Aspectos Processuais entre Arte e Design: Uma Breve Digressão
ASPECTOS PROCESSUAIS
PEQUENA DIGRESSÃO
ENTRE
ARTE
E
DESIGN: UMA
Procedural aspects on art and design: a brief digression
HARO, Cloé de; Acadêmica e Bolsista PIBITI/CNPq (08/2008 - 08/2009); IF-SC.
[email protected]
SIELSKI, Isabela Mendes; Dra Profa ; IF-SC
[email protected]
Resumo
Este artigo aborda o recorte de uma pesquisa, com o título “Os Materiais como Elementos
Ativos no Processo do Projeto de Design”,que teve apoio do PIBITI/CNPq. Tal recorte
discorre sobre transgressões por meio das dualidades Forma-Função e Forma-Matéria sob os
aspectos da arte e do design. A intenção aqui é permitir não a classificação de processos e sim
a discussão conceitual de suas aplicações.
Palavras chave: Processo; materiais; design.
ABSTRACT
This article addresses a part of a research, which title is The Materials as Active Elements in
the Process of Design Project, which had support of PIBITI / CNPq. This clipping discusses
transgressions through dualities Form-Function and Form-Matter in the aspects of art and
design. The intention here is not to allow classification of cases, but the conceptual discussion
of its applications.
Introdução
Este artigo aborda o recorte de uma pesquisa com o título “Os Materiais como
Elementos Ativos no Processo do Projeto de Design, o qual teve apoio do PIBITI/CNPq.
Discute bases técnico-criativas para a modelagem em design, utilizando como meio
experimental os materiais empregados nas unidades curriculares de modelagem I e II do
Curso Superior de Tecnologia em Design de Produto – IF/SC.
Sob o aspecto do binômio arte-design, tal recorte discorre sobre transgressões por
meio das dualidades Forma-Função e Forma-Matéria sob os aspectos da arte e do design.
Deste modo, e à parte dos debates que poderiam levar-nos a caminhos e conclusões
estéreis entre as duas áreas, o interesse da pesquisa está centrado na contaminação existente
entre elas. Neste caso em específico trata-se de focar no processo criativo, na experiência dos
designers com a matéria, os quais atuando no âmbito da descontextualização e re-significação,
agregam valor aos objetos criados. Estratégias criativas vistas já a partir de Duchamp, que
retirou objetos cotidianos de seu contexto habitual, modificando também sua função. Palavras
como transformação, descontextualização, deslocamento podem assim traduzir o processo de
criação de objetos desenvolvidos por alguns designers, compreendendo-os, portanto, desde o
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olhar do artístico. O propósito aqui é permitir não a classificação de processos essencialmente
técnicos, e sim a discussão conceitual de suas aplicações.
Transgressões entre forma e função
As confluências entre arte e design têm sido tema controvertido dentro da área do
design e em especial nos centros de formação. Muito tem-se teorizado e discutido sobre as
questões de interdisciplinaridade, complexidade e transdisciplinaridade no âmbito de diversas
áreas. Mas, no entanto, o que percebe-se no referente ao design, é que houve uma certa
acomodação fundada pelo pragmatismo tecnológico de Ulm. Este acabou impedindo o
desenvolvimento da integração entre artistas, artesãos e arquitetos.
Faz-se, necessário, portanto, em uma época como a atual, onde a tecnologia está apta a
resolver a maioria dos problemas técnico-funcionais, voltar a travar um diálogo, o qual já
desde a Revolução Industrial se viu ignorado. Como aponta Dorfles, a separação dos
processos de produção estão relacionados a três fases distintas:
a) 1a revolução industrial (séc XIX), em que a elaboração de máquinas e obras civis
(como pontes) não se conectava com a esfera das belas artes. O máximo que ocorria era um
mascaramento das engrenagens por meio de aplicações ou integrações de elementos
arquitetônicos;
b) Logo após, a Art Nouveau criou objetos com características claramente artísticas;
c) Em meados do séc. XX, com o De Stjil (Neoplasticismo) e a Bauhaus teve a origem
do binômio Forma-Função, o qual é submetido a objetos industriais e arquitetônicos até hoje.
Tais características puderam também ser vistas posteriormente nas tendências
Minimalistas e Pop, que com frequência incluíram elementos da indústria em suas obras e
conceitos. Ainda no campo da arte verifica-se que os objetos oriundos da Arte Cinética e
afins, eram executados de maneira que poderiam ser adaptáveis aos processos seriados da
indústria. Se no continente Europeu e Americano existia essa realidade, no Brasil, foram
principalmente os artistas concretistas que atenderam aos anseios da indústria, resgatando
signos universais e empregando-os ao design gráfico.
Ainda no contexto brasileiro, no que concerne ao design, há uma lacuna entre a era das
manufaturas artesanais e a era mecânica, pois o artesanato não entra na formação da história
do processo industrial local. Devido à estadia de Portugal no Brasil e das alianças com a
Inglaterra, o processo de manufatura ocorreu de maneira tardia. "Isso, ao trazer efeitos
negativos para a promoção industrial do país, concorreu também para protelar um processo de
inserção dos signos e ícones da cultura brasileira nos artefatos da cultura material local".
(MORAES, 2006. p. 69)
Ao procurar traçar uma relação dos aspectos antes vistos com a área do design,
encontramos nos objetos dos designers Fernando e Humberto Campana1, a existência de uma
evidente poética material e conceitual. Buscando questionar e romper alguns paradigmas,
herança do design funcionalista, esses designers criam uma tensão entre a arte e o design. Da
série Desconfortáveis, produzida artesanalmente, nos anos 80, eles comentam:
"Tinha uma intenção de provocação mesmo. O que se fazia na época em
matéria de produção no Brasil. Nós notávamos que existia uma ditadura
milanesa, italiana ou da Bauhaus mais antiga. A formação dos designers, dos
arquitetos se limitava a isso. Nós tentamos aos poucos colocar uma linguagem
nossa, que tivesse a ver com o Brasil." (Irmãos Campana, 2009)
Nesse depoimento nota-se que a tentativa de romper com a herança do design como
atividade diretamente vinculada à indústria, transgride assim mesmo o sentido do binômio
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Forma-Função. Quando começaram a produzir, tanto o design nacional como o internacional
caminhavam para a industrialização. Eles reivindicaram, então, o fazer do artesão, o
imaginário popular do Brasil, o uso de materiais e técnicas, a princípio, só pensados para a
manufatura artesanal. Mas, se por um lado a maioria de suas peças continuam sendo
produzidas por métodos mais artesanais, por outro o que desejam também é conseguir que
esses processos sejam admitidos na produção seriada da indústria.
Sob esse ponto de vista, cabe uma citação de Dijon de Moraes: “...o design brasileiro
nasce, se alimenta, lentamente se renova, traçando, a partir do período da sua instituição, um
verdadeiro percurso experimental que prossegue adiante em uma espécie de contínuo
metabolismo e metamorfose correlatada." (MORAES, 2006. p. 77)
Outro aspecto abordado, decorrente desse prisma de transgressão do binômio FormaFunção, nas obras/objetos dos Irmãos Campana são os materiais como elementos ativos,
geradores de significados - os quais tiveram como antecedentes no campo da arte os trabalhos
de artistas provenientes das tendências processuais como da Arte Povera2 ou Pós
Minimalismo3. Em se tratando do design percebe-se que não é comum essa abordagem,
porém há um número significativo de trabalhos de diferentes designers, como os pertencentes
aos grupos holandeses, Droog Design, Design Boom, e seus antecessores, Design-Conceito4,
Global Tools5, bem como os já supracitados Irmãos Campana, que extraem os conceitos de
seus projetos a partir dos materiais os mais diversos, explorando tanto suas propriedades
físicas, quanto ópticas.
Isso pode ser visto, por exemplo, nas peças elaboradas por eles junto aos designers da
H.Stern6 para a coleção de jóias em 2001, em que ocorreu a transposição de seus móveis
feitos a partir do papelão para peças forjadas a ouro. Nas peças da coleção ficou evidenciado
as características do enrugado do papel transposto à este material nobre - o ouro. Em
entrevista à revista ARC Design, Fernando e Humberto afirmam que os materiais tem papel
fundamental na sua produção, pois são os mesmos que indicam a forma final do produto,
além de apontar o material para novas alternativas, fornecendo novas funções.
Transgressões entre Forma e Matéria
Tais aspectos comprovam o que Henri Focillon já falava em meados dos anos 30: a
matéria tem os seus princípios e é importante segui-los para que haja um bom aproveitamento
da sua forma: cada matéria tem o seu destino, ou seja, cada matéria tem a sua vocação formal.
Ela tem uma cor, um peso, uma consistência; cada matéria resulta em um efeito ou
acabamento diferente, não importando a vontade de quem a utiliza. Uma vez que essa não é
inerte, e sim sujeita a transformações físicas e químicas de acordo com o semblante do
ambiente onde está inserida e de como é usada. (FOCILLON, 1934).
Dado que a matéria não é fixa, fica cada vez mais claro que é necessário trabalhá-la
para descobrir novas possibilidades, e é através da experiência que isso é possível. A partir
das reflexões de Larrosa Bondía nota-se que em cada país o significado da palavra
experiência muda, entretanto a sua sintaxe, tanto nas línguas germânicas quanto nas línguas
latinas contêm a mesma dimensão de viagem (travessia) e perigo. Travessia, pois está ligada à
sair de um ponto de desconhecimento para chegar a um outro de consciência; e perigo, porque
está ligada diretamente ao acaso, não se sabe aonde pode chegar. Sendo assim, a experiência é
algo que não é previsto e sim uma abertura para o desconhecido. (BONDÍA, 2002).
Traçando uma analogia entre as idéias de Bondía e o tempo do processo do objeto
artesanal em contraponto com o industrial, é possível concluir que um objeto no qual se passa
muita coisa (processos industriais, mecanizados), praticamente nada é percebido, pois não há
uma tangência direta, um embate entre homem-matéria, ocorrendo assim um esvaziamento de
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sentido. Ao contrário, em um processo artesanal onde existe o contato físico entre o criador e
o objeto, este fica impregnado de inúmeras sensações que não passam despercebidas pelo
usuário.
Esse é outro aspecto que destaca e é visível nos trabalhos dos Irmãos Campana. Seus
passeios pelo bairro do Brás em São Paulo, o interesse pela reciclagem, a preferência por
materiais baratos, como também por resíduos industriais, mostram claramente que a
experiência (caminhos percorridos anteriormente, ou seja, seus trabalhos), o seu contexto
(locais onde moram e por onde passam) são utilizados para a criação de objetos.
Ao abordar o processo de criação destes designers, vê-se que é no fazer, no trabalho
de estúdio que eles começam a visualizar o objeto, ver suas reais possibilidades. A partir da
experimentação, do que os materiais oferecem tanto em suas qualidades estético-estruturais
como em sua referência cultural e a diferença do designer “puro” que parte de um problema
real, de uma necessidade do usuário ou de um nicho de mercado, os objetos dos I. Campana
surgem a partir de um material-conceito, e muitas vezes é este que define a forma. Por isso
talvez seus objetos seduzam, mas não exclusivamente por sua funcionalidade, nem apenas por
um apelo de imagem, mas principalmente pelas sensações táteis que desprendem, pelo forte
apelo simbólico, por sua referência a questões essenciais da cultura brasileira, pelo uso de
materiais pré-fabricados, inusitados, descontextualizados. Seus trabalhos respondem assim, ao
binômio forma-matéria, não excluindo, no entanto, a funcionalidade e a seriação o que nos
leva a referir-se a eles como um híbrido de artistas-designers, se é que podemos encaixá-los
em alguma categoria pré-definida.
Conclusão
Preparar a mente para modificar hábitos ou regras e romper padrões, bem como unir os
processos artesanais com os processos industriais, podem gerar novos caminhos a serem
percorridos levando à descobertas no processo de design até então pouco exploradas.
Portanto é interessante entender como a matéria a ser empregada age no meio cultural a
qual está inserida. Havendo um consenso de que a matéria transmite aspectos linguísticos e
comunicativos além de valores conceituais, econômicos, sociais e culturais. Falando de
maneira subjetiva, pode-se afirmar que a matéria fala (SANCHÍS, 1994). Neste sentido
acreditamos que a contaminação entre a arte e o design pode auxiliar na concepção de
produtos mais humanizados, ou para dizer com Norman (2004), mais emocionais,
satisfazendo assim o principal interessado nesse processo, o ser humano.
Notas
1
Os Irmãos Campana são designers brasileiros conhecidos internacionalmente pelos seus
trabalhos elaborados principalmente a partir das propriedades dos materiais.
2
A Arte Povera foi um movimento artístico, o qual ocorreu na Itália na década de 1960. Esse
visava ultrapassar os limites da tela e da escultura com a desmaterialização da obra através de
materiais não convencionais que fizessem parte do dia-a-dia do espectador. A utilização de
materiais como metais, plantas, terra, entre outros considerados pobres, transmite a mensagem
de que com o passar do tempo as propriedades destes podem mudar não só na qualidade
física, mas também na estética.
3
O pós-minimalismo também foi um movimento artístico da década de 60 que, por sua vez ,
ocorreu nos EUA. Esse não pretendia ser uma superação do minimalismo e sim buscava
promover uma nova sensibilidade, já que os artistas eram muito ligados no processo da
realização da obra de arte. Os rotulados pós minimalistas, junto com a pesquisa de materiais
como o neon, chumbo, chapas metálicas, feltros, látex entre outros, pretendiam dialogar com
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os espectadores por meio da antiforma. Já a antiforma seria - segundo as palavras de Robert
Morris - a atenção concedida às propriedades intrínsecas dos materiais e aos seus processos de
formação.
4
O Design-Conceito data dos anos 60 e tem como característica uma nova categoria de
projeto, baseada na Arte Conceitual.
5
O Global Tools estabeleceu diversas oficinas para a aplicação de materiais e emprego de
formas.
6
Joalheria brasileira de grande prestígio internacional fundada no início dos anos 50 por Hans
Stern
Referências
BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas Sobre a Experiência e o Saber da Experiência. Disponível
em:
<http://www.anped.org.br/rbe/rbedigital/RBDE19/RBDE19_04_JORGE_LARROSA_BOND
IA.pdf>. Último acesso em 14 de maio de 2009.
BÜRDEK, Bernhard E. Design: História, Teoria e Prática do Design de Produtos. São Paulo:
Edgard Blücher, 2006.
DORFLES, Gillo. Introdução ao Desenho Industrial: Linguagem e História da Produção
em Série. Lisboa: Edições 70, 1973.
FOCILLON, Henri. Vies de Formes. Disponível em:
<http://classiques.uqac.ca/classiques/focillon_henri/Vie_des_formes/Focillon_Vie_des_forme
s.pdf>. Último acesso em 14 de maio de 2009.
MORAES, Dijon de. Análise do Design Brasileiro: Entre mimese e mestiçagem. São Paulo:
Edgard Blücher, 2006.
NORMAN, Donald. Emotional Design: Why we love (or hate) everyday things. Nova
Iorque: Basic Books, 2004.
PORTAL ARCOWEB. Irmãos Campana. Disponível em:
<http://www.arcoweb.com.br/design/irmaos-campana-colecao-de-03-03-2009.html>. Último
acesso em: 14 DE MAIO DE 2009.
SANCHÍS, Carmém Bernárdez. El Material Interrogado. Lápiz : Revista internacional de
arte. nº 105. Madrid: 1994.
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