminina em
sandálias
calça de malha
Calça com, lycra
malha e blusa
39, 29,50, 49,50
19,90, 9,99 e
Dayser
Preço (R$)
Origem
24, 30,00 e 8,00
19, 29,90 e
9,99, 7,99 e
19,90
14,99
RJ, SP,RS e
SP,RJ e Recife
SP, RJ e
RJ, MG, SP, RS
Nordeste
(PE)
Agreste PE
e Agreste PE
4,99
SP
FONTE: ENTREVISTAS AOS COMERCIANTES DAS RUA-SHOPPING IMPERATRIZ, JANEIRO A MAIO DE
2001. AUTORA: COSTA, KÁTIA CRISTINA RIBEIRO COSTA.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 113
Constatamos que a mercadoria mais vendida é do tipo "calça em malha" com
valores que variam de R$ 19,90 a 9,90, destacada pelos comerciantes entrevistados
em 3 das 5 lojas analisadas. As mercadorias de valores mais altos são
comercializadas em lojas mais antigas, a exemplo das Lojas Marçal (37 anos) e das
Lojas Ele Ela Modas (50 anos).
Segundo depoimento do proprietário das Lojas Marçal, Sr. Ramiro Lopes
Marçal, português com 44 anos residindo no Recife, seu estabelecimento foi
reduzido a 30% em 1993, pois:
"A Revalorização das ruas melhorou o comércio, com ruas mais
limpas e seguras mas o consumidor de poder aquisitivo mais alto foi procurar
segurança e conforto nos shopping centers. Atualmente o consumidor da loja
encontra-se nas classes B e C, portanto não houve o esperado: o consumidor
da década de 70. Vendemos algumas peças de roupas de qualidade, no fundo
da loja, pois existem os clientes tradicionais que procuram o artigo mais caro,
mais em geral, nossas mercadorias ficam expostas na entrada das lojas, e
apresentam como composição básica o algodão e a microfibra. O produto vem
50% da região nordeste (Toritama, Santa Cruz do Capibaribe e Caruauru,
municípios do interior de Pernambuco) e 50% do Rio de Janeiro, São Paulo e
Rio Grande do Sul".
QUADRO 4: MERCADORIAS COMERCIALIZADAS SEGUNDO COMERCIANTES RUA
SHOPPING NOVA
MAIS VENDIDAS, RESPECTIVOS PREÇOS E ORIGENS
RECIFE/ JULHO DE 2001
Lojas
Casas das
Marconi Modas
Bunnys
Sapatomania
Branner
Rendas
Tipos de
Blusas ,
Calça
Calça Jeans,
Sandálias
Calça feminina e
mercadorias
Vestidos e
masculina,
Cuecas e Meias
Azaléia, Tênis
blusa
Calças
Camisa de
Olympus e
manga comprida
sandálias Ryder
e Camisa de
manga curta
Preço (R$)
Origem
20, 50,00 e
10, 12,90 e
39,90 9,90 e
21,99, 39,00,
59,90 a 79,90
30,00
6,50
9,90
9,99
e 29,90
SP(90%), e
RJ , CE e
SP (fabricação
RS, CE e PE
Curitiba (Sul e
Nordeste
Agreste (PE)
própria)
Sudeste)
(10%)
FONTE: ENTREVISTAS AOS COMERCIANTES DAS RUA-SHOPPING IMPERATRIZ, JANEIRO A MAIO DE
2001. AUTORA: COSTA, KÁTIA CRISTINA RIBEIRO COSTA.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 114
O Sr. Augusto Ramos, gerente da loja Marconi Modas, loja que há 32 anos
existe na rua Nova, no ramo de vestuário masculino:
Antigamente, há 15 anos, a loja possuía 05 andares, sendo uma Loja
Departamental . Há 12 anos ficou apenas restrito ao térreo. Vendia-se tudo de
bom, artigos mais especializados, com exceção do 4.º andar, onde fazia-se o
saldo. Hoje vende-se para todas as classes sociais, com mercadorias
variadas. Após a retirada dos camelôs houve melhoria na infra-estrutura da
rua. Naquela época as pessoas vinham ao Centro para ver as vitrines. As lojas
fechavam mas deixavam as vitrines iluminadas. Atualmente, há um portão que
fecha o acesso a única vitrine existente no lugar. Temos que colocar as
roupas na entrada da loja, pois o consumidor não tem o hábito de entrar no
fundo da loja. Naquela época tinha-se cerca de 35 funcionário e hoje temos
apenas 12" (entrevista realizada no dia 20/07/2001, nas dependências da loja,
pela autora).
Para o entrevistado, houve uma invasão das lojas populares que antes se
restringiam ao bairro de São José, como os "Lojões de Cabeleireiro" e as lojas de
vestuário que comercializam artigos de Santa Cruz do Capibaribe, Caruaru e
Toritama - a sulanca. O Sr. Augusto lembra que a rua Nova possuía o melhor da
cidade no ramo de vestuário, era a rua que ditava a moda, contribuindo, assim,
composição de um mapa histórico do comércio da Rua Nova:
Ao lado da minha loja, à direita, existia a loja de departamento Primavera, com
06 andares, sendo que cada andar tinha um departamento diferente (onde
hoje funciona a Loja Arapuã). À esquerda sempre foi a Branner, seguida do
Banco Nacional (onde funciona hoje a Sapataria Pio). Em frente, no lugar do
atual Lojão do Cabeleireiro, localizava-se o Banorte, seguidas pela Camisaria
Cruzeiro e a Loja D'Juan. Na outra esquina, havia a loja de departamentos
Sloper (atualmente Sapataria Esposende) e a loja de tecidos Volga (
atualmente Loja Radical). Seguindo em direção à Praçinha do Diário, a Casa
Etan de confecção feminina passou a dar lugar ao BCN, sendo atualmente a
Loja Branner. Em frente, o Banco de Minas deu lugar a Sapataria Exótica.
na
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 115
QUADRO 5: MERCADORIAS COMERCIALIZADAS SEGUNDO COMERCIANTES RUA-SHOPPING
DUQUE DE CAXIAS
MERCADORIAS MAIS VENDIDAS, RESPECTIVOS PREÇOS E ORIGENS
RECIFE/ JULHO DE 2001
Lojas
Narciso
Casas José
Sapataria
Araújo
Popular
Marisa
Tipos de
Blusa, Blusa e
Calça
mercadorias
Calça
masculina,
Sapato
curto e
Camisa de
masculino
Calcinhas e
Tentação
Sandália baixa e Vestido, Vestido Calça feminina e
manga comprida
Blusa em elanca
Sutiã
e Camisa de
manga curta
Preço (R$)
Origem
7,90, 4,90 e
39,90 9,90 e
7,90
9,90
Coréia e
SP e Agreste
Nordeste
(PE)
MG, PB (Patos
9,99 e 5,99
9,99
SP
Fortaleza (CE),
e Campina
Caruaru (PE) e
Grande) e PE
SP
(Timbaúba)
FONTE: ENTREVISTAS AOS COMERCIANTES DAS RUA-SHOPPING IMPERATRIZ, JANEIRO A MAIO DE
2001. AUTORA: COSTA, KÁTIA CRISTINA RIBEIRO COSTA.
O entrevistado Sr. Manoel Lopes, contribuiu também para o resgate do antigo
comércio da rua. De origem portuguesa e sócio- proprietário das Casas das Rendas,
loja do ramo de vestuário feminino e infantil, há 49 anos existente na outra
extremidade da Rua Nova, com filiais na Rua da Imperatriz, nos Shoppings Recife e
Tacaruna, em seu depoimento afirma que:
Antigamente o comércio era outro. Ao lado da igreja, chegava-se às Casas
Martins, loja de tecidos finos; ao lado das Casas das Rendas e do Armazéns
das Rendas, havia a antiga Ótica Universal; No local das Lojas Marisas e das
Farmácias dos Pobres, existiu os Armazéns Caxias, de confecção e tecidos
finos. Do outro lado, em frente às Casas das Rendas, existiam as Casas
Pernambucanas, antiga Lojas Paulistas, onde hoje existe a Sapataria Exótica;
na antiga Karblen, restaurante- lanchonete, há a Sapataria Esposende. Isso
sem esquecer das Lojas de Departamento Mesbla e Viana Leal, existentes na
Rua da Palma.(entrevista realizada no dia 20/07/2001, nas dependências da
loja, pela autora).
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 116
Percebe-se que as ruas Nova, Imperatriz e Duque de Caxias tinham em seu
comércio e serviços o culto pelos costumes, identificado pelos testemunhos dos
entrevistados, expostos acima. Pois para Lipovetsky,
Enquanto nas eras de costume reinam o prestígio da antigüidade e a imitação
dos ancestrais, nas eras da moda dominam o culto das novidades, assim
como a imitação dos modelos presentes e estrangeiros - prefere-se ter
semelhanças com os inovadores contemporâneos do que com os
antepassados. Dessa forma a moda traduz uma descontinuidade histórica,
ruptura maior que circunscrita, com a forma de socialização que se vinha
exercendo: a lógica imutável da tradição. 120
Em uma mesma rua encontram-se comerciantes que cultuam as relações
tradicionais dividindo espaços com aqueles abertos às inovações, como pode ser
analisado pelo testemunho do sócio - gerente das Casas José Araújo. Essa loja que
há 111 anos existe na rua Duque de Caxias, com filiais no Shopping center Recife e
no Bairro de Casa Amarela, enfatiza o orgulho que possuíam de seu país mas não
de seu tempo atual, caracterizado pelo Plano Econômico Real e pelo Plano
Energético. Diferentemente do gerente da Loja Emmanuelle, cujo testemunho pautase no orgulho de seu tempo atual, pois sua matriz localizada em São Paulo, o
beneficia com as estratégias fiscais de comercialização de mercadorias do Sudeste
para o Nordeste.
O Sr. José Araújo Neto, Diretor das Casas José Araújo, loja de Departamento,
é de família pernambucana, descendente de portugueses, que passou por duas
rupturas na Empresa (1996 e 1997). Instigado a falar do comércio do passado, o
entrevistado lembra que as Casas José Araújo surgiram em 1890, tendo duas lojas
no Centro (uma na Rua Duque de Caxias e outra na rua da Imperatriz recentemente fechada), nos bairros da cidade (ainda existe uma loja, na Estrada do
Arraial, bairro da Tamarineira), cidades do Estado, Estados da Região e em outras
regiões brasileiras.
As lojas fora do Centro estão com padrões mais aproximados do que o
consumidor espera. O Governo não controlou o contrabando das mercadorias
que entram com notas baixas, chegam no Brasil e se oficializam. A roupa tipo
120
Idem, p. 33.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 117
sulanca, do Agreste Pernambucano, é a resposta que o Governo tem. De
1990 a 2001, houve demissão da Empresa de cerca de 1.110 funcionários
nas 28 Casas José Araújo.Agora há apenas 05 lojas, que sofrem com a
sobretaxa de impostos, o Brasil volta ao passado, criando privilégios. Há uma
relação desigual entre as regiões. Por exemplo: uma mercadoria que chega de
São Paulo vem com 7% do ICMS, é vendida aqui com 17% de ICMS sobre o
preço de venda. A mercadoria que sai daqui para São Paulo, entra lá pagando
12% de ICMS. Por que não é 7%, também? Há um domínio de São Paulo. As
franquias fizeram revolução mas tendem a desaparecer, principalmente no
ramo de vestuário. O caso da C&A é diferente pois ela tem base territorial na
Holanda e vende e financia suas mercadorias, feitas aqui, na região
nordeste.(entrevista realizada no dia 25/05/2001, concedida nas dependências
do escritório central da Loja, localizada à rua Duque de Caxias ).
No testemunho do Sr Araújo Neto, percebe-se que as relações sociais foram
renovadas nos últimos anos, exigindo que os lojistas utilize-se de novas estratégias
espaciais e sociais. "O espaço social da ordem tradicional se desfez em benefício de
um elo inter- humano de um novo gênero, fundado nos decretos versáteis do
presente" 121.
Entrevistando o gerente da Loja Emmanuelle, Sr. Edson Silva, loja do ramo de
vestuário geral, localizada na Rua-shopping Imperatriz há 26 anos, com sede em
São Paulo e mercado no Rio de Janeiro e todo o Nordeste, detectamos a veracidade
do testemunho das Casas José Araújo. A Emmanuelle integra uma rede de lojas
localizadas nas ruas-shopping e em outras ruas do Centro, como também nos
shopping centers da cidade, totalizando 49 lojas, sendo que sua matriz é sediada em
São Paulo. Quanto ao processo de dimensão de seus
estabelecimentos, sua
ampliação ou redução, o gerente da loja Sr. Edson, respondeu:
Ocorreram muitas reformas de nossas lojas, com introdução de ar condicionado, porta de vidro e escada rolante, chegando a possuir lojas com
cerca de 800 metros quadrados. Esses investimentos ocorreram há 04 meses
atrás e foram destinadas às duas lojas do Centro (das ruas Duque de Caxias e
Rua Nova). Houve melhorias após a retirada dos camelôs quanto à limpeza e
segurança, pois havia suposição que os camelôs contribuíam com certas
formas de roubo. Tem como objetivo concretizar o Projeto de Revalorização,
criando o Pólo Imperatriz, precisando melhorar a infra-estrutura, com órgãos
em conjunto. Procura-se adaptar o horário ao racionamento energético,
criando o intervalo de 09:00 às 18:00. O consumidor tem um perfil que varia
de rua para rua, mas na Imperatriz é de classe B, com renda que varia de R$
121
Idem, p. 34.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 118
360,00 a R$ 400,00 nas outras ruas-shopping. Temos 02 lojas na Ruashopping Nova; 02 na Rua-shopping Duque de Caxias; uma na Rua do
Rangel e 01 na Avenida Conde da Boa Vista, com consumidores de classe C,
em geral. O escritório de compras é em São Paulo, onde os representantes de
vendam vão vender as mercadorias, muitas delas sendo daqui do Agreste
Pernambucano. São mercadorias que variam de R$ 14, 00 a R$ 4,99, de
composição em poliester com algodão em malha. (entrevista realizada no dia
31 de maio de 2001, nas dependências da loja).
Em seu depoimento, o Sr. Edson contribuiu para o entendimento das novas
relações sociais das ruas-shopping, na medida em que esse lugar passa a ser o
receptor das inovações dessas novas relações no comércio urbano no Brasil,
pautado na desigualdade regional e na dependência com o mundo ocidental,
representado pela moda:
"Com a moda aparece uma relação social que encarna um novo tempo
legítimo e uma nova paixão ao Ocidente pelo "moderno". A novidade tornouse fonte de valor mundano, marca de excelência social; é preciso seguir "o
que se faz" de novo e adotar as últimas mudanças do momento: o presente se
impôs como o eixo temporal que rege uma face superficial mas prestigiosa
das elites 122.
Percebe-se que as lojas com matriz em São Paulo, ou mesmo de origem
nordestina mas articuladas às redes de lojas, sobrevivem às transformações do
comércio recifense. É o caso das Lojas Marisa, do ramo de vestuário geral, há 20
anos no Centro e filiais nas ruas: Imperatriz, Nova, Sete de Setembro e no Shopping
center Recife. Em entrevista com o gerente Sr. Zeferino B. da Silva, foi constatado
que para seu tipo de estabelecimento, com técnicas de auto- atendimento, aquela
em que o cliente entra na loja e pega a mercadoria e vai direto ao caixa fazer o
pagamento, não houve alteração do movimento após a saída do camelôs das ruas,
por isso a loja não ampliou sua dimensão, fazendo apenas algumas reformas há 06
anos atrás.
Não houve mudança alguma quanto à Revalorização da rua, não conheço
nem o Presidente da Associação. Nosso consumidor é o povão, àquele da
classe B e C, que compra geralmente no início da semana, às terças-feiras, no
horário das 14:00 às 15: 00 horas, quase sempre pessoas que trabalham no
Centro. Nossas mercadorias são de São Paulo, com preços populares de R$
9,99 (vestido) a R$ 5,99 (calcinhas e sutiãs). Uma das coisas que contribui
122
Idem, p. 37.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 119
para as vendas é a loja possuir cartão próprio e receber cartões de crédito e
cheque pré-datados. (entrevista realizada no dia 20/07/2001, pela autora).
Um outra loja que possui auto-atendimento com cartão próprio, também
corrobora com o depoimento do gerente das Lojas Marisa, é a gerente da Loja
Narciso, Sr.ª Neide de Paula. Segundo a entrevistada, a Loja Narciso possui 134
anos de existência na rua-shopping Duque de Caxias, no ramo de confecção e
tecidos, integrando uma rede de cerca de 51 lojas situadas em várias localidades
brasileiras. No centro de Recife, além da Rua Duque de Caxias existem lojas na ruashopping da Imperatriz, Rua Direita e no Cais de Santa Rita. Indagada se houve
mudanças após a retirada dos camelôs, a S.a Neide respondeu:
Houve piora, pois quando havia camelôs as ruas do Centro tinham uma
imagem de lugar mais barato (grifo nosso), estimulando o cliente a entrar
nas lojas. Não havia atrapalho. Quanto a reforma do estabelecimento, todo
ano tem quebra de paredes e ampliação das dependências, tendo sido a
maior em 1985. As mercadorias mais vendidas são de valores baixos. São
tecidos que variam de R$ 7,90 (crepe) a R$ 4,99 (bramante), comprados na
Coréia. Nossos consumidores são os populares que se mantêm clientes
desde o período dos camelôs. Em alguns dias, vê-se a classe média, como
nos sábados. Mas o maior movimento é na segunda-feira, entre os dias 05 e
30, dias de pagamento do cartão, pois a casa tem cartão (Cartão Narciso),
crediário (5 vezes sem entrada) e recebe todo tipo de cartão. (entrevista
realizada no dia 28/05/2001, nas dependências da Loja Narciso da Rua Duque
de Caxias, pela autora).
Procurando
Imperatriz
comparar
as
mercadorias
mais
vendidas
na
Rua-shopping
àquelas vendidas no Camelódromo da Dantas Barreto, adotamos uma
amostra de roupas comercializadas em ambos espaços. Os artigos elencados foram:
a) blusa, de composição de tecido em probelino (88%) e elastano (12%) com preço
de R$ 4,99, cores vivas, justa, modelo curto e de decotes, destinados às mulheres,
comercializada nas Lojas Cattan; b) calçado de marca Grandene, sendo uma
sandália aberta de salto, cor preta, tamanho 37, com preço de R$ 24,00,
comercializada na Sapataria Exótica, podendo ser encontrada por R$ 9,99 nas
liquidações; c) Calças em elastano para mulheres, comercializadas na Loja Tentação
por R$ 9,99, observamos que essas mercadorias são semelhantes as encontradas
nos camelódromos mas com uma especificidade: o preço nos camelódromos são
iguais ou mais altos e não oferecem facilidades de pagamento: cartões de crédito,
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 120
compras parceladas; quase toda a compra é feita com pagamento à vista, ou seja,
com dinheiro em mãos.
O Plano de Revalorização surge no contexto de mudanças de relações sociais
no âmbito do comércio brasileiro, da década de 90. Criador das Associações dos
Comerciantes de Rua, que nem sempre recebe a adesão de todos os lojistas, o
Plano veio coroar um conjunto heterogêneo de relações sociais em voga. São
comerciantes e consumidores que se reproduzem sob outras relações sociais, onde
a moda é vender mercadorias atraentes a um público de baixo poder aquisitivo.
Entre as novas relações sociais engendradas pelas criação das Associações
de Ruas percebe-se a multiplicação de lojas de um mesmo dono ou de seus
familiares, quase sempre presidentes das associações. É o caso das Lojas Branner e
Lojas Cattan, onde o Sr. Eduardo Catão é sócio-proprietário e ex-sócio-proprietário
das lojas, respectivamente, como também Presidente do Clube de Diretores Lojistas
- CDL.
Entrevistando a gerente das Lojas Branner, Sr.ª Miscilene, que há 08 anos
localiza-se na rua-shopping Nova, esquina com rua-shopping Palma, do ramo de
vestuário
feminino
e
adulto, com auto-atendimento e recentemente restaurada,
detectamos que as Lojas Branner têm filiais nos Shopping center Tacaruna, no
Hiper-Center Casa Forte, no Shopping Boa Vista e no Shopping Guararapes, na
Região Metropolitana do Recife. Além de possuir franquias em João Pessoa e no
Shopping Iguatemi de Campina Grande, na Paraíba.
As Lojas Cattan, existentes há 26 anos, de propriedade do Sr. Fernando
Catão e da Sr.ª Roberta Catão, possui 08 lojas no Centro, sendo 04 na rua-shopping
Imperatriz; 02 na Rua Direita e 02 na rua-shopping Duque de Caxias. As Lojas
Neblor também são de sua propriedade, estabelecidas nos Shopping centers Recife
e Boa Vista. Segundo entrevista com a gerente Sr.a Jane da Silva Pereira:
Melhorou muito depois que saíram os camelôs das ruas, pois o perfil do
consumidor melhorou, havendo variação entre as faixas B, C e D. As
mercadorias são de São Paulo e possuem preços variados de R$ 19,99 (calça
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 121
masculina), R$ 9,99 (calça feminina de malha), R$ 14, 99 (camiseta) e R$
4,99 (blusas). (entrevista concedida no dia 20/07/2001, nas dependências da
loja, realizada pela autora).
Ao analisar a mercadoria-vestuário das ruas-shopping vê-se que, em sua
maioria, há um tipo de roupa oriundo da região do Agreste Pernambucano, município
de Santa Cruz de Capibaribe e Caruaru, ou seja, há semelhanças com as roupas tipo
sulanca que são comercializadas nos camelódromos e nas feiras de sulanca,
periodicamente instaladas em vários
bairros da cidade recifense. Destacamos aqui,
a necessidade em aprofundar essas relações em outras pesquisas.
Ao entrevistarmos o gerente da Sapatomania, Sr. Edilson Ferreira detectamos
que entre os artigos mais vendidos encontravam-se "as sandálias Azaléia D'jean,
marca Grandene, vendida a R$ 21, 99, compradas no Rio Grande do Sul, Ceará e
Pernambuco. Nossa loja tem apenas 05 anos, com filiais no shopping Tacaruna e
Recife, não sabemos se houve melhora após a saída dos camelôs, pois não
estávamos aqui." Para o gerente da rede de sapataria Esposende, há 30 anos existe
no ramo de calçado e de material esportivo e diz que:
O que vende é o que está em moda: sandália da Sandy, no calçado feminino;
o homem procura a camisa do time, quando está ganhando no campeonato. A
mercadoria vem de todos os Estados: Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de
Janeiro e da região nordestina, Ceará, Paraíba e Pernambuco. Os preços
variam de R$ 19,90 a R$ 32,90. Nossa loja tem filiais no Centro de Recife,
sendo 02 na Rua-shopping Nova, 02 na Rua-shopping Duque de Caxias e 02
na Rua shopping Imperatriz, além de filiais no bairro de Casa Amarela. Temos
filiais em Caruaru, interior de Pernambuco e no Estado do Ceará, em
Fortaleza". (entrevista concedida no dia 22/07/2001, nas dependências das
lojas, realizada pela autora).
O
que
o
depoimento
do
gerente
da
Sapataria Esposende revela de
interessante é o "teatro de artifícios" que a moda consagra. Tal depoimento lembra a
citação de "O vestuário de moda rompeu todos os elos com o passado e tira uma
parte do essencial de seu prestígio do presente efêmero, cintilante, fantasista" 123.
Ao compararmos as mercadorias comercializadas no Centro Tradicional de
Comércio de Recife concluímos que são quase sempre as mesmas, ou seja, há uma
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 122
generalização do vestuário popular tipo sulanca124. Essa estratégia possibilita a
persistência
de
antigas
lojas
comercializar nas ruas-shopping,
mantidas pelos
mecanismos de comercialização de artigos fabricados em bases territoriais regionais,
ou ainda pelos escapes proporcionados pelo deslocamento das sedes das Empresas
para regiões de menor tributação fiscal, proporcionando uma concentração de capital
a um grupo de comerciante que, através de suas formas de associações acabam por
criar uma disputa imobiliária, representando a compra de vários imóveis fechados a
proprietários que não se adequaram às novas e perversas estratégias sócio espaciais.
Substituindo a referência do passado pela do presente, a moda instituiu uma
ruptura radical na ordem do tempo legítimo. Descontinuidade histórica que
aliás não impede de ver na moda um sistema que prolonga gostos, modelos
de vida, ideais profanos anteriores. O aparecimento do sentido do moderno 125.
Em vista dessa análise, constatamos que embora os comerciantes do
Camelódromo da Dantas Barreto comercializem mercadorias semelhantes às das
ruas-shopping, esses produtos não são os mais vendidos pois podem ser comprados
à prazo, nas lojas daquelas ruas. Sendo assim, os artigos mais procuradas pelos
consumidores no Camelódromo da Dantas Barreto são: a) roupa infantil, com preço
variando entre R$ 13 e R 0,50 (calcinhas); b) Calças Jeans a R$ 12,00 a R$15,00 e
c) bermudas de R$ 10,00 - R$ 15,00. A mercadoria vem dos municípios de Caruaru,
Santa Cruz do Capibaribe, Surubim e Toritama, Agreste Pernambucano, e de
Fortaleza, no Ceará, conforme representado no QUADRO 6, abaixo:
123
Idem, Ibidem, p. 36.
Sobre o assunto ver: CAMPELLO, Gláucia Ma. Da Costa. A Indústria de confeccção e a produção do espaço
em Santa Cruz do Capibaribe . Recife: Dissertação de Mestrado em Geografia: UFPE, 1996.
125
Idem, Ibidem, p.62.
124
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 123
QUADRO 6:
MERCADORIAS COMERCIALIZADAS SEGUNDO COMERCIANTES DO CAMELÓDROMO DA
DANTAS BARRETO
MAIS VENDIDAS, RESPECTIVOS PREÇOS E ORIGENS
RECIFE/ SETEMBRO DE 2001
Boxe
29/30
32
79/81/83
20
56
Tipos de
Conjunto
Tanga; Calcinha
Camisas Atrito;
Bermudas;
Calça Jeans,
mercadorias
Infantil,
infantil e Cueca
Calças Jeans e
Camisas de
calça de lycra e
Macaquito,
Bermudas
Malha e Boné
bermudas
Conjunto de
Jeans
14,00; 12 e 5,00
14,00; 18, e
malha
Preço (R$)
15,00; 15,00 e
1,00; 0,50 e
14,00; 12,00 e
8,00
1,50
10,00
Caruaru
Caruaru, Santa
Caruaru, Santa
Caruaru, Santa
Caruaru, Santa
(Agreste de PE)
Cruz e Surubim
Cruz (Agreste
Cruz do
Cruz ( Agreste
PE) e Fortaleza
Capibaribe e
PE) e Fortaleza
(CE)
Toritama
(CE)
Origem
e Fortaleza (CE) (Agreste de PE)
10,00
( Agreste PE)
FONTE: ENTREVISTAS APOIADAS EM ROTEIRO ANEXO. AUTORA:
COSTA, KÁTIA CRISTINA RIBEIRO. RECIFE, JULHO DE 2001.
Comparadas
às
mercadorias
das
ruas-shopping,
identificamos
artigos
semelhantes com preços populares e provenientes do Agreste Pernambucano, em
sua maioria. São roupas que imitam as roupas ditadas pela moda, com acessórios
de cinto e adornos, cores e modelos similares aos comercializados nos centros
analisados: as lojas das ruas-shopping.
A esse conflito do comércio formal e informal se acrescenta um outro: a
falsificação
da
mercadoria-vestuário,
fortalecido
com
os
vários
mecanismos
legislativos e mercadológico do país, exigindo um estudo profundo da questão.
As mercadorias confeccionadas em municípios do Agreste Pernambucano
recebem etiquetas de marcas famosas e comercializadas em lojas do comércio
formal, estimulando os pesquisadores da geografia do comércio a compreender a
estratégias do comércio formal e do comércio informal; dos espaços públicos e
privados e das novas formas comerciais afloradas dessas novas relações sociais.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 124
A
mercadoria-vestuário
compreende
as
confecções,
roupas
e
sapatos.
Entretanto, analisaremos apenas as roupas comercializadas pelas lojas das ruasshopping
Nova, Imperatriz e Duque de Caxias, caracterizadas pelo baixo preço,
pouca durabilidade e modelos que tentam seguir os padrões da moda.
É necessário, portanto, investigar o processo de produção das confecções,
cujo retorno às manufaturas surge com a especialização técnica. São as ProntaEntregas: produção de roupas cada vez em maior número, distribuídas aos lojistas
de vários centros comerciais varejistas.(FIGURA 21).
FIGURA 21: Loja de Vestuário da Rua-shopping Duque de Caxias.
Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
Acredita-se que essas roupas sejam produzidas seguindo os atuais princípios
da relação de mercado, onde se torna evidente a necessidade de se vender sempre
mais, de fazer com que os produtos se gastem cada vez mais depressa126.
As roupas comercializadas pelas
ruas-shopping Nova, Imperatriz e Duque de
Caxias são diferentes daquelas comercializadas no passado. Essas ruas não ditam a
126
GRANOU, Andre, op. cit. p. 15.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 125
moda da cidade, como nas décadas de 60 e 70, mas tentam reproduzi-la. São
produtos, que muitas vezes são lançados ao consumo massivo.
O passo seguinte de nossa pesquisa foi identificar as mercadorias mais
procuradas pelos consumidores das ruas do CTR, com o objetivo de identificar o que
é mais vendido e se há concorrência com os camelôs, existentes em outros espaços
de comercialização da mercadoria vestuário, a exemplo do Camelódromo da Dantas
Barreto.
2.3.1 O consumidor e seu depoimento
Observamos que entre os consumidores entrevistados127 existiam aqueles
que possuíam como principais características a procura por promoções de roupas
que, mesmo sendo de pouca durabilidade, assemelham-se aos modelos ditados pela
moda e possuem preços baixos como também àqueles que consomem o espaço em
seu conteúdo, ou seja, mesmo havendo transformações das formas comerciais,
persistem antigas relações sociais entre as pessoas que procuram o centro.
As estratégias das lojas das ruas-shopping são várias. Vão desde os grandes
atrativos dos créditos longínquos da maior parte delas, cujo objetivo é fragmentar e
prolongar o pagamento, prendendo o trabalhador, incitando-o a renovar e a aumentar
as suas despesas através da dinâmica criada pelas diferenças entre os prazos de
pagamentos e a duração dos bens, como nos lembra Lipovetsky
127
128
"não basta
O tipo de pesquisa realizada consistia ora entrar nas lojas de vestuário como consumidora, observar as
mercadorias comercializadas, dialogar com os consumidores das lojas e solicitar sua participação na entrevista,
ora sentar em um banco ou transitar pelas ruas para solicitar dos consumidores do espaço sua participação nas
entrevistas.
128
Idem. p.73-74.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 126
produzir os bens a preços baixos, mas prolongar o pagamento, de maneira a que
este coincida ao máximo com a duração de vida média dos bens".
O QUADRO 7 abaixo revela que, entre os consumidores entrevistados, a
estratégia de comercialização de artigos do ramo de roupas e calçados tem tido
êxito, pois as ruas-shopping são procuradas sobretudo por consumidores de roupas
(25%) e calçados (23,07%), representando um total de 48,07%.
QUADRO 7:
RUA-SHOPPING IMPERATRIZ
MERCADORIAS COMERCIALIZADAS SEGUNDO CONSUMIDORES
RECIFE/ JULHO DE 2001
TIPOS DE
MERCADORIAS
Roupa
Calçados
Cosméticos
Utensílios Domésticos
Remédios
Ótica
Bolsa
Livros
Discos
Armarinhos
Tecidos
Comida
Cama, mesa e banho
Presentes
FREQÜÊNCIA
%
13
12
6
4
2
1
1
2
1
2
2
2
2
1
25
23,07
11,53
7,69
3,84
1,92
1,92
3,84
1,92
3,84
3,84
3,84
3,84
1,92
Material escolar /escritório
1
1,92
Total
52
100
FONTE: ENTREVISTAS E COLETA DE DADOS AOS CONSUMIDORES DA RUA-SHOPPING IMPERATRIZ.
AUTORA: COSTA, KÁTIA CRISTINA RIBEIRO COSTA, 2001.
Entre eles, temos a Sr.ª Lúcia Ribeiro, dona de casa que vai ao CTR de
ônibus, pois não tem onde estacionar, quando vem de carro, e gosta da opção de
ônibus com ar- condicionado, tendo um trajeto que se inicia, quase sempre, na
parada de seu coletivo: Avenida Dantas Barreto, Rua da Concórdia, Rua da Praia,
Rua das Calçadas, Rua-Shopping Duque de Caxias, Nova e Imperatriz; mora em
Boa Viagem, não tem um dia da semana, nem período de mês e nem horários pré-
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 127
estabelecidos para ir às compras e não costuma ir ao Centro. Indagada sobre "quais
foram as mudanças após a saída dos camelôs?", a Sr.a Lúcia responde:
Com o surgimento dos camelôs as ruas ficaram obstruídas e surgiu a falta de
segurança. Eu e minha família passamos a freqüentar os shopping centers
Recife e Guararapes. Não há como retornar ao passado porque aumentou a
quantidade de camelôs. Os Camelódromos são insuficientes pois o
desemprego faz surgir outros camelôs. Há maior exigência do consumidor que
deseja mais conforto e segurança. Ainda assim, sinto-me atraída pelos preços
mais baixos de artigos semelhantes aos comercializados nos shoppings e por
encontrar aqui peças de reposição de eletrodomésticos, que não é vendido em
shopping centers. Sou do tipo criteriosa, controlada, gosto de dividir em
poucas parcelas mas procuro comprar artigos de boa qualidade e muita
quantidade. (entrevista realizada pela autora em frente à Ótica Casa Lux,
quando a entrevistada esperava pela consulta do oftalmologista, no dia 11 de
maio de 2001).
O depoimento acima exposto foi dado por um consumidor que possui como
característica
"fazer suas compras nos shopping center, pois nunca vim a médico
aqui no Centro, trata-se de uma eventualidade", tornando-se um acaso no cotidiano
dessas ruas comerciais. Em sua maioria, os consumidores procuram nas ruasshopping
promoções
de
roupas
que,
mesmo
sendo
de
pouca
durabilidade,
assemelham-se aos modelos ditados pela moda e possuem preços baixos. É a
"estética da mercadoria"129:
Uma tendência, que provoca sempre novas modificações no corpo da
mercadoria e na sua forma de uso, surge da contradição, presente nas
pessoas, entre valor de uso e valor de troca"(...) "O aspecto estético da
mercadoria no sentido mais amplo - manifestação sensível e sentido do seu
valor de uso - separa-se aqui do seu objeto. A aparência torna-se importante
sem dúvida importantíssima - na consumação do ato da compra, enquanto
ser.
Tal constatação pôde ser comprovada pela análise desenvolvida a seguir,
quando se utilizou da questão "O que atrai você ao Centro de Recife?"
De acordo com a Tabela 7 abaixo, percebe-se que, entre os elementos
atrativos presentes na rua-shopping Nova, há predominância do preço baixo da
mercadoria (25%), presente em 09 depoimentos, seguido do percurso entre casa-
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 128
trabalho- escola (13,88%) e da forma de pagamento (11,11%), destacados em 06
testemunhos, respectivamente.
TABELA 7: RUA-SHOPPING NOVA
ELEMENTOS ATRATIVOS
ELEMENTOS
SUJEITOS
%
Preço da Mercadoria
09
25,00
Percurso Cotidiano
05
13,88
Forma de Pagamento
05
13,88
Variedade em Mercadoria
04
11,11
Qualidade da Mercadoria
03
8,33
Atendimento Bom
03
8,33
Facilidade de Acesso às lojas
03
8,33
Locomoção entre lojas
02
5,55
Passear
01
2,77
Olhar os Produtos
01
2,77
Total
36
100,0
Fonte: Entrevistas aos consumidores da Rua -shopping Nova, realizada de janeiro a julho de 2001. Autora:
COSTA, Kátia Cristina Ribeiro Costa.
Conclui-se que cerca de 49,99% dos consumidores do CTR - Centro
Tradicional de Recife e da Rua-shopping Nova em particular, procuram os baixos
preços das mercadorias de suas lojas, compradas em ocasiões de deslocamento de
casa - trabalho - escola e nas lojas que oferecem pagamentos facilitados. Destacamse, a seguir, alguns dos depoimentos analisados.
Gosto de freqüentar o Lojão do Cabeleireiro e a Loja Emmanuelle, pois tenho
os produtos que mais uso. Mas compro onde os preços estiverem bons. Gosto
muito de comprar mas não posso. Muitas vezes faço crediário e não posso
pagar. Quanto aos camelôs, não morava aqui nesse período Os preços
deveriam ficar mais baixos mas mesmo assim, o Centro tem os melhores
preços e não posso ir aos shoppings." (SR.ª Elízia Santos, profissional em Serviços
Gerais, moradora do Bairro do Ibura).
Não tenho uma loja que mais freqüento, pois gosto de pesquisar os preços.
Após a saída dos camelôs, melhorou um pouco na acessibilidade. Deve-se ter
espaço para o camelô ficar mais próximo das ruas principais. As mercadorias
que mais compro são roupas e calçados e as lojas que mais procuro são a
Cattan e a C&A . Venho ao Centro porque tem mais eletrodoméstico para
pesquisar preço e sinto-me mais à vontade em sair e entrar nas lojas que nos
shopping centers". (Sr. Roberto Gomes, cuja profissão é de faturista, morador
de Dois Carneiros, município de Jaboatão dos Guararapes).
129
HAUG, Wolfgang Fritz. Crítica da Estética da Mercadoria.p. 26.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 129
Voltando à Tabela 7,vê-se que por 04 pessoas (11,11 %) a variedade das
mercadorias
é destacada, a partir de uma expressão bem simbolizada nos
depoimentos descritos abaixo:
"Compro muito material esportivo na loja Esposende. O que mais me
atraí ao Centro é esse estabelecimento, pois as condições de pagamento são
facilitadas em 30, 60, 90 e 120 dias para pagar. O Centro é onde se tem de
tudo. Compro muito e muitas vezes me dou mal. Depois da saída dos
camelôs, andamos com mais segurança e rapidez". (Sr. José Ronaldo,
autônomo que trabalha no Centro).
"Costumo vir ao Centro para comprar nas Lojas Marisa e nas
Sapatarias Esposende e Exótica porque elas têm mercadorias modernas,
lançamentos com preço mais barato. Melhorou muito com a saída dos
camelôs, principalmente nas ruas-shopping pois elas possuem característica
de mais reservadas, mais cuidadas, com melhora no atendimento ao
consumidor. Os camelódromos foram pensados, também. Deveria haver
melhor segurança no comércio do Centro. Visual melhor. Maior semelhança
como nos shopping e com mais lanchonetes. O que mais gosto no Centro é o
preço, as mercadorias e as condições de pagamento". (Sr.ª Dulcinéia Golveia,
vendedora autônoma, moradora do Bairro de Cajueiro).
De acordo com a Tabela 8 abaixo, percebe-se que, entre os elementos
atrativos da Rua-shopping Imperatriz, há predominância da variedade da mercadoria
(32,43%), presente em 12 respostas, seguida pelo baixo preço da mercadoria
(29,72%), referenciada 11 vezes.
O percurso cotidiano (entre casa-trabalho-escola) e do passeio
foram
apresentados como elementos atraentes a 03 indivíduos (8,10%), respectivamente,
sendo a forma de pagamento e a qualidade da mercadoria referenciados por 02
participantes (5,40%). Restando os elementos de atendimento bom, facilidade de
acesso às lojas, locomoção entre lojas e olhar os produtos, referenciados apenas 01
vez (2,70%), respectivamente.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 130
TABELA 8: RUA-SHOPPING IMPERATRIZ
ELEMENTOS ATRATIVOS
ELEMENTOS
Variedade em Mercadoria
Preço da Mercadoria
Percurso Cotidiano
Passear
Forma de Pagamento
Qualidade da Mercadoria
Atendimento Bom
Facilidade de Acesso às lojas
Locomoção entre lojas
Olhar os Produtos
Total
SUJEITOS
12
11
03
03
02
02
01
01
01
01
37
%
32,43
29,72
8,10
8,10
5,40
5,40
2,70
2,70
2,70
2,70
100,0
Fonte: Entrevistas aos consumidores da Rua-shopping Imperatriz, realizada de janeiro a julho
de 2001. Autora: COSTA, Kátia Cristina Ribeiro Costa.
Na Tabela 9, a seguir, entre os vários elementos referenciados por 08 vezes
pelos consumidores da Rua-shopping Duque de Caxias encontra-se a variedade das
mercadorias (22,85%) e 07 destaques para
o preço da mercadoria e o passeio
(20,00%), respectivamente. Essas referências estão presentes, por exemplo, nos
depoimentos que se seguem:
Gosto de andar pelo Centro, torna-se uma terapia ver o movimento, lembrome do passado. Só vou embora quando os camelôs vão também, quando
todas as lojas fecham, pois não gosto de ficar em casa sozinha. Quanto aos
bancos e à falta de lazer, não faz falta. Não gosto de sentar pois me sinto
insegura em parar. Prefiro andar e olhar o movimento. Quanto a saída dos
camelôs, melhorou muito pois não podia se mover. Eles devem Ter o local
apropriado. Deve-se organizar o camelô, ter mais segurança, principalmente
agora com a economia de energia. (Sr.ª Jaciara Régis, Dona de Casa,
moradora do Bairro de Marcos Freyre, município de Jaboatão dos
Guararapes)
Não costumo vir ao Centro e compro onde moro, em São Lourenço, minha
esposa é que trabalha aqui na loja Jurandyr Pires e faz compras da casa, só
venho fazer serviços bancários, pois tenho uma conta bancária, aqui. Quanto
ao camelô acho que os dois lados devem ser vistos. Os camelôs precisam
vender mas atrapalham as ruas, pois querem muito. As lojas pagam impostos
e funcionários e devem ter o direito de vender sem o bloqueio. Os camelôs
não devem voltar para as ruas mas devem procurar um lugar melhor para
eles, com melhores condições que os camelódromos. O Centro deveria ter
estacionamento, melhor acesso pois é no Centro que temos maior variedade e
preços baixos, em relação ao local que moramos. (Sr. Luis Vicente da Silva,
vigilante e kombeiro, morador da Grande Recife)
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 131
O que mais atrai no Centro é a Loja Bunnys com mercadoria de qualidade
(boa marca) e facilidade de pagamento. Com a saída dos camelôs piorou 90
%, pois os camelôs atraíam mais gente, com a saída deles houve queda das
vendas de sapatos, por exemplo. Deveriam trazer de volta os camelôs para as
ruas pois são eles que trazem a alegria para as lojas. O comércio do Centro
se acabou. Os camelôs devem voltar mas de forma organizada. Devem
colocar bancos, fechar os buracos das ruas e melhorar a segurança. Gosto da
liberdade de poder chegar na rua e poder sentar nos bancos, pesquisar
preços, no clima natural sem aquele ar-condicionado dos shopping centers.
Não gosto de semelhanças com shoppings pois eles acabaram com o
comércio do Centro. Houve mudanças com a entrada da Guarda de Apoio
Lojista e da Guarda Municipal mas a mercadoria é razoável, nem boa , nem
ruim, tem que fazer pesquisa pois são mais baratas e piores que às dos
shoppings e mais caras e melhores que as dos camelôs.( Sr. Vanelson José
Campos, cuja profissão é de Pracista da Rua Duque de Caxias - profissão que
consiste na abordagem de consumidores, levando-os às sapatarias populares
dos andares superiores das lojas).
O que esses depoimentos têm de significativo é o diferencial entre os
consumidores, mostrando que há pessoas que querem o diferente, inclusive a volta
dos camelôs, estando desprendidas da atração da marca e da mercadoria. Ao longo
das observações sistemáticas e das entrevistas, constatamos que o centro vai se
constituindo em um lugar onde as diferenças e contradições são traços marcantes,
lembrando que esse estudo do comportamento do consumidor é amplo e difícil,
como bem elucida Ortigoza:
O centro pode ser descrito como um lugar que é o sustentáculo das várias
relações sociais contraditórias que surgem na história da metrópole. As
pessoas vivem esse espaço de maneiras diferentes, se chocam e podem ou
não relacionar-se, mas por estarem juntas ajudam a reproduzi-lo. O centro
metropolitano, nestes termos, é um espaço que reúne possibilidades de
sociabilidade de diferentes agentes e classes sociais 130 .
Através das observações e entrevistas pôde-se constatar que persistem em
conviver lado a lado, novas e antigas formas comerciais, onde as relações sociais
desencadeadas por um novo uso do espaço, aqui caracterizado pela proibição do
comércio informal, não foram suficientes para transformar o uso do espaço em único
e novo. Como resultado, o espaço apresenta as condições de permanências de
alguns tipos de comércio de vestuário.
130
Ortigoza, Silvia Guarnieri O tempo e o espaço da alimentação no centro da metrópole paulista..p. 62.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap II - A reprodução das formas comerciais... 132
TABELA 9: RUA-SHOPPING DUQUE DE CAXIAS
ELEMENTOS ATRATIVOS
ELEMENTOS
Variedade em Mercadoria
Preço da Mercadoria
Passear
Percurso Cotidiano
Forma de Pagamento
Qualidade da Mercadoria
Atendimento Bom
Facilidade de Acesso às lojas
Olhar os Produtos
Locomoção entre lojas
SUJEITOS
08
07
07
02
02
02
02
02
02
01
%
22,85
20,00
20,00
5,71
5,71
5,71
5,71
5,71
5,71
2,85
Total
35
100,0
Fonte: Entrevistas aos consumidores da rua-shopping Duque de Caxias, realizada de janeiro a julho de
2001. Autora: COSTA, Kátia Cristina Ribeiro Costa.
Portanto,
as
entrevistas
possibilitaram
entender
que
há
expressiva
participação do ramo de vestuário em todas as ruas-shopping analisadas, o que fez
com que adotássemos como procedimento de análise a investigação do ramo de
vestuário, justificado ainda pelo fato de ser o vestuário um veículo da moda, "do reino
do efêmero sistemático, das rápidas flutuações sem amanhã"131.
131
LIPOVESTSKY, Gilles. O Império do Efêmero - A Moda e Seu Destino nas Sociedades Modernas.p. 29.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
134
CAPÍTULO III: A GENERALIZAÇÃO DA MERCADORIA:
ARTICULAÇÃO E FRAGMENTAÇÃO ESPACIAL
Nesse momento da pesquisa, desenvolveremos a terceira etapa do método histórico-genético - que segundo Lefèbvre exige que o pesquisador procure o
reencontro do presente, mas explicado, compreendido e elucidado. Analisando a
realidade social elucida-se "o percebido pelo concebido teoricamente e definem-se
as condições e possibilidades do vivido". O método regressivo - progressivo
possibilita "descobrir que as contradições sociais são históricas e não se reduzem a
confrontos de interesses entre diferentes categorias sociais"132.
3.1 Os Camelódromos: contradições e possibilidades
Os "shopping centers de camelôs" ou "camelódromos" constituem-se em
espaços comerciais do Centro Tradicional de Recife, criados à "semelhança" dos
shopping centers e para onde foram destinados os camelôs expulsos das atuais
ruas-shopping e outras mais, administradas pelo CDL.
No Recife, existem dois camelódromo: o “Camelódromo do Cais de Santa
Rita”, obra construída em 1 pavimento, com cerca de 1500 boxes, uma praça de
alimentação e uma feira de produtos hortifrutigranjeiros, localiza-se ao longo de uma
avenida secundária, nos arredores dos pontos de coletivos que se dirigem para a
zona sudoeste da cidade (Figuras 22 e 23). O outro é o “Camelódromo da Avenida
Dantas Barreto” que se localiza nos canteiros centrais da Avenida Dantas Barreto
(Figuras 24 e 25).
Inaugurados a partir de 1994, abrigariam cerca de "1.800 camelôs, dos bairros
de São José e Santo Antônio". No período de transferência dos camelôs, o CDL
ofertaria "800 empregos no comércio", para os comerciantes de rua da Avenida
Dantas Barreto, anunciada pelo Secretário de Infra-estrutura João Braga, em reunião
132
MARTINS, op. cit. p. 22.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
135
com a comissão de camelôs, representantes de ruas e o presidente do Sindicato dos
Vendedores Ambulantes, no dia 8 de março de 1993133.
Segundo depoimentos dos
comerciantes dos camelódromos, tal objetivo não foi cumprido.
Figura 22: Camelódromo de Santa Rita.
Figura 23: Quiosques abertos onde eletricistas prestam serviços. Fotos: Kátia Ribeiro, 1999.
133
JORNAL DO COMMERCIO. Braga e camelô debatem hoje o reordenamento. Caderno Cidades. Recife,
Segunda-feira, 8 de março de 1993.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
136
Percorremos grande parte do Camelódromo da Av. Dantas Barreto com a
sensação de que houve um dinamismo apenas do comércio tradicional situado em
seu entorno, onde há a presença de lojas de ferragem, eletro-eletrônico, levando-se
a concluir que a circulação dos ônibus trouxe mais benefícios aos lojistas que aos
comerciantes dos camelódromos, pois a maior concentração deles se encontra fora
do camelódromo. (Figura 24)
Fig. 24: Camelódromo da Avenida Dantas Barreto: é melhor ficar fora.
Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
Nos primeiros módulos há uma concentração de mercadorias e pessoas, o
que não é visto nos últimos, com presença de poucos quiosques abertos. Entre um
módulo e outro, o espaço é disputado com arranjos de proteção de chuvas.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
137
Figura 25: O vazio do espaço interno do Camelódromo.
Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
O Projeto Shopping-Lô foi projetado para ser implementado em duas etapas.
Inicialmente, compreenderia um Centro Popular de Vendas, o Shopping do Camelô,
um espaço para a “Casa da Criança e do Adolescente". A sua segunda etapa
compreenderia um Calçadão dos Mascates, que ligaria o velho Mercado de São José
ao Centro Popular de Compras, no Cais de Santa Rita, oferecendo à população um
espaço de lazer e descanso, com jardins, banquinhos, um memorial ao cantor Luiz
Gonzaga e pontos para lanches rápidos que seriam alojados em 1.500 quiosques,
módulos de fibra de vidro, explorados pelos comerciantes ambulantes.
A segurança da área ficaria a cargo da Guarda Municipal e toda infra-estrutura
de transporte seria transferida para as proximidades. O incremento ao turismo é um
dos principais objetivos do Projeto, uma vez que, para seus autores, “desenvolverá o
Centro limpo e seguro para os programas de tipo city tour, sendo o próprio
‘Shopping-Lô’ uma alternativa para os visitantes”. O custo do projeto chegaria a 6
milhões
de
especializada.
dólares,
ficando
seu
gerenciamento
a
cargo
de
uma
equipe
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
138
Além do "Shopping-Lô", um outro projeto foi idealizado para o Centro de
Recife. Além da estrutura interna, o “Beliscada” previa uma infra-estrutura de
estacionamento para 4 mil carros, terminais de ônibus, posto médico, posto de
polícia, balcão de informações turísticas e de saúde pública. Cerca de 2 mil camelôs
seriam distribuídos em quiosques padronizados nas esquinas e calçadas de várias
ruas e avenidas da cidade, inclusive nas ruas-shopping, como veremos adiante.
O
empreendimento,
que
ficaria
a
cargo
do
Estado,
municipalidade
e
empresários locais, orçaria em 30 milhões de dólares e seria gerenciado por um
consórcio com representação de cada empreendedor. Dentre os objetivos desses
projetos, um deles registra o propósito de “ter de volta o nosso Recife como
aprendemos a gostar dele: disciplinado, limpo, civilizado, humano e poético”134.
Propunha-se a resgatar a cidade que existe apenas no imaginário de parte
dos seus habitantes, pois, como bem enfatiza a referida pesquisa, “o Recife das
primeiras décadas deste século (século XX), guardadas as devidas proporções,
também apresentava grandes problemas: era uma cidade com alto índice de
mortalidade, que não oferecia os serviços básicos de água, esgoto ou coleta de lixo à
sua população, e onde existiam enormes disparidades sociais”.
Dentre as várias propostas criadas pelos arquitetos e economistas da cidade,
os camelódromos recifenses, surgiram a partir da concepção de Ronaldo Lamour e
Zeca. Os urbanistas criaram os Camelódromos que abrigaram os camelôs existentes
naquelas ruas-shopping.
A idéia surgiu com conflitos na Câmara dos Vereadores e no Sindicato dos
Ambulantes, esses últimos não aceitavam os locais escolhidos e a falta de critérios
da acomodação dos camelôs nos quiosques. Mas o Projeto de implantação dos
Camelódromos
foi
aceito
e
aplaudido
em
vários
Congressos
e
Seminários,
conferindo prêmio aos seus criadores. A cidade de Recife passariam a servir de
exemplo para outras cidades, a exemplo de João Pessoa e Campina Grande, na
134
FUNDAJ. op. cit. p.220-1.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
139
Paraíba, que viriam solicitar orientação para implantação de camelódromos em seus
centros urbanos.
O CTR, e, mais especificamente, a área aqui analisada, passa por um
processo de reprodução espacial que busca se assemelhar aos shopping centers.
Acredita-se que a busca pela imagem de cidade idealizada foi a resposta mais
imediata a um dos principais problemas do Centro recifense, o comércio de rua e o
surgimento de múltiplas dinâmicas ocorridas nas relações sociais desencadeadas
pelo comércio, os seus mais novos espaços de sociabilização e as absorções das
formas planejadas de fazer compras dos diferentes atores envolvidos.
Dentre as formas comerciais do CTR que buscam a imagem de shopping
centers, seguramente uma delas refere-se aos camelódromos, proposta
que teria
sido criada pelo poder público municipal daquela época mas que seria implantada na
gestão do Prefeito Jarbas Vasconcelos, a partir de 1993.
A economia do Brasil em 1993, vivia uma crise econômica, política e social.
No campo econômico, alguns dos sintomas da crise eram: crescimento de apenas
3% da renda média "per capita" nos anos 80, contra um crescimento de 76% na
década de 70; inflação desenfreada; transferência e concentração de renda em
benefício dos banqueiros, das grandes empresas e dos especuladores em geral;
baixo índice de investimentos nas atividades produtivas insuficientes para expandir a
produção, aumentar o número de empregos e proporcionar melhorias salariais; a
maioria da população economicamente ativa não estava qualificada para o trabalho,
comprometendo o seu desempenho como profissionais e como cidadãos. Havia,
portanto, um elevado nível de desemprego, em grande parte disfarçado no
subemprego e na economia informal, numerosos contigentes de miseráveis desposados e absolutamente marginalizados da vida brasileira.
Estas e outras características se inserem no interior de um modelo econômico
capitalista altamente monopolista e oligopolista em que, menos de 300 grandes
grupos econômicos nacionais e multinacionais têm o poder de comandar a economia
do país, através do controle dos seus setores básicos, discriminando e subordinando
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
140
a pequena e média empresa, geralmente relegada para a periferia do processo
produtivo.
No campo político, o Brasil chega ao início da década de 90, com um quadro
partidário fragmentado, sem expressão e sem capacidade real de uma articulação
consistente para conduzir com segurança o avanço do processo democrático. Os
partidos e os políticos estão profundamente desgastados aos olhos do público.
Durante as duas décadas de regime autoritário, a sociedade brasileira foi submetida
a um amplo e intenso processo de despolitização, em que se truncou o exercício da
prática política democrática e da formação e renovação de quadros nos embates da
participação efetiva.
Por outro lado, há cerca de 30 anos as elites dominantes optaram por um
modelo
econômico
inspirado
nos
padrões
de
consumo
da
sociedade
norte-
americana. Como não havia capacidade de produção e de poder aquisitivo de todos,
adotou-se uma feroz política de concentração de renda. Em conseqüência, cerca de
10% da população brasileira usufrui daqueles padrões e outros 10% fazem o
possível para galgar o tatus
dos 10% primeiros, enquanto a restante maioria de 80%
fica distante, retardatários ou condenados a total exclusão.
Quase sempre os que mais têm trabalhado, e nas atividades mais duras, têm
sido também os que têm recebido a menor parcela da riqueza produzida igualmente,
nunca fez parte das prioridades nacionais a ampliação e eficiência dos serviços
públicos na área social, uma forma indireta de remuneração para a classe
trabalhadora. Assim, o Brasil chega ao final do século XX e início do século XXI,
situado entre os países de renda mais mal distribuídas do mundo, apesar do seu
potencial econômico.
Esse breve histórico do Brasil no início dos anos 90, contribui para o entender
o rebatimento dessa crise nos centro urbanos das metrópoles brasileiras. Com o
crescimento do desemprego, houve um aumento do comércio informal, chegando a
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
141
absolver milhares de pessoas em torno dessa economia. Em Recife, havia nesse
período cerca de 3.000 ambulantes.
Assim, o Plano de Revalorização do CTR de 1992 "limpou" as principais ruas
do comércio do centro, retirando os ambulantes e, do período de 1993 a 1995, a
gestão do Prefeito Jarbas Vasconcelos implantou os camelódromos, confinando os
camelôs em um prédio localizado centro da cidade. Dentre as estratégias criadas
pela gestão, em resposta às críticas sofridas - entre elas a de ter projetado o
Camelódromo da Dantas Barreto para se localizar no canteiro central de uma
avenida descentralizada (Avenida Dantas Barreto) -
o
então
Prefeito,
Jarbas
Vasconcelos, enfatizava que o Camelódromo teria o papel de animação dessa
Avenida: "Este projeto dará utilidade a uma avenida que está morta e que já está
invadida pelos camelôs"135.
Atualmente, o que se vê é algo bem diferente do planejado. Um dos
principais problemas para os camelôs do Camelódromo da Dantas Barreto é sua
localização
em
um
avenida
secundária,
suas
mercadorias
ficariam
sem
consumidores. Semelhante processo ocorre com o camelódromo do Cais de Santa
Rita. Consideramos que a falta de manutenção e controle administrativo faz dos
camelódromos um lugar fétido, com quiosques mal conservados que, embora
ofertando produtos de baixo preço, não representam atrativo para os poucos
consumidores que ali transitam. (MAPA 06)
No Camelódromo do Cais de Santa
Rita, os camelôs instalados em quiosques mal preservados, queixam-se do descaso
da Prefeitura. Não pagam as taxas cobradas e não conseguem comercializar nem o
almoço de R$ 1,99 que, por sua assepsia duvidosa, afasta os que passam pela
“Praça da Alimentação”, (Figura 26) lugar em que se concentram as lanchonetes e
restaurantes, em meio a poças de água, e onde se observam comerciantes ociosos,
dormindo ou jogando dominó136 (Figura 27).
135
JORNAL DO COMMERCIO. Jarbas desafia Câmara e garante camelódromo. Caderno Cidade. Recife, sexta feira, 5 de março de 1993.
136
Jogo tradicional em Recife.
Mapa 07
CAMELÓDROMO DA AVENIDA DANTAS BARRETO
- SISTEMA VIÁRIO RECIFE / PE
Calçadão
do
Carmo
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1
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R.
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Barreto
Av. N. S. do Carmo
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o
3
R.
P.
d
4
aP
átr
ia
5
Mu
niz 6
Fluxo viário
Camelódromo
1; 2...
Equipamentos
Quiosque
Organizador: Kátia Ribeiro.
Desenho: Cláudio Martins
Fonte: UNIBASE, FIDEM, Recife/2000;
PCR, URB - Ord. Do Comércio
Ambulante (Camelódromo), 1993.
Escala Gráfica
0
8
20m
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
143
Figura 26 : Praça da Alimentação do Camelódromo do Cais de Santa Rita.
Foto: Kátia Ribeiro., 1999.
Figura 27: Jogos e conversas: os consumidores não aparecem no
Camelódromo do Cais de Santa Rita.
Foto: Kátia Ribeiro., 1999. ap. 10.
Esses dois Projetos são aqui apresentados como exemplo do que ocorre no
centro do Recife. Ruas com nome de shopping center, abrigando “Praças de
Alimentação”, um gerenciamento a cargo do poder público e privado vão compondo
uma paisagem diferente daquela externa a qualquer lugar não atingido por quaisquer
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
144
desses Projetos. O que teria mudado no centro do Recife? Para quem ele está
voltado e por quem está sendo idealizado?
Entendendo que tais contradições se renovam e apresentam novas relações,
novas formas de consumo do comércio e do espaço, nossa
investigação
não se
limitou a analisar as várias formas de consumo nas e das ruas-shopping Nova,
Duque de Caxias e Imperatriz, mas, considerando que a retirada dos camelôs
dessas ruas representou a principal estratégia de revalorização daquele espaço,
desencadeando transformações no comércio e ampliando as contradições da disputa
do espaço, pesquisamos também o lugar onde os camelôs foram confinados - os
camelódromos - para compreender as novas formas de consumo daquele lugar.
Elegemos o Camelódromo da Dantas Barreto, por ser o único a comercializar
a
mercadoria
vestuário,
como
foi
analisado
no
capítulo
02.
Sendo
assim,
entrevistamos comerciantes dos boxs (quiosques) do Camelódromo da Dantas
Barreto, todos com 08 anos de fixação no mesmo ponto e comercializando vestuário
dos municípios de Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe e Toritama. (Figura 28).
Figura 28: Vendedores do Camelódromo e suas mercadorias. Foto: Kátia Ribeiro,
1999.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
145
Um dos comerciantes entrevistados, Sr. João Gomes Barbosa, conhecido
como "Careca", lembra que em 1995, quando o camelódromo foi criado, só existiam
duas opções para o comércio ambulante: o camelódromo ou
as feiras de sulanca:
"Atualmente, o Centro está tomado pelos ambulantes, até as ruas adjacentes, que pelo
acordo firmado com a Prefeitura em gestões anteriores, era proibido comercializar, hoje
estão tomadas por camelôs. Até a frente do Camelódromo está tomada por camelôs". Os
depoimentos estão representados no QUADRO 08:
QUADRO 8: MERCADORIAS COMERCIALIZADAS SEGUNDO
COMERCIANTES DO CAMELÓDROMO DA DANTAS BARRETO:
RECIFE/ SETEMBRO DE 2001
COMERCIANTES
QUE MUDANÇAS OCORRERAM APÓS SUA SAÍDA DA RUA?
VOCÊ GOSTOU DE TER VINDO PARA O CAMELÓDROMO?
João Gomes Barbosa Filho
Trabalhava com laticínios, depois com importados e depois com
roupas. Quando vim para o camelódromo tive que baixar o preço da
mercadoria, mesmo recebendo aumento do fabricante. Gostei de ter
vindo, pois teria um local fixo com proteção. Hoje vejo desvantagem,
pois a imagem do camelódromo está prejudicada com a violência,
cada vez maior, principalmente em frente aos módulos 1 e 2.
Marcos Antônio
Era fraco no início, depois melhorou. Houve mudança de ramo,
passei para confecção pois o preço dos importados aumentou . A
mercadoria baixou de preço e a venda baixou, vendendo apenas em
período de época. No início tive melhoria, mas de um ano para cá
liberaram as ruas para os camelôs e diminuiu o movimento aqui.
Muitos que estavam no camelódromo saíram, repassando seu box e
voltaram para as ruas. Para melhorar o comércio deve -se trazer
todos os camelôs para cá.
Urbano
Rita Batista de Sousa
Salete de Sousa
Não mudei de ramo. A mercadoria baixou de preço e as vendas
também. Piorou. Eram 4000 camelôs, agora são 1000. Não gostei
de ter vindo mas fui obrigado. Há 19 anos comercializei, dos quais
12 anos foram na rua do Rangel. Hoje, 99 % dos camelôs estão
endividados. O módulo 1 está com quase todos os camelôs
quebrados, imagine os outros.
Não mudei de ramo, sempre fui do ramo da confecção, que tem o
mesmo preço desde o real pois se aumentar o freguês não vem. Os
fabricantes estão aumentando os preços. As vendas aumentam em
época de festas. Não gostei de ter vindo. Vim a pulso, não tinha do
que viver.
Piorou, pois nunca mais vi dinheiro, pois a Prefeitura não faz
divulgação, trouxeram os pontos de ônibus mas não resolveu muita
coisa. A mercadoria não baixou de preço pois a margem de lucro já
é muito pequena. Gostei de Ter vindo, pois tenho mais tranqüilidade
só não tem movimento.
FONTE: ENTREVISTAS APOIADAS EM ROTEIRO ANEXO. AUTORA: COSTA, KÁTIA CRISTINA RIBEIRO.
RECIFE, JULHO DE 2001.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
146
Demonstrando claramente que o projeto não foi respeitado pela população
pois teria sido destinado outro uso a espaços que se queriam ver "limpos de gente
pobre", o Poder Público apresentou-se com um discurso dissociados da prática,
mostrando que a Revalorização beneficiou apenas os lojistas das ruas comerciais.
Instigados a apontar alternativas de melhoria para a área, os comerciantes do
Camelódromo da Dantas Barreto sugerem várias soluções que exigiram a montagem
do QUADRO 09.
Entre elas encontram-se reivindicações de melhorias no sistema
de tráfego, segurança e equipamentos urbanos. Contudo, não apontam como
alternativa de solução da concorrência com os lojistas, a comercialização de
mercadorias
diferentes
daquelas
vendidas
nas
ruas-shopping,
ou
seja,
não
identificam como elemento prejudicial a generalização de um tipo de mercadoria
vestuário no CTR, bem como em vários centros urbanos do país.
As entrevistas aos consumidores do Camelódromo da Dantas Barreto indicam
alguns caminhos para o desvendamento da questão. A Senhora Gilvanete Moreira,
bancária, moradora do Jordão Alto, quando respondeu às
questões do roteiro em
anexo, disse:
Não tenho um box que freqüento mais. Pesquiso em todos e procuro o que
melhor me agrada. Sempre procuro os camelódromos mas só conheço esse.
Quanto aos dias da semana, não tenho um certo. Quando venho à cidade
passo no Camelódromo pois é caminho do ônibus. Aprovo a saída dos
camelôs das ruas pois ficou melhor para os camelôs e para os consumidores.
Deveria ter provador pois como procuro por roupas às vezes não tem como
provar se ficou boa. Não procuro marca mas procuro modelo bonito que me
agrada, pois tudo está na moda.( Entrevista realizada no Box 236, no dia 01
de outubro de 2001, pela autora).
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
147
QUADRO 9: CAMELÓDROMO DA DANTAS BARRETO: DEPOIMENTOS DOS
COMERCIANTES.
RECIFE/ SETEMBRO DE 2001
COMERCIANTES
QUAIS MUDANÇAS DEVERIAM EXISTIR PARA MELHORAR O
COMÉRCIO DO CAMELÓDROMO?
João Gomes Barbosa Filho
Melhorar a Segurança, principalmente em frente aos módulos 1 e
2. Mudança de trânsito, pois anteriormente o fluxo se deslocava do
bairro - cidade. No final da gestão de Roberto Magalhães foi
mudado para cidade - bairro. Essa mudança prejudicou muito a
vida do camelódromo pois antes , ao ver a beleza das
mercadorias, os consumidores que vinham de boa viagem, se
sentiam atraídos e paravam. Depois das duas reformas do Pátio
de são Pedro, os passageiros ficam antes, nas ruas mais centrais,
como Nossa S. Do Carmo
Marcos Antônio
Trazer todos os camelôs para os Camelódromos e tirar as vãns
dos estacionamentos dos consumidores.
Divulgação da Prefeitura; retirada das vãns dos estacionamentos.
Retirada dos camelôs das ruas e trazer para os camelódromos.
Caso não haja uma mudança, vai fechar. O sistema de trânsito
deve voltar ao que era antes. A EMTU deve deixar antigas paradas
de ônibus (Jordão, Cavaleiro) . A s feiras de sulanca prejudicam as
vendas dos camelódromos.
Urbano
Rita Batista de Sousa
Promoções, campanhas, Terminais de ônibus nos arredores.
Deve-se gerar emprego.
Salete de Sousa
Divulgação. Criar um terminal de passageiro que gerasse fluxo
para dentro do camelódromo
FONTE: ENTREVISTAS APOIADAS EM ROTEIRO ANEXO. AUTORA:
COSTA, KÁTIA CRISTINA RIBEIRO. RECIFE, JULHO DE 2001.
Os depoimentos acima, apontam alternativas de melhorias do Camelódromo
indicando que muitos dos entrevistados incorporaram a visão de comerciantes
formais,
com
necessidades
de
comercialização
de
seus
produtos
como
acessibilidade, segurança, estratégias de exposição das mercadorias, plano de
divulgação, com campanhas promocionais como qualquer outro comerciante. Enfim,
exigem o cumprimento das propostas apresentadas pela gestão pública ao serem
retirados das ruas. Segundo os comerciantes, ou todos os camelôs devem ficar nos
camelódromos ou todos devem ficar nas ruas, não se deve criar mais concorrência
com aqueles que estão confinados a um único espaço, a exemplo das feiras da
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
148
sulanca, que pelo seu caráter nômade e por venderem o mesmo produto, tornaramse também um forte concorrente dos camelódromos.
A Sr.a Josinete de Fátima , Doméstica, moradora do Brejo diz:
Não tenho um Box que mais freqüento porque tenho que pesquisar. Depende
do horário do trabalho, geralmente venho à tarde, do bairro do Espinheiro indo
para o Brejo. Não concordei com a saída dos camelôs das ruas. Seria melhor
fazer barraquinhas fixas no Centro, onde tem movimento. O camelódromo
ficou distante do Centro. Deveria ter mais divulgação das coisas que vendem
aqui. Procuro roupas para mim e meu filho, de malha e lycra. (Entrevista
realizada no box 198, no dia 10 de outubro de 2001).
Percebe-se
que,
mesmo
sendo
pouco
expressivo
a
participação
de
consumidores que apontam o problema do camelódromo como sendo a sua
distância do local de maior fluxo de pessoas, o depoimento acima indica que uma
das alternativas seria a criação de pontos fixos nos arredores das ruas centrais, o
quiosques de camelôs. Em nossa pesquisa, detectamos que os comerciantes dos
quiosques estão mais satisfeitos que os dos camelódromos, o que corrobora com a
indicação da consumidora Sr.a. Josinete de Fátima.
Entre
as
propostas
de
dinamização
dos
Camelódromos
encontra-se o
"Corredor dos Mascates", eixo de interligação entre a Estação Central do Metrô e a
Casa da Cultura, o Camelódromo da Dantas Barreto, o Mercado de São José e o
Camelódromo de Santa Rita. Resultante de uma avaliação da pesquisa realizada
pela ARCONSULT137 em solicitação a CSURB, foi detectada a necessidade de
"intervenções urbanísticas que visem promover a dinamização a área de forma
integrada".
Segundo o Estudo referido, a área seria integrada através de um Plano de
Circulação Viária (criação de binários, ampliação de estacionamentos rotativos,
disciplinamento dos horários de carga e descarga de mercadorias e espaços
apropriados para estacionamento de ônibus de turismo); criação de ruas de
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
149
pedestres (os conhecidos Calçadões) e elaboração de um Projeto de Comunicação
Visual (valorização dos monumentos históricos e sinalização da estrutura viária).
Entre as intervenções físicas na área, propõem-se ações destinadas a dois
espaços: a) o espaço público, com a "retirada de portões e grades instalados em
algumas ruas e que não tem função, apenas impedem a circulação de pedestres,
dando suporte à colocação de barracas"; b) o espaço privado (os camelódromos e o
Mercado e São José), "promovendo uma ampla ação de recuperação das calçadas,
bem como de revisão do sistema de drenagem, em especial as tampas de bueiros e
sarjetas".
Como sugestão final, há um conjunto de quatro grupos de propostas, a saber:
a) oferecer prestação de serviços públicos (postos de vacinação, expedição de
carteira de identidades, correios, bancos): "Esses serviços seriam locados sob forma
de ancoragem nos extremos dos equipamentos, ou seja ao Mercado das Flores, no
Camelódromo
da
Dantas
Barreto
e
junto
a
(Loja
Náutica
da)
Mesbla,
no
Camelódromo de Santa Rita"; b) introduzir um modelo gastronômico, cuja função
seria a locação dos bares e restaurantes espalhados nos pátios e calçadas do
Camelódromo da Dantas Barreto, criando um Restaurante Popular, "que deveria ser
locado entre as Ruas São João e Peixoto, apoiando o módulo de serviços públicos e
reforçando a atratividade do extremo sul"; c) Estabelecer "um mix balanceado de
produtos a serem comercializados", agrupando-os em ramos comerciais e d) avaliar
"a agilidade da atividade enquanto negócio, que requer competitividade, atratividade
e acessibilidade", propondo mecanismos de comercialização (treinamento, exposição
do produto, capital de giro e seleção de artigos populares) e desenvolvendo um
plano de marketing, divulgando os equipamentos junto ao público alvo.
Segundo entrevista com o Sr. Petrônio, a pesquisa detectou as mudanças e a
Prefeitura vai implementá-las:
137
ARCONSULT. Estudo do Comércio Informal do Shopping Santa Rita, Mercado de São José, Calçadão dos
Mascates e Adjacências. Contrato no. 140/97 - CSURB/PCR, dezembro de 1997. P.51.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
150
A partir do sistema viário, pois as mudanças de paradas de ônibus não foi
bem aceita pelos usuários que precisam sair do Centro para o final do
Camelódromo. O sistema de paradas pode ser modificado mas apenas um
pouco. No lugar do Mercado das Flores, criado em solicitação aos camelôs
que se encontravam no Cais de Santa Rita, seria construído um Mini Terminal
Rodoviário, com linhas de ônibus que não estariam disponíveis no TIP Terminal Integrados de Passageiro. Sendo assim, o Mercado das Flores
passaria para o Camelódromo da Santa Rita ( Shopping Santa Rita), onde, no
passado, funcionava o Terminal de ônibus. Ao longo do Shopping, surgiriam
paradas de ônibus". (Entrevista realizada no escritório da CSURB, em maio de
2001).
Tais propostas se fundamentaram no Estudo desenvolvido pela ARCONSULT
e estão sendo apreciadas pelo Sr. José Ailton, Secretário de Serviços Públicos na
gestão atual do Prefeito Sr. João Paulo, envolvendo 07 pontos: 1. Corredor dos
Mascates; 2 Reestruturação dos Camelódromos; 3 Criação de um Restaurante
Popular; 4 Integração do Espaço à Estação Central do Metrô, beneficiada com a
conclusão da linha centro-sul; 5 O Mercado de São José, com remoção de barracas
e implantação de estacionamento; 6 Integração do Camelódromo de Santa Rita,
marco inicial do Corredor dos Mascates, e sua reestruturação (Figura 29). Segundo
o Sr. Petrônio:
A Rua Direita, será o marco intermediário do Corredor dos Mascates, no Pátio
do Terço, onde haverá desobstrução da passagem da rua Passos da Pátria,
com criação de um equipamento âncora, o Restaurante Popular. Sendo assim,
o Corredor dos Mascates segue em direção a Tobias Barreto, finalizando seu
trecho, na Casa da Cultura e na Estação do Metrô. Há uma discussão sobre
pagamentos de taxas de uso do solo e condomínio, nos Camelódromos, além
da setorização das mercadorias, principais pontos a iniciar a reestruturação do
shopping.
Entre uma intervenção urbanística e outra, o Centro de Recife vai perpetuando
relações
de
conflitos
e
contradições
não
resolvidas,
produzindo
um
fragmentado, surgindo cada vez mais tentativas de capturar a espontaneidade dos
espaço
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
151
indivíduos sem qualquer preocupação com o que se pode encontrar ao desvendar o
drama escondido138.
Seguem assim, planejando a cidade como sendo uma empresa, um grande
shopping center : "Assim como os shopping centers têm lojas de departamento como
âncoras do centro de compra, o Calçadão dos Mascates da Avenida Dantas Barreto vai
ganhar três novos espaços que funcionarão como atrativos. As âncoras do Camelódromo
serão um Restaurante popular nas imediações do Mercado das Flores, uma central de
atendimento ao cidadão no mesmo local e um terminal de ônibus no último módulo do
Calçadão" 139
No Recife, enquanto não criam reais possibilidades de sucesso para os
camelódromos, ou seja, espaços centrais, vários outros camelôs voltam para as
ruas, o que amplia ainda mais a fragmentação do espaço comercial desse Centro,
configurando-se nas contradições não resolvidas.
Além
da
centralidade
dos
camelódromos,
os
urbanistas
devem
buscar
alternativas para minimizar a concorrência entre lojistas e camelôs, analisando que
um dos conflitos de maior relevância reside na generalização da mercadoria. Em
nossa pesquisa detectamos que os lojistas do Centro vêm praticando estratégias de
venda de mercadoria a preços iguais ou menores que os comercializados nos
camelódromos, com mais uma desvantagem para os camelôs: facilidade de
pagamento. Todas as lojas recebem cartão de crédito e/ou possuem crediário
próprio, enquanto os camelódromos exigem pagamento à vista, em dinheiro.
138
A cidade de João Pessoa vem passando por um processo semelhante ao da cidade de Recife. O comércio se
especializa e novas formas vêm surgindo. Atualmente, a Grande João Pessoa possui cerca de 800 mil habitantes e
apresenta 03 shopping centers, 3 hipermercados e várias galerias ao longo dos bairros. Um dos shopping é
localizado no Centro Tradicional de Comércio, onde o comércio informal é expressivo, com ruas repletas de
barracas improvisadas sobre os Calçadões de Pedestres. Como tentativa de solução a esse problema, a Prefeitura
construiu um camelódromo, o Shopping Terceirão 2000, com 250 quiosques, construído em terreno de uma praça
pública na Avenida Miguel Couto, Centro da cidade.
139
JORNAL DO COMMERCIO. Caderno Cidades. Comércio Informal - Camelódromo Terá Novas Atrações.
Recife, Sexta-feira, 25 de maio de 2001.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
152
Figura 29: O Calçadão dos Mascates: no painel ilustrativo vê-se as ações
projetadas para os camelódromos da Dantas Barreto e para o Cais
de Santa Rita.
LEGENDA:
1. Corredor dos Mascates: eixo de integração entre a Estação Central de metrô, a Casa da
Cultura, o Calçadão dos Mascates, o Mercado de São José e o Camelódromo do Cais de
Santa Rita;
2. Terminal de ônibus: adaptação do sexto módulo do Camelódromo para abrigar o Terminal
Intermunicipal de Passageiros;
3. Mercado das Flores de Santa Rita: transferência do Mercado das Flores para o
Camelódromo de Santa Rita (onde ele funcionava antes);
4. Central de Atendimento: implantação de uma Central de Atendimento ao Cidadão;
5. Recuperação do Camelódromo do Cais de Santa Rita;
5.1 Nova Praça de Alimentação;
5.2 Nova área para o Mercado de Estivas;
6. Recuperação do Camelódromo da Dantas Barreto;
7. Sitema Viário e Estacionamentos.
FONTE: PREFEITURA DA CIDADE DE RECIFE/ Secretaria de Serviços Públicos. O Recife
dos Mascates - Manutenção Ordenada do Comércio Informal nois bairros de Santo
Antônio e São José, 2001.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
153
A constatação a que chegou o Estudo da ARCONSULT, ao analisar a relação
de lojistas com camelôs, não analisa que os preços dos lojistas nem sempre são
mais altos que àqueles dos artigos comercializados por camelôs, como a pesquisa
tenta justificar:
A maior parte dos lojistas reconhece que os preços praticados pelo comércio
formal são mais elevados do que os praticados pelo comércio informal. No
entanto, e diferentemente do que ocorre no comércio informal, essa aparente
"desvantagem sucumbe frente às facilidades de crédito disponíveis ao
consumidor que opta em fazer suas compras ao comércio formal.
As atuais estratégias de comercialização dos lojistas vão além da oferta de
facilidades de pagamento, variedade e qualidade de mercadoria mas na adoção de
idéias mercadológicas,
como a programação do ato de comprar e vender das ruas-
shopping; com a formação de Associações de Rua, com sistemas de condomínio,
erradicando os que não acordarem com os objetivos da categoria. Aliado a eles, há
um contexto de falsificação de produtos, grande afluxo de importações clandestinas
e aumento do nível de desemprego, que, no Brasil, cria as regiões provedoras de
artigos e mão de obra barata, como a sulanca.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
154
3.2 Em busca da padronização do comércio Informal:
os quiosques de Camelôs
As ruas do Centro de Recife sempre apresentaram comércio de ambulantes e
camelôs. Este tipo de comércio informal, livre e, de certo modo, criativo, é parte da
história do Recife140como na maior parte das cidades
Entretanto, o comércio de rua está associado a símbolos de pobreza,
desemprego, violência e sujeira que, em seu conjunto, produz um espaço pouco ou
quase nada atrativo para a classe média da cidade. Sem perceber a função do
comércio de rua como redutor do desemprego aberto, a maioria das análises o reduz
a uma idéia negativa de congestionamento de ruas e de falta de dinâmica própria
(Figura 30, 31, 32 e 33).
A pobreza da maioria dos habitantes do Grande Recife tem sido ampliada nos
últimos anos, fruto do processo histórico de desenvolvimento da cidade, que
coaduna com o do Nordeste brasileiro141 e do Brasil. Entende-se aqui por pobre "a
pessoa que integra uma família, cuja renda mensal não garante a aquisição de uma
cesta básica, que permita a todos os membros a satisfação de suas necessidades
140
FUNDAJ, op. cit. p. 232.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
nutricionais". Fig. 30 acima: Os Camelôs na Rua Tobias Barreto. Foto: Kátia Ribeiro,1999.
Fig. 31: Quiosques Padronizados para Camelôs.
Foto: Kátia Ribeiro, 2000.
Fig. 32: Os Camelôs voltam às ruas - as possibilidades afloradas.
141
PREFEITURA DE RECIFE. Retrato de Recife - Situação Econômica e Social. Recife, 1994.p 17-23.
155
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
156
Essa pobreza, se não aumentou em termos relativos, seguramente aumentou
em termos absolutos, em número de pessoas. No Grande Recife, o comércio de rua
possui a função de reduzir um pouco essa pobreza, em virtude, precisamente, da
probalidade que o trabalhador tem de procurar emprego e não o achar. Tem de se
converter em trabalhador informal, ambulante ou camelô: esta é uma razão que em
parte explica o baixo índice do "desemprego aberto" tende a ser mínimo nesta
cidade, frente a taxa de 7,3% do índice nacional142.
Correia143 aponta que o comércio de rua do Recife apresenta especificidades
no que se refere a sua expansão recente, sua flexibilidade, acesso ao espaço,
heterogeneidade e conflitos, tanto internos quanto externos, mostrando-se dinâmico
e articulado às mudanças de hábito de seus consumidores, seja por épocas festivas
(artigos natalinos, juninos) seja por conjunturas econômicas (ramo alimentício
ampliado em relação ao de vestuário, em tempo de recessão econômica).
Figura 33: Quiosques da Rua das Flores. Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
142
CAVALCANTI, Clóvis. Viabilidade do Setor Informal - a demanda de pequenos serviços no Grande Recife. p.
11-12.
143
CORREIA, Telma de Barros. A Prefeitura do Recife e o Comércio de Rua. Op.cit. p. 18-33.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
157
Tais especificidades o fortalece, criando assim o principal conflito com os
lojistas: a concorrência “desleal”, indicada como a principal causa do afastamento de
parte da clientela de renda mais alta, que se afasta por dificuldade de circular e ter
acesso às lojas e de trafegar em ruas sem segurança e sem limpeza pública.
Ainda segundo Correia144, o papel desempenhado pelo comércio de rua no
processo de afastamento das classes de renda mais alta do centro é bem menos
relevante que o atribuído pelos lojistas. Há mudanças qualitativas na atividade
comercial, materializada na expansão do comércio de artigos populares e no quase
desaparecimento do comércio destinado às classes altas, cujas lojas fecharam ou
estão progressivamente passando a vender artigos populares.
Nesse processo, a Autora aponta como fatores causadores dessa mudança: a
constituição de centros secundários de comércio nas áreas residenciais de classe
média e o surgimento dos shopping centers, sendo, portanto, a presença e a
expansão do comércio de rua elementos que aceleraram ainda mais esse processo
de mudança de uso do lugar.
As ruas-shopping Nova, Duque de Caxias e Imperatriz representam o “lugar
onde os conflitos gerados em torno do comércio de rua são mais constantes,
envolvendo a categoria e lojistas estabelecidos nas principais vias comerciais dos
bairros de Santo Antônio e da Boa Vista"145.
Esses conflitos desencadearam o Plano de "reordenamento" do comércio
ambulante (assunto tratado anteriormente), consistindo em uma série de medidas
anunciadas pela Prefeitura de Recife, através do então Secretário de Infra-estrutura
João Braga, aos empresários do Clube de Diretores Lojistas: a proibição do comércio
de frutas e verduras no centro, deslocadas para as feiras e mercados dos bairros; a
construção de módulos com quiosques próximos ao Camelódromo da Avenida
Dantas Barreto; a seleção de ruas cujo comércio ambulante seria terminantemente
144
145
Idem; p. 61-62
FUNDAJ, op. cit. p. 59.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
158
proibido, "como já vem acontecendo com as ruas Nova, Palma, Duque de Caxias e
Imperatriz"146.
Para viabilizar seu Plano, a Prefeitura solicita dos comerciantes as "comissões
de ruas" (atuais associações de ruas) que, entre outras funções, se encarregariam
de atribuir conceitos aos fiscais de ruas. Esses conceitos influenciariam os salários
dos fiscais, que teriam suas funções ampliadas, pois a função de impedir a entrada
dos camelôs nas ruas revitalizadas não seria mais uma necessidade urgente mas
sim, a de detectar as necessidades e acionar a execução do serviço147.
A vigilância da rua aumenta a cada dia. Ainda podem ser encontrados
camelôs nas ruas do Centro. Em nossa pesquisa, não foi encontrada a mercadoriavestuário entre os camelôs, o que inviabilizou o método comparativo entre os
quiosques de camelôs e os vários centros de compras: as ruas-shopping e os
camelódromos.
Em levantamento do comércio de rua, do trecho que compõem o "Pólo
Imperatriz, desenvolvido pela CSURB148, foi detectada a presença de 79 pontos de
comercialização,
representados
no
QUADRO
10.
Entre
as
formas
de
comercialização se encontram: a) quiosques: revistas, bebidas, bombons e sorvetes;
b) barracas: de coco, almoço, lanche, bebidas, pulseiras, chaveiros e bolsas; c)
fiteiros: de bombons, óculos, ervas e chaveiros; d) bancas: revistas, consertos em
geral; e) carroças: de tapioca, milho verde, lanches, coco e frutas tropicais; f) carros:
de lanche.
146
DIÁRIO DE PERNAMBUCO. Comércio ambulante terá um novo reordenamento. Caderno Cidades. Recife,
Quinta-feira, 28 de janeiro de 1993.
147
JORNAL DO COMMERCIO. Fiscalização no Centro - Prefeitura pede a lojistas ação contra camelôs.
Cadernos Cidades. Recife, 14 de janeiro de 1993.
148
PREFEITURA DA CIDADE DE RECIFE/ CSURB. Levantamento do Comércio Informal no Centro - Pólo
Imperatriz. Recife, abril de 2000.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
159
QUADRO 10: O PÓLO IMPERATRIZ
Suas ruas e estabelecimentos do comércio informal
Centro de Recife, abril/ 2000
RUAS
Hospício
Imperatriz
Aragão
Pç. Maciel Pinheiros
Conceição
Bulhões Marques
Rosário da Boa Vista
Sete de Setembro
Gervásio Pires
Martins Júnior
QUANTIDADES
15
02
01
08
16
07
02
13
12
03
Fonte: PCR/CSURB. Pólo Imperatriz. Recife, abril de 2000.
Os camelôs diante das dificuldades de se manter nos camelódromos, voltam
para as ruas, passando a comercializar suas mercadorias em modalidades diversas.
Sendo, entretanto, sua permanência inibida pelo policiamento ostensivo, resta-lhes a
alternativa de comercializar mercadorias que facilitem o deslocamento “rápido” na
hora do “rapa”, seguramente o motivo da não comercialização da mercadoriavestuário.
Surgem, assim, novas formas de comercialização, como as vãns (automóveis)
que se transformam em lanchonetes e as roupas-cabide, aquelas onde são
pendurados os produtos no próprio corpo do camelô, ao mesmo tempo em que
antigas formas voltam à cena, tais como o uso do tabuleiro em "x", facilmente
transportável, como também das cestas de comida.
Não se vêem camelôs nas ruas-shopping, apenas entre elas. Atravessando a
Praça da Independência (Praçinha do Diário), entre as ruas-shopping Duque de
Caxias e Nova, observam-se quiosques de venda de coco verde, bolsas e cintos, por
trás das grades que separam os ambulofixos dos ambulantes (Figura 34). Há um ou
outro camelô com seu tabuleiro. Suas mercadorias paraguaias, chinesas ou
coreanas esperam a hora de serem sacolejadas na correria do "rapa”, ação dos
policiais para apreender os objetos vendidos irregularmente nas ruas dos centros
urbanos brasileiros. São camelôs novatos, pois os veteranos (existentes antes do
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
160
Plano de Revalorização) estão lotados nos camelódromos do Cais de Santa Rita e
da Avenida Dantas Barreto, ambos localizados no Bairro de São José.
Figura 34: Grades da Praça da Independência.Foto: Kátia Ribeiro, 1999.
Entendemos que o comércio de rua, ainda sob forte tensão, resiste às
intervenções do Plano de Revalorização do Centro de Recife. O espaço se reproduz
de forma fragmentada, onde convivem ruas de camelôs, camelódromos e quiosques
de camelôs em constantes conflitos pela disputa do lugar. Assim, para compreender
esse espaço, é necessário captar uma parte da vida cotidiana dos indivíduos nele
envolvidos, "um aspecto do drama escondido, a situação dessa cotidianidade"149.
3.2.1 Novas formas do comércio de rua:
o camelô faz a novidade
O Centro segue sua dinâmica, surgindo outros camelôs e com eles, a
necessidade de relocá-los para uma área planejada. São os quiosques dispostos em
vários lugares do centro: ruas e esquinas, praças e laterais de lojas recebem os
pontos comerciais, onde os ambulantes tornam-se fixos, "ambulofixos",
vendendo
coco-verde, lanches, bolsas e cintos.
Cada dia é mais uma rua a ser "limpa" de camelô e apenas alguns deles
permanecem, ou confinados a quiosques, dentro ou fora dos camelódromos, ou em
149
LEFÈBVRE, Henri. Critique de La Vie Quotidienné II. Fondements d'une sociologie de la quotidienneté.
Paris: L'Arche Editeur , 1961. P. 23.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
161
meios de locomoção de mercadoria, a exemplo das telas, tabuleiros e mesmo da
roupa dos camelôs, meios de exposição dos produtos no centro.
Durante o dia todo, o Centro pulsa com o ritmo da vigília daqueles homens da
CSURB, apreendendo as mercadorias, com as "carroçinhas" e seus policiais da
Guarda Municipal. Além deles, os guardas de Apoio Lojista (Figura 35) encarregamse de tudo ver e comunicar à Polícia Militar Estadual, através de um laptop ou
celular. Logo chegará o dia em que as câmaras de vídeo sairão das lojas (quase
todas possuem uma delas em seu espaço interior) e virão para as ruas.
Figura 35:Guardas de Apoio Lojista: a rua sob vigília.
O CTR ainda é visto como o lugar do "cheira - cola", do menino de rua, do
"trombadinha", que levavam os relógios das pessoas que se descuidavam, tentando
olhar as vitrines das lojas ou mesmo circulando pelas ruas, ao descer dos ônibus.
Um amplo programa foi criado pelo CDL, levando-os a tornarem-se alunos
profissionalizantes em Escola Profissional, mantida pelo lojistas e localizada no
bairro do Curado, no município de Jaboatão dos Guararapes.
Mas o estigma do Centro se mantêm vivo no imaginário das pessoas que
freqüentavam o Centro naquela época. Segundo o gerente das Lojas Emmanuelle,
quando existiam camelôs nessas ruas "o corre - corre era grande, pois dificilmente
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
162
"pegava-se" um menino de rua. pois eles se "misturavam aos camelôs". (entrevista
concedida em maio de 2001).
O Centro e o camelô. Acreditava-se que a retirada dos camelôs dessas ruas
contribuiria para o retorno do consumidor de classe média, que se dirige aos
shopping centers e hipermercados. E o consumidor não voltou. A transformação é
muito mais ampla. Não é só no plano do formal, mas no social.
3.3 A Fragmentação sócio- espacial: A pulverização de
centros no Centro
As tentativas de trazer de volta o prestígio do lugar culminaria com a criação
do "Pólo Imperatriz". Esse Plano de revalorização de um conjunto de ruas do Bairro
da Boa Vista surgiu a partir da proposta da "Galeria Imperatriz", uma das primeiras
reivindicações
dos
lojistas
do
Centro,
especificamente
da
Associação
dos
Comerciantes da Rua da Imperatriz e adjacências (ACRIA), após a retirada dos
camelôs em 1992.
Segundo entrevista concedida pelo Presidente da ACRIA, Sr. Marcos Galo, o
Projeto partiu da necessidade de se desenvolver estratégias para modificar essa
situação do comércio do Centro da Cidade, passando a fazer modificações que iriam
ao encontro dos pontos problemáticos, às mudanças dos consumidores e à falta de
estacionamento:
Detectamos que os consumidores não vêm ao Centro, pois compram no
subúrbio, por causa do medo, da insegurança com os trombadinhas. Agora os
tombadinhas desapareceram pois fizemos um trabalho de não deixá-los entrar
nas ruas do Pólo Imperatriz, mais diretamente como um todo. A falta de
estacionamento, pensávamos que era uma questão preponderante e
importante. Na pesquisa que fizemos, nosso cliente que vem no Pólo não vem
de carro, vem de ônibus, furgão. À pé ou bicicleta. Uma faixa considerável de
90% não está comprando aqui, a faixa de classe B, pela falta de
estacionamento. Só 7% tem carro.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
163
A pesquisa referenciada pelo Sr. Marcos Galo corrobora com os dados e
informações coletados por nós, através de entrevistas. Segundo as conclusões do
trabalho150,
a
região
do
Pólo
Imperatriz
é
atualmente
considerada
como
especializada na venda de roupas e calçados; é o destino inicial dos usuários que,
por sua vez, apresentam um perfil de renda relativamente baixo e freqüentam pouco
o local para compras. Como desvantagens apontam a falta de segurança e a sujeira
no local. Entre os piores itens estão: a falta de conforto e a dificuldade de
estacionamento.
Considerando os problemas apontados pelos usuários, é possível afirmar que
a presença de um razoável número de shoppings e grandes magazines na
cidade elevou o nível de exigibilidade dos consumidores, mesmo nas camadas
de renda mais baixa151.
A falta de estacionamento exigiria que o Projeto da Galeria Imperatriz, restrita
à Rua-shopping Imperatriz se transformasse em Pólo da Imperatriz, um projeto que
engloba várias ruas: a Rua da Imperatriz, a Rua do Hospício e a Rua da Aurora,
abrangendo mais ruas, onde seriam construídos dois estacionamentos: a) vertical,
através da iniciativa privada, com capacidade para 3000 automóveis/dia ou 500
simultaneamente, localizada à Rua Dr. José Mariano Bulhões de Carvalho; b)
horizontal, localizado na Praça Machado de Assis, através da Prefeitura Municipal do
Recife, com entrada pela Rua do Hospício/ Rua Martins Júnior. Nessa etapa, seria
necessário o prolongamento da Rua Martins Júnior até a Rua da Aurora. Em vista da
dificuldade de investimento para sua implantação, o estacionamento seria substituído
provisoriamente pela melhoria do atendimento. Segundo Marco Galo:
Antes do Estacionamento, melhoramos o atendimento do cliente, para isso é
necessário, treinar o funcionário. Começamos com um Projeto básico, àquele
da Cobertura da rua-shopping Imperatriz. Hoje estamos dando início ao
treinamento de funcionários, gerentes e proprietários, cerca de 900 estão
fazendo cursos: Qualidade de Atendimento, Gerência de Vendas, Matemática
Comercial, Depósito e Estoque, enfim 11 cursos em 20, 30 e 40 horas todos
oferecidos na sede do Pólo Imperatriz, o que evita que o funcionário saía de
seu espaço de trabalho, o que criaria uma triangulação de gastos. Oferecemos
150
DATAMÉTRICA. Perfil e Opiniões dos Frequentadores do Pólo Imperatriz. Recife, 21 e 22 de fevereiro de
2000.
151
Idem. p. 17.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
164
lanches, apostilas e material didático. Esses recursos são do Fundo do
Amparo do Trabalhador. É do trabalhador apenas estamos em parceria com a
UFPE, pelo Instituto de Apoio a Universidade, como coordenador pedagógico.
Nessa sala da coordenação era a sede da Associação.
As ações de treinamento culminariam com a instalação de uma Instituição de
Ensino Superior - Faculdade de Serviços e Comércio, a ser implantado no Colégio
Marista que, além de se encontrar na área do Pólo Imperatriz (Avenida Conde da
Boa Vista) possui um espaço físico enquadrado nas exigências do MEC152.
Em entrevista ao Sr. Marcos Galo, indagamos quando será a implantação do
Projeto, no que se refere às obras, e o que havia de pronto para a execução. O
Presidente da ACRIA respondeu:
Temos um Projeto Executivo se aprontando e, paralelamente ao Projeto
Executivo já estávamos findando o contrato de Concessão do Uso da Área
Pública, só que o nosso Prefeito Roberto Magalhães não se elegeu, estamos
aguardando que o próximo Prefeito eleito Dr. João Paulo tome posse e daí
continuaremos as negociações em torno desse Projeto.
O Contrato de Concessão de Uso da Área Pública153 abrangeria as 14 ruas
adjacentes 154. Perguntamos se a rua pública passaria a ser uma rua privatizada:
É mais ou menos isso. Teríamos a concessão de exploração de um espaço
público, a Associação(...). A situação é a seguinte: só cuida quem usa. Você
tem um carro, você cuida para ele continuar sobrevivendo. Nas grandes
metrópoles e nas pequenas metrópoles, onde o Governo Municipal implantou
algum equipamento e entregou para ser explorado, aquilo não prosseguiu.
Indagamos se seria um sistema de parceria: "É, exatamente. Não pretendemos
pegar a coisa pronta. Nós mesmo, os Empresários, fazemos um Projeto e temos a
aprovação do Governo Municipal. Pois na hora que eu invisto meu dinheirinho e gasto meu
dinheirinho, eu vou cuidar daquela coisa para ela não se desgastar".
152
FASC - Faculdade de Serviços e Comércio. Proposta para Instalação de Uma Instituição de Ensino Superior In
Anexo ao Ofício ACRIA 0034/2000, destinado ao Ir. José Artur de Câmara Cardoso, Superior Provincial da
Província Marista Norte. Recife, Rua da Imperatriz, 1º de setembro de 2000.
153
Consiste em um conjunto de medidas que habilitaria o Pólo Imperatriz, através da Associação de Rua ACRIA - a gerir o espaço público. As negociações foram paralisadas em 2001, com a mudança de gestão
municipal.
154
Idem, p 1.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
165
Nesse Projeto os comerciantes se envolveram a partir de uma preocupação
conjunta. O CDL fez a intermediação entre os lojistas e a Prefeitura, que deu o apoio
na pavimentação de ruas e
reestruturação do comércio de rua, em 1992. Nesse
sentido, questionando a forma das relações dos lojistas com o CDL, identificamos
que há conflitos. Segundo Sr. Marcos Galo:
Existe todo um trabalho político por trás dessa ação . Eu não tenho essa
habilidade. Então o que tenho feito é executar as necessidades do conjunto de
lojistas através da Associação. O CDL não é o Clube em si, sua administração
em si, mas a Diretoria atual desse Clube que não está dando a devida atenção
ao Projeto, não está participando, não está colaborando. Tem alguns casos
que se mostram contrários a esse Projeto. Mas eu entendo, o interesse dessa
Diretoria do Clube de Lojistas atual é de atender toda a Região Metropolitana
do Recife e na hora que ele se empenha por um Pólo, como é o nosso, um
microcosmo de toda a Região ele estaria faccionando o setor. Então o CDL,
em uma época atrás, com outra Diretoria, participou ativamente, reunindo
todas as Associações de Rua, das quais a ACRIA é uma delas, e tentou que
elas trouxessem melhorias para o Centro da Cidade, essa de agora ela tem
feito somente gestões para decoração de ruas. Essa de agora é de 03 anos
atrás, cujo Diretor é o Sr. Eduardo Catão, um companheiro lojista que eu
admiro muito mas tem uma prioridade que não é esta. Eu o respeito.
Figura 36: Portões de entrada e saída das ruas-shopping.
Fotos A e B: Kátia Ribeiro, 2002.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
166
A Prefeitura da Cidade de Recife também apresentou uma relação de
parceira, na gestão anterior. Para a Secretária de Planejamento da gestão Roberto
Magalhães, Dr.a Celecina Pontual, entre os vários Projetos de Revalorização,
reconhecia-se, em especial, o Pólo Imperatriz, enfatizando "a necessidade de se
estabelecer um modelo adequado de gestão para implantação do citado Projeto"155.
Naquela ocasião, o Instituto da Cidade de Recife - ICR foi apresentado como órgão
articulador das ações junto ao Poder Público, indicando a Procuradoria Jurídica,
através de seus advogados, para ficar à disposição dos advogados da ACRIA para,
juntos, proporem o Modelo Jurídico da Concessão de Uso da Área Pública. A
condução
do
processo
de
implantação
do
Projeto Pólo Imperatriz seria de
competência da ACRIA, segundo acordo firmado com o Prefeito Roberto Magalhães.
Esse apoio é enfatizado pelo Sr. Marcos Galo, em entrevista:
A Prefeitura da Cidade de Recife tem dado muito apoio. Ela tem dado tanto
apoio que formou o Instituto Pólo, que é o Instituto da Cidade de Recife,
dentro do Projeto de Desenvolvimento da Cidade. Ela vinha até antes das
eleições, fazendo reuniões periódicas, com distribuições de tarefas, na reunião
seguinte trazíamos as solicitações já prontas sobre os itens propostos:
segurança, estrutura sanitária. Sabemos hoje que a Região Metropolitana tem
deficiência de segurança, estrutura sanitária, estacionamento, principalmente
nessa área do Pólo, porque esses organismos se juntavam. Sabemos a
arrecadação do ICMS das ruas. Estamos recebendo a arrecadação do IPTU
da área. Pretendemos gerir isso, quando pegarmos essa Concessão.
As
transformações
da
Rua-shopping
Imperatriz
em
Galeria
Imperatriz
envolvem obras que vão desde a cobertura da rua, com 18 metros de altura por 15
metros de largura e 300 metros de extensão, fazendo deste logradouro "um Centro
de Eventos, trazendo assim, por seu aspecto monumental, cultural e comercial, um
aumento no número de freqüentadores". O Projeto que partiu da idéia de se constituir
num Shopping center de Rua, a exemplo de Curitiba, Aracaju e Teresina,
agora é
denominado Meu Centro de Compras do Recife, "um local aprazível, onde as
pessoas possam ter conforto na chegada, na estada e na saída, para chegar em
155
NOTAS DA REUNIÃO DA COORDENAÇÃO GERAL. Implantação do Pólo Imperatriz. Recife, 03 de julho de
2000.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
167
casa. Conforto no pagamento. Isso é o que queremos trazer. O que todo shopping
center tem, ou mesmo ruas comerciais, nós já temos. Precisamos organizar",
esclarece o Sr. Marcos Galo.
Além da Cobertura, a rua-shopping teria seu piso trocado por um "mais
nobre", implantação de mobiliário urbano (telefone, correios, bancos e lixeiras);
sinalização (informação visual e de orientação e implantação de sanitários públicos e
galerias de pequenos serviços). Atualmente, a administração da rua-shopping está
sendo feita através de um condomínio, onde cada lojista paga uma taxa e essa
arrecadação é direcionada para a rua, mas não para obras do Projeto. Esse sistema
de condomínio seria mantido, de acordo com depoimento do Presidente da ACRIA:
Depois do shopping pronto seria estipulado um condomínio que seria formado
pelos lojistas. Mas até então, a construção da obra não seria às custas dos
lojistas, seria de investimentos externos. Você vê aqueles mega portais das
entradas das ruas da Aurora, Hospício, Sete de Setembro e Bulhões
Marques? Eles são muito bonitos, são monumentais, tem 18 metros de altura
e 15 metros de largura. O Portal da Rua da Aurora seria visto por dia por 620
mil pessoas. Qual é o veículo de mídia hoje que dá esse fluxo. Hoje temos
investidores que estão dispostos a inserir sua marca, seu dinheiro, que
somado a arrecadação do ICMS, parcerias com financeiras e administradoras
de cartão, o uso do hall que teríamos coberto com acrílico, onde ocorreriam as
feiras e eventos. Apenas a manutenção da rua seria feita através de
condomínio. Temos várias fontes de recursos para a construção da Galeria.
A Galeria Imperatriz é um modelo de inserção privada no espaço social,
através da mediação técnica ou de infra-estrutura, e da mediação jurídica, o direito
de propriedade e os constrangimentos administrativos que regulam o poder de
disposição das parcelas do espaço social. A rua é um ben coletivo, ou seja, refere-se
aos produtos que fazem parte das condições gerais da reprodução social, cujos
efeitos úteis não seriam passíveis de uma apropriação mercantil. O Projeto que
transforma a rua em uma Galeria refere-se à combinação de efeitos (coletivos e
externos) marcando-a por uma nuança "dinâmica", suscitando automaticamente uma
localização coerente das produções privadas. Nada prova que os efeitos externos,
àqueles que se referem à não superposição de uma cadeia de processos de
168
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
valorização de capitais privados, da Galeria Imperatriz bastarão para cristalizar os
efeitos externos entre várias atividades privadas que utilizam o mesmo ben coletivo.
Indagamos se o espaço seria um espaço fechado onde pudesse haver
solicitação de pagamento para as feiras, ou não, as ruas teriam portões abertos,
articulados a outras ruas. Para o Sr. Marcos Galo:
É uma rua que continuará sendo uma rua só que uma rua tratada, coberta. As
feiras e eventos estariam em baixo dessa coberta, não sujeitas às intempéries.
Por exemplo, uma Feira de Informática. O melhor local para se vender
computador é onde estão os consumidores. Só de lojistas aqui na cidade
temos 200 mil. A Feira de Utilidades Doméstica que não conseguiu decolar
aqui em Recife, poderia expor aqui, no local onde circulam 80 mil pessoas/dia.
Para se ter uma idéia eles gastam 70 a 80 mil reais por semana para colocar
70-80 mil pessoas no Centro de Convenções, aqui não teria essa despesa
pois já tem o pessoal passando.
A rua deixa de ser
considerada
como
um espaço social, dimensão espacial da sociedade
totalidade,
como
"comunidade
material",
como
produto
da
atividade coletiva, independente das atividades particulares de cada um, para ser
transformada em um centro de compras, cuja administração seria feita por uma
Associação,
"comunidade
ilusória"
apoiada
pelo
Estado,
que
toma
a
forma
Pólo
Imperatriz
independente e separada dos interesses reais do indivíduo e do conjunto.
Em
pesquisa
desenvolvida
pela
ACRIA,
os
lojistas
do
possuíam o seguinte perfil: a) 82 % são sócios majoritários, residem em Recife e, em
sua maioria (72,5%), estão estabelecidos no Pólo há mais de 20 anos; b) 73% dos
lojistas pesquisados possui apenas 01 estabelecimento no Pólo. Apenas 20% dos
que possuem estabelecimento fora do Pólo, estão instalados em shopping centers156.
Quanto aos comerciantes insatisfeitos com o Projeto, que planejam sair ou não da
rua, o Presidente da Associação responde:
Não. Tem muito comerciante de marca chegando de olho nesse projeto. Mas
como todo lugar, temos comerciantes insatisfeitos, nem vindo e nem
colaborando; nós temos uma mensalidade que vai chegar de R$ 30 a R$
100,00, depende do porte da loja e esse comerciante insatisfeito diz que não
vai pagar porque qualquer benefício que vim para rua ele vai usufruir do
156
ACRIA. Perfil e Opinião dos Lojistas do Pólo Imperatriz. Recife, março de 2000.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
169
mesmo jeito. Ele alardeia que é mais inteligente que os outros mas vejo isso
como falta de participação, que pensa assim está fadado ao insucesso. Já
temos artifícios para pressioná-los a sair da rua, mas juridicamente, não.
Agora não podemos porque o projeto está em elaboração mas com a
concessão do uso público, teremos uma força maior que é a da Prefeitura,
poderemos delegar alguém. Não gosto da obrigatoriedade mas poderemos
detectar através das liquidações/promoções, identificar o lojista para chamar
esse lojista a se envolver. Existem muitas maneiras.
A força maior é do poder público municipal que ao intervir na jurisdição
fundiária, afasta os constrangimentos administrativos entre agentes privados, atenua
as insuficiências da lei de valor na alocação do espaço,
afasta em favor do
desenvolvimento capitalista, o "poder sobre o espaço" .
Entre as estratégias da Galeria Imperatriz está o resgate do footing, do lugar
do encontro, com cafés e cinemas. A rua seria transformada em um centro de
atração cultural: "Já estamos organizando os projetos, que tem desde o mamulengo na rua
até o reveion. Vamos ter baile de debutantes na rua, serestas, rodas de samba, toda uma
programação cultural e sazonal. Não podemos fazer nada de definitivo para não prejudicar o
fluxo. Nós temos a Festa das Nações. Temos muitas idéias.", enfatiza o Sr. Marcos Gallo.
Com relação ao comércio do Centro, o Presidente da Associação acredita em
sua especialização, mas restrita aos indivíduos com renda média, ou seja, assegura
as condições da reprodução de cada um dos agentes privados, protegendo-os contra
as intromissões vindas tanto dos operários como dos capitalistas isolados, ou seja,
amplia ainda mais a segregação no centro.
Ele vai se especializar numa faixa de consumo de renda per capita média de
15 salários mínimos. Eu vou dizer por que. A rua da Imperatriz, Nova e Duque
de Caxias era o eixo de venda...Era o melhor que se tinha, não só na Região
Metropolitana do Recife, mas no Nordeste do país, porque nós éramos a
Metrópole e a terceira capital e eu me lembro que as mercadorias eram de
primeira qualidade, boutique finas, tecidos luxuosos, as primeiras sedas que
chegavam vieram para a Rua da Imperatriz. Nós tínhamos a Volga, a ...Várias
lojas da moda. E a moda era lançada aqui. Nós tínhamos os desfiles. O
footing era depois do fechar das lojas.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
170
O Pólo Imperatriz mostra-se como um plano setorial que dificilmente se
tornará num pólo efetivo, pois está desintegrado da cidade. Acredito que a Prefeitura
da Cidade de Recife tenha que pensar sobre essa questão.
Figura 37: Loja de vestuário da Rua-shopping Nova - o requinte da loja com
portas de vidro e refrigeração, em contraste com o passante.
Foto: Kátia Ribeiro, 2002.
As ações da Prefeitura para o CTR estão em estudo. Segundo o Sr. Sérgio
Davi Farias, Diretor do Departamento de Indústria e Comércio da Secretaria de
Desenvolvimento Urbano da cidade, a proposta de Revalorização do Centro na
gestão do Prefeito João Paulo, possui características de estimular multi-usos,
trazendo pessoas para morar no Centro, oriundas de diversas classes sociais. "Entre
os agentes participantes encontram-se a Caixa Econômica Federal, que iniciaria com
a Revalorização de seu prédio comercial, tornando-o com uso residencial"157. Além
dessa proposta, o Projeto de Recuperação do Centro Expandido está sendo
desenvolvido na Secretaria de Planejamento, cuja Secretária é a Profª. Tânia
Bacelar, e está contido no Plano Estratégico para a Cidade, norteador do Plano Plurianual.
157
Entrevista realizada no dia 15 de maio de 2001, na sede da Prefeitura da Cidade Recife, pela autora.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
171
A Prefeitura vai partir de dois projetos: a) o Plano Diretor de Desenvolvimento
Urbano de Recife e b) o Plano - Projeto Capital158, que insere o Centro Expandido no
Projeto Cidade Competitiva - Centralidades. A partir das diretrizes estabelecidas para
a cidade, cria-se o PPA - Plano Pluri-Anual. Segundo a Sr.a Sandra Walmsley,
arquiteta do Departamento de Desenvolvimento Estratégico da Prefeitura, vinculado
à Secretaria de Planejamento, o Plano de Revalorização do Centro Expandido
caracteriza-o como:
O Centro Expandido é um espaço diversificado, com vários projetos, alguns já
implantados, outros apenas criados a que exigiu um mapeamanto, atualmente
em fase de conclusão pela URB, através da coordenação da Norma Lacerda.
A delimitação espacial adotada é a RPA 1, que insere os bairros centrais,
além dos já citados (Recife, Santo Antônio e São José) vem a Soledade,
Coelhos, Paissandu, Ilha do Leite e Cabanga. Portanto, a Prefeitura está
realizando um inventário dos Projetos do Centro, para articulá-los no
Planejamento local, a ser entregue até 1º de setembro159.
O Projeto Capital prevê a reabilitação urbanística dos bairros de Santo
Antônio, São José e Boa Vista a partir da "eliminação dos problemas decorrentes das
atividades informais nos locais públicos de interesse turístico", a partir da criação de
centralidades :"Dinamização dos bairros da cidade que, por suas peculiaridades e
potencialidades, apresentam maiores oportunidades de sucesso para se constituírem
em núcleos de negócios competitivos"160.
Algumas ações estão sendo desenvolvidas, como o Projeto Novas Calçadas:
Novos Rumos Para Uma Cidade Saudável161, onde todo o mobiliário e equipamentos
existentes ao longo das principais avenidas e ruas, estão analisados, envolvendo
várias empresas (CDL, DETRAN - Departamento Nacional de Trânsito, EMTU Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos e CSURB).
158
PREFEITURA DA CIDADE DO RECIFE. Projeto Cidade Capital - Cidade Competitiva. Recife, julho/1998 a
março/ 1999. P. 32- 33.
159
Entrevista realizada no dia 15 de maio de 2001, na sede da Prefeitura da Cidade Recife, pela autora.
160
Projeto Capital. Op. cit. P. 32
161
PREFEITURA DA CIDADE DO RECIFE. Projeto Novas Calçadas: Novos Rumos Para Uma Cidade
Saudável. Recife, abril de 2001.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
172
O Diagnóstico Descritivo das Calçadas da Conde da Boa Vista, é um projeto
que
está
sob
Desenvolvimento
a
coordenação
Urbano
e
e
Ambiental
responsabilidade
-
DIRBAM
-
da
e
Diretoria
do
Geral
de
Departamento
de
Desenvolvimento Estratégico da Prefeitura: "Esse diagnóstico está inserido no Projeto
Novas Calçadas, Novos Rumos Para Uma Cidade Saudável, cujos objetivos apresentam a
preocupação com a estética urbana, tendo um grande potencial de aceitação pelos
comerciantes, principalmente pela Associação dos Comerciantes da Conde da Boa Vista".
A atividade urbanística e planificadora do Estado responde à carência de uma
lei de valor do espaço central da cidade. As Associações de Rua assumiram o papel
de administradores de ruas públicas, criando uma espacialidade política que pode
ser visualizada sob a forma dos condomínios das rua-shopping, o que tem sido
constrangedor
para
o
poder
público
local,
convidado
a
prover
as
ruas
de
"equipamentos sociais", acelerando a segregação do espaço.
O espaço vai se transformando em mercadoria, ao seu valor de uso se impõe
o valor de troca. Não basta comprar em uma loja do centro, deve-se comprar em
uma rua-shopping. Dessa forma, surge a competição entre as ruas-shopping, visto
que cada uma delas, através de sua Associação, possui uma administração própria,
arrecadando os impostos dos proprietários e destinando-o aos serviços necessários
para melhoria do comércio da rua. A essa racionalidade planificadora soma-se uma
competição entre Associações de rua, concorrência por melhorias urbanísticas, por
consumidores e por comerciantes de "peso". Os meios são múltiplos e variados:
pressões, repressões, engodos, recompensas. Assim, a rua-shopping pode receber
a recente melhoria urbanística em detrimento da rua-shopping Imperatriz, mais uma
ação fragmentada no CTR.
A racionalidade se compõe de atividades fragmentadas, especializadas,
portanto reduzidas e sedutoras pela relação ao conjunto da sociedade e de
seu movimento.(...) As ações autoritárias do Estado não resolvem as
contradições, antigas ou novas. Elas separam -nas reduzindo os problemas e
as possibilidades.162
162
LEFÈBVRE, Henri. A Sobrevivência do Capitalismo.Capítulo XIII Algumas Contradições Antigas e Novas
teses e hipóteses. (tradução do aluno). p. 6.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistênciasCap III - A generalização da mercadoria...
173
A vida cotidiana do CTR é o lugar da troca, necessidades programadas,
práticas modeladas por manipulações, porém também matérias e subprodutos que
escapam aos poderes e formas que impõem seus modelos163. Entendendo que o
cotidiano é ambigüidade por excelência, satisfação e mal-estar, trivialidade e
aborrecimento, procuramos entender: para onde vai esse processo e quais novas
práticas sociais surgem?
O urbano entendido como um modo de vida surgido de relações na cidade,
traz consigo a diferenciação de classes sociais. Portanto, o CTR representa os
desejos de lojistas, ambulantes, consumidores e Estado. As práticas de cada um
pode
incorrer
Revalorização
na
integração
e/ou
são
segregadores
e,
segregação
em
sócio-espacial. Os Projetos de
resposta,
as
contradições
emergem
desencadeando forças destruidoras, agravando ainda mais sua situação. O que
poderia neutralizar os conflitos, termina por agravar pois há um esforço da
privatização dos espaços, distinção entre lojistas tradicionais X ambulantes.
O Estado ainda contribui mais, quando apoia a implantação dos shopping
centers e grandes estabelecimentos comerciais em eixos viários próximos, em
detrimento dos pequenos comerciantes e ambulantes do Centro. O Centro vai sendo
sitiado pela Prefeitura.
163
LEFÈBVRE, Henri. Critique de la vie cotidiene III..op.cit.p.232.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Considerações finais
174
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho procurou discutir as transformações e as persistências das
formas comerciais do centro urbano comercial de uma metrópole
-
a cidade de
Recife, decorrentes das intervenções urbanísticas desse espaço.
O centro tradicional de comércio de uma cidade é, em geral, um local de
grande intensidade de troca de produtos, momento mediador entre a produção e a
distribuição determinada por ela e o consumo. Representa também um momento de
troca de atividades e capacidades, quando os negociantes encontram-se num
mesmo local, inserido na divisão do trabalho e determinado pelo desenvolvimento e
articulação da produção entre várias cidades. O centro tradicional é pois, um lugar de
encontro entre a troca e o consumo.
O mercado consumidor exige que venham os produtos de outras regiões,
surgem, assim,
as franquias, aumentando assim, seus preços, contribuindo para a
concorrência perversa entre lojistas tradicionais da região com aqueles de outros
lugares. No caso específico do centro de Recife, o que vemos é que os
camelódromos surgem nesse contexto, e sendo eles locais que possuem como
característica principal a comercialização de mercadorias populares, entre elas a
sulanca, o conflito aumenta na medida em que os comerciantes tradicionais adotam
como estratégia de sobrevivência, a venda de produtos similares àqueles dos
camelódromos. Além disso, acredita-se que a criação de um local de troca de
produtos populares, deslocando-os do espaço público, a rua, para um espaço
fechado, pode suscitar também uma transformação da relação entre produção e
distribuição desse mesmo produto. O deslocamento do comércio informal do centro
da metrópole recifense passou dos camelódromos para as lojas das ruas-shopping,
feito, assim, para atender aos anseios de indivíduos de baixo poder aquisitivo,
público alvo do centro, e ao mesmo tempo atrair aqueles de renda mais elevada,
com
mercadorias
disponibilizadas
com
boa
qualidade,
em
ambiente
limpo
e
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Considerações finais
175
agradável. Como conseqüência, as práticas sociais decorrentes desse conflito,
contribuiu na fragmentação do centro.
Dessa forma, a cidade de Recife ao tomar como medida de intervenção a
eliminação do espaço público de comercialização de produtos populares, impede a
permanência de um local de troca historicamente consolidado, contrário às arbitrárias
mudanças de seu local, terminando por contribuir com o fim dos pequenos
comerciantes e com sua eficiente fórmula de redução da miséria. No nosso entender,
a coexistência das diferentes formas comerciais, comércio livre e o comércio
tradicional articulado e planejado, é a melhor alternativa para o comércio da cidade.
Assistimos a um processo de revalorização de outros centros urbanos
(Fortaleza, João Pessoa, Campina Grande) onde o aspecto de destaque é a retirada
de camelôs das principais ruas da cidade, confinando-os aos camelódromos. Como
resultado, o conflito se mantém, pois não só outros camelôs surgem na disputa pelo
espaço mais central como também, muitos comerciantes deixam de pagar as
diversas taxas cobradas para manutenção do camelódromo. Ocorre então a
concentração do capital no interior desses espaços, através da compra de boxes, a
exemplo de vários mercados públicos existentes em Recife. O Mercado Público de
São José é um exemplo, onde há um processo de concentração do capital, realidade
financeira que não é a mesma de sua implantação. Atualmente, um número reduzido
de comerciantes detém a posse da maior parte dos boxs.
As décadas de 50/60 apresentaram mudanças radicais no consumo. O
supermercado chega à cidade e rompe antigas relações sociais. Surgem mudanças
de comportamento decorrentes das diversas intervenções espaciais, onde cada vez
mais percebe-se que o lugar, ainda não mundializado, passa a ter influência do
global. As pessoas passam a consumir além das mercadorias, o espaço, pois o seu
consumo é fruto de uma indústria cultural global que se realiza no local.
O espaço cotidiano é ditado também pela economia de tempo, assim ele
torna-se fluído, através das mercadorias e do capital. A distribuição espacial das
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Considerações finais
176
mercadorias implica uma distribuição social. A desprogramação de uma rede de
comercialização pode mudar o cotidiano, pois o abastecimento da cidade é feito
através de redes. Assistimos ao desaparecimento de alfaiates e costureiras, pois
muitos consumidores buscam comprar o vestuário na loja, produzido fora de casa,
em pronta-entregas da região, ou em locais distantes, comercializado através das
redes, onde o preço da mercadoria torna-se mais baixo, uma vez que sua produção
é feita em série.
O urbanismo comercial brasileiro viu várias formas surgirem, a exemplo das
lojas populares, supermercados, hipermercados e shopping centers. Nesse mesmo
contexto, houve a reprodução dos camelôs. As regras do modo de vida urbano ditam
a vida da cidade. Uma das regras da cidade é o emprego, cujas estratégias para sua
criação são as mais variadas. O mundo assiste à perda da identidade do lugar que
vai cedendo lugar ao global. Há uma tendência à homogeneização do consumo.
Depois da Segunda Guerra, os produtores criavam as redes de distribuição de suas
mercadorias, isoladamente. No século 20, as relações passaram a ser alteradas. As
redes passaram a ser organizadas pelas grandes empresas, articuladas a um amplo
planejamento onde o lugar passa a se sujeitar ao plano do econômico. A gestão do
espaço pelo Estado deve procurar não contribuir para acentuar ainda mais esse
processo, que Lefèbvre indica como de descontinuidade espacial. A continuidade do
espaço torna-se, assim, ameaçada.
Com
todas
essas
inquietudes
fomos
a
metrópole
recifense
onde
o
desencadeamento das intervenções urbanas, resultante do Plano de Revalorização
do Centro Tradicional da Cidade de Recife gerou conflitos e contradições, cujos
efeitos são identificados no cotidiano do lugar.
Seu entendimento procurou se situar entre a descrição das novas formas
comerciais e entre o apontar para perspectivas e possibilidades de transformações
em curso, entre a compreensão e a análise.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Considerações finais
177
Na Introdução deste trabalho, foram registradas algumas hipóteses que
nortearam a tese. Uma delas relaciona-se ao fato de a programação do espaço de
consumo não atingir o objetivo de seus planejadores, não atraindo os consumidores
dos centros comerciais planejados, os SC, para suas ruas.
Ao contrário disso, há o fortalecimento de um comércio popular e diversificado,
principalmente no ramo de vestuário que viria competir com outras formas comerciais
especializadas nesse tipo de mercadoria, a saber: o comércio dos camelódromos e
os comerciantes de rua.
Sem
dúvida,
essa
transformação
foi
desencadeada
pelo
Plano
de
Revalorização do Centro, criado pela Prefeitura da Cidade, na medida em que fez
convergir para o Centro de Recife e, em particular, para as ruas-shopping, as
principais ações por elas solicitadas.
No que se refere às ruas-shopping, destaca-se a intenção do CDL, de tornálas semelhantes aos SC. Para isso, adota a Rua-shopping Imperatriz para iniciar o
processo, vindo em seguida as ruas-shopping Nova e Duque de Caxias, além do
Plano das Calçadas, que envolve vários eixos, a exemplo da Avenida Conde da Boa
Vista e Avenida Caxangá. Além disso há cada vez maior número de ruas cujos
comerciantes se agrupam em Associações, passando a programar o uso desses
espaços, tomando como principal medida, a proibição do comércio de rua, dos
camelôs e ambulantes.
Procuramos identificar os níveis de coesão entre os lojistas, em cada uma das
ruas-shopping analisadas, a saber: as ruas-shopping Nova, Imperatriz e Duque de
Caxias. Como resultado, percebemos que a forma de administrar as ruas é isolada e
desarticulada de todo restante do centro, pois cada uma das Associações de Rua,
tem um plano distinto. Além disso, percebemos que o CDL não vem acompanhando
as ações dos presidentes dessas Associações que, por sua vez, têm total autonomia
para negociar individualmente com o poder público, sem qualquer preocupação com
a cidade, em seu todo orgânico. A partir de então, distinguimos as necessidades dos
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Considerações finais
178
comerciantes de cada rua, bem como dos consumidores, e identificamos que as dos
indivíduos que vivem esse cotidiano está no plano do desejo individual, e que como
tal, se manifesta na vida cotidiana das ruas.
De fato, a administração das ruas-shopping procura otimizar sua função
viabilizando as lojas comerciais dessas ruas. Tem-se como efeito, o aumento do
ramo de vestuário, com mercadorias populares que se assemelham àquelas
comercializadas
nos
camelódromos,
impedindo
que
os
comerciantes
desses
camelódromos permaneçam nos estabelecimentos destinados a eles, restando-lhes
a alternativa de voltar às ruas.
Percebe-se, portanto, que se as transformações das formas comerciais não
estão ocorrendo como o planejado, os consumidores que se dirigem para os SC não
retornaram para o Centro, restando aos comerciantes das ruas do Centro a
alternativa de comercializar produtos populares, contribuindo assim, para acelerar a
fragmentação e a segregação do espaço.
Estas são as estratégias do processo de revalorização do espaço, revelando
um dos objetivos do Plano de Revalorização do Centro. Acredita-se que o ramo de
vestuário foi adotado pelas particularidades do mercado de produção de vestuário,
representado pelas cidades de Santa Cruz do Capibaribe, Caruaru e Toritama, no
nível regional e pelos países dos tigres asiáticos, no nível global. Não sendo o
vestuário, outro ramo comercial o substituiria no fortalecimento do mecanismo de
revalorização do espaço.
Isso se reporta à preocupação existente no capítulo 1, quando se buscou
resgatar o comércio de rua e o comércio estabelecido nessas ruas, no período que
antecede o Plano de Revalorização, a década de 80, quando surgem os SC em
Recife e o Centro passa a ser o lugar do comércio informal e popular.
Os conflitos decorrentes da retirada dos camelôs das principais ruas da
cidade, retornam agora para a rua com outra configuração: os comerciantes dos
camelódromos reivindicam o espaço que foram obrigados pelo Plano a abandonar,
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Considerações finais
179
instalam novos conflitos com os comerciantes de rua, tanto os formais quanto os
informais, uma vez que o comércio estabelecido comercializa a mesma mercadoria
que eles.
Essa contradição resulta em um centro fragmentado e conflituoso. Por um
lado, os lugares programados são orientados pela não permanência do comércio de
rua e tentam capturar a espontaneidade do ato de comprar e vender sem, contudo,
oferecer os atrativos dos SC, cada vez mais procurados por pessoas intencionadas
em lazer, conforto, encontros e compras. Por outro, os camelódromos são usados
como depósitos dos ambulantes que vão às ruas para vender suas mercadorias,
criando modalidades e resgatando outras formas antigas desse tipo de
comércio,
desviando-se das apreensões das carrocinhas dos rapas.
Assim, pode-se reportar à preocupação apresentada por programas eleitorais
de Prefeituras em adotar o camelódromo como solução para o comércio de rua, a
exemplo de João Pessoa e Campina Grande, na Paraíba, onde os espaços
confinados não resolveram o problema dos comerciantes que saíram das ruas e
foram transformados em comerciantes formais, submetidos aos pagamentos de altas
taxas de financiamento dos boxes, somadas aos pagamentos de condomínios, água
e esgoto.
Enfim, hoje a fragmentação do Centro Tradicional de Recife é expressiva, e
sua (re)produção espacial cria formas comerciais que se transformam e convivem
junto a outras que persistem, no constante conflito da disputa pelo lugar.
As ações se enquadram entre o plano do real e o virtual, sendo o virtual
representado pelo Plano de Revalorização, onde a
imagem de shopping centers
simboliza a intenção de implantar uma ampla programação do lugar de consumo
que, juntamente com a proibição do comércio de rua, desencadeia um cotidiano de
consumo do espaço, facilitado pela popularização das mercadorias das ruasshopping Nova, Imperatriz e Duque de Caxias.
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Considerações finais
180
O novo-velho Centro Tradicional de Comércio de Recife resulta dessa
complexa relação de fragmentação espacial e seus decorrentes conflitos,
onde a
disseminação da mercadoria vestuário surge como alternativa da permanência do
comércio das ruas-shopping, em oposição aos camelódromos e ao comércio de rua.
Conclui-se
daí
que
há
uma
persistência
do
comércio
popular
mas
com
transformações nas relações entre comerciantes, presidentes das Associações de
Rua e poder público municipal.
Surge o falso novo, onde a criação das ruas-shopping, dos camelódromos e
dos quiosques de camelôs passaria a representar a não transformação de um centro
de comércio mais articulado, lugar de todos, persistindo formas e mercadorias
populares como estratégias de camuflar o real consumo do espaço, aquele que faz
das ruas-shopping um protótipo do processo de valorização do centro da cidade.
As Associações de Rua, através dos comerciantes, programam o uso do
lugar, proíbem
o comércio de rua, privatizam um espaço público. São vários os
símbolos que evidenciam esse processo: grades e policiais nas ruas; o CDL que
assume o papel de gestor público, administrando a segurança; os comerciantes que
buscam viabilizar suas vendas através de produtos populares; os consumidores
procuram promoções.
Nas ruas-shopping, a mercadoria comercializada solicita os consumidores a
entender que qualquer semelhança é mera coincidência. Em meio a esse conflito
surge o acaso, representando o afloramento de possibilidades: novas formas de
comércio de rua indicam que o camelô faz a novidade. Confirma-se assim, o que
dissemos anteriormente: o Centro Tradicional de Comércio de Recife assim vai se
constituindo cada vez mais em um espaço fragmentado e conflituoso.
Entre as realidades afloradas percebemos que a legislação urbanística
municipal contribui para a pulverização de centros especializados no interior das
cidades, fortalecendo a relação entre o periférico, que passa a ser central, e o central
que passa a ser periférico, pelo menos para alguns tipos de ramos comerciais e de
O Centro de Recife e suas formas comerciais: transformações e persistências
Considerações finais
181
serviços. Passa a haver também uma inversão de procedimentos: inicialmente, os
shopping centers imitavam as cidades, mas agora as cidades imitam os shopping
centers. O centro de Recife assim entra no processo de shoppinização.
Os pressupostos que não são mais válidos, desconsideram o comprar e
vender como atos sociais, integrantes das diversas fases do processo de produção
social. O urbanismo comercial praticado no Brasil, sempre pensou o comércio como
animador e recuperador da malha urbana, sem qualquer preocupação com as
mudanças de centralidades no interior das cidades.
Ainda no decorrer do nosso trabalho, percebemos a importância da utilização
do método regressivo - progressivo pois ele contribuiu no entendimento dos escapes
e resíduos não previstos pelos governantes e comerciantes da cidade de Recife. A
partir do entendimento do cotidiano das ruas-shopping pudemos investigar qual sua
perspectiva e seu conteúdo objetivo. Investigando os vários níveis espaciais de
interação entre os lugares (as ruas-shopping, os camelódromos e os quiosques de
camelôs) vimos que eles interagem entre si, mesmo que resultantes de um processo
de intervenções isoladas. A análise regressiva-progressiva (do presente ao virtual projetos - e do real ao possível) possibilitou um
olhar diferente para um centro
heterogêneo e desarticulado.
Esse olhar diferente possibilitou detectarmos o drama escondido entre os
lojistas, os presidentes das Associações de Rua, comerciantes dos camelódromos e
dos quiosques, todos voltados a atuar a partir de suas necessidades individuais. Um
outro fato pôde ser entendido: o vestuário possui uma linguagem e espacialização, o
que permitiu a análise das novas formas de comércio e de consumo do espaço,
surgidas do confronto das ações do Plano de Revalorização do Centro de Recife
com as realizações do cotidiano. Do real com o virtual.
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