CLÓRIS VALENTINA PEREIRA SOCIEDADE CULTURAL E BENEFICENTE RUI BARBOSA: MEMÓRIA FOTOGRÁFICA DE UM CLUBE NEGRO CANOAS, 2009 1 CLÓRIS VALENTINA PEREIRA SOCIEDADE CULTURAL E BENEFICENTE RUI BARBOSA: MEMÓRIA FOTOGRÁFICA DE UM CLUBE NEGRO Trabalho de conclusão apresentado a banca examinadora do curso de do Centro Universitário La Salle - Unilasalle, como exigência parcial para a obtenção do grau de Bacharel em História. Orientação: Prof. Elsa Gonçalves Avancini CANOAS, 2009 2 CLÓRIS VALENTINA PEREIRA SOCIEDADE CULTURAL E BENEFICENTE RUI BARBOSA: MEMÓRIA FOTOGRÁFICA DE UM CLUBE NEGRO Trabalho de conclusão aprovado como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em História, pelo Centro Universitário La Salle - Unilasalle. Aprovado pela banca examinadora em: ___ de ______ de 2009. BANCA EXAMINADORA: ________________________ _______________________ _______________________ 3 Dedico este trabalho a todos aqueles que em mim acreditaram, em especial à minha família que sempre direta ou indiretamente me apoiou. Em especial à Doroti, modelo de perseverança, e à Daianne, em quem repouso meu amor e esperança 4 AGRADECIMENTO Agradeço a Deus por permitir o cumprimento de mais uma etapa de vida. Agradeço de maneira especial a minha orientadora Elsa Gonçalves Avancini, pelo incentivo, carinho e atenção a mim dedicados. 5 RESUMO O presente trabalho consiste no registro da história da Sociedade Cultural e Beneficente Rui Barbosa, clube negro no município de Canoas. Através da coleta e pesquisa de imagens guardadas pelos sócios busca-se analisar e relacionar as possíveis representações simbólicas contidas nas imagens Considera-se contribuir para a diversidade de registro da História Local do Município de Canoas, visando à visibilidade e à inclusão desses sujeitos históricos. Palavras-chave: História afro-brasileira. História local. Memória. 6 RESUMEN El presente estúdio procura registrar la história de la Sociedad Y Beneficente Rui Barbosa, club negro de la ciudad de Canoas. Através de coleta y pesquisa de imagenes guardadas por los sócios tratasse de analisar y relacionar las possibles representaciones simbólicas contenidas em las imagenes. Intenta-se contribuir a la diversidad del registro de la historia local de la ciudad de Canoas, a la visibilidad y la inclusión de estes sujectos históricos. Palabras-clave : história afrobrasileña. História local. Memória. 7 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................8 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E METODOLOGIA...........................................10 2.1 Da metodologia .................................................................................................11 3 AS ORGANIZAÇÕES NEGRAS .........................................................................13 3.1 A Sociedade Cultural e Beneficente Rui Barbosa ..........................................17 4 MEMÓRIA FOTOGRÁFICA DA S. C. B. RUI BARBOSA ..................................20 5 CONCLUSÃO .....................................................................................................28 REFERÊNCIAS ..................................................................................................31 ANEXO A – PAINEL 1 .......................................................................................33 ANEXO B – PAINEL 2 .......................................................................................34 ANEXO C – PAINEL 3 .......................................................................................35 ANEXO D – PAINEL 4 .......................................................................................36 8 1 INTRODUÇÃO A partir do Trabalho de Conclusão de curso de História- Licenciatura, que teve como tema a Sociedade Cultural e Beneficente Rui Barbosa, e das aulas das Disciplinas de Cultura, quando o tema sobre o uso da imagem foi abordado, surgiu a idéia da realização deste trabalho. As motivações dessa pesquisa foram encontrar e organizar material a nível local, que retome a história de grupos sociais de afro-descentes, valorize sua identidade cultural, promova a auto-estima e sirva de apoio para as práticas de ensino. A Sociedade Cultural e Benificiente Rui Barbosa comemorou em março de 2009, 41 anos de fundação. Atualmente, localiza-se na Rua Farroupilha, 834, bairro Nossa Senhora das Graças, em Canoas. É um clube onde a maioria dos associados são afro-descendentes. A compreensão de qual memória imagética foi constituída, e o uso dado a ela, durante a trajetória de consolidação do clube é fundamental para o reconhecimento da importância histórico-social da ação desse grupo na comunidade local, além de contribuir no processo de valorização dessa identidade cultural. A pesquisa foi realizada a partir de fontes bibliográficas e do acervo fotográfico da família Marcelino, uma das famílias fundadoras do clube. O arquivo da própria entidade foi consultado para a complementação da pesquisa, bem como outros documentos. As imagens utilizadas para a realização deste trabalho, inclusive o material resultante dele, serão cedidas para o acervo do Museu e Arquivo Histórico La Salle (MAHLS), e para o acervo do próprio clube. O registro escrito desse estudo é organizado em cinco capítulos. O primeiro apresenta algumas referências teóricas e conceitos utilizados para a análise das questões propostas. O segundo capítulo, elaborado a partir de pesquisa bibliográfica, apresenta um breve histórico da formação de associações e clubes sociais negros no Rio Grande do Sul, considerando o desenvolvimento econômico, social e político do país. 9 O terceiro capítulo apresenta a Sociedade Cultural e Beneficente Rui Barbosa, seu processo de fundação e sua trajetória de consolidação nesses 41 anos de história. O quarto capítulo analisa, a partir de fotografias realizadas no clube, quais imagens foram feitas e guardadas por esse grupo de pessoas e porque constituem a memória visual do clube. O registro desse estudo se encerra no quinto capítulo, onde os pressupostos teóricos são relacionados com o processo vivenciado pela comunidade na luta pelo seu reconhecimento e valorização etno-culturais, enquanto agentes receptores, produtores e difusores de história. Cabe salientar que foram anexados ao trabalho painéis produzidos a partir dessa pesquisa. Os mesmos integraram a Exposição África-Brasil: memórias, liberdades e ritos de vida, na comemoração da Semana da Consciência Negra, promovida pela Sociedade Cultural e Beneficente Rui Barbosa. 10 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E METODOLOGIA O caminho percorrido para a produção desse trabalho iniciou-se com a análise de um conjunto de idéias e teorias pertencentes ao campo da História Cultural. George Duby a considera, dentro de um contexto social, os mecanismos de produção e recepção dos objetos culturais. Se a História Cultural interessa-se por sujeitos produtores e receptores de cultura, igualmente se interessa por agências de produção e difusão cultural, como as organizações sócio-culturais. Le Goff apresenta a memória como “a propriedade de conservar certas informações, remetendo-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas”. Contudo, nos lembra que as ciências humanas (especialmente sociologia, história e antropologia) se ocupam da memória coletiva, noção partilhada por Maurice Halbwachs, que diz que a memória é um fenômeno construído coletivamente e submetida a flutuações, mutações e transformações constantes. Quanto às manipulações da memória, podem ser conscientes ou inconscientes, como afirma Tornar-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram ou dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores destes mecanismos da manipulação da memória coletiva (LE GOFF, 2003, p. 422). Portanto, o estudo da memória social é um dos meios fundamentais de abordar os problemas de tempo e da história, sendo que ambos se encontram irremediavelmente vinculados à memória. Em outras palavras, é o estudo da manipulação pela memória coletiva de um fenômeno histórico. Pesquisar a memória coletiva nas palavras, nas imagens, nos gestos, nos ritos e nas festas é uma conversão do olhar histórico, como nos afirma Pierre Nora, a memória coletiva é o que fica do passado vivido dos grupos, ou o que os grupos fazem do passado. Segundo Le Goff (2003), entre as importantes e significativas manifestações da memória coletiva que surgiram no decorrer dos tempos, vale ressaltar o 11 aparecimento de dois fenômenos no final do século XIX e início XX: a construção de monumentos aos mortos e o advento da fotografia. Para esse autor, [...] a fotografia é que revoluciona a memória: multiplica-a e democratiza-a, dá-lhe uma precisão e uma verdade visuais nunca antes atingidas, permitindo ,assim, guardar a memória do tempo e da evolução cronológica (LE GOFF, 2003, p. 46). Com a evolução dos processos e a massificação da fotografia, a demanda social das imagens foi ampliada ao longo do século XX, e tornando-se acessíveis a muitas famílias. Considerando que a fotografia permitiu que quase toda a gente- não só os mais abastados – pudesse se transformar num objeto-imagem, ou numa série sucessivas de imagens que mantém presentes momentos sucessivos da vida ou ter presente a memória (LEITE, 2001, p. 75). Assim sendo, as imagens fotográficas retratam a história visual de uma sociedade, documentam situações, estilos de vida, gestos e atores sociais. A análise desses registros permite ampliar e aprofundar a história cultural de alguns grupos sociais, oportunizando a compreensão do seu universo simbólico. 2.1 Da metodologia A fotografia assumiu por um período o caráter irrefutável do que realmente aconteceu, o testemunho do realmente vivido. Seu uso nas ciências sociais por muito tempo foi relegado a um segundo plano de caráter meramente ilustrativo. Dentro de uma tendência historiográfica de revisão das fontes documentais, foi desenvolvido um conjunto de instrumentos críticos para dar suporte à utilização e análise crítica da fotografia como fonte histórica. Segundo Leite (2001), “a imagem fotográfica tem significados evidentes, aparentes e latentes, perceptíveis após um primeiro olhar, que lhe conferem uma comunicação instantânea, capaz de dispensar mediações”, portanto é necessário verificar a natureza, os elementos constitutivos e o condicionamento social do significado das imagens fotográficas. 12 Para Mauad (2004), se considera a fotografia simultaneamente como imagem/documento e como imagem/monumento, sendo no primeiro caso um índice, marca de materialidade passada; e no segundo, um símbolo, aquilo que no passado a sociedade estabeleceu como imagem para o futuro. Portanto se a fotografia informa, ela também conforma determinada visão de mundo. Na realização desse trabalho buscou-se, dentro das possibilidades postas, seguir a metodologia indicada por Miriam Moreira Leite, segundo a qual podemos analisar as fotografias de três formas distintas. Primeira, através das características externas gerais (tamanho, tipo, fotógrafo, publicação, instituição de conservação). Segunda, a análise interna das fotografias (a maneira, o espaço e o sentido das imagens registradas pela câmara). E, na terceira situação, tenta-se construir séries ou seqüências de fotografias, de acordo com o problema estudado. Considera-se que a fotografia é um produto cultural, fruto de trabalho social de produção sígnica. Neste sentido, a fotografia pode, por um lado, contribuir para a veiculação de novos comportamentos e representações da classe que possui o controle dos meios técnicos de produção cultural. Por outro, atuar como eficiente meio de controle social, na manutenção do comportamento através da educação do olhar. 13 3 AS ORGANIZAÇÕES NEGRAS O escravismo brasileiro não foi um sistema homogêneo, assumindo formas variadas conforme o contexto econômico, político, social e geográfico durante mais de trezentos anos. Assim sendo, a oposição do escravo ao escravismo também foi diversificada. As relações de todo o tipo entre escravos, libertos e livres pobres, eram mais desinibidas e ricas nas aglomerações urbanas do que no meio rural. A presença do negro em território rio-grandense é registrada desde a época da penetração dos lagunenses nos Campos de Viamão e do processo de expansão portuguesa até o Rio da Plata. Embora, muitas vezes distorcida, e até negada, a resistência do negro à escravidão, individual ou coletiva, também esteve presente. O movimento abolicionista no Rio Grande do Sul culminou em 1884 com festas de libertação em Pelotas e Porto Alegre estabelecendo que os negros, deixando de ser escravos, deveriam permanecer trabalhando para seus senhores por cinco anos, preservando a mão-de-obra. Transformava-se escravo em “contratado” e escravocrata em “emancipacionista”. O movimento abolicionista tomou grande força entre as camadas urbanas, pois eram descompromissadas com a escravidão, no tocante a sua utilização como força de trabalho numa produção econômica para o mercado, dispensando os contratados antes da Lei Áurea. Apoiados na Lei de 1871 criaram-se tanto fundos de emancipação, quanto sociedades emancipadoras, que pagavam ao senhor o preço que o mesmo estipulava para libertar seu cativo. Segundo Muller, em Porto Alegre, entre os anos de 1889 e 1920, registram-se mais de setenta sociedades com intensa atividade social desenvolvida por grupos de negros. Exemplo disso é a Irmandade Nossa Senhora do Rosário, fundada em 1786, com funcionamento e regras previamente definidas pela Coroa e pela Igreja Católica, e que se tornará com o passar do tempo, em um espaço de resistência do grupo de negros admitidos, bem como um elemento de diferenciação de outros negros não admitidos. Muller afirma: A grande experiência vivida por estes negros na Irmandade do Rosário de Porto Alegre deu-se na medida em que eles aprenderam a fazer uso de tais regras, propondo algumas releituras que permitissem incorporar os seus 14 interesses. A comunhão do mesmo espaço e das mesmas tarefas, a constante troca de informações, e a capacidade desenvolvida para, em silêncio, estabelecer estratégias visando a ascensão social de seus membros, foram responsáveis pela transformação da Irmandade em um espaço de luta (2008, p. 264). Em 1828, ano da fundação da Igreja do Rosário, a Irmandade do Rosário de Porto Alegre aprovou seu primeiro Compromisso, ficando respaldada legalmente para dar sequência às suas atividades. A Confraria do Rosário passou a perseguir uma série de objetivos, que visava desestigmatizar o homem negro e integrá-lo à sociedade. Uma das mais importantes preocupações era a manutenção de parte das tradições africanas ligadas ao culto dos antepassados e a reafirmação, através de funerais, da importância social de cada Irmão. A preocupação com a formação educacional, divulgando o gosto pela instrução e de que através dela teriam oportunidades de vida, e com a formação de um pecúlio, para evitar uma velhice miserável aos confrades e ajudar a descendência a chegar mais longe, também constava inicialmente no Compromisso. O potencial de acumulação de bens extrapolou os objetivos, sendo um pouco mais tarde incorporado ao Compromisso um artigo, cujo objetivo era orientar todas as administrações vindouras a direcionar esse acúmulo para a compra de cartas de alforria e lutas pela abolição. As iniciativas levadas a cabo pela Irmandade contribuíram para a formação de um grupo diferenciado de negros, uma espécie de “elite” intelectual e proprietária, que a partir de 1870, buscou ampliar seu espaço social fundando clubes, associações beneficentes e até um jornal. É deste contexto a fundação da Sociedade Musical Floresta Aurora (1872), o clube mais antigo e até hoje em funcionamento, juntamente com mais outras setenta e duas entidades de caráter diverso até o ano de 1920. Em outras localidades do estado também as irmandades católicas, à exemplo de Porto Alegre, foram o berço da organização e resistência negra. Loner, em sua pesquisa da rede associativa negra em Rio Grande e Pelotas, confirma O início de sua organização em Pelotas data do tempo do Império, com a congregação em irmandades católicas, como a Irmandade Nossa Senhora do Rosário e a Irmandade de São Benedito, esta última responsável pela fundação e manutenção de um asilo para crianças na cidade, a partir de 1901 (LONER, 2008, p. 247). 15 Segunda a autora é a partir destas confrarias e irmandades que outros tipos de associações surgiram, como a S. B. Feliz Esperança, provavelmente de 1878, sendo a primeira entidade leiga que permitiu a criação de várias outras, que utilizavam sua sede e com quem compartilhavam sócios, para formaram clubes carnavalescos, de futebol ou ainda, de artesãos, como a Fraternidade Artística (1880) ou o Centro Ethiópico (1884), criado para a representação política do grupo na luta abolicionista. Das primeiras décadas da República até a formação do Estado Novo, sob o prisma do positivismo e suas implicações a nível nacional e regional, como conseqüência da transição capitalista que o país passava, emergia uma nova ordem urbano-industrial,quando outras oportunidades de trabalho surgiam relacionadas à cidade, como centro administrativo, político, comercial, industrial-manufatureiro, cultural, etc. O novo mercado de trabalho livre em formação no Rio Grande do Sul, dentro do ideário castilhista, não absorveu a mão-de-obra negra. Os postos de trabalho foram ocupados pelos imigrantes estrangeiros, e seus descendentes, tidos como mais aptos em detrimento da mão-de-obra negra, que carregava os estigmas sociais impostos pelo sistema escravista. Conforme Loner [...] os negros foram deixados sozinhos e o preconceito de cor se intensificou, ocasionando a necessidade da ampliação da rede associativa étnica. Criaram-se fortes entidades recreativas e carnavalescas, grupos teatrais e esportivos e até associações políticas (2008, p. 250). As entidades mutualistas permaneceram atuantes, sendo nesta etapa de transição, o elemento mais importante de congregação da comunidade negra, pois não se limitaram às atividades de socorro mútuo, formando bibliotecas, oportunizaram aulas para sócios e suas famílias, organizavam palestras, agregavam-se em festas e quermesses, preenchendo uma variedade de funções essenciais para esse grupo desprotegido e carente de amparos institucionais. Nesta fase há uma proliferação de entidades. Sempre partindo de uma entidade-mãe, procuram reforçar as ligações com os valores operários, republicanos ou de raça através dos nomes das associações como “filhos do trabalho”, “democracia”, “progresso”, “união africana”, etc. Contudo, apenas a Sociedade Cooperativa Filhos do Trabalho, de Rio Grande, discrimina a filiação por critério de cor, aceitando exclusivamente pardos e pretos, sendo que a maioria das associações optou por uma fundação mista. 16 A Era Vargas e seu ideário desenvolvimentista, com as diferentes identidades sendo absorvidas pela identidade do brasileiro-trabalhador, com o Estado aumentando sua área de ação assistencialista, houve arrefecimento na difusão de clubes negros. Os negros tentaram sua integração à sociedade através da consolidação como trabalhadores, sendo que a luta pela organização da classe operária se tornou uma importante estratégia de suas lideranças, que participavam ao mesmo tempo de associações classistas e de associações negras. A partir das associações classistas houve uma tentativa de ocupação de um espaço político, com eleições de representantes negros para a Câmara de Deputados, cujo movimento acabou sendo reprimido pela política repressiva do Estado Novo, pois tinha pouca tolerância a manifestações étnicas diferenciadas e menos ainda com lideranças sindicais. Com raras exceções, a rede associativa negra ficou reduzida apenas aos clubes carnavalescos e esportivos. Mais tarde, apenas aos carnavalescos, já que havendo uma diminuição do racismo nos esportes, times e federações tendem a desaparecer. Loner considera que apenas nos anos 50 aparecem no Brasil novos movimentos e forma de luta englobando a população negra. Quando este momento chega, a maioria dos militantes já havia desaparecido, levando com eles sua memória e sua luta contra a discriminação. Segundo Jesus (2005, p. 13), a maioria das associações beneficentes negras nasceu entre as décadas de 1920 e 1930, e eram envolvidas com formas políticas mais culturalistas, onde a ascensão social, o progresso econômico e a formação de uma “elite negra” tinham um papel relevante, chegando até meados da década de 1960. Considera ainda no período final da década de 1970, com a emergência dos movimentos sociais no país, os “movimentos negros” passam a atuar de forma mais efetiva na sociedade. Sendo assim, se constituem novos atores que passam a ter uma atuação de destaque em torno das problemáticas raciais do país. Desta forma, discutem-se mais a questão do racismo no Brasil, os problemas sociais, políticos e econômicos enfrentados pela população negra, trazendo à tona a problemática em torno de uma construção de identidade negra brasileira. O movimento negro brasileiro sofre a influência das independências das colônias portuguesas na África e o movimento Black Power norte-americano. Os seguidores dessa nova corrente abandonam os credos do conformismo e ascensão 17 social, assumindo um discurso mais “politizado”, baseado na raça e na classe. Dentro dos clubes e associações, esse redirecionamento do movimento negro se traduziu em um conflito geracional nos quadros de dirigentes. Os dirigentes mais antigos, situados numa orientação culturalista, e os mais recentes buscam uma redefinição da identidade negra e, geralmente, ocupam cargos paralelos nos clubes e nas entidades específicas do movimento negro. Atualmente, conforme a geração do quadro de dirigentes do clube, a administração tende a priorizar uma ou outra prática dentro das atividades organizadas pela comunidade. 3.1 A Sociedade Cultural e Beneficente Rui Barbosa A Sociedade Cultural e Beneficente Rui Barbosa, conhecida pela comunidade como “Rui”, foi fundada em 3 de março de 1968. Sua sede está situada na Rua Farroupilha, 834, atualmente bairro Nossa Senhora das Graças, no município de Canoas, Rio Grande do Sul. Nesses 41 anos de história, foi um espaço ofertado à comunidade para o convívio social, práticas culturais, práticas desportivas, com ênfase ao futebol. Criado com a finalidade de congregar os “elementos de cor em Canoas”, autodenominado uma entidade sem preconceito de cor, sexo, crença ou ideologia política (Estatuto, capítulo I, artigo 2), possui sócios brancos desde sua fundação, sendo seus eventos abertos à comunidade em geral. Segundo o estatuto, visa a elevação cultural e social de seus associados e familiares, motivo pelo qual, mantém cursos de diversos tipos, bem como ações beneficentes aos necessitados da comunidade local. A iniciativa de criação de um clube em Canoas estava ligada à falta de um espaço de integração social e a lazer e ao acesso dos negros a clubes. A fundação da Sociedade Cultural e Beneficente Rui Barbosa está relacionada à vida pessoal de “Seu Xirú”, Pedro Adão Marcelino, que agregava as pessoas através de seus relacionamentos sociais. Da experiência vivida em outro clube da cidade, o Clube Castro Alves, surgiu a idéia da fundação. Um grupo de amigos, que não pertenciam aos quadros do clube 18 citado, liderados por seu Xirú, fundou a Sociedade Cultural e Beneficente Rui Barbosa. Segundo registros do próprio clube, os sócios fundadores foram: José Olmiro Vaz, Manoel Jesus dos Santos, Boaventura da Rosa, Durval dos Santos Moraes, Lauro Pontes, Ariosto da Silva, Astrogildo da Silva, Neurathon Neves do Nascimento, Pedro Adão Marcelino, Jorge Teixeira e Araci Soares. Com reuniões improvisadas na casa de Xirú, idealizaram o projeto e as ações necessárias. Uma delas foi a compra do terreno da sede, que foi parcelada, tendo a casa dele como garantia da negociação. A formação do quadro de associados e da diretoria foi logo providenciada. A primeira eleição foi vencida por José Olmiro Vaz, com Xirú na vice-presidência. Na segunda eleição, Xirú candidatou-se presidente, iniciando uma série de mandatos por 21 anos consecutivos. Atualmente, Xirú (81 anos, viúvo) é patrono honorário do clube, sendo respeitado e admirado por toda comunidade, interna e externa, por sua história de vida, luta e dedicação. A escolha do nome da sociedade foi um processo de eleição da primeira diretoria, cujo critério era a seleção de um nome que evocasse uma imagem positiva do negro. Ruy Barbosa de Oliveira, a Águia de Haia, amigo de Castro Alves, Ministro da Fazenda na Primeira República, e outros tantos atributos, foi logo aceito como o nome do clube que se iniciava. Na segunda metade da década de 1970, esse nome foi contestado pelo setor jovem, influenciado pelo novo Movimento Negro, alegando que Rui Barbosa não contribuiu com os negros, pois sob suas ordens os arquivos sobre a escravidão foram incinerados. Polêmicas a parte, o nome foi mantido por já estar incorporado ao clube como elemento de identidade. Passada a etapa de compra do terreno, outro objetivo era a construção da sede. Várias ações para arrecadação de fundos foram promovidas, sendo marcante o lançamento de títulos remidos (visando o aumento do quadro de associados), os torneios de futebol e os jantar-bailes. Os torneios de futebol eram realizados no Parque Getúlio Vargas, conhecido popularmente como Capão do Corvo. Nessas ocasiões, times da região metropolitana eram convidados para campeonatos realizados de novembro à 19 janeiro, nos finais de semana, com eliminatórias, repescagem e público garantido. Além da dança com conjunto musical, havia venda de churrasco e bebidas. Outra forma de arrecadação, foram os jantar-bailes, realizados em outros clubes da cidade, que cediam ou arrendavam o espaço. Era um comportamento de praxe convidar outros clubes negros da região metropolitana. Apesar do esforço coletivo, as obras da construção da sede, ginásio e telhado foram concluídas somente em meados da década de 80. As atividades realizadas pelo grupo de associados em torno da consolidação do clube acabaram por constituir algumas práticas, que mesmo tendo sanado a necessidade inicial, seguem fazendo parte do calendário de eventos. Além dos jantar-bailes, dos almoços de fim de semana, outro evento importante foi o baile de debutantes, significativos tanto na valorização da auto-estima, quanto na visibilização e conquista de espaço social. Juntamente com a integração interna, havia a externa, com outros clubes negros de todo o estado, sugerindo uma forte rede associativa. O futebol foi importante prática integradora. O time e os torneios com outros clubes eram atrativos para as comunidades envolvidas. O carnaval não era uma prática constante, mais em conseqüência do gosto pessoal de Seu Xirú, que preferia futebol. Embora tenha sido praticado em poucas ocasiões, o carnaval infantil promovido pelo clube chegou a ser referência na cidade de Canoas. Outras atividades também eram desenvolvidas, além da prática do futebol. Aulas de reforço escolar, cursos, palestras e oficinas são regulares no clube. Há uma preocupação com a valorização da formação e educação dos sócios e de seus familiares. Embora passe por períodos de maior ou menor intensidade, a formação é uma prática constante no clube. Em relação à assistência, são realizadas algumas ações em prol das famílias associadas que passam por alguma necessidade como doença grave ou desemprego. Os enterros e a assistência a família enlutada também fizeram parte desse processo. A assistência é uma preocupação ainda hoje, especialmente com os sócios fundadores, e de idade avançada, que necessitem de recursos para sua sobrevivência e interação social. 20 4 MEMÓRIA FOTOGRÁFICA DA S. C. B. RUI BARBOSA A Sociedade Cultural e Beneficente Rui Barbosa, fundada em março de 1968, com a finalidade de congregar afro-descendentes da cidade de Canoas e oportunizar um espaço de recreação, lazer e convívio social. Na sua trajetória de consolidação, o clube foi criando práticas sócio-culturais, com um calendário de eventos definidos, como torneios de futebol, jantar-bailes comemorativos, além de eventos dedicados à beneficência. No ano seguinte à fundação houve a escolha da primeira Rainha do Clube, e também a preocupação de registrar fotograficamente o evento, iniciando o registro imagético do clube. A coleção de fotografias analisadas para este estudo pertence à família Marcelino, uma das fundadoras do clube. Portanto guardam características de álbuns de família, como aponta Leite (2001, p. 73) retratos de família são um tipo específico de documentação fotográfica que está entre os mais difundidos e nos quais se encontram imagens de grupos familiares ou de indivíduos isolados. Além disso, “é uma representação de alguém que sabe que está sendo fotografado” (2001, p. 97). Essa coleção constitui-se de 33 fotos de tamanhos variados, 12 em preto e branco e 11 coloridas. Abarcam o período de 1969 à 2008, algumas poucas indicam no verso o fotógrafo e a maioria são anônimas. Em sua maioria marcaram eventos, festas, jantar-bailes e homenagens realizadas no clube ou pelo clube. O primeiro critério de organização das fotografias da coleção foi cronológico; o segundo, por eventos. Com exceção dos retratos das rainhas, princesas e misses, não foi possível formar nenhuma seriação. Para a análise interna das fotografias, foram realizadas entrevistas com membros da família Marcelino, que procuraram datar, identificar pessoas e relatar evento e o local. A série de fotografias formada por rainhas, princesas e misses, é formada por 11 fotos, e são do período de 1969 a 2008. Exceto duas, a de 1971 e a de 2008, as outras são em preto e branco. 21 1971 - Rainha Naremir 2008 – passa faixa para Rainha Miss mais Bela Negra Tânia Nessa série de fotografias, comparativamente, é possível perceber o padrão de beleza estética, e sua influência e transformação através dos anos, percebida e reproduzida pelo clube. A influência dos títulos de Miss Universo, de Ieda Maria Vargas e Martha Vasconcelos, é percebida nas fotografias com a incorporação da capa e da coroa. 1972 – Rainha do Clube 1974 – Miss Mulata – Elisabete e Levonir - Anita 1976 – Rainha do Clube - Consuelo 22 A penetração no setor jovem do ideário do novo Movimento Negro, alterando o estilo estético, e a questão da identidade étnica. 1969 – 1ª Rainha Naremir 1975 – Miss Brotinho Leonora – – Cabelos Black Power, brincos de Cabelos alisados, vestido longo e luvas. argolas e bata. Outros aspectos, por associação de idéias, podem ser percebidos como a formalidade, seriedade e neutralidade nos concursos. 1977 – Perfilamento das candidatas a Rainha 1982 – Comissão Julgadora do Concurso de do clube para julgamento. Rainha – Membros sem ligação direta com o clube – Postura para fotografia. 23 As práticas sociais dentro do clube acabaram por cristalizar um calendário de eventos anuais, como as comemorações do aniversário do clube e o do dia das mães. A comemoração do aniversário do clube é uma data de grande destaque, geralmente é a oportunidade em que as pessoas do clube, ou relacionadas com ele de alguma forma, são homenageadas. 1993 - Aniversário de 25 anos – 2008 – Aniversário de 40 anos – Darci Silveira, ex-presidente do CSSGAPA Flávio Madruga e João B. Velleda Homenageados Uma das características identitárias do clube é de ser um “clube de família”. Esta marca pode ser percebida nas imagens de mães, homenageadas ou prestando homenagens, e nas fotografias onde grupos familiares aparecem. 24 1971 - Homenagem do dia das mães 2008 – Homenagem às mães – Celeste Marcelino, – Xirú homenageia sua mãe, Celita. Naremir Marcelino Ilha e Sueli 1976 – Concurso da Rainha do Clube – 1974 – Festa de Casamento no clube – Gilda Marcelino homenageia a Rainha. Sergio Ilha e Naremir Ilha, com os pais da noiva, Gilda e Xirú. 25 2008 – Aniversário de 40 anos – Homenagem ao ex-presidente pelo presidente – Xirú e Levonir, pai e filho. A busca de reconhecimento, visibilidade, valorização sócio-histórica podem ser percebida pelo caráter oficial e formal nas imagens de homenagem pública prestada ao clube. 2008 – Homenagem prestada pela Câmara de 2008 – Homenagem prestada pela Câmara de Vereadores de Canoas pelo aniversário de 40 anos do clube. No centro da bancada Presidente da Câmara, com Xirú e Naremir à esquerda, no plano inferior Presidente e vice-presidente do clube, Levonir e César. Vereadores de Canoas pelo aniversário de 40 anos do clube - Pose do coletivo do clube presente à homenagem. Ao centro, Presidente da Câmara e Xirú. 26 A análise da coleção de fotografias evidencia os conceitos de imagem/ documento e imagem /monumento. Além de registrar sua história - o documento; mensagens sígnicas de comportamento, postura, identidade são transmitidas - o monumento. Enquanto memória fotográfica, os mecanismos de lembrança/esquecimento são acionados na seleção de fotografias que foram guardadas/cedidas. É possível perceber quem detém o controle da memória, no caso a Família Marcelino, pois além de estar presente na maioria das imagens, tem a posse delas. O que foi lembrado, as comemorações, os concursos, as homenagens; quanto o que é esquecido, o carnaval, o futebol; estão relacionados ao que esta família interpreta como representativo da identidade do clube, merecedor de pertencer à memória do clube. Talvez isso se deva a marca das presenças de Seu Xirú e família na comunidade. Contudo, a organização desse acervo foi apenas iniciada. A busca por outros acervos, e outras memórias, se faz necessário na continuidade desse trabalho, mesmo consciente das dificuldades representadas pelo valor monetário do recurso fotográfico para muitas famílias. Por outro lado, é importante salientar a importância dada à família na memória do clube. A constituição do grupo familiar é importante fator dentro da resistência cultural afro-brasileira, se contrapondo à visão branca de desagregação da família escrava e, portanto, da família negra na sociedade brasileira. Essa forma de resistência cultural pode ter um vínculo com a organização social dos grupos étnicos africanos vindos para o Brasil, onde a vida coletiva estava ligada fundamentalmente as famílias e as linhagens. Tanto mais poderoso era o Rei, quanto mais linhagens familiares o sustentassem. Os grandes reinos ou impérios africanos não tinham fronteiras territoriais demarcadas, a fronteira de um reino terminava onde residia a última família fiel ao Rei. Essas marcas culturais da África na cultura brasileira foram tão invisibilisadas, que se torna difícil desvinculá-las de outras práticas. Para Thorton (2004), os elementos da cultura africana no novo mundo persistiram e resistiram muito mais do que historiograficamente se fez supor. Apesar das diferenças étnicas dos aqui aportados, existiam muito mais formas de comunicação entre os grupos, na medida em que tanto no Brasil, quanto na África existiram línguas francas de comunicação que possibilitaram o contanto. 27 A família negra e sua estruturação estão presentes ainda hoje não só nos clubes, mas também nas comunidades remanescentes de quilombo e casas de religiões afro-brasileiras que mantiveram suas estruturas coletivas baseadas na organização familiar. 28 5 CONCLUSÃO O presente estudo procurou demonstrar aspectos da formação da memória constituída da Sociedade Beneficente e Cultural Rui Barbosa, especialmente a memória fotográfica. A S.C.B. Rui Barbosa é um clube social formado por afro-descendentes no final da década de 1960, em Canoas. O grupo fundador buscava um espaço de lazer e recreação para si e seus familiares, já que não eram aceitos em outros clubes. Em seu percurso de 41 anos, o clube contribuiu para a preservação cultural da identidade negra em Canoas. Através de seu calendário de atividades sociais, oportunizou o convívio e o debate relacionado aos problemas da população afrodescendente. A prática associativa da comunidade negra evidencia sua estratégia de resistência a exclusão sócio-cultural, construída a partir da busca de visibilidade e reconhecimento da comunidade canoense. Na trajetória de fundação e consolidação do clube, foi feito o registro fotográfico dos eventos do clube, geralmente por fotógrafos anônimos contratados pelas famílias, às vezes por próprios familiares. A coleção utilizada para a realização deste trabalho faz parte do acervo da Família Marcelino, o que por si só, é carregado de significados. Um deles é de qual segmento interno do clube detém essa memória. Outro é da importância dessa família dentro da história do clube. A observação da coleção permitiu formar uma única série reunida sob o tema Rainhas,princesas e misses. A partir dessa série foi possível analisar as influências sofridas pelo grupo fotografado durante esse período. As primeiras fotografias dessa série apresentam um padrão estético próximo ao padrão da elite branca dominante na cidade. A partir de meados da década de 1970, esse padrão é alterado. Sob a penetração do Movimento Negro no setor jovem do grupo, o estilo Black Power é adotado por parte do grupo. Embora, os padrões ditados pela classe dominante ainda sejam absorvidos, como demonstrados pela incorporação da capa e da coroa, muito provavelmente inspirados pelos títulos de Miss Universo conquistados por brasileiras em anos anteriores. As demais fotografias, por serem de natureza muito variada, foram organizadas sob o genérico tema Eventos, já que apresentam comemorações diversas. Nesse 29 segmento foi possível observar além da busca da representação de formalidade e oficialidade, a evocação da família, uma das marcas identitárias do clube. Nas fotografias realizadas na Câmara de Vereadores em sessão de homenagem aos 40 anos do clube, percebe-se a luta pela conquista de espaço e reconhecimento da sociedade em geral. Além de analisar o que e porque as fotografias mostram, procurei ressaltar o que as fotografias não mostram. Nesse caso específico, o carnaval e o futebol, ambos praticados no clube. A primeira dedução está relacionada com a família a qual pertence a coleção. O carnaval não era do agrado pessoal de Xirú, presidente do clube por muitos anos, sendo poucas vezes realizado no clube. O futebol, embora muito praticado no clube, não era visto como algo que merecesse ser registrado fotograficamente, ou o grupo que o praticava não tinha recursos para registrá-lo. É importante destacar a presença da imagem familiar e autodenominação de “clube de família”, ambas constituintes da identidade e da memória do clube. O uso do grupo familiar na organização interna do clube, nas imagens elaboradas pode ter um relacionamento remoto com a cultura africana original e como forma de resistência sócio-cultural afro-brasileira. O estudo da coleção fotográfica apresentou obstáculos a serem vencidos pelo pesquisador. A cedência e coleta das fotografias foram bastante difíceis, ou por ter um valor afetivo para quem cede, ou por conflitos do que ceder ou sobre quem deve ceder. Por ser uma coleção familiar, o registro fotográfico foi de natureza variada, o que dificultou a organização e seriação. Para a análise, foi preciso entrevistas com os membros da família para identificação de pessoas, datas, local, eventos, representados pelas fotografias. E finalmente, o cuidado ético no registro do trabalho desenvolvido. Durante o período de pesquisa e elaboração desse estudo, foi comemorado pelo clube a Semana da Consciência Negra. Entre as atividades comemorativas, esteve a Exposição África-Brasil: memórias, liberdades e ritos de vida, pertencente ao acervo do MAHLS e cuja apresentação obedece a calendário de itinerância disponibilizado às escolas. Para essa exposição foram especialmente produzidos, e incorporados ao acervo, painéis produzidos com base nessa pesquisa sobre a memória fotográfica do clube. A fim de registro, imagens dos painéis serão anexadas a esse estudo. 30 Por fim, este trabalho não teve, desde seu início, a pretensão de esgotar questões relacionadas à memória visual do clube, posto que se faz necessário agregar a memória de outras famílias e segmentos, conforme pudemos verificar nos contatos feitos durante a exposição. Se por um lado este trabalho deixa a satisfação de realizá-lo; por outro, deixa a certeza da necessidade de futuras pesquisas e outras abordagens, como o estudo das questões de gênero da presença feminina no clube e da participação dos clubes negros no futebol canoense. 31 REFERÊNCIAS AVANCINI, Elsa Gonçalves; AGUILAR, Maria do Carmo. Quilombo Chácara das Rosas: memória de uma comunidade negra em Canoas/RS. In: BERND, Zilá et al. (org). Memória e cultura: perspectivas transdisciplinares. Canoas, 2009. CIAVATTA, Maria; ALVES, Nilda. (org.) A Leitura de imagens na pesquisa social: história, comunicação e educação. São Paulo: Cortez, 2004. 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