A Água e a Rio + 20 – O Que Pode Ser Feito
Para Evitar A Escassez de Água no Futuro
Na última reportagem da série especial da Rádio ONU - Água: O Mundo e um Recurso Precioso,
nossa equipe conversa com especialistas sobre ações que podem fazer a diferença na área, além
do papel dos países do G-20 e da Rio+20 na questão da água.
Daniela Gross e Eleutério Guevane, da Rádio ONU em Nova York *
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que a água e os serviços
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menos de água.”
Objetivo do Milênio relacioal, Ban Ki-moon, enfatizou o
As palavras do diretor geral
papel dos Estados em garantir nado ao recurso, os ODM do
do Instituto Internacional de
Programa das Nações UniGerenciamento de Água, Colin este direito humano.
das para o Desenvolvimento,
“Vamos ser claros: o direito à
Chartres, em 2009, durante
um evento organizado para
água e aos serviços sanitários Pnud, também coloca em risco
a realização de inúmeros outdiscutir a questão da água nas não significam que o recurso
ros objetivos. Como diz o
deve ser de graça. Significa
Nações Unidas, demonstram
Pnud, “a água potável e o saneamento básico são essenciais para o desenvolvimento
econômico, social, educacional e de saúde de
um país.”
Para a relatora especial da ONU para o Direito
à Água e o Saneamento, Catarina de Albuquerque, que falou à Rádio ONU de Lisboa, a água
deve ser uma prioridade nas políticas nacionais
e internacionais.
Camas do Hospital
“É importante que os líderes políticos tenham
este número presente para darem prioridade a
esta área, porque terão efeitos em uma série
de outras áreas. O acesso à água potável vai
melhorar a saúde, a nutrição, as taxas de mortalidade infantil, as taxas da mortalidade das
mães, vai aumentar o número de meninas que
irão às escolas e diminuir os número de camas
dos hospitais que estão ocupadas com pessoas
com diarreia”, acredita Catarina.
O desenvolvimento econômico e o desenvolvimento dos recursos d’água estão diretamente
ligados. Dados da ONU Água indicam que na
região da África Subsaariana, por exemplo, em
um dia normal, mais da metade das camas dos
hospitais são ocupadas por pessoas com doenças relacionadas à água.
De acordo com o Pnud, o investimento na área
evitaria um gasto de cerca de US$ 1,7 bilhão
nos custos de doenças ligadas ao recurso. A
média de retorno é de US$ 8 para cada US$
1 investido. As reduções dos casos de diarreia
também poderiam aumentar a frequência escolar no mundo em quase 272 milhões de dia.
Futuro Ainda Pior
Apesar de progressos na setor, para Catariana
de Albuquerque, no futuro, a situação deve ficar
ainda pior.
“Se alguns anos atrás, quando os ODM foram
negociados e aprovados, nós já estávamos
lidando com uma crise monumental em relação
ao acesso da água e ao saneamento, com as
alterações climáticas a situação só vai piorar e
castigar ainda mais aqueles que já não tinham
nada”, alertou.
Rádio ONU:
http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/
De acordo com o Pnud, reduções dos casos de diarreia
relacionados à água poderiam aumentar a frequência
escolar no mundo em quase 272 milhões de dia
Países do G-20
Assim, como todas as crises globais são interligadas, estas, para a ONU Água, também são
diretamente relacionadas à questão de gerenciamento deste líquido precioso. Se não forem
resolvidas, estas crises podem “levar a um
aumento na insegurança política e conflitos em
níveis locais e nacionais.”
Neste sentido, para o diretor da ONU Água
Zafar Adeel, que falou à Rádio ONU de Toronto,
a crise da água é uma questão global, onde
países do G-20, por exemplo, tem um papel
fundamental.
“Quando você olha para os problemas relacionados à dimensão humana no acesso à água
e aos serviços sanitários, quase 70% destes
acontecem nos próprios países do G-20. É especialmente nos grandes países, como a China
a Índia, que existe um grande número de pessoas sem acesso à água. Os países do G-20
têm a legitimidade política
porque representam tanto os
países desenvolvidos como os
em desenvolvimento e também têm os recursos, porque
em termos coletivos, a capacidade econômica dos países
do grupo é significante. Além
disso, eles também têm uma
parte significante do problema.
Se os países do G-20 passarem a lidar com a questão,
grandes melhoras podem ser
feitas em um curto período de
tempo”, disse.
No Brasil, por exemplo, o
Banco Mundial acredita que o
desenvolvimento econômico
pode colocar ainda mais
pressão nos recursos de água
do país. A especialista em infraestrutura da sede do Banco
Mundial no Brasil, Juliana
Garrido, disse à Rádio ONU
de Brasília, que é uma área
que precisa de investimento e
atenção para evitar problemas
no futuro.
“Isso pode acontecer sim,
porque a gente acaba tendo
uma demanda muito superior
ao que o país teria capacidade de oferecer em termos
de recursos, mas também, há
um possibilidade, e eu acho
que o Brasil já tem tecnologia
para isso, de começar a trabalhar com outras questões. Por
exemplo, na diminuição das
perdas e questões do reutilização da água. Tem algumas
atividades que o próprio pais
já está adotando, às vezes em
caráter piloto, mas que podem
ajudar a lidar com a situação”,
disse.
Rio + 20
Do ponto de vista global, a
Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, participa de
reunião de preparação para a Rio+20
Conferência Rio +20 das
Nações Unidas, que acontece
em 2012 Brasil, na cidade do
Rio de Janeiro, terá um papel
essencial nas discussões da
questão da água, acredita Zafar Adeel. De acordo o diretor
da ONU Água, discussões já
estão definindo os principais
pontos relacionados à água
que devem entrar na pauta da
Rio + 20.
“A conferência focará na
noção de uma economia mais
verde e em formas de usar o
crescimento econômico sustentável para obter melhoras
no futuro. É neste ponto que
nossa atenção também está
focada. Como lidar com a
questão da água em relação à
economia verde. Eu acredito
que existam duas direções
básicas. Em relação aos
desafios, precisamos de uma
gerenciamento melhor, criando novas tecnologias para
o tratamento da água, onde
também existe a possibilidade
de geração do que chamamos crescimento de trabalhos
verdes. O outro elemento que
precisa ser lidado como uma
parte geral da economia é em
relação aos custos dos recursos de água e a contribuição
destes para as economias”,
explicou Zafar Adeel.
se tratar de um assunto de
âmbito internacional como a
água. Ele cita como exemplo
o Brasil, onde grande parte
dos recursos hídricos vêm de
territórios estrangeiros, através
dos rios que nascem nos
países vizinhos e entram no
território nacional.
“É muito importante a discussão da água num evento
internacional como este,
porque além do intercâmbio
de práticas adequadas de uso
da água, permite a troca de
conhecimento principalmente
para estas questões transfonteiriças. Eu acho que é fundamental a agenda da água
neste evento da Rio + 20”,
acredita.
Timor-Leste
Durante a Eco 92, a água também foi um dos assuntos da pauta. A Agenda 21 determinou diretrizes
para o gerenciamento da água doce, com foco na questão da qualidade e fornecimento do recurso
Conferências sobre a Água
A primeira conferência da ONU sobre a água
foi em Mar del Plata, na Argentina, em 1977.
Na época, foi adotado um plano de ação que
deu origem a primeira Década Internacional da
Água Potável e o Saneamento Seguro. Durante
a Eco 92, a água também foi um dos
assuntos da pauta. A Agenda 21,
produzida durante a conferência, determinou diretrizes
para o gerenciamento da
água doce no capítulo 18,
com foco na questão da
qualidade e fornecimento do
recurso.
Agora, 20 anos após a Eco
92, que também foi o berço de
ideias como a da criação do Dia Mundial
da Água, a Rio + 20 também colocará a água
como assunto central durante o evento.
Objetivos do Milênio
Como disse o Secretário-Geral da ONU, Ban
Ki-moon, na mensagem para o Dia Mundial da
Água deste ano, especialistas já estão discutindo “formas de conectar assuntos como água,
energia e segurança alimentar, com o objetivo
de reduzir a pobreza e a desigualdade, criando
empregos e diminuindo os riscos de mudanças
climáticas.” Para Catarina de Albuquerque, a
Rio +20 deve ser essencial na definição dos
próximos passos a serem tomados depois de 2015, quando o prazo para
a realização dos Objetivos do
Milênio encerra.
“Acho que a Rio+20 pode
ser uma forma bastante importante para participarmos
em discussões de algumas
das metas que depois ficarão
cristalizadas num cenário pós
2015 no desenvolvimento mundial”,
disse.
Assunto de Âmbito Internacional
Já o especialista em recursos hídricos da
Agência Nacional de Águas, ANA, Alexandre Lima, que falou à Rádio ONU de Brasília,
acredita que a Rio + 20 é um palco ideal para
Na questão da água como
um assunto internacional, o
antropólogo, sociólogo e professor da Unicamp, Mauricio
Waldman, que falou à Rádio
ONU de São Paulo, citou o
exemplo to Timor-Leste, onde
para ele, os países de língua
Para professor da Unicamp, Mauricio Waldman, os países de língua portuguesa
têm a obrigação de contribuir para melhorias no Timo-Leste, onde anos de
ocupação e conflitos comprometeram as estruturas dos sistemas de água
portuguesa têm a obrigação de
contribuir para melhorias, onde
anos de ocupação e conflitos
comprometeram as estruturas
dos sistemas de água.
“O Timor é um país que tem
muitas carências administrativas, e isso não cabe somente
aos timorenses, mas também
à comunidade dos países de
língua portuguesa de contribuir
com este esforço, de ajudar
este país, que é mais um na
comunidade, a ser sócio em
igualdade de condições, ou um
sócio que esteja mais consolidado. Porque isso interessa
a nós brasileiros, angolanos,
moçambicanos, portugueses.
Nós temos um país onde o
português é uma língua oficial, é uma língua que tem
crescido, se expandido, mas
que também seja um país
digno, que tenha dignidade em
relação à água, o que não tem
acontecido”, alertou Maurício
Waldman.
Antigos e Novos Desafios
Para a ONU Água, os antigos
desafios ligados ao recurso
continuam presentes, e a estes
agora, se adicionam novos
desafios de hoje, que incluem
as mudanças climáticas, o aumento do preço dos alimentos
e da energia, o crescimento
populacional e o rápido desenvolvimento econômico. Para
lidar com o problema, a agência da ONU acredita que serão
necessários esforços coletivos
e eficientes de implementação
de gerenciamento de água
que envolvam adoção de
leis, políticas e estratégias
que reflitam a ligação entre a
água e os setores sociais e
econômicos.
Neste contexto, áreas de
pesquisa também são fundamentais. O Professor do
Departamento de Engenharia Civil da Unesp, Tsunao
Matsumoto, falando à Rádio
ONU de São Paulo, explicou
o principal foco dos trabalhos
desenvolvidos nesta área
pela equipe dele.
Para o Pnud, o “gerenciamento da água é altamente complexo e político”
Pesquisas
“As pesquisas sempre estão voltadas para
este lado. Conseguir uma água de melhor
qualidade possível com o menor custo operacional. Isso faz com que você aumente a acessibilidade da água de boa qualidade para a
população”, disse.
Além da área de pesquisas, para o professor
Tsunao, é importante que governos invistam em
educação ambiental, para criar uma maior conciênticação em relação ao problema. Para ele,
este processo deve começar pelas crianças, e
cada um na sociedade tem um papel a cumprir
neste cenário.
“Eu acho que cada um de nós deve trabalhar
neste sentido. Não deixar torneiras danificadas
vazando, registros finais que não vedam. Instruir os usuários a consumir a água de forma
racional. Só este ponto já seria muito útil para
se preservar um patamar de uso pessoal”,
acredita.
Gerenciamento da Água
Como diz o Pnud, o “gerenciamento da água é
altamente complexo e político.” Já para o professor Maurício Waldman, o problema da água
é um dos mais antigos no mundo e precisa ser
olhado com carinho.
“É um problema antigo que tem se acentuado
e cuja solução implica em se repensar este
modelo e mudar o nosso estilo de vida, de
economia. Vai chegar a um ponto que não se
terá mais retorno do ponto de vista ambiental.
Nós temos que nos envolver nesta questão
da água, cada um fazendo a sua parte, e também pressionando as autoridades de todos
os governos para que passem a olhar a água
com carinho, e não como estão fazendo atualmente”, alertou.
Assistência de Produção: Leda Letra e
Luisa Leme
Edição: Mônica Villela Grayley
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A Água e a Rio + 20 – O Que Pode Ser Feito Para