AIDS E ECONOMIA PSÍQUICA José Juliano Cedaro1 Resumo Este trabalho recorre à Psicanálise como instrumental para a leitura de aspectos subjetivos envolvidos na luta de algumas pessoas contra uma doença grave, crônica e transmissível: a aids. Focaliza o impacto sobre a vida psíquica de quem enfrenta o medo de ficar vulnerável perante a eterna batalha pela sobrevivência que travamos com outros organismos, sobretudo os microscópios. Além disso, enfrentam o risco de serem excluídos socialmente e sofrem outras tantas perdas, muitas vezes irreversíveis.. Tratando-se da aids, os doentes vivem um tipo de luto decorrente da perda de “parte de si”. Uma ferida narcísica multiplicada e eternizada como consequência da “amputação” de vários aspectos da vida bastante valorizados, como o bem-estar da própria saúde e as questões amorosas e sexuais. Em outras palavras, a aids cria restrições ao prazer e torna o doente mais vulnerável à morte, podendo levá-lo à perda da sua autoestima e empurrá-lo para um trabalho de luto imperecível. Palavras-chave: Psicanálise. Narcisismo secundário. Libido. Sida. Introdução Para poder dar sustentação a essa análise metapsicológica a respeito do impacto da aids sobre a vida de pessoas infectadas pelo HIV, parte-se de alguns pressupostos psicanalíticos. O primeiro deles é que as ações humanas são, primordialmente, narcísicas e, em razão disso, o objetivo de qualquer investimento, no seu sentido psicanalítico, é sempre o seu retorno para o EU. Entenda-se por “narcísico” não apenas a psique circunscrita em volta de si própria, como se o sujeito se “autobastasse”, que seria a marca do narcisismo primário, apresentado por Freud em 1914, mas aquilo que de denominou de narcisismo secundário, o qual seria um efeito daquele momento tenro da ontogenia humana, que deixou impressões irretorquíveis em cada pessoa e que desencadeou uma busca incessante por investimentos libidinais, no próprio EU, como se tentasse, a cada momento, retornar aquele estado de completude, numa eterna nostalgia de algo ilusório, como a saudade de um tempo nunca vivido. “O desenvolvimento do eu consiste em um processo de afastamento do narcisismo primário e produz um intenso anseio em recuperá-lo.” (Freud, 1914, p. 96). O segundo pressuposto é o de que as doenças causam fortes feridas nesse narcisismo secundário, como também mostrou Freud no mesmo artigo, em 1914. As doenças, sobretudo as orgânicas, implicariam numa necessidade de o EU fazer investimentos em si próprio como uma forma de reparar as perdas - as feridas causadas pela doença. Em outras palavras, as coisas do mundo deixariam de 1 Doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Professor da Universidade Federal de Rondônia. E-mail: [email protected] interessar ao doente, desde que não se relacionem com o seu sofrimento. Citando Freud: “... enquanto estiver sofrendo, deixa de amar” (Freud, 1914, p. 79). No caso da aids, esse sofrimento seria muito grande, pois a imagem de si é inevitavelmente transformada e, sobretudo, machucada. A aids deixa o sujeito vulnerável e põe em xeque a fantasia de ser imune aos efeitos do tempo e à morte. Padecendo dessa doença, a ilusão de autossuficiência e de imortalidade é, intermitentemente, confrontada por uma ameaça real. Pior ainda: é uma ameaça que está “dentro”, não havendo para onde fugir, podendo sofrer com a discriminação social (leia-se: desamor) e a necessidade de que seja assumida uma vida dupla para não ser discriminado, isto é, para não ser rejeitado. O terceiro pressuposto diz respeito à necessidade de se tentar reparar a ferida narcísica provocada pela doença. Tal processo de reparação funcionaria como uma elaboração de um luto, tal qual descreve Freud (1917) afirmando que o EU precisa aceitar a realidade da perda para poder ficar livre novamente e fazer novos investimentos. Tratando-se da aids, os doentes vivem um tipo de luto decorrente da perda de “parte de si”. Uma ferida narcísica multiplicada e eternizada como consequência da “amputação” de vários aspectos da vida bastante valorizados, como o bem-estar da própria saúde e as questões amorosas e sexuais. Em outras palavras, a aids cria restrições ao prazer e torna o doente mais vulnerável à morte, podendo levá-lo à perda do sentimento de dignidade para si e empurrá-lo para um trabalho de luto imperecível. A economia psíquica de pessoas vivendo aids O ser humano precisa de um grau mínimo de investimento narcísico para se sustentar, ou seja, uma parte da libido deve ser investida no eu para que possa agir e reagir diante dos sofrimentos e prazeres inerentes à vida. Como consequência disso, as ações de cada pessoa estariam fadadas a girar em torno do seu próprio EU e o narcisismo seria um cimento que sustenta a integridade do EU. Usando as palavras de André Green: o narcisismo é o “... que mantém a unidade constituída do Eu...” (Green, 1988, p. 11). Dentro desse raciocínio, diria que existe um quantum de libido mínima – embora de caráter indeterminável - que precisa ser investida no próprio EU para ele manter o sujeito altivo, integrado em suas funções vitais. Em outras palavras: só há vida enquanto há libido circundante. Essa energia teria um papel reparador quando essa integridade é fracionada por algum tipo de ameaça, externa (agruras do mundo) ou interna (desfusão pulsional). O “recolhimento libidinal” em doentes orgânicos é uma forma de reparação da ferida causada pela doença, a qual contraporia a ilusão de integridade plena e ao desejo de autobastância inerente a todos nós. Esse refluxo da libido seria uma forma de defesa contra o mal que se alojou sobre o organismo. O doente deixou de investir parte considerável de sua libido objetal, retendo-a no seu próprio Eu – como numa intensificação do narcisismo – e usando essa energia para poder lutar contra a patologia e suas consequências. Esse fenômeno é bastante próximo ao que descreve Freud em “Introdução ao narcisismo”, baseando-se numa sugestão dada por Sándor Ferenczi: “É do conhecimento de todos – e nos parece uma coisa trivial - que uma pessoa atormentada pela dor orgânica e por sensações penosas, deixa de se interessar pelas coisas do mundo externo, na medida em que não dizem respeito ao seu sofrimento.” (Freud, 1914, p. 79). Esse recolhimento libidinal do doente seria equivalente ao que o EU faz constantemente por intermédio do sono e do seu efeito reparador. No caso do doente, esse recolhimento é uma defesa pela qual o aparelho psíquico se protege de gastos desnecessários de energia e, assim, pode usá-la a favor do seu restabelecimento. Em função disso, Freud (1914) dizia que o enfermo “enquanto estiver sofrendo, deixará de amar.” (p, 79) O deixar de amar de que fala Freud não exclui a necessidade de ser amado, pois este é o sentimento que faz o enfermo sentir-se protegido e que pode acalentá-lo diante da situação de desamparo instalado pela doença. Oferece algum amparo diante da sensação de estar impotente para se socorrer. Por isso, precisa do amor, do apoio do outro, como uma forma de compensação por aquilo que a doença lhe tirou. O amor do outro é o amparo frente à situação de desamparo instalada pela doença. Com os doentes de aids, esses fenômenos ganham matizes e peculiaridades que precisam ser consideradas a partir de outro olhar. Em primeiro lugar, a aids é uma doença crônica e incurável, por isso significa que o doente não pode se “recolher” e “ignorar” o mundo por um período tão longo, assim como é impossível que o outro lhe dispense total atenção nesse mesmo tempo. A segunda peculiaridade, que diferencia a aids de muitas outras doenças, diz respeito a suas formas de contágio e aos estigmas em torno dela, pois trata de uma patologia infectocontagiosa e incurável, causando resistências e repulsas. A aids é também uma daquelas doenças percebidas como autoevitáveis e, por isso, muitos de seus doentes estão menos propensos à condescendência popular. Igualmente com o que ocorre com a obesidade excessiva e com o uso de drogas, ela costuma ser percebida como um mal que poderia ter sido evitado e, assim, suas vítimas são menos acalentadas que as pessoas com câncer ou que herdaram doenças ou deficiências genéticas de seus ascendentes, por exemplo. A aids, a obesidade e o uso de drogas são fenômenos que ultrajam a norma de uma sociedade narcisista, que valoriza o corpo perfeito e “saudável”. As pessoas que pertencem a esses grupos são percebidas, muitas vezes, como relapsas, por não terem tomado os devidos cuidados, ou por se comportarem à margem da norma em vigor. Com isso, ferem os olhares de quem idealiza uma sociedade formada por belos, saudáveis e incólumes à morte, ao fracasso ou o “desajuste” (Birman, 1994; Bernadet, Kehl, & Costa, 1997). Susan Sontag (1988) salienta que a aids, ao contrário de outras doenças, impõe às suas vítimas grandes obstáculos para poder compartilhar suas preocupações e para pedirem ajuda, pois há o receio de não haver compreensão por parte do interlocutor. Além disso, buscar apoio pode significar ter que revelar condutas e um estilo de vida mantidos em sigilo, como a orientação sexual, drogadicção ou infidelidade conjugal. Concluindo “Estando doente devo pensar o contrário Do que penso quando estou são (Senão não estaria doente), Devo sentir o contrário do que sinto quando sou eu na saúde. Devo ser todo doente – ideias e tudo.” Fernando Pessoa Estando doente de aids uma pessoa pode também sentir a antecipação de algo que esperava apenas para um futuro bastante longínquo, ou que nem mesmo chegou a cogitar. A incerteza e a insegurança quanto ao amanhã podem se tornar obstáculos para as vivências do cotidiano. A aids, como outras doenças incuráveis, pode significar a concretização de uma das grandes fontes de angústia do homem, que é a certeza da caducidade do seu corpo e da inevitabilidade da morte, conforme defendeu Freud em “O mal-estar na civilização”. Tais sentimentos impõem um discurso “de veredicto”ao sujeito.como se o seu destino estivesse delineado. Vendo o futuro condenado, surgem também barreiras para os planos no presente e para a esperança de a pessoa ver seus desejos realizados. Entre tais desejos, existe aquele que é de se tornar uma pessoa melhor, corrigir defeitos e falhas do passado. Relacionando os contextos que envolvem o fenômeno HIV/aids com o repertório psicanalítico, em particular a teorização relativa ao papel do EU diante de um golpe narcísico, é possível pensar que a pessoa soropositiva pode seguir alguns caminhos. Um deles seria adotar um movimento de luta contra o problema, seus estigmas e suas injustiças, buscando superá-los ou pelo menos amenizá-los. O outro caminho seria deixar de se envolver com questões do mundo externo, na medida em que não se relacionam com o seu sofrimento. Seria um recolhimento libidinal, como uma estratégia, para tentar recompor o EU ferido e cicatrizar as feridas abertas. O HIV e a aids incitam-nos o pensar sobre as inúmeras reações que a pessoa soropositiva pode manifestar, pois, dificilmente, alguém ficaria incólume ou indiferente aos discursos e às atitudes que a colocam como sendo a personificação de algo tão temido. Podemos, então, deixarmos a indagação acerca de quais seriam as consequências que a estigmatização pode ter sobre a libido narcísica, refletida nas atitudes e nas condutas de uma pessoa, seja quanto ao seu sentimento de “amorpróprio” (selbstgefüh), seja o papel que o outro exerce sobre tal sentimento. Referências Bernadet, J. C.; Kehl, M. R.; & Costa, J. F.. Colóquio sobre aids. En: Cadernos de subjetividade. São Paulo, Pontifícia Universidade Católica (PUC), v. 5, n 31, p. 184204, 1997. Birman, J. A sexualidade entre o mal e as maledicências. En: Loyola, M. A. (org.) Aids e sexualidade: o ponto de vista das ciências humanas. Rio de Janeiro: ReluméDumará, 1994. Freud, S. (1993) Introducción del narcisismo. En L. Etcheverry (Traduc.), Obras completas: Sigmund Freud (Vol. 14). Buenos Aires: Amorrortu. (Trabajo original publicado 1914). Freud, S. (1993) Duelo y melancolía. En J. L. Etcheverry (Traduc.), Obras completas: Sigmund Freud (Vol. 14). Buenos Aires: Amorrortu. 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