PROGRAMA BRASILEIRO DE BIODIESEL Rodrigo Augusto Rodrigues1 José Honório Accarini2 Introdução P esquisas e testes com combustíveis derivados de óleos vegetais tiveram início no Brasil nos anos de 1970. Entretanto, por razões centradas no mercado do petróleo, nas diferentes condicionantes dos preços de seus derivados e na participação do diesel no setor de transportes do País, essas iniciativas não se traduziram na inclusão desses combustíveis na matriz energética nacional. Em 2003, essas iniciativas foram retomadas com o apoio político e programático do Governo Federal, o que foi acolhido com entusiasmo e interesse crescente por todos os segmentos produtivos, sociais e políticos, direta e indiretamente interessados na cadeia produtiva do biodiesel. Em julho de 2003, decreto do Presidente da República determinou a realização de estudos por representantes de diversos órgãos públicos federais objetivando analisar a viabilidade econômica, social e ambiental da produção e uso do biodiesel no Brasil. Como metodologia, optou-se por um ciclo Programa Brasileiro de Biodiesel Mestre em Economia da Regulação pela Universidade de Brasília, Subchefe Adjunto na Casa Civil da Presidência da República e coordenador da Comissão Executiva Interministerial do Biodiesel. 1 Mestre em Economia pela Universidade de São Paulo, Assessor na Casa Civil da Presidência da República e membro da Comissão Executiva Interministerial e do Grupo Gestor do Biodiesel. 2 | 159 Banco de Imagens Petrobras/Bruno Veiga de audiências, tendo sido ouvidos e consultados representantes de institutos de ciência e tecnologia, universidades, fabricantes de óleos vegetais, produtores e trabalhadores rurais, da indústria automobilística, de fabricantes de autopeças e de governos estaduais e de parlamentares envolvidos com o assunto. Também se buscou conhecer e avaliar a experiência internacional na produção e uso de biodiesel. Esses estudos foram encerrados em dezembro de 2003 com a elaboração de um Relatório Final contendo conclusões sobre o potencial do biodiesel no sentido de contribuir favoravelmente para equacionar questões fundamentais para o País, como promover a inclusão social de agricultores familiares (pequenos produtores rurais) mediante a geração de emprego e renda resultante de seu progressivo engajamento na cadeia produtiva desse biocombustível; atenuar disparidades regionais; contribuir para a economia de divisas e para a redução da dependência do petróleo importado; fortalecer o componente renovável da matriz energética brasileira; melhorar as condições ambientais e reduzir custos na área de saúde com 160 | Biocombustíveis no brasil: Realidades e perspectivas Banco de Imagens Petrobras/Bruno Veiga o combate aos chamados males da poluição, especialmente nos grandes centros metropolitanos. Diante desse amplo leque de benefícios de natureza social, econômica, ambiental, estratégica e mesmo geopolítica, o Governo Federal decidiu iniciar imediatamente a definição de medidas e providências para introduzir o biodiesel na matriz energética brasileira. Desse modo, em 6 de dezembro de 2004, foi lançado o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB). O PNPB exigiu diversos estudos, providências e medidas visando a acolher, no marco legal e regulatório brasileiro relacionado aos combustíveis, o biodiesel como novo integrante. A definição do modelo tributário, o mecanismo denominado Selo Combustível Social, a organização de agricultores familiares, a criação de linhas de financiamento, as ações promotoras do desenvolvimento tecnológico com recursos nacionais e oriundos de cooperação internacional e o estímulo à formação do mercado nacional para o biodiesel por meio dos leilões de compra constituem os pontos centrais desse Programa. Programa Brasileiro de Biodiesel | 161 Matriz energética e mercado de combustíveis no Brasil Conforme se pode constatar no Gráfico 1, o Brasil ocupa posição de destaque no tocante à participação de energias de fontes renováveis (hidroeletricidade, biomassa e etanol) em sua matriz energética comparativamente à média mundial. Entretanto, a participação de fontes não-renováveis (55,6%) ainda é predominante, sendo explicada pelo petróleo e derivados (38,8%), gás natural (9,5%), carvão mineral (5,8%) e pelo urânio (1,5%) e seus derivados. Gráfico 1 - Participação de Fontes Renováveis e Não-Renováveis na Matriz Energética - Em % Renováveis Não-Renováveis 86,8 55,6 44,4 Fonte dos dados originais: Balanço 13,2 Energético Nacional (BEN-2007). Brasil (2006) Mundo (2004) Quando se analisa a matriz de combustíveis veiculares leves e pesados de 2006, representada no Gráfico 2, constata-se que a dependência em relação ao diesel de petróleo é também elevada (52,2%). Em 2004, quando foi lançado o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), esse percentual era ainda maior (cerca de 54%), tendo sido 162 | Biocombustíveis no brasil: Realidades e perspectivas fator condicionante da introdução do biodiesel como novo combustível visando a ampliar a segurança energética brasileira de forma sustentável. Gráfico 2 - Matriz de Combustíveis Veiculares: Brasil - 2006 Gasolina A 27,3% Álcool Anidro 7,3% Álcool Hidratado 9,9% Gás Natural Veicular 3,3% Fontes dos dados Óleo Diesel 52,2% originais: Ministério de Minas e Energia (MME). O Gráfico 2 também mostra a participação de fontes renováveis em 17,2% do consumo de combustíveis, com o uso do álcool hidratado (9,9%) e do álcool anidro (7,3%), este misturado à gasolina em percentuais variando de 20 a 25% (E20 a E25). As misturas crescentes de biodiesel ao diesel de petróleo vêm somar-se ao incremento do uso de álcool hidratado em veículos flex-fuel no sentido de contribuir para elevar gradativamente a participação relativa dos combustíveis de fontes renováveis na matriz veicular. Mantida a distribuição relativa verificada em 2006, a mistura B2 elevará a participação dos combustíveis de fontes renováveis de 17,2% para cerca de 18,2%. O consumo interno de óleo diesel no Brasil é da ordem de 40 bilhões de litros por ano. Dados relativos a 2005 mostram que 82,4% são utilizados em transportes, 14,6% foram consumidos pela agropecuária e cerca de 3% pela indústria e Programa Brasileiro de Biodiesel | 163 outros setores. Para o atendimento da demanda nacional, o Brasil importa de 6% a 8% do diesel consumido internamente – 2,4 bilhões a 3,2 bilhões de litros por ano. A mistura de biodiesel na proporção de 2% (B2) requer a oferta anual de 800 milhões de litros para abastecer o mercado interno. A produção necessária à mistura B5 é da ordem de 2 bilhões de litros/ano. Banco de Imagens Petrobras/Bruno Veiga Lógica e diretrizes do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) Sendo o petróleo cada vez mais escasso e a energia fator essencial do processo de desenvolvimento, a segurança energética é objetivo estratégico para sustentar esse processo, devendo ser alcançada com fontes alternativas de energia. A produção crescente de combustíveis de fontes renováveis é a alternativa mais viável a curto e médio prazos e isso requer o atendimento de requisitos de sustentabilidade em sentido amplo: ambiental, econômico, social, tecnológico e estratégico. Em face de suas condições de solo e clima, o Brasil tem grande potencial para produzir biomassa e a agregação de valor a essa base de matérias-primas representa importante vantagem comparativa. O biodiesel é uma dessas possibilidades, talvez a mais promissora, porque a demanda de energia tende a aumentar enquanto a economia mundial estiver crescendo. 164 | Biocombustíveis no brasil: Realidades e perspectivas Nesse contexto, o Governo brasileiro vislumbrou a possibilidade que, na prática, já vem se concretizando, de aumentar sua segurança energética engajando agricultores familiares e pequenos produtores rurais das regiões mais pobres do País na cadeia produtiva do biodiesel, além de contribuir para a economia de divisas e a melhoria das condições ambientais, dentre outros benefícios. Isso sintetiza a lógica do PNPB, o que vem sendo alcançado mediante estímulos tributários a empresas que adquirem oleaginosas produzidas por agentes econômicos nas regiões mais carentes do País. Para inserir essa estratégia num contexto de mercado, a mistura do biodiesel ao diesel de petróleo, em proporções gradativamente crescentes ao longo do tempo, foi tornada obrigatória por força de lei. No Brasil, biodiesel é o biocombustível derivaHá amplas do de biomassa renovável para uso em motores a possibilidades de combustão interna com ignição por compressão uso do biodiesel ou, conforme regulamento, para outro tipo de geem transportes ração de energia, que possa substituir parcial ou totalmente combustíveis de origem fóssil. Assim, urbanos, há amplas possibilidades de uso do biodiesel em rodoviários, transportes urbanos, rodoviários, ferroviários e ferroviários e aqüaviários de passageiros e de cargas, geradores aqüaviários de e motores estacionários. passageiros e de O PNPB, idealizado para convergir gradativacargas, geradores mente para um modelo de mercado, com incentie motores vos direcionados à inclusão de agentes produtivos estacionários. e regiões mais carentes à cadeia produtiva desse combustível, apóia-se em estímulos à demanda e à oferta. Do lado da demanda, destaca-se a Lei Federal nº 11.097, de 13 de janeiro de 2005, que define biodiesel como novo Programa Brasileiro de Biodiesel | 165 combustível na matriz energética brasileira, estabelecendo, a partir de janeiro de 2008, em todo território nacional, a mistura obrigatória de 2% de biodiesel e 98% de diesel de petróleo, denominada B2. Até janeiro de 2013, essa obrigatoriedade passará para 5% (B5), havendo, ainda, possibilidade de empregar percentuais de mistura mais elevados e até mesmo o biodiesel puro (B100) mediante autorização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), sob cuja competência a mesma Lei incluiu a regulação e fiscalização da produção e da comercialização de biocombustíveis. A Lei nº 11.097, de 2005 cria, portanto, um mercado cativo para o biodiesel no Brasil, enquanto que a Lei Federal nº 11.116, de 18 de maio de 2005, prevê a redução parcial ou total de tributos federais incidentes sobre a comercialização de biodiesel em função da matéria-prima utilizada na produção do biodiesel, do produtor-vendedor, da região de produção da matéria-prima ou de uma combinação desses fatores. A regulamentação da Lei nº 11.116, de 2005, delegada a ato do Poder Executivo, estabelece que, para usufruir desses benefícios tributários, os produtores de biodiesel precisam ser detentores de um certificado que recebe o nome de Selo Combustível Social, concedido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) a produtores de biodiesel habilitados a operar na produção e comercialização desse novo combustível e que atendam, adicionalmente, às seguintes exigências: a) adquiram percentuais mínimos de matéria-prima de agricultores familiares, sendo de 10% nas regiões Norte e Centro-Oeste; de 30% nas regiões Sul e Sudeste e de 50% no Nordeste e no Semi-Árido (percentuais fixados conforme a participação média desses agricultores nas respectivas regiões); e 166 | Biocombustíveis no brasil: Realidades e perspectivas Programa Brasileiro de Biodiesel Banco de Imagens Petrobras/Bruno Veiga | 167 b) celebrem contratos com os agricultores familiares estabelecendo prazos e condições de entrega da matériaprima e respectivos preços e lhes prestem assistência técnica. A redução de 100% dos impostos federais incidentes sobre combustíveis é conferida à comercialização de biodiesel fabricado exclusivamente com palma (dendê), na Região Norte, ou com mamona, no Nordeste e no Semi-Árido, desde que fornecidas, em ambos os casos, por agricultores familiares. Para as mesmas matérias-primas e regiões, a redução máxima é de 32% dos tributos federais se os agricultores não forem familiares. A produção de biodiesel com matérias-primas A produção de cultivadas por agricultores familiares merece tratamento preferencial no modelo tributário. De fato, biodiesel com independentemente da oleaginosa ou da região, se matérias-primas a matéria-prima for adquirida desses agricultores, cultivadas por a redução dos tributos federais é de 68%. agricultores Outro aspecto importante do modelo tributário familiares merece é o de que o total da tributação federal sobre o tratamento biodiesel nunca poderá suplantar a do diesel mipreferencial no neral. Em outubro de 2006, por acordo promovido pelo Governo Federal com todos os estados da Femodelo tributário. deração, o imposto estadual sobre valor adicionado incidente na comercialização do biodiesel também não poderá superar a do diesel de petróleo. Além da redução parcial ou total de tributos federais, as empresas detentoras do Selo Combustível Social podem usar esse certificado para diferenciar a origem/marca do biodiesel no mercado, uma vez que isso indica a adesão de seu fabricante a princípios de responsabilidade social na produção. Dessa forma, ficaram estabelecidos, pela Lei Federal nº 168 | Biocombustíveis no brasil: Realidades e perspectivas Programa Brasileiro de Biodiesel Biodiesel com diferentes processos produtivos: mamona, soja, amendoim, algodão, girassol, pinhão-manso. | 169 Pulsar Imagens/Delfim Martins 11.116, de 2005, incentivos para que a oferta de biodiesel atenda os princípios básicos do PNPB de promover a inclusão social e a redução de disparidades regionais por meio da criação de oportunidades de emprego e renda para segmentos e nas regiões mais carentes do País. Outra característica importante desse Programa é a de não excluir categorias de agentes econômicos, rotas tecnológicas ou matérias-primas. Isso porque o Brasil tem potencial para fabricar biodiesel com diferentes processos produtivos, empregando mamona, palma, soja, amendoim, nabo forrageiro, algodão, girassol, pinhão-manso (Jatropha curcas L.), babaçu, gorduras animais e residuais. A escolha depende da economicidade de cada alternativa que pode variar segundo as distintas peculiaridades regionais brasileiras. O Governo Federal considera que essa escolha cabe aos agentes econômicos, mas exige que o biodiesel utilizado no processo de mistura obrigatória ao diesel de petróleo atenda a especificações físico-químicas estabelecidas e rigorosamente fiscalizadas pelo órgão federal competente: a ANP. 170 | Biocombustíveis no brasil: Realidades e perspectivas Programa Brasileiro de Biodiesel Banco de Imagens Petrobras/Rogério Reis | 171 Todo agente econômico que se interessar em produzir e comercializar biodiesel pode fazê-lo, devendo, inicialmente, obter autorização da ANP. Com as medidas em vigor no âmbito do Programa, todo agente econômico que se interessar em produzir e comercializar biodiesel pode fazê-lo, devendo, inicialmente, obter autorização da ANP. Em seguida, é necessário que a pessoa jurídica beneficiária dessa autorização obtenha, junto ao Ministério da Fazenda, o registro especial de produtor de biodiesel. As empresas em condições de usufruir benefícios tributários direcionados à inclusão social e ao desenvolvimento regional devem obter, adicionalmente, o Selo Combustível Social no MDA. Evolução e situação atual do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) Depois de implantadas as medidas legais e regulatórias do Programa, em dezembro de 2004, dispunha-se de um período de aproximadamente três anos para o início (janeiro de 2008) da obrigatoriedade da mistura B2 em todo o território nacional. Aguardar que o mercado se organizasse naturalmente nesse período mostrava-se alternativa arriscada diante das incertezas quanto aos preços cobrados dos consumidores numa situação de demanda cativa. Tornava-se recomendável, portanto, criar condições para que a competição entre ofertantes viabilizasse a evolução da oferta, estimulando a “curva de aprendizado” na produção desse novo combustível e em sua logística de transporte, mistura, distribuição e comercialização, o que levou o Governo Federal a implementar os leilões de compra de biodiesel. 172 | Biocombustíveis no brasil: Realidades e perspectivas Esses leilões tiveram como objetivos básicos estimular a formação e o desenvolvimento do mercado interno de biodiesel, reduzir a assimetria de informações quanto a preços e custos em um mercado ainda nascente e, ao mesmo tempo, antecipar tanto quanto possível as oportunidades de promover a inclusão social e a redução de disparidades regionais. Por essa razão, a obrigatoriedade da mistura B2 foi antecipada para janeiro de 2006, mas condicionada aos volumes arrematados nos leilões, dos quais somente puderam participar empresas detentoras do Selo Combustível Social. Cabe assinalar, entretanto, que o mecanismo dos leilões de compra foi concebido como instrumento de caráter transitório, visando a antecipar a realização dos objetivos anteriormente mencionados e proporcionar, ao cultivo e à organização agrícola, à produção industrial e à logística de distribuição, uma etapa de transição e aprendizado convergente para um processo de livre mercado entre fabricantes de biodiesel, distribuidoras e refinarias, que é o modelo de médio e longo prazos previsto no PNPB. Os leilões de compra vêm desempenhando paOs leilões de compra pel decisivo para consolidar gradualmente o mervêm desempenhando cado do biodiesel no Brasil. Houve grande interesum papel decisivo se das indústrias, evidenciado pela superioridade para consolidar da quantidade ofertada em relação à arrematada, gradualmente o como se pode observar na Tabela 1. Outro resulmercado do biodiesel tado importante foi a redução dos preços médios entre o primeiro e o quarto leilões, que atingiu no Brasil. 9,1% em termos nominais, mostrando que a indústria nacional vem avançando em sua curva de aprendizado e tendendo a ofertar o biodiesel a preços cada vez mais competitivos com o diesel mineral. Programa Brasileiro de Biodiesel | 173 A elevação do preço médio do quinto leilão não deve ser tomada como indicador de reversão dessa tendência, uma vez que ele foi realizado com o propósito específico de suprir pequenas deficiências de entrega de biodiesel contratado em leilões anteriores. Isso restringiu o número de ofertantes, sendo permitida apenas a participação de empresas já em plena operação e com capacidade ociosa para atender essas deficiências de forma imediata. Tabela 1 - Resumo dos Leilões de Compra de Biodiesel Volume Ofertado Volume Arrematado Prazo de Entrega Preço Médio Sem ICMS (R$/litro) 70 janeiro a dezembro/2006 1,905 315 170 julho/2006 a junho/2007 1,860 6 125 50 janeiro a dezembro/2007 1,754 11.07.2006 25 1.141 550 janeiro a dezembro/2007 1,747 13 e 14.02.2007 7 143 45 Imediato 1,862 885 — — Data do Leilão Número de Participantes 23.11.2005 8 92 30.03.2006 12 11.07.2006 TOTAL Milhões de Litros Fontes dos dados originais: ANP e MME. 174 | Nos cinco leilões conduzidos pela ANP houve 17 empresas vencedoras (24 plantas industriais) das quais serão adquiridos 885 milhões de litros de biodiesel até dezembro de 2007. Biocombustíveis no brasil: Realidades e perspectivas A produção desse volume total arrematado proporcionará oportunidades de emprego para cerca de 210 mil famílias de agricultores familiares. O Gráfico 3 apresenta a distribuição percentual do volume total arrematado nos cinco leilões, podendo-se verificar que a participação conjunta das duas regiões mais carentes do País (Norte e Nordeste) atingirá 48,9%. A participação da agricultura familiar na oferta de matérias-primas para produção do biodiesel contratado nos leilões será de 35% do total (310,5 milhões de litros). Gráfico 3 - Distribuição Regional do Volume Arrematado nos Leilões de Compra 37,9% 16,8% 16,7% 17,7% 11% Fonte dos dados originais: Ministério do Desenvolvimento Norte Nordeste Centro-Oeste Sudeste Sul Agrário. A Tabela 2 apresenta dados comparativos importantes para se analisar o alcance social e regional dos resultados dos leilões de biodiesel. Eles de fato evidenciam que, no volume total contratado, a participação das duas regiões mais carentes do Brasil (Norte e Nordeste) será de aproximadamente 4,7 vezes superior ao peso dessas regiões no valor da produção de matérias-primas suscetíveis de transformação em biodiesel (algodão, amendoim, girassol, mamona, soja e palma) em 2004, quando foi lançado o PNPB. A mesma tabela mostra que a participação da agricultura familiar no fornecimento Programa Brasileiro de Biodiesel | 175 de matérias-primas para fabricação do biodiesel contratado nos leilões é quase 10 vezes superior ao peso da agricultura familiar no PIB brasileiro. Tabela 2 - Alcance Social e Regional dos Cinco Leilões de Biodiesel Participação das regiões Norte e Nordeste Participação da Agricultura Familiar Valor da Produção de Oleaginosas Produção de Biodiesel PIB Agrícola Matérias-primas para Produção de Biodiesel (Dados de 2004) (Dados de 2006/2007) (Dados de 2003) (Dados de 2006/2007) 10,3% 48,9% 3,6% 35% Fontes dos dados originais: MDA e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 176 | Mesmo que a metodologia e os períodos de comparação não sejam os ideais por falta de informações, esses indicadores mostram que os leilões de compra vêm contribuindo para que o PNPB cumpra seus objetivos centrais de promover a redução de disparidades regionais e a inclusão social de agricultores familiares na cadeia produtiva do biodiesel. Os números relacionados à comercialização de biodiesel no Brasil também revelam resultados importantes. A mistura B2 já é comercializada em cerca de 5 mil postos revendedores, de um total de 35.600 existentes no País. Em maio de 2007, há 27 unidades autorizadas pela ANP a produzir biodiesel, com capacidade instalada de 1,21 bilhão de litros/ ano. Outras 30 unidades encontram-se com seus respectivos processos de autorização em análise, com capacidade de 1,74 bilhão de litros/ano, em condições de entrar em operação até o final de 2007. Os projetos em construção (7) e em fase de estudos de viabilidade (25) apresentam capacidade produtiva anual da ordem de 1,65 bilhão de litros, com previsão de entrarem em funcionamento até o final de 2008. Biocombustíveis no brasil: Realidades e perspectivas Banco de Imagens Petrobras/Bruno Veiga Considerando-se apenas as 27 unidades já autorizadas a produzir biodiesel, a capacidade anual de produção (1,21 bilhão de litros) suplanta o volume necessário à mistura B2 (cerca de 800 milhões de litros/ano). Juntando-se as 30 unidades em fase final de regularização e em fase de ampliação, chega-se a um potencial produtivo de 2,95 bilhões de litros, bem superior, portanto, às necessidades para a mistura B5 (aproximadamente 2 bilhões de litros/ano). Esses dados evidenciam a possibilidade de antecipar o cumprimento das exigências para a mistura B5 e até mesmo de se autorizar proporções de mistura superiores a 5%, devidamente amparadas por testes veiculares e/ou mediante autorização da ANP. A exportação de biodiesel é outra possibilidade, uma vez que a capacidade produtiva projetada para o final de 2008 é da ordem de 3,5 bilhões de litros de biodiesel por ano. Programa Brasileiro de Biodiesel | 177 Banco de Imagens Petrobras/Bruno Veiga Considerações Finais O PNPB constitui exemplo de política pública construída e implantada com ampla participação e apoio dos principais atores envolvidos na cadeia produtiva desse combustível de fontes renováveis. O mercado nacional de biodiesel já se encontra plenamente legalizado e regulamentado, além de apoiado por modelo tributário diferenciado e por instrumentos direcionados ao financiamento da cadeia produtiva, à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico nas fases agrícola e industrial (inclusive com cooperação internacional), aos testes de componentes e motores com distintas proporções de mistura diesel/biodiesel e à organização de agricultores familiares. No Programa Brasileiro de Biodiesel considera-se fundamental proteger, da forma mais eficiente possível, os elos mais fracos da cadeia produtiva: agricultores familiares e consumidores. O Selo Combustível Social proporciona condições tributárias diferenciadas às empresas que empregam matérias-primas produzidas por agricultores familiares e oriundas das regiões mais carentes do Brasil. Na outra ponta, a especificação físico-química e as normas rígidas de fiscalização mostram-se indispensáveis para que o consumidor tenha acesso a um combustível de qualidade e torne-se aliado fiel e confiante nessa trajetória do Brasil, sem paralelo no mundo, de fortalecer uma matriz energética cada vez mais limpa, sustentável e menos dependente do petróleo. 178 | Biocombustíveis no brasil: Realidades e perspectivas Programa Brasileiro de Biodiesel | 179 Banco de Imagens Petrobras/Rogério Reis Com os resultados já alcançados e as diretrizes estabelecidas no Programa Brasileiro do Biodiesel, o Brasil reúne condições de ampliar e consolidar posição de liderança mundial na produção e uso de energias de fontes renováveis, dadas suas vantagens comparativas em termos de disponibilidade e diversidade de condições de solo e clima. A melhoria da produtividade agrícola e o uso de áreas ocupadas com a pecuária extensiva são os principais instrumentos de que o Brasil dispõe para aumentar a produção energética de forma sustentável, sem competir com a produção de alimentos e sem pressionar áreas como a Amazônia, onde o cultivo de oleaginosas para fabricação de biodiesel pode ser feito em terras degradadas, contribuindo para sua recuperação. Trata-se, portanto, de um Programa de desenvolvimento sustentável em sentido amplo (ambiental, econômico, social, tecnológico e estratégico), com geração de renda e emprego no campo, redução de disparidades regionais, economia de divisas, diversificação de fontes de energia e benefícios ambientais, contribuindo para dinamizar economias locais e regionais e inserindo segmentos produtivos e regiões mais carentes num mercado em franco processo de crescimento. As perspectivas do biodiesel brasileiro no mercado internacional também se mostram favoráveis e promissoras, em decorrência da demanda crescente por biocombustíveis, estimulada pela sensibilização da opinião pública mundial com as conseqüências ambientais provocadas pelas emissões veiculares e a Divulgação/Unica substituição dos derivados do petróleo por fontes alternativas. Objetivando a colaboração do Governo brasileiro com esse esforço e considerando o pioneirismo brasileiro na produção e uso de combustíveis renováveis e as potencialidades agrícolas representadas pela localização, as dimensões terriotoriais e a diversidade de clima e solo do Brasil, as ações diplomáticas brasileiras objetivam a união de esforços multilaterais para a criação de mercados internacionais para os biocombustíveis e o estabelecimento conjunto de normas técnicas e padrões internacionais para os biocombustíveis, tendo em vista a transformação desses em commodities, bem como acordos bilaterais de cooperação tecnológica, contribuindo para ampliar e consolidar mercados para os biocombustíveis. 180 | Biocombustíveis no brasil: Realidades e perspectivas Bibliografia ACCARINI, J. H. Biodiesel no Brasil: estágio atual e perspectivas. Revista Bahia Análise & Dados, Salvador, v. 16, n. 01, p. 51-63, jun. 2006. 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