Universidade do Sul de Santa Catarina
Introdução ao Cooperativismo
Disciplina na modalidade a distância
Palhoça
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2007
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Dênia Falcão de Bittencourt
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Aprendizagem
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Pesquisa e Desenvolvimento
Dênia Falcão de Bittencourt
(Coordenadora)
Núcleo de Acessibilidade
Vanessa de Andrade Manuel
Apresentação
Este livro didático corresponde à disciplina Introdução ao
Cooperativismo.
O material foi elaborado visando a uma aprendizagem autônoma.
Aborda conteúdos especialmente selecionados e adota linguagem
que facilite seu estudo a distância.
Por falar em distância, isso não significa que você estará sozinho/
a. Não se esqueça de que sua caminhada nesta disciplina também
será acompanhada constantemente pelo Sistema Tutorial da
UnisulVirtual. Entre em contato, sempre que sentir necessidade,
seja por correio postal, fax, telefone, e-mail ou Espaço
UnisulVirtual de Aprendizagem - EVA. Nossa equipe terá o
maior prazer em atendê-lo/a, pois sua aprendizagem é nosso
principal objetivo.
Bom estudo e sucesso!
Equipe UnisulVirtual.
Luiz Salgado Klaes
Introdução ao Cooperativismo
Livro didático
Design instrucional
Dênia Falcão de Bittencourt
Karla Leonora Dahse Nunes
Palhoça
UnisulVirtual
2007
Copyright © UnisulVirtual 2007
Nenhum a partedesta publicação podeser reproduzida por qualquer m eio sem a prévia autorização desta instituição.
Edição --Livro Didático
ProfessorConteudistas
LuizSalgado Klaes
Design Instrucional
Dênia Falcão deBittencourt
Karla Leonora DahseNunes
ISBN 978-85-60694-28-0
Projeto Gráfico e Capa
EquipeUnisulVirtual
Diagram ação
Higor Ghisi Luciano
Revisão Ortográfica
B2B
334
K69
Klaes, Luiz Salgado
Introdução ao cooperativismo : livro didático / Luiz Salgado Klaes ; design
instrucional Dênia Falcão de Bittencourt, Karla Leonora Dahse Nunes – Palhoça :
UnisulVirtual, 2007.
172 p. : il. ; 28 cm.
Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-60694-28-0
1. Cooperativismo. I. Bittencourt, Dênia Falcão de. II. Nunes, Karla Leonora Dahse.
IV. Título.
Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universitária da Unisul
Sumário
Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 03
Palavras do professor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 09
Plano de estudo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
UNIDADE 1 – Fundamentos do Cooperativismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
UNIDADE 2 – Doutrina do Cooperativismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
UNIDADE 3 – História do Cooperativismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
UNIDADE 4 – Princípios do Cooperativismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
UNIDADE 5 – Realizadores do Cooperativismo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105
UNIDADE 6 – Precursores do Cooperativismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
Para concluir o estudo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 161
Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163
Sobre o professor conteudista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 167
Atividades de auto-avaliação: respostas e comentários . . . . . . . . . . . . . . . . 169
Palavras do professor
Bem vindos à Disciplina Introdução ao Cooperativismo.
Espero que esta Disciplina a qual você será apresentado
ao tema e estudará um pouco do Cooperativismo,
lhe seja uma positiva oportunidade para vislumbrar e
responder algumas inquietudes que surgem no dia a dia,
ou que em futuro ainda surgirão, ao atuar como gestor de
uma Empresa Cooperativa, e por que não dizer, como ser
humano.
Esta Disciplina tem a finalidade de procurar abrir
uma ampla janela e lhe apresentar aspectos do
desenvolvimento do cooperativismo, desde seus
primórdios até nossos dias.
As unidades foram divididas de forma que você possa
em seqüecia acompanhar os principais campos que
fundamentam a arte do Cooperativismo.
Em especial, se quer com esta Disciplina que ora
se inicia, que você possa dar passos iniciais firmes
e ter um embasamento para assim dar seqüência as
demais disciplinas do Cooperativismo as quais lhe
acompanharão ao longo desta jornada.
À todos, bons ventos.
Prof. Dr. Luiz Salgado Klaes
Plano de estudo
O plano de estudos visa a orientá-lo/a no
desenvolvimento da disciplina. Nele, você encontrará
elementos que esclarecerão o contexto da disciplina e
sugerirão formas de organizar o seu tempo de estudo.
O processo de ensino e aprendizagem na UnisulVirtual
leva em conta instrumentos que se articulam e se
complementam. Assim, a construção de competências
se dá sobre a articulação de metodologias e por meio das
diversas formas de ação/mediação.
São elementos desse processo:
„
O Livro didático.
„
o Espaço UnisulVirtual de Aprendizagem - EVA;
„
as atividades de avaliação (complementares, a
distância e presenciais).
Ementa da disciplina:
Fundamentos; doutrina; história; filosofia; princípios;
realizadores; e precursores do Cooperativismo.
Carga horária:
60 horas – 4 créditos
Objetivo(s):
12
„
Fornecer elementos conceituais sobre a Gênesis do
Cooperativismo.
„
Enumerar sucintamente a Doutrina Cooperativista,
destacando as suas principais características;
„
Identificar a conceituar as principais características das
organizações cooperativas;
„
Definir, identificar e demonstrar a importância
do cooperativismo como uma forma alternativa de
organização da sociedade;
„
Relacionar e conceituar as principais do cooperativismo.
Agenda de atividades/ Cronograma
„
Verifique com atenção o EVA, organize-se para acessar
periodicamente o espaço da disciplina. O sucesso no seu
estudo depende da priorização do tempo para a leitura; da
realização de análises e sínteses do conteúdo; e da interação
com os seus colegas e tutor.
„
Não perca os prazos das atividades. Registre no espaço
a seguir as datas, com base no cronograma da disciplina
disponibilizado no EVA.
„
Use o quadro para agendar e programar as atividades
relativas ao desenvolvimento da disciplina.
Atividades
Avaliação a Distância 1
Avaliação Presencial 1
Avaliação Final (caso necessário)
Demais atividades (registro pessoal)
13
14
UNIDADE 1
Fundamentos do
Cooperativismo
Objetivos de aprendizagem
„
Entender o que constitui os fundamentos do
cooperativismo.
„
Compreender as principais características dos
fundamentos do cooperativismo.
Seções de estudo
Seção 1 Pobreza, Filantropia e Associação
Seção 2 Esforço próprio e associação
Seção 3 Doutrinas Econômicas e Sociais
Seção 4 Do isolamento a internacionalidade
Seção 5 Conceitos gerais
1
Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de conversa
Esta unidade contextualiza a disciplina e objetiva introduzir
o/a Acadêmico/a ao ‘mundo do Cooperativismo’ sendo que,
para tal, o tema oportunizará a concepção de uma noção
geral e a conscientização da importância dos Fundamentos do
Cooperativismo para o meio social. Neste mundo de aceleradas
e grandes mudanças, necessariamente, o Cooperativismo
assumiu e tem assumido cada vez mais um papel fundamental no
crescimento, no desenvolvimento dos povos e, por que não dizer,
numa minimização das diferenças sociais.
Para iniciar esta disciplina, você estudará, a seguir, conceitos
gerais bem como a contextualização histórica do surgimento de
cooperativas. Bom estudo!
SEÇÃO 1 - Pobreza, Filantropia e Associação
A Revolução Industrial é o
processo de transição de uma
sociedade, cuja base econômica
era fundamentalmente
agrícola-artesanal para outra
predominantemente urbanoindustrial, cujo protótipo foi o
desenvolvimento ocorrido na GrãBretanha entre 1750 e 1830.
Sistema Feudal
É um sistema econômico e político
caracterizado pelo grande domínio
territorial, conjugado à pequena
exploração camponesa familiar num
regime de prevalência da economia
natural. >>
16
Estabelecer quando e onde iniciou o Movimento Cooperativo
Internacional, apresentando lugares e datas exatas é,
praticamente, algo impossível. O que a história nos mostra é que,
desde há muitos séculos, em diferentes regiões da terra, houve
formas de associação e de ajuda mútua, cujos fins, aparentemente,
foram determinados por precedentes condições sociais.
Essas condições acompanharam, têm acompanhado ou foram
provocadas por um fenômeno tão amplo, tecnicamente tão
complexo e que produziu tantas modificações na economia,
conhecido pelo nome de Revolução Industrial.
Uma revolução que esteve destinada a transformar todas as
esferas da vida humana e que, historicamente, projetou longas
sombras sobre a mesma. Seu surgimento foi argamassado pela
paulatina decadência do Sistema Feudal, no Período Medieval,
associada ao crescente desenvolvimento da mentalidade e das
práticas capitalistas.
Com o crescente crescimento de uma proletarização urbana e
rural a pobreza tornou-se endêmica. Os esforços dos governos
para controlar ou evitar a miséria não fizeram mais do que
aumentá-la em lugar de evitar o crescimento das classes
Introdução ao Cooperativismo
despossuídas, dependentes para sua subsistência unicamente de
seu mísero salário.
Período Medieval
Período histórico
geralmente compreendido
entre 476 e 1453.
Figura 1.1- A Revolução industrial, Sheffield (França), em 1855
Extraída do site: http://www.etika.lu/article.php3?id_article=119
Do século XVII em diante, de tempos em tempos, a história
tem registrado experimentos sociais e econômicos tendentes a
solucionar o problema da pobreza, que nos mostram algumas
linhas reconhecidas como sendo características da cooperação.
Há, por exemplo, uma conexão direta, admitida até mesmo
por Robert Owen entre seus planos para o estabelecimento
de comunidades auto-suficientes e aquelas propostas por John
Bellers, em 1696, para a criação dos Colégios de Indústria
(Colleges of Industry) como um paliativo para as questões do
desemprego. Porém, o que ambos, Bellers e Owen, desejavam
era obter apoio para um nascente Sistema de Organização
Econômica, no qual as esmolas, tanto da igreja quanto da
iniciativa privada, fossem substituídas por um trabalho produtivo,
para que os necessitados de ajuda encontrassem sua autonomia
individual ou coletiva por meio de seu próprio esforço.
No continente europeu, um desenvolvimento econômico paralelo
deu lugar a situações similares, agravadas muitas das vezes
por outras calamidades não ocorridas na Grã- Bretanha, como
por exemplo, as conseqüências de guerras. O empobrecimento
sofrido pelos proprietários das terras da Silésia, após a Guerra
dos Sete Anos, obrigou o Rei Prussiano a intervir e promulgar
Unidade 1
Terras da Silésia
Região histórica do
leste da Europa central,
compreendida pelos
Montes Sudetos e os
Cárpatos, ao sul até o
vale do rio Oder, ao norte
situada, sobretudo, no
sul da Polônia. A região,
por volta do século X, já
era parte integrante da
Polônia, mas no século
XVIII foi anexada à Prússia.
Guerra dos sete anos
A guerra dos sete anos
foi um conflito europeu
generalizado que durou
de 1756 a 1763. As
hostilidades se originaram
de uma disputa entre a
Áustria e a Prússia pela
supremacia dos estados
alemães.
17
Universidade do Sul de Santa Catarina
a introdução da primeira forma de Crédito Cooperativo, a
Landschaten, por meio da qual foi possível obter capital para
reabilitar a agricultura e incrementar a produtividade na terra.
Quando as Ciências Econômicas estavam dando os seus
primeiros passos, e a maior parte das outras ciências ainda não
existiam, não foram os governos que
formularam propostas construtivas
para minimizar a pobreza, senão
os filantropos e os educadores,
como por exemplo: Pestalozzi, cuja
preocupação com o bem-estar dos
agricultores suíços não foi menor do
que sua preocupação com a educação
dos filhos deles.
Logo, também encontramos um
seu contemporâneo, Emanuel
Von Fellerberg, cuja famosa escola
em Hofwilk, perto da cidade
de Berna, na Suíça, possuía um
admirável experimento no qual os
jovens recebiam uma educação prática, sem distinção de classes.
Freqüentaram esta escola, por exemplo, os filhos de Robert
Owen e de Victor Aimé Huber, os quais, mais tarde, foram
alguns dos pioneiros a difundir no continente europeu as notícias
do êxito das Cooperativas de Consumo (Consumers Co-operation)
em Rochdale.
Outro exemplo foi o sacerdote polaco e reformador social
Stanislaw Staszic. Em princípios do Século XIX, Staszic
autorizou os trabalhadores rurais de suas propriedades a utilizar
sua propriedade rural e também fundou uma sociedade agrícola
baseada no esforço próprio e na autonomia.
Semelhante aos nascentes modelos de Cooperativas ocidentais,
ela foi a experiência de ajuda mútua praticada por povos russos
exilados em Regiões da Sibéria, após a malograda Revolta de
dezembro de 1825. Estes “decembristas” não mediram esforços
para combater e tentar superar as privações pelas quais passavam
além dos rigores de seu isolamento, organizando-se como
comunidades de auto-ajuda e auto-abastecimento, procurando o
18
Introdução ao Cooperativismo
necessário para poderem viver com o que produziam com o seu
próprio trabalho.
Estas comunidades, que provavelmente também inspiraram
Robert Owen, mantiveram sua existência durante muitos anos
através de uma constituição democrática e um programa de
desenvolvimento, os quais incluíam a produção, distribuição
e moradias, algo muito semelhante depois preconizado pelos
Pioneiros de Rochdale.
SEÇÃO 2 - Esforço próprio e associação
Estes exemplos podem ser multiplicados, porém os de maior
importância foram os das associações que devem sua existência à
inspiração e ao patrocínio dos filantropos, bem como a iniciativa
espontânea das pessoas mais simples.
Inspirados pelo esforço próprio e pela ajuda
mútua, as associações se aproximaram
muito da forma real das cooperativas,
embora se possa notar que estas foram
formadas não pelos mais pobres, senão
por trabalhadores qualificados, tais como
os tecelões de Fenwick, em Ayrshire, na
Escócia, e os carpinteiros e metalúrgicos
empregados dos arsenais da Inglaterra.
O padrão alimentar dos assalariados, como
provavelmente todo o seu padrão de vida, deteriorava-se por
causa do preço e da qualidade dos alimentos, principalmente do
pão.
Daí o surgimento de um grande número de associações de
moinhos e panificadoras, com o objetivo de adquirir farinha
em maior quantidade para ser distribuída entre seus membros.
Algumas destas associações, no entanto, são antecessoras da
Revolução Industrial.
O desenvolvimento do sistema fabril, o desenvolvimento das
minas de carvão, as fundições anexas às indústrias metalúrgicas,
trouxeram, como conseqüência, uma concentração de
Unidade 1
19
Universidade do Sul de Santa Catarina
trabalhadores em torno de novas cidades e vilas industriais.
Como o poder de negociação destes trabalhadores era fraco,
seus salários eram baixos e seus custos de vida mais altos do que
deveriam ser.
Desta forma, tem-se o crescimento de associações em forma de
sociedades de benefício mútuo, uniões comerciais e associações
econômicas. Era praticamente impossível prever qual a forma de
associação que resultaria mais adequada quando os trabalhadores
deste período de unissem, a fim de que seus esforços combinados
os ajudassem a aliviar suas penúrias.
O que se sucedeu na Grã-Bretanha na segunda metade do século
XVIII, repetiu-se nos demais países da Europa continental
durante o século XIX. Porém, antes de se findar o século
XVIII, os trabalhadores franceses também tiveram que lutar
com problemas similares, devido, principalmente, à deslocação
econômica produzida pela Revolução de 1789.
Em Lyon (França), em 1793, quando os trabalhadores
desempregados sucumbiram ante a fome e saquearam o armazém
de produtos comestíveis, um pintor
de parede, François Joseph L’Ange,
propôs um projeto de associação
com a participação do governo, para
regular o comércio de grãos e o de
pão. Este projeto foi considerado
muito ambicioso e complicado para
a sua aplicação prática tendo em
vista o cenário da época. Porém,
algumas de suas postulações já
antecipavam linhas de certa maneira
extraordinárias em termos de idéias para a cooperação de
consumidores.
Obter os meios para viver decentemente era tão difícil em
uma comunidade rural quanto em uma cidade industrial. Na
Inglaterra, o empobrecimento da vida nos campos comunais
se efetivou de tal forma que destruiu o verdadeiro camponês
e criou um proletariado rural. Neste aspecto, houve tentativas
juntamente com as formas tradicionais de ajuda mútua, do
esforço próprio através de associações, as quais podemos
20
Introdução ao Cooperativismo
dizer que seriam uma antecipação dos alvores do Movimento
Cooperativo Agrícola.
Há exemplos de diversos tipos de associações formadas por
pessoas das mais variadas classes e profissões. Podemos,
inclusive, citar um formado por vitivinicultores de dezesseis
paróquias em Haut-Beaujolais, na França, os quais já operavam
pelos idos de 1760 como agentes para a venda do vinho
produzido pelos seus membros. Eles operavam, também,
como agentes de compras em comum, principalmente de
barricas para armazenar o vinho e, ainda, como uma fonte
de crédito. O principal objetivo deles era vender a produção
vitivinícola diretamente aos consumidores, eliminando, assim,
os intermediários.
Algo semelhante também aconteceu no Cantão de Vaud, na
Suíça, entre os produtores de leite, os quais experimentaram
um extraordinário desenvolvimento. As antigas Frutières,
localizadas nas regiões mais altas da Suíça, principalmente nas
de Jura e dos Alpes, cujo funcionamento se tem notícias desde
a Idade Média são célebres; já as Frutières que se localizavam
ao pé das montanhas ou nas áreas mais baixas, embora menos
conhecidas, podiam ser contadas por mais de uma centena.
Havia também associações para a fabricação e o comércio em
comum de queijos, as quais podem ser também consideradas
como sendo precursoras da Revolução Agrária e da Cooperação
Agrícola do Século XIX.
SEÇÃO 3 - Doutrinas Econômicas e Sociais
Os cataclismos das Eras Revolucionárias e Napoleônicas criaram
obstáculos para a entrada da Revolução Industrial no cenário
econômico europeu. Porém, a partir do ano de 1830, o fenômeno
começou a se reproduzir, com matizes de variações locais das
aracterísticas que existiam na Grã Bretanha de meio século antes.
Houve, não obstante, alguns elementos que surgiram no
continente europeu em um período anterior àquele da GrãBretanha: as controvérsias públicas acerca das conseqüências
sociais das novas técnicas industriais e o conjunto das religiões
Unidade 1
21
Universidade do Sul de Santa Catarina
cristãs e as Doutrinas Econômicas Clássicas, as quais foram
invocadas para justificar o seu modo de introdução e aplicação,
assim como a atitude do laisser faire, laisser passer por parte dos
governos.
Pensadores humanitários, que não podiam e não aceitavam
a deterioração dos padrões materiais e morais que pareciam
acompanhar o novo Sistema Industrial, viram-se obrigados a
combater as Doutrinas que apoiavam o individualismo e a livre
concorrência comercial; a formular suas próprias Doutrinas, as
quais propunham estabelecer um equilíbrio entre o indivíduo e a
sociedade. Robert Owen (1771 – 1858), na Inglaterra, e Farnçois
Marie Charles Fourier (1772 – 1837), na França, intercederam
por associações na forma de comunidades voluntárias de autoabastecimento. Saint-Simon e seus seguidores criticaram o novo
Sistema Industrial, do ponto de vista de sua organização.
Uma Escola composta por escritores britânicos – baseada na
Teoria de Ricardo, do trabalho como
padrão de valor – reclamava para os
trabalhadores todos os benefícios do
Sistema Industrial, concomitantemente
com a supressão das rendas, interesses
e lucros, considerando-os como uma
mera exploração. Esta tese inspirou
pensadores socialistas e também ações
políticas por gerações e influenciou
poderosamente as organizações
cooperativas, no que se refere à divisão
dos benefícios entre seus membros.
Contudo, como naquela época a
maioria dos trabalhadores não estava politicamente emancipada
e as convenções coletivas sobre salários e condições de trabalho
se encontravam proibidas por lei ou restringidas por medidas
policiais, ou, quando não, por castigos impostos por parte dos
empregadores, sua única ação limitava-se ao campo econômico.
Esta ação tomou a forma de Sociedades de Previsão baseadas na
ajuda mútua, para os casos de enfermidade, invalidez ou morte,
de pequenos armazéns de subsistência de alimentos ou de oficinas
nas quais os associados possuíam o mesmo tipo de profissão.
22
Introdução ao Cooperativismo
Tais Sociedades de Previsão, inicialmente, eram dirigidas
pelos trabalhadores. Porém, chegou um momento em que estas
Sociedades passaram a ser fundadas por homens inspirados
em considerações mais amplas do que somente as vantagens
econômicas e imediatas, especialmente por idéias sociais baseadas
nas Doutrinas do Associativismo e, também, dos primeiros
pensadores socialistas.
A partir do momento em que as empresas econômicas dos
trabalhadores adquiriram bases teóricas e objetivos ideais,
podemos afirmar que o Movimento Cooperativo foi um êxito no
verdadeiro sentido da palavra.
SEÇÃO 4 - Do isolamento à internacionalidade
O substantivo “Cooperação” (Co-operation) e o adjetivo
“Cooperativa” (Co-operative) somente começaram a ser usados
na Grã-Bretanha a partir de 1820. Quarenta anos mais tarde, eles
foram incorporados ao idioma francês.
Seria um tanto irresponsável alguém fi xar uma data exata para o
surgimento do Movimento Cooperativo em nível internacional,
já que os esforços desenvolvidos para estabelecer diferentes tipos
de associações eficientes e duradouras eram, na sua maioria,
isolados e desconhecidos uns dos outros, mesmo quando estas
associações tinham como origem
o mesmo país ou quando haviam
surgido em países diferentes.
Contudo, chama a atenção o fato de
que em todos os países, apesar das
desastrosas conseqüências sociais da
Revolução Industrial, as associações
se apresentaram mais visíveis e
inigualáveis aos trabalhadores
– os quais reconheciam que as velhas fórmulas eram obsoletas,
envelhecidas e corruptas. Nestes casos, os trabalhadores,
algumas vezes, aceitavam a ajuda de simpatizantes que se
encontravam em situação bem melhor materialmente e também
mais preparados. Eles recorreram à ajuda mútua e começaram
a buscar seus caminhos, por meio de acertos e erros, em direção
Unidade 1
23
Universidade do Sul de Santa Catarina
à forma tecnicamente superior de associação representada pelas
associações cooperativas.
Estes fatos nos sugerem de que o Movimento Cooperativo
internacional tem seu nascedouro nos instintos e capacidades do
homem e da humanidade, os quais são o patrimônio comum e
permanente da humanidade, sem distinção de raça ou condição
social, econômica ou cultural.
A sociedade de consumidores, La Caísse du Pain, fundada,
em 1828, por trabalhadores têxteis de Guebwiller, cercanias de
Mulhouse, era completamente desconhecida dos cooperativistas
que patrocinavam e promoviam este tipo de sociedade na GrãBretanha e para as quais o Dr. William King publicou um
boletim mensal intitulado The Co-operator (O Cooperador) entre
os anos de 1828 a 1830.
O mesmo também se pode afirmar acerca do Lê Commerce
Véridique et Social de Lion, em 1835. Porém, um pouco mais tarde,
as idéias de Charles Fourier, que inspiraram estas empresas,
foram discutidas nas páginas do Diário Owenista The New Moral
World. E quase que simultaneamente, as idéias de Robert Owen
e a do Movimento Cooperativo britânico, entre 1828 a 1835,
chamaram a atenção do periódico Lê Producteur, editado por
Saint-Simon.
A internacionalização já pairava no ar e a prova disto é a
formação, em 1835, da Association of All Classes of All Nations
(Associação de todas as Classes e de todas as Nações)
preconizada por Robert Owen, projeto este considerado em sua
concepção muito utópico para a sua época, porém ele possuía
uma visão completamente cooperativa.
SEÇÃO 5 - Conceitos gerais
Não é nossa pretensão reproduzir, neste espaço, definições ou
conceitos de diversos autores, tampouco apresentar as nossas,
pois consideramos que nesta, como em qualquer outra matéria
econômico-social, as definições ou conceitos praticamente exatos
resultam quase que invariavelmente incompletos ou suscetíveis de
críticas.
24
Introdução ao Cooperativismo
Convém, antes de se dar continuidade a esta explanação, também
apresentar algumas idéias acerca do significado de alguns termos
os quais, ao longo deste Manual, você terá que se familiarizar:
Cooperar significa trabalhar simultaneamente ou
coletivamente com outras pessoas na busca por um objetivo
comum. A palavra “Cooperar” deriva etimologicamente da
palavra latina “cooperari”, formada por “cum” (com) e “operari”
(trabalhar); ela significa trabalhar juntamente com os outros para
um mesmo fim.
Cooperação é o método de ação pelo qual indivíduos ou famílias
com interesses comuns constituem um empreendimento, no qual os
direitos de todos são iguais e a sobra alcançada é repartida somente
entre os associados, na proporção de sua participação na atividade
societária. É a forma de trabalho que, no mesmo lugar e em equipe,
trabalha-se planificadamente no mesmo processo de produção ou
em processos distintos. Em sentido lato significa: ato de unir e
coordenar meios e esforços de cada um para a realização de uma
atividade comum, visando um resultado procurado por todos.
Em relação a este tema, os termos “cooperar” e “cooperação”
expressam conceitos necessários, porém não suficientes, pois nas
cooperativas os associados cooperam ou praticam cooperação,
porém devem fazê-lo de acordo com certos princípios ou normas
especiais que caracterizam precisamente as empresas cooperativas.
Também se pode cooperar ou praticar cooperação sem
cooperativas, desde que não se verifique a submissão aos
princípios ou normas específicas. É necessário diferenciar as
cooperativas de qualquer outra forma de cooperação e de todo
tipo de associações de empresas, tais como os sindicatos, etc.
Cooperativa é a associação de produtores, fabricantes,
trabalhadores ou consumidores, que se organizam e administram
empresas econômicas, com o objetivo de satisfazerem uma variada
gama de necessidades. Em outras palavras, pode-se enunciar que
é uma associação de produtores, fabricantes e consumidores para
partilhar sobras que, de outra forma, iriam para intermediários.
Unidade 1
25
Universidade do Sul de Santa Catarina
“São associações de pessoas que reciprocamente se obrigam
a contribuir com bens ou serviços para o exercício de uma
atividade econômica, de proveito comum, sem objetivo de lucro”
(OCB, 1994). “É uma sociedade de pessoas que se unem,
voluntariamente, para satisfazer aspirações e necessidades
econômicas, sociais e culturais comuns, por meio de uma
empresa de propriedade coletiva e democraticamente gerida”
(MACPHERSON, 1995, p. 13).
Quando empregamos com um significado mais preciso e, em
particular, para referir-nos a certas técnicas de trabalho conjunto,
esta é a característica de um gênero completo de organizações
sociais e econômicas, as quais estão presentes em todos os rincões
do Planeta Terra.
As cooperativas se baseiam no esforço próprio e na ajuda mútua dos
sócios e devem atender aos interesses sócio-econômicos dos mesmos,
porém somente na medida em que estes interesses coincidam ou pelo
menos não se oponham aos interesses gerais da comunidade.
Elas são regidas por determinadas normas de caráter igualitário
e eqüitativo, que, na lógica, resultam de uma evolução e de
diversas formulações doutrinárias e legais, as quais são a essência
universal.
Cooperativismo, “é uma doutrina que tem como objetivo a
solução de problemas sociais por meio da criação de comunidades
de cooperação, formadas por indivíduos livres que realizam
a gestão da produção e participariam igualmente dos bens
produzidos” (TUDO, 1977).
A Organização das Cooperativas Brasileiras define
cooperativismo como:
Um movimento que busca constituir uma sociedade justa,
livre e fraterna, através da organização social e econômica
da comunidade, em bases democráticas, para atender
suas necessidades reais, remunerando adequadamente o
trabalho de cada um dos seus cooperados.
26
Introdução ao Cooperativismo
Por fim, podemos afirmar que o Cooperativismo é uma doutrina,
um sistema, um movimento ou simplesmente uma atitude ou
disposição, que considera as cooperativas como uma forma ideal
de organização das atividades sócio-econômicas da humanidade
e, em conseqüência, aconselha, propicia ou se esforça
praticamente para lograr a difusão e consolidação da mesma.
Cooperado, segundo Figueiredo (2000, p. 51):
é o trabalhador rural ou urbano, profissional de
qualquer atividade sócio-econômica, que se associa para
ativamente participar de uma cooperativa, assumindo
responsabilidades, direitos e deveres que lhe são
inerentes, ao integralizar o seu capital de acordo com o
estatuto social da cooperativa.
Cooperar, cooperação, cooperativas, cooperativismo e cooperado
são, portanto, termos com significados diferentes, porém
estreitamente vinculados.
Atividades de auto-avaliação
Após você ter realizado uma leitura criteriosa desta unidade, leia
os enunciados com atenção e responda as questões abaixo:
1 – Conceitue o que é cooperativismo, levando em consideração
as características das cooperativas.
Unidade 1
27
Universidade do Sul de Santa Catarina
2 – Qual o duplo caráter da cooperação?
3 – Qual foi o papel da Revolução Industrial no surgimento do
cooperativismo?
4 – Quais são os valores sobre os quais se assenta o
cooperativismo ?
28
Introdução ao Cooperativismo
Síntese
Nesta Unidade você teve a oportunidade de estudar e ser
apresentado(a) aos Fundamentos do Cooperativismo e também
de compreender suas principais características.
Acompanhou quando e onde se iniciou o Movimento
Cooperativo Internacional. No entanto, como você viu,
apresentar lugares e datas exatas é, muitas vezes, impossível.
A Revolução Industrial teve um grande impacto no
desenvolvimento da humanidade e transformou todas as esferas
da vida humana e também marcou a história do Cooperativismo.
O desenvolvimento do Sistema Fabril, das minas de carvão
anexas às indústrias metalúrgicas, trouxe como conseqüência uma
concentração cada vez mais acentuada de trabalhadores em torno
das novas cidades e vilas industriais, sendo, desta maneira, um
‘celeiro’ de inúmeras manifestações sociais.
Essas manifestações sociais inspiraram um conjunto de
pensadores humanitários os quais não aceitavam a deterioração
dos padrões materiais e morais que pareciam acompanhar o novo
Sistema Industrial, combatendo as doutrinas individualistas.
Na próxima Unidade, você terá a oportunidade de realizar uma
ampla viagem pela Doutrina Cooperativa, podendo, assim,
vislumbrar as principais variáveis que contribuíram para o
cadinho da Doutrina Cooperativa.
Saiba mais
Pesquise nos sites a seguir mais informações sobre os temas
abordados nesta unidade:
„
www.redeambiente.org.br⁄Opiniao.asp?artigo=41
Unidade 1
29
UNIDADE 2
Doutrina Cooperativa
Objetivos de aprendizagem
„
Enunciar as principais correntes doutrinárias que
influenciaram o cooperativismo ao longo de sua história.
„
Identificar as principais variáveis que contribuíram para a
Doutrina Cooperativa.
Seções de estudo
Seção 1 A doutrina Cooperativa: introdução
Seção 2 As realizações cooperativas no contexto do
capitalismo atomizado e molecular
Seção 3 A Doutrina Cooperativa: sua formulação no
século XIX
Seção 4 A Doutrina Cooperativa no Regime
Capitalista
Seção 5 Principais realizações Cooperativas do
Regime Capitalista
Seção 6 A Doutrina Cooperativa no Regime
Socialista
Seção 7 Principais realizações Cooperativas do
Regime Socialista
2
Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de conversa
Nesta segunda unidade você irá estudar as principais correntes
doutrinárias que influenciaram o cooperativismo ao longo de sua
história podendo, a partir destas, entender melhor a dimensão e
a importância destas para o desenvolvimento e evolução sócioeconômica das sociedades.
SEÇÃO 1 - A Doutrina Cooperativa: introdução
A Doutrina Cooperativa, como qualquer outra doutrina
econômica, não pode apresentar conteúdo rígido porque critica e
propõe reformulações a sistemas que estão em mudança.
A Doutrina Cooperativa surgiu no século XIX, em oposição
às conseqüências práticas da Doutrina Liberal e individualista.
Propôs-se, inicialmente, não apenas a corrigir as injustiças sociais
decorrentes do meio competitivo do liberalismo econômico
desbragado, como também a prestar serviços. Cotidianamente, o
cooperativismo se opôs, igualmente, aos excessos de intervenção
do Estado, típicos do meio socialista.
Um Sistema Econômico é entendido como
sendo um conjunto coerente de estruturas, é
uma espécie de esboço ideal do meio social:
apresentando uma ideologia, uma técnica e
uma organização econômica típicas. Assim,
por exemplo, a ideologia do Sistema Capitalista
é marcada pela busca do lucro, da riqueza; a
técnica do processo de produção é complexa,
utilizando intensamente máquinas, divisão
do trabalho, especialização de funções e
concentração; a organização econômica gira em
torno de mercados e toda a vida é dirigida por preços.
O Sistema Capitalista não existe em estado puro: ele coexiste
com outros sistemas não capitalistas, apresentando setores de
economia estatal, tradicional, socializada, etc., além de atividades
pré-capitalistas ao lado de grandes complexos multinacionais
ou, ainda, persistentes estruturas sociais tradicionais atuando
32
Introdução ao Cooperativismo
paralelamente a estruturas ultramodernas ou simplesmente de
transição.
A coerência de estruturas de um Sistema Econômico é
relativamente frágil, uma vez que essas estruturas apresentam
uma dinâmica de curto prazo ou dinâmica dentro do próprio
sistema e uma dinâmica de longo prazo ou dinâmica dos
sistemas em geral. E tanto no curto prazo como no longo prazo,
a dinâmica das estruturas pode ser endógena (de origem interna)
ou exógena (que vem de fora).
Se as estruturas que compõem um determinado sistema
não são estáticas, também uma Doutrina Econômica não
pode ter conteúdo rígido, pois critica sistemas que evoluem
continuamente.
Nesse sentido, a Doutrina Cooperativa surgiu como reação
espontânea dos trabalhadores, com o objetivo de corrigir as
distorções do Sistema Capitalista de meados do século XIX,
sobre o impacto de mudanças exigidas pela própria universalidade
do Movimento Cooperativo, pela variedade crescente de tipos de
cooperativas, pelas novas situações criadas pela cibernetização das
áreas altamente desenvolvidas, pela sociedade de consumo, pela
intervenção crescente do Estado e pela própria modificação do
sistema em que atua.
SEÇÃO 2 - As realizações cooperativas no contexto do
capitalismo atomizado e molecular
As bases da Doutrina Cooperativa delinearam-se, no início
do século XIX, como parte de um conjunto de reações que
procuravam atenuar ou suprimir os desequilíbrios econômicos e
sociais resultantes do liberalismo econômico.
A princípio, as cooperativas foram ensaiando timidamente seus
mecanismos, com base no auxílio mútuo e na solidariedade,
como oposição ao meio competitivo do capitalismo atomizado
do início do século XIX, que se caracterizava pelo predomínio
da microeconomia, com pequenas unidades de produção
concorrentes entre si, pela não intervenção do Estado no
econômico, pela desconcertante contradição entre os fatos e
Unidade 2
Capitalismo atomizado
Capitalismo de
grandes unidades,
macroeconômico.
Século XIX
O século XIX foi dominado
pelo capitalismo industrial
com base na pequena
unidade produtiva e no
Estado mínimo. As muitas
pequenas unidades de
produção transformaramse em grandes complexos
na forma de trustes e
cartéis. Passa-se do
capitalismo atomizado
para o capitalismo
molecular. Surgem as
bolsas de valores que
lançam ações para captar
recursos financeiros.
33
Universidade do Sul de Santa Catarina
a harmonia de interesses apregoada pela Doutrina Liberal e
individualista.
Assim, ao invés da harmonia entre os interesses do indivíduo e os
da sociedade, os fatos colocaram em relevo, de forma chocante,
sua oposição: enquanto que uma maioria de empresários
enriquecia, graças, sobretudo, à alta produtividade das máquinas
e aos baixos salários pagos à mão-de-obra, os trabalhadores
passavam necessidades.
A concorrência generalizou-se, mas
sem que se verificasse a pretendida
possibilidade dos compradores e
vendedores fi xarem seus preços com
plena liberdade (fluidez da oferta e da
procura); ou de cada produtor encontrar
uma demanda elástica perfeita, situação
que, teoricamente, era exigida também do
comprador ante a oferta.
Na disputa pelo mercado, os pequenos e
médios empresários iam sendo, aos poucos, absorvidos por outros
que, por sua vez, firmavam seu poder econômico. Os próprios
operários concorriam entre si, vendendo força de trabalho a
preços vis, em parte, devido à presença crescente da mão-deobra feminina e de menores e, em parte, devido às crises cíclicas
que levaram à falência, posteriormente, grande número de
empresas marginais, contribuindo para engrossar as fileiras dos
desempregados.
Isolados ante a proibição legal de formar sindicatos ou qualquer
tipo de associação de defesa de seus interesses profissionais,
dentro do espírito liberal reinante já no final do século XVIII
e esmagados pela Revolução Industrial, muitos trabalhadores
buscaram soluções para seus problemas em associações de auxílio
mútuo ou mutualidades, ou em sociedades de tipo comunitário.
Mecanismos de uma política só.
34
Ao mesmo tempo, o Estado não pôde deixar de interferir
na ordem econômica, as pequenas e médias empresas foram
se transformando em grandes unidades de produção, a
concorrência cedeu lugar a mecanismos monopolíticos ou quase
monopolíticos, a macroeconomia começou a ganhar terreno, etc.
Introdução ao Cooperativismo
Foi nesse ambiente de transição do capitalismo atomizado para
o capitalismo molecular que as Cooperativas de Consumo
firmaram suas bases, inspiradas na experiência símbolo dos
Pioneiros de Rochdale, bem como na das Cooperativas de
Crédito (tipo Raiffeisen, Luzzatti, Haas e outros) e na das
Cooperativas de Produção (baseadas na proposta de Buchez).
Capitalismo fraco e
esparso.
No final do século XIX, o Economista Charles Gide
interessou-se pelos estudos sobre cooperativismo
e cooperativas, discutindo sua finalidade e seu
embasamento filosófico em reuniões com um
grupo de idealistas em Nimes (França). A partir
dessas reuniões, Gide elaborou um programa
de reformas sociais com base nas cooperativas e
sintetizou, posteriormente, em estudos esparsos
sobre o Cooperativismo.
Em 1886, ele proferiu o Discurso ‘Programa
do Cooperativismo’, por ocasião da abertura do II°
Congresso das Cooperativas de Consumo da França, e, em
trabalhos posteriores, ampliou e aprofundou seus estudos sobre a
Doutrina Cooperativa.
Alguns anos depois (1891), Beatriz Potter Webb também
publicou importante estudo a respeito do programa cooperativista
inglês.
Muitos estudiosos sucederam Charles Gide e Beatriz P. Webb,
tais como: George Fauquet com ‘Setor Cooperativo’, Bernard
Lavergne com ‘Ordem Cooperativa’, Ernest Poisson com
‘República Cooperativa’, Maurice Colombain, Georges Lasserre,
Henry Desroche, Henrik F. Infield, André Hirschfeld, Roger
Kerinec, Paul Lambert, Antoine Antoni, Edgard Milhaud, etc.
No Brasil, já no tempo do Discurso do Programa de Charles
Gide, a Doutrina Cooperativa encontrava adeptos.Porém,
as primeiras cooperativas somente puderam surgir com o
aparecimento do trabalho livre, isto é, depois de 1888.
Várias Doutrinas Confessionais que se desenvolveram na
Europa Ocidental a partir da segunda metade do século XIX,
também passaram a incluir em seus programas de ação o tema
cooperativismo.
Unidade 2
35
Universidade do Sul de Santa Catarina
De modo geral, as Doutrinas Intervencionistas - entendidas
como aquelas que se colocam entre os interesses do indivíduo e
os da sociedade como um elemento moderador, o qual pode ser
o Estado, a Família, a Corporação ou outro grupo qualquer –
também integraram as cooperativas em seus planos e programas
de reforma sócio-econômica.
Por outro lado, as Doutrinas Socialistas tomaram posições
diversas: o Socialismo Marxista desprestigiou-se ao encará-las
como meio insuficiente de emancipação do trabalhador, que
mais atrapalhava os ideais revolucionários, por transformar os
proletários em burgueses; o Socialismo Pós-Marxista sempre
tolerou as cooperativas, com base, principalmente, em Lênin,
que considerava as cooperativas como sendo o único organismo
bom do Regime Capitalista e que deveria ser mantido a qualquer
preço.
Mas, ao ser integrado em Sistemas, estruturas e regimes tão
diversos e, por vezes, tão antagônicos, é evidente que o conteúdo
Doutrinário do Cooperativismo sofreu, vem sofrendo e sofrerá
alterações diante destes cenários ideológicos.
SEÇÃO 3 - A Doutrina Cooperativa: sua formulação no século XIX
A Doutrina Cooperativa teve origem na Alemanha e na
Inglaterra, mas foi sistematizada na França, pelo Professor de
Economia Política da Universidade de Paris, Charles Gide (18471932). Ela foi concebida com base na cooperativa, como seu
fundamental instrumento de ação.
Gide era a principal figura da chamada ‘Escola de Nimes’ e foi
trazido para o cooperativismo por seu conterrâneo Augusto
Fabre, que havia organizado um círculo operário para debates
em Nimes, pequenina cidade ao sul da França. Através desta
experiência, Gide conheceu outros notáveis pensadores, os quais
já haviam criado algumas associações mutualistas e que também
conheciam a experiência dos Probos Pioneiros de Rochdale.
36
Introdução ao Cooperativismo
Mas o que é uma cooperativa? A que modificações
sociais esta poderá conduzir?
A cooperativa tem sido entendida como uma empresa de serviço,
cujo fim imediato é a prestação de serviços a seus usuários, que
a criam com seu próprio esforço e risco. Estas se distinguem
da empresa capitalista porque a satisfação das necessidades dos
usuários não representa seu fim imediato, mas sim, o rendimento
do capital investido.
Em 1844, os Probos Pioneiros de Rochdale (Fig. 2.1)
proclamaram solenemente as regras ou normas de sua sociedade
de consumo. Tais regras receberam a denominação de ‘Princípios’.
Figura 2.1 – Os Probos Pioneiros de Rochdale
Extraída do site: www.cooperativadeteatro.com.br/portal/article...
Pode-se afirmar que, assim agindo, eles apresentaram, por
meio dessas normas estatutárias, um projeto de ampla reforma
econômica e social, pois revelaram a orientação filosófica e
humanista que inspirava os vinte e oito tecelões. Essas normas
podem ser sintetizadas em duas, a saber:
1. normas de igualdade, as quais definiam as relações dos
cooperados entre si;
2. normas de proporcionalidade, as quais fi xavam as
relações dos associados com a empresa cooperativa.
Unidade 2
37
Universidade do Sul de Santa Catarina
O Movimento Cooperativo, na sua forma moderna, é uma
manifestação social relativamente recente e somente se
desenvolveu na época do capitalismo moderno.
No pensamento de quase todos os precursores do Movimento
Cooperativo Moderno, o Sistema Cooperativo confundia-se
com os sistemas preconizados pelos seus pioneiros, de uma nova
ordem baseada na socialização.
Uma parte dos verdadeiros fundamentos do Cooperativismo
Moderno, especialmente na Alemanha, era formada por
adeptos do pensamento econômico liberal. Da mesma forma,
os dirigentes marxistas do Movimento Socialista consideravam
a cooperativa como uma instituição baseada nos princípios do
liberalismo econômico.
Figura 2.2 – Charles Gide
Extraída do site: www.eumed.net/cursecon/dic/dent/g/ges.htm
Charles Gide (Fig. 2.2), professor de economia, conhecido por
suas brilhantes manifestações, passou a divulgar a cooperativa
e o cooperativismo como um eficaz instrumento de reforma
do Sistema Capitalista, condenando o regime do salariado em
nome da justiça e da solidariedade humana e preconizando sua
supressão pacífica através da cooperação espontânea. Ele chegou
a preconizar a eliminação total do lucro capitalista e das injustiças
sociais através da cooperativização total da sociedade, em seu
conhecido ‘Programa em Três Etapas’.
38
Introdução ao Cooperativismo
Outros doutrinadores mostraram-se menos entusiasmados ante a
observação da realidade e aceitaram a difusão de cooperativas em
determinados setores da atividade econômica. Somente poucos
estudiosos desse tema é que continuaram preconizando a reforma
integral da sociedade através de cooperativas.
SEÇÃO 4 - A Doutrina Cooperativa no Regime Capitalista
As cooperativas surgiram no seio capitalista do século XIX como
uma reação às conseqüências práticas da livre concorrência. É
uma doutrina que se constituiu com base nessas sociedades,
representa uma das numerosas soluções que procuravam atenuar
ou suprimir os desequilíbrios resultantes do liberalismo
econômico.
Aliás, o século XIX, desde o seu início viu nascer e se
avolumar as mais diversas reações doutrinárias, socialistas e
intervencionistas, contra a Doutrina Liberal e individualista.
Essas reações tiveram como causa principal o espetáculo
impressionante da realidade sócio-econômica.
Doutrina que advoga o
uso maior possível das
forças do mercado para
determinar as decisões
dos agentes econômicos
(LACOMBE, 2004, p. 196).
Realmente, os fatos estavam em contradição com a doutrina
reinante nessa época: o liberalismo dos economistas fisiocratas e
clássicos proclamara a harmonia entre o interesse do indivíduo e
o interesse da sociedade, mas não era isso o que se verificava.
Para os autores liberais, o indivíduo, livre na sua atividade
econômica, escolhe o melhor caminho para resolver os seus
próprios negócios e, ao mesmo tempo, contribui, embora
muitas vezes involuntariamente, para a riqueza social. Em
outras palavras, movido pelo princípio hedonista, o homem,
ao satisfazer os seus próprios interesses, trabalha em prol do
progresso geral.
Todavia, a realidade, longe de confirmar essa harmonia de
interesses, mostra muitas vezes a sua oposição: de um lado há
o enriquecimento de uma minoria de empreendedores, graças à
produtividade das máquinas e aos baixos salários e, do outro lado,
há a miséria da classe operária, o aumento da mortalidade e da
criminalidade, a diminuição da nupcialidade e da natalidade.
Unidade 2
39
Universidade do Sul de Santa Catarina
Leonard Simonde de Sismondi
(1773-1842) preconizava que
o Estado deveria garantir a
cada indivíduo uma situação
humanamente digna. Ele foi um dos
primeiros adversários do liberalismo
econômico. Em 1819, publicou a
obra “Novos Princípios de Economia
Política” pela qual separava a
postura dos economistas clássicos,
os quais se preocupavam muito
mais com a produção das riquezas
do que com a sua repartição
eqüitativa.
Daí a reação à Doutrina Liberal e individualista, dentre as quais
se destacam: as reações socialistas, que vão se opor à concorrência
através de duas formas principais – o Socialismo Espiritualista,
chamado de utópico, com Owen, Fourier, Saint-Simon e outros,
durante a primeira metade do século XIX, e o Socialismo
Materialista ou científico, a partir do Manifesto Comunista, de
1848, de Marx; e as reações intervencionistas, que desejavam
colocar um intermediário entre o indivíduo e a sociedade
– intermediário esse que era o Estado preconizado por Sismondi
e seus discípulos, a Família para Lê Play, a Igreja para os grupos
confessionais, a Cooperativa para Gide, etc.
Todos esses intermediários tinham, entretanto, o mesmo objetivo:
o de limitar a liberdade econômica, de submetê-la à iniciativa
individual, à fiscalização e ao controle de um grupo considerado
superior, e diminuir os inconvenientes do meio concorrencial.
SEÇÃO 5 - Principais realizações Cooperativas do Regime
Capitalista
Seria um engano considerarmos as realizações cooperativas
num meio capitalista homogêneo, pois, o meio capitalista tem
se modificado gradualmente ao longo dos tempos – de maneira
profunda – desde os primórdios do século XIX até nossos dias.
Realmente, se no início dominavam as pequenas unidades de
produção, trabalhando em concorrência e a intervenção do
Estado no campo econômico era quase nula, paulatinamente,
as médias e grandes empresas substituíram as pequenas, os
mecanismos monopolísticos ou semi-monopolísticos substituíram
a concorrência e a intervenção do Estado tornou-se cada vez mais
importante.
O capitalismo atomizado foi sendo substituído pelo capitalismo
molecular, ou seja, pelo capitalismo de grandes unidades
produtivas, não mais concorrencial.
É no meio capitalista atomizado que podemos encontrar as
sociedades classificadas como ‘pré-cooperativas’ por serem
anteriores à estruturação propriamente dita das cooperativas.
40
Introdução ao Cooperativismo
Estas eram do tipo comunitário ou não, organizadas por grupos
confessionais ou por idealistas leigos, conforme segue:
a) Realizações Pré-Cooperativas
1) Confessionais
„
De tipo comunitário
Ex.: Shakers (Estados Unidos)
2) Seculares
„
De tipo comunitário
Ex.: Nova Harmonia, Falanstérios, Colônias
etc.
Icarianas,
- Não Comunitárias
Ex.: realizações operárias da Inglaterra e França
b) Realizações Cooperativas
1) Setor Privado
1.1 - Seculares
„
Cooperativas de consumo
Ex.: Probos Pioneiros de Rochdale
„
Cooperativas de crédito
Ex.: Schulze-Delitzch e RaiffeisenLuzzatti, Haas,
Wollemborg, etc.
1.2 - De caráter confessional
„
Movimento católico-social
Ex.: Buchez e as Cooperativas de Produção
„
Movimento Protestante-social
Ex.: Christian Socialists na Inglaterra
Unidade 2
41
Universidade do Sul de Santa Catarina
2) Setor Público
Ex.: Régies cooperativas
As realizações cooperativas que eram fracas e esparsas em pleno
Capitalismo atomizado, multiplicaram-se e se concentraram, tanto
horizontalmente como verticalmente, somente a partir do século
XX, a fim de poderem sobreviver à luta contra os grandes grupos
monopolísticos ou quase-monopolísticos do Capitalismo Molecular.
Como resultado dessa concentração, elas adquiriram vigor e
importância em diversos países, principalmente depois da 1ª
Guerra Mundial e, especialmente, a partir do término da 2ª
Guerra Mundial, quando se expandiram com maior intensidade
inclusive na América Latina e África.
SEÇÃO 6 - A Doutrina Cooperativa no Regime Socialista
O cooperativismo, apesar de ter surgido em países de estrutura
capitalista, como forma de oposição às conseqüências econômicosociais do meio concorrencial, encontrou muita aplicação e
utilidade no meio socialista.
Mas, também aí, precisou se acomodar à realidade e aos fins da
reforma socialista.
O socialismo, como uma Doutrina, tem raízes muito antigas,
porém ele expandiu-se a partir do século XIX, sobretudo
depois de 1847, com a publicação do ‘Manifesto Comunista’,
de Karl Marx (Fig. 2.3)., como uma das formas de oposição às
conseqüências do Liberalismo Fisiocrata e Clássico.
Figura 2.3 – Karl Marx
Extraído do site: http://www.sarea50.org/cem/
42
Introdução ao Cooperativismo
O desajustamento entre a Doutrina Liberal Individualista e os
fatos provocou, no século XIX, um vasto movimento de reações
intervencionistas e socialistas. Ora, como forma de reação, as
Doutrinas Socialistas combateram, principalmente, o meio
concorrencial, considerando-o o maior responsável pelos males e
desigualdades sociais.
Todavia, os socialistas divergiam quanto aos meios a serem
empregados na realização de tal fim: uns propunham a associação
em oposição à luta desbragada do capitalismo; outros, a
modificação do sistema de produção ou repartição. Porém, de um
modo geral, todos preconizavam:
- a socialização da economia; e
- a planificação autoritária total ou integral da economia.
Com base nessas idéias, duas formas principais de socialismo se
destacaram durante o século XIX, a saber:
1. o socialismo espiritualista e voluntário, qualificado de
utópico por Marx e Engel; e
2. o socialismo marxista, também chamado de científico,
elaborado por Marx e Engel a partir de meados do
Século XIX.
Atualmente, muitos países estruturaram suas economias
inspirando-se em doutrinas socialistas. Como há uma
multiplicidade de doutrinas socialistas, é grande, também, a
variedade de estruturas que compõem o chamado meio socialista
de nossos dias.
De modo geral, porém, o marxismo constitui a fonte principal
de inspiração desse meio, embora combinado com elementos do
associacionismo, reformismo, sindicalismo revolucionário, etc.
As experiências comunitárias seculares, idealizadas pelos
socialistas associacionistas, constituíram-se nos primeiros esboços
de cooperativa, servindo posteriormente de modelo para os
Probos Pioneiros de Rochdale. Essa origem comum levou os
doutrinadores a afirmarem que o socialismo associacionista e o
cooperativismo são irmãos gêmeos.
Unidade 2
43
Universidade do Sul de Santa Catarina
Foi no sentido de instrumento provisório de propaganda das
idéias coletivistas que o cooperativismo foi amplamente utilizado
durante o século XX, principalmente a partir do término da 1ª
Guerra Mundial, pelas políticas econômicas socialistas, quer
revolucionárias, quer reformistas.
Em todas elas, a cooperativa acomodou-se ao conteúdo
doutrinário do socialismo.
SEÇÃO 7 - Principais realizações Cooperativas do Regime
Socialista
Na URSS e nos países coletivistas, de modo geral, o
cooperativismo representou, principalmente, um instrumento de
transição entre o capitalismo e o socialismo.
Não tendo sido possível a implantação da sociedade comunista
preconizada por Marx e Engel, os líderes soviéticos da época
tentaram atingir esse objetivo através do ‘bolchevismo’, que era
uma combinação entre o coletivismo marxista e o anarquismo.
Para os bolchevistas, o Estado era um organismo de coerção
incumbido de preparar, com base no proletariado, a futura
sociedade comunista integral.
A fim de atingi-la, a URSS passou por uma fase preparatória de
coletivismo autoritário e centralizado. Nessa fase preparatória
foram tentadas diversas experiências - todas sem terem
apresentado resultado satisfatório – tais como a do ‘Comunismo
de Guerra’ (1917-1921), a da ‘Nova Política Econômica’ (19211927) e a dos ‘Planos Qüinqüenais’ (1927...).
Ao ser abolida a propriedade privada dos instrumentos e meios
de produção, os soviéticos mantiveram, todavia, duas formas de
propriedade, a saber:
1. a propriedade do Estado; e
2. a propriedade cooperativa kolkhoziana.
44
Introdução ao Cooperativismo
As principais realizações cooperativas do Regime Socialista
foram:
A) Socialismo Revolucionário
1 - URSS
1.1 - Cooperativas de Consumo
„
Ex.; Selpo, Raysoyus e Tsentrosoyus
1.2 - Cooperativas de Produção Agrícola
„
Ex.: Kolkhozes (comuna, artel e toz)
2) Democracias Populares
2.1 - República Popular da China
2.1.1 - Cooperativa de Produção Agrícola
„
Ex.: comuna agrícola
2.1.2 - Cooperativas de Consumo e Crédito
2.2 - Tcheco-eslováquia
2.2.1 - Cooperativas de Produção Agrícola
2.2.2 - Cooperativas de Consumo
2.3 - Polônia, Hungria, Hungria, Romênia e Albânia
2.4 - Bulgária
„
Ex.: Cooperativas Agrícolas de Trabalho (Zadruga)
B) Socialismo Reformista
1 - Inglaterra
2 - Israel
3 - Índia
4 - México
O estudo das cooperativas, tanto no Regime Capitalista quanto
no Socialista, mostra-nos que, em ambos, as realizações se
distanciam da parte propriamente normativa da doutrina, mas,
Unidade 2
45
Universidade do Sul de Santa Catarina
de modo geral, conservam as finalidades doutrinárias de corrigir
o meio social e de prestar serviços.
No Regime Capitalista, a Doutrina Cooperativa procura atenuar
os desequilíbrios entre o consumidor e as forças hostis ao seu
interesse. Já no meio socialista é elemento de consolidação
da estrutura econômico social. Nos dois casos, presta serviço
por meio de seu instrumento de ação – que é a cooperativa –
permitindo o reerguimento econômico e de determinados setores
econômicos.
A multiplicação das cooperativas em estruturas econômicas tão
diversas dos Regimes Capitalista e Socialista comprova não
apenas o vigor da Doutrina, mas também sua utilidade.
Atividades de auto-avaliação
1) Que é uma doutrina?
46
Introdução ao Cooperativismo
2) Quais são os principais doutrinadores do cooperativismo?
3) Quais são as principais relações entre a Doutrina Cooperativista e as
outras Doutrinas e movimentos sociais?
Unidade 2
47
Universidade do Sul de Santa Catarina
Síntese
Você estudou nesta Unidade a Doutrina Cooperativa como
uma das Doutrinas que compõem o arcabouço das Doutrinas
Econômicas que, por sua vez, não apresentam um conteúdo
rígido, até porque apresentam críticas e propõem reformulações
aos sistemas que estão em permanente mudança.
A Doutrina Cooperativa surgiu no Século XIX em oposição às
conseqüências práticas da Doutrina Liberal e Individualista. A
partir deste cenário, você deverá aproveitar e aprofundar seus
estudos para que, na próxima Unidade, você possa ter uma
melhor compreensão a respeito da História do Cooperativismo.
Saiba mais
Para saber mais sobre o conteúdo estudado nesta unidade, acesse
os seguintes sites:
48
„
www.sebrae.com.br/Revistasebrae/07/entrevista.htm
„
www.coopernat.com.br/sociedade.htm
„
www.crasp.com.br/grupos~de~excelencia/
„
www.ciriec.es
UNIDADE 3
História do Cooperativismo
Objetivos de aprendizagem
„
Escrever os cinco principais fatos da História do
Cooperativismo.
„
Identificar os principais acontecimentos ocorridos na
evolução histórica do cooperativismo.
Seções de estudo
Seção 1 Os princípios da solidariedade
Seção 2 Gênesis do Cooperativismo
Seção 3 História do Cooperativismo na Idade Antiga
Seção 4 História do Cooperativismo na Idade Média
Seção 5 História do Cooperativismo na Idade
Moderna
Seção 6 As Organizações Cooperativas
Internacionais
3
Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de conversa
Nesta Unidade você acompanhará a contextualização do
surgimento do Cooperativismo, principalmente nos países do
Ocidente, como uma das decorrências da Revolução Industrial e
identificará os principais acontecimentos ocorridos na evolução
do Cooperativismo.
SEÇÃO 1 - Os princípios da solidariedade
Verificam-se manifestações do instinto de ajuda
mútua em toda a natureza e, até mesmo, nos últimos
degraus da vasta escala dos seres vivos. Subindo-a
paulatinamente, até atingirem-se os animais superiores,
encontram-se provas inconcussas de instinto, de
hábitos de solidariedade e apoio recíproco. São
clássicos os exemplos da formiga precavida e laboriosa
e da abelha ativa, símbolos do espírito de associação,
de serviço em causa comum. São conhecidas as suas
admiráveis organizações de defesa e apoio mútuo, tanto
na paz como na guerra.
Também entre os pássaros é freqüente, como bem frisam os
naturalistas e ecólogos, esse espírito de coesão, de cooperação na
luta em comum pela sobrevivência.
As próprias aves de rapina, antipáticas em seu instinto cruento,
têm também pendores acentuados para a vida coletiva. São hoje
por demais conhecidos e pesquisados seus hábitos de longos vôos
para se reunirem a outras, em pontos distantes.
Entre os pingüins é tão comum esse sentimento de solidariedade,
que eles tratam com efusivo desvelo os seus doentes, vigiandoos e alimentando-os com carinho. São de uma índole tão
comunicativa que se aproximam confiantes do próprio homem,
talvez seu maior inimigo. Assim, muitos animais, em suas
migrações, colocam os mais débeis no centro dos grupos,
destacando sentinelas avançadas para a sua defesa nas longas
jornadas e iniciam a caminhada para regiões onde esperam
melhores condições de vida.
50
Introdução ao Cooperativismo
A ciência nos tem mostrado os grandes ciclos, nos quais a
natureza trabalha, e a maneira pela qual as plantas marinhas
preenchem as necessidades dos animais marinhos, da mesma
forma como as plantas terrestres fornecem o oxigênio que os
animais consomem e estes, o carbono que as plantas absorvem.
Essas operações são incessantes. A natureza trabalha segundo o
princípio ‘todos por um, um por todos’. A pressão exercida sobre
um ponto repercute em cada uma das arcadas e em cada um dos
fundamentos do edifício. Há nela uma solidariedade perfeita.
Esse princípio, essa solidariedade, que existem na ordem da
natureza, tem por instrumento específico a cooperação na ordem
social, econômica e moral, bem como na órbita da
inteligência e na esfera profissional.
O homem como ocupante do mais elevado grau da
escala dos seres vivos, também prescinde de auxílio e
cooperação mútua (assim como tem sido desde seus
primórdios), para a consecução de seus objetivos mais
imediatos.
Objetivos são aquilo a cuja consecução se empreende
algo. É a causa que move o trabalho. A maneira de mover esta
causa é distinta, conforme o conhecimento que os seres podem
ter deste fim e estejam mais ou menos ligados por determinação
de suas ações, isto quer dizer, segundo sua natureza.
Por conseguinte, o modo de trabalhar das criaturas apresenta
grandes diferenças em função da diversidade de que estão
dotadas. Alguns seres carecem completamente de conhecimentos
e trabalham passivamente, outros conhecem o fim, porém de um
modo imperfeito, e há ainda seres que conhecem não somente a
bondade do fim, mas também sua proporção com a utilidade dos
meios. É o caso do homem que não somente conhece a bondade
dos frutos, senão também a proporção dos meios que deve
empregar para consegui-los.
Assim, o homem trabalha sempre por algum fim. Sempre que
ele trabalhou, o fez atraído pela razão do bem que esperava
conseguir. O homem possui um fim último, qual seja o desejo
de felicidade, que lhe é inato, sem o qual se julgaria um inútil.
Portanto, tende a obter uma unidade em suas operações,
mediante a ordenação de suas atividades para que consiga certa
Unidade 3
51
Universidade do Sul de Santa Catarina
primazia sobre os demais; assim procura adquirir bens, que
para ele são de duas classes: os materiais, que são de faculdades
orgânicas e os imateriais, que possuem faculdades inorgânicas.
Por esta razão, o homem se encontra em um
contínuo estado de procura da satisfação de alguma
coisa, pois sente fome, sede, frio e fadiga. Essa
sensação ou sentimento de falta de algo se denomina
‘necessidade’. E este sentimento o tem obrigado
a realizar aquilo que lhe serve para remediar ou
suprimir um estado desagradável ou de desconforto.
Por outro lado, a produção ou aquisição dos meios
necessários para atender as necessidades requer certo
esforço e um determinado sacrifício e, conseqüentemente, todo o
ser racional procurará alcançar a satisfação de suas necessidades
com o menor esforço possível.
Dessa forma, não há dúvida sobre a tendência do homem em
buscar sanar as exigências que o meio lhe impõe, através de
uma ação grupal, pois, assim é, talvez, mais fácil. Por isso, o
cooperativismo é um fenômeno que tem acompanhado a evolução
do homem desde seus primórdios.
O atual Movimento Cooperativo tem seu início em fins do século
XVIII e na primeira metade do século XIX. Por outro lado,
as idéias de ajuda mútua e solidariedade, assim como algumas
normas e práticas que hoje são utilizadas no Cooperativismo
Moderno, possuem suas raízes em tempos imemoriais. Diversas
destas tendências possuem a colaboração e o apoio comum, e
podem ser considerados como os antecedentes das modernas
organizações cooperativas.
SEÇÃO 2 - Gênesis do cooperativismo
A cooperação, em sentido amplo, surgiu na sua forma
mais elementar no preciso momento em que o homem,
compreendendo a precariedade de suas ações isoladas e distintas
entre si, na busca dos elementos indispensáveis à satisfação de
suas necessidades, procurou a colaboração de um semelhante
para, juntos, enfrentarem as dificuldades, cada vez maiores, e
conquistarem um meio alternativo, empregando métodos diversos
52
Introdução ao Cooperativismo
e desconhecidos para realizarem, dessa forma, o benefício
comum.
A História do Movimento Cooperativo é também a História
da Cooperação, portanto, naturalmente, a ‘idéia’ precedeu o
‘movimento’ em muitos milhares de anos. Os incrédulos nunca
se convenciam da verdade dessa afirmação, porém, atualmente,
pode-se afirmar, com certeza, que a idéia da
cooperação e do próprio cooperativismo, não só são tão
antigas como a humanidade, senão mais antigas ainda.
Assim, reportando-se aos primeiros aglomerados
humanos, encontrar-se-á, no período do nomadismo,
nuances mais ou menos imprecisas, mas bastante
indicadoras da cooperação através da ajuda mútua que
se prestavam no pastoreio e no auxílio recíproco, bem
como no cultivo das primeiras lavouras. Portanto,
pode-se afirmar que a História do Cooperativismo é a
própria história da humanidade.
SEÇÃO 3 - História do Cooperativismo na Idade Antiga
Paulatinamente, as comunidades aldeãs foram se transformando
e, quando a humanidade passou da Pré-história para História,
uma grande parte dessas comunidades já havia desaparecido. Na
época que se conhece como Idade Antiga (até o século V), a vida
econômica se desenvolveu sobre distintas bases.
Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia, Grécia, Roma e outras
civilizações organizaram suas atividades econômicas com base
no trabalho forçado dos escravos. Os Hebreus davam grande
importância ao trabalho livre e reconheciam a seus escravos
certos direitos, além de conceder-lhes, em determinados casos,
a liberdade ao final de sete anos de cativeiro. Porém, em geral,
as condições não eram adequadas para que se desenvolvessem
associações livres do tipo cooperativo.
Exemplos de cooperação na Idade Antiga encontram-se
principalmente na Grécia, em Roma, em Esparta e entre os
Essênios, talvez por serem esses os berços da civilização.
Unidade 3
53
Universidade do Sul de Santa Catarina
Na Grécia de beleza imperecível, esse
sentimento de mútuo auxílio agrupava todos
aqueles que, presos nas agruras do cotidiano,
premidos pelas contingências da luta pela
manutenção material, aspiravam a um melhor
padrão de vida, com uma parcela maior de
bem estar e um lugar justo e condigno ao sol.
Na Grécia Antiga, quase todas as pessoas
das classes média e baixa faziam parte de associações de cunho
cooperativo. Ressalta-se que das associações denominadas
Orglonas e Tiasas, que se formavam para garantir aos seus
membros eternos sepulturas decentes, nasceram as associações de
fins profissionais e econômicos. Nelas figuravam cidadãos livres,
escravos e até estrangeiros. A parte executiva da administração
cabia a um indivíduo denominado de arquimarista. Esta, talvez,
seja uma das primeiras experiências de cunho cooperativo que a
história do homem registra.
Os Colégios Romanos eram associações de operários de um
cunho cooperativo em Roma Antiga. Por outro lado, atribui-se
a Numa Pompílio a fundação de, aproximadamente, oito dessas
organizações entre sapateiros, carpinteiros, serralheiros e outras
classes de artesões.
Nos Colégios ingressavam os estrangeiros, os escravos alforriados
e os não alforriados, numa bela manifestação de ajuda mútua, de
solidariedade humana, que não estabelecia distinções nem tinha
preconceitos de qualquer espécie.
Já em Esparta e outros lugares, encontram-se manifestações
com características cooperativistas nos acampamentos militares,
nos quais a vida era regida por certas normas comunais. Em
alguns documentos atenienses e romanos, podem-se encontrar
referências ocasionais que parecem evidenciar a existência de
fundos de ajuda mútua.
Por outro lado, não é por pura casualidade que os primeiros
documentos de colônias cooperativas, no verdadeiro sentido
da palavra, levam-nos até o tempo do ‘Segundo Templo’, na
Palestina, antes de sua destruição pelos romanos; que a Colônia
Comunal, mantida pelos Essênios, em Ein Guedi, às margens
do Mar Morto, pode, com toda a justiça, ser considerada como
54
Introdução ao Cooperativismo
o primeiro ensaio do qual existem amplas informações, de uma
vida comunal assentada sobre o trabalho e a ajuda mútua.
Ao tratarem de libertar-se das iniqüidades e lutas dos centros
mais densamente povoados, os Essênios renovaram a sua vida
mediante a criação desta colônia independente.
Esta singular experiência foi possível conhecer em detalhes
graças ao descobrimento dos ‘Rolos do Mar Morto’, a partir das
escavações realizadas na região entre 1949 a 1952.
É muito provável que a comunidade Ein Guedi não tenha sido a
única de seu gênero, porém faltam provas materiais para poder
afiançar com exatidão a existência das demais. Talvez se possa
afirmar, com absoluta certeza, que a comunidade de Ein Guedi foi
a primeira “utopia socialista” que se converteu em realidade.
Convém, ainda, citar como uma das experiências com conotações
cooperativistas, aquela assinalada no Talmud (um dos livros
básicos do judaísmo), onde se encontram descrições da vida do
povo hebreu entre os anos 356 e 425 da nossa era. Através destas
descrições, verifica-se a existência de associações de mutualidade
entre as caravanas de mercadores para o seguro do gado asinino.
Sem dúvida, deve haver inúmeras outras experiências com
caráter cooperativistas registradas na história, demonstrando
que na Idade Antiga encontra-se a gênesis do Movimento
Cooperativista.
SEÇÃO 4 - História do Cooperativismo na Idade Média
No decurso desse período da história que se define por Idade
Média (século V a XV), evidenciaram-se na Europa nos
ambientes rurais e urbanos, bem como entre as civilizações
autóctones das Américas, atividades e sistemas de organização
que possuíam diversas manifestações cooperativistas.
No meio rural, na Idade Média, estabeleceram-se aldeias e
populações nos principais pontos de entroncamento das rotas
comerciais e de comunicação. Essas populações foram crescendo
em conseqüência do resultado de posturas radicais ocorridas
Unidade 3
55
Universidade do Sul de Santa Catarina
tanto no campo social como no econômico. Internamente, estas
comunas, quase sempre cerradas dentro de muralhas fortificadas,
foram gradualmente ganhando uma conotação de caráter urbano,
convertendo-se em excelentes centros de cultura, das artes e da
criação em geral. São inúmeros os exemplos de cooperação neste
período.
Em regiões hoje correspondentes à França, à Itália ou à Suíça,
sobretudo na Região dos Alpes
e também na Inglaterra, os
campesinos se agrupavam
para realizar coletivamente
a transformação e, algumas
vezes, a venda da produção
leiteira. Particularmente
na França são constituídas,
no século XII ou XIII, as
Frunteires, que conservam esta mesma denominação até a
presente data, através da constituição de queijarias cooperativas.
Nas Regiões de Jura e Sabóia, por exemplo, a fabricação em
comum de queijos, impõe-se por motivos técnicos, ou seja,
porque os queijos do tipo Gruyére, ali elaborados, possuem
enormes dimensões e necessitam da produção leiteira de um
considerável número de propriedades pequenas.
Os queijos produzidos são divididos entre os campesinos na
proporção do número de seus animais e é distribuído, em igual
proporção, o dinheiro proveniente da venda dos produtos que
excedem as necessidades de consumo destes campesinos. O
exemplo mais célebre é o da Les Frutiéres du Jura. Também nas
primitivas granjas dinamarquesas e nas comunas suecas são
aplicadas as mesmas práticas tradicionais encontradas nas regiões
francesas.
Entre os povos eslavos, encontram-se interessantes formas
de comunidades agrárias, tais como a Zadruga e o Mir russo,
podendo-se, ainda, citar como exemplo mais concreto o Artel,
também russo, cujas características em muito se aproximam das
modernas cooperativas de trabalho.
56
Introdução ao Cooperativismo
A Zadruga é o nome com que se designa a grande família sérvia,
ou seja, a agrupação igualitária que elege seu chefe e explora
um patrimônio em comum. O Mir russo é uma comunidade
de campesinos que habitam as terras pertencentes a um senhor
feudal (atualmente, o Estado), pagando um tributo coletivo
ao Estado pelo usufruto desta mesma área. O ‘Artel’, nome
dado na Rússia às associações de trabalhadores independentes
surgidas, aproximadamente, por volta do século XIV, abrangendo
principalmente pescadores, lenhadores e outros trabalhadores que
elegem seu próprio chefe, contratam coletivamente a realização
de diversas tarefas, bem como organizam o trabalho quanto à
distribuição dos ingressos obtidos.
Os povos germânicos organizavam especialmente associações de
agricultores para a realização de obras de irrigação, construção
de diques, exploração de bosques, bem como outras tarefas em
comum.
Na Armênia, ou mais precisamente na Região do Monte Ararat,
que fica na confluência das fronteiras
da Turquia, do Irã e da Rússia, as
mulheres realizam uma peculiar forma
de elaboração cooperativa, pois, com
o objetivo de poupar combustível,
levam sucessivamente sua produção
leiteira à casa de cada uma delas com o
intuito de obterem queijos e produtos
derivados, sendo que estes produtos são
posteriormente comercializados em comum e os lucros auferidos
distribuídos proporcionalmente.
Também, os povos maometanos chegam a levar parte de sua
produção a ‘celeiros de reserva’, que possuem características de
organismo de previsão e de caridade, além do de instituições de
crédito em espécie.
Todas estas organizações apresentam linhas ou traços que se
assemelham aos diversos tipos de cooperativas atuais.
Unidade 3
57
Universidade do Sul de Santa Catarina
No Meio Urbano, as populações cresceram e o ritmo das
novas condições sócio-econômicas se concentraram cada vez
mais nas cidades, onde a classe média, representada pelos
artesãos e comerciantes, passaram a se organizar em Gildas ou
Corporaciones, que se constituíram em instituições com certos
traços de semelhança com os sindicatos e cooperativas atuais.
As Gildas ou Corporaciones possuíam um espírito marcadamente
protecionista, bem como defendiam seus membros tanto da
concorrência externa quanto da de seus colegas. Para tanto,
fechavam o mercado urbano impedindo a entrada de produtos
externos e concomitantemente adotavam regulamentações bem
minuciosas a respeito das categorias dos trabalhadores, dos
preços, dos salários, do horário de trabalho, das ferramentas
e técnicas de produção chegando, inclusive, a estabelecer uma
ordem econômica igualitária.
Figura 3.1 - O período de 1100 a 1300 já foi chamado de Revolução Industrial da Idade Média.
Extraído do site: http://pt.wikipedia.org/wiki/Idade
As Gildas também representavam, perante as autoridades,
os respectivos grupos de artesãos e comerciantes, bem como
desenvolveram importantes atividades de ajuda mútua entre os
membros baseados na irmandade, arbitravam os seus conflitos
internos e, em alguns casos, chegavam a realizar tarefas de venda
e compra em comum dos produtos e matérias primas requeridas.
Entretanto, as Corporaciones se constituíram, evidentemente,
numa importante manifestação pré-cooperativa, sendo que estas
desenvolveram interessantes práticas de autogoverno e de ajuda
mútua em matéria econômico-social.
58
Introdução ao Cooperativismo
Dessa forma, são também incontáveis os acontecimentos no
meio urbano que, direta ou indiretamente, deram origem ao
Movimento Cooperativista.
Alguns dos ‘Monastérios Cristãos’ que floresceram na Idade
Média, constituíram-se, do ponto de vista econômico, num
tipo particular de cooperativas integrais ou comunidades autosuficientes, tanto no que concerne às atividades de produção
como nas de consumo.
Estas comunidades religiosas se mantinham em virtude do trabalho
de seus membros, tanto no setor primário como nas oficinas.
Nas Américas, vale destacar algumas civilizações autóctones
que existiram desde tempos imemoriais, com suas formas
de organização sócio-econômica contendo características
cooperativas.
Em regiões hoje ocupadas pelo México, existiu um povo
conhecido como Astecas, cujas terras pertenciam aos reis, aos
nobres, ao povo, à classe militar e à sacerdotal.
Figura 3.2 – Ruínas da civilização Asteca.
Extraído do site: www.cyberartes.com.br/edicoes/40/aprenda.asp?...
Estas terras, adjudicadas aos bairros ou comunidades,
constituíam os Calpullalli ou Calpulli. Nestas áreas, a propriedade
da terra era comunal, porém com o usufruto correspondente
às famílias ali residentes. Os Calpulli se dividiam em lotes
perfeitamente delimitados, sendo que o usufruto destes era
transmissível de pai para filho.
Unidade 3
59
Universidade do Sul de Santa Catarina
Estas terras não eram, pois, exploradas em comum, senão de per
si por cada família em usufruto, sendo que estas poderiam dispor
das colheitas, uma vez pagos os tributos reais e do senhor local. As
famílias de um mesmo Calpulli somente podiam realizar trabalhos
em comum com o objetivo de realizar obras de irrigação, tarefas de
cunho religioso e de defesa comum entre outras.
Outras experiências ocorridas na América deram-se na Região
do Altiplano Andino, hoje ocupada pelo Peru, onde habitavam
as tribos incaicas. O comunalismo incaico é uma marcante
experiência com características cooperativistas.
Inca (In significa luz e Ka significa ser luminoso) criou o Império
Incaico e deu vida ao Ayllus, que foi a base da economia e da
organização militar dos Incas. O Ayllus era uma espécie de Ejidos
ou Calpull’ mexicano, instituição político-social, dos Monos
egípcios, de base cooperativa. Com efeito, cada Ayllus era adjudicado
coletivamente a uma extensão de terra, sendo que neles não havia a
propriedade privada das terras ou do produto do trabalho.
O Inca fi xava anualmente, em usufruto a cada Ayllus, a extensão
de terra que correspondia ao número de seus membros. Com o
produto das colheitas eram pagos os tributos ao Inca e ao Sol
(sacerdotes) e o excedente era repartido entre os chefes de família,
proporcional ao número de pessoas que estes tinham a seu encargo.
Figura 3.3 – Macchu Picchu – Ruínas da civilização incaica.
Extraída do site: www.latinamericanstudies.org/incas.htm
As comunidades deviam também trabalhar as terras adjudicadas
ao Inca, a classe sacerdotal Sol e dos Curakas ou cacique,
60
Introdução ao Cooperativismo
além de se responsabilizarem também com o trato das terras
correspondentes às viúvas, aos anciãos e aos enfermos.
Nos Ayllus, o trabalho era em comum, uma espécie de
cooperativa integral moderna. Expandindo-se pelo continente,
os Incas levavam ou estimulavam essa forma de trabalho
cooperativo, dividindo o trabalho e fazendo a exploração de
numerosas indústrias sobre um plano cooperativo. O Estado
apoiava, sobretudo, as ‘Cooperativas de Produção’.
Era um sistema de governo cooperativo, embora possuindo
um cunho de economia dirigida. Os Ayllus representaram, na
civilização incaica, papel relevante como elemento de equilíbrio
de forças orgânicas no campo da produção.
Federavam-se em Kuris, semelhantes aos distritos atuais. Eram
dirigidos por Curakas, que tinham um papel de coordenação,
direção e racionalização agrária e industrial, além do papel
político. A estrutura econômica e administrativa do Kuris
baseava-se como idéia força na cooperação social. Os Kuris
reuniam-se para constituir o Waman ou província, e a cooperação
dos Wamans constituíam-se em ciclópicas regiões ou Suyos.
Assim como no México e no Peru, reminiscências de
organizações incaicas também são encontradas em territórios hoje
pertencentes à Argentina, mais propriamente na região norte
deste país, principalmente entre os nativos ditos “crioulos”. Os
povos que habitavam essas regiões são originários dos Diaguitas,
cujos traços se encontram nas Províncias de Jujuí, Salta, Tucumã,
Santiago del Estero, La Rioja e Catamarca.
Os Diaguitas possuíam o Kulpi, habitação patriarcal, na qual o
nativo era chefe supremo, repartindo com os seus o produto da
terra. Não havia propriedade privada, esta pertencia à comunidade,
que era governada por um conselho de velhos sacados do seio dos
melhores agricultores e com crédito bastante para distribuir a terra
em consonância com as necessidades de cada família. Possuíam o
mesmo tipo de federação do Ayllus organizados em Kuris, com um
governo central. Cultivavam, principalmente, o milho e o algodão
e não conheciam a moeda. O produto do trabalho pertencia a toda
a comunidade, que se auto-abastecia.
No Paraguai, condições semelhantes também são encontradas.
Os Guaranis tinham o seu Tupambaé, no qual se efetuavam os
Unidade 3
61
Universidade do Sul de Santa Catarina
cultivos coletivos e onde pastava o gado, conservando cada um o
seu Abambaé (lote particular), existindo, no seu regime agrário,
muitos elementos para uso comum, tais como, os bois e os
instrumentos agrícolas.
SEÇÃO 5 - História do Cooperativismo na Idade Moderna
No período compreendido entre os séculos XVI e XVII, revelamse na Europa as obras de uma série de filósofos e economistas
que procuraram remediar os graves males das organizações
sócio-econômicas da época. Seus pequenos romances e outros
escritos de cunho social descreviam minuciosamente novos tipos
de comunidade, melhor organizadas, bem como propunham
originais conceitos sobre governo, propriedade privada, trabalho,
família e educação.
Entre essas obras destacam-se A Republica, de Platão (428 – 347 a.C.),
Utopia, de Thomas Moro (1478 – 1535), A Cidade do Sol, de
Tommaso Campanella (1568 – 1639), A Nova Atlântica, de Francis
Bacon (1561 – 1626), além do Novo Testamento, entre outros.
Figura 3.4 – Thomas Moro.
Extraída do site: http://it.wikipedia.org/wiki/Tommaso_Moro
As idéias desses filósofos, muitas vezes singulares ou estranhas,
porém sempre inspiradas na nobre ambição de obter um
melhoramento das condições gerais de vida humana, e que
também, de alguma maneira, influenciaram na Idade Moderna
dois significativos movimentos da História Universal: ‘As
Colônias Religiosas’ e ‘As Missões Jesuíticas’.
62
Introdução ao Cooperativismo
Colônias de Cunho Religioso
Tanto as inquietudes espirituais, quanto a intolerância e as
perseguições religiosas da época, estimularam alguns grupos
religiosos a organizar colônias com economia coletiva em diversas
regiões do continente europeu e americano dando início a
movimentos religiosos com conotações cooperativistas.
Estas colônias constituíram-se principalmente entre os séculos
XVII e XVIII, sendo que também são encontradas manifestações
deste quilate anterior e, ainda, posterior a esse período. Assim
vale citar as seguintes colônias:
„
de ‘Amana’, estabelecida inicialmente na Província
Alemã de Hesse (1714) e, posteriormente, em Bufallo
(1843) e em Iowa 1855), nos Estados Unidos da
América;
„
‘Ephrata’, fundada pelos ‘Dunkers’ em território alemão
(1734);
„
dos ‘Anabaptistas’, fundadas na Bohemia (1529) e a
dos ‘Huterianos’ estabelecida na Moravia (1526), que
emigraram séculos depois para a Região de Dakota do
Sul (1871), nos Estados Unidos;
„
dos ‘Rappitas’, que se agruparam em território alemão
(1787) e, posteriormente, na Região de Indiana, nos
Estados Unidos, onde fundaram a Colônia New
Harmony (1805);
„
por último, da Seita russa dos ‘Dujobors’ ou ‘Ducobors’,
que emigraram para os Estados Unidos e Canadá (1896).
As colônias aqui mencionadas chegaram a constituir o número
aproximado de duzentas e cinqüenta aldeias coletivas. Várias
destas conseguiram manter-se por algumas gerações até
declinarem para apenas um reduzido número que ainda perdura.
Suas realizações, geralmente, foram limitadas a pequenos
núcleos sem exercerem uma imediata importância, porém
tiveram, indubitavelmente, influência sobre o ideário de Robert
Owen, Charles Fourier e outros Precursores do Cooperativismo
moderno, que intentaram durante o século XX a organizar
colônias com idéia de caráter social e não religiosos.
Unidade 3
63
Universidade do Sul de Santa Catarina
As Colônias Jesuíticas
Ao contrário do movimento anterior, as Missões Jesuíticas são
abundantemente exploradas pela literatura, por essa razão, não se
pode deixar de mencioná-las.
As Missões Jesuíticas desenvolveram-se na América Latina
durante os séculos XVII e XVIII (até a expulsão dos jesuítas
decretada por Carlos III, em 22 de março de 1767), numa área de
quase oito milhões de quilômetros quadrados, abrangendo parte
da Argentina, Brasil, Paraguai e do Uruguai, habitada pelos
povos ‘Guaranis’, onde os jesuítas empreenderam o que hoje se
conhece por ‘República dos Guaranis’.
Estas terras eram indivisas. O gado era para uso comum. Em
cada Missão, a propriedade coletiva do solo e dos animais de
criação possibilitou a reserva de campos e pastagens para bois,
ovelhas e cavalos e para policultura. Além da agricultura e
pecuária, florescia o artesanato.
Fabricavam tecidos e móveis, montavam e produziam relógios e
carrilhões, trabalhavam imagens de santos, construíam igrejas,
fundiam e forjavam metais, movimentavam prelos, fazia-se vinho.
Figura 3.5 – Ruínas das missões Jesuíticas em São Miguel, RS.
Extraída do site: http://www.terra-australis.com.br/terra-australis/galeria/galeria106.htm
Inevitavelmente, o tempo e o lugar fizeram com que esta
‘República Modelo’ contrariasse as ambições dos colonos
espanhóis e se visse envolvida nas disputas na América entre
Portugal e Espanha.
64
Introdução ao Cooperativismo
Os ideólogos da ‘República Cooperativa dos Guaranis’ foram dois
padres jesuítas de origem italiana, os quais fundaram a primeira
‘Redução’, denominada de Nossa Senhora de Loreto, nos primeiros
dias de 1610.
Assim, através de transplante ideológico (Ato dos Apóstolos,
Utopia, Cidade do Sol etc.), os padres jesuítas promoveram esta
experiência comunitária e de colonização com características
muito específicas, resultado também da combinação entre
a direção teocrática dos sacerdotes com diversos caracteres
igualitários dos nativos, além da preocupação com a elevação
espiritual e material das populações autóctones.
Parece que um dos principais motivos do verdadeiro complô
pactuado pelos poderosos da época contra essa exitosa experiência
foi o equívoco estratégico de terem iniciado a exportação dos
seus excedentes gerados, mormente couro, sebo e mate e outros
produtos muito procurados pelo comércio europeu.
Tal projeto não poderia continuar de jeito nenhum, por isso,
decretaram a sua destruição. Cabia desmantelar esta nova forma
de produção e de vida antes que fosse tarde, porquanto o sistema
vigente no mundo dominante estava sendo posto em xeque.
Por outro lado, o desmantelamento das Reduções deu-se com
extremos de crueldade e injustiça. Restam hoje, apenas, ruínas da
inédita civilização cooperativa, cujas raízes ainda podem medrar.
Contudo, inquestionavelmente, as Reduções Jesuíticas foram
um marcante exemplo de vida comunitária associada, que pode
servir, em muitos aspectos, como uma nova alternativa tanto para
o cooperativismo como para a sociedade em geral.
A gênesis do cooperativismo pode ser encontrada desde a Idade
Média até a Idade Moderna, através do estudo de inúmeros fatos
históricos que marcam a própria história da humanidade.
Unidade 3
65
Universidade do Sul de Santa Catarina
SEÇÃO 6 - As Organizações Cooperativas Internacionais
O estudo do pensamento cooperativo pode ser facilitado pela
exposição dos esforços que foram realizados e se fazem, ainda,
para criar uma organização única de caráter internacional.
É natural que nessas organizações de caráter internacional sejam
colocadas, diretamente ou de uma maneira subsidiária, nos
grandes problemas doutrinários da ação cooperativa.
Quando falamos dos Precursores do Movimento Cooperativo,
apresentamos que Robert Owen foi o primeiro a emitir a idéia de
uma organização internacional para o Movimento Cooperativo.
Assim, ele fundou em Londres, em 1835, a ‘Associação de
todas as classes de todas as nações’ (Association of all Classes of all
Nations), cujo objetivo era o de contribuir para colocar em prática
o seu sistema social. Essa associação foi constituída somente por
membros ingleses. Ela tinha uma seção para assuntos nacionais e
outra para assuntos internacionais.
A ação iniciada por Owen não teve efemeridade. No entanto,
do ponto de vista histórico podemos observar que essa idéia de
uma organização cooperativa com bases internacionais nasceu do
pensamento de um homem em uma época em que o Movimento
Cooperativo moderno ainda não existia.
A idéia não foi perdida, mas sua realização progrediu muito
lentamente. Por exemplo, uma data na história da organização
internacional do cooperativismo foi a participação, pela primeira
vez, de dezoito delegados estrangeiros no Congresso Cooperativo
Inglês, em 1869.
Porém, foram os cooperativistas ingleses os primeiros a se
interessarem pelo Movimento Cooperativo de outros países.
Mas, também, merece atenção as discussões em torno da idéia
cooperativa internacional entre os cooperativistas franceses
– especialmente Emile de Boyve e Charles Gide – e os
cooperativistas ingleses, que tinham como líder o incansável
Edward Vansittart-Neale e Edward Owen Greening.
A primeira proposta concreta para a criação de uma aliança
internacional foi apresentada em 1886, no Congresso
66
Introdução ao Cooperativismo
Cooperativo de Plymouth, por Emile de Boyve, que representava
a União Cooperativista Francesa, a qual se encontrava, naquele
momento, em fase de constituição.
No mesmo ano, ele apresentou no Congresso Cooperativo de
Lyon, da Federação das Cooperativas Francesas, um relatório
sobre as cooperativas na Inglaterra.
No Congresso Cooperativo Inglês, em 1887, o qual se reuniu em
Carlisle, Boyve retomou essas idéias e fez uma proposta concreta.
A proposta foi acatada, mas demorou-se, aproximadamente,
oito anos em intermináveis discussões preparatórias. Foi em
1892, em Londres, que foi criada a Associação dos Amigos do
Cooperativismo de Produção.
Porém, a idéia de uma união permanente internacional somente
tomou forma definitiva em 1895, durante o primeiro Congresso
Internacional, convocado e realizado em Londres. Esse
Congresso foi aberto em 19 de agosto por Earl Grey e, nele,
decidiu-se pela criação da Aliança Cooperativa Internacional.
O Congresso seguinte se reuniu em 1896, no Museu Social
de Paris, sendo presidido por Jules Siegfried, ex-ministro.
Nele foram então definidos os primeiros estatutos da Aliança
Cooperativa Internacional.
A constituição da Aliança Cooperativa Internacional sofreu
numerosas modificações, sendo que Charles Gide dividiu a sua
história em três momentos ou períodos: burguesa, socialista e
autônoma.
O primeiro período, que começou pelos ‘Amigos do
Cooperativismo de Produção’, era burguês já que as
personalidades marcantes do movimento, os socialistas cristãos
Kingsley, Maurice e Vansittert-Neale, eram influenciados pelas
idéias de Charles Robert, o defensor francês da participação
nos lucros, sistema que eles procuravam divulgar no mundo
industrial.
Em seguida à entrada na Aliança das Uniões Nacionais dos
consumidores do continente europeu, houve, pouco a pouco,
uma evolução nos pontos de vista dominantes na ACI e, a partir
daquele instante, toda a atenção se voltou para a organização
Unidade 3
67
Universidade do Sul de Santa Catarina
do poder de compra das classes operárias, pela eliminação do
lucro do comércio varejista, primeiramente pelas cooperativas de
consumo locais e, em seguida, o do comércio atacadista através
das federações nacionais dessas cooperativas.
As etapas de solidificação da nova concepção foram os
Congressos de Delfi (1897), Paris (1900) e Manchester (1902),
data na qual a Aliança entrou em um novo período.
O Congresso de Budapeste, em 1904, fez ressaltar as
divergências de pontos de vista entre os representantes das
cooperativas de consumo por um lado, que consideravam o
Movimento Cooperativo como um movimento de reforma
social com tendências anticapitalistas e os schulzerianos junto
com os raiffeiseanianos, por outro lado, que consideravam que o
Movimento Cooperativo deveria se manter dentro dos limites da
ordem capitalista vigente.
Outro problema importante debatido também neste Congresso
foi o das relações do Movimento Cooperativo com o Estado.
Na evolução da Aliança Cooperativa Internacional,
acreditamos poder distinguir períodos,
conforme as idéias dominantes foram impostas
pelas necessidades de um ou de outro ramo,
principalmente, do Movimento Cooperativo.
O primeiro período - assinalado até o Congresso
de Manchester, de 1902, corresponde ao período
denominado pelas idéias de Charles Gide, “o período
burguês” - caracterizado pela preeminência da idéia da
participação nos lucros e da cooperativa de produção.
O segundo período é caracterizado pela dominação das
cooperativas de consumo. Esse período compreendeu, como
subdivisões, os períodos que Charles Gide definiu como o
período “socialista” e o período da neutralidade.
Podemos, então, afirmar que a Aliança entrou em um novo
período a partir do Congresso de Gand (1924), caracterizado
pelo alargamento da concepção cooperativa, a fim de poder
abraçar igualmente as cooperativas formadas por pequenos
produtores independentes, sobretudo agricultores.
68
Introdução ao Cooperativismo
A partir destes períodos iniciais, outros têm se sucedido ao longo
da existência da ACI, apesar das interrupções momentâneas
ocorridas em função das duas Grandes Guerras mundiais.
Atividades de auto-avaliação
1. Disserte sobre o marco histórico do surgimento do cooperativismo.
2. Qual é considerada a primeira cooperativa?
3. Que importância tem a criação da Cooperativa dos Probos Pioneiros de
Rochdale?
4. O que é, e quando foi constituída a Aliança Cooperativa Internacional?
Unidade 3
69
Universidade do Sul de Santa Catarina
5. Quando é celebrado o Dia Internacional do Cooperativismo?
6. Quais são os símbolos do cooperativismo?
7. Que papel preconiza as Nações Unidas para o cooperativismo?
Síntese
Você estudou nesta Unidade que os procedimentos atuais em
termos de Cooperativismo foram originados dos esforços de
muitos pensadores. Estes acontecimentos, assim como muitos
outros, fazem parte da História do Cooperativismo Mundial em
distintas fases do tempo e lugares, podendo, inclusive, os mesmos
ter influenciado no aparecimento do Cooperativismo Brasileiro.
Essa visão pode ser objeto de um aprofundamento através de
pesquisas a qual você deve dar início. Já na próxima Unidade
você irá empreender uma viagem pela evolução dos Princípios
Cooperativos.
70
Introdução ao Cooperativismo
Saiba mais
Para saber mais sobre os conteúdos abordados nesta unidade,
sugere-se a pesquisa nos seguintes sites:
„
www.cu.com.py⁄informacion⁄ historia-cooperativismo.php
„
www.coopserp.com ⁄ htm ⁄coop_historia.htm
„
www.brathair.cjb.net
Unidade 3
71
UNIDADE 4
Princípios do Cooperativismo
Objetivos de aprendizagem
„
Compreender o que são Princípios Cooperativos.
„
Enunciar a evolução dos Princípios Cooperativos e sua
importância no desenvolvimento de cooperativismo.
„
Identificar as principais características dos Princípios
Cooperativos.
Seções de estudo
Seção 1 Princípios Cooperativos
Seção 2 Os Pioneiros de Rochdale
4
Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de conversa
Nesta unidade você conhecerá a evolução dos Princípios
Cooperativos desde a Cooperativa dos Probos Pioneiros de
Rochdale passando pelas suas três atualizações assim como a sua
importância para o desenvolvimento do Cooperativismo.
SEÇÃO 1 - Princípios Cooperativos
Quando o empregamos com um significado mais preciso e, em
particular, para referir-nos a certas técnicas de trabalho conjunto,
esta é a característica de um gênero completo de organizações
sociais e econômicas conhecidas por
“cooperativas”, as quais estão presentes
em todos os rincões do Planeta Terra.
As entidades que, atualmente,
conhecemos pela denominação de
cooperativas surgiram na Europa, em
fins do século XVIII, como uma reação
popular de defesa frente às situações
de injustiça e abuso derivados das
condições imperantes.
O ambiente sócio-econômico da época se caracterizava pelas
seguintes circunstâncias:
„
escassa intervenção do Estado nas atividades econômicas;
„
predominância das doutrinas individualistas;
„
significativa evolução tecnológica, a qual determinou a
Revolução Industrial;
„
desumanas condições de trabalho impostas no início da
Revolução Industrial;
„
desumanas condições gerais de vida;
„
74
situação de absoluto desamparo da maioria da população
frente aos intermediários.
Introdução ao Cooperativismo
Em função destas situações tão aflitivas, os setores mais
modestos da população, que eram ao mesmo tempo os setores
mais numerosos, buscaram soluções baseadas na associação de
esforços para compensar, assim, a debilidade individual de seus
componentes com a força de seu número.
Mediante associações, procuraram, não somente a satisfação
mais imediata de suas necessidades materiais, senão também a
consecução de ideais já expressos por numerosos pensadores da
época, acerca de uma vida mais justa e solidária.
Frente à intermediação supérflua, à adulteração de produtos, à
usura e outros males existentes, a reação das pessoas afetadas
consistiu em estabelecer empresas adequadas, mercê da associação
de seus esforços e recursos.
Para satisfazer suas legítimas necessidades, os
indivíduos criaram as cooperativas, suas próprias
empresas, assumindo os riscos e gozando das
vantagens, com base em normas de organização e
funcionamento, e buscaram realizar seus ideais de
igualdade, solidariedade, justiça, eqüidade, liberdade
e educação.
Também, podemos destacar que o Movimento Associacionista
teve manifestações nos campos trabalhista, político e sócioeconômico, dando lugar, neste último caso, ao aparecimento das
modernas Organizações Cooperativas. Não podemos deixar de
destacar que diversos tipos de cooperativas, destinadas a servir
distintas necessidades da população, surgiram simultaneamente
nesta época por toda a Europa.
A aristocracia medieval havia sido substituída no poder por uma
nova classe, a dos empresários, proveniente de uma transformação
total da concepção humana do trabalho profissional, em parte,
devido à influência do protestantismo, ela era dotada de um
sentido valorativo próprio.
Com a introdução de novas técnicas nos campos agrícola e
industrial, a classe dos empresários viu-se frente a um adversário
mortal, a nascente classe proletária. A migração dos campos para
as cidades, por força da introdução de maquinaria na agricultura,
fez aumentar o já elevado volume de mão-de-obra disponível.
Unidade 4
75
Universidade do Sul de Santa Catarina
Faltava apenas uma experiência triunfante para a bola de neve
iniciar a descida. Colhendo uma idéia daqui, outra dali, os
Probos Pioneiros de Rochdale, em 1844, conseguiram organizar
um todo coerente, resistente às investidas de todos os que viam
na cooperação um perigo para o status quo.
Foram vinte e oito (28) os fundadores da Cooperativa Rochdale
Society of Equitables Pioneers, operários na quase totalidade.
Ressalta-se, no entanto, que havia entre eles uma mulher.
Rochdale, arrabalde industrializado de Manchester, Condado
de Lancashile, viu, assim, nascer o moderno cooperativismo.
A instalação, em Toad Lane (Beco dos Sapos), da pequena loja
tinha por objetivo tirar o maior proveito dos magros salários que
auferiam os associados, permitindo-lhes, assim, dispor de algum
capital para a sua empresa de produção.
Quando da criação da Cooperativa dos Probos Pioneiros de
Rochdale, o seu prodigioso Estatuto previa a organização do
empreendimento baseada em princípios, aos quais todos deveriam
aderir.
Por Princípios Cooperativos entende-se: os postulados
morais de onde derivam as regras fixadas pelo
costume cooperativo.
Cooperação, Cooperativas, Cooperativismo referem-se ao
trabalho conjunto, de acordo com princípios fundamentais, cujos
participantes devem estar de acordo para cumpri-los.
Definir os Princípios Essenciais à Cooperação não é um mero
exercício acadêmico. Representa, em si mesmo, um problema
prático, por exemplo, para o legislador. Como a Cooperação
se difunde pelo mundo e os distintos governos apreciam as
suas vantagens como um dos componentes de seus sistemas
econômicos nacionais, então, deve existir alguma forma de
previsão legal, assim como qualquer outro tipo de associação
dedicada ao comércio, à indústria, aos bancos, etc.
Como classes de associações ou empresas, lhes deve ser
assegurado o reconhecimento como cooperativas perante a lei,
receber proteção, conferir-lhes personalidade jurídica, assim
76
Introdução ao Cooperativismo
como todos os demais direitos ou privilégios adicionais, os quais
o governo crê ser conveniente outorgar-lhes.
Portanto, é indispensável uma definição, não apenas para
destacar a Associação Cooperativa dos outros tipos de associações
econômicas que também trabalham sobre princípios diferentes,
bem como para prevenir que empresas espúrias pretendam obter
reconhecimento cooperativo, para poderem usufruir possíveis
privilégios destinados às genuínas.
O verdadeiro êxito da cooperação e,
porque não dizer, do cooperativismo
foi a sua difusão ao longo dos tempos
no mundo, assegurando sua própria
sobrevivência ao aceitar as condições do
meio, pois conspiraram para aumentar o
risco de que seus princípios fossem mal
entendidos, mal interpretados, diluídos
ou desnaturalizados.
À medida que experimentava o sucesso e se tornava cada
vez mais conhecido na Europa, o Sistema da Cooperativa
de Consumo de Rochdale, já com mais de cem anos, serviu
de modelo para muitas organizações. Elas foram concebidas
por pseudos cooperadores, os quais propugnavam alguns dos
princípios formulados pelos Pioneiros, enquanto negavam outros
ou adicionavam ainda outros completamente diferentes dos
formulados pelos Probos Pioneiros.
Essas sociedades, que não reparavam seus erros a tempo,
fracassaram, em virtude de múltiplas causas: restrição para
associar-se, descuido para com os aspectos relativos à educação,
débeis órgãos democráticos, desacordos religiosos e políticos, etc.
Por fim, para se tornarem autênticas cooperativas, estas devem
estar organizadas e funcionar com base nos princípios ou normas
fundamentais cooperativas. É necessário reconhecer que estes
Princípios ou Normas não são de caráter absolutamente imutável,
porém devem manter, no essencial, sua vigência ao longo dos
anos e são objetos de reconhecimento praticamente universal.
Unidade 4
77
Universidade do Sul de Santa Catarina
As raízes dos Princípios Cooperativos têm como berço a Rochdale
Society of Equitables Pioneers. Elas fizeram parte do projeto que os
animava, o qual não foi objeto de qualquer proclamação solene,
pois se limitou tão somente a impregnar os estatutos da nova
organização. Os seus trinta e quatro (34) artigos revelaram uma
minuciosa atenção quanto ao funcionamento da cooperativa e à
articulação dos seus órgãos, tornando nítida a democraticidade
interna e a proeminência da Assembléia Geral.
Os Princípios que vieram a ser difundidos por todo o mundo não
estavam explícitos, mas sim implícitos
ao longo dos artigos do Estatuto.
Combinando sabiamente uma grande
sensibilidade perante os problemas
práticos que no dia-a-dia tinham de
enfrentar com uma generosa carga
utópica, os Pioneiros estabeleceram um
conjunto de regras que muito veio a
contribuir para o desenvolvimento do
fenômeno cooperativo.
Recorda-se, no entanto, que a
importância irrecusável da iniciativa dos Probos Pioneiros de
Rochdale não pode ser confundida com o nascimento ou a
fundação do cooperativismo moderno. Na verdade, sendo este
o desabrochar organizativo consciente de uma prática social
latente, que ao longo dos tempos não deixou de ter afloramentos
concretos, embora esporádicos, certamente se compreende que,
nas décadas anteriores ao aparecimento dos Probos Pioneiros de
Rochdale, ele tenha sido prenunciado por uma série de tentativas
congêneres.
SEÇÃO 2 - Os Pioneiros de Rochdale
Todas as experiências cooperativistas anteriores são, aliás, um
elemento determinante para se poder compreender Rochdale.
Foi um tempo de grande precariedade, de múltiplas tentativas
falhadas, de uma enorme mortalidade cooperativa. O exemplo
mais relevante pode encontrar-se no grande surto de cooperação
“owenista” ocorrido na Inglaterra, nos anos trinta do século XIX.
A uma espantosa irradiação, sucedeu um impressionante declínio.
78
Introdução ao Cooperativismo
Sabendo-se que os Pioneiros de Rochdale estavam longe
de ser indiferentes à Doutrina de Robert Owen, vê-se bem
que os Princípios Cooperativos inicialmente foram, além do
mais, parâmetros dirigidos à correção de práticas
anteriores. Representaram, é certo, um olhar
ambicioso e sonhador, apontando para o futuro,
mas não deixaram de ser uma demarcação nítida
em face de experiências que os precederam. E
valorizar a raiz dos Princípios Cooperativos
implica, necessariamente, não esquecer quem
eram os Probos Pioneiros de Rochdale, com que
futuro sonharam, que erros pretenderam evitar.
À partida, torna-se também claro, que eles não tinham um
horizonte limitado à cooperativa de consumo, embora, na prática,
em larga medida, a ela se tivessem confinado.
Com visão profética, os Probos Pioneiros de Rochdale
interpretaram a necessidade de educar os sócios de sua empresa
cooperativa desde o início, apesar de não estar clara como uma
regra básica do Primeiro Estatuto da Sociedade, a educação
cooperativa os angustiava.
Logo, os iniciantes trataram de organizar uma biblioteca pública
e alguns cursos, os quais eram impartidos entres os pioneiros
e cobriam as mais variadas gamas culturais. Por outro lado, já
na reformulação em 1845 e 1854 de seu Estatuto, os Pioneiros
incluíram e ampliaram a sua visão concernente à educação.
A notoriedade dos Princípios de Rochdale seria limitada
durante algumas décadas. O Movimento Cooperativo percorria
o segmento inicial da sua trajetória, no quadro de uma forte
interação com outros componentes do Movimento Operário, o
que se somando ao caráter difuso da explicitação dos princípios
e à própria fluidez da atividade cooperativa, torna compreensível
esse relativo apagamento.
Foram expostos pela primeira vez, de forma sistemática pela
Cooperativa dos Probos Pioneiros de Rochdale, em 1844, os
Princípios Cooperativos, que, com a aproximação do Congresso
de fundação da Aliança Cooperativa Internacional – ACI, em
1895, pelo que isso representava no campo da cooperatividade
e pelo que viria a suscitar, tornaram-se mais ostensivos. Não
Unidade 4
79
Universidade do Sul de Santa Catarina
foi estranha a esse ressurgimento a publicação da história dos
Equitables Pioneers of Rochdale, de autoria de Georges Jacob
Holyoake, acontecida em 1888.
Nascida em 1895, a ACI ocupar-se-ia, naturalmente, dos Princípios
Cooperativos, primeiro para decidir quem podia ser admitido como
membro, mais tarde, com ambições mais amplas. As profundas
modificações produzidas no comércio e na indústria mundial, em
quase um século de criação da Cooperativa de Rochdale, fizeram
com que deixasse de haver uma unanimidade de compreensão e
interpretação dos Princípios Cooperativos, cuja conseqüência foi a
realização da primeira grande revisão de seus conteúdos.
A partir de 1919, a ACI começou a procurar fi xar um conjunto
de princípios com validade universal de acordo com as Regras de
Rochdale, desencadeando um longo debate, o qual se prolongou,
com maior ou menor relevo, ao longo de, pelo menos, uns vinte
anos e acabaria por conduzir à formulação de 1937, em Paris.
Às sete etapas preconizadas por Desroche, podemos agregar
mais uma, cuja base é o Congresso do Centenário da Aliança
Cooperativa Internacional, ocorrido em Manchester, Inglaterra,
no ano de 1995 e, no qual, os Princípios foram novamente
atualizados à luz do novo desenho de cenário internacional.
Porém, deste leque de pontos de referência, os processos que
merecem maior atenção são os que conduziram as duas vertentes
dos Princípios Cooperativos que, até hoje, são formalmente
adotadas pela ACI.
O primeiro destes dois processos foi desencadeado no Congresso
da ACI, realizado em Viena, em 1930. A Fedération Nationale
Française des Cooperatives de Consommation apresentou um
memorando como suporte de uma Resolução, no qual expressava:
O Congresso da Aliança Cooperativa Internacional
solicita ao Comitê Central para designar uma comissão
especial para pesquisar as condições em que são aplicados
os Princípios de Rochdale nos diversos países e para,
eventualmente, os tornar mais precisos.
No XIV Congresso da ACI, realizado em Londres, a Comissão
apresentou um Relatório em que propunha um elenco de sete
80
Introdução ao Cooperativismo
princípios, quatro dos quais básicos ou obrigatórios, enquanto os
três restantes deviam ser encarados mais como métodos de ação e
de organização do que como verdadeiros princípios.
Entre os quatro primeiros, contavam-se:
1. a adesão livre;
2. o controle democrático;
3. o retorno com base nas compras;
4. o juro limitado ao capital.
O três princípios secundários ou recomendados, eram:
1. a neutralidade política e religiosa;
2. a venda à vista;
3. o desenvolvimento da educação.
Henri Desroche (1988, p. 27) lembra que, além desses sete
Princípios Cooperativos, quatro outros foram considerados
controversos ou supérfluos. Eles eram: indivisibilidade e
inaliebilidade do ativo; comércio exclusivamente com os
associados; adesão voluntária; e venda a preço de mercado.
O sentido e a repercussão dos Princípios Cooperativos aprovados
pelo Congresso da Aliança Cooperativa Internacional foram
comentados globalmente e sobre eles Henri Desroche (1988, p.
30) escreveu:
Durante três dezenas de anos, o Movimento Cooperativo
Internacional viverá assim com a base neste septuário
mais ou menos normativo. Ter-se-á visto a famosa
nomenclatura traduzida em todas as línguas e afi xada
nas lojas, nas oficinas, nas aldeias ou salas de reuniões
de vários continentes. Era cômoda. Sabia-se que
era suficientemente elástica para não se formalizar.
Simbolizava uma plataforma internacionalista.
Unidade 4
81
Universidade do Sul de Santa Catarina
Alguns anos após, tem-se a eclosão da Segunda Grande Guerra
Mundial, a qual se seguiu uma lenta e dolorosa recuperação
mundial e donde resultou uma profunda alteração geopolítica
do cenário mundial. Surge, então, a Guerra Fria, que cresceu no
decurso dos anos cinqüenta.
No quadro de um impetuoso processo de descolonização, novos
países surgiram no concerto das nações. Quando a Aliança
Cooperativa Internacional chegou ao Congresso de Bournemout,
no ano de 1963, um quarto de século já havia decorrido desde
o famoso Congresso da ACI, realizado em Paris. Um mundo
diferente, aliás, muito diferente daquele que existira em 1937,
parecia ter evoluído.
A pressão da realidade sobre os Princípios Cooperativos foi, por
isso, naturalmente muito intensa.
No Congresso de Bournemout, de acordo com Watkins (1970,
p. 346), foi criada uma comissão que deveria resolver quais os
Princípios Cooperativos que:
1º - conservaram sua atualidade e importância;
2º- deveriam ser modificados e de que maneira para
potenciarem a persecução das tarefas do Movimento
Cooperativo; e
3º - perderam a sua importância e deveriam ser
substituídos por outros.
No Congresso da ACI, realizado em Viena, no ano de 1966,
apesar da sua heterogeneidade, a Comissão criada no Congresso
de Bournemout apresentou um Relatório unanimemente aceito
pelos seus membros. Salientando a complexidade da tarefa que
lhe fora atribuída, considerando como essenciais pela frente os
mesmos problemas fundamentais que haviam sido detectados
trinta anos antes, embora sob outra forma e com menos urgência,
quais sejam:
1º - o de manter a autonomia do Movimento
Cooperativo perante os Partidos Políticos e os Governos;
82
Introdução ao Cooperativismo
2º - corrigir a tendência para transigir nos Princípios
com o fim de obter vantagens comerciais;
3º - tornar claras as diferenças essenciais entre as
autênticas cooperativas e outras empresas que imitavam
os seus métodos; e
4º - sublinhar a necessidade fundamental de manter
atualizado o Sistema Democrático e Educativo do
Movimento (ACI, 1968, p. 13).
Foram fi xados, em Viena, em 1966, seis princípios com idêntica
força normativa:
1º - adesão livre;
2º - administração democrática;
3º - juros limitado ao capital;
4º - destino dos excedentes;
5º - desenvolvimento da educação; e
6º - intercooperação.
O elenco do que a Aliança Cooperativa Internacional considera
serem os Princípios Cooperativos, está, até a presente data,
bem determinado. No entanto, não há um verdadeiro consenso
universal, mesmo depois do Congresso realizado em Manchester,
Inglaterra, quer seja quanto à sua força normativa, quer quanto ao
seu verdadeiro sentido.
No Colóquio de Liège, realizado em março de 1966, por
iniciativa do Institut des Étudies Coopératives de Paris, Roger
Saint-Alary apresentou o significativo relatório sobre “Problemas
e Dificuldades de Aplicação das Regras de Rochdale nos
Diferentes Movimentos e para cada Forma de Cooperação”.
Propôs que esses Princípios se desdobrassem em dois grandes
grupos:
1 - Regras de Autenticidade Cooperativa e
2 - Regras de Política Cooperativa.
Unidade 4
83
Universidade do Sul de Santa Catarina
Entre as primeiras, incluiu o controle democrático, a repartição
dos excedentes de acordo com o volume das operações, o juro
limitado ao capital, a adesão livre e a dupla qualidade. Entre
as segundas, referiu-se à neutralidade política e religiosa, à
integração e ao estímulo à educação.
Na sua exposição, Saint-Alary avaliou o grau de aceitação
das diversas regras mencionadas, tendo excluído, pelo fato
de considerar totalmente ultrapassado, o Princípio relativo à
“aquisição dos bens, a dinheiro e à vista”. E sustentava que,
antes de tudo, devia ser valorizado o Princípio do Controle
Democrático, porque era ele que se constituía no denominador
comum de todas as cooperativas (1967, p. 353-379).
Uma perspectiva crítica à formulação de 1937, que mais cedo
adquiriu consistência, foi a do Sacerdote Católico Felipe Blais,
a partir de Quebec, Canadá, que, na década seguinte, difundiu a
sua visão dos Princípios Cooperativos, especialmente no meio das
Caixas de Crédito Popular (Bancos Cooperativos).
Dividiu-os em três blocos: a Educação, por si só, corresponderia
ao primeiro, no segundo, situou os Princípios de Base, sem cujo
cumprimento nenhuma organização cooperativa poderia ser
considerada como tal (adesão livre, controle democrático, juros
módicos ao capital e o do retorno das sobras aos associados). No
terceiro, incluiu os métodos cooperativos (neutralidade; aquisição
de bens a dinheiro e à vista e o da integração) (1984, p. 79-80).
Menos presa à formulação da ACI foi a posição do cooperativista
norte americano Emory Bogardus que, sem se demarcar da
linha tradicional de Rochdale, optou por um elenco de pendor
claramente mais abstrato e mais estruturante. Sustentou a
importância de sete princípios: democracia, voluntariedade,
autonomia, eqüidade, mutualidade, universalidade e evolução.
Além destes Princípios, E. Bogardus destacou a importância da
educação, que encarou como uma categoria diferente, já que se
refere principalmente aos métodos que devem aplicar-se para pôr
em prática os sete Princípios (1958, p. 20).
Quanto à importância relativa dos vários Princípios, Lambert
(1975, p. 58) destacou o Princípio da Democracia como o
84
Introdução ao Cooperativismo
fundamental da cooperação, por permitir distinguir a empresa
cooperativa da capitalista e ser aplicável a todos os ramos.
Não divergiram muito desta posição Alicia e Bernardo Drimer,
ao acrescentarem os seguintes Princípios aos da Reformulação de
1966:
o da neutralidade política e religiosa; o da venda a pronto
pagamento; o da pureza e exatidão no peso e medida dos
produtos; o da realização de operações exclusivamente
com os associados; o da venda a preços correntes ou
de mercado; o do destino desinteressado do saldo
patrimonial no caso de dissolução da cooperativa; o da
expansão constante; e o da coincidência com os interesses
gerais da comunidade (1975, p. 131 ss).
O cooperativista alemão Hans Münkner (1986, p. 11 ss) brindanos com uma proposta extremamente rica nas virtualidades de
irradiação conceitual. Ele parte da existência de um sistema de
idéias, no qual se pode detectar três áreas, conjugadas entre si
harmonicamente e repartidas em dois planos, que se articulam
entre si. Deste modo, o Sistema Cooperativo estaria integrado
por uma área de idéias gerais, outra de Princípios Cooperativos e
uma terceira de métodos cooperativos práticos.
É na interpenetração das duas primeiras que são gerados os
verdadeiros Princípios Cooperativos ou, em outras palavras,
a força e a realidade dos Princípios prendem-se com as idéias
básicas em que os mesmos se assentam.
Münkner (1986, p. 14 - 19) enuncia como idéias gerais: “a
autopromoção; a solidariedade; a democracia; a economia; a
liberdade; a eqüidade, o altruísmo e o avanço social”. Estas idéias
materializam-se num conjunto de princípios que as refletem de
uma maneira nítida e intensa.
A autopromoção e a solidariedade impregnam diretamente três
Princípios, a saber: “autopromoção baseada na solidariedade;
promoção dos interesses econômicos dos aderentes através das
relações especiais de serviço entre as empresas ou as famílias dos
aderentes e a empresa cooperativa, e a identidade de proprietários,
clientes e usuários da empresa cooperativa”.
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Universidade do Sul de Santa Catarina
A idéia de democracia corresponde à “administração e controle
democráticos”; à de economia, à “eficácia econômica da empresa
cooperativa, avaliada pelos efeitos na promoção dos membros”.
A idéia de liberdade combina com os Princípios da
“adesão livre” e de “gestão democrática”. Por seu turno,
o da eqüidade corresponde ao Princípio da “distribuição
das sobras”, enquanto que o do altruísmo se prende ao da
“ativa cooperação entre as cooperativas, nos planos local,
nacional e internacional”. Por último, a idéia de avanço
social liga-se à “promoção da educação”.
Hans Münkner enumera quatro dezenas de métodos
práticos cooperativos, referenciados por grupos a cada
um dos princípios. Por exemplo, o Método “um homem
um voto” estaria ligado ao Princípio da Administração
Democrática; o das “transações com terceiros não
membros em caso de necessidade” relaciona-se diretamente com
a Eficácia Econômica; o método da “remuneração estritamente
limitada ao capital investido” com o Princípio da Distribuição das
Sobras.
Nenhuma das áreas em causa se pode verdadeiramente
subalternizar, pois os Princípios Cooperativos constituem um
Sistema de idéias abstratas deduzidas pelos cooperadores das
suas próprias experiências práticas. Para o cidadão médio é,
no entanto, difícil, ou mesmo impossível, utilizar essas idéias
abstratas como linhas de orientação para ações concretas
como cooperador. Isto ocorre porque os cooperadores estão
interessados, em primeiro lugar, em conhecer os métodos de ação,
as políticas e as regras práticas que estão conforme os Princípios
Cooperativos. As regras práticas variam segundo as necessidades,
as condições sociais, econômicas e políticas existentes
(MÜNKNER, 1986, p. 21).
Na verdade, como afirmou Münkner (1986, p. 91): “essas idéias
revelaram-se no passado como as linhas orientadoras mais
apropriadas para aqueles que prosseguiram o objetivo de criar
organizações eficazes de autopromoção baseadas na solidariedade
dos seus aderentes”.
86
Introdução ao Cooperativismo
Mas é o conjunto que dá a exata medida da sua importância, do
seu significado e da sua eficácia:
são esses Princípios no seu conjunto que constituem o
conceito de base da ação cooperativa. Não é possível
considerar esses Princípios como idéias isoladas que
podem ser estruturadas independentemente uma das
outras. Devem antes se considerar como integrando
um sistema de idéias, no qual cada Princípio individual
é completado e/ou limitado pelos outros e assume por
isso um conteúdo específico como Princípio Cooperativo
(Münkner, 1986, p. 91).
Esta diversidade de perspectivas sobre os Princípios Cooperativos
mostra bem a fluidez e a importância da área em causa, além
de evidenciar os aspectos nucleares de um problema e os mais
importantes eixos de um debate.
Deve-se recordar que os Princípios Cooperativos,
atualmente reconhecidos pela ACI, estão longe de
ser uma reprodução fixista e acrílica de qualquer
conjunto de regras produzidas em Rochdale, no
século XIX. Na verdade, quer nos anos trinta, nos anos
sessenta ou nos anos noventa do século XX, a tradição
de Rochdale passou pelo crivo de três exigentes
processos de reexame e reflexão.
Como se pode depreender, qualquer dos três processos esteve
longe de traduzir uma visão limitada e unilateral. E mais do
que isso, somente no termo do primeiro deles, em 1937, é que,
verdadeiramente, passou-se a dispor de uma listagem formal dos
Princípios Cooperativos, devidamente reconhecida como tal.
Desse modo, tudo o que foi originário de Rochdale, ainda hoje
subsiste, é considerado atual, quer em 1937, quer em 1966 ou
em 1995. Nestes três processos, repercutiram-se experiências
de muitas cooperativas exteriores ao Ramo do Consumo
e participaram movimentos de todos os continentes. Os
cooperativistas que os lideraram tinham origens diversificadas
e não se circunscreveram ao mero conjugar de elaborações
teóricas. Houve uma significativa auscultação dos Movimentos
Unidade 4
87
Universidade do Sul de Santa Catarina
Cooperativos, cujos resultados contribuíram para as formulações
que vieram a ser adotadas.
Portanto, o que verdadeiramente está em causa é saber-se como
pôde resistir a mais de um século e meio o essencial da proposta dos
Probos Pioneiros de Rochdale, tendo-se estendido, ainda por cima, a
todos os ramos e alargado a sua esfera de ação por todo o mundo.
Uma resposta a esta questão implica uma avaliação global do
período fundador do cooperativismo moderno. Mas o que aqui
importa salientar é que a durabilidade dos Princípios em causa
aconselha grande prudência na sua reformulação. As Regras de
Rochdale foram não apenas objeto de sucessivos debates, mas
também submetidas a mais de um século e meio de experiências
práticas, tendo revelado claramente as suas virtudes e tornado
evidentes os riscos inerentes ao seu abandono precipitado.
Já se pode observar que ela era, em primeiro lugar, flexível, já que
atravessou três exigentes reformulações sem se descaracterizar,
sem perder o cerne da sua identidade.
A Cooperativa dos Probos Pioneiros de Rochdale foi concebida
a partir de um Projeto Cooperativo polivalente e integrado,
embora, na prática, tenha funcionado, principalmente, a
cooperação de consumo, tendo daí advindo quase toda a sua
notoriedade. Ou seja, os Princípios implícitos no projeto inicial
eram componentes de um projeto cooperativo global e não de um
projeto para uma Cooperativa de Consumo.
Na verdade, pode-se depreender que estão em confronto duas
leituras da Saga dos Pioneiros. Uma, isola a sua
prática cooperativa na área de consumo que,
predominantemente, ancorou os Princípios numa
espécie de circuito fechado. Outra, insere a prática
dos Tecelões de Rochdale no seu próprio projeto,
no qual ressoa ainda o utopismo owenista e o encara
num contexto global de emergência do movimento operário,
assim como procura compreender os Princípios no quadro desta
visão de conjunto.
O fracasso do surto de cooperativismo “owenista”, na Inglaterra,
nos anos trinta do século XIX, contribuiu para a afirmação dos
Princípios de Adesão Livre (porta aberta), do retorno pró-rata
88
Introdução ao Cooperativismo
das Operações e o das Vendas a Dinheiro (pronto pagamento),
em contraponto às experiências fracassadas. De fato, as
cooperativas “owenistas” eram fechadas, não praticavam o retorno
e administravam a venda a crédito.
A experiência de Rochdale não foi apenas uma
construção de fundadores iluminados. A sua
criatividade foi alimentada pelas experiências falhas de
muitas iniciativas congêneres precedentes. Alertados
para o risco inerente a vários caminhos seguidos,
souberam escolher o que se viria a mostrar como o
mais fecundo. Ao sentido global e estratégico que os
animava, somaram-se diversos tipos de problemas
práticos que eles tiveram que evitar.
Por fim, os Princípios de Rochdale inscreviam-se numa
dinâmica social de superação do capitalismo no seu todo e era
essa lógica profunda que incorporavam. Traduziam, também, é
certo, críticas a aspectos pontuais, respostas a acertos conjunturais
do sistema, ânimo para enfrentar questões particulares, mas
estavam impregnados por valores diferentes dos que legitimavam
o capitalismo. Globalmente, essencialmente, não refletiam uma
imagem positiva do capitalismo, não aderiram à sua lógica.
Na verdade, ficar-se-á longe de uma compreensão plena da
problemática gerada pelos Princípios Cooperativos. Dificilmente,
pode-se percorrer, com segurança, o caminho para reformá-los
ou readaptá-los, se não for dada a devida importância aos seus
objetivos, aos fins que, verdadeiramente, lhes dão sentido.
Não é difícil constatar que se tem privilegiado outras linhas de
pesquisa. Ou se tem conduzido os processos de reflexão em torno
de uma análise textual, que procura, com minúcia, detectar-lhes
o conteúdo, aquilo que na verdade dizem, ou se tem questionado
a sua qualidade, o tipo de normatividade que incorporam, o
seu grau de relevância prática; ou se tem procurado, depois de
reduzir a regras práticas o contributo de Rochdale, retirar daí os
valores dos quais foram expressão, para então radicar a identidade
cooperativa, numa operação conceitual em circuito fechado.
Nesta perspectiva, há certa ilusão de neutralidade perante as
forças sociais e as opções político-ideológico que se confrontam,
como se de uma fenomenologia cooperativa fechada sobre si
própria fosse possível extrair a imagem nítida dos valores últimos.
Unidade 4
89
Universidade do Sul de Santa Catarina
Todavia, o que verdadeiramente pode situar de maneira adequada
os Princípios Cooperativos é a clarificação do objetivo global que
os suscitou e os objetivos parcelares que estiveram por trás de
cada um deles.
Este exame do sentido dos Princípios Cooperativos somente
poderá ser fecundo, se eles forem encarados como aspectos
de uma afirmação social que se manifestou no quadro de
uma perspectiva de combate e de emancipação, em face do
capitalismo. Porém, não se deve esquecer que o anticapitalismo
da cooperatividade não pode ser entendido como uma
batalha política ou mesmo ideológica, assumida explícita e
conscientemente por todos os cooperadores, ou sequer por todos
os segmentos da cooperação. O mesmo tem, fundamentalmente,
que ser encarado como uma marca genética estruturante da
origem e da prática cooperativa. Esta identidade íntima do
cooperativismo não tem a mesma força em todos os ramos,
em todas as conjunturas, em todos os países, podendo mesmo
diversificar-se no âmbito de cooperativas idênticas. Uma das
suas expressões mais notórias é, precisamente, a formulação de
tradição “rochdaleana” dos Princípios Cooperativos.
Em síntese, o sentido dos Princípios Cooperativos é o de
instruírem o quadro de uma resistência ao capitalismo, a alguns
de seus aspectos ou a algumas das suas conseqüências. Eles
materializar-se-ão numa atividade de tipo empresarial, exercida
em consonância com a tradição democrática do movimento
operário, de modo a suscitar uma lógica não lucrativa,
subalternizando assim, o papel do capital em busca de uma
relação aberta com a sociedade, que exclua a indiferença perante
os seus problemas gerais.
Segundo escreveu Aranzadi (1988, p. 25)
estamos, portanto, num momento histórico em que,
além da legitimidade dos valores cooperativos, que temos
querido defender nos últimos anos, hoje as empresas
capitalistas estão a recorrer para sobreviver ao incremento
da importância dos valores. Daí que considere que não
só devemos perder a fé nos nossos valores, mas temos
de os potenciar. Enquanto outros os estão procurando,
seria triste que nós abandonássemos a essência desses
princípios.
90
Introdução ao Cooperativismo
Este relevo atribuído ao sentido geral dos Princípios vem
sublinhar uma idéia base da formulação do Congresso de 1966,
qual seja, “os Princípios Cooperativos formam um sistema e são
inseparáveis” (ACI, 1968, p. 62), apoiando-se e reforçando-se uns
aos outros.
Todas as evidências nos levam à lógica de que, em
Viena, em 1966, a ACI abandonou a existência de
dois níveis no conjunto dos Princípios quanto à força
vinculativa. Foi propositadamente afastada qualquer
hierarquia que implicasse graus de obrigatoriedade
diferenciados. Porém, por outro lado, não se deve
concluir que a paisagem deste sistema de regras é
rigidamente uniforme. Pelo contrário, a importância
relativa dos Princípios Cooperativos é, não apenas
variável de ramo para ramo como de conjuntura para
conjuntura. No seu todo, eles estão articulados, mas
não ocupam posições relativas forçosamente estáveis.
Num primeiro plano, o problema evoluiu em torno de três
conceitos básicos que, entre si, se articulam, ora tendendo a
completar-se, ora parecendo competir. Conforme Böök (1992,
p. 11 e ss), Lasserre (1965, p. 339) e Watkins (1986, p. 10),
trata-se dos conceitos de “princípios”, de “valor” e de “regras”.
Na verdade, o âmago da questão está em saber se a mensagem
de Rochdale é um feixe de regras, um leque de princípios ou um
repositório de valores, através de uma conexão mais forte com
a ética e a configuração mais abstrata. Em contrapartida, ela
tem as primeiras e a maior proximidade com o quotidiano e o
compromisso mais direto com a eficácia prática.
Lasserre procurou fundamentar, sugestivamente, a sua preferência
pela qualificação, como regras e não como princípios, da proposta
de Rochdale, sustentando que: “um Princípio é uma afirmação
fundamental de ciência ou de moral, de onde decorrem, por
uma conexão lógica, quer uma série de leis científicas, quer um
conjunto de regras de conduta, de equidade, de direito. As Regras
de Rochdale não são princípios”. Já para Fauquet, princípios não
são regras fi xadas pelo costume cooperativo, mas os postulados
morais de onde essas regras derivam.
Olhando para a formulação da Aliança Cooperativa
Internacional, de 1966, e confrontando-a com os conceitos de
Unidade 4
91
Universidade do Sul de Santa Catarina
princípios, regras e valores adotados por distintos dicionários,
inclusive filosóficos, constata-se ser grande a dificuldade em
atingir uma posição pacificamente consensual. É muito difícil
fazer corresponder o texto da ACI aos distintos conceitos de
regras ou princípios, assim como conceber como poderia vir
a assumir, no futuro, a exclusiva qualidade de repositório de
valores.
Será mais cauto ver no texto de 1966, da ACI, um conjunto
de fórmulas normativas, que correspondem a um conjunto de
princípios, os quais incorporam implicitamente os valores básicos
da cooperatividade e explicitam as regras consideradas como
indispensáveis para a salva-guarda dos objetivos almejados.
Desse modo, deve-se distinguir bem o plano do debate de
idéias e da reflexão em torno delas, sobre o qual pode-se pensar
conjuntamente em valores, princípios e regras de atuação do
plano da textualização final, em que se trata de alcançar uma
fórmula capaz de traduzir a combinação ideal dos três vetores.
O perfil de regras de atuação prática e dos valores é bem
mais fácil de fi xar do que o dos princípios. Eventualmente,
os valores tenderão a transcender o espaço cooperativo, sendo
apenas específica a sua combinação. Os princípios serão uma
concretização específica de valores, circunscritos à zona da
cooperatividade.
Watkins (1986, p.7), sinalizou que qualquer posição pode
constituir-se em uma questão de princípios se não estivermos
dispostos a pactuar sobre a mesma, chegando a afirmar que os
Princípios formulados e referendados pela ACI:
deveriam ser mais apropriadamente serem denominados
de Regras Práticas que, aplicadas eficientemente e de
boa fé, assegurariam de que uma entidade preservará
o seu caráter cooperativo e, se não for exitosa em suas
operações, pelo menos evitará algumas das causas mais
comuns de fracasso.
Reforçando as suas idéias, agrega o autor britânico de que deva
ser feita uma distinção entre Regras e Práticas por um lado e
Princípios por outro. As Regras podem tanto ser convenções
e usos, assim como as reformulações estritas e precisas nos
92
Introdução ao Cooperativismo
Estatutos Sociais, ou são os métodos mediante os quais os
Princípios são praticados, e estão sujeitos a variações de acordo
com o tempo e as circunstâncias (1986, p. 9).
Então, para Watkins (1986, p. 13), os Princípios são: “as
idéias gerais que inspiram e governam a aplicação da
técnica cooperativa de organização social” e agrega
que “essas idéias resultam de uma argumentação
indutiva a partir da experiência de realidades sociais
fundamentais e universais”. Os Princípios são comuns
a todas as formas de cooperação em todos os lugares
e em todos os tempos. Sua observância efetiva é a
prova do caráter genuíno das instituições cooperativas
e a garantia de uma eficiente prática cooperativa.
Georges Fauquet (1949, p. 30) qualificou como “costume
cooperativo” o “conjunto de regras que regem as instituições
cooperativas”, nas quais evidentemente inseria os Princípios de
Rochdale. Esta posição foi defendida durante uma conferência
proferida em Genebra para estudantes da Faculdade de Ciências
Econômicas e Sociais. E sustentando este ponto de vista, ele
ainda acrescentou:
a expressão costume cooperativo é justificada pelo fato
de as instituições cooperativas terem adotado as suas
regras essenciais fora de toda a intervenção do legislador.
É ulteriormente, e em datas relativamente recentes, que
num número crescente de países as regras estabelecidas
pelo costume cooperativo foram introduzidas na
legislação.
Na verdade, os Princípios Cooperativos adquirem uma força
jurídica própria somente quando são incorporados, direta ou
indiretamente, na ordem jurídica por um preceito legal que lhes
homologou o sentido. Deve, no entanto, salientar-se que eles não
são pura matéria extra-jurídica que apenas ascende ao direito por
força de um ato formal de juridificação.
São regras que decidem sobre a possibilidade de uma estrutura
organizativa pertencer à ACI, com validade potencialmente
universal, em paralelo ao âmbito da Aliança Cooperativa
Unidade 4
93
Universidade do Sul de Santa Catarina
Internacional e, nessa medida, exercer uma macro influência
junto aos legisladores e aos poderes do Estado. Mas são, também,
regras que vão conformando o perfil e a vida das organizações
cooperativas, exercendo uma multiplicidade de micro influências
condicionadoras da atividade legislativa, pois, ao impregnarem a
identidade cooperativa, integram a materialidade que o legislador
tem que reconhecer como fato quando legisla a propósito dela.
Por isso, somente pelo simplismo se pode encarar como linear a
questão da qualificação jurídica dos princípios.
A partir do XXIX Congresso Cooperativo Internacional,
de 1988, em Estocolmo (Suécia), a Aliança Cooperativa
Internacional se propôs não apenas a reconsiderar
e adotar uma nova formulação para os Princípios
Cooperativos, assim como especificar os valores
cooperativos com bases espirituais, que justificassem
e orientassem o funcionamento das entidades
cooperativas. Ela adotou, ainda, uma definição para
as cooperativas e aprovou uma carta ou declaração
sobre o Movimento Cooperativo para o século XXI.
O tema “Valores Básicos do Cooperativismo” foi
o assunto principal do Congresso da Aliança Cooperativa
Internacional, realizado em 1988. Na oportunidade, foi criada
uma Comissão Internacional de Especialistas para analisar os
princípios básicos do cooperativismo, à luz dos novos desafios
aos cooperativistas e às cooperativas para aquele momento, bem
como para os anos que viriam. Esta Comissão apresentou suas
conclusões e sugestões ao XXX Congresso da ACI, realizado
em outubro de 1992, na cidade de Tóquio (Japão). O objetivo
final era o de que tais conclusões servissem de base e apoio, como
serviram a um estudo amplo e completo, propondo as mudanças
necessárias ao Congresso da Aliança Cooperativa Internacional,
que se realizou em 1995, na cidade de Manchester, Inglaterra.
Em 1992, no XXX Congresso da Aliança Cooperativa
Internacional, realizado em Tóquio (Japão), o cooperativista
sueco Senhor Sven Ake Böök, pertencente ao Movimento
Cooperativista Sueco, e que havia presidido o Comitê de
Consultores preparou e apresentou o resultado de seus estudos,
como um Informe que foi levado à discussão e que fundamentou
suas propostas de mudança em aspectos sociais, políticos, geo-
94
Introdução ao Cooperativismo
econômicos e históricos, analisando as transformações que
ocorreram no cenário mundial, principalmente entre os países
industrializados.
Tendo como parâmetro o crescimento das cooperativas
em tamanho e especialização, sem dispor de estruturas
de níveis secundário e terciário, muitas delas
colocaram em questionamento os valores tradicionais,
especialmente a respeito dos modelos de capitalização.
Este Informe, posteriormente, transformou-se no livro
“Co-operative Values in a Changing World ”.
Sven Ake Book colocou em seu Informe alguns
aspectos relativos ao futuro, num mundo em transição.
Os países altamente industrializados, considerava ele, estão se
aproximando do estágio da pós-industrialização. Os países mais
desenvolvidos estão entrando num estágio de desenvolvimento,
no qual os sistemas políticos e as economias planejadas pelo
Estado parecem remanescentes da História, substituídos que
foram pelos sistemas políticos e econômicos pluralistas. Não seria
exagero, ponderava o Informe, dizer que “estamos vivendo um
período da história caracterizado por mudanças radicais para a
humanidade”.
A Aliança Cooperativa Internacional já havia aprovado, em duas
ocasiões anteriores, reformulações ou adequações universais dos
Princípios Cooperativos, uma em 1937 (Paris) e a outra em 1966
(Viena).
Quais foram os motivos ou razões que induziram a
ACI a estudar e consagrar uma nova formulação ou
reformulação?
Procurar-se-á interpretar alguns dos mais importantes motivos
surgidos, sobretudo em razão das profundas modificações
acontecidas no cenário econômico-social mundial, durante estes
quase trinta anos que transcorreram desde a última reformulação
realizada:
a) observa-se que alguns tipos de organizações
cooperativas experimentaram, durante os últimos
Unidade 4
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Universidade do Sul de Santa Catarina
anos, consideráveis dificuldades e retrocessos em seu
desenvolvimento (cooperativas de consumo), enquanto
outros tipos de cooperativas apresentaram certa
estagnação em suas operações. Estas constatações
preocuparam o mundo cooperativo e levaram muitos
cooperativistas a se indagarem acerca dos problemas;
b) dentro das novas características econômico-financeiras
que naquela época predominavam no cenário mundial
e, em particular, frente aos processos de liberalização e
de globalização da economia, as cooperativas viam-se
freqüentemente obrigadas a competir com poderosos
adversários que, com freqüência, possuíam caráter
multinacional assumindo, muitas vezes, posições
monopolistas ou oligopolistas;
c) em muitos casos, para poderem competir com
as grandes empresas globalizadas, as cooperativas
procuraram, também, converter-se em grandes empresas,
por intermédio de processos de expansão e integração
cooperativa. Porém, ao procurarem competir de igual
para igual com as grandes corporações, utilizandose dos mesmos métodos viram-se afetadas por alguns
inconvenientes, particularmente o gigantismo e a
tecnocracia e, conseqüentemente, uma declinação na
participação dos associados, donos ou fornecedores na
vida de sua respectiva entidade;
d) as atividades sócio-econômicas vinham sendo afetadas
por bruscos e transcendentais avanços científicos
e tecnológicos em distintos campos, tais como nas
telecomunicações, na informática, na robótica, na
biotecnologia, na genética e em muitas outras, que
compunham a chamada III Revolução Industrial ou
a Era Pós Industrial. Estes determinaram profundas
alterações nos métodos de produção e de distribuição,
também fizeram com que as cooperativas sentissem a
necessidade de se adaptarem a estas profundas alterações
científico-tecnológicas para não ficarem atrasadas e, a
certa altura de seu desenvolvimento, suplantadas pelas
concorrentes. Daí perguntar-se se, porventura, alguns de
seus problemas não eram conseqüências de tais câmbios
96
Introdução ao Cooperativismo
e particularmente da necessidade de empregarem mais
capitais;
e) por fim, a identidade cooperativa pareceu estar
ameaçada, em muitos aspectos, em maior ou menor grau,
não somente pelas exigências tecnológicas e financeiras
como pelos problemas do gigantismo, da tecnocracia e
da escassa participação dos associados, senão também
por critérios excessivamente pragmáticos e conjunturais
que podiam levar a confundir as cooperativas com outras
entidades de natureza diversa.
Em 1992, no XXX Congresso da Aliança Cooperativa
Internacional, realizado em Tóquio (Japão), houve a designação
do cooperativista canadense, Professor Dr. Ian McPherson, da
Faculdade de Humanidades da Victory University, de Britisch
Columbia, para que o mesmo desse prosseguimento aos estudos
apresentados pelo cooperativista sueco Sven Ake Böök. Ele teve a
colaboração de um grupo de trabalho, que considerou o tema dos
valores bem como outros temas propostos e, em 1995, no XXXI
Congresso da Aliança Cooperativa Internacional, realizado em
Manchester, apresentou o correspondente relatório.
O tema inicialmente considerado foi o da “Declaração da
ACI sobre a Identidade Cooperativa”, o qual abrangeu
uma definição sobre cooperativas e uma formulação de
seus valores e princípios. E, como segundo tema, “As
Cooperativas e o Desenvolvimento Humano Sustentado”,
o qual analisava, entre outros aspectos, a função das
cooperativas, sua dimensão econômico-social e sua
preocupação com a comunidade e meio ambiente.
No tocante ao primeiro tema, “Identidade Cooperativa”, foi
aprovada a seguinte definição para Cooperativas:
é uma associação autônoma de pessoas que se unem,
voluntariamente, para satisfazer necessidades comuns
e aspirações econômicas, sociais e culturais, através de
uma empresa de propriedade coletiva e democraticamente
controlada. (MACPHERSON, 1995)
Esta definição de cooperativas propugnada pela Aliança
Cooperativa Internacional, a partir de 1995, está indubitavelmente
Unidade 4
97
Universidade do Sul de Santa Catarina
correta, pois contém diversos aspectos conceituais e fundamentais
preconizados pelos tratadistas cooperativistas, porém, mesmo
assim, ainda se apresenta insuficiente por que:
a) não estão suficientemente claras e explícitas nesta definição as
diferenças entre cooperativas e os outros tipos de sociedade; e
b) seria necessário agregar, também, ao conceito os aspectos de
esforço próprio e o de auto-ajuda na primeira parte da mesma.
Quanto aos “Valores Cooperativos”, foi aprovada a seguinte
definição, MacPherson (1995):
as cooperativas se baseiam nos valores de auto ajuda,
responsabilidade próprias, democracia, igualdade,
solidariedade e eqüidade. De acordo, com a tradição
de seus fundadores, os membros das cooperativas
crêem nos valores éticos de honestidade, transparência,
responsabilidade social, acessibilidade e preocupação para
com terceiros.
Os Valores Cooperativos são bases espirituais que justificam a
orientação e o funcionamento das cooperativas, sendo imutáveis,
porém podendo ser expostos a partir de distintos pontos de vista,
bem como diferentes enquadramentos classificatórios, que seriam
igualmente corretos.
O Congresso da Aliança Cooperativa Internacional, em
1995, assim definiu “Princípios Cooperativos” como:
“linhas orientadoras através das quais as cooperativas
põem seus valores em prática”.
Os Princípios Cooperativos são normas práticas que,
fundamentadas nos valores cooperativos e aplicados na forma
de um sistema, caracterizam em uma determinada época as
cooperativas de todo o mundo e permitem diferenciá-las dos
outros tipos de empresa.
A aplicação dos Princípios Cooperativos é, efetivamente, o que tem
configurado em todo o mundo o caráter cooperativo, e tais princípios
foram quase que unanimemente incorporados às diversas legislações
nacionais aplicáveis a este tipo de organização. (KLAES, 1982)
98
Introdução ao Cooperativismo
A Aliança Cooperativa Internacional, ao considerar suas
três formulações já realizadas (1937, 1966 e 1995), sempre
procurou elevar essas normas práticas à categoria de Princípios
Cooperativos ou Normas Cooperativas Fundamentais adaptadas
às condições sócio-econômicas vigentes e estabeleceu-as, ao
mesmo tempo, como requisito necessário para a filiação dessas
entidades cooperativas à ACI.
Não cabe, senão, reconhecer a prudência com que a Aliança
Cooperativa Internacional soube guiar os estudos relativos à
declaração sobre “Identidade Cooperativa”, a qual foi aprovada
durante o XXXI Congresso Cooperativo Internacional, em
Manchester, e que contém um novo enunciado dos Princípios
Cooperativos.
A formulação aprovada, em 1995, conta com sete Princípios,
dos quais o terceiro de Manchester (Participação Econômica
dos Membros) passa a contemplar os conteúdos do terceiro
(Distribuição das Sobras) e do quarto (Taxa Limitada de Juros
ao Capital Social) princípios, aprovados em 1966, emViena e, em
1937, em Paris.
Esta nova formulação contém em seu primeiro (Adesão
Voluntária e Livre), em seu segundo (Gestão Democrática pelos
membros), em seu quinto (Educação, Formação e Informação)
e em seu sexto (Intercooperação) princípios, conceitos análogos
aos considerados, respectivamente, pelos Princípios enunciados
em 1937 (Paris) e em 1966 (Viena), salvo pequenos ajustes de
nomenclatura. Porém, agrega dois novos Princípios, os quais
passam a ser o quarto (Autonomia e Independência) e o sétimo
(Interesse pela Comunidade).
As considerações de tais princípios ou normas fundamentais
nunca deixaram de ser contempladas, desde 1844, como
Princípios basilares do Cooperativismo. Dentre eles, mantémse o Princípio relativo ao “desenvolvimento e à promoção da
educação, à formação e informação”.
Dos sete Princípios aprovados pelo Congresso Internacional
de Cooperativas, de 1937, em Paris, quatro foram considerados
como principais, pois abarcavam os aspectos do associativismo
econômico e, três, complementares, dentre os quais encontramos
o Princípio da Educação.
Unidade 4
99
Universidade do Sul de Santa Catarina
Já no Congresso Cooperativo Internacional, de 1966, em Viena, o
Princípio da Educação ascendeu à condição de fundamental, o que,
no Congresso de 1995, em Manchester, na Inglaterra, foi ratificado.
Congressos da Aliança Cooperativa Internacional
Paris - 19371 – Adesão Livre
Viena-19661 – Adesão Livre
2 – Gestão Democrática
2 – Gestão Democrática
3 – Retorno Pro-Rata
das Operações
4 – Juros Limitados
ao Capital
3 – Retorno Pro-Rata
das Operações
4 – Taxa Limitada de
Juros ao Capital
-----
-----
Manchester-19951 – Adesão Livre e
Voluntária
2 – Gestão Democrática
pelos Membros
3 – Participação Econômica
dos Membros
---------
5 - Vendas a Dinheiro
6 – Desenvolvimento da
Educação em todos
Os Níveis
-----
7 – Neutralidade Política
Racial e Religiosa
-----
100
----5 – Constituição de um
Fundo para a Educação dos Cooperados e do Público
em Geral
6 – Ativa Cooperação
entre as Cooperativas em todos os
Planos
---------
----5 – Educação, Formação e
Informação
6 – Intercooperação
----7 – Interesse pela
Comunidade
Introdução ao Cooperativismo
Atividades de auto-avaliação
1 – Quais são os Princípios de Rochadale que ficaram
conhecidos como as “Regras de Ouro” da cooperação, adaptadas
posteriormente pelo Congresso da Aliança Cooperativa
Internacional, em 1937?
2 – O que é gestão democrática pelos sócios?
Unidade 4
101
Universidade do Sul de Santa Catarina
3 – Que implica o princípio da identidade, na empresa
cooperativa?
4 – Quais são os valores sobre os quais se assenta o
cooperativismo?
5 – O que se entende por participação nas decisões que afetam a
organização cooperativa?
102
Introdução ao Cooperativismo
6 – O que são autonomia e independência?
Síntese
Nesta Unidade, você teve a oportunidade de estudar e fazer uma
incursão no tempo e conhecer desde a experiência dos Probos
Pioneiros de Rochdale até os dias de hoje como os Princípios
evoluíram. Os Princípios Cooperativos são os postulados morais
de onde derivam as regras fi xadas pelo costume cooperativo, os
quais inspiram e governam a aplicação da Técnica Cooperativa.
Na próxima Unidade você será apresentado às obras dos
principais Realizadores do Cooperativismo.
Saiba mais
Pesquise sobre os conteúdos estudados nesta unidade acessando
os seguintes sites:
„
www.coopjud.com.br/interna.asp
„
www.inscoop.pt/old_version/sectorcooperat/oessencial/
„
www.coopnetaldia.com
„
www.waltertesch.com.br/noticia/news.php
„
www.mundocoop.com.ar/cooperativismo/
„
www.portalbioceanico.com/
„
www.dae.ufla.br/revista/revistas/2005/2005_2/
Unidade 4
103
UNIDADE 5
Realizadores do
Cooperativismo
Objetivos de aprendizagem
„
Distinguir as principais características dos realizadores
que influenciaram o cooperativismo.
„
Identificar variáveis que cada realizador apresentou
e que contribuíram para a formação do ideário
cooperativo.
Seções de estudo
Seção 1 O Sistema Cooperativo de Rochdale
Seção 2 O Sistema Cooperativo de Hermann
Schulze-Delitzsch
Seção 3 O Sistema Cooperativo de Friedrich Wilhelm
Raiffeisen
Seção 4 O Sistema Cooperativo Wilhelm Haas
Seção 5 O Sistema Cooperativo de Luigi Luzzatti e
Leone Wollemborg
5
Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de conversa
Esta unidade vai descortinar como se deram, onde foram
desenvolvidas as principais realizações e como as mesmas
contribuíram para a formação do ideário cooperativo.
SEÇÃO 1 - O Sistema Cooperativo de Rochdale
O edifício doutrinário do cooperativismo ergueu-se graças à
contribuição de uma série de pensadores, desejosos de estabelecer
uma ordem econômica que pudesse realizar a justiça social. Essa
contribuição teórica caminhou, conjuntamente, com as tentativas
de realizações práticas. A história dos primórdios da cooperação
moderna é pouco conhecida. Porém, sabe-se que as realizações
elaboradas por esses doutrinários, ou levadas a efeito pela
iniciativa de interessados, surgiram em pontos diversos, algumas
vezes coroadas com os melhores resultados.
Conjunto integrado de elementos
dinamicamente inter-relacionados
desenvolvendo uma atividade ou
função para atingir objetivos.
Só depois de algum tempo, os Sistemas Cooperativos
adquiriram a precisão que temos atualmente. Esses sistemas
estão intimamente ligados a três ilustres nomes na história da
cooperação moderna e que dominam o Movimento Cooperativo
atual.
Ao lado desses sistemas fundamentais, existem métodos
intermediários, o que é natural num movimento que penetrou
em áreas extremamente variadas da atividade humana e que
se desenvolveu sob circunstâncias locais, econômicas e sociais
diferentes.
Os Sistemas Rochdale, Schulze-Delitzch e Raiffeisen
correspondem as três categorias de classes trabalhadoras que
formam a massa dos cooperados: a classe operária industrial,
a classe média das cidades e massa dos pequenos agricultores.
São estes sistemas que você estudará a seguir e, ainda, o Sistema
Haas, que é considerado um meio termo entre os Princípios de
Raiffeisen e os Princípios de Schulze-Delitzsch e os Sistemas
de Luigi Luzzatti e Leone Wollemborg, desenvolvidos na Itália.
Acompanhe!
106
Introdução ao Cooperativismo
A célebre história dos ‘Probos Pioneiros de Rochdale’ tem sido
repetida em diversas oportunidades. Foi George Jacob Holyoake,
contemporâneo desses Pioneiros e um dos mais ardentes
propagadores e dirigentes do Movimento Cooperativo inglês,
quem a escreveu. Seu livro já foi traduzido em quase todos os
idiomas e continua a ser, ainda hoje, apesar de secular, uma
verdadeira ‘Bíblia’ para todos os cooperadores.
A cooperação não nasceu em Rochdale, nem mesmo a de
consumo, mas foi aí que ela se organizou de maneira perfeita.
Não foi somente uma realização prática, cujo êxito resultaria
das qualidades eminentes dos realizadores, mas foi lá que se
estabeleceu, desde o seu início, um programa completo contendo
os princípios teóricos e as regras práticas de organização e de
funcionamento das Cooperativas de Consumo.
A idéia e a realização são inseparáveis neste sistema.
Numa tarde brumosa de novembro de 1843, alguns
pobres tecelões de flanela do vilarejo de Rochdale
(Inglaterra) encontravam-se reunidos em conselho
para buscar um meio de se livrar da iminente
miséria.
Era a época dos primeiros passos do Regime
Capitalista e o seu lado sombrio era duramente
sentido pela classe operária, indefesa diante do
poderio do capital.
Os tecelões reuniram-se no dia seguinte a uma greve, cujo
fracasso agravava ainda mais seu estado de miséria. Uma série
de sugestões foram, então, apresentadas. Uns propuseram exílio,
outros a abstinência de bebidas alcoólicas, outros – partidários
do Movimento político Cartista – afirmavam que o único meio
era a conquista dos direitos políticos pelo povo e, enfim, alguns
socialistas, discípulos das idéias de Robert Owen, que conheciam
também os ensaios do Dr. William King, propuseram a criação
de um armazém cooperativo de consumo.
Movimento reivindicatório
dos operários ingleses,
ocorrido no século XIX.
Como se pode depreender, experiências cooperativas já haviam
sido realizadas na Inglaterra. A reunião dos tecelões realizavase após um período em que, interrompendo essas experiências
no campo econômico, a classe operária havia agido no campo
Unidade 5
107
Universidade do Sul de Santa Catarina
político com o intuito de se emancipar. O insucesso da ação
política teve como efeito natural nortear de novo os esforços dos
operários num sentido econômico. Por isso, quando da reunião
de Rochdale, prevaleceu a proposta de experimentar uma nova
organização cooperativa.
A princípio, fortes objeções foram feitas contra esta solução.
Uma parte dos operários lembrou que as experiências anteriores
não haviam correspondido a seus anseios. Mas o grupo de
cooperados não se deixou vencer e respondeu que o fracasso dos
antigos armazéns de consumo explicava-se por certos defeitos de
organização e de funcionamento, que podiam ser evitados por
uma organização mais racional.
Lembraram especialmente de que esses armazéns haviam
distribuído, a crédito, aos sócios que não pagaram
suas dívidas e os armazéns cooperativos, depois de
certo tempo, ficaram sem mercadorias e sem
meios financeiros disponíveis.
Ressentiam-se os armazéns de dirigentes
conscienciosos e bem preparados para esse
cargo, assim como um verdadeiro espírito
de solidariedade de seus membros. Esses
não eram fiéis à sociedade e realizavam suas
compras em outros armazéns. Além disso, a
maneira de repartir o lucro, em relação ao capital, não contribuía
para atrair os associados ao armazém cooperativo.
Logo, não era o sistema cooperativo que era defeituoso –
afirmavam os partidários da idéia cooperativa – mas a maneira de
pôr em prática esta idéia. Eliminados os defeitos constatados nas
tentativas passadas, a cooperativa produziria seus frutos.
A proposta dos cooperados venceu, então, e os humildes tecelões
começaram a juntar os primeiros fundos necessários para
realizar seu projeto. O início foi lento e difícil, o que era natural,
considerando-se a crise que oprimia a população operária da
região. Foi, então, necessário um ano para poder economizar a
formidável soma de 28 libras esterlinas.
108
Introdução ao Cooperativismo
O que os tecelões pretendiam empreender com essa
soma?
Falou-se, com razão, da desproporção tragicômica entre o fim
e os meios da Cooperativa de Rochdale. Portanto, também os
Pioneiros de Rochdale, assim como tantos outros precursores,
buscaram a criação de uma ‘cooperativa integral’.
No dia 28 de outubro de 1844, a cooperativa
foi inscrita no registro comercial sob a
denominação de ‘Rochdale Society of Equitable
Pioneers’. O número de probos pioneiros, como
eles próprios se autodenominaram, elevavase a vinte e oito. Com o pequeno capital que
dispunham, começaram a agir em prol da
criação de um novo mundo.
Por dez libras esterlinas anuais, eles
conseguiram alugar uma pequena sala no andar térreo de uma
modesta casa situada no ‘Beco do Saco’. Depois compraram,
em pequenas quantidades, farinha, açúcar, manteiga, que foram
entregues a Samuel Ashworth, designado inicialmente como
vendedor. O caixa da sociedade era William Cooper. Assim, em
uma tarde brumosa do dia 21 de dezembro de 1844, foi aberto
o armazém cooperativo dos Probos Pioneiros de Rochdale. No
começo, somente abria aos sábados e às segundas- feiras e a venda
chegava a duas libras por semana.
Os funcionários não podiam, sob hipótese alguma, nem sob
pretexto algum, vender ou comprar qualquer artigo a não ser
a dinheiro. Sendo que o funcionário que faltasse à regra, seria
passível de sanções, além de ser julgado indigno de exercer os
deveres de sua função.
No Relatório que a Sociedade publicava anualmente, encontravase a exposição relativa às regras sobre a admissão dos membros, a
repartição das sobras e as medidas de ordem em caso de dúvidas.
O direito de associar-se era facultado a qualquer um.
Os Tecelões de Rochdale são considerados os verdadeiros
criadores da moderna Cooperativa de Consumo. Sendo que
muitos historiadores afirmam que neles brilhou um desses
Unidade 5
109
Universidade do Sul de Santa Catarina
pensamentos que só aparecem uma vez a cada mil anos. Essa
idéia foi o estabelecimento dos princípios aos quais uma
Cooperativa de Consumo deve obedecer para cumprir sua
missão. Esses princípios foram colocados em prática por milhares
de cooperativas, em diferentes países.
Então, vejamos quais foram as regras de organização e de
funcionamento que formaram o Sistema de Rochdale. Para maior
clareza, essas regras foram agrupadas da seguinte maneira:
1. as regras que dizem respeito ao funcionamento da
empresa; e
2. as regras que se referem à estrutura da sociedade.
A venda à vista era um princípio que os Pioneiros de Rochdale
não abriam mão e que deveria ser respeitado por toda a
cooperativa. A aplicação desse princípio não foi fácil.
Para compreender essa regra, basta evocar a situação
material daqueles a quem se destinava à cooperativa
e as circunstâncias nas quais a mesma foi criada. Os
fundadores afirmavam que o sistema de vendas à vista
fazia também desaparecer a possibilidade de perdas que a
cooperativa poderia sofrer em razão aos maus pagadores,
cujos prejuízos recairiam injustamente sobre os demais
membros.
Os Pioneiros de Rochdale decidiram que a venda das
mercadorias seria sempre feita ao preço corrente do mercado.
Afirmavam que, efetuar a venda das mercadorias ao preço
corrente apresentava vantagens sobre a venda ao preço de custo,
pois, em primeiro lugar, uma cooperativa que vende também ao
público não poderia ceder a esse público mercadorias a preço de
custo, pois, nesse caso, os membros da cooperativa não teriam
nenhuma vantagem em relação aos outros clientes.
Em segundo lugar, excluir a possibilidade de um benefício para
a sociedade seria renunciar à formação de fundos coletivos de
reserva, de previdência, de propaganda e de obras sociais. Mas
o sucesso dos Pioneiros de Rochdale deveu-se, acima de tudo, ao
fato de terem compreendido a importância do volume de vendas
para uma empresa de mercadorias.
110
Introdução ao Cooperativismo
Tendo compreendido toda a importância de um grande volume
de vendas para seu armazém, os Pioneiros introduziram o
sistema de retorno ou distribuição dos excedentes obtidos
pela cooperativa, proporcionalmente às compras efetuadas por
cada membro, isso após terem retirado um percentual para os
fundos de reserva e os outros fundos coletivos e, enfim, terem
proporcionado ao capital uma justa remuneração.
Esse método de repartição da empresa está, aliás, no espírito da
cooperativa, pois o excedente de uma cooperativa não resulta das
operações comerciais, mas, sendo a cooperativa uma associação
de várias famílias que visam abastecer-se em comum, só existe
uma economia realizada pelos membros da cooperativa, graças ao
fato de se atribuírem o ganho dos comerciantes intermediários ao
obter em comum e diretamente os produtos necessários. É justo e
natural que esse ganho seja distribuído proporcionalmente entre
os associados, segundo o seu movimento.
Este princípio favorecia aqueles que transacionavam mais, isto
é, habitualmente aqueles que tinham um volume
maior de negócios com sua empresa cooperativa.
Este método de distribuição dos ganhos
era, portanto, um bom meio de estimular os
associados a comprarem no armazém cooperativo.
Foi o Pioneiro Charles Howarth, conhecido como
o ‘Arquimedes da Cooperativa’, quem propôs este
método de distribuição dos ganhos de acordo com
o movimento de cada um dos membros.
Assim, com as regras econômicas relativas à direção dos negócios,
coube aos Pioneiros de Rochdale o mérito de ter estabelecido
algumas regras que toda a cooperativa adota hoje, relativas aos
membros e à estrutura da associação cooperativa. O Sistema
de Rochdale é considerado como um “Sistema completo de
Economia Democrática”.
As diferenças de capital não davam e não dão aos membros
direitos diferentes nas Assembléias, que são o órgão supremo
da cooperativa, ou seja, cada associado tem direito a um voto,
qualquer que seja sua cota social. Um homem, um voto. Era essa
a regra dos Pioneiros.
Unidade 5
111
Universidade do Sul de Santa Catarina
Da mesma maneira, qualquer associado poderia ser eleito para
o Conselho Administrativo, desde que empenhasse toda a sua
energia nos negócios da cooperativa.
O direito ao voto igualitariamente, explica-se na cooperativa
pelo fato de ser ela uma associação de pessoas com necessidades
comuns. O sócio participa da cooperativa com todo o seu ser. Por
isso, o que importa, acima de tudo, é a qualidade do associado, a
maneira como cumpre seus deveres de cooperado.
A distribuição dos excedentes
proporcionalmente às transações efetuadas
teve uma outra feliz conseqüência para a
cooperativa, qual seja - a não limitação do
número de sócios.
Todavia, a liberdade de entrada na
Cooperativa dos Probos Pioneiros de
Rochdale não impedia a aplicação de uma
outra de suas regras - a da seleção dos
membros.
Aqueles que desejassem entrar na cooperativa deveriam dar
provas de um bom caráter e de uma ilibada honestidade, além
de ser recomendado por um associado. Depois disso é que a
Assembléia deliberaria a aceitação ou não.
Uma outra disposição importante dos Estatutos da Cooperativa
dos Probos Pioneiros de Rochdale propugnava sobre a
neutralidade política e religiosa da mesa e de seus associados.
Os mesmos afirmavam que a cooperativa deveria se esquivar das
lutas políticas.
A Cooperativa dos Probos Pioneiros de Rochdale não
negligenciou seu papel social, uma vez que parte de suas obras
positivas foram destinadas às suas obras sociais. Deve-se salientar
que os mesmos mantiveram programas sociais como: uma casa
de apoio para os casos de doença ou morte, propaganda contra o
alcoolismo, assistência aos desempregados, entre outros.
Em 1850, os Pioneiros fundaram um moinho cooperativo, o qual
foi vendido em 1860 para a compra de um maior e mais bem
instalado. Já em 1854 e 1855, os Pioneiros tomaram a iniciativa
112
Introdução ao Cooperativismo
de fundar duas tecelagens. Essas foram criadas com base no
princípio da participação do trabalhador nas sobras da empresa.
O princípio do federalismo resultava, naturalmente, da própria
idéia que estava na base do Sistema Cooperativo. Assim, como a
sociedade cooperativa associa pessoas para satisfazer em comum
certas necessidades, as diferentes células cooperativas, aplicando o
princípio da solidariedade, associavam-se para exercer em comum
certas funções, particularmente de provisão e de produção.
A idéia federalista teve grande importância
na cooperativa dos Pioneiros, pois os mesmos
afirmavam que uma cooperativa, isoladamente
é, em geral, fraca demais para vencer sozinha
a concorrência dos comerciantes. Essas
federações deveriam se organizar com base
nos mesmos princípios das cooperativas sendo,
então, cooperativas de cooperativas.
Em 1853, eles decidiram criar, em seu
armazém, uma seção para venda por atacado. A finalidade
inicial era e de abastecer as cooperativas criadas entrementes
no Lancashire e no Yorkshire, as quais não dispunham nem de
capital suficiente, nem de uma organização bastante sólida para
abastecer-se em boas condições.
Ainda mais, foram os Pioneiros que conceberam e colocaram em
prática a idéia da produção própria para atender às necessidades
dos associados.
Embora as cooperativas de consumo se tenham constituído antes
da de Rochdale e sem nenhuma ligação com esta última, na
Inglaterra e em outros países, como a França, onde o Movimento
começou entre 1830 a 1850, em Lyon, os probos Pioneiros de
Rochdale merecem ser chamado de os criadores do Movimento
Cooperativo Moderno. Eles conseguiram precisar – e isso
desde o começo – os verdadeiros princípios da organização e
do funcionamento das cooperativas, estabelecendo ao mesmo
tempo um Sistema Cooperativista completo e, também, porque
exerceram uma grande influência sobre as cooperativas da
Inglaterra e de outros países.
Unidade 5
113
Universidade do Sul de Santa Catarina
SEÇÃO 2 - O Sistema Cooperativo de Hermann SchulzeDelitzsch
Hermann Schulze-Delitzsch é considerado o iniciador
do Movimento Cooperativista na Alemanha. Criou um
sistema cooperativo prático, que levou seu nome e que foi
adotado não somente na Alemanha, mas também em outros
países, particularmente pelas organizações cooperativas das
classes médias nas cidades: pequenos empresários, artesãos e
comerciantes.
Hermann Schultze é originário de uma família que deu à pequena
cidade de Delitzsch, perto de Halle, na Saxônia, uma série de
prefeitos e de juízes. Ele foi o filho primogênito do Juiz Patrimonial
Schulze. Estudou direito em Leipzig e em Halle, posteriormente,
fez um estágio como magistrado. Antes de concluir seu estágio,
foi chamado em Delitzsch (1835) para substituir seu pai, que se
encontrava doente, e assumir suas funções.
Figura 5.1 - Hermann Schulze-Delitzsch
Extraído do site: www.eumed.net/cursecon/dic/dent/s/sch.htm
Muito cedo, portanto, ele pôde conhecer a vida e as necessidades
de seus compatriotas. Em 1837, tornou-se assessor na Corte
de Apelação de Nuremberg. Depois de aprovado no Exame
de Estado, Schulze foi nomeado, em 1841, Juiz Patrimonial
em Delitzsch. Durante os anos de penúria, de 1846 a 1847,
distinguiu-se por uma intensa atividade filantrópica.
114
Introdução ao Cooperativismo
As primeiras iniciativas de caráter cooperativo de
Schulze-Delitzsch, em sua cidade natal, datam de
1849 e foram as seguintes:
- A criação de uma caixa de socorro para os casos de
doença e de óbito; e
- a criação de uma associação de marceneiros para o
abastecimento de matérias primas.
Na seqüência, surgiram duas organizações similares para
os operários sapateiros e alfaiates, fundadas em Eilenbourg.
Em 1850, Schultze fundou, sempre em Delitzsch, a primeira
sociedade de crédito. Ela não se distinguia das inúmeras
instituições de crédito popular criadas em Berlim, entre 1848 e
1849, graças a doações ou a empréstimos sem juros das classes
abastadas, a não ser porque exigia de seus membros o pagamento
de juros para os créditos concedidos e a constituição de um fundo
pessoal para depósitos mensais.
Mas, em 1852, Schulze introduziu o sistema de capital próprio,
formado pelas cotas subscritas e depositadas pelos sócios, depois
de introduzir também a responsabilidade solidária.
As associações criadas por Schulze-Delitzsch apresentavam as
seguintes características:
„
„
„
„
„
não eram instituições de beneficência;
baseavam-se na idéia do self-help (auto-ajuda) dos
sócios;
elevado capital, aplicado pelos sócios;
fundo de reserva limitado, constituído pelas sobras
líquidas; e
responsabilidade solidária e ilimitada dos associados.
Essas primeiras iniciativas logo foram seguidas de outras. Nasceu,
assim, muito rapidamente, na Alemanha, sobretudo nas massas
da população urbana, um verdadeiro movimento, sob a influência
Unidade 5
115
Universidade do Sul de Santa Catarina
de dois trabalhos publicados por Schulze: Assoziationsbuch fur
deutsche Handwerker und Arbeiter (1853) e Vorschuss – und Kredit
– Vercine ais Volksbanken (1855).
Em 1858, Schulze-Delitzsch publicou uma outra obra que teve
uma grande influência na opinião pública: Die arbeitenden Klassen
und das Assoziationswesen.
Já em 1863, Schulze-Delitzsch elaborou um projeto de lei sobre
cooperativas, o qual ele encaminhou ao Parlamento Prussiano. Assim,
no dia 27 de março de 1867, foi promulgado o primeiro Código
Cooperativo, que se baseava no projeto de Schulze-Delitzsch.
Em junho de 1859, reuniu-se em Weimar, o 1° Congresso
das Cooperativas de Crédito Schulze, com a participação de
representantes de trinta bancos populares. Nesse congresso,
decidiu-se criar uma Agência Central, cuja direção foi confiada
a Schulze-Delitzsch. A partir de 1861, outras categorias de
cooperativas também aderiram a essa organização central. Em
1864, essa Agência foi transformada em uma União geral das
cooperativas baseadas na auto-ajuda.
Em 1854, Schulze publicou o seu primeiro periódico cooperativo,
intitulado Die Innung der Zukunit.
No primeiro período de sua atividade, Schulze-Delitzsch buscava
realizar um programa cooperativo muito avançado, cuja etapa
culminante devia ser a cooperativa de produção industrial. Mas,
com o tempo, Schulze desistiu da construção de um sistema
cooperativo completo.
Assim, o sistema cooperativo praticado por Schulze apresenta as
seguintes características:
„
o sistema todo se adapta às necessidades especiais dos
artesãos, dos comerciantes, dos pequenos empresários
independentes;
„
a cooperativa deve manter-se sobre o princípio do selfhelp;
„
116
a base financeira, a base de todo o organismo, é formada
pelo capital próprio, formado por cotas partes;
Introdução ao Cooperativismo
„
o capital próprio é completado pelo fundo de reservas,
formado de deduções sobre o ganho líquido anual e pela
taxa de inscrição;
„
o ganho obtido pela empresa é distribuído aos associados,
sendo que o capital recebe um dividendo, que se justifica
pelo fato de os associados assumirem o risco da empresa;
„
a base financeira da empresa cooperativa é considerada
pela responsabilidade solidária e ilimitada dos associados,
de acordo com o princípio: cada um por todos e todos
por cada um;
„
as operação são realizadas de acordo com as regras
técnicas habituais da empresa econômica;
„
às empresas cooperativas solicita-se insistentemente que
mantenham uma proporção conveniente entre o capital
próprio e o capital emprestado;
„
ter um círculo de associados e uma clientela tão amplos
quanto possível;
„
limitar-se às operações bancárias propriamente ditas;
„
sendo a cooperativa uma associação de pessoas, a empresa
Cooperativa de Crédito só pode atender às necessidades
de crédito de exploração comercial;
„
no que diz respeito à organização Schulze, ela baseia-se na
idéia da descentralização, explicável pela existência de grandes
cooperativas e empresas econômicas poderosas.
Em 1904, havia em funcionamento um Banco Cooperativo
Central, o Deustsche Genossenschaftsbank, que se fundiu com o
Dresdner Bank, posteriormente.
Unidade 5
117
Universidade do Sul de Santa Catarina
SEÇÃO 3 - O Sistema Cooperativo de Friedrich Wilhelm
Raiffeisen
Hermann Schulze e F. W. Raiffeisen foram contemporâneos.
Entretanto, se o primeiro preocupou-se com os problemas da
classe média das cidades e criou para ela um sistema adaptado
às suas necessidades, o segundo dedicou toda a sua atenção aos
habitantes das zonas rurais.
Raiffeisen nasceu em 1818, na pequena cidade de Hamm, às
margens do Rio Sieg (Renânia), e era o sétimo dos nove filhos do
agricultor e prefeito Gottfried Friedrich Raiffeisen, que, por sua vez,
era filho de um pastor luterano que morreu quando o futuro Pai do
Cooperativismo Rural de Crédito não tinha sequer quatro anos.
Assim, F. W. Raiffeisen teve uma vida difícil. Sua instrução
foi-lhe dada pelo pastor protestante de sua comuna, durante as
horas em que não estava ajudando a sua mãe no trabalho do
campo ou quando lhe permitiam uma folga. Isso, sem dúvida,
contribuiu, em larga medida, para a formação de dois elementos
fundamentais de sua atividade futura: o espírito religioso e o
amor pela agricultura.
Figura 5.2 - Friedrich Wilhelm Raiffeisen
Extraída do site: http://www.etika.lu/article.php3?id_article=119
Aos 17 anos, tendo de seguir uma carreira, entrou como
voluntário para o exército e, aos 25 anos, foi obrigado a
abandoná-lo por causa de uma doença nos olhos, a qual se
manifestou àquela época e o fez sofrer a vida toda. Aos 27 anos,
Raiffeisen tornou-se Prefeito em Weyerbusch, ocasião em que se
revelou um grande organizador.
118
Introdução ao Cooperativismo
Durante o inverno de 1847-1848, toda a região sofreu uma grande
penúria. Raiffeisen organizou o abastecimento de farinha de
trigo e cuidou da fabricação do pão criando uma padaria, na qual
estabeleceu dois preços, um para os ricos e outro para os pobres.
Essa oportunidade fez com que Raiffeisen meditasse, de maneira
que, quando foi transferido no ano seguinte para Flammersfled,
fundasse, com o auxílio de alguns habitantes mais abastados da
região, a ‘Sociedade Beneficente de Flammersfled’ para auxílio
aos agricultores necessitados.
A responsabilidade dos associados era solidária por um
determinado capital e a atividade principal da sociedade era
dirigida contra o comércio usuário do gado. A sociedade
comprava as reses e as cedia aos habitantes mediante um
pagamento anual, por um período não superior a cinco anos.
Mas, com a verificação de que o agricultor tinha ainda muitas
outras necessidades e não podia satisfazê-las, a sociedade passou
também a dar créditos em dinheiro. Para obter os fundos
necessários, foi gerada uma caixa de poupança. Assim, a caixa de
socorro transformou-se numa instituição de crédito e poupança.
Figura 5. 3 –Carta de crédito popular
Extraída do site: www.etika.lu/article.php3?id_article=119
Como Prefeito de Heddesford, Raiffeisen fundou, em 1854,
uma caixa de socorro, mas logo a substituiu por uma sociedade
de crédito, Heddesdorfer Darlehnskassen-Verein (caixa de
empréstimos). Essa denominação, ainda hoje, é o termo pelo qual
se designam as Cooperativas de Crédito do tipo Raiffeisen.
Pode-se, então, concluir que Raiffeisen passou a adotar o
princípio do self-help (auto- ajuda): ajuda-te, que o céu te ajudará!
Unidade 5
119
Universidade do Sul de Santa Catarina
Em 1865, Raiffeisen teve que deixar o seu serviço por causa
de uma doença nervosa que o acometeu, além de ter piorado
seu velho problema nos olhos. Para poder subsistir, fundou,
inicialmente, uma fábrica de cigarros e, depois, um depósito
de vinhos. Com esse comércio, conseguiu saldar suas dívidas e
garantir o sustento da família. Faleceu em 1888.
Tendo em vista o êxito da Cooperativa de Heddesdorf, Raiffeisen
foi levado a criar caixas de crédito e de poupança semelhantes em
outras localidades, com a ajuda de seus amigos.
Em 1862, criou quatro sociedades em diferentes localidades,
além de escrever um livro do qual foram tiradas cinco
edições, até o seu falecimento. Essa obra teve grande sucesso
na Alemanha e além fronteiras.
As sociedades de crédito e poupança, idealizadas por
Raiffeisen, eram criadas com base no princípio da
responsabilidade solidária e ilimitada. Fundadas sem capital,
seus associados não recebiam dividendos e o número de
membros era restrito. Os excedentes iam inteiramente para o
fundo de reserva, que era indivisível em caso de dissolução da
sociedade.
As funções eram gratuitas. Os que aceitavam a direção da
sociedade deviam colocar-se a serviço da comunidade que
os elegeu. A idéia de auto-ajuda não excluía, portanto, em
Raiffeisen, o primeiro princípio que lhe serviu de base: a ajuda ao
próximo no sofrimento, que é um mandamento do cristianismo.
Como o círculo de atividade das caixas de crédito locais era
muito limitado, Raiffeisen viu-se forçado a tender para um
sistema de centralização das forças. Assim, em 1872, fundou a
primeira Federação de Cooperativas de Crédito na Renânia. Em
1874, outras duas nas regiões de Vestefália e Hesse. Em 1876,
reuniu as Federações regionais e criou o Instituto Central de
Crédito, sob a forma de uma sociedade anônima, que se tornou
mais tarde o Deutsch Raiffeisenbank A. G.
Em 1877, foi criada a União das Cooperativas Agrícolas do
tipo Raiffeisen’, a qual, em 1930, fundiu-se com a União das
Cooperativas Agrícolas do tipo Hass.
120
Introdução ao Cooperativismo
As Cooperativas Raiffeisen foram criadas, sobretudo, no meio
rural. Por isso, é natural que esse sistema seja organizado com
base em regras adaptadas às necessidades da agricultura e do
homem do campo.
As características do Sistema Raiffeisen são:
„
partir da idéia da auto-ajuda dos interessados;
„
área de ação restrita;
„
a qualidade do membro que interessa no mais alto grau;
„
não dispor de capital próprio formado de cotas, partes
subscritas e depositadas pelos associados;
„
a base financeira da cooperativa é formada pela
responsabilidade solidária e limitada assumida pelos
membros;
„
a base financeira da empresa é consolidada por meio do
fundo de reserva formado dos excedentes obtidos pela
empresa;
„
a cooperativa não visa obter lucro, sendo que todo o
excedente obtido vai para os fundos de reserva e para as
obras sociais;
„
a gratuidade das funções, com exceção para o secretário e
para o contador;
„
no que diz respeito às operações das cooperativas, o
Sistema Raiffeisen caracteriza-se pelo predomínio da
cooperativa de crédito e de poupança;
„
do ponto de vista da política de crédito das Caixas Rurais
Raiffeisen, a característica principal é a concessão dos
créditos de longo prazo; e
„
o Sistema Raiffeisen é um sistema centralista,
precisamente porque se baseia em pequenas unidades
cooperativas.
Na concepção cooperativa de Raiffeisen, predomina a convicção
de que a atividade econômica do homem deve sujeitar-se aos
imperativos da ordem ética, isto é, a moral cristã.
Unidade 5
121
Universidade do Sul de Santa Catarina
SEÇÃO 4 - O Sistema Cooperativo de Wilhelm Haas
Em diferentes países, conforme as circunstâncias locais,
formaram-se sistemas práticos de organização cooperativa,
geralmente pela modificação de um desses três sistemas que
podemos chamar de fundamentais para a organização das
cooperativas. Assim, na Alemanha, a cooperativa agrícola tendeu
cada vez mais a organizar-se de acordo como Sistema Haas, que é
considerado um meio termo entre os Princípios de Raiffeisen e os
Princípios de Schulze-Delitzsch.
Wilhelm Haas, nasceu em 1839, em Darmstadt e faleceu em
1913. Ele iniciou suas atividades cooperativas em 1872 com
a criação, em Friedberg, de uma cooperativa camponesa, que
denominou ‘Cooperativa de Consumo’, embora se tratasse mais,
na realidade, de uma Cooperativa Rural de Abastecimento
comum a todos os produtos necessários à agricultura, e que
corresponde à Cooperativa de Compras em Comum.
Figura 5.4 - Wilhelm Haas, 1838/1913.
Extraída do site: www.rwgv.de/.../rubriken/gesch_rwgv_haas.htm
Essa espécie de cooperativa desenvolveu-se muito no Hesse, mas
lá tomou um caráter diferente da de Neuwied, onde havia sido
organizada sob a direta influência de Raiffeisen. Isso se explica
pelo fato de já existirem no Hesse, quando Raiffeisen iniciou
sua ação, certo número de Cooperativas de Crédito, organizadas
de acordo com os princípios de Schulze-Delitzsch. Além disso,
muitas caixas de poupança públicas já satisfaziam em grande
parte as necessidades de crédito dos pequenos agricultores.
Assim, enquanto em Newied fundavam-se principalmente
cooperativas de crédito e economia (caixas rurais), no Hesse a
122
Introdução ao Cooperativismo
atividade cooperativa se desenvolveu, principalmente, no campo
econômico especialmente na parte de compras em comum.
Todavia, os organizadores do Movimento Cooperativo de Hesse
mantiveram estreitas relações com o de Neuwied. Por outro lado,
foram criadas muitas Cooperativas de Crédito do tipo Raiffeisen.
Figura 5.5 – Ilustração representando a Cooperativa de Consumo crida por Haas
Extraída do site: http://www.westerwald-links.com/wester/kunst/raiff.shtml
Em 1873, Haas compreendeu a necessidade de centralização
e convocou, para uma deliberação, os representantes das
cooperativas de abastecimento da região que vinham trabalhando
isoladamente, até então. A assembléia decidiu fundar a ‘União
das Cooperativas Agrícolas de Consumo’ no Hesse, a qual
funcionou como um armazém por atacado até 1890. Depois, veio
uma União das Cooperativas de Crédito e, mais tarde, a União
das Cooperativas de Leiteria.
A ‘União das Cooperativas de Crédito Agrícola’ de Hesse, em
um lapso de tempo, transformou-se na União das Cooperativas
Agrícolas do Sul e do Oeste da Alemanha, à qual aderiram, no
início, dezenove Cooperativas de Hesse e cinco de Bade. Para
presidi-la, foi convocado Wilhelm Haas.
Em 1883, por ocasião do Congresso de Hamburgo, foi
constituída a União das Cooperativas Agrícolas Alemã, com
sede em Darmstadt, sob a direção de Haas, em que ingressaram
apenas as cooperativas que não eram as de crédito. Com o
passar dos tempos, porém, essa União tornou-se a União
Geral das Cooperativas Agrícolas do tipo Haas. Em 1930,
essa União tornou-se a união cooperativa mais poderosa da
Alemanha, quiçá, mundial. Em 1904, Haas fundou a primeira
escola cooperativa que visava a preparar o pessoal necessário às
Unidade 5
123
Universidade do Sul de Santa Catarina
cooperativas agrícolas. Essa escola ainda hoje se encontra em
funcionamento.
A seguir, fazemos um resumo das referidas recomendações:
„
a cooperativa baseia-se na auto-ajuda e busca a
consolidação da independência dos agricultores
associados;
„
a associação cooperativa tem por funções: aumentar
o crédito agrícola pessoal; a compra em comum dos
produtos necessários;
„
transformação e venda dos produtos dos setores de
jardinagem, de vitivinicultura; o seguro agrícola; a
edificação e a utilização de construções coletivas;
„
a não recomendação de que uma mesma empresa
cooperativa vise ao mesmo tempo vários objetivos;
„
não é recomendável a constituição de cooperativas com
área de ação muito extensa;
„
as cooperativas locais de crédito devem adotar a
responsabilidade solidária e limitada dos sócios;
„
as cooperativas deverão constituir uniões regionais,
compreendendo as cooperativas de todos os tipos de sua
região, objetivando a defesa dos interesses comuns;
„
para as operações de crédito das cooperativas,
recomenda-se uma concentração regional, objetivando a
organização em comum; e
„
as uniões regionais devem constituir a União Nacional
das Cooperativas Agrícolas.
Na organização preconizada por Haas, a base era formada pela
União e pela Federação Regional. A característica principal da ação
de Haas é o espírito prático liberado de todo dogmatismo, no qual
não se fala de normas imperativas, mas de recomendações.
Trata-se, portanto, de um Sistema Cooperativo intermediário
entre o Sistema Raiffeisen e o Sistema Schulze-Delitzsch.
124
Introdução ao Cooperativismo
Do Sistema Raiffeisen foi tirado, inicialmente, a idéia de
limitação da atividade cooperativa restrita a círculo fechado.
A Cooperativa do tipo Haas, ao contrário da do tipo Raiffeisen,
formava seu capital através das subscrições e dos depósitos de seus
associados, sem chegar ao exagero de Schulze-Delitzsch.
Haas renunciou ao caráter ético e cristão da organização
cooperativa, acentuando o caráter econômico da ação cooperativa.
SEÇÃO 5 - O Sistema Cooperativo de Luigi Luzzatti e Leone
Wollemborg
A influência dos Sistemas Schulze-Delitzsch e Raiffeisen fez-se
sentir em outras áreas da Europa e acabou sendo adotada por estas,
algumas vezes com modificações para atender a necessidades de
adaptação ao meio em que iriam desenvolver-se no Movimento
Cooperativo Rural e no das classes médias das cidades.
Foi assim que, na Itália, surgiram os Sistemas Luigi Luzzatti e
Leone Wollemborg, que tiveram grande desenvolvimento nos
meios rurais e entre as classes médias das cidades.
Luigi Luzzatti
Luigi Luzzatti (1841-1927), político, professor universitário,
autor de obras de assuntos econômicos e financeiros, orador
de talento, foi considerado o verdadeiro fundador do
Cooperativismo de Crédito Italiano. Entre 1864 e 1865, fundou,
em Lodi e Milão, os primeiros bancos populares segundo o
Modelo Schulze-Delitzsch, o qual havia conhecido enquanto
estudante em Berlim. Esses bancos foram imitados também em
outros lugares e foi assim que nasceu uma poderosa organização a
partir do impulso inicial de Luzzatti.
Ele caracterizava A Cooperativa de Crédito como sendo “o
dinheiro do necessitado” e, desta forma, deveria servir sempre ao
necessitado. Já A Caixa de Poupança, ele considerava como sendo o
“cofrinho do pobre”, que junta dinheiro para emprestá-lo aos ricos.
Unidade 5
125
Universidade do Sul de Santa Catarina
Figura 5.6 - Luigi Luzzatti
Extraída do site: http://www.luzzatti.it/luzzatti.htm
Luzzatti tinha apenas vinte e dois anos quando publicou seu
primeiro livro, intitulado La diffusione del credito e lê banche
popolari, em Pádua, na Itália, no ano de 1863. Nessa obra, ele
expôs suas principais idéias sobre as Cooperativas de Crédito.
As principais características do
Sistema Luzzatti são:
„
preocupação com o
bem-estar das populações rurais;
„
a importância dada ao aspecto moral da ação cooperativa;
„
as cooperativas se fundam com capital próprio, subscrito
pelos associados, mas as cotas partes são de valor inferior
ao exigido pelo Sistema Schulze;
„
grande importância dada aos fundos de reserva;
„
partidário da responsabilidade solidária;
„
administração gratuita; e
„
pequenos empréstimos, concedidos sob palavra de honra
e sem juros aos mais pobres.
Era judeu, descendente de uma rica família israelense de Veneza,
tendo uma concepção muito próxima da ética cristã, que
dominava todas as manifestações no terreno cooperativo e social.
Em seu vibrante e magnífico discurso de abertura do Congresso
Internacional de Cooperativismo, em Cremona/Itália, em
126
Introdução ao Cooperativismo
1907, Luzzatti formulou o lema do Cooperativismo da seguinte
maneira: ‘Ajuda-te, Deus e o Estado te ajudarão!’
Leone Wollemborg
Leone Wollemborg (1859-1932) era italiano de Pádua, tendo
seguido de perto Raiffeisen na organização de seu Sistema,
preconizando a criação de Cooperativas de Crédito e de outros
tipos de Cooperativas Agrícolas.
Iniciou suas atividades em 1883, com a fundação de uma
Cooperativa de Crédito na aldeia de Loreggia que, pelos
resultados apresentados, alastrou-se logo por todo o país.
O seu sistema era muito aproximado do de Raiffeisen,
caracterizando-se por:
„
área limitada;
„
administração gratuita;
„
responsabilidade solidária e ilimitada dos sócios pelas
obrigações sociais;
„
capital modesto;
„
crédito concedido somente para produção; e
„
excedentes destinados inteiramente ao fundo de reserva e
indivisível entre os associados.
Figura 5. 7 - Leone Wollemborg
Extraída do site: http://www.centromarcabanca.org/index.php?module=subjects&func=viewpage
&pageid=42
Unidade 5
127
Universidade do Sul de Santa Catarina
Na cidade de Pádua, em 1884, Wollemborg expôs, com a
publicação da obra Le casse cooperative di prestimi, a sua proposta,
apresentando, de forma clara e sistemática, as regras a partir
das quais teriam que se organizar e funcionar as cooperativas.
Ele também publicou durante, aproximadamente, vinte anos a
Revista La cooperazione rurale.
As cooperativas criadas por ele se distinguem das Cooperativas
do tipo Raiffeisen apenas pela ausência do caráter ético-cristão.
Wollemborg aconselhava, ainda, a fundação de uma federação
de cooperativas locais, pelas quais ele esperava que fosse possível
criar um instituto central vigoroso.
Atividades de auto-avaliação
1. Quem foram os principais realizadores do cooperativismo mundial?
2. Que importância tem a criação da Cooperativa dos Probos Pioneiros de
Rochdale?
128
Introdução ao Cooperativismo
3. Quais foram as principais linhas do pensamento e da ação dos
realizadores?
4. Qual foi o papel fundamental dos realizadores no desenvolvimento do
cooperativismo?
Síntese
Nesta Unidade você foi apresentado e teve a oportunidade de
estudar a obra dos principais Realizadores, a partir da inusitada
experiência dos Probos Pioneiros de Rochdale.
O cenário apresentado é o europeu, porém outros Realizadores
deixaram de ser apresentados por não terem a mesma expressão
internacional destes.
Estes Realizadores deram surgimento às principais tipologias
cooperativas que, com o desenvolvimento da humanidade,
proporcionaram os treze setores cooperativos hoje em
funcionamento no Brasil.
Estes Realizadores conformaram ao longo do tempo o Ideário
Cooperativo.
Na próxima e última Unidade, você fará contato com a obra dos
Precursores.
Unidade 5
129
UNIDADE 6
Precursores do Cooperativismo
Objetivos de aprendizagem
„
Nomear os principais precursores do cooperativismo
mundial.
„
Identificar as principais características das propostas de
cada um dos precursores.
Seções de estudo
Seção 1 As idéias precursoras de P. C. Plockboy
Seção 2 O pioneirismo de John Bellers
Seção 3 Os ideais de Robert Owen
Seção 4 As propostas de François Marie Charles
Fourier
Seção 5 A teoria cooperativista de William King
Seção 6 As contribuições de Philippe Buchez
Seção 7 As ações precursoras de Louis Blanc
6
Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de conversa
Nesta unidade, você irá estudar os principais precursores
do cooperativismo mundial para poder entender como suas
contribuições foram importantes para a formação do ideário
cooperativista.
A cooperação moderna, especialmente a cooperação industrial
– que se propõe a transformar a organização econômica da
sociedade por meio do estabelecimento de um regime baseado
em associações de caráter econômico a serviço do interesse dos
trabalhadores - tem por fundamento doutrinal os utópicos que,
desde a segunda metade do século XV até meados do século
XVII, escreveram alguns romances sociais. Nestes, encontra-se a
descrição de organizações sociais futuras constituídas de maneira
racional e desprovidas dos defeitos da sociedade social.
Estes pensadores reconhecem como primórdios escritos, tais
como, A República, de Platão (428-347 AC), A Utopia, de autoria
de Thomas Morus (1478-1536); A Nova Atlantis, de Francis
Bacon (1561-1626); A Cidade do Sol, de Tommaso Campanella
(1568-1639).
Essas utopias podem ser consideradas, de certa maneira, os
pródomos das concepções cooperativas que são encontradas entre
os pensadores da Idade Moderna, ou seja, os primeiros a explorar
meticulosamente essa área.
As idéias que aqui apresentamos se revestem, muitas vezes, de
formas utópicas, mas no fundo, elas apresentam um caráter
realista obedecendo à condução de sua época.
Estes pensadores são originários da Inglaterra e França, isto é, de
países que encabeçaram o desenvolvimento industrial da Idade
Moderna.
Suas idéias, freqüentemente singulares ou estranhas, porém
sempre inspiradas na ambição de obter melhorias nas condições
gerais de vida, influenciaram o ideário de Robert Owen, Charles
Fourier, Louis Blanchez, além de muitos outros precursores
diretos do cooperativismo. Bom estudo!
132
Introdução ao Cooperativismo
SEÇÃO 1 – As idéias precursoras de P. C. Plockboy
P. C. Plockboy, de origem holandesa, mas radicado na Inglaterra,
publicou em 1659, sob o pseudônimo de Peter Cornellius van
Zurickzee, um panfleto com um título bastante longo:
Ensaio sobre um método para tornar felizes os pobres desta
nação e os dos outros povos, reunindo um certo número de
homens competentes em uma pequena associação econômica
ou pequena república na qual cada um conservará sua
propriedade e poderá, sem recorrer à força, ser empregado
no gênero de trabalho para o qual tem mais aptidão.O meio
de livrar esta nação, assim como as demais, não somente dos
preguiçosos e dos malvados, mas também das pessoas que
buscaram e encontraram o meio de viver às custas do trabalho
dos outros.
Plockboy sonhava com uma associação econômica em que a
propriedade individual seria mantida, mas em que desapareceria
a exploração de uns pelos outros. Seriam formadas famílias
ou pequenos grupos econômicos constituídos pelas quatro
mais importantes categorias de indivíduos que compõem a
humanidade: agricultores, artesãos, marítimos e mestres das artes
e das ciências.
Cada um receberia um crédito por sua contribuição para a
associação (terra, dinheiro e meios de transporte). À medida
desses aportes, o associado não teria a receber nenhum lucro. Ele
poderia anunciar sua retirada e sua participação deveria, então,
ser restituída.
Para começar, um grupo de “pais” deveria reunir um fundo,
destinado à construção de dois grandes prédios: um na city de
Londres, que abrigaria de 20 a 30 famílias e abarcaria igualmente
toda espécie de armazém; um outro no campo, mais vasto e
mais espaçoso, que serviria de centro de produção e de imóvel
residencial.
Os dirigentes e empregados deveriam ser eleitos para um
mandato de um ano pelos membros da associação. Os membros
deveriam trabalhar seis horas por dia para a produção comum.
Os operários contratados trabalhariam doze horas, mas teriam
Unidade 6
133
Universidade do Sul de Santa Catarina
a liberdade de tornarem-se membros também. Os melhores
operários seriam escolhidos e designados como contramestres.
Periodicamente, membros da família seriam transferidos da
cidade para o campo para que lá desenvolvessem e aumentassem
seu conhecimento técnico e, também, para que todos pudessem
aproveitar as vantagens da vida no campo.
Quais seriam, de acordo com Plockboy, os resultados
de seu projeto?
Em primeiro lugar, estabelecer uma ligação orgânica entre a
agricultura e a indústria nessa economia coletiva. É uma idéia
que reapareceu e tem tomado corpo nos últimos tempos nos
meios dirigentes do mundo cooperativo.
No domínio do consumo, afirmava Plockboy, obtém-se a
baixa dos preços das mercadorias porque o abastecimento se
faz em comum e em grandes quantidades aos associados dessa
organização econômica. O trabalho é aí igualmente facilitado e a
produção se processa nas condições mais vantajosas.
A associação não teme a concorrência dos comerciantes
particulares porque as vantagens que oferece
à organização cooperativa, em grande escala,
possibilitam a produção de um mercado
melhor que as empresas privadas.
A cada seis ou doze meses, encerram-se
as contas e se distribui o excedente, o que
permite a cada associado dar esmolas aos
pobres, presentear seus amigos, etc.
Os homens de negócios que estão fora, afirmava Plockboy,
debatem-se continuamente entre o temor e a esperança, enquanto
na associação, todos prosseguem confiantes no seu trabalho:
“Enquanto que os industriais de fora oprimem seus operários
impondo-lhes trabalhos pesados e dando-lhes salários reduzidos,
entre nós, ocorre o contrário: o lucro do empreendedor será
empregado para o bem e a recreação do operário”.
134
Introdução ao Cooperativismo
Aqui, trata-se, pois de uma cooperativa integral com a finalidade
de satisfazer os associados. A produção e o consumo são
submetidos ao regime de cooperação. A justificativa apresentada
por Plockboy é baseada nos ensinamentos da moral cristã.
Plockboy, com base nos seus postulados teria até fundado, com a
colaboração de alguns outros associados, uma colônia semelhante
em Nouvelle-Hollande, mas ela foi dissolvida em 1664 por
ordem do governo britânico.
SEÇÃO 2 – O pioneirismo de John Bellers
Algumas dezenas de anos depois de Plockboy ter lançado suas
idéias, John Bellers (1654-1725) publicou um plano semelhante
de reforma econômica.
Bellers era um quaker (da seita religiosa de puritanos ingleses
cujos membros denominavam-se “Filhos da Luz”). Em 1695,
publicou um trabalho intitulado: Proposta para a criação de uma
associação de trabalho de todas as indústrias e da agricultura.
O sistema de Bellers baseava-se nas Colônias Cooperativas de
Trabalho (College of Industry).
A colônia deveria compreender pelo menos 300 associados,
podendo esse número chegar a 3.000 e até mais; ela abarcaria a
vida inteira dos associados. Dessa associação econômica, resulta
uma produção que ultrapassa as necessidades indispensáveis dos
associados.
A colônia oferecia vantagens de ordem econômica em relação
à economia individual: eram suprimidas as despesas para os
armazéns de venda, o lucro dos comerciantes intermediários,
os honorários dos advogados, etc. Além disso, eram abatidas as
despesas de aluguel, de calefação, de cozinha, de abastecimento
de provisões etc.
A colônia se propunha a realizar a união entre a indústria e a
agricultura, o que permitiria um tratamento mais racional e
intensivo da terra (por exemplo, para a colheita eram empregados
não somente os trabalhadores agrícolas, mas também uma parte
dos artesões para uma melhor utilização das forças de trabalho).
Unidade 6
135
Universidade do Sul de Santa Catarina
O excedente da produção – o que ultrapassa as necessidades da
colônia – é usado para equipá-la e engrandecê-la. Os lucros eram
calculados no final do ano e repartidos entre os depositantes na
proporção do capital fornecido por cada um deles. Os operários
associados, assim como os contramestres e os empregados não
recebiam nenhuma remuneração em dinheiro, mas somente uma
subsistência suficiente. A remuneração do capital só ocorria à
medida da necessidade de atraí-lo à sociedade.
Adam Smith (1723-1790), nasceu
na Croácia. Foi o principal expoente
da economia clássica e fundador
da economia política. Estudou em
Glasgow e Oxford. Economista e
filósofo. Sua principal obra foi “A
Natureza e as causas da Riqueza das
Nações”, publicada em 1776.
Karl Heinrich Marx (1818-1883),
nasceu na Prússia. Originário de
família burguesa tomou parte
no Movimento Revolucionário de
1848, sendo expulso da Alemanha
e refugiando-se em Londres. Em
1848, juntamente com seu amigo
Engel, publicou o “Manifesto do
Partido Comunista”. Sua obra mais
célebre foi “O Capital”. Em 1863
fundou a primeira associação
internacional de trabalhadores. Foi
filósofo e economista.
136
O que precede mostra a importância que Bellers deu ao fator
trabalho. Para ele, é o trabalho e não o dinheiro que constitui
a verdadeira riqueza de uma nação. Essa era a razão pela qual
Bellers procurou excluir o dinheiro da vida interna da colônia:
“Nesta cooperativa é o trabalho e não o dinheiro que constitui
o padrão segundo o qual eram avaliados todos os bens de
consumo”.
A colônia de Bellers – diferentemente da colônia de Plockboy –
devia produzir mais do que as necessidades
de consumo dos associados, a fim de
poder vender produtos a outras pessoas
fora da associação. O lucro serviria
para remunerar e atrair o capital que
a instituição precisava: “onde há lucro,
mil libras podem ser mais facilmente
obtidas do que cem libras para fins
beneficentes”.
Bellers mostra, assim, que o trabalho e não o
dinheiro é o que faz a riqueza de uma nação. Por isso, merece
ser ele um dos precursores das futuras doutrinas econômicas
que encontramos em Adam Smith e Karl Marx. Este último,
tinha por ele uma especial e particular estima. Em O Capital,
ao referir-se a Bellers, Marx fala de um “verdadeiro milagre na
história da economia política”.
Introdução ao Cooperativismo
Figura 6.1- Adam Smith
Extraída do site: www.finfacts.com/.../article_10004429.shtml
Karl Marx faz várias citações de Bellers. Em um dos comentários
Marx refere-se a cooperação do trabalho, afirmando que, por
um concurso de forças de trabalho, não somente se consegue um
aumento da força individual de produção, mas, também, se cria
uma força produtiva que, por si só, deve ser uma força coletiva.
Para Bellers, os comerciantes são úteis, sendo órgãos de
distribuição na economia nacional. Mas, se o número de
comerciantes for grande demais em relação ao de produtores, eles
tornam-se um perigo para o país.
Pela influência de sua obra em Robert Owen, Bellers contribuiu
diretamente para a formação da concepção cooperativa moderna,
o que impressionou de maneira particular a Karl Marx.
As contribuições de P. C. Plockboy e de John
Bellers para a formação da concepção cooperativa
moderna podem ser resumidas nos seguintes pontos:
„
a idéia – bem desenvolvida – do self
help (auxílio mútuo) que têm as massas
miseráveis da população, tendo em vista a
realização de uma vida humana;
„
realização desse self help por meio da
associação de pequenas forças econômicas,
formando, assim, associações livres;
Unidade 6
137
Universidade do Sul de Santa Catarina
„
economias coletivas construídas por essas
associações. As funções econômicas dos
membros, em ligação com a produção e
consumo, são obtidas em comum por meio
de uma empresa econômica;
„
estrutura democrática dessas associações:
na direção e na administração das empresas
participam todos os associados, que elegem
os dirigentes efetivos;
„
idéias de supressão dos intermediários
que não são úteis na engrenagem da vida
econômica, revertendo-se o lucro deles para
o produtor útil;
„
relações orgânicas entre a indústria e
a agricultura, e entre a produção e o
consumo;
„
passar das construções ideais utópicas aos
programas de realizações práticas.
Como se pode depreender, embora não sejam sempre
apresentados de maneira absolutamente precisa, uma boa parte
dos princípios que norteiam o Movimento Cooperativo moderno
encontra-se nos trabalhos desses dois precursores ingleses.
S Saiba mais
Para obter mais informações sobre o conteúdo estudado nesta
seção, acesse os seguintes sites:
„
138
www.blupete.com ⁄ Literature⁄ Biographies⁄ Philosophy⁄S
mith.htm
„
www.culturabrasil.pro.br⁄marx.htm
„
www.mundodosfilosofos.com.br⁄marx.htm
Introdução ao Cooperativismo
SEÇÃO 3 – Os ideais de Robert Owen
Robert Owen (1771-1858) é considerado “O Pai do
Cooperativismo Inglês”, bem como do Cooperativismo moderno,
em geral.
Ele nasceu em Newton, Montgomery (norte do País de Gales),
em uma família de condições modestas e teve uma vida intensa
de trabalho. Aos nove anos, foi aprendiz de um comerciante, aos
catorze, empregado, aos dezenove anos, diretor de uma grande
fábrica de tecelagem e aos vinte e um anos, já era sócio de uma
grande empresa de tecelagem em New-Lanarck. Foi nesta época
que ficou vivamente impressionado com a miséria da classe
operária e idealizou seus projetos de reforma social, assim como
medidas de ordem prática para corrigir esta situação.
Owen, desde o início, observou com que cuidado eram tratadas
as máquinas inertes e com quanta negligência e desprezo eram
tratadas as máquinas vivas. Tomou então a decisão de agir a fim
de melhorar o estado material e cultural da massa operária.
Figura 6.2 - Robert Owen
Extraída do site: http://www.marxists.org/subject/utopian/index.htm
Reduziu o número de horas de trabalho de dezessete para dez
horas por dia e, além disso, aumentou os salários. Aboliu o
trabalho das crianças com menos de dez anos nas oficinas e
fez com que lhes fosse ministrado o ensino gratuito. Dirigia-se
aos próprios industriais com o objetivo de envolvê-los em seus
projetos de política social.
Unidade 6
139
Universidade do Sul de Santa Catarina
Owen também se esforçou para oferecer aos operários, a preços
razoáveis, habitações saudáveis, bem como artigos necessários ao
seu consumo familiar.
Os resultados dessas medidas, as quais inicialmente
amedrontaram os sócios desse ‘filantropo louco’, atraíram a
administração após alguns anos. Os estados material, físico
e moral dos operários melhoraram rapidamente e, ao mesmo
tempo, a empresa alcançou resultados maravilhosos. Esse sucesso
impeliu Robert Owen a elaborar um programa completo de
reforma social, programa que ele se esforçou para colocar em
prática.
Owen via a solução desse problema social na criação de
comunidades baseadas na idéia da propriedade coletiva, espécies
de colônias que deviam manter-se por seus próprios meios e
produzir tudo aquilo que os membros tivessem necessidade.
Essas comunidades eram, pois, uma espécie de ‘cooperativas
integrais’ em que a produção e o consumo efetuavam-se em comum.
Essas comunidades deviam abranger tanto a produção
industrial quanto a produção agrícola e seriam formadas
por pequenos grupos auto-suficientes de quinhentos a
dois mil indivíduos. Nelas, toda a propriedade privada
seria abolida. Não somente a produção, mas também
o consumo, seriam elaborados em comum. Em cada
comuna, haveria uma construção central em que
morariam todos os membros da comuna, como famílias.
A produção e a administração da colônia seriam responsabilidade
de grupos de pessoas da mesma idade. Dessa maneira, não
haveria chefes e a igualdade perfeita reinaria na comunidade,
tanto do ponto de vista econômico quanto político. Não haveria
mais, portanto, governantes nem governados.
Owen fundou inicialmente uma colônia semelhante em New
Lanark, onde obteve belos resultados. Mas, em 1829, vendeu-a
para fazer tentativas similares na América do Norte, onde fundou
a colônia de New-Harmony, depois no México e na Inglaterra,
onde não obteve sucesso.
E. T. Craig, um de seus discípulos, estabeleceu, em Relahine,
as bases de uma colônia cooperativa, que rapidamente se
140
Introdução ao Cooperativismo
transformou em uma cooperativa integral, adotando os princípios
da cooperação pura. Essa experiência teve pleno êxito, mas,
algum tempo depois, essa organização cooperativa foi liquidada,
por motivos que nada tinham a ver com a própria existência
da cooperativa. A colônia tinha sido fundada com recursos de
um rico irlandês, chamado Vandeleur. No início, a cooperativa
apresentou bons resultados. Infelizmente, Vandeleur perdeu toda
a sua fortuna no jogo e provocou, assim, o desmoronamento da
colônia cooperativa de Relahine, embora ela estivesse em pleno
desenvolvimento.
Robert Owen teria sido o primeiro a empregar o termo
‘cooperativa’. É bem verdade que essa noção teve em Robert
Owen um sentido bastante diferente do que é atribuído hoje
a esse termo. A palavra era tomada em um sentido oposto à
noção de ‘concorrência’. Além disso, quando opunha o sistema
individualista de concorrência ao sistema de cooperativa
mutualista, Robert Owen acreditava que cooperativismo
significava comunismo.
As primeiras sociedades cooperativas reunindo seus discípulos
foram associações cujos membros pagavam uma cotização
semanal com o objetivo de acumular um capital destinado à
fundação de vilarejos comunistas.
Para Owen, a solução do problema social estava na aplicação do
método da ‘associação econômica’. Esta devia suprimir o lucro
sobre as mercadorias.
Ele era partidário de um ‘novo sistema de sociedade’ e dirigiuse inicialmente aos patrões capitalistas, depois ao governo,
solicitando a melhoria da situação da classe operária. Mas
seus apelos não lograram êxito. Então, passou a defender as
comunidades voluntárias, que se tornariam a única forma de
comunidades humanas.
Owen transmitiu à classe operária trabalhadora uma
simples fórmula: “a competição ou concorrência deve
ser substituída pela cooperativa”.
Unidade 6
141
Universidade do Sul de Santa Catarina
O essencial do pensamento de Owen pode ser expresso da
seguinte maneira: de que a maior chaga da humanidade é a busca
do ganho. Isso resulta do fato de os bens econômicos serem
vendidos a um preço mais elevado do que o preço de custo,
que é o justo. Esse lucro é, pois, injusto. Daí sua teoria de troca
equânime.
O instrumento de lucro é o dinheiro. O dinheiro não é a
verdadeira medida do valor dos bens econômicos. O valor de
um produto é determinado pela quantidade de trabalho e de
habilidade empregada. O trabalho é,
portanto, o verdadeiro padrão de valor.
Por conseguinte, o lucro deveria ser
abolido, o que Owen desejava realizar por
meio da criação de um ’estabelecimento
para a troca do trabalho’ (labor exchange),
que seria organizado sobre bases
cooperativas e daria aos depositantes das
mercadorias ‘bônus de trabalho’ (labor
notes) pelo valor dos produtos entregues
por eles.
O preço seria fi xado conforme o número de horas de trabalho
necessárias à produção, visto que o valor de um bem econômico
é determinado, segundo Owen, pelo trabalho e pela habilidade
nele empregados.
Robert Owen tentou colocar em prática esse projeto de Bolsa de
Troca. Porém, em 1832, foi fundada uma instituição semelhante
em Londres, Bray’s Jun Road, a qual foi saudada com muito
entusiasmo. Magníficas reuniões operárias foram realizadas
para comemorar o novo estabelecimento. A classe operária via
nessa instituição o meio de afastar o terrível fantasma da falta de
trabalho. As associações de consumo então existentes aderiram
a esse método de troca. Os industriais acolheram igualmente o
projeto com simpatia e prometeram seu apoio.
Mas logo surgiram dificuldades. Especuladores também
apareceram, apresentando mercadorias ruins e tomando em troca
boas mercadorias que vendiam no mercado a preços superiores,
obtendo assim, ganhos que Owen se propunha justamente a
suprimir. Além disso, a quantidade de trabalho necessitada por
cada produto era estabelecida de maneira bastante arbitrária por
142
Introdução ao Cooperativismo
peritos contratados pelo estabelecimento. Enfim, por infelicidade,
a sede do armazém teve de ser transferida, pois Owen não
garantira a permanência dessa sede por meio de um contrato de
locação.
Mas o defeito principal dessa Bolsa de Troca foi aquele que é
próprio de todas as experiências de economia social feitas em
pequena escala: o círculo de atividade – tanto para a produção
quanto para o consumo – era demasiadamente restrito, não se
podia chegar a adequar a produção às necessidades do consumo.
Em 1834, o estabelecimento teve de ser fechado.
Da idéia da abolição do lucro comercial resultou a idéia da
supressão dos intermediários, que fazem subir inutilmente o
preço da mercadoria.
Por causa dessa idéia, Robert Owen, que fez campanha em favor
da associação integral, pode ser considerado um precursor da
Cooperativa de Consumo. De fato, uma boa parte dos Pioneiros
de Rochdale, os fundadores do cooperativismo moderno de
consumo, foram adeptos de Robert Owen.
Owen se propôs, através de suas comunidades cooperativas, a
completar a obra inacabada da Revolução Industrial, estendendo
o Sistema Cooperativo (que já existia na produção) à posse da
terra e do capital fi xo, bem como à troca das mercadorias. Em
suma, ele tentou substituir a propriedade privada por uma posse
comum das riquezas e o regime da concorrência por uma troca
equânime dos víveres entre diversos grupos de trabalhadores
associados, troca calculada segundo o valor social dos produtos.
Por meio dessa nova organização da produção e da distribuição,
ele acreditava poder colocar um fim aos desastres crônicos
causados pelas alternativas de inchamentos e de depressões
industriais e a este paradoxo do século XIX: o crescimento da
produção de víveres, seguido imediatamente da miséria dos
trabalhadores.
Em Robert Owen, encontramos, pela primeira vez, a idéia de
uma organização cooperativa com bases internacionais. Em
1835, em Londres, ele fundou a ‘Associação de todas as classes
de todas as nações’ (Association of all classes of all nations) que
visava contribuir para colocar em prática seu sistema social. Essa
associação foi constituída somente entre ingleses. Compreendia
Unidade 6
143
Universidade do Sul de Santa Catarina
uma seção para as questões internas e outra para as questões
externas.
Assim, tratava-se de uma organização de caráter internacional.
Owen tentou – sobretudo em uma viagem à Europa continental
– encontrar adeptos em diferentes centros. Mas não havia ainda,
naquele momento, nenhum Movimento Cooperativo. Ele teve,
então, que dirigir-se às personalidades eminentes dos países
visitados (França, Áustria e Alemanha), entre outros, ao Príncipe
Metternisch e a Alexandre Von Humboldt.
Essa viagem convenceu Owen de que ainda não era o momento
de criar uma organização cooperativa internacional, pois,
em 1839, ele transformou a sociedade em uma Universal
Community Society of Rational Religionists, que, com o tempo,
assumiu o caráter de uma seita de livres pensadores, com formas
eclesiásticas.
A ação de Robert Owen não teve continuação. Todavia, do
ponto de vista da história, é preciso ressaltar essa idéia de uma
organização cooperativa internacional, que nasceu no pensamento
de um homem em um tempo em que o Cooperativismo
Moderno ainda não havia nascido. A idéia não se perdeu e mais
tarde nasceu a “Aliança Cooperativa Internacional” e outras
organizações de caráter internacional.
SEÇÃO 4 – As propostas de François Marie Charles Fourier
Na França, encontramos uma série de pensadores que muito
contribuíram para a elaboração de uma Doutrina Social com
base cooperativa. Diferentemente do que ocorreu na Inglaterra,
na França predominou a idéia da Cooperativa de Produção, com
exceção de Charles Fourier.
O lugar ocupado por Robert Owen na história das idéias
cooperativas na Inglaterra, na França é preenchido por François
Marie Charles Fourier (1772-1837).
Filho de um rico comerciante, Charles Fourier perdeu sua
fortuna em uma especulação desastrosa. Em conseqüência,
passou a viver como um modesto empregado do comércio.
144
Introdução ao Cooperativismo
Sua vida de pequeno burguês equilibrado contrasta com sua obra
cheia de fantasia audaz, que chega, às vezes, às raias da loucura.
Figura 6.3 - François Marie Charles Fourier
Extraída do site: http://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Fourier
Fourier antevia a solução do problema social na constituição de
vários grupos organizados numa vida em comum. Seu plano
abrangia não só os operários, a exemplo de outros precursores
do movimento. Ao contrário, insistia no fato de que os grupos
econômicos a serem criados só dariam bons resultados se fossem
formados por membros pertencentes a todas as classes sociais
reunidas. Denominou esses grupos de ‘falanges’, evocando as
invencíveis falanges da Armada Macedônia.
O número de associados de uma falange poderia variar de 400
até 2.000. Afirmava que o rendimento máximo era obtido
quando a falange era composta por 1.620 associados – dobro
de 810, número que indicava, segundo ele, a quantidade dos
diferentes caracteres humanos. Para Fourier, seria bom que
a Falange reunisse todos os caracteres que, completando-se
mutuamente, anulariam seus defeitos. Segundo Fourier, na vida
em comum, realizar-se-ia uma economia importante.
Essa falange seria instalada em uma colônia comum, intitulada
de ‘Falanstério’. O Falanstério possuiria uma propriedade
com a forma quadrada e 2.000 hectares de superfície, o que
representaria pouco mais de um hectare para cada um dos 1.620
membros da falange.
Nela, seria edificado o ‘Palácio Social’, no centro do qual se
encontraria a sala de jantar, a biblioteca, a sala de estudos e
Unidade 6
145
Universidade do Sul de Santa Catarina
os salões de correspondência. Todos os membros da colônia
morariam nesse edifício. Nas alas vizinhas, seriam instaladas as
oficinas de trabalho, bem como as salas de jogos para as crianças
que, desta forma, não perturbariam a paz dos locatários com sua
algazarra.
Figura 6.4 – Planta projetada por Fourier para o Falanstério
Extraída do site: http://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Fourier
Fourier quase não se preocupou com a organização política das
falanges, pois achava que, realizando-se a harmonia completa
de interesses através da organização da vida econômica e social,
não haveria necessidade nem de meio de coação, nem de poder
administrativo. Os chefes da falange seriam eleitos e suas
atribuições seriam absolutamente honoríficas.
Resultando a colônia do agrupamento de pessoas de todas as
categorias sociais, a propriedade individual seria mantida, logo,
o Falanstério não seria uma colônia comunista. A vida seria
coletiva, mas respeitando-se as diferenças na maneira de viver. Na
mesa, existiriam cardápios diferentes, segundo a renda e os gostos
dos membros.
Fourier atribuiu uma grande importância ao trabalho agrícola
e negligenciou o trabalho industrial. No Falanstério, apenas
um quarto do trabalho seria reservado para a indústria, os três
quartos restantes deveriam ser destinados a trabalhos agrícolas.
O industrialismo, dizia Fourier, é a mais recente de nossas
quimeras científicas. Ele chega à mania de produzir de maneira
confusa, sem que o produtor ou o assalariado tenha garantia
alguma de poder participar do conjunto de riquezas. Da mesma
forma, no Falanstério, a agricultura de cereais, que exige uma
146
Introdução ao Cooperativismo
quantidade considerável de trabalhos, deve ser substituída pela
cultura mais econômica dos legumes e das árvores frutíferas.
Partindo do princípio de que o trabalho deve ser atraente,
afirmava que isso poderia ser conseguido com a transferência
das oficinas das cidades para o campo, onde seriam distribuídas
em áreas pitorescas. Ele prescreveu condições e regras sobre a
elegância, limpeza, harmonia espiritual, segurança e os locais
adequados em que os sócios deviam desenvolver suas atividades.
O trabalho seria feito em séries, cada um passando de uma
espécie de trabalho para outra livremente. A conseqüência da
série seria a harmonia.
O trabalho atrativo só poderá ser realizado por meio da
associação. Então o salário deve desaparecer neste regime e
ser substituído pelo trabalho associado, ao qual compete à
propriedade dos meios de produção. Os produtos dessa economia
coletiva devem ser distribuídos segundo a seguinte fórmula:
5/12 para o trabalho manual; 4/12 para o capital e o restante, ou
seja, 3/12 para o talento, isto é, ao trabalho intelectual colocado
a serviço da produção. Para a remuneração dos trabalhadores é
reservada uma parte das sobras. A parte reservada ao trabalho
é repartida proporcionalmente aos graus de: necessário, útil, ou
agradável.
No projeto de Fourier, a colônia era fundada graças a um capital
que pertencia, não aos seus membros, mas a um filantropo
estranho ao grupo. A este era reservado, então, 1/3 das sobras.
Fourier, na França, e seus discípulos Chaning Brisbane e Victor
P. Considerant, na América do Norte, esperaram em vão, durante
toda as suas vidas, o filantropo, que deveria adiantar os fundos,
realizar essas idéias, mas sem nenhum resultado satisfatório.
Porém, entre 1841 e 1845, nada menos do que trinta e quatro
Colônias Fourieristas foram fundadas. Todas fracassaram, cedo
ou tarde, por diferentes motivos.
Victor P. Considerant, o mais brilhante dos discípulos de Fourier,
expôs a doutrina do mestre em um livro publicado entre 1834 e
1844, em três partes, com o título O Destino Social. Este livro era
dotado de um caráter político. Já em 1843, Victor P. Considerant
fundou o Jornal A Democracia Pacífica, que substituiu os Jornais O
Falanstério e A Falange, ambos editados entre os anos de 1832 e
1840.
Unidade 6
147
Universidade do Sul de Santa Catarina
O programa da Escola foi exposto em 1841, por Considerant,
por meio do Manifesto da Escola Societária, que defendia a idéia da
reforma social baseada na associação.
Uma realização prática das idéias de Fourier, que se manteve e
se mantém até nossos dias, foi a encabeçada por Jean-Baptiste
André Godin (1817-1888), na localidade de Guise, na França.
Figura 6.6 - Jean-Baptiste André Godin, idealizador do Familistério.
Extraída do site: www.familistere.com/.../chronologie.php
Ela não se trata de uma exata aplicação do “fourierismo” e, com
o tempo, distanciou-se do caráter inicial. Todavia, é certo que
Godin agiu sob a inspiração das idéias de Fourier. O operário
Godin conseguiu tornar-se patrão de uma importante empresa
metalúrgica, em Guise. Conheceu as misérias da classe operária
desde sua infância e quis ser útil à classe social de onde havia
saído e, entusiasmado pelas idéias de Fourier, doou 100,000
francos ao Falanstério fundado por Considerant, no Texas.
Em 1859, Godin fundou uma instituição similar em Guise, a
qual denominou de Familistério. Essa instituição progrediu e,
embora devastada pelas guerras, ainda hoje se encontra em pleno
funcionamento. Porém, em 1880, foi transformada em uma
cooperativa, sendo que as cotas entregues a Godin elevaram-se à
casa dos 3.750 milhões de francos franceses e os operários haviam
acumulado, graças à participação nos lucros, mais de 250.000
francos franceses.
O excedente obtido pela empresa deveria ser repartido entre os
associados da seguinte maneira: 25% para o fundo de reserva;
148
Introdução ao Cooperativismo
25% para a direção; e 50% ao capital a ao trabalho dos membros
restantes.
Pode-se depreender que o Familistério concebido por Godin não
era exatamente aquilo com que Fourier havia sonhado, porém
representou uma bela e interessante experiência social, que teve e
tem êxito.
O Movimento Cooperativo atual, tanto no Paraná como em
Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, teve seu início entre
colonos de imigração européia. Na segunda metade do século
XIX, ocorreram experiências pioneiras de cooperativas integrais,
calcadas no Modelo Furierista. Entre 1842 e 1845, em Santa
Catarina e, 1847 a 1890, no Paraná.
SEÇÃO 5 – A Teoria Cooperativista de William King
O Doutor William King (1780-1865) partiu da idéia de que
era interessante reunir a capacidade de consumo do público.
Na economia de seu tempo, as riquezas eram adquiridas pelo
comércio. Logo, os que tivessem necessidades de produtos
deviam começar pela organização do comércio de mercadorias
e não pela produção. Os operários seriam mais favorecidos se o
dinheiro que gastavam para organizar as greves, com a ajuda das
associações profissionais, cujo papel não fora negado por King,
pudesse ser empregado na criação de Cooperativas de Consumo.
Ele procurou pôr em prática sua Teoria Cooperativista e, em
1827, King criou a primeira Cooperativa de Consumo em
Brighton. Nessa cidade, onde exercia a medicina, ele conheceu
a esposa do grande poeta inglês Byron, que se interessava
pelas instituições de reforma social. Lady Byron muito ajudou
financeiramente a ação cooperativa de King.
De acordo com o Modelo de Brighton, em pouco tempo foram
criadas mais de trezentas pequenas cooperativas. Porém, elas
também logo desapareceram. A atividade do Doutor King no
campo do cooperativismo não teve, portanto, resultados práticos
duradouros. Mas suas idéias influenciaram o programa da
primeira cooperativa moderna de consumo, a de Rochdale.
Unidade 6
149
Universidade do Sul de Santa Catarina
Figura 6.7 - William King
Extraída do site: http://uts.cc.utexas.edu/~laurel/cooproots/philos.html
King não conseguiu descobrir as regras práticas necessárias ao
funcionamento da Empresa Cooperativa. Suas sociedades tinham
um número limitado de associados, que não representava um poder
aquisitivo suficiente para que elas prosperassem. Além disso, o
pequeno capital dos membros não era remunerado, vendia-se, ao
preço de mercado, os excedentes que não eram repartidos entre os
sócios clientes, quer como bônus, quer como juros de capital, mas
eram destinados à constituição de um capital coletivo.
Dessa maneira, o sócio não tinha interesse nem como associado,
nem como cliente. A participação na cooperativa não oferecia
nenhuma vantagem aos sócios.
Todavia, King pode ser considerado um dos mais qualificados
teóricos do cooperativismo de sua geração.
Durante os anos de 1828 e 1829, King publicou uma pequena
revista mensal intitulada The co-operator, a qual teve vinte e oito
números publicados, todos integralmente redigidos por ele. Seus
artigos tratavam de cooperativismo, bem como de mutualismo,
das trade-union, do cristianismo, etc. Nessa revista, ele expôs suas
idéias sobre o Sistema Cooperativo.
King preconizava que somente seria possível tirar as classes
operárias do estado de miséria e de dependência em que se
encontravam em relação às classes capitalistas através de empresas
cooperativas, as quais lhe dariam possibilidades de criar uma vida
independente e um bom estado físico e moral.
150
Introdução ao Cooperativismo
No sentido oposto ao dos outros reformadores sociais, que
declaravam ter necessidade de certos fundos para colocar seus
planos em prática, pelo menos no início, King partia da idéia
de que a ação de emancipação da classe operária deveria ser
executada exclusivamente pelos próprios meios dessa classe.
A idéia de auto-ajuda (self help), que também é encontrada
em outros pensadores, foi acentuada e considerada por King
como um dos pontos fundamentais de seu programa de ação
cooperativa.
Por meio da cooperativa, o trabalho deveria ser liberado da
situação de dependência na qual se encontrava em relação ao
capital. As forças dispersas dos trabalhadores poderiam criar
uma excepcional potência se pudessem substituir o ódio existente
pelo entendimento e pela associação dos interesses comuns dos
trabalhadores. King procurou mostrar à classe operária que
ela possuía uma importante força, que deveria ser concentrada
em cooperativas para melhorar o poder aquisitivo de cada um,
mesmo dos mais pobres.
King também afirmava que o lucro comercial não provinha do
capital, mas sim, das vendas efetuadas pela empresa.
Ele também defendia a idéia de que a cooperativa não devia
contentar-se somente em organizar a atividade econômica
dos membros, mas deveria ter em mente, igualmente, as suas
necessidades espirituais. Por meio da cooperativa, o homem
deveria ser transformado moralmente, pois, como os interesses
de cada associado são os mesmos, a concórdia e o amor reinariam
pela força das coisas. Aí também poderia concretizar-se o
preceito cristão de “amar ao próximo como a si mesmo”.
A concepção cooperativa de King, diferentemente da de Robert
Owen era, portanto, profundamente cristã. Ele é considerado
um dos precursores dos cristãos sociais.
Ele dizia que a cooperativa devia trabalhar pela transformação
moral do homem, assumindo a tarefa de educar os cooperados.
Dessa maneira, preconizava a criação de escolas cooperativas para
o ensino econômico e a organização das cooperativas.
No fundo, a Teoria Cooperativa de William King pode ser
enunciada como o fundamento social e econômico da cooperativa
Unidade 6
151
Universidade do Sul de Santa Catarina
consistindo na organização do trabalho e no interesse daqueles
que fornecem o trabalho. A cooperativa permitiria que o
fator trabalho se liberasse do estado de dependência em que
se encontrava em relação ao fator trabalho. Ele acrescentava
também que o salário que o trabalhador recebia representava
somente uma insignificante parte do valor criado por ele.
Em resum o, na opinião de William King, a cooperativa permite
aos operários, por meio da acumulação de um capital próprio
coletivo, organizar sua força de trabalho em seu próprio interesse.
S
Saiba mais
Pesquise nos seguintes sites e descubra mais sobre a Teoria
Cooperativa de William King:
Henry Saint Simon foi
Conde. Seu verdadeiro nome era
Claude Henry di Rowroy (17601825). Filósofo francês, foi um dos
expoentes do socialismo utópico.
Preconizava a criação de um
estado organizado racionalmente
por cientistas e industriais. Sua
doutrina ficou conhecida como
“industrialismo” e teve muitos
adeptos na França. Suas principais
obras foram: “Sistema Industrial”
(1823) e “Discussões Políticas,
Morais e Filosóficas” (1817).
„
www.William4King.com
„
www.Kingwilliamassociation.org
SEÇÃO 6 – As contribuições de Philippe Buchez
Se Charles Fourier nos seus planos preocupava-se tanto com o
consumidor como com o produto, outros Precursores do Movimento
Cooperativo, na França, limitaram-se, quase que exclusivamente, a
preconizar as Cooperativas de Produção Industrial.
Philippe Buchez (1796-1865) foi discípulo de Henry Saint
Simon, assim como seus inúmeros discípulos, os quais estavam
entre os primeiros a preconizar, como meta principal dos tempos
vindouros, a reorganização da vida econômica da sociedade,
o que, para ele, deveria realizar-se por meio de um “Novo
Cristianismo”.
Buchez partiu da idéia que a classe operária deveria vencer por si
mesma. Nem o estado, nem a filantropia, deveriam intervir. Os
trabalhadores associados deveriam levar para a cooperativa os meios
de trabalho que possuíam, assim como as pequenas somas que
conseguiram economizar. Com o tempo, o capital da sociedade
aumentaria em vista da acumulação dos excedentes realizados.
152
Introdução ao Cooperativismo
Segundo Buchez, a associação de produção se constituía
livremente com os membros de uma mesma profissão. Entre os
associados seriam eleitos dois membros de confiança, os quais
ficariam incumbidos da orientação da empresa. Os associados
receberiam um salário de acordo com suas capacidades pessoais e
segundo as normas existentes nas suas respectivas profissões.
Ao final de cada exercício, que era anual, o valor correspondente
a 80% do excedente líquido da cooperativa era distribuído entre
os associados pró-rata aos salários recebidos e os 20% restantes,
seriam acumulados na conta do capital social. Este capital tinha
um caráter inalienável, constituindo, assim, um fundo indivisível
e indissolúvel. Em caso de liquidação da sociedade, o mesmo não
era repartido entre os sócios, mas era legado à outra associação,
preferencialmente, do mesmo ramo de produção.
Figura 6.8 - Philippe Buchez
Extraída do site: http://www.assemblee-nationale.fr/histoire/presidents/philippe_buchez1.asp
Para a acumulação e administração desses fundos inalienáveis,
os quais deveriam transformar a sociedade inteira em uma
associação de produção, Buchez preconizou a criação de um
Banco de Estado do Trabalho, pois estes fundos deveriam
destinar-se à realização da reforma da sociedade sobre bases
cooperativas, graças à transferência dos meios de produção para
as mãos dos operários.
Esta idéia de acumular fundos indissolúveis que permitissem,
principalmente na cooperativa, onde a vida pode ser passageira,
formar, em proveito dos trabalhadores, capitais cada vez mais
Unidade 6
153
Universidade do Sul de Santa Catarina
importantes, foi, posteriormente, retomada por Louis Blanc, por
F. W. Raiffeisen e pelas Cooperativas de Consumo.
Buchez expôs suas idéias em periódicos que tiveram grande
influência nos meios operários franceses. No período entre
1825 e 1830, ele colaborou com o Jornal O Produtor. Sua obra é
totalmente isenta dos elementos utopistas dos outros pensadores
sociais de sua época, especialmente de Charles Fourier.
Buchez foi um idealista social mais voltado para o futuro. As
Cooperativas de Produção preconizadas e criadas por ele são, em
seu pensamento, instituições preparadas para as gerações futuras
desfrutarem suas vantagens.
De acordo com seus princípios, duas Cooperativas de Produção
foram fundadas. Uma em 1832, de marcenaria, liquidada logo
depois e outra em 1834, de artífices em metal dourado, a qual foi
liquidada em 1873.
Conjunto de movimentos
democráticos culminantes em
levantes armados na França,
Alemanha, Áustria, Hungria e Itália.
Representaram um prolongamento
da Revolução Francesa. Foi um
conjunto de revoltas contra o longo
domínio reacionário assegurado na
Europa pela Santa Aliança.
Pierre Joseph Proudhon (18091865), teórico social francês
precursor e inspirador do
anarquismo. Preconizava uma
sociedade em que a propriedade
fosse distribuída entre indivíduos
livres que cooperassem
espontaneamente sem a
necessidade de um governo central.
154
Essas cooperativas reservavam ao fundo inalienável 1/7 de seus
lucros líquidos, a metade do resto era atribuída a um fundo de
reserva e a outra metade aos membros da cooperativa.
SEÇÃO 7 – As ações precursoras de Louis Blanc
Louis Blanc (1812-1882) foi um agitador político, um homem de
ação, grande tribuno do povo na época da Revolução de 1848.
Sua concepção cooperativa era mais realista do que a de seus
predecessores e de seus contemporâneos.
Em seus escritos, sem dúvida, faltou a profundidade de análise
e o misticismo imprescindível encontrados, por exemplo, em
Pierre Joseph Proudhon e em Charles Fourier. Porém, em
contrapartida, seus escritos eram mais simples e mais veementes,
tendo sido escritos para a massa trabalhadora. No fundo, Louis
Blanc seguiu as idéias preconizadas por Henry Saint-Simon e
por Philippe Buchez, acrescentando pouco de pensamento novo.
Enquanto que Buchez tinha uma visão voltada, sobretudo, para
a classe dos pequenos artesãos, Louis Blanc preocupava-se em
dirigir-se à massa dos trabalhadores de grandes indústrias.
Introdução ao Cooperativismo
Louis Blanc expôs seu ideário de associação, principalmente
na obra L’organisation du travail, publicada em várias edições.
Nessa obra, Louis Blanc preconizou a solução do problema social
de ordem econômica moderna pela organização do trabalho
associado.
Naquela época, o termo ‘cooperativa’ ainda não havia sido
empregado na França, porém, o que se entendia por associação
era uma verdadeira cooperativa no sentido moderno do termo.
A primeira edição data de 1840 e reunia uma série de artigos
publicados em um periódico intitulado Revue du progrés
politique, social et littéraire.
Louis Blanc defendia que a livre concorrência era a causa de
todas as misérias conhecidas na ordem econômica de seu tempo.
Ao Princípio da Livre Concorrência, devia se opor uma nova
fórmula: a melhora moral e material da sorte de todos pela livre
participação de cada um e por sua associação fraterna.
Ele sempre insistia na idéia de que a sociedade tem o dever de
assegurar a cada um a possibilidade de trabalhar (direito ao
trabalho), garantindo a todos a verdadeira liberdade baseada na
instrução geral e nos instrumentos de trabalho.
Recomendava que a célula do novo sistema econômico deveria
ser formada pela ‘oficina social’, que era uma associação operária
de produção, cujos estatutos eram votados e aprovados pela
Representação Nacional. Esta associação apoiava-se sobre uma
base democrática e sobre o espírito de solidariedade fraternal,
sendo formada pelos operários de uma mesma indústria.
Como, no início, a massa operária não dispunha do capital
necessário para a criação de uma empresa econômica, Blanc
recomendava que o Estado deveria ser obrigado a contribuir
financeiramente, tornando-se assim o ‘Banco dos Pobres’.
No primeiro ano de funcionamento, a gestão deveria ser
confiada a um diretor nomeado pelo Estado. Posteriormente,
se os operários associados conseguissem ter conhecimentos
suficientes para responsabilizarem-se pelo funcionamento da
empresa, a direção desta deveria passar a um comitê composto
por vários associados, eleitos entre si de acordo com os princípios
democráticos. Esse comitê deveria então distribuir as tarefas entre
Unidade 6
155
Universidade do Sul de Santa Catarina
os associados, fi xar as horas de trabalho, fiscalizar a contabilidade
da empresa, etc.
Os lucros da empresa deveriam ser assim repartidos: uma parte
empregada para ressarcir o Estado dos fundos emprestados à
associação; uma segunda parte serviria para formar um fundo de
reserva em caso de velhice, acidentes, doenças, etc, bem como
para aliviar as crises que poderiam atingir a outras indústrias,
já que todas as indústrias deveriam auxiliar-se mutuamente. O
restante seria destinado a um fundo inalienável e indivisível,
que serviria para fornecer instrumentos de trabalho aos novos
associados, perpetuar o trabalho da associação e generalizar o
sistema, pois, dessa forma, um capital considerável seria formado.
Este capital não pertenceria a ninguém em particular, mas a
todos coletivamente.
A primeira associação operária de produção foi criada por
iniciativa de Louis Blanc, em Paris, no ano de 1848, com o
objetivo de confeccionar os uniformes para a Guarda Nacional.
Inicialmente, foi instalada no prédio da antiga Prisão de Clichy
e contava, na data de sua fundação, com, aproximadamente,
cinqüenta membros. Este número rapidamente chegou a 2.000.
Os bons resultados dessa primeira tentativa levaram ao
surgimento, pouco tempo depois de uma associação de seleiros
e uma outra de fiandeiros, as quais receberam encomendas da
municipalidade de Paris. Cedo, o número dessas associações
ultrapassou a cem.
Acontecimentos políticos ulteriores abalaram a situação de Louis
Blanc junto ao Governo Provisório e fizeram-no perder sua
popularidade. Seus adversários foram encarregados de ampliar
seus projetos sobre as ‘Oficinas Nacionais’ e comprometeram suas
idéias imprimindo-lhes um cunho militar.
Nas suas últimas publicações, Louis Blanc modificou e aumentou
seu programa de organização do trabalho. Às associações
de produção industrial, ele acrescentou associações para a
reorganização do comércio, do crédito e da agricultura. Expôs
as desvantagens da cultura parcelada das terras, sem esquecer de
enaltecer a conveniência da pequena propriedade agrícola.
156
Introdução ao Cooperativismo
A Cooperativa de Produção, idealizada por Louis Blanc, não era
uma instituição isolada, mas a célula de uma grande organização,
base de um novo sistema econômico nacional. A associação
suprimia a concorrência entre as diferentes associações da mesma
categoria.
Ressalte-se que Louis Blanc, por fim, abandonou também a idéia
do sistema de salários iguais. Ele chegou a um amplo programa
associacionista que envolvia o conjunto da economia, pois
afirmava que as crises econômicas surgem, em grande parte, do
conflito de interesses.
No que diz respeito às idéias cooperativistas, é falso considerar
que ele esperava tudo da ajuda do Estado. Pode-se constatar, pela
literatura ora existente, que suas associações eram instituições que
gozavam de uma certa autonomia e que tinham uma organização
democrática, baseada no princípio do sef-government; no qual o
Estado teria um papel educativo e provisório no que diz respeito
à direção das diferentes oficinas sociais.
Louis Blanc é, por tudo isso, considerado um dos primeiros
representantes da Doutrina do Socialismo de Estado.
Atividades de auto-avaliação
1 – Quais foram os principais precursores das idéias cooperativas?
Unidade 6
157
Universidade do Sul de Santa Catarina
2 – Quais são os elementos comuns do ideário dos precursores do
cooperativismo?
3 – Qual foi o marco histórico do surgimento do cooperativismo?
4 – Que contribuição atualmente vigente para o cooperativismo
se encontra na obra dos precursores?
158
Introdução ao Cooperativismo
Síntese
Finalizando, nesta Unidade, você fez uma breve incursão
pelo Cooperativismo e na obra e materialização das propostas
dos Precursores a partir do Século XVII. Estudou de forma
interativa as mudanças preconizadas e levadas a efeito pelos
principais Precursores do Cooperativismo. Creio que você
deva ter observado que o elenco dos temas evoluíram sendo
paulatinamente apresentados de forma a lhe proporcionar uma
boa compreensão sobre os mesmos.
Saiba mais
„
www.fordham.edu ⁄ halsall ⁄mod ⁄1840blanc.html
„
www.architectebatisseur.com
„
www.citilet.db⁄cannes⁄viewlouis01.htm
„
www.cariboo-net.com ⁄ blanc
„
www.cats.ohiou.edu ⁄~Chastain ⁄AC⁄ blanc.htm
Unidade 6
159
Para concluir o estudo
Ao longo desta caminhada pela disciplina Introdução ao
Cooperativismo, você foi apresentado a alguns aspectos
relevantes deste tema tão atual e o estudou, podendo, desta
maneira, compreender a importância do Cooperativismo
para o desenvolvimento das Regiões e do País.
Desse modo, creio que seu universo teórico e prático a
respeito do Cooperativismo e das Cooperativas tenha
se ampliado, capacitando-o em poder melhor analisar,
desenvolver, compreender este instigante tema.
Assim, espero que o/a prezado/a tenha conseguido superar
um degrau ou etapa a mais no seu processo de conquistas
para sua formação.
E agora?
Nossa jornada, neste momento, parece ter chegado ao fim,
porém, a sua terá que continuar, buscando cada vez mais,
incansavelmente, o conhecimento e o saber.
Nessa nova etapa que você estará iniciando a partir deste
momento, só me resta lhe dizer: apaixone-se pela mesma.
Sucesso!
Prof. Dr. Luiz Salgado Klaes
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Revista das Cooperativas COMODIA – Assessoria de Imprensa das
Cooperativas e Divulgação <[email protected]>
Revista de Estudos Cooperativos Instituto Antônio Sérgio do Sector
Cooperativo <www.inscoop.pt>
165
Sobre o professor conteudista
Luiz Salgado Klaes - É Doutor em Engenharia
Industrial pela Universidade Federal de Santa
Catarina e Mestre em Administração Pública pela
Universidade Federal de Santa Catarina. É Especialista
em Cooperativismo pelo Centro Internacional de
Aperfeiçoamento Técnico Profissional da Organização
Internacional do Trabalho (CIPPT/OIT), pela Carl
Duisberg CD da República Federal da Alemanha e pela
Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS).
Bacharel em Ciências Econômicas e em Ciências da
Administração pela Universidade Federal de Santa
Catarina. Desde 1972, é Professor da Universidade
Federal de Santa Catarina, onde já lecionou cerca de,
pelo menos, uma dezena de diferentes disciplinas,
inclusive, Administração de Cooperativas, todas em nível
de Graduação e Especialização. Também desenvolveu
um intenso trabalho de pesquisa e extensão. Foi, por
diversas vezes, Chefe e Sub-Chefe do Departamento
de Ciências da Administração.Como Acadêmico, foi
Presidente e Vive-Presidente do Diretório Acadêmico
José Boiteux da Faculdade de Ciências Econômicas da
UFSC. Também como Acadêmico foi, por doze anos,
membro da Federação de Desportos Universitário,
ocupando os Cargos de Secretário, Vice-Presidente e
Presidente. Como Professor, ainda, lecionou por mais de
vinte anos no Centro de Formação da Polícia Militar de
Santa Catarina. Ativo colaborador da Organização das
Cooperativas no Estado de Santa Catarina (OCESC),
onde por duas vezes fez parte do Conselho Editorial do
Jornal Elo Cooperativo e O Produtor. Possui também
curso de capacitação na Escola Superior de Guerra.
Exerce, atualmente, a Vice Presidência da CREDTC/
SICCOB-SC.
Respostas e comentários das
atividades de auto-avaliação
A seguir, acompanhe as respostas sobre as atividades de autoavaliação apresentadas ao longo de cada uma das unidades
desta disciplina. Para o melhor aproveitamento do seu estudo,
confira suas respostas somente depois de realizar as atividades
propostas.
Unidade 1
1 – Cooperativismo é um movimento que busca constituir
uma sociedade justa, livre e fraterna, através da organização
social e econômica da comunidade, em bases democráticas,
para atender suas necessidades reais, remunerando
adequadamente o trabalho de cada um dos seus membros.
2 – Democracia na administração e controle (igualdade de
direito dos sócios) e a democracia na gestão (quer dizer na
tomada de decisão).
3 – Proporcionou uma série de acontecimentos políticos,
econômicos e sociais que redundaram no surgimento das
primeiras experiências com êxito.
4 – Auto ajuda; auto-responsabilidade; democracia; igualdade;
eqüidade e solidariedade.
Unidade 2
1 – O termo assume múltiplos significados que se
desenvolveram a partir de sua origem etimológica latina
“doctrina” que, por sua vez, vem de “doceo”, “ensino”. O
sentido mais antigo, portanto, é de ensino ou aprendizagem
do saber em geral, ou do ensino de uma disciplina particular.
É o indicador de um conjunto de teorias, noções e princípios,
coordenados entre eles organicamente, que constituem o
fundamento de uma ciência, de uma filosofia, de uma religião
etc.
2 – Charles Gide; Bernad Lavergne; George Lasserre; Paul
Lambert; Maurice Colombain; Henry Desroches; Henrik H.
Infield; Issac Guelfat; André Hirschfeld; Albert Meister; Claude Vienney;
etc.
3 – São as suas propostas de cunho econômico, social e político
convergentes.
Unidade 3
1. O marco histórico do surgimento do cooperativismo foi a Revolução
Industrial, a dissertação é de cunho pessoal.
2. A Cooperativa dos Probos Pioneiros de Rochdale.
3. Foi a materialização de várias idéias e experiências quanto aos seus
princípios, sua organização e seus métodos.
4. É a organização mundial do Movimento Escoteiro e que congrega
em nível mundial o Cooperativismo, tendo sido criada em 1895.
5. No primeiro sábado do mês de julho de cada ano.
6. A bandeira e o círculo com os dois pinheiros inclusos.
7. É de que o cooperativismo é um dos mais importantes instrumentos
para o completo desenvolvimento cultural, social e econômico dos
membros de uma sociedade e também das sociedades e economias
em vias de desenvolvimento.
Unidade 4
1- Livre adesão; Controle e administração democrática; Educação;
Neutralidade política e religiosa; Interesse limitado ao capital; Retorno
dos excedentes aos membros na proporção de suas transações.
2 – Segundo a Aliança Cooperativa Internacional (ACI), as cooperativas
são organizações democráticas. Suas operações devem ser
administradas por pessoas eleitas ou designadas através de um
processo acordado (consenso) entre os sócios. Os associados das
cooperativas de 1º Grau devem ter os mesmos direitos (um sócio um
voto) e de participação nas decisões que afetam a sua organização.
Nas cooperativas de 2º e 3º Graus, a administração deve ser conduzida
sobre bases democráticas, segundo um critério adequado e acordado
entre os membros participantes.
3 – Identidade significa correspondência total, igualdade, unidade de
natureza, igualdade entre os diversos aspectos ou partes que integra
o todo. É precisamente este princípio o qual, além de seu caráter não
lucrativo, diferencia a Empresa Cooperativa de todos os outros tipos de
Empresa que atuam no meio econômico. Na Empresa não cooperativa,
existe uma oposição de interesses entre o proprietário, os fornecedores,
170
os clientes e os empregados. O poder de decisão está sempre
concentrado nas mãos dos proprietários.
4 – Auto ajuda; auto-responsabilidade; democracia; igualdade;
eqüidade e solidariedade.
5 – Participação nas decisões que afetam a organização cooperativa
implica que o associado forma parte da mesma, porém não só pelo
fato de haver cumprido as formalidades da cooperativa, senão também
por compartir de seu ideário e de sua forma de operar, assim como de
aportar com atividades (esforço próprio) para obter os objetivos em
conjunto (ajuda mútua).
6 – As Cooperativas são organizações autônomas e independentes e de
auto ajuda controladas por seus membros, as quais entram em acordos
com outras organizações, incluindo governos, ou levantam recursos
de fontes externas. Elas o fazem com condições que assegurarem o
controle democrático através de seus membros e mantendo a sua
autonomia.
Unidade 5
1- Hermann Schulze-Delitzch; Friedrich Wilhelm Raiffeisen; Wilhelm
Haas; Luigi Luzzatti; Leone Wollemborg Haas; Luigi Luzzatti; Theodoro
Amastad; Alphonse Desjardins.
2- A Cooperativa dos Probos Pioneiros de Rochdale não foi a primeira
cooperativa a ser crida em nível mundial, porém, por seus princípios,
sua organização, seus métodos e sua projeção histórica, a mesma deve
ser considerada a precursora do Movimento Cooperativo Mundial.
3- Regras referentes ao funcionamento da sociedade cooperativa; regras
referentes à estrutura da sociedade cooperativa; cooperativas integrais;
gratuidade dos postos diretivos; vendas a vista; educação; igualdade
do voto. Sendo que os Sistemas de Rochdale, Schulze-Delitzsch e
Raiffeisen correspondem às três categorias de classe laboriosa que
formaram a massa dos cooperadores: a classe operária industrial, a
classe média das cidades e a massa dos pequenos.
4- Desenvolvimento de um conjunto de regras e princípios que ao longo
dos anos tem somente sido atualizados, porém são e estão presentes
em todos os quadrantes do Movimento Cooperativo.
Unidade 6
1 – Robert Owen; William King; François Marie Charles Fourier; Philippe
Joseph Benjamin Buchez; Jean Joseph Charles Louis Blanc; John Bellers;
P. C. Plocboy; William Tompson; Michel Derrion; Pierre Leroux; Victor
Prosper Considerant; Guiseppe Mazzini; Pierre Joseph Proudhon;
Claude Henri de Rouvoy.
171
2 – As questões sociais; o bem estar geral; a administração coletiva
(auto gestão); inimigos do individualismo; a cooperação; os assuntos
econômicos e sociais necessitavam de uma organização coletiva.
3 – A Revolução Industrial.
4 – A idéia de associação; a idéia da organização dos interesses do
trabalho; a iniciativa própria; a eliminação do lucro; a organização
federativa; a organização cooperativa da economia social.
172
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Introdução ao Cooperativismo