Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 SALA DE AULA DE BIOLOGIA: PRÁTICAS COGNITIVAS E CONSTRUÇÃO DE SIGNIFICADOS BIOLÓGICOS Lígia Cristina Ferreira Machado (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) Resumo: Assumindo a aprendizagem em Biologia em uma perspectiva sociointeracionista, este estudo focaliza uma sala de aula de Biologia do Ensino Médio-Técnico a fim de evidenciar as práticas de natureza cognitiva que se realizam em torno do processo de construção/produção de significados biológicos. As análises evidenciam que os alunos mobilizam conceitos anteriormente construídos, estabelecem relações conceituais, articulam os conceitos biológicos a situações concretas bem como a dimensões mais amplas como a ética, a política e a econômica. Assim, considera-se que os conceitos tanto quanto as práticas de natureza cognitiva necessárias aos processos de construção de significados se constituem em objetos da aprendizagem em Biologia. Palavras-chave: Aprendizagem em Biologia, Práticas cognitivas, Sala de aula de Biologia. 1. Introdução: Este trabalho é parte de um estudo maior acerca da aprendizagem e, mais especificamente acerca da aprendizagem em Biologia que se realiza na escola, institucionalmente o espaço/tempo privilegiado de socialização e apropriação dos sistemas organizados de conhecimento e de suas formas de funcionamento intelectual (OLIVEIRA, 2000). Acompanhando uma tendência na pesquisa em Educação em Ciências que desloca os estudos sobre o entendimento individual dos estudantes sobre fenômenos específicos para a construção/produção de significados em contextos interativos (MORTIMER; SCOTT, 2002), este estudo focaliza a sala de aula de Biologia povoada por diferentes sujeitos e diferentes histórias evidenciando sua complexidade. Assim, a aprendizagem é assumida como prática social envolvendo, portanto, processo de intensa negociação entre os sujeitos que dela fazem parte. Este processo, dada sua natureza predominantemente social, envolve tensão e, às vezes, conflitos, mas também alinhamentos e compartilhamentos. Neste movimento, espera-se, a emergência de novos significados que se constituem como co-construções, como produções coletivas, que garantem certo nível de entendimento e, ainda, a emergência de novos modos de pensar, falar e fazer acerca de questões e fenômenos biológicos (ARCÀ; GUIDONI; MAZZOLI, 1990). 4794 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Desta perspectiva, este estudo ao focalizar uma sala de aula de Biologia tem como objetivo evidenciar movimentos e práticas cognitivas realizados pelos alunos em contextos interativos que resultam na construção de significados de natureza biológica. 2. Fundamentos teórico-metodológicos: articulando teoria e empiria Neste trabalho assumimos a aprendizagem em uma perspectiva sociointeracionista, portanto como um processo que envolve movimento dos alunos em torno da construção de significados biológicos. Daí o caráter dinâmico da aprendizagem que vai exigir a apropriação de práticas de caráter cognitivas para a construção/produção desses significados que se constituem igualmente em objetos da aprendizagem. Nesta direção, Engle e Conant (2002) descrevem a aprendizagem como um processo de engajamento disciplinar produtivo materializado a partir da participação dos alunos em questões e práticas disciplinares específicas e, ainda, por indícios de progressos intelectuais que se manifestam no curso das aulas. O engajamento disciplinar dos alunos pode ser sinalizado pela construção de argumentos mais elaborados e sofisticados ao longo do tempo, pelo levantamento de novas questões e problemas, pelo reconhecimento de conflitos, pelo estabelecimento de novas conexões entre ideias, ou ainda, pelo planejamento de alguma coisa para atingir ou satisfazer objetivos que tenham sido estabelecidos (ENGLE; CONANT, 2002). De acordo com os autores, para promover este engajamento disciplinar produtivo, os contextos de aprendizagem devem se revestir de alguns elementos que se encontram interrelacionados, tais como: a) problematização do conteúdo formulada tanto pelo professor quanto pelos alunos; b) dar autoridade para os alunos encaminharem, de forma responsável, soluções para os problemas que foram delineados a fim de se fazerem autores e produtores de seu próprio conhecimento; c) manter os alunos responsáveis pelo outro e também por normas disciplinares de forma a garantir que o trabalho intelectual que realizam seja correspondente a conteúdos e práticas disciplinares estabelecidas por intelectuais que se situam no interior ou mesmo fora do contexto da aprendizagem e d) proporcionar diferentes e relevantes recursos para manter e sustentar o engajamento disciplinar produtivo que possibilitem aos alunos desenvolver e utilizar habilidades, conhecimentos, representações, materiais e tecnologias para enfrentar questões de uma disciplina específica. Apropriando-nos desses elementos teóricos realizamos um estudo em uma turma de 1° ano do ensino Médio-técnico em aulas de Biologia, videogravadas ao longo de um bimestre letivo quando da realização de uma unidade de ensino acerca da reprodução dos seres vivos 4795 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 no nível molecular. Esta temática articulava questões atuais - transgênicos, clones e célulastronco - a conceitos biológicos básicos através de diferentes atividades como leituras de textos, prática de laboratório, construção de ideogramas, simulação do processo de síntese de proteínas e apresentação de trabalhos. Esperava-se com estas atividades investir no desenvolvimento de práticas cognitivas tais como problematização, relações conceituais, relações entre as dimensões macro e microscópica e formulação de hipóteses. Para leitura e análise dos dados videogravados, adaptou-se uma matriz analítica proposta por Mortimer et al (2007) de modo a orientar na definição de episódios e sequências interativas a serem analisados para a caracterização dos movimentos/práticas que entram em jogo no processo de significação pelos alunos. Especificamente neste trabalho, foram selecionados para análise alguns extratos e uma seqüência interativa extraídos da atividade de apresentação de trabalhos realizada pelos alunos ao final da unidade de ensino. Para a realização destes trabalhos, organizados em grupo, foram propostos temas – clonagem, células-tronco e organismos transgênicos - a fim de se aprofundar e sistematizar o estudo em torno da reprodução dos seres vivos. Consideramos que o caminho investigativo é uma alternativa didático-pedagógica que abre possibilidade para o envolvimento dos alunos em atividades situadas e significativas e, por isso mesmo, para a construção de significados mais próximos daqueles que queremos compartilhar. Neste sentido, o exercício da pesquisa pelos alunos envolvendo consulta a diferentes fontes de informação que devem ser confiáveis, a sistematização de leituras, a seleção dos aspectos a serem abordados já que se tratavam de temáticas abrangentes que incluíam questões de ordem ética, e, finalmente, a organização do material em formato de apresentação pública, contribui de forma decisiva para que ocorra a construção e apropriação de conceitos biológicos. Tomando como referência a noção de engajamento disciplinar produtivo proposto por Engle e Conant (2002), podemos considerar que a realização desses trabalhos viabiliza a aproximação desses alunos com práticas escolares relativas a uma disciplina específica: a Biologia. 3. Estrutura geral e formas de abordagem da apresentação dos trabalhos dos alunos Em linhas gerais, podemos considerar que os trabalhos seguem uma estrutura padrão de apresentação que se inicia com uma breve introdução, seguida do desenvolvimento e da conclusão, quando os alunos se posicionam contra ou a favor da questão tratada. Todos os grupos fazem uso de slides apresentados em data show. Tais slides sistematizam conceitos, perspectivas históricas e também esquemas relativos às técnicas para produção de organismos transgênicos, células tronco e clones e se revelam bastantes didáticos pois apóiam os alunos 4796 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 em suas explicações ao mesmo tempo que se constituem em uma memória que pode ser compartilhada pela turma, favorecendo a construção de debates e discussões. Talvez por conta da necessidade de preparação e organização dos materiais obtidos acerca dos temas, os alunos tenham podido esclarecer e ampliar alguns aspectos que porventura tenham ficado obscuros ao longo das atividades desenvolvidas ou mesmo outros que não tenham sido contemplados. Os grupos se valeram de diferentes recursos em suas apresentações: dramatização, vídeos com entrevistas de especialistas e referências a artigos publicados em sites de divulgação científica. Na perspectiva de Engle e Conant (2002) sobre aprendizagem enquanto engajamento disciplinar produtivo deve-se construir uma atmosfera em que os alunos se sintam responsáveis por outros e por normas disciplinares. Isto significa que “o professor e outros membros da comunidade de aprendizagem devem encorajar a responsabilidade do aluno para garantir que o trabalho intelectual seja correspondente a conteúdos e práticas estabelecidas por ‘acionistas intelectuais’, sejam eles pertencentes ou não ao espaço imediato de aprendizagem [...] ” (ENGLE; CONANT, 2002, p. 405). No engajamento disciplinar produtivo, os alunos devem reconhecer a importância de se consultar outras fontes e pessoas como parte do processo de compreensão e apropriação em um determinado domínio. Neste movimento, os alunos não precisam necessariamente aceitar ou se alinhar às posições daqueles que lhes servem de referência, mas agir em relação a eles de uma maneira receptiva. Este aspecto enfatizado pelos autores refere-se à dimensão coletiva que envolve a construção do conhecimento científico na sala de aula uma vez que “cada membro de uma comunidade de aprendizagem não é por si mesmo uma autoridade mas um ‘acionista intelectual’ entre muitos outros na sala de aula e além dela”. (ENGLE; CONANT, 2002, p. 405). 4. Tecendo relações para situar as temáticas Durante a apresentação dos trabalhos, percebemos que a maioria dos grupos estabelece algum tipo de relação para introduzir e situar o tema abordado. Tais relações integram conceitos e definições, ou ainda, conceitos e situações contextuais mais amplas contribuindo para a inserção e articulação do conhecimento biológico a esferas sociais, econômicas e mesmo políticas. Assim, a apresentação dos trabalhos, de certa forma, evidencia a ciência como uma construção histórica, social e culturalmente situada, que envolve versões, modelos explicativos sobre o mundo. O uso de relações pelos alunos, logo no inicio da apresentação dos trabalhos, sugere uma tentativa de contextualizar a temática e também o reconhecimento de que o entendimento mais profundo da ciência pressupõe a construção de uma rede que 4797 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 demanda mecanismos e estratégias específicas para a construção de significados. Alguns exemplos que passamos a apresentar ilustram estes movimentos. O primeiro grupo a se apresentar é formado pelos alunos Lorena 1, Camila Assunção, João e Thales e trata da clonagem. Logo em sua introdução, resgatam a organização geral dos seres vivos mais complexos como os humanos dizendo: “O organismo completo é formado por vários tipos de células, tecidos e órgãos”. Este é um conceito tido como supostamente construído e compartilhado pela turma à medida que Thales logo em seguida enuncia: “Mas isto todos sabem!” Com isto parece estabelecer-se certo estado de inrtersubjetividade que irá garantir e sustentar a sequência da apresentação do trabalho com a introdução do conceito chave relativo à “células-tronco”: “Além de células maduras, que realizam funções, o organismo tem um pequeno número de células que não tem função específica, a não ser repor aquelas que, por vários motivos, vão morrendo ao longo do tempo – as células-tronco”. Com este movimento, os alunos estabelecem uma primeira relação conceitual reconhecendo a existência de um processo de diferenciação celular que ocorre marcadamente ainda no estágio inicial do desenvolvimento embrionário mas também ao longo da vida do ser vivo e, através de mecanismos bioquímicos ainda não bem esclarecidos, promoverá a ativação e inativação de genes nas células promovendo a variedade de tipos celulares. Este é um conceito decisivo para se compreender o sentido da pesquisa com células-tronco e, mais especificamente, a diferença entre células-tronco adultas e embrionárias que será abordada por todos os grupos que tratam desse tema. Um outro grupo, formado por Isamar, Tatiana, Júlia, Larissa, Thaiana e Luigi, realiza um movimento diferenciado para a introdução dessa mesma temática. Isamar inicia situando o que se tem “ouvido dizer” acerca de células-tronco, enumerando alguns aspectos positivos que justificam o investimento em pesquisas dessa natureza. Neste momento, a aluna, aparentemente, assume certa visão “utilitarista” da ciência ao depositar uma crença nos benefícios que a mesma possa trazer para a humanidade em geral. Assim Isamar enuncia: “Bom gente, nosso trabalho é sobre células-tronco... é... muito se tem ouvido dizer sobre isso. Células-tronco podem servir para o tratamento 4798 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 de certas doenças que hoje não têm cura. É... além disso, tem várias discussões entre políticos, cientistas, religião para (inaudível) essa tecnologia ir fundo para poder melhorar a vida de várias pessoas. Tem vários prós e contras e toda essa introdução que eu falei vai ser desenvolvida em nosso trabalho”. Dessa forma, a aluna sinaliza para um debate que está posto acerca dos estudos com células-tronco que atinge diferentes segmentos da sociedade – políticos, científicos e religiosos. Isto sugere que o grupo reconhece a dimensão social e ética da pesquisa com células-tronco e de um modo geral a pesquisa científica. Isto será confirmado ao longo da apresentação que o grupo realiza. O grupo que trata de organismos transgênicos é formado por Alex, Thalita, Luisa, Renata, Suzane e Camila Dias e inicia a apresentação com uma definição geral de engenharia genética. No movimento que realizam, os alunos trazem exemplos que ilustram o início dos estudos que envolvem a manipulação genética. Isto ajuda a situar a produção científica como um processo em construção. Alex inicia dizendo: “Bom gente, olha só... prá gente entender o que é transgênico, primeiro temos que ter algumas noções do que é engenharia genética. Ela consiste, principalmente, em manipular os genes e... criar combinações desses genes em organismos diferentes. É... os primeiros experimentos que envolveram a manipulação desse material genético em animais e plantas foi a transferência desses genes para leveduras e bactérias que crescem normalmente em grandes quantidades.” A fala de Alex evidencia uma preocupação do grupo em estabelecer uma relação conceitual – engenharia genética e transgênico – como mecanismo necessário para o entendimento mais amplo de uma determinada questão. Tendo estabelecido esse primeiro vínculo conceitual, o grupo, através de Renata, passa a mapear os supostos benefícios trazidos pelos avanços nesta área de pesquisa particularmente no que se refere aos de ordem econômica. As palavras de Alex: “Bom gente através da Engenharia Genética, eu posso... quer dizer os cientistas podem ver a fragilidade que um organismo apresenta e, a partir daí, os cientistas poderiam criar uma vacina que pudesse suprir essa necessidade que o organismo apresentou. É... através da engenharia genética os cientistas podem criar antibióticos, fazerem remédios e até mesmo criar substâncias que o organismo não produz. É claro, através da engenharia genética poder criar as plantas... plantas mais resistentes a doenças [...] com maior qualidade nutricional”. 4799 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Neste percurso o grupo, tal como o anterior, parece filiar-se, em princípio, a um “cientificismo” onde a ciência é vista como necessária ao progresso e bem estar da humanidade. A partir desse ponto, formulam então um conceito geral para organismos transgênicos que irá sustentar o desenvolvimento do trabalho. É Talita quem define: “Transgênicos resultam de experimentos da engenharia genética nos quais o material genético de um ser vivo é removido para outro ser vivo visando (inaudível) características específicas entre ambos os seres [...]”. Já o grupo formado por Nathan, Manuela, Thaiane, Thais, Luise e Camila Guimarães, ao abordarem a clonagem humana, toma como referência inicial o texto “Dessacralização da vida” 1. Manuela começa por definir o significado da expressão “dessacralização” dizendo: “A palavra ‘sacra’ significa santo e o prefixo ‘des’ significa assim... deixar de ser”, para logo em seguida relacionar esta expressão ao contexto da discussão que se anuncia: “Então, tipo assim... a dessacralização da vida quer dizer tirar o que tem de magnífico na vida... é pegar uma pessoa e vai lá tipo e interfere...” A fala de Manuela é interrompida por Camila Guimarães que chama a atenção para o seguinte aspecto: “[..]. porque todo mundo tem a vida como algo de divino. A vida não deixa de ser algo divino. Então o que acontece? A clonagem tira essa ideologia de vida que a gente tem.” Ao fazer esta intervenção, Camila Guimarães parece definir que a dimensão ética em torno da clonagem marcará o tom da apresentação do grupo, o que parece ser confirmado quando vemos surgir algumas controvérsias entre os integrantes do grupo com os demais alunos da turma. Assim, para além de conceitos, os alunos, enquanto sujeitos históricos, vão assumindo suas posições frente às temáticas apelando, por vezes, a justificativas que revelam um sentimento religioso que não coincide com os ideais da produção científica. Por outro lado, a fala das alunas nos permite outra consideração no que diz respeito aos processos de resignificações que alguns conceitos sofrem à medida que vivenciamos o avanço do 1 Disponível em http://www.comciencia.br 4800 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 conhecimento científico. Astolfi e Develay (1995), por exemplo, evidenciam as mudanças de sentido que se produzem na história de dois conceitos: os de fecundação e de calor. Supomos que as alunas desejam evidenciar este aspecto pois, até há algum tempo, a concepção de um novo ser humano dependia exclusivamente do encontro de gametas femininos e masculinos e, numa perspectiva mais biológica, das combinações aleatórias dos genes transmitidos por essas células. Hoje, já se fala em clonagem humana, um processo de reprodução que envolve manipulação e dispensa a figura do pai ou da mãe, ou como diz Camila Guimarães, “A clonagem tira essa ideologia de vida que a gente tem”. Neste sentido, as alunas parecem apontar para dois aspectos relativos à produção científica: a manipulação e o controle. Seguindo-se a Camila Guimarães, Thais enfatiza a diferença entre clonagem artificial e natural, o que, para nós, é importante pois, ao início da unidade de ensino foi aplicado um questionário para levantamento das concepções prévias dos alunos sobre o tema e as análises revelaram que havia um entendimento predominante da clonagem como um processo artificial realizado no interior dos laboratórios. Ao mesmo tempo, esse grupo, a exemplo de outros, mobiliza os conceitos de reprodução sexuada e assexuada, ressaltando o primeiro como um mecanismo que garante maior variabilidade genética dos organismos enquanto o segundo produz cópias genéticas. Neste sentido, evidencia a clonagem como um mecanismo de reprodução que se processa naturalmente entre algumas espécies. Realizadas estas articulações conceituais, os alunos apresentam um primeiro questionamento: “Quais são os limites da clonagem em humanos?” Com esta questão o grupo parece reconhecer os riscos e incertezas que acompanham as pesquisas que envolvam a manipulação gênica. 5. Fazendo uso de conceitos anteriormente construídos para explicar novas situações Durante o desenvolvimento do trabalho, percebemos que os alunos fizeram circular antigos significados que emergiram ao longo da realização da unidade de ensino e são então mobilizados para explicar novas situações que vão surgindo. Para explicar este movimento que foi recorrente ao longo da apresentação dos trabalhos, selecionamos uma situação para ilustrá-lo. A sequência que transcrevemos a seguir faz parte da apresentação do trabalho do grupo que trata de organismos transgênicos. Neste momento da apresentação, os alunos desse grupo falam acerca de plantas transgênicas: 1. Suzane: As plantas em certos lugares..... Alterações de sabor, tamanho, textura.... 4801 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 2. João: Você tem uma plantação de laranjas transgênicas, por exemplo, tem como ter ... dar laranja transgênica e também laranja normal? 3. Camila Dias: Se você modifica o organismo primeiramente você vai gerar o organismo, você não vai pegar o organismo e injetar nele assim. Você vai criar ele, botar o DNA ... o transgene nele, no DNA dele. Então o que é transgênico vai ser transgênico. A reprodução passa a ser assexuada. Então a célula duplica o filamento de DNA... e também o transgene... passa de pai para filho e também todos os descendentes vão ser transgênicos. 4. Júlio: Camila, a gente aprendeu na aula de Geografia que a soja (inaudível) ela foi adaptada pra ser desenvolvida aqui. Então é uma planta transgênica? 5. Camila Dias: É. Muitos casos são. Porque muitas sojas (inaudível) tem pragas, bichos que atacam, ela tem que ser modificada, ela tem que ter alguma coisa nela que faça evitar esse ataque de insetos, doenças. Então é preciso que se modifique o gene dela para que ela se adapte e produza bem pois nem todo lugar é suscetível a essas plantas. 6. Isamar: (inaudível) podem fazer mal pra nós que estamos nos alimentando dela? 7. Camila Dias: Olha tem uma pesquisa ... muitas são contra dizem que não. Em alguns casos pode fazer porque ninguém prova, não tem ciência que prove isso por enquanto. Eu acho que tem que investir neste setor pra você saber, pra você ter certeza ... Antes que você ofereça um produto pro consumidor você tem que ter certeza de que ele vale a pena. Suzane inicia sua apresentação situando os efeitos percebidos em uma planta transgênica como, por exemplo, o sabor, o tamanho e a textura. Dessa forma, evidencia uma relação entre uma dimensão visível e observável e uma dimensão estrutural relativa à manipulação no material genético de um organismo. João apresenta uma questão ao grupo que parece acompanhar o movimento de Suzane articulando o observável – uma plantação que produz laranjas – ao estrutural – laranjas transgênicas e normais, ou seja, organismos que tiveram ou não seu material genético manipulado. Camila Dias poderia ter respondido apenas sim ou não mas, valendo-se dos conceitos de genes e transgenes e ainda de reprodução assexuada, procura construir uma resposta coerente para dar conta da questão proposta ao grupo. Camila Dias, inicialmente, procura evidenciar a manipulação gênica que se processa para se obter um transgênico: “Você vai criar ele, botar o DNA... o transgene nele, no DNA dele”. Em seguida, recorre ao mecanismo de autoduplicação do DNA dizendo: “Então a célula duplica o filamento de DNA... e também o transgene”. Ou seja, uma vez transferido um gene para uma molécula de DNA, à medida que esse DNA se duplica, há igualmente duplicação desse gene que será transmitido às gerações seguintes já que a reprodução assexuada reduz as chances de variabilidade genética “então o que é transgênico vai ser 4802 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 transgênico”. A aluna recupera, portanto, um conceito trabalhado durante as aulas para elaborar sua resposta. Podemos pensar, a exemplo de outras situações, que o significado relativo à duplicação do DNA é incorporado pela aluna e se constitui em um instrumento que lhe permite pensar sobre uma nova situação – a de uma plantação de transgênicos – a partir de uma perspectiva biológica. A nosso ver, esses diferentes conceitos que acabam por integrar sua explicação lhe permitem uma visão mais ampla e profunda da temática em questão. Neste caso, a aluna elabora uma explicação já que importa um modelo teórico para se referir a um fenômeno específico (MORTIMER; SCOTT, 2002). No curso da discussão, Julio formula uma questão especificamente para Camila. O aluno introduz no contexto de discussão uma informação trazida das aulas de Geografia pressupondo-a como uma construção coletiva e compartilhada (a gente aprendeu na aula de Geografia...). Dando visibilidade ao caráter polifônico da palavra, tão discutido por Bakhtin (1992, 1995), o aluno recupera “vozes” de outro contexto para trazer um novo elemento que possa ampliar e aprofundar a discussão. Do ponto de vista conceitual, Julio parece reconhecer que a adaptação de algumas plantas a determinadas condições ambientais decorre de modificações gênicas, o que situa seu pensamento em uma perspectiva evolucionista neodarwinista, ainda que esses conceitos não tenham sido explicitados no curso da discussão. Mais que isso, o aluno traz o exemplo do cultivo de soja transgênica, o que tem sido motivo de grande polêmica em diversos paises, incluindo o Brasil. Camila Dias é cuidadosa e evita a generalização (É. Muitos casos são). Seu enunciado evidencia que a produção de plantas transgênicas está diretamente relacionada a interesses econômicos que buscam reduzir a competição entre as espécies (muitas sojas (inaudível) tem pragas, bichos que atacam, ela tem que ser modificada, ela tem que ter alguma coisa nela que faça evitar esse ataque de insetos, doenças) o que viabiliza o aumento da produtividade (Então é preciso que se modifique o gene dela para que ela se adapte e produza bem). Neste momento da discussão, Isamar intervém problematizando os efeitos do consumo de alimentos transgênicos pelo homem (... podem fazer mal pra nós que estamos nos alimentando dela?). A dimensão social da ciência vai sendo então delineada, à medida que há um reconhecimento por parte dos alunos que o uso de plantas transgênicas é objeto de intensos debates por parte de especialistas pois ainda existem questionamentos sobre se fazem ou não mal à saúde ou mesmo ao ambiente. O conhecimento biológico vai sendo integrado a uma dimensão contextual mais ampla que ultrapassa os limites da sala de aula de Biologia. A resposta elaborada por Camila Dias revela as incertezas e paradoxos que acompanham o próprio 4803 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 desenvolvimento da ciência (Olha tem uma pesquisa ... muitas são contra dizem que não. Em alguns casos pode fazer porque ninguém prova, não tem ciência que prove isso por enquanto). Ou seja, a ciência é capaz de produzir soluções para muitas questões sociais mas, ao mesmo tempo, oferece riscos para a sobrevivência da humanidade já que nem sempre é capaz de produzir diagnósticos seguros acerca da utilização de seus produtos. Nesta sequência, dois aspectos podem ser considerados. Primeiro, a evidência de uma apropriação conceitual (duplicação de DNA e organismos transgênicos) que é então mobilizada para analisar e interpretar novas situações. Neste momento, o que parece estar em jogo é a manipulação de certo suporte teórico fornecido pela ciência e construído durante as aulas para melhor entender situações significativas e relacionadas ao tema em estudo. Segundo, a assunção pelos alunos da ciência como um processo em construção que decorre da atividade humana. A visão de uma ciência que tem sempre uma resposta concebida como uma verdade absoluta vai cedendo lugar a uma ciência capitaneada por interesses que necessariamente não caminha por um terreno de grandes certezas. 6. Considerações Finais Um olhar atento aos trabalhos produzidos pelos alunos, nos permite reconhecer uma organização coerente que articula diferentes conceitos biológicos bem como conceitos biológicos a situações concretas e, por vezes, vivida. Assim, assistimos a apresentações que fazem circular vários conceitos tais como reprodução sexuada e assexuada, células somáticas e células reprodutivas, fases do desenvolvimento embrionário, mas agora situados em novos contextos e situações. Isto permite, por um lado, evidenciar a apropriação de conceitos anteriormente construídos através de seus usos e aplicações a novas situações. Por outro, insere o conhecimento biológico em dimensões mais amplas como a ética, a política e a econômica uma vez que questões relativas aos efeitos decorrentes da produção científica que envolve a manipulação gênica são problematizadas pelos alunos ao longo das apresentações. Dessa forma, os alunos, por vezes, realizam movimentos que parecem romper com uma visão cientificista reconhecendo, por exemplo, os interesses econômicos bem como o caráter manipulativo que acompanham o processo de produção do conhecimento científico. Nesse sentido, percebemos que os alunos mobilizam conceitos de natureza biológica a fim de interpretar situações e este talvez seja o caminho para se enfrentar de modo mais crítico e seguro questões sociocientíficas que demandam a tomada de decisões e ações. 4804 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Assim, as análises evidenciam os movimentos e práticas cognitivas que se realizam em torno da construção/produção de significados biológicos, constituindo-se, tanto quanto os conceitos, em objetos da aprendizagem em Biologia. A aprendizagem em Biologia se revela como um processo social e complexo pois “põe frente a frente, em uma interação que nunca é uma simples circulação de informações, um sujeito e o mundo, um aprendiz que já sabe sempre alguma coisa e um saber que só existe porque é reconstruído” (MEIRIEU, 1998, p. 79). Referências Bibliográficas: ARCÀ, M.; GUIDONI, P.; MAZZOLI, P. Enseñar Ciência - como empezar: reflexiones para uma educación de base. Barcelona/Buenos Aires:Paidos, 1990. ASTOLFI, J.P.; DEVELAY, M. A Didática das Ciências. Campinas, SP: Papirus, 1995. BAKHTIN, M. (VOLICHINOV). Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo:Hucitec, 1992. _____________.Questões de Literatura e Estética: a teoria do romance. 3. ed. São Paulo, Unesp/Hucitec, 1993. ENGLE, Randi, A.; CONANT, Faith, R. Guiding Principles for Fostering Productive Disciplinary Engagement: explaining an emergent argument in a community of learners classroom. Cognition and Instruction. Lawrence Erlbaum Associates Inc. 20(4), p.399-483, 2002. MERIEU, PHILIPPE. Aprender... Sim, Mas Como? 7ª. ed. Porto Alegre-RS:Artemd, 1998. MORTIMER, Eduardo Fleury et al. Uma Metodologia para Caracterizar os Gêneros de Discurso como Tipos de Estratégias Enunciativas nas Aulas de Ciências. In: NARDI, Roberto. Pesquisas em Educação em Ciências no Brasil: recortes atuais. 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