A Água e a Rio + 20 – O Que Pode Ser Feito Para Evitar A Escassez de Água no Futuro Na última reportagem da série especial da Rádio ONU - Água: O Mundo e um Recurso Precioso, nossa equipe conversa com especialistas sobre ações que podem fazer a diferença na área, além do papel dos países do G-20 e da Rio+20 na questão da água. Daniela Gross e Eleutério Guevane, da Rádio ONU em Nova York * “C que a água e os serviços os grandes desafios na área, om o passar o tempo, num futuro não muito distante. sanitários devem ter um preço esperamos ter uma acessível e devem ser disredução de 30% dos recursos poníveis para todos...e o paísDireito Humano disponíveis de água. Até 2050, es devem deverfazer tudo o Este mês, emos ter “Com o passar o tem“O acesso à água potável que está no a Assem2,5 bilpo, esperamos ter uma vai melhorar a saúde, a hões de redução de 30% dos recur- bleia Geral nutrição, as taxas de mor- poder deles relembrou pessoas sos disponíveis de água. talidade infantil, as taxas para fazer a mais Até 2050, deveremos ter durante da mortalidade das mães, com que isso uma sessão vai aumentar o número de aconteça”, para ali2,5 bilhões de pessoas a mais para alimentar, meninas que irão às esco- disse. especial a mentar, e parece que teremos las e diminuir os número passagem e parece de camas do hospital que Questão de de um ano que tere- que fazer isso com 10% a menos de água”, Colin estão ocupadas com pesPrioridade mos que desde que Chartres soas com diarreia”, Catao direito à fazer rina de Albuquerque Um cenário água foi isso com de escassez reconhecido 10% a oficialmente. O Secretário-Ger- de água, além de ameaçar o menos de água.” Objetivo do Milênio relacioal, Ban Ki-moon, enfatizou o As palavras do diretor geral papel dos Estados em garantir nado ao recurso, os ODM do do Instituto Internacional de Programa das Nações UniGerenciamento de Água, Colin este direito humano. das para o Desenvolvimento, “Vamos ser claros: o direito à Chartres, em 2009, durante um evento organizado para água e aos serviços sanitários Pnud, também coloca em risco a realização de inúmeros outdiscutir a questão da água nas não significam que o recurso ros objetivos. Como diz o deve ser de graça. Significa Nações Unidas, demonstram Pnud, “a água potável e o saneamento básico são essenciais para o desenvolvimento econômico, social, educacional e de saúde de um país.” Para a relatora especial da ONU para o Direito à Água e o Saneamento, Catarina de Albuquerque, que falou à Rádio ONU de Lisboa, a água deve ser uma prioridade nas políticas nacionais e internacionais. Camas do Hospital “É importante que os líderes políticos tenham este número presente para darem prioridade a esta área, porque terão efeitos em uma série de outras áreas. O acesso à água potável vai melhorar a saúde, a nutrição, as taxas de mortalidade infantil, as taxas da mortalidade das mães, vai aumentar o número de meninas que irão às escolas e diminuir os número de camas dos hospitais que estão ocupadas com pessoas com diarreia”, acredita Catarina. O desenvolvimento econômico e o desenvolvimento dos recursos d’água estão diretamente ligados. Dados da ONU Água indicam que na região da África Subsaariana, por exemplo, em um dia normal, mais da metade das camas dos hospitais são ocupadas por pessoas com doenças relacionadas à água. De acordo com o Pnud, o investimento na área evitaria um gasto de cerca de US$ 1,7 bilhão nos custos de doenças ligadas ao recurso. A média de retorno é de US$ 8 para cada US$ 1 investido. As reduções dos casos de diarreia também poderiam aumentar a frequência escolar no mundo em quase 272 milhões de dia. Futuro Ainda Pior Apesar de progressos na setor, para Catariana de Albuquerque, no futuro, a situação deve ficar ainda pior. “Se alguns anos atrás, quando os ODM foram negociados e aprovados, nós já estávamos lidando com uma crise monumental em relação ao acesso da água e ao saneamento, com as alterações climáticas a situação só vai piorar e castigar ainda mais aqueles que já não tinham nada”, alertou. Rádio ONU: http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/ De acordo com o Pnud, reduções dos casos de diarreia relacionados à água poderiam aumentar a frequência escolar no mundo em quase 272 milhões de dia Países do G-20 Assim, como todas as crises globais são interligadas, estas, para a ONU Água, também são diretamente relacionadas à questão de gerenciamento deste líquido precioso. Se não forem resolvidas, estas crises podem “levar a um aumento na insegurança política e conflitos em níveis locais e nacionais.” Neste sentido, para o diretor da ONU Água Zafar Adeel, que falou à Rádio ONU de Toronto, a crise da água é uma questão global, onde países do G-20, por exemplo, tem um papel fundamental. “Quando você olha para os problemas relacionados à dimensão humana no acesso à água e aos serviços sanitários, quase 70% destes acontecem nos próprios países do G-20. É especialmente nos grandes países, como a China a Índia, que existe um grande número de pessoas sem acesso à água. Os países do G-20 têm a legitimidade política porque representam tanto os países desenvolvidos como os em desenvolvimento e também têm os recursos, porque em termos coletivos, a capacidade econômica dos países do grupo é significante. Além disso, eles também têm uma parte significante do problema. Se os países do G-20 passarem a lidar com a questão, grandes melhoras podem ser feitas em um curto período de tempo”, disse. No Brasil, por exemplo, o Banco Mundial acredita que o desenvolvimento econômico pode colocar ainda mais pressão nos recursos de água do país. A especialista em infraestrutura da sede do Banco Mundial no Brasil, Juliana Garrido, disse à Rádio ONU de Brasília, que é uma área que precisa de investimento e atenção para evitar problemas no futuro. “Isso pode acontecer sim, porque a gente acaba tendo uma demanda muito superior ao que o país teria capacidade de oferecer em termos de recursos, mas também, há um possibilidade, e eu acho que o Brasil já tem tecnologia para isso, de começar a trabalhar com outras questões. Por exemplo, na diminuição das perdas e questões do reutilização da água. Tem algumas atividades que o próprio pais já está adotando, às vezes em caráter piloto, mas que podem ajudar a lidar com a situação”, disse. Rio + 20 Do ponto de vista global, a Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, participa de reunião de preparação para a Rio+20 Conferência Rio +20 das Nações Unidas, que acontece em 2012 Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, terá um papel essencial nas discussões da questão da água, acredita Zafar Adeel. De acordo o diretor da ONU Água, discussões já estão definindo os principais pontos relacionados à água que devem entrar na pauta da Rio + 20. “A conferência focará na noção de uma economia mais verde e em formas de usar o crescimento econômico sustentável para obter melhoras no futuro. É neste ponto que nossa atenção também está focada. Como lidar com a questão da água em relação à economia verde. Eu acredito que existam duas direções básicas. Em relação aos desafios, precisamos de uma gerenciamento melhor, criando novas tecnologias para o tratamento da água, onde também existe a possibilidade de geração do que chamamos crescimento de trabalhos verdes. O outro elemento que precisa ser lidado como uma parte geral da economia é em relação aos custos dos recursos de água e a contribuição destes para as economias”, explicou Zafar Adeel. se tratar de um assunto de âmbito internacional como a água. Ele cita como exemplo o Brasil, onde grande parte dos recursos hídricos vêm de territórios estrangeiros, através dos rios que nascem nos países vizinhos e entram no território nacional. “É muito importante a discussão da água num evento internacional como este, porque além do intercâmbio de práticas adequadas de uso da água, permite a troca de conhecimento principalmente para estas questões transfonteiriças. Eu acho que é fundamental a agenda da água neste evento da Rio + 20”, acredita. Timor-Leste Durante a Eco 92, a água também foi um dos assuntos da pauta. A Agenda 21 determinou diretrizes para o gerenciamento da água doce, com foco na questão da qualidade e fornecimento do recurso Conferências sobre a Água A primeira conferência da ONU sobre a água foi em Mar del Plata, na Argentina, em 1977. Na época, foi adotado um plano de ação que deu origem a primeira Década Internacional da Água Potável e o Saneamento Seguro. Durante a Eco 92, a água também foi um dos assuntos da pauta. A Agenda 21, produzida durante a conferência, determinou diretrizes para o gerenciamento da água doce no capítulo 18, com foco na questão da qualidade e fornecimento do recurso. Agora, 20 anos após a Eco 92, que também foi o berço de ideias como a da criação do Dia Mundial da Água, a Rio + 20 também colocará a água como assunto central durante o evento. Objetivos do Milênio Como disse o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, na mensagem para o Dia Mundial da Água deste ano, especialistas já estão discutindo “formas de conectar assuntos como água, energia e segurança alimentar, com o objetivo de reduzir a pobreza e a desigualdade, criando empregos e diminuindo os riscos de mudanças climáticas.” Para Catarina de Albuquerque, a Rio +20 deve ser essencial na definição dos próximos passos a serem tomados depois de 2015, quando o prazo para a realização dos Objetivos do Milênio encerra. “Acho que a Rio+20 pode ser uma forma bastante importante para participarmos em discussões de algumas das metas que depois ficarão cristalizadas num cenário pós 2015 no desenvolvimento mundial”, disse. Assunto de Âmbito Internacional Já o especialista em recursos hídricos da Agência Nacional de Águas, ANA, Alexandre Lima, que falou à Rádio ONU de Brasília, acredita que a Rio + 20 é um palco ideal para Na questão da água como um assunto internacional, o antropólogo, sociólogo e professor da Unicamp, Mauricio Waldman, que falou à Rádio ONU de São Paulo, citou o exemplo to Timor-Leste, onde para ele, os países de língua Para professor da Unicamp, Mauricio Waldman, os países de língua portuguesa têm a obrigação de contribuir para melhorias no Timo-Leste, onde anos de ocupação e conflitos comprometeram as estruturas dos sistemas de água portuguesa têm a obrigação de contribuir para melhorias, onde anos de ocupação e conflitos comprometeram as estruturas dos sistemas de água. “O Timor é um país que tem muitas carências administrativas, e isso não cabe somente aos timorenses, mas também à comunidade dos países de língua portuguesa de contribuir com este esforço, de ajudar este país, que é mais um na comunidade, a ser sócio em igualdade de condições, ou um sócio que esteja mais consolidado. Porque isso interessa a nós brasileiros, angolanos, moçambicanos, portugueses. Nós temos um país onde o português é uma língua oficial, é uma língua que tem crescido, se expandido, mas que também seja um país digno, que tenha dignidade em relação à água, o que não tem acontecido”, alertou Maurício Waldman. Antigos e Novos Desafios Para a ONU Água, os antigos desafios ligados ao recurso continuam presentes, e a estes agora, se adicionam novos desafios de hoje, que incluem as mudanças climáticas, o aumento do preço dos alimentos e da energia, o crescimento populacional e o rápido desenvolvimento econômico. Para lidar com o problema, a agência da ONU acredita que serão necessários esforços coletivos e eficientes de implementação de gerenciamento de água que envolvam adoção de leis, políticas e estratégias que reflitam a ligação entre a água e os setores sociais e econômicos. Neste contexto, áreas de pesquisa também são fundamentais. O Professor do Departamento de Engenharia Civil da Unesp, Tsunao Matsumoto, falando à Rádio ONU de São Paulo, explicou o principal foco dos trabalhos desenvolvidos nesta área pela equipe dele. Para o Pnud, o “gerenciamento da água é altamente complexo e político” Pesquisas “As pesquisas sempre estão voltadas para este lado. Conseguir uma água de melhor qualidade possível com o menor custo operacional. Isso faz com que você aumente a acessibilidade da água de boa qualidade para a população”, disse. Além da área de pesquisas, para o professor Tsunao, é importante que governos invistam em educação ambiental, para criar uma maior conciênticação em relação ao problema. Para ele, este processo deve começar pelas crianças, e cada um na sociedade tem um papel a cumprir neste cenário. “Eu acho que cada um de nós deve trabalhar neste sentido. Não deixar torneiras danificadas vazando, registros finais que não vedam. Instruir os usuários a consumir a água de forma racional. Só este ponto já seria muito útil para se preservar um patamar de uso pessoal”, acredita. Gerenciamento da Água Como diz o Pnud, o “gerenciamento da água é altamente complexo e político.” Já para o professor Maurício Waldman, o problema da água é um dos mais antigos no mundo e precisa ser olhado com carinho. “É um problema antigo que tem se acentuado e cuja solução implica em se repensar este modelo e mudar o nosso estilo de vida, de economia. Vai chegar a um ponto que não se terá mais retorno do ponto de vista ambiental. Nós temos que nos envolver nesta questão da água, cada um fazendo a sua parte, e também pressionando as autoridades de todos os governos para que passem a olhar a água com carinho, e não como estão fazendo atualmente”, alertou. Assistência de Produção: Leda Letra e Luisa Leme Edição: Mônica Villela Grayley