ARTIGO CONCENTRAÇÃO: ASPECTO PSICOLÓGICO RELEVANTE PARA O DESEMPENHO ESPORTIVO Gerson Vieira de Paula Júnior1 Renato Miranda2 Maurício Gattas Bara Filho3 Resumo A ciência do treinamento desportivo vem evoluindo significativamente nos últimos anos, buscando em outras áreas, como a Psicologia Esportiva, o conhecimento necessário para busca da excelência esportiva. Um dos aspetos mais relevantes na performance esportiva é o nível de concentração dos atletas na execução das tarefas. Uma definição útil de concentração no contexto esportivo contém três partes: foco em sinais relevantes no ambiente, manutenção do foco todo o tempo e consciência da situação. A presente revisão bibliográfica versa sobre concentração para o desempenho desportivo– conhecimento relevante para o psicólogo e técnico desportivo que trabalham no esporte competitivo – através do estudo da concentração e sua relação com desempenho esportivo, a relação entre ativação e atenção, as formas de foco de atenção, os fatores influenciadores da concentração e as diretrizes gerais para a melhoria da concentração e para o treinamento da concentração. Afinal, a concentração é um aspecto psicológico associado a desempenho ótimo, não podendo ser ignorado pelo profissional do esporte. Palavras-chave: concentração, aspecto psicológico, esporte. Introdução O esporte é um fenômeno complexo e de proporções diversas. Por todos os cantos do planeta, homens e mulheres de todas as idades e classes sociais envolvem-se em atividades físicas competitivas ou 1 Psicólogo graduado pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Faculdade de Educação Física e Desportos - UFJF - doutor em Psicofisiologia. 3 Faculdade de Educação Física e Desportos - UFJF - doutorando em Psicofisiologia - UGF/RJ. 2 42 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 não, pelos mais variados motivos e objetivos. Essas atividades têm características bem distintas. Algumas são praticadas individualmente (natação, salto em distância, tiro) e outras coletivamente (futebol, vôlei, hóquei), ocorrendo nos mais diferentes locais (quadra, grama, areia, gelo, montanha). Além disso, encontra-se no contexto esportivo uma série de profissionais ligados diretamente à área da saúde e do treinamento desportivo. Entre eles estão professores de educação física, fisioterapeutas, nutricionistas, médicos e psicólogos. A psicologia esportiva tem lugar importante nesse contexto de preparação física, técnica e tática, pois as pessoas envolvidas não estão isentas de questões psicológicas, das quais depende seu desempenho (como, por exemplo, concentração). A presente revisão bibliográfica versa sobre concentração para o desempenho desportivo, conhecimento relevante para o psicólogo e técnico desportivo que trabalham no esporte competitivo. Estar concentrado, frase comumente utilizada no meio esportivo, é condição fundamental para uma ótima performance. Desconcentrando-se, o atleta perderá o foco de elementos importantes para a execução da tarefa e deixará escapar a chance de sucesso. Ao contrário, o desportista precisará dirigir sua atenção aos aspectos relevantes da situação e bloquear estímulos irrelevantes. O conhecimento sobre concentração do atleta auxiliará os envolvidos na preparação do atleta a planificar um programa que vise melhorar essa capacidade. Este treinamento é fundamental, uma vez que não bastará simplesmente mandar o atleta prestar atenção ou concentrar, como vários técnicos gritam: “Concentra”. Ele precisará aprender como se manter concentrado e em quais elementos focalizar. Definição de concentração e sua relação com desempenho esportivo O campo de estudos dos esportes não pode se limitar única e exclusivamente a considerar aspectos físicos envolvidos, nem mesmo restringir-se ao treinamento técnico e tático. É preciso considerar com importância semelhante aspectos psicológicos envolvidos, como, por exemplo, medo, estresse, relaxamento, motivação, autoconfiança e concentração. R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 43 Um trabalho psicológico nos processos de treinamentos e competições é de fundamental importância, não só para atletas, mas também para a equipe técnica. Segundo MIRANDA e BARA FILHO (1998, p. 76); “O processo de treinamento desportivo inclui longas horas de treino com grande desgaste orgânico, visando aprimorar os condicionamentos físico, técnico e tático da performance, porém os resultados de todo o trabalho dependem muito e diretamente da condição psicológica dos atletas.” Atletas reconhecem que concentração é um aspecto psicológico diretamente relacionado com desempenho esportivo. Veja esta declaração de Tande, ex-parceiro de Emanuel durante a 5ª Etapa do Circuito Mundial de Vôlei de Praia Masculino, em Marselha, França, em julho de 2002: “Temos de entrar concentrados, porque mais uma vitória nos classifica no grupo. Demos um grande passo para as oitavas, mas teremos um jogo bem duro pela frente.” (Lance, 18 de julho de 2002, p. 24). Tande tinha a convicção de que para conseguir um resultado positivo em um jogo difícil é fundamental que se esteja concentrado já desde o início da competição. Outra atleta que reconheceu a importância da concentração é a ginasta Daniele Hypólito. Depois que garantiu vaga para a final do Mundial da Hungria nos exercícios de solo, em novembro de 2002, declarou: “Quando acabei a série, fiquei muito emocionada. Olhei em volta e as pessoas estavam todas de pé, não paravam de me aplaudir. Foi um dos momentos mais lindos de minha vida! Agora, vou me concentrar para, no domingo, tentar conquistar o ouro para o meu país.” (Extra, 23 de novembro de 2002, p. 12). Daniele Hypólito expressou sua convicção de que concentração é um elemento importante na preparação para uma competição. Mas, afinal, o que é concentração? Primeiramente, é preciso dizer que os termos atenção e concentração são sinônimos e, portanto, serão empregados indistintamente. Pesquisadores tendem a utilizar o termo atenção e os profissionais parecem preferir usar o termo concentração. Uma definição útil de concentração no contexto esportivo contém três partes: foco em sinais relevantes no ambiente, manutenção do foco todo o tempo e consciência da situação (WEINBERG e GOULD, 2001, p. 350). Vejamos cada um desses elementos. a) Foco em sinais relevantes no ambiente Refere-se ao ato de o desportista selecionar, dentre os vários estímulos, aqueles sinais aos quais deverá dirigir seu foco e quais 44 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 bloquear. Podemos citar como exemplo a situação de lance livre do basquete. Um jogador terá que arremessar dois lances livres ao final de um jogo. Para ter êxito nessa tarefa, sua rotina normal pré-arremesso e a fixação do olhar no aro são elementos relevantes. Então, o jogador deverá focar esses elementos e não os jogadores alinhados para o rebote. Estes não são importantes para a execução da tarefa. b) Manutenção do foco de atenção Também faz parte da concentração manter o foco durante toda a competição. Isso não é tarefa fácil. Veja alguns exemplos. Um tenista vai sacar para a vitória (com o score em 6 a 5). Exatamente quando ele se prepara para lançar a bola, subitamente vem uma imagem do troféu em sua mente. Tal distração momentânea leva-o a errar o primeiro saque. Quando vai sacar a segunda bola... comete a dupla falta. O nosso atleta permitiu o empate e, na seqüência, perdeu o jogo. c) Consciência da situação Um atleta concentrado consegue compreender o que está acontecendo ao seu redor, ou seja, tem consciência da situação. Assim, o atleta poderá fazer uma avaliação das situações de competição para que decisões apropriadas possam ser tomadas. Para WEINBERG e GOULD (2001, p. 352), “ser capaz de analisar uma situação para saber o que fazer - e possivelmente o que seu adversário está para fazer - é a chave da habilidade de atenção”. Alguns lances de Copas do Mundo de Futebol exemplificam a importância da consciência da situação. Na final da Copa de 1970 jogavam Brasil e Itália. Faltando poucos minutos para o final, Tostão faz um gesto para Pelé. Este, atendendo à sugestão de Tostão, adianta a bola. Carlos Alberto, vindo da defesa pela direita, completa a jogada e marca o gol. Os atletas puderam avaliar a situação, percebendo elementos relevantes, como o posicionamento dos jogadores e os gestos feitos pelos companheiros. Na Copa de 2002, a seleção do Senegal, numa sucessão de toques rápidos, deixa perdida a seleção da Dinamarca. A jogada durou doze segundos apenas, desde o extremo do campo senegalês até o gol, com quatro passes: o segundo foi de calcanhar, o terceiro foi de Diao, que correu de uma área à outra, pelo meio, para receber de novo a bola e desviá-la do goleiro. Manutenção do foco em sinais relevantes, consciência da situação: concentração. R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 45 Depois de ter explicado o que é concentração, o próximo passo é apresentar algumas pesquisas que confirmam sua importância para o alcance de altos níveis de desempenho. Há evidências cada vez maiores de que as diferenças de desempenho entre craques e iniciantes se devem não a características físicas, mas ao sentido para onde o atleta dirige sua atenção (WEINBERG e GOULD, 2001). Em uma investigação dos componentes para um desempenho ideal, foram encontradas oito capacidades físicas e mentais que atletas de alto nível associaram com desempenho ótimo. Três delas estão relacionadas a altos níveis de concentração: ausência de pensamentos sobre o passado ou futuro; relaxamento mental e alto grau de concentração e controle; e consciência tanto do próprio corpo como do ambiente externo (Garfield e Bennett3 , citados por WEINBERG e GOULD, 2001, p. 352). Atletas bem-sucedidos foram comparados com atletas menos bem-sucedidos. Os resultados apontaram que aqueles têm menor probabilidade de serem distraídos por estímulos irrelevantes e se concentram mais na tarefa do que no resultado. Ou seja, o desempenho ideal tem como característica a concentração ou o estado de envolvimento (Gould et al.,4 citados por WEINBERG e GOULD, 2001). Mallet e Hanraham5 , citados por FIGUEIREDO (2000, p. 115), estudaram a eficácia de um plano de velocidade e resistência em 12 corredores de elite, com idade média de 21 anos. Eles eram questionados sobre seus pensamentos habituais antes da corrida. Depois, a divisão do percurso em três fases era explicada aos atletas e solicitava-se que cada um focalizasse na palavra-chave associada a cada segmento durante a corrida. Os resultados indicaram que os atletas correm mais rápido e com mais consistência na condição experimental. Ziegler6 , citado por FIGUEIREDO (2000, p. 115), estudou quatro jogadores a fim de determinar os efeitos de um programa de treinamento de deslocamento de atenção no desempenho de habilidades durante o treino de futebol. O programa era composto de uma fase de informação (na qual eram realizados exercícios escritos e com vídeo) e de uma fase de aplicação (na qual era realizado um exercício em campo aberto 3 GARFIELD e BENNETT (1984) GOULD et al. (1992c) 5 MALLET, C. J; HANRAHAN, S.J. Race modeling: an effective strategy for the 100 m sprinter? The Sport Psychologist, v.11, p. 72-85, 1997. 6 ZIEGLER, S.G. The effects of attentional shift training on the execution of soccer skills: a preliminary investigation. Journal of Applied Behavior Analysis, v.27, p. 545-552,1994. 4 46 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 com bola). O desempenho foi medido por meio dos acertos do jogador no exercício proposto. A experimentadora utilizou um delineamento experimental de linha de base múltipla com intervenções nas sessões seis, oito, dez e doze. Os resultados indicaram um aumento no número de pontos no exercício após a intervenção realizada. O experimento mostrou, ainda, que a mudança da atenção pode ser ensinada. Concentração é um aspecto psicológico relevante não só no momento da competição ou instantes antes, mas também no treinamento (por exemplo, na aprendizagem de novas táticas). Os técnicos também precisam estar concentrados, a fim de analisar a conduta tática de sua equipe, bem como da equipe adversária. Ou seja, eles devem dirigir a atenção para os acontecimentos atuais do jogo (SAMULSKI, 2002, p. 79). Muitas vezes, a competição é decidida em poucos segundos, sendo preciso que nesses instantes o atleta esteja focado nos elementos relevantes. Para SAMULSKI (2002, p. 79), “pensar em aspectos irrelevantes durante um jogo, como dirigir a atenção aos espectadores, pode tirar o atleta do ritmo de jogo e também desviá-lo do seu comportamento tático.” Há ocasiões ou modalidades esportivas que exigem a manutenção de um alto nível de concentração por um longo período de tempo, como, por exemplo, Fórmula 1, tênis, voleibol, maratonas, triathlons. Segundo WEINBERG e GOULD (2001, p. 350), “permanecer focado durante um jogo ou competição inteiros é freqüentemente a chave para a vitória (ou, se você perder o foco, a passagem para a derrota).” Portanto, concentração é um aspecto psicológico que tem relação direta com o ótimo rendimento do atleta. Perder o foco é como correr para o fracasso na competição. No entanto, somente mandar o atleta prestar atenção não basta. “Ele necessita primeiramente aprender como fazê-lo, quando (em que momento), em que (em quais objetos) e com que intensidade. Deve também aprender como pode manter essa atenção por um período de tempo prolongado.” (SAMULSKI, 2002, p. 80). Relação entre ativação e atenção A situação de competição é um momento especial, no qual o atleta precisa estar mobilizado, visando alcançar uma prontidão tal que lhe permita lidar com as exigências da situação. Segundo CRATTY R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 47 (1983, p. 64), “ativação, ou excitação, refere-se aos processos fisiológicos e psicológicos que permitem ao atleta ter uma atuação com graus variados de intensidade.” Ou seja, ativação refere-se a uma prontidão para o desempenho ou a “acender” o atleta, a fim de que possa dar o melhor de si. Essa mobilização ideal depende da preparação do atleta, seu estado mental, grau de dificuldade da tarefa, sua saúde em geral e da quantidade de tempo de que dispõe antes da prova (Genov, citado por CRATTY, 1983, p. 62). Segundo CRATTY (1983, p. 52): Do ponto de vista fisiológico, a ativação de um indivíduo, seja por causa dos acontecimentos correntes, ou por causa de sua própria avaliação do tipo de desempenho que terá, é marcada por dois tipos de sinais: a) sinais de que o corpo está, de alguma forma, preparandose para a ação, incluindo-se aí o aumento do tônus muscular, mudanças no sistema ótico, aumento de batimentos cardíacos e alterações na respiração; e b) sinais de que o corpo está temporariamente cessando as ações que possam interferir num desempenho muscular vigoroso, inclusive uma diminuição dos movimentos gástricos, alteração nos reflexos intestinais, etc. Um grau elevado ou baixo de estimulação pode prejudicar a performance. O atleta possuir condições que possibilitem ter um nível ótimo de ativação, a fim de que tenha uma melhor atuação, não é tarefa fácil. Primeiro, porque o atleta poderá colocar-se num estado de excessiva ou baixa ativação por uma série de fatores. Segundo, porque é preciso considerar as diferenças individuais, já que cada um, de maneira diferente, apresenta sua prontidão para a competição (CRATTY, 1983, p. 51-53). Pesquisadores da Universidade de Yale procuraram relacionar ativação com desempenho. Verificaram que o aumento nos níveis de ativação produzia uma diminuição no tempo de reação; aumentando ainda mais esses níveis, o tempo de reação aumentava. O diagrama é uma curva em forma de U invertido, no qual o nível ótimo de ativação, situado no meio, produz os melhores desempenhos (Yerkes e Dodson7, citados por CRATTY, 1983). Dessa maneira, a equipe técnica deve 7 YERKES, R. M.; DODSON, J. D. The relation of strength of stimulus to rapidity of habit formation. Journal of comparative and Neurological Trychology, v. 18, p.259-82, 1908. 48 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 trabalhar no sentido de levar a prontidão do atleta para a posição central do modelo, a fim de que a ativação fique em níveis médios. No entanto, esse modelo é muito discutido por pesquisadores, não sendo aceito por todos de maneira unânime. Foram estudadas as atividades cognitivas (por exemplo, responder a atividades de matemática) em atletas durante diferentes níveis de exercícios físicos. Quando os níveis de exercício eram muito elevados, a atividade cognitiva tendia a se deteriorar, juntamente com o ritmo do trabalho muscular no qual se empenhavam; o número de erros aumentava (Matova8, citado por CRATTY, 1983). O nível ótimo de ativação varia de esporte para esporte e conforme a tarefa. Assim, por exemplo, tarefas de controle como tiro ao alvo ou embocar a bola no golfe exigem um nível de ativação menor que a bola ao alto no basquete ou a aceleração da corrida na corrida de velocidade. Tarefas de controle ou de alta complexidade exigem um nível menor de ativação do que tarefas de ação direta simples ou de velocidade e força (CRATTY, 1982). Níveis excessivamente altos de ativação podem prejudicar a atenção do atleta, mesmo a tarefa tendo exigências de força muscular de aparência simples (Landers9 , citado por CRATTY, 1983). Além disso, como vimos, a mobilização ideal varia de acordo com cada atleta, tendo cada um a sua zona ótima de ativação. A equipe técnica precisa ajudar o atleta a encontrar a sua (SAMULSKI, 2002, p. 169). O desportista poderá ter dificuldades para transferir seu nível ótimo de atuação para as diferentes situações, como de jogo para jogo, de treino para jogo ou de esporte para esporte. Através dos treinos o desportista poderá transferir o nível ótimo de situação para situação (CRATTY, 1983, p. 55). CRATTY (1983, p. 64) refere-se às diferenças individuais, afirmando que: As diferenças individuais a serem consideradas quando se quer acalmar ou estimular o atleta incluem seus níveis habituais e momentâneos de excitação, seus sentimentos sobre a competição iminente e os sinais musculares e fisiológicos que indicam ativação. Devem8 MATOVA, M. A. Psychic conditions of athletes during extreme muscular tension. Theoriia i Praktika Fizicheskoi Kultury, Moscow, v. 3, 1976. 9 LANDERS, D. M. Motivation and performance: the role of arousal and attentional factors. Sport Psychology: an analysis of athletic behavior (2. ed.), ed. W. Straub. Ithaca, N. Y.: Movement Publications, 1978, p. 91 - 103. R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 49 se considerar ainda as diferenças no conhecimento e aceitação do atleta relativamente aos sinais de ativação e estimulação fisiológicas, bem como a própria experiência e perícia dele para lidar com excesso ou falta de ativação antes de uma prova esportiva. Depois dessa explicação geral sobre ativação, podemos entender a relação desta com atenção, que é representada por uma curva em U invertido. Níveis extremamente baixos de ativação resultam em um baixo rendimento da atenção. Elevando o nível de ativação, eleva-se também o rendimento da atenção, até que um nível ótimo seja alcançado. Elevando-se a ativação para além deste ponto ótimo, o rendimento da atenção cai drasticamente (SAMULSKI, 2002, p. 92). Atletas com baixo nível de ativação tendem a ter um foco demasiado amplo, ocupando-se com estímulos não-relevantes. Em um nível médio de ativação, ele se fixa nos estímulos relevantes. Apresentando níveis altos de ativação, ele tende a ter um foco demasiado estreito, fixando-se em apenas alguns estímulos relevantes (Nideffer10 , citado por SAMULSKI, 2002, p. 93). Conclui-se que há um nível ideal de ativação para cada tarefa e para cada esportista (SINGER, 1977, p. 48). “Pessoas que não possuem a capacidade de alternar níveis de ativação e as formas de atenção encontram dificuldade para se desenvolver no contexto esportivo (...)” (SAMULSKI, 2002, p. 85). Formas de foco de atenção As diversas modalidades esportivas possuem características distintas, exigindo habilidades diferentes. Além disso, dentro de uma competição, em diferentes momentos, as exigências podem ser distintas. A concentração do atleta é um aspecto que deve mudar de acordo com as exigências de cada situação em que ele se encontra. Ou seja, existem formas de foco de atenção específicas para cada situação. “Situações esportivas, exigências do treinamento e padrões de movimento se submetem a permanentes mudanças rápidas na conduta da atenção. Uma conduta ótima e eficaz só é possível quando 10 NIDEFFER, R. Text of attentional and interpersonal style. Journal of Personality and Social Psychology, v.34, p. 394-404, 1976. 50 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 a forma da atenção corresponde às exigências situacionais.” (SAMULSKI, 2002, p. 88). Formas de atenção Nideffer12 , citado por CRATTY (1983, p. 91), propõe o modelo bidimensional do estilo de atenção. Para o pesquisador, quando coincidem a atenção requerida por determinada tarefa e o tipo e direção da atenção despendida pelo atleta, há melhor desempenho. As qualidades de atenção necessárias ao atleta são classificadas em duas dimensões: - interna ou externa, que descreve se o atleta está atento principalmente a si mesmo ou ao ambiente; e - ampla ou estreita, que descreve se o atleta está atento a muitos ou poucos elementos. Em diversas situações será preciso focalizar muitos ou poucos sinais e estar atento ao ambiente externo ou a seus próprios pensamentos e sensações corporais, alternadamente, para que o desempenho seja o melhor possível. A amplitude e a direção dependerão da tarefa. Portanto, analisar o número de sinais relevantes para a execução da tarefa é o primeiro passo importante. Esses conceitos podem ser exemplificados com o jogo de basquetebol. O jogador poderá em algum instante focalizar a cesta e durante outros períodos atentar para os vários sinais relevantes, como seus companheiros de equipe e adversários, ampliando sua concentração. Poderá, ainda, ter consciência de seu nível de tensão ou analisar desempenhos passados. Para WEINBERG e GOULD (2001) e SAMULSKI (2002), a dimensão amplitude da atenção refere-se à quantidade de informações que é utilizada conscientemente em determinada situação. Pode ser ampla ou estreita. Um foco amplo permite lidar com várias ocorrências ao mesmo tempo (atenção simultânea às diferentes informações percebidas). Já um foco estreito (como na situação em que um batedor de beisebol se prepara para receber a bola) ocorre quando se atenta para um ou dois sinais apenas. Na segunda dimensão, referente à direção, a atenção pode estar voltada para o exterior (focada em estímulos do ambiente) ou para as 11 NIDEFFER, R. M. The relationship of attention and anxiety to performance. In: W. F. STRAUB, Sport psychology: an analysis of athletic behavior. Ithaca, NY: Human Movement, 1978. R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 51 próprias percepções, sentimentos e pensamentos (foco de atenção interno). Combinando amplitude e direção, surgem quatro categorias (ampla-externa, estreita-externa, ampla-interna e estreita-interna), cada qual adequada a situações esportivas específicas. É o que veremos a seguir. a) Atenção ampla-externa Uma conduta ampla-externa faz-se necessária quando o atleta precisa orientar-se e reagir em situações complexas e com rápidas mudanças. Nessas ocasiões é necessário lidar com muitos estímulos do ambiente. Tomemos como exemplo o handebol. Para MIRANDA (2002), o jogador com posse de bola, em uma situação ofensiva, precisa concentrar-se na bola, no adversário direto, no jogador mais próximo do gol (pivô), nos companheiros laterais e em passar a bola o mais rápido possível. Na defesa, ele precisa concentrar-se na bola, no conjunto um e outro, no jogador pivô, no adversário direto e no companheiro mais próximo.12 Outro exemplo mostra a importância das percepções periféricas das posições dos companheiros e adversários. Se um driblador no basquete focalizar a bola enquanto dribla, irá perder a chance de passála a algum companheiro livre de marcação ou poderá driblar demais e passar da melhor posição ofensiva. Ao contrário, o driblador terá que manter seu campo visual mais amplo, a fim de que possa perceber a ação dos adversários enquanto dribla (LAWTHER, 1973). b) Atenção estreita-externa Um foco de atenção estreito-externo torna-se necessário em uma situação em que um ou dois estímulos externos específicos são relevantes para o próprio comportamento. Podemos citar como exemplo: modalidades esportivas de luta, a concentração na cesta numa situação de lance livre no basquete, a focalização na bola em uma cobrança de pênalti, no som do tiro de partida numa prova de natação. c) Atenção ampla-interna É usada para analisar desempenhos passados e planejar comportamentos futuros, a fim de se adaptar às novas condições da 12 Comunicação pessoal do autor (26-03-2002) 52 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 situação. Tal conduta é aplicada por treinadores e atletas no planejamento de estratégias e táticas, tanto na fase pré-competitiva quanto durante a competição. d) Atenção estreita-interna Uma orientação estreita-interna permite ao atleta ter consciência de seus pensamentos, sentimentos e nível de tensão interna. Também é utilizada para ensaiar mentalmente uma tarefa a ser executada (treinamento mental). Vejamos alguns exemplos. Com base nessa forma de atenção, o técnico de futebol, em vez de escolher arbitrariamente qual jogador cobrará o pênalti, pode solicitar que o time faça essa escolha. O jogador que, servindo-se de um foco estreito-interno, se sentir em condições de realizar a tarefa, apresenta-se para a cobrança. Corredores de longa distância podem usar uma combinação de focos durante a corrida, variando sua atenção entre um foco externo (dissociativo) e outro interno (associativo). O primeiro permite dessintonizar do corpo o feedback fisiológico para que possa lidar com o tédio e a fadiga da corrida. Já uma estratégia de atenção associativa permite monitorizar funções e sensações corporais, como freqüências cardíaca e respiratória e tensão muscular. Pesquisas mostraram que o aumento do ritmo da corrida era acompanhado por uma estratégia predominantemente associativa. Além disso, maratonistas menos bemsucedidos empregavam quase exclusivamente um foco dissociativo e maratonistas bem-sucedidos combinavam estratégias de atenção associativa e dissociativa (WEINBERG e GOULD, 2001, p. 351). Variação de foco de atenção Muitas vezes torna-se necessário variar o foco de atenção no decorrer de um mesmo evento (WEINBERG e GOULD, 2001). Vejamos como exemplo a cobrança de falta no futebol. O jogador, enquanto caminha em direção à bola, faz uma avaliação do ambiente externo, na qual observa o posicionamento do goleiro e da barreira. Em seguida, pode se recordar de situações anteriores semelhantes e usar esse dado, juntamente com a observação das atuais condições de jogo, para decidir sobre como irá chutar. Como parte da rotina pré-chute, nosso R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 53 atleta monitora sua tensão e imagina um chute perfeito. Por fim, quando ele vai cobrar a falta, o foco se volta para a bola. A variação da atenção neste exemplo deu-se nesta ordem: ampla-externa, ampla-interna, estreita-interna e estreita-externa. Ronaldinho Gaúcho marcou um gol de falta no jogo Brasil e Inglaterra nas quartas-de-final da Copa de 2002. Preparando-se para chutar, percebeu que o goleiro inglês estava adiantado (atenção amplaexterna). Avaliando a situação a partir dessa constatação, decidiu como iria chutar (foco interno-amplo). Chutou direto, encobrindo o goleiro e marcando o gol. Outro exemplo de alternância da atenção durante a mesma competição pode ocorrer na corrida de 400 metros com obstáculos. O corredor pode ter uma atenção estreita-externa, já que a corrida vai se iniciar. Contudo, esse foco pode rapidamente mudar, a fim de que o atleta possa avaliar onde ele está em relação aos outros competidores (foco externo-amplo), para distribuir esforços (foco interno-estreito) ou rever o comprimento necessário da passada para alcançar o próximo obstáculo (foco interno-amplo). É importante observar que no exemplo da cobrança de falta o jogador teve um tempo maior para mudar a forma de atenção, já que o ritmo da ação foi estabelecido por ele (a bola estava parada). No exemplo do corredor, o desvio da atenção é mais difícil, já que a pressão do tempo é mais intensa. WEINBERG e GOULD (2001, p. 362), referindo-se à atenção efetiva, afirmam que: Pessoas que se concentram bem (atenção efetiva) lidam bem com estímulos simultâneos de fontes externas e internas. Eles têm altos escores em focalizações ampla externa e ampla interna e podem desviar efetivamente sua atenção de um foco estreito para um foco amplo quando necessário. Völp13 , citado por SAMULSKI (2002, p. 90), menciona alguns problemas causados pela aplicação inadequada das formas de atenção: 13 VÖLP, A. Aufmerksamkeitutile und sportliche Leistung. Leistungssport, v. 4, p.1923. 1987. 54 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 Ampla-externa ·Distração geral ·Interferências ótico-acústicas ·Incapacidade de concentrar-se em um fenômeno específico. Estreita-externa ·Incapacidade de perceber e analisar todos os estímulos relevantes de uma situação ·Incapacidade de analisar uma situação complexa ·Fixação em um só fenômeno Ampla-interna ·Tendência de analisar os fenômenos de forma exagerada ·Fixação de estratégias mentais ·Falta de flexibilidade no comportamento. Estreita-interna ·Fixação de processos internos ·Perda do contato com o meio ambiente ·Sensibilidade aumentada na presença de esforço e dor. DISTRAÇÃO O atleta pode estar tendo dificuldade para se concentrar devido a uma dificuldade em orientar-se às pistas apropriadas do ambiente (FIGUEIREDO, 2000, p. 114). Elementos distraidores podem desviar sua atenção dos sinais relevantes à tarefa. Entende-se como distraidores “... estímulos não-designados que desviam nossa atenção para longe do estímulo-alvo...” (STERNBERG, 2000, p. 107). Fatores internos de distração De acordo com WEINBERG e GOULD (2001, p. 355-360), as distrações internas são preocupações e pensamentos irrelevantes, ou seja, vêm “de dentro” do atleta. Pensar em eventos passados ou em eventos futuros, ficar tenso sob pressão, analisar excessivamente a mecânica corporal e fadiga são fatores internos de distração. a) Pensar em eventos passados Refere-se à dificuldade do atleta em esquecer o que acabou de acontecer, principalmente um erro crítico. Isso tira sua concentração do que se passa no momento presente. Por exemplo, arqueiros que se R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 55 distraem pensando em erros passados tendem a ter desempenhos piores do que aqueles que estão concentrados no momento presente. b) Pensar em eventos futuros O atleta pode distrair-se com pensamentos sobre eventos futuros, geralmente focalizando as conseqüências de determinadas ações. Suas preocupações podem ser com o possível resultado negativo do jogo (“e se nós perdermos esse jogo?”), com a repetição de um erro (“e se eu errar novamente?”) ou com o não-cumprimento do objetivo (“e se eu não puder seguir meu novo programa de exercícios?”). Tais preocupações têm um efeito negativo na concentração. Algumas vezes esses pensamentos sobre eventos futuros não têm a ver com a competição, como, por exemplo, uma prova na escola no dia seguinte. “Esses pensamentos irrelevantes são freqüentemente involuntários - subitamente os jogadores se pegam pensando em coisas que não têm a ver com o exercício ou com a competição presente. “ (WEINBERG e GOULD, 2001, p. 356). c) Ficar tenso sob pressão A tensão é deduzida a partir de um padrão de comportamentos, sendo um processo que leva a prejuízos no desempenho. Quando o atleta está tenso, seu desempenho vai progressivamente se deteriorando e ele não consegue retomar o controle sobre seu desempenho sem uma ajuda externa. A sensação de pressão (como, por exemplo: a importância da competição, jogadas decisivas, avaliação por técnicos ou amigos) faz os músculos se retesarem, a freqüência cardíaca acelerar, a freqüência respiratória aumentar e reduz a flexibilidade da atenção. O atleta terá dificuldade de variar o foco conforme a situação exige. Seu foco se torna muito estreito, impedindo a percepção dos sinais relevantes. d) Analisar excessivamente a mecânica corporal Pense nas seguintes situações: a) um iniciante em handebol que no jogo, ao entrar em posse de bola, fica olhando para sua mão quicando a bola; b) um praticante de caratê que na execução de um Kata14 tem uma preocupação exagerada com a base ou outro elemento técnico; c) um tenista que durante o jogo se preocupa muito em ficar em posição. 14 Os Kata são os exercícios formais do caratê, em que o lutador executa um série de movimentos preestabelecidos. 56 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 Estes atletas estão focando excessivamente a mecânica corporal. Com isso, eles não se concentram nos sinais relevantes e perdem a consciência da situação. Por exemplo, o tenista “... pode estarse concentrando tanto em ficar em posição e rebater a bola de tênis que não logra perceber a mudança de posição de quadra do seu adversário.” (LAWTHER, 1973, p. 119). Os fundamentos do esporte precisam ser automatizados, a fim de que a atenção seja melhor utilizada. De acordo com STERNBERG (2000, p. 81). “... os processos automáticos são ocultos da consciência, involuntários e consomem poucos recursos de atenção.” É importante que o atleta dedique parte do seu treinamento ao aprimoramento dos fundamentos do seu esporte (preparação técnica). Nesse caso, ele se concentrará internamente, tendo uma melhor sensação dos movimentos. Automatizadas as habilidades básicas, a atenção deve ocupar-se com os processos controlados. Os processos controlados exigem o controle consciente, são realizados serialmente (uma etapa de cada vez, seqüencialmente), consomem muitos recursos de atenção e têm níveis relativamente altos de processamento cognitivo, exigindo análise ou síntese (STERNBERG, 2000, p. 82). O exemplo a seguir mostra todo esse processo. Alguém que está aprendendo a esquiar na montanha concentra-se no aprendizado dos movimentos básicos (posicionamento dos esquis e bastões, transferência do peso) e em evitar colidir com outras pessoas. Em uma competição, tal mecânica do corpo não deve ser focada, já deve estar automatizada, podendo o atleta concentrar-se externamente (para onde está indo). “Uma vez que uma habilidade tenha sido bem aprendida, uma ênfase excessiva na mecânica corporal é prejudicial ao desempenho.” (WEINBERG e GOULD, 2001, p. 357). e) Fadiga A fadiga afeta negativamente o desempenho (SINGER, 1982, p. 77-78). Quando o atleta se cansa, tende a perder a concentração, já que esta envolve esforço mental. “Basicamente, a fadiga reduz a quantidade de recursos de processamento disponíveis para o atleta satisfazer as exigências da situação.” (WEINBERG e GOULD, 2001, p. 359). R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 57 Fatores externos de distração De acordo com WEINBERG e GOULD (2001, p. 355-360), estímulos do ambiente podem distrair o atleta, desviando sua atenção dos sinais relevantes à sua performance: são os fatores externos de distração. Podem ser distrações visuais, auditivas ou jogo provocativo. Vejamos agora cada uma delas. a) Distrações visuais e auditivas Durante uma competição esportiva, ou mesmo durante um treino, o atleta pode desviar o seu olhar para outros elementos (e são muitos) que não têm importância para o desempenho de sua atividade. Ele pode se distrair com a torcida, com o placar ou com as câmeras de televisão. Ruídos também podem distrair os atletas. Anúncios no sistema de alto-falantes, celular, ruído de torcida, avião passando, são alguns exemplos de distrações auditivas. b) Jogo provocativo O jogo provocativo é uma estratégia na qual o atleta lança mão de certos artifícios (como, por exemplo, intimidação física e verbal, matar tempo, insultos) para quebrar a concentração de seus adversários. Com sua fala constante, o lutador Mohammed Ali distraía seus oponentes. Numa de suas lutas, ele gritava “Qual é o meu nome?” toda vez que dava um soco em Ernie Terrel. DIRETRIZES GERAIS PARA A MELHORIA DA CONCENTRAÇÃO Profissionais envolvidos nos esportes devem conhecer as diretrizes gerais que possibilitarão a criação de um ambiente propício à melhoria da concentração, bem como fornecer aos atletas recomendações a serem observadas durante os treinos e competições, a fim de que possam otimizar sua concentração. Lembre-se de que a concentração é um aspecto psicológico a ser trabalhado durante o período de treinamento. Segundo MIRANDA e BARA FILHO (1998, p. 83), é “...importante e essencial o trabalho dos aspectos psicológicos do esporte dentro do processo de treinamentos e competições.” 58 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 “No esporte de rendimento, atletas que não dispõem de uma atenção suficientemente flexível não alcançam, de uma forma geral, um alto nível no rendimento esportivo.” (SAMULSKI, 2002, p. 94). Conclui-se, então, que uma das tarefas do psicólogo é procurar otimizar a flexibilidade da atenção dos atletas, proporcionando-lhes melhores condições para adquirirem uma alta performance. No pensar de FEIJÓ (1992, p. 121), para que o atleta se concentre é necessário que tenha um conhecimento adequado de si mesmo, do seu esporte, do ambiente e conheça o significado estratégico de cada detalhe. O segundo passo é decidir quais ações esportivas precisam ser automatizadas e quais detalhes precisarão receber o máximo de atenção consciente. A partir daí, o atleta precisa gerenciar suas emoções, procurando um estado tranqüilo, feliz, sentindo-se à vontade com o condicionamento que conseguiu. Se ele não estiver confiante na execução de uma jogada, será muito difícil para ele se concentrar. Em um momento de crise durante a competição, gritar com o atleta “preste atenção” ou “concentre”, como é comum entre os treinadores, não tem muito efeito. O próprio esforço inútil perturbará a concentração. É preciso investigar qual componente da concentração está perturbado. A partir daí, na primeira oportunidade, dar-lhe uma sugestão prática. Em SAMULSKI (2002, p. 94) são abordadas algumas regras básicas que devem ser observadas quando se pretende desenvolver a concentração: a) Identificação de estímulos relevantes As diversas modalidades ou tarefas esportivas têm exigências diferentes, inclusive de concentração. Além disso, há elementos no ambiente que são de importância fundamental para a realização dos objetivos. Por essa razão, é preciso que a equipe técnica, juntamente com os atletas, avalie as características e exigências da tarefa para escolher a forma adequada de concentração. “A flexibilidade da atenção depende decisivamente da percepção correta e interpretação adequada dos estímulos relevantes.” (SAMULSKI, 2002, p. 94). b) Perceber o nível da ativação interna Um nível de ativação excessivamente alto ou baixo pode trazer prejuízos à concentração. Nessas condições, será necessário aplicar medidas (como relaxamento15 ) para o alcance de um nível ótimo de 15 “Relaxamento é a técnica que visa a conduzir a intensidade das emoções até a um nível de gerenciamento pessoal, salientando e cultivando o potencial positivo do conteúdo das emoções, de modo a canalizar sua energia para comportamentos construtivos e necessários.” (FEIJÓ, 1992, P. 122). R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 59 mobilização. O esportista precisa perceber o nível de ativação de forma adequada, para que possam ser tomadas medidas adequadas. “Quanto mais rápido os atletas percebem o aumento da ativação interna, tão mais rápido eles podem aplicar as medidas para manter a ativação num estado ótimo.” (SAMULSKI, 2002, p. 94). c) Redução do estresse emocional O estresse pode ter um efeito negativo na performance esportiva (distresse). Diante dessa situação, é necessário que sejam tomadas medidas de redução do estresse, como, por exemplo, técnicas de relaxamento16 . Também é importante o foco em pensamentos positivos. Bloquear pensamentos negativos e desenvolver um pensamento positivo para o rendimento competitivo: esta é a orientação para o sucesso. “As pesquisas levam a concluir que o estresse pode afetar o atleta de diferentes formas. Deve-se levar em consideração fatores como: idade, sexo, nível de rendimento e modalidade. As técnicas e programas de controle do estresse a ser aplicados também devem levar em conta esses fatores.”(SAMULSKI, 2002, p. 175). d) Desenvolver programas individuais de treinamento da concentração Um programa para o treinamento da concentração precisa levar em conta as características individuais de cada esportista, além de considerar as exigências psíquicas de cada esporte e também as exigências situacionais. Baumann 17 , citado por SAMULSKI (2002, p. 95), propõe as seguintes diretrizes gerais para melhorar a capacidade de concentração. Analisar as causas das perturbações de concentração: influências familiares e profissionais, doenças, problemas psicovegetativos, estresse, medo, conflitos sociais Se o esportista estiver apresentando dificuldades para se concentrar, não basta simplesmente dizer-lhe: “você precisa se concentrar!”. Ora, nessa situação, o primeiro passo é uma investigação 16 Para informações sobre técnicas de relaxamento, consulte CRATTY, Bryant (1983). Psicologia no Esporte. R. J. PHB. 17 BAUMANN, S. Praxis der Sport psychologie. München: BLV. Verlagsgesell – schaft, 1986. 60 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 com a finalidade de descobrir o que está causando o problema. A partir daí, devem-se elaborar estratégias que possam anular essas perturbações ou tirá-las de foco. Essas medidas, porém, serão eficazes se o atleta passou por um treinamento de concentração. Influências familiares podem desestabilizar os atletas. “Talvez eles comecem pensando na platéia, impressionar os amigos e a família.” (WEINBERG e GOULD, 2001, p. 359). Sob pressão dos pais por uma vitória e no intuito de corresponder a essa exigência, o atleta pode tentar façanhas além de sua capacidade. Seu foco estará na preocupação de satisfazer as expectativas da família e não na situação de competição. O medo também pode perturbar a concentração. O temor de fracassar gera ansiedade, tensão, sendo uma das piores situações com que o atleta pode se defrontar. “O fracasso não pode ser evitado em todos os momentos, devendo ser encarado como uma lição a ser aprendida, uma oportunidade de desenvolvimento.”(AL HUANG e LINCH18 , 1992). A tensão pode também ser a causa da perturbação da concentração, já que o atleta passa a focar suas preocupações e medos de falhar e perder. Além disso, o aumento da pressão diminui a flexibilidade da atenção. Ou seja, o atleta terá dificuldades em mudar o foco de acordo com a exigência situacional. De acordo com FIGUEIREDO (2000, p. 118), “Existem algumas estratégias que podem auxiliar o atleta a lidar com o excesso de ansiedade e tensão, como aprender a reconhecer e mudar pensamentos negativos, utilizar afirmações positivas, regular a respiração, manter o senso de humor e fazer relaxamento.” · Criar incentivos e estímulos, evitar monotonia, estabelecer metas novas e desafiantes Essas estratégias apontam para a importância da motivação para a concentração. O atleta terá maior facilidade em se concentrar naquilo que é interessante para ele. A monotonia dos treinamentos e a falta de incentivos, portanto, podem levar o atleta ao desânimo e à falta de interesse. Estabelecer metas concretas a curto e longo prazo é uma estratégia para manter o atleta motivado. “O atleta pode desenvolver o hábito de anotar suas metas diárias em um caderno e, com a ajuda do 18 AL HUANG, C.; LINCH, J. O tao do esporte. São Paulo: Best Seller, 1992. R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 61 treinador, verificar seus progressos e traçar metas futuras.”(FIGUEIREDO, 2000, p.117). · Variar a amplitude da atenção: dependendo da situação específica, variar entre distribuição e concentração da atenção Às vezes, a situação esportiva exige que a atenção seja ampliada, a fim de focalizar um grande número de estímulos. Outras vezes o foco precisa se estreitar, já que o número de estímulos relevantes é menor. Como exemplo, podem-se citar situações do handebol: no engajamento19 , a atenção precisa ser mais ampla (a fim de poder focar todos os estímulos relevantes) do que em uma cobrança de tiro livre. · Concentre-se de forma consciente no objeto da concentração. Evitar, ignorar e bloquear estímulos irrelevantes É importante que a equipe técnica, juntamente com o atleta, investigue quais elementos são importantes para o desempenho, a fim de que eles estejam no foco do atleta. Com esse conhecimento, o desportista saberá em que ele deve se concentrar e, assim, poderá bloquear estímulos que não têm importância para sua performance. · Melhorar a motivação para o rendimento: perceber e analisar as vivências do sucesso e do fracasso, as conseqüências respectivas e criar estímulos de rendimento para cada atleta Estando motivado para o rendimento, o atleta procurará concentrar-se nas metas estabelecidas. Assim, estará totalmente envolvido nos treinamentos. Avaliando seu desempenho, juntamente com a equipe técnica, poderá buscar estratégias que permitam a melhoria da performance. Há situações especiais em que o atleta parece fluir, mostrando um estado bem motivado, uma sensação de alegria e uma entrega total àquele momento (sensação de fluidez). Uma das características desse estado é a concentração. “O indivíduo está concentrado na tarefa, completamente envolto na ação, sem ter consciência de outros problemas ou de outras alternativas para a atividade.”(CRATTY, 1983, p. 46). 19 São sistemas táticos do handebol. Para Miranda, “engajamento são progressões sucessivas visando fundamentalmente a penetração e secundariamente a progressão. Objetiva afastar o oponente direto e provocar a indecisão do oponente seguinte. Causa no time adversário a dúvida de quem marca quem.” (Comunicação pessoal em 26.02.2002). 62 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 Eberspächer, citado por SAMULSKI, (2002, p. 96), aponta algumas dicas para a concentração durante a competição: 1- Concentre-se nos momentos decisivos de sua ação esportiva Há momentos em uma competição esportiva que são cruciais, como a largada em uma prova de corrida de 200 metros. Uma boa largada já é um grande passo para a vitória. Obviamente, uma largada mal sucedida vai exigir do corredor um esforço a mais para se recuperar. Além disso, queimar20 pode custar a desclassificação. Outro exemplo de momento decisivo é encontrado nas provas de natação: a virada. Se for bem sucedida, pode manter ou colocar o atleta numa melhor posição. Esses momentos, por serem de fundamental importância, devem receber uma atenção especial por parte do atleta e de seus treinadores. 2- Concentre-se na situação presente O atleta precisa estar envolvido com a vivência do momento presente. Olhar para o passado ou para o futuro impede que o atleta enxergue o que está acontecendo, perdendo de vista elementos fundamentais para seu desempenho. Por exemplo, durante a execução de um Kata, o carateca precisa vivenciar cada técnica que está sendo executada. Executar um kata pensando em um movimento do final da rotina, por exemplo, pode distraílo, levando-o ao erro. No pensar de WEINBERG e GOULD (2001, p. 355-356), focalizar eventos passados ou pensar em eventos futuros afeta negativamente a concentração, tirando o foco dos elementos importantes, levando ao mau desempenho. 3- Evite o pensamento negativo O pensamento negativo pode ser prejudicial ao desempenho. Por exemplo, se ocorrer um retrocesso na reabilitação de uma lesão, a recuperação será mais difícil se o atleta pensar: “eu nunca mais vou voltar a jogar”. Essa avaliação pode levar a sentimentos de desesperança, raiva e frustração. Outro exemplo é quando o atleta erra uma jogada importante. Se ele pensar “que burro eu sou, nunca vou ganhar agora”, podem 20 Queimar é iniciar a corrida antes do sinal de partida. R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 63 ocorrer respostas fisiológicas e emocionais como raiva, desesperança e tensão muscular aumentada. Esse estado poderá comprometer seu desempenho. 4- Concentre-se na tarefa a realizar No pensar de MIRANDA, uma vez que o objetivo foi determinado, é preciso se concentrar nos caminhos para alcançá-lo21 . Assim, o atleta deve focar e dedicar-se às tarefas que precisa realizar, a fim de obter um resultado positivo. 5- Não pense sobre o sentido de suas ações Para MIRANDA, quando o atleta já tem as técnicas automatizadas, ele deve simplesmente executá-las22 . Ou seja, ele não deve ficar pensando em todos os passos envolvidos na realização de comportamentos automáticos (STERNBERG, 2000, p. 81). 6- Evite o pensamento sobre resultados futuros e sobre futuras conseqüências negativas É preciso que o atleta se concentre na tarefa a realizar e evite pensar no que poderá acontecer no futuro. Por exemplo, ele poderá ter seu desempenho prejudicado se durante a competição estiver pensando no prêmio que poderá ganhar. 7- Concentre-se de forma consciente e relaxada As emoções podem chegar a tal grau de intensidade que o atleta encontrará dificuldades para administrar tanta energia. Isso terá uma influência negativa na concentração. O relaxamento pode levar a mente a um estado que favorece a concentração (sem tensão ou preocupações) (FEIJÓ, 1992, p. 121-122). Syer e Connolly, citados por FIGUEIREDO (2000, p. 115), propõem algumas diretrizes para o desenvolvimento da concentração: - conheça os fatores de distração; - mantenha-se rigorosamente na rotina de aquecimento; - prepare pensamentos padronizados que possam ser usados quando acontecer alguma distração durante a competição e; - respire profundamente e relaxe. 21 22 Comunicação pessoal do autor (26.02.2002). Comunicação pessoal (26.02.2002). 64 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 DIRETRIZES PARA O TREINAMENTO DA CONCENTRAÇÃO O processo através do qual o desportista se prepara para competições23 é algo complexo. A preparação psicológica é parte do processo de preparação física, técnica e tática, pois sua importância está em “acelerar processos naturais de desenvolvimento das qualidades psíquicas e propriedades da personalidade mais relevantes ao esportista (...). Ela contribui para desenvolver a tendência à autoeducação da vontade e do auto-aperfeiçoamento ativo do esportista.”(Judadov, citado por MARTINI, 2000, p. 103). Segundo MIRANDA e BARA FILHO (1998, p.83), “o planejamento do treinamento psicológico deve ser feito de maneira que suas sessões sejam aplicadas durante o decorrer de toda a temporada (...) a fim de que os atletas evoluam nos aspectos psicológicos(...).” Sendo parte do treinamento desportivo, a preparação psicológica, planificada a partir de um psicodiagnóstico, está contida na rotina do atleta. Na verdade, o psicólogo fará “(...) intervenções sistemáticas, realizadas dentro de uma programação que acompanhe e considere a sucessão de acontecimentos esportivos.” (MARTINI, 2000, p. 103). Diversos tópicos podem ser abordados em programas de preparação psicológica, como, por exemplo: coesão grupal, motivação, relaxamento, concentração. A escolha dos tópicos deve se basear nos dados obtidos no psicodiagnóstico e estar de acordo com as possibilidades reais de trabalho. Optar por trabalhar muitos aspectos psicológicos e de forma superficial poderá resultar em perda da credibilidade profissional. Além disso, o psicólogo não deve restringir seu trabalho a uma atitude acomodada, como, por exemplo, limitar-se somente a dar uma série de palestras (MARTINI, 2000, p. 106-107). Os exercícios apresentados a seguir têm como diretriz melhorar a concentração. Alguns são aplicados no campo de jogo e outros podem ser aplicados em outros lugares. O psicólogo e/ou treinador poderão utilizá-los em seu programa de treinamento psicológico. Exercícios para serem usados no campo de competição WEINBERG e GOULD (2001, p. 364-370) propõem oito exercícios visando melhorar a capacidade de concentração para serem praticados no campo de jogo. Vejamos cada um deles. 23 A área de estudos da preparação de desportistas para competições é reconhecida na Educação Física como Treinamento Desportivo. R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 65 Use simulações no treino Como já foi dito, o treinamento desportivo é um período em que o atleta segue uma rotina de treinos a fim de se preparar para uma competição. Esta, porém, é um momento especial, com características bem distintas da rotina de treino. Muitos fatores ambientais e psicológicos presentes nas competições não ocorrem no mesmo grau nos treinamentos. Torcida hostil, presença de árbitros, comportamento do adversário e fatores psicológicos, como ansiedade competitiva, motivação e confiança (que variam entre treino e competição), tornam o ambiente competitivo muito diferente do ambiente de treinamento. Esses fatores podem distrair os atletas e prejudicar o desempenho. O atleta poderá preparar-se para lidar com distrações através do treinamento simulado. Esse exercício consiste em procurar aproximar o treino o máximo possível do ambiente competitivo real, vivenciando sistematicamente no treino distrações típicas da competição. Como já foi visto, a torcida, muitas vezes barulhenta e hostil, pode atrapalhar a concentração. Essa situação é comum, por exemplo, durante um arremesso em um jogo de basquetebol. Como preparar o atleta para tal situação? Pode ser feita nos treinos a reprodução de ruídos altos de torcida, a fim de que o desportista se acostume a jogar em tais ambientes. Em treinos de tênis, podem ser colocadas pessoas em torno da quadra que caminham e falam de tempos em tempos. O engajamento do atleta no treinamento (encarando corridas, lutas, jogadas, treino coletivo), como se estivesse na competição, também é uma forma de treinamento simulado. Use palavras-sinal Com o intuito de ativar uma resposta particular, o atleta pode utilizar o recurso de palavras-sinal. São palavras simples que ativam automaticamente a resposta desejada. Elas facilitam a concentração na tarefa. Podem ser instrutivas (por exemplo: perna de trás esticada, olhe a bola, avance, estenda) ou motivadoras ou emocionais (por exemplo: agüente firme, lute, força, vai, relaxe). Antes de serem usadas na competição, as palavras-sinal têm que ser usadas nos treinamentos, para que sejam bem aprendidas e se tornem familiares. Vejamos alguns exemplos. Para garantir uma boa largada, um velocista poderia utilizar uma palavra-sinal. Enquanto está se posicionando momentos antes da largada, ele poderia dizer “explode”. 66 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 Uma ginasta, para assegurar-se de avançar em um certo ponto, poderia usar a palavra-sinal “para frente” durante a apresentação de sua rotina de solo. Em competições de caratê-dô, um lutador poderia dizer “pra cima dele” ou “deixa ele vir” a fim de concentrar-se na estratégia a ser usada (ofensiva ou defensiva). Palavras-sinal podem ser usadas na recuperação de lesões. “Relaxe”, “calma”, são palavras que o atleta pode usar ao estender músculos e articulações lesionados. Também podem ajudar a mudar maus hábitos. Tomemos como exemplo o caratê-dô. Faz parte da execução de qualquer kata a direção correta do olhar. Se o atleta tem o hábito de olhar para outras direções (para os pés, companheiros, espelho), ele poderia usar o sinal “olhe para frente” ou “encare o adversário” para lembrar-se da direção correta do olhar. Não empregue pensamento crítico A tendência a julgar o desempenho, classificando-o como bom ou ruim, é um grande obstáculo para a concentração. Esse comportamento crítico de atribuição de valor positivo ou negativo, seja no campo, na quadra ou mesmo na academia de exercícios, leva ao declínio do desempenho. Ao se tornar crítico em relação a uma porção de seu desempenho, o atleta tende a generalizar, pensando que é um mau jogador, ou que não tem capacidade. “Tais pensamentos e julgamentos o fazem perder a fluidez, seu senso de oportunidade e seu ritmo. Seu cérebro começa a oprimir seu corpo, causando tensão muscular e esforço excessivos, lapsos de concentração e tomada de decisão prejudicada. ” (WEINBERG e GOULD), 2001, p. 366). Um jogador de voleibol que perdeu alguns saques pode pensar: “sempre fico tenso nessas horas”, “Não consigo acertar quando preciso”. Esses pensamentos podem levá-lo à raiva, frustração e à quebra de concentração. Alguém que esqueça alguns movimentos em uma aula de exercícios pode pensar: “Eu não tenho o que é preciso para permanecer no programa”. Pensando assim, sua motivação de aderir ao programa de exercícios será aos poucos destruída. Assim, em vez de empregar pensamento crítico, o atleta deve aprender a avaliar seu desempenho construtivamente. Não é que ele deve ignorar os erros, mas ver seu desempenho como ele é, sem julgamentos. Se o esportista percebe que hoje não está tendo um bom R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 67 controle sobre seus lançamentos, ele pode avaliar como está lançando e concentrar-se na correção do movimento (fazer um bom movimento de pulso, projetar o corpo à frente, etc.). Estabeleça rotinas Estabelecer rotinas de comportamento ajuda o atleta a concentrar-se, reduzir a ansiedade e aumentar a confiança. As rotinas aumentam a probabilidade de que o atleta não será distraído, mantendo seu foco no momento presente e nos pensamentos relevantes à tarefa. São utilizadas antes ou durante a competição. Podem ser usadas na estruturação do tempo, nos intervalos entre as atuações. Assim, o atleta estará concentrado quando for o momento de atuar. É importante que as rotinas sejam confortáveis para o indivíduo e ajudem a aguçar o foco à medida que for chegando o momento da atuação. WEINBERG e GOULD (2001, p. 368) apresentam o seguinte exemplo de rotinas de pré-atuação específicas para cobrança de pênaltis: Cobrança de pênalti: 1- Respire fundo. 2- Examine a posição do goleiro 3- Olhe para o alvo e decida-se sobre o canto no qual vai chutar. 4- Imagine seu alvo e o chute que você quer dar. Imagine não apenas seu movimento, mas também a trajetória da bola e seu local de parada final. 5- Prepare-se para bater, ajustando e reajustando sua posição até sentirse confortável. 6- Sinta o chute com todo o seu corpo. 7- Novamente imagine o chute desejado e, enquanto sente o chute, pense “é gol”. 8- Pense “é gol” e chute. Desenvolva planos de competição Desenvolver planos de competição consiste em criar planos de ação detalhados e específicos para ajudar a focalizar a atenção no processo de desempenho e não no resultado final ou nos outros competidores. Orlick e Partington, citados por WEINBERG e GOULD (2001, p. 367), registraram o seguinte plano de competição de um canoísta olímpico: 68 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 Meu foco era muito concentrado durante toda a prova. Nós temos um plano de largada, e me concentro nele apenas nas primeiras remadas... em seguida me concentro na porção seguinte da prova...então está chegando ao fim, [e] temos que realmente dar tudo. A cada três segundos um pouco antes do final eu tinha que dizer: “relaxe” e deixar meus ombros e minha cabeça relaxarem, e pensava em colocar toda a força; dessa forma, sentia a tensão crescendo novamente, tendo que pensar em relaxar novamente, então força, então relaxar. Pratique o controle da visão O controle da visão permite que os olhos não se desviem para distraidores, como reações da torcida, caretas dos adversários, que são irrelevantes à tarefa. O atleta escolherá algum objeto (como, por exemplo, o equipamento, o chão) para o qual fixar seu olhar e impedir que seus olhos se desviem. Vejamos alguns exemplos. Uma tenista, para evitar olhar para sua adversária ou para a platéia, pode preferir olhar para sua raquete. Preparando-se para o salto, um mergulhador pode focalizar-se em um ponto na parede. Em frente a uma torcida barulhenta e hostil, um jogador de basquete, preparando-se para um lance livre, pode manter a cabeça baixa e olhar para o chão até estar preparado para olhar para a cesta. Permaneça focalizado no presente É difícil manter o foco no presente. A mente é aberta a mensagens, quer rever o lance passado, aquela escolha errada ou antever o futuro. Esses pensamentos podem distrair o atleta. No entanto, “não há problemas em dar uma breve relaxada mental ocasionalmente durante paradas na ação. Mas é importante ter uma palavra-sinal, como foco, para ajudar a trazê-lo de volta para o presente quando for hora de competir novamente.” (WEINBERG e GOULD, 2001, p. 369). Aprenda bem a habilidade Aprender bem as habilidades inerentes ao esporte facilita a concentração. Automatizando uma habilidade, a atenção fica liberada para ser investida em outros elementos do ambiente. Além disso, a automatização facilita a atenção em mais de uma tarefa (atenção dividida). Um jogador de handebol, por exemplo, não precisa utilizar R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 69 muitos recursos de atenção para quicar a bola (estando esta habilidade automatizada), podendo focalizar a movimentação e o posicionamento dos jogadores. Isso lhe possibilitaria a execução de um passe mais efetivo. Exercícios que podem ser praticados em vários lugares Além dos exercícios para concentração praticados no campo de jogo, há técnicas que podem ser aplicadas em outros locais, como as que serão apresentadas a seguir. a) Sentado em uma cadeira que possua encosto reto, ponha os dois pés no chão e deixe as mãos relaxadas no colo. Com os olhos fechados, inspire profundamente e devagar e expire. Comece a relaxar pela cabeça, até sentir-se totalmente relaxado. Então, com a sua atenção voltada para a respiração e sem perder o ritmo, conte cada período da respiração (1 período = inspiração e expiração). Conte até chegar a 10 períodos. Então, comece a contagem novamente, e assim sucessivamente. Se acontecer de você errar a contagem ou contar mais de 10 períodos, pare e tente regressar ao pensamento que passou pela cabeça nesse momento. Então, comece novamente a contagem a partir do período 1. Oito minutos de exercício são suficientes para um iniciante (SAMULSKI, 2002, p. 97). b) Neste exercício de respiração, o ponto de foco da concentração é uma afirmação. Feche os olhos. Toque o centro da testa com o dedo indicador da mão esquerda, feche a narina esquerda com o polegar esquerdo e inspire pela narina direita enquanto você conta até 4. Em seguida, com o dedo médio, feche também a narina direita, prendendo a respiração e diga a frase em pensamento. Agora, retire o polegar da narina esquerda e expire contando até 4. Inspire pela narina esquerda, contando até 4. Feche a narina e, com a respiração presa, repita a afirmação em pensamento. Retire o dedo da narina direita e expire enquanto conta até 4. Repita cinco vezes o exercício completo (SAMULSKI, 2002, p. 98). c) No treinamento da mudança de foco, em que o atleta irá experimentar diferentes estilos de atenção. Ele pode ser praticado inteiro ou dividido em exercícios separados. Sente-se ou deite-se confortavelmente e respire profundamente com o diafragma antes de iniciar a técnica. Comece o exercício quando se sentir confortável e relaxado. 70 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 1- Feche os olhos. Prestando atenção ao que você ouve, procure captar cada som separadamente, classificando-o (vozes, passos, ruídos, etc.). A seguir, ouça todos os sons ao seu redor sem rotulá-los. Dissolva seus pensamentos e ouça a mistura de sons como se estivesse ouvindo música. 2 - Agora procure conscientizar-se das percepções corporais (como a sensação do chão, da cadeira ou da cama apoiando você). Classifique mentalmente cada sensação à medida que a percebe, considerando sua fonte e sua qualidade. Só depois passe para uma outra. Em seguida, procure experimentar todas ao mesmo tempo, sem classificá-las. 3 - Preste atenção agora às suas emoções e pensamentos. Procure não pensar em nada especificamente, deixando cada emoção ou pensamento simplesmente vir. Permaneça relaxado e tranqüilo, não importando qual seja o seu pensamento. Agora você vai procurar experimentar ao mesmo tempo cada um deles. Por fim, observe se você pode apenas se desfazer de todos esses pensamentos e emoções e relaxar. 4 - Abrindo seus olhos, escolha um objeto no quarto que esteja diretamente à sua frente. Olhando para frente, procure ver a maior quantidade de objetos que sua visão periférica permitir. Em seguida, estreitando sua visão, focalize apenas o objeto localizado à sua frente. Expandindo pouco a pouco o foco, volte novamente a ver tudo no quarto. Pratique estreitamento e ampliação de foco de atenção de acordo com sua preferência (WEINBERG e GOULD, 2001, p. 370). d) Como meio de manter o foco, procure um lugar calmo e silencioso. Escolha um objeto para ser o alvo de sua concentração. Este objeto pode ser algo relacionado ao seu esporte, como uma bola de voleibol, quimono, luva, taco. Segurando o objeto, procure sentir sua textura, cor e outras características peculiares. Em seguida, solte-o e focalize nele sua atenção, examinando-o detalhadamente. Traga sua atenção ao objeto sempre que seu pensamento se desviar. Registre por quanto tempo você conseguiu ficar concentrado no objeto. Quando você conseguir manter o foco por cinco minutos pelo menos, pratique em meio a distrações. Registre por quanto tempo você conseguiu manter-se concentrado nessas condições. Lembre-se de que sua capacidade de desempenho irá aumentar se conseguir concentrar-se em meio a distraidores (WEINBERG e GOULD, 2001, p. 370-371). R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 71 CONCLUSÃO A fim de ter um ótimo desempenho em competições, é necessário que o atleta passe por um período de treinamento, preparando-se física, técnica e taticamente. Contudo, o resultado de todo esse trabalho depende da condição psicológica, sendo necessário que não só o atleta, mas todos os envolvidos, tenham uma preparação psicológica. É importante que essa preparação psicológica, planificada a partir de um psicodiagnóstico, faça parte do processo de treinamento, desde o início, contribuindo para o desenvolvimento de qualidades psíquicas e propriedades da personalidade relevantes ao contexto esportivo, como, por exemplo, a concentração. Estar concentrado é condição fundamental para que o atleta tenha uma ótima performance. Manter o foco em sinais relevantes durante a competição e estar consciente da situação proporcionam-lhe um envolvimento tal com a tarefa, que irá perceber elementos importantes para seu desempenho, não se distraindo com estímulos irrelevantes. Como as exigências mudam de tarefa para tarefa, devido às suas diferentes características, a forma de atenção também precisa mudar, adequando-se a elas. Variando a amplitude e a direção da atenção, o atleta estará melhor adaptado à situação, otimizando seu desempenho. Distraidores podem prejudicar a concentração, dificultando a orientação às pistas apropriadas do ambiente. Pensar em eventos passados ou em eventos futuros, ficar tenso sob pressão, fadiga, distrações visuais e auditivas são exemplos de fatores de distração. Concentração é um aspecto psicológico associado a desempenho ótimo, não podendo ser ignorado pelo profissional do esporte. Simplesmente mandar o atleta prestar atenção não basta, sendo necessária a planificação de um treinamento que vise sua melhoria, levando-se em conta a personalidade de cada pessoa e as características das tarefas a realizar. Abstract Sports sciences have evaluating significantly in the last years, searching for knowledge in other areas such as Sports Psychology toward sports excelence. One of the most relevent aspects in sports performance is the athlete concentration level to perform tasks. One definition of concentration in the sport context has three parts: focus in 72 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 relevant environment signals, maintenance of the focus during the whole time and situation consciousness. The present literature review aims to discuss concentration in sports for coaches and sports psychologists through the study of the concentration and its relation to sports performance, relationship between activation and attention, ways of attention focus, factors that can influence concentration and methods to train and improve it. After all, concentration is a psychological aspect associated to optmum performance and cannot be ignored by sports professionals. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CILLO, Eduardo Neves P. Análise do comportamento aplicada ao esporte e à atividade física: a contribuição do behaviorismo radical. In: RÚBIO, K. (Org.). Psicologia do Esporte: Interfaces, Pesquisa e Intervenção. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000. CRATTY, B. J. Psicologia no esporte. Rio de Janeiro: PHB, 1983. EXTRA, 23 de novembro de 2002, p. 12. FEIJÓ, O. G. Corpo e movimento: uma psicologia para o esporte. Rio de Janeiro: Shape, 1992. FIGUEIREDO, S. H. Variáveis que interferem no desempenho do atleta de alto rendimento. In: RÚBIO, K. (Org.). Psicologia do Esporte: Interfaces, Pesquisa e Intervenção. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000. LANCE, 18 de julho de 2002, p. 24. LAWTHER, J. D. Psicologia desportiva. Rio de Janeiro: Forum Editora, 1973. MARTINI, L. A. Fundamentos da preparação psicológica do esportista. In: Kátia Rúbio (org.). Psicologia do Esporte: Interfaces, Pesquisa e Intervenção. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000 MIRANDA, R.; BARA FILHO, M. G. Aspectos psicológicos do esporte competitivo. Treinamento Desportivo, v. 3, n. 3, p. 62-72, 1998. R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003 73 SAMULSKI, Dietmar. Psicologia do esporte. Barueri: Manole, 2002. SINGER, R. N. Psicologia dos esportes: mitos e verdade. São Paulo: Harper e Row do Brasil, 1982. STERNBERG, Robert J. Psicologia cognitiva. Porto Alegre: Artmed, 2000. WEINBERG, Robert S.; GOULD, Daniel. Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício. Porto Alegre: Artmed, 2001. 74 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 11, n. 2, p. 42-74, 2003