UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” INSTITUTO A VEZ DO MESTRE O VIOLINO E O VIOLINISTA: UMA RELAÇÃO SEMPRE VIVA Por: Oswaldo Eduardo da Costa Vellasco Orientadora: Profa. Edla Trocoli Rio de Janeiro 2011 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” INSTITUTO A VEZ DO MESTRE O VIOLINO E O VIOLINISTA: UMA RELAÇÃO SEMPRE VIVA Apresentação Candido de Mendes monografia como à requisito Universidade parcial para obtenção do grau de especialista em Docência do Ensino Superior. Por: Oswaldo Eduardo da Costa Vellasco AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, a Deus, pela vida e pela força cada dia. Agradeço também aos professores e funcionários do Instituto A Vez do Mestre, especialmente à minha orientadora, pela atenção e dedicação. DEDICATÓRIA A meus pais, meus irmãos, minha tia e meus amigos, pelo ânimo constante e o apoio incondicional na realização do presente trabalho. RESUMO Este trabalho visa mostrar a importância do conhecimento da consciência corporal, física e emocional, sua influência na técnica e na prática violinística em alunos de graduação. Todos esses fatores serão de primordial importância para que os alunos em nível de graduação, e em definitivo todo violinista, possam abordar o estudo e a prática do instrumento de uma forma plenamente consciente, com um comprometimento, que tem de ir muito além dos simples recursos da técnica. Dessa maneira poder-se-á alcançar uma nova percepção no autoconhecimento para melhor servir a arte da música e, por conseguinte, a arte do violino. Aspectos relevantes sobre o equilíbrio corporal do violinista aliado à necessidade do processo de pesquisa para se alcançar o melhor gesto instrumental são abordados com profundidade. Por outro lado, a conscientização no processo da respiração durante a performance verificar-seá como fator primordial para que o músico possa se expressar naturalmente, sendo, portanto, uma aliada para alcançar o almejado conforto e a tranqüilidade na execução instrumental. Em grande parte, os problemas musculares e tensionais que sofrem os alunos e violinistas em geral, decorrentes da prática do instrumento, têm sua origem no desconhecimento de que estão realizando uma intensa atividade física. Faz-se necessária, portanto, uma análise da origem desses problemas e das soluções possíveis por meio de exercícios de alongamento e aquecimento, a serem realizados antes e depois de tocar. Na última fase do trabalho, partindo do princípio de que as bases do domínio da técnica encontram-se na apropriada coordenação entre a mente e os músculos, na capacidade para realizar a sequência da ordem mental até a resposta física, de maneira rápida e precisa, são mostrados diversos aspectos da técnica das duas mãos, sua problemática e os possíveis caminhos na sua resolução. METODOLOGIA A metodologia utilizada teve como base a consulta, leitura e análise de bibliografia específica, pesquisa na internet e a observação e experimentação prática com o violino, objeto do estudo na sua relação com o instrumentista. SUMÁRIO INTRODUÇÃO 08 CAPÍTULO I - UMA NOVA CONSCIÊNCIA CORPORAL 10 CAPÍTULO II - SENSAÇÃO INTERIOR E DESCONTRAÇÃO 57 CAPÍTULO III - ASPECTOS RELEVANTES DA TÉCNICA 94 CONCLUSÃO 143 BIBLIOGRAFIA 145 8 INTRODUÇÃO O graduando em violino, que em pouco tempo estará apto a entrar na vida profissional como instrumentista e como professor, precisa ter consciência da importância da harmonia do seu próprio ser, do seu interior, do relaxamento, da respiração e do controle corporal. Precisa saber, portanto, que a sua formação não pode ser pautada somente pelo estudo mecânico da técnica, das peças e do repertório. Para muitos alunos de graduação, e inclusive músicos já profissionais e formados, o violino é sinônimo de sofrimento. Vivenciam uma relação triste e dolorosa com o instrumento, dramatizada em excesso muitas vezes desde os primeiros anos de estudo, o que resulta na impotência de resolver problemas técnicos e percebê-los na sua origem. Como conseqüência disso, a própria execução musical não lhes produz a devida satisfação. O músico nessa situação está demasiado tenso e sua inquietude impede-lhe de se ouvir, encontrar respostas e vencer frustrações que façam com que possa conduzir com serenidade o estudo e o seu discurso musical. Portanto, existindo tensão física e esgotamento psicológico não será possível para o músico se expressar adequadamente. O aluno e o violinista em geral necessitam conhecer aspectos anatômicos e fisiomecânicos relacionados com a prática do instrumento. Poderá assim desenvolver adequadamente o posicionamento das partes do corpo diretamente relacionadas com o estudo do violino. Uma realidade a ser lembrada é que o conhecimento e o domínio preciso do corpo é especialmente complicado para os músicos devido à natureza emocional da música. A energia emocional inunda o corpo no 9 momento de fazer música, distraindo a mecânica do mesmo, envolvida ao tocar o instrumento. Será preciso adquirir um conhecimento prático e tecnicamente preciso desta mecânica, onde detalhes posturais e de movimento terão um impacto enorme na própria habilidade de controlar o instrumento e de como fazer soar a música. O aluno ou intérprete do violino precisa de um desenvolvimento integral, entendido como uma conscientização cada vez maior de si mesmo, com um domínio crescente do seu corpo e da sua mente. Um desenvolvimento que lhe permita superar as dificuldades encontradas no estudo do violino, em prol de uma proveitosa prática do instrumento e do progresso da técnica. Os problemas no ensino do violino na graduação são, portanto, a conseqüência da ruptura de um todo integral na pessoa do violinista. Uma ruptura no corpo, quando nos referimos a tensões e problemas técnicos, ou na música, quando se produz uma equivocada abordagem do estudo. 10 CAPÍTULO I UMA NOVA CONSCIÊNCIA CORPORAL Para muitos violinistas, a realidade é que o seu instrumento acaba transformando-se em sinônimo de sofrimento. Sem serem conscientes de tal fato, vivenciam uma espécie de escravidão onde seu infortúnio manifesta-se de diversas maneiras, como a impotência para resolver problemas técnicos ou abordá-los, e um desconhecimento próprio diante de qualquer performance. Tudo isso sem contar com os medos. Vários temores, desde o medo a se apresentar, o medo de errar, chegando inclusive ao medo perante o mestre, o professor, o maestro. O medo, em definitivo, a ser o único que fracassa. O resultado traduz-se em uma sonoridade deficiente, pobre, que não transmite vibrações autênticas e nem uma expressividade sincera. O corpo do violinista é transformado em uma espécie de careta, mostrando um visível desequilíbrio, expressando por si mesmo a maior parte das suas carências. Os alunos, e violinistas em geral, que possuem estas características somente são conscientes de problemas concretos, tais como um vibrato preso, um “stacatto” sem força, ou tensões de diversa natureza, na crença de que o restante funciona. São na realidade alunos e músicos que não se sentem confortáveis com o instrumento e nem com a música, e, muitas vezes, nem com eles mesmos. O instrumentista precisa cultivar a liberdade de ser ele mesmo, sem travas, para assim poder expressar-se musicalmente. Precisa sentir a vontade de tocar, possuir uma determinada audácia criativa intimamente ligada à inteligência do texto musical, uma relação verdadeira com os próprios sentimentos. Para que o aluno possa pôr em prática estas qualidades, precisará evidentemente de uma lógica na técnica instrumental, de bom nível, 11 depurada, mas em nenhum caso a destreza técnica, focada como finalidade e não como recurso, deveria desfigurar o processo de evolução do futuro artista. Varias questões podem ser colocadas em pauta. Pode-se considerar normal que determinados alunos, e até profissionais formados há anos, sintam verdadeira angústia no momento de encarar o mais simples “solo” ou a interpretação de uma peça já estudada durante anos? Pode-se admitir que após anos de estudo persistam o medo e a insegurança em conseguir um determinado golpe de arco ou que, em uma nota longa, o arco comece a tremer? E o fato de acumular horas de estudo ou ensaio com dores nas costas e crispações que acabam por paralisá-los, resultando em bloqueios crônicos? Quantos violinistas se perguntam como é possível que, após horas de prática e estudo, sejam incapazes de resolver um problema técnico e nem saibam do motivo? Precisa-se de uma nova maneira de pensar no violino e na música, em prol de um universo novo de realizações. Dando prosseguimento, é importante salientar que cada músico irá defrontar-se com o estudo do violino em função da sua personalidade, das suas vivências do passado e de suas aspirações. Por um lado, tem-se uma classe de violinistas levados pela força do seu temperamento, impulsivos por natureza, que não se questionam na hora de tocar. São violinistas que, pela insistência da repetição dos trechos musicais mais difíceis, acabam obtendo, evidentemente, algum resultado, sem terem consciência do que significa ter uma adequada ordem nas idéias e na execução. São quase instintivos, sentem-se relaxados e satisfeitos de si. Defrontar-se com o estudo desta maneira satisfaz certo número de músicos que são especialmente dotados, possuidores de um sentido inato da imitação. Confiam cegamente nas suas aptidões, considerando qualquer processo consciente no estudo, regido por determinadas leis e procedimentos, como um fator inibidor da sua criatividade. O resultado a longo prazo é que 12 permanecem à mercê de si mesmos, carentes de uma técnica eficaz, sem um rumo determinado no estudo e sem a menor possibilidade de retomar aqueles sentimentos de aparente segurança que tiveram em dias melhores. Por outro lado, existem alunos e violinistas mais cuidadosos, menos confiados, e mais exigentes. Estudam com afinco, metodicamente e com zelo mas, amiúde, tensos e nervosos. Com grande constância, procuram aperfeiçoar os estudos e superar as dificuldades específicas, surpreendendose, com tristeza, quando os resultados desejados não lhes acompanham. Pode-se considerar, portanto, que os alunos e violinistas que possuem uma atitude instintiva perante o estudo estão destinados a um progresso bem limitado e efêmero, por carecerem de um enfoque construtivo. Desta forma, como ressalta Hoppenot (1991), tais violinistas terão em certo momento graves insatisfações pela fragilidade que supõe uma vida musical baseada em êxitos momentâneos. Por outro lado, aqueles alunos e violinistas de caráter mais meticuloso sentem um mal-estar permanente, sem precisarem de um fato desafortunado para perceber sua impotência. O intérprete que, a partir de situações como as descritas anteriormente, perceba a superficialidade e parcialidade da sua abordagem musical e instrumental, e deseje mudar sua maneira de tocar, precisará também de uma mudança pessoal, “harmonizar o espírito com seu projeto” (Hoppenot, 1991, p. 20). Pode-se dizer que o violino é algo mais que um instrumento, ao questionar o músico em todas as suas vertentes. Citando Hoppenot: “O violinista reúne o equilíbrio corporal de um bailarino com a competência e a atenção do artesão, a precisão no gesto do pintor, a memória e a «presença» do ator, a inteligência do leitor e a visão interior do poeta” (HOPPENOT, 1991, p. 20). 13 Considerando-se esses fatores, compreender-se-á a importância de uma abordagem plenamente consciente diante do violino, um comprometimento muito além de possuir um simples arsenal técnico. Uma nova visão, na qual se poderá ser um melhor servidor da própria arte, encontrando as portas de acesso às profundezas do ser, graças à possibilidade de conhecer a própria realidade física e psíquica. O processo será, portanto, na sua essência, que o aluno e o violinista se interessem pelo conhecimento de si mesmo, percorrendo um caminho do interior ao exterior, do centro à periferia, coordenando e pondo em ação todas as energias dispersas em uma corrente de força única, energias estas nas quais poucas vezes se repara e das quais depende a qualidade dos resultados, assim como o tempo empenhado em alcançá-los. Precisa-se levar em consideração que para o aluno, e a maioria dos violinistas e músicos, não é simples a renúncia a uma determinada maneira de pensar, a maioria das vezes incentivada por velhos hábitos durante anos, e que somente vencendo o medo de mudar, reconsiderando honestamente as diferentes atitudes do corpo e da mente, poder-se-á forjar uma efetiva vontade de trabalho e progresso no estudo. Hoppenot (1991) ressalta que esse medo irá desaparecer se realmente as dificuldades e obstáculos forem enfrentados e que o grande equívoco é, conscientemente ou não, esconder a própria realidade, já que nada desaparece sendo ignorado. A consciência do erro dará o incentivo para procurar a verdade. É importante assinalar que não se deve situar os nossos erros e a nossa análise em relação a idéias e conhecimentos acumulados de tempos passados, mas sim situá-los no presente. O passado sobrecarrega a mente de aflição, de temores e idéias preconceituosas, obstaculizando a vivacidade do espírito. É preciso mudar a mentalidade, eliminar opiniões e impressões anteriores, libertar-nos do passado, e observar que hoje é um novo dia, o único que realmente importa. Somente pode-se assimilar e integrar novos conhecimentos 14 com a percepção lúcida, sincera e honesta do presente. Assim, ter-se-á disposição para aprender. A disposição para aprender, motivação fundamental no processo do estudo, está intimamente ligada às disposições vitais e afetivas. Segundo Hoppenot (1991), a motivação mais construtiva que o aluno precisa na conquista do seu instrumento é uma motivação de prazer, cultivando a satisfação e a alegria através do processo da sua evolução e das exigências da música. Portanto, para dominar a arte de qualquer instrumento, e do violino em particular, é necessária, além de uma verdadeira paixão que mantenha a paciência, que nasce do interesse dedicado ao que se faz, uma satisfação íntima, uma carga afetiva constantemente renovada, que incentive a seguir criando impressões construtivas e desenvolvendo uma força interior, sem a qual será impossível alcançar os objetivos de uma arte verdadeira. É importante ressaltar que, no processo do estudo, o violinista não deve perseguir desmedidamente o resultado da sua atividade, mas sim saber orientar e dosar a ânsia de perfeição sobre essa própria atividade. A ambição, a necessidade de sucesso e reconhecimento, que o aluno confunde como estímulos para o seu esforço, na realidade são fatores que atuam como interferências angustiantes, fazendo com que perca o contato real com ele, mesmo prejudicando o seu crescimento musical. No processo do estudo, o esforço realizado, até mesmo o que gratifica um bom resultado, representa na realidade a preparação de outro esforço com o qual o músico chegará cada vez mais longe nos seus objetivos. Cada passo é em si mesmo o objetivo que leva ao passo seguinte. Ao constatar esse avanço, consegue-se a força e o ânimo para prosseguir. A paciência, fator importantíssimo no processo do estudo e aprendizado da música, precisa ser cultivada a cada instante por ser fator primordial para um estado de espírito equilibrado, com o qual se possa enfrentar qualquer decepção. Na medida em que o aluno investe no seu estudo, mais estará sensibilizado diante das imperfeições e carências, das quais, muitas vezes, 15 nem suspeitava. A vontade de conseguir resultados imediatos, e a percepção dessas lacunas e carências, produz no músico uma sensação de desânimo, que interrompe o seu progresso. Hoppenot (1991) ressalta a necessidade de manter-se uma atitude mental determinada, com igual disposição diante dos obstáculos e o desejo inalterado que permite fazer aquilo que foi proposto, sem maior preocupação que a fidelidade ao próprio instante. Uma escola da conquista de si mesmo proveniente de ideais afastados comumente da mentalidade ocidental, mas digna de inspirar profundamente uma atitude interior diante da aventura que o violino oferece. “A prática do «tiro com arco» no Budismo Zen não tem por objeto treinar o discípulo para que adquira potência sem mais motivo, senão ao contrário, para que a referida potência seja sempre superior a que se precisa no momento” (HERRIGEL, 1958, apud HOPPENOT, 1991, p. 24). 1.1- Um corpo em equilíbrio O grande desenvolvimento da expressão corporal, das técnicas de relaxamento, da ioga, das artes marciais, etc., confirma nos dias atuais a necessidade do ser humano de reconciliar-se com seu corpo, por muito tempo ignorado, rejeitado e reprimido. Assiste-se a uma verdadeira reabilitação do corpo humano, cuja temática inspira todas as ciências humanas, todos os esportes, o mesmo que a maior parte das atividades artísticas, tais como a música, a dança e o teatro. Entretanto, no ensino dos instrumentos de corda, o grande ausente é o corpo, a noção de uma consciência corporal. Aprende-se a tocar o instrumento, a fazer música, mas se esquece que a música se expressa principalmente através do corpo, e também em razão dele se desfigura 16 quando não está plenamente harmonizado. Um número considerável de violinistas defronta-se com certas dificuldades, que muitas vezes parecem insuperáveis, atentando apenas para o mecanismo dos dedos, carentes de toda consciência do seu corpo, desconhecendo sua presença e seus recursos, estranhos a eles mesmos, incômodos. Certamente a ação musical traduz-se pontualmente pela ação dos dedos, mas estes são apenas a terminação tátil de uma totalidade física, que é o próprio corpo. O corpo é submetido a contorções, provocando mal estar e sensação de impotência, que o violinista poderá carregar por toda a sua vida. Hoppenot (1991) destaca que o violinista somente poderá superar os problemas instrumentais por meio de uma sistemática investigação sobre o seu equilíbrio. Adquirir um perfeito equilíbrio do corpo resolverá praticamente a maioria das dificuldades criadas pela sonoridade, as mudanças de posição, o vibrato e os diferentes golpes de arco. Como se pode verificar, não é possível que o violinista estude seu instrumento permanecendo estranho ao seu corpo, através do qual estimula suas percepções, as aprimora e define. Em definitivo, o corpo constitui-se no instrumento por excelência da sua arte. Uma liberdade de ação completa fazse necessária, sem gestos que a perturbem, para que a riqueza interior da música possa expressar-se. A perseverança do violinista para ficar em harmonia com seu próprio corpo culminará, sem decepções, na própria unidade onde o corpo e a mente dialogam de igual para igual na realização artística, objetivo do trabalho. Percebe-se igualmente que se precisa, tanto alunos quanto violinistas formados e mais experimentados, primeiramente reconhecer a existência de um mal-estar, de uma dificuldade que não se consegue resolver pelo simples exercício digital, para valorizar na medida certa a importância do nosso corpo na ação da prática instrumental. Será precisamente a sensação de desgosto e tédio, ao incorrer novamente na mesma rotina de não conseguir solucionar certos problemas no estudo, o estopim para isso, primeiro passo para que alunos e violinistas tomem consciência da necessidade de iniciar um estudo 17 sobre a forma e o posicionamento do corpo, percebendo o desequilíbrio existente diante dos seus erros de percepção. Uma maneira efetiva de mostrar ao aluno tais problemas seria, como mostra Hoppenot (1991), tirar o violino e o arco enquanto ele toca, pedindo que permaneça na mesma postura. Observando sua imagem em um espelho, constatará como sua posição é uma caricatura disfarçada anteriormente pela presença do instrumento. Se o aluno não desenvolve um autoconhecimento, é missão quase impossível que possa ser seu próprio pedagogo. Verifica-se que, quando tentam pelos seus próprios meios revelar suas dificuldades pessoais, diferentes para todos e relacionadas ao passado de cada um, acabam desiludidos e decepcionados com o resultado. É missão do professor ajudá-lo nessa tarefa, servindo como espelho, opondo a realidade que percebe do exterior à idéia que o aluno se faz dele mesmo e de seu próprio corpo. É de grande relevância salientar as razões pelas quais os problemas de equilíbrio corporal repercutem gravemente na execução do instrumento e são mais próprias dos violinistas. Para começar, observa-se que diferentemente de outros instrumentos, como o piano ou o violoncelo em particular, o violino carece de um ponto de apoio no chão, o que faz com que seja preciso mantê-lo em equilíbrio em uma estreita relação com a própria pessoa, sobre uma superfície de apoio bem pequena, sem que atrapalhe a execução musical articulada por variadas e sutis ações de precisão. Qualquer tensão, produzida pela menor crispação corporal, terá seu reflexo na execução, devido ao íntimo contato que o violino e o arco têm com o corpo. Atribui-se muitas vezes ao instrumento a responsabilidade de uma instabilidade que nada mais é do que o reflexo da nossa própria instabilidade. O equilíbrio corporal do violinista, tanto do aluno quanto do profissional, é o fundamento essencial para a estabilidade do violino, para alcançar a segurança que permitirá realizar e desenvolver corretamente as propriedades inerentes à execução instrumental. 18 Segundo a definição de Littré (2003), o equilíbrio seria o «estado de um corpo em repouso, submetido a forças iguais e contrárias». Tal estado seria, portanto, a ausência de agitação, tensão e nervosismo, que não é o resultado de algo casual e sim o fruto de um conhecimento aprofundado das leis que governam o corpo. Verifica-se, dessa maneira, que quando os alunos sofrem certos bloqueios instrumentais manifestam uma equivocada utilização do corpo, inadaptado às necessidades da execução. De maneira clara, o equilíbrio ideal do violinista, conjugando instrumento e corpo, não possui um caráter normativo e deve ser adaptado a cada um. Não é, evidentemente, o único elemento importante na pedagogia do violino, mas sim o ponto de partida, a base que permitirá uma construção duradoura e coerente dos fundamentos da dessa arte. No instante em que o violinista segura o arco e o violino, a organização do seu corpo deve estar já estabelecida. Percebe-se a necessidade de procurar, em um primeiro momento, o equilíbrio corporal afastado do instrumento, no intuito de que o aluno possa obter uma perspectiva com relação ao violino e ao arco, ou com relação às pernas, os braços e os gestos. Pela sua arquitetura interna, o corpo terá a função de atuar, tal como ocorre com os cantores, como uma autêntica caixa de ressonância, um amplificador das emoções musicais. O primeiro objetivo será estabelecer um eixo sólido da cabeça aos pés, já que, tanto se o violinista toca sentado ou em pé, o equilíbrio origina-se na verticalidade do corpo. Hoppenot (1991) corrobora este objetivo na citação de um preceito japonês que diz: “Quando a verticalidade do corpo está solidamente estabelecida, o estará também o espírito. Aí se inicia o vôo da tranqüilidade, desprovido de paixão, e a força intrépida” (HOPPENOT, 1991, p. 30). 19 Não deve ser esquecido que são os pés os que levam e impulsionam o corpo e não o corpo o que repousa sobre os pés. Os mesmos têm de tomar contato com o chão em toda a sua longitude, da extremidade do talão até a ponta dianteira, graças aos músculos dos metatarsos, os quais, por sinergia, relacionam-se com todos os músculos do corpo. Verifica-se, portanto, uma atividade real dos pés, que mobilizam o conjunto do corpo, tonificando-o e proporcionando-lhe a elasticidade necessária. Menuhin (1971) ressalta que, durante a execução instrumental, os pés do violinista devem permanecer suficientemente separados com o fim de formar uma base sólida, mas flexível, para o equilíbrio, e ao mesmo tempo estarem juntos o suficiente para que possa transferir o seu peso, com facilidade, de uma perna à outra. O corpo gira ligeiramente em direção ao pé esquerdo para estabilizar o equilíbrio do lado do violino e ao mesmo tempo a separação entre os pés será proporcional à altura e ao volume do corpo. O pé esquerdo normalmente estará ligeiramente à frente do direito, adequadamente posicionado para receber e equilibrar melhor o peso do corpo do lado do violino, quando o violinista realize determinados golpes de arco, por exemplo. Da mesma forma, o peso do violinista deve cair ligeiramente mais na parte anterior da planta do pé que nos talões. O violinista poderá verificar que esta compensação dianteira produz grande leveza, realçando a adequada posição para tocar. Constata-se igualmente que se pode estabelecer com exatidão a correta distância entre os pés, testando um balanceio com naturalidade para ambos os lados e principalmente andando, mas sem perder a estabilidade geral do corpo. Hoppenot (1991) chama a atenção para um detalhe bem importante: durante a execução, é imprescindível evitar movimentos inúteis e balanceios desnecessários que destroem o equilíbrio e desperdiçam energia. “Somente é saudável o movimento corporal provocado por um impulso interior” (HOPPENOT, 1991, p. 31). 20 As pernas exercem a função de correia de transmissão entre os pés e o tronco. A simples rigidez das mesmas repercute em toda a parte superior do corpo, provocando um isolamento da parte inferior. Essa divisão do corpo em duas partes causada pela rigidez e tensão nas pernas, ou por uma equivocada colocação da respiração, é um problema que afeta a um bom número de violinistas. Com isso, perde-se a verticalidade necessária, prejudicando a ação livre e em equilíbrio do violinista. É preciso que o aluno entenda a relevância de que o corpo esteja unido pela bacia, relaxando e libertando de qualquer tensão a cintura e a musculatura da pélvis, facilitando a correspondência entre as partes superior e inferior do corpo em uma verticalidade perfeita. Desta maneira, o torso, sustentado pela parte inferior, sempre firme e em tonicidade, terá liberdade de ação e a unidade do conjunto permanecerá garantida da cabeça aos pés durante a execução instrumental. Segundo Bruser (1997), manter os joelhos relaxados e flexíveis permitirá ao corpo mover-se quando a música o demandar e da mesma forma permitirá que a energia possa fluir livremente através das pernas em direção ao torso. Hoppenot (1991) ressalta que a separação entre as parte inferior do corpo e o torso do instrumentista tem o efeito de produzir um bloqueio no circuito de energia corporal, uma respiração entrecortada e uma sonoridade que, mesmo com certa qualidade de pureza nascerá, falto de personalidade e caráter. Para que o violinista consiga o equilíbrio desejado, que alivie tensões e seja um aliado na execução instrumental, precisa tomar ciência da importância da coluna vertebral como ponto de partida da formação do esqueleto e centro de todo o sistema nervoso. A região das primeiras vértebras cervicais, origem de não poucas dores de cabeça, é peça chave para o sistema nervoso. Necessário será orientar o aluno, e o violinista em geral, para que procure sempre manter o equilíbrio do pescoço sobre a vertical das costas, permitindo assim uma distensão completa dos músculos do trapézio e, ao mesmo tempo, garantindo uma sustentação firme para a cabeça. A maior parte das contrações e tensões localizadas na base do pescoço resulta do fato de que o peso da cabeça coloca-se em falso à frente, 21 em vez de estar equilibrado sobre a vertical. Poder-se-á verificar a eliminação dos problemas relacionados com a colocação do violino, independentemente do tamanho que tenha o pescoço, no momento em que a cabeça recobre o lugar apropriado, com a coluna vertebral em condições de mantê-la com firmeza. Os braços estão unidos ao corpo por dois sistemas de músculos. Na parte dianteira, unem-se às costelas e ao esterno por meio dos músculos peitorais, e nas costas graças a um conjunto de músculos que se prolongam desde os rins até a base do crânio. Pode-se constatar então que as verdadeiras raízes dos braços encontram-se nas costas, em toda a dimensão do tórax, unidas com solidez à coluna vertebral. Sendo o sistema dorsal o mais forte do corpo, de lá os braços obtêm sua verdadeira força. Esta força dos braços, oriunda das costas, só poderá atuar com o efeito desejado se os ombros permanecem baixos. Perderão força igualmente no caso de deformação do eixo vertebral, já que anularia a complexa coordenação dos músculos dorsais na ação dos braços. Se os ombros caem por si mesmos estarão completamente relaxados, deixando livres assim os braços. Portanto, se a coluna vertebral do violinista permanece em uma prolongação vertical correta, sem comprimir as vértebras, e se os ombros e a escápula permanecem na posição apropriada, os braços pela ação da gravidade descerão para a frente com leveza. A posição do violino, ao permanecer na frente do músico, facilita dessa maneira a movimentação dos braços e do arco, com a força imprescindível para a execução, e também a possibilidade de aceder às posições mais altas no espelho do instrumento. Verifica-se, portanto, que a difícil tarefa que requer saber equilibrar a coluna vertebral é secundário à importância do conhecimento das costas e de uma conscientização de sua musculatura. Para a maioria dos alunos de violino, e violinistas profissionais, as costas representam uma barreira que acaba gerando rigidez e desconforto. Representa a maior causa de problemas nos violinistas que, atentando contra o próprio equilíbrio, inclinamse à direita ou à esquerda, levantam os ombros ou adiantam a cabeça para colocá-la sobre a queixeira. Com isso é fundamental que os alunos de violino 22 saibam dar a importância devida às costas para que possa estar tão presente e flexível como o restante do corpo. Para isso, o violino, que não pesa mais de 400 gramas, deve ser sustentado por meio dos músculos das costas e não por uma sustentação localizada que impeça ou restrinja os movimentos. Hoppenot (1991) aconselha que o violinista mantenha sempre na vida cotidiana essa conscientização referente às costas para assim adquirir independência, domínio e liberdade de ação com relação a essa nova atitude. Seria uma preocupação a menos na hora de abordar os problemas específicos do instrumento. Assim que o violinista percebe as primeiras sensações favoráveis, adota essa nova atitude com facilidade, de forma agradável e menos cansativa. Todos os grupos de músculos trabalham sem esforço, sem sobrecarga. Um estado ideal de união interior que favorece uma movimentação natural, equilibrada, uma real impressão de bem-estar ao próprio violinista e a quem lhe observa. Outro fator de grande relevância que pode ser verificado e observado é a influência favorável no aspecto psíquico, já que o primeiro sintoma de depressão e cansaço extremo, assim como de envelhecimento, é o afrouxamento das costas. Em contrapartida, como assinala Hoppenot (1991), manter uma posição conscientemente fortalecida das costas mantém o equilíbrio psíquico e reforça o esforço vital, permitindo que se possa enfrentar as dificuldades com «a cabeça bem alta e a mente mais livre» a medida que o corpo consolida-se no solo. “A solidez assentada nos pés, «plantado», consciente da força que emana do equilíbrio ao redor de um eixo, pode contribuir em grande parte a recriar a unidade da pessoa, se logramos trasladar à nossa vida cotidiana o que se transforma em uma nova maneira de ser. Quando adquirimos semelhante dinamismo corporal e mental, podemos ter completa segurança que tanto o arco como o violino serão integrados com facilidade harmonia” (HOPPENOT, 1991, p. 35). nesta 23 A importância do equilíbrio corporal está diretamente ligada à colocação do instrumento, quer dizer, no caso, ao violino e ao arco, e constituem o resultado de uma aplicação única e similar. Desenvolvem os mesmos princípios e, em contrapartida da opinião generalizada, a “lendária e tradicional” dificuldade do violino não se deve a uma posição antinatural (esta crença nada mais é do que a ignorância sobre a lógica corporal), senão à necessidade que tem o violinista de manter o instrumento e de orientar sua energia acima dele, em uma região alta do corpo. O violinista orientará, portanto, a sua força para cima, sem dispersá-la. A dificuldade do violino nasce devido a isso, sendo o motivo da relevância da simbiose do instrumento e do corpo. Menuhin (1971) assinala que não existe um ponto determinado ou inamovível de suporte para o instrumento, nem para o violinista, excetuando os pés, que tocam o chão e se equilibram sobre ele. O movimento espontâneo do músico deve integrar em um só elemento o violino, respondendo visivelmente ao ondulante fluir, ao movimento pendular ou circular, sem bloquear nunca o movimento em nenhuma articulação do corpo ou nos pontos de contato com o violino e o arco, sendo direcionado até o último músculo e articulação dos dedos. Estes devem ser treinados para movimentar-se em todas as direções e a estarem sob controle durante o movimento, da mesma maneira que o violinista deve responder visivelmente a esse movimento interno que nasce da música em si mesma e de seus pensamentos e sentimentos sobre ela. Bruser (1997) assevera que nunca deve o músico permanecer em uma postura de rigidez, entendendo que a postura é dinâmica e não estática. O intérprete deve ter a flexibilidade necessária para responder com facilidade ao que a música e o instrumento pedem em cada momento. Sobre este ponto, segundo Galamian (1998), realmente tem de existir um certo grau de movimento natural que contribua para a expressividade, o 24 sentimento e a correta acentuação musical. O movimento deve ser limitado, mas nunca suprimido. O violinista precisa ser orientado, portanto, a evitar movimentos corporais exagerados. Não somente porque se tornam desagradáveis visualmente, mas porque exigiriam uma constante recolocação do arco sobre as cordas, causando um fator de irregularidade na execução. Quando o arco do violinista atinge a corda, o violino reage em movimento. O corpo deve seguir a movimentação natural do instrumento, em vez de segurá-lo rigidamente no mesmo lugar. Verifica-se assim que, evitando que o violinista se mova, sutilmente, de maneira natural, o corpo se tornará tenso e o instrumento uma «peça de madeira gelada». “A madeira precisa estar viva. Precisa se movimentar de acordo com a frase e outros aspectos da música. Quando permitimos que a energia circule livremente em comunhão com o instrumento faremos mais música” (MAGNES, apud BRUSER, 1997, p. 88). O violinista deve sentir o violino e o arco como uma extensão do seu próprio corpo, uma ampliação do esquema corporal até os limites do instrumento. O objetivo será incorporá-lo em um contato íntimo, fazendo com que se esqueça sua presença material, como diz Hoppenot (1991), “tocando sobre nós mesmos”. Da mesma forma, o arco, que será o meio de expressão da eloqüência do violinista, será uma prolongação do braço e do corpo. Violino e arco, ambos serão a manifestação sonora do corpo e não somente os instrumentos que criam a música. É de enorme importância que os alunos de violino conheçam o equilíbrio do binômio violino-arco. Não existem problemas no primeiro que não tenham repercussões sobre o segundo. Quando se diz que alguém «toca violino», afirma-se que controla, com maior ou menor destreza, dois objetos que não se imagina serem dissociados, mesmo empregando uma única expressão para descrevê-los. O referido binômio está em constante interação, formando 25 um só instrumento. Verifica-se, portanto, que o violino é um elemento de massa integrado ao corpo, estático, que exerce uma força de inércia, ausente de atividade ou ação, enquanto o arco, sendo uma estrutura dinâmica, tem como natureza própria o movimento. Ambos têm missões e funções diferentes, mas fundamentam-se sobre uma lógica idêntica e o mesmo equilíbrio corporal. Outro fator que diferencia o violinista de outros instrumentistas, como os pianistas e violoncelistas, que não perdem nunca de vista a sua identidade e coesão, apesar da especialização de cada um dos seus lados, é que o mesmo tem a tendência de isolar cada braço, cada mão, esquecendo-se muitas vezes que «mão direita» e «mão esquerda» podem estar de igual forma intimamente relacionadas. Revela-se, desse modo, uma verdade fundamental: entre os dois lados, existe uma permanente semelhança. O corpo perfeito é simétrico. Além de terem a mesma lógica corporal, ambos os lados sustentam-se de uma mesma fonte de energia, que é transmitida para as mãos. Esse conhecimento da unidade corporal será bem enriquecedor pedagogicamente. A integração dos gestos instrumentais será mais rápida no instante em que o aluno perceba plenamente a referida simetria corporal. Pode-se constatar que o violino e o arco são mantidos, ambos em equilíbrio, pela ação de forças convergentes. A primeira, proveniente dos pés e da parte inferior do corpo, propagando-se por sinergia até a ponta dos dedos e atuando como sustentação de todo o corpo. A segunda é uma força vertical representada pela própria posição do violinista, cujo peso atua para baixo, com a cabeça bem posicionada sobre a coluna vertebral. Os pontos de apoio mais significativos para o violinista, que permitirão a produção e a emissão de uma sonoridade com maior clareza, são as costas, na altura dos rins, que sustentam o equilíbrio de todo o corpo, e as mãos. Na execução instrumental, os braços, incluindo as mãos, funcionam como um sistema de condução da energia corporal. Verifica-se a importância de o violinista vigiar os braços para que não dispersem essa energia proveniente das costas durante o seu percurso, o que ocorre na maioria das vezes devido 26 a tensões, procurando que estejam livres e mais soltos. Como ressalta Bruser (1997), os braços carregam a carga de emoções do músico para o seu instrumento. Por essa razão, a importância de que eles, do torso e até a ponta dos dedos, devam estar livres de qualquer tensão, para que o violinista consiga uma boa expressividade musical. Ombro, cotovelo e pulso devem estar posicionados corretamente e suficientemente soltos para que a energia possa fluir livremente através deles. Pode-se constatar igualmente que tensões no pescoço e nos ombros acabam pressionando nervos que se estendem até as mãos, provocando dor ou dormência nelas e no antebraço. Adotando uma postura adequada, os alunos aliviarão as dores ao liberar tensão nos músculos do pescoço e dos ombros. Bruser (1997) reafirma dessa maneira a importância de que se mantenha uma posição corporal erguida, com a verticalidade do eixo da coluna e do pescoço. Portanto, tensões no pescoço e nos ombros irradiam-se para os músculos do braço. “Produz-se uma reação em cadeia. A cabeça representa aproximadamente 10% do peso corporal. Quando o pescoço não está posicionado corretamente para dar suporte à cabeça, os ombros recebem essa carga. Devido a que esse peso é demasiado para os ombros, o mesmo é transferido para o cotovelo, o pulso e as mãos, travando dessa maneira as suas melhores capacidades de movimento” (BEJJANI, 1993, apud BRUSER, 1997, p. 75). Como assinala Hoppenot (1991), as mãos do músico, consideradas como terminação final do corpo, contêm um conjunto de terminações digitais, que será o verdadeiro núcleo da ação instrumental, um elemento ativo e dinâmico, que armazena energia antes de ser libertada e dosada na ação interpretativa. As mãos do violinista, mesmo tendo aparentemente funções bem 27 diferenciadas, possuem na realidade da ação musical formas similares. Como referido anteriormente, a realidade da simetria corporal do violinista se aplica aqui com clareza. Enquanto uma das mãos tem por missão manter o arco para o violinista ditar suas intenções, a outra precisa sustentar o violino, formando os diferentes intervalos musicais. Não obstante, nesse conjunto as duas partes participam igualmente na dicção e na formação da sonoridade, o que exige idênticas qualidades. Necessário faz-se verificar que para o violinista as mãos são muito mais que órgãos especificamente dotados de flexibilidade e adaptados, mas sim o ponto de contato que lhe permitirá integrar os dois elementos que fazem dele, precisamente, um violinista. Duas formas similares nas quais se inscrevem o objeto da vara do arco e o braço do violino. Mesmo com funções diferenciadas claramente, a mão esquerda movimentando-se ao longo do braço do violino, enquanto a mão direita permanece em um lugar fixo conduzindo o arco, a sua simetria é absoluta. Hoppenot (1991) certifica que este aspecto em grande medida é ignorado no ensino do violino. Assevera desta maneira a importância de o aluno de violino ter plena consciência de que a mão deve permanecer exatamente no eixo do braço pelo fato de que obtém do corpo toda a sua energia. As palmas das mãos devem permanecer abertas, sendo indispensável que, tanto na mão esquerda como na direita, o eixo das articulações metacarpianas e das falanges permaneça reto. “Para evitar o risco de «quebrar» o eixo das articulações, o violinista deve ter sempre presente que a primeira falange dos quatro dedos, em oposição ao polegar, prolonga o metacarpo e une-se na sua musculatura mediante um correto encaixe dos segmentos ósseos. Se as primeiras falanges estiverem de tal maneira unidas à palma da mão, esta, permanecendo firme, não ficará truncada na altura das articulações metacarpo falangianas. Indispensável para equilibrar as forças que atuam entre o polegar, de um lado, e a palma da mão do outro”. (HOPPENOT, 1991, p. 43) 28 No instante em que a mão do violinista deixa de se contrair, permanecendo sem tensões, os dedos adquirem atividade e independência de movimento, principalmente o dedo índice que, ao ficar livre de tensões, poderá exercer sua função de guia, tão importante na técnica da mão esquerda por exemplo. Por outro lado, o que diferencia as duas mãos do violinista precisa igualmente ser compreendido conscientemente pelo aluno. São os movimentos de pronação, rotação interna do antebraço no nível da articulação do cotovelo, efetuado pelo segmento antebraço/mão direita situando-se acima do arco, e o movimento de supinação efetuado pelo seu homólogo antebraço/mão esquerda em rotação externa, para assim se integrar ao braço do violino e evoluir sobre o espelho do instrumento. Apesar desta diferenciação, as mãos continuam sendo, evidentemente, estruturas idênticas entre si. Os violinistas necessitam, portanto, de uma saudável e adequada rotação na articulação do cotovelo em ambos os braços. Como referido anteriormente, um movimento de pronação no antebraço direito e supinação no antebraço esquerdo. Pode-se verificar que o braço direito, o do arco do violinista, está em contínuo movimento de pronação na medida em que o arco está sobre as cordas. Johnson (2009) assinala que um saudável movimento de pronação é essencial para alcançar o gesto extra necessário para manter a vibração da corda quando existir maior resistência ao arco, como nas cordas mais grossas ou em pontos de contato próximos do cavalete. A importância de uma correta pronação vem exemplificada por Johnson (2009): “Soma-se o risco de lesão, tanto na articulação do cotovelo como na do pulso, para o violinista que tenta a pronação movendo o cúbito, a ulna, restringindo assim enormemente toda a técnica do arco por causa da perda de independência na 29 articulação do pulso. Golpes de arco como o «spiccato», e «sautillé» serão irregulares e difíceis de controlar por causa do enrijecimento do pulso. As mudanças de arco não serão suaves e inclusive alcançar o extremo final do arco será uma dificuldade causada pela limitação da mobilidade no pulso”. (JOHNSON, 2009, p. 104) Segundo Pascarelli (2004), o importante é encontrar a chamada «posição de função» da mão. Uma posição natural na qual os dedos assumem sua função com firmeza e eficiência, mas sem nenhuma rigidez e tensão. Recomenda que se estenda o antebraço, sem dobrar o pulso em nenhuma direção e virando a palma da mão para cima. A curvatura natural que a mão assume é a posição de função. Pode-se asseverar, portanto, que, ao assumir essa curvatura natural e ao posicionar a mão no instrumento e no arco, o aluno conseguirá ter uma mão sólida, confortável e ao mesmo tempo relaxada. Um detalhe importante que se deve observar é o de que os dedos por si só não possuem nenhum músculo; os músculos que controlam os dedos estão no restante da mão e principalmente no antebraço. Os tendões se estendem a partir desses músculos para a movimentação dos dedos e qualquer sobrecarga adicional nos dedos se refletirá em tensões no antebraço. Por causa disso, alunos que exercem uma pressão excessiva nos dedos com o intuito de fortalecê-los, na realidade estão travando o livre fluxo de energia da mão, dificultando a execução e provocando uma deficiência na sonoridade por causa da tensão muscular. Por outro lado, a rotação chamada de supinação, no antebraço esquerdo, acontece na direção oposta que a do braço direito. Como ressalta Johnson (2009), o violinista precisa da supinação para alcançar confortavelmente com a ponta dos dedos as diferentes regiões do espelho do braço do violino. Em definitivo, realiza-se a rotação para que os dedos possam 30 estar devidamente posicionados no espelho. Uma conseqüência grave que ocorre quando os alunos não posicionam corretamente o antebraço, com a devida rotação, é que os dedos descem nas cordas no lugar errado, resultando em uma deficiente afinação. Certamente, verifica-se que, quando o aluno aprende a manter a colocação do instrumento com o antebraço devidamente posicionado em rotação, os dedos estarão em melhores condições de pisarem na corda no lugar desejado para a correta afinação. “Com a correta posição do antebraço, os alunos terão a visão de uma parte do cotovelo ao olhar para baixo. Uma rotação que não seja exagerada. Se a rotação for muito ampla, o braço ficará tenso e o violinista se sentirá como se estivesse dando um nó na musculatura”. MAGNES, apud BRUSER, 1997, p. 130) Verifica-se neste caso que o primeiro dedo, o índice, precisará de um movimento de supinação bem menor que o quarto, o mindinho, pelo natural posicionamento da mão. Este movimento de supinação nunca deve arrastar o braço para fora e sim apenas girar o antebraço sobre si mesmo. Dessa forma, os músculos seguirão relaxados e unidos às costas. Permanece o braço em uma posição natural, facilitando qualquer movimentação da mão esquerda. Verifica-se que uma das causas principais de tensões e crispações do braço e da mão provém do fato de confundir a supinação apenas do antebraço com a rotação externa de todo o braço esquerdo. Se a rotação for realizada pela ulna, o cúbito, isso levará a um desvio da colocação da mão e dos dedos sobre as cordas. A mão esquerda perderá o equilíbrio acima das cordas e os dedos tocarão nas mesmas de lado, transversalmente, e não diretamente de cima na direção delas. Tocar desta forma irá exigir um esforço muscular muito maior, já que a vantagem derivada do adequado equilíbrio dos ossos dos dedos e do pulso sobre a ulna se perde. Outro efeito poderá ser verificado no que ressalta Johnson (2009), dizendo que esta perda de sustentação provoca a debilidade e 31 a falta de força do quarto dedo, o mindinho, perdendo o violinista a solidez e o equilíbrio do braço que o correto posicionamento do mindinho proporciona. Pode-se comprovar com isto a importância de o aluno posicionar o mindinho alinhado com a ulna naturalmente. Assim, o quarto dedo estará fortalecido e não mais será o «dedo mais débil» da mão, apesar de ser o mais curto. Johnson (2009) observa igualmente que os violinistas que realizam o movimento de rotação da ulna, na supinação do braço esquerdo, experimentam uma maior dificuldade em tocar confortavelmente nas posições mais agudas do violino, na região final do espelho. “A obstrução dos ossos do pulso causada pelo desvio do osso da ulna dificulta enormemente poder dobrar o pulso suficientemente para tocar com liberdade acima do ombro do instrumento, quando o violinista está nas posições mais altas” (JOHNSON, 2009, p. 104) Johnson (2009) alerta da mesma forma sobre o perigo que a obstrução continuada e o enrijecimento dos ossos do pulso podem acarretar, conduzindo muitas vezes ao desenvolvimento de cistos no pulso. Numerosos tendões, veias e nervos atravessam o túnel carpiano, o canal formado pelos pequenos ossos situados no punho. Quando os ossos do pulso estão comprimidos, os tendões ficam sobrecarregados e vulneráveis a uma lesão se submetidos a certos movimentos. Conclui-se, por conseguinte, a notável importância de o violinista conhecer as funções do antebraço e reaprender, se necessário, como realizar a rotação do mesmo, movendo o rádio e mantendo a ulna na sua posição natural, parada, para assim obter a plena liberdade de movimento no cotovelo, no pulso e na mão. Como conseqüência dessa equivocada supinação do braço esquerdo, com a rotação externa de todo o antebraço, o ombro fica mais à frente, 32 desencaixado da sua posição natural, provocando dores nas costas e contrações da musculatura do trapézio, na parte posterior do pescoço. A mão perde força e deixa de distribuir energia aos dedos, causando as referidas dores e tensões musculares. Pela estrutura óssea do ser humano, a junção do cotovelo não permite uma rotação, seja de supinação ou pronação, no lugar onde a ulna, o cúbito, se encontra com o úmero, o osso do braço, da omoplata ao cotovelo. Será o outro osso, o rádio, o que proporciona a rotação natural para o antebraço. O pulso e os ossos da mão juntam-se ao rádio e, dessa maneira, a mão poderá se posicionar corretamente pela supinação, com segurança e facilidade, sendo o rádio o osso estruturado e encarregado do movimento, ao girar no seu ponto de junção com o úmero. Johnson (2009) comenta o seguinte sobre um erro comum, anteriormente citado: “É certo que procuramos que o dedo mindinho permaneça posicionado curvado, confortável, sobre as cordas, mas quando se menciona somente o mindinho no objetivo para uma correta posição da mão esquerda, a atenção do aluno estará direcionada para o lado equivocado do braço. Na realidade, o movimento de rotação acontece no lado do braço do polegar e não do lado do dedo mindinho”. (JOHNSON, 2009, p. 165). Hoppenot (1991) ressalta que a integração do violino e do arco, do violino em sua totalidade, deve ao mesmo tempo respeitar o equilíbrio corporal e a lógica instrumental apropriada. Nessa questão do equilíbrio é importante salientar que a mão esquerda participa, sim, da função de sustentar o instrumento, contrariando a crença de que o violino se mantém sozinho com a ajuda apenas do apoio da cabeça e do ombro, reduzindo dessa forma a função preponderante exercida pela cabeça, muitas vezes apoiada com demasiada força na queixeira, o que destrói o equilíbrio do corpo. A mão esquerda precisa 33 estar, sim, bem relaxada e solta, mas participando da sustentação do braço do instrumento. O violino mantém-se graças a uma «balança» (Hoppenot, 1991), que coloca em jogo os dois pontos de contato do violino com o corpo - a mão esquerda em forma de forquilha com o polegar-índice e, por outro lado, o maxilar e a clavícula -. Sem a participação da mão esquerda na sustentação, não existe, portanto, uma correta relação do instrumento com o corpo. Desta maneira, o cotovelo permanece alinhado ao longo do corpo devido à correta supinação do antebraço, com a cara anterior do braço e da mão na direção do violinista. A mão esquerda permanece como prolongação do braço e permite que a articulação média do polegar e a base do dedo índice estejam posicionados em forquilha e de uma forma estável no braço do instrumento. Esta posição não impede nenhum movimento e o apoio obtido pela posição de forquilha formada pela mão esquerda é o primeiro ponto de contato da «balança» que equilibra o violino. Um ponto de contato ou apoio, ativo, como ressalta Menuhin (1971), que faz com que a mão esquerda possa estar constantemente em movimento ou preparada para se mover. Prosseguindo na análise dos elementos que configuram o equilíbrio corporal do violinista, verifica-se que a clavícula, segundo elemento da «balança», é o mais conflituoso devido a que a menor rigidez tem uma imediata repercussão no corpo e na sonoridade. Segundo Hoppenot (1991), o violinista precisa manter, como foi visto anteriormente, a cabeça reta no eixo da coluna vertebral, e ligeiramente orientada à esquerda aproximadamente em vinte graus. A partir desse ponto e sobre o lugar de colocação, ela diz: “A clavícula e o maxilar esquerdos configuram uma cavidade natural e flexível na qual o violino se situará com facilidade, horizontalmente sobre a clavícula, seguindo a inclinação do maxilar. Nenhum movimento da cabeça deve ir à procura do violino como se fosse um objeto estranho ao corpo: ele 34 deverá vir ao encontro do corpo sem que por isso se modifique a nossa posição” (HOPPENOT, 1991, p. 46). Segundo Menuhin (1971), a cabeça precisa exercer uma leve pressão, como um leve peso, sobre a queixeira, evitando que o violino se deslize sobre o apoio da clavícula. O ombro, entendido como o lugar onde o braço se une com o corpo, estará dessa forma libertado de qualquer responsabilidade na sustentação do instrumento, permanecendo em uma posição relaxada e natural. Este é um detalhe de enorme relevância para que os alunos compreendam que nunca se deve elevar o ombro esquerdo, um problema comum em muitos violinistas. Caso contrário, será um fator claro na falta de conforto e no aparecimento de dores, impedindo o livre movimento, pequeno ou grande, do braço e dos dedos. Bruser (1997) atenta para a realidade de que segurar um instrumento afeta a postura, da mesma forma que a postura irá influenciar a maneira na qual o músico irá segurar e tocar o seu instrumento. “Aconselha-se aos instrumentistas primeiramente, tanto sentados quanto em pé, permanecerem em uma posição neutral, devidamente eretos, sem segurar o instrumento, para só então levar o instrumento para si, em vez de comprometer o equilíbrio das diferentes partes do corpo na ação de ir na direção do instrumento” (CAPLAN, 1987, apud BRUSER, 1997, p. 88) Ressalta Bruser (1997) que muitos violinistas têm o costume de apertar os músculos do pescoço, comprimindo o instrumento entre o queixo e a clavícula para mantê-lo em posição. É fundamental, portanto, que os alunos 35 confiem em tirar o peso da cabeça para manter o violino na posição de tocar, eliminando uma tensão desnecessária no pescoço e nos ombros. Deve-se aliviar e soltar a musculatura do pescoço, permitindo que a cabeça se assente livremente sobre o instrumento. A partir desse ponto, o músico deve mantê-lo horizontalmente em uma posição na qual as cravelhas permaneçam na altura da boca do violinista. Permanecendo ligeiramente mais abaixo, existirá a desvantagem do peso da gravidade, causando um maior desconforto na execução. É importante assinalar que o verdadeiro ponto de contato do violino deve ser o espaço clavícula-maxilar, onde o ombro não intervém de modo algum. Dessa forma o violino permanece na parte dianteira do corpo, com estabilidade e independência. Sustenta-se sobre a clavícula na prolongação do ombro, sem repousar nele. Segundo Hoppenot (1991), se o violino repousasse sobre o ombro estariam implicados inutilmente os músculos das costas, o que causaria desconforto nos diversos deslocamentos da mão esquerda no braço do violino. “Em vez de procurar desesperadamente ajustes posicionais localizados e frágeis, é muito mais aconselhável reforçar o tônus geral, subindo o esterno, permanecendo erguido, alongando as costas e a cintura como se a cabeça quisesse tocar o teto, enquanto os pés se afiançam profundamente no chão: em tal momento, o violino encontra uma facilidade imediata para repousar sobre o corpo estabilizado e equilibrado”. (HOPPENOT, 1991, p. 47). Da mesma maneira que o violino, o arco será beneficiado da energia proveniente da totalidade do corpo e assim estará integrado no equilíbrio geral do violinista, como se fosse uma prolongação do braço. O aluno precisa manter o ombro direito baixo, para assim poder conduzir o braço direito à frente do 36 corpo, relaxado, garantindo o correto movimento de pronação sempre presente. Um movimento realizado, como assinalado antes, somente pelo antebraço, assim como a mão na sua prolongação, em rotação interna, sem arrastar propriamente o braço na sua totalidade. O cotovelo precisa estar livre nos seus movimentos, girando para fora, com a mão no eixo do braço. São movimentos que, como assevera Hoppenot (1991), fazem parte da vida cotidiana e devem resultar naturais na ação. Encontra-se um exemplo no simples movimento de abrir a maçaneta de uma porta. Constata-se que os alunos realizam muitas vezes movimentos complicados e gestos isolados, bastando na maioria das vezes movimentos reduzidos e simples. Sobre a técnica do movimento do arco, verifica-se que unicamente com o correto movimento de pronação poderá o aluno libertar a mão e os dedos das tensões e contrações que acontecem com freqüência. Um dos objetivos dessa rotação será levar a força do braço ao dedo índice, que é o ponto de contato básico da mão com a vara do arco. Partindo deste princípio, o violinista compreenderá que todas as pressões que deverá exercer sobre o arco, para obter as diferentes acentuações e nuances, não serão pressões provenientes do dedo ou da mão somente e sim do braço ao completo. Com este resultado, a pronação libertará também a articulação do cotovelo, que estará apto para seguir a condução do arco à direita ou à esquerda, além de igualmente a do pulso, que poderá se movimentar tanto lateralmente como em sentido vertical. Problemas que podem ser encontrados nos alunos, como um cotovelo demasiado elevado ou um pulso sem força e firmeza, são a causa da deficiência na igualdade de pressão da ponta ao talão do arco, introduzindo tensões que repercutem na qualidade da produção do som. “Todo golpe de arco demonstra no fundo a necessidade de uma correta rotação do antebraço direito. Você posiciona o arco na corda e à medida que apóia o seu peso na ponta do arco, o rádio 37 realiza a rotação ao redor da ulna. Se você apenas solta o seu peso do braço verticalmente na corda, o som produzido será um chiado. A corda não poderá vibrar, estará matando a sonoridade. Se pelo contrário a rotação for aplicada para a movimentação da vara, os golpes de arco terão maior leveza e elasticidade, produzindo um som livre e de qualidade”. (RITSCHER, apud BRUSER, 1997, pag. 130). Hoppenot, (1991) assinala que os dedos da mão direita precisam estar livres de qualquer rigidez pela preocupação de estarem segurando o arco, com a missão de transmitir ao mesmo todas as inflexões do discurso musical, como se fosse a própria escrita. “O arco pode transformar-se no que realmente é, quer dizer, na expressão da eloqüência do violinista, da sua sutileza, do seu rigor e da sua autêntica riqueza”. (HOPPENOT, 1991, p. 53). Fischer (1997) assinala igualmente a importância de os dedos não estarem presos à vara e sim terem “vida” sobre o arco. Míninos ajustes de acomodação precisarão ser feitos, já que as condições da execução estarão em constante mudança. Pode-se considerar o fato de que o cérebro do violinista estará enviando incontáveis mensagens ao subconsciente para que os dedos possam mudar o contato dos mesmos no arco. Com isso, essas mudanças não perceptíveis, invisíveis, serão reações instintivas às sensações musicais e das próprias mudanças de contato do arco com as cordas, mais do que algo que possa ser ensinado e aprendido. O aluno compreenderá assim a necessidade de que o arco deve ser mantido sem nenhuma tensão e rigidez nos dedos, para que os ajustes possam ocorrer de forma espontânea, sem restrições. 38 “Nossa sensibilidade diminui em proporção à quantidade total do estímulo recebido. Se temos duas velas iluminando um cômodo, facilmente perceberemos a diferença de luminosidade quando uma terceira vela for acesa. Mas se pelo contrário temos cinqüenta velas acesas, será muito pouco provável que notemos a diferença que faria uma vela a mais. Da mesma forma, quanto mais pressionarmos a corda de um violino, menos perceberemos e sentiremos sua real sonoridade. Quanto mais alto toquemos, menos escutaremos. Portanto, quanto mais relaxados estejam os nossos músculos, maneiras teremos de maiores possibilidades movimentá-los e livremente”. (NACHMANOVITCH, 1990, p. 63). Johnson (2009), por sua vez, acrescenta um interessante papel que o arco desempenha no equilíbrio corporal do violinista, assumindo sua parte de responsabilidade na sustentação do violino. Um elemento de sustentação na maioria das vezes negligenciado. O motivo principal é o fato de conceber-se a sustentação como sendo alguma coisa que precisa vir de baixo. A explicação dada por Johnson (2009) é a seguinte: ao segurar um livro na palma da mão esquerda e incliná-la, o livro começará a escorregar; mas ao colocar a mão direita ligeiramente acima do livro, o mesmo parará de escorregar e não será necessário aplicar muita força com a mão direita no livro para ajudar a sustentá-lo. O livro apenas precisará manter contato com outra superfície na parte de cima para receber o suporte adicional necessário para se estabilizar. O arco tem a mesma função de suporte como recurso para estabilizar o violino, o qual na maioria das vezes estará em paralelo com o chão, enquanto em outras estará ligeiramente inclinado, dependendo da movimentação que o 39 violinista esteja realizando a partir da junção esterno-clavicular esquerda e do tipo de espaleira que esteja usando. 1.2 – A dialética do gesto: percepção e movimento “Podemos considerar, sob um aspecto dinâmico, que a arte de tocar violino ou qualquer outro instrumento identifica-se com a arte do movimento eficaz” (HOPPENOT, 1991, p. 67). Estas palavras demonstram que o gestual do músico é como a escrita, que permitirá ao mesmo expressar-se com facilidade. Na realidade, o violinista desenha uma linguagem, cria um dinamismo e liberta uma energia. Na prática do instrumento raramente um gesto resulta errado devido a sua dificuldade. Na realidade, será conseqüência do fato de não se ter assimilado adequadamente a sensação que lhe corresponde por não se ajustar à realidade do instrumento. Pode-se verificar que, na maioria dos casos, os problemas de afinação e de sonoridade ou deficiências na flexibilidade têm a sua origem no desconhecimento do movimento adequado, à impaciência do violinista e em maior medida a um deficiente equilíbrio corporal. Cada pessoa tem de adaptar o gesto para poder estar em plena conformidade com sua própria fisiologia e com a utilização adequada de determinados órgãos, em um respeito total ao corpo. O gesto e o movimento correto devem ser sempre pontuais com uma economia de meios para obtermos os objetivos desejados. O aluno necessita saber que para qualquer proposta musical existe um gesto adequado em resposta às exigências musicais. O domínio do gestual, em plena consciência do espaço no qual se inserem e com a precisão necessária adquirida pela estabilidade dos seus pontos de apoio, será a peça chave para que o violinista possa tocar com facilidade e naturalidade. 40 “A aprendizagem do movimento funcional é importante para aqueles que desejam eliminar definitivamente sua insegurança e dominar seus meios de ação”. (HOPPENOT, 1991, p. 68). Violinistas em nível de graduação, que já possuem um passado de vivências com o instrumento, devem ter a capacidade de analisar e visualizar o gesto para que posteriormente o mesmo seja realmente sentido e vivido. A realização do gesto deixará, portanto, de ser um pensamento para se constituir na materialização daquilo que foi imaginado e antecipado mentalmente. Todo violinista constata a relevância da necessidade de se antecipar ao que vem a seguir enquanto está tocando. Esta necessidade acontece ao tocar uma peça pela primeira ou pela vigésima vez. Uma maneira de se libertar da consciência dos movimentos. No instante em que cada gesto tenha sido examinado com clareza, virá uma ação global que integrará cada pequeno movimento com precisão, resultando no efeito de uma impressão de facilidade e de evidência na execução instrumental. Toda a importância assinalada anteriormente a respeito do equilíbrio corporal deve ser igualmente válida para o movimento, para o gesto. “Separado da totalidade, o gesto não existe e a independência das diferentes partes do corpo devese à sua solidariedade” (HOPPENOT, 1991, p. 69). Cada gesto põe em jogo a totalidade do corpo, já que na realidade nenhuma movimentação, por pequena que possa ser, causada por uma só articulação, deixará de interessar a ação dos músculos mais potentes que a sustentam e que lhe dão a liberdade de ação. A idéia da simetria fundamental do corpo encontra neste caso um reforço no seu conceito, se levado em consideração o fato de que toda ação muscular referente a um lado do corpo 41 possui idêntico efeito sobre o seu homólogo do lado oposto, o que se conhece como fenômeno de sincinesia. O equilíbrio geral do corpo fundamenta-se na associação de dois dinamismos, um de expansão e outro de resistência à expansão, cuja combinação será a garantia da perfeita harmonia dos movimentos. Faz-se necessário assinalar que o centro de gravidade está situado no nível da terceira vértebra lombar e que, portanto, toda a força está concentrada nesse ponto. Hoppenot (1991) afirma que a procura de gestos corresponde às melhores correntes de energia, que têm sua origem no centro de gravidade do corpo e que são suscetíveis, portanto, de proporcionar aos dedos a sensibilidade e a força que precisam. A cada força surgida do centro de gravidade e direcionada ao exterior corresponderá uma força oposta, que retorna e evita a dispersão da energia. Conforme Bruser (1997), este é um fenômeno que representa uma lei básica da física. Toque e movimento estão inter-relacionados. Devido a isso, a capacidade do aluno de direcionar a atenção nas sensações do toque e movimento o ajudará em uma melhor sincronia com o corpo e a incrementar a satisfação física de fazer música. Quanto mais o violinista saiba servir-se do corpo, melhor será a sua coordenação e sonoridade. Ao tocar um instrumento, a força do corpo de encontro ao instrumento cria uma reação igual e oposta, onde a energia flui de volta ao corpo a partir do instrumento. “Observemos o jogo de forças dentro do nosso corpo enquanto estamos em contato com o instrumento e como a energia circula através do sistema corporal. Que possamos desfrutar dessas sensações. Se estamos tensos e rígidos, tentemos focar a imagem do espaço dentro dos nossos braços, contendo o sangue e os fluidos corporais. Recordar que os braços estão vivos e não solidificados permitirá que 42 aliviemos tensão e que assim nos expressemos mais livremente”. (BRUSER, 1997, p. 203) Pode-se constatar dessa maneira que os gestos serão eficazes, autênticos e produtivos na ação musical quando se produz o equilíbrio das forças do centro de gravidade do corpo, quando o movimento, em vez de perturbar o equilíbrio estático, integra-se no equilíbrio dinâmico. Dessa maneira, é importante que o violinista tenha a percepção de que os braços, representação do circuito de energia direcionado à extremidade dos dedos, funcionam precisamente sobre o modelo de equilíbrio de forças opostas, de dinamismos contrários. Na prática do violino, um sério problema é o desconhecimento, muitas vezes evidente nos alunos, da função dos braços nos gestos instrumentais. A idéia de eliminá-los involuntariamente significaria cortar a transmissão de energia, fazendo da mão e do antebraço um segmento isolado. Nos movimentos necessários ao violino, os braços, mesmo sem serem os iniciadores do movimento, atuam, segundo citado anteriormente, como correia de transmissão, unindo as mãos ao corpo e dando o aporte de energia necessário. Com isto, pode-se verificar que a seguinte visualização é de suma necessidade para o aluno de violino: tanto à direita, na representação do arco, como à esquerda no corpo do instrumento, o braço ao completo do violinista deve intervir na ação, sustentado por uma coluna fortalecida, que atua como ponto de apoio, articulado ao redor de um ombro baixo, de um cotovelo que transmite a energia pela sua face exterior e de um pulso que o prolonga até os dedos. Pode-se concluir neste ponto que, em qualquer circunstância, será o braço na sua totalidade o membro encarregado de levar a mão ao seu objetivo, enquanto ela mesma irá conceber todos os movimentos, dos mais amplos aos mais reduzidos. Por outro lado, a parte esquerda do corpo, lugar de repouso do instrumento, tem uma natureza de caráter estático, embora nunca passivo. Não está carente de movimento, como se pode verificar na colocação dos dedos, nas mudanças de posição ou no vibrato. Faz-se necessário revigorar o 43 lado esquerdo para que possa transmitir a força proveniente das costas por meio dos braços até a ponta dos dedos. Hoppenot (1991) acrescenta o detalhe de que as possibilidades de expressão estarão multiplicadas quando o braço exerce de baixo para cima um contrapeso correto e apropriado ao peso do braço direito. Bruser (1997) oferece um simples conselho referente à liberdade gestual do músico, recomendando que em vez de forçar o corpo para controlar o instrumento, deve-se harmonizar e valorizar as próprias sensações, acreditando nas qualidades naturais de coordenação e musicalidade e permitindo um movimento com espontaneidade. “Permita que a música se realize a través do corpo”. (BRUSER, 1997, p. 207) 1.2.1 - Mão esquerda Como princípio básico para o desenvolvimento adequado da sua técnica, a mão esquerda deve conservar, independentemente das exigências musicais e de performance, o mesmo formato em uma posição fixa, ao longo do braço do violino. Se o posicionamento da mão for bom, os dedos terão plena liberdade de movimento, favorecendo propriamente a execução musical e recursos como o vibrato, ou a realização de cromatismos. Quando os dedos mantêm uma boa orientação posicional sobre o braço do instrumento, a mão não precisará de movimentos dispensáveis. Naturalmente, os intervalos serão formados pela ação única dos dedos. Hoppenot (1991) assevera que o fato de os dedos estarem colocados sobre as diferentes cordas, ou posicionados para a formação dos mais variados intervalos, não deverá ser motivo para modificar o equilíbrio da mão. Deve-se, por conseguinte, procurar manter a estabilidade do lado esquerdo de maneira constante. Para o correto equilíbrio da mão, é importante prestar muita atenção ao polegar, já que é o responsável, com freqüência, de um excesso de pressão e 44 de permanecer aferrado ao braço do violino. Como ressalta Galamian, (1998) este problema é o motivo principal que origina a paralisação do funcionamento da mão esquerda, onde a pressão lateral, do lado da quarta corda do violino, interfere gravemente nas mudanças de posição e no vibrato. O polegar deve garantir sem nenhuma contração a função de suporte junto com a base do índice, na posição anteriormente assinalada, em forquilha. Esta função de suporte não pode interferir no gestual das mudanças de posição, no qual o polegar tem uma função preponderante, da mesma forma que no livre movimento e na articulação dos outros dedos. Produz a sensação de formar com a base do índice e a ponta dos dedos um anel estável, que se movimenta com facilidade pelo braço do violino, sem deformar em hipótese alguma a estrutura da mão. Para a compreensão do equilíbrio, verifica-se que o dedo que representa, metaforicamente, a coluna vertebral da mão esquerda é o índice. Mantendo sua primeira falange estendida corretamente no eixo do antebraço, estará em disposição de se posicionar com facilidade nas quatro cordas do violino, sendo o cursor da mão esquerda e o ponto de apoio essencial. O índice ao mesmo tempo é o dedo que garante a estabilidade do formato da mão, quando não intervém diretamente na ação, e o que com sua firmeza assegura o mecanismo e a articulação dos dedos. O movimento dos dedos resulta do efeito de que caem na corda pelo efeito do próprio peso, por estarem ligeiramente elevados graças ao índice, que atua como ponto de referência. De uma forma equivocada, alunos têm o costume muitas vezes de percutir os dedos pontualmente nas cordas como se fossem pequenos martelos. Como atesta Galamian (1998), grande parte dos violinistas exerce uma pressão excessiva nos movimentos da mão esquerda. Batem os dedos com muita força, levantando-os em excesso ou apertando-os exageradamente uma vez que entram em contato com as cordas. 45 A energia dos dedos não é pontual e sim proveniente de todo o corpo. A sua possibilidade de independência deve-se a que pertencem a um todo por estarem unidos ao metacarpo e guiados pelo índice. “A independência dos dedos é um engano quando a mão não está bem colocada, quando o índice se afunda e se os quatro dedos não conformam uma união em oposição ao polegar”. (HOPPENOT, 1991, p. 75) Na arte de tocar instrumentos de corda, como o violino ou a viola, o músico precisa transmitir uma carga musical completa até a ponta dos dedos, que se assentam sobre a corda antes de ser recebida e exposta pelo arco. Considere-se o fato de que o pensamento da ação descende aos dedos da mão esquerda antes de ser executado pelo lado direito, o do arco. Isto pode ser compreendido pelo que Hoppenot (1991) assevera ao dizer que é de grande utilidade para o violinista que os dedos da mão esquerda estejam colocados antes de tocar, para assim obter uma perfeita sincronização na ação; uma disposição correta no tempo. Um dos movimentos mais importantes na prática do instrumento, e que requer plena consciência gestual, estreitamente ligado a um correto equilíbrio postural, é a mudança de posição da mão esquerda sobre o braço do violino. O aluno estará em condições plenas de abordar tal tarefa no momento em que os movimentos executados em uma posição fixa estejam assimilados. No instante em que se restabelece o equilíbrio, qualquer mudança de posição pode resultar cômoda e segura sempre, que o seu mecanismo esteja compreendido. Primeiramente, recomenda-se que o aluno comprove a sua tonicidade geral, que condicionará a realização adequada do movimento. Independentemente da amplitude do mesmo, o ponto de apoio das costas precisa permanecer sólido, e o ombro, da mesma forma que o corpo, não deve deslocar-se para a frente. Em caso contrário, estará comprometida a precisão 46 do gesto e, consequentemente, a unidade do braço. A presença ativa e constante do braço, transmissor da força, aliado ao dedo polegar sem nenhuma crispação e constituindo um eixo de rotação firme e estável, permitirá o movimento da mudança de posição com flexibilidade e eficiência. O polegar, colocado e integrado corretamente no braço do violino, condicionará igualmente todo o equilíbrio do lado esquerdo, permitindo, além de uma liberdade de ação no braço do instrumento para movimentar-se nas diferentes posições, um vibrato de plena qualidade. Em definitivo, pode-se observar que da mesma forma que qualquer colocação do corpo ou das mãos que possamos examinar, os deslocamentos da mão e do braço esquerdos precisam ter relação com sensações concretas. “O gesto deve ser vivido desde o interior a fim de que possa ser previsto e assim poder transformar-se em um reflexo imbatível”. (HOPPENOT, 1991, p. 78) Segundo Galamian (1998), as mudanças de posição podem ser consideradas como a combinação da busca, por parte da mão, da sua nova posição sobre o braço do violino, da percepção por parte do dedo guia da distância percorrida e da ajuda oferecida pelo ouvido, registrando o progresso do deslocamento, para assim fornecer ao dedo informação sobre qual seria a distância correta. “A atividade muscular necessária para que a mão encontre sua nova posição centra-se na concentração ou extensão do ângulo do cotovelo, juntamente com o movimento para dentro ou para fora do próprio braço. A flexão da mão pelo pulso, em ocasiões complementa, e em outras substitui, este movimento” (GALAMIAN, 1998, p. 34) 47 Hoppenot (1991) assevera que, para um correto gesto do movimento em questão, com segurança e efetividade, o violinista precisa realizar a mudança de posição antes da ação, escutando a mudança antes de ser tocada, para suprimir desta maneira a dúvida e a ansiedade. Outros aspectos relacionados com as mudanças de posição serão abordados no terceiro capítulo do presente trabalho, quando analisados determinados problemas técnicos da mão esquerda. 1.2.2 – Mão direita O arco do violinista representa a expressão imediata de uma decisão consciente, sendo o reflexo do nosso estado interior. O lado direito do violinista é mais vulnerável às emoções por ser sede da sua eloqüência no instante da execução musical. O cansaço, nervosismo ou o acúmulo de tensões originará que o arco seja o primeiro em sofrer essa vulnerabilidade, causando deficiências na qualidade do som. Uma importante deficiência no ensino do instrumento é que muitas vezes o aluno está muito mais preocupado com o domínio dos diferentes golpes de arco, sem conhecer sequer as bases dos gestos relativos ao lado direito. O violinista precisa traduzir suas intenções com o arco com a maior exatidão, de uma maneira sutil, melhorando seus gestos continuamente. A condução do arco fundamenta-se principalmente em um movimento sempre idêntico, a condução linear. Sendo a base de todos os golpes de arco, deve ser profundamente assimilado na própria sensação de domínio do mesmo. “Em qualquer golpe de arco que seja executado, não deve ser esquecido que a cada nota emitida lhe corresponde uma porção de arco, movido em um ou outro sentido, sobre uma longitude maior ou menor, 48 mas sempre segundo os princípios da condução linear”. (HOPPENOT, 1991, p. 80) Galamian (1998) igualmente ressalta que o movimento linear, o golpe de arco reto do talão até a ponta, é a base de toda a técnica do arco, descrevendo uma linha reta paralela ao cavalete. Uma das razões primordiais é que, em caso contrário, um arco torto que perde sua condução linear muda seu ponto de contato na corda, variando amplamente sua distância em relação ao cavalete. Como conseqüência disso haverá uma alteração na qualidade do som. Pode-se observar que antes de considerar os movimentos do gesto, próprios da mão direita, o aluno deve ter consciência de que todos os movimentos naturais da mão, do braço e dos dedos são essencialmente circulares. Sobre isto, Galamian diz: “Se dobramos qualquer das articulações, o extremo exterior do braço direito em movimento descreverá um arco, um movimento circular. A linha reta do gesto somente surgirá como resultado de uma combinação de movimentos, que são, por natureza, circulares”. (GALAMIAN, 1998, p. 71) Galamian (1998) assevera que a principal dificuldade no golpe de arco reto, linear, é o fato de que os membros do corpo humano não pendem de maneira natural à linha reta. Por conseguinte, a linha reta somente será obtida no gesto do arco como resultado de uma boa coordenação de movimentos circulares. Para a compreensão das posições e dos gestos imanentes ao movimento linear do arco, verifica-se a decomposição da trajetória do arco em três segmentos ou três fases. É importante que o violinista aprenda a detalhar os gestos e as colocações que correspondam aos diversos pontos do trajeto do 49 arco para assim obter segurança no movimento linear, base de todos os golpes de arco, e ao mesmo tempo uma grande desenvoltura no movimento, evitando tensões e cansaço. (HOPPENOT, 1991, p. 82) Detalha-se a continuação o gesto das fases em questão. Em primeiro lugar, respeitando o princípio básico da nossa arquitetura postural, constata-se que, quando o arco está na ponta, sobre qualquer corda, o conjunto «braço/antebraço/arco/linha dos ombros» conforma uma figura geométrica, reconhecida com facilidade como um trapézio. O braço e o arco, formando a pequena e a grande base do trapézio respectivamente, devem permanecer paralelos. No caso de que o violinista não observe a figura geométrica referida, o posicionamento estará incorreto. Algum elemento será susceptível de reposicionamento em tal caso, como a posição do instrumento, a orientação do braço ou do arco. É importante assinalar neste ponto que no gesto em direção à ponta do arco, na parte superior do mesmo, o movimento realiza-se estendendo o antebraço, empurrando-o para a frente com a parte superior do braço, a mão movendo-se para fora e à direita, respeitando na sua totalidade o paralelismo do arco com o cavalete, para, como assevera Hoppenot (1991), “aumentar dentro do possível a sensação de peso do braço até a mão”. 50 “Quando nos encontramos na ponta do arco, devemos transmitir nossa energia através do braço esticado, prolongado por todo o arco, enquanto que, no talão, o ponto de apoio do braço sobre o arco e o ponto de contato das crinas com a corda coincidem quase com exatidão. Será preciso conservar uma particular tonicidade, permanecendo relaxados, para evitarmos a perda de sonoridade ao chegar à ponta do arco”. (HOPPENOT, 1991, p. 81) Segundo Galamian (1998), o motivo do deslocamento para a frente do antebraço na ponta do arco reside no caráter circular dos movimentos naturais do braço. Verifica-se a seguir que, no movimento de subida do arco até o meio, o trapézio se transforma progressivamente em um paralelogramo, um rombóide, cujas bases permanecem, como o nome indica, em paralelo. O arco, que constituía a grande base do trapézio na ponta, fica mais curto, conservando a mesma direção, enquanto o braço, que era a base pequena, permanece na mesma posição. Da mesma forma, pode-se observar que o movimento do arco foi efetuado pelo antebraço graças a sua pronação. O braço continua mantendo uma resistência com força à ação do antebraço por meio do cotovelo, o qual segue orientado ao exterior, contribuindo a manter o paralelismo do arco com relação ao cavalete. Observe-se que na metade do arco, o dorso da mão, o pulso e o antebraço permanecem, praticamente, em linha reta. “É preciso ter uma sensação, especialmente quando se toca com a metade superior do arco, de comodidade e liberdade de movimentos no antebraço e no cotovelo” (GALAMIAN, 1998, p. 77) Continuando com o movimento de subida do arco em direção ao talão, com a mão colocada praticamente na altura da clavícula esquerda, observa-se 51 a formação de uma terceira figura geométrica, o triângulo. Neste ponto, é relevante o fato de que o violinista observe, diferentemente do que ocorre no terço superior e médio do arco, que o braço não permanece apenas como sustentação para o movimento do antebraço, mas se converte no elemento motor responsável pelo gesto de levar o arco à região do terço inferior. Sobre o movimento nesta região do arco, Hoppenot (1991) assinala que o braço tem a missão de terminar o gesto do arco acima até o talão, e também o de fazê-lo descer a partir desse ponto para baixo. “O braço tem uma função capital, já que intervém em todos os pontos de partida a partir do talão do arco, em todos os ataques de sonoridade e nas voltas e encadeamentos dos golpes de arco, tantas vezes comprometidos. O movimento do braço deve ser efetuado sobre um mesmo plano, delimitado pela direção do arco e da corda sobre a qual está posado, sem abaixar ou subir o cotovelo”. (HOPPENOT, 1991, p. 82) Verifica-se, portanto, que o arco deve ser conduzido pelo braço na região do talão e não pela influência do pulso. A interferência do pulso na procura do movimento linear complica o simples movimento do arco para cima e para baixo devido às contorções do pulso originadas. Galamian (1998), por sua vez, sinaliza a função do pulso no movimento gestual dizendo que, na região do talão, o pulso é um ponto de apoio ou de suspensão, ligeiramente curvado, com a mão sustentando o arco de um lado e o cotovelo suspendido do outro, onde arco e cotovelo se equilibram mutuamente. Ressalta ao mesmo tempo um sério problema que acontece quando, ao aproximar-se do talão, o violinista levanta em excesso o pulso, descendo dessa maneira a mão, formando um ângulo reto com o antebraço, origem de tensões musculares e da rigidez que afetam seriamente o pulso, impedindo o desenvolvimento favorável dos golpes de arco na região inferior e 52 a flexibilidade necessária para as mudanças de arco sutis e a qualidade do som. Galamian (1998) destaca também a necessidade de inclinar leve e gradualmente a madeira do arco na direção do espelho do violino na procura dos propósitos transcritos a seguir. “1) manter o golpe de arco reto ao aproximar-se do talão, já que o braço encurta-se ao pender a mão pouco a pouco do pulso; 2) retirar das cordas a parte interior das cerdas do arco, compensando assim o incremento natural do peso e pressão do arco sobre as cordas no talão; 3) conseguir o tipo correto de flexão e elasticidade necessários para a ação do pulso”. (GALAMIAN, 1998, p. 78) Prossegue asseverando que, para a realização dos movimentos necessários, os músculos do ombro precisam permanecer relaxados, sem encolher o ombro, para que a parte superior do braço permaneça plenamente livre para oscilar com facilidade para a frente, à esquerda, em direção ao talão do arco, e desta forma comandar os movimentos. Pode-se observar assim que a articulação do ombro funciona, portanto, lateralmente, mas em nenhum caso há de subir ou adiantar-se. Sobre a deficiência que resulta do fato de que muitos violinistas mantêm o pulso totalmente plano na altura do talão, Galamian diz o seguinte: “Igualmente negativa será a flexão lateral em excesso do pulso na altura do talão em direção ao queixo do executante. Esta curvatura interior do pulso criará tensões e dificultará o funcionamento de toda a unidade de (GALAMIAN, 1998, p. 79). acionamento do arco”. 53 Nos dois terços superiores do arco, recém analisados, a direção do movimento incide particularmente na mão. No terço inferior será o cotovelo o encarregado da condução linear até o talão no movimento do braço, com o devido alívio e relaxamento da mão. A leveza da mão direita no talão do arco será ainda mais satisfatória acrescentando a ação de contrapeso do braço, permitindo que recaia até a parte final das costas. Percebe-se a possibilidade de aliviar ao máximo a pressão dos dedos sobre o arco no talão se a estabilidade do braço fica assegurada pelo equilíbrio do peso e do contrapeso. “A sobrecarga de sonoridade, as dificuldades na execução de uma dinâmica em pianíssimo sem tremores, portanto todas as deficiências no talão derivam de um mau equilíbrio do arco”. (HOPPENOT, 1991, p. 83). Em toda a dinâmica do mecanismo do braço direito, no movimento do arco, é preciso que exista uma grande elasticidade do ombro até a ponta dos dedos. As articulações dos dedos, o polegar, a mão e o braço, necessitam ser flexíveis e atuarem como um mecanismo de molas. Em caso contrário, o som será duro, sem qualidade, desagradável. A ação do arco será rude e sem controle. “A flexibilidade do braço, da mão e dos dedos deve ser tão natural para o funcionamento do arco como o são as pernas, os pés e os dedos dos pés para caminhar. O violinista deveria perceber uma sensação de facilidade e soltura no acionamento do arco, em algum grau totalmente oposto à rigidez que produziria tentar caminhar sem dobrar as articulações apropriadas”. (GALAMIAN, 1998, p. 66). Pode-se ressaltar neste ponto que a diferenciação entre as três partes do arco, os três movimentos que conformam as figuras geométricas anteriormente assinaladas, deve ser uma percepção para o violinista sobre a 54 unidade da condução linear do arco, sempre efetuada a partir do mesmo plano, guiada pelo braço. Essa condução em nada muda no formato da mão ao longo da referida trajetória. O peso do braço entre a ponta e o talão do arco se desloca com leveza desde o dedo índice até o mindinho, o qual tem a função de equilibrar o arco no seu terço inferior. Hoppenot (1991) assinala a relevância de que o violinista saiba que todos os golpes de arco se baseiam nesta mesma estrutura, realizados com pequenas modificações nos seus detalhes de execução. Hoppenot (1991) recomenda que os alunos possam praticar «sobre eles mesmos», sem o instrumento, para a plena consciência do movimento do arco. “Da mesma forma que a imitação dos movimentos do arco acima da corda permite tomar consciência do peso do braço, a ação sobre o próprio ombro, sem o violino, permite considerar os movimentos do arco com maior pureza. Os gestos efetuados sobre o ombro, sobre a linha reta imaginária desde a clavícula esquerda até o joelho direito, são totalmente idênticos aos que devemos realizar sobre o violino; estando perfeitamente integrados e assimilados, será possível tocar com os olhos fechados em qualquer região do arco, independentemente da velocidade e do nível de som requerido”. (HOPPENOT, 1991, p. 85) Pode-se afirmar, portanto, que os gestos efetuados pelo instrumentista na condução linear precisam ser interiorizados, com o objetivo de captar a própria subjetividade e conhecer a qualidade criativa da sua energia em movimento. “Descobrir assim e cultivar a intensidade do «circuito fechado» constituído pelas costas, o braço e o arco com a corrente de energia atravessando sem 55 dificuldade as diferentes articulações segundo uma linha de movimento sólida”. (HOPPENOT,1991, p. 85). Partindo da recomendação acima descrita, verifica-se que da mesma maneira o violinista pode tomar consciência do movimento vertical, com o qual se efetuam as mudanças de corda, sem a intervenção do violino. Neste caso, será de fácil observação e compreensão pelo aluno que o gesto linear realizase nas mudanças de corda em quatro níveis diferentes nas cordas simples, acrescidas de três níveis quando se toca em cordas duplas. Portanto, cada movimento linear do arco poderá ser efetuado em um dos sete planos possíveis. O aluno deve imaginar, como exemplo, a presença de uma corda adicional a cada lado do braço do instrumento, uma corda «dó» à esquerda da quarta corda, a «sol», e uma corda «si» à direita da primeira corda, a «mi». Evita-se assim que o aluno exagere a inclinação do arco ao tocar nas cordas exteriores, sem a limitação de outra à sua direita ou esquerda. O grave problema decorrente de deixar oscilar o arco com facilidade no espaço vazio seria a perda do equilíbrio instrumental e corporal. A mudança de corda diz respeito a todo o braço, o mesmo que o arco; ambos movem-se juntos. Pode-se asseverar neste ponto que mudar de corda coloca em jogo um gesto basculante em cada uma das três figuras geométricas antes referidas, de um plano ao outro. Neste movimento, o aluno precisa ter a consciência de que a linha dos ombros permanece imóvel, formando a interseção dos diferentes planos. Nas mudanças de corda, o ombro não deve ser levantado e dessa maneira o instrumento não modifica sua inclinação para favorecer o encontro com o arco, o corpo permanece tranqüilo, sem perturbação no gesto. Se o violinista muda a inclinação, prejudica de maneira visível a precisão dos movimentos. O gesto que permite alcançar os diferentes níveis tem sua origem na articulação do ombro, de trás para a frente e não em um movimento lateral. 56 Hoppenot (1991) alerta para o fato de que a utilização defeituosa do ombro é a causa principal da dificuldade nas mudanças de corda, já que a independência na articulação do braço, o osso do úmero, condiciona a flexibilidade de todas as demais articulações envolvidas no gesto. É importante que neste ponto o aluno não tenha dúvida de que o cotovelo representa o ponto principal para o movimento adequado do braço, e no caso para as mudanças de corda. Sendo ele o ponto de junção do braço com o antebraço, a sua articulação é a encarregada de transmitir as ordens para a articulação umeral. Neste ponto das mudanças de corda, deve-se observar, ao realizaremse movimentos em velocidade com várias mudanças, a necessidade de antecipar o gesto, prepará-lo, para que o passo de uma corda à outra se realize sem movimentos bruscos. Um princípio que não deve ser esquecido é o de que essa antecipação seja realizada aproveitando-se sempre a curvatura do cavalete, da forma mais arredondada possível. Em definitivo, os gestos do braço direito, sendo eles horizontais ou verticais, em diferentes velocidades, nunca devem ser um incômodo ou obstáculo entre si. O arco e o violino precisam permanecer estáveis, sem que a atitude do violinista modifique sua relação. “A segurança que todo violinista precisa e procura para o seu lado direito estará intimamente ligada ao domínio dos movimentos mais simples do arco, com as sensações precisas sobre cada corda, nas diferentes regiões da vara, com as diferentes pressões e velocidades, permitindo assim a plena expressividade e riqueza de dicção na conquista da sonoridade”. (HOPPENOT, 1991, p. 88). 57 CAPÍTULO II SENSAÇÃO INTERIOR E DESCONTRAÇÃO Poder-se-ia afirmar que a sensação deve nortear qualquer abordagem instrumental, partindo do princípio de que para o músico o verbo “sentir” deve alimentar sua atividade em cada instante. Normalmente, os alunos estão acostumados simplesmente à repetição continuada de certos parâmetros de estudo e prática, com o objetivo de obter o resultado técnico e instrumental desejado. Hoppenot (1991) alerta, no entanto, que tais métodos de trabalho e estudo poucas vezes conduzem a transformações e resultados duradouros. “O princípio primordial consiste em direcionar a atenção não ao resultado meramente externo do trabalho e, sim, ao interior, à percepção da sensação física que permite alcançar tal resultado”. (HOPPENOT, 1991, p. 56) Verifica-se assim a necessidade de o aluno poder tomar consciência real e íntima das suas sensações ao realizar um gesto ou vários gestos combinados, até conseguir incorporá-los e recriá-los com exatidão, sem hesitação, apenas evocando mentalmente a sensação adquirida. A procura da sensação evidentemente está ligada à necessidade do rigor, assiduidade e competência no estudo. Hoppenot (1991) ressalta a necessidade de desenvolver a receptividade sensorial e, mais ainda para os violinistas, uma aguda consciência do corpo, como exposto nos pontos anteriores, que permita 58 reconciliar música e mecanismo. A necessidade, portanto, de uma sensação adequada deve-se ao fato de que o ato de tocar o instrumento se dá por meio do corpo. Não será suficiente apenas um trabalho árduo e repetitivo, constituído pela repetição mecânica de exercícios e peças durante horas. Será vital que o equilíbrio postural, o gesto, a sonoridade, a afinação, passem através do canal admirável da sensação consciente. Dessa maneira, nenhuma parte do corpo deve ficar excluída do campo da consciência, pois causaria, em caso contrário, interferências na execução e na interpretação, perturbando o equilíbrio almejado. No caso presente, tratando-se de músicos, será preciso que as sensações auditivas, que têm uma predominância sobre as demais, demandem uma sensibilidade baseada na imagem interior da música e na sua escuta. Verifica-se desta maneira que a escuta não é somente uma função localizada no ouvido, mas sim uma disponibilidade de todo o corpo. “As sensações auditivas emergem das finas percepções vibratórias transmitidas, entre outras, pela ressonância óssea, sensíveis igualmente à flor da pele. Quando a sensação sonora é correta, produz-se uma vibração real do corpo, uma sensação de prazer. E todas as demais sensações que intervêm estão unidas a ela. A principal delas, a sensação de si mesmo, a mais pessoal das experiências íntimas, permite que o músico experimente o eixo vertical, a mobilidade no espaço, o equilíbrio de forças contrárias”. (HOPPENOT, 1991, p. 62-63). A sensação permite que o violinista experimente um bem-estar que liberta suas possibilidades de ação: quando o aluno vivencia a sensação na qual o arco alonga o braço, onde o talão ou a ponta do arco não oferece maiores dificuldades pelo desaparecimento de crispações e rigidez nos dedos e no pulso, onde as costas e os ombros participam ativamente na ação, 59 conduzir o arco e realizar as inúmeras acrobacias e golpes requeridos já não será um problema aparentemente sem solução. O objetivo de tudo isto é que o fruto do estudo e do trabalho do aluno, ato criador que supõe a interpretação, baseado na sensação, já não será diferente ao período de preparação. Isto é o que Hoppenot (1991) diz ao afirmar que, escutando a sensibilidade interior, se reivindicam inconscientemente as associações que constituíam o fundamento do estudo e trabalho. “Supera-se assim a dicotomia música/mecânica. Como resposta à sensibilidade auditiva, responde com o reflexo adequado por meio da sensação exata. O discurso do violinista, sendo filtrado realmente pelo corpo e vivido mediante sensações que fazem vibrar sua corda interior, resultará convincente. Baseando as nossas intenções musicais na sensação que lhe é própria, tocando em comunicação e interação contínua com o corpo e a mente, estaremos libertando a atividade criadora que está em nós, a qual, a partir desse instante já não permanecerá oculta por trás de uma técnica mecanizada. Assim, restabelecendo nossa unidade interior, o violino será um meio de expressão de todo o nosso ser. (HOPPENOT, 1991, p. 64-65). Outro ponto relevante é ressaltado por Bruser (1997) quando mostra que o músico tem que prestar atenção nas vibrações musicais que lhe atravessam o corpo, conectando-o assim à realidade física da música. O som é produzido pelo movimento e é ele próprio movimento. O violinista, ao mover seu corpo para tocar, produz no instrumento igualmente uma resposta de movimento. O som resultante é uma continuação desse movimento, já que as vibrações sonoras são literalmente ondas que se movem através do ar. O músico recebe 60 essas ondas sonoras de volta ao corpo, no seu interior, ao completo. Na busca da sensação, Bruser (1997) propõe o seguinte exercício: “Toque apenas algumas notas ou acordes de uma frase musical; à continuação, espere um pouco para perceber o efeito que produziu no seu corpo antes de continuar tocando. Descobrirá um novo nível de sensações à medida que incorpore a pureza do som, além das considerações sobre como poderia ter tocado. Primeiro precisará ir lentamente para, aos poucos, na medida em que esteja acostumado a escutar dessa maneira, poder ir aumentando a velocidade, sem perder as vivas sensações do som entrando no sistema corporal”. (BRUSER, 1997, p. 171). Que seja possível, portanto, sentir as vibrações em todo o trajeto corporal até a ponta dos pés, assinala Bruser (1997). Outro ponto é que a sensação de escutar não termina dentro do ouvido, ocorre em todo o corpo. Bruser (1997) põe o exemplo de que mesmo pessoas surdas podem dançar ao sentirem no corpo as vibrações que a música lhes causa. Assinala igualmente que os músicos algumas vezes notam que, na tentativa de perceberem as vibrações, a sensação termina em algum ponto determinado, no nível do estômago ou do coração, por exemplo. Recomenda que, no caso de que se perceba a sensação de bloqueio pontual, se foque um tempo adicional nessa área, permitindo que a respiração possa entrar por um minuto aproximadamente. As vibrações musicais poderão assim permear aquele espaço. 61 2.1 - Respiração Precisa-se ter a consciência de que, como nos diz Black (1996), o volume do ar que os seres humanos inalam diariamente é cinco vezes maior ao de comida e bebida em conjunto. Apesar de que se vive circundado de ar na vida diária, não se percebe, na maioria das vezes, o ato da respiração. O ciclo respiratório, da mesma forma que o batimento cardíaco, é uma manifestação inconsciente da vida. Por desgraça, sem se ter consciência do fato, perde-se a espontaneidade de uma respiração plenamente «normal», aquela que pode ser constatada nos bebês e nos animais, ou enquanto se dorme. “Ao observar a respiração de uma criança, constatamos que o sistema trabalha sem esforço. Todos os movimentos concentram-se no centro do corpo devido a que a criança não aprendeu os maus hábitos que interferem no processo natural”. (BLACK, 1996, p. 32) O corpo respira de forma automática; é impossível decidir deixar de fazê-lo conscientemente porque o corpo forçará a que se produza uma nova respiração. Por conseguinte, não se tem consciência de se estar respirando de maneira antinatural, em detrimento da lógica do próprio corpo. Na realidade, os maus hábitos junto com o estresse diário restringem o fluxo natural da respiração, do mesmo modo que afeta a liberdade de movimentos. Assim sendo, a respiração permanece dissimulada e somente em momentos de perturbação incomum, medo ou esforço exagerado percebem-se as suas deficiências. Para os músicos, é um detalhe de suma importância, já que não deixa de condicionar a maneira de tocar, positiva ou negativamente. Não pode ser ignorada e o aluno deve aprender a utilizá-la em todo momento. 62 “A vida começa com a respiração. É algo tão básico em toda atividade, e em toda a arte musical, que se faz essencial tê-la presente enquanto tocamos. A respiração deve ser suave, não forçada, e precisa continuar tranqüila, inclusive durante os movimentos mais intrincados que implica a prática do violino”. (MENUHIN, 1971, p. 17). Hoppenot (1991) atesta que respiração e descontração são plenamente inseparáveis e que não é possível se ocupar de uma sem considerar a outra. Pode-se observar nos violinistas que alguns podem sofrer em maior medida os prejuízos de uma tensão excessiva, outros padecem com uma respiração incômoda, mas é preciso saber que para a melhora é necessário considerar o duplo aspecto do problema, do qual normalmente só se percebe uma parte. Pode-se observar, portanto, a relação entre a respiração e as emoções. Em situações de estresse e nervosismo, a mesma torna-se muito curta e pouco profunda. Por outro lado, em momentos em que se descarrega tensão emocional, como em um choro intenso ou um riso prolongado, o ser humano utiliza o seu pulmão na sua máxima capacidade, alcançando uma sensação de relaxamento e alívio de uma tensão emocional. Black (1996) assinala como a respiração mantém igualmente uma relação com a tensão física ou o estresse corporal, já que, quando os músculos estão relaxados, a respiração torna-se mais profunda e mais lenta. Quando o violinista acumula tensões e crispações, impedindo o relaxamento muscular direcionado dos pulmões para baixo, provoca o inconveniente da separação e da divisão do fluxo respiratório. Este é um dos pontos importantes para a compreensão de que o correto uso da respiração favorece o relaxamento dos músculos e melhora sua efetividade. Neste ponto, pode-se verificar que os violinistas não sempre são conscientes do verdadeiro problema, atribuindo o mal-estar respiratório a uma carência de origem técnico, que lhes paralisa ou bloqueia. Na realidade, é o contrário; a técnica instrumental seria amplamente beneficiada com uma adequada respiração. 63 Hoppenot (1991) certifica que os instrumentistas de corda somente utilizam uma pequena parte da sua capacidade pulmonar e não apreciam as incidências consideráveis da respiração na execução musical. Este problema não acontece, em contrapartida, com os cantores e instrumentistas de sopro, que conhecem muito bem a importância de uma colocação correta da respiração, fundamental para conseguir a desejada «coluna de ar», sem a qual não se obtém uma emissão sonora conveniente. Sem o domínio confortável da respiração, não podem nem frasear e nem fazer música. Sobre este aspecto, Devos (1966) estabelece o paralelo entre a coluna de ar, o sopro do cantor, e o arco dos instrumentos de corda. Para estes últimos, pode-se admitir que a expressão na execução instrumental realiza-se, pelo menos, por 2/3 de arco para 1/3 da mão esquerda. Eis o motivo da grande importância dada à técnica de arco. “A respiração permanece ignorada no ensino tradicional do violino, como se fosse exclusividade dos instrumentistas de sopro. Veremos quem é capaz de mencionar a um violinista sua «coluna de ar»... (HOPPENOT, 1991, p. 131) No caso do violino, muitas vezes desconsidera-se que a beleza, a profundidade e a emoção da sonoridade, a expressividade que se consegue por meio do arco, são igualmente o resultado da tranqüilidade e da utilização adequada da respiração. Hoppenot (1991) alerta para o caso de que em grande medida a respiração é encarada como um estorvo, como um obstáculo a eliminar, e não como um elemento construtivo para a execução musical. Pode-se asseverar, assim, a relevância para o violinista de um ritmo respiratório amplo e distendido, encarado como uma necessidade artística, para a consecução de uma ação musical cômoda e expressiva. “Os músicos são tributários da respiração, na metade do caminho entre o subconsciente, na parte inferior e superior do corpo, da parte física e 64 espiritual. Se a respiração é interior, profunda e sossegada, será o suporte de uma energia vital interminável. Por contra, se ela é curta, mal colocada e inibida, perturbará o metabolismo, paralisará o movimento e bloqueará a relação entre a parte baixa e alta do corpo, impedindo uma comunicação real com a riqueza criativa do nosso inconsciente”. (HOPPENOT, 1991, p. 130). Neste ponto, pode-se verificar a necessidade de o aluno observar e perceber certos pontos, como recomenda Black (1996): encontra-se a cabeça bem equilibrada na parte superior da coluna vertebral, ou se mantém em posição de maneira rígida? A mandíbula está em tensão? Encontram-se os ombros ou os braços adiantados ou ligeiramente levantados? O estômago está relaxado? Estão os pés e os joelhos soltos? Todos estes pequenos detalhes podem ter efeitos na respiração, fazendo-a pouco eficaz, comprimindo o sistema respiratório, impedindo que se respire profundamente. Se o violinista apresenta uma má postura, os músculos que permitem as mudanças no corpo para inspirar ou expirar ficam reprimidos no seu movimento, impedindo que os pulmões possam se expandir como necessário, causando que a respiração se dê com a parte alta dos pulmões. Sobre o ponto anterior, é necessário ressaltar que o perigo de limitar a respiração à parte alta dos pulmões, a um simples abrir e fechar das costelas separadas do ventre, causa no violinista a nefasta separação entre a parte alta e baixa do corpo, como visto anteriormente. Portanto, é necessário que a parte abdominal esteja suficientemente livre e distendida para permitir em cada inspiração uma leve elevação do ventre, fundamental para a livre ação do diafragma. Pode-se verificar que estes hábitos negativos, muitas vezes herdados da infância, estando-se por vezes com eles acostumados, aceitam-se como 65 norma. Somente os maus hábitos irão dificultar, desta maneira, uma ótima respiração. Segundo Hoppenot (1991), não existe impossibilidade orgânica alguma que impeça o aluno e violinista de restabelecer uma sadia respiração. Como exemplo, comenta o caso de como uma mesma pessoa, bloqueada durante o dia, possivelmente ainda mais com o violino nas mãos, encontra à noite um ritmo respiratório tranqüilo e regular. A respiração não se limita ao volume dos pulmões e põe em jogo a totalidade do tronco em uma sinergia muscular complexa. Pode-se imaginar uma onda que sobe e desce ao longo do tronco, sem delimitação de fronteira entre a parte baixa e alta. Esta observação pode ser constatada durante o sono, uma respiração absolutamente normal, como assinalado no início do capítulo. Na dinâmica da respiração, constata-se que a inspiração consiste na tensão ativa do diafragma, em união com a distensão dos músculos abdominais e pélvicos. A expiração, em contrapartida, produz-se com a tensão ativa dos referidos músculos abdominais, elevando o diafragma, que nesse instante encontra-se distendido. Portanto, verifica-se que o mecanismo fundamental e natural da respiração, em um estado de distensão, é precisamente a alternância ritmada de contrações e de relaxamento, que empurra a massa abdominal em um fluxo e refluxo constantes. Hoppenot (1991) esclarece o seguinte: “O centro do referido movimento, centro da respiração, estará situado dessa maneira no ventre e não no peito onde estão os pulmões, mesmo que estes últimos sejam o âmbito real da função respiratória”. (HOPPENOT, 1991, p. 133). Segundo Menuhin (1971), a respiração requer a habilidade de inalar e exalar com suavidade. Para isso, assevera a importância de se levar o mesmo 66 tempo na inalação que na exalação, sendo que o tempo para cada uma deve ser tão longo quanto possível. Na prática do violino, a respiração deve ser contínua, evitando-se retê-la. Neste ponto, assinala que, como um exercício realizado com cuidado, sem esforço, a retenção da respiração pode ser benéfica. Menuhin (1971) propõe um exercício respiratório simples para desenvolver a habilidade de inalar e exalar, a ser realizado sentado, com as pernas cruzadas uma sobre a outra, as mãos descansando sobre os joelhos, com a palma para cima, a coluna vertebral bem ereta, o pescoço e os ombros relaxados, o tórax livre e alto. A partir desse ponto, começa-se a respirar suavemente, marcando os segundos decorridos, procurando prolongar a duração de cada respiração. Bruser (1997) recomenda um exercício a ser realizado sentado em uma cadeira, o torso erguido, descansando naturalmente sobre os ossos da bacia, os pés bem assentados e firmes no chão, as mãos em repouso sobre as pernas, a cabeça e a face para a frente, deixando cair o olhar a um nível confortável, uns 45º para baixo, relaxando os olhos. Nesse instante, mentalizase o corpo, da cabeça aos dedos dos pés, para perceber qualquer ponto de tensão, com o objetivo de relaxar conscientemente os músculos, libertando as tensões. Conseguida a postura anterior, volta-se a atenção para a respiração na exalação. Não será necessário, neste caso, prestar uma atenção particular à inalação, e sim apenas ao ar que sai. Não será preciso respirar de alguma maneira especial, simplesmente deve-se respirar, mantendo o exercício por pelo menos dois minutos. Segundo Bruser (1997), a respiração para fora, a exalação, é muito relaxante e, normalmente, no dia a dia não se tem oportunidade de exalar suficientemente. Precipita-se o processo da respiração e às vezes ela é retida. Prestar atenção na respiração, permitirá uma conscientização desses hábitos. “Notaremos assim que a respiração é irregular. Algumas vezes não se exalará completamente; a inalação terá começado um pouco antes do que 67 seria natural. Se não cedemos a essas tendências no controle da respiração, ela mesma começará a relaxar e se auto-regular”. (BRUSER, 1997, p. 47). Com este exercício, pretende-se que o aluno sinta o ar entrando nos pulmões profundamente, que o corpo fique mais relaxado e a mente tranqüila. Neste caso, segundo Bruser (1997), direcionando conscientemente a atenção para os detalhes da respiração, tira-se a atenção dos pensamentos aleatórios, deixando a mente focada apenas no simples processo respiratório. O músico constata com esta prática a possibilidade de respirar mais facilmente, descontraindo o corpo e a mente. Na medida em que as células recebem mais oxigênio, o sistema respiratório flui mais facilmente. Recomenda-se que o aluno toque o seu instrumento por alguns minutos sem realizar o exercício respiratório previamente. Posteriormente, deve-se realizar o exercício por uns dois minutos e recomeçar a execução instrumental. Ressalta Bruser (1997) que o músico poderá assim sentir o poder da técnica respiratória e perceber a diferença no seu estado de espírito e na música. A importância da exalação deve-se ao fato de que é, por regra geral, a fase respiratória que corresponde ao tempo mais intenso do esforço, à atividade e à continuidade do movimento. Pode-se verificar que se tratando de uma exalação prolongada, a mesma estará unida ao trabalho ativo da musculatura exterior do tronco, especialmente a do ventre. Hoppenot (1991) chama a atenção para a realidade de que os violinistas não costumam ter conhecimento deste fato e, portanto, no instante de controlar a respiração preocupam-se mais com a inspiração. Inspirar com intensidade sem uma contrapartida adequada na expiração não traz benefícios, já que a inspiração excessiva bloqueia o ar nos pulmões e perturba a naturalidade e eficiência dos gestos, além de predispor a um estado de insegurança. 68 Evidentemente, o violinista precisa saber adaptar a sua respiração a determinados níveis, segundo as necessidades requeridas e a amplitude do gesto. “Não se deve abordar o concerto para violino de Brahms, que exige uma reserva de energia considerável, do mesmo modo que o final de uma sonata de Mozart, constituído de elementos precisos e delicados”. (HOPPENOT, 1991, p. 134). Segundo a explicação acima, compreende-se que, em um determinado caso, a inspiração anterior a uma grande respiração implicará o tórax na sua totalidade, com o objetivo de atuar com a força necessária para uma expiração longa. No outro caso, será suficiente uma leve inspiração, mais fraca de início, que resultará mais apropriada para uma expressão do detalhe musical. Mesmo assim, segundo Hoppenot (1991), em ambos os casos a expiração será base para a ação, uma vez que se habilite o gesto por meio de uma inspiração anterior adequada. Por outro lado, o violinista precisa saber que os movimentos respiratórios não devem repercutir na altura dos braços, pela razão de que a respiração interessa à parte dianteira do corpo, enquanto o gesto instrumental está radicado na musculatura das costas, como ressaltado no capítulo anterior. O peso do corpo precisa estar repartido sobre os pés, favorecendo assim a relação com o próprio centro de gravidade corporal, para a consecução de uma respiração mais espontânea e fluida. Outro benefício, segundo Bruser (1997), da conscientização no processo da respiração, é a preparação para a performance pelo fato de se sentir um maior conforto e segurança no ambiente da apresentação. O sentir da respiração, a solidez do corpo bem assentado, o ar, a luz e os sons ao redor entram no primeiro plano da própria consciência. Na performance, a afluência da adrenalina inunda o corpo e, com a energia do público que se recebe de volta, sobrecarrega o intérprete, fazendo com que se tenha a sensação da 69 «mente em branco». A plena atenção na respiração faz com que o músico se habitue a ter uma mente aberta e organizada, experimentando tal sensação durante a execução instrumental. Alcançando esse estágio, o instrumentista estará em condição plena de se focalizar na execução musical e assim poder expressar-se com facilidade, conforto e satisfação. Para finalizar, pode-se mencionar um simples exercício, recomendado por Menuhin (1971), para incrementar consideravelmente o controle da respiração e a capacidade pulmonar. O mesmo consiste em colocar a mão direita contra o nariz, tapando a narina direita com a ponta do polegar, e a esquerda com a ponta do terceiro dedo. A seguir, afrouxar ligeiramente a narina esquerda o suficiente para permitir a entrada de uma fina coluna de ar. Senão, observe-se: (a) Inalar pela narina esquerda; (b) exalar pela narina direita, afrouxando o polegar com leveza, enquanto se fecha a narina esquerda com o terceiro dedo – exalar completamente; (c) inalar através da narina direita; (d) exalar através da esquerda. Segundo Menuhin (1971), a destreza deste exercício mede-se pela duração de cada inalação e exalação, pela estreiteza da abertura através da qual passa o ar na narina e pelo silêncio com o qual o ar passa. Para o bom controle da respiração, o objetivo será conseguir manter aproximadamente durante quarenta e cinco segundos a inalação e em um tempo similar a exalação, realizando o ciclo completo dez vezes. 2.2 – Alongamento e aquecimento Primeiramente, é necessário asseverar que, na realidade da prática instrumental, o músico não leva em consideração na maior parte das vezes que o gesto técnico que está realizando, pelo movimento produzido graças à contração e ao relaxamento coordenado de diversos músculos, demanda um gasto de energia, o que acarreta, mesmo que sutilmente, conseqüências físicas. Rosset e Fàbregas (2008) dizem que a razão da falta de consciência do músico em relação ao fato de realizar uma atividade física intensa se deve a que tal atividade não vem acompanhada das reações do organismo, 70 normalmente relacionadas com o esforço, tais como uma aceleração do ritmo cardíaco e respiratório, a transpiração, a sensação de esgotamento e cãibra, entre outros. Esse é o motivo pelo qual os músicos não acreditam estar realizando um trabalho tão duro como um desportista, já que o coração e os pulmões não estão sendo forçados ao extremo. Os citados autores asseveram que a aparição de problemas físicos no músico deve-se, portanto, à pouca consciência das elevadas exigências que implica sua atividade. Bruser (1997) chama a atenção para o fato de que o músico, por não sentir precisamente essa sensação de fadiga em todo o corpo, não percebe a necessidade de um descanso, da importância de uma pausa durante o exercício diário do estudo. O temor de não alcançar a perfeição o leva a uma prática excessiva e a uma prática sem fruição. “Um perfeccionismo exagerado e uma intensa competitividade causam, algumas vezes, o desenvolvimento de uma grande tensão, que os médicos chamam de ‘síndrome de uso excessivo’. Pelo temor de não praticarem o suficiente, os alunos lesionam-se pela prática excessiva”. (BRUSER, 1997, p. 18). Pode-se considerar que a prática exagerada, anteriormente referida, indica uma falta de confiança na própria habilidade do músico. Bruser (1997) assinala o temor dos músicos de que se simplesmente permanecem relaxados, permitindo-se trabalhar com naturalidade e conforto, não serão suficientemente bons. O problema deve-se, como assinalado anteriormente, a que os músicos normalmente não pensam em si mesmos como atletas, mas na realidade o são, pelo fato de que a prática de um instrumento musical demanda a utilização extrema de pequenos músculos. Bruser (1997) explica que os músculos se compõem de pequenas fibras individuais, onde um pequeno músculo depende relativamente de poucas fibras para realizar um trabalho. Portanto, quando o 71 violinista utiliza um pequeno músculo para fazer um movimento rápido e repetitivo durante várias horas todos os dias, provoca que essas poucas fibras estejam realizando um trabalho maior que aquelas outras que se movimentam lentamente nos músculos das pernas de um corredor, por exemplo. Bruser (1997) prossegue na explicação, assinalando que os músculos da periferia do corpo recebem menos sangue que aqueles mais próximos do centro, devido a que os vasos sanguíneos são menores, provocando que os músculos pequenos sejam mais vulneráveis a uma lesão. A prática do alongamento, segundo Rosset e Fàbregas (2008), prepara o músico para poder render ao máximo enquanto toca seu instrumento e, ao mesmo tempo, lhe protege da possibilidade de lesões, contribuindo para restituir plenamente o organismo após o esforço realizado. “O movimento repetitivo e os gestos assimétricos geram uma descompensação muscular. Uma musculatura descompensada, pouco elástica e contraída não aproveitamento, somente mas, condiciona principalmente, um pior predispõe maiormente a uma lesão”. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 19). O alongamento consiste em uma série de exercícios físicos, que têm como objetivo propiciar a elasticidade dos músculos e das articulações. Bruser (1997) assinala que quando o sangue fresco e o oxigênio não estão bombeando livremente através dos tecidos do corpo, os músculos se cansam e não funcionam bem. A energia reduz-se em vez de estar em condições para a ação. Alongar os músculos, libertará os que estão em tensão, preparando-os para o trabalho e a atividade. Regelin (2004) por outro lado acrescenta que, alongando corretamente cada músculo, reduz-se a sobrecarga, reforçando a musculatura com um aporte de agilidade e relaxamento. A elasticidade dos músculos dificulta que os mesmos possam se romper e sofrer uma lesão, inclusive na realização das 72 tarefas cotidianas. Outros dos benefícios relatados é a possibilidade de acalmar ou evitar a dor muscular. Como assinalam Rosset e Fàbregas (2008), como conceito geral, o alongamento de um músculo consegue-se realizando o movimento contrário ao efetuado por esse músculo. Pode-se verificar que tais exercícios permitem a melhora do estado físico e, pelo seu efeito de relaxamento, favorecerá igualmente o estado psíquico do músico. Os autores sintetizam a relevância do alongamento, recomendado antes e depois da prática instrumental, verificando que tais exercícios contribuem a um melhor conhecimento do corpo, facilitando assim o melhor aprendizado da atividade motora, o que resulta em um trabalho mais produtivo e em digitações mais ágeis e elásticas. “Na fase de preparação para tocar, alongar o músculo comporta um aumento da sua potência e tolerância ao esforço, provocando ao mesmo tempo um certo aquecimento do músculo, incrementando sua flexibilidade e elasticidade, junto com a dos tendões, e contribuindo à lubrificação das articulações”. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 27). Por outro lado, na fase posterior à atividade instrumental, os referidos autores assinalam o fato de que o alongamento contribui para eliminar a tensão que, enquanto se toca, vai sendo acumulada em diferentes partes do corpo. Facilita o retorno venoso e linfático, contribuindo a eliminar o depósito de líquidos, reduzindo o volume do músculo, origem da dor muscular, e facilitando sua recuperação. A seguir, tem-se uma referência sobre a importância do ponto anterior do presente trabalho, quando Bruser (1997) verifica que os benefícios do alongamento podem incrementar-se com uma correta respiração, já que ao respirar plenamente enquanto se realiza o alongamento, o movimento da respiração faz o espaço no interior do corpo mais fluído, de maneira a que os órgãos possam expandir-se e se movimentar mais livremente. 73 “As vibrações musicais podem se mover mais facilmente através dos órgãos, levando o intérprete a um compromisso mais completo com a música enquanto toca. Literalmente, você cria um som mais amplo”. (BRUSER, 1997, p. 32) Sobre a coordenação da respiração com os exercícios de alongamento, Bruser (1997) cita sua amiga e professora de movimento corporal Joan Campbell Whitacre, recomendando que o alongamento se inicie no instante da exalação. A continuação, continuar respirando e alongar tanto como seja possível sem forçar o corpo. Ao chegar a um ponto de desconforto ou enrijecimento, deve-se ser capaz de relaxar nessa posição, inalando profundamente em cada respiração e prolongando cada exalação. Conseguindo-se permanecer na posição e experimentando um alívio no desconforto, estar-se-á no caminho certo do exercício. É importante que na prática do alongamento se desfaça a posição com cuidado em caso de dor ou desconforto extremo. Rosset e Fàbregas (2008) recomendam que se esteja bem concentrado na zona a ser alongada, com uma respiração lenta, rítmica e controlada. Durante o alongamento, deve-se procurar somente uma sensação suave de tensão que, ao se estar relaxado, deve diminuir enquanto se mantém a posição. A partir desse ponto, deve-se aumentar lentamente o alongamento até perceber uma sensação de tensão intensa, mas ao mesmo tempo agradável. Deve-se manter a posição por 20 ou 30 segundos, repetindo a série quantas vezes se deseje. Os autores recomendam igualmente alongar os dois lados (por exemplo, primeiro o braço direito e depois o esquerdo). Deve ser iniciado primeiro com o lado mais tenso e sobrecarregado pelo fato de que, como asseveram os autores, dedica-se mais tempo e atenção habitualmente ao músculo que se alonga em primeiro lugar. “O alongamento para ser realmente efetivo deve ser lento, gentil e prolongado”. (BRUSER, 1997, p. 32). 74 Bruser (1997) recomenda realizar os exercícios de alongamento com o corpo aquecido, após um banho ou uma ducha quente, ou após realizar alguns leves exercícios, como uma caminhada curta de alguns minutos. Alongar com músculos frios e rígidos, causará tensão em vez de uma soltura dos mesmos. 2.2.1 – Aquecimento e esfriamento ativo Rosset e Fàbregas (2008) assinalam que devido a que a interpretação musical implica a contração e o relaxamento de dezenas de músculos, em velocidade elevada e durante certo período de tempo, é necessário um constante aporte de energia e, por conseguinte, uma eliminação de resíduos metabólicos, o que se consegue por meio da irrigação sanguínea. Quando o músico inicia sua atividade subitamente, sem um tempo de adaptação, o músculo estará condicionado a trabalhar em uma situação pouco favorável, com um menor aporte de energia e principalmente de oxigênio. “Quando os tecidos estão quentes, as reações metabólicas se produzem mais rapidamente, a condução nervosa é mais ágil, os tecidos são mais elásticos e o líquido articular é mais fluído e a contração muscular fica mais rápida e forte. O aquecimento supõe também uma boa maneira de preparar-se psicologicamente para tocar.” (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 38). Pode-se verificar igualmente, segundo Rosset e Fàbregas 2008), que um adequado aquecimento permite um maior rendimento interpretativo, uma menor propensão à fadiga ou à lesão e uma melhor adaptação psicológica à atividade musical. Para o aluno e o violinista em geral é importante assinalar que o aquecimento deve ter duas fases: um aquecimento geral (com exercícios de alongamento) e um específico: exercícios específicos realizados no instrumento, os quais se baseiam em movimentos suaves, variados, em 75 velocidade moderada e com uma posição neutra das articulações. Rosset e Fàbregas (2008) recomendam a utilização de um vibrato mais relaxado e amplo ou trabalhar a afinação lentamente, sem vibrato. Deve-se evitar a utilização das posições altas que colocam o pulso em posições forçadas. Da mesma forma, os autores desaconselham o exercício de aquecimento em cordas duplas, golpes de arco ou em notas sustentadas durante muito tempo. Aconselha-se o aquecimento em escalas, começando com notas longas para, progressivamente, ir aumentando a velocidade, ligando primeiramente duas notas, depois três e assim sucessivamente. Por outro lado, não é recomendável que o aluno e violinista interrompa subitamente sua atividade. Como ressaltam Rosset e Fàbregas (2008), a incorporação do esfriamento ativo à rotina do músico permitirá melhorar a recuperação do organismo e evitar lesões provocadas pela fadiga e a acumulação do trabalho muscular. A dinâmica recomendada é que, em uma primeira fase de esfriamento geral, reduza-se gradualmente a intensidade, a dificuldade e a velocidade das peças que estão sendo tocadas, tempo que pode variar entre cinco, dez ou vinte minutos, dependendo da duração e da intensidade das peças. O objetivo será eliminar com eficácia os resíduos metabólicos e as tensões acumuladas. Os exercícios de alongamento têm, igualmente, uma relevância notável após a prática instrumental, correspondendo à fase do esfriamento específico. “Os instrumentos de corda com arco, como o violino, que se sustentam em uma postura assimétrica, geram tensão no nível da coluna. Alem disso, a posição na qual os braços trabalham, principalmente no lado esquerdo, provoca uma descompensação na musculatura do antebraço e do ombro, comprometendo o cotovelo e o pulso. Portanto, é essencial para o violinista incorporar no seu programa de trabalho exercícios que ajudem a compensar as cargas que se produzem nessas 76 zonas do corpo”. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 165). 2.2.2 – Exercícios para antes e depois de tocar “É evidente que o próprio trabalho sobre o instrumento dota as mãos do músico de uma excepcional destreza e agilidade. Cuidar adequadamente a musculatura da mão por meio de exercícios de flexibilidade e de alongamento, antes e depois de tocar, permite um trabalho muscular mais equilibrado e saudável, favorecendo uma maior amplitude de movimentos e uma melhor coordenação e independência dos dedos”. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 44). - Mobilidade dos dedos: exercício de flexibilidade, que deve ser realizado antes de tocar. Rosset e Fàbregas (2008) ressaltam que a mobilidade dos dedos da mão se produz pelos grupos musculares que estão no antebraço (que chegam aos dedos mediante os tendões) e os que estão dentro da própria mão. Para a realização do exercício, a posição inicial deve ser com os braços relaxados diante do corpo, sobre a perna ou sobre uma mesa, no caso de estar sentado. 77 (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 45) O trabalho consiste em separar lentamente os dedos uns dos outros o quanto seja possível para, seguidamente, juntá-los. Rosset e Fàbregas (2008) recomendam repetir o exercício de dez a quinze vezes. É importante que o violinista mantenha a mão bem relaxada para não forçar a musculatura enquanto realiza o exercício. - Rotações de todo o braço: exercício de flexibilidade que deve ser realizado antes de tocar. Os autores ressaltam que o exercício combina movimentos em todas as articulações (dedos, pulso, cotovelo e ombros). Pode ser realizado sentado ou em pé. Os pés devem estar bem apoiados no chão, a coluna vertebral completamente reta e os braços situados diante do corpo. Os dedos devem estar estendidos, os pulsos em ligeira extensão e os cotovelos flexionados e separados do corpo. 78 (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 54) O trabalho consiste em simular o movimento do estilo borboleta da natação, acrescentando um abrir e fechar da mão, realizando uma extensão e uma flexão do pulso em cada ciclo. Rosset e Fàbregas (2008) recomendam repetir o exercício dez vezes para depois realizá-lo, fazendo círculos na direção contrária. A flexão dos dedos e do pulso deve começar quando os braços estiverem atrás do corpo. Os autores avisam que, em caso de ter algum problema no ombro, somente devem realizar-se os movimentos do cotovelo, pulso e dedos. - ‘Sim’ com o pescoço: exercício de flexibilidade a realizar antes de tocar. “A musculatura anterior e posterior do pescoço são as que normalmente acumulam maior tensão ao 79 tocar. Os exercícios de flexibilidade a preparam para suportar a carga”. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 72). O exercício pode ser realizado de pé ou sentado, com a coluna bem reta e os braços relaxados, caídos ao lado do corpo ou sobre as pernas. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 72) Segundo os autores, a dinâmica consiste em flexionar a cabeça ao máximo e depois iniciar o movimento contrário, sem chegar a uma extensão máxima, já que poderia prejudicar a coluna, e não fazê-lo com rapidez. Uma referência para a correta extensão seria chegar ao ponto no qual, sem mover os olhos, se comece a ver a zona do teto, exatamente acima da cabeça. Devese repetir o exercício dez vezes. - Inclinação do pescoço: exercício de flexibilidade para antes de tocar. Segundo Rosset e Fàbregas (2008), este movimento é um gesto que não se 80 costuma realizar de forma simétrica durante a interpretação e, portanto, convém compensá-lo. Podendo estar sentado ou em pé, com os braços apoiados sobre as pernas ou ao lado do corpo, a cabeça deve estar olhando para frente. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 73) O exercício consiste em levar lentamente a cabeça à inclinação máxima para um lado e depois iniciar o movimento no sentido contrário. Realizar o exercício dez vezes. Os autores alertam para não subir os ombros, já que o movimento perderá a sua efetividade. - Rotação do pescoço: exercício de flexibilidade para antes de tocar. Rosset e Fàbregas (2008) assinalam que os movimentos de rotação permitem o trabalho da amplitude articular, ao mesmo tempo que preparam a musculatura para a ação instrumental. 81 (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 73) Com a cabeça olhando para frente e a coluna reta, os braços sobre as pernas ou ao lado do corpo, estando sentado ou em pé, deve-se iniciar o movimento de rotação do pescoço lentamente, até a posição máxima, para depois fazê-lo no sentido contrário. - Lateral do pescoço: exercício de alongamento a realizar antes e depois de tocar. “A parte posterior do músculo trapézio é uma dos lugares das costas com maior tendência ao acúmulo de tensão nos músicos. Deve ser, portanto, uma das zonas do corpo à qual deverá dedicar-se maior atenção no instante de alongar”. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 75). O exercício pode ser realizado em pé, com as pernas ligeiramente separadas, ou sentado. O braço do lado que se quer alongar deve permanecer 82 caído, com o ombro bem relaxado. Segurar a cabeça na altura da orelha com a outra mão, passando o braço acima da cabeça. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 75) A dinâmica consiste em inclinar o pescoço para o lado contrário ao qual se quer alongar, com a ajuda da mão. Deve-se tentar abaixar o ombro, do lado que está sendo alongado, ao máximo. Manter o alongamento durante vinte segundos em cada lado. O exercício deve ser feito bem lentamente, prestando atenção para possíveis moléstias na coluna. Os autores recomendam, nesse caso, flexionar ou estender ligeiramente o pescoço para procurar um ponto onde não haja nenhum tipo de dor. - Posterior do pescoço: exercício de alongamento a ser realizado antes e depois de tocar. 83 “O músculo esplênio, situado na nuca, juntamente com os outros músculos que mantêm a postura do pescoço, sofre a tendência de acumular tensão e a se contrair”. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 74). A posição adequada para a realização do exercício pode ser em pé, com as pernas ligeiramente separadas, ou sentado. Segundo os autores, deve-se segurar o pulso do lado que se está alongando, com o braço contrário, por detrás das costas. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 74) Segundo Rosset e Fàbregas (2008), a dinâmica consiste em inclinar a cabeça na direção do lado contrário ao que se deseja alongar e para frente, com uma flexão do pescoço. Puxar o braço para baixo, a fim de abaixar o ombro. Quanto mais se flexione o pescoço, maior será o grau de alongamento do esplênio. Deve-se manter a posição do alongamento durante vinte segundos em cada lado. 84 - Elevar a escápula: exercício de alongamento para antes e depois de tocar. “Junto com o músculo trapézio, o músculo angular da escápula, ou omoplata, é um dos que mais sofrem de tensão na atividade instrumental do músico. É essencial, portanto, que se acrescente à rotina de estudo e trabalho o alongamento desta região para estar em boa forma”. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 76). Permanecer em pé, as pernas ligeiramente separadas, ou sentado. O ombro do lado que se deseja alongar deve estar bem relaxado e baixo. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 76) No alongamento, deve-se inclinar a cabeça na direção contrária ao lado que se está alongando para, posteriormente, flexionar o pescoço para frente. O 85 braço contrário pode ser utilizado para abaixar o ombro. Realizar o exercício durante vinte segundos em cada lado. - Anterior do pescoço: segundo Rosset e Fàbregas (2008), o músculo esternoclidomastóideo é um dos mais importantes da parte anterior do pescoço. Tem a função de manter a postura e direcionar a cabeça. Pela sua facilidade para se encolher, este alongamento tem por finalidade evitar que isso aconteça. Deve ser realizado antes e depois de tocar. Para alongar o lado direito, estando sentado ou de pé, deve-se inclinar a cabeça para o lado esquerdo, com uma extensão do pescoço e uma ligeira rotação para o lado direito. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 75) “Ao alongar a parte anterior do pescoço, deve-se levantar o queixo, acrescentando rotação da cabeça 86 para o lado esquerdo”. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 75). Segundo os autores, o tempo será de vinte segundos em cada lado. - Pulso para fora: exercício de alongamento a ser realizado antes de tocar. Rosset e Fábregas ressaltam o fato de que os músculos extensores dos dedos estão situados no antebraço e são os que têm uma grande tendência ao acúmulo de cansaço, sendo, portanto, necessário o alongamento regularmente. Segundo os autores, deve-se manter o braço com o cotovelo ligeiramente flexionado e em rotação interna, com a palma da mão para fora. A continuação, fechar o punho da mão que se deseja alongar, com o dedo polegar dentro. Segurar o punho com a outra mão. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 56) 87 O alongamento deve-se realizar flexionando o pulso enquanto se estende o cotovelo, mantendo o movimento durante vinte segundos, de cada lado. Pode-se verificar que, variando a rotação do antebraço e a posição do cotovelo, muda-se a zona muscular que está se alongando. Rosset e Fàbregas (2008) ressaltam que deve-se experimentar qual é a posição que provoca um alongamento mais adequado. Não se deve fazer força em nenhuma zona do braço que está sendo alongado, mas sim somente com o músculo implicado na realização do alongamento. - Mão para atrás: exercício de alongamento para antes de tocar. “Os músculos flexores dos dedos e do pulso, mesmo alternando contração e relaxamento, acumulam o esforço devido ao seu trabalho repetitivo, facilitando assim que tanto as fibras musculares quanto seus tendões sejam propensos à inflamação”. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 57). Para realizar o alongamento, o cotovelo coloca-se ligeiramente flexionado e a palma da mão direcionada para baixo. Os dedos da mão esticam-se (extensão). A seguir, deve-se colocar a outra mão em perpendicular por debaixo dos dedos. 88 (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 57) Realizar a extensão do pulso e dos dedos enquanto aumenta-se também a extensão do cotovelo. Manter o alongamento por 20 segundos em cada lado. Rosset e Fàbregas (2008) alertam, neste exercício, para não alongar com os braços muito levantados e não subir os ombros. - Bolas chinesas: segundo Rosset e Fàbregas (2008), este exercício para tonificar a musculatura antes de tocar representa uma boa forma de combinar o trabalho de uma grande parte da musculatura envolvida nos movimentos da mão com o relaxamento. 89 Realiza-se com duas bolas de tênis de mesa ou similares, colocando-as dentro da palma da mão e com os dedos ligeiramente flexionados sobre elas. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 53) O exercício consiste em conseguir que as bolas girem entre elas, graças ao movimento de flexão e extensão dos dedos, fazendo com que as mesmas estejam em contato. O movimento será primeiro para um lado e depois para o outro. Os autores recomendam realizá-lo durante três minutos para cada mão. - Posterior do ombro: exercício de alongamento para antes e depois de tocar. “A parte posterior especialmente do utilizada músculo para deltóide tocar é vários instrumentos. Necessita desse modo, regularmente, ser alongado”. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 65). 90 O exercício realiza-se em pé, levantando o braço para frente na altura do peito, com o cotovelo flexionado, segurado por baixo pela outra mão. (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 65) O alongamento consiste em empurrar o braço na direção do outro ombro, fazendo que passe por cima dele, como em um movimento de abraçar a si mesmo. Mantê-lo durante vinte segundos em cada lado. Rosset e Fàbragas (2008) alertam para não realizá-lo em caso de problemas nos tendões do ombro ou ao notar dor nessa articulação, principalmente na zona posterior do ombro. - Laterais do abdome: exercício de alongamento para antes e depois de tocar. Deve ser realizado em pé, com os pés ligeiramente separados. A seguir, colocar um braço para cima com a mão do outro braço apoiada na cintura. 91 (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 82) O alongamento consiste em dobrar a cintura para o lado onde a mão está apoiada, mas não excessivamente para não prejudicar a coluna.. Sustentar o outro braço reto acima da cabeça. Os autores recomendam manter a posição por vinte segundos de cada lado. - Pulso para dentro: exercício de alongamento a ser realizado depois de tocar. Na posição inicial, o braço coloca-se com o cotovelo em ligeira flexão e a mão de lado com a palma para dentro. A mão fecha-se, com o dedo polegar no interior do pulso. Seguidamente, a outra mão segura o pulso, cobrindo os dedos. 92 (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 56) A dinâmica do alongamento consiste em tentar aumentar a flexão do pulso enquanto se realiza a extensão do cotovelo. Manter o exercício durante vinte segundos em cada lado. - Alongamento das costas: para ser realizado preferentemente depois de tocar. Segundo Rosset e Fàbregas (2008), a importância de alongar as costas deve-se a que a musculatura que está justamente aos lados da coluna permanece continuamente contraída, para manter a postura, enquanto o músico está tocando. Ao alongar as costas, esta suportará melhor a carga, evitando possíveis lesões. Deve-se realizar o alongamento sentado, com as mãos caídas ao longo do corpo e as pernas ligeiramente separadas. 93 (ROSSET e FÀBREGAS, 2008, p. 82) Alonga-se, deixando cair o corpo para frente e para baixo, com as mãos por fora das pernas. Arquear as costas desde a parte cervical, deixando cair os ombros para alongar a zona dorsal. Para aumentar o alongamento, deve-se colocar a cabeça no meio das pernas. 94 CAPÍTULO III ASPECTOS RELEVANTES DA TÉCNICA Pode-se afirmar, como ressalta o grande pedagogo e violinista Galamian (1998), que a técnica instrumental é a capacidade de comandar mentalmente e executar fisicamente todos os movimentos precisos das mãos, dos braços e dos dedos. Relacionando este capítulo, que versará sobre alguns dos princípios técnicos fundamentais do violino em nível de graduação, sua problemática e resolução, com a parte anterior do presente trabalho, pode-se verificar que as bases sobre as quais se fundamenta o edifício da técnica encontram-se na presença de uma adequada relação entre a mente e os músculos, e no funcionamento fluido, rápido e preciso da sequência em função da qual a ordem mental desencadeia a resposta muscular desejada. Segundo Galamian (1998), a questão radica, portanto, em como o violinista potencializará a relação entre a mente e a resposta física. Diz o seguinte: “Será a melhora da relação mental e física, a correlação entre elas, a que constituirá a chave da destreza e o controle da técnica, e não, como normalmente se crê e se ensina, o treinamento e o desenvolvimento dos músculos. O que conta não é a força muscular, mas sim a fluidez da reposta dos músculos às diretrizes mentais”. (GALAMIAN, 1998, p. 18). 95 3.1 - Mão esquerda Segundo Fischer (2004), uma das qualidades mais relevantes para uma boa técnica da mão esquerda é a suavidade e a regularidade na ação dos dedos. Pode-se verificar dessa maneira que os dedos da mão esquerda não devem sofrer a influência dos contínuos movimentos acrobáticos e enérgicos do arco, o que para o violinista deve representar o conceito de isolar a mão esquerda do arco. Neste ponto, é preciso ressaltar a importância de o aluno de violino poder focar-se na atividade da mão esquerda, sem a influência perturbadora que podem causar os golpes de arco na ação dos dedos. O meio para alcançar a necessária independência pode ser verificado nos exemplos a seguir, propostos por Fischer (2004), que têm como princípio a utilização, durante o estudo da peça musical, de ligaduras longas em determinados momentos. O objetivo será eliminar as dificuldades inerentes à ação do arco nesse instante, permitindo que o aluno possa trabalhar livremente a mão esquerda com maior facilidade. (FISCHER, 2004, p.119) 96 “Deve-se praticar com a ligadura até que a passagem musical esteja dominada, lembrando sempre de articular os dedos bem perto da corda, utilizando o mínimo de energia e esforço”. (FISCHER, 2004, p. 119). Pode-se perceber a finalidade de o violinista conseguir interpretar o trecho musical, realizando a arcada propriamente escrita, com uma sensação de facilidade, mantendo os dedos próximos da corda e relaxados. No estudo da técnica da mão esquerda, convém sempre lembrar a relevância da proximidade dos dedos com relação às cordas. Segundo Fischer (2004), manter os dedos próximos das cordas é um preceito que deve ser seguido pelo violinista, geralmente em quase todas as circunstâncias musicais e não somente nas passagens musicais mais rápidas. Dedos corretamente posicionados Dedos levantados em excesso (FISCHER, 2004, p. 04) “A articulação dos dedos acontecerá com maior facilidade, e com menor gasto de energia, quando os mesmos permaneçam bem perto acima das cordas, preparados para baixarem diretamente sobre as notas”. (FISCHER, 2004, p. 04). 97 3.1.1 - Mudanças de posição “Os dedos precisam sempre estar preparados para as notas que vêm logo a seguir, com a mão permanecendo por completo relaxada, com os dedos próximos às cordas”. (FISCHER, 2004, p. 119). O aluno deve conhecer a diferença entre dois tipos básicos de mudanças de posição: uma completa, onde tanto a mão quanto o polegar passam a uma nova posição; e outra, que Galamian (1998) chama de ‘semimudança’, onde o polegar não muda seu ponto de contato com o braço do violino. O polegar permanece posicionado e será por meio da flexão e da extensão do mesmo que a mão e os dedos se moverão para cima ou para baixo, para as novas posições. Pode-se verificar no estudo e na prática do violino que este tipo de mudança de posição é de grande utilidade em casos nos quais os dedos têm de se deslocar a novas posições somente para tocar algumas poucas notas. Observa-se o anteriormente citado no seguinte exemplo: (Concerto em ré maior de Brahms, Op. 77. Primeiro movimento, compassos 338-339). (GALAMIAN, 1998, p. 39) Como pode ser visto acima, a ‘semi-mudança’ pode favorecer em grande medida a execução. Segundo Galamian (1998), facilita e oferece segurança nas passagens que, de outra forma, resultariam bem mais difíceis. Verifica-se no exemplo proposto que o polegar deve manter seu ponto de 98 contato na terceira posição (a partir da nota do asterisco, com o quarto dedo), dobrando-se para a descida dos dedos à primeira posição e estendendo-se para a volta à terceira posição. Por outro lado, a mudança de posição completa, como seu nome indica, é um movimento de toda a mão e do braço, incluindo os dedos e o polegar. O aluno precisa ter plena consciência da necessidade de manter o polegar bem flexível, característica que adquire sua maior relevância nas mudanças de posição, mas que, igualmente, é muito importante para toda a técnica da mão esquerda. Segundo Fischer (1997), existem varias regras que governam as mudanças de posição quando o dedo ⁄ mão ⁄ braço se move antes do polegar, ou quando o polegar realiza o movimento antes. O movimento preciso dependerá de fatores como o tamanho da mão do violinista, o comprimento do polegar, as notas a serem executadas e a velocidade para a mudança de posição. Tais regras são as seguintes, segundo Fischer (1997) e Galamian (1998): 1 - A partir da primeira ou da segunda posição para as posições superiores, o movimento do polegar e da mão dar-se-á ao mesmo tempo, em bloco. 2 - Da terceira para as posições superiores, o polegar algumas vezes movimenta-se levemente antes que a mão. 3 - Da terceira, quarta ou quinta posição para a primeira, o polegar precede a mão. 4 - Da sexta posição, ou acima dela, em direção à primeira, o polegar, a mão e o braço descem em um único movimento, ao mesmo tempo. 99 Após o movimento de descida é importante ressaltar que o cotovelo precisa recolocar-se ao chegar na primeira posição, à esquerda, para estar adequadamente posicionado e não criar tensões. Pode-se verificar a seguir uma mudança de posição de oitava e o posicionamento do braço. A foto (a) mostra o primeiro dedo na nota “lá”, na oitava posição, e a continuação na foto (b), após a mudança para a nota “lá” na primeira posição, observa-se o cotovelo à esquerda, com o braço, portanto, bem posicionado. Na foto (c) verifica-se o que deve ser evitado, ou seja, permanecer com o cotovelo longe, à direita, na primeira posição, após a descida de oitava. Primeiro dedo, “lá”, 8ª posição Primeiro dedo, “lá”, 1ª posição (FISCHER, 1997, p. 145) 100 Cotovelo permanece longe, à direita (FISCHER, 1997, p. 145) 5 - Das posições superiores para a terceira posição, o polegar deve manter-se no lugar e realizar a seguir a mudança de posição dos dedos e da mão para baixo, para só então movimentar o polegar até a nova posição. Aqui se tem um exemplo da semi-mudança de posição. Fischer (1997) aconselha o seguinte sobre a ação do polegar: “Uma maneira simples de descobrir a ação natural do polegar, sem pensar em ‘regras’, é tocar sem a espaleira. O polegar será então forçado a realizar exatamente o movimento certo no instante mais adequado. Ao recolocarmos a espaleira, o polegar lembrar-se-á dos mesmos movimentos”. (FISCHER, 1997, p. 147). Sobre a técnica da semi-mudança de posição antes referida, Galamian (1998) diz que o instante de recolocar o polegar dependerá da natureza da passagem musical e principalmente da velocidade da sequência das notas, 101 ressaltando que em uma mudança muito rápida o movimento é praticamente simultâneo e a pressão dos dedos sobre as cordas deve ser mínima. Aliado à importância de realizar uma mínima pressão com os dedos, elemento que favorece o relaxamento e a leveza, como pode ser visto no primeiro capítulo do presente trabalho, Fischer (2004) assinala a relevância de, nas mudanças de posição, os dedos permanecerem bem próximos às cordas, o que deve representar uma regra geral para a técnica da mão esquerda, como foi ressaltado anteriormente. Dedos preparados acima das respectivas notas (FISCHER, 2004, p. 06) O aluno deve prestar uma particular atenção, portanto, em manter os dedos bem perto das cordas após a mudança de posição. Durante o movimento da mudança de posição, os dedos devem estar dispostos para alcançar o lugar exato das notas que seguirão imediatamente após a mudança, como pode ser observado na imagem acima. O caso contrário, a ser evitado, vem representado na seguinte imagem: 102 Dedos levantados em excesso para alcançarem a corda (FISCHER, 2004, p. 06) Galamian (1998) estabelece quatro tipos de movimentos deslizantes nas mudanças de posição. No primeiro, o mesmo dedo pulsa a nota anterior e posterior à mudança de posição. Como exemplo, pode-se observar: (GALAMIAN, 1998, p. 40) No segundo tipo, o movimento é realizado pelo dedo que se encontra sobre a corda quando começa a mudança, mas a nota de chegada é pulsada por um dedo diferente: (GALAMIAN, 1998, p. 40) 103 O terceiro tipo refere-se ao movimento realizado pelo dedo que executará a nota de chegada. (GALAMIAN, 1998, p. 41) O quarto tipo é o chamado por Galamian (1998) de movimento com retardo e consiste em estender o dedo até uma nova nota exterior à posição na qual a mão se encontra e, uma vez que o mesmo esteja sobre a corda, a mão o seguirá até a nova posição, como pode ser verificado no exemplo a seguir: (GALAMIAN, 1998, p. 41) Na seguinte ilustração, pode-se observar a extensão ascendente do quarto dedo desde a terceira posição: 104 Extensão para cima do quarto dedo (GALAMIAN, 1998, p. 41) A seguir, pode-se observar a re-acomodação posterior da mão na quarta posição. Verifica-se, assim, que o quarto dedo serviu como pivô da mão. Mão já colocada na quarta posição (GALAMIAN, 1998, p. 41) Da mesma forma, são importantes as extensões para baixo, facilitando a chegada para a posição inferior, como pode ser observado nas imagens a seguir. O primeiro dedo realiza a extensão da quarta para a terceira posição, 105 com a posterior re-acomodação da mão após o posicionamento do mesmo. Extensão do primeiro dedo para baixo Mão recolocada na terceira posição (GALAMIAN, 1998, p. 42) 106 “A velocidade com a qual se efetua o movimento da mudança de posição deve ser proporcional ao tempo geral da passagem musical que esteja sendo executada”. (GALAMIAN, 1998, p. 41). É importante ressaltar um dos defeitos mais comuns nas mudanças de posição, que consiste em tocar mais curta a nota que precede o movimento da mudança de posição. Segundo Galamian (1998), na realidade a razão desse defeito é sempre psicológica. A mudança preocupa de tal maneira o violinista, que o mesmo perde o controle rítmico e espera com nervosismo o momento correto para a sua realização. Como conseqüência disso, produz-se uma sensação de insegurança e desequilíbrio na execução. Deve-se prestar, portanto, uma especial atenção ao valor rítmico e ao som da nota anterior à mudança de posição. Existem dois fatores que precisam igualmente ser levados em consideração para a correta consecução das mudanças de posição. Por um lado, o importante papel que desempenha o ouvido, escutando com atenção antes do movimento e percebendo como se produz a aproximação gradual à nova afinação. Dessa maneira, o ouvido complementa e respalda com eficácia o sentido da distância dado pelo tato. Por outro lado, o arco desempenha um papel igualmente relevante. Pode-se comprovar que movê-lo mais lentamente, aliviando a pressão sobre a corda durante a mudança de posição, faz com que se elimine em grande medida o som de ruído que se produz no movimento. Deve-se evitar, portanto, aumentar a velocidade do arco ou a pressão do mesmo enquanto a mão esquerda está se movimentando. 3.1.2 – Cordas duplas Um problema enfrentado por todo aluno e violinista no estudo e na execução das cordas duplas é o perigo de se empregar uma pressão excessiva 107 nos dedos e criar tensões, pelo fato de se utilizarem dois dedos para pulsar as duas cordas ao mesmo tempo. Pode-se verificar com facilidade que, se os dedos pressionam com demasiada força, a tensão estende-se com facilidade ao polegar e, posteriormente, a toda a mão. O aluno precisa, portanto, aliviar sempre a pressão dos dedos ao realizar o estudo das cordas duplas, evitando, como ressalta Galamian (1998), rigidez e cãibra nas mãos. Segundo Fischer (2004), para o estudo das terças e das oitavas dedilhadas, é essencial que a posição da mão tenha como base o terceiro e quarto dedos, fundamentando assim a colocação da mão pela curvatura dos dedos superiores. Desta forma, o primeiro e o segundo dedos estarão naturalmente posicionados para trás com facilidade. Pode-se verificar isto a seguir, nas seguintes imagens: Posição da mão fundamentada na curvatura do quarto dedo (FISCHER, 2004, p. 251) 108 Posição relaxada e natural da mão, baseada no quarto dedo (FISCHER, 2004, p. 251) Mão baseada no segundo dedo; o quarto estica-se em excesso (FISCHER, 2004, p. 251) 109 Quarto dedo excessivamente esticado. Mão em tensão. (FISCHER, 2004, p. 251) Fischer (2004) recomenda que o aluno estruture a posição da mão, separadamente para cada intervalo de terças e oitavas dedilhadas, em cordas duplas. Seguidamente, deve-se posicionar em primeiro lugar os dedos superiores (terceiro ou quarto) devidamente curvos, estando assim posicionada a mão de uma maneira relaxada e confortável. O passo seguinte será posicionar os dedos inferiores (primeiro e segundo), com uma extensão para trás, sem alterar em nada a forma dos dedos superiores, curvos ou arqueados, ou mudar o equilíbrio da mão dado pelos dedos superiores. Fischer (2004) assinala: “Além de ser útil, especificamente para as terças e as oitavas dedilhadas, como exercício diário de aquecimento, posicionar a mão tendo como base o terceiro e quarto dedos nas cordas duplas é igualmente um dos meios mais rápidos de construir um adequado formato geral da mão”. (FISCHER, 2004, p. 251). 110 A seguir, verifica-se o exposto anteriormente, com exemplos musicais, de terças em cordas duplas e oitavas dedilhadas. Terças: Construção do exercício de terças, em cordas duplas: (FISCHER, 2004, p. 252) A seguir, outro exemplo, em terças, e como deve ser estudado: 111 (FISCHER, 2004, p. 252) Oitavas dedilhadas e sua realização: (FISCHER, 2004, p. 252) 112 É importante perceber que para os alunos e violinistas que têm a mão pequena não será possível manter o quarto dedo devidamente arqueado, com a curvatura ideal, mas deve-se procurar mantê-lo arredondado e curvo o máximo que seja possível. Será igualmente preciso para a realização das oitavas dedilhadas e das décimas, como ressalta Fischer (2004), que exista um espaço entre a base do polegar e o primeiro dedo. A seguir, pode-se observar na imagem tal característica, importante principalmente para violinistas com a mão pequena. Polegar adiantado para facilitar a execução de oitavas dedilhadas e décimas (FISCHER, 2004, p. 229) Para Galamian (1998), a necessidade de colocar a mão mais adiantada, tendo como referência o polegar, deve-se a que os dedos, primeiro e segundo, precisarão se estender ligeiramente para trás, enquanto o terceiro e o quarto o farão para frente. Observa-se, igualmente, para os intervalos de décima, tanto em cordas duplas como em uma corda de cada vez, que a mão do violinista precisará realizar uma extensão em ambas as direções, com o quarto dedo para cima e o primeiro para baixo, sem submeter nenhum dos dedos a uma tensão excessiva. Segundo Galamian (1998), o violinista deve colocar a mão em uma 113 posição centrada, cujo exemplo pode-se observar a seguir, constituindo um excelente método de prática para o desenvolvimento técnico das décimas: (GALAMIAN, 1998, p. 44) Outro fator relevante, que ajuda na solução dos problemas inerentes ao estudo das décimas, vem dado por Fischer (2004) quando assevera que primeiramente o aluno precisa saber qual dedo irá se mover um tom de distância e qual o fará um semitom, ou quando o farão na mesma distância. Pode-se observar um exemplo claro de como estudá-lo na passagem a seguir, correspondente ao terceiro movimento, compasso 55, do Concerto para violino num. 1 de Max Bruch. (FISCHER, 2004, p. 228) 114 “Para o estudo das décimas, as mesmas devem ser afinadas individualmente para só depois praticar-se o movimento de uma para a seguinte”. (FISCHER, 2004, p. 228). No estudo e prática das cordas duplas, a atenção na consciência da correta afinação é absolutamente indispensável. Segundo Galamian (1998), o estudo das escalas em cordas duplas, com distintos intervalos, sejam terças, quartas, sextas ou oitavas, por exemplo, deve ser realizado com os dedos em posição, mas fazendo soar somente uma nota; em primeiro lugar a nota inferior e, posteriormente, a superior. Na execução das oitavas em cordas duplas, deve-se escutar com especial atenção a nota mais grave, já que o ouvido tem a propensão, por natureza, de perceber antes a nota mais aguda, precisando o aluno, portanto, dessa prática para perceber com facilidade o som mais grave. Verifica-se por outro lado, como ressalta Galamian (1998), que o aluno deve ter cuidado em não ter o hábito de tocar mais forte a nota mais grave, com o intuito de ouvi-la com maior clareza. “A pressão extra do arco que haveria de ser aplicada à nota mais grave pode afetar a afinação e, por conseguinte, causaria um ajuste incorreto da digitação”. GALAMIAN, 1998, p. 44). Outros problemas de afinação para as cordas duplas podem ser naturalmente corrigidos, levando-se em consideração a posição fechada dos dedos em intervalos como as sextas menores ou as quartas aumentadas, que tecnicamente transformam-se em semitons no que se refere à mão esquerda. Pode-se asseverar, portanto, que tratar tais intervalos como semitons irá contribuir em grande medida para a perfeição da sua afinação. Por outro lado, nos intervalos de quintas justas verifica-se, para conseguir a afinação exata, a necessidade de aumentar um pouco a força do apoio do dedo sobre a corda da nota que soa mais grave. Para isto, segundo Galamian (1998), o melhor modo 115 de fazê-lo será girar ligeiramente o dedo e o pulso e mover o cotovelo um pouco mais à direita ou à esquerda, segundo seja necessário. 3.1.3 – Trinado Como princípio fundamental é necessário ter presente, como diz Fischer (2004), que a mecânica para tocar o trinado, da mesma maneira que para todos os elementos da técnica, funcionará em um nível técnico bem superior quando o mesmo for sentido musicalmente e expressivamente, antes de ser simplesmente o resultado de mover os dedos para cima e para baixo rapidamente. Na dinâmica do estudo das passagens com trinados é relevante que o aluno tenha a consciência de, primeiramente, estudar o trecho musical sem a distração dos trinados, para um melhor desenvolvimento do sentido rítmico, do caráter e da frase musical. Nenhuma perturbação deverá ser sentida quando os trinados são acrescentados na execução. Como exemplo simples do exposto anteriormente pode-se observar um pequeno trecho do Concerto para violino no. 1, em dó maior, de Haydn. Primeiro movimento, compasso 131. (FISCHER, 2004, p. 123) 116 A execução do trinado precisa ser bem leve, com a articulação dos dedos bem relaxada, estando o dedo responsável pelo trinado bem próximo da corda. Deve haver apenas um movimento ativo no trinado, no caso a repetição de rápidos e leves movimentos do dedo para cima, como ressalta Fischer (2004). “Trinados com duplo movimento ativo, movimentando-se para cima e para baixo, dificulta que o mesmo seja executado em velocidade”. (FISCHER, 2004, p. 123). Prossegue Fischer (2004) dizendo que, para a execução de trinados longos e velozes, os mesmos devem ser estudados com padrões de pontilhados rítmicos, levantando o dedo com rapidez como se a corda estivesse queimando o dedo. Pode-se verificar no seguinte trecho do Concerto para violino de Beethoven, primeiro movimento, compasso 209, um claro exemplo de trinado longo. A continuação, verifica-se como deve ser trabalhado, com os padrões rítmicos, em cada nota. (FISCHER, 2004, p. 123) Outro detalhe relevante que facilita enormemente a execução dos trinados será contar as batidas dos dedos, com o número de notas, mais lentamente no início, construindo assim o trinado nota a nota em cada tempo. 117 Verifica-se a efetividade deste tipo de exercício, segundo Fischer (2004), praticando mais notas das que eventualmente serão usadas. O objetivo será ganhar clareza e segurança na execução final. Observa-se um exemplo a seguir, tirado do Concerto para violino no. 4 de Mozart, primeiro movimento, compasso 98 (trinados). Abaixo, verifica-se como realizar o estudo. Primeiro lentamente, construindo gradualmente os diferentes grupos rítmicos, até chegar à velocidade máxima. . (FISCHER, 2004, p. 124) 3.1.4 – Vibrato É importante assinalar que nenhum dos três tipos de vibrato, o de braço (o mais intenso), o de mão ou o de dedo (o mais suave), encontram-se em sua “forma pura” em uma interpretação artística, como assinala Galamian (1998). Pode-se observar que qualquer vibrato desenvolvido, que possa estar centrado em um dos três tipos e que seja o que domine na interpretação, produzirá uma 118 interação nos músculos vizinhos, sempre que não haja rigidez, introduzindo elementos dos outros dois tipos. O aluno precisa saber que tanto a velocidade, quanto a profundidade, a intensidade e a amplidão, com exceção do vibrato de dedo, que tem uma amplidão mais limitada, podem variar entre si consideravelmente em cada um dos tipos. Por outro lado, o estilo musical será determinante para a escolha de um determinado tipo de vibrato. “Mozart irá requerer uma cor diferente que Brahms. No primeiro, o vibrato terá de ser mais curto e terá de ir combinado a uma extraordinária claridade do som. Em Brahms, o vibrato deverá ser, em termos gerais, mais amplo e com maior produção de som”. (GALAMIAN, 1998, p. 56) Sobre este ponto da utilização de diferentes tipos, dependendo do estilo, da época e do compositor, deve-se salientar que por norma geral um vibrato curto, reduzido na sua amplitude de movimento, resulta em um vibrato mais rápido. “Quanto menor seja a distância que tenha que cobrir a mão, mais ciclos de vibrato poderá abarcar por unidade de tempo”. (GALAMIAN, 1998, p. 63). Um detalhe interessante é que pensar em reduzir o percurso do movimento, fazendo com que o vibrato resulte mais rápido, tem a vantagem, segundo Galamian (1998), de produzir menor tensão e preocupação no aluno, que centra os esforços conscientes na idéia de aumentar a velocidade. Podem-se constatar nas imagens a seguir detalhes dos dedos, dependendo da amplitude do movimento e sua colocação em relação ao ponto de contato dos mesmos na corda, para a realização de um vibrato o mais eficiente possível, segundo seja rápido ou mais lento. 119 (FISCHER, 2004, p. 128) (FISCHER, 2004, p. 129) Fischer (2004) recomenda repetir uma nota ou frase musical algumas vezes, cada uma delas experimentando com um diferente posicionamento dos dedos. Como pode ser observado na imagem acima, deve-se mover gradualmente os mesmos, utilizando mais, ou menos, a ponta do dedo até encontrar a cor e a expressão do vibrato desejado. Por outro lado, um problema que deve ser cuidado com atenção pelos alunos é a desafinação que pode ser ocasionada pelo vibrato. Sobre este ponto, segundo Galamian (1998) e Fischer (2004), o vibrato deve-se direcionar para o lado mais baixo da afinação (“para o bemol da nota”), já que o ouvido percebe com mais facilidade a afinação mais aguda, como já foi dito. Por 120 conseguinte, um vibrato que ascenda acima da afinação de referência (nota real a ser tocada), tanto quanto descenda por baixo da mesma nota de referência, resultará excessivamente agudo. A sensação audível será de estar tocando a própria nota real de referência com a afinação alta. Pode-se concluir, assim, que o vibrato deve abaixar levemente a afinação com a oscilação inicial do dedo para trás e, seguidamente, restabelecer a afinação correta na oscilação do mesmo para frente. Verifica-se no seguinte exemplo o acima exposto: (FISCHER, 2004, p. 130) Pode-se concluir que cada tipo de vibrato, ou sua qualidade, é o resultado de certas proporções de largura com velocidade. Verifica-se que tais proporções sofrem a influência da quantidade de pressão do dedo sobre a corda (uma maior pressão do dedo resultará na necessidade de um vibrato restrito, mais curto). Como ressalta Fischer (2004), deixando de lado as considerações musicais, o vibrato deverá ser mais curto quanto mais alto se toque no espelho do violino, em proporção ao comprimento ou extensão da corda. “Uma nota em uma posição alta, na corda ‘sol’ por exemplo, toca-se com um vibrato bem mais curto que uma nota na primeira posição”. (FISCHER, 2004, p. 298). 121 Observa-se igualmente que quanto mais aguda seja a nota, mesmo na primeira posição, o vibrato será mais curto. Portanto, o primeiro dedo tocando o “fá” # (“fá” sustenido) na corda “mi” (primeira corda) terá um vibrato mais curto do que uma nota tocada com o primeiro dedo, por exemplo a nota “lá” na corda “sol” (quarta corda). 3.1.5 – Pizzicato da mão esquerda Observam-se duas qualidades fundamentais para a realização satisfatória do pizzicato da mão esquerda, muitas vezes um dos recursos técnicos menos desenvolvidos pelos alunos. A primeira é que todas as notas devem ter uma absoluta clareza de sonoridade, com a mesma força em relação às outras. A segunda qualidade é possuir uma grande regularidade rítmica, um controle quase “mecânico”, como assinala Fischer (2004). “Quando alternam-se golpes de arco curtos com o pizzicato da mão esquerda, deve-se bater com o arco na corda com um movimento vertical perto da ponta. O objetivo normalmente será imitar com o arco o som do pizzicato”. (FISCHER, 2004, p. 140). Verifica-se a importância de o aluno posicionar o cotovelo de diferentes maneiras, dependendo da corda na qual terá de realizar o pizzicato. O não conhecimento desse detalhe dificultará em grande medida a consecução adequada do efeito sonoro almejado, com qualidade. Galamian (1998) assinala que se deve entrar em contato com a corda com a maior parte possível da gema do dedo, para que assim a pulsação possa acontecer em uma posição mais vertical. Com isso, muda-se, portanto, o ângulo do braço e dos dedos com relação ao espelho do violino. Pode-se concluir, sobre o ângulo no qual o dedo deve pulsar a corda, segundo Fischer (2004), que, na corda “mi”, o pizzicato será executado mais facilmente colocando o cotovelo mais à esquerda do 122 habitual. Verifica-se assim a necessidade de abaixar ligeiramente o ponto de contato do primeiro dedo da mão esquerda com o espelho, na lateral do braço do violino. Veja-se, no exemplo a seguir da “Malagueña”, op. 21 de Sarasate (compasso 71), o posicionamento do cotovelo em relação às cordas na execução do pizzicato: (FISCHER, 2004, p. 140) Como pode ser observado no exemplo acima, na corda “sol”, o cotovelo posiciona-se mais à direita do habitual, fazendo com que os dedos que pulsam a corda, na própria ação do pizzicato, possam se levantar com um ângulo que os separem da corda “ré”, sem perigo de esbarrar nela. “Ajustar o ponto de contato do primeiro dedo muda o ângulo da mão em relação ao espelho, ao braço do violino. Nas posições baixas, na corda “mi” o ponto de contato fica perto da articulação média do dedo; na corda “sol”, o ponto de contato será mais próximo da articulação da base do dedo. Evidentemente, a posição exata variará ligeiramente de mão para mão, da mesma forma que de frase para frase musical”. (FISCHER,2004, p. 237). Pode-se observar, na imagem abaixo, o ponto de contato do primeiro dedo na primeira posição, em relação às quatro cordas, exemplificando o assinalado acima por Fischer. 123 (FISCHER, 2004, p. 237) É importante ressaltar que, para a execução do pizzicato da mão esquerda, quebra-se um princípio fundamental no que se refere à técnica da mão esquerda. Por regra geral, deve-se sempre pressionar a corda com os dedos o mais levemente possível, apenas o suficiente para obter da corda uma sonoridade pura. No pizzicato da mão esquerda, em contrapartida, deve-se pressionar o máximo possível os dedos na corda, para se obter um melhor resultado. Segundo Fischer (2004), deve-se praticar muito lentamente, usando o tempo disponível para parar a corda o mais firme e forte possível. Pode-se verificar o exemplo a seguir, “Capricho no. 24”, de Paganini (variação 9): E como realizar o estudo da passagem: 124 (FISCHER, 2004, p. 140) Segundo Fischer (2004), o estudo deve ser realizado lentamente, aproximadamente uma nota a cada cinco segundos. Após tocar a primeira nota, o “si”, com um spiccato bem curto, na ponta do arco, deixar o quarto dedo colocado na corda e colocar o terceiro, nota “lá”. A seguir, deve-se pressionar ao máximo ambos os dedos por alguns instantes, para só então (após aliviar a pressão dos dedos) pulsar a corda com o quarto dedo. Prosseguir, deixando o terceiro dedo pisado sobre a corda e colocar o segundo, nota “sol #”. Pressionar ambos os dedos o mais forte possível e, então, pulsar com o terceiro dedo, e assim por diante para as outras notas. 3.2 - Mão direita 3.2.1 - “Staccato” Pode-se observar que muitos violinistas têm sua própria maneira de tocar o “staccato” e, se funciona bem, eles não se preocupam em como o estão realizando. Sobre este ponto, Fischer (1997) assinala que os melhores “staccatos” se conseguem pela combinação de determinados fatores que o violinista deve ter presente. O braço deve estar relaxado e o impulso deve ser realizado pelo antebraço, deixando que os dedos e a mão se movam no 125 movimento do golpe de arco. Em outras palavras, um movimento passivo dos dedos ajudará a executar cada nota do “staccato”. Sobre o movimento, Galamian (1998) diz: “O staccato pratica-se essencialmente com uma série de golpes de arco curtos e sucessivos em ‘martelé’, que se sucedem uns aos outros na mesma direção do arco, tanto para cima como para baixo”. (GALAMIAN, 1998, p. 105) É relevante que o violinista considere que o arco se deve situar com firmeza na corda para cada golpe, aliviando a pressão após escutar o som do acento em cada nota. Como assinala Galamian (1998), o “staccato” não supera em demasia o limite de velocidade característico do “martelé”, mas na sua aplicação musical o “staccato” deve ser executado mais rápido que o “martele”. No movimento do “staccato” arco para cima, Fischer (1997) assinala que se deve posicionar o arco com as crinas na sua margem externa e com o ângulo da ponta do mesmo ligeiramente inclinado para o espelho do violino. O cotovelo deve estar ligeiramente levantado, a mão deve apoiar-se levemente sobre o quarto dedo, o mindinho, e o antebraço em movimento de supinação. (FISCHER, 1997, p. 16) 126 No arco abaixo, deve-se tocar com a parte interna das crinas do arco e a madeira ligeiramente inclinada para o cavalete. O cotovelo mais baixo e a mão apoiada ligeiramente sobre o primeiro dedo, com a mão e o antebraço em movimento de pronação. (FISCHER, 1997, p. 16) Fischer (1997) verifica nos exercícios a seguir para o “staccato” os movimentos de rotação do antebraço, no sentido horário e anti-horário, correspondendo ao arco acima e ao arco abaixo. O violinista deve observar que o movimento anti-horário do antebraço em rotação, pronação, é o mais importante no “staccato”, já que, mesmo no movimento de supinação no arco acima, o gesto tem início na rotação do antebraço ligeiramente no sentido antihorário para possibilitar o correto contato das crinas com a corda no início do golpe. (FISCHER, 1997, p. 65) 127 Fischer (1997) assinala que as apoiaturas devem ser tocadas com leveza e bem curtas. Após a nota real em “sforzatto”, deve-se permanecer com o arco na corda. (FISCHER, 1997, p. 65) Para a realização do exercício, Fischer (1997) aconselha tocar com o ângulo do arco o mais próximo da corda ao lado, na medida em que mais golpes são acrescentados, como se o objetivo fosse tocar em cordas duplas, utilizando o mínimo de arco possível nas colcheias e semicolcheias. Uma alternativa para realizar o anteriormente citado pode-se verificar no seguinte exemplo: (FISCHER, 1997, p. 66) 3.2.2 - “Spiccato” Pode-se verificar que, para a resolução de certas dúvidas em como conseguir um “spiccato” regular e plenamente controlado, será necessário partir do princípio de que o arco precisa simplesmente saltar, quicar na corda. O violinista deve praticá-lo deixando cair o arco do alto, acima do 128 violino, fazendo primeiramente, como assinala Fischer (1997), longos semicírculos com o arco, e somente entrando em contato com a corda “no final da curvatura do semicírculo”. (FISCHER, 1997, p. 70). A seguir, de maneira progressiva, devem-se fazer semicírculos cada vez menores, com movimentos ao longo da corda mais extensos, até que os mesmos semicírculos resultem bem pequenos, produzindo um “spiccato” com clareza. Recomenda Fischer (1997) que o violinista movimente o braço como se estivesse tocando em arcadas bem curtas para cima e para baixo, praticando o movimento repetidamente com golpes de arco saltados, na região central, em uma mesma corda. Deve-se praticar segurando o arco primeiramente com o polegar e o segundo dedo. O objetivo é que, em vez de tentar fazer o arco saltar, ele mesmo salte por si só. Posteriormente, sem deixar que o saltado natural do arco diminua, colocar o terceiro e o quarto dedos no arco. Sobre isto, Galamian (1998) diz: “O quarto dedo tem uma função ativa e preponderante no ‘spiccato’, como elemento de equilíbrio do arco”. (GALAMIAN, 1998, p. 104). Somente no final o aluno colocará o primeiro dedo e perceberá que o mesmo, que tem a função de manter o arco reto no movimento das arcadas, não impedirá que o arco salte livre e naturalmente. Como fator essencial para a consecução deste e de qualquer golpe de arco, o relaxamento absoluto dos músculos e das articulações é básico. Pasquali e Principe (1952) verificam que o arco saltará espontaneamente como se de uma bola de borracha jogada no chão se tratasse. O apoio mais ou menos enérgico dos dedos sobre o arco permitirá diferentes graus de intensidade sonora e, com relação à quantidade de crinas que entrem em 129 contato com a corda, irá corresponder uma maior ou menor clareza das notas executadas. “Apóia-se o arco sempre no meio; ‘morde-se’ com energia a corda, com uma pequena parte das crinas e levanta-se o arco. Resultará um som claro, enérgico e intenso, com movimentos repetidos arco abaixo e arco acima”. (PASQUALI e PRINCIPE, 1952, p. 114). Pode-se assinalar sobre o lugar adequado do arco para a realização do “spiccato”, o que diz Galamian (1998): que o mesmo executa-se fundamentalmente nos dois terços inferiores do arco. “Quando o “spiccato” é mais amplo e lento executase mais na parte inferior; quando é mais rápido e curto deve-se realizar no meio do arco ou inclusive acima da parte central”. (GALAMIAN, 1998, p. 102). Um detalhe que se deve ter sempre presente para este golpe de arco é que os diferentes tipos de “spiccato” conseguem-se pela utilização de diferentes proporções dos movimentos verticais e horizontais do arco. Sobre este detalhe, pode-se observar o seguinte: “Quanto mais alto o salto e menor o movimento ao longo da corda, mais curto e breve será o “spiccato”. Por outro lado, quanto mais baixo o salto e maior seja o movimento ao longo da corda, maior e mais circular será o “spiccato”. (FISCHER 1997, p. 70). Galamian (1998) assinala que tanto a dinâmica como a qualidade do som no “spiccato” tem a influência da altura desde a qual se deixa cair o arco na corda. 130 “Quanto mais alto seja o ponto de partida tanto mais intenso e, geralmente, mais penetrante será o som resultante”. (GALAMIAN, 1998, p. 102). Verifica-se igualmente um aspecto interessante relacionado com o ponto de contato do arco na corda em relação ao espelho ou ao cavalete do violino. Devido a que as cordas são mais brandas, com menor tensão, perto do espelho e mais tensas perto do cavalete, pode-se asseverar que as melhores proporções de peso e extensão do golpe de arco em “spiccato” são diferentes para cada ponto de contato na corda, precisamente pelas diferentes tensões da mesma. O referido golpe de arco perto do espelho do violino será mais baixo, curto, leve e rápido; perto do cavalete, será mais alto, longo, pesado e lento. Fischer (1997) recomenda que os golpes de arco em “spiccato”, e também os outros golpes saltados em geral, sejam praticados em cada corda e em diferentes posições, já que pelas várias tensões das cordas, dependendo do ponto de contato na mesma, e sua espessura, a diferença de sonoridade será considerável. Observem-se as seguintes imagens: (a) “Os cinco pontos de contato na primeira posição”. (FISCHER, 1997, p.41) 131 (b) “Os cinco pontos de contato na nona posição”. (FISCHER, 1997, p.41) Sobre os pontos de contato, Fischer (1997) diz o seguinte: “Flesch e Galamian dividem a área entre o cavalete e o espelho (área conhecida como ponto de contato) em cinco pontos de contato sonoro. Devido a que o peso e a inclinação do cavalete variam de instrumento para instrumento, o ponto exato para cada ponto de contato sonoro pode ser diferente”. (FISCHER, 1997, p. 41). Pode-se verificar dessa maneira que, na medida em que a mão esquerda do violinista sobe para tocar nas posições mais altas, o ponto de contato sonoro do arco sobre as cordas precisará estar cada vez mais e mais próximo ao cavalete. Da mesma forma, se tocadas com o arco perto do espelho, as cordas “Mi” e “Lá” estarão brandas para que se possa conseguir uma adequada sonoridade apenas com uma pequena e adequada pressão. Em contrapartida, quando se toca nas posições inferiores, nas cordas “Sol” e “Ré”, ambas são bem mais grossas e tensas para se conseguir uma adequada resposta sonora quando o arco está bem perto do cavalete. Carl Flesch (1939) chama a atenção para um ponto relevante que se precisa ter presente nos golpes de arco e, especialmente, no “spiccato” e seus derivados. A diferença que existe entre um golpe de arco lançado, quando o violinista controla cada golpe separadamente, individualmente, e aquele outro, no qual a sua atitude é passiva. O primeiro caso aplica-se ao “spiccato” lento e 132 o segundo aos mais rápidos. Neste ponto, estando em grande velocidade, o “spiccato” vai transformando-se no golpe de arco em “sautillé” (saltado em grande velocidade). “No golpe de arco lançado, o violinista é ativo e o arco passivo; lança-se o arco. No golpe saltado, o instrumentista é passivo, somente observará a reação do arco; o arco será ativo por causa da sua elasticidade na região do seu ponto de equilíbrio, saltando por ele mesmo, quando não for mantido sobre a corda com força. O tipo de golpe de arco a ser escolhido dependerá do tempo da música, da sua velocidade: em um tempo lento, deverá ser lançado, no tempo rápido, saltará por ele mesmo”. (CARL FLESCH, 1939, p. 73). Pode-se concluir, portanto, que o “spiccato” tem uma velocidade definida, limitada, após a qual se transforma em “sautillé”, o qual representa o golpe de arco ativo, saltado, bem rápido. No que se refere à clareza e à correção na execução do “spiccato”, é essencial que os dedos da mão esquerda pisem na corda antes que o arco toque a mesma. Observa-se no exemplo seguinte como realizar o estudo para uma correta coordenação e sincronização do “spiccato”. Deve-se praticar em um tempo lento, posicionando os dedos silenciosamente, em um ritmo sincopado entre os golpes de arco (mostrado com as notas em “x”): 133 (FISCHER, 2004, p. 95) Verifica-se a seguir os movimentos de rotação do antebraço no “spiccato”: (FISCHER, 2004, p. 95) Na realização do exercício, observar-se-á que, tal como foi assinalado anteriormente, o arco fará mínimas curvaturas em semicírculo, entrando em contato com a corda no final do semicírculo. 134 Verifica-se, segundo Fischer (2004), que a rotação do antebraço no “spiccato” é muito leve e imperceptível, invisível. Não sendo assim, o golpe de arco facilmente ficaria pesado e complicado na sua realização. Pode-se concluir que esta é a razão pela qual um diminuto movimento de rotação no antebraço toma o lugar de um gesto ou movimento maior na parte superior do braço e no antebraço. Esta é uma característica essencial para todos os golpes de arco fora da corda, nos quais o arco se levanta. 3.2.3 - “Sautillé” Aspectos básicos devem estar presentes para o violinista no instante de realizar o presente golpe de arco. Como foi assinalado anteriormente, o que o diferencia do “spiccato” é que não existe o gesto de levantar e abaixar o arco individualmente para cada nota. O saltado obtém-se fundamentalmente pela elasticidade do arco, o qual comandará a ação, sendo o elemento ativo. O lugar exato no arco para que se consiga a excelência no “sautillé” irá variar em função das características do mesmo, como sua flexibilidade, elasticidade e seu ponto de equilíbrio. Outra diferença importante que se deve levar em conta com relação ao golpe de arco anteriormente tratado é que no “spiccato” as crinas do arco se levantam da corda, e no “sautillé” a madeira do arco salta devido a sua flexibilidade, permanecendo as crinas em contato com a corda. Galamian (1998) diz: “Na prática do ‘sautillé’ deve-se iniciar o movimento com um ‘detaché’ (movimento básico do arco) bem curto e muito rápido perto do meio do arco, girando o mesmo perpendicularmente sobre as crinas para que todas elas entrem em contato com a corda. A mão deve segurar o arco com leveza, centrando a ação nos dedos, que executam uma combinação de 135 movimentos verticais e horizontais”. (GALAMIAN, 1998, p. 104). Um dos maiores problemas na realização do presente golpe de arco é que o mesmo não consiga saltar adequadamente na corda. Segundo Galamian (1998) isso se deve com frequência a que os dedos terceiro e quarto da mão direita permanecem presos no arco. Para a solução deste problema deve-se praticar o golpe de arco segurando o arco somente entre o polegar e o primeiro dedo. Após conseguir o efeito desejado no correto resultado do golpe, os dedos segundo e terceiro podem ser colocados no arco. O quarto dedo poderá apoiar-se no arco, se desejado, muito levemente. (FISCHER, 2004, p. 97) É fundamental que o violinista consiga uma excelente precisão na articulação dos dedos da mão esquerda, com uma perfeita sincronização rítmica com o arco. A seguir, verifica-se um exemplo de como estudá-lo: 136 (FISCHER, 2004, p. 97) Primeiramente, deve-se praticar o golpe de arco sobre uma mesma nota, para depois realizá-lo sobre a passagem musical. Após uma perfeita articulação dos dedos da mão esquerda, em legato, tendo-se conseguido segurança plena no trecho musical, deverá ser estudado propriamente o “sautillé”. Segundo o autor, deve-se verificar, ao posicionar apenas o polegar e o primeiro dedo, a sensação de que o arco possa se mover livremente, movimentando-se ao redor do polegar, sem a interferência dos demais dedos. Posteriormente, realizar a mesma prática com o polegar, segundo e terceiro dedos posicionados no arco. O objetivo final será alcançar as mesmas sensações de liberdade e controle no arco de quando apenas se apoiava o polegar e o primeiro dedo. É de suma relevância o movimento de pronação do antebraço, no sentido anti-horário, sendo reforçado pela mão, que igualmente deverá girar ligeiramente, deixando o pulso e os dedos passivos, os quais devem permanecer soltos, sem nenhum tipo de tensão. Sobre isto Galamian (1998) ressalta que a rotação do antebraço, em pronação, será mais acentuada em comparação com o “spiccato”, estando o ponto de equilíbrio centrado por completo no dedo índice, no primeiro dedo, enquanto o segundo e terceiro apenas tocam com leveza o arco. O quarto dedo carece de função no “sautillé” e deve permanecer totalmente passivo, sem exercer nenhuma pressão sobre a madeira do arco. 137 A seguir, pode-se verificar os passos que recomenda Fischer (2004) para o estudo de uma passagem em “sautillé”. (FISCHER, 2004, p. 98) Deve-se iniciar o estudo na metade da velocidade ou menos, tocando em “spiccato”. Gradualmente, aumentar-se-á o tempo, deixando que o golpe de arco se transforme naturalmente, pela velocidade, em “sautillé”. (1) Tocar lentamente em “spiccato”, sentindo como cada golpe de arco é um movimento individual. Sentir a fricção plena das crinas do arco na corda. (2) Aumentar um pouco o tempo, agrupando as notas em grupos de dois, sentindo golpes de arco ‘ativos’ (arco abaixo) e ‘passivos’ (arco acima). (3) Em um tempo “moderato”, sentir que os grupos passam a ser de quatro em quatro. Deve-se manter as crinas do arco bem próximas da corda. (4) Em um tempo já rápido, sentir os grupos de quatro semicolcheias, sendo a primeira nota ‘ativa’ e as outras três ‘passivas’. Permitir a 138 flexibilidade da madeira do arco, saltando, com as crinas permanecendo em contato com a corda. (5) Em um tempo muito rápido, guiar o arco em grupos de oito notas, seguindo a acentuação marcada. 3.2.4 - Princípios para a qualidade do som Deve-se partir do princípio de que todo som será o resultado de uma particular velocidade do arco e da pressão que o mesmo exerce sobre as cordas, dependendo ambos do ponto de contato em relação ao cavalete. Podese verificar assim que este é um fator chave na produção do som, determinante para a obtenção do melhor resultado sonoro. Galamian (1998) assinala sobre isto que existem outros fatores, além da velocidade e da pressão, que influenciam na localização do ponto de contato. Tais fatores são a grossura da corda, a sua longitude e a tensão da mesma em relação à distância com o cavalete. Nas cordas mais finas “lá” e “mi”, o ponto de contato no ataque do som deve estar mais próximo do cavalete em comparação com as de maior espessura, a corda “ré” e principalmente a corda “sol”. Sobre este último ponto, Fischer (2004) diz que quanto mais próximo se toque do cavalete deve-se exercer maior peso, ou pressão, sobre a corda e tocar mais lentamente no ataque do som. As cordas neste ponto possuem uma enorme tensão e dureza sob o arco. Por outro lado, perto do espelho as cordas estão menos tensas e mais brandas. O arco deve estar leve e movimentar-se com maior rapidez para evitar um som esmagado. Em relação ao anteriormente citado, deve-se ter presente um ponto fundamental para a qualidade do som, assinalado previamente quando se tratou o golpe de arco do “spiccato”. Quanto mais alta seja a posição na qual se esteja tocando, a corda é mais curta e, dessa maneira, deve-se tocar com o arco mais perto do cavalete, exercendo menos pressão do arco sobre a corda. 139 Fischer (1997) chama a atenção para o fato de que o princípio de utilizar menos pressão do arco quando a corda é mais curta, por estar nas posições superiores, contradiz e anula o princípio de que ao tocar perto do cavalete deve-se exercer maior pressão, como foi assinalado anteriormente. “O arco toca pesadamente perto do cavalete nas posições inferiores. O arco toca suavemente perto do cavalete nas posições superiores”. (FISCHER, 1997, p. 57). Pode-se verificar isso no seguinte exemplo: Segundo Fischer (1997), a nota “si” mais aguda deve ser tocada com grande delicadeza perto do cavalete. Conseguir-se-á manter a pureza de som e a correta afinação. Após a referida nota “si”, o “mi”, corda solta, deve ser tocado com muito mais presença na corda, energicamente. (FISCHER, 1997, p. 57) Segundo Fischer (2004), um dos melhores métodos para aprender uma passagem musical será executá-la nos diversos pontos de contato de sonoridade, um de cada vez. Pode-se assinalar que desta forma o violinista incrementará a sensação da sensibilidade do arco na corda, obtendo assim um controle mais apurado. 140 “Pode-se praticar individualmente notas ou frases musicais em cada ponto de contato de sonoridade, um de cada vez, ou pode-se tocar uma peça ao completo em um ponto de contato de sonoridade determinado, de cada vez. Trabalhar em pontos de contato de sonoridade diversos trará um aperfeiçoamento considerável no domínio e controle da sonoridade”. (FISCHER, 2004, p. 48). Pode-se verificar, a seguir, na frase do tema inicial da Sonata “La Follia” de Corelli, como realizar a prática nos diversos pontos de contato: (FISCHER, 2004, p.47) (FISCHER, 2004, p. 48) 141 (FISCHER, 2004, p. 49) Segundo Fischer (2004), inicia-se no ponto de contato 5. Deve-se tocar com uma variante de velocidade e pressão do arco. Alterna-se uma arcada em velocidade ligeiramente rápida, depois um pouco mais lenta, com mais peso, e, posteriormente, com mais leveza. Verificar-se-á que a corda vibrará o mais amplamente possível em cada nota, com boa ressonância. Prossegue-se repetindo no ponto de contato 4, onde deve-se observar que, mesmo em um andamento ainda rápido e ligeiro, as arcadas são ligeiramente mais lentas e pesadas que no ponto 5. Fischer (2004) recomenda que se experimente da mesma forma que anteriormente, para encontrar a exata velocidade e pressão para que as cordas possam vibrar amplamente em cada nota. 142 Deve-se continuar no ponto de contato 3, observando que a pressão do arco é significativamente mais forte que no ponto de contato 5 e a velocidade do arco mais lenta. Continua-se no ponto de contato 2. Verifica-se aqui que o peso no arco deve ser considerável e a velocidade mais lenta. Fischer (2004) recomenda, neste ponto, entrar bem com o arco na corda, sentindo e percebendo as diferentes respostas sonoras das crinas e da madeira nas diferentes partes do arco. Finalmente, prossegue-se no ponto de contato 1 com o arco o mais lento e pesado na corda quanto seja necessário. Deve-se observar, como assevera Fischer (2004), que é igualmente possível e desejável tocar perto do cavalete com uma arcada mais leve. Fischer (2004) recomenda que chegando ao ponto de contato 1 se repita novamente o exercício nos pontos 2, 3 e 4, voltando finalmente ao ponto de contato 5. Como resultado final, diz Fischer (2004): “Poder-se-á observar que em muitos casos é possível encontrar proporções de velocidade, pressão e pontos de contato sonoro que resultam adequados ao resultado musical, especialmente desde que o violinista esteja completamente livre para variar o andamento e as dinâmicas tanto quanto seja necessário”. (FISCHER, 2004, p. 48). 143 CONCLUSÃO No estudo e na interpretação musical do violino, que pode se aplicar a qualquer outra arte, deve-se proporcionar ao aluno uma série de princípios gerais, amplos o suficiente para abranger diversas peculiaridades e realidades, mas ao mesmo tempo permeados de um caráter flexível para serem aplicados em cada caso em particular, em vez de estabelecer ao estudante um conjunto de diretrizes rígidas e inflexíveis, que terminam por suprimir o princípio da naturalidade. Cada vez faz-se mais necessário que o professor seja consciente de que cada violinista tem sua própria personalidade, com suas características físicas e com uma disposição mental e de espírito diversa para com a música e o violino. Somente o que o violinista executa com naturalidade tornar-se-á cômodo e eficaz, facilitando, assim, atingir-se uma interpretação musical adequada. Pode-se, portanto, atestar a relevância que tem a interdependência entre os diversos elementos individuais que configuram a técnica do instrumento, sempre fundamental, e sua estreita relação orgânica com o próprio violinista. Sempre será necessário encontrar um adequado ajuste orgânico no corpo do violinista e um equilíbrio natural, livre de tensões. Conclui-se, por outro lado, que, diante da ênfase que normalmente se dará ao aspecto meramente físico e mecânico da técnica do violino, não pode ser esquecido um fator mais importante que os próprios movimentos físicos em si, que é o controle mental sobre eles. O domínio da técnica encontra-se na coordenação entre a mente e os músculos, na capacidade de realizar a sequência que se inicia da ordem mental à resposta física, de forma rápida e precisa. 144 Horas e horas de prática não serão nunca o caminho para a excelência no estudo, para se alcançarem os resultados desejados, sem um verdadeiro autoconhecimento do equilíbrio corporal, da importância do gesto adequado e simples, da relevância da respiração e de saber dosar e medir o trabalho árduo que representa o estudo do instrumento em um nível avançado na graduação universitária. Há de se intercalar com exercícios que ajudem a descontrair a musculatura e permitam um descanso físico e também mental ao aluno e violinista. O violinista precisa conhecer-se, descobrir o seu “violino interior”, precisa ser capaz de ver as tensões, os sintomas do seu desequilíbrio como um todo, ver as compensações necessárias e suas dificuldades para desse modo ter progresso na prática instrumental. Diante disso, o músico precisa do prazer e da fruição artística como uma atitude criativa perante a vida, uma constante diante da sua tarefa diária: prazer e liberdade de movimento no gesto corporal, prazer na afinação perfeitamente expressiva, deixar em definitivo que a música tome conta do seu ser, alheio à sua vontade. Somente com a satisfação e o prazer de tocar estar-se-á em uma atitude positiva, transparente e criativa, atitudes que devem sempre caracterizar o trabalho consciente do futuro artista. O objetivo primordial e mais importante é o de os alunos encontrarem no estudo e na prática do violino o seu meio de expressão e um motivo constante de alegria e realização. 145 BIBLIOGRAFIA 1 - BLACK, Sara. Cuerpo y mente en forma. Traducción de Patricia Rodríguez Fischer. Barcelona: Blume, 1996. 2 - BRUSER, Madeline. The Art of Practicing: A Guide to Making Music from the Heart. New York: Three Rivers Press, 1997. 3 - FISCHER, Simon. Basics: 300 exercises and practice routines for the violin. London: Edition Peters, 1997. 4 - FISCHER, Simon. Practice: 250 step-by-step practice methods for the violin. London: Edition Peters, 2004. 5 - FLESCH, Carl. The Art of Violin Playing. New York: Carl Fischer, 1939. 6 - GALAMIAN, Ivan. Interpretación y enseñanza del violín. Traducción de Antonio Resines. Madrid: Ediciones Pirámide, 1998. 7 - HOPPENOT, Dominique. El violín interior. Traducción de Juan Sanabras. Madrid: Real Musical, 1991. 8 - JOHNSON, Jennifer. What Every Violinist Needs to Know about the Body. Chicago: GIA Publications, 2009. 9 - LITTRÉ, Emile. Le Petit Littré : Dictionnaire de la langue française abrégé du dictionnaire de Littré. Paris: Le livre de Poche, 2003. 10 - MENUHIN, Yehudi. Seis lecciones con Yehudi Menuhin. Madrid: Real Musical, 1971. 11 - NACHMANOVITCH, Stephen. Free Play: Improvisation in Life and Art. New York: Tarcher/Putnam, 1990. 146 12 - PASCARELLI, Emil. Complete Guide to Repetitive Strain Injury: what you need to know about RSI and carpal tunnel syndrome. New Jersey: John Wiley & Sons, 2004. 13 - PASQUALI, Giulio & PRINCIPE, Remy. El violín: manual de cultura y didáctica violinística. Traducción de Emilio Pelaia. Buenos Aires: Ricordi Americana, 1952, 3ª ed. 14 - REGELIN, Petra. Estiramiento muscular. Arganda del Rey: Edimat Libros, 2004. 15 - ROSSET LLOBET, Jaume & FÀBREGAS MOLAS, Sílvia. A Tono: ejercicios para mejorar el rendimiento del músico. Badalona: Editorial Paidotribo, 2008. 16 - DEVOS, Noel. A respiração, cap. 4. do curso de extensão universitária ministrado na UFRJ, em agosto/setembro de 1966. Disponível em http://www.haryschweizer.com.br/Textos/DEVOS_4_respiracao.htm (Acesso em 20/12/2010). 147 ÍNDICE FOLHA DE ROSTO 02 AGRADECIMENTO 03 DEDICATÓRIA 04 RESUMO 05 METODOLOGIA 06 SUMÁRIO 07 INTRODUÇÃO 08 CAPÍTULO I - UMA NOVA CONSCIÊNCIA CORPORAL 10 1.1. Um corpo em equilíbrio 15 1.2. A dialética do gesto: percepção e movimento 39 1.2.1 - Mão esquerda 43 1.2.2 - Mão direita 47 CAPÍTULO II - SENSAÇÃO INTERIOR E DESCONTRAÇÃO 57 2.1. Respiração 61 2.2. Alongamento e aquecimento 69 2.2.1 - Aquecimento e resfriamento ativo 74 148 2.2.2 - Exercícios para antes e depois de tocar CAPÍTULO III - ASPECTOS RELEVANTES DA TÉCNICA 3.1. 3.2 76 94 Mão esquerda 95 3.1.1 - Mudanças de posição 97 3.1.2 - Cordas duplas 106 3.1.3 - Trinado 115 3.1.4 – Vibrato 117 3.1.5 – “Pizzicato” da mão esquerda 121 Mão direita 124 3.2.1 - “Staccato” 124 3.2.2 - “Spiccato” 127 3.2.3 - “Sautillé” 134 3.2.4 - Princípios para a qualidade do som 138 CONCLUSÃO 143 BIBLIOGRAFIA 145 ÍNDICE 147 149 FOLHA DE AVALIAÇÃO Nome da Instituição: Universidade Candido Mendes - IAVM Título da Monografia: O VIOLINO E O VIOLINISTA: UMA RELAÇÃO SEMPRE VIVA Autor: Oswaldo Eduardo da Costa Vellasco Data da entrega: Avaliado por: Conceito: