#Resisteestelita: um manifesto pela preservação do patrimônio portuário
da cidade do Recife
Maria de Lourdes Carneiro da C. Nóbrega (1) Isabella Trindade (2) Andréa Câmara (3)
(1) Curso de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Católica de Pernambuco, Brasil. E-mail:
[email protected]
(2) Curso de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Católica de Pernambuco, Brasil e Ryerson
University, Canadá. E-mail: [email protected]
(3) Curso de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Católica de Pernambuco, Brasil. E-mail:
[email protected]
Resumo: O artigo demonstra a necessidade de preservação das áreas de cais que abrigam o Patrimônio
Portuário da cidade do Recife a partir dos questionamentos e reivindicações levantados pelo movimento
popular denominado #ocupeestelita que questiona o projeto imobiliário chamado Novo Recife a ser
empreendido no Cais José Estelita, um local histórico localizado num dos bairros mais antigos da
cidade. O artigo tem como objetivo apresentar a importância do lugar, paisagem e preservação,
tomando como estudo de caso o cais José Estelita na cidade do Recife
Palavras-chave: Cais José Estelita; Patrimônio; Paisagem Cultural.
Abstract: This essay indicates the need of preservation concerning areas of docks that housing the
heritage Port of Recife city, based on questions and claims raised by the popular movement called #
ocupeestelita (occupy Estelita), that opposes a high-rise development project called Novo Recife (New
Recife) to be undertaken at José Estelita pier, a historical site located within one of the most ancient
neighbourhoods of the city. This essay aims to present the importance of place, landscape, and heritage,
taking the pier José Estelita in Recife as a case study.
Key-words: José Estelita Pier; Heritage, Cultural Landscape.
1. INTRODUÇÃO: UM MANIFESTO PELO CAIS
Dentre os inúmeros protestos ocorridos no Brasil desde junho de 2013, organizados pelas redes sociais,
um deles chamou a atenção da mídia nacional e internacional: o "Ocupe Estelita” (#ocupeestelita), na
cidade de Recife, cujo foco é centrado no modelo de urbanização que as pessoas desejam para a cidade
em oposição ao planejamento praticado nas últimas décadas, centrado na verticalização das edificações e
no automóvel. Manifestantes expressam o desejo de implementação de um modelo de urbanização cujas
ações projetuais tenham como premissa "o direito a uma cidade para as pessoas” (GEHL, 2013).
Neste caso, a manifestação pública situa-se na área litorânea da cidade denominada Cais José Estelita, no
bairro de São José. Uma área de mais de 10 hectares no centro histórico, ameaçada pela construção de um
projeto imobiliário intitulado pelo empreendedor de "Novo Recife". A partir do início da demolição de
antigos galpões existentes na área, em maio de 2014, que sugeriu o início da obra do questionado projeto,
manifestantes lá acamparam. A ocupação teve como objetivo dizer “não” ao modelo de projeto proposto,
a fim de proteger as edificações históricas e lutar por uma melhor proposta arquitetônica e urbanística, ao
menos, nesse trecho da cidade - o #ocupeestelita surgiu como um movimento de resistência e consolidouse como manifestação cultural. Os manifestantes também reivindicam a anulação do processo
administrativo que aprovou o projeto de construção do projeto, já objeto de ações judiciais que contestam
a sua legalidade desde 2012.
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Em junho de 2014, após algumas semanas de ocupação, os manifestantes acampados na área foram
violentamente retirados pela polícia militar, mas passaram acampar nas proximidades, como uma forma
de manter as reinvindicações e constituindo o movimento denominado #resisteestelita.
A manutenção do patrimônio histórico da área é uma entre diversas questões urbanas que são discutidas
com o manifesto e, motiva a elaboração deste artigo, que aborda as demolições de antigas edificações e
equipamentos urbanos na área do Cais José Estelita para a implantação do novo empreendimento.
O Recife, por estar implantado junto a um porto marítimo natural, configurou-se como entreposto
comercial desde a sua colonização. Tem assim uma estreita relação com as atividades portuárias e suas
dinâmicas, que foram transformadoras do seu espaço urbano e consequentemente da sua paisagem. O
porto e a arquitetura que o compõe são, ora agentes, ora testemunhas da história da cidade e têm uma
estreita relação com a morfologia urbana existente. Uma cidade configurada por vias que desenham eixos
radiais cujo centro ou o Marco Zero da cidade está no porto. Sem uma política renovada de conservação
do patrimônio histórico existente, o Recife presenciou áreas de patrimônio perderem seu valor econômico
e consequentemente seu valor de troca.
FIGURA 1 – Vista aérea da área central do Recife. Em amarelo está localizado a área do porto do Recife e em
vermelho a área co Cais José Estelita. Fonte: Desenho dos autores sobre imagem obtida através do Google Earth.
Transcorre-se assim, na contramão das atuais discussões internacionais em torno da preservação, que
consideram a necessidade de se planejar através de estratégias de integração que considerem “a evolução
orientada da paisagem e a preservação das áreas de paisagem cultural como parte de uma política que
abranja a totalidade da paisagem e que estabeleça a proteção unificada dos interesses culturais, estéticos,
ecológicos, econômicos e sociais do respectivo território” (Recomendação Europa, 1995).
No Recife a história que poderia ser contada através da arquitetura da cidade, dia a dia, é esquecida ou
apagada face às demolições das antigas estruturas para construção de novos empreendimentos, como é o
caso do Cais José Estelita.
Através da apresentação da importância do Porto do Recife para a história da cidade e dos processos que
lhe são pertinentes, bem como da análise das questões relativas às normativas de preservação elabora-se
como conclusão do texto a proposição de uma área a ser preservada, nos bairros do Recife e São José,
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onde se inclui o Cais José Estelita, e que abriga as edificações que compõem o conjunto arquitetônico da
arquitetura portuária recifense e constitui parte integrante do patrimônio industrial urbano e da Paisagem
Cultural da cidade.
2. QUANDO A ORIGEM É UM PORTO.
2.1. O Protagonismo do porto do Recife na história da cidade
O primeiro período do processo de formação da paisagem do Recife situa-se entre os primeiros anos do
século XVII a 1715. Este período é denominado segundo a periodização do sistema capitalista de
“período do capitalismo mercantilista” (NOBRE, 2000. p.15), que vai desde o início do capitalismo até a
revolução industrial. Período cuja acumulação de capital é proveniente das atividades comerciais
decorrentes das conquistas e expansões territoriais.
O mundo do século XVI presencia então a formação de rotas comerciais que surgiram no início do
mercantilismo expansionista, assim como presencia o surgimento de um mercado internacional “ávido a
transacionar e garantir a supremacia comercial das nações individualmente, e a qualquer preço”
(VARGAS, 1993. p. 127). As colônias fundadas neste período, como é o caso do Brasil, fruto das
conquistas expansionistas da Europa possuíam as mesmas características de localização, estavam junto a
um porto (marítimo ou fluvial) ou tinham acesso direto a ele.
O Recife, povoado denominado inicialmente por Duarte Coelho Pereira de “Ribeira do Mar dos Arrecifes
dos Navios”, não foge a estas características de localização: a de um vilarejo portuário de colonização
portuguesa. Ele surge em função deste comércio de importação e exportação, e a importância do seu porto
é ressaltada graças à importância do açúcar e da madeira nos mercados internacionais praticados.
No princípio, existiam próximo ao porto 200 casas, dentre as quais escritórios e armazéns dos senhores do
comércio de Olinda (capital do governo português, situada ao norte do povoado), vendas e tabernas e
eram então, moradia do povo dos Arrecifes, pescadores que viviam em torno da ermida de São Pedro
Gonçalves (ou Igreja do Corpo Santo). O Recife era um porto.
Apesar de ter o Recife sua ocupação inicial diretamente ligada ao comércio de importação e exportação
de mercadorias característico da época, pois seu porto natural podia abrigar a entrada de navios de grande
calado, o adensamento do povoado só veio acontecer após a ocupação holandesa (1630), e mais
especificamente após a escolha, pelo Conde Maurício de Nassau, deste sítio como sede de seu governo
(1637/1644).
“[...] em regra constrói-se um porto para servir a uma cidade; no caso levantaram os holandeses
uma cidade para servir ao seu porto (CASTRO, 1951. p. 42).”
O incêndio de Olinda, provocado pela invasão holandesa, fez com que o pequeno povoado do Recife
absorvesse grande parte da população que fugiu da destruição da guerra e que, somando-se a presença do
invasor, rapidamente o adensou.
Como representante da Companhia das Índias Ocidentais, o Conde Maurício de Nassau norteou sua
escolha para a localização de seu governo, de forma a melhor adequar às necessidades comerciais da
época à configuração territorial existente. O Recife é então escolhido por possuir melhor ancoradouro, por
ser defendido por fortificações e por se achar organizado para o tráfego ultramarino, pois, já era nesta
época, o principal porto de embarque do açúcar brasileiro, possuindo armazéns e trapiches necessários ao
embarque e desembarque de mercadorias, além de ser a rota (fluvial) natural do açúcar vindo dos
engenhos (WATJEN & SILVA, 2004).
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Após a saída dos holandeses a capitania de Pernambuco apresenta-se com dois importantes e distintos
espaços urbanos, a Praça do Recife, espaço portuário e do comércio consolidado no período de Nassau, e
Olinda, novamente sede do governo. Esses espaços caracterizaram também os principais aspectos da
sociedade deste período e seus principais conflitos. Novamente o porto, porta de entrada e saída de
mercadorias é o palco da história.
O Recife consolida-se neste período não apenas como espaço do comércio de exportação e importação,
detentor deste porto para embarque e desembarque de mercadorias, mas como o espaço detentor das
principais atividades de comércio e serviços características da época. Olinda e Recife representavam as
duas classes sociais que se destacavam neste período, os nobres ou mazombos representados pelos
senhores de engenho e considerados filhos da terra, e os mercadores ou mascates, comerciantes
estrangeiros ou cristãos novos (MELLO, 2003). De certo que as diferenças entre as duas classes
dominantes de Pernambuco veio fazer eclodir o conflito denominado Guerra dos Mascates, ou melhor, as
Alterações Pernambucanas (1711).
As Alterações Pernambucanas não só consistiram na luta pelo poder entre as duas classes (nobres e
mascates), mas também representaram, na análise do espaço urbano da época, a elevação da Praça do
Recife à categoria de Vila e a consolidação do espaço urbano do Recife como o espaço centralizador da
atividade comercial em Pernambuco, tendo seu porto como espaço centralizador das atividades
econômicas vigentes.
Este comércio é praticado até o século XIX, a então província de Pernambuco presenciou uma grande
expansão econômica, daí as ideias de liberdade que inspiraram as sublevações ocorridas no estado,
principalmente após a abertura dos portos brasileiros (1808), com o cultivo e exportação do algodão e a
manutenção do cultivo e exportação do açúcar que já vinha dos séculos anteriores. Recife, com seu Porto,
foi o principal entreposto comercial do Brasil, com um intercâmbio direto com a Inglaterra, maior
economia do mundo na época. O porto continua assim como espaço protagonista da história da cidade.
Inserindo-se neste contexto econômico, o Recife, além de exportar, também continua a importar diversos
produtos para atender à crescente demanda de consumo decorrente do seu aumento populacional. Inicia
no século XIX seu processo embrionário de industrialização, apresentando algumas fábricas urbanas. Não
fugindo a lógica industrial do período, o espaço da cidade passa, também, a abrigar estes equipamentos
ligados às atividades industriais, bem como o transporte sobre trilhos tanto de carga como de passageiros.
O mapa do Recife de 1914 já apresenta as ruas onde foram assentados os trilhos do transporte ferroviário
urbano, trilhos estes consolidados a partir da primeira linha ferroviária que ligava Recife à cidade do
Cabo (1855), segunda linha do Brasil – percebe-se nesta época a expansão dos equipamentos portuários
para o sul do território, com estação na área hoje denominada Cais José Estelita.
A então Vila do Recife, neste século é elevada à capital da província de Pernambuco e sua malha urbana é
expandida para além do núcleo central (Recife, Santo Antônio e São José) para áreas periféricas. Terras
de antigos engenhos de açúcar, periféricas ao centro, são loteadas e começam também a compor a cena
urbana. No século XIX o porto é o ponto de chegada (e de partida) de uma série de vias que começam a
surgir em uma configuração radial que o aponta como o Marco Zero da formação urbana da cidade, ou
seja, do porto. Pode-se dizer que é a partir do porto que a província se torna vila e vem em seguida a
constituir uma cidade.
O desenvolvimento do setor industrial iniciado no século XIX e a construção de ferrovias que ligavam o
Recife a povoações mais distantes contribuíram diretamente para as reformas no Porto do Recife
ocorridas em 1910. Após esta reforma, o espaço berço da formação do Recife passou a abrigar
estabelecimentos do comércio atacadista, estabelecimentos de serviços financeiros e estabelecimentos
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ligados á produtos de exportação e importação, assim como outras atividades ligadas às atividades
portuárias.
No século XX a maior parte das atividades portuárias foram transferidas para o novo porto de Suape
(entre os municípios de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho), mas, mesmo em um processo crescente de
degradação, ocasionado pela falta de ocupação de vários imóveis desde a reforma do bairro em 1910 até
os dias atuais, o Bairro do Recife, bem como o bairro de São José mantêm equipamentos (edifícios com
escritórios, armazéns, galpões, serviços financeiros, etc.) que servem às atividades portuárias ainda
existentes. Assim, não há como negar a relação do Porto do Recife com os processos de formação urbana
que constituem a memória urbana da cidade e nesta memória situa-se o Cais José Estelita.
2.2. A Arquitetura Portuária do Recife como formadora da sua Paisagem Cultural
Em Pernambuco, a preservação foi primeiramente instituída em 1928 pelo Governo do Estado; este
aplicou uma lei específica visando à preservação dos seus monumentos. Para a aplicabilidade dessa lei,
elaborou uma lista de edifícios aos quais atribuiu valores históricos e artísticos (SILVA, 2001. p.56).
Ao mesmo tempo, discussões internacionais, tuteladas pela UNESCO, referentes à proteção e
conservação da herança cultural e natural mundial geraram documentos (denominados Cartas
Patrimoniais) referenciais para a definição de políticas públicas de preservação em diversos países,
inclusive o Brasil.
Essa lei estadual privilegiava a preservação de monumentos isolados, não existindo a figura da
preservação de sítios ou conjuntos urbanos, como o identificado pelas atuais Zonas Especiais de
Preservação Históricas (ou ZEPH) existentes atualmente no zoneamento da cidade do Recife. Esta
postura preservacionista também era identificada nos primórdios da preservação a nível federal, que
efetivamente teve início com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN)
entre os anos de 1936 e 1937.
Porém, na década de 1970 reflexos dessas novas posturas, referenciadas pelas Cartas Patrimoniais que
apontavam para necessidade da preservação dos conjuntos urbanos, foram vistos no Brasil. Esta nova
abordagem é expressa através da Declaração de Amsterdam (1975), do Documento de Brasília (1970) e
do Documento de Salvador (1971), dos quais foi signatário o Governo de Pernambuco (TRAJETÓRIA
DA PRESERVAÇÃO DO RECIFE, 2005). Partindo, assim, do princípio da preservação dos conjuntos
urbanos, o Recife incorpora as recomendações do Plano de Preservação dos Sítios Históricos da Região
Metropolitana do Recife (PPSH-RMR) elaborado pela FIDEM (Fundação de Desenvolvimento da Região
Metropolitana do Recife) à legislação de preservação municipal, inicialmente através da Lei no 13.957 do
ano 1979.
A lei de 1979 instituiu “normas gerais de proteção a sítios, conjuntos antigos, ruínas e edifícios isolados
cujas expressões arquitetônicas ou históricas tivessem real significado para o patrimônio cultural da
cidade do Recife”; disciplinando a preservação desses bens; e autorizando a criação de zonas especiais de
preservação. Originários desta lei foram aprovados sucessivos decretos municipais, que instituíram os
atuais 33 sítios históricos (ou ZEPH) existentes na cidade.
Apesar do entendimento da necessidade de preservação de sítios urbanos, e não apenas de edifícios
isolados, as atuais discussões internacionais em torno da preservação consideraram
a necessidade de serem desenvolvidas estratégias para integrar a evolução orientada da paisagem
e a preservação das áreas de paisagem cultural como parte de uma política que abranja a
totalidade da paisagem e que estabeleça a proteção unificada dos interesses culturais, estéticos,
ecológicos, econômicos e sociais do respectivo território (RECOMENDAÇÃO EUROPA, 2014).
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Assim, destaca-se aqui, em especial, a Recomendação Europa, de setembro de 1995. Este documento
versa sobre a conservação integrada das áreas de paisagens culturais como integrantes das políticas
paisagísticas. As definições e conceitos contidos neste documento auxiliam na compreensão da
necessidade de preservar e conservar as edificações que fazem parte do complexo portuário do Recife.
Entendendo que estas edificações são testemunhas e atores do processo histórico de formação da cidade
do Recife, que teve o seu porto como principal núcleo de atividades econômicas, como já foi exposto.
Compreende-se então que as edificações hoje existentes nos bairros do Recife e São José, que servem (ou
serviram), que estão relacionadas (ou estiveram relacionadas) às atividades portuárias são integrantes da
paisagem histórica da cidade.
Entendendo-se a definição de paisagem como a sugerida pela Recomendação Europa (1995).
Paisagem é considerada em um triplo significado cultural, porquanto, é definida e caracterizada
da maneira pela qual determinado território é percebido por um indivíduo ou por uma
comunidade; dá testemunho ao passado e ao presente do relacionamento existente entre os
indivíduos e seu meio ambiente; ajuda a especificar culturas e locais, sensibilidades, práticas,
crenças e tradições.
As edificações que compõem o conjunto da arquitetura portuária são elementos constituintes da paisagem
da cidade do Recife, compreendida, neste caso como parte da Paisagem Cultural do Recife. O conceito de
áreas de paisagem Cultural é compreendido também seguindo a definição da Recomendação Europa
(1995).
As áreas de paisagem cultural – partes específicas, topograficamente delimitadas da paisagem,
formada por várias combinações de agenciamentos naturais e humanos, que ilustram a evolução
da sociedade humana, seu estabelecimento e seu caráter através do tempo e do espaço e quanto de
valores reconhecidos têm adquirido social e culturalmente em diferentes níveis territoriais, graças
à presença de remanescentes físicos que refletem o uso e as atividades desenvolvidas na terra no
passado, experiências ou tradições particulares, ou representação em obras literárias ou
artísticas, ou pelo fato de ali terem ocorridos fatos históricos.
Instituídas na década de 1970 / 1980, as posturas que nortearam a criação das Zonas Especiais de
Preservação Histórica, que conformam os atuais sítios a serem preservados no Recife não levaram em
consideração os conceitos e definições constantes na Recomendação Europa, visto que esta recomendação
só ocorreu em 1995. Ressalta-se então a importância em se reavaliar as posturas da preservação dos
territórios históricos da cidade, levando-se em conta estas novas premissas, visto que os mesmos são
testemunhos da história e cultura da cidade.
Ainda no âmbito da preservação observa-se que grande parte do acervo físico existente na faixa litorânea
dos bairros do Recife e São José é composta por edificações e equipamentos que compõem o Patrimônio
Industrial da cidade do Recife. Este patrimônio é constituído pelo acervo construído resultante do
processo de industrialização, ocorrido no Recife a partir do século XIX. Dentro deste acervo destaca-se o
Patrimônio Ferroviário existente e remanescente da já mencionada 2ª Via férrea do Brasil instalada na
área do Cais José Estelita, no bairro de São José, ainda no século XIX.
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Entende-se aqui como Patrimônio Industrial os monumentos da industrialização que segundo Beatriz
Mugayar Kühl (KUHL, 2008) referem-se,
não apenas à arquitetura dos edifícios relacionados com as unidades de produção, mas se volta a
todo o complexo de edifícios que pode compor um conjunto industrial – fábrica, enfermaria,
escola, etc – além de abarcar unidades de produção de energia e meios de transportes; ademais,
concerne também a edifícios pré-fabricados (total ou parcialmente), que são fruto do processo de
industrialização.
Entende-se assim que as edificações que constituem a arquitetura portuária são remanescentes físicos e
consequentemente bens culturais que contam, a sua maneira, a história do processo de formação da cidade
do Recife e devem ser preservados.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS: O PATRIMÔNIO DO CAIS JOSÉ ESTELITA
A área de mais de 100.000 m2 no Cais José Estelita, foco de discussão por parte da sociedade cuja
utilização é questionada, abrigou o pátio ferroviário da Rede Ferroviária Federal desde o século XIX até a
segunda metade do século XX. Nela ainda são encontrados, além do cais, galpões de armazenamento (do
século XIX e do século XX), antigos edifícios da rede ferroviária, silos de armazenamento, casas de
antigos funcionários, trilhos, trens, etc. Abandonados, esses edifícios e equipamentos testemunham o
apogeu e a morte desta atividade que serviu ao porto com o tráfego e armazenagem de mercadorias, em
especial o açúcar.
A cidade do Recife instituiu suas áreas de preservação em 1979/80, na vanguarda do pensamento
preservacionista da época, chegou a instituir 33 zonas especiais de preservação. Sítios inteiros foram
entendidos como áreas que deveriam ter suas edificações externamente preservadas. 34 anos se passaram
e de lá pra cá a única intensão de preservação através de uma normativa foi a lei que instituiu a
preservação de alguns edifícios isolados em 1997, a chamada lei do IEP (Imóveis Especiais de
Preservação).
A história que poderia ser contada através da arquitetura da cidade dia a dia aparentemente parou aí. Sem
uma política (de curto, médio e longo prazo) de conservação do patrimônio histórico existente, o Recife
presencia áreas de patrimônio perderem seu valor econômico. O patrimônio edificado da cidade que
deveria ser um bem de altíssimo valor, a ser deixado como herança para gerações futuras passou em sua
grande maioria a não ter valor de troca e consequentemente passou a se degradar por total falta de
interesse de muitos proprietários em manter algo sem valor econômico. As áreas de cais, que compõem o
conjunto de arquitetura portuária já contam com a substituição de diversos edifícios, que demolidos não
integram mais esta paisagem, como é o caso do antigo edifício da central de abastecimento demolido em
2013 do Cais de Santa Rita (cais contíguo ao Cais José Estelita).
A paisagem que figura ao longo da beira do Cais José Estelita composta pela repetição dos diversos
armazéns ao longo do Cais, intercalados por casas e pelos antigos silos metálicos que serviram de estoque
de mel de açúcar apresentam o porto que está por vir, pois faz parte dele. Não há como dissociar estas
estruturas, bem como todo patrimônio ferroviário que se encontra atrás desses galpões do Porto do Recife,
ou seja, todo este percurso costeiro testemunha a história da formação da cidade e deveria ser instituído
como área de preservação. A demolição de parte destas estruturas edificadas, ora em andamento, produz
um hiato na história que poderia ser contada através de suas edificações. A recente história contada
através deste Pátio Ferroviário e suas edificações precisa ser preservada através de uma postura normativa
que venha contribuir com a valorização deste sítio.
Ressalte-se que o cais conta atualmente apenas com as estruturas mais antigas, remanescentes da antiga
via férrea do século XIX instituídas como bens a serem preservados, isto a nível federal. O parecer do
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IPHAN (Instituto do patrimônio Histórico Artístico Nacional) não compreende de valor cultural a
totalidade do Pátio Ferroviário (Ofício no 0321/2012, IPHAN/PE, 2012). Não há preservação municipal
para a área que pela lei de preservação não foi instituída como ZEPH, e o recente início de demolição dos
galpões construídos no século XX de armazenamento de açúcar demonstra o não entendimento de todos
os agentes envolvidos na formulação do novo projeto da importância destas estruturas como bens
culturais. Na contramão do planejamento urbano praticado em outras cidades do mundo (como Buenos Aires,
Londres, Amsterdam etc.) onde as estruturas históricas são preservadas e valorizam o empreendimento
proposto através de intervenções de reabilitação e requalificação das mesmas, o Recife assiste a perda
gradativa do seu patrimônio, em especial do século XX, motivada pela não percepção que as estruturas
edificadas deste século são também componentes da memória da cidade e precisam ser preservadas.
Não se pretende a partir da demarcação da área aqui delimitada como de arquitetura portuária impedir que
nela ocorram novas construções, mas, sugere-se um olhar criterioso para que quando nela ocorram novas
edificações as mesmas venham a ser inseridas como intervenções em um sítio de natureza histórica, ou
seja, que estas intervenções ocorram de forma contextualizada de forma a não apagar nas construções
existentes os traços da história da cidade. A falta de entendimento desta necessidade de contextualização
culminou na construção de edifícios de apartamentos na área do Cais de Santa Rita cujo gabarito
contrasta drasticamente com a arquitetura histórica do bairro.
A definição de Gracia (1992. p.310) para arquitetura contextualista auxilia no entendimento desta forma
de se intervir no espaço que abriga uma preexistência de caráter histórico:
Arquitetura contextual- Entendemos por arquitetura contextual aquela que, sem utilizar os
recursos da mimese superficial nem a analogia direta, estabelece uma rara simbiose com o
contexto; prolongando-o ou revalorizando -o através de um esforço de indagação formal orientado
desde o próprio contexto; tratando de salvar o conflito entre a individualidade dos objetos e as leis
estabelecidas na construção da cidade.
[...] sua particularidade consiste em colocar a serviço da contextualização a globalidade do
problema de desenho. Digamos que sua importância está em comprometer-se com o princípio de
continuidade diacrônica da forma da cidade. Deve entender-se, portanto, que a continuidade que
estas intervenções procuram não é redundante nem homogeneizadora, podendo favorecer a
presença de elementos de exceção que atuem como agentes de uma dialética reformadora e
criativa.
Acredita-se assim que se intervindo de forma contextualizada não apenas no sítio demarcado, mas, nas
edificações existentes possa-se garantir a preservação e a leitura da paisagem existente agregando valor
histórico ao empreendimento a ser construído, redefinindo a página da história do Recife que trata do
embate entre renovação x preservação. A partir desta emblemática ocupação do Cais José Estelita é hora
da cidade do Recife refletir como redefinir uma política de preservação dos seus imóveis históricos de
forma que mantê-los venha constituir um ganho (econômico) para o empreendedor e ao mesmo tempo um
ganho cultural para o cidadão recifense.
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VARGAS, Heliana Comin. Comércio: localização estratégica ou estratégia na localização? Tese de doutorado.
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WATJEN, Hermann; SILVA, Leonardo Dantas. O domínio colonial Holandês no Brasil. Um capítulo da história
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