UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E ECONÔMICAS INSTITUTO DE PESQUISA E PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL A CIDADE AUTOCONSTRUÍDA Rosa Maria Cortês de Lima TESE DE DOUTORADO Rio de Janeiro- RJ 2005 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E ECONÔMICAS INSTITUTO DE PESQUISA E PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL TESE DE DOUTORADO A CIDADE AUTOCONSTRUÍDA Rosa Maria Cortês de Lima Rio de Janeiro-RJ 2005 A CIDADE AUTOCONSTRUÍDA Rosa Maria Cortês de Lima A CIDADE AUTOCONSTRUÍDA Tese de Doutorado apresentada ao Curso de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Doutor em Planejamento Urbano e Regional. Orientador: Professor Adauto Lúcio Cardoso Doutor em Arquitetura e Urbanismo – USP/SP Orientadora: Professora Ana Clara Torres Ribeiro Doutora em Sociologia – USP/SP Rio de Janeiro-RJ 2005 L732c Lima, Rosa Maria Cortês de. A cidade autoconstruída / Rosa Maria Cortês de Lima. – 2005. 373 f. : il. color., mapas; 30 cm. Orientador: Adauto Lúcio Cardoso e Ana Clara Torres Ribeiro. Tese (Doutorado em Planejamento Urbano e Regional)–Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005. Bibliografia: f. 356-373. 1. Pobres – Habitação – Recife (PE). 2. Política habitacional – Brasil. 3. Habitação popular – Recife (PE). 4. Autoconstrução. I. Cardoso, Adauto Lúcio. II. Ribeiro, Ana Clara Torres. III. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional. IV. Título. CDD: 363.5 A meu filho Jaerton, o despertar de novos caminhos A meu pai João Rebouças de Lima e a minha mãe Áurea Cortês Lima Transmitiram-me valores essenciais à vida e ensinaram-me a curiosidade pelo conhecimento e o desejo do saber. AGRADECIMENTOS Transformar inquietações em produção de conhecimento requer enfrentar desafios, implica ultrapassar as impressões imediatas, aparentes, e adentrar paragens mais amplas, permitindo o fluir da imaginação que cede lugar à curiosidade do saber. Na feitura desta Tese, diferentes e solitários momentos foram vividos nas múltiplas dimensões das escolhas dos caminhos, no penetrar as veredas desconhecidas, no abandono das alternativas pensadas, e muitas vezes trabalhadas, no contínuo construir, desconstruir para, seguidamente, reconstruir, lugar comum da produção do conhecimento. Igualmente outros caminhos permeados de singularidades foram partilhados com um número expressivo de pessoas que, de modo mais próximo, ou mais a distância, concorreram para o trabalho aportar em um ancoradouro seguro. Fazem parte dessa trilha: familiares, colegas de doutorado, professores da pósgraduação, colegas da universidade, colegas do campo profissional, alunos, amigos e pessoas com as quais tive encontros com maior ou menor intensidade no percurso do mundo da vida e do trabalho, destacando-se em especial os segmentos populares na busca incessante por habitação no território recifense. Acrescente-se, de forma particular, as pessoas que disponibilizaram parcela do seu precioso tempo, no sentido de contribuir, significativamente, com o projeto de estudo, ao responder às entrevistas – os moradores das áreas pesquisadas, os gestores públicos, os técnicos, os antigos colegas de trabalho da prática institucional no campo temático da habitação popular, no Recife, que debulharam informações, juntando partículas do tempo, indicaram rotas para novas buscas, contribuíram para dirimir dúvidas e preencher lacunas, por vezes, presentes na aproximação com as informações colhidas, ou abriram seus arquivos cedendo dados e fotografias das áreas estudadas. Os meus agradecimentos especiais: Ao Professor Adauto Lúcio Cardoso, orientador, pelas contribuições e sugestões à criação científica desta tese, pela paciência com as idas e vindas do processo criador. À professora Ana Clara Torres Ribeiro, co-orientadora, por suas sugestões críticas, estímulo permanente à curiosidade científica, realizado de modo sutil e incisivo. Aos professores do Curso de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional-IPPUR da Universidade Federal do Rio de Janeiro, por instigarem constantes desejos às fontes variadas do conhecimento. A CAPES/PICDT/UFPE por propiciarem bolsa de estudo, possibilitando o meu deslocamento para a realização do doutorado. Aos professores do Departamento de Serviço Social-UFPE, que, ao aprovarem o meu afastamento, prestaram valiosa contribuição ao meu percurso acadêmico, especialmente, à professora e amiga Helena Chaves, que tantas vezes solicitada a distância, foi expressivamente prestigiosa, e à professora e amiga Ana Cristina Arcoverde, pelo estímulo constante. Aos colegas da Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional com quem partilhei os bancos de aula do IPPUR, vivenciando convergências e divergências no debate acadêmico e na leitura da realidade, de modo particular a Isabel, Sonia Lúcio, Geovânia, José Eduardo, Silvania, Elaine, Alberto, Suzana, Raquel, Luiz Alberto, Suzana, Maria Alice, Patrícia e Lourdes. À Ignês Araújo que facilitou a recomposição de informações e o rastreamento de pessoas para a busca de informações sobre o Buriti, fruto da sua vivência profissional naquela área e de sua instigante disponibilidade. À Leina Karina que contribuiu com o levantamento de informações de jornais. À Maria José Ferreira de Barros, moradora do Buriti e integrante da Comissão de Ocupação da terra, que me acompanhou durante a realização das entrevistas, abrindo caminhos para a recomposição da história do lugar e demonstrando o seu permanente compromisso com aquele quinhão do território citadino e seus habitantes. À Neide Santana, Presidente da Associação de Moradores do Barbalho, que me acompanhou no decurso das entrevistas a Ayrton Senna, e contribuiu para adentrar a área, ouvir os moradores e resgatar as lutas vividas por habitação daquela parcela população. Aos meus amigos Zélia Correia, que me acompanhou a visitas a Ayrton Senna, fotografando a área; Beth Cunha, deu o formato final a este trabalho; Vera Mayrinck, disponibilizou bibliografia, e me receberam durante o período da pesquisa no Recife; Raineldes Ágda, Aderbal Azevedo, Leopoldo Maranhão, Leonor Maia, Ângela Souza, Norma Costa (in memoriam), Ronald Vasconcelos, Demóstenes, que em diferentes circunstâncias partilharam do investimento deste trabalho, a Marisa Lapenda que realizou leitura de partes da Tese, contribuindo com suas indagações. À Geovanna Cavalcanti responsável pela revisão deste texto. À Aurelina Moura que comigo percorreu o Buriti e Ayrton Senna fotografando, procurando os melhores ângulos para o registro fotográfico. A meu filho Jaerton, uma presença firme e cautelosa, e um apoio inestimável à confecção desta Tese. À minha mãe Áurea Cortês Lima, uma fortaleza no estímulo, e a meu pai João Rebouças de Lima, no silêncio da vida presente. À minha irmã Maria Zoé e meu sobrinho Gláucio, que me receberam em sua casa nos primeiros meses de estada no Rio de Janeiro, dividindo espaços e partilhando momentos de convivência familiar. Aos meus irmãos João Régis, Wendel pelo apoio, pela convivência no transcurso da vida, e a Kleber (in memriam). À nova geração da família – meus sobrinhos – Gláucio, Rafael, Larissa, Lucas e Mateus, acompanhantes da realização desse estudo. RESUMO Tendo como ponto de referência a questão habitacional na cidade do Recife, este estudo elege como centro de análise o acesso à moradia pelos pobres, recontando a autoconstrução como modalidade viabilizadora desse acesso, focalizado nas décadas de mil novecentos e oitenta e mil novecentos e noventa. Procura explicitar os fatores determinantes de natureza econômica e política, e os condicionantes relacionados ao ambiente físico-geográfico do território, que concorreram para instalar no urbano um ambiente construído, marcado pela desigualdade na formação e na expansão da cidade. Sustentadas em bases teóricas, as implicações sociais, políticas e econômicas do acesso à moradia transbordam para interpretações no campo empírico analisando os processos autoconstrutivos, desenvolvidos pelos segmentos de baixa renda, por iniciativa própria ou espontaneamente, e aqueles empreendidos através da ação pública. No entendimento deste trabalho, a autoconstrução de moradia integra a prática da população pobre, ao longo do tempo, sendo intensificada, no espaço urbano, na medida em que as relações tornam-se mais complexas e aprofunda-se a desigualdade. Dois estudos de caso lastreiam o campo interpretativo contemplando as duas formas salientadas como campo investigativo. O trabalho é ilustrado por mapas, fotografias, incluindo também poemas, que propiciam uma leitura visual e complementar num reencontro com o centro da investigação. ABSTRACT Having set the housing issue in the city of Recife as a reference, this study has elected access to housing by the poor as the center of analysis, considering self-help housing as a means to this access and focusing on the 1980s and 1990s. The study attempts to explicate the predetermining economic and political factors and the conditioning factors related to the physical and geographic environment of the territory, all of which have concurred to install a constructed environment in the urban area marked by inequality in the formation and expansion of the city. Sustained by theory, the social, political and economic implications of the access to housing overflow to interpretations in the empirical field analyzing the self-help housing processes developed by the low-income segments on their own or spontaneously, and those undertaken by public action. Our understanding is that self-help housing has integrated the practice of the poor population throughout time, having been intensified in the urban areas as relations have become more complex and inequality has grown. Two case studies ballast the interpretative field contemplating the two forms pointed out as the investigative field. Maps, photographs and poems illustrate the text, giving it a pictorial touch and complementing the reencounter with the center of investigation. ABREVIATURAS E SIGLAS ANPUR BDI BID BNH CEF CDRU CELPE CEHAB COHAB COMPESA COMULs DIPLAN DIRCON DIUR EMHAPE FADE FICAM FIDEM FUNDAJ FIBGE IBGE IPEA IPPUR IPTU LSCM MDU OGU ONGs OTN PCM PCR PDCR PDR PERPART Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional Bonificação de Despesa Direta Banco Interamericano de Desenvolvimento Banco Nacional de Habitação Caixa Econômica Federal Concessão do Direito Real de Uso Companhia de Energética de Pernambuco Companhia Estadual de Habitação e Obras Companhia de Habitação Popular Companhia Pernambucana de Saneamento Comissões de Urbanização e Legalização das ZEIS Diretoria de Planejamento Diretoria de Coordenação e Controle Urbano e Ambiental Diretoria de Integração Urbanística Empresa de Melhoramentos Habitacionais de Pernambuco Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Universidade Federal de Pernambuco Financiamento da Construção e Ampliação, Conclusão e Ampliação ou Melhoria da Construção Fundação de Desenvolvimento da Região Metropolitana do Recife Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Instituto de Pesquisa Aplicada Instituto de Planejamento e Pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro Imposto Predial e Territorial Urbano Liga Social Contra o Mocambo Mestrado de Desenvolvimento Urbano Orçamento Geral da União Organizações não-Governamental Obrigações do Tesouro Nacional Prefeitura do Município do Recife Prefeitura da Cidade do Recife Plano Diretor da Cidade do Recife Plano de Desenvolvimento do Recife Pernambuco Participações e Investimentos PFL PNAD PMDB PREZEIS PROFILURB PROMETROPOLE RMR PROAF PROMORAR PSD PT PHIS PSH SSAM SEHAB SEHDUR SUDENE SEDU SEPLAM TELEMAR UFPE UFRJ UEM UPRD URB VRF ZEIS ZEPH Partido da Frente Liberal Pesquisa Nacional de Domicílios Partido do Movimento Democrático Brasileiro Plano de Regularização das Zonas Especiais de Interesse Social Programa de Financiamento de Lotes Urbanizados Programa de Infra-Estrutura em Áreas de Baixa Renda da RMR Região Metropolitana do Recife Programa de Habitação Popular Programa de Erradicação da Sub-Habitação Partido Socialista Democrático Partido dos Trabalhadores Política Habitacional de Interesse Social Programa de Subsídio a Habitação Serviço Social Agamenon Magalhães Secretaria de Habitação Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste Secretaria de Desenvolvimento Urbano da Presidência da República Secretaria de Planejamento, Urbanismo e Meio Ambiente do Município Empresa de Telecomunicações Norte e Leste Universidade Federal de Pernambuco Universidade Federal do Rio de Janeiro Unidade Executora Municipal do Programa Habitar-Brasil Unidade Padrão de Referência Diária Empresa de Urbanização do Recife Valor de Referência Financeira Zona Especial de Interesse Social Zona Especial de Preservação Histórica LISTA DE MAPAS E PLANTAS 01 02 03 04 05 06 07 08 09 RMR – Localização do Recife Planta da Cidade do Recife e seus Arrabaldes Distribuição do Território entre Morros e Planície Cadastro de Áreas Pobres da Cidade do Recife Áreas de Morro e Planície Cadastro dos Assentamentos Populares da Cidade do Recife Localização das ZEIS Evolução das Áreas Pobres do Recife, entre 1975 e 1990 Projeto de Ocupação do Buriti 34 42 72 98 101 102 174 192 216 10 Localização do Buriti 11 Localização de Ayrton Senna 12 Planta da Cidade do Recife e seus Arrabaldes. 228 294 306 LISTA DE FOTOGRAFIAS E DESENHO 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 Mocambos em Santo Amaro Vista das Cinco Pontas O Rio a existência dos múltiplos Recife Morros Zona Sul – Nova Descoberta Planície – Comunidade do Pilar Palafitas no Coque Mocambos do Recife Palafitas em Caranguejo ZEIS Alto da Jaqueira ZEIS Apipucos ZEIS Brasília Teimosa ZEIS Aritana Ortofoto de 1984 do Buriti Aerofoto de 1997 da Vila Nova Buriti Autoconstrução de moradia no Buriti Vista aérea do Buriti Igreja do Buriti Vila Regina Girador Avenida José Américo Vila Maria Amélia Vista das edificações concluídas Avenida José Américo Habitação da Vila Maria Amália Corte do morro durante a implantação do Projeto Buriti Assembléia dos ocupantes do Buriti Escadaria Drenagem Pavimentação Pavimentação Talude Bolo de Noiva Autoconstrução Autoconstrução Primeira casa autoconstruída Acompanhamento das ações do Projeto Alicerce da autoconstrução Alvenaria da autoconstrução Vista aérea mostrando lonas plásticas protegendo os taludes 43 48 59 71 71 71 109 109 177 177 178 178 216 216 216 216 221 221 221 221 225 225 225 231 241 258 258 258 258 262 262 262 262 268 269 272 272 287 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 Verticalização das habitações Verticalização Invasão da área da CELPE Invasão da área da CELPE Invasão no interior da área Invasão no interior da área Buriti atual Barraco a margem do rio Capibaribe na área de Ayrton Senna Contraste entre Ayrton Senna e o Monteiro Esgoto a céu aberto em Ayrton Senna Vista aérea da Vizinhança de Ayrton Senna Vista do Monteiro para Ayrton Senna Vista de Ayrton Senna para o Monteiro Barracos/moradias margem do rio Capibaribe Vista das moradias de Ayrton Senna Moradias no interior da área Moradias localizadas na Estrada do Barbalho Moradias situadas próximas a Santa Marta Rua de acesso à Estrada do Barbalho Rua com esgoto a céu aberto Casarão do Barbalho Área de carroceiros, catadores de lixo, também usada para habitação Barraco localizado no trecho dos carroceiros Área de carroceiros, catadores de lixo Momento da ocupação Construção dos barracos Reunião entre ocupantes de Ayrton Senna e Secretários municipais 287 287 288 288 288 288 289 295 295 295 296 298 298 302 302 302 302 302 303 303 305 306 306 306 313 320 324 LISTA DE TABELAS 01 02 03 04 05 Número de habitantes, unidades habitacionais e hectares ocupados pelas áreas pobres Recife – 2001 Hectares ocupados por áreas pobres segundo a topografia – Recife – a 2001 Distribuição das áreas pobres segundo a topografia – Recife – 2001 Distribuição dos mocambos, segundo a propriedade. Recife – 1939 Programas habitacionais alternativos Recife -1980-1999 98 98 98 107 166 LISTA DE QUADROS 01 02 03 04 ZEIS Beneficiada com Programas Habitacionais – 1980-2001 Recife: Programas Habitacionais – 1980-1998 Programa Chão e Teto – RMR – 1987-1991 Programas Autoconstrução e Melhoria no Recife – 1987 -1989 176 184 204 205 SUMÁRIO 1.1 1.2 1.3 1.4 1.5 INTRODUÇÃO 19 CAPÍTULO 1 RECIFE: CIDADE E MORADIA 34 Recife: cidade em expansão O solo apropriado A Cidade: espaço da população pobre - alagados, morros, planície A luta por habitação: resistências e embates na ocupação do território A ação pública na habitação 35 50 56 73 82 CAPÍTULO 2 A CIDADE DO RECIFE: POBREZA, HABITAÇÃO, TERRITORIALIDADE 89 2.1 2.2 2.3 2.4 Pobreza e exclusão social O quadro da pobreza e a problemática habitacional recifense As territorialidades: o território usado, o território praticado As armadilhas: velhos e novos discursos e práticas – a autoconstrução 2.4.1 2.4.2 2.5 As raízes da autoconstrução como política pública Meandros do debate sobre a autoconstrução no país A autoconstrução na ocupação urbana recifense 90 95 113 118 118 123 128 CAPÍTULO 3 A CIDADE DO RECIFE: A HABITAÇÃO DE BAIXA 134 RENDA NAS DÉCADAS DE 1980 E 1990 3.1 3.1.1 3.1.2 3.1.3 3.2 Folheando a Política Nacional de Habitação Popular no recorte dos Programas Alternativos O recorte dos Programas Alternativos no período do Banco Nacional de Habitação Na trilha da Política Nacional de Habitação da “Nova” República O desenho das ações de habitações nos anos noventa: a permanência dos programas alternativos A ação pública de habitação popular do Estado e do Município na cidade do Recife 135 135 145 151 155 3.2.1 3.2.2 3.3 3.4 3.4.1 3.4.2 3.4.3 A ação estadual de habitação popular: os programas alternativos A ação municipal de habitação popular: a inovação da política A efervescência da pressão popular no Recife A Política Habitacional do Estado de Pernambuco no período 1987-1991: a prevalência dos programas alternativos A renovação da Política Habitacional para os segmentos de mais baixa renda O desenho operacional da política A autoconstrução como ação pública: inovação ou estratégia popular apropriada 156 158 185 195 198 207 208 CAPÍTULO 4 A AUTOCONSTRUÇÃO FINANCIADA: O CASO DA VILA 215 NOVA DO BURITI 4.1 4.2 4.2.1 4.3 4.3.1 4.3.2 4.4 Origem, uso e repartição da terra – reconstruindo fios da história do lugar A tensão e a extensão da ocupação da terra: o caminho feito de lutas A relação entre o Estado e a população O caminho da moradia autoconstruída O aprisionamento das oportunidades: autoconstrução financiada e a terra ocupada Autoconstrução: conquista ou outorga? O tempo desnudo: o tempo da autoconstrução 217 226 239 246 254 273 276 CAPÍTULO 5 A AUTOCONSTRUÇÃO POR INICIATIVA PRÓPRIA: O 292 CASO AYRTON SENNA 5.1 5.2 5.2.1 5.2.2 A fisionomia do lugar De como nasceu a ocupação “Foi um grande combate” – derrubando e reconstruindo A relação entre o Estado e a população 5.2.3 5.2.4 Ocupação e permanência no embate cotidiano A fragilidade da organização dos ocupantes da terra Fazendo a casa: a moradia autoconstruída Das formas ao tempo Entre os limites e a ação – luta e desencanto 293 313 317 322 328 330 332 341 345 CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS 352 356 5.3 5.3.1 5.4 INTRODUÇÃO A problemática de habitação da população de baixa renda faz parte da história do Recife. A herança dessa problemática traz as marcas das tensões vivenciadas por confrontos entre as diferentes classes, no andar do século XX, e está espelhada nas condições de moradia, na concentração da propriedade do solo, no empobrecimento de significativa parcela da população e nas desigualdades econômicas, sociais e políticas. A temática despertou-me interesse, como assistente social, ao longo da trajetória profissional, vinculada às políticas habitacionais direcionadas às classes populares, no Estado de Pernambuco. Tais políticas constituíram campo de prática, tanto no âmbito da execução de programas habitacionais como no gerenciamento e formulação de projetos. Esse interesse permaneceu na atividade acadêmica. As questões habitacionais dos pobres urbanos tornaram-se assim familiares pela via institucional, na relação direta com os segmentos sociais envolvidos em sua luta cotidiana por habitação, transformando-se em desafios no sentido de aprofundar o conhecimento para possibilitar a sua maior compreensão. Estudos1 posteriores contribuíram para uma maior aproximação com esse assunto, no território recifense. Os embates verificados e vivenciados no confronto entre demandas, ação do Estado e busca intermitente por moradia pelos segmentos empobrecidos instigaram e impulsionaram a necessidade de apreender os diferentes elementos aí contidos e ultrapassar o olhar superficial sobre o tema. Olhar este que permeia a sociedade, instituições públicas, órgãos financiadores de políticas e programas habitacionais, agências multilaterais e pesquisas de cunho acadêmico. Este trabalho ocupa-se com a apropriação crítica da questão habitacional elegendo como centro de análise o acesso à habitação de segmentos de baixa renda. Recorta-se para a abordagem empírica a relação entre a ação da população e a ação do Estado, no tocante à autoconstrução de moradia, no Recife, capital do Estado de 1Estudo realizado para a Dissertação de Mestrado “O Morar e a Moradia: as representações dos moradores da favela do Chié no Recife”. Mestrado em Serviço Social – Recife, UFPE, 1990. 20 Pernambuco, cidade núcleo da Região Metropolitana do Recife-RMR, nas décadas de 80 e 90 do século XX. A definição da periodicidade, ou seja, a delimitação de um tempo ou o recorte no tempo para o estudo enfrenta limites. Souza Barros (1985, p. 188), no trabalho sobre uma interpretação da década de 1920 em Pernambuco, particularmente quando versa a respeito do panorama literário, lembra de modo primoroso: “A limitação de assuntos ao espaço de uma década nem sempre é coisa viável. Essa fixação no tempo estabelece um divisor no espaço cronológico, mas o assunto em si tem mais continuidade – vem antes e vai para depois”. Durante a pesquisa, a dinâmica dos acontecimentos focalizados e o entrelaçamento entre eles, em algum momento, conduziu ao alargamento do período pesquisado para além daquele estabelecido inicialmente. No entanto, a análise esteve voltada, permanentemente, para a articulação entre diferentes elementos que possibilitassem clarificar o objeto de estudo e atentassem ao recorte priorizado para a investigação. A habitação na composição do ambiente construído2 desponta como aquele elemento de maior importância. Nesse sentido, destaca Vaz (2002, p. 17): Ocupando parcela substancial do solo urbano, a habitação constitui um elemento básico de reprodução da força de trabalho e um elemento privilegiado de investimento do capital na cidade. Parte integrante do cotidiano, a habitação interfere nas práticas sociais, apóia a memória individual e coletiva, guardando significados para os diversos segmentos da população e participando da formação das identidades sociais. Observa-se que o acesso à habitação através da autoconstrução responde a práticas historicamente construídas pelos segmentos populares. Entretanto, essas práticas são apropriadas pelo Estado, em momento de crise3 econômica, no decurso da história, conforme aponta a literatura sobre o assunto, e adotadas como alternativa de políticas públicas em resposta às pressões sociais. 2Harvey (1982, p. 6-7) utiliza a expressão ambiente construído para designar “[...] a totalidade das estruturas físicas – casas, ruas, fábricas, escritórios, sistemas de esgotos, parques, equipamentos culturais e educacionais, etc”. “[...] O ambiente construído pode ser dividido em elementos de capital fixo a serem utilizados na produção (fábricas, rodovias, ferrovias etc.) E em elementos de um fundo de consumo a serem utilizados no consumo (casas, ruas, parques, passeios etc). Alguns elementos, tais como as ruas e os sistemas de esgotos, podem funcionar quer como capital fixo, quer como parte do fundo de consumo, dependendo de seu uso”. São elementos necessários à produção e reprodução ampliada do capital e da força de trabalho. Ver também sobre o assunto: PIQUET, 2001. 3Esse assunto será discutido no Capítulo 2 deste trabalho. 21 As implicações sociais, políticas e econômicas do acesso à moradia são discutidas em dois momentos investigativos intrinsecamente relacionados: a direção teórica e o campo empírico. A primeira contempla como eixos de discussão: Estado, exclusão social e reprodução social; e territorialidade e organização social. No campo empírico, destaca-se, na pesquisa de campo, a investigação da relação dos processos autoconstrutivos desenvolvidos pelos segmentos de baixa renda e as políticas habitacionais locais promotoras ou indutoras da autoconstrução. Para o exame da relação entre a ação da população pobre e a ação do Estado no que tange à autoconstrução de moradias, dois ângulos de estudo foram priorizados. Num, procura-se compreender as práticas históricas desenvolvidas pela população, através do processo de autoconstrução no espaço urbano; num outro, foram investigadas as políticas públicas do Estado de Pernambuco de acessibilidade à habitação pautadas na autoconstrução. Considera-se que a construção de moradia integra a prática da população de menor renda ao longo do tempo na forma de autoconstrução, intensificando-se, no espaço urbano, na medida em que as relações tornam-se mais complexas e aprofunda-se a desigualdade social. Parte-se do pressuposto de que um permanente processo de luta pelo acesso e suprimento de habitação é empreendido pela população de baixa renda e engendrado através de práticas históricas de autoconstrução. Ao mesmo tempo, admite-se que há um descompasso entre o movimento da população e a ação do Estado na provisão de moradias, para segmentos de baixa renda. Concebe-se, no âmbito desta investigação, a autoconstrução como prática de acesso e suprimento da moradia exercida pelos pobres, realizada de modo espontâneo ou com o apoio do Estado. Tais práticas articulam-se em processos continuados, requerendo arranjos efetivamente utilizados e empregando uma diversidade de materiais, muitas vezes substituídos na acumulação de tempos. Sua base operativa assenta-se no trabalho individual e familiar, e no emprego de profissionais em momentos específicos. Discutir a relação entre ação do Estado e ação da população, no que tange ao acesso à habitação pelas camadas populares, gera um campo analítico de relações paradoxais, na medida em que as diferentes práticas autoconstrutivas permitem combinar e criticar projetos presentes e futuros, aqui entendidos como formas de resistência e de apropriação da cidade. Em direção à análise teórica, isso implica necessidade de compreender a problemática da moradia como parte constitutiva da expropriação sofrida pelos segmentos populares, particularizada na cidade do Recife. Deste modo, interessa 22 apreender e analisar as práticas e as estratégias da população no atual quadro de aprofundamento das desigualdades sociais nos centros urbanos. E identificar os fatores sociais, políticos, econômicos e jurídicos, que estão relacionados ao acesso à habitação pelos segmentos de baixa renda. Desafios e lacunas emergiram no decurso do trabalho. A exigüidade de estudos, informações sobre a autoconstrução no ambiente construído do Recife, seja da perspectiva da estatística, seja de trabalho descritivo, ou ainda do ponto de vista arquitetônico, compuseram parte do cenário enfrentado durante a pesquisa. Essa exigüidade, particularmente, diz respeito à ação espontânea da população pobre desenvolvida na sua cotidianidade. Todavia, a questão apresenta-se, pode-se apressadamente dizer, nítida e expressivamente manifesta na formação do sítio recifense. Alguns indicativos apontam para esse fato, e estão relacionados: à ausência de políticas públicas sistemáticas e contínuas para atender os segmentos de baixa renda; ao quadro de pobreza de fração expressiva da população habitante deste território, em sua jornada histórica no aglomerado urbano; à ausência de inserção do segmento mais pobre, no interesse e nas relações de mercado, em face da impossibilidade de arcar com os custos advindos e as práticas diárias de produção da habitação, exercidas pela população. Interrogações suscitadas inicialmente impulsionaram as seguintes questões a serem desvendadas com a investigação: como o Estado, nos anos 1980-1990, trata, absorvendo ou rejeitando, as formas de acesso à habitação construídas pelas camadas populares? Como as camadas populares se apropriam das políticas de autoconstrução implementadas pelo Estado? Formulou-se como hipóteses de trabalho: a intensidade da autoconstrução no Recife, como mecanismo de acesso popular à habitação, explica-se pela forma dominante de produção de riqueza no Estado e na região; as organizações populares apóiam os programas públicos de autoconstrução, em decorrência da possibilidade de permanecer no espaço equipado da cidade e, assim, preservar redes sociais e conquistas políticas. No âmbito da pesquisa, foram definidos três objetivos gerais: favorecer a compreensão da questão urbana no Brasil a partir da perspectiva das camadas populares; contribuir para a análise da política de habitação do Estado na atual dinâmica democrática da sociedade brasileira; contribuir para a compreensão do acesso à habitação pelas camadas populares na sociedade brasileira. Foram estabelecidos como objetivos específicos: apreender as práticas da população de baixa renda, nos centros urbanos, para o acesso à habitação; apreender as formas organizativas específicas vinculadas ao processo 23 da autoconstrução de habitação, pelas camadas populares, no Recife; favorecer a atualização histórica dos fatores que contribuem para a apropriação, pelo Estado, das práticas de autoconstrução empreendidas pela população; analisar o fazer e o desfazer político da ação do Estado em seus vínculos, com a apropriação das práticas de autoconstrução da população. O caminho metodológico escolhido procurou ater-se às demandas da pesquisa no sentido de apropriar de modo mais expressivo as informações sobre a temática em estudo e os elementos que a circundam, aproximando-se, espera-se, do real desvendado. Para o desenvolvimento desta empreitada tomou-se como referência a orientação metodológica presente nos ensinamentos de Mills (1975, p. 11) sobre a imaginação sociológica, qualidade atribuída e necessária ao pesquisador. Alerta o autor “[...] que não é apenas de informação que precisamos [...]”, mesmo levando-se em consideração o empenho para obtê-la, mas, “O que precisamos, e o que sentem precisar é uma qualidade de espírito que lhes ajude a usar a informação e a desenvolver a razão, a fim de perceber, com lucidez, o que está ocorrendo no mundo e o que pode estar acontecendo dentro dele mesmo”. Nesse sentido, é esperado de profissionais e pesquisadores atributos que o autor denomina de “imaginação sociológica”, afirma Mills (op. cit., p. 11-12): A imaginação sociológica [...] capacita seu possuidor a compreender o cenário mais amplo, em termos de seu significado para a vida íntima e para a carreira exterior de numerosos indivíduos. [...] O fruto dessa imaginação – e a primeira lição da ciência social que a incorpora – é a idéia de que o indivíduo só pode compreender sua própria existência e avaliar seu próprio destino localizando-se dentro do seu período; só pode conhecer suas possibilidades na vida tornandose cônscio das possibilidades de todas as pessoas, nas mesmas circunstâncias. [...] A imaginação sociológica nos permite compreender a história e a biografia e as relações entre ambas, dentro da sociedade. Adentrar no campo analítico dos fenômenos e processo sociais gera desafios teórico-metodológicos e operacionais a serem superados. Apropriar-se e desenvolver a “imaginação sociológica” é de fundamental importância no processo investigativo. Com essa orientação, o objeto de pesquisa é tratado no seu tempo histórico e com base no quadro teórico definido. Na operacionalização da pesquisa, parte-se, como idéia central, das bases reais do acesso à habitação, empiricamente observáveis (LEFEBVRE, 2001), articuladas às diretrizes teóricas adotadas, buscando, dessa forma, realizar um duplo movimento analítico: do concreto ao abstrato e do abstrato ao concreto. 24 A orientação teórico-metodológica da investigação requer a compreensão dos processos da produção da habitação, das políticas habitacionais e da organização social. Para tanto, pela via do Estado, busca-se analisar as políticas e programas promotores ou indutores que reforçam a autoconstrução, no período em estudo, e entender como a autoconstrução financiada diferencia-se da forma praticada diretamente pela população, sem financiamento público. Isso implica entender as lutas por moradia, as práticas históricas e as estratégias adotadas de autoconstrução. A investigação do fenômeno do acesso à habitação inscreve-se na escala intraurbana, tendo como fonte privilegiada de observação o estudo empírico da autoconstrução de moradia. Conforme já mencionado, o período de estudo corresponde às décadas de 1980 a 1990, do século passado, no Recife, cidade núcleo da Região Metropolitana do Recife-RMR. A periodização definida tem como referências iniciais: a redemocratização do país, o avanço e refluxo dos movimentos sociais, a extinção do órgão central de formulação e financiamento das políticas de habitação – o Banco Nacional de Habitação-BNH, a crise fiscal do Estado, a ampliação da problemática habitacional, de modo mais intenso nos grandes centros urbanos brasileiros, o aprofundamento das desigualdades sociais, a precarização das condições de vida e de trabalho, em particular da população pobre. Esses elementos foram essenciais na constituição de subperiodizações internas, orientadoras da coleta de dados e da sistematização da análise, cujos recortes incidem sobre: um, para o caso da ação pública de habitação, a definição recai sobre os anos de 1987-19914, quando o governo de Pernambuco formulou e empreendeu a Política Habitacional que assegurou o financiamento para autoconstrução de moradia destinada à população de baixa renda; outro, para as iniciativas da população, recorta-se o período da primeira metade da década de 90, que já registra o arrefecimento das ocupações em terras urbanas, tão veloz e vigorosa na década antecedente, mas que persiste de modo contínuo por intermédio de ocupações de menor porte. Essas ocupações expandem-se e adensamse em áreas já consolidadas, desdobrando seus efeitos na prática de autoconstrução espontânea pelos moradores das terras ocupadas. A pesquisa de campo baseou-se no Cadastro dos Assentamentos Populares do Recife (PERNAMBUCO, 1990a), no Cadastro das Áreas Pobres do Recife (URB/RecifeFADE, 1998, 2001) e na Política de Habitação Popular do Estado de Pernambuco (PERNAMBUCO, 1990b), no período de 1987-1991. Informações essas utilizadas como 4Segunda gestão de Miguel Arraes de Alencar no governo do Estado de Pernambuco. 25 ponto de partida para a eleição das áreas focadas no estudo de caso. Com tais informações, procurou-se absorver e conjugar a diversidade de situações, como seja: áreas mais centrais da cidade e mais distantes; área localizada em morros, terreno plano e alagado ou alagáveis; iniciativas espontâneas da população e iniciativa induzida por projeto habitacional financiado pelo poder público, área consolidada em face das lutas travadas por intermédio de processos organizativos, e áreas que tiveram o processo de ocupações registrado nos anos oitenta e noventa. Buscou-se aprofundar o estudo tomando-se como base de análise duas experiências recortadas do universo empírico recifense. Dessa feita, dois estudos de caso apoiaram a aproximação com as diferentes estratégias populares utilizadas no acesso à moradia: o primeiro, em assentamento com habitação autoconstruída, através de política pública, envolve o caso da Vila Nova do Buriti5, localizada no bairro da Macaxeira, Zona Norte da cidade. Inserida em uma paisagem predominantemente de morro, intercalada com algumas porções planas, integra essa área o cinturão de áreas pobres, que recobre os morros ao derredor da planície recifense. Na ondulação do território, alguns espaços da planície original, outros definidos na seqüência de execução do Projeto. O processo de ocupação dessa porção do território deflagrado na madrugada do dia 15 de março de 1987, na efervescência do dia da posse do Governador Miguel Arraes de Alencar6, arregimentou cerca de 4.700 famílias. Tratava-se de um dos últimos grandes vazios existentes na malha urbana, uma propriedade de particulares, guarnecida por seguranças armados. A mobilização da população, que resultou na ocupação da terra, suscitou tensões, ameaças de expulsão e a intermediação do Estado no conflito entre proprietários e população envolvida. Após sucessivas negociações, o Estado desenvolveu no território ocupado o Programa de Autoconstrução de Moradias, absorvendo parte dos ocupantes da terra, que foram atendidos de acordo com os critérios de acesso definidos paritariamente entre população e Estado. 5A localidade Vila Nova do Buriti, neste trabalho, diz respeito à área do Projeto Buriti, também conhecida como Novo Buriti, ou ainda, Buriti, com 54.05ha, realizado pela Companhia de Habitação do Estado de PernambucoCOHAB-PE e recursos da Caixa Econômica Federal-CEF. O Projeto Autoconstrução/Melhoria Habitacional aí implementado integrava o Programa Chão e Teto, como componente da Política Habitacional do Estado de Pernambuco, destinado a famílias de 0 a 03 salários mínimos, para a gestão 1987-1991, à frente do governo de Pernambuco Miguel Arraes de Alencar. Ainda fazia parte do Programa citado, os seguintes Projetos: Mutirão, Lotes Urbanizados, Aterro, Periferias Urbanas, Equipamentos Comunitários, Legalização da Terra e Inquilino. A obra de infra-estrutura foi executada pela Construtora Norberto Odebrecht, acompanhada e fiscalizada pela COHAB e supervisionada pela CEF, a quem competia o repasse de recursos. 6Miguel Arraes de Alencar (1987-1990) havia sido eleito para governador do Estado de Pernambuco. O mandato do governante, que deveria ser concluído em 1991, foi interrompido em face da candidatura do gestor a Deputado Federal, pelo Estado de Pernambuco. 26 Para o estudo sobre a autoconstrução por iniciativa própria ou espontânea, selecionou-se o assentamento denominado Ayrton Senna, duas porções separadas pelo histórico Casarão do Barbalho, no bairro da Iputinga, localizado na planície, várzea do rio Capibaribe à margem direita e susceptível a alagamento. É uma área pública destinada à instalação do Parque do Barbalho, sem qualquer tipo de vigilância ou controle aparente. Posteriormente, foi transformada em área de preservação rigorosa7, segundo a legislação em vigor. Sua ocupação data do dia 5 de agosto de 1994, durante a 2ª gestão do Prefeito Jarbas de Andrade Vasconcelos (1993-1996), por aproximadamente 800 famílias. Nesse caso, durante a ocupação e nos dias seguintes até a permanência da população no espaço ocupado, o embate aconteceu com o poder público municipal, responsável por aquela parcela do território citadino. Derrubadas e reconstruções dos embriões das unidades habitacionais constituíram a linha demarcatória de um diálogo assinalado por exaustivas tensões, ferrenhas negociações, mas que resultou, até agora, na consolidação do assentamento. A autoconstrução das moradias contou com ação, recursos, práticas, estratégias e táticas advindas dos novos moradores do lugar. Os estudos dos casos de habitações autoconstruída, eleitos para o trabalho de campo, contemplou o levantamento da história social do lugar e da luta por habitação, a propriedade do solo, os processo construtivos adotados, as alternativas de articulação com o Estado, a permanência no espaço ocupado e a existência de tentativas de expulsão. Integraram a pesquisa informações sobre as áreas de estudo, existentes em acervos de técnicos, gestores, moradores e registros catalogados de órgãos públicos. Fotos da cidade e das áreas em estudo, em diferentes períodos da sua constituição, permitem uma leitura visual e comparativa do andar da história do lugar e servem como complemento aos demais recursos utilizados. Também foram utilizados recursos cartográficos para a localização das áreas alvo da pesquisa, leitura da expansão urbana do Recife, análise da disposição e localização das áreas pobres, o que, aliás, apontou para o translado urbano, no correr dos anos, de algumas dessas áreas e de sua população. Essa visualização do espaço da cidade enseja um olhar concentrado nas moradias autoconstruídas e em sua diversidade. 7De acordo com a Lei nº 16.176/96, de 09/04/96 de Uso e Ocupação do Solo da cidade do Recife atualizada com alterações introduzidas pela Lei nº 16.189 de 29/01/97. O Artigo 14 estabelece como “[...] Zona Especial do Patrimônio Histórico-Cultural-ZEPH, as áreas formadas por sítios, ruínas e conjuntos de relevante expressão arquitetônica, histórica, cultural e paisagística, cuja manutenção seja necessária à preservação do patrimônio histórico-cultural do Município”. A ocupação está assentada na ZEPH – 15, onde está erguido o histórico Casarão do Barbalho. O Anexo II, letra B, define: “Não serão permitidas modificações no parcelamento do solo, inclusive remembramento e desmembramento, podendo haver interligação entre os imóveis, desde que não interfira na volumetria dos mesmos”. 27 Uma leitura da ação pública de habitação nas esferas federal, estadual e municipal, assim como consultas a fontes secundárias: dados de fontes oficiais e de órgãos responsáveis pela Política de Habitação Popular no Recife compuseram a investigação; e inseridas fontes primárias, documentos/relatórios técnicos de instituições públicas e entidades das áreas contempladas com o trabalho de campo. Com as duas áreas contempladas com o estudo de caso, intentou-se aprofundar o conhecimento da realidade tomada como unidade. De “[...] natureza qualitativa na coleta e no tratamento dos dados [...]”, o estudo de caso reúne um conjunto de informações que repousa na possibilidade de “[...] apreender a totalidade de uma situação [...]” (BRUYNE at al., 1977, p. 225). Daí arvorar-se na investigação, absorver instrumentos variados de coleta, entre eles a documentação, a observação livre, as conversas informais e depoimentos, tendo, no entanto, como principal recurso a entrevista semi-estruturada “[...] aplicada a partir de um pequeno número de perguntas abertas [...]”, (THIOLLENT8, 1982, p. 35), em face dos elementos possíveis de serem recolhidos a partir da narrativa e interpretação dos acontecimentos e as práticas dos informantes. Assentou-se a captura das informações de campo, prioritariamente, em entrevista semi-estruturada baseada em roteiro formulado com perguntas abertas, flexíveis para apoiar o relato espontâneo do depoente, acrescentando-se outras indagações suscitadas no desdobramento da fala, mas pautadas no núcleo principal, nos eixos da pesquisa colocados pelo investigador, como um vento norte voltado para mirar os objetivos da investigação e a clarificação do objeto. Assim, as entrevistas semiestruturadas deram sustentação à apreensão analítica das informações levantadas. Junto à população, priorizou-se a captura das estratégias de ocupação do solo e/ou de sua aquisição, a construção da moradia, as pessoas envolvidas na construção, o tempo de construção, as formas de aquisição do material – financiado pelo Estado ou assumido diretamente pela família. Serviram as entrevistas ainda como ferramentas para provimento de dados obtidos com os gestores, formuladores de política habitacional, técnicos 8Thiollent (1982, p. 35) distingue vários tipos de entrevistas: a) A entrevista dirigida ou padronizada, que consiste em aplicação de um questionário predeterminado, com uma maioria de perguntas fechadas e sem nenhum papel ativo do entrevistador. b) A entrevista semi-estruturada, aplicada a partir de um pequeno número de perguntas abertas. c) A entrevista centrada (focused interview), na qual, dentro de hipóteses e de certos temas, o entrevistador deixa o entrevistado descrever livremente sua experiência pessoal a respeito do assunto investigado. d) A entrevista nãodiretiva, ou entrevista aprofundada, na qual a conversação é iniciada a partir de um tema geral sem estruturação do problema por parte do investigador. e) A entrevista clínica, eventualmente conduzida de maneira não-diretiva, cuja especificidade está na sua orientação em função do objeto de interpretação sociopsicológica da situação ou da personagem dos sujeitos através de suas verbalizações. 28 executores dos programas, no que tange à ação e reação pública, na relação entre Estado e sociedade, à operação da política. Tornou-se basilar para a definição dos entrevistados, nos estudos de caso, as peculiaridades concernentes a cada realidade. Essa perspectiva traduziu-se para o Buriti, na escuta9 de quatro gestores públicos, dirigentes e formuladores de política, sendo: o Secretário de Habitação10 do Estado de Pernambuco-SEHAB, a Diretora de Planejamento da SEHAB, a Presidente da Companhia de Habitação Popular do Estado de Pernambuco-COHAB e o Diretor de Programas Especiais, além de dois técnicos responsáveis pela execução do Projeto Buriti, uma engenheira e uma assistente social. Na localidade em estudo, as entrevistas aplicadas de acordo com a disponibilidade das pessoas foram assim distribuídas: sete entrevistas aos integrantes11 da Comissão de Ocupação12, e também moradores; a escuta de doze moradores13 da localidade, ainda, ouvindo-se dois presidentes de Associação de Moradores local sendo, com um, a entrevista, e com outro, realizada uma conversa informal. As entrevistas aplicadas no Buriti aconteceram entre setembro 2004 e março de 2005. Para a eleição dos entrevistados, definidos por grupo, bem como a estruturação do conteúdo das entrevistas, foram consideradas as atribuições e o papel desempenhado pelos possíveis entrevistados por ocasião do Projeto Buriti. Assim, para o grupo de gestores público/dirigentes/formulador de política, priorizou-se, além da identificação comum a todos os entrevistados, quatro eixos de abordagem: a relação entre o Estado e a população; a formulação/definição da Política Habitacional para baixa renda; a Política Habitacional, os Programas e a autoconstrução; a operacionalização da Política Habitacional para baixa renda e a autoconstrução. Para as entrevistas com os técnicos responsáveis pela execução do Projeto, foram definidas quatro linhas de escuta: a relação entre o Estado e a população, particularizando a Companhia de Habitação, executora das ações; o Projeto e a sistemática de operação; a articulação e a ação entre técnicos, a 9Além das entrevistas, foram realizadas conversas informais com um gerente da DPE, responsável pelo acompanhamento e o controle das ocupações urbanas, um assessor da Secretaria de Habitação do Estado de Pernambuco-SEHAB e o Gerente do BMC; conversas com diferentes moradores do Buriti. 10A SEHAB, com a reforma institucional realizada pelo governo do Estado, em 1987, foi incorporada à Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano de Pernambuco-SEHDUR. 11Um componente da Comissão de Ocupação, o coordenador geral, exercia, na época da ocupação, o cargo de Vicepresidente da União de Moradores do Buriti, e um outro, é Presidente da Associação de moradores do Alto de Antonio Félix, área integrante do Projeto. 12A Comissão de Ocupação foi organizada por ocasião da ocupação da terra, atuando desde então, intensamente, até a finalização do Projeto. No entanto, durante o período de execução do Projeto alguns integrantes afastaram-se voluntariamente, sem que tenha havido declínio da ação desse grupo. 13A escolha dos entrevistados do grupo definido como moradores recaiu sobre aqueles que participaram da ocupação e permanecem habitando o lugar. Nesse caso, foram excluídos moradores de imóveis repassados, alugados, cedidos e ocupantes de moradias que decorreram de novos processos de ocupação na área de abrangência do projeto. 29 Comissão de Ocupação e a população; a autoconstrução da moradia – a regra, a prática, o processo de autoconstrução e o acompanhamento. Para as entrevistas com a Comissão de Ocupação, foram delineados seis pontos: a ocupação da terra, articulação, mobilização e organização da população; a relação população e Estado, as negociações e os embates; a Política Habitacional, os Programas para a baixa renda e a participação da população na sua formulação; a proposta e a definição da moradia autoconstruída; os ocupantes da terra e a seleção para acesso ao lote; o processo da autoconstrução da moradia – a prática, os avanços e as dificuldades. O grupo de moradores foi indagado em relação a seis linhas: a ocupação da terra, as formas de mobilização, articulação, organização e os embates; a relação entre a população e o Estado; a Política Habitacional e Programas para a baixa renda e a participação da população na sua formulação; a definição do acesso à terra e à moradia; a proposta e a definição da moradia autoconstruída; a moradia autoconstruída – prática, estratégias, pessoas envolvidas. Na localidade de Ayrton Senna, considerou-se na investigação da autoconstrução a diversidade e as particularidades atinentes a essa área. A autoconstrução aqui é por iniciativa própria ou espontânea. O conjunto dos entrevistados foi definido a partir de informações previamente obtidas, sendo assim constituído: a presidente da Associação de Moradores e membro da Comissão de Comando da Ocupação; três membros da Comissão de Comando da Ocupação; um representante da área, no Orçamento Participativo; dezessete moradores14 do lugar, desde a ocupação. Para a presidente da Associação de Moradores e os componentes da Comissão de Comando da Ocupação, estruturaram-se quatro tópicos de orientação da entrevista: o processo de ocupação da terra e divisão do espaço; a mobilização, organização e articulação da população; a relação entre a população e o poder público municipal; embates, lutas e negociações; o processo de autoconstrução de moradias, estratégias e práticas de autoconstrução adotadas. Para os moradores, os eixos de indagação foram cinco: o processo de ocupação da terra e a divisão do espaço; a mobilização, organização e articulação da população; relação entre a população e o poder público municipal e as formas de enfrentamento adotadas; o processo de autoconstrução de moradias, estratégias, práticas, recursos utilizados na autoconstrução; expectativas, avanços e 14Nessa situação, foram excluídos os moradores que compraram a casa após a ocupação, as casas alugadas, cedidas, fechadas e aquelas derrubadas ou queimadas. Nos últimos três casos, os antigos moradores haviam deixado o lugar ou sido expulsos em face das “disputas” internas, por razões, em regra, não especificadas pelos moradores entrevistados ou por aqueles com os quais se teve a ocasião de manter conversas informais. 30 dificuldades enfrentados na autoconstrução da moradia. Em Ayrton Senna, as entrevistas foram realizadas entre maio e junho de 2005. As conversas informais e os depoimentos atuaram como elementos complementares e de essencial relevância ao entendimento do objeto de estudo, na medida em que propiciaram maior consistência aos dados coletados. Moradores das áreas de estudo, técnicos, gestores vinculados ao campo de estudo foram ouvidos. Ademais, as entrevistas subsidiaram a recuperação de informações retidas na memória das pessoas, e favoreceram o esclarecimento sobre pontos divergentes da história do lugar. Recorreu-se à literatura e à poesia como pano de fundo, no resgatar de imagens e elementos formadores da história da habitação pobre, no Recife, deixando, assim, perpassar a noção de pobreza e as matizes sobre desigualdade social constituintes da expansão urbana recifense. Nesse sentido, romances de época foram folheados, narrativas de viajantes, histórias sobre a cidade e publicações diversas, extraindo-se daí passagens vinculadas ao olhar sobre a moradia da população pobre e as interfaces com a moradia autoconstruída. Com os dados disponíveis, enfrentou-se o desafio de agrupá-los, organizá-los, classificá-los e analisá-los no movimento entre empiria e base teórica, de modo a apreender da realidade a sua feição mais próxima. Sendo as narrativas apreendidas com as entrevistas, e examinadas com suporte na análise de conteúdo, no sentido de “[...] compreender melhor o discurso, de aprofundar suas características [...] e extrair os momentos mais importantes [...]” (RICHARDSON, at. al., 1999, p. 224), para adentrar nas diferentes nuanças que envolvem o objeto de estudo. As observações e anotações de campo complementam o eixo das informações qualitativas Dessa maneira, este estudo encontra-se dividido em cinco capítulos como visto a seguir. No Capítulo 1, O Recife: cidade e moradia, percorre-se o processo de urbanização desse núcleo. Trata-se ali de traçar em linhas gerais uma leitura que se inicia no final do século XIX e vai até os anos setenta anos do século seguinte, atendo-se, prioritariamente, aos aspectos determinantes e condicionantes que forjaram o lugar da habitação da população pobre. O espaço ocupado pelos pobres e o deslocamento interno desse segmento social são examinados, no pulsar do crescimento da cidade, de forma atenta aos efeitos da ação do poder público e do setor privado, atores privilegiados da constituição do urbano recifense. Todavia, as lutas e resistências na ocupação do 31 território, no acesso à habitação e à cidade constituem o contraponto entre os diferentes atores presentes. Pobreza, habitação, territorialidades compõem o Capítulo 2 e modelam o exame da problemática habitacional recifense, perpassando as raízes da desigualdade e da exclusão social. Na concepção de Milton Santos (2001, 2004), há o território usado, o território praticado pelos pobres na formação urbana conformando territorialidades. Velhos e novos discursos e práticas sobre a autoconstrução, aqui abordados, permeiam as raízes da política pública ensejando debates e fomentando o desencadear de políticas, programas e ações, seguindo-se a sua retração. O Capítulo 3 intitulado A Cidade do Recife: a habitação de baixa renda nas décadas de 1980 e 1990, a partir da esfera estadual e municipal versa sobre as decisões, ações e interlocuções que percorrem do plano nacional ao estadual e aquelas construídas no âmbito municipal. Atém-se, de modo particular, à periodização definida para esta tese. O contexto social, político e econômico influenciou e instigou respostas públicas às demandas populares, muito embora de forma restrita em face das necessidades existentes. A efervescência da pressão popular, no Recife, conforma o cenário impulsionador da visibilidade, alicerçada por diversos atores da política habitacional. Efetiva-se pelos segmentos populares uma apropriação ou um confronto com as ações propostas e a política habitacional? A autoconstrução indica inovação ou estratégia popular apropriada? Os Capítulos 4 e 5 deste trabalho são reservados aos estudos de caso. O Capítulo 4 encerra a abordagem sobre a Vila Nova do Buriti, área de autoconstrução resultante da ação pública, e o Capítulo 5 acolhe a discussão sobre Ayrton Senna, área de autoconstrução realizada por iniciativa própria ou espontânea. Esses estudos, selecionados intencionalmente pelas características que os diferenciavam, são captados e examinados em suas peculiaridades com a lente da análise centrada na autoconstrução desenvolvida em cada uma delas, mas observando-se uma perspectiva totalizante para cada uma em particular. Os elementos da pesquisa de campo, são intercalados com achados extraídos das entrevistas, que confirmam ou, negam o já conhecido e, ainda, incorporam outros elementos como suporte ao aprofundamento do tema. Visto desse ângulo, o Capítulo 4, A Autoconstrução Financiada: o caso da vila Nova do Buriti inicia pela origem e ocupação da terra no sentido de expor fios articuladores dos retalhos do território na passagem do tempo, indicativos dos limites enfrentados pelos pobres citadinos para ter o chão de habitação. As estratégias de ocupação da terra, inseridas nas peculiaridades do contexto político e socioeconômico, e 32 associadas à luta por moradia, formam o campo de confrontos. Adiciona-se esse momento à relação estabelecida entre o Estado e a população, uma relação marcada por idas e vindas que permearam as negociações entre as partes e transbordam nos limites da ação. A escuta aos gestores, formuladores de política, técnicos e representantes de entidades organizativas lastreia o campo de debate, estruturado no movimento entre as concepções teóricas e a reflexão dos entrevistados. As falas da população foram exploradas, no que tange à interpretação dada ao processo da autoconstrução, entendido como conquista, ou como outorga, ou mesmo como aprisionamento das oportunidades. O tempo da autoconstrução aqui discutido ilustra a intrínseca relação entre os desdobramentos da construção da moradia e os acontecimentos vividos pela população. O Capítulo 5, A Autoconstrução por Iniciativa Própria: o caso Ayrton Senna parte de uma configuração da fisionomia do lugar resgatando-se os elementos que compõem as singularidades presentes na ocupação urbana daquele quinhão do espaço recifense, delineadas no transcurso da história da cidade. A instalação da população pobre em terra pública provocou um “grande combate15”, entre os seus ocupantes e o Governo Municipal guardião da terra. Esse combate ativou uma relação entre o Estado e a população assinalada por impasses, negociações, vigorosa pressão, idas e vindas num contexto sociopolítico, de certa forma favorável, mas registrando derrubadas e reconstrução dos ensaios das primeiras moradias. O fazer da casa: a moradia autoconstrução desvela um processo alongado, uma diversidade e multiplicidade de material construtivo empregado, um agir da população no limite dos recursos escassos disponíveis, um fazer e refazer contínuo imposto pela penúria da habitação, que provoca um desperdício desses mesmos recursos já tão escassos. Formas diversas de moradia se assentam no tempo, tempo dos acontecimentos e dos eventos integrantes da vida dessa parcela da população. A busca dos moradores do lugar para ter acesso à terra de habitação, à habitação e à cidade apresenta-se incansável, cotidianamente vivida. Faz-se por caminhos feitos de lutas, tensões e resistências que se contrapõem a idéias de passividade que emergem, por vezes, no imaginário coletivo. O caminho da moradia autoconstruída e o tempo de autoconstrução estão assentados nas ações do homem pobre e na sua concepção de tempo, aqui investigadas. 15Expressão extraída das entrevistas realizadas com moradores de Ayrton Senna. 33 Além dessa ferrenha luta, os habitantes de Ayrton Senna enfrentam uma outra, mais interna, muito embora suas raízes estejam fixadas fora das fronteiras do lugar, e apresenta-se profundamente dolorida e ameaçadora: a violência urbana. Suas referências emergem nos depoimentos dos entrevistados por vezes cifradas, em outras explícitas, mas sobretudo vinculadas a uma incerteza, insegurança e medo. A investigação sobre a autoconstrução de moradia na cidade do Recife, e mais particularmente nas duas áreas selecionadas para o estudo de caso, expõe lacunas sobre a temática, como flancos de guerra, o que, aliás, dá relevância ao estudo por ensejar múltiplos campos de pesquisa, novas indagações e incessante busca de respostas, na contínua produção do conhecimento. Há a expectativa da autora de que o resultado gerado com a pesquisa possibilite interlocução com os segmentos sociais organizados e partícipes da luta por moradia, constituindo-se em subsídio à ação das instituições responsáveis pela formulação e operação das políticas públicas habitacionais. CAPÍTULO 1 RECIFE: CIDADE E MORADIA Visitada a partir de diferentes lentes, a cidade do Recife1 reúne uma bibliografia expressiva, ora nascida do sabor literário, ora da curiosidade científica, ou ainda dos interesses técnico-administrativos e políticos. A vasta bibliografia existente permite, igualmente, desnudar a diversidade de caminhos em aberto, fontes inexploradas, ensejando o desejo de desvendá-las. Assentada em uma história tão marcadamente contrastante, o Recife concede, pois, a possibilidade de ser captada de novas e diferentes perspectivas reafirmandose, por essa ótica, que a produção do conhecimento revigora-se a cada passo no árduo trabalho de enchimento de fendas e do suscitar espaço a futuras descobertas. Neste capítulo, busca-se ressaltar fatores ITAPISSUMA Jag ua rib e ITAMARACÁ ARAÇOIABA determinantes e condicionantes que marcaram a formação IGARASSU BR-101 Forte Orange social do Recife e tornaram-se expressivos no processo de Janga Casa Ca iada BR-4 08 SÃO LOURENÇO DA MATA concorreram para planear o acesso à habitação por Po rto d o Rec ife BR-232 JABOATÃO DOS GUARARAPES Ba rra d e Janga das OCEA NO CABO DE STO. AGOSTINHO delineando, também, os meandros do acesso à cidade. -1 BR 01 Ga ibu Cab o de Sto. Agostinho Recorta-se o espaço temporal, situado entre a segunda Po rto d e Sua p e PE -6 0 IPOJUCA Porto de Ga linhas transformações econômicas e sociais, e de crescimento ATLÂN TIC O Bo a Viagem MORENO segmentos mais pobres, ocupantes do território citadino, metade do século XIX, período assinalado por grandes Pau Ama relo PAULISTA CAMARAGIBE expansão urbana, visando evidenciar os fios condutores, que intermédio da autoconstrução de moradia, alavancada pelos Maria Farinha ABREU E LIMA 0 Esc ala 4 8 12km Serrambi fonte: Alheiros (1998) acentuado do núcleo urbano, estendendo-se o intervalo, para 1Diz Mapa 01: RMR -Localização do Recife Fonte: URB-Recife. Mello, José Antônio Gonçalves de: “Ensinaram os filólogos que a palavra arrecife é a forma antiga do vocábulo recife e que ambas procedem do árabe, arraçif, que significa calçada, caminho pavimentado, linha de escolhos, dique, paredão, muralha, cais, molhe. No antigo castelhano arrecife tinha o sentido de caminho, banco ou baixio mar. [...] Porque se originou de um acidente geográfico – o recife ou o arrecife – a designação do Recife não prescinde do artigo definido masculino: O Recife e nunca Recife. Por isso no Recife, do Recife, para o Recife e não em Recife, de Recife, para Recife” (apud RESENDE, 2002, p. 20-21). 35 efeito de abordagem, aos anos setenta do século XX, correspondente a uma fase de crescimento acelerado e de significativas mudanças no arcabouço da cidade. Os diferentes elementos levantados sobressaem como quadro de fundo expressivo para a compreensão mais alargada do objeto de estudo. 1.1 RECIFE: A CIDADE EM EXPANSÃO As múltiplas faces do Recife, ou as várias cidades nela contida estão espelhadas no processo de expansão urbana traçado no tempo dos acontecimentos vividos nesse território. Raízes foram fincadas, lembranças guardadas e demarcadas pelas relações econômicas, sociais, políticas, jurídicas que, no curso da história se manifestaram e arraigaram-se na cidade. Outras tantas se ocultaram, ou mesmo foram suprimidas lentamente, pelo avanço e crescimento urbano, convertendo-se em traços quase indivisíveis. Recife, nas últimas décadas do século XIX, sinalizava um crescimento urbano que guardava relação com a dinâmica da atividade primária realizada na sua hinterlândia, que tinha por derradeira ligação as determinações do mercado mundial. Era esse aglomerado um grande núcleo portuário polarizador na região Nordeste brasileira e atuava como centro comercial de produtos agrícolas. A expansão urbana da cidade apresentava peculiaridades conferidas pela atividade açucareira e algodoeira, como produtos de ponta, situada em duas direções: na organização do espaço e nas relações de trabalho. Dados2 referentes ao século XIX e aos anos iniciais do século seguinte indicam, de acordo com o Recenseamento do Recife (Recenseamento do Recife, 1913, p. 44 e 71-75, apud LUBAMBO, 1991, p. 52), que nesse núcleo urbano habitavam em 1822 (25.578mil), em 1843 (66.280mil), 1872 (92.052mil), em 1890 (122.026mil), e 1913 (218.255mil) pessoas. O Recife tem nesse período, um crescimento acentuado como designa Melo (1978, p. 115), em comparação ao crescimento registrado nos séculos anteriores. 2Ver, ainda, sobre dados referentes ao período: MELO, 1978; PERRUCI, 1978; SINGER, 1977. 36 As expressivas mudanças3 que aconteceram no século XIX, associadas ao movimento do sistema capitalista mundial têm fortes repercussões econômicas na realidade brasileira e rebatem sobre Pernambuco e o Recife4. A reconfiguração do mercado mundial do açúcar, em meado do século, força o reaparelhamento do processo produtivo açucareiro brasileiro, no sentido de lhe conferir mecanismos competitivos. Ocorre uma modernização tecnológica alinhada à instalação de uma infra-estrutura de transporte e, ao lado disso, a melhoria dos serviços portuários. Efetiva-se, a um só tempo, importantes transformações sociais. A dinâmica da economia açucareira defronta-se com fases de estagnação5 e de impulso. A ascensão6 desse produto no século XIX7 será acompanhada de uma conjuntura 3“[...] a nova organização capitalista ocidental, baseada sobre o capital industrial e financeiro, redistribui praticamente as funções econômicas internacionais, ou, em outros termos, o final do século XIX assiste a uma redefinição na divisão internacional do trabalho. A economia brasileira, na época, é complementar e dependente dos mercados internacionais compradores de matérias-primas, a Inglaterra em primeiro lugar. O Brasil é, pois, levado a se adaptar a esse novo equilíbrio internacional; e, como resultado de sua especialização, ele se torna um dos maiores produtores de matériaprima e de produtos tropicais do mundo” (PERRUCI, 1978, p. 26). 4Examinando-se a formação urbana do Recife, observa-se, conforme elucida Bernardes (1996, p. 28), que “[...] a história da cidade, aqui mais do que noutros espaços urbanos, é condicionada também pela retaguarda rural e pela sua função portuária”. O forte papel exercido pela agricultura canavieira, associado “[...] a infra-estrutura necessária às atividades de importação e exportação” atuaram como os “principais determinantes” da sua constituição e expansão. Outrossim, a cidade do Recife nasceu e desenvolveu-se, assentada nas relações com o capital comercial, papel assegurado por sua posição de porto importador e exportador, integrada à dimensão mais ampla do desenvolvimento capitalista na criação do um mercado mundial, nacional ou regional. Resende (2002, p. 22) estudando a história da cidade, desde os tempos iniciais da colonização, escreve: “O Recife aparece olhando para o mar, mas vizinha dos canaviais”. Indicativo da sua posição geográfica, mas, sobretudo indicativo da relação entre a atividade canavieira desenvolvida no seu interior alargada ao espaço regional e a sua vinculação a demanda externa. Essa agricultura estava submetida às oscilações dessa demanda, às inovações tecnológicas e a fatores de outra ordem e, nesse caso, viveria momentos de crise e de esplendor. 5O Brasil detinha quase o monopólio no mercado mundial do açúcar, até meados do século XVII, quando entra em relativo declínio que se explica pela concorrência antilhana, atingindo em particular a economia nordestina. Pernambuco participava com aproximadamente um terço da produção nacional (MELO, 1982, p. 197). Ver SINGER, Paul. Desenvolvimento Econômico e evolução urbana. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977. Capítulo 6. Recife, p. 271-377; SIMONSEN, Roberto. História Econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957. Esse mercado volta a se recuperar entre o final do século XVIII e princípio do século XIX, favorecido pelo mercado internacional. 6Contribuíram para a recomposição da produção açucareira fatores políticos e comerciais de âmbito mundial; e aqueles registrados na colônia como as minas de ouro no centro e oeste do Brasil. Sobre o período mencionado ver, entre outros: ANDRADE, Manuel Correia de. A terra e o homem no Nordeste. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1980; PRADO JÚNIOR, Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988. SINGER, Paul. Desenvolvimento econômico e evolução urbana. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977. Capítulo 6. Recife. p. 271-377; LEVINE, Robert M. A velha usina: Pernambuco na Federação brasileira 1889-1937. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980: PERRUCI, Gadiel. A república das usinas: um estudo da história social e econômica do Nordeste – 1889-1930. Editora Paz e Terra, 1978. 7Enfrentou nesse momento a exacerbação na disputa do mercado mundial do açúcar, envolvendo o produto cubano, com franco investimento dos Estados Unidos, além da inserção na Europa do açúcar de beterraba. A melhoria do processo industrial tornou-se imperativo, nesse contexto, como alternativa para que o Brasil e Pernambuco mantivessem sua posição no mercado mundial. Mais informações sobre a modernização tecnológica do processo produtivo açucareiro, ver: EISENBERG, Peter Louis. Modernização sem mudança: a indústria açucareira em Pernambuco. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. 37 bem diversa daquela que sustentou seu apogeu no século XVII. A nova conjuntura requereu um conjunto de investimentos, como mencionados acima, em meados do século XIX, resultando no reaparelhamento do processo produtivo do açúcar. Para Singer (1977, p. 289), as inovações tecnológicas incorporadas foram de tal envergadura que propiciaram: Indubitavelmente as transformações que se registram na produção açucareira pernambucana equivalem a uma Revolução Industrial: os métodos artesanais são substituídos pela tecnologia industrial tendo em vista a produção em massa. É deste modo que se explica que Pernambuco tenha podido quintuplicar sua exportação de açúcar [...]. Sobrevém, em simultaneidade, às iniciativas à modernização do processo produtivo açucareiro8, um surto algodoeiro9 nos anos sessenta do século XIX, que eleva acentuadamente o preço do algodão no mercado externo e atrai interesses para o seu cultivo, dificulta e torna lenta a incorporação e disseminação de tecnologias mais avançadas e de novas formas de produção do açúcar, já em curso. Tais iniciativas serão recompostas nas últimas duas décadas daquele século com o projeto dos Engenhos Centrais. Significativas mudanças foram registradas com o impulso algodoeiro do final do século XVIII, recorrendo-se novamente a Singer (1977, p. 281) quando diz que essa fibra “[...] representa o término de uma situação que perdura por mais de duzentos anos, que se caracterizava pela dependência de toda uma vida comercial e econômica do Recife em relação a um único produto: o açúcar”. Encerrava-se o reinado absoluto da cana, de vez que a sua monocultura sujeitara a cidade portuária às variações de um só mercado. Nesse período, 8 Na história econômica do Nordeste, nos séculos XVIII e XIX, observa-se a alternância entre a cana-de-açúcar e o algodão que ao estarem subordinados às determinações do mercado mundial enfrentam as solicitações desse mercado e as oscilações de preço (ANDRADE, 1980, p. 70). É o algodão que no último quartel do século XVIII assume a primazia na relação com o comércio exportador, portanto, a estagnação parcial da produção açucareira não verga o desempenho dessa relação, em outras palavras, ela é mantida. No entanto, a diferença dar-se-á por ser o algodão quem toma a dianteira. 9Na análise de Andrade (1980), a cultura algodoeira, que passou por uma fase de estagnação no decorrer do século XVII e primeira metade do século XVIII, esteve presente no Nordeste brasileiro, em Pernambuco e no Recife, desde a fase inicial da colonização. Na segunda metade do século XVIII, desenvolveu-se em face do fabrico de tecido de baixo padrão destinado a vestimentas para a população escrava e com o aumento da população serviu, também, ao uso dos segmentos mais pobres; seu maior impulso, no entanto, foi favorecido pela guerra da Independência Americana (17761783) quando o Brasil assume o lugar dos Estados Unidos no fornecimento de algodão para a Inglaterra. Com a Revolução Industrial, acelerada pela invenção da máquina a vapor no último quartel deste século, intensifica-se o uso do algodão na indústria têxtil inglesa, amplia-se a demanda pela matéria-prima produzida no Brasil, em especial no Maranhão e em Pernambuco, tornando-se Recife o segundo porto exportador de algodão. Esse movimento eleva, na última década do século XVIII, a mais de 70% a exportação do algodão confrontada a do açúcar (SINGER, 1977, p. 282). 38 conforme elucida Andrade (1980) e destaca Singer (1977), a exportação do algodão concorreu para estender a área antes cultivada com a cana-de-açúcar10, e ao transgredir os limites utilizados como área de plantio, esticou o povoamento mais para o interior, ocupou quinhões da Zona da Mata11, atingiu terras menos úmidas do Agreste ampliando a hinterlândia12 do Recife. Recuava quando a demanda pelo produto esmaecia, gerando um novo movimento de liberação da terra para o avanço do império da cana-de-açúcar. Ademais, a agricultura algodoeira viabilizou a aquisição de renda monetária a pequenos e médios lavradores, sendo adotada por ricos senhores de engenhos e pobres agricultores e, em sendo, como vaticina Andrade (op. cit., p. 86), uma “cultura democrática”, permitia o desenvolvimento de culturas intercalares13 melhorando as condições de abastecimento do Recife. E, mais uma vez, utilizando-se das palavras de Andrade (op. cit., p. 132), ao atestar que o “[...] algodão operou, após meados do século XVIII, uma verdadeira revolução agrária [...]”. Fortalecia-se a penetração de produtos importados decorrente da expansão da nova renda monetária que ativava e reforçava a função comercial desempenhada pelo núcleo portuário e, analogamente, concorre para o crescimento urbano do Recife. Diversificava-se e crescia o mercado exportador fazendo transpor a parcial paralisia do núcleo urbano entre a metade dos anos seiscentos e o limiar dos anos oitocentos. Ocupa o Recife14, nas duas primeiras décadas dos anos oitocentos, o terceiro lugar em importância entre as cidades portuárias do Brasil, precedida do Rio de Janeiro e Salvador e sucedida por São Luiz. Contudo, o algodão15 apresentou tendência ao declínio, a 10O cultivo da cana-de-açúcar restringia-se à faixa úmida próximo ao litoral, na área conhecida como Zona da Mata. algodão era plantado na Zona da Mata ao lado da cana-de-açúcar, elasteceu-se às áreas menos úmidas do Agreste, e já havia adentrado o Sertão onde convivia com a criação de gado. Ver sobre o assunto ANDRADE, 1980; MELO, 1978. 12Cabe registrar que o Recife contava com um território bem mais extenso, pois foram desmembrados deste pedaço, no século XIX, os municípios de Vitória, Bonito e Rio Formoso, em 1833; Cabo em 1840 e Jaboatão em 1873. Sobre o assunto ver: MELO, Mário. Genealogia Municipal de Pernambuco. In: Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, v. XXXII, n. 151-154, 1932 apud SINGER, 1977, p. 302. 13O plantio do algodão podia ser associado, por exemplo, à fava, à mandioca, ao feijão, ao milho, ou seja, à agricultura de subsistência, mas destinado igualmente ao abastecimento urbano (ANDRADE, 1980, p. 86), tinha um ciclo vegetativo curto e, no período referenciado, quase não utilizava o braço escravo. A associação entre a lavoura comercial e as culturas alimentares permitem a Singer (1977, p. 283) a aduzir, supostamente que, essa convivência pode ter favorecido o abastecimento do Recife em face dos limites enfrentados, por esse núcleo, dado ao caráter exclusivista da cana-deaçúcar. Andrade (1980, p. 70), entretanto, ressalta que as culturas de manutenção já eram largamente cultivadas mesmo nas várzeas do rio Capibaribe e Jaboatão que cortam o Recife, sendo destinadas ao abastecimento da população rural e urbana. 14Cabe destacar, todavia, que o Recife, ocupou o primeiro lugar em 1805, 1815, 1818 e 1819 em razão da elevação do preço do açúcar e do crescimento das exportações de algodão (SINGER, 1977, p. 282). 15A introdução ao plantio, nos anos quarenta do século XIX, de mudas de algodão de maior qualidade e produtividade, alicerça as bases para o surto algodoeiro da segunda metade do século XIX, possibilitado pela Guerra da Secessão 11O 39 partir da terceira década do mesmo século, cedendo lugar a uma parcial prevalência ao açúcar. Conduzido pelas flutuações determinadas pelas relações de comércio mundial, o algodão tornou-se uma das principais culturas do Nordeste e entre 1750 até 1949 foi o único a “[...] enfrentar cana-de-açúcar com êxito na disputa por terra e por braços” (ANDRADE, op. cit., p. 132). O novo impulso algodoeiro dos anos sessenta do século dezenove tornou-se mais atraente em termos de investimento, e concorreu para esmaecer as iniciativas de modernização da produção do açúcar, representada pela instalação dos Engenhos Centrais. Modernização que se voltava para a separação entre a atividade agrícola e a industrial, emprego de inovações tecnológicas e em substituição aos tradicionais bangüês de caráter artesanal. Os Engenhos Centrais foram retomados nas duas últimas décadas do século XIX, e no dizer de Melo (1982, p. 200) “[...] constituíram um marco da intervenção do Estado no sistema econômico e, embora tenha sido efetivado em escala nacional se revestiu da particular relevância no contexto espacial do Nordeste, que revelou uma nova articulação entre Estado e Capital nesta região”. Acrescenta Perruci (1978, p. 119), os Engenhos Centrais “[...] representaram uma iniciativa do governo sob pressão dos grupos açucareiros ainda no poder”. Projeto que se destinava a melhorar a competitividade do açúcar no mercado externo envolvia investimento de capital estrangeiro, pela ausência de disponibilidade de capital nacional, mas também contava com investimentos e concessões públicas, e conviveu com uma franca dependência ao poder político. Frustrou-se a iniciativa dos Engenhos Centrais, quando o seu fracasso foi reconhecido, em 1890, as Usinas de Açúcar já os haviam substituído. As usinas eram “[...] fábricas de açúcar com plantio próprio de cana” (SINGER, 1977, p. 299) e associavam em uma mesma empresa os setores da produção - o agrícola e o industrial-, ao mesmo tempo em que se consolidava o capital industrial e financeiro no campo. Em Pernambuco provocou um recuo do capital estrangeiro que havia sido utilizado nos Engenhos Centrais, agora a primazia dos investimentos recaía sobre o capital nacional. Instituía-se no Nordeste o grupo dos usineiros com estreita relação como os poderes públicos (PERRUCI, op. cit., p. 123-124). Iniciavam-se grandes complexos agroexportadores. (1861-1864) que retira do mercado, durante um período relativamente extenso, competidores com técnicas mais avançadas e produtos superiores em qualidade em relação àqueles produzidos no Nordeste brasileiro. 40 A expansão das usinas inviabiliza o modo antecedente de produção assentadas em formas arcaicas de subsistência, utilizada para a reprodução de grandes contingentes da população. No Nordeste, as usinas que substituem os engenhos dispõem de maquinaria com capacidade para produzir mais elevada que a capacidade de produção, isso provoca a “fome da cana”, na denominação de Andrade (1980, p. 97), que se traduz na aquisição de terras, gerando como conseqüência a concentração fundiária e a proletarização da força de trabalho no campo. O Recife constituía-se em centro de polarização e irradiador da região Nordeste no século XIX. Papel favorecido também pela abertura das estradas, em direção ao interior do Estado e a outros Estados da região. O fim da escravatura (1888) propiciou a liberação dos braços do trabalho, até então, sob seu domínio. Somando-se aos fatores mencionados a dissolução do complexo rural (SINGER, 1977), repercute na concentração da população no núcleo urbano, com efeitos sobre a moradia dos pobres, os mocambos que começam a despontar de forma mais visível nas áreas de mangue do Recife. Ainda mais, como destaca Andrade (1979, p. 92): O crescimento do Recife, na segunda metade do século XIX, não pode ser analisado apenas através de sua expansão pela planície do delta do Capibaribe; para ser compreendido é necessário também compreender a ampliação de sua função regional, de sua função de centro de comercialização de produtos agrícolas – do açúcar e do algodão e dos couros e peles, sobretudo – oriundos do interior. Daí a contribuição dada para o crescimento de sua função comercial-portuária pela implantação de estradas carroçáveis na primeira metade do século, e das ferrovias, a partir de 1858. A presença dos mocambos passa a contrastar com sobrados altos, estreitos, ligados uns aos outros com três a cinco por três a cinco andares onde habitava a população mais abastada (FREYRE, 2000; CASTRO, s/d, 1967). Ao aperfeiçoamento do processo produtivo, aliava-se a instalação de uma infraestrutura de estradas de rodagem seguida da estrada de ferro, que, partindo do Recife, adentrava o interior atingindo as zonas produtoras de açúcar e de algodão. As vias de circulação favoreciam o movimento da produção e o deslocamento paulatino da população do campo em direção à cidade. Enquanto isso, as terras remanescentes dos engenhos 41 situados nos arrabaldes do núcleo urbano, em processo de desativação, desde as décadas finais do século XVIII, cedem ao novo formato do urbano que se desenha. Esquadrinhadas em solo privado, essas terras, por entre caminhos e estradas, que permitiam o acesso à unidade de produção, dão lugar a povoações e construção de habitações. Acompanhando as oscilações da atividade econômica, o Recife se expande, seus efeitos podem ser observados a partir de dois aspectos, que atuam sob a estruturação e organização do território: a monocultura açucareira constituída no seu interior e desenvolvida em engenhos, desde o período colonial, e a instalação da indústria, em particular a têxtil, a partir das últimas décadas do século dezenove. Influência decisiva atribui-se também aos fatores de ordem jurídico-legal que instituíam as modalidades do acesso à terra, demarcando formas de uso e ocupação do solo. Eram formas assentadas em privilégios conferidos a uns em detrimento de outros, assunto tratado no item 1.2. Os caminhos de ligação entre o núcleo urbano, formado pelos bairros do Recife, Santo Antonio e São José, às povoações suburbanas e aos engenhos situados na área rural fazem surgir a forma tentacular16, consolidando as principais vias de circulação, construídas quase sempre nos divisores de água, que, posteriormente, dariam suporte às radiais da cidade atual. Como elucida a Planta da Cidade do Recife e seus Arrabaldes de 1870 (Mapa 02), há ocupações suburbanas e rarefeitas em formato linear que, iniciando no centro urbanizado, seguem das vias de circulação no formato de tentáculos17. Esses caminhos ao fazerem a ligação entre o núcleo urbano e seus arrabaldes, desde o século XVIII, como já mencionado, aproximaram as povoações dispostas nos subúrbios e engenhos localizados na parte rural do município (MENEZES, 1990, p. 10; MELO, 1978, p. 59). Realizava-se, dessa forma, a penetração da vida urbana no meio rural, concorrendo para a desinstalação dos velhos engenhos situados na várzea do rio Capibaribe que, ao se tornarem antieconômicos, foram sucessivamente desativados e transformados em sítios e chácaras (ANDRADE, 1979, p. 91). 16Baltar (1999, p. 51-52) faz uma analogia à ocupação do Recife à de uma palma da mão estendida sobre um plano, nesse caso, a palma da mão corresponderia à planície – terra firme, e os dedos os divisores d’água – alagados e cursos d’água, onde seriam implantados os eixos de penetração, bases para estruturar o processo de ocupação da cidade. 17Nas três últimas décadas do século XIX, o uso de sistema de transporte coletivo – linha de trem e de bonde de tração animal lançou tentáculos em várias direções pela planície formando cinco condutos em direção ao meio rural (ANDRADE, 1979, p. 91). As cinco vias de principais permanecem nas primeiras décadas do século XX seguindo as direções: norte, sul, sudeste, oeste e noroeste. 42 Mapa 02: Planta da Cidade do Recife e seus Arrabaldes de 1870. Litografia de F. H. CARLS. Fonte: PEREIRA DA COSTA, F. A., 1981. No princípio do século XX, a ocupação da cidade ainda permanecia bastante concentrada nos bairros centrais, como clarifica a Planta de 1906, e como pode ser observado na Planta de 1907 (MELO, p. 69). E é por intermédio dos tentáculos que a cidade se expande incorporando as partes nodosas ou povoações periféricas aos trechos iniciais, preenchendo os vazios, concentrando e consolidando povoações de maior porte. Como resultado desse crescimento, as áreas aterradas ampliam-se significativamente. Aterros realizados tanto pelo poder público como pela iniciativa privada. Entre esses aterros encontra-se o de Santo Amaro reduzindo a distância até Olinda. É também nos espaços 43 alagados, entre as povoações ao longo dos caminhos que a população pobre vai avançando com seus mocambos ocupando as nesgas de espaços ainda sem valor. Foto 01: Mocambos em Santo Amaro, s/d. Fonte: Museu da Cidade do Recife. Examinando-se as Plantas da Cidade do Recife de 1932 e 1943, constata-se o espraiamento da ocupação sobre as áreas de mangues conquistadas através dos aterros, ao mesmo tempo em que, os morros a noroeste e a norte já absorvem a dilatação da malha urbana e mostram a instalação de moradias dos segmentos populares, naquela parte da cidade. Fato que se encontra mais fortemente representado quando se analisa a planta de 1943 e a de 1951, comprovando a dilatação da malha urbana. A expansão urbana demonstra, já nos anos quarenta do século XX, um rompimento parcial com a forma tentacular anterior, motivado pelo alargamento da cidade em direção aos morros da Zona Norte e a ampliação da ocupação da planície (PONTUAL, 2001). Realidade acentuada pelo deslocamento campocidade gerando uma explosão (MELO, 1978) do crescimento urbano, entre as décadas de 1940-1960, como discutido no Capítulo 2. Escrevendo sobre a evolução fundiária do Recife, Melo (1978, p. 64) sintetiza o processo ao mostrar que ela se faz pela transformação de habitat rural em suburbano e 44 urbano, quando as terras canavieiras ou os engenhos iam sendo esquadrinhados em porções menores, assumindo novos usos. No passar do tempo, nos últimos anos do século XIX, parcela dos antigos18 engenhos assentados no espaço citadino já se constituía em subúrbios ou em povoações periféricas que, posteriormente, passariam à condição de bairros. Mais tarde, os loteamentos substituem as chácaras e os sítios repartidos para uso residencial, por seus proprietários ou por pessoas e empresas adquirentes, muito embora a convivência de diferentes usos tenha permanecido de forma mais acentuada até metade do século XX. Essa realidade vai, com o crescimento da cidade, fomentar o setor imobiliário e instigar o mercado especulativo tornando essas áreas fontes de renda. Seguidamente, a construção de habitações associada à abertura de vias públicas, à implantação de serviços de uso coletivo, contribuirá, de modo incisivo, para delinear o uso residencial do território. A influência da atividade açucareira no Recife fez com a cidade mantivesse características vinculadas a essa atividade até quase meado do século XX, como afirma Bezerra, trata-se de “[...] uma cidade tipicamente de tradição rural”. E, conforme acentua Melo (1978, p. 32), “[...] em terrenos recifenses da várzea do Capibaribe, existiam partidos de cana e usinas de açúcar até a década de quarenta”. Essa atividade concentradora de renda e de terra fez surgir no território recifense, como destaca Bezerra (1965, p. 28), dois grupos sociais distintos: Um, senhorial, doutorada e sempre privilegiada. Privilégio de sesmarias, de títulos, de comendas, de fabricantes de açúcar sem o fabricar, de casa grande e sobrados. Com dinheiro farto e, principalmente dispondo de escolas. O outro, maioria nascida preada, caçada, desterrada, recalcada e explorada. [...] Plantando cana e morando em mocambos, esperando escolas. Ainda a partir da análise da cartografia e tendo por base as Plantas19 de 1951 e 1970, torna-se possível identificar o preenchimento dos espaços seguindo as principais vias de circulação, os tentáculos e a ocupação de vias ao sul. Espalhou-se a mancha urbana, em particular sobre as áreas verdes de mangues e espaços alagados, transformando-os em 18Nessa época, as propriedades rurais canavieiras, como Madalena, Torre, Casa Forte, Monteiro e Apipucos, já haviam sido transformadas em subúrbios ou em povoações periféricas. 19Inexistem referências cartográficas sobre o Recife de 1960. 45 ambiente construído e, assim, modificando expressivamente o território citadino, reduzindo os espaços vazios e ampliando os espaços edificados. A forte presença no interior do tecido urbano mostra como traços desses elementos pretéritos, paulatinamente, incorporaram-se à cidade, permanecendo na toponímia de muitos dos seus bairros20, herdeiros da denominação de antigos engenhos antes situados nos limites do núcleo urbano (BALTAR, 2000). Esses traços traduziam-se na economia, nas idéias rodeando assuntos rurais, na cultura, na literatura. Marcas desses elementos evidenciaram-se também na distinção dos grupos sociais aí presentes. A outra vertente da atividade econômica que atuou sobre a estruturação do território diz respeito à industrialização21 e deixa as suas marcas espalhadas no tecido urbano, em particular o ramo têxtil. Essa atividade transformou-se em elemento instigador da formação de vários bairros como Boa Vista, Santo Amaro, Cordeiro, Várzea, Torre e Macaxeira (PCR/SEPLAN, 1990, p. 39). Nas últimas décadas do século XIX, ampliando-se para as iniciais do século seguinte, verificou-se uma diversificação da atividade produtiva. Criaram-se indústrias22 locais voltadas para bens de consumo não-duráveis, cuja produção destinava-se sobretudo ao mercado local. O surgimento da indústria têxtil no Recife, a partir de 1874, como destaca Singer (1977), trata-se de uma industrialização23 que guarda uma estreita ligação com a modernização da atividade açucareira decorrente da instalação das usinas de açúcar, e assentada na interdependência técnica e na demanda entre os dois setores. 20Exemplo disso encontra-se nos bairros de: Casa Forte, Monteiro, Beberibe, Jiquiá, Apipucos, Madalena, Torre e Engenho do Meio. 21Bernardes (1996) chama a tenção para a lacuna de estudos que aprofundem a análise sobre a influência exercida pelas unidades fabris para a formação de muitos dos bairros do Recife. 22Marcaram tal dinâmica a indústria de transformação de matéria-prima local, a produção de bens não-duráveis, de calçados, chapéus, doces, biscoitos e massas, móveis, entre outros, até a agroindústria açucareira vinculada ao capital externo (PERRUCI, 1978). 23No final do século XIX, foram instaladas, em Pernambuco, as seguintes fábricas de tecido: no Recife, a Fábrica de Fiação e Tecido da Madalena, em 1874, a Fábrica da Torre 1, em 1891, e a Fábrica da Torre 2, em 1889 (ambas localizadas nas antigas terras do Engenho Torre), as fábricas localizadas no município de Camaragibe, em 1891, no município de Goiana, em 1893, no município de Paulista, em 1891, e no Recife, em 1895, as fábricas de Apipucos e Várzea. No território recifense localizaram-se na linha da várzea do Capibaribe, à margem direita, exceto a de Apipucos, situada à margem esquerda (COSTA, 1983, 51. v. 9). Ainda no mesmo século houve a implantação da Fábrica de Tecidos Tacaruna, antiga Usina de Açúcar, situada na franja da cidade, limite com Olinda. Nas primeiras décadas do século XX, outras fábricas de tecido foram instaladas, como: em Jaboatão, em 1910, em Timbaúba, em 1912, e, depois, a Fábrica de Tecido no município de Moreno. De acordo com a historiografia, os municípios de Paulista (a família Lundgren) e de Moreno (a família Victor de Araújo), grande parte das terras dos limites, desse território, eram de propriedade dos donos das unidades fabris. 46 Essa atividade industrial, no Recife, mostrou também que não só o capital agrícola utilizava-se de grandes extensões de terra, as indústrias, em especial a têxtil, ao desenvolver agregaram grandes propriedades. Vastas reservas de terras foram concentradas por algumas famílias, controladoras dessa atividade econômica, nesse núcleo urbano, a exemplo da família Baptista da Silva, proprietária da antiga Indústria Têxtil da Torre, da família Othon Bezerra de Melo, proprietária da extinta fábrica do mesmo nome. Além do mais, a implantação dessa indústria revela um movimento ou deslocamento do capital entre frações da burguesia24 local – açucareira e têxtil. Algumas terras de antigos engenhos transformam-se em espaços fabris ou foram adquiridas para a instalação do empreendimento. Acrescente-se que a produção têxtil era umbilicalmente vinculada à atividade açucareira, cuja demanda consistia no fabrico de saco de aniagem para o ensacamento do açúcar, bem como supria a atividade algodoeira, dando assim suporte aos produtos de exportação. Sua atividade estendia-se à produção de tecidos de baixo padrão, dirigida no início da fase industrial, na primeira metade do século XIX, à vestimenta da mão-de-obra escrava e utilizada pela população trabalhadora. Grandes extensões de terra inseridas no tecido urbano e vinculadas à unidade têxtil passaram, ao longo da expansão da cidade, a se constituir em reserva de valor para fins especulativos imobiliário e fundiário. A presença das fábricas no tecido urbano e sua distribuição no espaço aponta no relato de Castro (1959, p. 22) para uma proximidade entre o local de moradia e a atividade do trabalho. Assim, os moradores dos mocambos de tradicionais redutos de mangue formariam uma parcela dos operários das unidades fabris, como pode ser acompanhado: Pára a chuva com a saída do sol, e de repente, apitos desvairados irrompem no ar. São as fábricas chamando gente para o seu trabalho, acordando o pessoal de Afogados, de Santo Amaro, da Ilha do Leite. E os mocambos que ainda dormem com esses apitos, uns mais ríspidos e violentos, outros mais distantes, mais ronceiros. Sugestiva a descrição do autor e indicativo de situação associada à dinâmica da atividade industrial, e sua influência na estruturação do espaço. Uma atividade, assinalada por 24Ver OLIVEIRA, 1993, sobre a relação entre o setor agroaçucareiro e têxtil em Pernambuco e no Recife. 47 diferentes surtos industriais, que propiciou à cidade uma feição operária25 até os anos sessenta do século XX. O mesmo pode-se captar através da poesia de Carlos Penna Filho ao homenagear a tecelã do subúrbio, moradora dos arredores e dos mangues, na versão do autor “onde os homens são sem sonhos, como qualquer mineral”. SUBÚRBIO26 Carlos Penna Filho Nos subúrbios coloridos em que a cidade se estende, em seus longos arredores onde, a cada instante, nasce uma rosa de papel, caminham as tecelãs. Restos de amor nos cabelos, que ocultam por ocultar. Levam a noite no ventre e a madrugada no olhar, e em esqueletos de sombras, onde a luz chega filtrada, as tecelãs vão parar. _______________________ Mas, nos domingos mais claros, as tecelãs se transformam em puras rosas de sal, e oferecem os seus braços à curva do litoral. Nem se lembram mais do mangue, podre, virgem, vegetal, onde os homens são sem sonhos, como qualquer mineral. A concentração da atividade industrial, acompanhada da atividade comercial no Recife, nos primeiros quarenta anos do século XX, para Perruci (1978, p. 139) parece ser simples em face das condições que a cidade reunia, como explica: [...] um grande porto que atraía todo o comércio exportador e importador, operações financeiras concentradas na capital regional, um mercado de consumo em relativa expansão, um interior desprovido de indústria, uma rede de transporte em forma de leque e cujo centro é formado pela cidade, um imenso reservatório de mão-de-obra barata, inchado pela abolição dos escravos e pelo êxodo rural. A queda nessa concentração ocorrerá após os anos cinqüenta com a instalação em cidades vizinhas ao Recife que, posteriormente, irão fazer parte da RMR. Dois outros aspectos devem ser citados: a reordenação associada a concentração do processo industrial no Centro-Sul passando o Nordeste a desempenhar um papel de complementariedade na 25Sobre a atividade industrial no Recife e as lutas operárias, ver: SOUZA BARROS, 1985; PERRUCI, 1978; BERNARDES, 1996; RESENDE, 1997, CAVALCANTI, 1978, entre outros. 26 PENNA FILHO, Carlos. Guia Prático da cidade do Recife In: Presença poética do Recife: crítica e antologia poética. 3. ed. ver. e aum. p. 183. Rio de Janeiro: José Olympio; Recife: FUNDAPE, 1983. Nasceu no Recife em 1929 e morreu em 1960. 48 relação produtiva no contexto do país; a criação27 da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste-SUDENE28, na busca de instituir uma indústria local implantada através de incentivos federais. O primeiro dificulta a instalação de uma indústria local consistente, e o segundo enfrentou diferentes questões no tempo da existência do órgão, questões essas que fogem à alçada deste trabalho. Pode-se reter que a indústria criada através da SUDENE, dada a utilização de capital intensivo e poupador de mão-de-obra, não reforçou a afirmação de um operariado local e de uma indústria que absorvesse a intensa parcela da população disponível e em busca de trabalho na cidade. A cidade do Recife segue a trajetória do crescimento populacional. Entre 1940 e 1960, dados dos recenseamentos (IBGE) mostram para o Recife uma população de 343.740 mil pessoas, elevando-se para 788.336 mil habitantes, ou seja, a cidade mais que duplicando sua população. Esse aumento explica-se pelos fluxos migratórios. Parcela dessa população, construída particularmente por pobres, passa a habitar uma cidade de frágil economia urbana, e na ausência de alternativas aloja-se em mocambos (Foto 01). Foto 02: Vista das Cinco Pontas. Luis SCHLAPPRIZ. Fonte: PEREIRA DA COSTA, F. A., 1981. 27A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste-SUDENE foi criada em 15 de dezembro de 1959, Lei Nº 3962, e extinta através da MP-2.145 de 02 de maio de 2001. 28Ver sobre o assunto o OLIVEIRA (1993); SICSÚ, et al, O GTDN: da proposta à realidade: ensaios sobre a questão regional: o Nordeste do Brasil. Recife: Ed. Universitária do Nordeste, 1994, entre outros. 49 Expandia-se a cidade alicerçada na polarização econômica, social e política. Condições históricas que influenciaram a constituição e consolidação do seu espaço urbano. As explicações, para isso, residiam na ausência de desenvolvimento socioeconômico nas áreas de abrangência da cidade, não encontrando, assim, respaldo no seu próprio desenvolvimento. As transformações ocorridas no campo, já assinaladas acima, concorrem para acelerar o crescimento do Recife, formando levas de trabalhadores em busca de melhores condições de vida. Essa realidade gerou dois grupos sociais situados em posições opostas, apreendendo e vivenciando condições de vida díspares. Nessas condições, o urbano vai seguidamente se formando de modo desigual e privatista, aliando forças sociais e interesses patrimoniais e econômicos, expresso na concentração do poder socialmente territorializado. Indicando, como assinala Piquet (2001, p. 12) que A cidade, portanto, além de ser uma forma desenvolvida da cooperação entre unidades de produção é o resultado, no espaço, dos processos de produção, de circulação e de consumo. A criação desse espaço é fruto de contradições e de tensões, pois nele estão envolvidos os interesses do capital em seus diversos segmentos, da força de trabalho e do Estado. O Recife cresceu, produziu um ajuntamento demográfico, que criou e concentrou riquezas. No entanto, a riqueza produzida não absorveu os contingentes populacionais expulsos do campo, tampouco desenvolveu processos que incorporassem mecanismos de distribuição da riqueza produzida entre os grupos sociais ocupantes do seu território. Ao contrário, gerou uma constante população excedente, sustentada em acintosos processos de espoliação29 urbana que na concepção de Kowarick (1979, p. 59) é o resultante do [...] somatório de extorsões que se opera através da inexistência ou precariedade de serviços de consumo coletivo que se apresentam como socialmente necessários em relação aos níveis de subsistência e que agudizam ainda mais a dilapidação que se realiza no âmbito das relações de trabalho. Assentou-se em processos de exclusão, permitindo uma expansão apoiada em um acesso à habitação notadamente perversa e progressivamente desigual, deixando como conseqüência uma situação socioespacial a um só tempo diferenciada e segmentada, ou seja, o processo de crescimento e de urbanização deixou no seu rastro, estruturalmente, uma 29O conceito de espoliação urbana fornece uma combinação entre os processos de exploração e de dominação. 50 cidade complexa, socialmente diversificada, heterogênea, e, sobretudo, profundamente desigual. 1.2 O SOLO APROPRIADO Herdada dos tempos coloniais, e alongando-se por todo período de formação da cidade, a apropriação do solo no Recife fez-se de modo profundamente desigual. Trata-se de uma apropriação alicerçada nas relações de poder econômico, social e político, e nas formas jurídicas instituídas que asseguraram privilégios, concedendo a determinados grupos sociais o acesso ao solo e negando ou dificultando a outros a oportunidade desse mesmo acesso. Questão que ganha celeridade com o crescimento e a expansão da cidade, a partir de meados do século XIX e aprofundando-se, ao longo do século seguinte, quando se tornarão patentes nos conflitos urbanos por terra de habitação. Estabelece-se um modo de apropriação do solo, entre os quais a permanência do latifúndio açucareiro, que evidencia traços das relações de trabalho herdados da escravidão e das baixas remunerações salariais, apesar de amplos e históricos movimentos reivindicatórios. Persiste a concentração da renda e da terra, como fatos que marcarão decisivamente o processo de formação e o crescimento do aglomerado do Recife. Verifica-se que, no Brasil, o domínio da terra assentava-se, seja em relação à sua posse, seja em relação à sua propriedade, no período dos grandes descobrimentos, em fundamentos filosófico-religiosos30, como tão bem resgata Bezerra (1965, p. 35-36). Esses fundamentos e sua aplicabilidade, no momento da descoberta do Brasil, por Portugal, 30Esses fundamentos reconheciam o aparecimento do universo como decorrência da vontade divina. Sendo Deus detentor exclusivo dessa posse tinha o poder de doá-la ou constituir representantes que o fizessem, a partir do julgamento do mérito do destinatário da doação. Dividido o mundo na época dos grandes descobrimentos entre cristãos e infiéis, parcela desse mundo cristão era submetido às ordens do Papa. A Igreja ao aceitar a exclusividade divina da posse da terra assim, admitia como donos, aquele povo que recebesse a doação papal ou das mãos de quem por ele fosse atribuída, cabia essa propriedade tão-somente aos cristãos, do mundo católico, os multiplicadores da fé e seguidores das decisões do Papa. Portugal e Espanha, Itália, França, Irlanda e países da Europa Central pertenciam ao mundo católico. Destacando-se nesse grupo Portugal e Espanha que respeitavam as ordens papais e haviam atingido o Novo Mundo. Isso provocou a expedição de novas bulas, seguidos de tratados para disciplinar a posse das terras recémdescobertas. Portugal tão logo fez o descobrimento do Brasil fez a sua confirmação junto ao Papa, sendo então Dom Manuel de Portugal apossado das terras descobertas. Sobre o assunto ver BEZERRA (1965, p. 35-36), e citações de BEZERRA: Bíblia Sagrada. Edições Paulinas, 1960. Vulgata organizada por São Jerônimo e aprovado no Concílio de Trento; LACERDA, M. Linhares de. Tratado de Terras do Brasil. Editora Alba, v. I, p. 12-13 e 33, 1960; e ROCHA POMBO. História do Brasil. São Paulo, Edição Camp. de Melhoramentos, p. 24, 1925. 51 propiciaram a criação do regime de donatarias. Nas terras demarcadas para a capitania31 de Pernambuco32, localizava-se a planície recifense, situada no extremo norte da concessão33, contando com um porto natural que iria exercer papel essencial na história da constituição e formação da cidade. Detentor de privilégios reais, incumbido de representar a Justiça e o Executivo, ao Capitão era assegurado o direito de propriedade sobre as terras delimitadas e sob seu domínio. Nessas terras, encarregava-se o capitão da cobrança de impostos e taxas. Sobressaíam entre esses privilégios, conforme destaca Lacerda (1960, p. 113-114, apud BEZERRA, 1965, p. 37): o “[...] monopólio dos engenhos de açúcar com direito de abrir mão da concessão, mas cobrando os foros; monopólio da escravidão do indígena e direito a doar terras aos colonos da sua escolha”. Esse conjunto de privilégios teria conseqüências expressivas na formação e no crescimento da cidade. Instituía-se e seria desenvolvido a partir daí o direito do particular de cobrar foro de terras que não lhes pertenciam. Passa esse particular a reter o direito de manter sob seu jugo os índios, impondo-lhes o trabalho compulsório, o que abria precedentes para submeter outros indivíduos, subordinando-os a um sistema de escravidão. Este sistema teria larga presença na história brasileira, penetrando de forma decisiva em Pernambuco e no Recife. As atribuições conferidas ao representante do rei de Portugal, nas terras recémdescobertas, trariam repercussões acintosas ao gerar uma classe de privilegiados. Criavam-se, assim, de um lado, aqueles a quem era assegurado o direito à terra mediante doação e, do outro, aqueles a quem esse direito era negado. Davam-se os primeiros passos para as doações das sesmarias34. As grandes extensões de terras livres do Brasil estimularam a instituição 31A denominação de capitanias deve-se ao fato do concessionário, desse território, receber o título de capitão. terras mediam sessenta léguas de costa, abrangendo desde a foz do rio São Francisco até a do rio Igaraçu. 33Sobre esse assunto ver: MELLO, José Antônio Gonçalves. O Chamado Farol de Olinda, de 1537. In: Revista do Arquivo Público. Recife, n. 13. dez., 1974. p. 48; BERNARDES, Denis Antonio de Mendonça. Para ler o Recife e suas origens. In Recife que história é essa? RESENDE, Antonio Paulo. (Org.). p. 17-36. Recife: Fundação de Cultura do Recife, 1987; RESENDE, Antonio Paulo. O Recife: história de uma cidade. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 2002. 34Tratava-se o sistema de doação da sesmaria de uma alternativa já adotada por Portugal na busca de prosperidade para o país, por intermédio do estímulo e do desenvolvendo de fortunas de particulares. Isto porque a concessão de terras implicava paga à coroa portuguesa da sexta parte da renda advinda da terra – a sesma. OTÁVIO, Rodrigo, 1887, p. 61, apud BEZERRA, 1965, p. 37, esclarece que a denominação de sesmaria decorre da aplicação da sistemática da sesma. Forma semelhante a esse sistema havia sido utilizada pelo Império Romano. Ver sobre o assunto: Rodrigo, Otávio. Domínio da União dos Estados. Imprensa Nacional, 1887. Sesmaria segundo o Novo Aurélio significa: “Lote de terra inculto ou abandonado, que os reis de Portugal cediam a sesmeiros que se dispunham a cultivá-los”. FERREIRA, 32Essas 52 desse sistema que garantia à coroa a expansão e proteção dos domínios conquistados e, transformava, paulatinamente, aqueles que recebiam o domínio da terra na classe senhorial. Intensificaram-se as solicitações de concessões de doação e, posteriormente, de aforamento. Essa realidade requeria uma burocracia ágil para regularizar o volume de processos, solicitações para a posse de terras. Retardando as decisões, e aliada à imensidão de terras devolutas, na colônia, desencadeou-se o sistema de ocupar a terra independentemente do cumprimento dos trâmites formais. Nessas circunstâncias, gerava-se uma desorganização da instrução legal sobre a posse da terra, com a adoção na prática de formas mais rápidas de ocupação do espaço, deixando para trás o cumprimento das normas em vigor. A Lei nº 601, de 1850, promulgada pelo Império, buscava regularizar e ordenar a posse da terra, de modo a suplantar a situação de desordenamento existente. Essa lei delibava sobre a sesmaria e os terrenos doados, de acordo com as regras definidas, reconhecia o pleno direito às antiga doações. Inseriam-se nessas determinações os terrenos ocupados, pacificamente, mesmo que a sua ocupação tivesse ocorrido sem o preenchido das condições legais (BEZERRA, op. cit., p. 38). Anteriormente, as “Terras de Marinha” já haviam sido objeto de tratamento específico pelo Império, quando, em 1831, foram incorporadas ao patrimônio da União todas as terras do território brasileiro inundadas pela preamar média do ano (PERNAMBUCO, 1990, p. 157). A estrutura fundiária do Recife apresenta características associadas à forma primitiva de ocupação do espaço aliada ao processo produtivo sob o qual se desenvolveu, conferindo à cidade aspectos significativos e com forte incidência sobre a apropriação do solo. Se, por um lado, é formada por terras originárias de antigos engenhos e suas áreas remanescentes, margeadas por imensos manguezais35, por outro lado, reúne terras conquistadas às águas de maré e de rios, através de progressivos aterros dos mangues. As terras dos antigos engenhos incorporam-se às áreas urbanas de forma retardada por concentrarem a monocultura da cana-de-açúcar, no entorno do núcleo citadino, de modo expressivo até o século XVIII, quando se iniciou o processo de subdivisão em sítios de engenhos desativados. Fixadas as terras que margeavam os caminhos das águas como de Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI: o Dicionário da Língua Portuguesa. 3. ed. ver. amp. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Esse sistema no Brasil tem início no período dos Governadores Gerais, alongando-se até a Independência quando foi suprimido. 35Sobre a ocupação das áreas de mangue no Recife ver BEZERRA, 2000. 53 domínio público, ou seja, “Terras de Marinha36” e seus acrescidos passaram a ser alvo de aforamento. A definição sobre os “Terrenos de Marinha” tem conseqüências expressivas na expansão urbana do Recife e no modo de apropriação do solo. Isto porque se trata de uma cidade situada no delta do rio Capibaribe e recortada por outros rios37, que, no movimento natural, faz as suas terras, ora altearem-se formando ilhas e ilhotas, ora abaixam-se, tornandose facilmente inundável, cedendo na maré alta lugar à expansão do elemento líquido. Esse movimento instigou ao longo da ocupação urbana intensos processo de aterramento. Decorreram os aforamentos38 dos “Terrenos de Marinha” de uma conjunção de diversos interesses oriundos: de algumas indústrias e comerciantes localizados às margens dos cursos d’água, em face do embarque e desembarque de mercadoria, e ao despejo de resíduos de origem tanto industrial como comercial; da exploração de madeira dos mangues e da piscicultura. Além do uso imediato, alguns comerciantes anteciparam-se ao lançarem o olhar sobre a futura valorização dessas áreas e, utilizando-se da sua posição social, das condições econômicas, além do acesso à informação, passaram a pagar o foro à União. Ocuparam enormes extensões de terras mediante pagamento de uma taxa anual. Esse privilégio também foi desfrutado por muitas ordens religiosas existentes no Recife. O sistema de aforamento ou da ocupação rebateria, no século XX, traduzindo-se em exacerbadas disputas entre aqueles que de fato a habitavam, e aqueles que sobre elas alegavam o direito. Quase um século depois da regulamentação do acesso à terra, na metade do século dezenove, a questão permanecia obscura. Seguiram diversas normatizações, ora modificando, ora esclarecendo a primeira. De outra parte, as múltiplas implicações envolvidas nas disputas pela posse dos terrenos de marinha ensejavam muitas contestações entre o Município e a União, quando estava em pauta a alienação da terra. A profusão de atos e normas gerou uma incapacidade de reconhecimento e distinção de direitos sobre as terras 36Estudo realizado sobre a área ocupada por “Terras de Marinha”, no Recife, pela Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano/SEHDUR, Diretoria de Planejamento/DIPLAN, do Estado de Pernambuco, em 1990, mostrava que 15% do total da área da cidade e 25,4% de sua área urbana ocupada, no período analisado, correspondiam às denominadas “Terras de Marinha”. 37O Recife é recortado pelos rios Capibaribe, o mais caudaloso, o Beberibe, o Tejipió, o Jiquiá, o Jordão e o Pina. 38A regularização da posse das áreas de mangue ocorre através da solicitação de aforamento, que significa a concessão do domínio útil da área firmado por meio do pagamento à União de uma cota parte anual, o foro. Para o aforamento, já na metade do século dezenove, era solicitada a comprovação da doação, concedida no período colonial ou a comprovação da ocupação pacífica da terra ou ainda a existência de benfeitoria. 54 aforadas, fato provocador do Decreto-Lei 9.76039, em 1946, que trata dos terrenos de marinha e seus acrescidos, revogando a legislação anterior, definia novos procedimentos para regularizar a situação estabelecida. Se antes doadas, com a instalação do aforamento, as terras assumiam um caráter de relação de troca mediante o pagamento do foro, e ficavam submetidas ao preenchimento dos requisitos definidos na legislação e solicitados pelo Estado. A extensa legislação sobre o assunto possibilitou interpretações jurídicas das mais variadas e acirrou a discordância entre Estado e Município, gerando dificuldades de ordem legal. Como a questão habitacional encontra-se umbilicalmente vinculada à questão do solo urbano, o sistema de aforamento não altera substantivamente a apropriação do solo. Modifica-se a sistemática, mas resguarda-se a forma antecedente. Cria-se uma modalidade associada ao sistema de doação, que ganha corpo no pagamento do foro, e garante ao requerente o direito de explorá-la. Institui-se outro mecanismo de privilégio retendo a terra na alçada de poucos proprietários possuidores de poder econômico e prestígio social, reafirmando-se, por essa perspectiva, a forma primeira de apropriação da terra de feição excludente. Com o crescimento acentuado, no século no XIX, e intenso e explosivo no século seguinte, para mais uma vez usar a expressão de Melo (1978, p. 115), em contraposição ao longo período de crescimento lento dos dois séculos anteriores, a situação do aceso à terra por aqueles que não detêm os privilégios econômicos e políticos se tornou mais agravada. Os efeitos dessa legislação e sua aplicabilidade incidiram fortemente sobre as áreas povoadas por habitações do tipo mocambo40, situadas nas áreas alagadiças e lodosas dos manguezais no tecido urbano e que aparecem de forma mais definida, a partir da segunda metade do século XIX (LIRA, 1996). 39Esse Decreto-Lei deu sustentação ao Grupo de Trabalho, organizado pela Casa Militar da Presidência da República, instituído através de Portaria MTPS/269 do Ministério de Trabalho e Previdência Social, que apresentou ao Presidente da República sugestões de ordem jurídica, para o encaminhamento de soluções aos problemas dos alagados do Recife (BEZERRA, op. cit., p. 38). A existência desse Grupo de Trabalho é indicativo da extensão da problemática referente à ocupação das áreas de mangue, áreas onde se erguiam as habitações do tipo mocambo, ocupadas pela população pobre. 40Diz Bezerra (1965, p. 33) “[...] no Recife colonial e holandês, os mocambos já penetravam as áreas alagáveis”. Sobre a crise da habitação no período holandês ver: MELLO, José Antonio Gonçalves de. Tempo de flamengo; influência da ocupação holandesa na vida e na cultura do Norte do Brasil. 3. ed. aum. Recife: FUNDAJ, Editora Massangana, Instituto Nacional do Livro, 1987. 55 Com os terrenos formalmente aforados, portanto, com poderes sobre a terra, os seus foreiros utilizaram-se da prática de derrubar mocambos, para aterrar lote ou ainda cobrar dos moradores daquela nesga de terra o “aluguel do chão”. Com a emergência da valorização das áreas alagadas para interesses imobiliários, nos anos de 1920, tornando o loteamento sistemático no tecido urbano, conforme observam Falcão Neto e Souza (1985, p. 76), “Construir ou comprar mocambos, para alugar ou para usar junto ao Judiciário como prova de benfeitorias, transformaram-se práticas correntes, que exacerbaram as disputas pela terra”. Percebe-se que o sistema de aforamento produziu formas de renda sobre a terra ocupada pelos citadinos. Traduzem os efeitos dessa legislação em processo de disputas por terra de habitação que, na denominação dos segmentos populares, se trata de ocupação e para os proprietários de invasão. Procedimentos que percorreram todo o século XX e encontram-se abordados nos itens 1.4 do Capítulo 1 e 3.3 do Capítulo 3. O Código Civil Brasileiro promulgado, em 1917, definia sobre o parcelamento da terra urbana. No Recife, seus reflexos apareceram no microparcelamento urbanos que se firmaram como elemento definidor de um novo processo de urbanização na cidade. Tal fato incidirá, sobremaneira, sobre as populações habitantes dos mocambos. Áreas ocupadas por essas populações localizadas em terras do Derby, espaços próximos aos trechos em expansão, em 1923, são alvo do primeiro loteamento da cidade, conforme registros da Prefeitura do Recife, “[...] onde grandes alagados foram aterrados depois de expulsos os moradores ali existentes” (FALCÃO NETO E SOUZA, op. cit., p. 76). Nesse contexto, o mercado de terras permanece nos dias atuais com um cenário sufocante e tornando acintoso o acesso pelos mais pobres à terra de habitação. Isso provoca relações conflituosas, que ainda hoje se desenham na formação da cidade do Recife. A apropriação desigual do solo criou, no desenho da cidade, elementos de extrema contradição. Como já observado por (BALTAR, 2000; MELO, 1979; BITOUN, 2002), e desnudado no decurso da história da ocupação e expansão da cidade, os terrenos enxutos e planos foram apropriados pelos segmentos sociais mais aquinhoados economicamente, com maior capacidade para investir em infra-estruturas, maior acervo de conhecimento técnico e de engenharia para tratar adequadamente o terreno. Conquanto os terrenos alagados ou alagáveis da planície, vertentes de colinas e os morros com maior precariedade exigiam em investimentos para com isso propiciarem habitações dotadas de 56 maior margem de segurança. Esses espaços foram ocupados por famílias sem disponibilidade de recursos materiais para tais investimentos. Incide fortemente sobre o modo de apropriação da terra a legislação que institui mecanismos de privilégios para fração da população e de limitação e restrições para a parcela da população pobre. No Recife, o Plano de Regularização de áreas Especias-PREZEIS, instituído em 1987, volta-se para a atenuação dessa realidade secular ao assegurar a permanência da população em áreas de ocupação consolidadas. Assunto abordado no Capítulo 3. 1.3 A CIDADE: ESPAÇO DA POPULAÇÃO POBRE: ALAGADOS, PLANÍCIE E MORROS A ocupação das terras do Recife mostra uma disputa secular e perene travada entre o homem e a natureza, entre os ocupantes do lugar e a água, ou contra ela, numa luta firmada no sentido de dominá-la, através do processo colonizador. Dadas as condições naturais, condicionantes da formação urbana, esse espaço foi, permanentemente, acrescido pelo uso de aterros, por sobre o elemento líquido, entremeando rios, córregos, mangues, e alagados. Espaços que, até então, não continham o germe da cobiça imobiliária e, em razão dessa variante, absorvia a população mais pauperizada: os habitantes dos mocambos. Encantos e desencantos passaram a ser vividos na cidade das águas. Mocambos ergueram-se continuamente e lentamente em áreas verdejantes dos manguezais, desveladoras das condições de ocupação do solo por grupos sociais diferentes. As terras de planícies enxutas tornam-se a base de instalação e de criação da cidade dos segmentos mais abastados, muito embora sempre próxima da cidade dos mocambos. Incorporaram-se à expansão da cidade nos anos trinta as extensas terras de morro, situadas ao derredor da planície, passando a ser ocupadas pelos segmentos populares. Os fatores naturais exerceram incisiva influência no processo de formação e expansão da cidade do Recife. Fizeram-se presente nos meandros do formato urbano e, por seus caminhos, se em determinados momentos diferenciam, particularizam, embelezam e suavizam a paisagem, em outros tantos expõem e denunciam as fortes contradições, os pontos de tensão vividos nesse território pelos diferentes grupos sociais. 57 O solo que serviu às instalações do Recife, desde épocas remotíssimas, formou-se pela provocante interferência de diferentes elementos, em um movimento contínuo e ininterrupto, dando origem à planície que acolhe a cidade. Resultou, como diz Oliveira (1942, p. 41), da “[...] ação combinada de diversos fatores, entre os quais os rios, as marés, os ventos, os mangues e o homem [...] ainda assim a vôo de pássaro para que se torne possível espartilhar, nos limites próprios a trabalhos desta natureza [...]” Uma planície aluvial flúviomarinho que se compôs, conforme acentua Castro (s/d, p. 33), de “[...] ilhas, penínsulas, alagados, mangues e pauis, envolvidas pelos braços d’água dos rios, que, rompendo passagem através da cinta sedimentar de colinas, se espraiam remansosos pela planície inundável”. O movimento dinâmico e sucessivo dos fatores físico-geográficos41, como os rios, o mar, o vento e a vegetação dos mangues, fixador de detritos, exerceu função primordial na construção e consolidação do solo que emolduraria a cidade do Recife. Aos aspectos naturais aliaram-se os aspectos sociais, econômicos, jurídico-legais, que, de modo efetivo, se tornaram propulsores do desenho urbano e da fisionomia da cidade. De forma desafiante, a terra firme, já escassa, vivenciava um processo de redução por se tratar de “[...] um espaço onde se misturam rios uns com outros e com o mar, o que serviu de sítio ao Recife. [...] onde a parte líquida da paisagem predomina sobre a porção sólida, onde os acidentes das águas prevalecem sobre os da terra” (MELO, apud MELO, 1978, p. 47). Cercado por um cordão de colinas, que completava o cenário, de até 100 metros de altura, o sítio recifense dispõe-se “[...] em anfiteatro sobre a enorme ‘arena’ ” (OLIVEIRA, op. cit., p. 39), concedendo à cidade uma característica distinta. Suas terras formam “[...] uma imensa baixada aluvial que lenta e gradativamente alteia o colo [...] O fácies é fluvial”. Essa formação natural instiga Oliveira (op, cit., p. 38) à feliz constatação: “No Recife o que não é água, foi ou lembra a água”. A feição peculiar que lhe imprime a presença da água concede-lhe uma característica que percorre a sinuosidade do tempo, o formato do território, e revive, como 41Na frenética dinâmica entre eles, conforme alude Bezerra (1965, p. 21), “[...] o mar foi empurrando os rios e os rios foram repelindo o mar. Rios bárbaros. Violentos. Apressados. [...] Rasgando colinas [...], Lambendo furiosamente as ribanceiras”, terminaram por concluir sua tarefa no “[...] afã louco de encher a baía41 [...] na cadência da maré enchente e da maré vazante”. E o mar, prisioneiro, viu a grande enseada, nomeada de ‘Baía Entulhada’ ser preenchida ou aterrada, como resultado da sôfrega agitação que ao provocar a ‘tirania da água’ submeteu a terra – água do mar [...] água dos rios que a cortam e recortam [...] por periódicos espasmos cataclísmicos, água dos açudes que modorram ao pé dos oiteiros [...] água dos pântanos que a vegetação dos mangues ensombra e oculta, água do mar que não capitula diante dos arrecifes e volta, duas vezes por dia, a visitar, pelos braços dos rios os seus domínios perdidos (OLIVEIRA, 1942, p. 3839). 58 um dos elementos condicionantes, desde o surgimento do sítio urbano ao seu desenvolvimento como cidade. Aos olhares dos nascidos na terra ou daqueles que dela fizeram seu canto de parada, o Recife converteu-se em um espelho para crônicas, narrativas e poesias. Ora evidenciando as belezas, ora denunciando os contrates e os desencantos. Se por um lado os rios42contribuíram na extensão do seu curso para conduzir sedimentos, que refreados na linha dos arrecifes concorreram em uma composição milenar para formar a planície recifense, por outro, esses cursos d’água, que outrora cederam suas margens à atividade canavieira, serviram como vias de transporte, receberam os casarões dos segmentos abastados e abrigo dos mocambos. Ademais, esses cursos d’água revelaram-se como fonte de inspiração, destacando-se, entre eles, o rio Capibaribe, como o mais decantado. Melo Neto evidencia no poema O Rio a existência dos múltiplos Recife, como Ítalo Calvino percebeu as várias cidades. Na sua iluminação poética descreve a junção da diversidade de pessoas, dos diferentes grupos sociais que adentram o urbano fomentando a sua expansão, construindo suas territorialidades: os retirantes, os usineiros, os fornecedores de cana, a gente triste que por aqui baixou. Desvela as diferenças econômicas, a condição de desterritorializado de uma parcela da população, que tangida do campo adentrou o espaço urbano. O RIO João Cabral de Melo Neto43 Ao entrar no Recife, não pensem que entro só. Entra comigo a gente que comigo baixou por essa velha estrada que vem do interior, entram comigo rios a quem o mar chamou, entra comigo a gente que como o mar sonhou, e também retirantes em que só o suor não secou: e entre essa gente triste, a mais triste que já baixou, a gente que a usina, 42Corta depois de mastigar, largou; entra aquele usineiro que o outro maior devorou; entra esse banguezeiro reduzido a fornecedor, entra detrás um destes, que agora é um simples morador, detrás, o morador que nova safra já não fundou; entra enfim o cassaco que por todas aquelas bocas passou. Detrás de cada boca, ele vê que havia uma boca maior. ......................................... o território da cidade do Recife os rios Capibaribe, Beberibe, Jordão (hoje canal do Jordão), Tejipió e o Jiquiá. NETO, João Cabral de. O RIO. In: Morte e Vida Severina e outros poemas em voz alta. Rio de Janeiro: José Olympio. 1987. p. 114-143. 43MELO 59 Foto 03: O Rio a existência dos múltiplos Recife Fonte: Aurelina Moura, 2004. Em O Outro Recife fragmentos do poema O Rio, Melo Neto desvela uma face obscura da cidade anfíbia omitida ou negada em seus Guias. Mostra o rio que abre seus braços lodosos para abrigar a gente de “existência imprecisa”, deslocada para a cidade para ocupar um chão de “água e terra indecisa”. Melo Neto enuncia e denuncia a pobreza, a miséria petrificada na cidade, arranjada às margens do rio, do rio que fora ponto de parada e de florescimento da riqueza do lugar, e também assento na figuração do autor de “casas de 60 lama negra” – os mocambos, edificados pelo homem pobre, em precárias condições, acompanhando os meandros do rio e plantados sobre a lama. O Rio (Ou relação da viagem que faz ao Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife - Fragmentos). OUTRO RECIFE44 João Cabral de Melo Neto Casas de lama negra há plantadas por essas ilhas (nas enchentes da maré elas navegam como ilhas): casas de lama negra daquela cidade anfíbia Nela deságua a gente (como no mar deságuam rios) que de longe desceu em minha companhia; nela deságua a gente de existência imprecisa, no seu chão de lama entre água e terra indecisa. O movimento perene das águas que acalentam o solo recifense na conjunção diária entre as águas doces e as salgadas tornou-se responsável pelo banho contumaz da terra formando os alagados. Desse ambiente natural floresce uma vegetação típica e característica, os mangues45. Reforça Gomes (1977, p. 63) sobre o assunto: “O encontro das águas lodosas e doces desses rios, com o mar no seu trabalho de avanço e recuo, em movimentos eustáticos de fluxo e refluxo das suas marés, deram origem a ambientes propícios a vegetação de mangue” E Bezerra (1965, p. 21), ao indicar a constância dos alagados na paisagem recifense, acrescenta: “Por onde se penetra na cidade, eles se apresentam acompanhados de seus gêmeos, os mangues e os mocambos [...]”. Essas áreas alagadas que, com o crescimento da cidade, paulatinamente, tornar-se-iam o ancoradouro dos mocambos, abrigando as habitações da população pobre, transformaram-se simultaneamente em fonte de alimento fornecida pela vida aquática – os caranguejos, os siris. 44MELO NETO, João Cabral de. O rio (Ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife Fragmentos) In: COUTINHO, Edilberto. Presença poética do Recife: crítica e antologia poética. Rio de Janeiro: José Olimpio, 1983. p. 148. 45“Chama-se mangue, mangal ou manguezal a um tipo especial de associação vegetal tipicamente anfíbia, que prolifera nos solos frouxos e movediços dos estuários, dos deltas, das lagunas litorâneas – solos de transição entre os tratos de verdadeira terra firme e os ocupados permanentemente pelas águas – nas regiões equatório-tropicais do mundo” (CASTRO, 1948, p. 19). 61 Viajantes e visitantes, ao aportarem no Recife, detiveram-se no registro de suas impressões. A água exerceu o papel como elemento estimulador dessas imagens que associam o Recife a cidades como Veneza, Amsterdã, Hamburgo. O Recife, fonte de inspiração poética, encontra-se enunciado na “Dedicatória aos Pernambucanos”, do maranhense Gonçalves Dias (1823-1846), em visita à cidade. Nesse poema, ele transcreve o seu encantamento pela cidade, tornando-se o primeiro a denominá-la de Veneza Americana, numa franca alusão à cidade italiana de Veneza. A presença da água é ressaltada como elemento comum de confraternização entre as duas cidades. Nomeia o autor o olhar que lhe transmite o Recife. Parafraseando Ítalo Calvino, no sentido inverso, a “Cidade Visível” e sua fisionomia de natureza. DEDICATÓRIA AOS PERNAMBUCANOS46 Gonçalves Dias Salve terra formosa, oh Pernambuco, Veneza Americana, transportada, boiando sobre as águas! Amigo gênio te formou na Europa, gênio melhor te despertou sorrindo à sombra de coqueiros. Salve, risonha terra! São teus montes arrelvados, inúmeros teus vales, cujas veias são rios! Doces teus prados, tuas várzeas férteis, onde reluz o fruto sazonado entre a matriz das flores. ______________________________ Em 1859, quando de passagem pelo Recife, Dom Pedro II registra: “[...] as casas iluminadas sobre os rios que contornam a ilha de Santo Antônio [...] dão-lhe o aspecto do que imagino será Veneza” (AULER, 1975, p. 361). Ou, também, na referência de Castro, ( s/d, 34) Foi nesses bancos de solo ainda mal consolidados – mistura ainda incerta de terra e de água – que nasceu e cresceu a cidade do Recife, chamada de cidade anfíbia, como Amsterdã e Veneza, porque assenta as massas de sua constituição quase dentro da água, aparecendo numa perspectiva aérea, com diferentes bairros flutuando esquecidos à flor das águas. 46DIAS, Gonçalves. Dedicatória aos Pernambucanos. In: COUTINHO, Edilberto. Presença Poética do Recife: crítica e antologia poética. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1983. p. 165. 62 Resgata-se de Carlos Penna Filho o canto em verso do forte encantamento do encontro entre esse elemento natural e a formação do sítio recifense, alinhado aos sonhos dos homens inventores dessa cidade. O INÍCIO47 Carlos Penna Filho ------------------------------Hoje, sereno, flutua, metade roubada ao mar, metade à imaginação, pois é do sonho dos homens que uma cidade se inventa. Mesmo cantarolado, como uma dádiva do rio e o mar, o Recife enfrenta as conseqüências de sua posição aquática. Cavalcanti (1978, p. 49), ao confrontar a condição prodigiosa de cidade das águas, registra os seus efeitos sobre o território, ao mostrar: “Mas a cheia48 de 1924 foi madrasta, levando de rojão os mocambos das zonas ribeirinhas, avançando por ‘caminhos nunca dantes navegados’, invadindo novos aterros da cidade, assustando a população”. Esses efeitos foram, também, relacionados ao agir do homem no processo de edificação urbana ao aterrar o espaço. E prossegue o mesmo autor: A conquista, pela urbanização, de velhos terrenos alagadiços, tomados do Capibaribe e do Beberibe, estreitava as suas margens, forçando os rios ao transbordo de seu volume d’água, nas grandes enchentes do ano. O flagelo vinha desde os tempos de Nassau49, quando da ocupação de Pernambuco pelos holandeses, no século XVII. As crônicas de então já registravam cheias incomuns. 47PENNA FILHO, Carlos. Guia Prático da cidade do Recife In: Presença poética do Recife: crítica e antologia poética. 3. ed. ver. e aum. p. 179. Rio de Janeiro: José Olympio; Recife: FUNDAPE, 1983. 48Registra Cavalcanti (1978, p. 48-49): “[...] o Capibaribe enfurecido, com suas cheias medonhas, como a de 1924, que o povo crismou de ‘Desarma a Rede’”. Uma referência ao grito de alarme entoado na madrugada de 28 de abril. Os primeiros avisos da proximidade da água foram ouvidos através do ecoar dos búzios. Era o sinal dado pelos pescadores. Por todo o século XX há registro de cheias que atingem o Recife, em menor proporção àquelas registradas em 1940 e de 1953, e com maior intensidade e freqüência nos anos de 1958, 1965, 1970. Os efeitos sobres as áreas ribeirinhas tornavam-se alarmantes para a população pobre aí residente. A última cheia que atingiu vigorosamente a cidade ocorreu em 1975, estendeu-se por bairros pobres e ricos, imprimindo grandes prejuízos ao comércio e indústria (ANDRADE, 1977, p. 107). Essas enchentes foram controladas a partir de obras de retificação e aprofundamento do leito do rio no baixo curso, inclusive no trecho do rio Capibaribe, localizado nas proximidades de Apipucos, e através da construção das barragens no alto e médio cursos, como Tapacurá e Jucazinho. 49O Conde Maurício de Nassau administrou o Recife de 1637-1654, durante o período do domínio holandês (1630-1654) no Nordeste brasileiro. 63 [...] No decorrer do tempo, a fúria do Capibaribe, principalmente, aumentava a cada período chuvoso. A fúria do rio ou dos homens (CAVALCANTI, 1978, p. 49). Lembra Oliveira (1942, p. 39) que, sendo o Egito um dom do Nilo, conforme teria dito Heródoto, o Recife seria uma dádiva do rio e do mar. Dádiva acolhida pelo homem que, oferecendo sua inteligência e seu trabalho, edifica a cidade, nesses bancos de areia, na sua tarefa de colonizador. Afirma Castro (s/d, p. 36), se a “baixada aluvial alteia o colo”, pela ação progressiva da natureza, o homem acelera o processo através de aterros50, drenagens transformados em ação constante “[...] no sentido de dar consistência, o declive, a forma e a extensão mais apropriada à sua ocupação humana”. Ao cenário aquático natural agregava-se, portanto, a vigorosa ação do homem como o último elemento a partilhar a permanente estruturação do Recife. Firma-se ao longo da história da cidade a tarefa de aterrar os mangues e os alagados até os dias atuais. “A planície oferecendo aqui e ali terrenos sólidos e decididamente emergentes do fluxo marinho, não apresentava uma continuidade de superfícies, isentas das influências das marés” (BALTAR, 2000, p. 44). A prática de aterramento em solo recifense gerou conseqüências desafiantes na tarefa do fazer a cidade. Essa prática fomentava cuidado, utilização de técnicas das mais rudimentares às mais sofisticadas, isto porque, sendo o solo do Recife constituído por bacias naturais percorridas por rios, baixios e gamboas, apresenta-se facilmente alagável, resultando para as áreas ribeirinhas problemas de escoamentos das águas pluviais e de esgotamento sanitário. O aterramento das áreas alagadas no trajeto da formação da cidade foi uma ação depreendida tanto pelo poder público como por particulares. Enfrentando as imperiosas condições naturais, e a ela associando-se, a população pobre empreenderia a construção do solo de habitação, conquistado aos mangues. Esse agir requeria esforço, persistência, trabalho exaustivo, realizado em um tempo indeterminado, ou 50Data do período holandês (1630-1654) a prática de construção de aterros, iniciando-se com a formação de um sítio urbano na área primitivamente portuária, aterros que foram sendo conquistados às águas e incorporando espaços de manguezais (BEZERRA, 1965). Essa prática, no decurso da instalação da cidade tornar-se-á recorrente, indiscriminada e contraditória. Os manguezais do bairro da Boa Vista, “[...] foram sendo aterrados nos últimos anos do século XVIII e a primeira metade do século XIX para implantação de habitações”. [...] A primeira metade do século XIX seria marcada pela abertura de ruas quase conquistadas aos mangues, através de aterros feitos pelo poder público e por particulares” (ANDRADE, 1979, p. 85-86). Na segunda metade do século XIX são realizados aterros de grande envergadura como o de Santo Amaro, sendo aí construída a Ponte da Tacaruna para reduzir a viagem entre Olinda e Recife. Por todo o século XX, os aterros são uma constante no solo recifense marcando desde a década de 1920 com o aterro do Derby e prosseguindo nos dias atuais, embora com menor intensidade, uma vez que grandes áreas alagadas já foram encobertas. 64 no tempo em que a lama se transformasse em solo constituído de uma porção firme para acalentar em seu seio os frágeis mocambos. O processo desenvolvido pode ser acompanhado na descrição de moradores do Chié.51 Essa conquista assim se processava: Fomos aterrando, aqueles baldes de lama, aterrando e subindo e fazendo os barracos. Daí a gente plantava aqueles paus, madeiras, colocava até pano pela parede e cobria de palha. Quando a maré enchia, enchia, lá vai a gente, ficava aquela lama. [...] Aqui mesmo tem cinco piso com este. Fomos fazendo os mocambos, até que não que não ficou totalmente aterrado, mas dava para a gente morar. (Depoimento de um morador do Chié. LIMA, 1990, p. 36-37). A precariedade do aterramento manual produzia uma seqüência de repetições no modo de fazer emergir o solo. Utilizavam a denominada técnica da caixa largamente empregada em outras áreas de ocupação de mangue. Atitudes de reciprocidade nas modalidades construtivas propiciavam a troca e a incorporação de técnicas para trabalhar o levantamento do solo, entre os ocupantes do lugar, como expresso na fala de um outro morador do Chié: [...] quando a gente chegou aqui era tudo maré, então minha mãe morava de alugado, mas a gente desejava ter um cantinho para a gente. [...] Aí, a minha mãe fez um lugarzinho, mas quando a maré vinha carregava o barro, aí no outro dia cavava e colocava de novo. Até que um dia um senhor disse: ‘Dona Júlia, compra umas tábuas, cerca todinho e bota barro dentro, que segura52 (Depoimento53 de morador do Chié, LIMA, op. cit., p. 36-37). Os mocambeiros, ao construir o solo, utilizando a técnica de caixa, realizavam um duplo movimento: criavam terras de habitação, em simultaneidade, drenavam os mangues, embora de modo bastante precário. Refúgio, abrigo, canto, ponto de parada foi o ambiente aquático o lugar dos pobres na formação e expansão do Recife. A atração visual, por vezes dengosa, por vezes furiosa das águas, ao deitar seu leito formando os meandros da sua passagem, ao disputar com o homem, ao inferir o lugar 51Essas falas são parte de entrevistas realizadas para pesquisa de Dissertação de Mestrado em 1990, na favela do Chié no Recife (LIMA, 1990, p. 36). O Chié é localizada à margem esquerda da Avenida Agamenon Magalhães, direção norte e última ocupação situada na franja, entre as cidades de Recife e Olinda, reduto de mangue até a década de sessenta do século passado, cuja ocupação pela população pobre, teve início já nos anos vinte. Naquela época, essa ocupação era distante do centro do núcleo urbano. 52A técnica de caixa consistia na construção de um caixão sem fundo, em madeira, ou restos de vegetal do mangue, esse caixão ia sendo progressivamente reenchido, até formar o chão. Desse processo, deriva a expressão “construir o chão”. 53 Depoimento colhido, em 1989, para Dissertação de Mestrado em Serviço Social (LIMA, 1990). 65 do homem no movimento agressivo e sedento, expulsando e acolhendo, cedendo e abocanhando, amaciando e maltratando, fez com que esse elemento líquido, ao partilhar o movimento de construção da cidade com os seus construtores, fosse também profundo e desprestigiosamente danificado e cruel com seus habitantes. Castro (1959, p. 27), ao interpretar as condições de vida dos ocupantes dos alagados, dos mangues, descreve aquilo que denomina de o “ciclo do caranguejo”, afirmando: Tudo aí, é, foi ou está para ser caranguejo, inclusive a lama e o homem que vive nela. [...] O caranguejo nasce nela, e vive dela. Cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fazendo com a lama a carninha branca de suas patas e geléia esverdeadas de suas vísceras pegajosas. Por outro lado o povo vive daí de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo. E com a sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a carne do corpo de seus filhos. [...] O que o organismo rejeita, volta como detrito, para a lama do mangue, para virar caranguejo outra vez. Apontava a gritante situação de vida cotidiana dos habitantes dos mangues. Associava-se à degradada das condições de penúria da habitação, enfrentada pelos habitantes dos alagados, a insuficiência alimentar, e produzia-se um ciclo persistente da pobreza. Chamava a atenção o mesmo autor para as diferenças sociais visceralmente presentes na paisagem do Recife, uma cidade permeada de contrastes. De um lado, as casas crescendo cada vez mais com a distância, até virarem arranhacéus no centro da cidade. [...] De outro lado, as casas diminuindo de altura, ficando cada vez mais baixas com a distância, virando mocambos e latados, até desaparecerem de todo dentro da lama (CASTRO, 1967, p. 69) Dessa forma, no contraste entre pobreza e riqueza no dizer de Castro (1959, p. 13), [...] o Recife é desconcertante, como uma unidade urbana, impossível mesmo de caracterizar. Casas de todos os estilos. Contrastes violentos nas cores gritantes das fachadas. Cidade feita de manchas locais diferentes não há por onde se possa apanhar na fisionomia das casas o tom predominante da alma da cidade”. 66 Oliveira (1983, p. 176-178), ao transformar em poesia o cotidiano dos mocambeiros, demonstra a vida amesquinhada dos moradores dessas áreas. OS MOCAMBOS Sylvio de Oliveira54 ---------------------------- nesses mocambos veras visagens negros sonâmbulos – com o seu teto de palhas secas sobem paredes e o sujo chão só construídos de barro preto barro batido – suor e pranto que se alevantam ----------------------e que depende pra subviver de maré baixa para comer e alimentar-se -----------------------com seus crustáceos no negro lombo à flor da lama desabrochando ------------------------- Conforme enuncia Bezerra (1965, p. 33), a moradia do tipo mocambo fazia-se presente no Recife colonial e holandês, onde “[...] os mocambos já pontilhavam a área alagadiça55”. Tollenare, viajante francês, que aportou no Recife em 1816, registrou, em suas narrativas de viagem, quando aqui esteve, a existência de “cabanas”. Essas cabanas, segundo escreve o narrador, eram habitadas pela população mais pobre. Localizou-as no aterro dos Afogados, situado ao sul da ilha de Santo Antonio, distante a uma légua do núcleo urbano. Esse aterro era formado por uma “[...] planície arenosa e pantanosa coberta de mangues, que servem de refúgio a miríades de caranguejos [...]” E acrescenta: “Há sobre o aterro algumas cabanas feitas de folhagem, nas quais habitavam mulatos e negros livres” (1978, p. 349). Melo (2003, p. 127), em estudo sobre a paisagem do rio Capibaribe, aponta que no final do século XIX, os manguezais também começam a ser ocupados pelas cabanas, confirmando registro de Lira (1996, p. 130), ao assinalar a presença de mocambos, na segunda década do mesmo século. Freitas (1905, p. 50) reafirma essa realidade no início do 54O paraibano, OLIVEIRA, Sylvio de, nasceu em João Pessoa, 1920 In:Presença poética do Recife: crítica e antologia poética. 3. ed. ver. e aum. Rio de Janeiro: José Olympio; Recife: FUNDAPE, 1983, p. 176-178. 55Segundo Bezerra, nessa época, tal área era considerada zona perigosa. Complementa sua observação, cita informes de Arthur Orlando: “Na margem do continente não ousavam pôr o pé, temiam essas terras de aluviões, esses extensos paus e imensos mangues que precedem nossas matas e sertões. Aí esteve o lado fraco do batavo” (apud BEZERRA, 1965, p. 33). 67 século XX ao observar a existência de mocambos em diferentes lugares da cidade, como em “[...] Santo Antonio (ao longo da linha de Limoeiro – estrada de ferro), Feitosa (segundo distrito das Graças) Oiteiro (freguesia do Poço da Panela), e de muitos outros pontos e de áreas alagadas. Esses eram por assim dizer a principal moradia das classes pobres”. Cabe assinalar que a expansão urbana ocorria seguindo os eixos de configuração radial, como pode ser observado na Planta do Recife e seus Arrabaldes de 1870, (Mapa 02) que, aos poucos, iam se adensando e formando núcleos residenciais e nos espaços, ainda desvalorizados moradias dos pobres erguiam-se. Freyre ressalta a diferença entre as moradias da população abastada e a população ao longo do tempo do processo de constituição do aglomerado recifense. Situando o processo de ocupação nas cidades brasileiras, a partir das condições físico-geográficas, o autor confronta Ouro Preto, Olinda e Rio de Janeiro, ao Recife, ressaltando que, nas primeiras, os morros, elevados foram apoderados pelos ricos e jesuítas, em decorrência de sua localização, e lá ergueram casas grandes, igrejas e conventos. Aos pobres restaram: [...] a beira dos lodaçais desprezados e até conservados alguns, aumentando-se-lhes às vezes as propriedades nocivas pela adição jornaleira de dejetos orgânicos. De modo que os casebres e mocambos foram-se levantando, rasteiros pelas partes baixas e imundas das cidades. Pelos mangues, pela lama, pelos alagadiços. Só depois de aterrados esses mangues e esses alagadiços menos por algum esforço sistemático do governo que pela sucessão de casebres construídos quase dentro da própria lama e à beira do próprio lixo, é que os ricos foram descendo dos morros e assenhoreando também da parte baixa da cidade (FREYRE, 2000, p. 211). E acrescenta comparativamente: “No Recife56 os contrastes de espaço não precisaram das diferenças de nível. Impuseram-se de outro modo: pelo contraste entre o solo 56A partir da década de trinta e, mais intensamente, dos anos quarenta do século passado, é desencadeado um processo de ocupação dos morros da Zona Norte do Recife, com foco inicial em Casa Amarela, pela população pobre expulsa das áreas mais centrais do núcleo urbano, se associado esse fato à migração rural-urbana em direção à cidade. Posteriormente, os morros da Zona Sul, entre os anos sessenta, e setenta servem de abrigo aos Conjuntos Habitacionais financiados pelo Banco Nacional de Habitação BNH (1964-1986), sendo as áreas remanescentes, non aedificandi em face da declividade, assim como as áreas verdes e outras destinadas a equipamentos coletivos são progressivamente ocupadas pelos pobres urbanos. Desta forma, o cinturão de morros e colinas, que circundam a cidade do Recife, é na atualidade território dos mais pobres e de uma parcela que acessou ao financiamento do BNH. Para o caso do Rio de Janeiro, cabe também assinalar que as obras de renovação urbana e aterramento de alagados provocaram a valorização desses espaços, expulsando as habitações dos pobres, eliminando os cortiços, e cedendo lugar à ocupação pelos ricos. Assim, os pobres sobem os morros, delineando-os com espaço de habitação. Veja sobre o assunto, entre outros: VAZ, 2002. 68 preciosamente enxuto e o desprezível alagado, onde se foram estendendo as aldeias de mocambos ou casebres de palha” (FREYRE, op. cit., p. 262). Desvelava essa prática disputas entre grupos sociais diferentes pela apropriação do solo no sítio recifense, em particular na parte ocupada pelos pobres, com seus mocambos, nos manguezais. Novamente recorrendo a Bezerra observa-se: Esta vasta zona ficou muito tempo sem interesse comercial ou industrial para a classe privilegiada. Somente muito depois, quando a cidade se foi desenvolvendo e a área sólida diminuindo, é que ela lançou os olhos gulosos sobre a lama e os mocambos. Começa então a expulsar os caranguejos, os siris e os mocambos, sem maiores preocupações que a de aumentar os seus haveres (BEZERRA, 1965, p. 34). Sobre esse ambiente, composto do elemento líquido, pródigo e mesquinho, nasce uma cidade, associada aos desígnios econômicos da descoberta do novo mundo. Como parte integrante da planície as áreas alagadas, os mangues, conforme se pode observar, constituíram-se em morada da população pobre, ficando as partes enxutas da mesma planície destinada aos segmentos abastados, onde se erguiam residências de elevado padrão e de feição palaciana. A origem da destinação do solo e do modo de sua apropriação, discutido no item 1.2 do presente capítulo, são razões explicativas para essa diferenciação que estruturalmente têm determinações no modo de produção e distribuição da riqueza produzida nesse espaço urbano e na sua articulação com o mercado mundial. Estende-se a cidade, valorizam-se as terras, as áreas alagadas. Na transição para o século XX, como mostra a Planta da Cidade do Recife, de 1906, a ocupação era concentrada nos bairros centrais, e nos arrabaldes mais próximos cobertos de manguezais, no entanto, uma povoação expressiva já atingia os bairros de Santo Amaro, Encruzilhada, Espinheiro, Aflitos, Ponte D’Uchoa, Capunga, Madalena, Torre e Afogados. Expansão que vai seguidamente criando condições para a valorização dos locais ocupados por mocambos. Desta forma, os mocambos, localizados em áreas centrais, passavam a incomodar a sensibilidade de administradores, despertavam interesse aos especuladores imobiliários e tornando-se, nessas circunstâncias, imperativo, atribuir-se um destino diverso daquele até então adotado para o uso do chão pelos mocambeiros. Parcelas desses mocambos cedem lugar à expansão da cidade, à abertura de vias públicas e a conseqüente valorização do espaço. Predominam os interesses especulativos e os da administração pública. 69 Percorria a cidade do Recife, desde as últimas décadas do século dezenove, a visão higienista, consolidando-se nas primeiras décadas do século seguinte, através da instalação de novo serviço de saneamento57 da cidade, sustentada em objetivos dos grupos detentores do poder que naquele momento pretendiam “[...] controlar, regular e disciplinar a vida das camadas subalternas, notadamente, através do controle dos elementos e, que estavam estruturada a cidade” (VASCONCELOS, 1998, p. 22), entre o solo, a água e a moradia. Os argumentos sustentados no higienismo e atrelados à modernização prosseguiram nas décadas seguintes, tiveram os efeitos concretos nos anos quarenta na ostensiva campanha pública contra os mocambos, assunto a ser discutido no item 1.5, deste capítulo. Ao referir-se à intervenção do poder público no espaço urbano, nesse período, Bitoun (1990) chama a atenção para o fato de as áreas ocupadas pelos pobres não terem sido consideradas “[...] como planejamento urbano, mas uma excrescência do rural”, se traduzido, dessa forma, como modos biologicamente insatisfatórios e inadaptados à cidade sonhada. Vivenciva-se, então, na cidade, a expulsão dos habitantes dos alagados para os morros, protagonizada pelo poder público. Os morros de Casa Amarela e Beberibe, separados por colinas terciárias (Série Barreiras), (BALTAR, 2000) passaram a abrigar sobre essas colinas e em suas encostas, habitações dos segmentos mais pobres. Esse processo acelerava-se pelo deslocamento da população do campo em direção à cidade, acentuando-se com isso a problemática existente no centro urbano. Vaticinava Andrade (1979, p. 97): “O Recife é, inegavelmente, o grande centro de atração de mão-de-obra não qualificada; não tendo capacidade para absorvê-la, força a sua marginalização, e surgem as favelas nos morros que circundam a cidade e os mocambos nos manguezais ainda existentes”. A política que provocou a ocupação dos morros concorreu para aí se instituir um mercado de terras, direcionado aos segmentos mais pobres da cidade. Esse mercado de terras foi acionado por uma série de articulações e acordos entre o poder político e os proprietários das terras, de modo a permitir a ocupação. Para limpar a cidade dos mocambeiros, conforme intencionava a política de habitação, os morros, áreas consideradas desvalorizadas, distantes do centro urbano, desprovidas de infra-estrutura e de elevada 57Data das primeiras décadas do século XX as obras de ampliação do Porto, a reforma do bairro do Recife e a implantação dos serviços de abastecimento d’água e abastecimento sanitário. Ver sobre o assunto: LUBAMBO, 1991; VASCONCELOS, 1998, 1995. 70 declividade, foram ofertados para povoamento. A prática do “aluguel do chão58”, uma espécie de aforamento, como modo de permissão para a construção da moradia, oficializavase e, assim, produzia-se renda fundiária urbana na terra habitada pelos pobres. A outra modalidade de ocupação dos morros dá-se por meio do sistema de venda do solo, a preços ínfimos, de algumas parcelas esquadrinhadas em pequenas fatias naquele espaço e de pequena monta. A ocupação dessas áreas de topografia acidentada pela população de baixa renda foi seguidamente realizada de acordo com as condições disponíveis por essa parcela da população. Como lembra Silva (2001, p. 2) “Inicialmente, como desbravadores de locais antes inabitados, as primeiras famílias a habitarem o ambiente dos morros foram e são seus reais planejadores e construtores. [...] com a criatividade possível para modelar as encostas [...]”. O adensamento desse espaço será acompanhado dos riscos que se manifestam nos acidentes provocados por quedas de barreira, na erosão, nos deslizamentos. De forma retardada o poder público, só a partir dos anos sessenta inicia investimentos nas áreas dos morros, já bastante ocupadas e, com uma intensa necessidade de infra-estrutura mostrando uma severa defasagem entre à necessidade e ação pública. Essa forma de ocupação do território e de definição do desenho da cidade ensejava e aprofundava as contradições já existentes. O solo construído cotidianamente pelos pobres, ou aquele aterrado pelo poder público destinava-se, sobretudo, às classes abastadas à proporção que a cidade se expande. À população pobre recaía a longa tarefa de arcar simultaneamente com o custo da construção da moradia, fazendo sua habitação, autoconstruíndo e definindo o formato do território para instalá-la. O “aluguel do chão” largamente utilizado em solo recifense se reverterá nos anos subseqüentes, tendo expressiva visibilidade nas décadas de setenta e oitenta do século passado, em intensas lutas encadeadas pela população pobre, para obter a posse da terra de habitação, instigando, em simultaneidade, a mobilização e a organização dos moradores em associações que lhes darão suporte. Os elementos naturais concorreram para condicionar o uso e ocupação das terras recifenses, somaram-se aos fatores determinantes incidindo sobre a apropriação do solo na 58A prática do “aluguel do chão” antecede a ocupação dos morros, sendo adotada em áreas alagadas da planície pelos proprietários de terra, ou por aqueles que detinham a licença de aforamento. Essa prática perdurará até a década de 1980. 71 sua forma secularmente desigual. Os alagados, os morros, em momentos diferentes da ocupação da cidade, eram áreas desvalorizadas, consideradas periféricas de construção mais difícil, exigindo maior esforço para o seu uso. Esses espaços somados a trechos de planície enxuta transformaram-se, ao longo do tempo da ocupação do Recife, em áreas que concentram a pobreza, como pode ser observada a sua distribuição pelo tecido urbano no Mapa 04, Cadastro das Áreas Pobres do Recife, 1998 (2001), no Capítulo 2. Foto 04: Morros Zona Sul – Nova Descoberta Fonte: Aurelina Moura, 2003. Foto 05: Planície - Comunidade do Pilar Fonte: Aurelina Moura, 2002. Foto 06: Palafitas – Coque Fonte: ETAPAS – Recife, 2002. 72 Mapa 03: Distribuição do Território entre Morros e Planície Fonte: Projeto Infra-estrutura para Melhoria da Acessibilidade e Condições de Habitabilidade no Recife Carta Consulta BNDES, agosto 2002. Entre as décadas de 1940 a 1960, os morros recifenses de Casa Amarela, Beberibe e Água Fria acolheram a leva de migrantes, no intenso fluxo migratório,59 registrado nesse período, produzido pelo deslocamento da população advinda do interior de Pernambuco e de longínquos solos nordestinos. As ocupações esparsas seguidamente foram pontilhando os morros, tornando-os adensados nas décadas posteriores, e recobrindo-os de formatos urbanos sem planejamento prévio, mas desenhando no cotidiano através de caminhos, curvas de níveis precárias construídas na declividade da terra. Nova Descoberta, Casa Amarela, Morro da Conceição60, Santa Terezinha, Alto do Pascoal, Alto José Pinho, Guabiraba são 59Ver Capítulo 2, item 2.1 que discute o crescimento populacional do Recife e os pobres na cidade. Morro da Conceição, local tradicional de romaria religiosa. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição foi construída, no alto do morro, no final do século XIX. Hoje, reúne uma multidão de devotos. Sua edificação data da passagem da Maxambomba na linha que se deslocava até Beberibe. Maxambomba é uma “Carruagem de estrada de ferro com mais de um pavimento” (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio Século XXI: o Dicionário da Língua Portuguesa. 3. ed. totalmente revisada e ampliada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999). A primeira linha de maxambomba instalada no Recife começa a funcionar em 1867. A linha se estende até Apipucos em 1878. 60O 73 representantes exemplares das áreas que na Zona Norte integram o cordão de morros. Adicionaram-se a esse processo os morros da Zona Sul, no Ibura, que, na década de sessenta e setenta receberam forte investimento público em conjuntos habitacionais, que, com o passar dos anos, tiveram as sobras dos terrenos resultantes desse investimento incorporado como moradia dos segmentos de mais baixa renda. Posteriormente, e de modo mais raro, as sobras da planície, morros e encostas de colinas passam a ser o lugar dos pobres. 1.4 A LUTA POR HABITAÇÃO: OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO RESISTÊNCIAS E EMBATES NA Inseparável do modo de constituição e expansão do sistema capitalista, a questão da habitação encontra-se aí presente, mesmo considerando as peculiaridades intrinsecamente relacionadas a cada processo de urbanização61 e aos moldes de construção das habitações (RIBEIRO, 1997). No capitalismo, ressalta o autor, a precariedade da habitação deve manterse constante até torná-la uma mercadoria rentável para o investimento imobiliário, à semelhança de outros setores produtivos. Não obstante, existem dificuldades para essa mercadoria situar-se no mesmo patamar das demais, relacionadas a fatores como: a instalação da grande indústria no urbano e o intenso deslocamento populacional campo-cidade, que provocaram o reordenamento do espaço construído, além das singularidades da produção da habitação. Na produção da habitação, sobressai o papel do proprietário da terra urbana que busca assegurar renda, obstaculizando e criando barreiras aos investimentos em habitação, em razão dessa renda dificultar, ainda que, parcialmente, o lucro projetado. Retomando a Engels (1979), percebe-se que o autor, na sua interpretação analítica, procurava demonstrar que a questão da habitação resultava da própria dinâmica da sociedade capitalista. Para os capitalistas, nesse caso, interessava manter a situação de penúria de moradia, uma vez que esta situação assegurava a dominação sobre o operariado. Contudo, argumenta Ribeiro, (1982), existem obstáculos não analisados por Engels relativos à valorização do capital, envolvidos na produção de moradia, a exemplo da propriedade privada da terra que, de um lado, não pode ser criada pelo capital e, de outro, seu monopólio 61A análise de Ribeiro (1997) assenta-se na questão habitacional do Rio de Janeiro, que emerge no impulso da indústria manufatureira do final do século XIX. Ver VAZ (2002) sobre habitação como instrumento de modernidade no Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX e início do século XX. 74 é uma condição para a produção; a inexistência de uma demanda solvável, ou seja, a falta de correspondência entre o valor da moradia e salário do trabalhador. Assim, a solução residiria na transposição desses obstáculos. Novamente recorre-se a Ribeiro, (1997) quando destaca que a formação do mercado imobiliário, sustentado no capital incorporador imobiliário residencial, interfere na produção e regulação do espaço, tendo o autor como referência a cidade do Rio de Janeiro. Essa formação esteve marcada pela participação de diferentes agentes: os proprietários fundiários, o capital de incorporação, o capital de construção, o capital financeiro, o sindicato de trabalhadores da construção civil, os trabalhadores em geral. Nesse mercado, o Estado tem um papel decisivo nos diferentes momentos de construção e apropriação da cidade, inclusive quando incorpora à dinâmica urbana economias externas, instalando serviços públicos e valorizando o solo. Sendo a intervenção do Estado imprescindível, deveria pautarse, portanto, pela adoção de alternativas racionais de distribuição da riqueza socialmente geradas. Nessas circunstâncias, a questão da habitação, conforme afirma Blay (1979, p. 77), “[...] e, em particular, da habitação popular, não decorre de um simples desequilíbrio entre a carente oferta de imóveis e uma vasta população consumidora, mas é um complexo problema com dimensões sociais, econômicas e políticas”, atrelado aos determinantes e condicionantes da renda da população e a própria lógica de produção do urbano. Por esse prisma, utilizando-se das palavras de Ribeiro, (2001, p. 46) pode-se dizer que: O solo urbano, portanto, traduz a existência de uma luta social por usos diferenciados, que ganha contornos mais claros quando se considera que, possa ser também esse solo terra de habitação, os mecanismos econômicos e jurídicos que geram remoção, localização diferencial e controle implicam a segregação social e espacial de amplos segmentos da população [...]. A problemática da habitação, com forte rebatimento sobre os segmentos de mais baixa renda na formação social urbana do Recife, gera um campo de luta, embate e resistência como alternativa de instalação dos pobres e garantia de sua permanência na cidade. Afigura-se essa problemática de modo expressivo no processo de ocupação de terras 76 ou explicitando as desigualdades presentes no urbano. Mas, igualmente, essa pressão caminha silenciosamente avançando na progressiva ocupação do território, estendendo-o com novas moradias, e, em anos mais recentes, multiplicando a verticalização e assumindo formas precarizadas de coabitação. O termo resistência deixa perpassar a idéia de um outro a quem se dirige o ato de resistir. Implica uma relação de forças em oposição. Diz das ações que podem assumir tons de confrontos, violências, ou ainda exprimir um agir aparentemente passivo, lento, desdobrando-se, gradualmente, persistente, estruturado em estratégias e táticas que, por ora, surgem ostensivas e, por ora, manifestam-se quase surdas, ou até mesmo quase invisíveis. Resistir corresponde à negativa do ceder. Entretanto, a resistência incorpora, muitas vezes, formas diversas de negociação, processo de ida e vinda que, embora possam sugerir a idéia de recuo que na vida cotidiana representam, sobretudo, avanço e campo de conquista. Lançam mão de estratégias e de táticas variadas na insistente busca de avanço para suas conquistas. De Certeau (1994), discutindo no âmbito da Geografia do espaço vivido as práticas cotidianas, as estratégias e táticas, entende que elas incorporam modos de agir dos pobres que delas se munem para realizar o avanço e o domínio, impondo-se na ocupação do território. Na acepção de De Certeau, as estratégias corresponderiam ao cálculo das relações de forças desencadeadas pelo sujeito, no confronto entre querer e poder na busca de um lugar, como suporte estruturador da gestão de suas relações com diferentes exterioridades. Nas palavras do autor, a Estratégia é: [...] o cálculo das relações de força que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder é isolável de um ‘ambiente’. Ele postula um lugar capaz de seu circunscrito como um próprio e, portanto, capaz de servir de base a uma gestão de suas relações com uma exterioridade distinta (DE CERTEAU, op. cit. p. 46). Enquanto a tática, [...] diz respeito à ação calculada que não pode contar com um próprio, nem portanto com uma fronteira que distingue o outro como totalidade visível. A tática só tem por lugar o do outro [...] Ela não dispõe de base onde capitalizar os seus proveitos, preparar suas expansões e assegurar uma independência em face das circunstâncias (DE CERTEAU, op. cit. p. 46) 77 Dessa forma, a tática seria “[...] emanada pelo sujeito ordinário que, sem dispor de base para capitalizar seu proveito e preparar suas expansões, assegurando sua independência em face das circunstâncias, recorre ao jogo dos acontecimentos para os transformar em ocasiões”. Refere-se “a arte de fazer o cotidiano”. O poder das práticas cotidianas ordinárias obedece a uma “inversão e subversão” dos mais fragilizados frente aos mais fortes, deixando passar a idéia de submeter-se às “expectativas do conquistador” exprimem-se em sentido figurado, e com isso alteram “[...] a ordem dominante fazendo funcionar as suas leis [...]” (DE CERTEAU, op. cit., p. 13-16). No aglomerado recifense, alguns traços característicos do movimento de ocupação de terras urbanas, resistência, luta por terra de habitação e permanência na cidade podem ser observados tomando-se como referência o período em discussão. Dessa feita, percorre-se um tempo demarcado pela agir individual de ocupação de terras mais centrais ao núcleo urbano, ou em seus arrabaldes ajuntados paulatinamente ao tecido urbano. Esse agir transformou-se ao longo do tempo em processos organizativos, ora sucedendo-se entre fases e momentos de maior vigor, ora em períodos de recuo ou de fragilidade, manifestando-se de múltiplas formas. Formas que, mesmo revestidas de precariedades, asseguram a permanência na cidade. O agir individual engendrava ocupações rarefeitas, dispersas no território, apressando-se e ganhando força ao transpor o século XX, instigada pelo fim da escravidão e pela profunda alteração da atividade do campo, como visto no item 1.1, deste Capítulo, desdobrando no afluir da população para a cidade, com tendência a concentração. Nesse contexto, os mangues, os alagados tornam-se o porto seguro das habitações dos pobres, ocupadas ao ritmo da alternância da maré, ou erguendo habitações tipo palafita. O agir alicerçado em formas organizativas compreende e aparece nas lutas operárias, através das associações de bairros, através da presença e do apoio de partidos políticos e da Igreja Católica. Desponta na ocupação dos espaços alagados, nas terras planas ou em áreas de morros. Surge incorporando e apoiando a luta por redução dos aluguéis, pela posse e legalização da terra, pela infra-estrutura para melhorar o habitat. Nasce nos múltiplos recortes das encostas, tornando-as lastro para receber a casa, erguendo as moradias através de processos autoconstrutivos e no formato do possível. Ocorre de modo mais amplo através de articulações entre associações de bairros, federações, representação conjunta de entidades populares, setores 78 da cidade utilizando-se de sistemática de pressão mais alargada e definida. Abarca as ocupações incluídas na articulação com entidades de âmbito local e nacional, num sistema de combate aberto evidenciado, nas ocupações coletivas em terras urbanas. Incide nos feitios das ocupações, via subdivisão de lotes e da casa, na superposição dos andares, na reconfiguração do espaço da habitação assentando a moradia nas áreas verdes, nos taludes, enfrentando o risco do desabamento das encostas. Os diferentes momentos do processo de ocupação não se colocam de modo estanque, entrelaçam-se e correspondem a momentos históricos diferentes à premência por habitação. Dizem respeito à necessidade imediata de um lugar para morar e, nesse sentido, buscam ultrapassar os obstáculos em face da concretização das estratégias de luta. No Recife, a luta por terra de habitação e moradia deixa transparecer, de modo mais contundente, as diferenciações de classe presentes no tecido urbano. As formas de resistência encontram-se presente na sucessão de embate entre forças sociais diversas nas práticas urbanas recifense. Se os alagados, os mangues compuseram, nos momentos iniciais de evolução desse núcleo, o colo acolhedor das habitações precárias, quando esses ainda não haviam sido incorporados aos interesses especulativos e da expansão da cidade, a ocupação desses espaços verdes enlameados iria perdurar no decurso do século vinte. No correr desse século, a expulsão da população de áreas alagadas tornou-se evidente por intermédio da ação do poder público tanto realizado pela esfera federal como pela municipal e pela estadual (a ação pública de habitação no período em apreço será abordada no item 1.5 deste Capítulo), e por particulares proprietários ou pseudoproprietários das terras. Mostram as informações levantadas que, no Recife, a questão da moradia é focalizada pela Federação Operária de Pernambuco, em 1914, ao inserir entre suas reivindicações a construção de casas operárias e o congelamento dos aluguéis. Tratava-se de um período de grande efervescência das lutas operárias nesse núcleo urbano (SOUZA BARROS, 1985; CAVALCANTI, 1978). Assumindo características diversas, as lutas dos segmentos sociais por habitação aparecem na resistência ao pagamento do “aluguel do chão” aos proprietários das terras, ou seus foreiros. Uma situação que ficava patente no Censo dos Mocambos de 1939, ao indicar 19.486 mil mocambos, portanto 42.75% (TABELA Nº 04, Capítulo 2) submetidos ao pagamento do terreno, mesmo sendo próprio o mocambo. O centro dessa luta embora 79 dirigida ao aluguel do chão, se ampliava ao voltar-se também para o aluguel da moradia do tipo mocambo que, conforme extraído da mesma fonte, o número dessas habitações alugadas era representado por 19.514 mil, correspondendo a 42.8% do seu universo. Em paralelo a essas lutas, a ocupação de terras urbanas foi uma constante. Situando-se no tempo e procurando analisar a intensidade do conflito, Moura (1990, p. 71115) avalia entre 1916-50, no Recife, as ocupações como “quase mansa e pacífica”. Naquele momento, não havia respaldo legal para a indenização do mocambo em caso de expulsão. Existia um conflito latente com o proprietário que emergia quando este decidia expulsar os ocupantes de suas terras. Cabe registrar que as ocupações também se faziam por intermédio do estímulo dos proprietários ao pretender valorizar suas terras, auferir lucros fundiários e ter seu espaço, em grande parte alagados, aterrado. A partir dos anos 40, e estendendo-se por mais três décadas, o fluxo migratório para a cidade tornou-se intenso (assunto abordado no Capítulo 2). Acirrava-se ainda mais a problemática da habitação. As terras ocupadas passam a valorizar-se. Data desse período a agressiva investida pública de expulsão dos mocambos, registrada entre os anos 1939-1945. Os dez anos seguintes apontaram para uma continuidade das ocupações, mas dirigidas principalmente às terras públicas, já que as terras privadas passaram a contar com sistemática vigilância por parte dos seus proprietários. Ao mesmo tempo, houve maior tolerância do governo local com as ocupações. Para nos primeiros anos de 1960 instituir-se uma postura de negociação por parte do governo com os proprietários privados, quando da ocupação de terras, incentivando as organizações, instigando formas participativas o que ocorre no governo de Miguel Arraes de Alencar à frente da Prefeitura do Recife (1960-1962), e no governo de Pernambuco (1963-1964) (MOURA, 1990, p. 82). A expulsão sem a ausculta da população volta a ser uma tônica no período da ditadura, enquanto a força organizativa arrefece. No período em discussão, diferentes organizações populares constituem-se reunidas em Associações de Bairro. Provavelmente a mais antiga, como informa Bezerra (1961, p. 41), seja a Liga Mista dos Proprietários Pobres da Vila de São Miguel, no bairro de Afogados, firmada com propriedade jurídica em 1931, agregando 280 associados. Cabendo destacar que essa entidade já existia desde 1929, denominada de Sociedade a Bem da Nossa Defesa. Nome bastante sugestivo e indicativo das lutas enfrentadas. 80 Outras sociedades62 e organizações foram progressivamente sendo criadas situadas no contexto dos embates, reivindicações por terra de habitações e estruturando tática de permanência no território. Os estatutos aparecem bastante assemelhados entre si. Assim, traziam em comum elementos voltados para uma politização da questão da moradia, ao dizer: [...] as sociedades congregam todos os proprietários de casas e mocambos existentes na localidade que lhes dá o nome e têm por finalidade precípua a defesa dos interesses e direitos que esses mesmos proprietários têm sobre os seus próprios, ante qualquer Juiz, tribunal ou Instância, Repartição Pública e Autarquias”. Que, “[...] todo sócio renuncia em favor da sociedade e para fim exclusivo de procuradoria e representação os seus direitos de posse sobre o imóvel e chão em que está construído a sua benfeitoria” e, também, a sociedade [...] poderá estender a sua finalidade a beneficência, recreação, ensino, literatura e cultura física”. Ainda: “[...] poderão ser sócios todo cidadão ou cidadã de qualquer nacionalidade que possuir imóvel no Território da sociedade” (BEZERRA, 1961, p. 42-43). Esses estatutos desvelavam um expressivo conteúdo de resistência dos associados, organizando-se contra o perigo iminente de ação do Estado, ou dos proprietários ou foreiro das terras. Tornava-se patente o choque de interesse entre proprietários e ocupantes de terras aprofundando as lutas. Instiga processos organizativos a junção dos pobres nos morros da Zona Norte, do Recife, nos morros de Casa Amarela, a partir dos anos 30, quando foram deslocados de áreas alagadas mais centrais da cidade. Na base desse processo, a problemática habitacional, particularizada no acossamento dos segmentos populares pelo pagamento do “aluguel do chão”, a constante ameaça de expulsão, a ausência de infra-estrutura e condições adequadas de habitabilidade. Sustentava-se a instalação nesse novo espaço no tripé: consentimento dos proprietários, articulação do governo de Estado e premência dos segmentos pobres na busca por moradia (CÉZAR, 1992), como já expresso no item 1.3. Essa ocupação progressiva dos morros processou-se a partir de articulações de um conjunto de fatores, envolvendo 62Organizam-se: a Sociedade Defensora dos Proprietários do Largo dos Pescadores, na Estrada dos Remédios, fundada em setembro de 1948; a Sociedade Defensora da Ilha do Maruim, em Olinda; a Associação Defensora de Brasília Teimosa, fundada em 2 de março de 1952; a Liga Camponesa da Iputinga, em 1946; Associação Defensora do Bairro da Iputinga, na década de 50 e a Associação dos Moradores do Bairro de Bomba Grande, em 1962 (OLIVEIRA, 1994, p. 15); a Liga 21 de Abril, localizada em Santo Amaro, entre outras tanto em Recife quanto em Olinda. 81 interesses diferentes e convergindo para o acesso à habitação pelos pobres e o acesso à cidade. A força dessa ação estatal no período do Estado Novo sufocava as possibilidades de uma reação vigorosa dos segmentos populares. Mesmo já contando com entidades organizativas, não dispunha, naquele momento, de condições objetivas para um enfrentamento sistemático com o poder público. A organização dos moradores de Casa Amarela, reduto de áreas pobres, é, o resultado gerado pela força de expulsão, cristalizando a constituição de associações, passando mais tarde, nos anos oitenta, a constituir-se em Federação63. O contingente populacional aí instalado constrói um movimento de resistência que aparece na luta pela supressão do pagamento ao “aluguel do chão”, redução do valor dos aluguéis, posse da terra, da terra para construir sua moradia e nela permanecer. O movimento organizativo dessa área cresce, mas é sufocado, nos anos sessenta, pela ditadura militar, ressurge com força na segunda metade dos anos setenta, quando a ditadura arrefece. Encampa o movimento “Terras de Ninguém”, localizado nessas terras, envolvendo mais de 15.000 mil famílias. Esse movimento articula-se num processo de reaglutinação das organizações existentes no entorno daquele pedaço de chão, anterior a 1964, ampliando com a junção das organizações das diversas localidades situadas nos limites dos morros de Casa Amarela. Terras com expressivo conjunto de moradias autoconstruídas de modo espontâneo. Expressivamente, a luta por terra de habitação e sua legalização toma impulso e progressivamente cresce na cidade do Recife, a partir da segunda metade dos anos de 1970. “Terras de Ninguém”, denominação indicativa da plena ironia dos moradores do lugar, frente à documentação jurídica questionável dessas terras, apresentada pelos proprietários, na visão dos seus ocupantes. A resistência gerou, como conseqüência, a legalização da posse da terra nos anos oitenta. Somando-se a tantas lutas, a busca de infraestruturas, a partir dos anos sessenta, o que se tornará uma constante, em face da demanda por tais serviços. Trata-se de um agrupamento de localidades que apresenta riscos permanentes de desabamentos de barreiras. Situação agravada em decorrência de essas terras terem sido ocupadas por habitação sem o tratamento apropriado, pela existência de novas ocupações, ou, ainda, pelo desgaste decorrente do uso cotidiano. Significando dizer o quanto 63Em 1983, foi criada a Federação de Casa Amarela congregando aproximadamente 30 Conselhos e Associações de Moradores. 82 se encontra incorporado de energia da população pobre, para assegurar sua presença na cidade e ter aceso à habitação. Na história urbana recente do país, a cidade tem exercido um forte papel político, que contribui para indicar a diferenciação social que caracteriza o modo de produção e circulação da moradia, a gestão do solo urbano e acesso aos equipamentos de uso coletivo, indispensáveis à reprodução social. No curso da história recifense, os embates travados no acesso à habitação e à cidade inserem-se no cotidiano da população pobre. As desigualdades, as lutas, a resistência, o lugar que ocupa na cidade, no espaço urbano, espelham e sintetizam diferenciações sociais conformadas e perpassadas através de séculos. Reafirmam a permanente disputa entre classes sociais, confrontando interesses diferentes de atores sociais diversos. Entendendo-se que as camadas populares são modeladoras do território e fincam sua presença na cidade. Isto ocorre, mesmo estando ausente, na cidade capitalista, um lugar para os pobres. E no caso da sociedade brasileira, a situação acentua-se em face de sua constituição estar estruturada na desigualdade, sendo, dessa forma, a ausência do lugar para os pobres, resultante da imbricação de processos sociais, políticos e econômicos que envolvem a relação também campo-cidade. Assim, as formas de ocupação do território da cidade pelos segmentos populares e a prática da autoconstrução da moradia podem ser entendidas também como expressão de resistência. 1.5 A AÇÃO PÚBLICA NA HABITAÇÃO Na atmosfera das formas de organização operária, nas primeiras décadas do século XX, é organizada, no Recife, A Casa Operária. Formas manifestas até 1910 através de organizações mutualistas que passam a assumir uma postura de organização política. A resposta do governo caracteriza-se pela repressão e prenúncios de cooptação, como no governo de Dantas Barreto (1911-1915) (MELO, 1982). Greves contra impostos, prisões de operários marcaram o período que se alongou até a década de 1920 (SOUZA BARROS, 1972; CAVALCANTI, 1978). 83 A Diretoria de Saúde e Assistência, criada na gestão prefeito Sérgio Loreto (19221926), sinaliza para a primeira iniciativa, ainda, incipiente de instituição de uma política social em Pernambuco. Assume a diretoria Amaury de Medeiros criando os Refeitórios Populares, em Santo Amaro, a prestação da assistência jurídica ao acidentado do trabalho, o Escritório de Collocações (bolsa de trabalho), além de organizar A Fundação Casa Operária, instituída em 1924, através da Lei 1.651 (MELO, op. cit., p. 246). No entendimento deste autor, o conjunto de medidas configurava “[...] uma ruptura no papel do Estado, ao nível da ‘Questão Social’ que, até então, era entendida como caso de polícia [...]”. Com recursos doados ao Departamento de Saúde e Assistência destinados aos flagelados da cheia de 1924, pela Associação Comercial Beneficiente e juntando recurso do Estado, foram construídas quatro Vilas Operárias. Assumia a política governamental uma postura clientelista tornada transparente durante as inaugurações quando falavam os representantes dos operários e o Presidente da Fundação. Antecedera essa experiência à construção de uma Vila Operária pela Prefeitura do Município do Recife, em uma atitude voltada para a questão dos mocambos que apareciam e cresciam no espaço citadino. Embora isolada, a idéia foi bem aceita pelos trabalhadores que passaram a incluir a habitação como elemento de pauta e de reivindicações dos trabalhadores por intermédio de suas organizações. A Fundação A Casa Operária atuou de forma restrita, sendo obscurecida pela Campanha Contra o Mocambo, fortemente desencadeada durante o Estado Novo. Antecede, no entanto, ao conjunto de medidas adotadas pelo Estado Novo, contra o mocambo, um debate64 na década de 1930 sobre a questão do mocambo. Ocorre esse debate no conjunto das idéias modernizadoras, de projetos, de ações e de repressão política do interventor em Pernambuco Carlos de Lima Cavalcanti (1930-1934). Tratava-se de uma questão já reconhecida nas estatísticas por ocasião da realização do Recenseamento do Recife, em 1913, sendo contabilizado 16.347 mocambos, de um universo de 37.735 unidades habitacionais da cidade. A atmosfera que circundava o debate envolvia o discurso da higienismo e limpeza iniciada no século anterior, nos países europeus, e bem absorvida nas condições objetivas da cidade do Recife com suas áreas alagadas povoadas de mocambos e de degradadas condições 64Ver sobre o assunto BEZERRA, 1965, entre outros. 84 de vida, e que instigava a discussão sobre as condições sanitárias de saúde dessas áreas. Mas, sobretudo, associava-se à visão higienista e de modernização da cidade a perspectiva preconceituosa e do olhar das elites sobre esse tipo de habitação. Estavam instaladas nas proximidades de suas habitações herdadas da atividade agroaçucareira e industrial e com elas contrastavam. Assim, o mocambo incomodava os grupos instituídos na cidade. A Política de Habitação do interventor Agamenon Magalhães (1937-1945), em Pernambuco, apresentava um discurso voltado para o acesso à habitação da população pobre, mas, na prática, dirigia-se a uma limpeza da cidade. Daí a necessidade de extinguir os mocambos. Pode-se pensar que a Política Habitacional de Agamenon Magalhães coroava um conjunto de idéias dominantes, no Recife, sustentadas no higienismo e na ideologia que operacionalmente focalizava-se no mocambo. Como mostra um relatório de Freitas65 (1979, apud MELO, 1985, p. 224), elaborado, em 1909, que admitia ser impossível a cidade do Recife permanecer mais tempo com a presença dos mocambos Assim se refere, [...] constituem infelizmente um dos maiores defeitos desta cidade as habitações da população proletária. Os mocambos e cortiços são uma ameaça constante à saúde pública. Sem conforto e sem a mínima observância dos preceitos higyênicos, a pobre gente que os habita, concorre com avultadíssimo contingente para o aumento da mortalidade e as suas condições de vida constituem um perigo sério para a parte da população mais favorecida da fortuna. Analisando com lucidez esse movimento de expulsão dos mocambos das áreas alagadas, Bitoun (1990) esclarece que [...] o crescimento populacional que se acelera no fim do século [...] leva essas elites a operarem uma não muito sutil transferência do higienismo biológico para um higienismo social. A expressão mais radical é a remoção dos mocambos que ocupam os mangues da periferia do centro urbano, empreendida durante o governo do interventor Agamenon Magalhães na virada dos anos 30 a 40 desse século. A ação decisiva do interventor traduz-se na criação da Liga Social Contra o Mocambo-LSCM, em 12 de julho de 1939, quando foi oficialmente constituída como órgão executor da política oficial de habitação, no período de 1939 a 1944. Antecede a essa decisão a realização do Censo dos Mocambos, em 1938, e que daria suporte às ações do novo órgão. 65FREITAS, Otávio de. Um século de Medicina e Hygiene no Nordeste. In Livro do Nordeste. (Org.). FREYRE, Gilberto. Arquivo Público Estadual. p. 29-35, 1979. 85 Com o Censo, tornava-se definitivamente reconhecida nas estatísticas a questão dos mocambos. Já eram 45.581 mil mocambos, espalhados pelo território da cidade. No discurso, o interventor defendia, com base no direito natural, o direto de que todo cidadão deve ser proprietário de um imóvel. Esse discurso balizou a proposta da Liga de construção de casas para os habitantes dos mocambos. O projeto inseria a construção da casas para substituir os mocambos e de casas para os operários sindicalizados através dos Institutos correspondentes. Seguiu-se à divulgação do projeto uma intensa campanha doutrinária desenvolvida pelo Departamento de Saúde Pública, que tem com conseqüências práticas a interdição de uma soma expressiva de mocambos, desdobrada na expropriação paulatina dos mocambos (PANGOLFFI, 1984). Visto como conseqüência e não causa, os mocambos deveriam ser extraídos da cidade. Essas causas explicariam as profundas desigualdades econômicas, nas quais estavam assentadas as relações entre os diferentes grupos sociais existentes em Pernambuco e no Recife. E, assim, as ações da LSCM eram dirigidas por uma sistemática atitude de derrubada, perseguição e restrição do espaço citadino na construção desse tipo de habitação. Funcionava a Liga com recurso de doação dos empresários, associações de classe, de entidades e de particulares, agregando-se recursos do governo. O envolvimento financeiro de diferentes grupos era também indicativo de que as idéias contra os mocambos e situadas no campo ideológico do interventor contavam com uma vasta soma de aliados. Esses aliados estavam representados pelos grupos dominantes, entre os quais a Igreja, centrado no pensamento conservador, porém embalada pela busca de amenizar a situação de miséria vivida por expressiva parcela da população recifense. Diz Resende (2002, p. 116): “Era o lado social do Estado Novo, que contava com influência e atuação da Ação Católica e suas idéias de conciliação política e negação da luta de classes”. Lembra ainda que o secretariado constituído pelo interventor era formado por jovens66, em sua maioria oriundo do curso de Direito e vinculado à Congregação Mariana. Exerceu uma ação controladora sobre os sindicatos e organizou centros educativos operários. Difundia suas idéias por meio de periódicos67, por ele criados, para essa finalidade. 66Após o período da interventoria, integrantes da equipe de Agamenon Magalhães iriam fazer carreira política no Estado, como Paulo Guerra, João Roma, Etelvino Lins, Edson Moury Fernandes, José Francisco de Melo Cavalcanti, com ligações com o futuro Partido Social Democrática. 67O interventor Agamenon Magalhães fundou os jornais: Folha da Manhã e Folha da Tarde, veículos que difundiam o pensamento político-ideológico do Estado Novo. 86 Agia o interventor no sentido de recobrir com um mesmo manto duas faces da moeda. Organizava as “paradas da produção”, apresentadas como passeatas “espontâneas” de operários e patrões que percorriam as ruas da cidade, no dia do trabalho, em 1º de Maio. Teatralizava o Estado Novo cenas de uma “paz social” inexistente, da ausência de lutas de classes. Isso ocorria sob o manto da ‘legislação social mais avançada do mundo’. Diz Cavalcanti (1978, p. 179): Era de ver-se, nesses desfiles, os Britos, da fábrica de doces de Pesqueira, marca peixe, de mãos dadas com esquálidas trabalhadoras, os Bezerra de Melo ombro a ombro com seus pobres operários têxteis da Macaxeira, todos em estado de unção, empertigados, quando a banda de música da Polícia Militar tocava os hinos patrióticos. Assim se comemoravam os Primeiros de Maio, bem como a passagem do aniversário do golpe de 10 de novembro. Adotava a Igreja Católica uma atitude dócil, submetia-se ao jogo do Poder, abençoando as obras do ‘Estado Novo’ e participando com seus ‘congregados marianos’ da cúpula governamental. Os quatros anos de existência da Liga Social Contra o Mocambo registram a demolição de 12.433 mil moradias do tipo mocambo, construindo em substituição apenas 5.415 mil novas habitações. Adicionava-se ação pública de derrubada dos mocambos os impedimentos legais, definidos através do governo municipal por decreto68 assinado pelo Prefeito do Recife, Novaes Filho (1937-1945), que proíbe a construção de mocambos nas zonas urbanas e suburbanas e definindo o tipo de material da construção a ser utilizados nas novas habitações, quando construídas diretamente pelas pessoas. Determinações que acirravam as dificuldades de acesso à habitação, à terra e à cidade. A conseqüência da política de habitação para a cidade aparece na reorganização do espaço provocada pela expulsão dos mocambeiros das áreas alagadas mais centrais. Isso gera uma forte valorização nos espaços desocupados, criados, a partir de então, passaram a ser apropriados pelos investimentos imobiliários e pela expansão da cidade. Também, ao retirar os mocambeiros dos alagados, patrocina o Estado a abertura de novas fronteiras de ocupação em direção aos morros de Casa Amarela e de Beberibe que passam a receber sistematicamente a população pobre que adentra a cidade do Recife, empurrada pelo fluxo 68O Decreto-lei nº 49, publicado no Diário do Estado/Diário dos Municípios Ano XV de 21 abril de 1938. Seguiram-se outros Decretos-lei nº 50, 109, 121, de 1938, e 181, e 186 de 1939. Resumo assinado pelo Prefeito Novaes Filho. 87 migratório. Para o novo ambiente, ainda por desbravar, dirigia-se parcela da população ocupante dos mangues, instalando suas moradias sem que o novo território dispusesse de um tratamento apropriado à finalidade habitacional. Esse movimento de ocupação de novas fronteiras, como mencionado anteriormente, integrou uma ação articulada com os proprietários das terras de morros, do Estado e da população premida pela necessidade de moradia. Além do que, um outro desenho urbano passa a compor a fisionomia da cidade. Ocorre, com a execução da política, um descompasso entre a quantidade de mocambos derrubados e a substituição por outro tipo de habitação, por intermédio de políticas públicas. As alternativas de habitação que se apresentavam apontavam para a ocupação de novos territórios para moradia, efetivando-se a autoconstrução de uma outra habitação, o aluguel de uma habitação, ou ainda, a coabitação temporária. Encerrado o período da interventoria, a Liga Social Contra o Mocambo perde força, deixa de contar com o apoio dos segmentos organizados, no período de pós-guerra, na campanha contra os mocambos. E, a partir de 1945, transformou-se em Serviço Social Agamenon Magalhães, uma autarquia estadual que conserva estutariamente os mesmos propósitos da Liga. Passa então a atuar de forma mais definida para os segmentos vinculados aos Institutos e a Caixas de Pensão. O sistema de locação que utilizava é suprimido em 1959 (MELO, 1982). Expressiva alteração no Serviço Social Agamenon Magalhães ocorrerá com a mobilização política no Governo Arraes (1962-1964). Como resultado desenvolve-se a experiência de Cajueiro Seco, definindo uma nova forma de relação entre o Estado e os segmentos populares. É levada a efeito, nessa área, sob a Coordenação do SSAM, a experiência de autoconstrução de moradias em taipa, numa ação conjunta com a população atendida. Uma população que havia ocupado os Montes Guararapes, sítio histórico de Jaboatão. Tornou-se essa uma experiência diferenciada em termos de prática de Política Habitacional no país. Utilizando a experiência de “ajuda mútua dirigida” (MELO, 1982, p. 281). Observa-se no período em discussão uma estreita ação do Estado no provimento de habitações para a população mais pobre. Dadas as condições enfrentadas por essa parcela da população, no que se refere aos fatores determinantes e condicionantes do acesso à habitação, é possível pensar na intensidade dos processos autoconstrutivos empreendidos 88 para ter acesso à moradia. Presente em todo o processo de formação e expansão da cidade do Recife, a autoconstrução será acelerada, a partir dos anos trinta do século XX e, mais intensamente entre os anos quarenta e sessenta do século passado, o afluir da população do campo para a cidade, como modo de assegurar a sua permanência na cidade. No longo tempo, a demolição das habitações executada sob o patrocínio da administração pública, no Recife, traz como conseqüência a destruição de parcela da cidade autoconstruída. Tais habitações integravam um ambiente construído, onde as condições de moradia eram precárias e o habitat, de baixa qualidade – áreas alagadas e alagáveis, baixios enxutos e margens de canais. Ao deslocarem-se para os morros, renovam um ciclo de construção das moradias, independentes da ação do Estado. Esse processo produziu um ambiente construído, ao longo do traçado em expansão, vulnerável a situações de risco permanente, com baixa qualidade habitacional. Contexto que estimulou a autoconstrução em áreas privadas, ponto de lutas futuras pela legalização da terra. Em síntese, a intervenção do poder público no território gera transformações nos espaços ocupados pelos pobres, expulsando-os, empurrando-os para áreas mais distantes. Com essa ação, o Estado valoriza terras privadas pelos caminhos que compõem a configuração do espaço recifense, impondo limites ao acesso à habitação pelos segmentos pobres, ao mesmo tempo em que propicia as condições que fomentam lutas pela posse da terra urbana. Os antigos lugares ocupados pelos pobres passam a incorporar alto valor imobiliário. O território usado, praticado pelos homens pobres (Capítulo 2), cede lugar a outros usos, seja para a abertura de vias públicas que ampliou o território urbano, seja para a construção de moradias dos segmentos abastados, ou, ainda, para a instalação de atividades econômicas e serviços públicos. Bairros crescem através de habitações autoconstruídas pelos segmentos de baixa renda. A problemática da habitação da população de mais baixa renda no Recife tem suas raízes entranhados na estrutura e no sistema de produção dominante que atua como fatores determinantes no acesso à habitação. A frágil, ou quase totalmente ausência de ação do poder público, no provimento da habitação para os segmentos, acentua a vulnerabilidade do acesso à habitação e repassa para a responsabilidade das famílias o seu provimento. CAPÍTULO 2 A CIDADE: POBREZA, HABITAÇÃO, TERRITORIALIDADE Percorre-se, neste capítulo, a discussão sobre interpretações analíticas lastreadoras do debate teórico que converge para o eixo de estudo selecionado para esta Tese. Essa discussão propicia elementos essenciais ao alargamento da compreensão das informações empíricas levantadas e, igualmente, têm essas informações rebatimentos capazes de aprofundar os aspectos formulados na concepção teórica. O debate aqui expresso aponta para um entendimento sobre a problemática habitacional na cidade e, neste sentido, trata-se de pobreza e exclusão social, assinalando-se a questão social e a reprodução social. Reúnem-se dados que permitem traçar um quadro de análise histórica sobre a problemática habitacional na cidade do Recife, estreitamente relacionada a condições de pobreza de parcela significativa de seus habitantes, de acesso ao solo urbano e à habitação. Aborda-se a noção de territorialidade como uma contribuição à reflexão analítica a respeito do acesso à habitação pelos segmentos populares, entendendo-se que as diferentes territorialidades, o território usado, o território praticado conformam o tecido urbano. Destaca-se o debate intelectual e acadêmico sobre a temática da autoconstrução de moradias, suas raízes, as posições críticas e as possibilidades aventadas, num embate entre a institucionalização de uma prática surgida no interior das camadas populares e, posteriormente, abarcada pelo Estado, para implementação de políticas públicas para os pobres. Trata-se da autoconstrução de moradias na formação urbana recifense apresentando o quadro identificado e formulando-se indagações sobre os processos adotados. 90 2.1 POBREZA E EXCLUSÃO SOCIAL O processo de urbanização do país aviva um somatório de contradições em que uma das faces visíveis traduz-se em contingentes de desempregados, subempregados ou indivíduos com baixos níveis de remuneração na cidade. A compra e venda da força de trabalho é um aspecto central das relações capitalistas. Estas relações estabelecem por um lado os limites da sobrevivência de grande parcela da população, e, por um outro, fortalecem a acumulação que, por sua vez, gera uma crescente pobreza. Essa pobreza não é restrita à distribuição de renda, mas atinge a totalidade da vida (IAMAMOTO, 2001). Compreender as questões imbricadas nessa relação e, sobretudo, a questão da pobreza, requer entendê-la em sua dimensão geral e justaposta aos seus aspectos particulares. A intensa e estável composição do contingente de pobres, nos grandes aglomerados, reforça, de outra maneira, os argumentos de que a questão da habitação1 não deriva exclusivamente de um desequilíbrio entre escassez e oferta de moradias e de desproporcionalidade frente à população demandante, mas integra múltiplas e complexas determinações manifestas nas contradições produzidas na constituição do urbano. Tratada e absorvida socialmente como mercadoria, a habitação torna-se um bem de difícil acesso, pela via do mercado, para os pobres. A produção da habitação envolve custos elevados para as camadas populares urbanizadas e situadas no patamar de fragilidade econômica - desemprego, subemprego, trabalho precário. Isso induz a indagar a importância e o papel do Estado como suporte e fomentador do acesso à moradia, para os segmentos populares. A resposta do Estado brasileiro a essa questão tem sido débil, através das políticas públicas e sua exígua oferta, frente à realidade existente. Nessas condições, as favelas, os assentamentos populares, os loteamentos clandestinos, as moradias autoconstruídas impõem-se na mancha urbana como alternativa de acesso à habitação, no que pesem as precárias condições que recobrem essas territorialidades. Instalam-se contornando a regra das formas capitalistas2 de produção de habitação 1Sobre o assunto ver: Engels (1979), analisando a situação da classe trabalhadora na Inglaterra. O autor aborda a questão da habitação como um problema insolúvel nas sociedades capitalistas; Castells (1983), e situa a crise permanente da habitação como única forma de viabilizar o mercado imobiliário. 2Diversas são as formas utilizadas na produção de moradia. A produção capitalista realiza-se pela via do incorporador, da promoção pública e semipública, pelo pequeno promotor, pelo autopromotor e o loteador. Como mercadoria, a habitação diferencia-se de outras mercadorias pela multiplicidade de elementos que abarca: a terra disponível para esse 91 (AZEVEDO e RIBEIRO, 1996; LAGO e RIBEIRO, 1996; RIBEIRO, 1997). Isso remete a pensar sobre a questão social que, na realidade brasileira, tornou-se emergente3 no momento em que o operariado ingressa na cena política, em suas disputas por direitos trabalhistas, exigindo, particularmente, frente ao Estado, o seu reconhecimento como classe. A questão social, conforme afirma Iamamoto (2001, p. 16-17), referenciada na teoria social de orientação crítica4, [...] diz respeito ao conjunto das expressões das desigualdades sociais engendradas na sociedade capitalista madura, impensáveis sem a intermediação do Estado. Tem sua gênese no caráter coletivo da produção, contraposta à apropriação privada da própria atividade humana – o trabalho –, das condições necessárias à sua realização, assim como de seus frutos. É, portanto, uma questão de caráter estrutural determinada pelo crescimento da força de trabalho, ou melhor, que se dá em decorrência da expansão capitalista. As relações aí presentes se alteram em face do aperfeiçoamento dos meios de produção, da ampliação da produtividade do trabalho social, que supera a da população trabalhadora. Em conseqüência, essa relação produz uma acumulação de miséria relativa à acumulação do capital. As disparidades econômicas, políticas e culturais envolvem classes sociais, grupos raciais e formações regionais. O que significa dizer que o cenário5 atual de reestruturação da economia e de redução das obrigações sociais assumidas pelo Estado concorre para agravar a exploração e a pobreza, em razão da degradação das condições de trabalho e perda de direitos alcançados por lutas sociais, impondo fortes rebatimentos negativos sobre as condições de moradia de uma parcela expressiva da população. Apropriada de forma diferenciada, em uma sociedade de classe, a riqueza fim, o requerimento de investimento de capital por longo tempo, a necessidade de instalação de equipamentos urbanos e serviços coletivos (RIBEIRO, 1997). 3Antes de 1930, a questão social no Brasil era tratada como questão de polícia. Ver, sobre o assunto, CERQUEIRA FILHO, 1982. 4Outras abordagens da questão social, na sociologia urbana, empreendem uma discussão vinculada à “disfunção” ou à “ameaça” da ordem e da coesão social. 5Para Chesnais (1997, p. 7), o final deste século revela: “A angústia vivida pelas grandes massas, praticamente no mundo todo, vem da constatação pela classe operária, a juventude e as massas oprimidas, da degradação acelerada das suas condições de existência: ressurgimento e permanência do desemprego, precariedade das condições de existências primárias, de destruição da proteção social, ressurgimento da fome ou, mesmo onde não há fome, novas epidemias, novas decadências tanto individual quanto social, arrogância das classes possuidoras e de uma sociedade que volta a ostentar a riqueza de uns aos olhos de todos os que não têm nada”. 92 socialmente produzida gera, no seu extremo, pobreza e exclusão social. Pobreza e exclusão social, na acepção de Yazbeck, expressam a questão social6, cujos pilares estão assentados em uma sociedade de classes que realiza, de forma profundamente desigual, a apropriação da riqueza socialmente produzida. De base estrutural, essa questão, mesmo se metamorfoseando, não encontra solução “[...] numa formação econômica social por natureza excludente”. Na contemporaneidade, os efeitos se fazem sentir nas “[...] transformações das relações de trabalho”; e, na “[...] perda dos padrões de proteção social dos trabalhadores” (YAZBEK, 2001, p. 33). Martins (1989, p. 99) trabalha com a idéia de exclusão7 integrativa. De acordo com a análise que empreende, a exclusão8 configura um paradoxo, ao implicar forma de inserção na vida social; indicando, por um lado, uma não participação e, por outro, uma restrita partilha da riqueza produzida pelo conjunto da sociedade. Esse fato pode ser explicado, conforme sua interpretação, através da teoria da superpopulação relativa que tem 6Diferentemente das autoras acima, Pereira (2001) indaga sobre a existência de uma questão social nos dias atuais. Isto porque a questão social, conforme sua análise, perdeu o seu caráter histórico e dialético em face da ausência de forças sociais que a formulem. A autora considera que “[...] o conceito de questão social sempre expressou a relação dialética entre estrutura e ação, na qual sujeitos estrategicamente situados assumiram papéis políticos fundamentais na transformação de necessidades sociais em questões”, de modo que fossem apreendidas pelas agendas públicas e arenas decisórias. E pergunta se seria essa uma questão latente. Acrescenta: “[...] por falta de forças sociais com efetivo poder de pressão para fazer incorporar na agenda pública problemas sociais ingentes, com vistas ao seu decisivo enfrentamento, entendo que temos pela frente não propriamente uma ‘questão social’ explícita, mas uma incômoda e complicada ‘questão social’ latente [...]” (PEREIRA, op. cit. p. 51-52). O desemprego estrutural que vem ampliando-se nos dias de hoje produz o esvaziamento da sociedade salarial e traz no seu esteio “[...] perda do poder de pressão e de contra-regulação dos sindicatos, o desmantelamento dos direitos sociais e o aumento da pobreza relativa e absoluta” (PEREIRA, op. cit., p. 52). Considera, ainda, a autora que “os problemas sociais – tal como aconteceu com a alienação do trabalho e a pauperização do proletariado que, no século XIX, esteve na base da questão social – são produtos da mesma contradição que gerou essa questão, mas que, contemporaneamente, ainda não foram suficientemente politizados”. Daí o fato de que “[...] a questão social não é sinônimo da contradição entre capital e trabalho e entre forças produtivas e relações de produção que geram desigualdades, pobreza, desemprego e necessidades sociais – mas, de embates políticos, determinados por essas contradições” (PEREIRA, op. cit., p. 54). 7Martins (1989) confere à categoria exclusão o status de noção. O mesmo autor assinala que o termo é examinado a partir de duas orientações interpretativas em oposição – uma orientação conservadora e uma outra transformadora – muito embora sejam pertinentes à mesma situação histórica e social. Ainda sublinha: “O discurso sobre a exclusão é o discurso dos integrados, dos que aderiram ao sistema, tanto à economia quanto aos valores que lhe correspondem. Dificilmente se pode ver nele um discurso anticapitalista, embora ele certamente seja um discurso socialmente crítico” (MARTINS, 2002, p. 31). Ver sobre o assunto o texto: Reflexões críticas sobre o tema da ‘exclusão social’ In A sociedade vista do abismo: novos estudos sobre exclusão, pobreza e classes sociais (MARTINS, op. cit., p. 21-47). 8Adotando outras linhas de abordagem sobre exclusão social, ver: Castel (1998), a partir de uma análise sobre a crise da sociedade salarial, considera que o termo abriga diferentes significados referentes a pessoas e grupos situados na condição de abandono, desfiliação; Paugam (1999) apreende o termo relacionando-o aqueles desqualificados, deixados de lado, tanto do mercado de trabalho como das políticas sociais; Veras (1999) ocupa-se de uma busca de síntese da origem do termo, do seu emprego e do debate, em diferentes décadas, nos Estados Unidos, na Europa, sobretudo o pensamento francês, na América Latina, no Brasil e sua correlação com o termo pobreza; Nascimento (1994) volta-se para uma discussão comparativa entre a exclusão social no Brasil e na França; Wacquant (2001) focaliza a desigualdade urbana nos guetos americanos, na banlieue francesa; Oliveira (1997) interroga se os excluídos existem, dentre outros. 93 como elemento central a “criação de excedentes populacionais úteis”. Cria-se um duplo movimento: a exclusão do trabalhador do processo de trabalho capitalista, e a sua inclusão no processo de valorização do capital, por meio de formas indiretas de subordinação. Por conseguinte, “[...] parece haver uma dupla vitória do capitalismo: enquanto modo de inserção social [...] e enquanto interpretação abrandada das contradições do capital e dos problemas sociais [...]” (MARTINS, 2002, p. 19). Na ótica do autor, a exclusão é o indício vivo de uma transformação social desencadeada com intensidade e que conduz os seres humanos a uma situação de seres descartáveis. Nessas circunstâncias, a propalada sociedade da integração alicerçada no contrato e na igualdade passa para a linha da “[...] sociedade da incerteza e do medo. [...] o medo de se tornar ninguém e coisa alguma, de ser descartado e banalizado, o medo daquilo que não se vê” (MARTINS, op. cit., p. 20). Mesmo existindo uma próxima correlação entre exclusão e pobreza, Martins (op. cit., p. 21-47) chama a atenção para a necessidade de não reduzi-la à pobreza material, pois seria minimizar a sua interpretação. Com esse norte, amplia a perspectiva analítica ao afirmar: [...] a pobreza de fato excludente é apenas o pólo visível de um processo cruel de nulificação das pessoas, descartadas porque já não conseguem submeter-se à contínua ressocialização que delas faz apenas objeto de um objeto, instrumento de um processo social de produção de riqueza que passou a usar as pessoas como se elas fossem apenas matéria-prima da coisa a ser produzida, como se fossem objeto e não mais sujeito. Ainda Martins (2002, p. 46) admite que: “A categoria ‘excluído’ pressupõe um mundo social estável e enrijecedor”. Essa interpretação relega a planos secundários o fato de que “a sociedade contemporânea é essencialmente a sociedade da luta contínua contra todas as modalidades de exclusão, não só as que se materializam na pobreza visível”. O alinhamento de tais elementos circunscreve possibilidades de alteração da realidade em face às contradições existentes. Um outro aspecto, destacado pelo autor, refere-se à idéia de a exclusão absorver a visão de uma sociedade acabada, o que, aliás, não existe. Também considera que esse acabamento não seria apreendido por todos, assim, “[...] aqueles que sofrem de privação seriam os ‘excluídos’ ”. Mas, como a sociedade é um processo contínuo de estruturação e 94 desestruturação, sublinha Martins (op. cit., p. 46): “[...] é nesse âmbito que as rupturas, aquilo que se chama exclusão, são reparadas, espontânea e continuamente”. Acrescente-se que o processo de empobrecimento e marginalização na contemporaneidade encontra-se em constante atualização e renovação. Amplia-se nos mais distintos recantos dos países pobres, nas regiões pobres dos países ricos, além de ocorrer nos espaços ricos dos países pobres. A sua resultante está espelhada nas formas de ocupação do espaço urbano e nas precárias condições de moradia9 dos pobres e no constante desafio de habitar a cidade. Nos anos recentes, o cenário vislumbrado não é dos mais promissores para as regiões periféricas, uma vez que aponta para uma acentuação das desigualdades sociais, produzindo restrições ao acesso à habitação. Sinaliza o aprofundamento da problemática habitacional, afetando de modo extensivo os segmentos populares dos grandes aglomerados e regiões metropolitanas brasileiras. Aumenta o número de favelas, adensam-se as favelas existentes através da subdivisão do terreno, acentua-se o sistema de coabitação, crescem as ocupações em áreas de risco, registra-se uma maior difusão da pobreza. Quadro que se torna mais complexo em razão do encolhimento da capacidade da população de mais baixa renda de prover a própria moradia, enquanto, do outro lado, o poder público retrai as formas de enfrentamento da problemática habitacional, reduzindo as políticas públicas de acesso à moradia. A omissão do Estado, ou a sua tímida atuação, define o conteúdo social de sua presença na moldura de degradação social visível. Reafirma-se, nessas circunstâncias, um Estado de cunho conservador, sem responsabilidade por políticas democratizantes. Trata-se, portanto, de uma problemática relacionada à produção e à reprodução da vida social como um todo, ainda que guarde especificidades. Neste sentido, seguindo a linha reflexiva de Iamamoto (1982, p. 72)10, 9A conexão interna entre a riqueza e a pobreza que caracteriza o modo de produção capitalista nem sempre aparece como evidente, no entanto, isto não ocorre, de acordo com Marx (1987, p. 764), em relação à questão habitacional. E expressa: “Qualquer observador desprevenido percebe que, o amontoamento correspondente de trabalhadores no mesmo espaço e, portanto, quanto mais rápida a acumulação capitalista, tanto mais miseráveis as habitações dos trabalhadores”. 10Veja sobre o assunto Lefebvre (1977, p. 225). Para este autor a “[...] reprodução das relações sociais de produção incide sobre a totalidade, sobre o movimento desta sociedade no nível global”. Sua construção analítica é baseada no conceito chave de modo de produção (capitalista) proposto por Marx, que designa “o resultado das relações de antagonismo: ‘salário/capital’, ‘proletariado/burguesia’. Estas relações sociais não entram na prática da sociedade burguesa, a não ser através de formas que as sustêm e a mascaram [...] ” (LEFEBVRE, op. cit., p. 220). Esclarece que estas se manifestam na forma contratual – o contrato de trabalho – que de modo ilusório une pontos opostos. O efeito desse processo é 95 [...] reprodução das relações sociais é a reprodução da totalidade do processo social, a reprodução de determinado modo de vida que envolve o cotidiano da vida em sociedade: o modo de viver e de trabalhar, de forma socialmente determinada, dos indivíduos em sociedade. Para a autora, a reprodução das relações sociais de produção abrange a reprodução da força de trabalho e os meios de produção, considerados como processos substantivos e indispensáveis do processo de trabalho, porque não diz respeito somente à [...] reprodução material no sentido amplo, englobando produção, consumo, distribuição e troca de mercadorias. Refere-se à reprodução das forças produtivas e das relações de produção na sua globalidade [...]” envolve “[...] também, a reprodução da produção espiritual, isto é, das formas de consciência social [...] através das quais se toma consciência das mudanças ocorridas nas condições materiais de produção”. E, “Nesse processo são gestadas e recriadas as lutas sociais entre os agentes sociais envolvidos na produção, que expressam a luta pelo poder, pela hegemonia das diferentes classes sociais sobre o conjunto da sociedade (IAMAMOTO, op. cit., p. 72). As contraditórias relações de classes inerentes à sociedade capitalista fomentam tensões, confrontos, fortes conflitos e resistências, e ampliam-se em direção à produção e à reprodução social, no sentido de ultrapassar, agravando-as. Essas relações, desencadeadas no espaço urbano, tornam-se visíveis na luta cotidiana, miúda e constante, por moradia, e nas precárias condições de habitação. O item seguinte visa percorrer a problemática habitacional recifense ao longo do século XX, fazendo uma leitura, calçada em dados disponíveis, sobre a dimensão e a extensão das áreas pobres. 2.2 O QUADRO DA POBREZA E A PROBLEMÁTICA HABITACIONAL RECIFENSE A cidade do Recife ostenta, em sua trajetória histórica, direções oscilantes entre riqueza e pobreza11. As condições de moradia conformam parâmetros diferenciadores e traduzido em um arcabouço de definições jurídicas, ideológicas absorvedoras de relações antagônicas e sintetizadas nas instituições políticas na ciência, na cultura, nos valores, no modo de ser e agir na cotidianidade. 11Santos (1978) indaga: “Pode-se definir a ‘pobreza’ ”? A questão é indicativa das implicações que envolvem o termo. 96 desvelam a fotografia da desigualdade. Recife integra a região Nordeste, a mais pobre do país. Essa região “[...] manteve praticamente a participação no número12 de pobres no Brasil (38.5% em 1970; 39.0% em 2002), em um período de trinta anos” (ROCHA, 2004, p. 8). Entretanto, no que concerne à distribuição da renda local “[...] a concentração é a maior no Nordeste que no país” (MEDEIROS, 2004, p. 8). A extensão desse fenômeno está estampada na precariedade da moradia de fração expressiva da população, tornando-se possível constatar a sua dimensão e extensão ao acompanhar informações levantadas no decorrer do século vinte. No ano de 2000, o Recife soma uma população de 1.442.905 habitantes como demonstra o Censo Demográfico (IBGE), ocupando um território 218.7km² (IBGE). Os domicílios particulares permanentes totalizavam 376.022, sendo que o acesso à educação para 191.088 pessoas responsáveis por esses mesmos domicílios limita-se ao primeiro grau incompleto; enquanto 42.11% do universo dos responsáveis pelos domicílios particulares permanentes percebem até dois salários mínimos13, e 10.70% apresentam-se sem rendimentos. Outro indicador mostra que o rendimento médio mensal, inferior a R$ 350,00 (trezentos e cinqüenta reais), é percebido por 51% dos responsáveis pelos domicílios particulares permanentes, em quarenta e sete bairros da cidade, do total de noventa e quatro bairros. O Cadastro14 de Áreas Pobres da Cidade do Recife, realizado em 1998 (PCR/FADE, 2001), indica a existência de 42115 áreas pobres16, no território da cidade, Aspectos de ordem política, econômica, social, moral concorrem para interpretações analíticas diversas que se alteram ao longo de décadas, propiciando concepções distintas, contornos mais ou menos acentuados e debates variados. Rocha (2003) chama a atenção para a complexidade do fenômeno, as diferentes questões contidas na conceituação de pobreza e as dificuldades para encontrar os elementos apropriados capaz de mensurá-la. A autora expõe e discute dados relacionados com as desigualdades sociais e a pobreza no país. Mostra que “A discussão sobre pobreza como a conhecemos hoje se iniciou nos países desenvolvidos, após a euforia da reconstrução do pós-guerra, e representou um alerta aos cientistas sociais envolvidos com a problemática da sobrevivência de grupos desprivilegiados em resposta ao discurso essencialmente triunfalista dos políticos. Tratava-se de alerta para situações de privações onde as questões de sobrevivência física não estavam em jogo” (ROCHA, 2003, p.11). Romão (1992) assinala as questões envolvidas na mensuração da pobreza e ocupa-se em analisar o conceito operacional de pobreza mais pertinente e as suas possibilidades de aplicação. Martins (2002) discute alterações na concepção de pobreza. 12Informações obtidas a partir de microdados da PNAD e do Censo Demográfico/IBGE (ROCHA, 2004). 13No período do Censo Demográfico–FIBGE (2000), o salário mínimo era de R$ 151,00 (cento e cinqüenta e um reais). 14Utilizando metodologia diferente daquela adotada pelo Cadastro de Áreas Pobres da Cidade do Recife, realizado em 1998, o IBGE catalogou 73 favelas, em 2000. Segundo essa fonte, em sendo considerada a relação entre a dimensão territorial e o número de favelas, a cidade ocupa, dentre os municípios do país, o sétimo lugar. Transportadas, para a dimensão regional, o número de favelas, nesse aglomerado, situa-se apenas atrás de Fortaleza, que detém 156 favelas. Todavia, observando-se a lista nacional por município, o Recife assume o décimo quinto lugar no conjunto nacional (Jornal do Commercio, Caderno Cidades. Título da matéria: “Uma favela a cada 2,9km²”. Recife, 14 de janeiro de 2001). É importante ressaltar a definição de favela pelo IBGE para a coleta e análise dos dados do Censo de 2000: “[...] 97 classificadas e distribuídas em área: pobres (20.19%), muito pobres (63,42%) e áreas críticas (16.39%). O conjunto dessas áreas agrega um contingente estimado em 659.076 habitantes, conforme se observa na TABELA Nº 01, ou seja, 46.32%17 do total da população citadina, demonstrando, assim, a amplitude18 do fenômeno. A renda média dos chefes de família, nos registros desse cadastro, apresenta-se inferior a 1 salário mínimo em 49 áreas, atingindo em 296 áreas entre 1 e 2 salários mínimos e somente em 76 áreas superava os 2 salários mínimos. As áreas pobres reúnem 154.28019 moradias, e respondem por 40.92% das edificações da cidade, de um universo de 377.070 unidades habitacionais. conjunto constituído por mais de 50 unidades habitacionais, ocupando ou tendo ocupado, até período recente, terreno de propriedade alheia (pública ou particular), dispostas em geral, de forma desordenada e densa; e carentes, em sua maioria, em serviços públicos essenciais”. O ponto de partida metodológico utilizado por essa instituição enseja indagações e reflexões. Ou seja, estabelecendo a relação entre condições de habitação e pobreza cabe pensar que a urbanização de tais áreas é insuficiente para sanar outros fatores que persistem a posteriori, como a dimensão da unidade habitacional e o número de cômodos, as condições da habitação, a renda da família, o nível de acesso à educação. Além do mais, a metodologia aplicada nos Cadastros e os mapeamentos locais sugerem uma leitura ampla e mais condizente com a diversidade da realidade da cidade. 15Do total de áreas das 421 áreas pobres registradas, nesse Cadastro, duas áreas Arlindo Gouveia (Madalena) e João Holanda (Torre) foram removidas, em 2004, do local de origem, através do Programa Habitat-Brasil/BID, para apartamentos localizados no bairro da Torre; e, outra, Vila do Vintém II, foi deslocada para apartamentos no bairro do Cordeiro, em 2005. 16O Cadastro das Áreas Pobres do Recife, realizado em 1998, pela URB-Recife/FADE (2001), utiliza a terminologia área de pobreza para designar o lugar da pobreza. Considera Áreas Pobres ou Assentamentos Populares: os assentamentos “precários” passíveis de remoção; os assentamentos “precários” passíveis de serem absorvidos pela malha urbana, os reassentamentos e as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS). Tais áreas caracterizam-se pela ocupação desordenada, infra-estrutura insuficiente, irregularidade em relação à propriedade da terra ou, ainda, às definições de uso conforme a Lei de Uso e Ocupação do Solo do Recife (Lei nº 16 176/96). Foram consideradas áreas de pobreza os assentamentos que reúnem no mínimo 10 moradias. A atualização das informações baseou-se na pesquisa: “Assentamentos Populares do Recife: cadastro e mapeamento” (PERNAMBUCO, 1990), e definiu premissas para subsidiar a gradação da pobreza nas localidades. A definição da pobreza inclui: renda, educação, saúde e condições físico-ambientais, ampliando os elementos necessários à compreensão do fenômeno. Incorpora conceitos sobre habitat e define as variáveis de referência. A matriz dos graus de pobreza compreende os aspectos: 1 – socioeconômicos: renda, educação e saúde; 2 – físico-ambientais: padrão construtivo, existência de melhoria urbana e configuração urbana. Complementa informações que dão suporte à Hierarquização dos Assentamentos Subnormal do Município do Recife, em 2001. Hierarquização, pautada, ainda, nas recomendações do Plano Estratégico Municipal de Assentamentos Subnormais – PEMAS, elaborado no âmbito do Programa Habitar-Brasil–BID para o Município do Recife (URBRecife, 2001). Definiram-se três faixas de carências: Áreas pobres - aquela situada na linha de pobreza; Áreas muito pobres - abaixo da linha da pobreza e Áreas críticas em substituição à formulação inicial que as definia como áreas miseráveis e classifica-as como aquelas em condições miseráveis de vida. 17O percentual foi calculado tendo por base a população do Recife, em acordo com o Censo Demográfico do IBGE, 2000. 18O período utilizado para a discussão sobre a problemática habitacional recifense e sua relação com a pobreza abrange um tempo longo – quase 100 anos – e baseia-se em fontes diversas. Utiliza metodologias, concepção, conceituação variada, até mesmo para uma mesma fonte, por vezes em face do aperfeiçoamento no modo de coletar os dados. A pluralidade de fontes impõe limites às possibilidades comparativas. 19O cálculo estimado das unidades residenciais é realizado a partir de ortofotocarta, que pode apresentar falhas pelo fato de deixar de registrar os correr de quarto, as casas dispostas sob um mesmo telhado e a verticalização. 98 TABELA Nº 01 NÚMERO DE HABITANTES, UNIDADES HABITACIONAIS E HECTARES OCUPADOS PELAS ÁREAS POBRES RECIFE - 2001 UNIDADE TERRITORIAL ÁREAS POBRES MUNICÍPIO DO RECIFE* HABITANTES UNIDADES HABITACIONAIS Nº ABS. % ÁREA (HA) Nº ABS. % Nº ABS. % 659.076 46.32 154.158 40.92 3.357 15.26 1.422.905 100 377.070 100 22.000 100 Fonte: Cadastro de Áreas Pobres da Cidade do Recife, 1998 (2001), PCR/URB-FADE/UFPE. *IBGE - Censo Demográfico, 2000. Trata-se de uma situação persistente no tempo. Como mostram os dados do Cadastro de 1998 (2001), 90% das áreas pobres, (MAPA 04) distribuídas na malha urbana, têm mais de 10 anos de existência, enquanto as demais não ultrapassam esse tempo de existência, sugerindo que tais áreas, ou seja, as de origem mais recente, foram ocupadas após o Cadastro20 dos Assentamentos Populares (1990), realizado dez anos antes. MAPA 04 Cadastro de Áreas Pobres da Cidade do Recife - 1998 (2001) LIMITE DO MUNIC ÍPIO LIMITE DE RPA/MR RIOS ÁREAS de Ba ixa Rend a Fonte: URB-Recife/FADE. Considerando a ocupação por hectares, de acordo com a topografia do 20 Os dados desse Cadastro foram coletados em 1998. 99 aglomerado, TABELA Nº 02, os morros com 57.59% apresentam primazia no abrigo das áreas pobres, em quantidade de hectares, sobre a planície e os alagados, respectivamente com 37.37% e 5.04% em hectares ocupados (CADASTRO DE ÁREAS POBRES DA CIDADE DO RECIFE, 1998 [2001]). Dados oriundos do Censo Demográfico de 1991 (IBGE) apontam para aproximadamente 400 mil pessoas habitando os morros do aglomerado urbano recifense, o que representa cerca de 1/3 da população citadina. A situação torna-se diferente ao observar-se a distribuição das áreas no território a partir das mesmas variáveis, mas considerando-se distribuição da população entre planície, morros e alagados. Nesse caso, é a planície que desponta com 57.96% do universo das áreas pobres, ficando os morros com 33.73% e os alagados com 8.31%, como mostra a TABELA Nº 03. TOTAL % TABELA Nº 02 HECTARES OCUPADOS POR ÁREAS POBRES SEGUNDO A TOPOGRAFIA.RECIFE-2001 MORRO PLANÍCIE ALAGADO 1.933,54 1.254,55 196,05 57.59 37.37 5.04 TOTAL 3.357,14 100 Fonte: Cadastro de Áreas Pobres da Cidade do Recife, 1998 (2001), PCR/URB-FADE/UFPE. A distribuição espacial das áreas pobres, segundo a topografia da cidade, TABELA Nº 03, indica que 142 áreas localizam-se em morros, espalhadas em 1.933,54ha, TABELA Nº 02, e respondem por 57.59% do território das áreas pobres; 244 áreas cadastradas estão dispostas em 1.254,55ha na planície, ou seja, 37.37% dos hectares ocupados por áreas pobres; e 35 áreas localizam-se em alagados, 196,05ha, o que representa 5.04% dos espaços das áreas pobres. Registra-se uma espécie de migração, de deslocamento forçado, empurrado pela dinâmica da cidade, pela ação do poder público e pelo mercado, para os morros. Situação iniciada na década de 1940 e progressivamente ampliada. TABELA Nº 03 DISTRIBUIÇÃO DAS ÁREAS POBRES SEGUNDO A TOPOGRAFIA RECIFE - 2001 LOCALIZAÇÃO NÚMERO DE ÁREAS POBRES PLANÍCIE MORROS ALAGADOS TOTAL 244 142 35 421 % 57.96 33.73 8.31 100 Fonte: Cadastro de Áreas Pobres da Cidade do Recife, 1998 (2001), PCR/URB-FADE/UFPE. Interessa observar que, em relação aos alagados, a situação é bastante diversa 100 daquela existente nas primeiras quatro décadas do século vinte, quando as terras emergentes das águas, os lodaçais dos mangues cediam lugar à construção das habitações do tipo mocambos (Visto no Capítulo 1). É só a partir dos anos trinta do século passado que os morros progressiva e extensivamente passam a absorver os pobres da cidade, fato que, por um lado, resulta de um translado compulsório, por ação pública e, por outro lado, por acolher aqueles que para o urbano afluíam, deslocados do mundo rural. A facilidade de ocupação dessas terras dá-se, particularmente, pela ausência de atração do lugar, distante do núcleo urbano central, para os segmentos mais abastados, somando-se ainda o interesse dos proprietários do solo em auferir lucros com o “aluguel do chão” para moradia, transformando, assim, o solo em capital fonte de renda. Além do mais, a intensidade dos aterros, no núcleo urbano, foi modificando a topografia do território e transformando antigos espaços alagados ou alagáveis em espaços de planície enxuta. Esses espaços foram objetos constante de apropriação pelos segmentos abastados e seus proprietários, na seqüência do processo de valorização do solo, das medidas de expansão urbanísticas implementadas pelo poder público e do crescimento da cidade. Não é desprezível, também, o fato de o número mínimo de 10 habitações ser considerado pelo Cadastro de 1998 (2001) como área pobre, reconhecendo a pulverização da sua distribuição pelo território plano, enquanto os morros absorvem áreas contíguas, formando um cinturão denso de áreas pobres. Mas informações do documento “Assentamentos Populares21 do Recife: cadastro22 e mapeamento” (PERNAMBUCO, 1990) mostram que os morros da Zona Norte e Noroeste da cidade, embora contenham 40% do universo das moradias em assentamentos populares no Recife, é a planície que, entre 1975 e 1990, (Mapa 05) tem maior expansão. Enquanto, em 1975, eram 60.6% os assentamentos em áreas de morro, contra 39.45% na planície, no ano de 1990 a situação revela-se em estado de equilíbrio; fato esse relacionado ao 21O termo “Assentamentos Populares... abrange a noção de ‘Mocambos’, ‘Favelas’, ‘Assentamentos Sociais de Baixa Renda’, e outros, que vem caracterizando, ao longo do século, os locais de moradia da população pobre do Recife” (PERNAMBUCO, 1990, p. 39). Para efeito da pesquisa são considerados “Assentamentos Populares aqueles que reúnem as seguintes características: assentamentos ‘precários’ passíveis de remoção; os assentamentos ‘precários’ passíveis de serem absorvidos pela malha urbana, os assentamentos ‘precários’ em processo de urbanização, os assentamentos de promoção governamental resultante de uma remoção – ‘reassentamentos’. O estado precário caracteriza-se pela ocupação desordenada das habitações, carência de infra-estrutura física e/ou irregularidade do assentamento quanto à propriedade do solo, as condições de uso previstas na Lei de Uso e Ocupação do Solo como padrão para a cidade do Recife. [...] as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), pela Lei de Uso e Ocupação do Solo da Cidade do Recife – nº 14. 522, de 1983” (PERNAMBUCO, 1990, p. 28-29). 22Cadastro realizado em 1988 e publicado em 1990 (PERNAMBUCO, 1990). 101 fenômeno das ocupações consignadas em vazios urbanos existentes, naquele período, no interior do aglomerado recifense. Mapa 05: Áreas de Morro e Planície, 1990. Fonte Cadastro Assentamentos Populares do Recife, 1990 apud IPEA 2002. O mesmo documento cataloga um total de 484 assentamentos populares, portanto, 63 acima dos constantes no Cadastro de 1998 (2001). Esse registro, longe de significar uma redução da pobreza, tem explicações na expansão de certas áreas pobres, anteriormente delimitadas, que, na configuração seguinte, compuseram um mesmo assentamento, assim sendo documentado, a exemplo de Roque Santeiro, fruto de uma ampliação dos Coelhos; a área do Espólio de Estevinho23, edificada em um espaço vazio do Coque. 23A área do Espólio de Estevinho corresponde a subárea da ZEIS Coque e refere-se a uma quadra na confrontação da Rua Realeza em formato retangular medindo 10.462,50m², e no ano de 1999 era ocupada por 306 moradias onde viviam 1.176 pessoas. 75 no espaço citadino que, no transcurso da história, assume diferentes feições e manifesta-se também na moradia habitada pelos segmentos populares. Desenho: O Despertar dos Mocambos. Fonte: CASTRO, Josué de. Documentário do Nordeste. São Paulo: Editora Brasiliense, 1959. O Recife é tributário da tradição de lutas urbanas por terra de habitação e por moradia, há quase um século. Lutas açodadas pela restrição ao seu acesso ao solo examinado no item 1.2 deste Capítulo. Caracterizaram-se essas lutas por um ato cotidiano individual e progressivo, ou despontaram contundente e coletivamente. Variações de uma música de uma nota só que se apresentaram disfarçadas, ou ganharam visibilidade através da pressão exercida em diferentes contextos político-ideológico, socioeconômicos, em diversos momentos da dinâmica urbana recifense. Tal pressão em certos instantes parece sombreada pelo arrefecimento, porém mantém-se estrategicamente articulada ao pulsar da problemática habitacional dos pobres citadinos. Aparecem no enfrentamento com os proprietários privados. Emergem na busca de interlocução com o poder público, requerendo e forçando a ação do Estado, no sentido de obter respostas positivas as suas reivindicações. Surgem no processo organizativo, criando entidades, associações para fortalecer o agir coletivo, politizando as lutas por habitação, desvelando as lutas entre classes diferentes, mascarando 102 MAPA 06: Cadastro dos Assentamentos Populares da Cidade do Recife, 1988 (1990). Fonte: Cadastro dos Assentamentos Populares da Cidade do Recife, 1988 (1990), apud VASCONCELOS, 1998. Excluem-se, por esse prisma, as possibilidades de diminuição das áreas pobres e da pobreza no interior do tecido urbano. Por conseguinte, chama-se a atenção para a leitura dos Mapas 05 e 06, dos Cadastros em pauta, que apontam para a expansão das áreas pobres fruto do adensamento e da ultrapassagem da linha divisória dos limites físicos antecedentes, demarcando a ampliação ocorrida nessas áreas. Dados sobre a renda extraídos do Censo Demográfico de 1991 (IBGE) mostram que 30% dos chefes de família recebiam até um salário mínimo, e 29.21% situavam-se na faixa entre 1 a 3 salários mínimos, confirmando, no aglomerado urbano, a presença de mais da metade de uma população de baixa renda e reafirmando a persistência de um quadro estruturalmente arraigado de pobreza. Ainda a pesquisa sobre Assentamentos Populares do Recife: cadastro e mapeamento (PERNAMBUCO, 1990) focaliza a tendência ao progressivo crescimento da população residente, nessas localidades, ao indicar a proporção de pobres no conjunto da cidade: em 1940, o Recife era ocupado por 343.740 mil pessoas (IBGE), sendo que 164.837 103 mil formavam o contingente de habitantes em mocambos (COMISSÃO CENSITÁRIA DOS MOCAMBOS, 1939), portanto, 48.1% da população citadina; em 1960, a situação agrava-se, em relação às duas décadas antecedentes, com uma população recenseada de 788.336 mil (IBGE), 450.000 dos quais viviam em assentamentos populares, respondendo, assim, por 57.1% do universo. Estimativa da população do Recife para 1978 estabelecia o total de 1.174.000 mil habitantes, dos quais 518.600, ou seja, 44.2% tinham suas moradias em assentamentos populares; enquanto a estimativa para 1990 estipulava 1.319.300 moradores, com os assentamentos populares respondendo por um total de 830.850 habitantes, significando 63.3% população total desses assentamentos (PERNAMBUCO, 1990). Confrontando essa tendência com os resultados do Cadastro (1998), que permitem verificar que ocupam o conjunto das áreas pobres 46.32%24 da população da cidade, como já exposto, constata-se uma queda expressiva, que pode ser aparente, frente à estimativa de dez anos antes. No entanto, o confronto das informações do período de dez anos, alinhadas às informações antecedentes sobre a mesma questão sugere algumas reflexões: a instituição das ZEIS, na década de 1980, propiciando a segurança da posse da terra, pode ter se traduzido em efeitos positivos no que concerne à melhoria das condições de vida, contribuindo para o uso pela população dessas áreas de materiais construtivos mais estáveis na edificação de sua moradia. Pode-se pensar, contudo, que, dada a metodologia empregada para cálculo desse percentual, resultou em um percentual superestimado. Entretanto, pode-se falar no mínimo de uma persistência histórica de cerca de 50% da população na faixa de pobreza e precariedade habitacional na cidade do Recife. A análise da problemática habitacional, no Recife, perpassa diferentes angulações ao longo do tempo. A moradia tipo mocambo inserida na estatística dos assentamentos populares, em 1960, é examinada em documento da Prefeitura Municipal do Recife (1960), conforme segue: O combate ao mocambo do Recife depende de uma política de desenvolvimento do Nordeste, visando a assegurar ao homem do campo os recursos necessários para vencer as dificuldades mesológicas fixando-o ao seu habitat [...] A solução do problema do mocambo ultrapassa, assim, o âmbito da administração municipal e estadual, para depender, sobretudo, da administração federal e da sua disposição, objetiva e decidida, para equacioná-los, resolvê-los. 24Aqui se reavivam questões já expressas, neste item, e relacionadas aos artifícios usados na pesquisa, como exposto na nota de rodapé 18. 104 A análise incorpora uma visão que se dissemina, naquele momento na região, absorvendo o pensamento crítico regional frente à disparidade e às desigualdades econômicas e sociais do país. No Nordeste este pensamento é consolidado com a criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), em 1959. Difere essa postura daquelas predominantes em décadas anteriores, como será visto logo adiante. Cabe, todavia, a ressalva de que permanece o olhar dirigido ao mocambo –, a habitação pobre – no sentido de combatê-lo. O foco dessa discussão, sobre mocambos, ao ser transportada para a esfera regional e situada em relação à pobreza, tem rebatimentos em estudo de Medeiros (2004), quando, na sua perspectiva interpretativa, defende que a relação entre pobreza e riqueza é uma questão de âmbito regional, muito embora seus efeitos manifestem-se no local. Recuando-se no tempo, percebe-se quanto a pobreza mostra-se presente e incrustada no núcleo urbano, desvelando uma tendência histórica da problemática habitacional dos pobres, ao serem manuseadas informações censitárias correspondentes às quatro primeiras décadas do século vinte. Ademais, apreende-se com essas informações como a pobreza era captada pela lente do poder público a partir das habitações do tipo mocambos. Já em 191325, apontam para uma população calculada em 183.383 mil habitantes, no Recife. Outra fonte de âmbito local, O Recenseamento Municipal26 do Recife, do mesmo ano, classifica as habitações por tipo de construção em alvenaria, taipa e mocambo por distritos e permite identificar a composição e a distribuição das moradias no aglomerado. São 16.34727 moradias do tipo mocambo de um total de 37.735 prédios existentes na cidade, (apud SOUTO MAIOR, 1983), onde vivem 43.3% dos citadinos, ou seja, 80.308 mil distribuídos em áreas pobres (PERNAMBUCO, 1990). 25FIBGE. Séries Estatísticas Retrospectivas. Rio de Janeiro, 1986, v. 1, p. 7 (PERNAMBUCO, 1990). Recenseamento Municipal de 1913 respondeu a um dispositivo legal, da esfera municipal, que determinava a realização do censo, pelo município, em uma periodicidade de cinco anos. Foi a primeira fonte a reunir informações sobre as condições e a qualidade das habitações na cidade do Recife, classificando o tipo de construção por distrito, que, na época, somavam 14 (SOUTO MAIOR, 1983). Há divergência em relação ao total da população recenseada pelo Censo Nacional e o Municipal. O primeiro contabiliza 218.255 pessoas vivendo na cidade. A divergência tem explicações na metodologia adotada para a contagem da população. 27O Recenseamento Municipal de 1913 classificou as habitações construídas em alvenaria em um total de 12.918, em taipa 8.474 e aquelas do tipo mocambo 16.347, distribuídas entre os 14 distritos existentes no Recife. As habitações de taipa são construídas com madeira – varas amarradas formando uma espécie de grade e depois socado o barro. Na cobertura, pode ser usado palha, telha ou outro tipo de material. Freqüentemente, esse tipo de casa era construído pela população de menor poder aquisitivo. Entretanto, na época, podia pertencer a famílias com um certo padrão de vida. 26O 105 Os dados propiciaram maior visibilidade para as condições de moradia de uma parcela dos habitantes do Recife. Aparecia a pobreza alinhada ao tipo de habitação – os mocambos – uma situação resultante da mesma causa: a concentração dos bens socialmente produzidos. Tornava-se, pela estatística, reconhecida a existência das habitações dos pobres. De acordo com Censo28 Municipal de 1913 (apud SOUTO MAIOR, 1983), o mocambo era definido como “[...] pequenas casas mal construídas sem obedecer a princípio algum de higiene ou de estética”. Acrescenta o autor que informações coletadas em relação ao pensamento da época nesse mesmo Censo mostram que: Debalde a Prefeitura tem procurado extinguir essa classe de habitação, não só pelo perigo que sob a ponto de vista da salubridade ela representa para a população, como porque, pelo seu aspecto exterior, dá uma impressão desagradável a grande parte da cidade. Entretanto, a falta de vilas operárias, de pequenas casas de conveniente construção, para abrigo da classe pobre de sociedade, vê-se a administração pública na contingência de tolerar os atuais mocambos, não permitindo, porém, na sua reconstrução, nem que novos venham a ser construídos. (PERNAMBUCO/PREFEITURA MUNICÍPIO DO RECIFE, 1915, p. 82-83, apud SOUTO MAIOR, 1983). O pensamento político-administrativo da época sobre os mocambos entrelaçavase ao dos grupos abastados dominantes. De um lado, havia a naturalização do fenômeno, de outro lado, esse olhar convertia-se, em seus primeiros passos, na direção higienizadora, visão orientadora da modernização e da estética, do Recife. Essas idéias já reinavam na cidade desde as últimas décadas do século XIX, e se conciliavam com a expansão urbana. O conjunto das idéias traduzia-se no combate focado nos mocambos, que seria desencadeado mais tarde, mas sem ater-se às suas causas. Mais precisamente preparava-se o combate às manifestações mais visíveis, e expressamente desvinculadas de qualquer medida tendente a problematizar a ordem econômico-social-espacial estabelecida. Interessante pensar que, no rescaldo de uma sociedade escravocrata, bastante recente, e o fato de os mocambos serem ocupados, na época, em sua maioria, por uma população negra e mestiça, e por parcela do operariado, fazia com que o mocambo fosse naturalizado: o lugar dos pobres. Os traços enraizados em uma cultura na qual o negro era considerado uma “peça”, uma “mercadoria” à venda, habitante da senzala, tornava o habitar 28PERNAMBUCO, Prefeitura do Recife, 1915, p. 82-83. 106 em mocambo, fincado na grande maioria na lama, como algo aceitável, desde que não ferisse a estética de uma cidade que se pretendia moderna. Dez anos mais tarde, o Censo de 192329, sob a responsabilidade do Departamento de Saúde e Assistência do Município do Recife, indicava 313.150 residentes no meio urbano, sendo que 158.909 ocupavam áreas pobres. Há, nesses dados, a informação de que 50.7% dos habitantes ocupavam 19.947 mocambos, de um total de 39.026 residências. A proporção de mocambos no urbano recifense, revelada nos dois censos do município, fomenta a seguinte observação de Souto Maior (1983, p. 11): “[...] se os mocambos são indicadores precisos das classes pobres, não se pode dizer que as construções de alvenaria representam apenas uma classe, estando aí somadas as classes alta e média”. O Censo dos Mocambos30 de 1939 assegura em definitivo o reconhecimento estatístico deste tipo de habitação existente no Recife. O documento “Observações Estatísticas sobre os Mocambos” (COMISSÃO CENSITÁRIA DOS MOCAMBOS, 1939, p. 4), que reúne as informações levantadas sobre esse tipo de habitação, é prefaciado pelo interventor Agamenon Magalhães (1937-1945), com o texto intitulado Problema Humano. Num trecho Agamenon Magalhães assim se expressa: E, então qual é a causa da miséria da habitação? Qual é a média de salário dos chefes de família? Aqui é que está a dolorosa interrogação. O salário médio de um chefe de família, por mês, é de 154$000. Qual é a solução? É fazer a casa e dar um aumento de salário correspondente ao aluguel ou ao preço de sua aquisição, a longo prazo. As informações sobre as habitações do tipo mocambo e das condições dos seus ocupantes fazia parte dos subsídios ao conjunto de medidas do interventor, relativas à problemática habitacional, sob a égide das preocupações com a questão social (assunto discutido no Capítulo 1, item 1.4 desta Tese). Mas o olhar dirigido ao mocambo revela o desprezo advindo dos representantes31 do poder público imbuídos da atribuição de conhecer a situação habitacional, conforme 29No Censo Municipal de 1923, as habitações são classificadas como normal e mocambo e catalogadas entre as oito freguesias em que estava dividida a cidade. Chama a atenção a categoria normal adotada. 30No Censo dos Mocambos de 1939, a definição do mocambo consta do seguinte: “Paredes – taipa, madeira não aparelhada, zinco, flandre, capim ou palha; Cobertura – palha ou capim, zinco ou palha, telha e diversos; Piso – terra, cimento, tijolo, madeira” (COMISSÃO CENSITÁRIA DOS MOCAMBOS, op. cit., p. 9). 31A Comissão Censitária dos Mocambos foi criada pelo Dec. nº 182, de 17 de setembro de 1938, pelo interventor Agamenon Magalhães. 107 abaixo: Muitos condenam a priori a viabilidade de um combate eficaz aos monstrengos de palha e zinco que, dia a dia, mais se espalham pelo Recife, acocorando-se, em paralelo às avenidas asfaltadas e em torno as boas casas de alvenaria, que dificilmente lhes vão conquistando terreno; outros formulavam planos mais ou menos vagos e que não podiam ser examinados à falta absoluta de dados estatísticos (COMISSÃO CENSITÁRIA DOS MOCAMBOS, op.cit., p. 7). As informações levantadas contemplavam um leque de variáveis, tais como: habitação; renda da habitação (aluguel do mocambo e do chão); chefes de família; população; proprietários dos mocambos e dos terrenos onde se achavam os mocambos; terrenos passíveis de aproveitamento, para construção da casas populares. O Censo registrou a existência de 45.581 mocambos e observa que a média de construção diária era de 2.6%, bastante superior à média das casas de alvenaria e de taipa que foi, em 1938, de 1.43%. A densidade predial foi considerada alta atingindo 4.06%, sendo esse “um dos principais fatores de condenação do mocambo, - excesso de moradores para unidade da área habitada” (COMISSÃO CENSITÁRIA DOS MOCAMBOS, op. cit., p. 13). Um aspecto relevante registrado refere-se à distribuição dos mocambos por tipo de propriedade, como pode ser observado na tabela abaixo: TABELA Nº 04 DISTRIBUIÇÃO DOS MOCAMBOS, SEGUNDO A PROPRIEDADE. RECIFE - 1939 VALOR (EM CONTOS DE RÉIS) MOCAMBOS ESPÉCIE DE POSSE PRÓPRIO, PAGANDO CHÃO ALUGADO PRÓPRIO, NÃO PAGANDO CHÃO DESALUGADO CEDIDO GRATUITAMENTE EM CONSTRUÇÃO TOTAL NÚMERO ABSOLUTO 19.486 15.417 3.963 4.097 2.305 313 45.581 NÚMERO ABSOLUTO % 42.75 33.82 8.69 8.69 5.06 0.69 100 40.790 6.980 2.147 1.377 1.159 84 22.537 % 47.88 30.97 9.53 6.11 5.14 0.37 100 Fonte: Comissão Censitária dos Mocambos, 1939. A celeridade da construção de mocambos, no Recife, guarda relação com o processo de crescimento da cidade, motivado pelo êxodo rural. Chama a atenção, na tabela acima, o número de mocambos pagando aluguel do chão 19.486, o que indica a concentração 108 da propriedade do solo urbano, contra 3.963 mocambos que não pagavam aluguel do chão. Outro dado que merece a atenção diz respeito ao número de mocambos alugados, ou seja, presumivelmente, construídos para serem transformados em fonte de renda para o proprietário. Ainda observe-se (COMISSÃO CENSITÁRIA DOS MOCAMBOS, op. cit., p. 15) que, Há muitos casos em que o terreno é aforado, sendo, então, o possuidor do domínio útil, quem aluga o chão. Alguns proprietários se queixam da ocorrência de mocambos em seus terrenos e dizem só suportá-lo à falta de recursos proibitivos; outros, entretanto, têm nos aluguéis de chão uma boa e cômoda receita. Souza Barros (1985, p. 72), em estudo sobre década de 20, em Pernambuco, busca encontrar explicações para a proporção de pobres, na formação histórica da cidade, ao afirmar: Foi Recife, assim, a primeira grande cidade do Brasil que não resultou da influência de sede de metrópole, de apanágio de Governo Geral ou das facilidades de administração. Firmou-se, portanto, como uma cidade comercial sustentada por um porto da região. Os rios do açúcar, que hoje ameaçam destruí-la, carregam, a princípio, a sua riqueza, e a cidade surgiria justaposta do braço desses rios, do seu delta. [...] Com os mocambos, por exemplo, que era a marca habitacional ditada pela miséria do êxodo rural. [...] O mocambo vem de muito longe. Do horror do negro liberto ao trabalho rural, tantas vezes demonstrado pela fuga do campo [...]. Examinando a dinâmica social e econômica do século XIX, no Recife, (ANDRADE, 1979) aponta dois processos relacionados do crescimento32 do núcleo urbano recifense, nesse século. Primeiro: a abertura de estradas carroçáveis e ferrovias, favorecendo a ampliação da função comercial-portuária da cidade. Alargava-se, assim, o potencial atrativo do aglomerado, ao reunir condições para a ampliação e circulação de pessoas e de riqueza e, no seu extremo, de pobreza. Segundo: a abolição da escravatura (1888), alterando as relações de produção no campo, gera um processo migratório que, de modo decisivo, intensifica o crescimento do núcleo urbano. Um contingente populacional significativo, ao ter os braços liberados do trabalho compulsório, dirige-se à cidade na busca de novas condições de vida e 32No 3° Recenseamento Geral do Brasil de 1900, o Recife possuía cerca de 115 mil habitantes, população que foi duplicada em vinte anos, ultrapassando os 238.8 mil, em 1920. 109 oportunidades de trabalho. Aponta Andrade (op. cit., p. 93.) que surge Daí o aumento considerável de construção de palafitas – os chamados mocambos – suspensos sobre manguezais da cidade. Nessas habitações, construídas de restos de madeira, ramagens de folhas de flandres, etc., localizava-se toda uma população pobre e sem condições de obter uma habitação de melhor qualidade. Essa população pobre, tendo dificuldades de obter trabalho e, conseqüentemente, alimentos, passou a utilizar os manguezais como fonte de suprimento. As palafitas, os mocambos são habitações erguidas pela população pobre, e em precárias condições. Além de ser local de moradia, o mangue fornecia os nutrientes alimentares indispensáveis à sua reprodução, na ausência de trabalho. Enraíza-se, no Recife, o lugar dos pobres ou a ausência do lugar dos pobres, em face às condições de vida a que está submetida fração significativa da população recifense. Foto 07: Mocambos do Recife. Acervo: Museu das Cinco Pontos, Recife, s/d. Foto 08: Palafitas em Caranguejo-Recife-PE. Acervo: ETAPAS, 2003. Se, em 1920, o censo computa, para o município do Recife, uma população de 238.8 mil pessoas, vinte anos mais tarde, portanto, em 1940, verifica-se um incremento populacional de 46% na capital pernambucana. O crescimento tornar-se-á vigoroso a partir de 1940, quando se observa um incremento de 449 mil pessoas, no espaço da cidade, correspondendo a 129% entre 1920 e 1940. O crescimento torna-se intenso nas duas décadas seguintes, atingindo a cidade, em 1960, uma população de 788.336 habitantes e, em 1970, além da marca de um milhão de pessoas (1.060 mil habitantes). A expansão urbana sucede, especialmente, contornando a planície, subindo as colinas e aí constituindo um forte círculo 110 de bairros pobres que, no primeiro momento, abriga as famílias expulsas de mocambos, por iniciativa do poder público, nas décadas de 1930 e 1940, e, posteriormente, por famílias provenientes do intenso êxodo rural das três décadas seguintes. Este ritmo de crescimento, acelerado ou mesmo explosivo, na classificação de Melo (1978), não registra precedente na evolução demográfica desse aglomerado. Dá-se, sobretudo, pelo intenso fluxo migratório, a aceleração do crescimento vegetativo, mas, também, deve-se à queda da mortalidade, seguida de elevadas taxas de natalidade. Situação que gera nas palavras de Freyre uma “cidade inchada”33 e que, na escrita de Melo (1961, p. 32), corresponde a “um caso de macrocefalia ou gigantismo da capital”. Ocorre que esse crescimento urbano não se faz acompanhar de mudanças estruturais, econômicas e sociais, e, nem tampouco da ampliação dos serviços urbanos. Contrariamente, “A expansão do número de casas pobres e miseráveis está a indicar a condição econômico-social da grande maioria de pessoas que compõem esse contingente” (MELO, op. cit., p. 33). O elevado êxodo rural, entre os anos 1940 e 1960, ao favorecer o intenso crescimento do Recife, concorreria para agravar a problemática habitacional. De modo acintoso, as terras secas da planície, fruto do parcelamento de antigos engenhos, passam a ser disputadas pela população abastada. Aos segmentos de baixa renda restavam as terras das áreas alagadas e alagáveis arrebatadas aos mangues e aos rios, cujos aterros, na maioria das vezes, eram precários e de cotas insuficientes, mas os pobres também sobem os morros da Zona Norte da cidade, escalada que se inicia nos anos trinta, onde seguidamente instalam sua moradia. A relação entre a proliferação dos mocambos no Recife e as distorções socioeconômicas estimularam exames realizados por estudiosos da economia e da política. A capital pernambucana absorvia um fluxo migratório de diferentes lugares da região Nordeste, desde o século XIX, em face do seu papel de pólo econômico, social, político e cultural. No entanto, ao crescimento populacional não correspondia o desenvolvimento socioeconômico do aglomerado. Esse crescimento, ocorria à margem do desenvolvimento econômico e da instalação de funções urbanas relevantes. Respondia ao desequilíbrio regional no país, articulado, principalmente, à estrutura produtiva, a qual somaram-se ainda, as secas cíclicas 33“As expressões ‘cidade inchada’ e ‘fenômeno de inchação urbana’ são devidas a Gilberto Freyre que começou a empregá-las em artigos de jornal do início de 1950” (MELO, 1978, p. 27. nota de rodapé). 111 registradas na região. Realidade que tendia a se agravar. Nas seis primeiras décadas do século vinte, o crescimento registrado, na capital pernambucana, produz efeitos expressivos no desenho do território citadino alterando a feição do núcleo urbano, que, até meados do século, era caracterizadamente rural, retendo no seu interior moendas, engenhos e até usinas de açúcar. A alteração dessa realidade incita o registro de Andrade (1979, p. 94): Nesse período, os arrabaldes mais ou menos isolados, foram se expandindo como manchas de óleo, ocupando áreas menores e expulsando as atividades rurais. As áreas intermediárias entre as cinco vias iniciais de penetração foram sendo loteadas e povoadas e as próprias vias iniciais foram se estendendo. Mas outro fenômeno dá início a uma nova dinâmica no Recife. Como mostram os dados, na década subseqüente, 1960/1970 reduz-se o ritmo de crescimento, passando para 33%, contra 52% dos dez anos antecedentes. Esta realidade, de certo modo, associa-se ao processo de metropolização, já em curso. Tendência tão bem percebida por Baltar, em 1951, o identificar o Recife como cidade metropolitana, cidade conurbada, cidade transmunicipal. Nesse sentido, a redução do crescimento do Recife correspondia ao alargamento da expansão urbana, com a ultrapassagem dos limites citadinos e a ocupação das franjas desse agrupamento urbano, e registrando-se com maior expressão em vários dos municípios periféricos, quer dizer, em direção à constituição da Região Metropolitana do Recife. Mais uma vez, Melo (1978, p. 122) chama a atenção ao dizer: “[...] mercê da natureza já caracteristicamente metropolitana do crescimento recifense, o aumento ocorre menos no município núcleo e mais em vários dos municípios periféricos”. Há, conforme apontam os dados, uma pobreza estável na história recente da cidade que se revela estrutural. A dimensão demográfica repercute na habitação, particularmente a dos segmentos empobrecidos. Pode-se afirmar que as condições de habitação, o acesso à terra urbana, a renda auferida, o acesso à educação são fatores constitutivos e expressivos que emolduram a pobreza. Informações revelam o enraizamento da desigualdade na forma privada de apropriação da riqueza socialmente produzida, que atravessou séculos, percorrendo o espaço-tempo, desde a constituição da cidade, assentada na economia agroaçucareira exportadora. 112 Essa base econômica pressionou o processo de urbanização estruturador inicial do núcleo recifense. Além do mais, a propriedade do solo urbano, com papel determinante no acesso à habitação, corre em paralelo ao papel desempenhado pelo Estado, nessa formação urbana. Outro aspecto a mencionar reside nas condições físico-geográficas do território da cidade, resultando em interferência na distribuição dos seus habitantes no espaço. Indicação de que, passados séculos, alternativas distributivas da produção socialmente construída passam ao largo dos contingentes populacionais que participam do processo de produção da riqueza. Conserva-se e amplia-se a desigualdade. A frágil presença do Estado no encaminhamento de alternativas de moradia para os segmentos de baixa renda leva a pensar que a grande maioria das habitações erguidas nas áreas pobres decorre de processos autoconstrutivos, sejam eles realizados pela própria família, ou através da contratação parcial de mão-de-obra ou, ainda, pela conjugação desses processos. Outras formas de construção de moradias baseadas na auto-ajuda e mutirão compõem o cenário, supostamente, em tempo mais distantes e de maior intensidade da urbanização, em decorrência de práticas transportadas do campo. Entretanto, cabe lembrar que há lacunas nas informações sobre procedimentos construtivos no conjunto das habitações dos pobres na cidade, apontando, assim, para a necessidade de estudos sobre esta questão. Em proporções mais reduzidas, há registros de mutirão realizado com o apoio do Estado no perímetro citadino. O acesso à habitação, pelos segmentos pauperizados, em tais circunstâncias históricas, acontece através de formas precárias e extremamente espoliativas para fração significativa dos habitantes recifenses. Esta situação se manterá viva na paisagem da cidade do Recife, por quase todas as décadas do século vinte (MAIOR, 1986; SOUZA, 1990; LIMA, 1990). Esse é um quadro sugestivo da intensa e determinante forma com que o processo de autoconstrução delineou o território ocupado, atribuindo-lhe feições diversas e contraditórias. Em anos mais recentes, assiste-se a uma seguida desresponsabilização do Estado com relação às políticas públicas, entre as quais as políticas habitacionais, numa conjuntura marcada por desemprego, subemprego e concentração de riqueza. Nesse contexto histórico, a autoconstrução empreendida pelos segmentos populares vai traçando o acesso à habitação e à cidade. 113 2.3 AS TERRITORIALIDADES: O TERRITÓRIO USADO, O TERRITÓRIO PRATICADO A noção de territorialidade formulada por Raffestin (1993, p. 158) contribui para a reflexão analítica do acesso à habitação pelas camadas populares. Diz o autor, a territorialidade “[...] adquire um valor particular, pois reflete a multiplicidade do ‘vivido’ territorial pelos membros de uma coletividade, pelas sociedades em geral”. Implica apreender a existência de relações vividas em simultaneidade, enquanto “[...] processo territorial e o produto territorial”. Tais relações compreendem um conjunto dinâmico constituído de relações entre existência e/ou relações produtivas. Contudo, admite o autor que essa noção encontra-se envolta em certos problemas que precisam ser discutidos. Trata-se de uma noção originada do naturalismo, cuja preocupação com a territorialidade diz respeito aos animais, e não à territorialidade dos homens. Sugere, como alternativa, o abandono das analogias, para assim tratar da territorialidade humana. Outra questão destacada pelo autor refere-se ao fato de a noção, ao ser acionada pelas ciências sociais, ter estado voltada para as relações ou com o espaço ou com o território. Assim, essa noção, em construção, tem sido utilizada com perspectivas diversas34 no interior da geografia. Esclarecendo sua linha de argumentação, Raffestin (op. cit., p. 161) afirma que “A territorialidade se inscreve no quadro da produção e do consumo das coisas. [...] É sempre uma relação, mesmo que diferenciada, com os outros atores”. São, portanto, relações materializadas homem-homem; homem-meio. Conforme concebe Raffestin (op. cit., p. 162), o exame da territorialidade implica entender as relações sociais na concretude de sua existência, situando-as historicamente na dimensão espaço-temporal. Assim, acrescenta: “A territorialidade se manifesta em todas as escalas espaciais e sociais; ela é consubstancial a todas as relações e seria possível dizer que, de certa forma, é a ‘face vivida’ da ‘face agida’ do poder”. Souza (2001, p. 98) critica a abordagem da territorialidade realizada por Raffestin, pontuando que a concepção deste autor aproxima-se de “[...] alguma coisa parecida com o 34Essa constatação parece-me mais instigante e desafiadora para aprofundar o conhecimento e acompanhar a complexidade do debate referido ao espaço, suas confluências e divergências. 114 comportamento espaço-territorial de um grupo social”. Nesse caso, lembra que o seu rigor parece ser discutível, em virtude da existência de conceitos e expressões “[...] que apontam para o tipo de relações material ou cognitiva homem/meio, natureza/sociedade – do amplo conceito lefebvriano de produção do espaço” (SOUZA, op. cit., p. 98). Propõe, em substituição ao termo territorialidade, o uso de territorialismo, considerando que, [...] no singular remeteria a algo extremamente abstrato: aquilo que faz de qualquer território um território [...] de relações de poder espacialmente delimitadas e operando sobre um substrato referencial. [...] no plural, significam os tipos gerais em que podem ser classificados os territórios conforme suas potencialidades, dinâmicas” (SOUZA, 2001, p. 99). O autor remete-se à noção de território usado proposta por Santos. O território usado é definido pela inclusão dos sujeitos sociais, construtores desse espaço. Diz ele: “[...] a sociedade exerce permanentemente um diálogo com o território usado, e que esse diálogo inclui as coisas naturais e artificiais, a herança social e a sociedade em seu movimento atual”. Dessa forma, “[...] cada momento da ação social inclui a Terra e os homens sobre os quais tal ação se realiza” Assim, a ação teria outra perspectiva “[...] se outros fossem o território e seu uso” (SANTOS, 2004, p. 26). Nesse sentido, no território usado, no território praticado, o homem exerce suas experiências de vida diária, torna-se produtor do espaço, da cultura e da sociedade. De acordo com essa proposta conceitual, a vivência no território é também praticada pelo homem pobre que, em face da imperatividade da luta contínua por sua existência, é o homem verdadeiramente ativo. O pobre, mesmo sendo sábio, desconhece a sistematicidade do agir hegemônico, entretanto “A pobreza é uma situação de carência, mas também de luta, um estado vivo, de vida ativa, em que a tomada de consciência é possível” (SANTOS, 2001, p. 132). A noção de pobreza ancora a obra de Santos. Ele argumenta que o homem pobre não é tão-somente o pobre na hierarquia de consumo, mas o homem comum e lento, frente à velocidade dos fluxos da globalização. Portanto, apesar de não ter acesso às técnicas, dispõe de um pragmatismo existencial, domina e regula as práticas que só ele conhece. Este homem do território usado, do território praticado. 115 A noção de território praticado confronta a abstração dos fluxos, característica das circulações financeiras em escala planetária que, nos dias atuais, corresponde à mais elevada abstração até então vivida pela humanidade, submetida à globalização sem territorialidade. Essa noção articula-se à análise do espaço, conceito que retém um papel explicativo e socialmente relevante ao contrapor-se à totalidade dominante, constituída pelos fluxos de recursos financeiros do mundo globalizado. O espaço, ao contrário, reúne os acontecimentos do mundo da vida cotidiana. Acontecimentos esses desencadeados por meio do território praticado pelos pobres, na busca pela sobrevivência. Esses acontecimentos ocorrem na base da sociedade, expressando um pragmatismo matizado com a emoção, emergente nos lugares e na agregação das pessoas. Ou seja, o território praticado incorpora a ação de todos os homens, o que inclui apreender as favelas, os alagados, os morros e a complexidade dos processos autoconstrutivos de moradias desencadeados nesses lugares. O território usado, ao conter possibilidades latentes, enseja disputas, contradições e lastreia referências. Em sendo assim, é condutor de oportunidades para a conquista de liberdades. Tal concepção de território atrai o uso de conceitos chaves, dialeticamente concebidos e trabalhados por Santos (2001) – escassez e abundância. A escassez situa-se no compasso entre o mundo e o cotidiano vivido e explica-se, no seu extremo, através da abundância, ou seja, da riqueza retida nas mãos de alguns. Portanto, a escassez é um produto da racionalidade hegemônica. Responde a relações sociais territorializadas, como fome, desemprego, desabrigo. Assim, não sendo absoluta, aflui através da abundância. Ainda de acordo com o autor, os homens lentos contrapõem-se aos homens rápidos. Ambos têm capacidade de ação, porém situam-se em escala de ação diferentes, o que resulta em intervenções diferenciadas na vida social. Wacquant (2001, p. 187), em estudo sobre o fenômeno que denomina de marginalidade avançada35, observada nos países do Primeiro Mundo nos guetos (americano), 35Wacquant (2001, p. 187), estudando a periferia metropolitana dos países do Primeiro Mundo, em ambos os lados do Atlântico num olhar prospectivo, assinala que: “[...] o ‘retorno das realidades recalcadas’ de extrema pobreza e destituição social, as divisões etnorraciais (ligadas ao seu passado colonial) e a violência pública, e a sua acumulação nas mesmas áreas urbanas agonizantes, sugere que as cidades do Primeiro Mundo estão agora enfrentando o que podemos chamar de marginalidade avançada”. Essa marginalidade compreenderia as “[...] novas formas de encerramento social excludente e de marginalização que surgiram – ou intensificaram-se – na cidade pós-fordista como resultado não do atraso, mas das transformações desiguais e desarticuladas dos setores mais avançados das sociedades e economias ocidentais, à medida que estas repercutem nos estratos mais baixos da classe trabalhadora e nas categorias etnorraciais dominadas, bem como nos territórios que estas ocupam na metrópole dividida”. 116 e na banlieue (subúrbio francês) e nas inner cites britânicas e holandesas, admite que “A ‘trama’ distinta de cor, classe e local” não exclui possibilidades de transformação que podem indicar formas distintas de marginalidade urbana. Sublinha que o termo “avançada” pretende apontar para o fato de que as formas de marginalidade não estão no passado, não são absorvidas nas livres relações de mercado, nem mesmo através do Estado de bem-estar, mas debruça-se para o futuro. A reversão dessa realidade só ocorreria por meio da utilização de determinadas medidas de conteúdo político, capazes de gerar alterações ou redirecionamentos nas estruturas que produzem a marginalidade avançada. Guardando certas reservas36, o autor enuncia seis características distintas da “marginalidade avançada”: o trabalho assalariado como parte do problema; a desconexão funcional proveniente de tendências macroeconômicas; a fixação e estigmatização territoriais37; a alienação territorial, ou a dissolução do “lugar”; a perda do interior; e a fragmentação simbólica e social. O fato de essa marginalidade corresponder à “alienação territorial, ou à dissolução do ‘lugar’”, significa que a outra face do processo de estigmatização do território corresponde à dissolução do “lugar”, ou seja, “[...] perda de local com o qual as populações urbanas marginalizadas identifiquem-se e no qual se sintam seguras” (WACQUANT, op. cit., p. 191). As teorias pós-fordistas apontam para a reconfiguração do capitalismo, provocando um embaralhamento entre empresa, empregos e pessoas no espaço, e produzindo modificações expressivas, tanto na organização como no próprio espaço38. Ressalta Wacquant a existência desses elementos, tanto na realidade da banlieue como na realidade do gueto, sendo que antes estes espaços conformavam “lugares” marcados pela partilha de emoções, práticas e instituições estruturadas em formas recíprocas de convivência. Agora, estes são espaços onde predomina o distanciamento, servindo, apenas, de referência para a sobrevivência e a luta. Nessa perspectiva, argumenta o autor que o modo de apropriação do território 36Wacquant (2001) chama a atenção para o fato de os exercícios conceituais desempenharem papel tanto de facilitação do entendimento do assunto quanto na coibição desse entendimento. 37Sobre a fixação e estigmatização territoriais Wacquant (op. cit., p. 190) assinala: “[...] em vez de difundir-se por todas as áreas da classe trabalhadora, a marginalidade avançada tende a concentrar em territórios bem identificados, demarcados e cada vez mais isolados, visto por pessoas de dentro e de fora como purgatórios sociais, infernos urbanos onde somente o refugo da sociedade aceita habitar. Um estigma referente ao lugar sobrepõe-se assim ao já universal estigma da pobreza e (onde aplicável) da raça ou da origem colonial-imigrante”. 38Sobre o assunto, dentre outros ver: HARVEY, 1992. 117 compreende duas concepções diferentes: uma de lugar e outra de espaço. “ ‘Lugares’ são arenas estáveis, ‘cheias’ e ‘fixas’, enquanto ‘espaços’ são ‘vácuos potenciais’, ‘ameaças possíveis’, áreas que devem ser temidas, protegidas ou abandonadas” (WACQUANT, op. cit., p. 192 citando SMITH, 1987, p. 297). O enfraquecimento dos vínculos situados territorialmente na cidade e o sentimento de vulnerabilidade concorrem para que ocorram mudanças comportamentais e políticas: de uma política de lugar para uma política de espaço. Acentua Wacquant (op. cit., p. 192), em face da realidade por ele analisada, sobre a necessidade de evitar a romantização das condições de vida do passado nos bairros proletários e nos enclaves segregados pois as relações sociais aí vividas enfrentaram situações as mais diversas e por vezes difíceis. Acrescenta, no entanto, que “[...] a experiência da exclusão urbana vem se modificando, de maneira que hoje a situação está excepcionalmente mais opressiva e alienante”. Assim, o espaço, que anteriormente possibilitava proteção, transforma-se em veículo que contribui para aprisionar e dividir os vínculos internos existentes entre as pessoas, gerando insegurança e conformando um território temido. A crise e a reestruturação do capitalismo fragilizam internamente os laços em que os trabalhadores se apoiavam quando ficavam temporariamente fora do mercado de trabalho. O amparo coletivo informal reduz-se em face da perda do trabalho assalariado. A alternativa de sobrevivência recai, então, no comércio informal, e no trabalho clandestino, dificultando aos jovens, nessa situação, a entrada no mercado formal de trabalho. A análise empreendida por Wacquant, centrada na periferia metropolitana do Primeiro Mundo, distancia-se, como instrumental teórico-analítico, como suporte ao exame da realidade brasileira e recifense em sua integralidade. Fatores relacionados à dimensão e a graus de intensidade dificultam a transposição daqueles elementos analíticos para a realidade aqui vivida nas áreas pobres de moradias autoconstruídas. Dir-se-ia mesmo, em contraponto, que aqui se vivencia uma “marginalidade atrasada”. Granovetter (1973), percorrendo outra linha de análise, entende que o território propicia oportunidades fortalecidas por vínculos estabelecidos em diferentes escalas. Estes vínculos podem ser fortes ou débeis. O autor introduz a noção de redes sociais e destaca a sua importância para a configuração de possibilidades de inserção no mercado de trabalho. Assim, as oportunidades tornam-se mais amplas quanto maiores forem os contatos pessoais em face de informações que possam ser agregadas. Para além da perspectiva individual, os 118 laços estabelecidos coletivamente, ou seja, territorializados, fomentam capacidades internas que favorecem as lutas coletivas que se entrelaçam em grandes e pequenas escalas. Desta forma, também a maior disseminação dos vínculos e de suas ramificações auxiliam na ampliação da dinâmica local. Apreendem-se das constituições de Santos, Wacquant e Granovetter, elementos que fomentam pontos e contrapontos e contribuem para a análise das territorialidades correspondentes à problemática da moradia das camadas populares no tecido urbano. 2.4 AS ARMADILHAS: VELHOS E NOVOS DISCURSOS E PRÁTICAS – A AUTOCONSTRUÇÃO Percorrem-se, nesse item, os diferentes discursos que deram sustentação à formulação de propostas de autoconstrução em organismos internacionais e instituições de âmbito nacional, estadual e municipal e que impulsionaram a prática da autoconstrução financiada pelo poder público. Também, ressalta-se o debate intelectual e acadêmico sobre a temática, as posturas críticas e as possibilidades vislumbradas, confrontando a institucionalização de uma prática que emergiu entre os segmentos pobres e, posteriormente, capturada pelo Estado, para implementação de políticas públicas para os pobres. 2.4.1 AS RAÍZES DA AUTOCONSTRUÇÃO COMO POLÍTICA PÚBLICA O debate sobre a autoconstrução tem como objetivo subsidiar a compreensão do objeto de análise. Apresenta-se, particularmente, atrelado à proposta do Estado em patrocinar a autoconstrução, no leque dos programas habitacionais alternativos, na condição de política oficial. O debate sobre este tema, disseminado na América Latina, teve seu auge dos anos sessenta até a primeira metade dos anos oitenta e, de forma menos expressiva, chega aos primeiros anos da década de noventa. As políticas públicas alternativas de habitação adotadas em países latinoamericanos, entre os anos 60 e os anos 80 do século passado, não são uma novidade. Suas raízes encontram-se em distintos governos e em circunstâncias diversas. 119 Investigação realizada por Valladares (1986, p. 34), que percorre a literatura internacional sobre a temática, aponta que “Num artigo pioneiro, Harms (1982, p. 17-53) reconstitui a sua história, mostrando que se trata de uma proposta antiga, adotada como política para solucionar os problemas habitacionais das sociedades capitalistas, nos momentos de crise do capitalismo” . Todavia, freqüentemente, e de forma equivocada, diz a autora, atribui-se a origem de tais políticas na “[...] propagação das idéias de John Turner, William Mangin e Charles Abrams em países do Terceiro Mundo [...]” (VALLADARES, op. cit., p. 34). Em consonância com o artigo citado, diferentes experiências foram precursoras das práticas adotadas em países no Terceiro Mundo nos últimos quarenta anos, notadamente, aquelas realizadas na Alemanha, Estados Unidos e Porto Rico. As crises econômicas instigaram a emergência, como iluminam as informações históricas dos programas habitacionais alternativos lastreados na ajuda-mútua ou auto-ajuda, entre os quais os que envolviam a autoconstrução. Contudo, a solução para a problemática da habitação da população trabalhadora, por meio da autoconstrução, recebeu severas críticas em cada época. No Brasil, nas décadas já assinaladas, a intensidade do debate fomentou críticas ao processo de auto-ajuda ou ajuda-mútua como solução apropriada ao acesso à habitação. Algumas delas identificavam esse processo com o supertrabalho, exigido da população pobre vinculada aos programas com tais características, elevando os seus custos sociais. A contração deste debate ocorre simultaneamente à retração do Estado no que concerne às políticas públicas de habitação, a partir da segunda metade da década de oitenta. De fato, a ação estatal, ao absorver a autoconstrução de moradias, por meio da política habitacional, programas e projetos, captura práticas enraizadas em tradições históricas das famílias trabalhadoras, que representam formas de resistência e luta por permanecer no urbano. São práticas antecessoras da ação do Estado, que delas se apodera ao formular a política habitacional, dando-lhes roupagens diversas. Todavia, tais práticas continuam presentes no cotidiano da população pobre. O exame da autoconstrução, como alternativa de acesso à habitação e à cidade pelos segmentos populares, desvela uma faceta relevante da problemática habitacional. Ao que tudo indica, a incorporação da proposta pública de autoconstrução pelos pobres corresponde à sua percepção como uma alternativa possível. Trata-se, assim, de uma 120 ação tática, frente às precárias condições de moradia a que são submetidos na cidade e às suas possibilidades imediatas e mediatas de confrontá-las. Assim, velhos debates sobre a autoconstrução, mas não tão velhos assim, e problemática atual engendram reflexões. Nessa perspectiva, diferentes linhas de análise são expostas, cotejadas e, em determinado momento, indicam convergência, para em outros momentos, revelarem afastamento. A participação do usuário na produção da habitação, discutida e proposta por Turner39 (1977), confere à autoconstrução de moradia, sustentada na ajuda-mútua, um papel instrumental, capaz de impulsionar soluções para a questão habitacional. O centro de suas reflexões situava-se na adequação da moradia às necessidades dos mais pobres. Para ele a autoconstrução constituía a possibilidade concreta e “realista” de concretizar essa adequação tornando a autoconstrução uma solução mais interessante ao ser confrontada com a dos conjuntos habitacionais produzidos pelo Estado. Além do mais, a própria concepção do projeto pelos moradores representava um elemento dessa adequação. A autoconstrução, segundo o autor, seria uma alternativa relevante para sanar o déficit habitacional dos países de Terceiro Mundo. Obtendo ressonância, suas idéias disseminam-se e exercem forte impacto nos organismos internacionais de financiamento, tornando-se requisito para a concessão de recursos nos programas alternativos do Banco Mundial-BM e do Banco Interamericano de Desenvolvimento-BID. Ao serem apropriadas pelo Banco Mundial, a idéia da autoconstrução assume uma conotação de redução dos custos da moradia para os pobres dos países periféricos. No Brasil, concorreram para a estruturação dos programas alternativos de habitação popular formulados pelo Banco Nacional de Habitação-BNH, em execução a partir da década de 1970, quando a autoconstrução é introduzida como forma de acesso à habitação por intermédio de política pública. Essas idéias ganharam corpo nos países latino-americanos, foram incorporadas aos discursos e práticas do Estado brasileiro assumindo a autoconstrução um papel instrumental no urbano e em propostas que visavam à solução para a problemática da habitação no estágio de desenvolvimento capitalista dos países periféricos. Torna-se possível afirmar que as idéias de Turner consolidaram uma vertente em 39As propostas formuladas por Turner (1977), inicialmente, estiveram referenciadas em experiências vivenciadas no Peru e em pesquisas empíricas. Propostas que se destinavam aos países pobres e, logo, foram incorporadas pelo Banco Mundial, passando a integrar as estratégias de ação para esses países. 121 favor da autoconstrução por ajuda-mútua, uma visão reconfigurada da produção da habitação e de assentamentos para os segmentos populares, ao mesmo tempo em que concorreram para modificar o debate sobre o habitat popular. A influência exercida por estas idéias pode ser determinada pela amplitude da literatura crítica sobre o assunto. A participação, defendida pelo autor, circunscrevia-se ao âmbito dos aspectos operacionais: às formas de uso do terreno, aos materiais empregados na construção das habitações, e em relação à planta da edificação. Sua proposição não compreendia as definições políticas mais gerais sobre os programas ou os investimentos. Sendo, no entanto, da perspectiva da produção da moradia, bastante ampla. Para Turner, bem como para parcela dos militantes ligados à Igreja que seguia suas idéias, um dos aspectos positivos do processo de autoconstrução da moradia era a possibilidade de essa experiência se colocar como um projeto emancipador. Questões e críticas às políticas baseadas na autoconstrução emergiram, evidenciando-a como: “[...] atestado do caráter selvagem e retrógrado do capitalismo brasileiro” no enfrentamento da questão da moradia, como destaca Bolaffi ao citar Oliveira (BOLAFFI, 1986, p. 27). Tratava-se de uma participação de natureza mistificadora, carregada de equívocos políticos e oposta aos ideários de democracia plena, apoiada em ampla participação política, como pensada por muitos teóricos naquele momento. Na análise do mesmo autor, elementos essenciais, intrinsecamente relacionados ao acesso à moradia foram escamoteados nas formulações de Turner, como, por exemplo, os mecanismos para a constituição e formação dos salários, geração de economias de escala e mecanismos de formação de preços (BOLAFFI, 1983, p. 65). Na prática, as camadas populares, ao assumirem por conta própria a produção da moradia, estariam submetidas, na argumentação de Oliveira (1972, p. 28), a: “[...] um trabalho não-pago, isto é, supertrabalho”. Sua interpretação é respaldada em interpretação analítica que se assenta nos vínculos entre cidade e acumulação capitalista. Significa dizer que a população, tornando-se responsável pela produção de moradia, arca com a sobrevivência individual e familiar, além de realizar um trabalho precário. Quando financiada pelo Estado, a produção da unidade habitacional realiza-se com custos mais baixos, repassando-se à população os adicionais relativos à conclusão da obra, o complemento do material construtivo, e as horas de trabalho necessárias à construção da moradia. Outras implicações permeiam essas práticas, relacionadas à desproteção trabalhista, 122 e à subcontratação da mão-de-obra, o que precariza, de modo acentuado, o trabalho e as condições de vida do trabalhador e do grupo familiar. Muito embora esses fatos sejam aparentemente claros, também subsidiam e estimulam exames em maior profundidade. Como ação pública, expõe elementos expressivos das desigualdades sociais, da expropriação das camadas populares, com severas conseqüências para a reprodução social, e deixam transparecer o papel do Estado na articulação da acumulação. Recorrendo novamente a Bolaffi (op. cit., p. 66), a autoconstrução “[...] na prática significa eximir-se o poder público de sua obrigação de prover soluções consistentes e adequadas” para a problemática habitacional. Referenciada no exame da literatura internacional sobre a temática da autoconstrução, Valladares (1986) identifica duas tendências na abordagem deste fenômeno: uma de natureza ideológica relativa à auto-ajuda ou à ajuda-mútua como política de governo; e outra que manifesta o pessimismo com relação aos objetivos sociais que podem ser alcançados com base na autoconstrução. Situado na primeira tendência, Pradilla atenta para os perigos da mistificação das formas espontâneas de provimento da habitação. Na perspectiva desse autor, a auto-ajuda era encarada de modo exageradamente idealizado, como resposta mais apropriada às questões relacionadas à moradia dos pobres. Este autor reconhece que a autoconstrução tem seus limites no “[...] controle sobre a ocupação do solo, pela queda da renda familiar, pelo desemprego e pela elevação dos custos de material, ainda que seja de segunda mão. Mesmo que muito divulgados, os programas estatais de autoconstrução são muito limitados e seus custos tão elevados, que se colocam fora do alcance daqueles que são, supostamente, seus destinatários” (PRADILLA, 1988, p. 41). A segunda tendência corresponde ao pessimismo dos analistas frente aos programas alternativos em geral, inclusive os que se apóiam na autoconstrução. Este pessimismo, de certo modo, tem seus pilares calcados em informações empíricas, obtidas através de pesquisa encomendada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento-BID, ao término da implementação de projetos realizados na década de setenta. As avaliações apontam para uma participação menor do que aquela que era esperada por seus promotores na construção da casa. Isto porque, conforme indicavam as pesquisas, entre 40 a 80% das famílias contrataram mão-de-obra para a execução das tarefas básicas de construção (VALLADARES, 1988). Ora, cabe refletir sobre as informações 123 obtidas uma vez que a participação na construção da moradia representava um dos elementos constitutivos da proposta e do embate com os seus críticos. Neste sentido, admitese que houve um malogro da participação preconizada e encampada pelos organismos financiadores da habitação para a população pobre através da auto-ajuda ou ajuda mútua. Quer dizer, na prática, a participação não ocorreu como pensado pelas agências internacionais para os países pobres. 2.4.2 MEANDROS DO DEBATE SOBRE A AUTOCONSTRUÇÃO NO PAÍS A autoconstrução de moradias configura práticas enraizadas em tradições históricas, empreendidas por segmentos populares. Todavia, recorrentemente, o Estado apropria-se dessas práticas, incorporando-as na formulação de políticas e programas. Essa incorporação impõe, muitas vezes, uma feição híbrida às políticas públicas. Dissimula e desconecta questões essenciais e inerentes à questão habitacional, à forma capitalista de produzir. Simultaneamente, apreende, noutro registro discursivo e prático, uma produção social baseada no valor de uso, recolocando-a na direção da reprodução do capital. Extraem-se, das análises e discussões sobre a autoconstrução, no Brasil, no período referenciado, três padrões argumentativos: um ressalta a superexploração da força de trabalho, ou seja, a redução dos custos da reprodução da força de trabalho e aumento da acumulação do capital; um outro, vincula-se ao sentido político-ideológico atribuído à autoconstrução; e o último destaca os processos organizativos, as formas de reciprocidade, a não alienação uma vez que confere autonomia ao trabalhador no processo construtivo e, ainda, reduz os custos da moradia. Vejamos a seguir estas linhas analíticas. Em crítica contundente, Oliveira (1972) rechaça a autoconstrução sob o patrocínio do Estado e enfatiza que, no processo de acumulação do capital, ocorre a combinação entre o arcaico e o moderno que acompanhou a urbanização brasileira. Para ele, a autoconstrução de moradias é indicativa dessa situação. Significa dizer que a energia empregada no processo autoconstrutivo pelo trabalhador amolda-se e reforça as condições do capitalismo brasileiro, ao mesmo tempo em que o “trabalho não pago”, ou seja, o “supertrabalho” contribui para ampliar a exploração da força de trabalho. A casa, como seu 124 resultado, pode significar, então, a redução dos custos de reprodução de força de trabalho. Nos dias atuais, essa discussão enfrenta outras implicações em face da dimensão alcançada pelos processos de marginalização e exclusão social dos segmentos pobres. No caso, a autoconstrução, seja ela remunerada pelo Estado ou empreendida espontaneamente pela população, tem implicações sobre a produção e a reprodução social, sendo, no caso da autoconstrução financiada, o Estado o mediador desses processos. Atendo-se à autoconstrução como a arquitetura possível, Maricato (1979), seguindo a mesma direção analítica de Oliveira (1972), argumenta que a simbiose entre as forças produtivas avançadas e o Estado beneficiam-se da dilapidação da força de trabalho. Todavia, conforme concebe a autora, a autoconstrução diferencia-se da sistemática utilizada nas formas capitalistas de produção de moradia, expressando “[...] (a) cooperação entre as pessoas, troca de favores, nos compromissos familiares, diferenciando-se, portanto, das relações capitalistas de compra e venda da força de trabalho” (MARICATO, 1979, p. 71). Situando a herança histórica pertinente às formas de autoconstrução, - a mutirão, auto-ajuda, ajuda-mútua - Maricato apresenta-as como termos que designam os processos de trabalho utilizados pela classe trabalhadora, tanto no meio rural como no urbano, para prover sua habitação. Para ela, o conceito de autoconstrução envolve o processo de construção da casa, seja própria ou não, realizado coletivamente com a participação das pessoas mais próximas, familiares, podendo também contar com profissionais remunerados. A relevância, tanto quantitativa quanto qualitativa da autoconstrução, para os trabalhadores das grandes cidades dos países capitalistas dependentes, é ressaltada por Maricato, uma vez que acredita tratar-se de uma solução mais próxima dos segmentos populares, em face de seus baixos salários, revelando, dessa forma, os bloqueios que impedem a sua entrada no mercado, através da compra de moradias. Entretanto, chama a atenção, também, para a reduzida eficiência das políticas públicas, que visam o acesso à moradia. Como resultado, predominam as iniciativas da própria população frente aos programas e políticas estatais na produção da habitação popular, no período analisado. Nesse aspecto, a produção doméstica e ilegal sobressai como alternativa, combinando o arcaico e o novo no processo de modernização dos centros urbanos brasileiros. Assinala a autora “[...] as contradições entre crescimento e pobreza, acumulação e miséria, modernidade e exclusão ficam mais patentes nos modos utilizados pela população trabalhadora e sem salário para 125 promover a moradia” (MARICATO, 1995, p. 4). Outros elementos são acrescentados por Bonduki e Rolnik (1979), ao discutirem o acesso à casa própria pelos segmentos populares, e, em convergência com a análise de Maricato (op. cit., p. 129), entendem que as raízes da autoconstrução residem nos baixos salários do trabalhador. Admitem que, nesse processo, existe a incorporação de um “[...] sobretrabalho implícito, mas que não se encontra no trabalho da construção, e sim na magnitude do ‘trabalho necessário’ na jornada de trabalho”. No entanto, os autores consideram a autoconstrução como uma alternativa à redução dos gastos com aluguel. O trabalhador imprime à unidade habitacional um valor de uso, apropriado, exclusivamente por ele, quando constrói sua própria moradia através da autoconstrução. Nessa direção, foge das regras estritas do mercado imobiliário da habitação, sustentado no lucro. Mais tarde, Bonduki, discutindo a autoconstrução a partir dos loteamentos periféricos da cidade de São Paulo, revê sua posição anterior quando realiza uma crítica ao paradigma que deu suporte às análises dos programas de autoconstrução instituídos na década de 70. Suas explicações estão lastreadas na fala dos personagens envolvidos no processo de construção de moradia. A partir da revisão formulada, propõe outra linha de discussão, considerando que a autoconstrução favorece os processos organizativos das camadas populares e a gestão popular, significando, ainda, uma alternativa na redução dos custos da casa. Além do mais, assinala: O importante é que neste processo, o morador/trabalhador, ao contrário do que ocorre quando ele vende no mercado sua força de trabalho, não se aliena do produto do seu trabalho, garantindo assim a construção de um patrimônio que jamais poderia ser adquirido no mercado formal da habitação pelo custo deste processo de construção (BONDUKI, 1992, p. 155). Nessa perspectiva, o autor assinala as vantagens de autoconstrução para o trabalhador: a total autonomia para realizar a obra, tanto nos aspectos físicos e construtivos, na administração e gestão, na contratação de mão-de-obra, como na aquisição de material e na definição do tempo para a realização do trabalho. Além do que a autoconstrução agrega um somatório de economias incorporadas à unidade habitacional, tais como: a ausência de remuneração do trabalho, do pagamento de encargos sociais, dos impostos, da taxa de administração, dos lucros repassados aos agentes e empresas imobiliárias. Ao mesmo tempo, 126 já instalado na moradia em construção, o proprietário elimina o custo com aluguel. Em face da amplitude e dimensão do trabalho, considera que o termo autoconstrução torna-se limitado para abarcar a totalidade do processo. Bonduki (op. cit., p. 154) propõe, então, o uso do termo: “[...] auto-empreendimento” ou “produção doméstica”. Contudo, sua reflexão está assentada, sobretudo, na provisão de moradia localizada em loteamentos periféricos, que marcou significativamente a expansão urbana da cidade de São Paulo e sua região metropolitana. Admite-se, portanto, que sua proposta não apreende, de forma generalizada, todos os processos autoconstrutivos e a diversidade existente no país, e até mesmo em São Paulo, o que, aliás, não exclui o sentido mais amplo da sua proposição. Além do mais, a abordagem do autor refere-se também ao exame de empreendimentos realizados diretamente pelos segmentos populares, não incluindo assim o financiamento público. Ao ressaltar as vantagens do auto-empreendimento, Bonduki apressa-se em diferenciar sua proposta da “Liberdade de construir”, propalada por Turner (1977). Desta perspectiva, seus argumentos distanciariam-se dos arrazoados deste último autor por entender que estes eram pautados na idealização romântica do processo de autoconstrução, o que dissimularia as suas desvantagens. Situando o verso da medalha e adotando uma postura crítica à visão romantizada, Bonduki destaca as limitações enfrentadas na ação do autoconstrutor: restrições materiais; aspectos técnicos e urbanísticos reduzidos, decorrentes dos padrões dominantes; dificuldades de encontrar alternativas mais apropriadas à unidade habitacional, mesmo respondendo a demandas particulares; baixa produtividade; emprego de técnicas inadequadas; ausência de assessoria técnica, para mencionar apenas alguns. No que tange ao trabalhador, reconhece o desgaste físico ao qual é submetido em decorrência da ampliação de sua jornada de trabalho. Acrescente-se que a autoconstrução, empreendida em loteamentos periféricos, realiza-se como ação individual e isolada, pois trata-se de famílias que iniciam a ocupação do terreno, sem laços sociais anteriores. Pautando-se em uma crítica aos argumentos e orientações metodológicas de Turner e seguidores, para examinar a problemática da moradia nos países latino-americanos, Jacobi (1981, p. 21-22) propõe: 127 [...] uma compreensão da dinâmica da autoconstrução a partir de sua inserção no universo de precariedades dos excluídos dos mecanismos formais de habitação, e dos mais elementares benefícios da urbanização, nos moldes de uma cidade capitalista como São Paulo e outras metrópoles brasileiras. Reconhecendo a problemática habitacional e a precariedade das condições de vida de parcela da população dos países periféricos, o autor discorda “[...] de a autoconstrução vir a ser uma solução aos problemas econômicos decorrentes de baixos salários, empregos instáveis e falta de empregos” (JACOBI, op. cit., p. 39). Todavia, entende-a como “[...] a única possibilidade de morar para uma parcela da população trabalhadora excluída”, e acrescenta, “[...] Responde basicamente a necessidades de satisfazer determinadas necessidades sociais que não são supridas a contento” (JACOBI, op. cit., p. 28-29). Crítico das propostas de autoconstrução do Banco Mundial nos anos setenta, Azevedo (1981) admitia, mesmo assim, a incorporação dos segmentos populares em programas de auto-sustentação, de acordo com os quais a população deveria assumir, no mínimo, parte dos custos do projeto elaborado conforme um padrão adequado. No entanto, cabe assinalar que tais padrões representavam propostas com reduzida qualidade de projeto, destinação de recursos escassos, e de lotes localizados em áreas periféricas. Mesmo discordando do conteúdo da proposição, admite o autor que estes programas representam, para as camadas populares, uma alternativa ímpar, já que “[...] a autoconstrução é fundamentalmente uma estratégia de sobrevivência dos estratos populares, que se realiza com uma parte do trabalho excedente de suas atividades de subsistência” (AZEVEDO, op. cit., p. 34). Azevedo afasta-se da visão crítica predominante apoiada em Oliveira (1972), que influenciou estudiosos do fenômeno urbano, ao defender, nos programas alternativos, a existência de um conteúdo político-ideológico distanciado de uma perspectiva puramente econômica, voltada para assegurar a renovação da força de trabalho e reduzir o ônus da reprodução. Bergman (1990) atenta para a mudança de conteúdo da autoconstrução, quando o Estado incorpora-a e dissemina-a como política. Ocorre que, em tais circunstâncias, entende a autora, o Estado passa a financiá-la e vendê-la à população, além de legitimar-se junto a ela, contabilizando o trabalho dos pobres, nas suas estatísticas, como resultado da ação social do governo. Nessas condições, torna-a diversa da forma empregada historicamente pela população, ou seja, uma alternativa de suprimento de sua moradia. 128 Cabe ainda ressaltar que os programas alternativos, formulados a partir do final da década de setenta, pelo Estado brasileiro, nos quais estão incluídos os de autoconstrução, foram instituídos em um contexto de pressão popular pela democracia no país, pela superação da ditadura militar, ao que se soma a necessidade de legitimação política do regime autoritário, que já dava sinais de exaustão. Todavia, a chamada crise da habitação, com pilares nas necessidades de moradia da classe trabalhadora, acelerou a deflagração da proposta oficial. Pode-se apreender que a autoconstrução contém uma apropriação predatória da força de trabalho na provisão de moradia. Suprimem-se, da vida do trabalhador, horas destinadas ao seu descanso e ao lazer, à reposição de energia para novas jornadas de trabalho. Agrega-se à realidade dos segmentos populares a precariedade dos serviços urbanos e de transporte deficitário, freqüente nas áreas pobres das grandes e médias cidades do país. No entanto, a autoconstrução como prática espontânea indica as evidências empíricas como uma alternativa freqüentemente empregada pela população pobre para viabilizar o acesso à habitação. Estudos e práticas demonstram a captura das experiências cotidianas das classes populares, pelo Estado, que se traduzem em políticas e programas. Criam-se, assim, elementos que favorecem novos desvelamentos da realidade, articulados às condições históricas e concretas da experiência urbana. 2.5 A AUTOCONSTRUÇÃO NA OCUPAÇÃO URBANA O desafio de apreender a dimensão assumida pela autoconstrução na ocupação urbana recifense exprime-se na escassez ou mesmo na inexistência de dados, informações consistentes, estatísticas e, ainda, estudos direcionados à questão. O fato suscita algumas indagações, reflexões e, de certo modo, possibilita intuir alguns elementos relevantes para a compreensão da vida urbana. A quem interessariam as possíveis respostas do levantamento dessa realidade autoconstrutiva levada a efeito pelos pobres urbanos? Ora, se a autoconstrução representa uma realidade, mesmo que expressiva quantitativamente, sem valor para o jogo das forças do mercado, e se o Estado atua, timidamente, no longo tempo, como articulador ou provedor de alternativas de acesso à 129 moradia para a população de mais baixa renda, para que informações? A quem tais informações serviriam? Forçoso ressaltar mais uma vez que se trata de um segmento que soçobra na dinâmica do mercado, na relação de compra e venda da habitação, e que não desperta interesses econômicos, margeando a relação de lucro, mas que compõe o universo da produção e da reprodução social. Trata-se de uma problemática habitacional inerente à parcela de mais baixa renda, para a qual o Estado investe no longo e curto tempo de modo insuficiente, frágil. As respostas têm sido, efetivamente, mesquinhas, com restritas possibilidades, no transcurso da história do país e, por definição, da cidade do Recife. A sistemática de controle urbanístico, como uma possibilidade de verificação das habitações autoconstruídas por parte do órgão público competente, não estende, na atualidade, seu braço a essas territorialidades. E mesmo quando o Estado, representado por qualquer das esferas públicas governamentais, desenvolve projetos nas áreas ocupadas pelos pobres, estes projetos escamoteiam, em suas agendas operacionais, a ação de acompanhamento e controle urbanístico. Os institutos de pesquisa, e os meios acadêmicos ainda não absorveram essa inquietação, caso seja possível assim denominar a sistemática invisibilidade da ação do pobre. Ao que tudo indica, esta questão foge, atualmente, aos interesses de entidades ou de órgão de classe envolvidos com as questões urbanas e com o ambiente construído da cidade. As alternativas de auto-ajuda e ajuda-mútua, e, o mutirão são fragilizadas pelas determinantes capitalistas da produção do ambiente urbano. A lei da sobrevivência pessoal e familiar sobrepõe-se à partilha, à ajuda ao outro, de modo intensivo e extensivo, de forma cada vez mais acentuada nos dias atuais. Tomando como exemplo o mutirão, emergente nas práticas de construção de moradia no mundo rural, torna-se possível refletir sobre alguns aspectos culturais relevantes. Contrariando diferentes interpretações, o mutirão envolve relações de troca não mercantis. Ou seja, a prática assenta-se em um tipo de investimento realizado, por uma pessoa ou grupo de pessoas, frente à necessidade de um indivíduo ou de uma família para construir sua moradia. Presume-se que, aquele que ajudou, terá seu retorno em situação semelhante, caracterizando-se, assim, o mutirão como modo de amealhar sua ação ou seu investimento num tempo indeterminado. Por conseguinte, quando existir a necessidade, o cedente recebe do cedido, de volta, a energia empregada na tarefa precedente. Ora, transportando essa 130 prática para as grandes cidades do país, diante da crise profunda do trabalho nos dias atuais, do desemprego, disponibilizar ao outro suas horas diárias poderá implicar supressão da sobrevivência individual e familiar. A autoconstrução da habitação, nas análises mais diversas, seja situada no plano favorável, ou seja dela discordando, é uma modalidade construtiva atribuída ou referida aos pobres urbanos situados à margem do mercado imobiliário formal. No cotidiano, essa fração da população assume e realiza a autoconstrução de sua habitação, no tecido urbano, como uma alternativa de enfrentamento de condições de moradia vividas e postas numa situação limite. Esse agir dessa parcela da população encontra-se oculto nas estatísticas, ou melhor, exprime a ausência de registros, muito embora esteja traduzido, na cidade, por intermédio dos diferentes processos construtivos, do tipo de material empregado na construção da moradia e no tempo utilizado para o desempenho da tarefa. Como indicativo dessa realidade, pode-se recorrer à limitação das políticas públicas de acesso à habitação pela população de baixa renda, promovida pelo governo nas suas diferentes esferas – nacional, estadual e municipal ao ter como referência as iniciativas de autoconstrução por iniciativa própria empreendidas ao longo do século vinte (assunto abordado nos Capítulos 1 e 3 deste trabalho). Alinha-se a esse fator a descontinuidade de tais políticas e a precariedade de renda deste segmento para ter acesso à habitação através das regras do mercado. No Recife, o traçado urbano, nos dias atuais, confere e conserva a trajetória de contrates no transcurso da ocupação do território. Uma paisagem urbana heterogênea, complexa. Retrata um ambiente construído de múltiplas fotografias formadas de mosaicos díspares. Justapostas40, entremeiam áreas pobres e ricas, imagens e realidades construídas no decurso de sua formação histórica. A proximidade físico-geográfica, existente entre moradores de favelas, de assentamentos populares e segmentos mais abastados, demonstra a existência de um modelo caracterizado pela proximidade física e pela distância social. Concretamente, configuram-se formas de segregação socioespacial que se expressam no desenho urbano, construindo e definindo padrões expressivos das estratégias de sobrevivência da população pauperizada, que formaram enclaves no urbano (CARDOSO e RIBEIRO, 1996; LAGO, 2000). 40Áreas pobres e ricas intercalam o tecido urbano resultando em uma distância máxima de 1.2 Km entre quaisquer dessas localidades, conforme indica estudo, realizado através de mapas, para o Plano Diretor do Recife, em 1990. 131 Entende-se que, no Brasil, a autoconstrução de moradias é impulsionada no espaço urbano com a abolição da escravidão e a precária absorver da população em formas de trabalho formal e assalariado. Durante o período escravocrata, a moradia era assegurada ao escravo pelo senhor, na senzala ou no solar urbano. Na passagem do século XIX até às décadas iniciais do século XX, com a instalação da indústria, as necessidades de habitação de parcela dos operários eram supridas por intermédio das vilas operárias. Uma outra parcela do operariado acessava a moradia de aluguel, comum nas décadas iniciais do século passado. Eram cortiços, casas de cômodos bastante precárias adensados em áreas centrais. E até mesmo uma porção de mocambos fazia parte da sistemática do aluguel. Ainda existia um grupo diminuto de habitações de pequeno valor ocupadas por diversos grupos de operários. A fragilidade da estrutura urbana, a ausência de uma sociedade salarial e da ação do Estado geravam uma demanda não atendida. Neste sentido, ressalte-se que: Entre 1871 e 1888, num período, portanto, de 17 anos, toda massa operária escravizada foi transformada, juridicamente, em indivíduos livres. Livres do capitão-do-mato, do cipó-pau e do couro-cru. Do trabalho forçado, da moradia obrigatória e com liberdade de movimentos. E, quase de repente, a planície recifense ficou ao dispor da plebe negra e mestiça que continuava, no entanto, escrava do poder econômico, senhorial. Com o advento do século XX e a chegada de um período comercial e industrial mais ativo, a cidade foi se enchendo mais e mais (BEZERRA, 1965, p. 30). A autoconstrução, nesse contexto, representava a alternativa de acesso à habitação e à cidade, pelos segmentos pauperizados, no Recife. Situava-se no limite dos recursos disponíveis, e incluía a ocupação do solo ao alcance desses segmentos, em áreas sem interesse para o mercado. A autoconstrução envolvia uma multiplicidade de materiais construtivos improvisados e utilizados na habitação, em conformidade com as alternativas disponíveis para adquiri-los. Como resultante, o tempo, para a construção e conclusão da moradia, tornava-se um fator sem projeção definida, com o emprego de horas de trabalho não contabilizadas e vulneráveis aos fatores da conjuntura. Desenvolvida pelos segmentos populares como alternativa de acesso à habitação, a autoconstrução, como modalidade construtiva, é apropriada pelo Estado em diferentes momentos, e adotada como política pública. Como aponta a literatura sobre o assunto, isso ocorre tanto nos países avançados, como nos países perífericos. 132 É interessante observar que a autoconstrução da moradia volta-se particularmente para suprimir o aluguel da moradia, que tem peso expressivo para uma população com renda deprimida, e de criar condições de habitações para a família de modo a permitir-lhe estabilidade e segurança. Santos (1981), em estudo sobre os movimentos urbanos no Rio de Janeiro e mais particularmente sobre experiências de projetos urbanísticos em áreas pobres como Brás do Pina, Morro Azul, e Catumbi, mostra que a autoconstrução assume, igualmente outra dimensão, além de evitar o aluguel, ou seja, passa a ter sentido como investimento para gerar renda. Discutindo as alternativas adotadas por moradores durante a implementação do projeto de urbanização e de autoconstrução de moradias em Brás do Pina, diz o autor: “[...] alguns moradores descobriram que, se pedissem empréstimos para construir casas de dois pavimentos, teriam uma unidade extra para alugar, vender ou ceder a um parente. Sendo os preços de aluguel mais altos do que as prestações, isso era um grande negócio” (SANTOS, 1981, 72). Vale assinalar que o fato de uma casa ser alugada não nega a possibilidade de sua produção decorrer de processos autoconstrutivos. A experiência empírica demonstra ainda que uma casa hoje alugada pode ter sido, originariamente, uma casa autoconstruída para uso pelo próprio construtor e, posteriormente, ter alterado seu uso, destinando-se ao aluguel. Outrossim indica que sua construção pode ter voltado-se desde o princípio a sistema de aluguel. A análise da evolução histórica dos dados sobre a problemática da habitação da população pobre, no Recife, visto no item 2.2 do presente capítulo, registra expressiva quantidade de mocambos alugados, conforme dados coletados pelo Recenseamento Municipal de 1913 e o Censo dos Mocambos de 1939. Tal situação induz a diferentes ordens de questões. Considerando-se que a propriedade da terra urbana no Recife era suficientemente concentrada, gerando profundas dificuldades aos pobres em acessar o solo e a habitação, adicionando a esse fato o “consentimento” do proprietário ou foreiro da terra para que os segmentos mais pobres construíssem seus mocambos em áreas alagadas, e áreas de morros, a partir dos anos de 1930, distantes do núcleo urbano, torna-se possível pensar sobre a tendência dos mocambos alugados pertencerem aos donos das terras. Persiste, então, a indagação sobre a modalidade construtiva empregada. Adotando-se outra linha de raciocínio e considerando-se a existência do “aluguel do chão”, pode-se falar sobre 133 possibilidades da autoconstrução de moradias ser realizada também por pessoas que pagavam o “aluguel do chão”, destinando essas unidades à moradia de aluguel. Informações oriundas de pesquisas de campo para dar suporte a programas habitacionais, a exemplo do Programa de Legalização de Terras desenvolvido em “Terras de Ninguém”, em Casa Amarela, nos anos de 1987-1991, demonstram a presença de habitações autoconstruídas e destinadas ao aluguel. Dessa perspectiva, observa-se que a população pobre também pode assumir um comportamento que a conduz a se apropriar de vantagens de mercado, tanto para o aluguel como para a capitalização do investimento, realizando a venda da casa. Em outras palavras, demonstram as informações que, em situação extrema, existe um mercado singular de habitação com regras próprias nas áreas pobres. No entanto, o sentido da autoconstrução da moradia, como modalidade particular de suprimento do pagamento do aluguel, é reforçada pela população pobre e emerge com expressiva força nos estudos de caso realizado para este trabalho, e será analisada mais adiante. CAPÍTULO 3 A CIDADE DO RECIFE: HABITAÇÃO DE BAIXA RENDA NAS DÉCADAS DE 1980 E 1990 O acesso à habitação pela população de baixa renda através de Políticas Públicas de Habitação na cidade do Recife, durante os anos de 1980-1990, constitui o centro da discussão deste capítulo. No recorte geral abordam-se as políticas empreendidas pelo Estado de Pernambuco e pelo município do Recife, uma vez que esse território tem sido palco de intervenção das duas instâncias governamentais. Intervenção essa que resulta numa dupla convergência de forças e de recursos direcionados para a melhoria das condições da vida urbana recifense. No recorte particular, distingue-se a Política de Habitação do Estado de Pernambuco, no período de 1987-1991, em face da especificidade que assume ao priorizar o desenvolvimento de Programas Alternativos, dentre eles o de autoconstrução de moradias. Situa-se como ponto de abertura dessa discussão a Política Nacional de Habitação Popular desenvolvida pelo Estado brasileiro, ressaltando-se para efeito de exame os Programas Alternativos instituídos, a partir de meados da década de setenta do século passado. Interessa contextualizar a trajetória que permeou o acesso à habitação, através dos programas de autoconstrução de moradia para os segmentos de mais baixa renda, no período correspondente. Tal registro tem como objetivo possibilitar uma compreensão mais alargada sobre a intervenção governamental na área da habitação popular, dada a vinculação histórica que acompanha as diferentes instâncias governamentais no trato da problemática habitacional no país, os limites enfrentados, as singularidades presentes, os fluxos e refluxos da política. Focaliza-se a reorganização da população no campo da luta por habitação que, no Recife, assume características associadas à tradição secular de embates por terra de habitação, por moradia como modo de assegurar a casa e a permanência na cidade. Nesse período, essa luta que inicia a recomposição no final dos anos setenta é partilhada com os segmentos populares dos maiores centros urbanos brasileiros, tendo se manifestado de forma vigorosa nos anos oitenta e adentrado os anos noventa quando tendeu a esmaecer. 135 A Política de Habitação Popular do Estado de Pernambuco, no período de 1987-1991, examinada neste texto, pode-se pensar, foi elaborada e operada em um cenário que articula: elevada pressão popular exercida pelos mais pobres por habitação, alinhada a grandes expectativas frente à ação do poder público e a instalação de um governo estadual de linha progressista, que prioriza o atendimento à população de baixa renda. Esse atendimento caracterizava-se por dois aspectos: a habitação é vista como direito, pelo Estado; a ação pública absorve e responde ao cenário de alta pressão dos segmentos populares. No interior desta política, sobressai a autoconstrução como alternativa de acesso à habitação. Nesse sentido, a autoconstrução constitui uma inovação ou uma estratégia apropriada pelo poder público? 3.1 FOLHEANDO A POLÍTICA NACIONAL DE HABITAÇÃO POPULAR 3.1.1 O Recorte dos Programas Alternativos no Período do Banco Nacional de Habitação Assentava-se a Política de Nacional de Habitação a partir de 1964, em princípios de auto-sustentação econômico-financeiros, conferindo-lhe uma marca privativista de feição administrativo-burocrática. A visão empresarial do modelo adotado confrontava-se com o objetivo social preconizado, e tornar-se-ia, na trajetória do Banco Nacional de Habitação1-BNH, contraditória e, de certa forma, inconciliável com os arranjos das definições da política para a baixa renda. Esse órgão de comando nacional corporificava o caráter centralizador da política de habitação, formava um centro decisório unificado e contava com recursos do Sistema Financeiro de Habitação-SFH. Inscrevia-se o modelo acolhido em uma centralização normativa e uma descentralização executiva (AZEVEDO e ANDRADE2, 1982). 1A Lei nº 4.380, de 21 de agosto de 1964, instituiu o Plano Nacional de Habitação, criou o Banco Nacional de Habitação (BNH) órgão central no comando da política de habitação para “[...] promover a construção e aquisição da casa própria especialmente pelas classes de menor renda [...]”, e o Sistema Financeiro da Habitação (SFH). O BNH foi extinto, em 1986, no advento da chamada “Nova” República. 2Ainda de acordo com Azevedo e Andrade (1982), esse modelo desprezava as medidas subsidiadas, conforme implantada pela Fundação da Casa Popular-FCP, em 1946. Entendiam os mentores do BNH que tais alternativas favoreciam o clientelismo, defendiam que a capacidade administrativa do Estado era inferior a capacidade do setor privado e, ainda, baseavam-se na acepção de que a centralização administrativa e a descentralização executiva propiciariam a eficiência do sistema. Isso sustentava a política habitacional traçada, assentada na viabilização econômica do sistema e incorporação dos agentes privados. Outra crítica dirigida a FCP, como destaca Azevedo (1996, p. 76), dizia respeito à sua incapacidade “[...] em controlar recursos críticos”. Contando apenas com dotação 136 Neste sentido, constituíam-se as demais unidades federativas: os Estados e os Municípios em coadjuvantes da política no correr do período da Política Habitacional comandada pelo BNH, instituída durante o regime militar (1964-1985). As Companhias Habitacionais-COHABs3, na qualidade de promotores e de agente financeiro do sistema, operavam a política, então formulada, orientando-se pelas diretrizes, normas, regras e linhas de financiamento, mas situavam-se à margem das definições políticas e da formulação das propostas. Os municípios em algumas situações contavam também com órgãos assemelhados com a delegação de atuar na execução de programas e projetos de habitação popular. Nos primeiros anos de existência do BNH4, prevaleceu o financiamento para a habitação popular5 (destinada à faixa) para a faixa de renda6 de até três salários mínimos, concretizando-se a investida na construção extensiva de grandes conjuntos habitacionais. Nesses anos perdurava a idéia de remoção dos pobres dos lugares nos quais estavam assentados para terrenos distantes e periféricos ao núcleo urbano. Isso ocorria, em particular, quando se tratava de ocupações imersas na malha urbana que, ao longo do processo de expansão das cidades, incorporaram elevado valor imobiliário, tornaram-se incômodas aos segmentos mais abastados, ao crescimento da cidade e ao mercado da construção. Expressa essa situação, nesse período, a transferência compulsória de favelas no Rio de Janeiro, envolvendo, inclusive, uma população situada na faixa de renda média inferior aos segmentos oriundos de outras localidades (AZEVEDO e ANDRADE, 1982). Críticas realizadas por diferentes estudiosos sobre a política habitacional formulada convergiam para um ponto em comum: a primazia do objetivo do BNH centrava-se na produção da casa própria, como modo de acumulação, mesmo que dirigida orçamentária, cuja disponibilização dependia da boa vontade do governo, a FCP teve um desempenho de pouca envergadura. 3As COHABs através da Lei nº 4.380/64 e Lei nº 5.049/66 tinham atribuições de agente financeiro do SFH, podendo expedir escritura particular com força de instrumento público, resultando em custos inferiores aos praticados pelos cartórios e desvinculados dos trâmites burocráticos. Foram inicialmente criadas tanto no âmbito dos municípios como dos estados da federação. 4A ação do BNH, no campo habitacional, até fins de 1974, foi implementada através de três programas básicos de financiamento constituídos do: mercado popular, destinado às famílias com rendimentos de até três salários mínimos; mercado econômico, voltado para as famílias com rendimentos entre três e seis salários mínimos; e mercado médio, referente às famílias com rendimentos acima de seis salários mínimos. 5Azevedo e Andrade (1982, p. 91-92) destacam que, no período entre 1964-1969, embora o mercado popular tenha sido contemplado com 40.7% de unidades financiadas, os mercados denominados econômico e médio detiveram, respectivamente, 28.8% e 30.5%, a distorção aparece ao observar-se que o custo de uma moradia do mercado médio era, “[...] no mínimo, quatro vezes maior que o de uma habitação popular”. 6A faixa de renda limite das COHABs e órgãos assemelhados, portanto, situada no mercado popular, segundo critérios adotados pelo SFH, era de até 3 salários mínimos até 1974, limite alargado para 5 salários mínimos em 1975 e permanecendo até 1987. A partir de 1987, este limite passa para 10 salários mínimos. Parte da população que adquiriu habitação através das COHABs, exemplo do Rio de Janeiro, era proveniente de áreas de favelas que foram removidas, dentre esses aqueles que não contavam com renda fixa. 137 para a faixa de menor renda da população. “Um falso problema”, dizia Bolaffi (1979) sobre os argumentos utilizados no trato da questão7 da habitação popular, base para definição da política. Enquanto Azevedo e Andrade (1982) destacavam a busca de legitimidade do regime ditatorial. O Ambiente da mudança da política – A inserção dos Programas Alternativos Na metade da década de 1970, inclinava-se a Política de Habitação Popular para uma redefinição no tratamento dispensado à questão habitacional no país. Essa redefinição voltava-se para o atendimento às camadas mais pobres da população, criam-se ministérios e conselhos na área social, sinalizando o governo para uma nova prática e discurso distributivista. Porém, sustentava-se a organização das políticas públicas em princípios do redistributivismo conservador na classificação de Melo (1998, p. 12), e dentre elas a de habitação. A mudança de rumo dos financiamentos integrava uma nova estratégia de acumulação do regime vigente no país. Mudança indicativa da fragmentação das alianças firmadas quando da criação do BNH entre os diferentes setores envolvidos com a produção da habitação e o governo. Há um deslocamento da estratégia de acumulação. Essa nova estratégia apontava para alteração de perspectiva econômica8 e política9, incidindo fortemente na redefinição e nos encaminhamentos da Política Nacional de Habitação Popular. 7A questão da habitação popular, mesmo sendo uma necessidade real, era tratada a partir de argumentos distantes desse real. “Significa apenas que estes, como tantos outros problemas do país, têm sido formulados falsamente; formulados não a partir das características intrínsecas ao problema, mas a partir das necessidades da estratégia do poder e das ideologias que foram elaboradas durante os últimos quinze ou vinte anos” (BOLAFFI, 1979, p. 40). Acrescenta o autor: “[...] não passou de um artifício político formulado para enfrentar um problema econômico conjuntural” (BOLAFFI, op cit., p. 47). 8A nova estratégia traduzia-se, no dizer de Melo (1988, p. 81), no fato de “[...] o setor de edificações, como também a indústria automobilística e a indústria de bens de consumo duráveis em geral, que haviam comandado o processo de acumulação durante o milagre, passam a ocupar um lugar periférico”. Lastreava-se na “[...] substituição de importações nos setores de bens da capital e insumos básicos onde a construção pesada ocuparia um papel central”. Agregava-se a essas medidas uma política de combate à inflação que se deparava com um mercado imobiliário superaquecido. Medidas contencionistas para o setor imobiliário que dominara a estratégia de acumulação na fase antecedente. 9A mudança de rumo da política habitacional associava-se também aos aspectos políticos de tendência à “distensão” do regime autoritário, introduzindo a necessidade de aproximação com a população, representando, ainda uma investida do órgão nacional para reavivar as COHABs, após a derrota eleitoral do governo, em 1974 (AZEVEDO e ANDRADE, 1982). Visto desse ângulo, delineava-se uma suposta estratégia de cunho eleitoral e de busca de legitimidade do regime em vigor. Os programas alternativos em relação aos programas habitacionais de conjuntos convencionais vêm à tona, no momento de crise econômica e de crise de legitimidade do governo, lutas por espaços políticos e de retomada das lutas populares por habitação. 138 Ocorre uma crise do padrão de financiamento da habitação popular o que concorre para a redefinição10 da política. Instalava-se, nesse período, “[...] um conjunto de programas de caráter reformista11 [...]” (MELO, 1989b, p. 44), e duas modalidades de financiamento12 passam coexistir no mesmo órgão responsável pelo financiamento dos programas habitacionais do país gerando conflitos de “racionalidades”: os programas convencionais e os programas alternativos. Como ressalta Melo (1989, p. 180), convivem: [...] num só agente (os agentes financeiros) duas racionalidades antitéticas. Ademais, a interdependência – e irreconciabilidade – entre os objetivos da política de habitação está presente também no fato que a provisão adequada de habitação popular parece ser incompatível com a provisão de habitação nos mercados médio e alto. De outra perspectiva, verifica-se que a crise do padrão de financiamento traduzia-se numa crescente dependência do sistema administrado pelo BHN às agências multilaterais, a exemplo do Banco Mundial. Fato manifesto, na influência exercida por aquele organismo no processo decisório de formulação de programas específicos, como o PROFILURB. Contudo, as alterações nessa política que resultam na instituição dos programas alternativos aos convencionais de construção de conjuntos habitacionais demarcaram a inserção das áreas pobres na política habitacional, contemplando a urbanização de aglomerações imersas e consolidadas no tecido urbano dos grandes e médios centros brasileiros. Situados em um contexto em que se ensaiava a transição democrática no país, os programas de caráter reformista instituídos para atender as famílias de um a três salários mínimos foram criados e implementados combinando ações que poderiam ser concentradas em uma mesma localidade, ou individualmente disseminadas no espaço da cidade. Com isso introduziam formas novas de hierarquização dos lugares de acesso aos programas. Pautavam-se esses programas na idéia da participação da população diretamente envolvida com o projeto, constituindo-se essas idéias em fortes argumentos para a sua formulação, pelo órgão promotor. Tratava-se, no entanto, de uma participação 10Essa redefinição ocorre entre 1974-1979, no Governo do Presidente Ernesto Geisel, período de transição democrática. 11A estratégia reformista abrangia toda a política social e a política de habitação, sendo formulada e recomendada pelo Conselho de Desenvolvimento Social-CDS, um órgão colegiado instituído em 1974. 12São definidas taxas de juros diferenciais considerando os valores dos empréstimos para aplicação em operações de caráter social. Travava-se de medidas voltadas para ampliar os investimentos no mercado popular de habitação. Tais medidas acentuaram a reação do empresariado do setor imobiliário que viam seu espaço de investimento e de lucratividade bastante reduzido. 139 circunscrita ao processo de produção da moradia, às formas de uso do terreno, aos materiais empregados na construção das habitações e/ou em relação à planta da edificação da casa. Em suma, uma participação conferida ao planejamento executivo, à gestão e à construção da unidade habitacional. Além do mais, essa participação traduzia-se na expectativa de que a população participasse como força de trabalho na construção das moradias. Argumento, vigorosamente, criticado por analistas e opositores da idéia (assunto abordado no Capítulo 2). O primeiro programa público a incluir o acesso à terra urbana, o PROFILURB – Programa de Financiamento de Lotes Urbanizados (1975), ampliava a população atendida, rebatia na política operada pelas Companhias Habitacionais e, de certa forma, absorvia uma postura crítica frente à inadequação do atendimento à faixa de renda abaixo de três salários mínimos, por intermédio dos conjuntos convencionais. As implicações do programa assentavam-se no fato de remeter à população a construção da moradia aos limites de suas possibilidades, assegurando tão-somente às condições de saneamento e de infra-estrutura do terreno. Uma dupla responsabilidade recaía sobre o segmento atendido: o pagamento pelo acesso à terra e à produção da unidade habitacional. Reformulado, em 1978, esse programa dilatou o prazo e o valor de financiamento, centrou-se na produção de lotes acrescido da unidade sanitária e, ao estabelecer uma unidade habitacional mínima, instituiu a casa tipo embrião, idéia posteriormente absorvida pelo PROMORAR. Mas seu alcance foi reconhecidamente limitado e sua viabilidade ocorreu pela vinculação ao FICAM e ao PROMORAR. No âmbito da largada reformista, surge o FICAM – Programa de Financiamento da Construção, Conclusão e Ampliação ou Melhoria de Habitação de Interesse Social (1977) que complementava as ações do seu antecessor, tendo como objetivo “[...] consolidar a autoconstrução enquanto alternativa efetiva aos programas convencionais” (MELO, 1989a, p. 45). Além dos financiamentos individuais foi operado em junção ao PROFILURB. De certa forma, a clientela desse programa era mais assemelhada a dos conjuntos convencionais. Centralizado na urbanização de favelas, o PROMORAR – Programa de Erradicação de Sub-Habitação (1979), procurava fixar as famílias no espaço, recusava a remoção, envolvia a construção de novas moradias e pleiteava a participação da população nas ações de execução do programa. Absorveu o PROFILURB e o FICAM. Concebido, em meio à perda crescente de legitimidade política do governo, adicionada à ascensão da crise econômica no final da década, ele “[...] representou a versão mais 140 acabada da nova política habitacional que acompanhou o processo de abertura política do regime militar” (MELO, 1989a, p. 45). Tinha como objetivo erradicar as subabitações. O PROMORAR13 agregou a maior produção, no período 1979-1982, correspondente a cerca de 150.000 unidades, representando 25% de toda a produção das COHABs no período. Explica-se essa investida pela campanha levada a efeito através do Ministério do Interior14, firmada na lógica tipicamente clientelista. Sobressaiu uma forte destinação de recursos para as prefeituras do Nordeste, de acordo com as ordenações, definidas pelo Ministério (MELO, 1989a; SILVA E SILVA, 1989). Tal ordenação, contudo, segundo Azevedo e Vieira (1989), indicou um perfil redistributivo ao priorizar a região Nordeste brasileira com uma maior parcela de investimentos habitacionais. Direcionado ao financiamento de unidades a pequenas e médias cidades, o Programa Nacional de Autoconstrução – Programa JOÃO de BARRO (1984), representou a consolidação de um programa de autoconstrução em larga escala por intermédio do mutirão. Esse programa sustentava sua implementação no tripé: reduzir os custos da habitação da baixa renda, empregar mão-de-obra sem qualificação e disponível, e estimular a participação das camadas populares. Todavia, o desempenho do programa foi bastante limitado. O processo organizativo e os aspectos econômicos O processo de “abertura política” iniciado no final dos anos setenta no país renova as possibilidades de manifestação dos segmentos organizados da sociedade Reconstroem-se arenas de lutas, arregimentam-se articulações nas diversas esferas do Estado e da sociedade. Nos anos 1970 e 1980, por intermédio de diversos temas, ocorre “[...] a politização dos movimentos e a sua visibilidade na cena política do país” (RIBEIRO, 1995, p. 13). O novo cenário dificultava a remoção de grupos inteiros de pobres instalados nos espaços das grandes cidades brasileiras e instigava os processos organizativos. Tal situação aparecia com intensidade nos movimentos urbanos por 13Silva e Silva (1989) ressalta os desvirtuamentos básicos das propostas do programa, ao realizar remanejamento de populações impondo a compra de casas, muitas vezes piores do que as anteriores, sem condições de alojar toda a família. E, mais, assinala o impacto da crise financeira que atinge o BNH, a partir de 1983, resultando na lentidão e até interrupções de ações. Por outro lado, conforme assinala Cardoso e Ribeiro (2000, p. 5, citando MACHADO DA SILVA e FIGUEIREDO, 1981), “No caso brasileiro, a resistência ao processo de remoção de favelas que uniu moradores, lideranças políticas e parte de setores técnicos, levou a que a política de urbanização – e não a remoção – passasse a prevalecer a partir do início dos anos 80”. 14Durante a gestão do Ministro Mário Andreazza à frente do MINTER. 141 moradia e posse da terra e, também, no despontar de ocupação de terras urbanas para habitação (SANTOS, 1981; ETAPAS, 1988, 1989; MOURA, 1990). Os efeitos das ações dessa fração da população em movimentos organizados serão, ainda, mais visíveis na década de 1980, ao se agregarem à luta pela democracia, então em curso. Esses fatores aliavam-se ao fato da a questão da pobreza, como questão urbana, ter entrado em pauta na agenda dos organismos internacionais financiadores de programas habitacionais para os países do Terceiro Mundo. O debate e as ações sobre programas alternativos de habitação popular, entre os quais os de autoconstrução, faziamse presente na América Latina e em países do mundo pobre, desde os anos sessenta, como visto no Capítulo 2 deste trabalho. Os segmentos sociais comprimidos pela problemática habitacional e pela ausência de respostas através de políticas públicas reagem em processos organizados, intensos e disseminados de ocupações de terras públicas e de particulares, em diferentes cidades brasileiras. Essas ocupações tiveram início em meados dos anos setenta, alongando-se ao princípio dos anos noventa, e constituíam uma forma precária ao alcance dos segmentos populares, para enfrentar a problemática da moradia, reflexo do sucessivo empobrecimento de parcela da população brasileira (SILVA e SILVA, op. cit., 1989). Diferenciam-se daquelas ocorridas em momentos anteriores pelo caráter coletivo da organização, ultrapassando formas individuais, já empregadas. Esse modo de agir assegurava a visibilidade do embate entre classes sociais expressa no urbano, tendo como ponto de partida a luta15 por moradia. O quadro de crise econômica e social, que marcou os anos 80, intercalado apenas por um hiato de crescimento, entre 1985 e 1986, foi assinalado por períodos repetitivos de recessão com elevada escalada inflacionária e crescimento acelerado da pobreza, registrando níveis acima dos anos 60 (SINGER, 1992). A crise16 repercute nas condições de reprodução social tornando-se assustador: o rebaixamento salarial e o decréscimo no poder de compra dos trabalhadores; a precarização do trabalho, a diminuição da estabilidade do emprego e a redução no ritmo de oferta de empregos; a alteração da tendência de redução do número relativo de pobres e o aumento da desigualdade de renda. “[...] enquanto 1% de indivíduos no extremo superior da distribuição de rendimentos, que percebiam 13.0% do total de rendimentos em 1981, passou a perceber 14.6% em 1990, os 10% de indivíduos mais pobres tiverem sua 15Ver 16Ver sobre o assunto no Recife: MOURA, 1990; FALCÃO NETO, 1984. pesquisa FINEP, 1985, p. 86. 142 participação no rendimento reduzida de 0.9% para 0.8% no mesmo período” (ROCHA, 1997, p.122). Todavia, indicadores sociais que dizem respeito à educação, saúde e ao saneamento básico mostram uma melhoria nas condições de vida dos brasileiros, isso porque foram registradas quedas nas taxas de mortalidade infantil, de analfabetismo e de jovens fora da escola, de habitações sem saneamento básico (MELO, 1988; RIBEIRO e LAGO, 1995). Explicações para isso podem ser remetidas às políticas sociais implementadas no decorrer da “Nova” República, muito embora se registre a ênfase dada em programas de feição nitidamente assistenciais (SILVA E SILVA, op. cit., 1989). No entanto, dados comparativos dos 30 anos, decorridos entre as décadas de 1970/80/90, permitem verificar, que o pior desempenho da economia ocorreu à década de 90, constituindo essa a verdadeira década perdida. Nos anos de 1970, o Produto Interno Bruto-PIB nacional se expande 8.9 em média por ano; na década de 1980, a expansão foi de 4.4%; e na década de 1990, a economia cresceu apenas 2.9%, desempenho medíocre ao se levar em conta a taxa de crescimento da população economicamente ativa. Em relação a Pernambuco, informações da SUDENE mostram uma taxa de crescimento de 8.9% em 70, 4.4% em 80 e o registro de maior queda nos anos de 90, correspondendo apenas 2.7% da parcela de crescimento frente ao resto do país. Por outro lado, a década de 1980, com freqüência, denominada de década perdida, impõe-se, contrariamente, como anos de embates e conquistas da sociedade, dos movimentos sociais urbanos (JACOBI, 1989; SADER, 1988; KOWARICK, 1987; GONH, 1995). Esses movimentos, nessa década, ganharam força e pressionaram o Estado para assegurar o acesso aos serviços de infra-estrutura, à participação social e a conquistas no plano político. Data desse período, a intensificação da participação nos movimentos17 por moradia e a ampliação da instituição de canais18 de participação. Alijados das negociações que culminaram nas políticas habitacionais do governo militar, esses movimentos destacam-se sobretudo nas ocupações de terras urbanas no decorrer da década de 80, mas que foram iniciadas na década anterior, conquistando o reconhecimento legal em diversas cidades do país, ao fomentarem a criação de legislação 17Diversos movimentos populares por moradia organizaram-se nesse período, como: Movimento Nacional de Luta pela Moradia - MNLM; União dos Movimentos de Moradia; Confederação Nacional dos Moradores - CONAM; Coordenação Nacional dos Mutuários. 18Silva e Silva (1989, p. 133) critica a estratégia partipacionista adotada pelo governo entendendo-a como forma de cooptação expressada na instituição de representações dos trabalhadores em órgãos-chave, inclusive no BNH sem, no entanto, essa participação ter qualquer representatividade e, mais, sem ter possibilidade concreta de influir nas decisões tomadas, assim criando uma falsa ilusão de participação. 143 urbana, concernente à realidade instalada. Em outras palavras, concorreram para a instituição de uma legislação que garantisse a permanência da população no local no qual se encontrava instalada. Na década seguinte, a elaboração do projeto19 de lei do Fundo Nacional de Moradia Popular representou uma expressiva contribuição dos segmentos organizados. Mesmo com os avanços assegurados, a análise realizada por Ribeiro (1995, p.15) sublinha que as fraturas sociais tornaram-se mais claras, [...] a partir de meado dos anos 80, quando o processo de redemocratização mostrou os limites no que concerne às políticas de interesse social. Esses limites têm sido tratados, pelo discurso político mais usual, através da racionalização econômica e de critérios de eficácia de forte efeito desmobilizador. Este efeito desmobilizador fez-se nítido nos anos 90, após o período constituinte, quando as conquistas legais substituíram em grande parte o planejamento e os compromissos orçamentários com o enfrentamento da questão social. A força do órgão nacional de habitação vai esmaecendo nos primeiros anos da década de 80, acelerada pela crise20 econômica. Agora, em simultaneidade e na contramão do fortalecimento dos movimentos sociais organizados, em razão da transformação de uma multiplicidade de fatores tanto de ordem interna – a desarticulação institucional da estrutura, iniciada em 1985; a crise fiscal do Estado rebatendo no Sistema Financeiro da Habitação-SFH; aumento das taxas de inflação; desemprego; ampliação das desigualdades, bem como de fatores de ordem externa - reordenamento do capital, já iniciado na década anterior, ampliado com o processo de globalização21, e incidindo vigorosamente sobre a formulação das políticas públicas22 no Brasil. Os efeitos desse conjunto de fatores tornarse-ão mais palpáveis nas décadas seguintes, dada a progressiva redução do Estado e, por conseqüência, o enxugamento das políticas públicas habitacionais, rebatendo 19Projeto esse resultante do Fórum Nacional de Reforma Urbana que reúne Organizações Não-Governamentais, entidades profissionais e parlamentares. 20Ao esgotamento do padrão de financiamento das políticas públicas urbanas associa-se também a crise econômica produzindo uma redução da receita do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço-FGTS, motivada pela compressão da massa salarial e a elevação dos saques do FGTS, queda no investimento na Caderneta de Poupança, e conseqüente diminuição da captação líquida e, ainda, pela da receita de juros e amortização de empréstimos. Além do mais, a recessão ao provocar um rebaixamento dos salários reais tem como resultado um descompasso entre o reajuste dos salários e as prestações da casa própria, muito embora esse descompasso pouco tenha atingido a população de mais baixa renda (MELO, 1989). 21Sobre globalização ver SANTOS, 2001; IANNI, 1996; CHESNAIS, 1996; DOWBOR, 1995, entre outros. 22“O esgotamento do padrão de financiamento das políticas públicas urbanas se deu a partir de 1983, tendo ocorrido, entre 1980 e 1983, uma significativa concentração de investimentos nas áreas de saneamento e habitação” (MELO, 1995 apud LAGO, 2000, p. 34). 144 significativamente sobre as possibilidades de acesso à habitação no urbano pelos mais pobres. Azevedo e Ribeiro (1996, p. 13), ao citar Melo (1988-a), chamam a atenção para a ação do Estado brasileiro no encaminhamento da questão habitacional, ao serem examinados os dados no seu conjunto, revelam que: O Estado foi, desde o pós-guerra, o pressuposto da criação do moderno setor construtivo habitacional. Até 1964 de forma errante e não sistemática, mas, com a criação do Sistema Financeiro da Habitação, o Brasil se assemelha aos países desenvolvidos. [...]. Do conjunto das unidades construídas entre 1964 e 1986 cerca de 26% contaram com o financiamento do BNH, marcando um êxito que o Brasil tem a ostentar diante de países como a França, Inglaterra e Estados Unidos. No mesmo estudo, os autores (AZEVEDO E RIBEIRO, op. cit., p. 14) mostram que, das habitações erguidas nas cidades, no período correspondente, predominaram as formas de produção de moradia sem características plenamente capitalistas, somando no tecido urbano 88% da produção operada via: incorporação pública (Companhias Habitacionais), incorporação semipública (cooperativas), e autoconstrução realizada por encomenda com recursos próprios (RIBEIRO, 1997). Estima-se que tão-somente 12% das habitações produzidas nas cidades brasileiras, no período de 1964-1986, correspondem à atuação do setor privado através da incorporação imobiliária. Os dados apontam, na acepção dos autores, para a “[...] incapacidade do moderno mercado capitalista de moradias em responder à demanda da maior parte da população urbana” (AZEVEDO e RIBEIRO op. cit., p. 14) O desempenho social da política do BNH, durante o seu período de vigência, apresentava-se crítico. Aponta Azevedo (1996, p. 78) que, dentre as 4,5 milhões de unidades financiadas, somente 33,5% destinaram-se aos setores populares. Nesse caso, os programas tradicionais implementados com recursos do Sistema Financeiro da Habitação atendiam apenas uma parte reduzida da clientela que originariamente deveria ter acesso à habitação direcionando-se, aliás, esses recursos para as faixas de renda mais elevada. Nessa ambiência, e conforme as razões examinadas anteriormente, é que emergem os programas alternativos voltados para os segmentos populares, situados na faixa de 1 a 3 salários mínimos. Contudo, mostram os dados: “Menos de 6% das unidades financiadas” destinaram-se a esses tipos de programas AZEVEDO (op. cit., 1996, p. 79). Ainda assim, mesmo operando de modo restrito, tais programas viabilizaram a urbanização de favelas, 145 o acesso ao chão por intermédio da legalização da posse da terra, assegurando a permanência da população no lugar no qual estava erguida a sua moradia. Pode-se inferir com base nas informações acima que o Banco Nacional de Habitação criado para atuar na questão habitacional de baixa renda, durante o tempo de sua existência, atendeu apenas a uma reduzida parcela dessa população. Contraditando, portanto, a emergência das necessidades habitacionais dos segmentos de baixa renda com a ação do Estado. Predominaram, no período decorrido entre 1964 e 1986, a formulação e ação de políticas de habitação de dimensão nacional sob a orientação do Banco Nacional de Habitação-BNH, com recursos no Sistema Financeiro de Habitação-SFH. Os Estado e os Municípios viam-se atrelados ao formato da política pública definido por aquele órgão, cujo término tem o marco expresso na extinção do órgão central, ao mesmo tempo em que seu fechamento suscitou a definição de outros caminhos. Cardoso e Ribeiro (2000, p. 1) salientam que, “Embora a ação do BNH fosse falha em muitos pontos23, com a sua extinção a moradia popular ficou órfã, passando por vários ministérios e secretarias, sem que conseguisse definir com clareza um padrão de políticas públicas a ser implementado”. 3.1.2 Na trilha da política nacional de habitação da “Nova” República Herdeiro de uma ampla dívida social do regime militar, o Governo da denominada “Nova” República, iniciado em 1985, propõe-se a uma reestruturação ampla das políticas públicas, mas cai em um somatório de ações pontuais de feição assistencial e de inclinação clientelista. Sob o ponto de vista político, a passagem do regime precedente para o governo, que busca firmar-se em preceitos democráticos, far-se-á assinalado pela descontinuidade em face das incertezas dos acordos políticos que sustentaram a sua instalação, transbordando ao longo da sua trajetória para a perda da capacidade do governo em efetivar decisões, configurando-se assim uma paralisia decisória e uma fragmentação institucional. Na démarche da “Nova” República, de acordo com Melo (op. cit., 1998), o princípio organizador da agenda governamental das políticas públicas, incluídas as políticas de corte social como a habitação, assume um caráter de reformismo social- 23Cardoso renda. e Ribeiro (2000) destacam a incapacidade do BNH em atender através de suas ações as faixas de menor 146 democrata alicerçado no universalismo, na descentralização e na transparência. No entanto, o projeto reformador articulado no período correspondente tornar-se-á inviável e naufraga em face da coalizão das forças que possibilitaram a passagem do regime imposto pela ditadura e a retomada da democracia, num ambiente de profunda crise fiscal do Estado. Há um deslocamento do debate sobre as políticas públicas e do seu conteúdo para a redefinição do papel do Estado. A Política Nacional de Habitação ainda estava vinculada ao BNH, nos primeiros anos da “Nova” República24, e situava-se em meio a uma retórica de reacender as funções sociais originárias da criação do Banco. Contudo, a busca de associação entre pontos de natureza diferentes, ou seja, as funções sociais e o modelo de auto-sustentação financeira precedente contribuíram, dentre outros fatores, já discutidos acima, para o seu fechamento25, em 1986. As atribuições desse órgão foram transferidas para a Caixa Econômica Federal-CEF, sem que tenha se efetivado uma definição para os problemas financeiros do órgão antecessor e dos temas que permeavam o debate em relação à habitação popular. Quer dizer, comprovava-se por esse ângulo a ausência de proposta governamental para o campo temático da habitação. Nesse ambiente, foi instituído o Programa de Habitação Popular – PROHAP, pela CEF, em 1987, no sentido de dar prosseguimento política da habitação popular, permanecendo as COHABs e as prefeituras municipais a atuarem como promotoras. Essa transferência de atribuições rebate nos encaminhamentos das questões urbanas e mais especificamente das questões habitacionais, pois o novo órgão trata dessas questões de modo setorializado. O caráter de banco comercial da Caixa, diferente do BNH, um banco de fomento, ensejava um papel conflitante para lidar com as questões sociais. De certa forma, recolocavam-se dificuldades semelhantes àquelas existentes no extinto BNH quando foram instituídos os programas alternativos, conforme especificado anteriormente. Ou seja, com a busca de equilíbrio financeiro como parte da natureza da Caixa Econômica criavam-se e renovavam-se barreiras para acionar os programas alternativos destinados aos segmentos mais pobres e sem capacidade de endividamento 24O quadro do Sistema Financeiro da Habitação no alvorecer da “Nova” República caracteriza-se resumidamente como: baixo desempenho social, alto nível de inadimplência, baixa liquidez do Sistema, movimentos de mutuários organizados nacionalmente e grande expectativa de que as novas autoridades poderiam resolver a crise do Sistema sem a penalização dos mutuários” (AZEVEDO, 1996, p. 79). 25Antecedendo o fechamento do BNH, o novo núcleo dirigente lastreado no discurso reformista criou uma comissão para propor sugestões à questão de ordem institucional e financeira, patrocinou debates regionais. A complexidade da questão, a multiplicidade de interesses envolvidos dificultavam a convergência de alternativas para pontos que atendessem consensualmente pontos divergentes. O governo sem dar prosseguimento às discussões e à finalização de uma proposta cerrou as portas do BNH. Sobre o assunto ver: AZEVEDO, 1996; SILVA E SILVA, 1989, dentre outros. 147 “[...] que exigem elevado grau de subsídios, envolvimento institucional, desenvolvimento de pesquisa [...]” (AZEVEDO, 1996, p. 81). Operacionalmente, mesmo existindo ministério e outros órgãos responsáveis pela política urbana e habitacional, a Caixa destacava-se no gerenciamento e controle dos recursos vinculados ao Sistema Financeiro Habitacional. Ademais, mostram os dados que em 1987 “[...] as COHABs financiaram 113.339 casas populares[...]”, caindo este número, em 1988, para “[...] 30.646 unidades [...]” como acrescenta o mesmo autor. Essa queda deveu-se à Resolução 1.464, de 26.02.1988, baixada pelo Conselho Monetário Nacional e normas que se seguiram (CEF, 1988). As explicações para a Resolução dizem respeito à necessidade de controle sobre as dívidas dos estados e dos municípios, mas gerava, não obstante, restrições de acesso ao crédito por parte das COHABs, redefinindo-se as suas principais funções, e com isso a clientela tradicionalmente atendida por essa empresa do Estado. O desdobramento da medida far-se-á em duas direções: as COHABs são transformadas em órgãos de assessoria perdendo a sua antiga atribuição de agente promotor, acarretando diferentes efeitos negativos à sua ação; transferiram-se para a iniciativa privada os créditos destinados aos financiamentos habitacionais, antes utilizados pelas COHABs e, a um só tempo, minimizou a capacidade dos estados e municípios em agir sobre a problemática habitacional. Desse prisma, as definições encaminhadas pelo novo governo de retórica reformista imprimem à política habitacional popular uma fisionomia reducionista ao conduzir também a elevação da faixa salarial para acima de cinco salários mínimos, como requerimento à proposição da habitação, retardando ou anulando as parcas possibilidades de acesso à habitação através de políticas públicas no país, no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação e ao limitar ou modificar o papel das COHABs. Doutra parte, na “Nova” República desenha-se e entra em ação um conjunto de programas alternativos desvinculados do SFH e do padrão público de produção convencional de habitação. Voltam-se esses programas, particularmente, para a urbanização de lotes, sendo priorizada a infra-estrutura física e a autoconstrução de moradias, acolhendo a idéia de permanência da população pobre no local no qual estava estabelecida. Prática que se tornou corrente no decorrer da gestão de José Sarney (19851989). Sobressai, em meio aos programas instituídos, o Programa Nacional de Mutirões Habitacionais acionado através da Secretaria Especial de Ação Comunitária – 148 SEAC, cujo atendimento concentrava-se na população situada na faixa de até três salários mínimos. Havia confluência entre esse programa e os programas alternativos que lhe antecedera26 em duas linhas: quanto ao desempenho da população atendida e quanto ao papel do poder público local. Esse programa tornou-se nômade27 institucionalmente na esfera federal, passando por diferentes secretarias e diversos ministérios no período de sua existência. A sua implementação deu-se por intermédio do sistema de mutirão visto como modo operativo para baixar o custo da unidade habitacional e, igualmente, nutrir-se de formas associativas das localidades atendidas ao incorporar a ajuda-mútua. Críticas quanto a esse último aspecto, ou seja, ao modelo adotado, são ferrenhamente realizadas por Silva e Silva (1989), argumentando que tal modalidade não advém de formas espontâneas de solidariedade social. Caracterizava-se o programa como ação integramente subsidiada, dispondo de verba orçamentária e a fundo perdido. Enquanto o formato institucional exigia maior presença dos Estados e dos Municípios como entes decisivos no desenvolvimento do programa, formalizando-se a relação operativa através de convênios celebrados diretamente entre essas instâncias e a SEAC. O Programa dos Mutirões respondeu pela ação de maior amplitude no âmbito da habitação popular no primeiro governo pós-ditadura. Na avaliação de Azevedo (1996), esse programa para o qual havia sido previsto o financiamento de 550.000 unidades habitacionais28 (SEAC, 1988) não tinha construído em menos de dois anos um terço das unidades habitacionais. Explicações para isso seriam encontradas no baixo29 valor do financiamento da unidade habitacional, na elevada inflação do período e na utilização inadequada dos recursos. Mesmo assim, o programa apresentou maior desempenho numérico do que os programas convencionais de conjuntos habitacionais. Com o término do governo, finalizou-se do mesmo modo o programa, em razão da debilidade do formato institucional e das condições dos recursos utilizados. A bandeira de luta dos movimentos organizados pela reformulação da política habitacional, no período de retomada da democratização do país, fortificou as decisões do Estado brasileiro no sentido de propiciar uma outra feição a essa política, mas, na prática, 26Trata-se do: PROFILURB, PROMORAR e JOÃO DE BARRO. a trajetória o percurso institucional do Programa Nacional de Mutirões Habitacionais da Secretaria Especial de Ação Comunitária – SEAC, durante o Governo José Sarney (1985-1989) ver SILVA e SILVA, 1989; e AZEVEDO, 1996. 28Para o mesmo período as COHABs financiaram menos de 150.000 unidades habitacionais (CEF, 1988 citado por AZEVEDO, 1996, p. 83) 29Em valores de agosto de 1988 corresponderia a (NCZ$ 120,00) AZEVEDO, 1996, p. 83. 27Sobre 149 contraditoriamente, as alterações empreendidas pelo Estado transcorreram por caminhos nem sempre condizentes com os defendidos pelo movimento organizado. No ambiente da segunda metade da década de 1980, a habitação é introduzida na agenda pública como direito, perspectiva corroborada na legislação urbana ao ser instituído o usucapião urbano especial. Dessa forma, o valor de uso deveria assumir a primazia sobre as regras de mercado que determinavam o acesso à moradia. O reconhecimento desse direito favorece a definição de uma política habitacional pelo Estado concedendo uma tonalidade universalista assentada em princípios de igualdade de acesso. Fato que, alinhado à marcante presença dos movimentos organizados e o somatório dos elementos do contexto sociopolítico, concorreu, conforme dito acima, para assegurar como prática freqüente a permanência da população no local de moradia por intermédio de programas de urbanização e de habitação, rejeitando-se a retirada compulsória dos pobres do chão no qual estavam assentados. Contudo, os programas implementados assumem feições clientelistas o que contradita com as lutas do segmento popular organizado. Destaca-se a inserção dos Estados e dos Municípios, nesse período, na agenda das políticas públicas, demarcando papel especial como entes decisórios na formulação e na aplicação de políticas e dos programas habitacionais. Nesse período, a descentralização já tomara corpo em respostas às lutas envidadas pelos movimentos organizados, sobressaindo os questionamentos endereçados ao desenho institucional eivado de centralismo, ao alargamento da participação popular nas instâncias públicas. Assinale-se que, nos primeiros anos da década de 1980, na passagem do regime autoritário para o regime democrático, os primeiros passos para a descentralização haviam sido dados. Críticas ao formato institucional antecedente, acompanhadas de advertências, integravam as formulações de analistas que davam sustentação à busca de mudanças em duas direções: dos governantes e da gestão. Quer dizer, segundo essas críticas, caberia alterar o sistema de decisões centralizado e sem consultas, característico do regime finalizado, fazendo aflorar instâncias intermediárias, nesse caso os Estados e os Municípios, vergando assim o centralismo burocrático autoritário. Noutra perspectiva de interpretação, a descentralização possibilitaria maior controle social e teria seus fios condutores origem nas determinações externas. Sobre esse prisma cabe destacar como tão bem lembra Azevedo, A. T. (2000, p. 17): 150 A descentralização administrativa, no entanto, não surgiu apenas como uma garantia contra a inoperância do Estado, vez que tem servido também aos interesses expansionistas do capital. Com efeito, existe um vínculo entre as dívidas externas dos países periféricos e a globalização financeira. O FMI, como síndico destas dívidas, prescreve a desregulamentação e a descentralização como forma de incentivo à penetração e à fluidez dos capitais apátridas sobre as economias nacionais em crise de solvabilidade interna e externa. Em conseqüência, observa-se uma participação cada vez mais intensa dos capitais externos no provimento da infra-estrutura econômica, tradicionalmente fornecida pelo Estado [...] Com o processo de descentralização em curso no período das lutas democráticas, os Estados e os Municípios ganharam maior visibilidade assumiram atribuições antes negadas. Cabe destacar que na prática os governos municipais, mais que os estaduais passaram a desempenhar papel mais efetivo no desenvolvimento de ações no campo da moradia popular, prerrogativa e competência do governo federal, desde os anos de 1930. É nesse contexto que o Programa Mutirões passa a ser operado pelo governo federal assumindo um papel institucional em que as três esferas governamentais firmam articulações e definem responsabilidade de ação. A discussão envolvendo a descentralização ganha aparato formal ao ser incorporada à Constituição de 1988. Registra Maricato (2001, p. 64) que Klink, citando Oliveira, assinala que a descentralização no país ocorre “[...] de fato, por ausência” em face do recuo da instância central de poder decorrente da falta de autonomia na condução das políticas nacionais. Assim sendo, a descentralização situa-se no hiato deixado pela esfera nacional e propicia a emergência e espaços de ação das demais instâncias federativa. Com a trilha recém-aberta para descentralização e, cabe pensar, com a escassez de recursos para investimentos no campo da habitação popular, acende a possibilidade de normatização pelo município sobre o território de sua jurisdição. Afloram, por esse caminho, legislações urbanas favoráveis à regularização da posse da terra que assegura a permanência da população pobre nos locais ocupados, reduzindo, com isso, a pressão do setor imobiliário sobre esses espaços. Pressão que emerge mais contundente quando se trata de áreas localizadas em terras de elevada valorização no urbano, ou em processo de valorização e circundada de infra-estrutura física e serviços de usos coletivos. Esse meio ambiente construído é fruto de contradições e de tensões, ao mesmo tempo em que gera novas tensões envolvendo diferentes interesses: dos segmentos populares, do Estado, dos segmentos abastados e dos empresários. No Recife, o Plano de Regularização das Áreas Especiais-PREZEIS (1987) exemplifica a ação normativa encaminhada pelo município, como será detalhado mais adiante. 151 No período em discussão, verifica-se no âmbito da estrutura interna do Estado uma especialização de funções entre agência tipicamente distributivista, como a SEAC, vinculada ao executivo, e a permanência das agências preexistentes com atribuição de financiar os poucos programas habitacionais, contando com recursos limitados, e conduzindo a uma superposição das primeiras em relação às outras. 3.1.3 O desenho das ações de habitações nos anos noventa: a permanência dos programas alternativos No contexto brasileiro dos anos 90, conforme Araújo e Guimarães Neto (1998, p. 36) sublinham: “A crise fiscal, de caráter eminentemente financeiro, é a grande marca da realidade do setor público nacional, e sua intensidade é maior primeiramente em nível do setor público federal30”. É nítido o “[...] avanço das concepções liberalizantes (neoliberalismo), com concomitante tendência à redução do poder de ação do Estado e a busca de estímulo ao papel do setor privado e, portanto, das iniciativas do ‘mercado’”. Tendência mais fortemente sentida no poder central que passou também a dividir com as demais esferas federativas certos papéis e atribuições que lhes eram conferidas em décadas anteriores. A nova Constituição do país ampliou as competência e atribuições municipais, todavia manteve uma superposição de prerrogativas entre as diferentes esferas governamentais no que tange às responsabilidades com o provimento da habitação para os segmentos mais pobres. Nesse sentido, como acentuam Cardoso e Ribeiro (2000, p. 23), “[...] parece ser um modelo ambíguo de descentralização [...]”, conforme tem se manifestado nos anos 90. Seguindo os argumentos dos autores, verifica-se que tal ambigüidade ganha força na medida em que falta clareza às prioridades e aos critérios redistributivos de destinação de recursos na esfera federal. É fato que a lacuna deixada pelo afastamento do Governo Federal na política e nos programas de habitação popular suscitou um avanço do município na formulação de políticas habitacionais de âmbito locais. Conquanto, a ação da instância local apresentou-se, por um lado, limitada “[...] pela capacidade financeira dos municípios” e, por outro lado, facilitou um “[...] novo modelo de financiamento, de inspiração clientelista, que se estabeleceu desde o final dos anos 80, 30Acrescentam Araújo e Guimarães Neto (1998, p. 36) “Embora vá alcançando gravidade crescente nos níveis estadual e municipal, ao longo da década, sem arrefecer no nível do poder central”. 152 baseado no apoio a projetos desenvolvidos sob iniciativa local” (CARDOSO e RIBEIRO, op. cit., 1). Reforçam os argumentos acima as considerações formuladas por Azevedo, A. T. (2000, p. 26) sobre a institucionalização das mudanças na gestão das políticas sociais no geral, e em particular das políticas habitacionais como fatores de eficiência governamental e de consolidação da democracia. Considera o autor que, ao se avaliar as políticas habitacionais, se constata um fortalecimento dos Estados e dos Municípios como gestor dessas políticas e, nesse caso, afirma-se o seu caráter descentralizador. Porém, observa Azevedo (op. cit., 26) de modo expressivo “[...] a aprovação de projetos é submissa a articulações políticas de cunho clientelístico entre o poder local e os órgãos de financiamento, o que compromete a natureza ‘democrática da gestão’”. Prosseguindo na sua análise, ainda o mesmo autor acrescenta que nesse período: [...] os programas condicionam a aprovação de recursos a partir da montagem de organismos de participação comunitária, incentivando assim, o associativismo e outras formas de cooperação social. No entanto, restringe a participação da comunidade, à medida que a liberação de verbas é uma prerrogativa exclusiva aos titulares dos executivos estaduais e municipais. A liberação de linhas de crédito diretamente aos associados pela via das organizações populares reforça o viés descentralizador e participativo dos programas e atenua os efeitos da rigidez burocrática verificados na aprovação dos financiamentos. Mediante o cenário de crise, as ações do Estado brasileiro tenderam, na década em discussão, no campo temático da habitação, à resolução de conflitos emergentes que assegurava, por um lado, elevada visibilidade política e, por outro lado, apresentava um baixo custo financeiro. Já acionadas na década anterior, persistirá, nesta década, o desenvolvimento de ações voltadas para a regularização da posse da terra. Atuaram tais medidas como respostas às invasões de terras urbanas vigorosamente registradas, nos anos antecedentes, mediante processos de mobilização e organização social dos segmentos populares e, a um só tempo, voltaram-se para o atendimento aos anseios das lutas históricas, travadas pela população pobre para ter acesso à terra de habitação, à habitação e à cidade. Nessas circunstâncias, a linha da normatização ascende, na instância municipal, como alternativa de formulação e operação de políticas públicas de habitação endereçadas aos segmentos mais pobres. Tendência que aparece ainda timidamente nos anos iniciais da década de 1990. Políticas Habitacionais para as faixas mais pobres da população, estiveram presentes através dos programas alternativos tanto na “Nova” República como nos anos 153 90. No governo da “Nova” República a focalização dos mais pobres ocorreu por intermédio dos programas de mutirões, da SEAC, baseados na autoconstrução, sendo a distribuição das unidades habitacionais assinalada por critérios aleatórios. Essa prática de alocação das habitações repete-se ou mesmo se aprofunda no governo Collor (19901992), que inicia a década de noventa, ganhando corpo tal procedimento no fato de aquele governo deixar de lado a distribuição realizada pelo “Conselho Curador do FGTS, através da Resolução n. 25, de 26/10/90” (UNICAMP, 1991, p. 42 apud AZEVEDO, 1996, p. 84). Ademais cabe considerar que a política habitacional, nos primeiros anos da década de 90, no Governo Collor, não operou alteração substancial no Sistema Financeiro da Habitação, situação supostamente relacionada à prioridade em debelar a inflação e, por conseqüência, afetando o desenvolvimento de “[...] todos os programas sociais de maior envergadura, prometidos durante a campanha [...]” (AZEVEDO, op. cit., p. 84). Assinalese o lançamento do Plano de Ação Imediata para a Habitação – PAIH, como o próprio nome já expressa, assumiu caráter emergencial, destinado a uma faixa de até cinco salários mínimos e definia três31 linhas de atendimento: “programa de moradias populares (unidades acabadas), “programa de lotes urbanizados” (incluindo ou não cesta básica de materiais) e o “programa de ação municipal de habitação popular” (unidades acabadas e lotes urbanizados). A fonte de financiamento advinha exclusivamente dos recursos do FGTS. Uma tentativa de alterar a orientação da política habitacional ocorrerá no governo de Itamar Franco (1992-1994) com a instituição do Programa Habitar-Brasil32 e Morar Município33, acionados em paralelo ao SFH e dirigido aos mais pobres, e inscritos nas linhas dos programas alternativos. Previam-se como fonte de recursos verbas orçamentárias e outros advindos do Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira - IPMF. Todavia, essa última fonte foi sufocada pela priorização conferida ao Plano Real. A falta de institucionalização da iniciativa, no que pese o seu caráter inovador, esvaziouse, de certo modo, quando se consideram os objetivos inicialmente previstos para o programa – descentralização, gestão popular e produção em larga escala (AZEVEDO, 1996, p. 92). Registrou-se igualmente uma busca de ultrapassar a visão pontual dos programas antecedentes, mas na prática não obteve essa conquista. No governo Fernando 31Para as duas primeiras linhas de financiamento mencionadas os agentes promotores poderiam ser as COHABs, Cooperativas, Entidades de Previdência, entres outro, para a última caberia às prefeituras executá-la. O Plano era coordenado pelo Ministério de Ação Social/Secretaria Nacional da Habitação e a Caixa Econômica Federal assumia a implementação as linhas de financiamento através de agentes promotores. 32O Programa “Habitar Brasil” voltava aos municípios de mais 50 mil habitantes. 33O Programa “Morar Município” contemplava dos municípios de menor porte. 154 Henrique Cardoso (1995-2002) prossegue a focalização, também nos segmentos de mais baixa renda e será marcado pela continuidade dos programas instituídos por seu antecessor. Porém, as linhas de financiamento através da CEF inclinaram-se para uma elevação34 das faixas de renda como forma de acesso à habitação, aspecto reforçado pelo caráter de banco comercial, discutidos anteriormente, muito embora o discurso oficial ressaltasse a importância dos programas para a baixa renda. Tal fato aprofunda os limites impostos aos mais pobres para acessar à habitação através das modalidades de financiamento público, com recursos geridos pela CEF. Pode-se pensar numa determinada regularidade nas características dos programas destinados aos mais pobres – os alternativos – ao longo de diferentes gestões governamentais, entre os anos 80 e 90, e dos distintos período discutidos, alterando-se, no entanto, com freqüência o nome de batismo, para lhe conferir uma feição particular ao período de gestão daquele governante. No quadro da segunda35 metade dos anos 80, de forma mais intensa e percorrendo a década de 90, de modo mais brando, os programas alternativos com recursos a fundo perdido, ou largamente subsidiados, foram a tônica do acesso à habitação pelos mais pobres, mas seu alcance foi limitado. Além disso, durante a vigência dos programas alternativos, no período do BNH, a autoconstrução marcou a forma predominante de acesso à habitação pelos mais pobres. Porém, e, sobretudo no decorrer na “Nova” República, a autoconstrução através do mutirão teve a primazia no modo operacional de acesso à moradia pelos segmentos populares. Contraditoriamente, na perspectiva universalizante definida na Constituição de 1988, para as políticas públicas, ao dirigir-se a lente para a instância federal, observa-se que os programas habitacionais instituídos a partir de então, e ainda mais fortemente nos anos 90, estreitaram-se tão significativamente que suscitam indagações sobre a tendência e as possibilidades dessa universalização. Renova-se aqui a importância da instância federal na participação nos programas habitacionais para os segmentos populares, articulada aos Estados e aos 34Azevedo e Andrade (1982) já chamavam a atenção para a elevação da faixa de renda da clientela de COHABs o que caracterizaria uma “elitização dos conjuntos” habitacionais tradicionais. No entanto ressalta, que essa terminologia tinha efeito didático, uma vez que a faixa de três a cinco salários mínimos alterada pelo BNH, na segunda metade dos anos 70, em substituição a faixa de um a três salários mínimos como critério de acesso à habitação, não correspondia de fato a uma elite. No governo Fernando Henrique Cardoso, a CEF, responsável pelo financiamento dos programas habitacionais, voltaram-se para a renda acima de 5 salários mínimos. 35Ressalta Azevedo (1996, p. 83) que o Programa Nacional de Mutirões Habitacionais da SEAC, apesar dos diversos constrangimentos, a exemplo da destinação de recursos realizada sem considerar as diferenças regionais e a questão da pobreza e suas deficiências, o programa teve impacto significativo. Diz o autor: “Foi a primeira vez na trajetória da política popular brasileira que um programa alternativo apresentou melhor desempenho quantitativo que um programa convencional”. 155 Municípios, com clara enunciação de competências e atribuições associadas à alocação de recursos definidos. A amplitude da problemática habitacional, os requerimentos de urbanização das áreas de construção da moradia e de legalização da terra rebatem nos limites financeiros enfrentados pelos Municípios e pelos Estados, em especial os mais pobres da federação. Tais ações implicam utilização de recursos elevados com retorno em largo prazo. Dito de outra forma, supostamente, relacionada à envergadura, dimensão e extensão da problemática habitacional, que atinge frontalmente a população de baixa renda em países periféricos, como o Brasil, a política habitacional exige a agregação de diferentes esferas de governo. Ademais, deve-se considerar que no contexto econômicosocial brasileiro, para os segmentos mais pobres, o subsídio público constitui uma possibilidade de resposta às demandas desse segmento social no que tange à redução do custo da moradia. 3.2 A AÇÃO PÚBLICA DE HABITAÇÃO POPULAR DO ESTADO E DO MUNICÍPIO NA CIDADE DO RECIFE A cidade do Recife acolhe, no interior do seu território, ao longo da década de 1980-1990, ações públicas no campo temático da habitação processadas tanto pelo governo estadual como pelo governo municipal. As duas esferas governamentais catalisam esforços e utilizam recursos no sentido de alterar o quadro das condições de vida da população pobre citadina inserindo tons e enfrentando nuanças diversas em diferentes gestões públicas, no período correspondente. As ações de habitação aqui discutidas dizem respeito, particularmente, àquelas dirigidas aos segmentos mais pobres ocupantes desse aglomerado urbano. Tais ações apresentaram-se, nos anos iniciais em análise, ou seja, no período ainda correspondente à vigência do BNH, em estreita vinculação ou subordinação à instância federal, pautando-se às instâncias locais por diretrizes, normas e linhas de financiamento definidas pelo órgão de dimensão nacional. O aspecto centralizador da política, naquele momento, determinava a direção adotada tanto no âmbito estadual como no municipal, implicando, para essas instâncias, absorção das mudanças operadas no padrão de financiamento e na incorporação de novos programas formulados. A participação popular foi incorporada aos programas alternativos imprimindo um outro conteúdo político à ação pública. Essa participação alicerçava os argumentos 156 que davam sustentação à redução do custo da unidade habitacional, através do envolvimento da população na construção da casa, e introduzia espaços de negociação com os segmentos populares demandantes da habitação. O formato dos programas instituídos emergia num momento de acentuadas restrições políticas e de perspectivas de negociações esparsas e frágeis entre o Estado e a população. Nesse sentido, essa participação ganhou, nos processos de execução dos programas, tonalidades diversas em acordo com os momentos políticos distintos. Estado e Município passaram a estabelecer formas de mediação dos conflitos decorrentes do agravamento da problemática da habitação e das lutas por habitação empreendidas pela população pobre, no Recife. Criaram-se campos de ação que contribuíram para a inserção dessas instâncias locais no conjunto da política de habitação nacional. Traduzia-se, também, essa inserção no processo de ajuste das diretrizes gerais definidas pela esfera federal, aproximando-as da realidade local. Entre a segunda metade dos anos 80 e o decurso dos anos 90, a intervenção no campo da habitação popular assume feições, também próprias, conjugadas nas esferas locais que definem, formulam e acionam alternativas da ação para o espaço urbano citadino. Um destaque especial, no Recife, diz respeito à instituição das áreas ZEIS pelo município, no início dos anos 80, concorrendo significativamente para a garantia da população pobre nos locais ocupados da cidade. No âmbito do Estado, destaca-se a Política de Habitação Popular, formulada e executada nos anos de 1987-1991. As linhas de atuação para os segmentos populares caracterizaram-se, sobretudo, pela adoção de modos alternativos das políticas, distanciando-se do padrão convencional dos tradicionais conjuntos habitacionais. 3.2.1 A ação estadual de habitação popular: os programas alternativos Atrelaram-se os programas alternativos, desenvolvidos pelo Estado36 de Pernambuco ao formato do BNH, no período entre 1979, quando inicia sua implementação, por intermédio da COHAB-PE e perdura até 1986, ano da extinção do 36Os Programas de Construção de Conjuntos Habitacionais em Pernambuco, período BNH, foram de responsabilidade da Companhia Estadual de Habitação Popular-COHAB. Valendo assinar que, em janeiro de 1965, foi criada a COHAB-Recife, com jurisdição no Grande Recife, sendo, em novembro do mesmo ano, criada a COHAB-Pernambuco para atuar nos municípios do interior do Estado. A junção entre as duas COHABs ocorreu, em 1978, permanecendo somente a COHAB-PE, com jurisdição sobre todo o Estado, muito embora sua atuação tenha sido, predominantemente, na RMR. 157 banco, quando esses programas enfrentam modificações. Antecede à implementação dos programas alternativos a construção de conjuntos convencionais de habitação de grandes dimensões, sustentados nas linhas de financiamento do órgão central e direcionados ao mercado popular37. A sua criação vai marcar a convivência com os programas convencionais apontando para um período, no Estado “[...] que procura maximizar o potencial existente no sistema” e, ao mesmo tempo, “[...] procura absorver as reivindicações e pressões sociais [...]” (SOUZA, 1989, p. 62). A intervenção pública no trato das pressões sociais adotava procedimentos que oscilavam entre negociações, discussões sobre as áreas pobres a ser atendidas, os programas a ser implementados e a modalidade de acesso da população, mas também se traduziam em formas de cooptação e controle. No Recife, os conjuntos habitacionais instalam-se, nos últimos anos da década de 1960 e até a década de 1970, em áreas distantes do centro urbano, em especial nos morros da Zona Sul, avançando em direção às franjas da malha urbana. Estendem-se gradativamente na década de 1980 e de 1990 e adentram as cidades que integram a Região Metropolitana do Recife-RMR, como Paulista, Olinda, Jaboatão, Abreu e Lima e Cabo de Santo Agostinho, acentuando o processo de metropolização em curso. Esse movimento, decorrente dos investimentos realizados pelo poder público, concorreu para o deslocamento da população, atraída pelos novos espaços habitacionais localizados em periferias mais distantes. Em simultaneidade, no Recife, cidade núcleo da metrópole, potencializava-se o adensamento dos assentamentos precários ocupados pelos pobres, situação historicamente presente nesse aglomerado urbano. Registrava-se igualmente a expansão dessas áreas pela intensidade das ocupações coletivas de terras urbanas (assunto abordado no item 3.3 deste Capítulo). Fato analogamente verificado no país, nesse período. Tais ocupações diziam respeito ao agir de uma parcela da população excluída do acesso ao financiamento habitacional por intermédio do Sistema Financeiro da Habitação, que buscava terra de habitação para assentar sua moradia, nas proximidades do mercado de trabalho, dos equipamentos e serviços de uso coletivo. Esses fatores tornavam essas terras ainda mais atraentes. 37Sobre o assunto ver nota de rodapé 4 e 6 do 3.1 deste Capítulo. 158 Os programas alternativos38 absorvidos pela ação pública estadual tiveram no PROMORAR (1979) a sua principal linha de financiamento dirigida aos segmentos mais pobres, no período do BNH. Tornou-se o Recife o centro da atenção pública na aplicação desse programa, que, por vezes, fundia-se com o PROFILURB, em outras, ocorria numa mesma área de execução do PROMORAR, surgia o financiamento do FICAM ou, ainda, FICAM e PROFILURB. As possibilidades de junção das diferentes linhas de financiamento provocaram dificuldades administrativo-operacionais, no âmbito da liberação, na comercialização e no momento do retorno ao BNH. Como conseqüência, as localidades alvo e intervenção do PROFILURB e do PROMORAR passaram a ser contabilizadas como áreas do PROMORAR tanto na COHAB como no registro financeiro, junto ao BHN/CEF (SOUZA, 1989, p. 127). Em menor proporção, as áreas pobres ampliaram-se a alguns municípios de RMR, a exemplo de Olinda e Jaboatão dos Guararapes. Razões para essa concentração no Recife podem ser encontradas na organização popular, e na decorrente pressão que exerceu sobre o poder público local, no ressurgimento de formas de participação social, na politização da problemática habitacional e no lento processo de retomada da democracia brasileira. Aliavam-se a esses fatores aqueles de cunho político-eleitoral, dada a forte concentração do eleitorado no núcleo urbano, que, ainda, nos anos 80, detinha aproximadamente metade da população vivendo em assentamentos populares. Apareciam os sinais do restabelecimento do voto popular, apontando para a primeira eleição para governadores, em 1982, ainda sobre o controle do regime ditatorial. Tornou-se esse momento do processo político nacional, e em particular no Recife, um fator de elevada interferência na definição das prioridades e das ações de habitação para a população de mais baixa renda. Em menor proporção, as ações desse gênero estenderam-se aos municípios da Região Metropolitana, no limite mais próximo da cidade núcleo, como Olinda e Jaboatão dos Guararapes. Destaque-se que, com a emergência dos programas alternativos, especialmente com a criação do PROMORAR, a autoconstrução de moradia constituiu-se em uma modalidade introduzida e empregada amplamente como sistemática de acesso à habitação. Esse programa marcou um redirecionamento na forma de intervir na problemática urbana, por intermédio das políticas habitacionais, constituiu uma contraposição ao modo operacional dominante desde a criação do órgão central de habitação, o BNH. A nova 38O Programa FICAM voltou-se para uma faixa mais próxima de atendimento pela COHAB, o PROFILURB viabilizou-se articulado ao PROMORAR, e o JOÃO de BARRO teve desempenho de pouca monta. 159 proposta encampava a consolidação das áreas pobres, num olhar urbanístico voltado para a definição do sistema de infra-estrutura viário e de saneamento básico adequado ao desenho das formas espontâneas de ocupação, em consonância com as peculiaridades de cada localidade, instalação do sistema de melhoria da habitação e de construção de novas unidades integradas às necessidades locais. A intervenção pública local no campo temático da habitação de interesse social orientou-se por uma programação definida pelo setor habitacional do Estado, através de um conjunto de Programas e Projetos, que admitia e enfocava “[...] a aguda problemática da habitação em Pernambuco” (PERNAMBUCO, 1979, p. 05) que requeriam ação e, a um só tempo, juntava-se à política federal e às linhas de financiamento recém-criadas. Nessa perspectiva, instalava-se a nova Secretaria de Habitação39, no ano de 1979, voltada também para assegurar um ordenamento institucional com atribuições concentradas no desenvolvimento dos programas alternativos, e criava-se em sua estrutura um núcleo, a DPE, com responsabilidades pelas ações pertinentes a esses programas. A composição institucional sinalizava para a importância conferida no plano local aos novos programas nascentes. A Diretoria de Programas Especiais40-DPE, responsável pela implementação dos programas alternativos, instalava-se com uma estrutura organizativa e técnica41, assentada no novo padrão de relacionamento voltado para o diálogo e articulação com os segmentos sociais de baixa renda. Assumia competências relativas aos projetos alternativos, em especial de urbanização42 de favelas, fugindo à prática técnicoinstitucional dominante na Companhia de Habitação, enraizada, até então, na construção 39A Secretária de Habitação de Pernambuco foi criada em 1979, na gestão do Governador Marco Antônio de Oliveira Maciel (1979-1982), sendo Secretário de Habitação José Jorge de Vasconcelos que desempenhava, também, as funções de Presidente da COHAB-PE. 40Posteriormente, essa Diretoria é incorporada à COHAB que, em face de suas atribuições formais da companhia, tornava mais flexível o desenvolvimento das ações, situação, muitas vezes, dificultada ou inviabilizada através de um órgão de gestão direta. 41O quadro técnico da DPE abrigava alguns profissionais advindos dos quadros da COHAB, outros, no entanto, contratados para o trabalho a ser implantado. 42A ação da COHAB, dominante até então, se voltava, prioritariamente para a construção dos conjuntos convencionais. Nesse caso, a cultura técnica das áreas de engenharia e arquitetura lastreava-se em processo de articulação, de diálogo com os setores imobiliários, da construção civil, as empreiteiras. A relação com a população dos Conjuntos Habitacionais – o mutuário, dava-se através da equipe técnica social, quando da inscrição e após a instalação na nova casa. Decorria dessa prática, uma clara separação dos saberes técnicos caracterizados pela forma desarticulada entre o planejamento e a ação, a ausência de participação da população nas definições da política, nos programas habitacionais e uma forma elitizada de priorizar os diferentes atores envolvidos com a operação da política habitacional. Para a urbanização de áreas pobres o diálogo com a população envolvida, tornava-se imperativo, requerendo necessariamente ações técnicas articuladas, garantindo a troca de saberes entre os diferentes técnicos e com a população, o que ocorria cotidianamente. Portanto, um novo desafio a ser enfrentado. 160 de conjuntos habitacionais, e caracterizadamente distanciadas da articulação com a população. O Habitat passava, no discurso do Estado, a ser visto associado a um universo de fatores sociais, econômicos, políticos e cultura, definindo-se para o setor habitacional um elenco de doze programas, entre os quais aqueles que apreendiam os programas alternativos43 instituídos nacionalmente. A dimensão da política participativa instituída pelo governo estadual juntava-se às prerrogativas do PROMORAR, previsto para ser executado na gestão do governador Marco Maciel (1979-1982). Esse conjunto de definições ocorre no avizinhar-se do período em que entra em crise o Sistema Financeiro da Habitação, nos anos de 1981-1983 (MELO, 1989). Quer dizer, de certa forma, a programação do setor estadual44 de habitação vislumbrava um tempo largo da ação da política de dimensão nacional, enquanto a política nacional caminhava para o seu desfalecimento. O Programa de Desenvolvimento de Aglomerados Urbanos de Baixa Renda (PERNAMBUCO/HABITAÇÃO, 1983/1985, p. 24-27) contemplava os Projetos: Alagados, Morros e de Relocalização. Instituia-se na ação local a urbanização de área pobres, já consolidadas na malha urbana, baseada na filosofia de uma intervenção global, sendo definidas ações de infra-estrutura, posse da terra, melhoria habitacional e geração de atividades produtivas. O Projeto Vila Redenção/Apulso, localizado no Bairro do Engenho do MeioRecife, foi o primeiro a ser implementado em 1979, iniciado pelo Estado de Pernambuco nos moldes do PROFILURB e acoplado, posteriormente, ao PROMORAR. Seguiram-se aqueles realizados em Sancho-Totó, Sítio das Palmeiras, e nas áreas de Santa Terezinha, Santo Amaro, Ilha do Joaneiro e Chié, reduto tradicional de mangues e alagados. Essas últimas quatro áreas passaram a compor o Projeto Ponte do Maduro45. Contemplavam esses projetos tanto a urbanização como a construção de unidade habitacionais. 43Agregavam-se às ações dos programas alternativos os programas: Programa de Construção e Desenvolvimento de Habitações Rurais, Programa de Desenvolvimento de Aglomerados Urbanos de Baixa Renda, Programa de Urbanização e Comercialização de Novas Áreas, Programa de Financiamento Direto para Construção e Melhoria de Habitações. 44Cabe assinalar que a produção habitacional em Pernambuco de conjuntos habitacionais foi expressiva. Sobre o assunto ver SOUZA, 1989. 45“O Projeto Ponte do Maduro surgiu em 1980/1981 e as negociações das diretrizes constantes nesse documento se processaram entre as representações das quatro áreas e a COHAB-PE. [...] A COHAB-PE, em 1981, encampou a proposta de urbanização e, após a elaboração do projeto executivo, encaminhou-a ao Banco Nacional de Habitação-BNH, solicitando recurso para financiamento” (LIMA, 1990, p. 69). A execução desse projeto perdurou por mais de uma década, sendo inclusive enviado novo projeto executivo complementar à Caixa Econômica Federal, em 1988, cujos trabalhos foram reiniciados ainda nesta década e alongados aos anos noventa. 161 Nas áreas de morros, a ação de dimensão expressiva ocorre com a aquisição das denominadas “Terras de Ninguém”, em Casa Amarela, na Zona Norte, habitada por décadas por uma população que pagava “aluguel de chão” aos seus proprietários, sendo destinada à regularização fundiária, desobrigando mais de 9.000 famílias (estimativa daquela época) desse custo do terreno e, sobretudo, livrando-as das ameaças constantes de expulsão. A relocação ateve-se, particularmente, ao deslocamento da população situada em locais impossibilitados de urbanização, a exemplo das margens do rio Beberibe, em decorrência da retificação de sua calha, cuja faixa de desapropriação foi definida pelo DNOCS. Somaram-se ainda ações iniciadas, em acordo com as linhas acima citadas para áreas pobres, e realizadas em associação com a Prefeitura da Cidade do Recife, através da Empresa de Urbanização do Recife-URB/Recife nas localidades de: Imbiribeira, Coque, Coelhos, Boa Viagem, Torrões, Pina, Encanta Moça, Ilha Sem Deus e Jiquiá/Remédios, numa previsão de atendimento a aproximadamente 17.000mil famílias. (PERNAMBUCO/HABITAÇÃO, op. cit., p. 24-27). Os recursos utilizados no conjunto das ações desenvolvidas pelo Estado, nesse período, originavam-se do BNH, sendo complementados por fontes de organismos internacionais, captados pela Fundação de Desenvolvimento Metropolitano do RecifeFIDEM e verbas especiais da Secretaria de Planejamento do Estado. Assume o governo do Estado Roberto Magalhães (1983-1986) da mesma coloração partidária do seu antecessor, o PFL. Assegura a continuidade dos projetos de urbanização iniciados na gestão anterior. Criou o Projeto Nosso Chão e contratou recursos junto ao BHN para 70 casas. A regularização fundiária ganha corpo, mas se volta para áreas agricultáveis do interior do Estado. A busca de novos recursos atrelados às linhas de financiamentos disponíveis e adequados à realidade local foi cerceada pelo enfraquecimento do órgão central e pelo avizinhar-se, e conseqüente deflagração do fechamento do banco do BNH, no ano de 1986. Em contraponto, abriram-se espaços de intervenção às iniciativas na escala local, que serão dois anos mais tarde fortalecidos com o processo de descentralização46, definido na Constituição Federal de 1988. Data desse período de gestão o Projeto Mustardinha/Mangueira, resquícios de antigas áreas de mangue, alagadas e alagáveis, cujo processo inicial de ocupação remonta 46A descentralização, para alguns estudiosos do assunto, estaria associada à incapacidade do Estado brasileiro, frente à crise fiscal e financeira instalada, em assumir um papel central na implementação das políticas públicas. Na prática ela vem contribuir para o processo de redistribuição dos papéis administrativo e fiscal, das diversas instâncias 162 às décadas de 1920/30, centro de resistência nas lutas urbanas recifense e de forte presença e atuação do antigo Partido Comunista Brasileiro-PCB. Tratava-se de um assentamento popular com fortes problemas habitacionais: degradação das habitações, ausência de saneamento básico e de drenagem, sérias questões fundiárias e elevados índices de doenças associadas à situação sanitária local. Contemplava a intervenção, nessa área, a implantação de serviços de urbanização e de melhoria das unidades habitacionais (PERNAMBUCO, 1984). Como fonte de recurso prioritário, contava o Projeto Mustardinha/Mangueira com recurso decorrente de convênio com o Banco Mundial, articulado por intermédio da FIDEM, fontes do Governo Estadual e do BNH. Iniciado na primeira metade dos anos 80, estender-se-á por diferentes gestões governamentais. Assinala o período entre 1987-1991 o retorno de Miguel Arraes de Alencar ao governo de Pernambuco. A extinção do BNH, em 1986, é seguida pela incorporação à Caixa Econômica Federal-CEF das atribuições de gestão da Política de Nacional de Habitação Popular, sendo as linhas de financiamento anteriormente existentes reunidas no Programa de Habitação Popular-PROHAP47. Nesse quadro de mudanças, Pernambuco desponta com a proposta de implantação de um programa de amplas dimensões, envolvendo a construção da unidade habitacional, melhoria de habitações, executado através do processo de autoconstrução, regularização da posse da terra, infraestrutura. Com essa proposta, sobressai o Estado como realizador de uma experiência única de âmbito nacional de autoconstrução de moradia, nesse período, alavancada com recurso do SFH. Esse período de governo e a experiência local de habitação desenvolvida serão discutidos no item 3.4 deste Capítulo. Estudos realizados por Souza (1989) apontam para um total de 20.70848 de habitações financiadas através dos programas alternativos, no período entre 1980-1989, dirigido ao atendimento à população de renda mais baixa. Desdobrando-se esses dados, identifica-se, para o período entre 1980-1988, o financiamento de 7.868 unidades através do PROMORAR, contemplando a construção e melhoria da habitação. E para o período entre 1988-1989, com recursos provenientes do Programa de Habitação PopularPROHAP, foram financiadas 12.840 unidades, sendo esse financiamento para a construção, melhoria e aquisição de habitação. governamentais, com significativas repercussões para as políticas sociais. Sobre descentralização veja: ARRETCHE, 1995 E 1996; MELO, 1995 E 1996; DOWBOR, 1996, e outros. 47Os recursos do PROHAP destinavam-se ao setor público e privado. 163 Importa observar que o financiamento da habitação realizado através do PROMORAR, executados pela COHAB-PE, embora o programa inclusive previsse a autoconstrução de moradias, as unidades habitacionais foram produzidas por pequenas empreiteiras. Dessa forma, a autoconstrução preconizada não se concretizou na prática, com exceção do FICAM, que realizava financiamento individual/familiar. No entanto, como mencionado anteriormente, sua atenção voltava-se para um segmento mais assemelhado ao da COHAB-PE. A dimensão da Política Habitacional Popular no âmbito estadual estreita-se significativamente (1991-199449), no que tange ao acesso à unidade habitacional, ao considerar-se o período anterior. Perdura o Banco de Materiais de Construção-BMC50, criado na gestão antecessora e permanece funcionando como suporte aos programas habitacionais, porém, com a escassez de recursos, atua de forma lenta e restrita. Registra, para o ano de 1991, “[...] a entrega de cerca de 700 kits de material de construção [...]”, adotando-se no processo construtivo a autoconstrução. No entanto, não sendo renovado o financiamento para novos projetos de construção e melhoria habitacional, que na gestão anterior eram realizados pelo sistema de autoconstrução, e com a mudança de governo que pretende imprimir uma marca própria, observa-se uma tendência ao declínio da adoção da autoconstrução como forma de acesso à moradia. Além disso, há prosseguimento das ações de infra-estrutura em áreas com projetos em andamento sendo contratado recursos complementares, junto a CEF, para projetos de urbanização, a exemplo dos Projetos Caxangá, Ambolê, Brasilit, Roda de Fogo, 27 de Novembro, bem como a contratação de recursos para lotes urbanizados, Projeto SESI, implementados na Cidade do Recife (PERNAMBUCO, 1991, p. 9). Mas ficaram ausentes os financiamentos para novas construções de unidades habitacionais. As ações de regularização fundiária com a titulação da posse da terra em áreas pobres do Recife têm continuidade pelo governo estadual. Aprofunda-se a crise do Sistema Financeiro da Habitação-SFH, entre 19911994, provocando a suspensão de empréstimos, pelo Conselho Curador do FGTS. Essa decisão rebate de forma expressiva na frágil política nacional, minguam suas fontes, com efeitos na escala local, expondo também a debilidade do processo de descentralização das ações e decisões no campo temático da habitação. 48O FICAM no período de 1980-1983 realizou 1.076 financiamentos (SOUZA, 1989), atendendo, sobretudo, famílias habitantes do Recife. 49Gestão de Joaquim Francisco Cavalcanti (1991-1994). 50Remete-se à discussão sobre o BMC ao item 3.4 deste Capítulo. 164 Mesmo sendo retomada a abertura dos empréstimos, em 1995, pelo Conselho Curador do FGTS, as exigências normativas constantes dos Programas PROMORADIA e do PROSANEAMENTO obstaculizam o acesso do Estado a essas fontes. As Cartas de Crédito Associativo e Individual, disponibilizadas pela CEF às famílias situadas no mercado popular, não contemplavam às de mais baixa renda, enquanto o Programa de Arrendamento Familiar-PAR, destinado às famílias de até 6 salários mínimos, inviabiliza o acesso da faixa abaixo de três salários mínimos. Para as faixas de baixa renda, as possibilidades do acesso à moradia, vislumbradas, dirigiram-se ao Programa HABITARBRASIL, com recursos do Orçamento Geral da União-OGU. Ainda, no plano nacional, há a perspectiva de incluir a política habitacional em uma política de desenvolvimento urbano, reunindo programas que acoplassem a moradia aos projetos de saneamento ambiental, transportes, recuperação de áreas degradadas e urbanização de favelas. Uma política a ser integrada com os Estados e os Municípios, incorporando formas organizativas e entidades associativas locais. A soma das intenções obteve repercussões de baixa expressão manifesta, na realidade local, na ausência da integração entre programas desencadeados pelo município de urbanização de favelas e programas como o HABITAR-BRASIL, cujas ações dirigiam-se para uma área específica e eleita para a sua implantação. No quadriênio (1995-1998), com a ausência de disponibilização de recursos oriundos da receita própria do Estado, para construção de moradia, somada às restrições dos recursos originários de fontes federais, a alternativa operacional do órgão local responsável pela execução da política de habitação estadual recaiu sobre a continuidade das ações advindas dos contratos remanescentes, como aquelas do Projeto Ponte do Maduro, com aprovação do aditivo com recursos do FGTS, totalizando 1.093 unidades (COHAB, Relatório da Gestão, 1995/1998). Além dessas unidades, foram construídas com recursos do HABITAR-BRASIL 150 unidades, e 1.391 com recursos do FGTS, sendo 885 distribuídas em diversas localidades com projeto de urbanização sendo executado, como: Caranguejo, Sítio Grande, Vila Felicidade, Vila dos Milagres, algumas das quais em associação com o município, e 506 unidades habitacionais destinadas a reassentamento de famílias nesses projetos. Tratava-se do terceiro mandato de Miguel Arraes de Alencar (1995-1998) à frente do governo de Pernambuco. Os seus compromissos históricos com as lutas populares, nesse momento, não ressoaram na definição da política de habitação abrangente para os segmentos populares. A escassez de recursos transformou-se em 165 argumento, e no limite de ações de grande envergadura. Diferia frontalmente da segunda gestão de Arraes (1987-1990), cuja política será abordada no item 3.4 deste Capítulo. Sem apresentar relevo especial, a ação no campo da habitação para os mais pobres estendeu-se à intervenção à continuidade ao acesso à terra através da legalização do chão. É importante assinalar que o Programa de Legalização de Terras vai sendo incorporada à gestão pública estadual, transformando-se em uma política permanente de governo. Alguns aspectos podem ser considerados em relação à permanência dessa ação, como: a regularização do chão de habitação integra o conjunto de lutas populares levada a efeito durante décadas no Recife; constitui, para o governo, um programa de baixo custo ao comparar-se aos programas de urbanização e instalação de infra-estrutura e construção ou melhoria de unidades habitacionais; os trâmites jurídicos e burocráticos requeridos para a regularização da posse da terra estendem-se muitas vezes por diferentes gestões públicas, como o de “Terras de Ninguém”, em Casa Amarela, adquirida em 1980, no governo Marco Maciel (1979-1982), legalizado o lote na metade do governo de Miguel Arraes (1987-1990). Reaviva-se, para as camadas populares, por meio do Programa HABITARBRASIL, a alternativa de acesso à habitação através da ação pública, de melhorias urbanas, particularmente nas localidades definidas para a sua execução. A partir de 1998, o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID se junta ao Programa, definindo-se uma sistemática com os municípios, outrossim, condicionava os investimentos em projetos de: Urbanização de Assentamentos Subnormais e Desenvolvimento Institucional do Município. Passa esse Banco a recomendar as áreas protegidas por legislação urbana específica, como as Zonas de Interesse Social-ZEIS, como espaços prioritários dos financiamentos levantados junto àquele órgão. Na prática, significa a aplicação de recursos em assentamentos populares protegidos da especulação imobiliária. Todavia, pode ser interpretado também como uma ingerência ou uma forma de pressão do órgão internacional sobre as instâncias locais. O novo formato de financiamento imprime ao poder local maior força e capacidade de ação no âmbito da Política de Habitação Popular, na medida em que a articulação e a contratação dos projetos realizam-se diretamente entre o órgão financiador e a instância contratante. Contudo, esse programa apresenta-se com uma dimensão quantitativamente limitada. Dados coletados por Azevedo (2000), referentes aos programas desenvolvidos, pelo Estado e pelo Município, nas décadas de 80 e 90, TABELA Nº 05, 166 indicam a restrita capacidade de ação das instâncias locais, e baixo compromisso do Estado nas suas diferentes escalas com o provimento da moradia para os mais pobres. Agrava-se essa situação ao se confrontar o reduzido investimento público, no caso do Recife, em habitação popular para a baixa renda com a problemática habitacional. TABELA Nº 05 PROGRAMAS HABITACIONAIS ALTERNATIVOS RECIFE 1980-1999 PROGRAMAS ANOS PROMOTOR ORIGEM DOS RECURSOS HABITAÇÃO VALOR DOS PROJETOS* % DE INVESTIMENTO UNIDA- PARTICIPAÇÃO DES % NO TOTAL PARCIALMENTE SUBSIDIADO 7.914 32.0 17.087.965,62 26.9 CEF/BIRD PRÓPRIOS 4.156 16.7 11.080.062,00 17.4 CEF 1.803 7.2 5.860.765,09 9.2 13.873 55,9 34.028.792,71 53,5 688 2.7 1.788.800,00 2.9 233 1.5 1.426.669,92 2.4 705 2.8 1.834.703,00 2.8 1.745 7.0 4.652.170,00 7.4 524 2.1 1.180.842,00 1.8 7.006 28.0 18.495.840,00 29.2 TOTAL PARCIAL 10.904 100.0 29.359.024,92 46.4 TOTAL GERAL 24.777 100.0 63.387.817.63 100.0 PROMORAR CHÃO E TETO 1980-1995 GOV. DO ESTADO/ PCR BNH/CEF 1987-1990 GOV. DO ESTADO 1991-1995 GOV DO ESTADO PLANO PAIH TOTAL PARCIAL TOTALMENTE SUBSIDIADOS GOV. DO MUTIRÕES 1987-1990 ESTADO PRÓPRIOS/ SEAC PRÓPRIO/ BNDES/ SEAC MUTIRÕES 1988-1989 PCR HABITAR BRASIL 1995-1998 GOV. DO ESTADO 1987-1988 GOV. DO ESTADO PRÓPRIOS AÇÕES PONTUAIS AÇÕES PONTUAIS 1996 PCR PRÓPRIOS ÁREAS VAZIAS 1997-1997 PCR PRÓPRIO/ CEF/BNDES CEF Fontes: (Azevedo, 2000). Empresa de Urbanização do Recife, 1999. Companhia de Habitação do Estado de Pernambuco, 1999. * A atualização dos valores de financiamento dos projetos aqui apresentados é resultante do método utilizado pela COHAB-PE na atualização de contratos, o que corresponde ao seguinte: raciocínio: o valor nominal do contrato é dividido pelo valor das OTN’s (Obrigações do Tesouro Nacional) da data da assinatura, resultando em número de OTN’s correspondentes. Em seguida, esse último número será multiplicado pelo valor das OTN’s de fevereiro de 1989, último mês da existência desse índice, resultando em um valor em cruzeiros, os quais serão divididos pelo VRF (Valor de Referência Financeira), de fevereiro de 1989. Esse resultado será multiplicado pelo valor da UPRD (Unidade Padrão de Referência Diária), mês e ano da atualização, dando assim o valor do contrato em Real ou nas moedas que o antecederam. 167 secularmente instalada nesse aglomerado e a precariedade das condições de vida da parcela da população aí residente, conforme discutido no Capítulo 2. Notadamente, os dados traduzem a necessidade de ações articuladas entre as diferentes instâncias federativas no provimento da moradia para os mais pobres. Em meio à retomada das linhas de financiamento para habitação, o órgão estadual de habitação, a COHAB-PE responsável por mais de vinte anos pela execução da Política de Habitação no Estado de Pernambuco, é extinto em 1998. Em parte, o fato tornou-se indicativo das múltiplas dificuldades, da alocação de recursos para implementar uma política consistente e condizente com as demandas por habitação na escala local. Num outro olhar, a extinção da empresa relacionava-se também às questões de ordem institucional interna, incluindo crescimento de ações trabalhistas contra a empresa. Sua herdeira a Empresa de Melhoramentos Habitacionais–EMHAPE51, passa a operar na intermediação entre o órgão financiador – a CEF –, a iniciativa privada, construtora de novos núcleos habitacionais e as famílias com capacidade de financiamento, através de Carta de Crédito. Essa Cartas de Créditos contemplava a uma faixa de renda acima de três salários mínimos. Nessas circunstâncias, a população de baixa renda situa-se à margem das possibilidades de acesso à habitação, via o financiamento público. A partir do final dos anos 80 e perpassando os anos 90, as instâncias locais tornaram-se as principais responsáveis pela Política Habitacional e por seu financiamento. Reduzem-se as possibilidades de acesso à habitação por meio de Sistema Financeiro da Habitação, e, a um só tempo, constata-se que outras modalidades de acesso, instituídas de forma ampla e abrangente, com recursos subsidiados ou não, distanciam-se no horizonte ou despontam amesquinhadas e pontualmente. As restrições dos recursos públicos ocorrem em anos de redução dos níveis de emprego, empobrecimento da população, aprofundamento da questão habitacional. Nesse caso, o arrefecimento dessa questão parece situar-se em uma encruzilhada. Minguando as fontes públicas, os programas escasseiam, restando à população a alternativa do acesso à habitação, pela via da autoconstrução, por iniciativa própria ou espontânea, executada em situação precária, mas manifestando-se como a modalidade mais concreta de acesso à moradia. 168 3.2.2 A ação pública de habitação do município do Recife Caracterizadamente, o município do Recife desenvolveu ações na área habitacional popular, no período abordado, de forma prioritária e exclusiva para os segmentos mais pobres da população citadina. Os programas alternativos52 compuseram o quadro da intervenção pública municipal desde os anos iniciais de sua instituição, sendo particularmente representados pelo PROMORAR, a partir do final dos anos 70, quando foi criado, e alongando-se no período de vigência do BNH, até 1986, órgão central ao qual estava atrelado. Ações alternativas de habitação assinalaram a intervenção pública no decurso das duas décadas abordadas, sendo alavancados projetos de amplas dimensões com repercussões significativas, em particular para segmentos popular envolvidos, e para as localidades nas quais estavam assentadas, e em geral para a introdução de formas de diálogo entre a população pobre recifense e o poder público municipal, como o Projeto Recife, na vertente do Subprograma Áreas Vazias do Capibaribe. É no campo normativo que o Recife aparece com uma proposta pioneira53, ao criar uma Lei de caráter inovador, referente à ocupação e ao uso da terra urbana nos espaços ocupados pelos pobres, assegurando a inserção da população habitante das áreas pobres na cidade. Traduz o instrumento uma dimensão política, econômica, social, jurídica e urbanística, repercute no território do citadino, reflete na vida dos habitantes dos assentamentos populares e ecoa na forma de apropriação da terra pelos diferentes grupos sociais, confrontando interesses imobiliários intrinsecamente relacionados ao processo de acumulação, associado ao crescimento do aglomerado urbano. Com esses pontos destacados, aborda-se a ação pública no campo da habitação popular no território do Recife, pelo poder municipal. O cenário brasileiro do final dos anos de 1970 apontava para um abrandamento de ditadura militar, decorrente de relações complexas geradas pelas pressões sociais e pela quebra nos arranjos políticos do grupo no poder. A “abertura política”, síntese dos ensaios para a reestruturação das relações políticas democráticas no país, contribuía para fomentar uma tendência populista aos governos locais. Com a 51A EMHAPE é substituída pela Companhia Estadual de Habitação e Obras-CEHAB-PE, em 2003. sobre a experiência do Coque. MELO, Vera Mayrink de. O PROMORAR como instrumento de intervenção do Estado: Estudo de Caso: o PROMORAR no Coque. 1993. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Urbano) – Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano, Universidade Federal de Pernambuco, 1993. 53Antecedido apenas por Belo Horizonte, também em 1983, que definiu mecanismos vinculados a programas de urbanização de favelas – o PROFAVELA (PINHO, 1998, apud MARINHO, 1998, p. 4). 52Ver 169 escolha dos gestores pela via indireta impunha-se o requerimento da busca de sua legitimidade, frente à sociedade e aos movimentos sociais. Assume a prefeitura do Recife Gustavo Krause (1979-1982) incorporando à administração um estilo de gestão afeito ao momento de transição “[...] com sensibilidade para os novos tempos [...] foi talvez um dos que melhor soube entendê-lo” (BERNARDES, 1996, p. 99). Realizou uma gestão comprometida com o regime autoritário, mas ao reconhecer formalmente a pressão popular abriu caminhos que favoreceram o avanço de suas conquistas em demandas específicas por terra de habitação e por moradia. O novo governante inicia a gestão, afirma o mesmo autor “[...] com um projeto de governo, com uma idéia global da cidade, de seus problemas, de soluções para enfrentá-los, que dava à administração uma unidade de ação bem diferente daquela constituída em termos da autoridade do chefe e da rigidez dos ‘princípios revolucionários’”. Definindo a nova gestão municipal54 prioridade para os problemas sociais, adotando o slogan “Desenvolvimento com Participação”, instalou o governante os denominados “Barracões da Prefeitura”, nas áreas de favelas, ponto de apoio à implementação de obras e referência de investida na aproximação entre governo55 e os setores populares. No entanto, se tal investida indicava a compreensão da necessidade de novas formas de relacionamento com os segmentos populares organizados, isto se deu através de entidades associativas de bairros, criadas e atreladas as interesses do governo, instituídas para apoiar suas ações, atuando sob seu controle. Assim, o governo firmava uma contra-tendência às iniciativas dos segmentos populares que, secularmente, se organizavam espontaneamente no Recife. Na herança ainda das grandes obras do regime em processo em finalização, duas áreas pobres podem ser apontadas como testemunhas exemplares dos embates realizados pela gestão local, pelo novo estilo de governar do seu mandatário e pelos segmentos populares. Pretendia o governo municipal iniciar, sob a alegação da urbanização, a transformação de Brasília Teimosa em uma grande área de habitação, turismo e lazer, comércio para os segmentos de renda elevada e, com isso, provocaria a expulsão dos antigos moradores do lugar. E de outra parte o Projeto Recife, que previa o 54No Estado de Pernambuco, o poder executivo, governo de Marco Maciel (1979-182) adota o slogan “governo com participação”, numa franca alusão à idéia de incorporar os segmentos populares às propostas governamentais. 55Uma das estratégias utilizadas pelo Executivo municipal foi o estímulo/organização de associações de moradores, vinculadas aos interesses da gestão pública. Essas associações adotavam, portanto, não só uma postura diversa das associações tradicionalmente organizadas, no Recife, nascidas espontaneamente no interior da organização popular como muitas vezes confrontavam as antigas entidades em interesse divergentes favoráveis ao governo local. 170 deslocamento de parcela expressiva da população, habitante das margens do rio Capibaribe, era lançado festivamente no Coque, área pobre com projeto também em fase de elaboração. Forçoso registrar que se tratava de áreas no centro da cobiça imobiliária, dada a sua localização situar-se na Zona Litorânea, o caso de Brasília Teimosa, e nas imediações da área urbana mais próxima, o Coque. O pensamento dominante sobre tratamento para com as áreas pobres assentava-se na relocação, passando ao largo a consolidação. Na escala municipal, a trajetória normativa para as áreas pobres tem um marco inicial em 1979, ao ser sancionada a Lei do Plano de Desenvolvimento do Recife56. Os seis artigos da nova Lei estabeleciam a direção da ação governamental para os anos de 1980/83. Dois pontos chamavam a atenção no que tange à organização do espaço citadino: a “criação de reservas urbanas” destinadas a obras públicas, e o “tratamento especial aos aglomerados pobres” no sentido de implementar projetos sociais com a “participação ativa das comunidades”. A criação de reservas urbanas, como acentua Marinho, (1998, p. 9) [...] remete a uma polêmica de repercussão nacional na criação do projeto de Lei de Desenvolvimento Urbano, nos anos 1970, que previa que o poder municipal poderia ter estoque de terra para promoção do desenvolvimento, e vai ter efeito prático no Projeto Recife, concebido em 1979, na qual a municipalidade adquire grandes parcelas de terras urbanas para a reestruturação da várzea do rio Capibaribe. Enquanto o tratamento especial aos aglomerados pobres “[...] configura uma adequação dos moldes da gestão local à implantação do PROMORAR, e vai resultar na definição de Áreas Especiais [...]” (MARINHO, op. cit., p. 9). As AEIS transformam-se no embrião das ZEIS. O Decreto Nº 11.670/80, que instituía as Áreas Especiais de Interesse SocialAEIS, continha dimensões de ordem política vinculada ao tratamento a ser dispensado às questões urbanas empreendido pelo poder público, alterava operacionalmente a forma de ação governamental, sintetizava critérios de racionalidade de custo e de investimento, e concorria para concentrar esforços das ações que conduziam a uma maior visibilidade. Os programas alternativos estabelecidos no plano federal apontavam para um novo modo de tratamento urbanístico da cidade. Os padrões espaciais diferenciados eram reconhecidos, admitiam soluções específicas para o desenho urbano, abordavam a 56Lei nº 14.110/79, sancionada pelo prefeito Gustavo Krause (1979-1982). 171 consolidação de áreas já habitadas, propiciando, dessa forma, definição de mecanismos operacionais com base em uma concepção que se diferenciava daquelas até então prevalecentes. No centro desse cenário, emergem projetos urbanísticos elaborados pelo governo local para as áreas de Brasília Teimosa, Coque e Coelhos que implicavam deslocamento de parcela de seus habitantes. Tais projetos colocaram em confronto os aspectos urbanísticos que definiam as linhas de intervenção pública para aquelas localidades e os processos de mobilização e organização popular, com tácita resistência ao conteúdo da formulação. O contexto contribuía para a acirrar a resistência da população frente ao plano governamental, associando-se esse agir à tradição de lutas por acesso à terra de habitação envidadas pelas as organizações populares no Recife. A busca pela regularização da terra ocupada já compunha o cotidiano de assentamentos57 como Coelhos, Coque, Brasília Teimosa, Mustardinha/Mangueira, entre outros situados nesse sítio urbano. A criação das 26 Áreas Especiais de Interesse Social-AEIS, através do Decreto Nº 11.670/80, pelo Prefeito Gustavo Krause integrava as indicações do PROMORAR e as modificações nos padrões urbanísticos voltados para a ação nas áreas pobres consolidadas. Contemplava a legislação a instituição de procedimentos para a interpretação dos projetos, o controle urbanístico e criava um núcleo gestor, na URBRecife, para as ações daí decorrentes. Dessa perspectiva, pode-se dizer que o PROMORAR transformou-se no ponto inicial que instigou a concepção das ZEIS no interior do poder público local. Os embates entre a gestão municipal e os segmentos organizados em especial das áreas alvo dos projetos de urbanização, acima citados, provocaram a incorporação de novas posturas pelo governo, sendo formadas Comissões, das quais participavam governo e população, para tratar da regularização da terra. Como resultado investimentos foram redirecionados e linhas de ação foram revistas baseadas no conceito de Áreas EspeciaisAEIS, para as favelas, definido na Lei. Deliberaram-se também as formas de interlocução entre as partes envolvidas. 57A área dos Coelhos forma um reduto secular de ocupação de mangues, o Coque, originariamente área de mangue e alagados foi ocupada no início do século vinte, enquanto Brasília Teimosa, situada nas proximidades da praia de Boa Viagem, é área de grande valorização imobiliária. Sua ocupação data da segunda metade da década de 1950, época da construção da Capital Federal, decorrendo daí o seu nome. No entanto, registros de ocupações esparsas no local, recuam às duas décadas anteriores. Mustardinha/Mangueira foi ocupada nas primeiras décadas do século XX. 172 É nesse ambiente que o projeto elaborado pela prefeitura, para Brasília Teimosa, voltou às gavetas, emergindo um novo projeto, fruto de muita pressão e organização popular e formulado pela Associação de Moradores, com apoio de várias Organizações Não-Governamentais, assessoras das organizações populares, e a presença do poder público. Enquanto o Projeto Recife, discutido logo adiante, enfrentou várias alterações e ajustes. Assim, decorrente dessa pressão e sendo forçado o poder público a reconhecer as reivindicações populares, os projetos de Coelhos, Coque e Brasília Teimosa58, nos moldes urbanísticos inicialmente desenhados, sendo revistos, passaram a absorver uma nova dimensão política, resultando na consolidação desses assentamentos. As primeiras ZEIS foram definidas na Lei de Uso e Ocupação do Solo (Lei nº 14.511/83), estabelecendo-as como “[...] assentamentos habitacionais surgidos espontaneamente, existentes e consolidados, onde são estabelecidas normas urbanísticas especiais, no interesse social de promover a sua regularização jurídica e sua integração na estrutura urbana”, sendo assinada pelo Prefeito Joaquim Francisco. Precedia à criação das ZEIS um contexto de reestruturação das relações políticas entre o Estado e a Sociedade. No Recife, respondia também a processos reivindicatórios por melhores condições de habitação, de infra-estrutura envidados pelos segmentos pobres, ocupantes de áreas sem regularização da propriedade e muitas vezes em conflitos. O apoio da Igreja Católica, representada pela ala progressista, o trabalho que desenvolvera através das Comunidades Eclesiais de Base, estimulando processos organizativos, discussões e debates sobre direitos, inclusive de acesso à moradia, a reestruturação de organizações populares de tendência combativa e politicamente de esquerda contribuíram, vigorosamente, para criar ou recompor a correlação de forças e encaminhar lutas reivindicatórias. Some-se ainda o apoio dado por outras Organizações Não-Governamentais, partidos políticos, entidades e técnicos comprometidos com as lutas populares. A Lei requeria formas operacionais de aplicação. Quatro anos depois, fruto do vigoroso movimento iniciado pela Comissão59 de Justiça e Paz, da Arquidiocese de Olinda 58A urbanização de Brasília Teimosa, lastreada no Projeto Teimosinho, entre os anos de 1979 e 80, tornou-se referência para, anos depois, subsidiar a formulação da concepção do Plano de Regularização das Zonas Especiais de Interesse Social – PREZEIS. A sistemática de participação da população na elaboração do projeto, encampada pela Comissão de Justiça e Paz, apoiada por técnicos e ONGs definiu e incorporou a área parâmetros urbanísticos como: a instituição da dimensão do lote e a proibição de remembramento de modo a bloquear à ação de setores imobiliários sobre a área. 59A Comissão de Justiça e Paz, uma ONG liderada por Dom Hélder Câmara – Arcebispo de Olinda e Recife com forte vínculo junto as organizações populares na Região Metropolitana do Recife-RMR, e muito intensamente no Recife. Atuava através de Comunidades Eclesiais de Base e dos Grupos de Irmãos Católicos. Constituía o braço 173 e Recife, desde a criação das ZEIS, e abraçado pelo movimento popular e outras entidades de assessoria ao movimento popular, foi institucionalizado o PREZEIS. O Plano de Regularização das Zonas Especiais de Interesse Social-PREZEIS, institucionalizado através da Lei nº 14.394 de 1987, foi assinada pelo Prefeito Jarbas de Andrade Vasconcelos, confirmando as expectativas de seus propositores. Tratava-se do primeiro prefeito eleito, após o regime ditatorial, de fortes vínculos com o movimento popular organizado. A decretação da Lei representava as conquistas para os segmentos populares, decorrentes de lutas seculares em um território marcado pela concentração da propriedade da terra e que dificultava aos pobres o acesso a um pedaço de chão para assentar sua moradia. Nesse sentido, a Lei comportava conquistas reais, concretas, por assegurar a permanência na terra, significando também conquistas simbólicas. Representou o PREZEIS mais do que um plano como foi denominado. Traduzia um política explicitamente definida e elaborada para encarar a questão da habitação e do acesso à terra pela população pobre. Três princípios alicerçavam a política pública constante nos planos: jurídico, com o reconhecimento da função social da propriedade, quer dizer, dissociava o direito de propriedade, do direito à posse da terra e, em especial do direito de uso da terra urbana; político, reforçando o direto do cidadão, inserindo a participação da organização popular em instâncias político-administrativas de capacidade deliberativa, como o Fórum do PREZEIS, com atribuições para definir prioridades e destinação de recursos, flexibilizando os parâmetros urbanísticos e absorvendo a diversidade das formas de ocupação do território, contrapondo-se às rígidas formas de pensar o urbano, a divisão do espaço e as especificidades de cada lugar. Dessa perspectiva, definia um tratamento diferenciado para as áreas pobres, constituídas em ZEIS, assegurando a permanência dessas áreas, consolidando-as à estrutura da cidade. Embora com restrições à sua aplicabilidade, o novo dispositivo representava avanços com efeitos subseqüentes. Concebido e gerenciado como uma ferramenta de perfil participativo, para o planejamento e implementação de políticas urbanas, o PREZEIS, como instrumento de política urbana, colocou-se na direção oposta das legislações urbanísticas prevalecentes no país, tornando-se referência à incorporação de inovações ao tratamento legal dispensado a áreas pobres com questões fundiárias pendentes. Como assinala ROLNIK (1997), antecedentes históricos da legislação urbana que abordavam a regulação da ocupação do político da ação do arcebispado. Prestava assessoria jurídica e acompanhamento aos conflitos fundiários no Recife e na Região Metropolitana do Recife-RMR. 174 solo apresentavam-se com feições fortemente excludentes. No período entre 1850 e 1930, essas leis de caráter excludente entendiam, como passageiras, as ocupações urbanas em terras não legalizadas, além de esse entendimento perpassar uma estreita relação entre poder político e econômico e suas elites detentoras, cuja articulação final atinha-se ao uso da propriedade privada de forma irrestrita. Constituindo-se em um instrumento de regulação e controle do uso e ocupação do solo, o PREZEIS confronta interesses imobiliários em relação às ZEIS. Esses interesses esbarraram na instituição, para essas áreas, em parâmetros urbanísticos que estabelecem dimensões máximas do tamanho dos terrenos para novos parcelamentos. Em conseqüência, criam-se impedimentos aos remembramentos de terrenos, inibindo, assim, as possibilidades de especulação imobiliária e os interesses comerciais. O efeito imediato incide sobre a redução da pressão que estes agentes poderiam exercer sobre as famílias de baixa renda moradoras dos assentamentos60 populares, no sentido de produzirem transformações no ambiente construído através de novos objetos imobiliários, redirecionado à apropriação desses espaços, por segmentos mais abastados e/ou distintos dos primeiros ocupantes. Assim, a transformação de uma área em ZEIS foi essencial ao assegurar a permanência da população pobre no lugar no qual haviam construído uma história de conquista de direitos, estabelecido relações de vizinhança e laços de afetividade. Dois Unid os Li nha do Ti ro Casa A ma er al A pip ucos Campo Grande A tl o do Mand ú / Al to S ant a Terez ni h a Vi al I na dl o Mart ni s Tama ir nei ra Vi al Uni ão E speranç a/Caboc ó P oço da Vi al do V ni t ém P anel a B ra sil ti Vi al A r ae s Fu ndão de F ora Vi al S ão Joã o Maci oni al / Mussu m Vi al F el ci i dade Rosa Se vl a gem S ít oi do Cardo so Joã o de B arro s Mang uei ra da To r e S ít oi do B erardo P ar do Torrões Vi et nã Novo Prad o Carangu ejo / Tab aia re s Co elh os Mustardi nha Caval ei ro J. S . P aul o "A bai xa" "R. Sou za" Mang uei ra B ra síl ai Tei mosa Vi al d o Si ri B arro Capuá LIMITE DO MUNIC ÍPIO LIMITE DE RPA/MR Coque A fog ados A er ai s Tej pi ói S ant o A ma ro Campo do V li a S ít oi Wa nderl ey Campo do B anco Vi al Red enção P al n eta d os Maca cos I hl a d eJoa nei ro Jardi mUchô a Caçot e Rua do Rio/ Ir aq ue Zi hl a de Deus P ni a B eir i nha S ít oi Grande I hl a d oDest ni o Greve Geral A ri ta na Coque ri al RIOS I bura/ Jordão FaCoronel brici ano E ntr a A pul so Ur5 / Três Carnei ro s ZEIS - LUOS 14511/83 A tl o da Jaq uei ra MAPA URB/FADE 1998 B orborema Mapa 07: Localização das Zeis. Fonte: URB-Recife, 2002. 60As ZEIS potencializam e alargam as possibilidades de permanência da população pobre nas áreas já ocupadas integrantes de processos históricos de ocupação do território, do Recife. Estão encravadas no interior da malha urbana, e seus efeitos tornam-se expressivos na medida em que vazios urbanos nas proximidades das áreas pobres são preenchidos. Outrossim, a estrutura urbana do Recife em face da situação físico-geográfico limita a utilização do espaço para fins habitacionais. 175 A gestão do PREZEIS61 tem seu lastro em duas instâncias principais: as Comissões de Urbanização e Legalização-COMUL, instituída por ZEIS, com caráter deliberativo, estando entre suas competências a formulação, coordenação, implementação e fiscalização dos planos de urbanização e regularização fundiária a ser realizados em cada ZEIS; e o Fórum permanente do PREZEIS62 forma o campo institucional de articulação entre os diversos segmentos que o integram. É um espaço de pressão política endereçado à novas conquistas. Com competência deliberativa, está entre suas responsabilidades solicitar a transformação de uma área em ZEIS, determinar sobre padrões urbanísticos estabelecidos, definir as estratégias de ação e a alocação de recursos. Deveria esse Fórum gerir os recursos para o Fundo do PREZEIS, contudo, a ausência da concretização dessa atribuição representa um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento dos objetivos do sistema de gestão. No Recife, atualmente, das 421 áreas pobres catalogadas pelo Cadastro das Áreas Pobres do Recife, 1998 (2001), 66 têm o estatuto de ZEIS, representando aproximadamente 80% do território das áreas pobres da cidade, com 33 COMULS instaladas. Existem, ainda, 10 áreas que solicitaram transformação em ZEIS e 05 de instalação da COMUL. Examinando os dados do QUADRO Nº 01 abaixo, observa-se que o acesso à habitação, através de recursos públicos, foi restrito. Cabe considerar que, de acordo com a Lei do PREZEIS, a prioridade do uso de recursos recai sobre a urbanização em áreas. No entanto, em muitas dessas localidades a unidade habitacional de uma parcela expressiva de seus habitantes encontra-se em situação de elevada degradação construtiva, requerendo investimentos públicos. Mostra, outrossim, que o acesso à moradia, através de recursos públicos utilizados para a sua construção, foi partilhado com o governo estadual, como no caso do Programa Chão e Teto, executado por aquela instância governamental, e com financiamento do órgão nacional, reafirmando a intervenção pública nessas áreas, através da reunião das diferentes escalas governamentais. A flagrante ausência de investimentos públicos na construção de moradia, nas áreas ZEIS, considerando-se a extensão dessas áreas no tecido urbano, sugere, como apontam as informações, a existência de processos autoconstrutivos deflagrados por iniciativa própria ou espontânea pelos moradores de cada lugar, isto porque se trata de áreas consolidadas com anos ou décadas de ocupação a exemplo do Coque, Casa 61A Lei Nº 15.790/93 instituiu o Fundo Municipal do PREZEIS e foi aprovada pela Câmara Municipal do Recife, em 1993. 176 Amarela, Mustardinha e Pina, onde, em momentos anteriores ao PREZEIS foi patente a inexistência de investimentos públicos no quesito construção de habitação. Cabe assinalar que, em conformidade com o Plano, as ações públicas nessas áreas são direcionadas prioritariamente à infra-estrutura e à legalização da posse da terra, e destinam-se, exclusivamente, a ocupações consolidadas, contemplando a construção de unidades habitacionais em caráter excepcional, de premente necessidade de relocação de famílias, em face da execução de obras de urbanização. QUADRO Nº 01 ZEIS BENEFICIADAS COM PROGRAMAS HABITACIONAIS 1980-2001 NOME PROGRAMA N ° DE HABITAÇÕES COQUE AÇÕES PONTUAIS /CBTU CASA AMARELA CHÃO E TETO 112 PLANETA DOS MACACOS CHÃO E TETO 1 TRÊS CARNEIROS CHÃO E TETO 109 PINA CHÃO E TETO/AÇÕES PONTUAIS 230 MANGUEIRA-CAMPO DO PIOLHO COMPESA 99 42 /POÇO / SIGISMUNDO MUSTARDINHA/JACARÉ COMPESA CARANGUEJO/TABAIARES HABITAR BRASIL 116 17 DOIS UNIDOS HABITAR BRASIL 278 SÍTIO GRANDE HABITAR BRASIL 150 VILA FELICIDADE HABITAR BRASIL 164 CEL . FABRICIANO MUTIRÕES 86 AFOGADOS - MARROM GLACÊ PREFEITURA DO RECIFE /PREZEIS 24 ENTRA APULSO PREFEITURA DO RECIFE/PREZEIS 27 JOÃO DE BARROS PREFEITURA DO RECIFE/PREZEIS 16 MUASTARDINHA - CAMPO DO PIOLHO PINA – LAGOA PREFEITURA DO RECIFE/PREZEIS 27 PREFEITURA DO RECIFE/PREZEIS 15 POÇO DA PANELA PREFEITURA DO RECIFE/PREZEIS 54 TORRÕES - ASA BRANCA PREFEITURA DO RECIFE/PREZEIS 47 VILA DO VINTÉM PREFEITURA DO RECIFE/PREZEIS 10 SANTO AMARO PLANO PAIH/CHÃO E TETO ALTO DO MANDU PROMORAR 2.214 168 COELHOS PROMORAR 1.900 COQUE PROMORAR 1.830 TORRÕES - SÍTIO DAS PALMEIRAS PROMORAR 185 BRASÍLIA TEIMOSA PROMORAR/CHÃO E TETO/MUTIRÕES 577 TOTÓ – SANCHO PROMORAR/HABITAR BRASIL 358 MONS. FABRÍCIO PROMORAR/MUTIRÕES TORRÕES - RODA DE FOGO TOTAL PROMORAR/PAIH/CHÃO E TETO 185 158 9.199 Fonte: CÂMARA URBANIZAÇÃO PREZEIS - BD ZEIS OBSERVATÓRIO PE, AZEVEDO, 2000 apud PCR/FUNDAJ, 2001. 62A Lei Nº 16.113/95 nova Lei do PREZEIS aprovada pela Câmara Municipal do Recife. 177 Assinale-se que a construção de moradias nessas áreas assumiu modalidades diversas. Por intermédio do Programa Chão e Teto, adotou-se o sistema de autoconstrução financiada, através de recursos do PROMORAR. A construção envolveu o sistema de mutirão, e, predominantemente, realizou-se através de pequenas construtoras. Diferentes interesses estiveram em jogo nesse último ponto: a agilização da construção por parte do órgão promotor; as relações com os grupos da construção da cidade; os questionamentos formulados pelas famílias atendidas que discordavam da sistemática de mutirão, em face da sobrecarga que representava para as suas vidas, terminando por comprometer a sobrevivência familiar. Isto porque se tratava de uma população que dependia da coleta diária dos ganhos (trabalho avulso, “ganchos”, trabalho informal) obtidos para suprir as necessidades do sustento da família. Consiste o PREZEIS em um instrumento de planejamento e gestão, de fortes vínculos com o governo municipal, no que tange ao estabelecimento de prioridades, definição de estratégias, linhas de ação, alocação de recursos, no sentido de transformá-lo em um instrumento efetivo. A imperatividade dessa relação, como alternativa da aplicabilidade das decisões formais, fazem emergir sinais de dificuldades para a execução da política pública contida no instrumento, seja no processo de negociação, seja na sua operacionalização. Oscila o andamento do Plano como instrumentos de política urbana, entre períodos de avanço, alternados por momentos de estagnação, fatores que se manifestam na descontinuidade das ações e na mudança de prioridades por parte do executivo. Foto 09: ZEIS Alto da Jaqueira Fonte: ETAPAS, 2004. Foto 10: ZEIS Apipucos Fonte: ETAPAS, 2004. 178 Defensores do PREZEIS, oriundo de ONGs, técnicos e estudiosos do assunto no Recife, assim como o segmento popular e, particularmente, aquele, envolvido com as áreas ZEIS, alegam com freqüência os impedimentos enfrentados na aplicabilidade das prerrogativas legais, que resultariam no atendimento às demandas das áreas ZEIS, fruto de uma postura reativa do poder público. Os múltiplos posicionamentos do governo municipal em relação aos movimentos populares, ora apoiando, dialogando e avançando, ora manipulando e cooptando, ou mesmo dispensando um tratamento distanciado refletem expressivamente nas relações com o PREZEIS. Acentua-se essa questão quando cada gestão pública procura eleger seus canais de diálogo com a população, imprimindo a esses canais participativos uma tônica própria, particular àquele período de gestão. Foto 11: ZEIS Brasília Teimosa Fonte: ETAPAS, 2004. Foto 12: ZEIS Aritana Fonte: ETAPAS, 2004. Ocorre então que, independente da coloração político-partidário, de tendência mais conservadora ou mais progressista, avanços operacionais têm sido retardados em relação às ZEIS. Na acepção de Marinho (1998), essas questões teriam razões diversas para essas tendências que se alternam à frente da gestão municipal, ao longo do período de instituição da Lei. A primeira despreza mecanismos para democratizar a gestão, além de freqüentemente estarem comprometidas com setores imobiliários e da construção civil, fatores que os conduziriam a desconsiderar o PREZEIS. A segunda, com maior compromisso com as demandas populares, viu no PREZEIS um programa que disputa recursos com outros programas definidos por sua gestão. Ademais críticos dessas posturas públicas, no limite, quer dizer, numa visão pessimista, admitem que o poder público não suprimiu o PREZEIS por atribuir-lhe, supostamente, mais força do que na realidade tem. Também as dificuldades de ser absorvido de forma efetiva por diferentes administrações seriam explicadas no fato de o 179 PREZEIS ser um instrumento nascido das forças populares sem as cores de nenhuma gestão em particular. O sentimento de indignação desses críticos, com a morosidade no encaminhamento de solução prevista no texto da Lei, das deliberações do Fórum do PREZEIS, fazem-no mascarar a força do instrumento e as impossibilidades concretas, seja no ponto de vista jurídico, social, econômico, urbanístico ou da organização dessas áreas de uma alteração drástica no Plano, ou na sua simples eliminação. Observa-se um franco embate entre os defensores do PREZEIS, os segmentos populares nele envolvido, e o poder público local. A relevância da Lei confronta-se com a definição da prioridade do poder público, a limitação de recursos para ser aplicados no território das ZEIS, representado por uma expressiva parcela da cidade. A experiência do PREZEIS - Plano de Regularização das Zonas Especiais de Interesse Social -, no Recife, transformou-se em referência para a gestão municipal no Brasil, notadamente, no campo dos programas de urbanização de favelas. Em 1996, a Lei de Uso e Ocupação do Solo da Cidade do Recife, Lei Nº 16.176/96, amplia a classificação das ZEIS e encaminha as definições dos mecanismos de transformação de áreas em ZEIS, de regularização urbanística e fundiária, e de gestão das ZEIS para Lei do PREZEIS. Outrossim, as ZEIS estão previstas como um dos instrumentos de regularização fundiária na nova Lei do Parcelamento do Solo Urbano do Recife, Lei Nº 9.785 de 29.01.99, encontrando-se prevista, ainda, no Estatuto da Cidade, Lei Nº 10.257/1, de 10 de junho de 2001, alínea “f”, do Inciso V, do Art. 4º. De grandes dimensões e de ingerência específica sobres áreas pobres localizadas às margens do rio Capibaribe, surge o Projeto Recife63, formulado em 1979, no início da gestão Gustavo Krause (1978-1982), vinculado ao Programa de Revitalização do Capibaribe64. Era um Projeto de acentuada envergadura que previa “[...] a incorporação dos espaços vazios, à margem do Capibaribe, ‘recuperação’ dos assentamentos subnormais, melhoria das condições de saneamento ambiental, e o aproveitamento pleno da infra-estrutura instalada” (PCR, 1981, p. 16-18). A intervenção 63Os primeiros estudos foram realizados em 1979. Em 1982, foram assinados os convênios entre o Banco Mundial, os governos federal, estadual e municipal, tendo como prazo previsto para a conclusão do Projeto o ano de 1985. O Projeto Recife implementado pela URB-Recife, no seu conjunto, compreendia uma área aproximada de “[...] 2.135 ha (área de terra = 2.029 ha; rio = 75 ha; outros = 30,5 ha) alcançando uma população residente estimada em 190.000 habitantes” (COUTINHO, 1989, p. 33). Passou por várias transformações, adequações e redirecionamentos, em menos de dez anos, espelhando diferentes concepções de intervenção no espaço urbano no decorrer de três gestões municipais, pondo em confronto o planejamento dos gabinetes com aquele vivenciado nas ruas. Foi concebido e implementado no período de sérias mudanças políticas do país. 64O Programa Revitalização do Capibaribe agregava três subprogramas: Ocupação das Áreas Vazias do Capibaribe, Urbanização das Áreas Pobres, Complementação Urbana. 180 recaía sobre um espaço de antigas ocupações que congregava um número expressivo de favelas consolidadas. Duas direções, no processo de intervenção, estavam previstas: numa, constava o redirecionamento das ocupações através de remoção total ou parcial das habitações para terrenos localizados na periferia; noutra, indicava recuperação de favelas através da urbanização. As fontes de recursos originavam-se do Banco Mundial, do PROMORAR, e contavam com o apoio da SUDENE. Mesmo marcado por um contexto com tendência à articulação com a sociedade e os movimentos organizados, o Projeto Recife, ainda, sustentava-se no planejamento com características de cunho utilitarista-funcionalista, predominante no período da ditadura militar. Perspectiva traduzida por uma formulação de projeto, de acordo com a visão dos planejadores, concebido nos gabinetes e, em parte, desconectado do cotidiano vivido pela população para a qual se destinava. No Subprograma Áreas Vazias do Capibaribe, integrante do Projeto Recife, estava previsto a construção de casas e parques numa área de 235.6ha, sendo 90ha destinados à construção de moradia ao longo da margem direita do rio, a ser ocupadas por uma população oriunda de favelas transferidas. Estrategicamente, foi pensada a utilização de um financiamento cruzado que, em termos operacionais, significava urbanizar os terrenos localizados na margem direita, espaço tradicional de ocupações pobres, com os recursos provenientes da venda dos terrenos localizados à margem esquerda, espaço secular e do modo predominante ocupado por população abastada. Em outros termos, liberava a margem esquerda para investimentos imobiliários de elevado padrão, favorecendo uma valorização expressiva dos terrenos aí existentes. Em simultaneidade, o poder público agia reafirmando a forma pretérita de ocupação das margens do rio, que primava por consolidar processo de segregação, tendo, no elemento líquido – o curso do rio –, a linha demarcatória entre grupos sociais distintos. Além do mais, a idéia de áreas “vazias”, segundo definia o projeto era, de fato, “[...] ocupadas por favelas, que deviam ser retiradas, para que fossem implantados os parques” (MELO, 2003, p. 164). Previsto para ser implementado na gestão do prefeito Joaquim Francisco (1983-1985), o conjunto de propostas, ao tornar-se de domínio público, virou alvo de muitos questionamentos. A Comissão de Justiça e Paz, em defesa da população, com franca atuação na época, enfatizava o caráter elitista do projeto, denunciando à mídia. Destacava o interesse do setor imobiliário, uma vez que a remoção da população pobre, que habitava a margem esquerda do rio, liberaria espaços para a construção de habitações 181 destinadas às faixas de renda mais elevada e a instalação de áreas de lazer (Diario de Pernambuco, 23.05.1982, p. A-15, Caderno Cidade/Urbanismo). As decisões impositivas do grupo estabelecido no poder municipal, associado ao planejamento burocrático, geraram conflitos com parte da população dos assentamentos, e com entidades que defendiam ações mais democratizantes. Tentativas de aproximação com os moradores das favelas alvo da intervenção pública ocorreram através da apresentação da proposta, indicando duas alternativas para os moradores do lugar: receber indenização e deixar o local, ou receber uma casa65, construída com financiamento do PROMORAR, por meio do de mutirão, arcando as famílias com a responsabilidade das prestações mensais. A postura do poder público municipal, por outro lado, ensaiou processos de discussão com segmentos sociais situados na linha demarcatória do projeto no sentido de que as ações, antes individualizadas, pelo ato indenizatório de cada habitação, ou transferência das famílias que aceitassem a solução governamental, fossem transformadas em ações coletivas. Como requerimento, propôs à população a sua transferência para outra habitação a custo zero. A proposta repercutiu negativamente para parcelas dos atingidos que, em contraposição, defendiam a permanência no local de suas habitações. Sustentava-se a população no argumento da proximidade do mercado de trabalho informal, e no fato, conforme entendia, de a transferência para a periferia onerar com o custo do transporte. Tornava-se difícil o diálogo com o poder municipal, dada a sua insistência nas soluções que defendia, gerando novamente a retomada do embate com a Comissão de Justiça e Paz, representada por Pedro Eurico66, que afirmava: “Querem revitalizar o Capibaribe à custa da expulsão branca das comunidades de baixa renda que têm suas posses, em alguns casos, de até 60 anos na área da beira rio”. O destaque também se fazia em relação ao fato de ser imposto à população pobre o financiamento do PROMORAR, através do BNH. Desta forma, dizia o representante da comissão de Justiça e Paz “[...] despreza a evidência da pobreza e do desemprego da população, que não tem como garantir o pagamento da prestação” (Diario de Pernambuco, 13.10.1984, Caderno Cidades, p. A-5). 65As novas moradias seriam construídas na Vila Santa Luzia, no bairro da Torre. momento, Pedro Eurico exercia o mandato de vereador pelo Recife e atuava como representante da Comissão de Justiça e Paz, vinculada à Arquidiocese de Olinda e Recife. 66Naquele 182 O conjunto de variáveis envolvidas na composição do projeto67, os atores internos e externos nele interessados, a ausência de diálogo com os ocupantes das áreas pobres ribeirinhas inseridas no raio de abrangência da ação pública, o contexto político favorável ao avanço da força popular organizada criaram condições para que os segmentos populares atingidos fossem escutados. É interessante observar que, embora o planejamento participativo no discurso institucional fosse previsto para os chamados programas especiais, entre os quais o Projeto Recife, na prática das duas primeiras administrações do município, envolvidas com o projeto, acontecia de forma diversa. A tomada de decisão da gestão municipal e as alternativas definidas eram comunicadas à população, sem discussão. As pressões dos órgãos de assessoria ao movimento organizado, como a Comissão de Justiça e Paz, a insatisfação dos habitantes dessas localidades, a mudança na administração pública, nos anos subseqüentes ao início do Projeto, provocaram o desenrolar de outro caminho. Assim, a gestão de Jarbas Vasconcelos68 (1986-1989), com perfil comprometido com os segmentos populares, contribuiu para a busca de alternativas para redirecionar o Projeto, busca impulsionada pelos embates entre Governo e população. Definiu-se e realizou-se um Seminário69 institucional para técnicos e gestores com o objetivo de aproximar a proposta formulada pelo poder municipal à realidade e aos interesses dos segmentos pobres das áreas integrantes da ação. Emergia como questão inicial o desconhecimento da população sobre o conteúdo do projeto e os desdobramentos operacionais. Decisões foram encaminhadas, registrando avanços no sentido de: maior abertura nas discussões com a população das localidades; definição de uma casa mínima de 75m², através do PROMORAR, construída por meio de administração direta, sistema de mutirão70, resultante dos recursos obtidos com a indenização; legalização por meio do instrumento de Concessão do Direito Real de UsuCDRU, por 60 anos, e possibilidade de renovação por período igual com pagamento anual, por família, de 10%, referente ao valor do salário mínimo. Traduzia-se a adoção do 67O Projeto foi iniciado 1982, quando foram assinados os convênios com o Banco Mundial e os governos federal, estadual e municipal, sendo o tempo de conclusão assinado para 1985. Mas os diversos embates, motivados por um conjunto de interesses divergentes, alteraram o tempo previsto, exigindo novas adequações. A pressão exercida junto à administração municipal resultou no “compromisso de casa por casa” para a população (COUTINHO, 1989, p. 68). 68O Projeto Recife traspassou diversas gestões municipais: teve início com Gustavo Krause (1979-1982), (PFL); adentrou a administração Joaquim Francisco (1983-1985), (PFL); foi redirecionado na 1ª gestão de Jarbas Vasconcelos (1986-1989), (PSB/dissidência do PMDB); e prosseguiu na 2ª administração de Joaquim Francisco (1990-1993). 69O Seminário de Redirecionamento do Projeto Recife ocorreu em janeiro de 1987. 183 instrumento para a legalização da terra numa medida para frear a especulação imobiliária, evitando a venda dos terrenos. Em face das divergências enfrentadas, a solução para a legalização da terra volta-se para a inclusão das áreas como ZEIS, e, posteriormente, agregadas ao PREZEIS. As repercussões do projeto sobre a população situada no raio de sua abrangência são expressivas, pois as ações empreendidas demarcam uma das fortes investidas do poder público sobres as áreas pobres, oficializando processos de segregação ao buscar a separação em áreas ricas e pobres. Porém, seus efeitos também se fizeram sentir sobre a cidade. Acolhendo a remoção, o poder público criava e reafirmava formas seletivas de ocupação e uso do espaço e, nesse caso, era o rio Capibaribe a linha física a demarcar essa separação. A simples indenização, prevista e realizada, provocava a expulsão para paragens mais distantes, longe dos serviços urbanos de uso coletivo, indispensáveis ao processo de produção e de reprodução social, dificultava as minguadas alternativas de acesso ao trabalho, quebrava relações construídas em anos de convivência de vizinhança, gerava uma desterritorialização das famílias. A remoção, incluída na proposta, ao criar novos lugares de moradia, consolidava as formas de segregação físicosocial presente no território recifense. Mostrava a distribuição das ocupações no espaço a existência de uma mancha urbana na margem esquerda com as favelas mais pontuais, enquanto na margem direita, além de as favelas serem maiores, a mancha urbana era contínua. Na margem esquerda (área de população abastada), localizavam-se as favelas: Vila do Vintém, Vila da Perimetral, Formigueiro/Santana, Poço da Panela, Cabocó, sendo removidas para a margem direita as favelas do Formigueiro e Perimetral. Na margem direita, localizavam-se as favelas: Vila da Prata, Invasão Maria Viegas, Vila Apulso, além de outras situadas fora dos limites das denominadas “áreas vazias”, muito embora, em parte, fossem situadas nessas áreas, como a favela Skylab, no bairro da Iputinga. No curso dessas duas décadas, os efeitos dessa separação vêm se exacerbando, produzindo uma pressão, ainda mansa, do mercado imobiliário e dos segmentos mais abastados situados nas confrontações do reduto de áreas pobres, numa tentativa de novos afastamentos. O QUADRO Nº 02, abaixo atualizado (apud PCR/FUNDAJ, 2001), atualizado a partir de Azevedo (2000), no que diz respeito às ações municipais no acesso à 70Houve grande reação da população com a adoção do sistema de mutirão sob o argumento de que se constituía em um elemento gerado de superexploração das famílias ao arcarem com o trabalho no final de semana. 184 habitação, mostra a concentração de investimentos realizados das “áreas vazias”, no conjunto das intervenções municipais, ao longo de mais de uma década onde se encontra inserido o Projeto Recife. QUADRO Nº 02 RECIFE: PROGRAMAS HABITACIONAIS ALTERNATIVOS 1980-1998 HABITAÇÕES PROGRAMAS ANOS PROMOTOR ORIGEM DOS UNIDADES % NO RECURSOS TOTAL PROGRAMAS ESTADUAIS PARCIALMENTE SUBSIDIADOS PROMORAR 1980 -1996 GOV. ESTADO PREFEITURA DO RECIFE CHÃO E TETO PLANO PAIH 1987-1990 1991-1998 GOV. ESTADO GOV. ESTADO BNH/CEF 7.914 8,9 CEF/BIRD/ PRÓPRIOS CEF 4.156 1.803 5,2 6,6 13.873 50,6 1.745 6,4 668 2,4 CEF/OGU 890 3,2 CEF/OGU 506 1,8 CEF/FGTS 1.093 4,0 PRÓPRIOS 10 0,0 208 5.120 0,8 18,7 233 0,8 524 1,9 7.006 25,5 119 0,4 59 0,2 320 1,2 TOTAL PARCIAL TOTALMENTE SUBSIDIADOS AÇÕES PONTUAIS 1987-1988 MUTIRÕES HABITAR BRASIL UF HABITAR BRASIL R 1987-1990 1995-1998 1995-1998 PONTE DO MADURO 1991-1998 AÇÕES PONTUAIS 1995-1998 AÇÕES PONTUAIS 1999- 2000 TOTAL PARCIAL GOV. DO ESTADO GOV. DO ESTADO GOV. DO ESTADO GOV. DO ESTADO GOV. DO ESTADO GOV. DO ESTADO GOV. DO ESTADO PRÓPRIOS PRÓPRIOS / SEAC CBTU PROGRAMAS MUNICIPAIS TOTALMENTE SUBSIDIADOS MUTIRÕES 1988-1989 AÇÕES PONTUAIS 1996 ÁREAS VAZIAS 1980-1997 PREZEIS 1993-1996 AÇÕES PONTUAIS 1997-2000 AÇÕES PONTUAIS 1999- 2000 PREZEIS TOTAL PARCIAL TOTAL GERAL 1999- 2000 PREFEITURA DO RECIFE PREFEITURA DO RECIFE PREFEITURA DO RECIFE PREFEITURA DO RECIFE PREFEITURA DO RECIFE PREFEITURA DO RECIFE PREFEITURA DO RECIFE PRÓPRIOS/ BNDES/SEAC PRÓPRIOS PRÓPRIOS/CEF/ BNDES PREZEIS PRÓPRIOS/ COMPESA GOV. ESTADO / CBTU PREZEIS 175 8.436 27.429 0,6 30,8 100,0 Fontes: DIUR - URB-RECIFE 1999; COHAB, 1999; SOUZA, 2001; AZEVEDO, 2000 apud PCR/FUNDAJ, 2001. 185 Nas décadas em análise, absorvendo as reivindicações das lutas populares, o poder público municipal realiza obras de infra-estrutura e de serviços básicos, em áreas alagadiças e morros de declividade variada, no sentido de melhoria do habitat. Nos morros, as ações estendem-se à busca de tratamento e de prevenção de pontos de riscos, sujeitos a desabamento. No entanto, na ausência de oferta de novas áreas de habitação e de novas habitações a questão habitacional avoluma-se e aparece na multiplicidade de construções verticalizadas em locais sem o tratamento adequado, no avanço de construção em áreas de mangue e na insuficiência dos investimentos efetivos. Doutra parte, formas inovadoras de gestão passaram a ser empregadas desde a segunda metade da década de 80, quando o prefeito Jarbas Vasconcelos (1986-1989) criou o Programa Prefeitura nos Bairros, definindo canais de participação popular, que posteriormente, na gestão de Roberto Magalhães (1997-2000), recebeu a denominação de Orçamento Participativo, permanecendo nas administrações subseqüentes. Embora não constituíssem espaços de definição exclusiva de programas e políticas habitacionais, muitas das ações tiveram repercussão sobre a problemática urbana e as condições do habitat. Deve-se considerar que cada gestor, a partir de suas perspectivas políticas de tendência mais progressista ou mais conservadora, da concepção sobre a relação entre Estado e a sociedade, apresentava tônica diferenciada na condução da relação entre o governo e a população e, particularmente, com os segmentos populares organizados, através dos canais participativos constituídos. A falta de recursos públicos alocados para a construção ou melhoria habitacional, a luta das camadas populares por garantia de permanência nos locais ocupados ressoam na decisão pública tanto do governo estadual como do governo municipal observando, assim, a constância com que têm se mantido os projetos de legalização e da criação de leis, como o PREZEIS, para que propiciem os mecanismos legais para a sua realização. 3.3 A EFERVESCÊNCIA DA PRESSÃO POPULAR NO RECIFE As lutas sociais, durante o período da ditadura militar (1964-1985), além de amordaçadas, eram alvo de constante repressão política. O movimento de luta organizado pela população, ou por fração dessa população, passou a ser percebido pelo grupo 186 detentor do controle do poder político do país como luta de contestação ao regime vigente, quer dizer, uma luta para subverter a ordem instituída. O período de “distensão política”, seguido da chamada “abertura política”, a partir de meados da década de setenta, fruto da pressão popular, da mudança de interesse do poder estabelecido, favorece a retomada pela população de formas organizativas interrompidas com a instalação do regime de repressão. As forças populares entram em fase de reaglutinação e começa a tomar corpo um novo processo de lutas reivindicatórias (SANTOS, 1981; JACOBI, 1989; GONH, 1995, 1991; SADER, 1988). No Recife, a luta por ocupação de terras urbanas por moradia volta a aflorar com o ressoar dos finais da ditadura, entre meados dos anos 1970 e início dos anos 1980, sendo a mobilização e a organização popular reavivadas com intensidade e lutas reivindicatórias recompostas, voltadas efetivamente para melhores condições de vida. Essas lutas se ramificavam numa tradição antecedente ao regime ditatorial71. Caracterizava-se essa retomada por uma participação popular expressiva, um forte engajamento de organizações de bairro e de conselhos de moradores, reestruturando-se as formas participativas na composição de um novo desenho. Seus efeitos emergiram na base da organização e do apoio às invasões urbanas realizadas dos finais da década de 1970, e que se alongaram, significativamente, até 1990, reduzindo a intensidade a partir de então. As invasões eram denunciadoras da problemática habitacional existente e, a um só tempo, uma questão endereçada ao Estado nas instâncias locais, mais particularmente ao governo estadual. Entendia a população ser essa instância a principal responsável pelo encaminhamento e solução da questão habitacional. Mesmo quando as ocupações realizavam-se em terras privadas, era o Estado solicitado como mediador, fosse pela população, ou por seu proprietário, quando tinha interesse na venda da terra. Contudo, em outra situação, requeria esse proprietário seus direitos por meios judiciais, enquanto exercia forte pressão sobre o Estado. Moura (1990), em estudo sobre as invasões72 urbanas no Recife, ressalta o papel exercido pelos canais de participação da sociedade que, a partir de 1979, foram restabelecendo-se, sendo registrado para aquele momento, na cidade, a fundação do maior número de associações de moradores, em relação aos vinte e cinco anos anteriores. Segundo estudos da ETAPAS (1989, p. 51), entre 1979 a 1985, foram criadas 80% das associações de bairro do Recife. Acrescenta Moura (op. cit., p. 88) que “A criação destes 71Sobre as lutas dos movimentos organizados no Recife e em Pernambuco, nesse período, ver: CAVALCANTI, 1978; CÉZAR, 1985; SOARES, 1982, 1986, entre outros. 187 canais participativos deu lugar à crescente politização dos conflitos de propriedade da RMR à medida que os moradores se organizavam para reivindicar infra-estrutura para áreas, há anos ocupadas, ou a permanência na área recentemente invadida”. A origem da explosão de tantas associações tem diferentes ramos explicativos. De uma parte, a nova gestão municipal assumida por Gustavo Krause (1979-1982) fomentava a criação de associações de moradores para dar sustentação a sua administração, na articulação com os segmentos populares na realização de seus projetos. O período, a partir dos anos oitenta, requeria do poder público o reconhecimento das formas organizadas da sociedade, da mobilização dos movimentos populares e da inclusão de práticas de participação através das quais firmava-se a existência da pluralidade de interesses, e, também, ensejava formas de cooptação na busca de legitimação. De outra parte, a Igreja Católica tinha, através da figura carismática de Dom Hélder73 Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife, o desenvolvimento de um forte trabalho nas áreas populares do Recife sobre direitos, incluindo o direito à terra, à habitação, à educação enraizando fontes da organização popular (DE LA MORA, 1987, p. 260) que reacenderiam com a retomada da democracia. Adiciona-se a esses elementos um processo organizativo pretérito sufocado pelo regime autoritário que considera o momento propício para retomar os caminhos anteriormente interditados. Nessa vertente, não eram novas associações, conselhos, entidades que se criavam, mas antigas forças que se refaziam paulatinamente, como o Movimento “Terras de Ninguém”, em Casa Amarela, a luta de Brasília Teimosa, Mustardinha/Mangueira, a do Coque e dos Coelhos. Assinale-se também o surgimento de associações e conselhos desatrelados tanto da Igreja como do poder público, ou do apoio de partidos políticos. Contabiliza De La Mora (1987) a presença de entidades associativas que vão se organizando por bairros, por áreas, por setores da cidade, reaglutinam-se em federações e articulam-se no plano nacional. Há heterogeneidade nesse processo e tendências ideológicas diversas entre essas organizações. A pressão popular frente ao poder público firmava-se na busca de avanço com suas reivindicações, direcionadas ao governo, e manifestava-se também através de ocupações de terras urbanas realizadas coletivamente. O avizinhar-se das possibilidades de realização de eleição direta, no início dos anos 1980, enfraquece o caráter repressor do Estado, passando a negociação a ser um ponto de destaque para os conflitos de terras 72Sobre o assunto ver: FALCÃO NETO, 1984a, 1984b; FALCÃO NETO E SOUZA, 1985. 188 urbanas, no Recife. Nesse cenário, elevava-se o poder de pressão e de barganha da população. Pesquisa divulgada pela Arquidiocese de Olinda e Recife, em 1977, apontava a existência de 58.000 mil famílias pobres ameaçadas de expulsão dos seus espaços de moradia, correspondendo a mais de 300 mil pessoas (BARROS E SILVA, 1985). Enquanto informações levantadas pela FUNDAJ (FALCÃO, 1984) anunciavam que em cinco anos – 1978-1983 – mais de 80 invasões haviam ocorrido, na RMR, com a presença de cerca de 150 mil pessoas. Conforme destaca Falcão Neto e Souza (1985, p. 77), o acirramento das disputas por terras de habitação no espaço citadino tomou-se mais contundente quando no seu interior os espaços físicos disponíveis foram escasseando. Nessa atmosfera, a convivência contraditória evidenciou-se entre o direito de moradia dos segmentos populares nas áreas de baixo ou sem nenhum valor econômico e o direito de propriedade, instituído conforme as normas em vigor, que normatizavam as transações nas áreas valorizadas. Assim, “Na medida em que a população pobre perdeu a possibilidade de deslocar seus locais de moradia no interior do espaço urbano, o conflito entre os dois direitos tornou-se potencialmente inevitável”. Moura (1990, p. 95) destacava, no período entre 1978 a 1982, a ocorrência de 78 invasões na RMR, para nos três anos seguintes apontar para o declínio, atingindo, então, 48 ocupações na RMR. Os dados sinalizam o espraiamento da questão para além das fronteiras do Recife, indicando também um arrefecimento das ocupações urbanas. Contudo, reduzia-se a intensidade, havia a persistência do processo de ocupações. Explicações para esse arrefecimento, nesse período, na análise da autora associavam-se a dois fatores: o escasseamento de áreas na cidade passíveis de ocupação; e o abrandamento da ação da Comissão de Justiça e Paz, no apoio e defesa das ocupações, frente à perspectiva de aposentadoria do Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder74 Francisca Fitipaldi, em matéria do Jornal do Commercio de 09.08.1987, Local, B, intitulada: “Bairros: a força para garantir terra e vida”, descrevia e chamava a atenção para o significado da prática política do Arcebispo, que voltava a emergir, na segunda metade dos anos 80, nos primeiros meses do governo popular. Reproduzia as recomendações de Dom Hélder Câmara ao movimento popular naquele momento, 73Dom Hélder Câmara, durante o período da ditadura militar, foi um porto seguro no apoio às formas organizadas alijadas do processo político. 74Dom Hélder Câmara aposentou-se, em 1984, passado a Comissão de Justiça e Paz a adotar uma linha conservadora. 189 transcreve: “A união não basta. É preciso que o povo esteja unido e organizado, para ser ouvido e atendido em suas reivindicações”. E comenta: “O recado do ex-arcebispo de Olinda e Recife Dom Hélder Câmara ressoa nos ouvidos dos favelados recifenses como um aviso. E eles cumpriram à risca. Hoje há mais de 400 associações de bairros registradas na Prefeitura – que reserva para elas ouvidos, verbas e atenção”. Buscando expressar a dinâmica dos embates por habitação no solo recifense acrescenta: “No começo, era pau-a-pique. Pau na repressão às invasões. Pique, na resistência às pressões. Pau-a-pique, nos mocambos que serviram de esteira para o crescimento da cidade. Agitando junto com Recife o movimento dos bairros [...]”. No entanto, a autora, ao imputar ao então ex-Arcebispo de Olinda e Recife a exclusividade do estímulo ao processo organizativo, suprime parcela da história das organizações populares na sua longa luta por espaço de habitação no curso da formação do Recife. O Arcebispo continuava a exercer influência dos meios populares, mesmo não estando mais à frente da Arquidiocese, todavia, tratava-se de um conjunto de fatores que fomentavam as ocupações, não sendo propício personalizá-las. A necessidade da moradia, adicionada a possibilidade de obtê-la, tornava-se o centro de convergência das ocupações urbanas. Miguel Arraes, de raízes encravadas na relação com as forças populares e ação política marcada por uma tradição de apoio as suas reivindicações, assume o governo em março de 1987 para exercer um mandato de quatro anos, fato que concorre para aumentar as ocupações, surgindo no dia de sua posse uma grande ocupação – o Buriti, na Macaxeira. (Estudo de caso selecionado para esta Tese e discutido no capítulo 4). Seguindo-se dias depois no Brejo da Guabiraba, em Nova Descoberta, ocupada por aproximadamente 500 famílias, e sucedendo-se de outras de menor porte. Porém, em novembro do mesmo ano, ocorre uma nova grande ocupação denominada de Plano Cruzado, no Ibura, da qual participaram mais de 3.000 famílias. O crescimento significativo da pressão popular por meio de ocupações urbanas nos meses iniciais do segundo governo Arraes, acompanhado de um declínio nos meses seguintes pode ter razões na resposta dada pelo governo, mas também na sistemática de controle das ocupações através de um sistema de ronda que se mantinha freqüentemente nas áreas e visitando qualquer novo foco de ocupação. Reforçava a luta popular o fato de, naquele momento, encontrarem-se à frente das instâncias locais de governo dois políticos de postura progressista: no Estado, Miguel Arraes de Alencar (1987-1990) e na prefeitura, Jarbas Vasconcelos (1986-1989), que dessa 190 forma propiciava ao Recife uma fase particular no âmbito das relações Estado e população. Caracterizando-se aquele momento pelo avanço da pressão e as possibilidades de os pleitos dos segmentos populares ressoarem no conjunto das forças políticas à frente do Estado e do Município, tendo os segmentos de baixa renda suas lutas reivindicatórias atendidas. Dados extraídos de levantamento realizado pela SEHDUR/DIPLAN (1989) sobre o registro de invasões e ocorrências efetuadas pela COHAB-PE referente ao período de mar/87 a dez/89 mostram que, na RMR, foram realizadas 202 invasões de terra, envolvendo 16.048 famílias. Destaca, porém, que metade dessas ocupações ocorreram na cidade do Recife, representando dois terços das famílias participantes desse movimento. Quadro revelador da intensa problemática habitacional presente nesse tecido urbano e da ausência de respostas públicas efetivas para os segmentos de mais baixa renda, durante o período de vigência do BNH, mesmo com a instituição dos denominados programas alternativos. Nesse período, ampliou-se a média de famílias de baixa renda, participantes das ocupações urbanas. Tomando com referência a RMR, verifica-se que “[...] enquanto no período anterior à posse de Arraes a média de famílias envolvidas nos conflitos de novembro de 86 a fevereiro de 87 era de 409 ao mês, nos meses subseqüentes (março a julho), a média sobe para 1.328 famílias por mês o que equivale a 33.220 invasores por mês” (MOURA, op. cit., p. 109). Absorvendo o novo governo, no imediato a sua posse, a pressão da população por terra de habitação e por moradia, adota, como postura de gestão, a primazia da negociação, todavia sem assumir incondicionalmente os efeitos das ocupações realizadas. Assim, incorporou-se a ação pública alternativa como: remover integralmente, negociar a permanência, expulsar os invasores, remover parcialmente. Entre as alternativas previstas, a remoção integral foi a única ausente. Diferenciava-se a postura do governo Arraes das gestões que o antecedera pelo fato de o “[...] novo governo e os proprietários negociarem a permanência ou a remoção imediata dos invasores” (MOURA, op. cit., p. 103). Na sua ação governamental não cogitando a simples permanência da população na área ocupada, deixando-a ali sem qualquer tipo de atenção pública. Assim, distanciava-se do modo freqüente, anteriormente utilizado pelos governos que muitas vezes aceitava a população no local ocupado, sem contudo adotar providencias para propiciar condições de habitação do lugar. Essa postura indicava atitude de descaso, provocando um sentimento de incerteza e abandono. 191 Ao procurar uma solução rápida para as ocupações de terra urbana o governo popular75 atinha-se à busca de respostas às demandas populares intermediando o conflito num tempo que reduzisse as possibilidades de confrontos entre a população e proprietário, no caso das terras privadas. As ocupações em terras públicas requeriam negociações com as instâncias que detinham o domínio daquelas propriedades, apressando as negociações. Percorrem a formação e expansão do Recife lutas históricas entranhadas ao processo de ocupação das áreas pobres ou assentamentos populares, assunto discutido no corpo deste trabalho. Áreas alagadas ou alagáveis, lingüetas de solos enxutos e espaços de morro compuseram o universo vivenciado cotidianamente pela população pobre, que, para conquistá-lo, enfrentou momentos de expulsão, alternados pela permanência no quinhão no qual estavam assentados, e onde buscava consolidar-se. O avanço do crescimento da cidade rebateu no desenho desse aglomerado urbano, desdobrando-se, também, em conflitos fundiários. Uma realidade que se tornou perene e contou com o uso de formas variadas de pressão exercida pelos pobres, para ter acesso à habitação. O movimento de invasões urbanas entre 75 a 90 quase duplica a área ocupada pelas áreas pobres do Recife, como pode ser acompanhado no Mapa 08 (IPEA), provocando uma expansão maior das áreas pobres situadas na Zona Norte, ao mesmo tempo em que surgem novas áreas em bairros como Boa Viagem, Madalena, Ibura, entre outros. Segue esse processo de invasão o acirramento das desigualdades sociais, tornandoas especialmente evidentes na expansão das favelas e das aglomerações de moradias precárias e provisórias. Esse movimento traduz-se em avanços, retrocessos, recuo e resistências. Um agir expressivo da complexa vulnerabilidade dos segmentos populares envolvidos no acesso à moradia, no direito à cidade. Esse agir, ao mesmo tempo, desnudava as contradições presentes na ocupação do território urbano. A pressão popular vai mudando a tônica, na década de 1990, no Recife. A “politização dos conflitos” no acesso à terra de habitação reduz o ritmo. Alguns aspectos merecem reflexão, como visto a seguir. A atmosfera que fomentava os processos organizativos entrava em outro momento da relação entre o Estado e a população. 75O governo popular refere-se à segunda gestão de Miguel Arraes de Alencar (1987-1990) à frente do governo do Estado de Pernambuco. 192 Mapa 08: Evolução das Áreas Pobres do Recife, entre 1975 e 1990. Fonte: Cadastro dos Assentamentos Populares da Cidade do Recife, 1988 (1990), apud IPEA, 2002. Novas instâncias participativas naturalizaram-se, passando a compor agenda dos governos de tendências político-ideológicas diferentes e, ao serem instituídas, absorveram parcelas dos grupos organizados, antes intensamente envolvidos com a questão habitacional. As novas instâncias participativas definidas no interior da gestão pública abriram-se para uma discussão sobre o conjunto da cidade, seguiam, prioritariamente, uma linha definida pelo governo local, assim sem debate exclusivo sobre a questão da habitação. Nesse caso, situam-se os programas Prefeitura nos Bairros, criado na metade dos anos oitenta, na gestão Jarbas Vasconcelos, e o Orçamento Participativo, a partir da gestão Roberto Magalhães, nos anos noventa, que teve continuidade nos governos seguintes, assumindo a tônica de cada administração. Exceção aplica-se ao caso do PREZEIS que investe no conjunto das situações concernentes à problemática da habitação para as áreas ZEIS. Diferentes administrações locais de tendência progressista passaram sistematicamente a incorporar a seus quadros administrativos representantes do 193 movimento popular de atitude combativa e, assim, estreitando a capacidade e as possibilidades do embate e propiciando novas contradições na relação entre o Estado e a população. Acrescente-se que parcelas das áreas pobres de forte poder combativo tiveram seus pleitos atendidos em relação a posse da terra, na transformação da área em ZEIS e parcialmente em relação a outros pleitos vinculados as condições do habitat. Adiciona-se ainda, a redução das fontes de recursos públicos para habitação pela ausência de uma política de habitação em escala nacional, implicando retração das ações nesse campo, em face do volume de recursos que envolvem tais projetos. Os vazios urbanos disponíveis na cidade preencheram-se quase por completo, seja por intermédio das ocupações urbanas, seja pelo investimento do setor imobiliário. Além do mais, a luta pela sobrevivência individual e familiar tornou-se mais aguda em decorrência do acirramento das desigualdades, da escassez de trabalho e da pobreza. Os segmentos sociais reunidos em assentamentos populares, ao longo das ocupações dessas áreas no século XX, construíram uma história de luta e de pressão sobre os proprietários de terras urbanas ao buscar seu chão, dirigiram essa pressão ao poder público no sentido de solucionar o acesso à terra e à habitação. Ergueram moradias que, no passar do tempo, metamorfosearam-se, melhoraram ao ritmo do orçamento familiar, e assumiram múltiplas feições, através da autoconstrução, ao empregarem material construtivo variado. Olhando recortes do tempo, no agir da população, percebe-se que as lutas dos segmentos sociais no Recife voltaram-se, com determinada primazia, entre as décadas de 1940 a 1970, para a conquista da terra e para sua permanência na cidade, ao enfrentarem políticas públicas de expulsão. Nos anos seguintes, centram poder de pressão, ou seja, a partir de 1970 por investimentos em infra-estrutura pública nas áreas de moradias consolidadas e por serviços básicos para a melhoria das condições de habitação, construídas em ambiente físico-geográfíco degradado, situado em alagados e morros. Queriam a melhoria da qualidade de seu habitat. No final dos anos 1970 a busca por terra que aparecia mansa, aflora de forma intensa e organizada até os anos 1990, enveredando por uma fase de ocupações lentas nas áreas já ocupadas. Áreas que vão se adensando, verticalizando e utilizando a coabitação como modo de habitar freqüente. A pressão pela regularização da posse da terra torna-se permanente. O ambiente construído nas áreas pobres impõe a visibilidade da problemática habitacional indissociável da história urbana, registrando um duplo movimento que oscila 194 entre a permanência das desigualdades e as mobilizações sociais para superá-las. Indicativo também de que os investimentos e as mudanças no quadro instalado, ainda, são de pequena envergadura. A fragilidade, insegurança da ocupação do espaço, a extensão da problemática habitacional impõem ameaças à presença na cidade e, assim, geram processos novos que representam um contraponto ao avanço do mercado imobiliário, ou seja, a produção privada de habitações, em simultaneidade ao recuo na produção de moradia pelo Estado. Nessa direção, vêm-se, portanto, nos anos oitenta, formas organizadas intensas e disseminadas de invasão de terras em diferentes cidades do país. No longo tempo, a demolição das habitações, executada sob o patrocínio da administração pública traz como conseqüência a destruição de parcela da cidade autoconstruída. Um conjunto de habitações que integravam um ambiente construído, onde as condições de moradia eram precárias e o habitat de baixa qualidade – áreas alagadas e alagáveis, baixios enxutos e margens de canais. Essas ações expressam a complexa vulnerabilidade envolvida no acesso à moradia, no direito à cidade, dos segmentos populares, expondo as contradições na ocupação do território urbano. A viabilização de obras públicas, assegurada pela ação decorrente, assemelhava-se às práticas em curso noutras cidades brasileiras, realizadas, particularmente, no território habitado pelos pobres que, no Recife, se realizam com forte degradação físicoambiental, em face de suas característica. As paisagens construídas impõem a visibilidade da problemática habitacional indissociável da história urbana, registrando um duplo movimento que oscila entre a permanência das desigualdades e as mobilizações sociais para superá-las. Reunidas em favelas, ao longo do tempo, em assentamentos populares, essas moradias foram metamorfoseando-se, melhoradas ao ritmo do orçamento familiar e assumiram múltiplas feições, com o emprego do material construtivo utilizado na habitação. Investimentos públicos de infra-estrutura ocorreram após as ocupações melhorando a qualidade do habitat. Todavia, a problemática habitacional, as características da pobreza e a desigualdade social permaneceram enraizadas. Em face da realidade exposta, os investimentos e as mudanças no quadro instalado terminam por ser de pequena envergadura. 195 3.4 A POLÍTICA HABITACIONAL DO ESTADO DE PERNAMBUCO NO PERÍODO DE 1987-1991 – A PREVALÊNCIA DOS PROGRAMAS ALTERNATIVOS O cenário sociopolítico Assume o Governo de Pernambuco, em março de 1987, Miguel Arraes de Alencar, momento marcado por fortes expectativas da sociedade, dos setores populares, dos setores progressistas e dos militantes de esquerda e sociedade. “A esperança está de volta”. Esta frase pautou toda a campanha política cunhada em poderosas emoções, que foram sufocadas durante o período de ditadura militar (1964-1985). Naquele momento, restabeleciam as eleições pelo voto popular para a instância estadual. Essa esperança instigou a reorganização de forças políticas de tendência de esquerda em torno da eleição, e inflou o imaginário coletivo, as subjetividades e a crença nas possibilidades de alteração do quadro social, político e econômico, em particular pelos segmentos populares. Miguel Arraes de Alencar voltava ao governo de Pernambuco para exercer o segundo76 mandato. Essa volta sinalizava para possibilidades da população pobre e das organizações populares terem seus pleitos discutidos e aprovados. Além disso, como captado das entrevistas realizadas para este trabalho, tanto para os gestores como para o segmento popular, a imagem do governante deixava passar uma estreita relação entre o seu ideário e o da população pobre e, dessa forma, apontava para a modificação da relação entre Estado e população. Era um contexto sociopolítico que reforçava a organização das forças populares, instigava o seu poder de pressão, a sua luta por acesso à terra de habitação e por moradia. Alinhavam-se, naquele momento, fatos reais e elementos simbólicos relacionados à prática política do governante. Os setores mais conservadores da sociedade colocavam-se em postura de desconfiança. Associado a esse quadro local, vivenciava-se, no país, um período de recessão econômica, empobrecimento da população, desemprego, elevadas taxas de inflação, indefinições em relação à política de habitação, mediante o fechamento do órgão nacional de habitação, no ano anterior. A tensão econômica repercutiria e tornar-se-ia visível na extensão e na intensidade das ocupações de terras urbanas – as invasões. Em 196 contraposição ao cenário econômico, da década de oitenta, o período vicejava com a ampliação dos movimentos organizados, em curso desde o final da década anterior, o surgimento de partidos de oposição e o fortalecimento dos sindicatos. Os passos para a efetiva retomada da democracia registraram-se, também, com a ocupação do cargo de presidência da República por um presidente civil, em 1985, mesmo, escolhido pela via indireta. Ampliava-se a mobilização da sociedade em defesa dos seus direitos sociais, muitos dos quais encampados pela Carta Magna, em 1988. Instalava-se o governo estadual em meio à vigorosa pressão popular por moradia, refletida nas ocupações de terras urbanas na cidade do Recife, a partir do dia da posse do novo governante. Ocupações que ocorriam de forma intensa e coletiva. Reinava a expectativa dos segmentos de mais baixa renda de que a problemática habitacional tão fortemente presente na cidade recebesse um tratamento condizente com os ditames da realidade. Fatores do cenário sociopolítico local foram capturados nas entrevistas realizadas com gestores públicos e aqui expostos. Ao serem ressaltados, concorrem para elucidar acontecimentos da vida política e social de Pernambuco e do Recife, em relação ao momento em pauta ou atrelados a esse momento. A fala do Secretário77 de Habitação, Pedro Eurico de Barros e Silva, subsidia a compreensão dos fatos marcantes da história de Pernambuco articulados àquele instante, ao relatar: [...] o povo tinha vinte anos de ditadura, vinte anos de distância entre a ausência de diálogo e organização. E, nesse momento, o povo via na presença de Arraes a volta ao período em que Arraes havia sido Governador, onde os movimentos sociais eclodiram, onde movimentos sociais eram vivos, atuantes, especialmente no Recife e na Zona da Mata de Pernambuco. No Recife com os movimentos urbanos da moradia. E, na Zona da Mata, com o movimento de reforma 76O primeiro mandato do Governador Miguel Arraes de Alencar (1963-1964) foi interrompido pela instalação da ditadura militar no país. Anteriormente, Miguel Arraes havia exercido o cargo de Prefeito da Cidade do Recife (1960-1962). 77Pedro Eurico de Barros e Silva, Secretário de Habitação do Estado de Pernambuco, era Deputado Estadual quando assumiu o cargo em 1987-1990. Ele atribui a sua convocação a sua vivência durante cinco anos como advogado da Igreja Católica, no Recife, na Comissão de Justiça e Paz, o braço político de Dom Hélder Câmara, no período da ditadura. Na Comissão de Justiça e Paz, buscou enfrentar a ditadura. Lutou pela anistia e pelo fim da tortura. “Após a anistia, em 1979, começa a haver um movimento de abertura política e, também, de maior abertura e participação e engajamento dos movimentos populares urbanos. Nessa conjuntura, a Igreja tinha uma influência, [...] através de um movimento de irmãos[...] um movimento da Igreja na base, estimulada pelo Arcebispo Dom Hélder Câmara que buscava, efetivamente, encontrar mecanismos de organização e participação das camadas mais pobres da população. Esse mecanismo, essa luta, cresceu e tomou corpo, especialmente, a partir dos anos 80 com uma explosão de movimentos sociais buscando a luta pela terra, pela moradia”. Engajou-se nessa luta como advogado. Advogou para associações de moradores, na RMR, integrando-se às lutas sociais que envolveram a participação de mais de 150 mil famílias. Vereador, eleito em 1982, e Deputado Estadual, em 15.11.86. Quando iniciou a ocupação do Buriti, seu nome já havia sido divulgado para o cargo de Secretário de Habitação, na 2ª gestão de Miguel Arraes de Alencar (1987-1990) frente ao governo do Estado de Pernambuco. Hoje, é deputado estadual pelo PSDB (Entrevista em dezembro de 2004). 197 agrária, através dos sindicatos rurais. [...] a sua figura foi uma figura que [...] levou o povo a querer avançar na conquista de direitos que o povo acha [...] era consciente que tinha ou que buscava ter e que, conseqüentemente, foi impedido ao longo de regime militar. Resgatados da prática política do governante, esses fatores contribuíram, de modo decisivo, para forjar ao seu redor um ambiente pontilhado de imagens sobre um conjunto de possibilidades que, trilhadas, se desdobrariam em realizações. Agregando outros elementos aos já mencionados, relata a Presidente78 da COHAB, Paula Mendonça: Houve uma expectativa muito grande pós-redemocratização. [...] na sociedade, na comunidade, sobretudo, na população pobre, [...] do Recife, de que toda a demanda habitacional, em regra, a demanda não só habitacional, mas por saúde, por transporte, por educação seria, enfim, atendida [...] anteriormente, a questão da terra, a questão pela ocupação, a questão do uso do solo urbano, da formulação de políticas, com viés democrático eram objeto de conflito. Em alguns governos tratavam como casos de polícia. A partir da instalação do governo Arraes e, mesmo antes, ainda na 1ª gestão de Jarbas Vasconcelos (Prefeito) criou-se uma expectativa muito grande da população no sentido de que toda demanda seria resolvida. Que o governo estava dotado hoje (refere-se aquele período de gestão) de agentes comprometidos com o que era denominado de “causos populares” e, que, assim, era possível atender a todas as reivindicações. Coroava aquele momento o fato de que, após anos de ditadura e de governantes nomeados para os cargos de mandatário do Estado e do Município79, dois políticos de visão progressista estavam, ao mesmo tempo, ocupando tais cargos. Tratavase de um período oposto ao anterior, quando, dos anos de ditadura até o desencadear do processo de reabertura política, e à retomada da democratização, à frente dessas esferas de governo, estiveram gestores de direita, de feitio conservador. Essa ambiência políticoinstitucional suscitava, nos segmentos populares, o fortalecimento do seu espaço de poder, de articulação e de aliança. Portanto, um momento especial da história nacional e, bem particular, da história local. Eram gestores afeitos ao diálogo e de estreitas relações com o movimento popular organizado. O apoio político alinhava-se às práticas de um 78Paula Mendonça, Diretora-Presidente da COHAB, no período de 08.01.1989 até 15.01.1991 e Chefe de Gabinete – Secretária Adjunta da Habitação 87/88 –, no Governo Arraes. Antes foi Coordenadora de Regulação Fundiária e Projetos Especiais da Empresa de Urbanização do Recife-URB-Recife. Anterior a essa gestão político-habitacional, foi advogada de ONG’s, entidades que trabalhavam com a questão da violência urbana, da ocupação da terra, de regularização fundiária, de propostas legislativas, de intervenção jurisdicional, a exemplo do Gabinete de Assessoria Jurídica de Pernambuco-GAJOPE, da Comissão Justiça e Paz e de Conselhos de Moradores (Entrevista em dezembro de 2004). 79Jarbas de Andrade Vasconcelos (1986-1989), foi eleito pelo voto popular e assumia o governo municipal comprometido com os segmentos populares. 198 corpo técnico oxigenado pelas idéias de proximidade com os segmentos populares e comprometido com suas reivindicações. Desenhando, com propriedade, o ambiente político-social em Pernambuco e no Recife, assim se reporta o Diretor80 de Programas Especiais da COHAB-PE, Carlos Magno Cisneyro Sampaio: A própria campanha do governador Arraes, que tinha como mote a ‘A Esperança Está de Volta’, reacendeu, no povo, uma perspectiva muito grande de uma conquista de novos direitos. E o direito, digamos assim, mais efetivo, mais exaltado, era, exatamente, a questão do direito à habitação. Isso fez com que nos primeiros meses do Governo Arraes, a gente tivesse mais de vinte mil novas pessoas ocupando terras privadas, na cidade do Recife. Isso demandou uma ação muito imediata do governo porque foi preciso, de certo modo, sustar a ação privada para evitar a expulsão dessas pessoas. 3.4.1 A renovação da política habitacional para os segmentos de mais baixa renda As circunstâncias históricas que envolviam a segunda Gestão81 de Miguel Arraes de Alencar (1987-1990)82, à frente do governo do Estado de Pernambuco, no período seguinte, eram diferentes da dos seus antecessores por imprimir uma feição própria à Política de Habitação Popular alavancada pelo Estado. Miguel Arraes, ao empossar o seu secretariado, no dia 16.03.1987, na Sala das Bandeiras do Palácio do Campo das Princesas, expressa a linha a ser pontilhada durante a nova gestão: “[...] não somos juízes de ninguém; o povo é que será juiz de todos nós”. Dá o governante a tonalidade a ser impingida no comando do governo, repassando-a aos seus colaboradores e à sociedade, ao afirmar: “Vamos realizar um governo sem clientelismo e sem favores, vamos mudar a forma de administrar com a ajuda de todo mundo, pois o que vale é o esforço e o trabalho” (Diário Oficial de Pernambuco. Poder Executivo. Dia 17.03.1987). 80Carlos Magno Cisneyro Sampaio – Diretor de Programas Especiais-DPE da COHAB-PE (1987-1990). Nos anos de 1980, foi advogado da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife. Em 1986, assessor do Presidente da URB-Recife – Jaime Gusmão, quando ocupou a Diretoria Habitacional da URB e iniciou experiências de mutirão em Coronel Fabriciano e Monsenhor Fabrício. Ao sair da COHAB, em 1990, exerceu a advocacia por dois anos. Fez concurso para a magistratura e hoje é Juiz de Direito da Capital” (Entrevista em março de 2005). 81Tratava-se da segunda gestão de Miguel Arraes de Alencar à frente do governo de Pernambuco. A primeira data de 1962 e interrompida em 1964, com a instalação do regime ditatorial no país. 82No ano de 1990, o Governador afasta-se da gestão estadual para concorrer à Câmara Federal, assumindo em seu lugar o Vice-Governador, Carlos Wilson Rocha de Queiroz Campos, assegurando a continuidade da Política em andamento e concluindo o período de governo de 4 anos em 1991. 199 O governo recém-instalado encontrava um processo de ocupação de terras no Recife e Região Metropolitana do Recife-RMR em marcha, (discutido no item 3.3 anterior), acentuando-se nos primeiros meses da gestão, como forma de pressão no sentido de obter respostas à problemática habitacional do Recife. Intensificaram-se nos primeiros meses de governo, para reduzir-se logo em seguida, porém tornando-se constante durante por todo o período. A resposta pública na esfera estadual a essas ocupações far-se-á absorvendo as demandas da população caracterizadamente a partir de dois pontos: primeiro, instala o diálogo com os segmentos populares; e, segundo, formula uma política voltada para a população de mais baixa renda. A Política de Habitação Popular de Pernambuco, em análise, orientava-se por princípios, assim definidos: [...] prioridade no atendimento às classes populares menos favorecidas [...]; substituição da postura tecnocrática pela busca da participação popular na definição e execução de programas habitacionais [...]; respeito ao conhecimento que as comunidades têm dos seus problemas e a capacidade de enfrentá-los [...]; tratamento político e não policial, dos conflitos em torno da ocupação do espaço urbano, baseado nos princípios de justiça social e no papel social do Estado (PERNAMBUCO/SEHDUR, 1990, p. 17). No plano institucional, a sua formulação dava-se no hiato deixado pela ausência de uma Política Nacional de Habitação Popular, orientada pelo BNH, após sua extinção, e da recente passagem das atribuições daquele órgão para a Caixa Econômica Federal–CEF. Em paralelo, o órgão que absorvia as atribuições situava-se num momento de abertura a novas concepções83 de propostas habitacionais. No âmbito da relação entre o Estado e a população, a concepção que balizava a ação governamental integrava o contexto da instalação do governo, como interpretava o Secretário de Habitação, Pedro84 Eurico, ao dizer: Era um período de transição negociada com o regime militar, havendo necessidade de avançar mais sem produzir fissuras profundas. Então, na realidade, nós tínhamos que ter uma postura do ponto de vista político- 83Explicita a CEF: “[...] se quer assegurar a viabilidade de projetos alternativos que possam abarcar soluções críticas de caráter inovador [...] não se pretende inibir a apresentação, aprovação e desenvolvimento de qualquer projetos inovador que aqui não esteja referido, mas que possam ser viabilizados como soluções objetivas que contribuam para a superação da demandas e melhor adequação à situação concreta de determinados grupos sociais que serão os futuros beneficiados dos projetos” (OC DIRHA 33/87 de 17 de junho de 1987 da CEF, anexo III, apud PERNAMBUCO/SEHDUR, 1990, p. 17). 84Entrevista realizada em dezembro de 2004. 200 ideológico reformista [...] ser um pouco o colchão de negociação e de contrapressão pra impedir um processo de radicalização política na época. Nessa perspectiva, analisava e avaliava o Secretário de Habitação a ação governamental daquele momento: “[...] não foi revolucionária, mas ela foi de um salto popular na organização, no estímulo à organização da população ao contrário do assistencialismo individual que era a troca de favor e de gentileza política, forma como a COHAB operava até então”. E acrescenta: “O público alvo foi definido, esperavam uma grande pressão junto ao governo pela moradia. Um governo com características popular e socialista”. A análise do Secretário de Habitação difere frontalmente dos debates e das expectativas dos opositores ao governo, que, durante o período de campanha, instigava o imaginário da sociedade pressupondo a adoção por Miguel Arraes que, se eleito, empregaria práticas revolucionárias. Dois pilares orientavam a formulação da Política de Habitação Popular de Pernambuco operada através dos programas alternativos: propiciar o acesso à terra e à infra-estrutura; apoiar a produção da habitação através do financiamento do material de construção, assegurando a assistência técnico-social no local da construção. A prioridade no atendimento definida pelo governo do Estado recaia para a faixa de renda de até três salários mínimos. O acesso dessa população aos programas habitacionais alternativos financiados pelo BNH havia sido limitado no período de sua vigência. Tratava-se de uma população situada num quadro de vulnerabilidade social e econômica, com uma renda variando em até três salários mínimos. Essa população integrava-se ao processo de trabalho, em grande parte, através da economia informal, como: biscateiros, empregadas domésticas, ambulantes, pequenos comerciantes, trabalhadores da construção civil, entre outras atividades. Além do mais, viviam em habitações precárias, muitas das quais alugadas, ou ainda em sistema de coabitação. Um conjunto de oito programas reunia-se em torno do Programa Chão e Teto, sendo assim denominados: Autoconstrução/Melhoria de Habitação, Mutirão, Lotes Urbanizados, Aterro, Urbanização de Favelas, Equipamentos Comunitários, Legalização da Terra, Inquilino (PERNAMBUCO/SEHDUR, 1990, p. 24). Diferentes fontes de recursos concorreram para a realização dos programas, sendo parcialmente viabilizados através do: 201 [...] PROHAP85 os Programas Construção, Melhoria e Inquilino (aprovados em 1987), o Programa Lotes Urbanizados e o Programa de Urbanização de Favelas Construção (enviado à CEF em 1987 [...] aprovado paulatinamente, após 1980). [...] Legalização da Posse da Terra e Aterro, foram viabilizados através do Convênio MHU/FIDEM, com recursos do Banco Mundial (SOUZA, 1989, p. 129). Nesse período, implantou-se, ainda, através da COHAB, o programa Mutirão Habitacional da SEAC, de dimensão restrita, que usava a estrutura operacional definida para o Programa Construção e Melhoria de Habitações desenvolvida para o sistema de autoconstrução. A política formulada não fugiu à lógica econômico-financeira, pois situava-se no esforço de ajustar a ação à realidade do Estado e às possibilidades de acertos financiamentos futuros, procurando reduzir os custos da habitação de baixa renda como conseqüência da escassez dos recursos disponíveis. Dessa perspectiva, os programas propostos na linha dos alternativos, em Pernambuco, inseria, de certa forma, as concepções de órgãos financiadores internacionais de programas habitacionais, no início dos anos 1970, que, ao absorverem as idéias de Turner voltadas para a solução das graves questões da moradia vivida pelos pobres nos países do Terceiro Mundo, inseriram a redução do custo com ponto fundamental para a definição desse tipo de programa (ver Capítulo 2). Resguardavam-se na proposta vínculos relacionados ao formato anterior dos programas habitacionais alternativos, elaborados pelo BNH, mas deles diferenciavam-se ao incorporar formas inovadoras, tanto na concepção como na operacionalização. Os programas buscavam responder à diversidade de ações a ser executadas, adotavam uma sistemática de financiamento e uma linha operacional flexível. Flexibilidade que propiciava a associação entre diferentes programas em uma mesma localidade, inclusive a adoção de fontes de financiamento distintas. Ou seja, numa mesma área podia ser executado o programa de urbanização, com financiamento através de Caixa Econômica Federal, do Banco Mundial, BIRD, dos Ministérios, pela via da administração direta Federal. Ainda era possível associar o programa da aquisição de terra de habitação, com recursos orçamentários do Estado de Pernambuco, ao programa de financiamento do material de construção ou de construção da unidade habitacional financiado pela Caixa Econômica. Ou ainda, o financiamento, caracterizado pelo desatrelamento financeiro 85O PROHAP-Programa de Habitação Popular para o Setor Público, criado em 1987, incorporou as linhas de crédito para habitação popular do extinto BNH, e absorveu as existentes na CEF, como o Programa Verde Teto e o Programa Casas Econômicas. 202 entre eles. Incorporava a possibilidade de junção do financiamento de mais de um programa para a mesma família, permitindo a implementação de ação individual, como por exemplo, Financiamento de Material de Construção para Melhoria Habitacional, por meio da autoconstrução, ou associando o financiamento individual aos programas coletivos, como Lote Urbanizado ou Urbanização à Construção da Habitação, via autoconstrução. Acionava essa política práticas extraídas de Programas antecessores, – PROFILRB, FICAM, PROMORAR e JOÃO DE BARRO – levado a efeito pelo extinto órgão nacional de habitação, porém introduzia, sobretudo, experiências vividas cotidianamente pela população e observadas pelos gestores públicos à frente da Secretaria de Habitação e da COHAB, em outras instâncias públicas (ver item 3.3.4 deste Capítulo). A sistemática de financiamento alargava o campo de intervenção podendo ser executado em distintas localidades. Distanciando-se assim das ações implementadas, particularmente, através do PROMORAR, que, em face do seu caráter estruturador, era dirigida de forma concentrada para uma área determinada, terminando por restringir-se a um número reduzido de localidades. Adotando-se como política a modalidade da autoconstrução que emergia como seu traço mais forte, rompia com a lógica e a prática dominante da construção por meio de empreiteiras. Acrescentou-se à proposta de autoconstrução da casa a melhoria da habitação, espraiada pelo território do Recife e da Região Metropolitana do Recife. Os recursos para o Programa86 Chão e Teto foram aprovados em outubro do segundo ano de governo, conforme anunciado no Jornal do Commercio de 11.10.1988, A-15, com o título: “[...] COHAB constrói casas populares”. Diz a matéria: “[...] o Presidente da COHAB Roberto87 Rego anuncia a aprovação88 pela CEF das linhas de 86Os programas definidos enfrentaram algumas restrições no que concerne ao financiamento com a: “[...] sustação da aprovação de quase 80% dos projetos enviados à CEF no ano de 1987. As resoluções nº 1404 de 02/88 e nº 1469 de 03/88, do Banco Central (BACEN), suprimiram todos os créditos para projetos novos, ainda não aprovados até 31.12.87. Posteriormente, a Circular Normativa nº 58/88 de 04/88 da CEF redefiniu o papel da COHAB, que passou à condição de prestadora de assessoria técnica, na fase de planejamento, produção e comercialização da habitação, Às empresas do setor privado foi conferida a condição de agente promotor até então desempenhada pela COHAB” (PERNAMBUCO/SEHDUR, 1990, p. 17). Algumas medidas foram prorrogadas, em 1989, possibilitando à COHAB a realização das metas traçadas. 87Roberto Rego, engenheiro civil, funcionário do quadro da COHAB, exerceu a Presidência da Empresa entre março de 1987 e dezembro de 1988. 88Favoreceu a aprovação do Programa Chão e Teto, segundo os gestores, planejadores, entrevistados para este trabalho e assessores da extinta COHAB, através de informações complementares o fato de o ex-senador Marcos Freire encontrar-se à frente da CEF. Havia interesses político-eleitorais em jogo. Além disso, as vinculações políticas com o grupo que assumira a Secretaria de Habitação e a COHAB. 203 financiamento dos Projetos Inquilino, Melhoria e Construção simplificada (autoconstrução), elaborado pela DPE e técnicos da Presidência da COHAB e da SEHAB”. A ausculta à população sobre a Política, através de suas organizações, transformou-se em fator decisivo para o seu desenho e dos Programas, tornando-se esse um elemento essencial ao longo de toda a operacionalização das ações previstas e na continuidade da ausculta por meio de fóruns, seminários, como forma de assegurar o diálogo com os segmentos populares. O acesso aos programas dava-se por intermédio das formas organizadas como: conselhos, associações, comissões de rua, ou ainda, comissão de luta ou comissão de moradores. Este último caso emergia quando a entidade local, por questões de ordem diversa, inclusive divergências políticas, não se interessava pelo programa. A presença da população no processo de escolha das áreas de atuação tornava o processo extremamente acirrado, cabendo assinalar que, além das áreas de ocupações consolidadas no tecido urbano, as constantes ocupações de terra traduziam o quadro de necessidade e de elevada pressão sobre o poder público estadual. Requeria a faixa de renda priorizada, de até três salários mínimos, financiamentos subsidiados. Isso conduziu a alocação de recursos próprios do Estado de Pernambuco: recursos orçamentários, recursos do erário, como parte da composição dos custos que envolviam a contra-partida do próprio do Estado. Para essa composição, o Estado empenhar-se-ia em obter financiamentos fora, junto a agentes financeiros, que se somaram aos de receita própria, “[...] de modo que esse custo fosse acessível e barateasse a contra-prestação por parte da população [...]”, como destaca a Presidente da COHAB. Algumas decisões do Governo tornaram-se fundamentais para a realização dos Programas Habitacionais para a baixa renda, como: a vinculação temporária da receita do Estado de Pernambuco, para obter financiamento junto à CEF; a decisão de que o custo da terra e da infra-estrutura seria de responsabilidade do Estado, portanto não seria repassado à população no valor da prestação mensal da unidade habitacional. Assim, a lógica de sustentação do financiamento da habitação para a população de baixa renda diferia da lógica adotada na construção dos conjuntos habitacionais em que o custo total de sua produção era assumido pelo mutuário. 204 Tais decisões deixam transparecer a adoção do subsídio como aspecto fundamental nos programas para a baixa renda, que se traduziam em subsídios abertos89 ou subsídios encobertos, conforme situa Souza (1989, p. 144). Representavam-se os subsídios, abertos pela anulação da taxa de juros e da taxa de administração dos agentes financeiros, para os programas de financiamento individual, enquanto os subsídios encobertos atinavam-se à manutenção da máquina administrativa, aquisição de terras e execução de infra-estrutura, assumidos pelo Estado de Pernambuco. Todavia, admitiu o governo a impossibilidade da população atendida pelos programas garantir o retorno do financiamento à CEF. Assim, arcou o governo com responsabilidade do retorno, enquanto definia uma prestação de no máximo 10% do salário mínimo a ser pago mensalmente pela família atendida pelo programa, para os financiamentos individuais. O QUADRO Nº 03 mostra o resultado do Programa Chão e Teto e o conjunto de Programas que abrigava, distribuído pela Região Metropolitana do RecifeRMR, no período de quatro anos. Mostram as informações que a Autoconstrução/Melhoria e Lotes Urbanizados aproximam-se em relação ao número de famílias atendidas, sendo este último fruto dos chamados grandes projetos em área de ocupação durante o período de governo, exceção apenas para Roda de Fogo que foi ocupada em novembro/dezembro de 1986. Sobressai expressivamente o Programa de Legalização da Terra que só em “Terras de Ninguém” em Casa Amarela entregou 15.000 títulos de posse, seguindo-se do Programa de Urbanização correspondente a áreas de ocupação consolidada. TIPO DE PROGRAMA QUADRO N° 03 PROGRAMA CHÃO E TETO – RMR90 1987-1991 NÚMERO DE HABITAÇÕES, LOTES, TÍTULOS E FAMÍLIAS ATENDIDAS Autoconstrução/Melhoria da Habitação 10.963 famílias Lotes Urbanizados 10.886 famílias Urbanização de Favelas 24.690 famílias Legalização da Posse da Terra (número de Títulos) 48.211 (31 áreas) Aterro 50 localidades atendidas Inquilino 349 contratos em 41 áreas Mutirão 956 Fonte: SEHDUR/DIPLAN, 1991. 89Os subsídios encobertos “[...] não repassados ao mutuário [...] leva a uma redução expressiva do custo da produção. Em cada milheiro de tijolo entregue pelo banco de Materiais de Construção, por exemplo, existe um percentual do frete não pago pela população” (SOUZA, 1989, p. 147). 90Os dados disponíveis correspondentes ao período em análise encontravam agregados para a RMR. Durante a pesquisa não se conseguiu localiza os dados desintegrados para todos os Programas em relação ao Recife. 205 A concentração do número de unidades habitacionais executadas através da autoconstrução financiada no Recife, pode ser observada no QUADRO Nº 04. O Programa Melhoria destinava-se a uma reconstrução de parte da casa. Após a solicitação do Programa para aquela localidade pelo Conselho, Associação de Moradores ou Comissão constituída com esse objetivo, uma equipa interprofissional – engenheiro, arquiteto, assistente social e técnico de nível médio visitava área para avaliar in loco as solicitações, a partir de critérios técnicos e da disponibilidade de recursos definia as famílias a serem atendidas. Esse processo de seleção tornava-se bastante penoso, pois dada à condição de penúria das habitações a escolha recaía sobre a miséria da miséria. O Programa Autoconstrução destinava-se a construção da unidade habitacional que poderia ser do tipo embrião, de um ou dois quartos. Na grande maioria esteve atrelado aos Programas de Lotes Urbanizados ou de Urbanização. QUADRO N° 04 PROGRAMA AUTOCONSTRUÇÃO E MELHORIA NO RECIFE 1987-1989 ANO 1988 1989 CONCLUÍDA EM ANDAMENTO Nº DE UNIDADES 1.154 4.896 6.050 1.701 Fonte: COHAB, 1987/1991. NOTA: Informações catalogadas no acervo particular de Maria Ângela Souza, Diretora de Planejamento da DIPLAN/SEHDUR entre 1987/1991. Os programas alternativos, inclusive os de autoconstrução pensados e executados no centro da emergência da pressão popular por moradia, tiveram sua implementação desvinculada de uma política urbana, e dessa forma distanciada de uma política para a cidade. As ocupações urbanas, nesse período, que exigiam do governo o papel de mediador dos conflitos instalados, terminaram por destinar parcela dos recursos do Programa Chão e Teto para essas áreas, ao mesmo tempo em que impôs à COHAB a elaboração imediata de grandes projetos de urbanização, como o Buriti, Plano Cruzado, Roda de Fogo, Brejo e a busca de recursos para financiá-los. Fato que reafirma a necessidade de uma política habitacional contínua, que torne possível pensá-la no conjunto da cidade. A busca em priorizar, as áreas ZEIS as ações habitacionais não teve repercussão favorável entre o conjunto das organizações populares, pois implicava exclusão de uma porção expressiva das localidades da cidade. Isso rebate no dilema da alocação de recurso, no embate no interior das próprias áreas pobres e das dificuldades de 206 negociação que enfrentam as organizações populares tanto em relação à gestão pública como em relação aos seus pares, para assegurar recursos destinados às melhorias das condições de vida em uma cidade tão desigual. Implementava-se o programa através da COHAB com um corpo técnico atuando de forma multidisciplinar, dos Gestores da Companhia e da Secretaria de Habitação, inclusive o Secretário que atuava diretamente com a população. A dimensão que tomou o trabalho, somado à pressão popular por terra de habitação e moradia, requeria a participação de outras Secretarias do Estado, a exemplo de Planejamento, de Finanças, de Segurança Pública. Constituiu-se a formulação da política, por um lado, em resposta do Estado de Pernambuco à pressão exercida pelos segmentos populares e, por outro lado, indicou a perspectiva política e os compromissos do governante assumidos no período de campanha em responder aos anseios da população pobre. Sintetizou o comprometimento e a visão política do governante e do grupo à frente da implementação da política, das forças democráticas que integravam o governo, somando-se a legitimidade alcançada por responder às reivindicações dos segmentos populares. Todavia, a ação pública empreendida não foi suficiente para modificar o quadro da problemática da habitação na cidade, tampouco teve sua continuidade assegurada nos mesmos moldes, e na mesma dimensão nos governos sucessores. As razões de ordem financeira, no que tange ao financiamento público, decorrente da falta de uma política e da definição de fontes de recursos, da distribuição de responsabilidades entre as três esferas governamentais, somada a uma visão político-ideológica de Estado, concorrem para tornam a problemática habitacional mais alongada no tempo. 3.4.2 O desenho operacional da política Dois pilares deram sustentação à implementação da política estadual: a aquisição de terras e o Banco de Materiais de Construção – BMC. No primeiro caso, reconhecia o Estado o direito à terra urbana. Acionava o acesso à terra para a população, via cessão de terras públicas, desapropriação ou aquisição. Ampliava-se a oferta de áreas para acesso à terra e a novas habitações, assegurando a regularização fundiária de áreas consolidadas ou de ocupação recente. Quer dizer, destinava a terra às famílias integrantes dos programas; solucionava os conflitos quando as terras foram ocupadas, consolidando a população naquela localidade, e, ao instalar o 207 processo de legalização das terras ocupadas pelos pobres, optava por uma postura política em franca oposição à visão policial, adotada freqüentemente pelos governos antecessores. No segundo caso, o governo passou a intermediar com o mercado de material de construção, reduzindo com tal medida o custo para a população através da ação realizada no Estado, retirando do processo de compra o intermediador. A aquisição estendia-se aos Estados vizinhos a Pernambuco, realizava-se em escala, baixando o custo que terminava sendo repassado à população no valor orçado para unidade habitacional. Além de imprimir maior rapidez e intensidade ao processo de construção da unidade habitacional, ou na sua melhoria. O novo processo de financiamento de habitação empreendido pelo governo estadual para a população de baixa renda rompeu com essa lógica da construção da moradia através das Construtoras91, passando a operar diretamente com a população financiando a construção das unidades habitacional através do regime de autoconstrução. Desta forma, era suprimida a taxa de lucratividade das empresas de construção civil, fato que repercutia positivamente no preço final da unidade habitacional. Somado esse fator ao subsídio adotado, a construção empreendida pela própria população, concorreu para reduzir o custo final dos programas para a população de baixa renda, atendida via Política Habitacional do Estado de Pernambuco. Atuava-se em áreas consolidadas na malha urbana ou em vazios urbanos que foram ocupados pela população no exercício de vigorosa pressão para obter acesso à moradia. Áreas dotadas de infra-estrutura em seu derredor, próximas ao sistema de transporte urbano e demais serviços de uso coletivo, com facilidade ao mercado de trabalho, ao trabalho informal, onde a população havia criado suas raízes, portanto, fatores atraentes à permanência da população naquele lugar. A sistemática operacional do Programa desmembrava-se em diversas escalas. O Banco de Materiais de Construção-BMC92, estruturado para dar suporte ao desenvolvimento do programa, intermediava a compra de material de construção em grandes quantidades. Utilizava-se, para isso, a concorrência pública como expediente de rotina para a aquisição do material, ultrapassando, assim, os limites territoriais do Estado de Pernambuco, quebrando, com isso, os cartéis locais, e baixando o custo. A redução de 91Nesse caso, a taxa de lucratividade das empresas sobre a produção da habitação correspondente à Bonificação de Despesa Direta-BDI deixava de existir. Informações fornecidas por Artur A. B. F. Pereira, Assessor da Precedência da COHAB no período de 1987-1991. 92O BMC fornecia o material aos Programas de Construção e de Melhoria. Preferencialmente, o Banco procurava adquirir o material com o produtor. Na sua estruturação logística, contou com aporte de recurso do Banco Mundial. 208 preço obtida na tramitação repercutia na redução dos custos da unidade habitacional, que eram repassados ao morador e absorvidos pelo programa, contribuindo para ampliar o número de unidades financiadas. A ordem de distribuição do material, pelo BMC, vinculava-se ao cronograma de atendimento a cada localidade com o programa de construção de moradia em execução, de forma previamente definida com os moradores e seus representantes. Na área, a distribuição atrelava-se ao projeto padrão da unidade habitacional, elaborado pelo corpo técnico da COHAB, (assunto discutido no Capítulo 4, a partir da ação desenvolvida no Buriti, sistemática que era adotada a todo o Programa), com a população, e, ainda, ao projeto de urbanização, quando fosse o caso. Tratando-se de um contrato de financiamento individual da unidade habitacional, a quantidade de material correspondia à obra a ser realizada, tendo por base o seu custo. Seguindo o modelo do projeto padrão para a autoconstrução, o tipo embrião93, a entrega do material ocorria em três94 etapas. A liberação das parcelas referentes à mão-de-obra, limitada em um terço do financiamento da moradia, ocorria após a verificação, pela equipe técnica do projeto, do cumprimento do cronograma95 estabelecido para a construção e da especificação da obra. Para tanto, o programa dispunha de apoio técnico de engenharia e social, desde o cadastramento inicial, para a articulação e as discussões com os moradores. Assegurava-se, no cotidiano, ou seja, na execução da obra permanente assessoria técnicosocial, a orientação e o acompanhamento das ações intermediadas por essa equipe de campo. 3.4.3 A autoconstrução como ação pública: inovação ou estratégia popular apropriada A autoconstrução de moradia integrou o escopo dos programas instituídos através da Política de Habitação Popular do Estado de Pernambuco formulada, no ano de 1987, para o quadriênio da gestão estadual. Situava-se essa política no quadro de: redução 93O Projeto da casa embrião dispunha de sala/cozinha, e a unidade sanitária. Muito embora o financiamento pudesse destinar-se à casa de até dois quartos, isso não foi prática corrente. A prioridade da instituição executora do programa pelo modelo embrião sustentou-se pela ampla pressão por moradia, o compromisso do atendimento à população e os limites de recursos disponíveis. 94As etapas correspondiam: a primeira, ao material para aterro, fundação e início da alvenaria; a segunda, ao material hidráulico, elétrico e alvenaria; e a terceira, cobertura e acabamento. 95O cronograma de liberação do valor da mão-de-obra atendia a seguinte ordem: a primeira parcela, quando a alvenaria atingisse 1m a 1.20m; a segunda quando a casa estivesse coberta, e a última, no encerramento da construção (Selma Bezerra. Engenheira de campo do Projeto Buriti. Entrevista realizada em setembro de 2004). O valor da mão-de-obra representava 30% do custo da unidade habitacional. 209 da capacidade de investimento do poder público, acoplada à dissolução do órgão central de habitação, crise econômica, aprofundamento e extensão da problemática habitacional desdobrando-se na eclosão das ocupações urbanas que, no Recife, registrava-se com intensidade. Sustentavam-se os programas habitacionais alternativos adotados na tese de que a terra de habitação, o direito de residir, para a faixa de renda priorizada, deveriam ser acompanhados das condições adequadas de moradia incluindo a habitação a infraestrutura, os serviços públicos, revigorando o direito de residir. Isso requeria a execução de programas com elevada adoção de subsídio. Cabe, no entanto, ressaltar que, se ampliado o intervalo de renda da população incluída na Política Pública Estadual de Habitação, para além dos três salários mínimos, que havia sido priorizado para a intervenção nesse período, tornava-se imperativo dispor de fonte de recurso que atendesse tal parcela da população, ou seja, linhas de financiamento para o desenvolvimento dos programas, aumentando o montante de recursos a ser investido pelo Estado, no momento de crise fiscal do Estado (ARAÚJO e GUIMARÃES NETO, 1998). A concepção da proposta de autoconstrução, além dos argumentos basilares da formulação da política de habitação em Pernambuco, discutidos acima, teve sustentação, sobretudo, em duas linhas de análise resultantes do somatório de experiência vivida pelos gestores junto à população pobre do Recife, na construção de suas moradias: a primeira, fruto da reflexão sobre as práticas espontâneas da população ao construir a casa; a segunda, assentada nas práticas de mutirão e de autoconstrução desencadeadas pelos órgãos responsáveis por ações de habitação, no Estado de Pernambuco, ou em outras cidades desenvolvidas em diferentes esferas governamentais. Suscitaram essas duas linhas repensar as modalidades de ação construtiva e as condições sobre as quais a população as desenvolviam. Trecho extraído da entrevista do Diretor96 de Programas Especiais da COHAB sobre a experiência vivida na realização de mutirão em Coronel97 Fabriciano e Monsenhor Fabrício demonstra os fundamentos da reflexão realizada. Tratava-se de uma população que sobrevivia do arrecadado diariamente: catava papel, pedia esmola, fazia “ganchos” ou biscates, era ambulante. Essas condições de vida impunham limites à 96Carlos Magno Cisneyro Sampaio – Diretor de Programas Especiais-DPE da COHAB-PE (1987-1990). (Entrevista em março de 2005). Antes foi Diretor da Diretoria de Habitação da URB. 97Nas localidades de Coronel Fabriciano e Monsenhor Fabrício, áreas pobres do Recife, a prática do mutirão foi desenvolvida pela URB-Recife, na 1ª Gestão de Jarbas de Andrade Vasconcelos (1986-1989), na cidade do Recife. 210 prática do mutirão, realizada como um processo de construção coletiva, atrelada à mobilização e organização dos envolvidos e à necessidade de domínio da técnica construtiva ou, ainda, de agregar formas de aprendizado da técnica. Observe-se o registro da indagação formulada pelo entrevistado: “[...] como essa população ia poder trabalhar na construção de uma casa, enquanto ia deixar de trabalhar para comer?”. O desenrolar da atividade mostrava a alternância entre a busca da sobrevivência e a construção da habitação. Prossegue o depoente: “Se trabalhasse na casa não tinha o que comer, se tivesse o que comer, no outro dia, não vinha trabalhar”. Gerava-se, assim, uma espécie de ciclo fechado no duplo movimento entre o retardo do processo construtivo e a busca da sobrevivência. Esse movimento era denunciador da impossibilidade de que a população emprestasse o tempo solicitado “[...] para a construção de sua própria casa e da casa dos outros”. Nessas circunstâncias, “Esse tempo, para essa população miserável, era impossível, porque ela precisava sobreviver e sobreviver do que arrecadava”. Esses fatos não respondiam por uma situação isolada, mas encontravam-se inclusos no quadro de pobreza da cidade, marcado por degredadas condições de vida e de trabalho, pondo em cheque a construção da moradia por intermédio da ajuda mútua, do mutirão, da autoconstrução sustentada em formas coletivas de troca. A sistemática de construção da casa, por esses caminhos, traduzia-se numa relação que induz a algumas interpretações: na modalidade de construção coletiva, excluía-se o agente imobiliário direto na produção da moradia, lançava-se mão dos mecanismos de acesso, via mercado do material de construção, da aquisição da terra; por sua vez, recaia sobre as famílias pobres a responsabilidade da confecção da sua moradia, capitaneada pelo Estado, numa supressão, mesmo que parcial, do tempo destinado à sua sobrevivência. Os novos possuidores da moradia arcavam com o ônus distribuído coletivamente entre seus pares, num processo de produção e reprodução social (IAMAMOTO, 1982), enquanto o seu trabalho e a produção de sua moradia retornavam à sociedade como base da riqueza gerada. Todavia, essa população permanecia na condição de exclusão social (MARTINS, 2002). Os elementos da análise, calcada, sobretudo, na realidade cotidianamente vivida pela população pobre recifense, fortaleciam a convicção sobre a necessidade de encontrar alternativas capazes de ultrapassar os limites imediatos, identificados nas experiências anteriores, na produção da habitação. Repensar que fomentou a constituição 211 de uma proposta de autoconstrução que viabilizasse o financiamento da mão-de-obra associado ao financiamento do material construtivo. Desse ângulo, a forma financiada de autoconstrução98, através Programa de Autoconstrução/Melhoria99 de Habitações, diferenciava-se da modalidade de mutirão, como dito acima. No caso, o governo financiava a autoconstrução e agregava ao custo da produção da habitação o valor correspondente à mão-de-obra100. Valor que era repassado em dinheiro e destinava-se à contratação de um profissional diretamente pelo próprio morador, ou ele mesmo, se possuidor da capacitação necessária para a construção da casa, mantendo-se, nesse período, com esse recurso. De acordo com essa modalidade de financiamento, o morador assumia o custo total da produção de sua habitação. Agregava-se à análise das experiências vividas pelos segmentos populares na construção da casa o vigoroso movimento101 da população por moradia e os limites de recursos disponíveis. Durante os anos do BNH (1964-1986), a prioridade dos financiamentos dirigira-se para a faixa de renda acima de três salários mínimos, sendo uma parcela destinada à construção dos conjuntos habitacionais para aqueles que percebiam até sete salários mínimos, enquanto o maior volume de recursos (discutido no item 3.1 do presente Capítulo), foram destinados à população de renda mais elevada. As oportunidades de financiamento público aos mais pobres para a habitação tornaram-se significativamente mais reduzidas, surgindo, então, para esse segmento os programas alternativos aos conjuntos habitacionais na segunda metade dos anos setenta. A formulação da proposta de autoconstrução assentava-se também “[...] na concepção de que a população sabia construir”, como ilustra Maria Ângela102 de Almeida Souza (Diretora de Planejamento da SEHAB), e no custo orçado da unidade habitacional. 98O limite máximo de financiamento para a autoconstrução era de 240VRF’s, dos quais 54VRF’s poderiam destinarse à mão-de-obra (PERNAMBUCO, 1990b). 99A Melhoria da Habitação, também realizada nos moldes da autoconstrução, destinava-se às famílias que possuíam casa, mas que necessitavam recuperar a sua condição de habitabilidade. O valor máximo de financiamento para Melhoria era de 120VRF’s, sendo que, deste total, 30VRF’s poderiam ser usadas para a mão-de-obra (PERNAMBUCO, 1990a), esse teto correspondia à metade daquele destinado à autoconstrução. 100Cálculos desenvolvidos por técnicos da Companhia de Habitação estimaram o custo da mão-de-obra em torno de 30% para unidade habitacional popular, percentual que serviu de base para determinar, sobre o valor do material construtivo de cada casa, o valor do financiamento referente à mão-de-obra. Esse valor não incluía as obrigações sociais do trabalhador, durante o período da produção da casa. A autoconstrução como política de governo, foi adotada tanto para a construção integral da unidade habitacional como para a melhoria de unidades habitacionais em precárias condições. 101A Diretoria de Planejamento da Secretaria de Habitação registrou nos dois primeiros anos do Governo Arraes 1987-1988 - mais de 200 invasões na Região Metropolitana do Recife (RMR). No Recife, em 1990, existiam 484 assentamentos populares (PERNAMBUCO, 1990a). 102Maria Ângela de Almeida Souza, Diretora de Planejamento da SEHAB entre 1987-1990, em 1991, com a modificação da estrutura institucional para Secretaria de Infra-Estrutura, ocupou a Diretoria de Habitação (Entrevista realizada em dezembro de 2004). 212 Desse ângulo, admitia e absorvia o saber popular no processo de produção da casa. A pressão social por habitação não só exigia do governo uma resposta rápida, mas também segundo argumentaram os gestores públicos, uma solução eficaz e condizente com as possibilidades dos segmentos populares. Tornava-se imperativo uma resposta extensiva que fosse capaz de absorver uma parcela elevada dos demandantes. Os segmentos populares que exerceram vigorosa pressão, no período do segundo Governo Arraes, reivindicavam a construção de moradias financiadas pelo Estado, alicerçada no entendimento de que era dever do poder público prover a habitação, e direito da população em ser atendida. Daí, ao somar-se aos fatores acima apresentados o baixo custo da autoconstrução como motivação para a sua adoção. O baixo custo foi ressaltado pelos gestores, ao observarem-se as seguintes expressões: “A gente precisava produzir maciçamente, a um preço, a um preço mais baixo [...] precisávamos produzir muito porque a pressão social era muito forte”. No dizer de outro, a autoconstrução é um “[...] programa mais barato, um programa mais acessível”. Dessa forma, pode-se pensar mais próximo da realidade da população de mais baixa renda no contexto socioeconômico e político-ideológico dominante na sociedade. O grupo de gestores formulou, a partir desse conjunto de variáveis, a Proposta de Política Habitacional Popular, ramificando-se, daí, os Programas entre os quais o de autoconstrução de moradia. Delineado o arcabouço da proposta, seguiu-se a ausculta aos segmentos organizados, associações e à população, no decorrer de algumas reuniões realizadas em diferentes áreas pobres do Recife, à proporção que se desenvolviam encontros assinalados por forte pressão. A recepção à proposta gerou, nos momentos iniciais, uma certa desconfiança. Supostamente, essa desconfiança tinha fonte na incredulidade, pois se configurava como um tratamento à habitação situado fora das práticas já desenvolvidas em Pernambuco, mas que, simultaneamente, ia ao encontro dos limites enfrentados pela população pobre do Recife, para ter acesso à moradia. Restou acreditar quando as ações tiveram início em campo, ou seja, quando a autoconstrução de moradia na modalidade proposta foi acionada, informaram os gestores. De certa forma, a pressão das lutas populares coadunava-se com o interesse pela autoconstrução em face da agilidade, da redução do custo e da gestão operacional da construção da moradia pela família. 213 Na perspectiva da Presidente103 da COHAB, o Programa de Autoconstrução criou, com a população demandante, uma experiência de organização e de gestão, referida à: Gestão da entrega, gestão do cronograma, gestão da prestação de contas, gestão da capacitação, dos critérios técnicos de como poderia ser feito ou não [...] e, isso, também, facilitou [...] criou uma responsabilidade da necessidade da população de ser vigilante e participante das políticas públicas. Vista desse ângulo, a gestão realizada pela população referia-se aos processos operacionais, embora com um fio de articulação ao acompanhamento das políticas públicas estimuladas e induzidas pelo poder público e por ele diretamente acionadas. BONDUKI discorre sobre a “Autogestão na Produção de Habitação”, tendo como referência o “Programa de Produção de Habitação por Mutirão e Autogestão” desencadeado em São Paulo, durante a administração municipal de Luiza Erundina (19891992). Defende que a incorporação da autogestão ao mutirão, no contexto das políticas públicas de habitação, pode repercutir na produção da moradia de qualidade e, particularmente, em um custo abaixo em relação àqueles obtidos nas formas convencionais de produção. Ainda mais concebe que tais alternativas de ação criam possibilidades de participação da população na gestão das políticas sociais. Para o autor, a autogestão na produção da moradia corresponde a: [...] um processo de gestão do empreendimento habitacional em que os futuros moradores, organizados em associações ou cooperativas, administram a construção das unidades habitacionais em todos os seus aspectos, a partir de regras e diretrizes estabelecidas pelo poder público, quando este participa financiando o empreendimento (BONDUKI, 2000, p. 35). Por este prisma, a produção da moradia realizava-se através de processos assumidos e geridos pelas organizações populares, e abarcava a gestão dos passos operativos da execução da obra. Acolhe a discussão duas propostas de programas habitacionais com desenhos diferenciados. No primeiro, a ação construtiva efetiva-se por meio da autoconstrução financiada gerida diretamente pelo Estado, absorvendo o correspondente ao valor da mão-de-obra, articulando e incorporando processos organizativos e participativos da população. No segundo, prioriza-se o sistema de mutirão, concretizado por meio de 103Paula Mendonça, Chefe de Gabinete – Secretária Adjunta da Habitação 87/88 e Diretora-Presidente da COHAB no período de 08.01.1989 a 15.01.1991. Entrevista em dezembro de 2004. 214 organizações populares, incorporando ou não o valor da mão-de-obra, assumindo o Estado papel de suporte a ação. Os dois caminhos expressos a partir da realidade vivenciada em São Paulo, têm como argumento comum a redução do custo da produção da unidade habitacional e a qualidade final. Algumas questões perpassam as práticas empreendidas e dizem respeito aos atores envolvidos na produção de sua própria moradia, assinalando-se: a situação de pobreza; a inserção no mercado de trabalho da população de baixa renda; as condições de habitação desse segmento; a premência por habitação e as possibilidades que detêm de arcar com o custo da construção, seja o dia da unidade por ele erguida ou pagamento a outrem para fazê-la; o trabalho e o tempo da produção da unidade habitacional; o papel do Estado no acesso à moradia para os pobres; a força dos movimentos organizados na luta por moradia. Retornando-se a Valladares (1998), cabe dizer que a autora identifica uma associação entre as práticas de autoconstrução empreendidas sobre o patrocínio do Estado e diferentes momentos de crise econômica vivenciado por distintos países. Igualmente verificar que a demanda por habitação por intermédio da autoconstrução também nasce de propostas levantadas pela população trabalhadora, em particular nesses momentos de crise econômica acoplada ao acirramento da necessidade de habitação. Observa-se que a proposta de autoconstrução de moradia, em Pernambuco, no período em discussão, apresenta pontos de confluência com a análise realizada acima, destacando-se, portanto, o quadro de crise econômica e de crise fiscal do Estado brasileiro, associado à ausência de políticas públicas abrangentes e efetivas e ao momento de intensa pressão popular por habitação. Entende-se que a autoconstrução de moradia desencadeada e induzida, através de ação pública, correspondeu à apropriação da estratégia empreendida pela população de baixa renda como modo de acesso à habitação e à cidade, e agregou sistemáticas de financiamento e operacionais que propiciaram a agilização do programa, mesmo enfrentando fatores que em determinados momentos necessitaram de ajustes práticos. CAPÍTULO 4 A AUTOCONSTRUÇÃO FINANCIADA: O CASO DA VILA NOVA DO BURITI Versa este capítulo sobre a autoconstrução de moradia financiada por intermédio de política pública como forma de acesso à habitação. Selecionou-se, para estudo de caso, sobre essa modalidade autoconstrutiva, a Vila Nova do Buriti, área de morros situada na Zona Norte do Recife, alternada por pequenas porções planas. Nos anos 1987-1991, o Estado de Pernambuco implementou, nessa área, ações no campo habitacional como parte da Política Pública Habitacional do Estado de Pernambuco para a população de mais baixa renda. Tece-se o capítulo a partir da recomposição da história do lugar como forma de articular, no processo de ocupação do território citadino, a propriedade e concentração do solo urbano por longos anos, dificultando ou impedindo o acesso dos mais pobres à terra de habitação e à habitação. A tensão e a extensão da ocupação da terra e as lutas, enfrentadas pelo segmento popular, aqui discutidas, possibilitam, além da apreensão dos embates vivenciados por essa parcela da população, a análise do modo como se deu a relação entre o Estado e a população pobre do Recife, naquele momento histórico. A autoconstrução de moradia financiada é abordada no entrelaçamento dos processos, formas e sistemáticas adotadas pelo poder público e o seu aprisionamento pelos pobres citadinos como parte de suas lutas, e no sentido de desvendar as suas peculiaridades, identificar a relação de conquistas versus outorga no enfrentamento entre população e poder público. Atem-se ainda, neste capítulo, ao tempo da autoconstrução da moradia assentada no movimento entre os acontecimentos vividos cotidianamente pela população de mais baixa renda, que, paulatinamente, em um tempo indeterminado, propicia a moradia e a melhoria contínua de sua habitação. 216 Foto 13: Ortofoto de 1984 do Buriti, antes da invasão mostrando as vias principais e o vazio urbano no entorno ocupado por comunidades carentes. Fonte: FIDEM/CONDEPE Foto 14: Aerofoto de 1997 da Vila Nova Buriti, concluída há cinco anos. Fonte: FIDEM/ CONDEPE, 1997. Foto 15: Autoconstrução de moradia no Buriti, 1988/89 Acervo: Selma Arteiro Mapa 09 Projeto de Ocupação do Buriti, ASTEP, apud CARVALHO, 2005, adaptado por Luciana Carvalho Foto 16: Vista aérea do Buriti, 2005 Fonte: FIDEM 217 4.1 ORIGEM, USO E REPARTIÇÃO DA TERRA – RECONSTITUINDO FIOS DA HISTÓRIA DO LUGAR As terras que abrigam a Vila Nova do Buriti originaram-se da propriedade de Apipucos, resultado, no percurso do tempo, do desmembramento do antigo Engenho de Apipucos1, à margem esquerda do rio Capibaribe, desativado no início do século XIX. Este engenho, instalado a noroeste da planície recifense, situava-se na área limítrofe entre a planície costeira, por onde se estendiam os canaviais, e os morros em forma de colinas a oeste. As águas do rio associadas às do açude, as ondulações em formato de outeiros, rodeadas por matas e por terras que avançam em direção ao semicírculo de colinas com altitude variando em até 100 metros, compunham a paisagem. Conforme assinala Costa (1981), essas terras eram cobertas de densa mata e extenso canavial. No final do século XVIII, o Engenho de Apipucos principia a redução do ritmo de suas atividades e, em 1783, quando seu proprietário não consegue retomar e acelerar o seu funcionamento, desmembra-o e vende parte das terras, no início do século XIX, surgindo o Engenho Dois Irmãos, enquanto outras partes do engenho foram sendo retalhadas em chácaras ou sítios (COSTA, 1981, p. 25-26). Fatores que contribuíram para a instalação de um período de ocupação diferenciada. Trata-se de um período de transição, no qual convivem diferentes formas de ocupação do solo, na passagem do rural para a forma urbana. O uso das chácaras e sítios, nesse momento, era associado a hábitos burgueses, pois só os mais abastados desfrutavam desse conforto. Utilizados, sobretudo para veraneio, portanto, temporariamente, quando os moradores aproveitavam para se refrescar e usufruir as delícias dos banhos no Capibaribe. Apipucos, último engenho do eixo do Capibaribe, durante os séculos XVII e XIX, situado à margem esquerda, vivenciou, no curso da história urbana recifense, a exuberância, o florescimento, o poderio e a decadência da economia do açúcar. Acolheu a austeridade da burguesia açucareira, a reunião de lutas e idéias políticas, os hábitos inovadores incorporados ao cotidiano da elite. Compartilhou o retalhamento do território, 1“O engenho Apipucos originou-se das terras do Engenho São Pantaleão do Monteiro, cuja partilha foi oficializada na escritura lavrada em 5 de dezembro de 1577, na vila de Olinda. No documento, passava-se parte das terras do Engenho Monteiro ao colono André Gonçalves. [...] A recomposição da história do Engenho de Apipucos é contada pela contínua sucessão de proprietários que o administraram, destacando-se alguns deles pela influência econômica sobre os negócios no Porto e participação política nos entraves que punham Olinda e Recife em sentidos opostos” (VERAS, 1999, p. 127). 218 no processo de evolução urbana da cidade, que introduz novos e diversificados usos ao solo. Pode-se arquitetar uma divisão, de certa forma arbitrária das terras de Apipucos, para efeito desse estudo, observando-se alguns elementos da composição do espaço, sendo assim dividido em três quinhões: Apipucos, na porção mais próxima ao rio Capibaribe, encravada entre seus outeiros, margeando a estrada que lhe concede acesso e por onde passava a linha da maxambomba, o povoado original e as ocupações através de chácaras e sítios; o açude e o seu limite mais próximo, ampliando-se até a linha de trem – Estrada de Ferro do Limoeiro; e a parte acima da linha de trem, ao norte do açude, que, já no final do século XIX, constituía o povoado da Macaxeira. Esse último trecho, formado por alguns poucos espaços planos, eleva-se para compor o cordão de morros recobertos de mata. A instalação da fábrica de tecido de Apipucos, em 1895, nos limites entre Apipucos e o povoado da Macaxeira, insere-se no contexto em que “[...] a dinâmica do modo de acumulação agro-exportador no século XIX induzia à formação de um setor industrial dentre os quais sobressaem os estabelecimentos têxteis” (MELO, 1982, p. 133). No Brasil2, as indústrias têxteis instalam-se a partir de 1840, primeiramente no Nordeste, Bahia, fato associado à cultura do algodão espraiada pelo agreste da região, que também fornecia matéria-prima até o princípio do século passado para o centro-sul. Passando esta última região, posteriormente, à condição de produtora de algodão, com o conseqüente deslocamento da concentração têxtil para aquela região. Como local escolhido para hospedar a fábrica têxtil do mesmo nome, na última década do século XIX, Apipucos agregava uma série de elementos locacionais favoráveis: a estrada de ferro, um fator estratégico, que fazia o percurso pela Macaxeira, interligando o porto do Recife a Limoeiro e à Zona da Mata, facilitando o escoamento da produção e o abastecimento do interior do Estado, e outros destinos que ultrapassavam as fronteiras de Pernambuco, o transporte coletivo que já servia à localidade, a abastança de água, inclusive com a incorporação do açude à parte da fábrica, a disponibilidade de terras para ampliações, se necessário. 2As primeiras fábricas têxteis instalam-se, “[...] em pleno período escravocrata, enfrentam dois sérios empecilhos – a falta de força de trabalho, principalmente a especializada e a matéria-prima, o algodão” (BLAY, 1985, p. 30). Essa atividade econômica espalhou-se, seguidamente, pela região Nordeste – Alagoas, Pernambuco, pelo Rio de Janeiro, Minas e Rio Grande do Sul. “[...] transferindo-se a concentração têxtil posteriormente para o Centro-Sul” (MELO, 1982, p. 133-134). 219 Othon Lynch Bezerra de Melo3, ao adquirir a Fábrica de Apipucos4, em 19255 (VERAS, 1999, p. 192), introduz, na empresa, uma série de mudanças. Importa da Europa (Inglaterra) maquinaria avançada para o padrão local, embora existissem outras mais modernas, mas essa era capaz de produzir uma maior variedade6 de tecidos e confeccioná-los com diversas estamparias. Junto com o empreendimento fabril, dava-se a compra de uma vasta extensão de terras, oriunda da propriedade de Apipucos que se derrama pelo povoado da Macaxeira, subindo os morros da Zona Norte da cidade. No Registro7 Geral de Imóveis do 1º Ofício, consta a seguinte descrição: As terras “Adquiridas do Espólio passado em 03 de fevereiro de 1953, de Dr. Othon Lynch Bezerra de Melo transcrita no dia 19 de fevereiro de 1953 sob o nº de ordem 3508, conforme Escritura de Compra e Venda de 23.02. 1933”. Está, pois, registrada uma data do início dos anos trinta, no entanto, a informação não elucida sobre a data original da compra da propriedade. Informação retirada do Memorial Descritivo8, de 13.11.1987, relativo à Gleba 1 e à Gleba 2, diz ser essa porção originária da “Área Remanescente da Propriedade de 3Othon Lynch Bezerra de Melo era natural da cidade de Limoeiro, filho de José Clementino Bezerra de Melo. Vilaça cita artigo escrito por Othon Bezerra, publicado em a Província e transcrito pela Gazeta de Limoeiro, em 22 de março de 1930, reportando-se da seguinte forma: “Diz Othon que o seu pai era liberal e também a figura mais importante da Comarca, e homem de larga visão” (VILAÇA, 196-?, p. 126-128). José Clementino destacou-se como Conselheiro (atual cargo de vereador), desde 1862, permanecendo, nesse cargo, até a proclamação da República. Desenvolveu sólida atividade econômica como armazenista e beneficiador de algodão. Presume-se, ser possível estabelecer uma relação entre a atividade empresarial implementada por Othon Lynch Bezerra de Melo e as suas raízes familiares e territoriais, fatores que, provavelmente, influenciaram a escolha, tanto do tipo de empreendimento que abraçou, como a definição do local para desenvolvê-lo. Esse local era favorecido pela Estrada de Ferro Limoeiro, sua terra natal, que iniciava no Brum, centro da cidade, passando pelo Porto e, assim, facilitava o abastecimento da matéria-prima à sua fábrica e o envio do produto ao interior. 4Apipucos, como local escolhido para hospedar a fábrica têxtil, agregava uma série de elementos locacionais favoráveis: a estrada de ferro, um fator estratégico, que fazia o percurso pela Macaxeira, interligando o porto do Recife a Limoeiro e à Zona da Mata, facilitando o escoamento da produção e o abastecimento do interior do Estado, e outros destinos que ultrapassavam as fronteira de Pernambuco, o transporte coletivo que já servia à localidade, a abastança de água inclusive com a incorporação do açude à parte da fábrica, a disponibilidade de terras para ampliações, se necessário. 5A informação sobre a data de compra da Fábrica de Apipucos, por Othon Lynch Bezerra de Melo, não está definitivamente confirmada. O Livro do Nordeste (Comemorativo do 1° centenário do Diario de Pernambuco), organizado por Gilberto Freyre com artigo de diversos autores expõe uma espécie da propaganda da fábrica, correspondente ao final da década de 1920. FREYRE, Gilberto e Outros. Livro do Nordeste (Comemorativo do 1° Centenário do Diario de Pernambuco) 2. Ed. – Recife: Arquivo Público Estadual, 1979 (Reedição fac-similar). 6Quando Othon Bezerra adquiriu a Fábrica, a produção limitava-se a sacos de estopa para ensacagem do açúcar e do algodão. 7Esse documento, a cópia da Escritura de Registro Geral de Imóveis, encontra-se nos arquivos da Pernambuco Participações e Investimentos S/A - PERPART, empresa herdeira da parte jurídica e administrativa da extinta COHAB-PE. Ele deixa uma lacuna em relação à data da compra dessa propriedade, isto porque não é tida como certa a inexistência de outro documento de propriedade referente à aquisição inicial. 8O Memorial Descritivo também integra os arquivos da PERPART, empresa herdeira da parte jurídica e administrativa da extinta COHAB-PE. 220 Apipucos, na Macaxeira, Freguesia do Poço9”. Essa parte corresponde à parcela comprada pelo Estado de Pernambuco, representado pelo COHAB-PE, para o Projeto Buriti, que será discutido mais à frente. Acrescente-se que essa parcela foi desmembrada da propriedade que, nos dias atuais, ainda assenta os galpões da unidade fabril desativada. No entorno da planta industrial, duas vilas operárias foram construídas: a primeira, a Vila Maria Amália, possivelmente nos finais dos anos trinta do século passado, localizada nas imediações do setor administrativo da unidade fabril; a segunda, a Vila Regina, provavelmente construída na década seguinte, um pouco à distância do prédio da fábrica, porém, no território da propriedade. A construção dessas vilas situa-se no âmbito da Política habitacional, acionada pelo interventor Agamenon Magalhães em Pernambuco. A Vila Regina inicia nas imediações da atual avenida Norte, estendendo-se ao sopé dos morros de Nova Descoberta. Permanece, nos dias de hoje, conhecida como Vila Buriti, ou ainda, como o antigo Buriti, nome adquirido após a execução do Projeto Buriti. Tais denominações servem como demarcação histórica da origem dos investimentos e seu patrocínio, do tipo de intervenção, do tipo da habitação, de suas modalidades construtivas e da forma de acesso à moradia construída. Os limites entre as duas intervenções, no que pesem os anos que as separam, se interpõem. Constituíam as vilas operárias uma forma de assegurar a reprodução da força de trabalho no interior da unidade produtiva, favorecendo, inclusive, o controle da mãode-obra operária. Todavia, os argumentos afeitos aos resultados favoráveis dessas vilas não eram negligenciados, particularmente no que concernia à salubridade e às condições de higiene propiciadas. Nesse aspecto, compunha o quadro do pensamento higienista herdado do século XIX, da Europa, influente nas primeiras décadas do século seguinte, com repercussões nas práticas públicas urbanas brasileiras e, no Recife, através das medidas higienistas10, modernizantes e sanitaristas, dentre elas a expulsão dos mocambos das áreas alagadas centrais nas décadas de 1930 e 1940. No conjunto da unidade fabril, as atividades de lazer – esporte, dança, festividades - eram incorporadas ao cotidiano dos operários, delas tomando parte os técnicos e os proprietários. Ambulatório médico-odontológico, escola, cantina que vendia, inclusive tecidos. Era o mundo do operário formado ao derredor da fábrica e, assim, 9“As terras do Poço da Panela originaram-se do extinto Engenho Casa Forte. [...] Como Arraial, funda-se em 1758, passando à condição de Freguesia em 1817” (GUERRA, 1978, p. 217-221, apud VERAS, 1999, p. 141). O Poço refere-se ao Poço da Panela, hoje bairro do Recife. Conforme assinala BALTAR: “Dezesseis engenhos funcionavam, já em 1630 à época da chegada dos holandeses, na chamada Várzea do Capibaribe”. 10Ver sobre medidas higienistas, modernizantes e sanitaristas no final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, no Recife: LUBAMBO, 1991; VASCONCELOS, 1998; OUTTES, 1997, entre outros. 221 garantia-se o processo de produção. Não faltava a Igreja Católica postada diante de uma praça. Ou seja, o universo aí construído inseria-se na junção das idéias e concepções prevalecentes na época. Completava o cenário a Casa Grande11, erguida no alto de uma colina à margem direita, acima da Fábrica, de onde se descortinava o panorama da propriedade e da região. Limitava-se com a primeira vila, a Vila Maria Amália, mas dela distanciando-se, fisicamente, pela declividade do terreno. Foto 17: Igreja do Buriti localizada no antigo Buriti. Fonte: Aurelina Moura, 2005. Foto 19: Girador Av. José Américo entre as Vilas Maria Amália e Buriti. Fonte: Aurelina Moura, 2005. Foto 18: Vila Regina. Fonte: Aurelina Moura, 2005. Foto 20: Vila Maria Amália. Fonte: Aurelina Moura, 2005. As vilas operárias12, na cidade do Recife, articulavam-se ao pensamento de amplos setores sociais mais conservadores, como bem lembra VERAS (1999, p. 198-200): No Recife, a criação das vilas operárias teve também estreita ligação com o catolicismo social, preconizado pela Igreja, que pregava a segregação espacial e social, como forma de evitar as lutas de classe. Cabia assim aos industriais garantir a saúde física e moral dos operários, espaços com escola, igreja, casas 11Nas últimas décadas, até o fechamento da Fábrica, serviu como escritório para as atividades do Grupo Othon. Atualmente, restam apenas escombros, ruínas, algumas poucas paredes desmoronadas, mas permanece o terreno disponível como que anunciando, provavelmente novos investimentos ou outra invasão. 12Ver sobre vilas operárias: MELO, 1982; BLAY, 1985; BONDUKI, 1998. 222 com pequenos quintais, dando a idéia aos operários de serem também proprietários e acalmando-os contra qualquer movimento de rebeldia. As inovações tecnológicas introduzidas por Othon Bezerra, quando da aquisição da fábrica, supostamente alinhadas a alterações, no estatuto da empresa, concorreram para, ao longo do seu funcionamento, ter recebido diferentes denominações: Fábrica de Tecidos Othon Bezerra de Melo, Cotonifício Othon Bezerra de Melo, Fábrica da Macaxeira. Esta última decorrente de sua localização nos limites entre Apipucos e, hoje, bairro da Macaxeira. Ou ainda como mostram fotografias da fachada principal da fábrica, de quando em atividade, constavam os dizeres: “Fábrica Coronel Othon13”. Cabe, a mais, mencionar a expansão das atividades econômicas do proprietário, transformando-se no Grupo Othon Bezerra de Melo, e estendendo os negócios, dentre outros, ao ramo agroaçucareiro, industrial, hoteleiro com investimentos espalhados pelo país, e concentrado na cidade do Rio de Janeiro, e ao ramo imobiliário, no Recife. O sentimento do poderio econômico, político e social, alinhado à percepção de que as regras, definidas em relação à unidade fabril, e ao uso das terras sobre seus domínios, eram determinadas por um grupo de proprietários, está representado, conforme será visto adiante, na expressão de alguns entrevistados, durante este estudo, ao referirem-se aos antigos proprietários das terras do Projeto Buriti como “os Othons”. Vivenciando e ressurgindo das alternâncias de estabilidade econômicofinanceira em diferentes décadas, por vezes de formas relacionadas a questões da atividade industrial têxtil e à interrupção da produção de algodão, particularmente no Nordeste, ou a fatores associados à economia regional e nacional. A Fábrica da Macaxeira permaneceu funcionando, de modo bastante reduzido, até década de 1980, para cerrar definitivamente suas portas em 1991. No espaço interposto entre a Fábrica da Macaxeira e o Açude, no final dos anos de 1970, o Grupo Othon transforma alguns hectares da reserva de terras em loteamento14 de elevado padrão, para absorver moradias de luxo. Firma-se esse 13Bernardes (1996, p. 123) chama a atenção para o forte papel exercido pelas fábricas têxteis na nucleação de áreas e na sua transformação em bairros que gradativamente foram sendo incorporadas ao espaço urbano. Além disso, destaca na formação da camada empresarial a vinculação entre o setor comercial e agrário e identifica “[...] um elemento ideológico significativo presente nesta origem que prolonga, no espaço urbano-industrial, valores agrários”. Tal elemento aparece no título “[...] tão marcadamente agrário e oligárquico de coronel: Coronel Othon Bezerra de Melo, Coronel Carlos Lira, Coronel Delmiro Gouveia [...]”. 14O loteamento correspondeu ao desmembramento de parte das terras do Grupo Othon, transformando-o em lotes urbanos: “[...] a mudança planejada na ocupação do solo de Apipucos ocorreu em 1979, com a aprovação do loteamento Othon Bezerra de Melo, no entorno do açude de Apipucos. Esse açude, que pertencia a essa família, foi doado à prefeitura, assim como as suas margens, como parte da área exigida por lei, para a implantação de loteamentos urbanos. A legislação municipal do Recife, cumprindo a determinação da Lei Federal de Parcelamento 223 loteamento como reduto da burguesia recifense, ladeado à esquerda pelo histórico bairro de Apipucos e à direita, após a travessia da Avenida Norte, pelo cordão de áreas pobres situadas nos morros. Todavia, a margem direita da atual avenida Norte, parte correspondente ao Açude e a Apipucos, não ficou isenta de ocupações pela população pobre. Aí estão encravadas, as localidades denominadas: Apipucos/Rua Caetés e Alto do Mandu, invadidas no final da década de setenta do século passado. Sobre a última, assim relata De La Mora (1987, p 255): Sexta-feira da Paixão, ainda escuro no Alto do Mandu, nas proximidades do Açude de Apipucos. Figuras humanas, silenciosas, mas decididas, febrilmente, limpam e terraplenam a encosta de declividade pronunciada. Quando o sol finalmente aparece por trás do morro, já a invasão está avançada. O ato de desespero destas famílias vítimas do desemprego, subemprego e arrocho salarial, que já não podiam mais suportar o aluguel do quarto, ou morar em casa de parentes, vai mobilizar os donos do terreno, diversas Associações de Moradores, a Federação de Casa Amarela, alguns vereadores tradicionalmente comprometidos nestes conflitos, a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese, a URB, a Polícia e finalmente a Justiça. A última parcela das terras aqui em discussão é representada pelo cordão de morros que delineiam a paisagem recifense e o local que, com o passar dos anos, na formação da cidade, tornou-se um território dos pobres. O recorte em destaque refere-se à porção que, desmembrada possivelmente em sítios, serviu de assento à Fábrica de Apipucos, adquirida por Othon Bezerra de Melo. Essa parte vivenciou, no decorrer de mais da metade de um século, diferentes usos e a sua divisão territorial, quando um pedaço da propriedade é ocupado sem autorização – invadida – pelos pobres, no final da década de 1980. Os morros15 respondem pela parte das terras recifenses em que o processo de ocupação só ocorreu a partir dos anos de 1930 e 1940. Despontaram, como foco de interesse, quando se transformaram em local apropriado para abrigar a população pobre expulsa dos manguezais situados nas áreas centrais da cidade. Essa expulsão foi impulsionada, de forma vigorosa, pela política habitacional implementada pelo governo do interventor Agamenon Magalhães. A ocupação dos morros da Zona Norte da cidade Urbano n° 6.766/79, exigiu que, na implantação desse loteamento, 35% fossem destinados a áreas públicas, como também deveriam ser consideradas áreas públicas as margens desse açude, de acordo com a Lei Federal de Proteção de Mananciais n° 6.938/80. Essa área era de 26 hectares” (MELO, 2003, p. 159). 15Os morros, no processo de ocupação urbana do Recife, durante muito tempo, foram áreas de exploração de lenha e uso para caça. Eram distantes do centro urbano, das vias de circulação, pois durante três séculos de urbanização predominaram as vias através dos cursos d’água. Assim, o difícil acesso e o elevado custo de investimento contribuíram para a sua ocupação tardia. 224 tem se efetivado com base em um conjunto de articulações realizadas entre o governo do Estado e os proprietários, reforçando a já adotada prática do “aluguel do chão” (Assunto discutido no Capítulo 1, deste trabalho). A área correspondente ao cordão de morros situada no entorno de Apipucos, por onde se alastravam as terras do Cotonifício Othon Bezerra de Melo, permaneceu, em parte, recoberta de vegetação enquanto outra parte cedeu à erosão, conforme indica a Foto 13 e despovoada no trecho da Macaxeira. A Estrada de Ferro Limoeiro que partia do Brum, e que margeava a fábrica, como visto, tornou-se um veículo facilitador da ocupação ao longo do seu trajeto, com efeitos consignados no correr do tempo. Fator esse reforçado pela construção das vilas operárias, no recorte em apreço, e pelo funcionamento da unidade fabril, atraindo mão-de-obra. Até março do ano de 1987, as terras de propriedade do Cotonifício Othon Bezerra de Melo, nos morros da Macaxeira, encontravam-se despovoadas, cercadas e vigiadas por seguranças armados. No entorno, distribuída na seqüência de morros e córregos, aglomerava-se a população pobre. A pressão popular, desencadeada na madrugada do dia 15 de março do mesmo ano, ultrapassou a barreira da vigilância existente e uma invasão de aproximadamente quatro mil e setecentas famílias deflagrou um processo aparentemente inesperado. Essa porção do território tornou-se foco de intensa negociação, intermediada pelo Estado, entre população e proprietários, no sentido de viabilizar a consolidação da ocupação, e que será objeto de discussão no item seguinte. Relevante destacar que as vilas operárias foram construídas na parte norte, acima da estrada de ferro, atual Avenida Norte16, como que anunciando uma linha física demarcatória que tomou feição na distinção dos espaços urbanos ocupados por ricos e pobres, neste recorte ou nas terras do antigo engenho de Apipucos. Ainda cabe destacar o fato de esse panorama apresentar uma tendência a ser alterado, visto que nos últimos cinco anos, e prossegue com a construção, em andamento, de edifícios de classe média, na vizinhança da primeira vila operária e do acesso principal à Vila Nova do Buriti a Avenida José Américo (Foto 21 e 22). De outra perspectiva, essas edificações localizam-se entre o alto do morro da antiga Casa Grande e a porção plana que corre em direção à Avenida Norte. 16A Avenida Norte, um corredor de trânsito, que inicia no limite do Bairro do Recife (Centro), corta diversos bairros de padrão socioeconômico diferenciado e finda na BR-101. É o principal acesso aos morros da Zona Norte. 225 Foto 21: Vista das edificações concluídas e em construção na Avenida José Américo Fonte: Aurelina Moura, 2005. Foto 22: Avenida José Américo entrada do Buriti Fonte: Aurelina Moura, 2005. Foto 23: Habitação da Vila Maria Amália, final da Avenida José Américo contrastando com as moradias do Buriti no alto na parte posterior. Fonte: Aurelina Moura, 2005. Outro fato demarcado na paisagem urbana, no recorte em discussão, diz respeito à primeira vila operária construída. Possivelmente, por causa das influências exercidas sobre a sua localização, ou seja, situada nas imediações mais próxima da principal via de circulação, a Avenida Norte, já mencionada, observa-se uma forte mudança de padrão das unidades habitacionais da antiga vila. Algumas residências foram agregadas e ampliadas, formando construções de maiores dimensões, ocorrência registrada de forma expressiva. Outras, ainda, passaram por reformas que lhes alteraram as feições. Algumas dessas habitações estão situadas na principal via de acesso à área do Projeto Buriti, Avenida José Américo, que, nesse trecho, estabelece o limite entre as duas intervenções, indicando, por vezes, um forte contraste em relação à maioria das moradias do lugar. Acrescente-se, ainda, que tais fatores poderão no futuro acentuar ou estimular o 226 processo de renovação das habitações, por intermédio da venda ou do repasse, subtraindo, pelos caminhos do jogo de mercado, a moradia dos segmentos mais pobres e deslocando-os para paragens mais distantes. Retomam-se aqui observações anteriores registradas neste trabalho, referentes ao estudo realizado para o Plano Diretor da Cidade do Recife de 1990. Segundo esse estudo, a realidade disposta nas territorialidades do Recife indica que a distância entre área pobres e ricas situa-se em um raio nunca superior a 1.2 km. Na formação urbana do recorte analisado, partindo do desmembramento da terra e acompanhando os diversos usos e a ocupação do solo no século XX, e adentrando os primeiros anos do século XXI, confirma-se, mais uma vez, a observação e a conclusão do mencionado estudo, significando dizer que, no Recife, o espaço dos pobres e dos ricos fisicamente está bem próximo. 4.2 A TENSÃO E A EXTENSÃO DA OCUPAÇÃO DA TERRA: O CAMINHO FEITO DE LUTAS A expectativa no governo instalado Preservada como reserva de valor, por mais da metade de um século, a terra cede, na madrugada do dia 15 de março de 1987, às intenções e à força da ação popular. Intensa, rápida e vigorosamente é ocupada por aproximadamente quatro mil e setecentas famílias. Dia da posse de Miguel Arraes de Alencar, eleito para exercer pela segunda vez a chefia do Governo de Pernambuco, por um mandato de quatro anos. Dominava um clima de muita expectativa frente à investida no cargo do novo governante. O olhar do segmento popular organizado e da população pobre sobre aquele momento ajuntava-se aos aspectos ressaltados pelos gestores, que os apresentavam num sentido largo, auxiliando a articulação dos acontecimentos históricos antecedentes no que tange a presença de Miguel Arraes à frente da Prefeitura do Recife (1960-1962) e do Governo de Pernambuco (1963-1964), com os acontecimentos da volta de Miguel Arraes ao Governo do Estado (1987-1990). Apreendia o segmento popular aquela conjuntura como um momento carregado de oportunidades, requerendo atitudes e iniciativas rápidas, vigorosas, como forma de antecipação das decisões públicas, criando situações de forte pressão sobre o Estado. Essa pressão impunha a necessidade de soluções urgentes, por 227 parte do Estado em resposta à problemática habitacional, consoante com o ambiente que circundava o governo em instalação. Na expressão do Coordenador17 Geral da Comissão de Ocupação, José Clementino de Oliveira, emergem elementos de cunho ideológico associados à postura do governante, e, neste sentido, destaca: o “Governo novo que chegou, a gente, também, tinha muita esperança, pois era um governo de esquerda”. No dizer de Maria José Ferreira de Barros18, a realidade mostrava: “Muita gente sem ter onde morar aproveitou a oportunidade do Governo. Nosso Governo Popular. Aproveitamos e ocupamos a terra”. Além do mais, nas palavras de Maria19 José, sobressai um sentimento de confiança no governo, entendendo-o como uma relação desencadeada em uma estrada de mão dupla. Haveria ressonância, existiria rebatimento das iniciativas encabeçadas pelos pobres, traduzido nas palavras seguintes: “Como a gente acreditava no trabalho de Miguel Arraes e na responsabilidade de Miguel Arraes, então, a gente decidiu invadir porque a gente tinha certeza que a gente ia ganhar, que ia ter o apoio do governo”. No registro dos acontecimentos, feito por Ademaro20 Romão dos Santos, observa-se uma linha de percepção que agrega componentes relativos à confiança nas ações do governante, à existência de correlação de forças entre grupos sociais distintos, à reduzida distância territorial entre segmentos sociais economicamente diferentes, à valorização da terra ocupada e à intermediação do governo nas relações entre os grupos. Diz o entrevistado: Eu falo, em confiança do povo. Porque, eu acho, tentaram [...] que Arraes vai dar algum apoio. Feito ele deu. Eu acho que em outro governo a gente não tinha conseguido. Inclusive, essa área que a gente mora aqui é considerada como área nobre, por causa daquelas mansões do outro lado (Apipucos). Mora [...] um bocado de pessoas que tem dinheiro no Estado. Moram do outro lado. Essa área aqui, os ‘Othons’ queriam vender o lote para fazer aquelas mansões que tem do outro lado de Apipucos. 17O Coordenador Geral da Comissão de Ocupação do Buriti, José Clementino de Oliveira (Zezo) – era, no momento da ocupação, professor particular, organizador de grupo cultural no Buriti e Vice-Presidente da União dos Moradores da Vila do Buriti. Quando da entrevista, era Professor estadual, coordenador de Departamento Cultural da Secretaria de Educação do município (Entrevista dezembro de 2004). Não reside mais na área mas mantém permanente vinculação dado que a família habita a Vila Regina no Buriti. Entrevista realizada no Armazém do Cais do Porto do Recife após uma sessão de teatro do qual participava como ator e diretor. 18Maria José Ferreira de Barros – da Comissão de Ocupação. Hoje, é Agente de Saúde do Programa Saúde da Família, no Buriti, reside na área. Tornou-se uma referência constante sobre as mais diversas informações a respeito do Projeto Buriti, de certa forma, a sua presença ativa tornou-a conhecida como: Maria da Comissão (Entrevista em setembro de 2004). 19Maria José – (Zeza) integrava a Comissão de Ocupação. Atualmente, trabalha com reciclagem de lixo, no Buriti, onde reside (Entrevista em setembro de 2004). 20Ademaro Romão dos Santos – foi membro da Comissão de Ocupação. Na época da ocupação era tecelão da Fábrica da Macaxeira, sendo demitido por ter participado da invasão. Atualmente, é funcionário da PCR (Entrevista em dezembro de 2004). 228 Nas cercanias21 do Buriti, como apresentado anteriormente, encontra-se Apipucos e, um pouco mais distante, localizam-se os bairros de Monteiro e Casa Forte com predominância de habitações de padrão elevado para a população abastada. NOVA DESCOBERTA CÓRREGO DO JENIPAPO BURITI BR -10 1 VASCO DA GAMA AV .N O R TE MACAXEIRA APIPUCOS Mapa 10: Localização do Buriti Fonte: Mapa do Recife- URB-Recife Dentre o grupo de moradores ouvidos, perdurava o mesmo sentimento lastreador e instigador da ação de ocupação da terra, como assegura Carmélia22 Maria da Silva: “E quando a gente sentiu que Miguel Arraes tinha ganhado, a gente sentiu segurança de ter um lugarzinho naquele momento”. A visão relacionada aqueles instantes 21Do Alto do Buriti descortinava um panorama da diversidade do padrão habitacional, seja no limite mais próximo, que agora se redesenha, como o novo condomínio de apartamentos na entrada da área, situado na avenida José Américo, seja mais distante de onde se vislumbram os bairros de Apipucos, Monteiro e Casa Forte, de padrão habitacional para população abastada. 22Carmélia Maria da Silva – moradora, aposentada, reside no Jardim Alto do Progresso (Entrevista em outubro de 2004). 229 ressoava no olhar direcionado à concretização da conquista, partilhando-a com aqueles a quem atribuiu o fato de dispor, hoje, do chão e da casa. Referindo-se ao terreno, Maria23 de Lourdes Oliveira Pinto expressa a forte contribuição do governante para o resultado do seu feito, pois foi: “‘Arraio’24 (Miguel Arraes). [...] foi quem fez esse benefício pelos pobres aqui”. E reafirma: “Ele fez muito”. Agregada ao forte olhar popular sobre a presença de Miguel Arraes no governo, encontrava-se a nomeação do Secretário de Habitação – Pedro Eurico. Detinha esse gestor uma trajetória de vida vinculada às lutas políticas e às demandas das organizações populares, da população pobre, e ao apoio e sustentação às ocupações de terras urbanas, no Recife e na Região Metropolitana do Recife (RMR), realizadas pelos pobres nas lutas por terra e habitação. Ou seja, essa união aguçava no imaginário popular a crença ampliada de que suas iniciativas teriam eco e aceitação. Colhe-se essa perspectiva das descrições realizadas pelos entrevistados. Para Maria25 José, Miguel Arraes e Pedro Eurico formavam uma parceria muito boa. Isto porque “[...] a gente sempre escutava história de que Pedro estava sempre envolvido com invasões. [...] como era uma pessoa indicada por Arraes [...] não ia ser uma pessoa que ficasse contra a gente”. De acordo com Alcindo Alves Sobrinho26, o Secretário empossado era: “[...] uma pessoa que sempre tecia ao lado da pobreza. [...] como Secretário além de ser do lado do invasor, ele passou a ser Secretário dos invasores. No presente, o quadro se inverteu”. A inversão do quadro indicava o desafio a ser enfrentado pelo gestor imediato do governo em instalação. Apreende-se dessa fala que haveria cobrança de compromisso e coerência em relação aos princípios defendidos, anteriormente, e que teriam norteado as ações empreendidas e as lutas encampadas. Mas, sobretudo, seria requerido do governo, através de seus representantes e gestores, o desempenho do seu papel de Estado e, no caso, pactuando com a população pobre abrindo-se às suas demandas, particularizadas no acesso à moradia. 23Maria de Lourdes Oliveira Pinto – moradora, aposentada, reside no Alto do Buriti. O sentimento de religiosidade está presente na fala da entrevistada. Protestante, agradece ter conseguido a casa, primeiramente, a Jesus: “Em nome de Jesus, eu fui sorteada”, e aos pais que vigiaram o terreno até a realização do cadastro (Entrevista em dezembro de 2004). 24A denominação “Arraio”, para designar Arraes, ocorre entre pessoas do segmento popular, tanto na cidade do Recife como no interior do Estado de Pernambuco. Presumivelmente, associado a uma pronúncia incorreta da língua portuguesa. 25Maria José (Zeza). Comissão de Ocupação. Entrevista em setembro de 2004. 26Alcindo Alves Sobrinho. Comissão de Ocupação, reside no Alto do São Félix. Preside a Associação de Moradores do Alto de São Félix, é funcionário da PCR. Entrevista em março de 2005. 230 Admitia o Secretário de Habitação27 que esse desafio, como caracterizado pelo entrevistado acima, ia mais além. Constituía-se, na visão dos segmentos pobres, de que uma grande aliança podia ser formada, capaz de fortalecer as lutas populares, segundo expresso abaixo, (o povo) Enxergava que estava estabelecida, ali, uma profunda aliança, alguém que era advogado de invasor durante os últimos cinco anos, advogado dos movimentos populares urbanos do Recife, agora assumia a tarefa de produzir habitação. Era, efetivamente, um sinal claro de que o povo podia se mexer, de que o povo podia se movimentar, que iria se estabelecer, aí, uma aliança, iria se estabelecer uma negociação e, o povo não seria objeto de repressão e de violência. Entremeado de diferentes variáveis intervenientes, o contexto fortalecia as invasões de terras urbanas no Recife. Essas ocupações encadeavam-se a uma tradição histórica de lutas por terra de habitação na cidade, vivida desde as décadas iniciais do século XX. No passar dos anos, essas ocupações, por vezes, emergiam de forma sutil e contínua, por outras, tomavam forma intensa e coletiva. Em certas ocasiões foram reprimidas, quando realizadas em um ambiente político desfavorável, noutras despontavam como elementos de mobilização e de organização. É nessa última direção que se reflete a terra ocupada da Macaxeira – Buriti. A terra ocupada Partindo de dois pontos iniciais, a ocupação da terra derramava-se pela colina, seguia as pequenas planuras do terreno, pendurava-se nas encostas, alongava-se pelos altos, aí, apressadamente, alargava-se por toda a extensão do morro. Acompanhava a figura da terra, no seu estado natural, com alguns elementos ainda preservados. Integrante do cordão de morros ao redor da planície recifense, a fatia de terra do Buriti, na visão geológica, compõe a formação “[...] esculpida a partir do baixo platô sedimentar do Grupo Barreiras” (MELO, 1978, p. 41). O subsolo, composto de argilaarenosa é sujeito aos deslizamentos com a saturação da água. Possui uma altitude variando em até 100 metros (PCR, 2000, p. 40). 27Pedro Eurico de Barros e Silva, Secretário de Habitação. Entrevista em dezembro de 2004. 231 Foto 24: Corte do morro durante a implantação do Projeto Buriti Fonte: Acervo engenheira Selma Arteiro, 1988. Estrategicamente pensada, a ocupação28 da terra principia de forma organizada, articulada com antecedência por dois grupos diferentes. O relato de José Clemente de Oliveira (Coordenador Geral Comissão de Ocupação. Entrevista em dezembro de 2004) esclarece a estruturação do processo de ocupação e o seu desdobramento operacional: Na verdade, aconteceram duas ocupações: uma embaixo que foi atrás29 da Igreja do Buriti e uma lá em cima que foi nas bananeiras30. Foram duas organizações diferentes. O pessoal das bananeiras já se organizavam há uns três meses [...] E no caso do pessoal ali de baixo, não fazia tanto tempo. Mais ou menos um mês. A articulação31 e a organização prévia para a ocupação foram reafirmadas no relato de Alcindo Alves Sobrinho (Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em março de 2005), acrescentando ter havido junção de várias lideranças e a presença de advogado. Essa articulação resultou na realização de seis reuniões, no horário da noite, contando 28Ocupação ou invasão? Os dois termos são usados, ora como sinônimos, ora para indicar situações diferentes. No caso do Buriti, argumentaram alguns entrevistados que, tratando-se de um espaço desabitado e sem uso definido, o processo desencadeado se caracterizaria como ocupação. Assim, só seria invasão se a terra tivesse uso definido. Além do mais, ocupação foi o termo empregado com maior freqüência pelos entrevistados, muito embora a maioria sem distinção específica. Sobre o assunto ver LIMA, 1990. 29De acordo com o entrevistado, esse grupo reunia cerca de 200 pessoas. 30A chamada área das bananeiras recebia esse nome devido a um pequeno plantio de bananeiras existente naquela porção da propriedade. Localizava-se no Alto do São Félix. 31O relato sobre essa articulação e a organização diz respeito à área das bananeiras no Alto de São Félix. Essa área situava-se defronte ao terreno a ser ocupado, com ele limitando-se. Tinha uma margem habitada. As moradias aí erguidas eram localizadas na área conhecida como “Terras de Ninguém”, onde, por décadas, foi cobrado o “aluguel do chão”. 232 com a participação de moradores de vários setores. Desses encontros, saiu a definição da data para a ocupação, sendo marcado o dia da posse de Miguel Arraes, “[...] porque soubemos que [...] nesse dia o pessoal estava todo na posse e o policiamento também estava ostensivo, não ia ter tanto”. A forma operacional da ação antecipadamente estabelecia caminhos estratégicos, pois, estando mobilizado o policiamento para a festa da posse, com prenúncios de um grande evento em face do significado do ato, acreditavam que haveria dificuldades para um reordenamento da força policial que agisse violentamente na área da invasão. Ademais, admitiam que a mudança de comando militar atuaria como elemento favorável aos seus intentos, possivelmente retardando a ação policial, quando relata Maria32 Jacinta do Nascimento Silva, o que pensavam ao traçar os planos de ocupação do território: “[...] a polícia que está aí não vai bater na gente porque ela está saindo e a que vai chegar vai ter que ter 24 horas pra tomarem posse, para depois ver o que vai fazer. Então, essa foi a estratégia”. Reiteradamente, a escolha do dia da posse do novo governante aparece nas entrevistas como o mais indicado para desencadear a investida. Prosseguindo na exposição da ocupação do Buriti, a entrevistada33, que integrou o grupo do Alto do São Félix, contrapôs-se, embora parcialmente, às informações e aos relatos sobre a forma planejada da ocupação. Todavia seus argumentos reforçaram a existência de uma ação discutida antecipadamente. Isto porque, segundo entende a entrevistada, a ocupação foi movida pela necessidade de moradia de quatro a cinco pessoas, que discutiram sobre a ocupação da terra, número esse, como indica, gradativamente ampliado. Quer dizer, as informações acrescidas não negam a organização prévia, mas sustentam-se na interpretação de que os processos organizativos da população necessitariam voltar-se para lutas políticas mais abrangentes e não apenas dirigidos a lutas de caráter reivindicatório. Ora, diz a entrevistada: “Sinceramente, essas pessoas, na época, não eram pessoas politizadas, não tinham compromissos politicamente com ninguém. Eram motivadas pela necessidade”. Entretanto, cabe considerar o fato de que a mobilização, por ter sido açodada pela necessidade da moradia, não anula o sentido político da organização prévia. Desenvolvia-se, naquele instante, um processo embrionário de articulação, mobilização e organização para a ocupação da terra. Eram lutas reivindicatórias se desenhando. 32Maria Jacinta do Nascimento Silva, Comissão de Ocupação, residia no Alto do São Félix, no momento da ocupação, não reside mais no Buriti. Atualmente, ocupa o cargo de chefe de gabinete de um Deputado Estadual. Entrevista em dezembro de 2004. Não reside mais no Buriti. 33Maria Jacinta do Nascimento Silva estimou que a ocupação se limitaria ao Alto Antônio Félix (área das bananeiras), mas, ao contrário, espraiou-se por toda a propriedade do Grupo Othon. 233 Esse processo inicial tomou corpo, alastrou-se, instigou a entrada de novos participantes, gerando uma forte pressão sobre o poder público. Isto porque, atrelada à forma organizada, ocorreu a versão espontânea da ocupação. Acrescenta José Clementino de Oliveira (Coordenador Geral da Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em dezembro de 2004). [...] muita gente começou espontaneamente. [...] começou o lado mais espontâneo da ocupação. [...] ocasionou uma ocupação de 4 000 mil pessoas que ocuparam todo aquele espaço, na área da Macaxeira. Já fazia cerca de 40 anos que aquele espaço estava ali sem nenhuma função social. Então, de certa forma, foi dada uma função social ao espaço desocupado. Dois fatos iniciais favoreceram a velocidade operacional da ação: a percepção, pela circunvizinhança do movimento em direção à terra; o sistema de comunicação ao espalhar a notícia, quando “correu de boca em boca”. Assim, as pessoas foram reunindose aos primeiros grupos, constituindo outros pontos e avançando em direção ao espaço sem povoação, subdividindo-o, definindo seu pedaço de chão e limpando o mato34, marcando de modo a não ficar tão estreito e deixando o corredor para as ruas. Intensificava-se a ocupação à proporção que, ao amanhecer do dia, os moradores das cercanias viram os barracos sendo erguidos, a lona sendo posta. Logo, entenderam: “Oh! Estão ocupando as terras da Othon” (Maria Jacinta do Nascimento Silva. Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em dezembro de 2004). A informação propagou-se rapidamente. Sem um comando único, a ocupação multiplicou-se. Aproximadamente, às dez horas da manhã, havia uma enorme extensão da terra coberta por demarcações e esqueleto de barracos. Em pontos35 diversos emergiam focos de ocupação. Pedaços de paus, cordões de plástico, tiras de pano improvisadas, restos de madeiras apanhados às pressas serviam de base à demarcação do pedaço de chão para cada família. Somam-se aos moradores da circunvizinhança aqueles que, informados pelos órgãos de imprensa, deslocam-se de bairros distantes, a exemplo do Ibura, na Zona Sul da cidade e, ainda, aqueles procedentes dos municípios da Região Metropolitana do Recife, 34Ao serem definidos os “pedaços” de terreno para cada ocupante, o passo seguinte foi o corte do mato, ou seja, da vegetação existente, preparando o espaço da moradia. 35Vinham famílias e pessoas dos bairros de: Casa Amarela, Nova Descoberta, Macaxeira, Córrego do Jenipapo, Guabiraba, Brejo da Guabiraba, Morro da Conceição, entre outros. Surgiam das mais distintas localidades: Alto do Progresso, Alto Santa Luzia, Córrego da Areia, Alto Antonio Félix, Alto do Cruzeiro, Alto da União, Alto do Buriti, Córrego do Eucalipto, Jardim Alto do Progresso, Vila Buriti (antiga), Alto do Jenipapo, São João Eudes, Bomba do Hemetério, Alto da Brasileira, Alto da Telha, Alto da União, Alto do Caetés, Alto do Refúgio, Carrapateira, Placa Fria e tantos outras. 234 mais próximos da cidade núcleo. Assim, chegaram os de Olinda, Paulista, Abreu e Lima e mais. Essa velocidade e o elemento surpresa dificultaram o controle, pela vigilância armada, existente na terra, referida pelos entrevistados como “os capangas”. O número de famílias envolvidas denunciava a amplitude da situação em jogo. O governo apressava-se no envio de seus representantes para conversa com os ocupantes da terra, a impressa noticiava, os proprietários recorriam à justiça, a população não recuava e requeria a intermediação do governo. “Foi o presente que demos a Pedro Eurico, na sua posse36”, narrou um entrevistado. Os momentos de expectativa frente ao governo transformavam-se em ação desencadeada pelos pobres. Ao iniciar a ocupação no dia da posse do novo governante, os segmentos populares indicavam o teor das relações a serem estabelecidas. Exigiam resposta imediata do governante. Eram os sujeitos em ação (SADER, 1988) que entravam em cena construindo, partilhando os acontecimentos da história das lutas populares no Recife. Os argumentos apresentados pelos entrevistados para a ocupação relacionavam-se, no primeiro plano, ao pagamento do aluguel da casa que habitavam. Dele procuravam livrar-se. Além dessa razão, surgiram a coabitação com familiares, como forte motivo indicado, fosse essa na mesma moradia ou em uma pequena extensão de terreno. Uma outra alegação apontava para o fato de a casa onde habitavam ser construída em área de barreira com elevado risco de desabamento. Diz a moradora Maria de Lourdes Oliveira Pinto37: “Morava em uma casa alugada”; acrescenta Carmélia Maria da Silva38: “Vivia no aluguel”, endossa Maria José Ferreira de Barros (Comissão de Ocupação. Entrevista em setembro de 2004): “[...] pagava aluguel” e vai mais além na sua narrativa, ao registrar as condições de vida enfrentadas, devido ao pagamento do aluguel. Mesmo sem resgatar da memória o valor depreendido, estabelece uma relação desveladora da sua situação de vida: “[...] na semana que a gente pagava o aluguel não fazia a feira. Comia pão, porque ele (o marido) era padeiro”. Assim, as condições de vida impunham-se ao processo de ocupação. 36A posse do Secretario de Habitação (17.03.1987) como dos demais Secretários do novo governo ocorreu dois dias após da posse do Governador Miguel Arraes de Alencar (15.03.1987). 37Moradora do Buriti, reside no Alto do Buriti, aposentada. Entrevista em dezembro de 2005. 38Moradora, aposentada, reside no Jardim Alto do Progresso - Projeto Buriti. Entrevista em outubro de 2004. 235 Os primeiros embates ocorreram com a vigilância39 armada, uma vez que o território era cercado e guarnecido por seguranças armados diuturnamente. Esses seguranças pretenderam controlar a situação retirando os ocupantes. Relato de uma ocorrência durante a ocupação mostra o nível de tensão. Lembra Maria Jacinta do Nascimento Silva (Comissão de Ocupação e Moradora. Entrevista realizada em dezembro de 2004) de ter enfrentado problemas junto com a população que a cercava, pois tentaram agredi-la. Relata o diálogo travado com um vigilante: Eu lembro de uma cena interessante [...] um dos vigilantes ficava com uma doze e notaram que lá no Alto eu estava na frente daquela questão. Um veio com uma doze, me pediu que eu pedisse pro pessoal se retirar, porque se o pessoal não se retirasse eles iam atirar em mim. Eu tive medo, na hora eu tive medo. Mas eu não demonstrei pra ninguém que estava com medo, não deixei transparecer e fui me aproximando dele. Ele disse: ‘não se aproxime, porque se você se aproximar eu vou atirar em você’. E eu comecei me aproximando e fui conversar com ele. Você está agindo de uma forma errada, não é por aí. Enquanto você está defendendo seu patrão, sua mulher está em casa, eu acho que eu devo ter pego algum ponto fraco do camarada lá, então, eu tentei jogar muito isso, tentar sensibilizá-lo.Comecei a mostrar os filhos dele, qual é a escola que teus filhos estudam. Qual a escola dos filhos do teu patrão? Qual o teu salário? Qual o salário dele? Comecei a fazer uma comparação e fui me aproximando dele. E a turma também foi se chegando. E ele pedindo: se afastem, se afastem. De repente teve um rebuliço lá, um rapaz que estava lá na hora deu uma rasteira nele e tomou a doze. E a gente não tinha arma nenhuma, ninguém estava armado. Aí o grupo do outro lado começou a ficar armado. Até no momento, eu comecei a dizer agora vocês se armem, porque agora nós temos uma carabina aqui. A carabina nossa está aqui. Se vocês vierem de lá, a gente está aqui. E aquele cidadão que estava com a arma, até aí eu não conhecia, eu fiquei sabendo no outro dia que era um marginal de alta periculosidade que estava envolvido no processo, mas que estava dando uma cobertura a gente, mesmo sem à gente saber dessa história achando que era um [...] Esse cidadão ficou com a arma, tive dificuldade pra devolver, queria ficar com a arma, mas eu fui falar com ele e disse que era melhor não fazer isso, e ele devolveu a arma. Eu acho que foi a única violência que houve com a gente foi essa. Os donos da terra requereram a presença da polícia militar, como afirmou na entrevista, Paula Mendonça40, “[...] para a defesa do seu direito de propriedade”. Nos momentos iniciais, acrescenta a entrevistada, chegavam ao governo denúncias de 39Para alguns entrevistados, embora existisse vigilância, ela não era tão ostensiva, fato que teria facilitado a invasão e a perda do controle da ocupação pelos donos da terra. “No momento não tinha essa vigilância. [...] essa vigilância tão forte, tanto que toda a terra foi ocupada. Se tivesse, o pessoal, que foi espontâneo, não iria”. O processo de ocupação foi mais ou menos tranqüilo. “Chegava, demarcava, construía”. O quadro se altera quando “[...] os donos da Fábrica da Macaxeira [...] donos da terra, também chegaram com seus grileiros pra [...] aí cercaram um espaço imenso de terra e botaram pessoas com metralhadora dentro. Mas isso depois da ocupação, depois da intervenção da polícia militar”. José Clementino de Oliveira (Zezo), Coordenador Geral da Comissão de Ocupação (Entrevista em dezembro de 2004). 40Paula Mendonça, Chefe de Gabinete – Secretária Adjunta da Habitação 87/88 e Diretora-Presidente da Cohab no período de 08.01.1989 a 15.01.1991. Entrevista em dezembro de 2004. 236 cometimento de violência, “[...] de milícias armadas, privadas, empresa de vigilância contratada”. Determinou o Governador ao responsável pela pasta da Habitação, juntamente com os seus auxiliares diretos, que tomassem conhecimento dos fatos. De acordo com Pedro Eurico, “[...] no dia da posse, fui assinar o termo de posse como Secretário41 de Habitação no Palácio e saí de lá direto para Macaxeira, onde existia uma invasão. [...] o governador, então, se depara, no início do governo, com a invasão maciça”. Ocupado o terreno, apressaram-se os ocupantes em constituir seus representantes para iniciarem o diálogo com o governo e os donos da terra. A iniciativa partiu dos grupos organizados previamente à ocupação. Adotaram, como sistemática, a escolha de representações por localidades42, considerando para tanto a abrangência da ocupação, a distribuição das representações abarcando todo o território e a importância de democratizar a representação. Dessa forma, foi organizada a Comissão43 de Ocupação, que contou, no início, com trinta e cinco componentes. A Comissão organizaria e responderia pelas reivindicações dos ocupantes, dando procedência aos encaminhamentos decididos em assembléia. A ocupação das terras do Grupo Othon e o processo organizativo, que despontava em face da luta reivindicatória a caminho, receberam, de imediato, o apoio de Associações de Moradores44 da circunvizinhança. Apoio esse que se multiplicaria através 41Pedro Eurico de Barros e Silva, Secretário do Governo do Estado entre 1987 e 1990 (Governo Arraes), assumiu o cargo em 16.03.1987, deixando a pasta para ser candidato à reeleição a Deputado Estadual em 1990. (Entrevista em dezembro de 2004). 42As localidades citadas pelos entrevistados nem sempre são coincidentes. Foram lembradas, por um entrevistado, as seguintes: O Recanto da Paz – atrás da Igreja do Buriti; Alto do Cruzeiro, Alto Antonio Félix, Alto do Buriti, Córrego do Jenipapo; Caetés – Dr. Caetés; enquanto outro destacou: Alto Jardim Progresso, Alto Antonio Félix, Alto da União, Alto do Buriti, Alto do Jenipapo, Córrego do Jenipapo, Córrego do Eucalipto, Recanto da Paz – da Igreja do Buriti, Carrapateira, Campo do União. A variação dos nomes das localidades indicadas pode guardar relação com as dificuldades de delimitação do território, quer dizer, a linha divisória entre o espaço já povoado e aquele invadido, além da dimensão da área e a constituição dos pontos de ocupação. 43“Foi um período muito confuso porque a Comissão de trinta e cinco pessoas. Basicamente, parte dessa Comissão eram pessoas que nunca ocuparam terra. Eram pessoas que, nos governos anteriores deduravam quando alguém ocupava a terra. Mas como era do Governo Arraes eles estimularam o pessoal a ocupar, porque houve isso também, pra atrapalhar o Governo Arraes. E por serem representantes de ONGs, mesmo que sejam ONGs que a gente chamava de ONGs frias, Associações frias que eram aquelas indicadas pelos governos anteriores”. Ainda acrescenta o entrevistado que, do universo da Comissão, cerca de dez integrantes tinham sua ação atrelada a gestões públicas passadas e opositoras do governo em instalação e apenas cinco pessoas vinham do movimento popular combativo (José Clementino, Coordenador Geral Comissão de Ocupação. Entrevista em dezembro de 2004). 44Apoiaram, no momento inicial da ocupação, as entidades mais próximas territorialmente, sendo algumas citadas pelos entrevistados, como: União de Moradores da Vila Buriti, Associação de Moradores do Alto Antonio Félix, Grupo de Saúde do Buriti, Grupos Jovens, Associação do Alto Progresso, de Jardim Alto do Progresso, de Nova Descoberta, de Córrego da Areia, de Córrego do Jenipapo, entre outras. Eram entidades envolvidas com a luta por habitação e pelos direitos humanos. Contribuíram com as discussões sobre a situação de moradia dos ocupantes da terra e os encaminhamentos das questões vividas. 237 da incorporação de outras Associações e da Federação45 de Moradores de Casa Amarela, formando uma vasta rede. Somou-se, ainda, a ação da Comissão de Justiça e Paz e ONGs. Cabe ressaltar, também, o apoio dado pelos párocos46 da Igreja do Buriti, integrantes da ala progressista da Igreja, cedendo, inclusive, o espaço do templo para a realização das assembléias com a população. Esses párocos desenvolviam na localidade trabalhos junto à população, concernentes à conquista de direitos, entre os quais o de moradia, desenvolvendo o trabalho nos moldes das Comunidades Eclesiais de Base e do Movimento de Jovens do Meio Popular. Assinale-se que um dos grupos de moradores integrante do movimento de Igreja participava da organização prévia da ocupação, mais particularmente da ocupação na localidade Recanto da Paz, por trás da Igreja do Buriti. Esses apoios tornaram-se visíveis quando diferentes entidades47 populares fizeram-se presentes na primeira Assembléia realizada que reuniu os representantes do governo, os gestores da Secretaria de Habitação, a população e a Comissão de Ocupação recém constituída, após três dias da invasão. Pode-se assim dizer que, do embrião organizativo emergente da ocupação do Buriti, com possíveis ramificações anteriores, foram criada novas articulações, em sistema de rede. Indicativo de que as expectativas em relação ao governo seriam traduzidas em embates e buscas por direitos e negociações. A população recebe, na área da invasão, a primeira visita do governo, através de seus representantes. O contato inicial é relatado: Ele procura é conversar com as pessoas que são responsáveis. Primeiro, eles chegam mandando a gente parar. A polícia chegou mandando parar. A gente parava, mas como eles não tomavam conta muito direito, a gente parava, assim, durante o dia. À noite, a gente continuava construindo. A gente fazia sempre essa coisa. Até que o governo veio e quis dialogar. A presença dos representantes do Governo, na Macaxeira, assinalava o principiar do processo de negociação a ser desencadeado a partir de então. As negociações deflagradas serão discutidas no item seguinte. Sobressaem das entrevistas dois fatores essenciais para a compreensão do contexto no qual se insere o quadro das ocupações urbanas, no Recife, nos anos oitenta e, 45Essa Federação desempenhava um forte papel político, no Recife, após o período de ditadura militar e reunia um número expressivo de entidades populares de Casa Amarela e localidades situadas nos morros da Zona Norte. 46Na época da ocupação, faziam parte da Igreja do Buriti o Padre Cláudio e o Padre Felipe. 47Estiveram presentes à reunião: a Federação da Associação de Casa Amarela–FEACA; a FEMEB–Federação Metropolitana de Bairros; Movimento Terra de Ninguém; diferentes Conselhos de Moradores de localidades de Casa Amarela; além de moradores de Nova Descoberta, do Brejo da Guabiraba que participaram da ocupação. 238 aqui, particularmente nos últimos três anos da década de oitenta, no ano de 1987, ano correspondente à ocupação do Buriti. Um dos fatores diz respeito aos aspectos sociopolíticos da realidade local e as suas peculiaridades; o outro, a premência por habitação dos segmentos populares, diretamente vinculada aos determinantes econômicos. Os elementos relacionados ao momento sociopolítico emergente das entrevistas constituem possíveis explicações para o fortalecimento da ocupação coletiva, em terras urbanas, associados a: confiança no governador eleito; ressonância que poderia ter a ação de ocupação da terra e da luta por acesso à habitação junto ao novo governo, ainda em instalação, e com características populares; compromissos assumidos, durante a campanha eleitoral, pelo candidato Miguel Arraes, de implementar ações que contemplassem os diferentes segmentos sociais, em especial os mais pobres, aqueles, portanto, mais alijados da partilha dos bens socialmente produzidos. Fatores relacionados ao passado político do governante e à sua gestão à frente da prefeitura48 do Recife e do governo do Estado, quando apoiou lutas populares, concorreram para forjar e reforçar expectativas, sobretudo relativas a demandas habitacionais emergentes. Tomando-se esses elementos da história e olhando-os do ângulo dos segmentos de baixa renda envolvidos na luta cotidiana por moradia, naquele momento, seria possível pensar que, dessa perspectiva, fragmentos da história haviam sido ativados no tempo e, ao serem alumiados, reacenderiam, reforçariam e instigariam as lutas populares, marcadamente as lutas por habitação no urbano, as lutas por acesso à cidade pelos pobres. Entretanto, torna-se imprescindível registrar, como visto no Capítulo 1, que a luta e a resistência da população pobre por habitação, no Recife, remonta há mais de um século. Mais recentemente, no final dos anos setenta do século passado, no início da redemocratização, ainda na ditadura militar, os movimentos em torno da questão habitacional reavivaram e eclodiram através das ocupações em terras urbanas, das lutas pela posse da terra e na recomposição dos processos organizados e de pressão. Assim, 48Miguel Arraes de Alencar foi prefeito do Recife, em 1960, e governador, entre 1962-1964, tendo, no entanto, o mandato interrompido pelo Golpe Militar, em março de 1964. Paulo Cavalcanti, em seu livro de memórias, ao referir-se às atitudes e conduta de Arraes, no ato de governar quando exerceu o cargo de Prefeito da Cidade do Recife, destaca: “Arraes era o homem sensível ao cotidiano, lhano no trato com os humildes, aberto à discussão dos problemas sociais, sabendo lidar com o povo, auscutando-lhe as queixas e reclamos pacientemente” (CAVALCANTI, 1978, p. 285). Tais características foram tecendo, ao redor de Arraes, a confiança entre o político e os segmentos mais empobrecidos, deixando para trás as formas impositivas, hierárquicas, da autoridade distante do povo, suprimindo a perspectiva de uma visão e prática voltada para o privilégio que caracterizava as intervenções urbanas até então. 239 não se trata de atrelar a mobilização e a organização popular à pessoa do governante, porém de dispor de certos elementos que instigaram e reforçaram esse processo, nesse momento da história social do Recife, e as relações mantidas entre população e governo. O segundo ponto diz respeito diretamente às condições de moradia resultantes dos fatores econômicos, que atuam no acesso à habitação pelos segmentos empobrecidos. A ausência de políticas públicas condizentes, para suprir a demanda dos segmentos populares, e a impossibilidade de solucioná-la, através das relações de mercado, provoca, nesses segmentos, um movimento de pressão, externalizado nas ocupações urbanas, intensificadas no período de recessão econômica. Esse movimento buscou apropriar-se das alternativas possíveis no sentido de enfrentar as questões habitacionais, vividas no cotidiano dos pobres urbanos. 4.2.1 A relação entre o Estado e a população Afirmaram alguns moradores, no decorrer das entrevistas, que o Governador eleito Miguel Arraes teria visitado a ocupação do Buriti, em companhia de seus colaboradores da pasta de habitação, tão logo tomou conhecimento da sua existência, na manhã do dia da posse. Esta afirmação retornou com freqüência e foi repassada como se dotada de muita veracidade, muito embora ninguém confirmasse tê-lo visto. Na época, notícia sobre a possível atitude do governante repercutia como um fator de segurança. Assim, os ocupantes sentiam-se fortalecidos para seguir adiante na consecução de seu intento. Checada essa informação, com os gestores, com integrantes da Comissão de Ocupação e com alguns moradores, não foram encontrados subsídios para a sua confirmação. Tomando de empréstimo as palavras de Cavalcanti (1978, p. 252), pode-se dizer que “Os desejos da população49 confundiam-se com a realidade, dando-lhe contornos simpáticos, no mundo mágico que se cria em torno das lideranças populares”. A celeridade do processo de ocupação impunha a necessidade de uma pronta ação do Estado, considerado, pelos ocupantes, como interlocutor imediato. O número de 49Nessa passagem, Paulo Cavalcanti, no livro “O caso eu conto como o caso foi: da Coluna Prestes à queda de Arraes: memórias”, refere-se aos seis meses de governo de Pelópidas da Silveira quando prefeito nomeado da cidade do Recife, em 1946, ao revolucionar velhos hábitos administrativos, “[...] arregaçando as mangas e impulsionando os planos urbanísticos de uma cidade que precisava modernizar-se”. Mesmo em seu curto mandato, adotou novas táticas de gestão da cidade que lhe asseguraram grande prestígio, firmadas pela participação dos citadinos, pela visão social e capacidade administrativa (CAVALCANTI, 1978, p. 251). 240 famílias envolvido denunciava de forma intestinal a dimensão da problemática habitacional no Recife e testemunhava a extensão do acontecimento. Simultaneamente, este recorte constitui um indicador dos rumos da relação entre o Estado e os segmentos populares na cidade, ou seja, a passagem do mundo mágico para o mundo real. A invasão ganhava as páginas da imprensa. Notícia no jornal Diario de Pernambuco, do dia 18.03.1987, destaca a primeira invasão de terra na cidade, ao ser instalado o novo governo. A manchete do mesmo periódico, do dia 19.03.1987, diz: “Governo pode comprar terreno e repassar a invasores”. A matéria informa que “O Secretário de Habitação, Pedro Eurico, por ordem expressa do Governador Miguel Arraes, tentará comprar aos legítimos proprietários, cerca de 34ha dos térreos do Grupo Othon Bezerra de Melo, em Casa Amarela, como solução para a invasão efetuada [...]”. A iniciativa do governo apontava para a direção a ser adotada em relação à ocupação de terras urbanas, como pode ser acompanhado através de outra matéria publicada e abaixo citada. Os passos da ação eram apresentados no Diário Oficial de 19.03.1987 que anunciou o cadastramento, pelo Estado, de todos os envolvidos no processo de ocupação. As ocupações urbanas, no novo governo, conforme assegurou o Secretário de Habitação, seriam tratadas: “[...] como uma questão social, historicamente definida, até mesmo através do perfil da formação da cidade do Recife, que tem vários bairros que foram inicialmente invasão”. Essa concepção revolvia a postura adotada pelo Estado, uma vez que, anteriormente, prevaleciam as medidas repressoras e redutoras das possibilidades de acesso à moradia por intermédio de ocupações de terras urbanas realizadas de modo coletivo. A permanência no local ocupado A garantia da permanência no local ocupado pela população requereu um longo processo de negociação entre três atores principais: a população, o governo e os proprietários imobiliários. Exercendo, inicialmente, o governo o papel de mediador das negociações, torna-se, no momento seguinte, o executor da Política Habitacional, viabilizando a consolidação da ocupação da terra e do acesso à moradia. O desdobramento do processo de negociação pode ser aqui acompanhado a partir de um recorte dos acontecimentos. 241 A população ampliava as formas de pressão para assegurar a permanência na terra ocupada. Organizada, a Comissão de Ocupação torna-se a articuladora da negociação com o poder público, visto como interlocutor e intermediador. Esse grupo, fazendo-se acompanhar da população, recebe os representantes do governo nas primeiras visitas à ocupação, instituindo-se o ponto de partida para as negociações. Três dias depois após a entrada na terra, numa manhã de sábado, foi realizada uma reunião entre a Comissão e o Governo, representado pela Secretaria de Habitação. Seguiu-se a essa reunião uma grande Assembléia, no horário da noite, na Igreja do Buriti, com os integrantes do movimento de ocupação. Esse encontro firmava de público o diálogo com o governo, a aproximação inicial para tratar da questão, desdobrando-se daí uma série de outras reuniões. Foto 25: Assembléia dos Ocupantes do Buriti. Fonte: Acervo de Jacinta do Nascimento Silva, 1987. A proposição do governo foi a de saída dos ocupantes da terra, fato ocorrido na segunda reunião com a Comissão. Sustentava o governo a sua proposta na necessidade de ser mantida a integridade física de todos e, ao mesmo tempo, fortalecer os argumentos frente à negociação com os proprietários da terra. Esses proprietários haviam entrado na justiça com uma liminar para a reintegração de posse. A Comissão de Ocupação entendia ser importante permanecer no chão ocupado, como modo de pressão. A proposta provocou discórdia dentro do movimento, sendo levada à Assembléia e aceita pelo voto popular, constituído da grande maioria, como um “[...] atestado de confiança no governo, por ser um governo do povo” (José Clementino de Oliveira. Coordenador Geral da Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em dezembro de 2004). 242 Surgiu, como contra proposta endereçada ao governo, a realização do cadastramento, de modo a assegurar a todos a possibilidade de acesso à terra e à habitação. O procedimento, ao ser aceito, gerou a realização do cadastramento com atenta vigilância da Comissão. Todavia, a retirada da terra não foi integral, registrando-se um jogo disfarçado, o emprego de táticas entre saída e permanência, já que, no horário noturno, silenciosamente, a instalação dos barracos avançava. Esse movimento sorrateiro foi, paralelamente, discutido e acordado entre a Comissão50 e a população, sendo a ação entendida como exercício do poder de pressão. Essa atitude, favorecida pela impossibilidade da vigilância da polícia, ocorreu em todo o terreno, dada a extensão de terra ocupada. Soma-se à proposta do cadastramento a preparação do espaço para acolher as futuras moradias e um projeto urbanístico. A área do Buriti pertencia a um grupo econômico tradicional em Pernambuco, “[...] mas que se encontrava em franca decadência”. A polícia, acionada pelo governo, recebeu a atribuição “[...] não para reprimir a primeira mudança [...] se estabeleceu, um novo paradigma foi que a polícia não estaria mais a serviço de ser guarda armada. [...] ‘guarda pretoriana’, dos proprietários”, afirma o Secretário de Habitação. A presença da polícia teria como delegação “[...] impedir que os capangas, que os vigilantes armados deflagrassem um processo de violência contra o povo”. Assentava-se essa decisão no intuito de o governo garantir “o direito do povo se organizar”. O passo seguinte dirigia-se ao entendimento e à negociação com o “[...] detentor da titularidade da área, detentor do domínio jurídico sobre a área”. Essa negociação seria desencadeada a partir de uma bifurcação de atitudes, de um lado, por intermédio do governo, na pessoa do Governador, e, por outro lado, proveniente da população ocupante da área. Entretanto, no primeiro momento, a presença da polícia, acionada pelo governo, causou um certo impacto na população, habituada que estava com práticas violentas e costumeiras e, no caso das ocupações urbanas, atitudes agressivamente dirigidas aos pobres. A amenização desse impacto ocorreu, sobretudo, quando a polícia feminina foi designada para realizar, sob a coordenação de técnicos da COHAB e com a participação da Comissão de Ocupação, o cadastramento dos ocupantes da terra. 50A Comissão de Ocupação adotou como sistemática de trabalho reuniões quase diárias realizadas na Igreja do Buriti. O local funcionava, durante o dia, como o comando geral da ocupação. 243 A negociação da terra A nova abordagem junto à população pautava-se na busca de estabelecer uma relação que preservasse a autonomia do movimento “[...] apoiando a iniciativa do movimento popular”. Neste sentido, nos processos de negociação com os segmentos populares, o Estado empreendeu uma “[...] relação de intermediação com a perspectiva de resolver o problema da população [...] na questão do acesso à terra [...] assegurar um lugar para residir”, e, também, “[...] assegurar condições adequadas de moradia”, como menciona, na entrevista, Carlos Sampaio51 (Diretor de Programas Especiais da COHAB). No entanto, o Estado estava também atrelado ao conjunto de interesses de classes diferentes, que requeriam o cumprimento da legislação em vigor. Assim, nas palavras de Carlos Magno, também procurava “garantir o direito de propriedade [...] assegurando ao proprietário o direito à recompensa do seu patrimônio mediante paga em dinheiro”. Em certos momentos, admitiam os gestores que o processo de negociação com a população ocorria em clima de embate, reconhece Paula Mendonça (Presidente da COHAB). As razões para isso encontravam-se na concepção dos segmentos populares de que: “[...] o povo agora poderia ditar as ordens e ditar as leis”. Acrescenta a entrevistada que era um “[...] governo de um Estado Democrático e que existia o Estado de Direito e Estado Democrático e que existiam leis entre as quais o direito de propriedade”. Assim, a aquisição da terra seguia procedimento administrativo e judicial de expropriação por parte do Estado. Neste sentido, a expectativa popular, ainda, segundo a entrevistada, ressoou como: [...] dificuldade de compreensão dos limites do poder de atuação do Estado, também facilitava aos interlocutores, no que dizia respeito à instalação das mesas de negociação. Era mais fácil para o povo e era mais fácil para o governo identificar e reconhecer a legitimidade das reivindicações do que anteriormente um governo que não entendia aqueles movimentos, como movimentos legítimos de reivindicação de moradia. A intermediação do Estado no processo de negociação para aquisição de terras urbanas desenvolveu-se enfrentando questões diversas, e envolvendo população e 51Carlos Magno Cisneyro Sampaio – Diretor de Programas Especiais-DPE da Cohab-PE (1987-1990) (Entrevista em março de 2005). 244 proprietários. Na negociação com a população, o enfrentamento associava-se, segundo Carlos Magno, ao fato de que: [...] a população [...] queria uma ação imperial do Estado, na perspectiva de que desapropriasse a terra imediatamente, pagasse [...] pouco importava quanto custava. Queria a garantia de que ia ficar ali. [...] a cada passo da ação, e essa desapropriação é muito lenta, muito ritualística [...] a população ficava irritada e cobrava mais efetividade da ação do governo. [...] relação com a população era muito tensa porque o medo da reintegração de posse permanecia constante em sua vivência. Premida pelas condições de habitação, a população, de um lado, tinha pressa, do outro lado, desconfiava da concretização da desapropriação. Essa desconfiança era fruto de inúmeras promessas não cumpridas por governos passados e já incorporadas ao seu cotidiano, muitas das quais culminaram com a reintegração de posse e retirada da população. Nesse momento, a confiança depositada no governante tornava-se insuficiente, frente aos dados da realidade vivida. Em jogo, um outro lado da moeda no processo de negociação - os proprietários imobiliários, donos das terras ocupadas, que, por razões diferentes, segundo os gestores, resistiam à negociação. Apresentado o custo da terra, prosseguiram os trabalhos para reduzir o preço indicado. Os argumentos para essa redução baseavam-se no fato de que a terra estava ocupada. O desenrolar dessa negociação muitas vezes transformavam-se em uma discussão jurídica. Enquanto a decisão judicial definitiva não era consumada, a consolidação da ocupação não ocorria. Em manchete, o Diario de Pernambuco do dia 25.03.1987, no Caderno Cidades, p. A-13, expõe: “Grupo Othon faz doação para beneficiar invasores”. A doação correspondia a 10ha da área invadida, sendo acompanhada da proposta de venda ao Estado de outros 21ha. Observa-se que a doação estava envolta em certa figura de retórica, pois parte do terreno era extremamente íngreme, área non aedificandi, além de existir no seu limite uma fatia correspondente à faixa de domínio52 da Companhia Energética de Pernambuco-CELPE, por onde passava à linha de alta tensão. No entanto, a formalização da doação abria caminhos à negociação. Atrelavam-se ao argumento anterior dois outros aspectos: a ocupação racional do terreno, com aproveitamento acima de 1.500 lotes, demandavam elevadas somas de investimento em infra-estrutura, como demonstravam estudos técnicos realizados pela 52A extensão sob o domínio da CELPE era constituída de 40.000m² (quarenta mil metros quadrados). 245 COHAB. Conquanto, o Grupo Othon era devedor53 de tributos ao Estado, e esse fato fomentou a utilização de formas de compensação desses créditos no sentido de abater o preço e facilitar o parcelamento desse valor. A Escritura54 Particular Definitiva foi assinada em 11 de outubro de 1988, passado mais de um ano da ocupação. Reza no documento que a terra foi adquirida55 por um: “[...] preço de Cz$ 76.743.651,63 (setenta e seis milhões, setecentos e quarenta e três mil seiscentos e cinqüenta e hum cruzeiros e sessenta e três centavos) equivalente a 80. 632.56 OTNs”. A área em transação media 2.517.00m², prevendo-se a composição de 1.866 lotes, pagando-se mediante quatro Notas Promissórias56, sendo a “[...] última quitada em parte, junto à Secretaria da Fazenda Estadual. [...] para pagamento de débitos fiscais [...] existentes na Fazenda, referente às empresas coligadas do outorgante vendedora, as Usinas Central Barreiros S.A. e a Cia. Açucareira Santo André do Rio Una, realizadora e revogadora dos débitos”. Durante os trâmites do processo de negociação, a população manteve-se ativa, realizando um acompanhamento sistemático dos procedimentos, utilizando e exercendo o poder de pressão das mais diversas formas. A Comissão de Ocupação desempenhou papel essencial por manter constantemente uma relação democrática com os ocupantes e provocar, junto aos órgãos responsáveis pelos Programas Habitacionais, no Estado, uma ação efetiva. Assim, realizaram reuniões, passeata, dirigidas à Secretaria de Habitação e a COHAB, assembléias, participando de audiências, ensaiando o “enterro do governo” quando entenderam que as providências institucionais aparentavam arrefecer. A Comissão levou abaixo-assinado a Brasília, com mais de 5.000 mil assinaturas, para pressionar pela aprovação e liberação de recursos para o Projeto de Urbanização. Fruto da pressão constante da Comissão, as Assembléias mensais com o poder público, realizadas na Igreja do Buriti, permitiam a veiculação de informações sobre os encaminhamentos57 da desapropriação, sendo discutidos os avanços, a morosidade e as 53Essas informações foram levantadas pela Secretaria de Habitação em conjunto com as Secretarias de Governo e de Planejamento do Estado de Pernambuco. 54Esse documento integra os arquivos da Pernambuco Participações e Investimentos S/A - PERPART, empresa herdeira da parte jurídica e administrativa da extinta COHAB-PE. 55Os recursos destinados à aquisição da terra originaram-se do orçamento do Governo do Estado, enquanto os recursos de infra-estrutura e financiamento da unidade habitacional foram provenientes da CEF. Todavia cabe assinalar que o custo da infra-estrutura coletiva seria assumido pelo Estado e repassado à população apenas a parte que adentrasse a habitação. 56O pagamento foi realizado através de Notas Promissórias distribuídas para os dias 31.05.1988, 30.06.1988, 29.07.1988 e 30.09.1988. 57Durante essas Assembléias, agendadas com a Secretaria de Habitação e a Cohab, eram informados os passos necessários à desapropriação e o estágio no qual se encontrava, como por exemplo: levantamento topográfico do 246 interrupções. Todavia, a tensão da população só aplainou ao ser consumada a desapropriação e serem construídas as primeiras casas. Então, a relação, na perspectiva dos gestores, tornou-se mais branda, mais equilibrada. Estava decretada a permanência naquele terreno. 4.3 O CAMINHO DA MORADIA AUTOCONSTRUÍDA O processo da autoconstrução financiada modifica o teor da autoconstrução, como pode ser constatado pelo confronto com a autoconstrução realizada pela população de modo espontâneo. Associa-se, no primeiro caso, ao agir institucional integrando regras, normas, critérios, fluxos e cronograma de realização. A ação pública enfrenta a forte presença da população na busca de respostas as suas necessidades de habitação. Seguiram-se quatro dias da ocupação, quando, em 19 de março de 1987, se deu início ao cadastramento da população. Estavam selados os primeiros passos do processo de negociação entre população e governo. Esse cadastramento foi notícia no Diario de Pernambuco do dia 19.03.1987, no Caderno Cidades, p. A-13. A matéria informava sobre os compromissos firmados entre Governo e Comissão de Ocupação, reafirmando a realização do cadastro e definição do prazo para a sua conclusão. Enquanto isso, ficou acordada a suspensão de novas ocupações e da construção de casas. O Diário Oficial do Estado, do mesmo dia, divulga o início do cadastro. O território ocupado foi dividido em doze58 subáreas, tendo por base os pontos de ocupação indicados pela Comissão de Ocupação, que serviram de base ao cadastramento. Esse cadastramento, coordenado por uma equipe de técnicos da COHAB, contou com cadastradores da mesma Companhia, policiais femininas, convocadas para essa tarefa, e os integrantes da Comissão de Ocupação, que apoiavam o levantamento das informações, a organização e o acompanhamento do trabalho. Passados quinze dias úteis, o cadastro de 4 70059 famílias estava concluído. terreno, laudo de avaliação, preço pedido pelo proprietário, liminar concedida ou não pelo Juiz, depósito da parcela acordada, entre outros. 58Tomaram, como ponto de partida para principiar o cadastramento, o lote onde estava cada família, que o havia demarcado. No entanto, a extensão da ocupação e o número de pessoas envolvidas inviabilizaram essa alternativa. Dessa forma, a área foi dividida, para efeito de cadastramento, nas seguintes subáreas: Alto do Progresso, Alto Antonio Félix, Córrego da Areia, Córrego do Jenipapo, Buriti, Bertioga, Alto do Caetés, Córrego do Eucalipto, Alto do Cruzeiro, Campo da União, Carrapateira e Alto do Eucalipto. 59Entre os cadastrados, além dos moradores da vizinhança, foram registrados residentes em outras cidades que se encontravam de passagem por Recife, residentes em localidades afastadas da área de ocupação. Nesse último caso, 247 Reuniões realizadas entre a Comissão de Ocupação e a COHAB definiram os procedimentos a serem adotados a partir de então. Sindicância60 e julgamento lastreariam o processo de seleção e a acessibilidade ao lote e à habitação. Esse trabalho foi realizado através de equipes constituídas de forma paritária entre Comissão de Ocupação e Governo. Essas equipes visitavam os endereços comunicados pelos cadastrados para averiguar a veracidade das informações fornecidas e das informações repassadas. Em seguida, o candidato era submetido aos critérios de julgamento para seleção e, não sendo selecionado, poderia recorrer da decisão. Esse processo requeria muito trabalho dos membros da Comissão e dos funcionários da COHAB designados para essa atividade, além de representar um investimento expressivo em face do universo de famílias envolvidas. A sindicância61, seguida do julgamento, iniciados no mês de abril do mesmo ano, foram interrompidos por falta de recursos pelo órgão executor (Breve Histórico da Área. Ignês Araújo, Assistente Social do Buriti. 03.06.1991. Mimeografado), mas retomados posteriormente. Critérios de seleção foram estabelecidos entre a Comissão e a COHAB, considerando uma certa ordem hierárquica: critérios de ordem geral, de primeira e segunda instâncias. Constituíam critérios gerais: renda de 0 a 03 salários mínimos, não possuir terreno ou casa própria, morar em Casa Amarela. Enquanto os de primeira instância referiam-se a: ser casado com filhos; solteiro com filhos; solteiro e arrimo de família; e idoso; já os de segunda instância, correspondiam a casais sem filhos e os solteiros. “Morar em Casa Amarela”, como critério de inclusão, representava habitar na vizinhança do território ocupado. Esse critério enraizava-se no argumento levantado pela Comissão e pela população de que nas cercanias havia “muita gente sem condições de morar”. Tratava-se de uma porção do espaço recifense circundado por áreas habitadas extensivamente pela população pobre; havia relações de conhecimento, laços familiares e de vizinhança entre os ocupantes; além do apoio das organizações populares, das localidades do entorno, a exemplo de Casa Amarela. foram excluídos pelos critérios de seleção estabelecidos (Relatório Final da Área: Buriti. Ignês Araújo, Assistente Social do Buriti, março de 1991. Mimeografado). 60A realização da sindicância e do julgamento tem origem nas práticas adotadas em projetos anteriores, a exemplo dos Projetos de Brasília Teimosa, do Coque e dos Coelhos. Surgiram das experiências desenvolvidas pelo movimento popular ONGs que o assessoravam, dentre as quais a Comissão de Justiça e Paz e o órgão executor do projeto – a Cohab ou a URB . Era constituída uma Comissão Paritária com atribuições de examinar casos específicos emergentes no curso do desenvolvimento do projeto. Durante o Governo Arraes, essa prática foi ampliada, democratizada e empregada no caso das ocupações urbanas. 61Como critério de trabalho interno, ficou estabelecido que quem realizava a sindicância não participava do julgamento daquela família. Procurava-se, com isso, tornar o julgamento o mais isento possível. 248 Dificilmente, os cadastrados e incluídos, após o julgamento, nos critérios de segunda instância, tiveram acesso à habitação. A razão para essa decisão encontrava-se na ausência de disponibilidade de lotes, ou seja, o número de lotes era menor do que o número de cadastrados e aptos ao seu acesso, de acordo com os critérios gerais e os de primeira instância. O rigor adotado na sindicância e julgamento objetivava reduzir as possibilidades de acesso daquelas famílias possuidoras de casa ou fora dos critérios estabelecidos. Mesmo com esse procedimento, alguns entrevistados - membros da Comissão - afirmaram ter existido acesso ao lote por famílias que não respondiam aos critérios estipulados. Tais famílias conseguiram mascarar as informações, tangenciando os cuidados com os quais se cercaram os responsáveis pela sindicância e pelo julgamento. As relações de reciprocidade Diferentes formas de reciprocidade manifestaram-se ao longo do processo de produção da habitação no Buriti entre a população envolvida. Entretanto, no que tange à construção da unidade habitacional, a reciprocidade esteve ausente. O próprio conteúdo da proposta de autoconstrução e o seu desenvolvimento operativo restringiam essa possibilidade. Desde o princípio da ocupação do terreno, estabeleceu-se entre a população ocupante formas de solidariedade e de compartilhamento na luta por habitação. Uma rede de informações espraiou a notícia da ocupação, avisando a parentes, amigos, vizinhos, em condições semelhantes de moradia, para que participassem da empreitada. Narraram os moradores ter ouvido quando alguém falou: “Tão abrindo invasão lá pra aquele lado do Cruzeiro” (Maria62 Silva). Outro disse: “Maria (comadre) mandou me chamar que estava havendo invasão aqui” (Dilma63 Maria Barros Antenor da Silva). Às notícias que circularam, informalmente, somaram-se as formas antecipadas de organização e a percepção dos moradores da redondeza do movimento de invasão. Doutras vezes, a um retardatário conhecido ou em situação precária de habitação cediam uma fatia do chão demarcado, reduzindo o seu próprio e incluindo outra família. Ilustram essas atitudes os depoimentos seguintes: “[...] a gente foi e invadiu 62Aposentada, pedinte, 70 anos. Moradora do Alto Jardim Progresso. Alto Cruzeiro referido pela entrevistada diz respeito à localidade do Alto do Cruzeiro situada no limite da ocupação. Entrevista realizada em outubro de 2004. 63Dona de casa, 40 anos. Moradora das proximidades do Campo do União. Entrevista realizada em outubro de 2004 249 ali, limpemo uma área grande, uma área que dava pra fazer umas duas casas, pra mim e outra pra vizinha” (João Gomes da Silva. Eletricista aposentado. Morador. Entrevista realizada em dezembro de 2004), ou ainda, conforme declara, Maria José Ferreira de Barros (Comissão de Ocupação. Entrevista em setembro de 2004) “Mandei chamar ela, parti meu pedacinho de terreno, pra mim e ela, porque a gente marcava, colocava uns pedacinhos de pau, tira de pano, cordão plástico. A gente se virava pra marcar aquele pedacinho. Então, eu dividi pra mim e ela [...]”. Ocupada a terra, definiam os ocupantes as táticas de vigilância do lote demarcado, entremeando relação de troca e ação, no sentido de evitar que outrem se instalasse no espaço demarcado. Faziam revezamento, permanecendo no local sempre mais de uma família ou um dos seus membros. A esse respeito assinala Ademaro64 Romão dos Santos (Comissão de Ocupação): “[...] ficava um monte de gente aqui, um tomando conta do material do outro [...] passava a noite, cada um vinha um dia [...] Olhando o material pra não chegar outro de fora e roubar [...]”. Dia e noite cuidavam, uns e outros, também do pedaço de chão. A sistemática de entrega da cota de material construtivo à cada família, pelo BMC, realizada simultaneamente em determinadas circunstâncias, propiciava relações de reciprocidades, mas, em regra, essa sistemática de entrega atuava como elemento dificultador da solidariedade. No primeiro caso, acontecia quando quem recebia o material tinha limites para transportá-lo para o seu lote, particularmente, situado nas partes elevadas. Exemplo disso eram as mulheres grávidas e as pessoas com algum problema de saúde no dia do recebimento de sua cota. Assim, os homens presentes ajuntavam-se a outros vizinhos e providenciavam o deslocamento do material do ponto de distribuição na área para o lote daquela pessoa, enquanto esta ficava na vigilância do material entregue pelo BMC. Em outras ocasiões, destacou Selma65 Bezerra (Engenheira do Buriti): “[...] recebiam o material do outro, tomavam conta dos equipamentos”. Dificultava a reciprocidade no segundo caso, o sistema operacional de distribuição das cotas de cada unidade habitacional e a ansiedade do morador em ter o material tanto para iniciar como para dar prosseguimento ou concluir sua moradia. Em um ponto, previamente determinado pela engenheira de campo, nas imediações das unidades a serem construídas ou em construção, os caminhões do BMC deixavam o material a ser distribuído, anotando-se as quantidades correspondentes a cada casa. A 64Entrevista 65Entrevista realizada em dezembro de 2004. realizada em setembro de 2004. 250 entrega do material fazia-se mediante as etapas construtivas previstas no cronograma. Esse procedimento requeria agilidade de cada família para receber a sua cota parte, por vezes existindo disputa. Isto porque a quantidade de material que chegava à área ocasionalmente não supria, no mesmo dia, a quantidade destinada à totalidade das unidades previstas, ficando assim o complemento para o dia seguinte. Ocorria, então, uma certa ansiedade da população para receber a cota do material que lhe era destinada. Por conseguinte, cada um teria que arcar rapidamente com a responsabilidade do transporte da sua parte. Como norma, “[...] cada um carregava o seu material” (Maria José Ferreira de Barros. Comissão de Ocupação. Entrevista em setembro de 2004). Muitas vezes, o pedreiro tornava-se com as famílias envolvidas, o responsável pela tarefa de deslocamento do material até o lote. A construção da unidade habitacional seguia um cronograma operacional que incluía: no primeiro momento, liberação do lote pela empresa responsável pelo Projeto de Urbanização, entrega do material de construção pelo BMC, orientação técnica de engenharia e social, em campo, e acompanhamento permanente. A sistemática adotada implicava um tempo médio de construção da unidade habitacional. Assim, sendo cumprido o cronograma socioinstitucional e de execução física do Projeto de Urbanização e a entrega do material de construção pelo BMC, a construção da moradia ocorria entre trinta a quarenta dias. Como frisou a engenheira do Buriti, Selma Bezerra (Entrevista realizada em setembro de 2004) “Quando havia a entrega de material adequada, boa. Eu acho que em 30 dias, um mês. Se o Banco de Materiais atendesse, com a chegada de um lote para 4066 casas”. Tornava-se imperativo a todos os atores envolvidos com a construção da moradia: a população, a Comissão de Ocupação, a COHAB, a equipe técnica, o BMC, e a Construtora responsável pelo Projeto de Urbanização sortear novos lotes, iniciar outras quadras, depois de liberadas pelo serviço de terraplenagem, e, assim, dar acesso à habitação às famílias que se encontravam na lista dos selecionados. Entrementes, a pressão exercida pela população não cessava. A produção da casa realizava-se simultaneamente para o grupo de famílias sorteadas. Havia pressa de cada família em iniciar a sua obra e realizá-la no menor espaço de tempo possível, o que garantia a supressão do pagamento do aluguel, a moradia em 66A programação de entrega do material de construção era prevista e realizada para um conjunto de 40 lotes sorteados. Para que o tempo indicado pela engenheira fosse cumprido, era imprescindível a entrega do material para cada unidade habitacional de acordo com o cronograma de obras. Esse cronograma em certas ocasiões alterava-se em face da aquisição do material aos fornecedores. 251 casa de familiares ou o habitar em situação de risco. O núcleo da família envolvia-se na tarefa construtiva, diretamente, atuando com ajudante permanente, administrando, acompanhando a construção, realizando tarefas pontuais nos fins de semana. Ou ainda, buscando o sustento familiar para assegurar sentido de tranqüilidade aos que estavam na linha de frente da produção habitacional. Além do mais, havia, em certos casos, o apoio direto na construção de pais, irmãos e sobrinhos. O conteúdo da autoconstrução, enraizado na concepção de financiamento, na remuneração da mão-de-obra e no modo operacional da produção da moradia, aliado à imagem viva da urgência dos moradores em concluir a sua moradia, explicam, até certo ponto, a ausência da reciprocidade na construção da unidade habitacional. Quer dizer, de certa forma, as possibilidades de reciprocidade eram minadas pela pressa na construção da própria casa. A presença da mulher A presença da mulher no processo de ocupação da terra e na autoconstrução da moradia foi determinante. A mulher enfrentou, intensivamente, os embates durante a ocupação, capinou o mato, demarcou o lote, reivindicou a moradia, participou das reuniões, assembléias e passeatas, transportou o material para o lote, assumiu grande parcela da gestão da construção da casa, auxiliou os pedreiros, servindo às vezes de “ajudante” em tarefas que exigissem menor esforço físico. Importante registrar que, no início da ocupação, muitos homens discordaram do envolvimento da sua companheira com a invasão, para evitar que tivessem problemas com a polícia, com os donos da terra e com o Estado. Além disso, deixavam passar a descrença no sentido de que a invasão tivesse um desdobramento concreto, resultando na real conquista do acesso à terra e à moradia. Meu marido não quis nem invadir. Ele disse logo que não ia invadir. Quem invadiu tudo foi eu (Maria do Carmo Rocha. Comissão de Ocupação e Moradora. Entrevista realizada em setembro de 2004). Meu esposo olhava para mim dizendo que eu não viesse. Eu queria uma casa. Eu digo: eu vou. Seja lá o que Deus quiser. Se tiver que apanhar, não é eu só. Vai ser muita gente. Eu vim (Dilma Maria Barros Antenor da Silva. Moradora. Entrevista realizada em outubro de 2004). 252 Quando mandaram me chamar para ir lá, não pensei duas vezes, sem o meu marido saber, sem nada (Maria José Ferreira de Barros. Comissão de Ocupação e moradora. Entrevista realizada em setembro de 2004). Acrescente-se que o homem, ao identificar-se, cultural e tradicionalmente, como o provedor da família e sentir-se, nas circunstâncias vividas, impotente para responder a tais requerimentos, desestimulava a ação de ocupação. Quando a ocupação estava em andamento, o homem encampou as iniciativas e juntou-se à luta e às formas de resistência – pernoitando no terreno ocupado, engrossando a pressão sobre o poder público para que este mediasse as negociações com os proprietários da terra recémocupada, participando das reuniões coletivas, em alguns casos desempenhando também a tarefa de “ajudante” nas horas disponíveis e nos fins de semana, em outros momentos executando atividades específicas como, por exemplo, a instalação da parte elétrica da casa. Ou ainda, quando pedreiros assumiam a construção da unidade habitacional. Todavia, aqui não há pretensão de afirmar que a ocupação e a construção da casa foram iniciativas exclusivas das mulheres. Isto seria falsear os acontecimentos. Mas pretende-se ressaltar a sua forte atuação. Fato supostamente relacionado ao sentido de proteção da família, ao lidar com a escassez do orçamento doméstico e a perspectiva de segurança permitida pela fuga do aluguel. Pode-se pensar que, no andamento do processo construtivo, havia uma espécie de “divisão familiar do trabalho”. A mulher realizava a gestão da obra, enquanto o homem se deslocava para o trabalho, quando empregado, ou saía em busca do sustento da família. Em não sendo, o homem, dotado de capacidade técnica para produzir sua casa, contratava o pedreiro. Dessa forma, a marcante participação da mulher reside no fato de o companheiro estar realizando algum tipo de trabalho ou na luta constante pela sobrevivência familiar. Como pode ser visto nos depoimentos colhidos nas entrevistas: Em alguns pontos, era muito a mulher porque, talvez, o homem tivesse o encargo de trabalhar, de ganhar o sustento e a mulher estava mais em casa. E, por sua vez tinha as mulheres que [...] tinha que estar na rua mesmo, trabalhando. [...] não podia estar presente, porque a gente não tinha o dia certo, não tinha horário para a entrega de material (Ignês Araújo. Entrevista realizada em setembro de 2004. Assistente Social do Buriti). Nesta fala, além da busca do sustento familiar pelo homem, a situação da mulher que assumia a condição de chefe da família, agregando a dupla responsabilidade de provedora e de gestora dos meios de acesso à moradia. 253 Compartilha dessa mesma linha de observação a entrevistada Maria José (Comissão de Ocupação e moradora. Entrevista realizada em setembro de 2004), agregando, ainda, outros elementos concernentes à situação vivida pela mulher e seu possível companheiro. Hoje, a gente tem, como antes, também a maior participação das mulheres, porque a maioria dos homens trabalhavam fora, outros eram acomodados mesmo, outros as mulheres só tinham uma convivência com os parceiros [...] não tinha aquela coisa de marido manter a casa, tomar conta dos filhos. Então a iniciativa maior foi das mulheres, mesmo para a construção da casa. O diálogo travado, quando da ocupação da terra, entre marido e mulher, recolhido da entrevista, aponta para a situação em que a mulher assume a iniciativa, mas é relatada a instalação da partilha com companheiro, como visto a seguir: Foi até a minha mulher que tomou essa atividade. [...] fui trabalhar aí quando cheguei de noite, aí minha mulher disse: olha João, eu invadi ali um terreno, eu e a vizinha. Aí a gente vai ficar [...] limpando mato, arrancar mato. Eu digo: não, ôxente! Tais conversando rapaz! se eu não tiver [...] e eu vou me socar a trabalhar de noite e arriscado um ladrão me pegar e matar [...]. Ela ficou com raiva de mim. Rapaz, aí eu digo olha a manhã eu faço seu pedido, mas hoje, nem venha que eu não vou não (João Gomes da Silva. Morador. Entrevista realizada em dezembro de 2004) Aflora das narrativas dos depoentes a iniciativa da ocupação, relatando-se ora a oportunidade da informação recebida, ora a força e disposição de enfrentar as situações que poderiam surgir diante do ato de ocupar a terra privada. Assume-se, assim, o desafio e os possíveis enfrentamentos, num ato vigoroso e deliberado. 4.3.1 O aprisionamento das oportunidades: autoconstrução financiada e a terra ocupada No Buriti, foram executados os Programas de Autoconstrução de Moradia e o Programa de Lotes Urbanizados67. Este último compreendeu o Projeto de Infra-estrutura e a definição dos lotes. Os recursos originaram-se da Caixa Econômica Federal-CEF. Tratava-se de duas propostas em separado, em termos de linha de financiamento e de 67O Programa de Lotes Urbanizados, no caso do Buriti, contou com um Projeto de Infra-estrutura que incluía terraplenagem, abastecimento d’água, drenagem, esgotamento sanitário, sistema de iluminação, contenção das encostas, pavimentação, escadaria. 254 encaminhamento operativo, muito embora em estreita relação. O Programa de Autoconstrução68 destinava-se ao Estado de Pernambuco e era, portanto, desatrelado da ação em uma área específica, sendo que sua operacionalização ocorria por meio de financiamento individual à família. O Projeto de Urbanização foi aprovado no ano de 1989, sendo os recursos liberados em outubro do mesmo ano. O território ocupado necessitava de tratamento para dar lugar à habitação, à autoconstrução de moradias. Tratava-se de um quinhão localizado em área de morro com altitude variando em até 100m. Antecipando-se à liberação dos recursos pelo órgão financiador e contando os serviços com recursos próprios, inicia o Governo do Estado a obra do Buriti. Quando o financiamento através da Caixa Econômica Federal foi aprovado, o conjunto das ações previstas no projeto foi acelerado. A terra de habitação Inóspito o chão ocupado. Declives acentuados formavam o desenho do território. Aclives íngremes propiciam à paisagem a fotografia do início dos trabalhos. Eram 42.95ha da Gleba 3, comprados pelo Estado de Pernambuco, e 11.10ha da Gleba 269, doados pelo Grupo Othon, a serem transformados em terra de habitação. Em dezessete de outubro de 1987, o Estado antecipa-se e, com recursos próprios, “algumas obras de corte de barreira, terraplenagem e contenção das pendentes, por plantação de grama e autoconstrução, foram iniciadas” (Breve Histórico da Área. Ignês Araújo, Assistente Social do Buriti, 03.06.1991, Mimeografado). No Buriti, o corte do morro alterou o ambiente natural, provocando a retirada de milhões de metros cúbicos de terra70, redesenhando os espaços, antes formados por 68O Programa de Autoconstrução, embora destinado ao Estado, teve sua ação fortemente concentrada na capital, em razão da forte pressão da demanda e da organização popular, e da amplitude das ocupações urbanas. 69A Gleba 2, doada ao Estado pelo Grupo Othon, no início da ocupação, era constituída por uma porção de elevada declividade, non aedificandi e por onde passava a rede de alta tensão da CELPE, tornando-a por isso área de domínio da Companhia, portanto, imprópria para uso habitacional na sua grande maioria. Por outro lado, servia de ponto de ligação com a Gleba 3. 70O material retirado dos morros do Buriti era deslocado para outras áreas inseridas no Programa Aterro. Esse Programa, na sua origem, tinha caráter emergencial, mas a sua dimensão foi ampliada, destinando-se à melhoria das condições de habitabilidade de localidade pobres já consolidadas. O material para aterro era solicitado pelas Associações de Moradores, Conselhos ou Comissões locais, sendo submetido à seleção técnica pela Cohab e ao acompanhamento e orientação na área, quando o pleito era atendido. Através do Programa Aterro, no período de dezembro de 1989 a março de 1991, foram distribuídos “[...] um total de 2.066.127m³ de material originário da jazida do Buriti”, atendendo a mais de 33 localidades, dentre as quais Roda de Fogo, Plano Cruzado de Novembro, Sítio Grande, Brasília Teimosa, Mustardinha/Mangueira, Chié, Ilha de Joaneiro, Santo Amaro, e outras tantas (PERNAMBUCO/Cohab, 1991, p. 22). O Programa Aterro, componente do Programa Chão e Teto, reafirmava 255 encostas com mais de 30% de inclinação. A terra removida, através de um intenso processo de terraplenagem, propiciava a criação de platôs, onde seriam assentadas as moradias, intercalados por faixas de taludes protegidos por vegetação. As obras, para viabilizar o acesso aos lotes, iniciadas com recursos do próprio Estado, deram-se de forma bastante limitada, em face da escassez dos recursos, segundo alega o poder público. O Projeto de Urbanização, em fase de elaboração, ainda não havia sido submetido à CEF, enquanto os recursos para a construção das moradias encontravam-se em processo de definição. Timidamente, os primeiros passos da ação em campo principiaram. Sustentava-se, essa ação em um projeto de urbanização, elaborado pela Gerência de Projetos e Planejamento da Diretoria71 de Programas Especiais da COHAB, com apoio técnico da Consultora Planor. Na concepção do projeto, o tratamento previsto para as íngremes encostas considerava o menor deslocamento de terra possível, atento ao desenho do ambiente natural. Com essa postura, foram projetados 1.866 lotes, um total inferior ao número de famílias que, após a sindicância e julgamento, atingiria aproximadamente 3.000, do universo de cerca de 4.700 cadastrados. Esse dado, somado ao tempo de espera da população pela concretização do seu pleito, já passados sete meses, concorria para intensificar a pressão exercida, continuamente, pela população cadastrada na ocupação do Buriti. O tempo dos trâmites burocráticos, do cumprimento das exigências de projeto, das normas jurídicas, da formalidade institucional diferia da premência por habitação da população pobre. Disso, duas falas retiradas das entrevistas são exemplares. Numa, sobressaem os embates travados entre governo e população, as idas e vindas e o papel mobilizador exercido pela Comissão. Na outra, emerge a busca da Comissão em se portar e se distinguir como movimento social, diferenciando-se do Governo, mesmo admitindo compartilhar da mesma linha político-ideológico. No desempenho do seu papel, não poderia, portanto, arrefecer a luta por moradia. [...] a gente fazia muita pressão e a gente não queria abrir mão e a Comissão várias vezes se reuniu. Gritavam na Igreja (local inicial das reuniões entre Comissão, população e governo). E teve várias confusões sérias mesmo na COHAB com Pedro Eurico que era Secretário, com a Dra. Paula Pedrosa e com a Comissão de Moradores. A gente tinha de movimentar o pessoal. Teve traços da ocupação do território recifense, desde a formação do sítio, ou seja, a utilização de sucessivos aterros em planos alagados ou alagáveis. 71A Diretoria de Programas Especiais-DPE foi criada no início da Gestão de Miguel Arraes (1987-1990), com atribuição de gerir os programas e ações destinados à faixa de renda de 0 a 3 salários mínimos. 256 muitos altos e baixos (Alcindo Alves Sobrinho. Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em março de 2005). E a gente enquanto Comissão mesmo que tivesse pelo Governo, pela forma como o Governo se relacionava com a gente, a gente não podia deixar de cobrar o papel deles. Então, a gente continuava cobrando enquanto Movimento Social. Então tinha momento que dava para esperar e a gente esperava, quando não dava mais e passava dos limites, a gente agia como todo Movimento Social em busca de resposta para resolver a questão (José Clementino de Oliveira. Coordenador Geral do Comando de Ocupação. Entrevista realizada em dezembro de 2004). Recorre-se a Chauí (1988, p. 12) para a compreensão da ação envidada pela Comissão de Ocupação e a população, pois: “Não é o cotidiano nem sua aparência reiterativa que fazem a novidade, mas o sentido novo que lhes emprestam seus agentes ao experimentarem suas ações como luta e resistência”. A COHAB72 inicia as obras do Buriti a partir dos trechos mais baixos e de declividades menos acentuadas. Direcionava-se o serviço de terraplenagem para assegurar a abertura e definição dos lotes para a produção de habitação. Era, na perspectiva de Selma Bezerra, engenheira do Buriti, “uma coisa artesanal’. Obedecia-se ao Projeto, realizando adequações em campo, o que implicava, por vezes, mudanças significativas. Sem recursos alocados e maquinaria apropriada para a dimensão da obra, os primeiros lotes foram disponibilizados em janeiro de 1988. O Projeto de Urbanização ou “[...] o projeto global de infra-estrutura, incluindo abastecimento d’água, drenagem, rede sanitária, contenção das encostas, pavimentação, escadaria, ainda não havia sido aprovado”. Isso significou, para as primeiras famílias contempladas com os lotes, um esforço redobrado para autoconstruir sua moradia. A ausência de rede d’água requeria a presença de caminhões pipa, da Companhia de Habitação, para dar suporte à produção das casas, particularmente para os trechos mais distantes da rede situada no entorno. Durante o inverno, o solo argiloso transformava-se em lama, dificultando o acesso e o deslocamento de material construtivo. A inexistência de saneamento requereu dos moradores a construção de fossas sépticas temporárias, ou seja, até a implantação da infra-estrutura. Com a intensidade das chuvas do mês de julho de 1989, a instabilidade do terreno, que já sinalizava com uma pequena abertura num trecho da encosta modificado, 72As obras iniciais do Projeto Buriti foram realizadas pela Diretoria Técnica da Cohab, utilizando o seu maquinário disponível. Afeita a uma atuação voltada para Conjuntos Habitacionais e a uma relação direta com as Construtoras, a equipe dessa Diretoria enfrentou certas dificuldades em lidar com a pressão tão próxima da população. Essa relação foi modificada com a entrada da DPE no Buriti. 257 agravara-se, deixando visível uma fissura. Como saldo, havia a possibilidade de deslizamento de terra, ameaçando as moradias autoconstruídas nas imediações do talude, “[...] o que levou a COHAB a remanejar, provisoriamente, 50 famílias ameaçadas, em barracas de madeirite afastadas da zona de risco” (Breve Histórico da Área. Ignês Araújo, 03.06.91. Mimeografado). Essa situação provocou desconfiança entre as famílias atingidas, já que atribuíam esse deslocamento a uma manobra da equipe técnica, visando repassar suas casas a outras famílias. Compreender a grave situação que os circundava não foi tarefa fácil. A resistência dessas famílias expressou-se de modo intenso, sendo acompanhada de grande insatisfação. Teriam de deixar as suas moradias, já concluídas, erguidas em alvenaria, e trocá-las por casas de madeirite. Temiam não retornar. Toda a conquista parecia descer encosta abaixo, levada pelas águas e o barro. Frente ao risco, essa era a alternativa apropriada. A participação da Comissão de Ocupação no trabalho de retirada das famílias, juntamente com a equipe técnica, foi decisiva. A Comissão exerceu o papel de mediadora na situação. Havia, fundamentalmente, a necessidade de preservar a vida das pessoas. Relato de Ignês Araújo, Assistente Social do Buriti, expressa o sentido deste momento: Sempre colocava para Comissão que ali era risco de vida [...] A Comissão foi de uma sutileza, de um companheirismo com a gente. Eles não podiam ir de encontro aos colegas, vizinhos, morador, mas foram excelentes [...] Abriu todo o espaço. Trabalhavam de madrugada, fizeram grupo juntaram a nossa equipe da COHAB, da Diretoria de Programas Especiais e fomos casa a casa pedir à população, esclarecer que precisava se retirar. Isso durou um bom tempo e, infelizmente, chegou o inverno aconteceram chuvas e mais chuvas, a fissura já tinha acontecido e se agravou com as chuvas, o inverno. Cessado o período chuvoso, 23 famílias retornaram às suas casas e as obras foram reiniciadas. Outras 27 famílias, que não puderam retornar ao local de origem de suas casas, foram assentadas noutro trecho e tiveram suas moradias reconstruídas pela Construtora Odebrecht, quando esta iniciou a execução do Projeto de Infra-estrutura. Essa reconstrução de casas pela Construtora deveu-se ao fato de esta ter sido uma situação criada pela própria instabilidade do terreno durante a execução da obra. Alongava-se o tempo da aprovação do Projeto de Infra-estrutura pela CEF, motivando muitas assembléias dos ocupantes do Buriti e cobranças ao Governo. Uma tomada de decisão, da população em assembléia, resultou em uma viagem a Brasília, em 03.05.1988, de cinco membros da Comissão para pressionar o Ministério da Habitação 258 pela aprovação do Projeto. Articulou-se essa delegação com representantes de Pernambuco. Os membros da Comissão tornaram-se hóspedes do Deputados Roberto Freire (PCB), contaram com o apoio do Deputado Fernando Lira (PSB), e acionaram o então Deputado Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que agendou a audiência com o Ministro Prisco Viana. A esse Ministro foi entregue um abaixo assinado com mais de 4000 assinaturas, em apoio ao projeto já enviado ao Ministério. Diferentes contatos foram mantidos em Brasília. Ampliava, assim, a Comissão o seu poder de pressão. Lutavam por direitos e exigiam do Estado o que entendiam corresponder às suas obrigações: permitir o acesso à habitação da população pobre. Foto 27: Drenagem Fonte: Acervo Engenheiro Maurício Albert, 1990. Foto 28: Pavimentação Fonte: Acervo Engenheiro Maurício Albert, 1990. Foto 26: Escadaria. Fonte: Acervo Engenheiro Maurício Albert, 1990. Foto 29: Pavimentação Fonte: Acervo Engenheiro Maurício Albert, 1990. Antes da aprovação do Projeto de Infra-estrutura, a COHAB, utilizando recursos do Governo do Estado, havia disponibilizado até maio de 1989, 566 lotes para 259 autoconstrução. Deste universo, 400 tiveram concluído a moradia autoconstruída e em 166 a autoconstrução encontrava-se em andamento. A rapidez na entrega dos lotes só ocorreria com a aprovação do Projeto de Infra-estrutura pela CEF e a liberação dos recursos, em outubro de 1989. A Construtora Norberto Odebrecht, vencedora da concorrência, assume a obra de infra-estrutura do Buriti. Simultaneamente, um novo Projeto de Urbanização foi contratado à ASTEP S.A. Engenheiros Consultores. Esse projeto utilizava uma concepção diferente do anterior, que era mais adaptada ao formato natural do terreno. O novo projeto introduzia patamares mais largos e menos inclinados alternados por faixas de taludes, acompanhando as curvas de nível, onde ficariam assentadas as moradias, e também definia ruas paralelas. A concepção adotada gerava uma maior movimentação de terra, profundos cortes e arrasamento dos morros. Porém, nova instabilidade no terreno reconfigurado surgiu em janeiro de 1990. Várias casas autoconstruídas, localizadas no platô três, apresentaram rachaduras73, enquanto outra fissura ocorria no terreno, resultando, dias após, em deslizamento. A obra foi então paralisada, no aguardo da definição de uma solução técnica. O diagnóstico emitido pelos engenheiros da COHAB, como informa Selma Bezerra, engenheira do Buriti, coincide com o elaborado pelo Professor Jaime74 Gusmão, através da sua Consultoria de Engenharia, contratada para analisar as causas dos deslizamentos e indicar soluções, considerando a questão do risco de desmoronamento dos morros e das casas construídas. Nesse estudo, as recomendações técnicas incluíam o alargamento dos platôs e redução do número desses platôs, diminuição da declividade dos taludes, maior remoção de terras, reforço e aprofundamento na fundação das casas. As soluções previstas tiveram como conseqüência redução do número de lotes, atingindo, então, 1.620. Ao final do Projeto75 de Infra-estrutura, o total de lotes foi de 1. 528. Definição desse tipo gerava focos de tensão com a população, em face do retardamento do acesso à moradia e por impor exclusão de um maior número de selecionados. Além disso, ficou 73As rachaduras foram motivadas pela instabilidade do terreno e pela presença de argila expansiva. O solo expansivo incha com a chuva e seca com a estiagem. Essa última questão não havia sido comunicada a DPE, de acordo com informações coletadas do documento: Breve Histórico da Área. Ignês Araújo. Assistente Social do Buriti. 03.06.1991. Mimeografado. 74O Professor Jaime Gusmão (Professor da UFPE) era um estudioso das questões referentes a acidentes geoambientais, particularizando a RMR e o Recife. Foi Presidente da URB-Recife entre 1986-1989 e, em 1993, publicou o primeiro Mapa de Risco Geoambiental do Recife. 75Em março de 1991, os valores utilizados no Projeto de Infra-estrutura do Buriti e a extensão da obra realizada correspondia ao seguinte: “Valor do Projeto – Recursos: 4.499.416VRFs; Fonte: CEF; Estágio atual de execução: Aterro 118.395.00m³; contenção de encostas/plantio de grama 86.129m³, retaludamento de corte 1.151.600m²; Pavimentação 7.888m², Drenagem 3.010m; Abastecimento d’água 4.76m; Esgotamento sanitário 2.764m e eletricidade (PERNAMBUCO/COHAB, 1991). 260 decidido que, a partir de então, as moradias implantadas nos novos platôs teriam suas bases executadas pela Construtora, medida que intencionara reduzir os riscos de rachadura. Os fatos relacionados à instabilidade do terreno e seus desdobramentos instigaram uma ação estratégica da Comissão de Moradores. Pretendia cercar-se do maior número de informações técnicas possíveis para sustentar seus argumentos e encaminhamentos junto à população, de modo a suprimir as possibilidades de interpretações distorcidas e de dúvidas. Destacam-se, ainda, os arranjos institucionais dos governos progressistas estadual e municipal76 na relação com o movimento popular sujeito a novas contradições a partir desse momento. Diz José Clementino de Oliveira (Coordenador Geral da Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em dezembro de 2004): Uma das questões maiores é que foi muito confuso pra gente, porque, com o Governo novo que chegou, a gente também tinha muita esperança, pois era um governo de esquerda, foi que na verdade muita gente do Movimento Popular foi cooptada pelo Governo. E foi um período que havia muita confusão entre o que era Governo e o que era Movimento Popular. Porque muita gente foi chamada para assumir cargos e funções no Governo Estadual. Em parte foi bom porque eram pessoas que eram pessoas sérias que estavam preocupados em fazer uma coisa legal e, por outro lado, foi ruim porque a distância entre o que era ação governamental e o que era movimento popular ficou muito confusa. Então, o Movimento Popular passou muito tempo sem reivindicar coisas. Então, quando a gente fazia isso, que pra gente tinha momentos de confusões, mas tinha momentos que a gente sabia que essa era a função da gente, então era interessante porque parceiros nossos dos Movimentos Sociais, de ONGs às vezes criticava a gente, pelo que a gente estava fazendo. Só que a gente tinha consciência que estava fazendo o papel de Movimento Social. Não era porque a gente acreditava no Governo que a gente ia deixar ao Deus dará. Porque muitas das questões se a gente não tivesse corrido atrás, não tivesse em cima, não tivesse inclusive apanhando e ajudando o Governo a realizar, não teria realizado muita coisa. Esse foi um período muito confuso pra gente nesse sentido. A seqüência da fala torna-se expressiva da ação estratégica articulada naquela ocasião As providencias estratégicas geraram ferrenhos debates entre Governo e Comissão. Entretanto, a Comissão deu andamento às suas decisões demonstrando firmeza e sustentando seus argumentos. Quanto às providências definidas, prossegue o depoente entrevistado: 76A prática de contratação de pessoas oriundas do movimento popular tornou-se corriqueira nas duas esferas de governo durante as gestões progressistas. Fato que ocorria pela própria reivindicação do movimento popular para assegurar os caminhos institucionais de cumprimento dos compromissos assumidos pelos governantes e para os governantes, como alternativa no exercício do diálogo mais próximo com a realidade da população. 261 [...] teve um período que depois que as pessoas estavam assentadas na parte de baixo e na parte de cima houve uma rachadura na terra e aí o Governo do Estado disse que a gente tinha que sair. Aliás, em cima não tinha casa ainda não, eles estavam ajeitando a parte de cima. [...] E pra esse povo sair da casa pra ir pra um espaço para poder ajeitar lá em cima e não correr nenhum perigo. O Governo veio dizendo que tinha que sair. E a população não queria sair com medo de perder, demorou tanto e agora com medo de perder a casa. [...] Nesse período77, a Prefeitura do Recife já era de um Governo oposição, Governo municipal era oposição ao Governo estadual e aí a gente se deu conta disso. Para que a população tivesse clareza. O pessoal do governo estadual ficou com muita raiva da gente, a gente chamou, mesmo sabendo que o Governo municipal era um bando de [...], mais foi a grande luz da gente. A gente disse: vamos chamar o Governo municipal, porque como o Governo municipal é contra ao Governo estadual, se ele disser que o pessoal deve ficar, eles vão assumir a responsabilidade, se ali tiver perigo eles vão dizer que o pessoal não deve ficar, que eles não são doidos. Foi quando a gente chamou, eles foram lá pra fazer uma avaliação. O pessoal da COHAB ficou [...] Disse que a gente não confiava. Eu fiz ver a eles que a gente estava fazendo papel da gente de movimento social, o que era até bom para o Governo porque se eles dizem que não. São duas falas. Eles estavam com medo que a gente contasse pra comunidade. Eu disse: gente, a gente vai ouvir o Governo municipal que vocês sabem que o Governo municipal é uma ação política diferente do Governo estadual, eles são oposição, então se eles disserem que corre perigo é porque corre. Porque eles não são doidos, se eles são contra eles vão querer, se não tem perigo, vão dizer não tem perigo não... Foi quando a população escutou, o Governo municipal, e aí decidiu a saída. Eles fizeram uma estrutura, mas só saíram depois que foi feita uma estrutura de casa com madeirite, numa outra área lá próximo onde seria feita uma praça e a população ficou lá até que ajeitassem em cima e eles receberam as casas de volta. Eles colocaram guardas pra tomar conta, o próprio governo, aí a gente disse tudo o que a gente queria – casa, que seja colocada uma vigilância, pelo governo, pra tomar conta das casas para que ninguém invada. Alicerçado no rigor das normas técnicas, o Projeto Buriti, em face dos limites do terreno pela declividade existente, definiu e delimitou os espaços de preservação, de proteção das encostas e de segurança, na busca de antecipar-se aos riscos de desmoronamento dos morros. Mas não absorveu, assim, a prática da população de ocupação contínua dos morros, por assim dizer, em quase toda a sua extensão, como ocorreu nos morros da Zona Norte do Recife, a exemplo de Casa Amarela, Morro da Conceição, Nova Descoberta e na RMR, como nas cidades de Camaragibe, de Olinda, Abreu e Lima, ou, ainda, até mesmo nas sobras dos terrenos, áreas verdes oriundas dos conjuntos habitacionais erguidos pela COHAB, nos morros da Zona Sul da cidade, no bairro do Ibura. 77Joaquim Francisco Cavalcanti, do PFL, assume a Prefeitura do Recife, em 1990, para o período de gestão até 1993. Não cumpre o período por afastar-se para concorrer ao Governo do Estado em 1991, sendo eleito. 262 Foto 30: Taludes Fonte: Acervo Engenheiro Maurício Albert, 1990. Foto 31: Bolo de Noiva Fonte: Acervo Assistente Social Ignês Araújo, 1990. Foto 32: Autoconstrução Fonte: Acervo Assistente Social Ignês Araújo, 1990. Foto 33: Autoconstrução Fonte: Acervo Assistente Social Ignês Araújo, 1990. Por conseguinte, a população, premida pela problemática habitacional e a necessidade de moradia, vem ocupando sucessivamente todo e qualquer pedaço de chão, desmontando a estrutura urbana implantada, e estabelecendo um outro desenho. Paulatinamente, as nesgas de terra foram sendo tomadas por habitações sem que houvesse uma ação político-institicional que acionasse as formas de controle urbanístico. Foram criados, assim, diferentes pontos de risco, tolhendo, por vezes, a passagem do ramal do esgotamento sanitário, do sistema de drenagem, e substituindo o verde dos taludes por edificações em locais inadequados. Além disso, as técnicas construtivas de habitação, empregadas nas áreas planas pelos diversos atores - população, poder público, planejadores urbanos - foram transportadas para a ocupação do Buriti. Na planície alagada aterrava-se e alteava-se o solo, nos morros recortavam-se e aplanavam-se os topos e encostas, sendo que as moradias obedecem ao mesmo desenho arquitetônico implantado nos terrenos planos. 263 Essa sistemática pode traduzir-se, ao longo do tempo, em severas conseqüências para a população e para os investimentos públicos (PERNAMBUCO/DEPLANDES/FIDEM, 2001). De outro ângulo, Bitoun (1999), ao discutir “A intervenção no Espaço Urbano: memória e identidade”, procura mostrar o contraste, no caso do Buriti, do padrão construtivo da engenharia e da arquitetura. Ou seja, enquanto o projeto de engenharia é sofisticado, seguindo a topografia acidentada do morro e instituindo platôs escalonados na forma de pirâmide, os projetos de arquitetura não apresentaram novidades. Esses projetos deixam ao largo o conforto ambiental e a paisagem, em especial quando as unidades habitacionais são voltadas para o poente, com aberturas reduzidas e situadas entre os patamares limitados pela encosta, o que significa negar bela paisagem que se descortina do alto. No final do projeto, haviam sido entregues 1.528 lotes “[...] com as seguintes especificações: 356 lotes correspondem à Fundação Embrião e conquanto 1.172 correspondem à Fundação Completa, dois quartos, desses 80 aguardam o financiamento do material de construção” (Relatório Final da Área: Buriti. Ignês Araújo. Assistente Social do Buriti. Mimeografado). O sorteio dos lotes O sorteio como modalidade de dar acesso aos lotes fundamentava-se no princípio da democratização das ações do Estado. Além do mais, o número de lotes era inferior ao número de selecionados. A insuficiência de lotes, relacionada ao tipo da terra ocupada, encontra-se expressa abaixo: [...] a área do Buriti é uma área limitada. Fisicamente ela não comportava os mais de 4000 cadastrados. [...] em termos de engenharia, tecnicamente falando, não existia espaço físico, seguro [...] para essas famílias. [...] iria sobrar. Mais da metade. [...] ainda tinha uma rede de Alta Tensão da CELPE [...] se perdia uma fatia considerável da terra [...] (Selma Bezerra. Entrevista realizada em setembro de 2004. Engenheira de Campo). Cercado de uma enorme expectativa, o sorteio feito em assembléia, no Buriti, incluía o nome de todos os selecionados ainda não sorteados. O Governo assumia a tarefa com a participação da Comissão de Ocupação. Narra Ignês Araújo, Assistente Social da 264 área: “[...] chuva, aberto, muita gente em cima de um tamborete, com criança. Passavam o dia trabalhando, depois do dia de trabalho iam apelar para a sorte. Então, quando a gente chamava era coisa, assim, de louco [...]”. E acrescenta, “No dia seguinte, após o sorteio, a gente tinha que atender os 100 sorteados, mais as insatisfações”. Todavia, mesmo se munindo de muitos cuidados através da sindicância e do julgamento, algumas pessoas conseguiram burlar o processo, existindo casos em que foi sorteado um ocupante que tinha moradia e não pagava aluguel, resultando, às vezes, na venda do seu lote. Essas informações chegavam aos responsáveis pelo sorteio, no dia seguinte, sendo repassadas por aqueles que não haviam sido incluídos naquele momento. Essas informações propiciavam maior rigor na fiscalização. Cabe ressaltar que apenas o primeiro grupo de lotes não foi submetido ao sorteio, sendo selecionado pelas Comissões Paritárias, considerando as condições de penúria enfrentadas por determinadas famílias. O sorteio realizava-se após a liberação dos lotes pelo serviço de terraplenagem. Esse procedimento obedecia a um cronograma de obras previamente estabelecido. Seguia-se a assinatura do Termo de Compromisso, pelo sorteado, que ficava, a partir daí, responsável pela guarda e ocupação do lote e do Termo de Responsabilidade. Segundo este Termo, caso fosse construído um primeiro andar, o proprietário tornava-se responsável pelas conseqüências, e era advertido da impossibilidade de fazê-lo dada a condição do terreno argiloso. Acompanhava essa documentação uma planta das casas embrião e padrão. A assinatura do contrato individual ocorria na COHAB. A partir daí, principiava a fase de operação construtiva. A moradia autoconstruída De acordo com Maricato (1979, p. 71), os termos autoconstrução, mutirão, auto-ajuda, ajuda-mútua dizem respeito a processos de trabalho utilizados pela classe trabalhadora tanto no meio urbano como no rural “[...] calcado na cooperação entre as pessoas, troca de favores, nos compromissos familiares, diferenciando-se, portanto, das relações capitalistas de compra e venda da força de trabalho”. Alguns estudiosos da moradia autoconstruída admitem que o conceito incorpora o trabalho realizado coletivamente. Nessa perspectiva, a autoconstrução traduz o processo de construção da casa realizado pelos moradores, podendo contar para tanto 265 com a contribuição de familiares, amigos e vizinhos ou, ainda, com profissionais da construção, que podem ser remunerados. Na acepção desses estudiosos, a autoconstrução apresenta expressiva relevância tanto quantitativa como qualitativa nas grandes cidades dos países capitalistas dependentes, por duas razões: a fragilidade ou ausência de políticas públicas dirigidas à população pobre; e o fato de essa população situar-se fora do mercado imobiliário. Dessa feita, resta a esse segmento popular encontrar alternativas para a sua carência através da autoconstrução. A autoconstrução aqui estudada tem um conteúdo diferente. Desenvolveu-se como política pública e nessa modalidade dispôs de uma estrutura gerencial do Estado, através do órgão executor – COHAB, do financiamento do material de construção associado ao da mão-de-obra, e incorporou a gestão operacional da produção da moradia realizada por cada família. Essa modalidade de autoconstrução não agregou e não se desenvolveu mediante os processos tradicionalmente analisados pelos estudiosos supracitados. Quer dizer, o processo operativo da autoconstrução foi familiar, mais especificamente da mulher ou de seu marido, em alguns casos envolveu os pais, um irmão, ou, ainda, um sobrinho, que assumiam a gestão da obra em substituição ao titular. Além disto, a contratação de um pedreiro predominou em todo o projeto do Buriti. Desta forma, a relação estabelecida entre os ocupantes não se constituiu em uma ação coletiva de cooperação e de troca. Ao contrário, a ação desenvolvida era individual-familiar. A população pleiteava a moradia. A modalidade construtiva, no entanto, não estava definida neste pleito. Isto porque o processo reivindicatório sucedia-se, como releva Ademaro Romão dos Santos (Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em dezembro de 2004), movido pela necessidade, em acordo com as possibilidades, e a ressonância do pleito junto ao Estado. Como expressa o entrevistado: “A gente foi reivindicando a necessidade da gente mesmo. Era o lote, queria a autoconstrução porque não tinha condições de construir”. Todavia, recupera-se dessa fala a possibilidade do assumir a construção da moradia na expressão “queria a autoconstrução”. O que sabia a população e argumentava era a ausência de condições financeiras, a insuficiência de recursos para construir a sua moradia e a necessidade de ter uma casa e não um barraco, o que significava casa improvisada. Falas extraídas dos depoimentos mostram a dimensão da questão, a situação de pobreza e a emergência da proposta de autoconstrução quando dizia Maria José Ferreira de Barros (Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em setembro de 2004) “[...] a gente não tinha condições 266 de fazer com as nossas posses. O dinheiro não dava”, e como acrescentou Maria Carmo Rocha (Comissão de Ocupação e moradora. Entrevista realizada em setembro de 2004). “Para nós era melhor ficar com uma casa do que com um barraco”. A negação do barraco já se fazia presente quando da ocupação da terra, expressa na concordância em retirar-se do lugar para que o espaço tivesse o traçado das ruas definido, “organizado para não ficar um favelódromo78”. Em relação às condições de moradia, a referência à favela é reveladora das pretensões da população: queria condições de habitação, queria a moradia, queria material para a construção da casa, como explica o entrevistado José Clementino de Oliveira (Coordenador Geral da Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em dezembro de 2004). Mas a fala exprime a diferenciação social materializada nas condições de moradia, de ocupação do lugar, do direito à habitação e à cidade. Da perspectiva desse olhar, justificava-se o querer da autoconstrução: “A razão era simples. [...] a gente não queria construir favelas. Mas essa questão foi uma reivindicação da população, porque! E, se bem, de qualquer forma casava um pouco, porque havia, também, por parte do governo uma preocupação disso”. Fica indicado no depoimento um ponto de proximidade entre a proposta da população e as intenções do governo, sinalizando para os caminhos do diálogo. Para o entrevistado acima, a autoconstrução propiciaria algumas vantagens, conforme declarou: A grande vantagem [...] da pessoa construir é [...] ter, cada vez mais, a certeza de construir um espaço seu. O nível de auto-estima é muito forte [...] as construções foram mais rápidas do que se fosse feito por uma empresa [...] Depois as pessoas que estavam construindo estavam lá vendo como era seu espaço [...] ela estava também construindo de acordo com, claro que tinha um padrão, mas de acordo com a sua vontade com a sua alegria de poder estar lá. Então, nesse ponto foi muito bom nesse sentido. Recolhe-se do depoimento acima a valorização do tempo da autoconstrução comparativamente ao tempo utilizado “se fosse feito por uma empresa”, mas também a questão do “nível de auto-estima”, do elevar-se em face “a certeza de construir um espaço seu”, e a “alegria de poder estar lá”, de conquistar o que se atribui ser seu de direito. E, por essa vereda, perpassa o sentimento de desobrigar-se do aluguel, de vigiar a barreira ocupada em situação de risco, particularmente no período chuvoso, ou ainda da situação de coabitação. 78A expressão “favelódromo” é uma franca alusão ao “camelódromo” espaço construído na 2ª gestão do Prefeito Jarbas Vasconcelos (1994-1997), no Recife, no Bairro de São José, para concentrar, de forma organizada, os camelôs que ocupavam os bairros centrais da cidade. 267 Distingue-se de modo veraz a disponibilidade da população em assumir a feitura da moradia, vista e expressa em outras falas, desse trabalho, como obrigação do Estado. Supostamente pela premência vivenciada, essa disponibilidade é incluída na possibilidade da partilha, com o Estado, da produção da habitação, particularmente no processo da construção. De outro ângulo, a autoconstrução significava a redução do valor pago pela moradia. De certa forma, a população absorvia o processo de produção e reprodução social como parte naturalizada nas relações com o Estado. A concepção do projeto padrão para a unidade habitacional definido pela COHAB, executora da Política Habitacional do Estado, como assinala O Diretor79 de Programas Especiais “[...] partia, basicamente, de uma equação econômica80”. Nessa equação, considerava-se o limite do empréstimo associado ao valor da prestação para essa faixa de renda. Com a padronização do modelo da unidade habitacional, prossegue o depoente, “[...] padronizávamos em material e ganhávamos em economia de escala de compra. [...] E a partir desse modelo unificado a população fazia os seus acréscimos e ajustes que entendessem mais adequadas as suas possibilidades”. Entregue o material construtivo pelo Banco de Materiais de Construção-BMC, como visto anteriormente, principiavam a gestão construtiva da unidade, a sua execução. Todo o processo construtivo atrelava-se a um cronograma institucional de entrega de material, orientação e acompanhamento técnico social da obra, fiscalização pela CEF, e liberação das parcelas, em três etapas de acordo com o estágio de construção. (assunto discutido no item 3.4.2 do Capítulo 3). Quase como regra, o pedreiro contratado executava a obra. Cabe destacar que em muitas famílias havia esse profissional, a quem era delegada a tarefa, recebendo por seu trabalho. Quando o próprio morador era pedreiro, assumia a responsabilidade pela feitura da casa. As atividades complementares eram da competência da família, sobressaindo o papel da mulher em todo o processo de gestão e trabalho na obra, como informa Dilma Maria Barros Antenor da Silva (Moradora. Entrevista realizada em outubro de 2004). “Eu carregava material e passava o dia todo na construção”. Iniciada a autoconstrução da casa padrão, do tipo embrião, algumas famílias introduziram de imediato certos ajustes, associados à disponibilidade de estreitas economias familiares, trabalho extra ou, ainda, quando um membro da família estava 79Carlos Magno Cisneyro Sampaio – Diretor de Programas Especiais-DPE da Cohab-PE (1987-1990) (Entrevista em março de 2005). 80O limite de financiamento era de até 240 VRF’s para a autoconstrução, sendo que parte desse valor, 54 VRF’s, poderia ser destinada para a mão-de-obra. As prestações mensais tinham um prazo de até 25 anos, correspondendo a um percentual sobre o salário mínimo vigente, atingindo no máximo 10% sobre este salário. 268 empregado. Aspectos que podem se percebidos no depoimento de Carmélia Maria da Silva (Moradora. Entrevista realizada em dezembro de 2004) “[...] e uns tiveram um pouquinho de posse, acrescentaram mais no material. O meu mesmo foi mais acrescentado. [...] a COHAB deu o material, deu o dinheiro dos trabalhadores também [...] Também tinha um pouquinho de posse, a gente botou um trabalhador por fora também”. No entanto, essa não era uma prática freqüente. A maioria das famílias produzia sua casa utilizando apenas um pedreiro, cujo valor da mão-de-obra era repassado associado ao material de construção. Havia aqueles que exerciam o papel de ajudante de pedreiro, auxiliando e realizando as tarefas complementares ao processo produtivo. Foto 34: Primeira casa autoconstruída no Buriti. Foto: Acervo de Jacinta Nascimento Silva, 1988. Muitas famílias investiram todo o material na construção do embrião, como ainda declara Maria Jose Ferreira de Barros (Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em setembro de 2004), “Fiz embrião e demorei. Deixei o espaço pra fazer [...] Mas, investi o material todo no embrião”. O desdobramento da autoconstrução, a construção do segundo quarto, de outros cômodos, os acréscimos, os acabamentos ocorreriam ao longo dos acontecimentos vividos que possibilitariam a melhoria da habitação. A construção do segundo quarto foi incorporada pela população, logo no início, pela seguinte razão: atendiam melhor a família; pelo fato de a planta da casa já projetar este cômodo; por um determinado número de lotes ter sido entregue com alicerces da casa para dois quartos, como visto no item anterior; a quantidade de tijolos distribuída para a casa ser suficiente para a construção deste cômodo. Dessa forma, as famílias passaram a utilizar-se de táticas operativas no processo construtivo, para obter de imediato o segundo quarto, observe-se a fala de Maria José Ferreira de Barros (Comissão 269 de Ocupação. Entrevista realizada em setembro de 2004), ao descrever o movimento tático: O tijolo dava para dois quartos, mas a COHAB só liberava um quarto. Os primeiros só fizeram com um quarto. Depois do 2° sorteio em diante, o pessoal já começou a fazer com dois quartos. Era quando o material começava a faltar. A ripa, por sinal, tinha que ter 20 cm de uma para a outra, eles colocaram de 40cm que era pra passar pro outro. Muito material no começo, não dava, não era suficiente. Só o que dava era as telhas pra cobrir todo e o tijolo. O restante não dava. O cimento não dava, a areia não dava. A brita dava pra fazer alicerce, o cinturão e o resto não dava. A gente queria fazer porque queria, mas não dava com dois quartos. Aí começou a faltar material da seguinte maneira: se ele entregava 36 caibros para o embrião e um quarto, ele enlanguescia mais e colocava o cimento. Foto 35: Acompanhamento das ações do Projeto – Comissão de Ocupação. Fonte: Acervo de Maria José Ferreira de Barros, 1989. Para a casa projetada, não havia previsão de material de acabamento. O piso era de cimento e o reboco interno seria uma alternativa a ser assumida por cada grupo familiar, de acordo com suas posses. Essa realidade estendia-se aos casos em que a família havia optado por construir de imediato o segundo quarto. Precisava complementar o material por suas próprias custas. Todavia, o complemento tornava-se uma parte bastante reduzida, em relação ao custo total em face das táticas operativas adotadas, e ao se considerar a produção de toda a casa. Essa prática, a autoconstrução de uma moradia maior e mais apropriada às necessidades da família, teve como conseqüências determinadas insatisfações, uma vez que, alguns moradores, no desejo de ter sua casa ampliada, interpretavam que o BMC não 270 estava entregando o material contratado. Estas questões foram discutidas e clarificadas pela equipe técnica e pelos membros da Comissão de Ocupação envolvidos com o acompanhamento e distribuição do material das casas. Por outro lado, havia queixa da população de desaparecimento de material. Essa última questão instigava, ainda mais, o sistema de vigilância adotado pelas famílias em relação ao seu material e à sua casa. No horário da noite, impunha-se a necessidade de permanência no local da construção. Uma solução adotada, face desse problema, era o sistema de rodízio entre os futuros vizinhos. Essa sistemática ocorria mais no início da obra, pois tão logo a casa estava coberta registrava-se, com maior constância, a presença da família no local. Chama-se a atenção para a luta empreendida durante o processo construtivo, em especial antes de iniciados o Projeto de Infra-estrutura e as instalações dos serviços básicos. A vigilância noturna implicava permanência em locais isolados; a construção das casas, quando a rede d’água não estava instalada, contando-se apenas com a distribuição feita por caminhões pipa da Companhia de Habitação, para os casos distantes da rede distribuidora da redondeza; para as mais próximas, o suprimento da água era realizado pela própria população. Durante o inverno, o solo virava lama, tornando o deslocamento mais lento e dificultoso; as crianças, pequenas muitas vezes, tinham que permanecer na obra por falta de quem as assumisse durante o horário em que a mãe estava envolvida na construção da casa. Dessa perspectiva, a sobrecarga para a mulher era multiplicada. E a entrega do material pelo BMC, em certos momentos, era descompassada do estágio da construção. Muitas vezes, essa situação relacionava-se à entrega do material ao Banco pelos fornecedores. Depoimento resgatado das entrevistas demonstra as questões enfrentadas: O Buriti foi um assentamento, uma área que a população ainda não morava, então eles vinham de Casa Amarela, do Morro da Conceição. E, muitas vezes havia o problema de atraso de material, de um determinado material, por exemplo, vinha o fornecimento em massa de tijolo, e, por outro motivo, problema de fornecedores em relação ao Banco de Material, por exemplo, a areia. Ninguém constrói nada sem areia, então muita gente botava cimento. Eles ficavam com aquele material estocado, só que eles não podiam se afastar da área porque tinha que tomar conta do material. Realmente gerava um pouco de desgaste em relação à gente e ao Banco de Materiais. [...] Quando eu digo que eu posso considerar que o Buriti foi uma área privilegiada, em termos materiais, por ser um grande projeto. Havia, realmente, uma atenção especial, era uma área muito grande, nos momentos de greve dos funcionários da COHAB, a gente funcionava. Tudo que era material das outras áreas que estavam em greve jogava para o Buriti. Era o grande momento. Era uma luta. Inclusive eu usando mais todo o material. O Banco, por sua vez, não conseguia atender aquela demanda toda (Selma Bezerra. Engenheira do Buriti). 271 Registra-se, também, no Projeto Buriti, entrega de lotes, embora em menor quantidade, sem o financiamento81 do material para a autoconstrução82. Esse fato deveuse ao término dos recursos contratados para todo o Programa de Autoconstrução e Melhoria da Habitação, no período do referido Governo Arraes e a ausência de renovação desse tipo de financiamento pela CEF. Para essas famílias, o processo autoconstrutivo tornou-se mais custoso e demorado, retardando inclusive o acesso ao lote. Algumas famílias, nessa situação, disseram ter autoconstruído seu embrião ao longo de um ano e com muita dificuldade, outras ergueram a sala, cozinha e banheiro, no sentido de ocupar o espaço, fazendo, posteriormente, a construção dos quartos e outras melhorias. A sistemática de acompanhamento técnico, fiscalização da autoconstrução e liberação da mão-de-obra atinha-se ao ritmo da construção e ao cumprimento da entrega do material. Mais uma vez recorre-se, neste momento, a Selma Bezerra, Engenheira do Buriti: Exemplo: o pedreiro estava lá, supõe que pagaram ao pedreiro e não mandou embora. A telha atrasou por causa do Rio Grande do Norte. Eu via que era uma coisa independente. Até porque a mão-de-obra, a vistoria era uma feita na 2ª feira para o dinheiro sair na 6ª. Então, você via o pedreiro trabalhando, levantou a alvenaria, pela prática, na 6ª, aquela alvenaria estaria ali, com tudo coberto. A gente já liberava porque sabia. Fazia uma última rodada, se não estivesse na 5ª feira na altura da liberação, se dizia que ia estender. No decurso do Projeto Buriti, muitos pedreiros passaram a ter presença constante na atividade autoconstrutiva. Isso era facilitado pela sistemática de liberação dos lotes por grupos, em momentos diferentes. A recorrência do pedreiro na produção da casa permitia aos técnicos identificar aqueles que trabalhavam de modo apropriado na construção da casa e, ao mesmo tempo, propiciava à família escolher o profissional83 que respondesse adequadamente aos requerimentos da autoconstrução de sua moradia. Cabe 81Procurou-se levantar, junto ao Banco de Material de Construção-BMC, o total de financiamento para autoconstrução durante todo o Projeto, mas infelizmente alguns anos atrás houve um problema de vazamento de água no prédio durante o inverno e o material danificado foi para o lixo (Informação prestada pela funcionária do BMC, em março de 2005). 82Na área do projeto, há habitações autoconstruídas sem financiamento público, em duas situações: no primeiro caso, encerraram-se os recursos do Programa Autoconstrução contratados pelo Governo do Estado junto à CEF. Durante o Governo do Presidente da República Fernando Collor de Mello, (1990-1992) não houve renovação de financiamento. Para os casos das habitações sem financiamento, a Cohab, órgão executor do Projeto Buriti, entregou os últimos lotes com o alicerce da casa, a instalação sanitária e o ponto d’água, ficando a autoconstrução da casa às expensas da família. No segundo caso, diz respeito às habitações decorrentes de sucessivas ocupações registradas em áreas de barreira, extensão de quintais, áreas verdes e/ou subdivisões dos lotes, pelo próprio morador, para familiares ou destinadas à venda. 83A escolha do pedreiro era de inteira responsabilidade da família contratante. 272 registrar que o valor correspondente à mão-de-obra era calculado em VRFs, incidindo sobre esse valor uma correção trimestral, fato vinculado ao sistema monetário vigente no país, naquele período. Tal sistemática de correção criava impasses quando, pela mesma tarefa, por questão de dias, um pedreiro recebia valores mais elevados do que outro. Foto 36: Alicerce da autoconstrução Fonte: Acervo Engenheira Selma Arteiro, 1989. Foto 37: Alvenaria da autoconstrução Fonte: Acervo Engenheira Selma Arteiro, 1989. A Comissão de Ocupação, passo a passo, mantinha-se presente no processo de autoconstrução no Buriti, acompanhando, requerendo, pressionando e cooperando. Mas, ao mesmo tempo, conseguia distinguir-se do governo. O compromisso que havia assumido junto à população instigava-a à constância da luta. A intensidade da presença nos trabalhos do projeto impedia os seus membros de ocuparem-se com o trabalho para o seu sustento. Avaliada, essa realidade resultou na decisão e proposição pelo conjunto da Comissão de Ocupação foi de que ela: [...] indicasse um grupo de pessoas que eram geralmente moradores, ocupantes do espaço, para que fizesse uma Comissão local e essa Comissão que ajudasse os representantes do Governo a poder ajudar nesse processo de distribuição. Que fosse dada uma bolsa a essas pessoas. E foi dado uma bolsa a essas pessoas para que elas pudessem ficar mais tempo [...] porque a maioria das pessoas era biscateiros. Então, tinham que sair para vender pipoca, vender o que fosse e fazer os bicos pra sobreviver. Então, foi um grupo, se não me engano eram dez pessoas, que essas pessoas ficaram dando apoio ao Governo, fizeram um pequeno contrato, uma pequena bolsa para poder, esse pessoal, ajudar a distribuir, a controlar a distribuição de material, a ver as necessidades. Então, começou dessa forma. E fazer junto com o governo (José Clementino de Oliveira. Coordenador Geral da Comissão de Ocupação do Buriti. Entrevista realizada em dezembro de 2004). A participação efetiva de representante da Comissão de Ocupação na linha direta de trabalho compreendia diferentes interpretações: a maior proximidade permitia o acompanhamento e fiscalização da ação governamental; facilitava o acompanhamento sistemático do acesso ao lote e à moradia das famílias sorteadas de acordo com os 273 critérios estabelecidos e de fato necessitadas; garantir o recebimento e entrega do material de construção à população, verificando o cumprimento do cronograma e munindo-se de elementos para pressionar a agilização do processo. Para a equipe técnica do Buriti, essa presença significava que podia, efetivamente, contar com representantes comprometidos com a intervenção e o empenho no cumprimento do cronograma. Importa acrescentar que, da ótica tanto dos membros da Comissão como da Equipe Técnica, a postura adotada por ambos e pela Companhia de Habitação permitiu que a Comissão se mantivesse, no decurso de todo o processo, na posição de representante da população. 4.3.2 Autoconstrução: conquista ou outorga? A interpretação dos depoimentos dos entrevistados fornece, por vezes, a idéia de uma relação biunívoca entre conquista e outorga relativa à autoconstrução de moradia financiada pelo Estado. O sentido da conquista remete à busca para granjear, vencer, adquirir, ganhar. A outorga aponta para consentimento, concessão, aprovação, beneplácito, permissão, mas também se refere a dar poderes, tornar viável, possibilitar, dar por direito, garantir (HOUAISS, 2001). Dessa forma, identifica-se, no discurso dos depoentes, constituídos pelo grupo de gestores e formado pela população, leituras que se aproximam. Autoconstrução representou conquista ou outorga à população? Havia a conquista da população, porque o povo queria ter o direito à moradia e, havia, também, a outorga do Estado porque [...] estávamos produzindo uma situação revolucionária, era um Estado reformista, não populista, mas reformista. [...] o Estado também tinha que ter uma presença forte para mostrar a sua política, mostrar [...] que o Estado era capaz de fazer uma habitação barata junto com a população e que o Estado popular [...] tinha esta preocupação que estava voltado pra esse tipo de ação (Secretário84 de Habitação). Aflora da fala do gestor uma concepção de Estado centrada na perspectiva de um Estado Reformista, nem populista nem transformador, um Estado popular. Visto desse ângulo, constituía-se em um Estado presente, que se ateve ao desencadear de “uma 84Pedro Eurico de Barros Silva. Entrevista realizada em dezembro de 2004. 274 prática revolucionária”, distanciada das práticas que lhes antecederam, quando rompeu com a lógica do assistencialismo, do autoritarismo barato e da troca de favores. Assim, os programas, incluindo o de autoconstrução, foram formulados para os segmentos mais pobres na perspectiva do direito, respondendo a reivindicações que, no Recife, crivaram secularmente muitas lutas e embates. Ressalta o gestor, em sua fala, que a sustentação da ação pública de habitação, naquele momento, encontrava seus pilares no engajamento coletivo da população, distanciando-se da ação individual de atendimento isolado a cada família. Por conseguinte, ao considerar o engajamento da população nas lutas pela moradia, através das associações e conselhos de moradores como um ponto de partida a ser respeitado e absorvido, a intervenção pública estimularia o movimento organizado, criando possibilidades e garantindo direitos. Dessa forma, corresponderia também à conquista da população. A interpretação da Diretora85 de Planejamento põe em destaque um caminho formado de idas e vindas que, ao final, se encontravam, “[...] houve uma troca [...] um caminho de mão dupla”. Nesse caso, a população exerce sobre o Estado o poder de pressão, encontrando nele rebatimento positivo de seus requerimentos. Na visão da Presidente86 da COHAB, o feito da população é atribuído à reversão da Política Habitacional do Estado dirigida, naquela gestão, à faixa de renda de até três salários mínimos. Essa Política tinha rebatimentos nos reclames do segmento então atendido, assim representou “[...] uma conquista da população, porque até então, a oferta da habitação se dava através da produção de Conjuntos Habitacionais”. E uma oferta excluída do universo de possibilidades desse segmento. Apreende-se, da fala seguinte, uma interpretação da pressão social por moradia, situada no conjunto dos fatos e das relações vivenciadas pelo governo do Estado, de forma articulada à conjuntura da sociedade nacional: um período ainda situado nos rescaldos da ditadura, eleição do último presidente através do colégio eleitoral e eleição de governadores. Nesse contexto, inseria-se o Governador Arraes com um largo histórico de compromissos junto à população. As lutas populares por moradia teriam sido respeitadas e encaminhadas na busca de respostas condizentes. Nessa linha de raciocínio, aquele momento de luta por habitação e de resposta do Estado entranhava-se em um 85Maria Ângela de Almeida Souza, Diretora de Planejamento da SEHAB entre 1987-1990, em 1991, com a modificação da estrutura institucional para Secretaria de Infra-Estrutura ocupou a Diretoria de Habitação (Entrevista realizada em dezembro de 2004). 86Paula Mendonça, Chefe de Gabinete – Secretária Adjunta da Habitação 87/88 e Diretora-Presidente da Cohab no período de 08.01.1989 a 15.01.1991. Entrevista em dezembro de 2004. 275 contexto mais amplo das lutas democráticas envidadas pela sociedade. Dessa forma o depoente entende que: Não havia ali uma outorga do Estado. Eu acho que a reconquista da democracia e a reconquista do povo brasileiro. Mas, aos poucos, a elite foi se amoldando a essa nova forma de administrar e foi reconquistando o aparelho do Estado. Aquela conquista ocorrida, naquele momento, e naquele momento foi efetivamente conquistado, aos poucos, foi sendo solapada (Diretor87 de Programas Especiais). Há um duplo movimento vivenciado pela população, concretizando-se entre a outorga e a conquista. Na análise dos depoimentos abaixo, a ação do governo, em relação à moradia autoconstruída, mesmo que em determinados momentos deixe passar a idéia de personificação da conquista na figura do governante, é apreendida como parte integrante das suas atribuições, como gestor do Estado, ao responder a um direito da população. Retomam, essas interpretações a relação de confiança, a ausculta do governante aos pleitos da população. Todavia, subliminar e implicitamente, fica expressa uma postura de conquista da população, quando a narrativa deixa perpassar o sentido da luta. Para mim não é uma questão que ele (Miguel Arraes) deu a casa [...] comprou o terreno, deu a moradia. No meu entendimento [...] a obrigação do Governo é dar casa, saúde e educação. É o mínimo que ele pode fazer. Agora, só que, tem uns que não faz (Ademaro Romão dos Santos. Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em dezembro de 2004). A gente acredita que é papel do governo dar condições das pessoas terem moradias o que na verdade o que a ocupação fez foi dar uma razão social à terra, que era dever do Estado e não nosso, a gente achava também que era o governo do Estado que devia fazer isso (José Clementino de Oliveira. Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em dezembro de 2004). A conquista da moradia, objetivo atingido com muita energia empenhada, “muita briga”, “na luta, com esforço”, no dizer dos entrevistados, corresponde à conjugação de esforços estendidos ao longo dos acontecimentos. Hoje estamos vendo o resultado da nossa briga e da nossa vitória aqui, que é essas casas que os moradores permanecem aí nesse setor (Alcindo Alves Sobrinho. Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em março de 2005). 87Carlos Magno Cisneyro Sampaio – Diretor de Programas Especiais-DPE da Cohab-PE (1987-1990). (Entrevista em março de 2005). 276 O que eu quero dizer a moradia digna como nós temos na luta, com esforço, a gente conseguiu (Severina Barbosa da Silva. Moradora. Entrevista realizada em outubro de 2005). Mesmo quando usado o termo “deu”, conduzindo de certa forma a uma visão paternalista, esta expressão não parece corresponder à doação, nem tão pouco submissão. Aproxima-se do reconhecimento, pelo Estado, do direito da população pobre em ter acesso à moradia e à cidade. Além do que, em uma sociedade com absoluta predominância das relações monetárias, fica ressaltada a contrapartida da população ao pagar a parte que lhe correspondia. Foi bom o que Arraes fez entre nós, assim deu a maior força pra gente, que a gente não tinha condições de fazer uma casa e ele deu o material e depois negociou. Depois a gente pagou uma parte (Crisneide Dionísio de Aguiar. Moradora. Entrevista realizada em outubro de 2005). Do ângulo dos entrevistados, independente do seu lugar social, o acesso à moradia, por meio da autoconstrução financiada, naquele momento, decorreu de um embate e de formas compartilhadas de trabalho entre população e governo, pautadas no respeito aos processos organizativos dos segmentos populares. 4.4 O TEMPO DESNUDO: O TEMPO DA AUTOCONSTRUÇÃO Diz Elias (1998, p. 7) “[...] o tempo não se deixa ver, tocar, ouvir, saborear nem respirar como um odor. [...] como se pode medir uma coisa que não se pode perceber pelos sentidos?” O autor88, analisando as concepções sobre o tempo do ponto de vista filosófico, do ângulo da ciência física, da sociologia, e, ainda, o modo de apreensão do tempo pelas sociedades menos e mais avançadas, assinala que “A sucessão irreversível dos anos representa, à maneira simbólica, a seqüência irreversível dos acontecimentos, tanto naturais quanto sociais, e serve de meio de orientação dentro de grande continuidade móvel, natural e social” (ELIAS, op. cit., p. 10). A percepção sucessiva dos eventos registrados no tempo permite que o homem guarde na memória acontecimentos passados, construindo mentalmente imagens 88Para Elias (op. cit., p. 12), a datação do tempo não se deixa conceber a partir de uma representação que divida o mundo em sujeito e objeto: “Ela repousa, simultaneamente, em processos físicos não importando que sejam moldados pelos homens ou independente deles e em observações capazes de abarcar, de reunir numa síntese conceitual aquilo que se apresenta numa sucessão, e não como um conjunto” 277 associadas a acontecimentos mais recentes, ou em curso. Ou seja, a percepção do tempo requer um olhar à distância, tornando os seres humanos “[...] capazes de elaborar uma imagem mental em que eventos sucessivos [...] estejam presente em conjunto”, sem necessariamente serem simultâneos (ELIAS, op. cit., p. 33). Assim, “[...] as posições e as seqüências de acontecimentos que ocorrem no fluxo ininterrupto do devir se sucedem e não se deixam justapor nem comparar diretamente”, mas servem de referência para o homem determinar o tempo. A expressão tempo remete a uma relação, prossegue Elias (op. cit., p.13), “[...] de posição ou segmento pertencentes a duas ou mais seqüências de acontecimentos em evolução contínua”. O ser humano, dotado de poder de síntese, pode acionar a memória de modo estruturado por intermédio de sua experiência. O aprisionamento de suas experiências, repassadas através de gerações e ampliadas progressivamente, concede-lhe orientações ao longo da vida, deixadas como heranças a outras gerações. Esse senso de orientação apóiase na concepção do tempo. Para o autor, o tempo é, sobretudo, um símbolo social, fruto de um extenso processo de aprendizagem. Santos (1997, p. 115) trata do tempo na sua relação com o espaço. Incorpora a concepção dos eventos, considerando-os “[...] simultaneamente, a matriz do tempo e do espaço”. E, em sendo o mundo um conjunto de possibilidades, o evento seria “[...] o veículo de uma dessas possibilidades existentes no mundo”. Assim, “[...] são os eventos que criam o tempo, como portadores da ação presente”. Olhando-se o evento em relação ao passado, verifica-se a retenção de uma partícula do tempo. Se em direção ao futuro, trata-se de uma conjectura em relação ao acontecer. Os eventos seguem a dinâmica da história. São sempre novos não se repetem. Neste sentido, os eventos “[...] mudam as coisas, transformam os objetos, dando-lhes, ali mesmo onde estão, novas características” (SANTOS, 1997, p. 115). Isto porque se constituem como ação, idéias e fatos. Fornecem certos elementos “[...] no tempo e no espaço, de um dado que nele renova um modo de fazer, de organizar ou de entender a realidade” (SANTOS, op. cit., p. 118). O tempo se faz empírico através da conexão realizada pelos eventos com os objetos. Esses eventos, materiais ou não, ocorrem e movem-se de diferentes formas, assumindo valorizações diversas em lugares distintos. Nessa perspectiva, “Em cada lugar, o tempo das diversas ações e dos diversos atores e a maneira como utilizam o tempo social não são os mesmos” (SANTOS, op. cit., p. 126). Quer dizer, não há nenhum 278 espaço em que o uso do tempo ocorra da mesma forma, seja por homens, empresas e instituições. Ainda segundo Santos (op. cit., p. 127), “[...] o tempo como sucessão é abstrato e o tempo como simultaneidade é o tempo concreto, já que é o tempo da vida de todos”. Na realidade, o concreto é espaço, pois é ele que “[...] reúne a todos, com suas múltiplas possibilidades, que são possibilidades diferentes de uso do espaço (do território) relacionadas com possibilidades diferentes de uso do tempo”. Pode-se pensar, assim, que, para o autor, o tempo ganha sentido na sua relação com o espaço, com a territorialização das ações. Entre os dois autores, observam-se pontos de confluência quando falam do tempo em relação aos acontecimentos, e do tempo na relação com os eventos registrados no espaço-tempo. Desta forma, resguardam os autores a planos secundários o relógio como símbolo contemporâneo de marcação do tempo. Os acontecimentos passados e associados àqueles mais atuais concedem ao ser humano a percepção do tempo, como nos ensina Elias (1998). Ou como apresenta Santos (1997), os eventos, os acontecimentos ocorrem e movem-se em diferentes lugares no espaço, permitindo o uso de tempos diferentes. À luz das discussões sobre o tempo, realizadas pelos dois autores, discute-se o tempo da autoconstrução financiada, no Buriti, sob o ângulo da ação institucional, alargando essa discussão, com o desdobramento do processo autoconstrutivo desenvolvido pela população, ao ampliar ou modificar sua moradia, no curso dos acontecimentos cotidianos e de forma desvinculada do financiamento público. Em resumo, dessa perspectiva, aborda-se a autoconstrução desencadeada, no Buriti, financiada pelo Estado, que decorreu da pressão social. Trata-se da tensão entre um cronograma físico-administrativo-financeiro de gestão e a autoconstrução realizada às expensas da própria população. A busca da sincronia no tempo institucional A autoconstrução efetivada pelos moradores do Buriti, com o financiamento público, inseria-se em um cronograma institucional. A dinâmica da ação requeria o cumprimento de uma sistemática de trabalho pressionada pelo número de pessoas selecionadas e aptas a participarem do sorteio, exigindo constantemente agilidade. Essa 279 agilidade rebatia na liberação dos lotes para a construção das casas que, ao serem disponibilizados para a obra, pelo serviço de terraplenagem do projeto de urbanização, não poderiam permanecer sem uso, em razão da possibilidade de invasão pelos não sorteados e em face dos desgastes físicos que poderiam sofrer decorrente de fatores naturais. Outros elementos integravam a sistemática de trabalho atrelada ao tempo: o BMC, responsável pela distribuição da cota de material de construção, para cada habitação, necessitava responder ao volume de material destinado às moradias do Buriti, de acordo com o cronograma estabelecido, devendo-se considerar, no entanto, o seu raio de ação selecionado ao atendimento simultâneo a outras localidades, através dos Programas e Projetos tanto no Recife como na RMR; os recursos e o Projeto de Urbanização vinculavam-se ao cronograma de desembolso do órgão financiador, que, por sua vez, interagia com o Programa de Autoconstrução. Havia um conjunto de fatores ou de eventos técnico-financeiros e operacionais que deveriam acontecer de modo orquestrado, para assegurar o andamento apropriado da autoconstrução de moradias e, dessa forma, responder às demandas da população. O atraso no atendimento de um desses fatores implicava retardo dos demais. Todavia, a dimensão do Projeto Buriti e a sua localização em área de morro incorporavam, ao desenvolvimento da obra, os eventos naturais, como: o inverno, com chuvas mais ou menos intensas, interferindo no movimento de terra que dava origem aos espaços para a moradia; o comportamento do solo, constituído por sedimentos arenoargilosos do tipo barreira, de altitudes variadas de até 100m (MELO, 1978; PCR, 2000). Por conseguinte, o cronograma associava-se à necessidade de regular o tempo dos eventos e garantir a autoconstrução, que, por sua vez, atrelava-se à sistemática adotada pelo órgão executor e à administração dos recursos por cada família e da capacidade do profissional contratado para construir a moradia. Nessas circunstâncias, o tempo contabilizado pelos moradores para fazer sua casa pode ser acompanhado nos depoimentos abaixo: Foi em um mês. Em quatro semanas ele, (o pedreiro) deu (a casa) pronta. O resto a gente fez depois quando podia. [...] comprando o material devagarzinho, devagarzinho. Aí fez o reboco (Aldo Alexandre da Silva. Morador. Entrevista realizada em setembro de 2005). Não menos do que dois meses. [...] Consegui um pedreiro bom. [...] me entregou a casa rápido (Severina Barbosa da Silva. Moradora. Entrevista realizada em outubro de 2005). 280 Três meses. Dependia muito do pedreiro e da entrega do material. Às vezes faltava material, e o pedreiro era ágil, também (Alcindo Alves Sobrinho. Comissão de Ocupação e morador. Entrevista realizada em março de 2005). Dentre os moradores entrevistados, alguns alegaram não lembrar o tempo utilizado na produção da casa. Simultaneamente, afirmaram não ter sido muito demorado. Enquanto alguns comentaram a rapidez do processo, outros falaram sobre demora, porém sem determinar a sua duração. Interessante observar que a contagem do tempo da autoconstrução para os depoentes inicia-se com a entrega do material, ou seja, em nenhum momento houve citação dos acontecimentos antecedentes, que viabilizaram a produção da unidade habitacional. Por conseguinte, principiar a construção significa a porta de entrada do acesso à moradia. Da entrega do material, em acordo com cronograma de distribuição, dependia a agilidade da construção. Além do mais, importava que essa entrega correspondesse a todos os itens daquela etapa construtiva. Caso contrário, a obra mantinha-se em ritmo mais lento ou era interrompida. A fala apresentada a seguir é exemplar do desenrolar da ação: Demorou muito. Não foi fácil não, porque são muitas casa. Vem, dá material a um e a outro. Às vez demora o material, tava faltando, se dava [...] tijolo pra mim, faltava brita pra outro, se dava brita pra mim, faltava tijolo pra outro, aí ficava muito [...] você tinha que ta em cima, como fosse invadir pra pegar o material (Crisneide Dionísio de Aguiar. Moradora. Entrevista realizada em dezembro de 2004). O recebimento do material para a construção da moradia dos membros da Comissão de Ocupação era mais complexo, gerando, em conseqüência, retardo na construção das unidades habitacionais dos seus membros. Isso porque, como assinalaram os depoentes, eles tinham outras atribuições, em conjunto com a equipe técnica de campo, tais como: fazer o registro do material recebido por cada família na hora da entrega, verificando, inclusive, a ausência de algum item. Este procedimento demandava atenção e tempo. Dessa forma, tornava-se mais lento o recebimento da sua cota. Ilustram essa observação as palavras da entrevistada: “A minha casa mais ou menos quatro meses. Fiz embrião e demorei. Deixei o espaço pra fazer. Mas investi o material tudo no embrião” (Maria José Ferreira de Barros. Comissão de Ocupação e moradora. Entrevista realizada em setembro de 2004). A elevada ansiedade da população de garantir de imediato a sua cota parte de material construtivo provocava, em certas ocasiões, a retirada do material de construção dos próprios caminhões do BMC, sem aguardar que os responsáveis o fizessem. Noutras 281 ocasiões, o material era colocado nas proximidades para conferência e, só depois, transportado para os lotes. A produtividade do profissional da construção, como interveniente no tempo da autoconstrução, era freqüentemente citado pelos depoentes. Somada a sua capacidade técnica, havia o interesse em receber o pagamento pelo trabalho, fato incentivador da agilidade, o que acontecia mediante o cumprimento da etapa construtiva confirmada pela engenheira, seguindo-se, então, a autorização para liberar o valor da mão-de-obra. Cabe, todavia, assinalar que o tempo da autoconstrução incorporava a participação da família e a sua capacidade de gestão, atuando algumas com maior rapidez nas tarefas complementares ou, ainda, como ajudante do pedreiro. A gestão da autoconstrução pela família, era bastante diversificada: trabalhava no recebimento e transporte da cota de seu material para o lote; tomava providências necessárias à execução da obra; realizava trabalhos pontuais no final de semana, a exemplo da parte elétrica, dentre outras atividades. Acrescente-se que, como já referido pela engenheira de campo Selma Bezerra, quando o material era entregue em um ritmo satisfatório pelo BMC, sem faltar nenhum item, sendo o pedreiro ágil, a autoconstrução da casa concluía-se entre trinta a quarenta dias. Observa-se que o tempo da autoconstrução financiada, na modalidade adotada na área, integrava-se aos diversos acontecimentos do processo de produção institucional e ao conjunto de variáveis envolvidas no universo do Projeto Buriti. O tempo da ampliação da moradia autoconstruída Freqüentemente, a associação ao tempo utilizado para a construção da casa refere-se a fases do ciclo da vida: a exemplo de: “quando eu me aposentei”, “estava trabalhando”, “meu marido trabalhava”, “saiu do emprego”. Isso indica que os homens lançam mão de fatos ou de processos sociais socialmente produzidos para assimilar os acontecimentos vividos, relacionando-os de modo seqüenciado e estabelecendo a ponte entre o passado e o presente. As táticas operativas utilizadas para a aquisição do material destinado à ampliação da moradia revelam o desdobramento da ação que perdura na cotidianidade, num movimento contínuo e paciente. Revelam, por vezes, o sacrifício e condições de 282 sobrevivência, com a extração da própria escassez de possibilidades de melhoria das condições da habitação, como mostra a entrevistada: “Aos pouquinhos, tirando da feira. Um pouquinho aqui, um pouquinho ali. Diminuindo o pão. E como na época eu trabalhava, ganhava um trocadinho, eu fui ajudando a ele (ao marido) e fizemos o resto. Comprava no armazém e pagava a prestação” (Carmélia Maria da Silva. Moradora. Entrevista realizada em outubro de 2004). Noutras ocasiões, as táticas refletem as articulações utilizadas para a aquisição do material frente à impossibilidade de estabelecer uma relação direta com o mercado, em decorrência de sua própria situação de trabalho. Nesse caso, A prestação, no armazém, no cartão da minha prima ou no cheque sempre de terceiros, porque eu não tinha condições de comprar. [...] conversei com ela e fui comprando. Comprava, guardava. Quando estava com o material todo guardado e pago, começava a construir. Demorei, demorei. Estou com 16 anos que estou aqui e com 3 anos que fiz. 13 anos. Agora antes disso eu fiz os quartos. Mas terminei de botar cerâmica, grades, portas faz 3 anos (Maria José Ferreira de Barros. Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em setembro de 2004). A melhoria das condições habitacionais acontece, ainda, em face do desemprego de um membro da família. Assim, ao receber os direitos, quando dispensado do trabalho, este membro investia no acréscimo da casa, no acabamento, em elementos que assegurassem mais conforto à família. Ou seja, a exclusão do mercado de trabalho, contraditoriamente, criava mecanismos que permitiam a melhoria da habitação, propiciando um sentimento de segurança e a utilização apropriada dos recursos disponíveis. No terreno dos acontecimentos vividos, é expressivo o momento da aposentadoria, como bem dito pela depoente: Eu fui modificando, depois eu fiz meu terraço na frente, fiz a cozinha. Veio a minha aposentadoria. [...] Com o dinheirinho que recebi da aposentadoria botei laje, ajeitei. Tá meu sonho realizado. [...] faz 6 anos que eu me aposentei. Faz 6 anos que ela está assim. [...] A primeira foi a cozinha [...] parei porque trabalhando, pra toda manutenção da casa e dos filhos. Então, eu não podia fazer nada nela. Eu vim fazer depois que me aposentei. Vim fazer um terraço, murei. [...] Coloquei a laje. Tudo isso depois de me aposentar (Severina Barbosa da Silva. Moradora. Entrevista em outubro de 2004). Nesse ritmo, foi progressivamente o morador do Buriti criando uma outra feição para a sua habitação assegurando a forma e o tamanho mais apropriado à sua família, às condições de habitabilidade. Uma luta que, por um lado, parece não cessar e, 283 por outro, expressa o reconhecimento da conquista familiar quando destaca “Hoje, ela está boa”, ou ao mencionar “Pronto”, aparentemente chegou-se a um bom termo. Foi depois de mais de 5 anos que eu fui aumentando. Foi fazendo aos pouquinhos. Meu terreno é de 8.50 por 18m, 8 de fundos. [...] Aproveitei o terreno todo e fiz todo de casa (Carmélia Maria da Silva. Moradora. Entrevista realizada em outubro de 2004). Fiz reboco, terraço, levantei mais três fileiras, ela (a casa) tinha que ter 11 fileiras com tijolo de 30x30 cm. O tijolo que a COHAB dava era esse. Então, eu coloquei mais 3 fileiras. Na minha opinião era baixa. Fiz mais dois quartos. [...] Depois de um tempo, mais uns anos, eu fiz o terraço e a cozinha. [...] Eu fiz uma cozinha, porque o meu terreno era 15 x 7,50 ou 8. Eu puxei mais dois metros na cozinha. Hoje, ela está boa. Coloquei grade, troquei as portas (Maria José Ferreira de Barros. Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em setembro de 2004). Logo não. Passou um tempinho, porque eu tinha que ir comprando devagarzinho. O salário do meu marido era pouquinho. Foi comprando e guardando. Depois eu mandei fazer. [...] Fiz agora há pouco. Fiz mais um quarto, puxei mais uma área. Somente. Um terraço também. Mais um quarto para meu menino. Agora tem 3 quartos. Agora tem o das meninas e dos meninos. Fiz uma área de serviço. Pronto. E o muro (Dilma Maria Barros Antenor SIlva. Moradora. Entrevista em outubro de 2004). [...] Fiz o muro. [...] Só está faltando o portão e o reboco da casa. [...] A casa tem dois quartos, a sala, cozinha e o banheiro (Agrinalda Germana da Luz. Moradora. Entrevista em outubro de 2004). Observou-se, desta maneira, que a autoconstrução progressiva, a partir da unidade original, gerou outros processos materializados na subdivisão do terreno. A subdivisão foi adotada como alternativa para abrigar os membros da família que constituíram novas famílias. A divisão do terreno, facilmente constatada no Buriti, restabelece o sistema de coabitação no espaço do lote. Em regra, reafirma a progressividade do acesso à habitação por intermédio da autoconstrução e aponta para a pressão por novas habitações. Fui comprando o material, tijolo...eu comprava assim, pagava a dinheiro mesmo. [...] Que eu tava trabalhando numa firma aqui. [...] É mais ou menos uns [...] dois anos mais ou menos uns dois a três anos. [...] Ela tinha um quarto só, era um quarto, essa cozinha, era um quarto, um banheiro e uma salazinha. [...] a minha mesmo eu fui aumentando, comprando tijolo devagarzinho aí, aumentei a minha família, era grande mesmo. Aí eu fiz dois quartos, aí depois [...] eu fiz [...] depois de muito tempo eu aumentei mais. Essa casa aqui tem três quartos, aí, essa filha minha tinha se casado aí eu conversei com a minha mulher eu digo olha vamos conversar, vamos perguntar se ela quer morar aqui, se ela quiser morar aqui a gente tem esse terreno na frente a gente faz um barraco pra ela, aí graças a Deus ela disse que queria e pronto, fizemos essa 284 casinha e até hoje mora com a gente aqui (João Gomes da Silva. Morador. Entrevista realizada em dezembro de 2004). Transformei minha casa de uma, em quatro. Porque meus filhos foram casando, tudo ganhando um salário mínimo. Eu para não ver eles pagando aluguel de casa fui dividindo.[...] Em dez anos. [...] O material fui comprando aos poucos (Maria do Carmo Rocha. Comissão de Ocupação e Moradora. Entrevista realizada em setembro de 2004). Aqui, o tempo parece se cruzar e se confundir no curso dos acontecimentos. Contrapondo-se aos processos que registram ampliações e alterações nas moradias reveladoras, dos traços de ascensão social ou de melhorias nas condições materiais de vida, contrastam com outras habitações que permaneceram no estágio original, com pouca ou nenhuma modificação. Nesses casos, não houve prosseguimento do processo autoconstrutivo. O acesso à moradia pela autoconstrução financiada também desvela uma outra face da moeda, assinalada pela permanência no patamar inicial da unidade habitacional. Ou seja, as condições materiais e os acontecimentos vividos apontam para uma relação tempo e espaço assentada na escassez de recursos, retendo a concretização dos projetos individuais e familiares. Hoje a casa tá do mesmo jeito ainda. Tem que puxar a cozinha pra lá. (em direção à encosta). Mas agente está sem condições. O banheiro está sem porta estragou pelo uso e falta dinheiro para substituir (Wilson Ferreira de Lima. Morador. Entrevista realizada em dezembro de 2004). Nunca levou um conserto, esse mocambo (Maria da Silva. Moradora. Entrevista realizada em outubro de 2004). Essa é uma realidade também desvelada através das portas da moradia, um item freqüentemente substituído pelos moradores do Buriti. Noutros casos, em que não ocorrem modificações, a explicação surge quase em tom de justificativa: “Não tinha condições de mudar. Botei esse telhado, porque não tinha condições de fazer um terraço melhor” (Aldo Alexandre da Silva. Morador. Entrevista realizada em março de 2005). Essa realidade deixa perpassar para esses moradores um certo sentimento de impotência, de paralisia familiar e pessoal. Entretanto, reflete e indica o quadro mais acentuado de pobreza que afeta parcela expressiva da população recifense e que se encontra retratado no Buriti. Demonstra, também, a existência, no interior da área, de situações sociais diferenciadas, que se tornam mais visíveis com as construções 285 verticalizadas, as ampliadas e as melhoradas. Essa diversidade encontra-se distribuída por todo o espaço do Projeto, predominando nas ruas de melhor acesso. Mostram as entrevistas que os moradores alegam que o financiamento público da autoconstrução foi indispensável para evitar a construção de “barraco”, uma vez que não dispunham, no momento da ocupação, de condições para construir uma habitação. Vista dessa perspectiva, a autoconstrução financiada foi o ponto de partida para a população dispor de uma moradia melhorada no curso do tempo. No caso daquelas moradias que permaneceram na planta inicial, seus moradores tiveram assegurada a liberação do aluguel, que dificultava significativamente o alcance de condições de sobrevivência. Mas, por outro lado, o acesso à habitação não modificou a reprodução social da família, ou seja, continuam prevalecendo as formas ditadas pela sociedade capitalista, em seus rebatimentos socioespaciais. No tempo atual Diferentes fotografias, hoje, podem ser captadas das moradias no Buriti. Permanências e alterações no padrão inicial da habitação autoconstruída compõem a paisagem. Novos desenhos arquitetônicos são incorporados ao ambiente construído, ajuntando-se ao preexistente. Traçados variados do desenho popular das habitações, assim dito pela ausência de orientações técnicas dos profissionais da arquitetura, conformam a diversidade. Essa dinâmica autoconstrutiva aponta para a intensidade e a constância com a qual a população de baixa renda produz ou melhora sua moradia, mas também manifesta os limites e as impossibilidades de fazê-lo. As “sobras” dos terrenos são progressivamente cortadas e ocupadas, cedendo lugar a novas moradias autoconstruídas. Essa dinâmica traduz a sistemática ocupação dos morros no solo recifense, movida pela pressão da população, pela ação do poder público e pela ação dos proprietários dessas terras, desde as primeiras décadas do século passado. O Diagnóstico Ambiental, Urbanístico e Social nos Morros da Região Metropolitana do Recife (PERNAMBUCO/DEPLANDES/FIFEM, 2001) chama a atenção para um ponto em comum na ocupação dos morros na RMR e no Recife, seja da forma espontânea, ou seja da forma planejada, ao desvelar uma transposição para essas áreas, de técnicas empregadas nas partes planas, sem prévia adequação técnica do desenho 286 ao ambiente natural e, com isso, produzindo risco na ocupação do território de habitação (ALHEIROS, 1998; GUSMÃO FILHO, 1995; SILVA, E. A. B. 2001). O processo de acolhimento da população nos morros resultou, nos anos recentes, “[...] numa área de 33km² de encostas ocupadas correspondendo à metade da área de morros e 15% da área do município segundo Gusmão Filho (1995, p. 18), e uma população estimada em 787.396 habitantes pela FIDEM (2000)” (apud SILVA, E. A. B. 2001, p. 24). Em diversos lugares, em especial os de maior declividade, observa-se um reluzir de negras lonas plásticas que, ao sol, denuncia à distância uma face delicada e tristonha, associada, frontalmente, ao risco de desabamento. O véu negro, que emoldura as encostas e barreiras de declividades variadas, é disposto no sentido de preservá-las, temporariamente, da erosão provocada pela ação da natureza, da sazonalidade das chuvas e do agir do homem. Colocou-o a Prefeitura do Recife, em substituição à cobertura vegetal que preservava os taludes, as encostas, as barreiras. O homem que, ao cavar o chão, cortando-o para transformá-lo em solo de habitação, associado à ação da natureza, provoca o risco89. Esse risco submete a sua moradia e a de uma parcela da população aos problemas daí decorrentes. Foto 38: Vista aérea mostrando lonas plásticas protegendo os taludes Fonte: FIDEM, 2005. 89Estudo recente aborda a questão do risco na sistemática de ocupação dos morros na cidade do Recife e particulariza o caso da Vila Nova do Buriti. Sobre o assunto ver: CARVALHO, Luciana. Traçando o risco: análise das práticas urbanas em áreas de morros, o caso da Vila Nova do Buriti-Recife. 2005. Mestrado (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal de Santa Catarina, 2005. 287 Essa ação da população sobre o ambiente construído exige, do governo municipal, a construção de muros de arrimo, rip-rap e outras técnicas de contenção. Entretanto, a construção nas “sobras” de pequenos terrenos permanece. A tonalidade negra que cintila ao sol é o símbolo do luto, perigosamente anunciado e denunciado na forma de ocupação dos morros, para uso de habitação, sem o emprego de técnicas e de infra-estrutura apropriada. Recorrentemente renova-se a mesma situação. A ausência de ação político-institucional condizente com as demandas por habitação da população pobre, somada à ausência do controle urbanístico preventivo, indica um “consentimento” surdo, silencioso, compactuado entre a premência por moradia da população e a falta de alternativas, que resultariam de uma ação efetiva e continuada do poder público. Nessas circunstâncias, surgem moradias autoconstruídas de forma espontânea, assentadas nas encostas sem tratamento apropriado para absorvê-las, produzidas de forma precária. A realidade suscita indagações: Há uma contínua desconstrução do projeto urbanístico do Buriti? Ou o Projeto do Buriti desprezou alternativas técnicas mais apropriadas aos morros e que poderiam ser aplicadas em uma ocupação planejada? Ou realizou uma simples transposição das práticas utilizadas nas áreas planas? As sobras de áreas verdes e de proteção deveriam permanecer disponíveis já que inexiste um sistema de acompanhamento preventivo? A carência decorrente da ausência de políticas de habitação explica a ocupação de nesgas de solo, em situação de risco, localizadas em área dotada de infra-estrutura, de transporte, de fácil deslocamento e de terras de propriedade pública, a exemplo do Buriti? Fotos 40: Verticalização. Fonte: Aurelina Moura, 2005. Foto 39: Verticalização das habitações sobre o talude. Fonte: Aurelina Moura, 2005. 288 Uma outra versão da progressividade da ocupação mostra um Buriti que se verticaliza, em casas que sobem até o terceiro andar, algumas avançando por sobre antigos taludes, hoje com outra fisionomia. Assim, a proteção das barreiras realizada pela cobertura vegetal implantada, quando do Projeto de Urbanização da área, tem sido progressivamente suprimida cedendo lugar a novas moradias dispostas em situação de risco e pondo em risco muitas daquelas habitações construídas através do Projeto Buriti. Acrescente-se que uma outra forma de proteção ocorre através do sistema viário e sanitário instalados durante a execução do projeto. As ocupações dessas barreiras, em certos casos, têm gerado interrupção no sistema de esgotamento sanitário. Esse fato concorre para provocar a desproteção do morro e de moradias. Foto 41: Invasão da área da CELPE. Fonte: Aurelina Moura, 2004. Foto 42: Invasão da área da CELPE. Fonte: Acervo Arquiteta Luciana Carvalho, 2005. Foto 43: Invasão no interior da área. Fonte: Acervo Arquiteta Luciana Carvalho, 2005. Foto 44: Invasão no interior da área. Fonte: Acervo Arquiteta Luciana Carvalho, 2005. O tempo da satisfação no lugar Duas falas são exemplares da leitura que os entrevistados realizam do ambiente construído no Buriti. A primeira delas interpreta o conjunto das questões que geraram modificações nesse ambiente, requerendo atenção para o “Buriti cidade”, 289 correspondente a um certo orgulho da cidade que ajudou a construir. Alguns aspectos levantados são de extrema importância e falam das “casas que têm defeito”, embora não tenha sido declarado o tipo de defeito; “algumas ruas afundaram”, o que remete também ao tipo de solo e à forma de ocupação, mesmo que planejada dos morros, o projeto urbanístico implantado, a qualidade da obra e a manutenção da infra-estrutura; a “ocupação das encostas e das áreas verdes” com novas habitações, ou extensão das existentes. Chama a atenção o desenrolar dos depoimentos que citam a ausência de controle urbanístico nas áreas pobres, ainda atribuído à COHAB, órgão responsável pelo projeto, embora a empresa tenha sido extinta em 1998, o que indica a dificuldade no reconhecimento da responsabilidade do poder municipal, muito embora as obras de proteção dos morros sejam endereçadas à Prefeitura através do Orçamento Participativo. Além do mais, são visíveis obras recentes, realizadas por essa esfera de governo, nas encostas do Buriti. Foto 45: Buriti atual vista da Avenida José Américo. Fonte: Aurelina Moura, 2005. Esses depoimentos retomam a problemática habitacional dos pobres recifenses, vista na dimensão mais alargada, no correr dos acontecimentos e em relação à responsabilidade do poder público. Mesmo quando é obtida a habitação, prosseguem as questões referidas ao acesso à cidade e à distribuição da riqueza socialmente produzida. Sinaliza-se também a persistência da luta tendo na autoconstrução da moradia o elo entre diferentes fatores que constituem o habitar no Recife para as classes populares: 290 O Buriti, hoje, a gente vê uma cidade, mas entre aspas, com alguns defeitos. Tem muitas ruas que afundaram que foi feita nas carreiras a compactação da terra [...] Muitas casas, hoje a gente vê que tem defeito, mas pra vista do que era e do que está hoje, está uma cidade. Agora um pouco abandonada pelo próprio órgão da COHAB [...] Muitas áreas verdes que a COHAB deixou, hoje não existe mais, as pessoas invadiram, estão construindo casas [...] acabaram com as praças, acabaram com as encostas de barreiras pra fazer garagem. A Prefeitura, hoje em dia, a gente trabalha com a Prefeitura, com o Orçamento Participativo é só em cima de barreira nem mais muro de arrimo nós fazemos. [...] Obras coletivas têm que passar pelo Orçamento Participativo. Hoje o OP trabalha mais com a parceria. A Prefeitura dá o material, o pedreiro, e o morador entra com a mão-de-obra. Então, muitos moradores não têm condições financeiras de fazer e nem sabem trabalhar, também não pode ter o direito de ter a casa porque não pode pagar (Alcindo Alves Sobrinho. Comissão de Ocupação. Entrevista realizada em março de 2005). A segunda fala mostra um sentimento identificado, ao longo da pesquisa, entre os moradores do Buriti, a satisfação de morar no lugar, independentemente de a moradia localizar-se no plano ou em parte mais elevada, o que vem acompanhado de uma forte percepção de conquista alcançada pelas lutas empreendidas. Mas esse depoimento desvela a aproximação da valorização da área, avançando sobre os limites do Buriti e apontando, embora à distância, supostamente, para um processo de renovação urbana, particularmente, na porção plana e mais próxima da Avenida Norte, principal via de ligação do lugar com a cidade do Recife. Olha! Eu acho que ninguém quer sair daqui, do pessoal daqui [...] agora não sei, tem pessoas aqui saindo que eu conheço. Teve no começo uma turma que venderam. Teve amigo meu que vendeu a casa e tá morando alto hoje, numa barreira medonha e tem outro que ta, até, sem casa. Agora, o pessoal que tá aqui, que mora, não quer sair não, porque inclusive, principalmente, a minha casa que é aqui na avenida, (av José Américo, acesso principal ao Buriti), pegou um valor medonho por causa desses prédios que tão fazendo aí na frente. [...] aqui é perto de tudo, perto de ônibus, perto de que você precisa. [...] casa saneada [...] nem muita gente dentro de Recife é beneficiado com saneamento, nós temos saneamento, temos água. Aqui na minha casa tem água todo dia, energia não falta, não tem esse problema com eletricidade. Então, a vida aqui é tranqüila. O que tá faltando mesmo pra mim é umas condições melhor financeira pra ajeitar a casinha que tá um pouco desteorada (Ademaro Romão dos Santos. Comissão de Ocupação e Morador. Entrevista realizada em dezembro de 2005). A autoconstrução de moradia financiada, realizada, portanto, através de política pública, modifica o teor da autoconstrução, isto porque se torna no desencadear da ação uma espécie de estrada de mão dupla, numa luta da população que passa a ser ouvida, numa ação pública que responde às demandas desse segmento social. A Vila Nova do Buriti, como recorte dessa modalidade autoconstrutiva, é testemunha dos 291 embates e lutas envidadas pelos pobres urbanos para terem acesso à habitação e à terra de habitação, configurando com isso o acesso à cidade. Os limites vivenciados no processo autoconstrutivo são também caminhos de possibilidades criadas. O suporte do poder público tanto na disponibilização de recursos, mesmo que restritos, como na assistência técnico-social propicia à população um sentimento de conquista apoiada na perspectiva de direito à moradia. CAPÍTULO 5 A AUTOCONSTRUÇÃO POR INICIATIVA PRÓPRIA: O CASO AYRTON SENNA Na formação e expansão da cidade do Recife, a população pobre marca de forma significativa sua presença no tecido urbano. Essas marcas estão espelhadas também no processo de autoconstrução de moradias por iniciativa própria ou espontânea. Selecionou-se Ayrton Senna como área para o estudo de caso sobre essa modalidade construtiva no sentido de possibilitar o adentramento na compreensão dos processos e formas alavancados pela população de mais baixa renda para erguer sua habitação no espaço citadino. Neste capítulo, procura-se discutir e apreender os diversos aspectos envolvidos no processo de autoconstrução de moradia por iniciativa própria. Apresentase a fisionomia da área denominada Ayrton Senna buscando, nos elementos da história social do lugar, articulados aos da cidade, recompor as veias de ligação com as formas atuais estabelecidas. Percorre-se o nascimento da ocupação dessa parcela do espaço urbano, salientando-se as explicações apresentadas pela população para aí se estabelecer, suas lutas e discute-se o combate travado com o poder público, na derrubada e reconstrução inicial das moradias. É esse pedaço de chão de preservação rigorosa de acordo com a legislação em vigor. O movimento de luta mostra como se dá a relação entre o Estado e a população. Fazendo a casa na modalidade da autoconstrução, os ocupantes de Ayrton Senna, através dos depoimentos colhidos, expõem as formas, os processos, a convivência com uma profunda situação de pobreza no decorrer da feitura da casa, condições de habitabilidade degradada, apresentam as estratégias e táticas explícitas ou embutidas no modo de agir para ter acesso à moradia e à cidade. A discussão sobre o tempo de construção da moradia aponta a variedade da autoconstrução, no tempo referido nos depoimentos no passar dos acontecimentos vividos cotidianamente e dos eventos que se entrelaçam no decurso da construção da casa. Entre os achados de campo, identifica-se o descompasso da luta por terra de habitação e por moradia envidada, na forma de 293 autoconstrução, e uma luta visceral na própria área desencadeada pela violência urbana que atinge de modo frontal a localidade e seus habitantes. 5.1 A FISIONOMIA DO LUGAR Aqui, adentra-se uma partícula da cidade: Ayrton Senna, uma área de autoconstrução por iniciativa própria. Situada à margem direita do rio Capibaribe, em terras do antigo sítio do Barbalho, no bairro da Iputinga, essa área desnuda o contraste social na paisagem urbana, ao mostrar, no seu entorno, a diversidade de padrões de ocupação do solo que, embora territorialmente próximos, correspondem às diferenças socioespaciais e econômicas. Oculta, na feição material das grandes cidades dos países capitalistas periféricos, a lógica econômica e social ensina que as profundas contradições sociais e a pobreza podem facilmente ser demonstradas. Mas a pobreza nas grandes cidades, como indica Santos (1978, p. 10) não deve ser pensada como “[...] apenas uma categoria econômica, mas também uma categoria política, acima de tudo”. O economicismo bloqueia a adoção de fatores políticos como elementos explicativos da realidade das grandes cidades. Assim, ocorre o predomínio de interpretações centradas na desordem urbana e na ausência de controle urbanístico. Essas leituras restringem o entendimento de fenômenos que explicam esses aglomerados, como a presença de espaços excludentes e determinantes que repousam nas relações sociais mercantilizadas. As imagens retidas de Ayrton Senna, construídas através da observação livre, das conversas mantidas com os moradores, do exame da cartografia e de fontes de informação secundária reafirmam o contraste, na ocupação do território, que acompanha a formação urbana recifense. No entorno desse assentamento, observam-se duas linhas que assinalam a delimitação do seu território: uma, o rio Capibaribe, como elemento da natureza constitutivo da composição da cidade; outra, a estrada do Barbalho, um dos caminhos de ligação entre o bairro da Iputinga, que abriga a ocupação das diferentes localidades aí contidas, e os bairros da cidade. 294 BURITI AYRTON SENNA Mapa 11: Localização de Ayrton Senna. Fonte: Mapa do Recife-URB-Recife. Na margem esquerda do rio Capibaribe, na porção defronte a Ayrton Senna, estão situados os bairros do Monteiro e de Apipucos, habitados por população abastada. O cenário, a partir de Ayrton Senna, pode ser contemplado ao levantar-se o olhar. De arquitetura variada, erguem-se belos e modernos edifícios. Construções de amplas dimensões e fino acabamento, circundadas de infra-estrutura básica, habitadas por uma população de padrão de renda elevado e inserida nas regras do mercado imobiliário. Em tratamento nobre, essas edificações vão margeando o rio e estendendo-se pelo território. Diferem da pobreza vivida em Ayrton Senna, da pobreza territorializada. Um assentamento sem infra-estrutura básica, vias de acesso precárias e moradias incompletas. Há moradias em permanente estado de construção. Essas habitações mostram o uso de tipos variados de material, predominando a alvenaria, mas se fazendo presente a madeira, materiais improvisados e, com menos freqüência, a taipa, além de algumas palafitas avançando sobre o rio. Destacam-se algumas poucas habitações com primeiro andar, sendo as moradias térreas em quase a sua totalidade. Essas moradias foram erguidas no 295 ritmo das possibilidades, em um lento processo de substituição ou de renovação do material construtivo, melhoradas a partir dos acontecimentos vividos pelas famílias. Foto 46: Barraco a margem do rio Capibaribe, na área de Ayrton Senna. Fonte: Aurelina Moura, 2005. Foto 47: Contraste entre Ayrton Senna e o Monteiro. Fonte: Aurelina Moura, 2005. Foto 48: Esgoto a céu aberto em Ayrton Senna. Fonte: Aurelina Moura, 2005. 296 A relação entre esses dois ambientes desvela uma severa distância social. Essa distância alarga-se na paisagem quando se examina em conjunto as duas margens do rio Capibaribe, na vizinhança da área em estudo. MONTEIRO CONJUNTO YPIRANGA AYRTON SENNA VILA UNIÃO ESTRADA DO BARBALHO AYRTON SENNA RIO CAPIBARIBE SANTA MARTA Foto 49: Vista Aérea da vizinhança de Ayrton Senna. Fonte: Aurelina Moura, 2004. Em direção à estrada do Barbalho, altera-se o cenário. A partir desta via de circulação, três localidades estão estabelecidas no limite mais próximo a Ayrton Senna – a Vila União, o Conjunto Residencial Vila Ipiranga e o Barbalho. Localidades integrantes do bairro da Iputinga. A Vila União1 é área ZEIS, protegida por legislação especial, que assegura formalmente a permanência dos moradores no local. Trata-se de uma população deslocada de áreas pobres2 da própria margem direita do rio. Com um projeto urbanístico elaborado para absorver a população transferida, a área é dotada de infra-estrutura básica, serviços coletivos e moradia popular e dispõe de um padrão urbano que difere das 1A Vila União, localizada no bairro da Iputinga, foi transformada em Zona Especial de Interesse Social-ZEIS, em 12.04.1996, de acordo com Lei de Uso e Ocupação do Solo nº 16.176, do Recife. 2Uma parcela dos moradores da Vila União é originária de uma ocupação realizada, em 1987, em terreno pertencente à Prefeitura da Cidade do Recife, situado na margem direita do rio Capibaribe, nas proximidades do Parque do Caiara. Na gestão do prefeito Jarbas Vasconcelos, no início dos anos 1988, foi transferida para o local em que está instalada. 297 condições existentes, em muitos lugares congêneres na cidade do Recife. A Vila Ipiranga é constituída por um conjunto de apartamentos, divididos em blocos de três andares, ocupados por segmento de classe média. O Barbalho, antigo sítio do século XIX, hoje é povoado por segmento popular, sendo registrado no Cadastro das Áreas Pobres do Recife, 1998 (2001), como área muito pobre. Limitando-se com Ayrton Senna, à margem direita do rio, encontra-se, a montante, o assentamento Santa Marta3 que, segundo o Cadastro das Áreas Pobres do Recife, 1998 (2001), constitui área muito pobre e, a jusante, com o Skylab II, constante no mesmo Cadastro como área pobre. Uma ponte4, em concreto, construída para passagem de pedestres durante a implementação do Projeto Recife, faz a ligação entre a margem esquerda e a margem direita do rio Capibaribe. Esse Projeto promoveu o deslocamento de duas grandes favelas5 da margem esquerda, historicamente lugar privilegiado de moradia de população abastada, para o lado direito, ocupado por uma população de renda média e baixa. Em sua Tese de Doutorado, Melo (1993, apud IPEA, 2001, p. 200), ao analisar a produção social do espaço e os interesses imobiliários6 no Recife, detendo-se no exame da valorização das terras no bairro de Casa Forte, à margem esquerda do rio, expressa uma rica comparação entre elementos presentes nas cidades da Idade Média e a reprodução de formas assemelhadas na cidade contemporânea. Extraindo elementos da concepção e das práticas do projeto citado, diz a autora: “Os pobres deveriam atravessar o rio, se fixar no seu próprio meio”, ou seja, na margem direita. Tal atitude, prossegue a autora, “[...] reproduz o esquema da Idade Média: de um lado, a cidade forte, contornada de um fosso; do outro, o povo; a única ligação é a ponte defendida por guardiões”. Quer dizer, os fatos registrados no passado recolocam-se nos dias atuais revestidos de contornos específicos, mas guardando, como elemento comum, o processo de segregação socioespacial: “O povo: os pobres. Os nobres: a 3O assentamento de Santa Marta solicitou a transformação da área em ZEIS, em 2001. construção dessa ponte ocorreu durante a execução do Projeto Recife. Esse projeto agregava o Subprojeto Áreas Vazias do Capibaribe, integrante do Projeto Metropolitano do Recife. O Projeto Recife propunha a ocupação dos vazios urbanos, reordenando as ocupações às margens do rio Capibaribe, com deslocamento da população das áreas pobres instaladas à margem esquerda, historicamente ocupada por segmentos abastados, para a margem direita do rio. Com isso, gerava a valorização das terras situadas à margem esquerda, disponibilizando-as para do mercado. Além do mais, as áreas consideradas vazias, na margem direita, eram, na sua maioria, ocupadas por população pobre (ver Capítulo 3, item 3.1). 5As favelas do Formigueiro e Perimetral foram removidas da margem esquerda do rio Capibaribe, na década de 1980, para a margem direita, visando liberar a margem esquerda para investimentos imobiliários e favorecendo, desta forma, a valorização dos terrenos aí localizados. 6Na análise aqui referenciada, a autora ressalta o Subprojeto Áreas Vazias do Capibaribe e as ações a partir daí desencadeadas. 4A 298 burguesia urbana. O fosso: o rio. A cidade: o bairro (Casa Forte), o poder” (MELO, 1993, apud IPEA, 2001, p. 200). Foto 50: Vista do bairro do Monteiro para Ayrton Senna. Fonte: Aderbal Azevedo, apud Melo, 2003. Foto 51: Vista tomada do Conjunto Ypiranga observando-se telhados de moradias de Ayrton Senna, a Ponte de Pedestre e o bairro do Monteiro. Fonte: Zélia Correia de Araújo, 2005. A semelhança entre duas realidades históricas distantes – a Idade Média e a cidade contemporânea – é reafirmada pela construção das pontes7 de pedestres sobre o rio Capibaribe: caminho cotidiano, de ida e vinda da população, que no horário matinal se desloca para o trabalho ou à sua procura, de crianças que vagueiam pelas ruas da cidade, dos cidadãos no trajeto de seus afazeres em busca de suas relações contumazes, e por onde retornam à noite, exaustos da labuta diária. Aqui não passa automóvel. Assim, as 7No trajeto do rio, duas pontes, para uso exclusivo de pedestre, foram construídas: uma no bairro de Casa Forte e outra no bairro do Monteiro ligando as duas margens do rio. 299 pontes foram erguidas para os pobres. A população abastada aparentemente “protegida”, por sistemas eletrônicos de segurança instalados em suas moradias, em seus edifícios, não circula por esse trajeto. O território dos pobres está fora do seu universo. No entanto, na versão contemporânea de cidade, particularizando-se a ponte de pedestre que faz a ligação entre o bairro da Iputinga, na margem direita, onde está encravada8 a área de Ayrton Senna, e a margem esquerda, o bairro do Monteiro, apresentam-se elementos complementares, ao quadro antes delineado. Tornou-se freqüente, na cabeceira da ponte da margem direita, a existência de uma espécie de “pedágio9” cobrado de modo “informal” a transeuntes, recaindo essa cobrança sobre pessoas desconhecidas que se arvoram ao uso dessa passagem, aos membros de grupos opositores em disputa, ao cidadão comum da localidade e do entorno. Nesse caso, pode-se pensar em outro tipo de “guardiões” dispostos no lado dos pobres. A ponte transformou-se em um percurso temido, por muitos, com regras e relações sociais impostas na cotidianidade projetada para os pobres, os mais próximos e, supostamente, mais assemelhados. Acontecimentos dessa natureza instigam o imaginário da população, assentado em ocorrências concretas, dos segmentos abastados, da classe média, como sendo este o “lugar dos pobres”, sinônimo de violência, reduto de marginalidade 10, numa tendência a estender a todos os moradores das áreas pobres esta visão da cidade e do lugar. Exigemse medidas preventivas e de preservação da distância social em face do morador de Ayrton Senna. O processo de segregação socioespacial é parte constitutiva da história urbana brasileira. Desvela a estrutura econômica, social, política e os conflitos dele decorrente. Em simultaneidade, mostra por que espaços diferenciados são formados e gerados a partir de determinados elementos de identificação. Particularizada, no caso em discussão, a segregação é reafirmada, na cidade do Recife, pela ação do poder público municipal, forjando projetos11 que consolidam segregação no movimento de definição do lugar dos pobres. Essas ações provocam permanente valorização de determinadas áreas da 8Essa ponte inicia no território onde, hoje, se encontra o assentamento Ayrton Senna. Algumas habitações dessa área estão construídas tanto nas imediações, como existem outras sobre o início da própria ponte. 9“Pedágio”: termo empregado como muita discrição por habitantes de algumas localidades do bairro da Iputinga, mas que, na prática, é traduzido como pagamento, cobrança de um certo valor, exigência imposta por intermédio de diferentes formas de violência. 10A respeito do debate sobre marginalidade, particularmente, nas décadas de 1960 e 1970, ver: KOWARICK, 1977; NUN, 2001; NUN, 1977; OLIVEIRA, 1972; PEREIRA, 1979; QUIJANO, 1978. 11Ver Capítulo 3 sobre o Projeto Recife formulado e implementado pela Prefeitura da Cidade do Recife. 300 cidade, prevalecendo, desse modo, no espaço urbano, a lógica da diferenciação. Ditames da relação entre riqueza, concentração de renda e pobreza na formação econômico-social e política do aglomerado recifense. O registro do processo secular de reprodução da desigualdade social entremeou-se na urbanização do Recife e está estampado na cidade. Os habitantes de Ayrton Senna Ayrton Senna é um assentamento localizado na planície do Capibaribe, uma área alagável, sujeita a inundações. De acordo com o Cadastro das Áreas Pobres do Recife, realizado em 1998, (2001), o terreno ocupado foi estimado em 4.9ha. Por sua situação de pobreza, a área recebeu a classificação de “área crítica”12. Nesse espaço, erguiam-se, conforme estimativa, 367 moradias, habitadas por 1.617 pessoas. A renda média estimada do chefe da família situava-se na faixa de um a dois salários mínimos, enquanto o nível de escolaridade, apresentava uma variação entre 4 a 7 anos de instrução. Dados13 mais recentes, de caráter censitário, coletados em 2004, demonstram a presença de 87814 habitações, com uma média de 3.44 pessoas por domicílio, totalizando 2.445. A pobreza está traduzida nas informações dos 71115 domicílios, onde habitam 735 12Sobre a classificação das áreas conforme o estágio de pobreza, ver Capítulo 2, item 2.1. pela Prefeitura da Cidade do Recife-PCR, a pesquisa destinou-se a subsidiar a elaboração do Projeto Terra Cidadã – Capibaribe Sem Palafitas, como parte integrante do Programa Capibaribe Melhor. Esse Programa busca captar recursos do BIRD e volta-se para o atendimento da população situada, nas duas margens, ao longo de quase todo o rio Capibaribe. O levantamento de campo, por domicílio, foi realizado pela Empresa Diagonal Urbana Consultoria Ltda, contratada pela Politécnica de Consultoria com aporte financeiro da Fundação Banco do Brasil. 14Supostamente, a diferença em relação ao número de unidades habitacionais em Ayrton Senna registrada entre o primeiro e segundo levantamentos deve-se a procedimentos metodológicos diferentes. Enquanto o primeiro foi feito através de contagem, por fotografia aérea, o segundo foi de caráter censitário, em campo. Além do mais, Ayrton Senna é constituída de duas partes separadas pelo Casarão do Barbalho. Outrossim, de acordo com a pesquisa realizada para esta Tese, e segundo informações dos moradores do lugar, toda a porção constitutiva da área foi ocupada de uma só vez em 05 de agosto de 2004, alongando-se a pequenas variações em torno de dois ou três meses no máximo, existindo, apenas, poucas subdivisões de terreno entre familiares e amigos, num tempo um pouco mais longo. Todavia, não há registro de duplicação da população no decurso da existência do assentamento. Indaga-se, portanto, se no primeiro registro foram consideradas as duas partes em separado, que compõem uma mesma unidade. 15Dentre o universo de moradias existente em Ayrton Senna, constatou a pesquisa a ausência de 72 moradores, 62 casas encontravam-se desocupadas, 20 encontravam-se em reforma e uma recusou-se a responder a pesquisa, quatro domicílios tinham uso comercial. Desses nenhum foi ouvido, sendo um por recusa, dois ausentes e um desocupado. Esses números podem ser indicativos da grave onda de violência que tomou conta da localidade nos últimos dois anos e acirrada entre o segundo semestre de 2004 e os meses iniciais do ano em curso. Tal fato foi noticiado pela imprensa falada e escrita como decorrente da disputa, entre grupos opositores, pelo domínio do território e, também, expressa com elevada reserva, por moradores da localidade. Como resultado dessa investida, houve queima de moradias, expulsão de famílias, derrubadas de habitações, invasão armada de domicílios, seguido de roubos e ameaças explícitas ou indiretas e mortes. Além do mais, algumas famílias tementes da situação deixaram as suas casas e passam a habitar outro lugar no próprio Recife, ou ainda retornaram a sua cidade de 13Encomendada 301 famílias. Os rendimentos mostram que, de um lado, pouco mais da metade dos chefes de família (50.2%) alcançam renda entre meio salário e um salário mínimo e meio. De outro lado, apenas 16.5% ultrapassam dois salários, enquanto 12% tinham rendimentos de mais de um salário e meio a dois salários. O agravante, ainda, mais acintoso está na presença de 21 famílias, do universo pesquisado, sem rendimentos e de 18.2% recebendo o equivalente a meio salário. Enquanto o ensino fundamental incompleto responde por 60.8% da instrução dos chefes dos domicílios particulares permanentes, realidade agravada por aqueles 16.7% de analfabetos e os 6.5% que afirmaram ser apenas alfabetizados e aqueles 6.15% que teriam completado somente o primeiro grau. Olhando a cidade do Recife, como um todo, observa-se que, os dados do Censo do IBGE (2000) indicam a existência de 60% dos responsáveis pelos domicílios particulares permanentes ganhando menos de três salários mínimos. A informação permite pensar que a situação de pobreza em Ayrton Senna é mais acentuada quando comparada à cidade como um todo. Isso reforça as informações do primeiro Cadastro, citado acima, e a classificação dessa área como “crítica”. Essa situação de pobreza tem profundos rebatimentos na habitação. Reflete-se na precariedade da moradia e nas condições de habitabilidade do lugar. As habitações alugadas constituem uma raridade, apresentando-se, nessa condição, somente seis moradias. O acesso à habitação autoconstruída, no caso de Ayrton Senna, ocorreu em direção à moradia para uso próprio. Ainda conforme o levantamento de 2004, predomina a casa de alvenaria, com 72.3% do conjunto das habitações. Mas há o registro de que 28% de casas eram em madeira e o restante distribuído em moradias construídas com materiais improvisados, mistura de materiais e taipa, registrando-se também a presença de habitações do tipo palafita, erguidas sobre o rio Capibaribe. Observa-se que algumas moradias têm piso em cerâmica. Outras, porém, permanecem com piso em chão batido. As construções são freqüentemente de pequenas dimensões, amesquinhadas desde a ocupação do território, dividido em pequenas porções, e comprimido para receber um maior número de habitações. Obedecem ao desenho da pressa em ocupar o território, delimitando minimamente o espaço coletivo. A maioria possui divisão interna dos cômodos, mas existem aquelas que continuam com apenas um vão, fazendo-se essa origem, no interior do Estado. No período da pesquisa de campo já se verificava um movimento de retorno, dos evadidos para a sua casa, isto porque, a situação encontrava-se “mais calma”, de acordo com informações colhidas através de conversas informais na área. Todavia, percorrendo Ayrton Senna é visível o número de habitações fechadas e derrubadas que, em alguns casos, pode confundir-se com moradias em construção. 302 divisão com tecido ou objetos da casa, a indicar que o tempo dos acontecimentos foi insuficiente para alterar as condições de vida. Foto 52: Barracos/moradia a Beira do rio Capibaribe Fonte: Aurelina Moura, 2005. Foto 53: Vista das Moradias de Aryton Senna Fonte: Aurelina Moura, 2005. Foto 55: Moradias localizadas na Estrada do Barbalho. Fonte: Aurelina Moura, 2005. Foto 54: Moradias no interior da área. Fonte: Aurelina Moura, 2005. Foto 56: Moradias situadas próximas a Santa Marta. Fonte: Aurelina Moura, 2005. Os caminhos de circulação no interior da área são tortuosos e estreitos, veredas e becos desenham vias públicas, que permitem apenas a passagem de pedestres e veículos de duas rodas. Nos casos raros em que a rua tem uma largura maior, a exemplo de pequenos trechos no limite com o assentamento de Santa Marta e, um outro, no lado 303 oposto, nas proximidades da ponte de pedestre, limite com a Vila União, permanece a inexistência de qualquer possibilidade de penetração de veículo ao interior da localidade. As das vias públicas de maior largura, como também as mais estreitas, são seriamente comprometidas pela ausência do saneamento básico e escoamento das águas, com regos a céu aberto no solo úmido da várzea. A rede de esgoto é suprida, precariamente, com fossas sépticas instaladas em algumas casas. Outras habitações utilizam uma rede improvisada para conduzir os dejetos e lançá-los no rio Capibaribe. O mais trágico referese às moradias que não dispõem de nenhuma alternativa. O caminho dos dejetos emerge no relato colhido da entrevista de Maria Vieira Bonfim (Moradora. Entrevista realizada em junho de 2005): No governo Roberto 16 Magalhães, aí eles disseram vocês que moram desse lado, (na frente do Casarão e limite com o seu muro) compre cano, não precisa fazer fossa no quintal, ligue do cano pra essa fossa aí, e ser despejada na maré, no rio. Aí a gente fez e ligou pra uma fossa que tem lá na frente. Não é despejado no quintal. Foto 57: Rua de acesso à Estrada do Barbalho. F t A li M 2005 Fonte 58: Rua com esgoto a céu aberto. Fonte: Aurelina Moura, 2005. O rio, outrora contemplado e narrado por Tollenere17, já não revela a mesma beleza, fascínio e magnitude na atualidade, nem tampouco desempenha o forte papel de fornecedor de alimentos oriundos dos manguezais à sua volta para a população ribeirinha 16Roberto 17Viajante Magalhães foi prefeito da cidade do Recife no período de 1997-2000. francês que desembarcou no Recife, em 1816. 304 ou serve para banhos aprazíveis e ao transporte fluvial que demarcou os primeiros séculos da expansão urbana. As profundas alterações do cenário narradas pelo viajante deveramse à marcha da urbanização e aos diferentes usos que foram progressivamente atribuídos a esse elemento natural, por diversos segmentos sociais e pelo poder público, submetendo a bela paisagem à severa degradação. Relata o viajante sobre o rio Capibaribe: A limpeza das águas permitia ver um fundo de areia pura, que toma um colorido verde-esmeralda escuro, do reflexo da folhagem, o cardeal, vestido de escarlate, e mil pássaros adornados de brilhantes plumagens. Cardumes de pequenos peixes saltam em redor da canoa, miríades de caranguejos se arrastam sobre a margem, em busca de presa; o tatu escamoso, a cotia de focinho pontudo mostrava-se à entrada de suas tocas nos lugares mais elevados; tudo é animado em meio ao silêncio, e experimenta-se uma frescura deliciosa; mas, todas essas belezas desaparecem com o espetáculo das lindas banhistas (TOLLENARE, 1978, p. 102). O escoamento das águas servidas e de chuva agrava-se durante o inverno e torna-se mais crítico quando há coincidência com a maré alta. Essa situação atinge, particularmente, as habitações mais próximas da margem do rio, podendo haver, nesses casos, invasão das casas pelas águas. Reflete essa situação as condições secularmente vividas pela população pobre do Recife, habitante dos pedaços alagáveis e alagados do território citadino, os moradores dos manguezais e áreas ribeirinhas. A grande diferença encontra-se na pesca realizada no rio, hoje de raro em raro, como informa o depoente Renato Luiz dos Santos (Morador): “Tem gente que pesca. Por enquanto, não tá pescando, porque desse jeito que está 18? Mas tem gente que pesca. Eu já pesquei, meu cunhado [...] Pegava tilapia, cundunga. Tudo o que viesse na rede era peixe”. A água que abastece as moradias vem da rede distribuidora da Companhia Estadual de Saneamento – COMPESA, instalada na estrada do Barbalho, limite da área. Essa água é ligada sem autorização, mas também sem fiscalização e sem cobrança de taxa. A energia servida a Ayrton Senna, da rede da Companhia Energética de Pernambuco– CELPE, em muitas residências se faz através de ligação clandestina. A ausência de pagamento das taxas dos serviços coletivos destaca-se, durante as entrevistas realizadas para este trabalho, como uma das facilidades em morar nesta área, isto porque não onera o já tão escasso e comprometido orçamento familiar. A Empresa de Telecomunicações Norte e Leste–TELEMAR atende a localidade, disponibilizando aos seus moradores a 18O entrevistado refere-se à poluição do rio Capibaribe. 305 ligação do telefone fixo, constatando-se a existência de aparelhos particulares em algumas poucas residências. Entre as duas porções do território ocupado pelo assentamento Ayrton Senna, está encravado o Casarão do Barbalho. Nesse trecho, uma nesga de terra estende-se desde a Estrada do Barbalho até a margem do rio Capibaribe, permanecendo desocupada. Nesse espaço, há um campo de futebol e partes cobertas por vegetação. Destinava-se esse trecho e todo o quinhão ocupado por esse assentamento, até sua ocupação, segundo o Projeto Recife, à implantação do Parque do Barbalho. Em 1996, em razão de abrigar o histórico Casarão do Barbalho, toda a área foi transformada em área de preservação19 rigorosa, mesmo depois de ocupada pelos atuais moradores de Ayrton Senna. Foto 59: Casarão do Barbalho, onde funciona uma escola municipal do 1° grau. Fonte: Aurelina Moura, 2005. O contraste da paisagem entre o antigo Casarão, sinônimo outrora de poder econômico, e a favela completa-se pela presença de um pequeno pedaço ocupado por carroceiros que transportam diferentes tipos de materiais, inclusive para reciclagem. Essa parcela do território deveria ser, conforme informações fornecidas pela Associação do Barbalho, utilizada para depósito, mas verifica-se lentamente a permanência desses trabalhadores, instalados em casebres improvisados. Assim, unem a atividade precária ao local de moradia precário, demarcando, mais uma vez, a insistente e cruel problemática social na cidade do Recife. 19Ver Introdução desta Tese. 306 Foto 60: Área de carroceiros, catadores de lixo, também usada para habitação contrastando com os edifícios do bairro do Monteiro, a margem esquerda do rio. Fonte: Aurelina Moura, 2005. Foto 61: Barraco localizado no trecho dos carroceiros catadores de lixo e ao fundo o Casarão do Barbalho. Fonte: Aurelina Moura, 2004. Foto 62: Área de carroceiros, catadores de lixo. Fonte: Aurelina Moura, 2004. 307 O bairro da Iputinga hospeda a área de Ayrton Senna, situada no Barbalho. A mais recente localidade é, também, uma das mais pobres. Há controvérsias quanto à origem das terras da Iputinga. Melo (1978, p. 64) admite ser esta a sua origem, ao citar o historiador Tadeu Rocha20, quando este se refere ao Barbalho como engenho, daí se derivando parte das terras do bairro. Todavia, na Planta da Cidade do Recife e seus Arrabaldes, publicada em 1870, encontra-se registrado, nessas terras, o Engenho Poeta. No local onde, supostamente, seria o Sítio Barbalho, está representada a Campina do Barbalho (localizada no círculo em vermelho). Na Planta de 1906, não consta indicação da Iputinga, aparecendo novo registro nas plantas de 1932 e 1943, que mostram a expansão da cidade, atingindo Caxangá e Iputinga. Mapa 12: Planta da Cidade do Recife e seus Arrabaldes de 1870. . Litografia de F. H. CARLS Fonte: PEREIRA DA COSTA, F. A., 1981. De acordo com o segundo registro, e na ausência de outro, é possível pensar que a povoação da Iputinga origina-se do Engenho Poeta21, subdivisão de engenhos anteriores, e de onde teria surgido o Sítio do Barbalho. Assim, no século XX, essa 20ROCHA, Tadeu. Roteiros do Recife (Olinda e Guararapes) apud MELO, 1978. Ed. Recife, 1968. acordo com Costa (1981, p. 134), o Engenho Poeta não constava da lista dos dezesseis primeiros engenhos localizados na “Várzea do Capibaribe”, em 1630. Ainda, conforme o autor, consta nas “Memórias Diárias” do Marquês de Bastos, que era donatário em Pernambuco, em 1630, relatos de que existiam “dezesseis moinhos ou engenhos de açúcar nas terras, a que se chamava Várzea do Capibaribe, extensos territórios que constituíam a sua paróquia, por ser torneada pelo rio do mesmo nome”, dentre esses, portanto, não há registro do Engenho Poeta e do Barbalho. 21De 308 povoação transformada em subúrbio, assume, posteriormente, a categoria de bairro22. Todavia, outras indicações apontam para a composição da Iputinga como resultado da separação de porções de terras do Engenho Cordeiro e do Engenho Poeta, que faziam limite. A forma tentacular (MELO, 1978), radial (BALTAR, 2000) que caracteriza fortemente o desenho da cidade até a segunda metade do século XIX, era constituída por cinco vias principais que, partindo do núcleo23 urbano recifense, ligava-o às localidades mais afastadas e articulava-se a vias que se estendiam à área rural, conforme visto no Capítulo 1. Dentre essas cinco vias encontrava-se um “[...] alongamento que partindo da Boa Vista alcança Madalena, e Torre, de onde prosseguia ao longo da ‘Estrada de Caxangá’ (hoje avenida Caxangá) até a povoação do mesmo nome” (MELO, 1978, p. 59), cruzando a Iputinga. O bairro da Iputinga24, localizado entre o Cordeiro e a Várzea, consolidou-se no final do século XIX, “[...] a partir da Implantação da ‘Estrada Nova da Caxangá’ ” (GALVÃO25, 1908, apud MELO, 2003, p. 119), um dos eixos das radiais responsável pela ligação do centro do Recife com arredores e a zona rural da cidade, desdobrando-se daí a ligação com o interior, até atingir Camaragibe e São Lourenço (MENEZES, 1990, p. 11). Esse sistema de comunicação favoreceu a penetração da população oriunda do interior, na cidade do Recife, que se estabelecia em sítios e chácaras, conseqüência da divisão dos antigos engenhos. Os sítios eram recortados em grandes áreas, situando-se nessa condição o do Barbalho 26, onde foi construído um casarão27 do tipo neoclássico, 22A divisão dos bairros do Recife foi instituída em 1988, pelo decreto nº 14. 452 (Plano Setorial do Uso e Ocupação do Solo. Prefeitura da Cidade do Recife-PCR/Secretaria de Planejamento Urbano e Ambiental, 6). 23Até início do século XX, o Recife registrava uma ocupação concentrada no núcleo urbano central formado pelos bairros do Recife, Santo Antonio e São José e parte da Boa Vista. No entanto, a formação tentacular já havia entrado em processo de modificação, desde a segunda metade do século anterior, em decorrência do adentramento da vida urbana no meio rural, motivada em parte pela dissolução dos antigos engenhos. Ao longo dos eixos das vias de circulação, seguidamente foram se adensando núcleos residenciais, preenchendo os vazios existentes. 24O bairro da Iputinga é subdividido em várias áreas ou localidades por seus moradores, a exemplo do que ocorre nos morros da Zona Norte do Recife, sendo assim constituído: Skylab I e II, Caiara, Monsenhor Fabrício, Bomba Grande, Barbalho, Detran, Santa Marta, Vila União, Conjunto Ipiranga, Irã-Iraque, Poço Alto, Vila São Pedro e outras, além de Ayrton Senna. 25GALVÃO, S. Dicionário Chronographico, Histórico e Estatístico de Pernambuco. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1908, p. 218. 26A matéria publicada no Jornal do Commercio (Recife-PE), “Iputinga – Artes e problemas à flor da pele”, em 23.08.1987, destaca o perfil da população que paulatinamente foi ocupando aquele bairro, formado por uma população de renda mais baixa, oriunda do meio rural em busca de condições de vida. Destaca a matéria a existência, naquele momento, da permanência de áreas remanescentes dos antigos sítios e chácaras. Todavia, com a perda do poder aquisitivo, o Sítio Barbalho, em 1947, perde essa condição passando o seu proprietário “a alugar seus cômodos”, resultando na “deterioração do local”. 27Esse casarão, uma construção de dois pavimentos, foi recuperado na 1ª gestão municipal do prefeito Jarbas de Andrade Vasconcelos (1986-1989). Atualmente, no local, funciona uma escola municipal do 1º grau menor. 309 que hoje compõe uma figura contrastante com a fisionomia do lugar, no que pese a sua falta de conservação. Vale referir que predominou, até pouco mais da metade do século XIX, sobre a margem direita do rio Capibaribe, a influência exercida pela hidrovia, com o uso de canoas ou barcaças como meio de transporte para pessoas e mercadorias. Diferentemente da margem esquerda28, que já em meado do século XIX passou a receber forte interferência das vias terrestres e onde floresceu a burguesia açucareira e o seu encanto aristocrático. As limitações de vias de acesso terrestre e de meios de transporte, que facilitassem a comunicação entre a margem direita do rio Capibaribe, o núcleo urbano e o interior, foram fatores que acarretaram o protelamento do povoamento desta margem do rio, imprimindo-lhe, com a expansão do aglomerado, uma feição diferenciada em relação à margem oposta. Os sítios e as chácaras aí instalados absorveriam, sobretudo, a população deslocada da zona rural, como parte da corrente migratória para o Recife, acentuadamente registrada entre as décadas de 1940 a 1960. O estreito mercado de trabalho na capital pernambucana, as possibilidades de sobrevivência encontradas e a origem dessa população concorreram para o desenvolvimento de atividades associadas à vida no campo. Assim, o uso do solo dessa porção da cidade esteve voltado para a produção de frutas, verduras e hortaliças, destinadas ao abastecimento do Recife. Além disso, cobriam essas terras a plantação de capim, utilizada para a cobertura das casas e alimentação animal, vacarias e curtumes, assinalando-se ainda a existência de olarias. Esse uso do solo propiciava, na Iputinga, a composição de uma paisagem rural desde os anos vinte do século findo (OLIVEIRA, 1994). Data, desse período, a ocupação consentida, pelos proprietários, em terrenos desvinculados dos sítios e chácaras, utilizados pela população mais pobre, para autoconstruir seus mocambos. Esse segmento era submetido ao “aluguel do chão”, cobrado pelos proprietários, em pagamento ao uso da terra para habitação. A feição que foi se delineando, através da parcela da população ocupante do lugar e o tipo de atividade aí desenvolvida, propiciou a fundação, em 1946, na Iputinga, da Liga Camponesa da Iputinga. De acordo com os estatutos da entidade, seu objetivo voltava-se para “[...] congregar trabalhadores do campo residentes no bairro no sentido de pleitear: terra gratuita ou para arrendamento e a criação de vilas operárias” (CÉZAR E COSTA, 1992, p. 30). Os objetivos da entidade espelhavam dois aspectos fundamentais 28Na seqüência do eixo do rio Capibaribe, em sua margem esquerda, localizavam-se os Engenhos de Casa Forte, Monteiro e Apipucos. 310 da situação social: primeiro, a concentração de população oriunda do campo, nesse espaço; segundo, a problemática de habitação vivida pelos pobres que adentravam a cidade do Recife, e a luta por terra para trabalho e moradia. Essa realidade era indicativa de que o consentimento dos proprietários das terras, para a sua ocupação com barracos, não acontecia de modo pacífico, mas articulava-se a uma luta velada, instigando a emergência de processos organizativos. De acordo com informações prestadas pelo Senhor Cacau29, morador do Barbalho e ex-trabalhador de olaria, essas unidades produtivas, em número expressivo, iniciavam na avenida Caxangá na altura do atual Supermercado BomPreço, estendendo-se à margem esquerda do rio Capibaribe, tendo funcionado até a década de 1970. Nesse período, essas olarias foram desativadas em virtude das sucessivas enchentes do rio e de ter sido proibida a extração de barro de suas margens. O movimento de retirada de barro do tipo massapé, para o fabrico de telha e tijolo, provocava um escavamento da área constituída por baixios, gerando permanentemente alagamento no período das chuvas. Como resultado do fechamento dessas olarias, essas margens passaram, seguidamente, a ser ocupadas por antigos operários das olarias e pela população pobre sem habitação. Os moradores pobres da Iputinga foram atingidos pela ação do poder público da década de trinta do século passado, quando decretos30 municipal e estadual instituíram a proibição da construção de mocambos no perímetro urbano. O cerne da política de extinção dos mocambos, alavancada pelo interventor Agamenon Magalhães, através da Liga Social Contra ao Mocambo, criada em 1939, (assunto abordado nos Capítulo 1) assentava-se na concepção higienista e de modernização da cidade, gerando, como conseqüência, a valorização das áreas antes ocupadas pela população pobre. Essa valorização desdobrava-se em um tripé endereçado a novas apropriações, pois as terras eram liberadas para o mercado imobiliário, para os setores abastados da sociedade e para a expansão das vias públicas. Como integrante da agressiva política de limpeza dos mocambos, na Iputinga, mocambos foram derrubados, moradores foram expulsos. Permitia-se, a partir de então, somente a construção de casas cobertas de telhas. Os novos moradores tiveram de construir seus mocambos atendendo às determinações legais, cobrindo-os com telhas, muitas vezes angariadas dos restos de construção da vizinhança. Todavia, nessas condições não houve alteração da prática de pagamento do foro ou “aluguel do chão” ao 29Informações 30Ver prestadas em maio de 2005. registro no Capítulo 1, item 1.4 desta Tese. 311 proprietário da terra. Prática estimulada, através da disputa entre os proprietários, visando atrair mais pessoas para suas propriedades, com isso crescendo o bairro e ampliando a renda fundiária, obtida com o pagamento do “aluguel do chão”. Posteriormente, a venda dos terrenos aos inquilinos tornou-se corrente. No entanto, uma parcela de moradores, impossibilitada de realizar essa transação, e não suportando a pressão que sofria, deixou o lugar, passando a ocupar áreas vazias entre as povoações existentes ou deslocando-se para áreas mais distantes, para além do perímetro urbano. Assim, fugiam do cumprimento das exigências legais, superiores às suas possibilidades. Concretiza-se um ciclo de deslocamento da população pobre no interior do tecido urbano, ora provocado pelo poder público, ora pelos proprietários de terra, ou pelo resultado da ação conjunta desse dois produtores do ambiente construído. Cavalcanti (1978, p. 179-180) descreve o sentido da Política Habitacional do interventor Agamenon Magalhães. Cenário no qual se desenvolve a derrubada dos mocambos: O combate aos mocambos era feito em termos demagógicos para livrar a cidade da feiúra da miséria, casebres içados de uma para outra hora, pelos homens do Serviço Social Contra o Mocambo, e puxados como bois para o curral por caminhões possantes, ‘limpando’ a paisagem urbana de suas imundas moradias. Atrás, seguia uma população desterritorializada, habitante dos mocambos, recolhendo alguns pertences das sobras demolidas, possíveis trapos e pedaços da casa, úteis à nova construção de mocambos distantes do círculo delimitado pela lei. Uma população que, ao deslocar-se do campo para a cidade, vivenciava sérias mudanças no universo das relações sociais, caracterizadas pela forma de vida anterior, instalando-se em habitações precárias do tipo mocambo no urbano, e delas sendo expulsa. Enfrentava, nessas condições, um duplo movimento de desterritorialização (MARTINS, 2002). No andar da década de sessenta, ocorreu uma mudança no padrão de uso e ocupação do solo no bairro da Iputinga. Isso aconteceu em conseqüência da retomada da ampliação da avenida Caxangá, iniciada no final da década de cinqüenta 31, provocando uma valorização imobiliária do entorno, acelerando o processo de urbanização e produzindo o adensamento de grandes áreas, com a construção de edifícios comerciais e 31Essa obra havia sido iniciada na gestão municipal do Prefeito Pelópidas da Silveira (1955-1959), e fora interrompida com o golpe militar em 1964. 312 bancários, e de moradias de classe média. O eixo da Caxangá absorvia a expansão da área comercial, enquanto a margem do rio tornava-se o espaço ocupado pelas famílias pobres. Essa população pobre, a exemplo dos habitantes da favela do Caiara, sobrevivia da pesca no rio, da extração de areia de suas margens para ser usada na construção civil, além da travessia de pessoas para a outra margem em pequenas canoas. A cheia do rio Capibaribe, que atingiu seriamente a cidade em 1975, provocou uma grande saída dos moradores da Iputinga. No entanto, a população, habitante das áreas pobres, mesmo com as condições de habitação agravadas, continuou ocupando o lugar, na ausência de alternativa. Essa década também registrou várias invasões realizadas de forma organizada, como Skylab I e II, e, posteriormente, outras ocupações como Detran e Santa Marta, essa última em terras privadas da antiga olaria do mesmo nome, ocupada em 1989. Ayrton Senna é, portanto, a última das ocupações registradas no bairro e situada na localidade de Sítio do Barbalho. A vida em Ayrton Senna expressa situações sociais vividas que demonstram a demarcação territorial das diferenças e, portanto, das distâncias espaciais e sociais como modo de preservar a ordem urbana de alguma forma ameaçada para aqueles que estão fora ou nos seus limites. Nesse caso, morar em Ayrton Senna, naquele momento, era uma forma de ter marcada, claramente, as distâncias espaciais, sociais e também simbólicas em relação aos que estão do lado de fora. O mundo dos supostamente iguais ou assemelhados não é, necessariamente, um mundo coeso e solidário, ou ainda um mundo com fortes laços de reciprocidade, embora estas se manifestem em muitas situações. A vida em Ayrton Senna é múltipla e construída por elementos que articulam individualidade, reciprocidade, ameaça física, emocional e psicológica e, ainda, de convivência pacífica. Na margem direita do rio Capibaribe, no limite mais próximo à água, predomina a ocupação do solo por uma faixa de população pobre, diferentemente do que ocorre em sua margem esquerda, tradicionalmente território dos segmentos abastados da cidade. Porém, diferentes territorialidades delineiam-se em ambos os lados do rio. Silenciosamente, acentua-se a pressão de grupos imobiliários sobre esse espaço ocupado pelos pobres, seja para o uso especulativo e a construção destinada aos segmentos de renda mais elevada, seja no sentido de afastar os pobres das cercanias, reavivando trechos que podem valorizar a margem oposta. Essa realidade tem se acirrado em face da situação de violência que atinge, de forma acintosa, quinhões do território dos pobres aí instalados. 313 5.2 DE COMO NASCEU A OCUPAÇÃO Fugindo do aluguel e da moradia com parentes, mais de 700 famílias ocuparam o espaço reservado, pelo poder público municipal, para o Parque do Barbalho, na Iputinga. A ocupação nasceu da iniciativa de um indivíduo que, em 5 de agosto de 1994, resolveu cavar o chão para fincar quatro paus, base do esqueleto do seu barraco. A ação, em princípio isolada, logo chamou a atenção dos transeuntes. Curiosos, indagaram a razão de sua atitude, aparentemente sem entender o significado do ato. Verbalizada a intenção, imediatamente emergiu uma corrente de adeptos. Todos postos em situação semelhante: falta de moradia livre dos custos que agravavam o orçamento doméstico, já suficientemente comprometido, ou carência de uma moradia desvinculada da relação de coabitação, ou sobrecarregada pela falta de condições materiais de vida. Foto 63: Momento da Ocupação. Fonte: Jornal do Commercio, 10/08/1994. Assim, foi sendo ampliado o número de famílias que, buscando a ocupação, lutavam por uma moradia. No relato de Maria 32 Vieira Bonfim (Moradora), um recorte das veredas percorridas pela população pobre: Morava na avenida do Forte. Pagava aluguel e já estava com três meses sem poder pagar. O meu proprietário morreu. Eu perdi meu emprego no dia um de dezembro. Ele morreu a partir do dia 15 de dezembro. No mesmo mês eu fiquei sem proprietário e sem meu emprego. Os filhos dele, com oito dias dele morto, chegaram pra gente desocupar as casas e eu fiquei sem ter para onde ir. Aí, chegou uma amiga minha e disse: oi, tem uma ocupação no Detran!33 . Você não quer ir pra lá? Eu disse: mas como, se eu não tenho nada pra fazer um barraco? Aí, ela disse: vá, arrume uma lona, um plástico e vá lá. Aí eu vim, 32Entrevista 33Área realizada em junho de 2005. pobre localizada no bairro da Iputinga próximo à área de Ayrton Senna. 314 marquei um quadradozinho. Nesse pedacinho, ficou eu e Maria, uma amiga minha e Linda, a filha dessa Senhora que mora aí de frente. Então ela disse assim: como você tem filhos pequenos, você vá pra casa de noite, você passa o dia aqui e a gente vem de noite. Nós combinamos: eu passava o dia e elas tomava conta de noite. [...] Não tinha o pai dos meus filhos, já tinha me deixado há quase ano. Eu fiquei numa situação difícil. O que fiz: arrumei um emprego lá em Torrões34 e fiquei trabalhando. Aí, eu combinei com elas pra vir de noite pra’qui e ia pra lá trabalhar. E meus filhos ainda na casa sem pagar, sofrendo pressão dos filhos do meu proprietário. [...] me botou na justiça. Aí eu recebi duas ordens de despejo, que eu não saía dela. Eu, aperreada, porque não tinha conseguido fazer meu barraco. [...] Mas eu consegui, peguei, entreguei a casa e vim embora. A ocupação é assim descrita por Neide35 Santana, Presidente da Associação dos Moradores do Barbalho: [...] essa área ficava muito, assim, ociosa. As famílias que moram lá nos Barbalho, filhos que vão crescendo, casando, as casa fica imprensado. Apareceu um Senhor, ele tava armando tipo um barraco, nessa área do Ayrton Senna, quando ele começou a armar, esse barraco, foi chegando mais gente, foi chegando mais gente [...]. A notícia36 rapidamente espraiou-se pelas localidades do bairro da Iputinga, ganhando outros bairros da cidade do Recife. Amigos, parentes, vizinhos em uma rede extensa de comunicação fazem chegar ao local “mais gente”. A Empresa de Urbanização do Recife-URB-Recife, responsável pelo controle urbanístico do tecido urbano, assim como pela guarda do terreno como representante do poder municipal, deslocou-se para a localidade. A imprensa foi cobrir o fato e divulgou-o por rádio, e televisão. Isso fez com que mais pessoas tomassem conhecimento da ocupação, como registra Osíris37 Pereira da Silva, “[...] eu vi na televisão. Aí do jeito que deu corri pra invasão mesmo, era melhor do que querer ficar e arriscar a vida das meninas”. Dessa forma, deixava os morros da Zona Norte do Recife, em direção às áreas planas e alagáveis. No dia seguinte, a ocupação ganhou as páginas dos jornais. O sistema de informações não tardou a provocar a afluência de pessoas provenientes do interior que se ajuntaram aos presentes. Vinham de 34Torrões é um bairro do Recife. realizada em junho de 2005. As informações colhidas da entrevistada indicam que era coordenadora do o Movimento Nacional de Luta pela Moradia (data não mencionada). Neide Santana no momento da ocupação era funcionária da URB-Recife. Segundo afirma, foi demitida nesse período pelo fato de ter apoiado a ocupação de Ayrton Senna. 36Um dos sistemas de informação ativado quando ocorre uma ocupação é a rápida rede de comunicação e mobilização entre familiares, compadres, vizinhos que, sabendo da situação de moradia do outro, avisa da ocupação. A partir daí desenvolve-se uma ampla forma de solidariedade. 37O entrevistado residia em área de barreira com risco de desabamento no Jardim Progresso, no bairro de Nova Descoberta (Morador. Entrevista realizada em maio de 2005). 35Entrevista 315 São Lourenço, Carpina, Camaragibe, Vitória de Santo Antão, Garanhuns e de diferentes cidades. Principiada a partir de uma ação individual, rapidamente foi encampada como ação coletiva, partilhada pela Associação de Moradores do Barbalho que assumiu, juntamente com a Comissão de Comando da Ocupação, o encaminhamento do processo organizativo e a intermediação com o poder público. Relatos extraídos das entrevistas indicam que a aglomeração de pessoas no terreno desocupado chamou a atenção da Presidente da Associação de Moradores do Barbalho, que se ateve a conversar com os presentes. Nessa hora, informa a Presidente, teria sido identificada pelos funcionários da URB, que lhe atribuíram a organização da ocupação: “[...] a URB já tava de olho, aí começou a dizer: tá tendo uma ocupação na área do beira rio Capibaribe, mas essa ocupação quem tá fazendo é Neide Santana”. Essa atribuição de responsabilidade, no entendimento da entrevistada, teria sua explicação no fato de ser membro do Movimento Nacional de Luta pela Moradia e do Movimento dos Favelados do Recife (MFR), e por causa disso, ter participado das ocupações, conforme relata, de: “[...] Chico Mendes na favela Arraes, de Iraque, Vila Felicidade, apoiei Roda de Fogo num projeto, então todas ocupação que acontecia dentro do Recife, aí vinham logo dizer que era Neide Santana”. Nessas circunstâncias, tomou a decisão de apoiar a ocupação, e narra: “[...] agora já que tão dizendo já que sou eu, agora eu vou assumir a ocupação”. Como afirmou, a iniciativa não teria partido dela, mas assumiu para dar apoio e enfrentar com a população a luta principiada. Matéria publicada no Diario de Pernambuco do dia 10.08.1994, Caderno Vida Urbana, p. B-3, registra o apoio do Movimento dos Favelados do Recife (MFR) ao destacar as palavras de George Padilha, um dos seus dirigentes: “Estamos apoiando a luta dessas pessoas porque é justa. Ninguém está tentando fazer especulação ou tumulto de nada. Tudo o que queremos é moradia”. O batismo do lugar, com o nome de Ayrton Senna, partiu de um outro integrante da ocupação que, ao fazer as instalações do esqueleto do seu barraco teria erguido a enxada, utilizada para cavar a terra, e dirigido-se aos presentes, dizendo: “o nome dessa ocupação vai ser Ayrton Senna!”. Em seguida indagado: “Vocês concordam, minha gente?” A concordância foi confirmada por meio de uma assembléia improvisada. Tratava-se de uma homenagem ao piloto de Fórmula 1, morto meses antes. A denominação do lugar assumiria, celeremente um teor estratégico, pois o desaparecimento do piloto, envolto em enorme comoção e com repercussão nacional e internacional, poderia contribuir, no entendimento dos ocupantes da terra, para uma maior divulgação 316 da ocupação. E, assim, servir de mecanismo de pressão para assegurar a permanência das famílias da terra, como atesta Eliete38 Souza, (Moradora), “[...] a gente achou que ia chamar a atenção”. O processo organizativo estruturou-se através da constituição de uma Comissão39 de Comando formada entre os ocupantes. Esse grupo assumiu diferentes atribuições, como: acompanhar a demarcação dos lotes, fazer a segurança da área, receber os representantes do poder público municipal. O terreno era demarcado pelas próprias famílias ocupantes, enquanto a Comissão recomendava a preservação de espaços de deslocamento, ou seja, espaços públicos, ruas. Aurino40 Marcelino (Comissão de Ocupação) revela o caminho adotado na organização do espaço, de início: “Marcava, cercava uma área, a gente pedia pra deixar um pedaço pra passar a rua [...] Aí só dividindo, aí tem pessoas que pegou um pedaço menor, outras pegaram terreno maior, aí ficou um maior e outro menor e assim ficou”. No horário noturno, a Comissão, adotando um sistema de revezamento entre seus membros, percorria a área, para se certificar de que as famílias41, que, de fato necessitavam da casa para morar, se encontravam nos lotes demarcados e dando continuidade aos barracos iniciados. Caso contrário, aquele local seria destinado a outra família. Esse sistema de vigilância e controle permaneceu durante todo o período da ocupação até a sua instalação concretizar-se, assegurando a terra às famílias que dela necessitavam. Capta-se das entrevistas relatos que enfatizam a sistemática adotada na terra, realizada sem rigor no que concerne à definição do tamanho de cada quinhão para erguer a casa, mas atendendo ao número de pessoas que afluiu à ocupação. Ao mesmo tempo, destaca-se, dos depoimentos, a mobilização interna para definição do pedaço de chão de cada um, isto porque pleiteavam “um lugar para botar a cabeça”. Tinha uma Comissão, mas não foi dividido (os lotes). Foi assim, chegou. Porque de imediato a gente queria um lugar para botar a cabeça da gente (Eliete Souza. Moradora. Entrevista em junho de 2005). 38Agente de Saúde. Entrevista realizada em junho de 2005. número de participantes dessa Comissão não foi devidamente confirmado. As indicações registradas pelos antigos participantes da Comissão indicam que o grupo teria sido formado com o número de 6, 10 ou 20 pessoas. Ou seja, ninguém informou com certeza, nem há registros escritos. 40Entrevista realizada em maio de 2005. 41Essa providência decorreu do fato de ter havido algumas ocupações de terreno por pessoas que já eram proprietárias de casa alugada ou de correr de quarto para aluguel. Identificada a situação, as pessoas eram excluídas da ocupação. Nesse caso, a Comissão exerceria, junto com os ocupantes, um sistema de vigilância e controle sobre a ocupação. 39O 317 Era muita gente querendo um pedaço, um lugar. A gente marcou com tira de pano, aí tive que me virá sozinha (Adriana Santos. Moradora. Entrevista realizada em maio de 2005). [...] ter onde botar a cabeça debaixo (Maria de Lourdes da Silva. Moradora. Entrevista realizada em junho de 2005). A aparente simplicidade do desejo transformado em luta e em pleito transbordava para um sentido mais amplo, “de um lugar para botar a cabeça”, assumindo esse território um sentido concreto, de um lugar que propiciasse a segurança de não precisar pagar aluguel; do repouso cotidiano no retorno da labuta diária; do canto dos filhos, da família, da realidade que preside o cotidiano das pessoas pobres habitantes da cidade do Recife. Razões por que enfrentariam e assumiriam a luta. Nessa dimensão, a casa seria moldada nas mãos das famílias ocupantes. 5.2.1 “FOI UM GRANDE COMBATE”42 – DERRUBANDO E RECONSTRUINDO Definida como área de preservação rigorosa e sob a responsabilidade do município, a terra ocupada tornou-se alvo de uma ação violenta do poder público municipal, operada pela Guarda Municipal da Cidade do Recife. Esta ação deixou marcas nos futuros moradores, provocando reação pública e resultando em uma atitude de recuo do poder municipal. Excedendo a sua competência, a Guarda Municipal, a de preservar o patrimônio público, ou seja, a terra destinada ao Parque do Barbalho, atraiu uma profunda animosidade, colocando em risco a vida daquela parcela da população recifense, em busca de um local de moradia. Em contraponto, a estreiteza das possibilidades de acesso à habitação catalisou a mobilização, arregimentou forças, até então aparentemente desconhecidas. As ameaças de expulsão acirram o combate. Notícias colhidas nos jornais locais apontam a intensidade do combate. O Jornal do Commercio do dia 10.08.1994, Caderno Cidades, p. A-2, estampa em matéria 42Termo extraído das entrevistas. Combate, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, significa ato ou efeito de combater, luta entre forças militares, de extensão menor do que a batalha e travada em espaço restrito entre grupos pouco numerosos. Combate também é sinônimo de batalha, luta, guerra. “A guerra nada mais é que um duelo [...] Cada um tenta, por meio de sua força física, submeter o outro à sua vontade; o seu objetivo imediato é abater o adversário a fim de torná-lo incapaz de toda e qualquer resistência” (CLAUSEWITZ, 1996, 7). “[...] a guerra não é somente um ato político, mas um verdadeiro instrumento de política, uma continuação das relações políticas, uma realização desta por outros meios” (CLAUSEWITZ, op cit., p. 27). 318 intitulada: “Tiros atingem os favelados”, relato sobre o confronto entre Guardas Municipais e a população desencadeada naquela localidade: Por pouco não termina em tragédia um confronto ocorrido ontem pela manhã entre Guardas Municipais e as mais de 800 famílias que invadiram um terreno na estrada do Barbalho, na Iputinga [...] As famílias tentaram deter a derrubada dos barracos onde estão instaladas e começaram a jogar pedra contra os guardas. [...] Houve tumulto e no corre-corre duas pessoas saíram feridas. Uma mulher desmaiou. Crianças choravam em pânico. Informações ainda extraídas desse jornal apontam para a iniciativa do Governo Municipal, frente à ocupação da terra, no que diz respeito à violenta ação da Guarda Municipal, assim como da posição assumida pelos ocupantes desse pedaço de chão ao anunciarem sua resistência: Apesar de toda a confusão as famílias avisam que não vão deixar o local. [...] Os líderes comunitários explicam que na segunda-feira (dia 7) foram procurados por funcionários da URB para uma tentativa de negociação, mas pediram que voltassem no outro dia, para que pudessem fazer um levantamento das famílias ali existentes. O secretário de Infra-Estrutura do Recife disse que abrirá inquérito para apurar a responsabilidade dos guardas municipais. O fato também aparece nas páginas do Diario de Pernambuco, no mesmo dia 10.08.1994, Caderno Vida Urbana, p. B-3, já citado anteriormente, com a denominação: “Guarda Municipal reage com tiros à invasão de um terreno na Iputinga” e descreve: [...] os soldados reagiram com tiros às pedradas dos favelados. O confronto terminou com duas pessoas feridas. O menor Carlos José Ventura de Andrade, 17 anos, levou um tiro no joelho [...] José Carlos Gama da Paz, 22 anos, garante ter sido atingido de raspão no braço esquerdo. [...] Eles (os guardas) derrubaram sete barracos e distribuíram pancadas. O clima ficou tenso pelo resto da manhã. Um grupo de invasores provocava os policiais, que permaneciam perfilados na entrada do terreno. Não houve diálogo. Às 10h50, um favelado atirou um sapato no Chefe da Guarda Municipal, o que ocasionou o segundo confronto. Durante cinco minutos, os policiais atiraram para o alto e espancaram invasores. Em maior número, estes terminaram reagindo com pedradas, conseguindo fazer os policiais recuarem até o ônibus e ir embora. A intensidade da reação pela guarda pública surpreendeu os ocupantes, uma vez que à frente da gestão do municipal estava o representante eleito Jarbas de Andrade Vasconcelos (1994-1996), para o segundo mandato como Prefeito do Recife, escolhido através do movimento denominado de Oposição Popular. Além do mais, as raízes 319 políticas do governante, de linha progressista, assentava-se em relação próxima com o movimento popular organizado. Do seu programa de governo, dentre os quinze pontos defendidos, constavam ações nas áreas de favelas e dos morros do Recife. Nesse contexto, o combate travado em Ayrton Senna indicava, aparentemente, a síntese de contrações construídas por direções antagônicas: assegurar à população o direito à habitação e à cidade e assegurar a preservação de áreas verdes e de lazer. O fato é que, estabelecido o combate, soluções rápidas necessitavam ser encontradas. Narram os moradores três investidas para sua retirada do território ocupado, esquadrinhado, dividido com tiras de pano, cordões, paus, gravetos e plásticos, e marcados por barracos em início de instalação. As tentativas de expulsão deixaram lembranças e doloridas memórias. Os relatos daquele momento registram, de forma emocionada, e por vezes interrompida, os acontecimentos vividos que, ao serem recordados, transformam-se num presente vivo. As expressões, “Foi horrível”, “Foi terrível”, “Foi difícil”, “Um grande combate” traduzem a intensidade dos acontecimentos. Atesta Eliete43 Souza: Mandaram os guardas municipais. Vieram. Atiraram no menino, que esse menino, hoje, é paraplégico. Balearam o fotógrafo que estava em cima da árvore fotografando tudo, que eles não tinham percebido. [...] Foi horrível! [...] A gente tinha o filho de outra colega [...] ele também foi baleado. Foi para o hospital, e a gente fazia aquela divisão, ajudava como podia [...] Uma senhora perdeu o bebê, minha sobrinha que caiu dentro da maré e não sabia nadar. Foi horrível! Foi um enfrentamento! Foi horrível! Partilha do mesmo sentimento em relação ao enfrentamento Maria José da Silva (Moradora), ao classificá-lo de “terrível!”. Vai adiante Severino44 Rodrigues de Souza Filho, alargando a compreensão dos fatos ocorridos: “Foi difícil. Teve muita confusão com a Prefeitura. A Prefeitura veio tirar a gente [...]”, no entanto, acrescenta: “[...] a gente nem saiu. Na época era inverno, foi muito difícil”. Deflagrara-se o movimento de resistência de uma parcela da população que ali se associava, sem prévia organização, assumindo uma posição de força em defesa de um local para habitar. O conflito instalado provocou o recuo da ação pública operada pela Guarda Municipal. Recolhe-se da fala de Maria 45 Madalena Rosa Bezerra o entendimento de que o incidente armado, interpretado como acidente pelo governo, fortaleceu a resistência, 43Moradora. Agente de Saúde. Entrevista realizada em maio de 2005. de Comando da Ocupação. Entrevista realizada em junho de 2005 45Moradora. Entrevista realizada em maio de 2005. 44Comissão 320 ganhou uma ampla cobertura da impressa e reverteu em vitória da população, como informa: Eu sou uma das primeiras. [...] Teve uma confusão foi na invasão tomando a força mesmo [...] entre os invasores e o pessoal da Prefeitura e nisso teve um acidente com um tiro. Um rapaz foi baleado, aí com o tiro a imprensa caiu em cima a nosso favor. Foi como nós ganhamos. Quero dizer, estamos até hoje podemos dizer que ganhamos. Nas circunstâncias vividas, a permanência no território ocupado dependeu, conforme assinala Edson46 Sabino Soares, de uma “[...] permissão forçada, não teve permissão assim”. A denominação da área, escolhida pelos participantes da ocupação, em acordo com suas avaliações, tornou-se elemento de peso na divulgação da ocupação pela impressa. Desta forma, favoreceu a “permissão forçada” no local, como prossegue o entrevistado, “[...] quando tornou aquilo mundial. Porque saiu em todos os jornal, foi uma coisa que se não fosse aquele ali, um menino baleado que através dele foi que também deu força da gente pra ficar aqui, se não fosse isso, eu acho que a gente já tava fora daqui já”. Foto 64: Construção dos Barracos. Fonte: Jornal do Commercio, 23/08/1994. As táticas utilizadas pela população para a ocupação do território emergem em dois momentos particularmente significativos, como aparece nos dois relatos seguintes. Neide47 Santana menciona o desenrolar da ação da Guarda Municipal, através de negociação com representantes do poder municipal, já presentes na área em disputa. E lembra, enquanto a população avançava e se instalava.“[...] porque ou a gente negociava 46Comissão de Comando da Ocupação. Entrevista realizada em junho de 2005. da Associação dos Moradores do Barbalho. Entrevista realizada em junho de 2005. 47Presidente 321 com a Prefeitura, com a polícia, enquanto a gente tava na frente do combate, eles tavam ocupando a terra [...]”. A divisão do território em duas frentes de ocupação funcionou como uma tática para o avanço da ocupação. Assim, um grupo seguia pelas proximidades da ponte de pedestres, enquanto outro avançava pela frente do Casarão do Barbalho em direção ao rio Capibaribe e Santa Marta. Desta forma, confundiam e dispersavam os guardas e, ao mesmo tempo, dificultavam o desalojamento da população. Essa duas frentes iniciais determinaram a moldagem do território de Ayrton Senna. Tomando de empréstimo interpretações de Clausewitz (1996), sobre a guerra, como prolongamento da política e seu reconhecimento da importância do espaço e guardadas as devidas proporções, pode-se dizer que a população realiza um confronto territorializado, reafirmando a definição do espaço como relação de poder entre pessoas ou grupos. A luta dos pobres, para a conquista do espaço urbano, renova práticas secularmente presentes na cidade do Recife, ora no enfrentamento com os proprietários privados, ora com o Estado. A ausência de políticas públicas efetivas de habitação instiga a ação desse segmento alijado do ambiente construído. O enfrentamento ocorrido propiciou a derrubada, por três vezes, dos barracos em início de construção, mas não significou a saída da população da área. Tornou-se flagrante o sentimento de que se encontravam em uma batalha, em uma guerra. Todavia, a intensidade das ações resultou em negociação célere, recheada de enfrentamento judicial também na justiça, mas que resultou na permanência da população no local. Com efeito, a ação do poder público, ao “consentir” na permanência dos ocupantes na área destinada ao Parque do Barbalho, parece pautar-se no reconhecimento da inexistência de uma Política de Habitação Popular Municipal abrangente, o que conduzia a respostas pontuais, gerando conflitos que eclodiam no espaço local. Mesmo assim, esse consentimento não representou a definição de uma agenda de compromissos para com os moradores da localidade. O PREZEIS concentrava sua ação em áreas pobres já consolidadas, deixando de incorporar, de imediato, as novas situações. A derrubada dos barracos instigou meninos a jogarem pedra na Guarda Municipal. Jovens, mulheres e homens, reunidos, não deixaram a retirada concretizar-se. Ainda Edson Sabino Soares: “A gente batalhou [...] porque se não fosse aquela batalha, a gente até hoje não tava aqui”. O mesmo sentimento com relação ao enfrentamento 322 ocorrido emerge da fala de Maria48 da Conceição de França Gomes, ao dizer: “Quando começou a ocupação era umas 600 famílias, a notícia foi grande, polícia [...] fomos à luta e ficamos”. A repercussão da ocupação suscitou diferentes apoios envolvendo a vizinhança mais próxima até o poder legislativo e a imprensa, com a cobertura dos acontecimentos. Recorre-se, agora, às informações colhidas da entrevista de Neide Santana, ao revelar os apoios recebidos: [...] a gente teve o apoio na época da comunidade toda, do bairro todo, porque a necessidade do povo era grande [...] a gente procurou a Justiça e Paz49, tivemo muito apoio da Associação dos Moradores da Vila União, da Associação dos Moradores da Iputinga, apoio da Associação do Detran [...] dessa ocupação se formou uma Comissão de Vereadores, na época também, pra gente ter acesso à câmara de vereador, e quem era dessa comissão na época era Fernando 50 Ferro, e eu não lembro mais dos outro não [...] (Neide Santana. Presidente da Associação de Moradores do Barbalho. Entrevista realizada em junho de 2005). Destaca-se, nas entrevistas, o apoio recebido do gestor pelo gestor municipal, no sentido de proporcionar ao cidadão a segurança que lhe é devida, como visto no depoimento abaixo. Agora pra ser sincero, teve uma pessoa que nos ajudou [...] Então, eu não posso também deixar de agradecer no tempo [...] era Prefeito o Doutor Jarbas Vasconcelos, porque toda batalha que teve, tinha aquele negócio todo aí [...] quando foi de manhã tinha três carros ali que era a segurança dele. Então eu e Neide ficou desconfiado e foi lá falar com ele. Aí ele disse nós tamo aqui pra proteger vocês, ninguém vai bulir mais. Então, desse momento pra cá foi mais tranqüilo (Edson Sabino Soares. Comissão de Comando da Ocupação. Entrevista realizada em junho de 2005). 5.2.2 A relação entre o Estado e a população A relação entre o Estado e a população tornara-se conflitante em face das disputas pelo espaço ocupado, e acirrada pelos acontecimentos desencadeados, durante o 48Moradora. Entrevista realizada em junho de 2005. Justiça e Paz referida é, na verdade, o Serviço de Justiça e Paz, uma das ONGs herdeira de parcela do trabalho desenvolvido pela Comissão de Justiça e Paz, extinta em 1990, pelo Arcebispo de Olinda e Recife Dom José Cardoso, que substituiu a Dom Hélder Câmara. O Serviço Comunitário de Justiça e Paz não tem vinculação com a Igreja. Presta assessoria ao movimento popular, particularmente, no que tange à questão da terra. 50Fernando Ferro era vereador pelo PT, posteriormente, elegeu-se Deputado Federal, mandato que exerce atualmente. 49A 323 processo de ocupação de terras públicas. Relatos recuperados das entrevistas, realizadas com moradores e informações obtidas através dos jornais locais, permitem reaver a versão da negociação com o poder municipal da população local. Acrescenta-se a isso informações obtidas junto ao Serviço Comunitário de Justiça e Paz do Recife. A Comissão de Comando e a Associação de Moradores do Barbalho assumiram a negociação com o poder público municipal. Neide51 Santana, Presidente da Associação, reconhece que “[...] depois que acalmou, a Prefeitura mandou um grupo aqui, negociar [...] para tirar a favela”. Proposta prontamente rejeitada, segundo a mesma depoente, assim se expressando: “Aí eu digo: olhe, eu não posso porque não fui eu que ocupei [...] eu só sou um apoio do Movimento de Moradia. O povo está aí porque é de grande necessidade”. Os impedimentos formais levantados pelo poder público relacionados à construção do Parque do Barbalho, em terras do Histórico Sítio do Barbalho, serviam de argumento no jogo da negociação. Em contraponto, a necessidade da habitação e a ausência de uma política para responder a essa demanda eram pontos defendidos pelos representantes da população. Além do mais, utilizaram, os ocupantes da terra da posição estratégica favorável, decorrente do vulto tomado pela ocupação. O contexto em que se formara a ocupação, na acepção da mesma entrevistada, e partilhada por outros entrevistados, foi favorável já que “[...] o poder público viu que não ia ter força, que já tinha tido uma violência. Eles vieram, conversaram”. Foi definido, como ponto de partida, o cadastramento, já mencionado, das famílias ocupantes. Esse gesto sinalizava o entendimento, mas persistia, no entanto, a perspectiva da retirada da população do local ocupado, pelo governo municipal, em face das restrições de ordem formal para uso habitacional daquele quinhão do território. Uma perspectiva do processo, desencadeado entre o Estado e a população em Ayrton Senna, também pode ser observada e acompanhada por intermédio de informações divulgadas nos jornais locais, como visto a seguir. Anuncia o Jornal do Commercio de 11.08.1994, Caderno Cidades, A-2: a “PCR (Prefeitura Municipal do Recife) vai entrar na Justiça para retirar favelados”. Expressa a matéria o compromisso assumido pelo governo municipal para com os ocupantes de Ayrton Senna, ao assegurar que “[...] até o final da semana, não serão retirados do local”. Esta decisão teria sido tomada em reunião realizada entre os 51Neide Santana, no momento da ocupação, era funcionária pública da Empresa de Urbanização da Cidade do Recife-URB, segundo relata “[...] quando a gente ocupou a Ayrton Senna [...] eu recebi uma proposta de (da URB) [...] que eu me afastasse da favela Ayrton Senna, porque, ou se não eu perderia o meu emprego. Aí eu analisei porque você querer dentro de um congresso pra representar o povo e de repente trair o povo, eu não faço isso [...]. Então falei pra eles, oh! eu vou ficar na ocupação apoiando”. A sua decisão teria resultado na demissão. 324 secretários municipais de Planejamento Sydia Maranhão, de Políticas Sociais, Salvador Soler Lostao, e o Secretário de Infra-estrutura e Presidente da URB-Recife, Luis Alexandre Almeida, a Comissão de Ocupação de Ayrton Senna e os advogados do Serviço Comunitário de Justiça e Paz Carlos Aguiar e Elijah Campelo. Contudo, a garantia da permanência informada pelo secretário Salvador Soler era acompanhada da confirmação da “[...] entrada da ação de reintegração de posse, na Justiça, pela Prefeitura”. Como outra decisão, fruto dessa mesma reunião, informava Sydia Maranhão a realização do cadastramento pela Prefeitura das famílias ocupantes da terra, seguida ainda da colocação de uma cerca no limite da ocupação. Acrescentava a Secretária que o objetivo desse cadastro: “É para evitar que mais gente vá se instalando”, enquanto a cerca podia ser vista como um ato de isolamento. No entanto, a população sai se tiver outro lugar para ficar, porque insatisfeita, e opondo-se à decisão de uma sair de lá e ficar ao relento ninguém quer”. possível ação de reintegração de posse na justiça pelo governo municipal, manifesta sua posição em tom de aviso, através das palavras de Edson Sabino (Comissão de Ocupação), conforme consta na matéria do Jornal do Commercio acima citada: “É bom que a Prefeitura saiba que a gente só Foto 65: Reunião entre ocupantes de Ayrton Senna e Secretários municipais. Fonte: Diário de Pernambuco, 23/08/1994. A divulgação da notícia de que o juiz da 2ª Vara da Fazenda Municipal, Francisco Manuel Tenório dos Santos, havia determinado a reintegração 52 de posse das terras do Sítio Histórico do Barbalho, ocupada pela população, que passou a denominá-lo de Ayrton Senna, não tardou, e gerou grande tumulto na localidade. Instalou-se o com a possível chegada do Batalhão de Choque da Polícia Militar e, com isso, a possibilidade de novos confrontos. Argumentava a Prefeitura que por tratar-se de uma área histórica não se destinava a uso habitacional. Mesmo após a decisão judicial o secretário municipal, Salvador Soler Lostao, garantia que não haveria retirada da população antes de serem 52A ação de reintegração de posse foi impetrada pela Empresa de Urbanização do Recife-URB-Recife responsável pela guarda do terreno do Sítio Histórico do Barbalho, localizado no bairro da Iputinga. Empresa de Urbanização do Recife-URB-Recife. Ação de Reintegração de Posse contra Neide Santana e Outros. Processo nº 001940213398). 325 concluídas as negociações com os ocupantes da terra, como informa o Jornal do Commercio do dia 20.08.1994, Caderno Cidades 1. Em mais uma rodada de negociação, marcada e realizada no dia 22 de agosto de 1994 com a Prefeitura, a população esperava que fossem definidos encaminhamentos pela PCR, no sentido de responder as suas necessidades de terra e de habitação, assegurando a permanência no local ocupado. Porém, tanto os ocupantes do lugar como os advogados que os assessoravam inseriam na pauta de negociação a possibilidade de remoção para outra localidade, conquanto tivessem essas famílias a garantia do acesso à terra de habitação e à habitação. Todavia, insistia o governo municipal na retirada das famílias daquele pedaço de chão e, a um só tempo, estabelecia critérios53 para a relocação dos cadastrados. Simultaneamente, ao agir da PCR e a decisão judicial sobre a reintegração de posse, o Serviço Comunitário de Justiça e Paz entrava na Justiça com um mandado de injunção contra a Prefeitura do Recife, requerendo que o Poder Judiciário estabelecesse um prazo para que a Prefeitura tratasse de regulamentar o artigo 105 da Lei Orgânica do Município (Diario de Pernambuco. 23.08.1994. Vida Urbana, B-3). Isto porque esse artigo define que “[...] as terras públicas, situadas no perímetro urbano, quando subutilizadas ou não utilizadas, serão destinadas, prioritariamente, obedecendo ao plano diretor, ao assentamento da população de baixa renda”. Além do mais, os advogados do Serviço Comunitário Justiça e Paz exigiam do Secretário de Políticas Sociais do município levantamento interpondo um direito de ação. Quer dizer, por meio dessa solicitação, este Serviço teria acesso a informações sobre os terrenos públicos disponíveis na cidade, sua localização e sua dimensão. Tais informações dariam suporte à busca de alternativas de soluções para a situação habitacional da população pobre citadina. Consta no documento do mandado impetrado como argumento à solicitação: Tal preceito legal (art. 105) se devidamente concretizado pelo município, com certeza iria possibilitar ao mesmo tempo uma maior disposição de terrenos cujo parcelamento ou edificação compulsória iria possibilitar uma integração compulsória, maior de certas áreas destituídas de infra-estrutura na malha urbana54 . 53Os critérios de prioridade foram os seguintes: famílias sem imóvel, famílias numerosas, famílias cadastradas em listas de sem-teto pela PCR, e casais idosos. Foram também definidos critérios de exclusão famílias que tivessem recebido imóveis de COHAB ou lotes através da Prefeitura do Recife (Diario de Pernambuco. 23. 08.1994. Vida Urbana, B-3). 54Documento constante dos arquivos do Serviço Comunitário de Justiça e Paz do Recife. 326 Adicionavam-se as medidas encaminhadas à entrada no tribunal de Justiça, pelo Serviço Comunitário de Justiça e Paz, de “[...] dois recursos contra a decisão judicial de conceder a reintegração de posse do terreno onde fica a favela Ayrton Senna à Prefeitura do Recife. Com esses recursos, o Serviço de Justiça e Paz evita que as famílias sejam retiradas do terreno” (Diario de Pernambuco. 23. 08.1994. Vida Urbana, B-3/4). Em síntese, o poder público municipal, perdendo força frente ao movimento de ocupação e defrontando-se com a repercussão da violência praticada – junto à opinião pública, com a mobilização de um grupo dos representantes do poder legislativo no sentido de intermediar o conflito, além da presença do movimento popular organizados do Recife – oficializou e divulgou a realização do levantamento dos ocupantes de Ayrton Senna. Ganhando os meios de comunicações, o anúncio do cadastramento provocou no local mais um profundo sentimento de desconfiança e medo. Isto porque fora anunciada também a presença da polícia para acompanhar o cadastramento, agora com o objetivo de assegurar a tranqüilidade daquela população. A insegurança provocada pelos acontecimentos ocorridos durante a ocupação, seguida do medo de um novo combate, motivou um ensaio de retirada do local. Nesse caso, a providência do Comando da Comissão de Ocupação gerou o apaziguamento da situação, comunicando aos ocupantes em tom de desafio, como narra Neide Santana que: “[...] se sair não entra mais”. Assim, ficou acertado, prossegue a entrevistada, que: “Amanhã vai vir um cadastramento que a gente conseguiu, negociar com o poder público, cadastramento não, levantamento das famílias, quantas entraram. [...] Eu e a Comissão [...] a gente sentou com eles, eles montaram uma equipe. E pegaram os nomes das famílias”. Delineavam-se os passos para o encaminhamento de uma ação negociada entre população e poder público, mas comprimida pelas alternâncias em avanços e recuos. As reuniões na Prefeitura do Recife tiveram, como interlocutores imediatos e mais freqüentes, os Secretários do município Salvador Soler Lostao 55 e Francisco de Assis56, responsáveis de definir os encaminhamentos com a população. As reuniões com a Empresa de Urbanização do Recife-URB foram assinaladas por discussões tensas, provocando a saída da Presidente da Associação, sendo as reivindicações dos moradores, 55Salvador Soler Lostao advogado com Mestrado em Desenvolvimento Urbano/UFPE. Foi Presidente da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife, colaborando, na ocasião como organizações populares da cidade do Recife. Participou da elaboração e negociação da Lei do PREZEIS, durante a 1ª gestão municipal de Jarbas Vasconcelos. 56Francisco de Assis Barreto de Oliveira Filho, ex-preso político, durante a ditadura militar; Secretário Adjunto de Políticas Sociais na gestão do Prefeito Jarbas de Andrade Vasconcelos (1993-1996); Secretario Políticas Sociais na gestão do Prefeito Roberto Magalhães (1997-2000), Secretário de Educação do Estado de Pernambuco (2003). 327 ocasionalmente, assumidas apenas pela Comissão. Em paralelo ao processo de negociação, os ocupantes davam andamento à construção dos barracos. Todavia, no decurso das negociações, não houve compromisso assumido pelo poder público de realizar um projeto de urbanização, nem uma ação mínima de definição do arruamento. Nesse caso, com o consentimento forçado, como definiu a entrevistada acima, repassava a PCR para a população a responsabilidade de sua instalação no território. Relatos colhidos das entrevistas apontam para pontos controversos quanto à ocorrência ou não de reuniões, envolvendo negociação com o Prefeito do Recife. Enquanto Edson Sabino Soares da Comissão de Comando da Ocupação afirma não ter havido reunião com o governante, outros entrevistados dizem que, em reunião entre a Presidente da Associação de Moradores do Barbalho, a Comissão de Comando da Ocupação e o Prefeito, o gestor afirmara “[...] que não ia poder tirar porque já estava tudo invadido, e não ia mexer com ninguém. Aí, pronto foi liberado. [...] veio a URB, chegou, marcou e disse daqui pra lá, como ele liberou, vocês pode ficar, daqui ninguém passa [...] essa parte é da Marinha”. Reconstruindo um possível diálogo entre os representantes da ocupação e o Governante, Eliete Souza (Moradora) situa, dentre outras reuniões com representantes do poder público, o encontro que, segundo sua interpretação, foi definidor para a ocupação definitiva na área: [...] muitas reuniões na Prefeitura. Então, Neide teve um momento com o Prefeito, que na época era Jarbas, e Neide disse a ele o que ele ia fazer com a gente, porque a gente tava morando em barraco de plástico, não era decente, não era seguro, fazia um bom tempo. Então, ela queria uma resposta dele. Então, ela falou:eu vou mandar o pessoal construir. E ele ficou calado. Então, quem cala consente. Então, na cabeça da gente foi isso. Aí a gente começou a construir. O mandado de injunção foi negado pelo Tribunal de Justiça do Estado a quem havia sido endereçada a solicitação. E a ação de reintegração de posse permanece tramitando57 na justiça, sendo o desdobramento desta ação alternada pela escuta em diferentes ocasiões das partes interessadas. A sucessão de fatos e embates ocorridos na área ocupada, as disputas judiciais recrudesceram o sentimento de insegurança da população. A proximidade do período 57Informação de 2005. verbal prestada pelo advogada do Serviço Comunitário de Justiça e Paz, Carlos Aguiar, em novembro 328 eleitoral, após a ocupação de Ayrton Senna, contribuiu, conforme assinalou o advogado do Serviço de Justiça e Paz, para dificultar o prosseguimento da divulgação nos jornais locais do desdobramento do processo de ocupação da terra. 5.2.3 Ocupação e permanência no embate cotidiano Pouco mais de dez anos após da ocupação da área, a incerteza paira sobre os moradores do lugar. A área carece de investimentos públicos em urbanização, de definição em relação à posse da terra. As maiores dúvidas da população de Ayrton Senna58 repousam sobre: a permanência no lugar; o futuro tratamento urbanístico a ser dispensado à área; a possibilidade de remoção para outro lugar; a garantia ou não dos investimentos das famílias em suas moradias. Essas indagações acirraram-se, como recordam os moradores, em decorrência de uma reunião, na localidade, com o Prefeito do Recife João59 Paulo, no período antecedente às eleições de 2004. Nessa ocasião, a população teria sido informada sobre um cadastramento60 a ser realizado na localidade, cujas informações61 subsidiariam um projeto de urbanização da área, após a eleição do Prefeito. Entretanto, nenhum trabalho foi iniciado. O sentimento de insegurança instalado, nesse quadro, reafirma a luta dos pobres para garantir o acesso à habitação e à cidade, ou como define Singer (1979, p. 33) “[...] a cidade capitalista não tem lugar para os pobres”. Indiferente à informação sobre a propriedade da “terra de marinha” ou da Prefeitura, o que estava em jogo, no momento da ocupação, “era morar”, como apreendido do depoimento de Maria62 José da Silva (Moradora) quando afirma: “[...] 58Há solicitação, a URB-Recife desde 2001, com processo formalizado e encaminhado através da Associação de Moradores de Poço Alto ao URB-Recife/DIUR/Setor da ZEIS, para transformação da área de Ayrton Senna em ZEIS. Essa solicitação inclui as áreas de Santa Marta, DETRAN, entre outras. 59João Paulo 1º gestão (2001-2004) e reeleito para a 2ª gestão iniciada em 2005. 60O cadastro, ao qual a população se refere, diz respeito às informações levantadas para o Projeto Terra Cidadã – Capibaribe Sem Palafitas, como parte integrante do Programa Capibaribe Melhor e encomendado pela Prefeitura da Cidade do Recife-PCR. Tratando-se de um grande projeto que inclui captação de recursos externos, indaga-se se as informações repassadas pela PCR foram de fato apreendidas pela população, ou se a linguagem empregada na reunião bloqueou a sua apreensão. Alguns dados desse cadastro constam no item 2.1 – Os habitantes de Ayrton Senna, acima. 61Cabe assinalar que se, encontra em fase de elaboração pela Prefeitura da Cidade do Recife o Programa Capibaribe Melhor destinando-se a uma ação abrangente nas margens do rio Capibaribe, através do qual a área de Ayrton Senna poderá ser incluída como espaço de intervenção pública. 62Entrevista realizada em maio de 2005. 329 disseram que era da marinha, da Prefeitura, eu sei lá de quem é, a gente queria lá saber de quem era o terreno, a gente queria era morar”. A incerteza quanto à propriedade da terra persiste mesmo entre os entrevistados, no dizer de Eliete Souza (Moradora). “Eu jurava que era da Prefeitura. E hoje eu não sei de quem é. E tem aquela questão porque diz que é da marinha e a gente fica assim”. Nas duas alternativas citadas enraízam-se informação de ser esse espaço uma área verde, por conseguinte, sob a alçada da Prefeitura do Recife. No caso, por ser de preservação rigorosa, a definição para uso habitacional implica alteração da legislação em vigor, restringindo a porção destinada àquele fim. A resolução dessa questão requer uma forte mobilização popular, lastreada no argumento de ser uma área de ocupação consolidada. A explicitação da origem da terra como sendo de marinha assenta-se no fato de ser esta uma área localizada à margem do rio Capibaribe, em sua várzea. No senso comum as terras margeando águas, situação comum no Recife, são conhecidas como de marinha. Mesmo incompleta, a informação circulava entre a população, indicando reconhecimento de determinações legais para o uso da área. Outrossim, na história da expansão urbana recifense, predominou a habitação dos pobres – o mocambo, erguido nos manguezais, locais que, definidos como área de marinha, eram desprovidos, naquele momento, de interesse para o capital imobiliário. Essas terras, reguladas por legislação, que data do século XIX, foram sendo apropriadas pelos segmentos mais abastados, detentores das informações e do poder econômico, e utilizadas pelo poder público para assegurar a expansão da cidade. Muitas se tornaram, na passagem do tempo, áreas de conflitos entre segmentos sociais diferentes, pobres e abastados, e entre os pobres ocupantes do lugar, e o poder público interessado na expansão, modernização e embelezamento da cidade. A incerteza quanto à propriedade da terra se, por um lado, pode constituir-se em fator de desmobilização, por outro, pode atuar como um recurso estratégico no sentido de assegurar, primeiro, a consolidação, definindo territorialidades, tornando assim mais difícil a retirada, e, somente depois, arregimentar a luta pela permanência com apoio em normas jurídicas. Essa perspectiva pode ser reconhecida na fala abaixo: A área era, é área verde, mas a gente tem direito a usucapião. E a gente também recebeu orientação do advogado. Olhe: como é uma área verde, não vou mexer muito não, vão consolidar. Aí eu fiquei naquela expectativa. Já tá 330 consolidado demais porque hoje a Prefeitura tem que urbanizar (Neide Santana. Presidente da Associação de Moradores do Barbalho). Dessa forma, em tom de justificativa, acrescenta a mesma entrevistada: [...] a gente tentou segurar o povo na área, mas a gente não puxou, assim como uma discussão, vamo resolver o problema do Ayrton Senna. Porque a gente tá na área verde. Então, eles ficaram com medo da Prefeitura e a qualquer momento querer tirar o povo, que hoje é difícil, pra gente é (Neide Santana. Presidente da Associação de Moradores do Barbalho). 5.2.4 A fragilidade da organização dos ocupantes da terra Passada a fase de conflito desencadeado durante a ocupação do espaço, o incipiente processo de organização daí emergente prossegue numa posição calcada em lutas reivindicatórias, no sentido de dotar o lugar de condições de habitabilidade. Com o passar dos anos, a frágil organização, despontada no momento da ocupação, vai paulatinamente esmaecendo impactada, por um lado pela ausência de retorno aos seus pleitos como: o Projeto de Urbanização, de moradias e da definição sobre a posse da terra reivindicada pelos moradores do lugar, e por outro lado decorrente da árdua luta pela sobrevivência pessoal e familiar e da construção da unidade habitacional. Estes últimos aspectos assumem posição proeminente desencadeados através de uma luta miúda, cotidiana e incessante. É possível pensar que tais fatores, em vez de instigar e fortalecer formas organizativas, contrariamente, parecem incidir, bloquear e inibir as alternativas mais efetivas de organização da população, deixando a entender que as poucas energias disponíveis são reservadas para momentos de grandes disputas, como a que ocorreu durante a ocupação de Ayrton Senna. Cabe considerar também que o fato de ser uma área de preservação rigorosa, portanto, sujeita a remoção dos seus ocupantes, instituiu-se uma espécie de pacto surdo entre os moradores amornando a pressão sobre o poder público de modo a assegurar, no tempo o processo de consolidação da ocupação do solo. Atitude assumida a partir de orientação dada pelo advogado que assistia a população, como tão bem frisou a Presidente da Associação de Moradores do Barbalho, Neide Santana. Nesse caso, o 331 arrefecimento do enfrentamento com o poder público passou a constituir-se uma estratégia para assegurar a permanência na área. Constatou-se no desenvolver das entrevistas com os moradores e antigos integrantes da Comissão de Comando de Ocupação a ausência de uma sistemática de reuniões ou modalidades de articulação que agregasse os moradores do lugar, na direção de uma luta coletiva, frente à problemática habitacional vivenciada. Dessa forma, passa permanentemente a ser atribuída a Associação de Moradores do Barbalho, entidade que abraçou a luta pela ocupação do terreno, a iniciativa de conduzir o processo de articulação, de enfrentamento com o poder público, de definir os dias de reuniões no tempo que avaliar necessário. Outras vezes, a atribuição é mais especificamente delegada à Presidente desta Associação. Nesse último caso, emerge uma situação mais próxima do personalismo que dá suporte a uma concentração de poder nas mãos da Presidente, de certa forma, pode-se pensar limitando o despertar de formas de organização coletiva. Tal fato já se fazia presente nos processos relacionados ao momento da ocupação do solo, como pode ser observado no depoimento da entrevistada ao recuperar o agir da ocupação da terra: “[...] mas Neide Santana (Presidente da Associação de Moradores do Barbalho) ajudou muito o povo. O povo lutando, os guardas municipais derrubava. O povo continuava. Neide Santana também dando aquele apoio” (Gilvanete Izabel da Silva. Moradora. Entrevista realizada em junho de 2005). Este depoimento permite observar ainda uma situação que oscila entre a perspectiva da ajuda, o reconhecimento do agir da Presidente da Associação alinhado a um sentimento de desamparo da população, que acolhe a ajuda, e que enseja nas formas de organização existente elementos contraditórios ao se pensar na direção da organização coletiva. Doutra feita, essa questão aparece na forma de incentivo à mobilização e organização da população “[...] se não fosse Neide [...] a gente não estava aqui não, porque Neide enfrentou com a gente [...] ia pra Prefeitura, fazia passeata, reunião” (Maria da Conceição da Silva. Moradora. Entrevista realizada em maio de 2005). Esse depoimento sugere diferentes formas interpretativas: por um lado, aparece em primeiro plano a pessoa que se encontra à frente da Associação, que leva o povo à luta por terra de habitação, reduzindo a força popular no grande combate; por outro lado, indica o sentido de junção dos moradores com a entidade a qual se consideram vinculados para enfrentar as lutas reivindicatórias. 332 Pesa, nos dias atuais, sobre a população, como serão expostos mais adiante os fatos relacionados à violência instalada no lugar há cerca de mais de dois anos, criando, assim, impedimentos a reunião de pessoas, em particular no período noturno. Torna-se diante destas circunstâncias prioritário a busca da segurança da família ou o recolhimento de todos os seus componentes como alternativa de resguardá-los, em parte, dessa situação. Observa-se que a constituição de processos organizativos de caráter reivindicatório ou no sentido das lutas políticas requer o enfrentamento, pelos habitantes de Ayrton Senna, de um quadro notadamente desafiante e de elevada complexidade. 5.3 FAZENDO A CASA: A MORADIA AUTOCONSTRUÍDA A autoconstrução por iniciativa própria é entendida, aqui, como resultado da ação empreendida pela população pobre para construir sua moradia. Caracteriza-se como um processo individual/familiar de construção da habitação que envolve profissionais da construção e, em situações específicas, amigos ou vizinhos. Difere da ação realizada coletivamente através da ajuda-mútua, como o mutirão empregado, por vezes, para a construção de unidades habitacionais. É possível pensar que, no país e, no Recife, em particular, a autoconstrução ganha impulso no espaço urbano com a abolição da escravidão e a precária absorção dos ex-excravos e outros segmentos sociais marginalizados em formas de trabalho formal e assalariado. No urbano recifense, as habitações autoconstruídas, próprias ou não, firmaram-se no tipo palafita, erguidas nos manguezais e em áreas alagadas, passando, posteriormente, as habitações autoconstruídas a galgarem os morros da zona norte e noroeste, a partir dos anos trinta do século passado. Essa prática tornou-se corriqueira para a população pobre. Os morros da zona sul, originariamente ocupados, através da produção convencional de habitação, a partir dos últimos anos da década de 1960, os denominados conjuntos habitacionais, cedem a ocupações pelas populações mais pobres que passam progressivamente ocupar as nesgas de terras entre aquelas construções consideradas non aedificandi sob a justificativa técnica da elevada declividade, a partir dos finais dos anos de 1970. 333 Os pobres fazem um longo percurso para ter acesso à moradia no meio urbano. A penúria de habitação a que estão submetidos permite recordar as condições de moradia do operariado, na Inglaterra, no período da Revolução Industrial, e na Alemanha, como analisada por Engels (1979). Narrada por moradores de Ayrton Senna, as condições de habitação, particularmente no início da ocupação, desvelam um quadro de pobreza, materializada na moradia, integrante da realidade urbana recifense por todo o século XX. A autoconstrução da moradia desvela as condições habitacionais, vividas no cotidiano, ao longo do processo construtivo e reveladas pelos moradores do local. O depoente, a seguir, expressa a dimensão alcançada pela questão da habitação no Recife. A profunda pobreza de parcela expressiva dos citadinos é desnudada pelo quadro por eles associado às dificuldades de acesso ao trabalho. Além de exprimir o ponto de partida da construção de sua moradia, e os diferentes momentos pelos quais passam aliados ao esforço construtivo. [...] eu fiz um quadradinho pequeno. [...] Ele era dentro da lama63 mesmo. Logo no começo achava que era melhor pra mim. Estava no aluguel. Vinha morar num canto meu. Morando mais rato, mais barata. Mas era melhor que tá pagando aluguel. Porque trabalhando de biscate, trabalho hoje e passa três parados ou quatro! [...] morava perto da maré mesmo. Quando chovia era água que entrava, que nem dentro da casa eu entrava. [...] aí depois eu vi que não tinha condições de morar mesmo. Aí foi que eu fui juntando um trocadinho e comprei esse barraco mais pra cima debaixo da ponte64 mesmo. Eu comprei e fui ajeitando devagarinho, aí terminei fazendo de tijolo (Renato Luis dos Santos. Morador. Entrevista realizada em junho de 2005). A lama do rio torna-se a fundação da casa. Nascida dentro da lama, forma um tipo de habitação construída como palafita que modela as margens do rio Capibaribe, acompanhando os seus meandros, compondo um ambiente que perdura na formação urbana recifense desde o final do século XIX. Assim, formando paisagem na poesia de João Cabral de Melo Neto, que denuncia a vigorosa contradição, que conduz a produção do tecido urbano. 63O entrevistado refere-se à margem do rio Capibaribe. ponte citada pelo entrevistado diz respeito à ponte de pedestre que faz a ligação entre a margem direita e esquerda do rio Capibaribe. 64A 334 O Cão Sem Plumas65 II Paisagem do Capibaribe João Cabral de Melo Neto Entre a paisagem (fluía) de homens plantados na lama; de casas de lama plantadas em ilhas coaguladas na lama; paisagem de anfíbios de lama e lama. _________________ Como o rio Aqueles homens São como cães sem plumas (um cão sem plumas é mais que um cão saqueado; é mais que um cão assassinado. Um cão sem plumas é quando uma árvore sem voz. É quando de um pássaro suas raízes no ar. É quando a alguma coisa roem tão fundo até o que não tem). _________________ Na paisagem do rio difícil é saber onde começa o rio; onde a lama começa o rio; onde a terra começa da lama; onde o homem, onde a pele começa da lama; onde começa o homem naquele homem. Difícil é saber se aquele homem já não está mais aquém do homem; mais aquém do homem ________________ 65MELO NETO, João Cabral. Antologia Poética. 7. Ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1989. p. 165-168. 335 Vale notar que, mesmo imersa em profunda degradação, a construção da casa, na acepção do mesmo depoente, cercava-se de esperança e desejos de alteração nas condições de vida. Ao ir habitar Ayrton Senna, assinala: “[...] Eu esperava que ia continuar a vida e ia ser bom [...]”. A incessante luta para prover uma moradia canaliza elevado nível de esforço. Morando nas proximidades do rio, admite a possibilidade de defrontar-se com a perda parcial ou total do seu empreendimento. Agora, Graças a Deus, não entrou água, não no barraco. Porque eu chamo de barraco. Mas quase que entrava! E eu não moro mesmo na beira da maré não, lá embaixo não. Porque tem gente que mora é aqui, e a maré é aqui na frente. Eu moro mais um pouquinho, mais uns 20m do rio, mas não chegou a entrar porque a base é alta lá atrás, aí chegou na metade da base, se chovesse mais tinha entrado (Renato Luis dos Santos. Morador. Entrevista realizada em junho de 2005). Embora a feição da maioria das unidades erguidas nesse espaço tenha sido modificada, muitas casas ainda preservaram as características iniciais. Em outros termos, o precário material utilizado na construção da casa não foi substituído ou apenas parte dele foi modificado no passar de quase onze anos de construção. Os determinantes econômicos que impedem as alterações das condições da moradia são, da ótica do depoente, enfrentados como o desígnio de força maior de em um dia prover a melhoria da casa. Não obstante, a depoente admite que, “quando eu puder”, alcançará a construção em alvenaria, ou seja, a realização concreta de um sonho, mesmo que supostamente num horizonte distante. Chegou umas pessoas ali, arranjou um barraco pra mim dizendo que estava desocupado e eu coloquei minha cabeça, meus filhos e ele (esposo). Só que era muito pequeno [...] Aí eu fiquei ajeitando, ajeitando até ficar assim, desse jeito. A Deus querer, quando eu puder, eu vou fazer de tijolo (Rosa Madalena da Costa. Moradora. Entrevista realizada em maio de 2005). Lenta e arduamente, a casa vai sendo construída. A autoconstrução espontânea representa um empreendimento alongado no tempo, abarcando oscilações da renda familiar e, sobretudo, a sua escassez. Desde o ponto de partida da ocupação do terreno, a autoconstrução da moradia ocorre em diferentes momentos, reunindo tipos de materiais diversos: papelão, plástico, taipa, madeirite, alvenaria, como aludem os entrevistados abaixo. 336 Até oito dias fiquei só segurando o terreno. Depois de oito dias, fiz de papelão, depois fiz de plástico e morando dentro. Comecei de tijolo dois anos depois. Hoje é um vão só, não tá dividida não. Falta terminar. Só tem só o piso feito. Terminar, rebocar e dividir (Gilvanete Isabel Silva. Moradora. Entrevista realizada em junho de 2005). [...] a gente teve uma dificuldadezinha, assim de começo, de fazer logo de papelão, depois começou a fazer de plástico, aí depois quando a gente teve um pouco de dinheiro a gente comprou madeirite. Assim, eu ia fazendo a minha casa com meu esposo. Nós nunca teve recebimento, assim de tijolo, paus, telha para reconstruir a casa não. Foi muito sacrifício que a gente fez (Adriana Santos. Moradora. Entrevista realizada em maio de 2005). [...] fiquei no barraco até [...] faz três anos que eu fiz isso aqui de alvenaria. Eu tava ainda num barraco de madeirite. Fui comprando madeirite e fui botando. Aí ficou de telha de brasilit. Essas telhas a mesma que eu usava. Comprei outras e vim pra’qui (Maria Vieira Bonfim. Moradora. Entrevista em junho de 2005). Vale notar a busca de minimização das dificuldades enfrentadas pela família. Aspecto que pode ser atribuído a uma extrema coragem, no enfrentamento de condições de vida tão adversas. Casos emergiram em que as portas da casa foram confeccionadas pela própria família, como forma de baratear ainda mais os custos de construção da unidade habitacional, e também como resultado de uma situação imposta pela condição de pobreza. Encontrando e enfrentando o morador o processo de produção de sua habitação mais ampliada possível de modo a possibilitar a sua reprodução social. A força e a energia empregadas na autoconstrução da casa ficam patentes na fala de uma entrevistada, que assevera “Foi muito choro, muita tristeza. A gente com medo de ser agredido por alguma violência”. Mas o grupo familiar sente-se recompensado pela luta, fato revelado na descrição do tamanho da casa e do tipo de material utilizado: “Hoje, a casa de alvenaria tem cinco cômodos: terraço, dois quartos, cozinha, corredorzinho pequenininho, um banheiro e uma área de lavar roupa”. A aquisição do material emerge associado ao tempo de sua utilização, como ressalta o depoente: “[...] Depois fui fazendo devagarinho de alvenaria. [...] sete a oito anos. [...] Falta piso, rebocar, só na alvenariazinha”. Pequenas quantidades de material vão sendo agregadas, lentamente: “Material vou comprando de pouquinho. 500 tijolos, 1 000, um saco de cimento. [...] Falta piso, reboco eu fiz”. Sendo pedreiro de profissão, o entrevistado foi construindo sua própria casa, contando permanentemente com a participação da esposa para realizar a tarefa, que assim desempenhava o papel de ajudante (Renato Luis dos Santos. Morador. Entrevista realizada em junho de 2005). 337 Com muito esforço, com muita luta e com muito suor, assim, freqüentemente, referem-se os moradores de Ayrton Senna à construção de sua casa. A construção é uma ação progressiva, que envolve e associa uma conjunção de elementos em sua composição, absorve e ocupa em um tempo indefinido todo o grupo familiar, no fazer e na busca dos meios operacionais e financeiros para conseguir. Uma síntese desse universo pode ser extraída da fala de Sandra Cleide da Conceição (Moradora. Entrevista realizada em maio de 2005), ao descrever o procedimento adotado na construção da sua habitação, através de um modo de fazer, segundo uma espécie de superposição, onde a casa mais recente absorve a anterior. A feitura da casa dispôs de um pedreiro contratado, contou com recursos oriundos da indenização do chefe da família, visto “que ele trabalhava na cerâmica”. A construção era feita no final de semana, porque o chefe da família trabalhava de biscate, e também porque, durante o final de semana, era ajudante da obra. Por conseguinte, este trabalho tinha uma jornada de trabalho contínua, sem descanso, durante o período em que a construção era intensificada. Gradativamente, foi substituindo os materiais inicialmente utilizados até fazer uma casa em alvenaria. [...] o barraquinho ficou pra dentro. Aí a gente fez caixão e cobriu essa parte, levou assim uns três meses. Porque a gente se organizou, quando ele recebeu a indenização comprou logo o material. Tava chovendo muito, a sorte foi que parou de chover aí foi rápido. [...] A casa tem uma cozinha, um banheiro, dois quartos, a sala de entrada tem área grande. Meu quintal é grande tem plantação de cana, acerola. Tem uma área de serviço atrás. Agora só falta o acabamento. [...] É telha brasilit, só falta fazer o piso da casa, reboco. Capta-se, dos dois depoimentos seguintes, a reafirmação do procedimento adotado na compra do material construtivo e a presença do pedreiro na construção da casa. Em poucas situações, alegam os entrevistados, contaram com o apoio das famílias, mesmo que de modo esporádico. As razões apresentadas convergem para um ponto comum: a falta de condições financeiras para tal. Diante desse quadro, torna-se inviável contar com a participação dos demais membros da família para realizar esse empreendimento, o que reforça a idéia de que a autoconstrução realizada pelos pobres urbanos, nos dias atuais, é uma atribuição da família nuclear conjugada a uma luta ininterrupta pela sobrevivência. 338 A gente foi comprando os materiais de pouquinho. [...] de madeirite. De alvenaria, demorei pra fazer. Passou um ou dois anos. Começou a comprar os material, meu irmão me ajudando e meu marido também, compramos tijolos. [...] Os barracos começava pingando. Aí comecei a comprar material. A gente mesmo pagando pedreiro. [...] olhe o piso como está. Ficou muito mal dividida, eu acho. É de cimento. Pior tava que era barraco de tábua (Maria José Pereira. Moradora. Entrevista realizada em junho de 2005). [...] eu fui fazendo aos poucos. Porque eu não tinha condições de fazer, aí eu fui trabalhando e comprava um pouco de tijolo, no outro mês cimento (Aurino Marcelino. Comissão de Comando da Ocupação. Entrevista realizada em maio de 2005). A localização do terreno, à margem do rio Capibaribe, permitiu a Osíris Pereira da Silva (Morador. Entrevista realizada em maio de 2005) fabricar o tijolo de sua casa, adotando procedimentos da própria olaria, cozendo-os para torná-los mais resistentes. Mesmo assim, destaca “o problema” da compra do restante material de construção, quer dizer, os limites financeiros com os quais se defrontava para adquirir esse material. Isso porque, como ressalta, “Eu fiz sozinho essa casa”. Foi construindo de plástico, depois com um tempo aí eu fiz de taipa, de taipa também ela não conseguia ficar em pé que foi assim de uma madeira fraca, aí construir de tijolo, eu mesmo fiz esses tijolo, como a Senhora pode ver aí, eu mesmo fiz. Fiz sozinho. Queimei os tijolos, fiz na caieira e consegui fazer a casa. Faz uns 12 anos que a gente tá aqui, essa casa tá mais ou menos na faixa de uns 8 anos. O material, esse que era o problema. O cimento comprava dois saco, um saco, fazendo aos pouco, não ia comprar tudo de uma vez ia fazendo aos pouco. Eu fiz sozinho essa casa. Hoje ela tem 3 cômodos: terraço, dois quartos e cozinha e sala e banheiro. As condições das moradias autoconstruídas e a persistência da precariedade do material utilizados na construção da casa, para os casos em que não se registrou substituição desse material, imprime, na paisagem, a noção de que o tempo não passou ou que os acontecimentos não se tornaram esteio para alterar, mesmo que minimamente, a realidade vivida nos quase onze anos de duração. A interrupção do processo de construção da casa emerge como um sintoma dessa realidade. As condições da unidade habitacional tornam-se, nesse caso, testemunho das condições de pobreza aí enraizadas e cristalizadas. Interessante observar que, para muitos dos entrevistados, a habitação só assume status de casa quando construída em alvenaria, ou seja, ao ser de papelão, plástico, madeirite, taipa, a sua denominação é barraco. A construção em alvenaria galga o posto de 339 casa, concedendo a entrada no mundo civilizado, no urbano. Tornando-se de alvenaria, ao que indica, parece distanciar-se de formas primitivas de habitação, mas, sobretudo, afasta-se, simbolicamente, do quadro mais degradado de pobreza. É com orgulho que a depoente, citada a seguir, revela ter sido a primeira moradora a ter uma casa de tijolo, na ocupação. Nesse caso, exclui-se das casas erguidas no processo evolutivo com diferentes tipos de material construtivo. Porém aproxima-se das demais no tempo utilizado para a construção e na lentidão da aquisição do material. Foi construída logo de tijolo. A minha casa foi uma das primeiras a ser construída, todo mundo dizendo que não ia ficar. [...] foi construída aos pouquinhos [...] Até hoje faço. Tem onze anos e eu ainda estou fazendo, não terminei. Dois quartos, sala, sala e banheiro. Agora estou botando a minha cerâmica. [...] Passaram muitos pedreiros (Maria Madalena Rosa de Souza. Moradora. Entrevista realizada em maio de 2005). Outro aspecto que chama a atenção, nessa área, é a ausência do uso do termo mocambo66, longamente utilizado no Recife, mesmo quando o tipo de material empregado na construção da casa corresponde à classificação67 para esse tipo de habitação. Os braços que constroem a moradia não o fazem no processo de ajuda mútua, mesmo se tratando do vizinho ou de um parente. É, pois, o pedreiro, o profissional que desponta nessa relação. Entretanto, constata-se uma distância entre os valores cobrados pela diária do pedreiro na sua relação de mercado e os valores cobrados na relação de trabalho da construção da casa em Ayrton Senna. Nesta área, o preço faz parte de um acerto entre as partes, mas são definidos em conformidade com a disponibilidade de recursos do contratante e mediante a aceitação do contratado, gerando como resultante uma queda do preço em face do mercado fora da área. Trata-se, portanto, de um valor inflacionado, pois esses valores situam-se num teto condizente com os recursos disponíveis do contratante, morador da localidade. Um contrato, ou um trato informal, determina a relação de trabalho. Em regra, o contratante participa da feitura da casa como ajudante ou na realização de trabalhos pontuais. Como a construção da casa ocorre num 66Mocambo, usada largamente no Recife para designar a habitação dos pobres (FREYRE, 2000; CASTRO, s/d; BEZERRA, 1965; BARRETO, 1939; RIBEIRO, 1939), e no Nordeste (FREYRE, 1934) a palavra é designada como sinônimo da habitação da população dos pobres. Para as gerações mais jovens, os habitantes dessa localidade, caiu em desuso. Supostamente, esse fato estaria associado à divulgação de outras nominações, a exemplo de barraco, atribuídas à habitação dos pobres, pelos meios de comunicação tendendo a homogeneizar os termos no país. 67Sobre a descrição da habitação tipo mocambo: ver Capítulo 2. 340 tempo estendido, o profissional contratado assume a tarefa quando se encontra disponível, ou seja, sem outro trabalho que lhe assegure maiores rendimentos. A sua participação, portanto, pode ser compreendida como uma forma de biscate, ou um trabalho que, em face do valor de mercado externo, a área é realizada por um preço deprimido. A sistemática de contratação é observada no depoimento seguinte: [...] eu sou ajudante, mas sempre [...] com aquela união com os pedreiros que moram aqui. Porque se a gente disser que vai pagar a gente ta mentindo, porque ninguém tem dinheiro pra contratar um pedreiro. [...] é 25 conto [...] o dia dele (do pedreiro). Eu por exemplo, eu dou aqui um almoço [...] A pessoa trabalha três dias eu pego 30 conto e dou à pessoa. [...] Aqui é assim (Edson Sabino Soares. Comissão de Comando da Ocupação. Entrevista realizada em junho de 2005). Em suma, o sistema de pagamento difere das regras e valores do mercado. Define-se na confluência entre as necessidades de quem contrata e a disponibilidade de quem exerce a atividade ou vice-versa. Ou seja, firma-se numa dupla relação de troca monetarizada, objetiva, determinada pela situação financeira das pessoas envolvidas; e, no verso da medalha, concretiza-se uma outra subjetiva, associada a futuras possibilidades de realização de outra tarefa nas mesmas condições. Ainda como afirmado no relato abaixo, o sistema de pagamento é assegurado no decorrer do processo construtivo. Era um, ajudando o outro. Ajudando assim, meu vizinho ele tá sem trabalhar, aí meu marido se juntou com ele e disse: vou comprar o material. [...] eu dou um trocado a tu. Não era aquela cobrança, mas ele também precisava, porque ele também tinha filhos (Eliete 68Souza. Moradora. Entrevista realizada em maio de 2005). No desencadear da construção da casa, sobressai fortemente a participação da mulher, seja na compra do material quando trabalha, seja na produção ou gestão da construção da casa, como foi destacado por Renato Luis dos Santos (Morador. Entrevista realizada em junho de 2005), “A mulher trabalhava, faziam uma cotinha e compravam o material”. A prática da autoconstrução espontânea, em Ayrton Senna, desmistifica a idéia de que os pobres constroem, na atualidade, suas casas a partir de um processo coletivo de 68Eliete Sousa é Agente de Saúde em Ayrton Senna, através do Programa Saúde da Família. 341 auto-ajuda ou de ajuda-mútua. As condições de pobreza impõem uma ininterrupta luta pela sobrevivência da família. Muitos vivem do arrecadado cotidianamente, não há reservas. Para além da sobrevivência, todos experimentam busca dos meios para prover sua moradia, construí-la. Em outros termos, essa condição exige um esforço redobrado para angariar recursos destinados à construção da unidade familiar. 5.3.1 Das formas ao tempo As formas sucedem-se, tomando corpo e engendrando novas formas, ganhando diferenças e assegurando a persistência de traços antecedentes e fazendo brotar novos contornos na confecção da casa. Moldam-se formas no uso do material empregado desde o papelão ao plástico, a taipa, a madeirite, a alvenaria, sem percorrer uma seqüência obrigatória e, por vezes, engendrando simultaneamente diversas casas ao longo do tempo. As moradias autoconstruídas em Ayrton Senna perseguiram formas definidas na passagem do tempo, do tempo vivido na cotidianidade, e prosseguem na caminhada de constantes processos autoconstrutivos. Assim, desenharam-se no tempo, tempo que, segundo o pensamento de Elias (1998), constitui-se da sucessão de acontecimentos; e que, na interpretação de Santos (1997), encontra-se relacionado aos eventos, que fornecem elementos capazes de estabelecer a relação tempo e espaço. Dessa forma, os homens “[...] utilizam percepções marcadas pela aprendizagem e pela experiência prévia, tanto a dos indivíduos quanto a acumulada pelo suceder das gerações”. (ELIAS, 1998, p. 33). Essa capacidade de apreender experiências que são transmitidas entre gerações favorece, “[...] o aprisionamento e a ampliação progressiva dos meios humanos de orientação”. Tomando-se ainda de empréstimo a acepção de Elias (op. cit., p.35) sobre o tempo, pode-se pensar que tais experiências “[...] pressupõe um riquíssimo patrimônio social”, que são incorporadas ao modo de construção da unidade habitacional. Para Saramago (1997, p. 47), a concepção do tempo apreende o sentido de uma passagem guardada na memória, que se reflete habitualmente quando alguém se refere ao tempo: “[...] foi ontem, o que dissemos foi há muitos anos, o tempo não é uma corda que se possa medir nó a nó, o tempo é uma superfície oblíqua e ondulante que só a memória é capaz de fazer mover e aproximar”. Essa percepção propicia, no sentido dado ao tempo, uma visão de permanente atualidade. 342 Ganha força o sentido do tempo no resgate da história narrada pelas famílias em Ayrton Senna. A reconstituição dos momentos vividos reveste-se de profunda atualidade, acentuada pela progressividade dos acontecimentos, das iniciativas, das possibilidades, mas também dos estancamentos e das interrupções da construção da casa. Em Ayrton Senna, a multiplicidade do material empregado na confecção da habitação, as variadas formas assumidas destas unidades habitacionais, as modificações introduzidas ou a persistência dos materiais utilizados e os acontecimentos associados ao processo autoconstrutivo transformam e atualizam a autoconstrução. Na autoconstrução por iniciativa própria ou espontânea, a família assume, individualmente, a responsabilidade de erguer sua casa. Enfrenta um agir cotidiano marcado por uma espera prolongada. Depende exclusivamente das condições reunidas e do modo de gestão dos escassos recursos disponíveis. O (a) chefe da família assume a atribuição de assegurar a manutenção do grupo familiar e de criar os meios necessários à reprodução social. Isto é feito através do salário deprimido ou dos ganhos ocasionais obtidos com trabalhos incertos. Realidade que exige do grupo familiar buscar a junção do trabalho de outros membros para suprir a sua sobrevivência. Situação indicativa da sobrecarga assumida pelo grupo familiar, no processo de produção e reprodução social. O tempo da autoconstrução da moradia espontânea envolve uma variedade de acontecimentos que, de tão interligadas, ressoam como se vividas no presente, ou transportam-se aos dias atuais. As descrições, as narrativas dos entrevistados demonstram o alinhamento das conexões realizadas por meio de diferentes elos, que se articulam ora de modo pensado, ora de formas inesperadas. Esse tempo da autoconstrução relaciona-se à disponibilidade de recursos pela família, angariados com pequenos ganhos, “ganchos”, biscates, serviços ocasionais, trabalhos incertos, ou através de uma relação formal de trabalho estabelecida no mercado. Resultam do manejo dos frutos do trabalho precário, reservando-se daí a parcela destinada à autoconstrução da moradia. Revela-se, nos relatos, o comprometimento familiar com a construção da unidade habitacional, confirmando-se quando os recursos oriundos de indenizações, por dispensa de trabalho, são canalizados para a construção até que a moradia atinja o status de casa. Assim, associa-se a construção da casa a um processo de exclusão do mercado formal de trabalho. Gera-se um movimento contraditório de saída do trabalho e de melhoria das condições da habitação. Em suma, o desemprego torna-se, por vezes, a fonte de financiamento da autoconstrução da habitação, como visto nos relatos abaixo. 343 [...] fiz de plástico, todo de plástico, aí saiu uma indenização que fazia muito tempo do BomPreço (supermercado ) [...] oito ano [...] eu comprei um madeirite e de lá pra cá [...] 12 anos que a gente ta aqui. É comprando um milheiro de tijolo, quinhento, ninguém aqui nunca me deu uma ajuda aqui [...] aliás ninguém aqui teve ajuda, ninguém, aqui é na força e vontade mesmo, e coragem entendeu? (Edson Sabino Soares. Comissão de Comando da Ocupação. Entrevista realizada em junho de 2005). A menina que era mais nova foi trabalhar, logo cedo, num bar. Começou cedo pra poder me ajudar. Aí a gente cresceu ele, (o barraco) fez maiozinho. Fizemos de madeirite e há três anos foi que meu menino trabalhava, quando saiu desse emprego ele me deu a indenização R$1.500,00 (um mil e quinhentos reais). Eu fiz só o quadrado de alvenaria. Quando foi o ano passado, foi que a menina saiu do emprego [...] aí fez a divisão, dois quartos, um terraço, uma sala, cozinha com banheiro (Maria Vieira Bonfim. Moradora. Entrevista realizada em junho de 2005). [...] minha esposa trabalhava, conseguiu um emprego em uma creche [...] foi indenizada [...] ela recebeu parte, também aí ajudou. Aí conseguimos deixar onde está aqui. Não tá pronto ainda, ainda falta muita coisa, mas devagar a gente chega lá (Aurino Marcelino. Comissão de Comando da Ocupação. Entrevista realizada em maio de 2005). Demonstram as narrativas acima que a autoconstrução mobiliza o grupo familiar, reservando e drenando recursos oriundos do trabalho dos seus componentes para a construção da unidade habitacional. Fato que, passo a passo, na trajetória da construção da moradia, segue e estabelece-se no tempo dos acontecimentos, aqui integrando o movimento de vinculação e desvinculação do mercado de trabalho. Os caminhos para a construção da habitação, por vezes, se fazem por veredas tortuosas, como bem aparece na fala da entrevistada: Pior eu já tive. Morava dentro d’água, assim na lama. Agora eu tenho uma casa. Posso dizer que tenho uma casa. [...] Uma favela, mas eu tenho uma casa. Porque esses anos todinho e eu não tinha condições de construir minha casa. [...] eu paguei um preço muito grande [...] Pra eu fazer essa casa eu tive que ter um aneurisma, me aposentar, pra tirar o dinheiro, pra fazer a casa (Maria69 do Socorro da Silva. Moradora. Entrevista em junho de 2005). A satisfação da conquista da moradia contrasta com os acontecimentos que a viabilizam. A interpretação da entrevistada assevera o preço da permuta involuntária e a 69A entrevistada acrescentou ter ficado em benefício por um período de nove meses, sendo aposentada em seguida. Com o retardo do pagamento do benefício, formou-se uma poupança que viabilizou a construção da casa. A casa tem três quartos, sala e banheiro. Os recursos foram insuficientes para a aquisição das portas. 344 falta de condições anteriores para construir a casa, demonstrando, assim, a vulnerabilidade a que está submetida a população pobre. Denuncia ao mesmo tempo em que traduz as formas de acesso à habitação e à cidade pelos segmentos de mais baixa renda. O tempo alongado: o tempo “devagarzinho” 70 Santos (op. cit., p. 211-213), ao discutir sobre o tempo, expressa a importância de contrapor, para uma visão mais alargada, a noção de tempo rápido à de tempo lento que àquela se antepõe. Esta noção para o autor exprime quantidades relativas: uma frente à outra, e entende que ela contém a vantagem de ser objetiva. Sua discussão confronta a distinção entre tempo longo e tempo curto proposta por Fernand Braudel (apud SANTOS, 1997, p. 212), caracterizando-se, nesse caso, o tempo longo por situações estruturais, respondendo pelos “[...] movimentos de fundo, incompletamente apreendidos através do tempo curto”, enquanto o tempo curto representa as situações conjunturais. Ao afirmar que a relação entre o tempo rápido e o tempo lento é relativa, Santos (op. cit., p 212) acrescenta que “[...] a contabilidade do tempo vivido pelos homens, empresas e instituições será diferente de lugar para lugar”. Defende que não existindo tempo absoluto, há “tempos intermediários”, que amenizam a severidade contida na noção de tempo rápido e tempo lento. O tempo a considerar, na análise do autor, não se refere ao tempo das máquinas “[...] mas o das ações que animam os objetos técnicos”. Lembra também que no passado a justaposição do tempo rápido ao tempo lento tornava-se possível, no mesmo subespaço, retratando uma espécie de dualidade ou evolução paralela entre o setor moderno e o tradicional. Transportando o debate para os dias atuais, assinala Santos que o tempo rápido não abarca a totalidade do território, nem toda a sociedade. Havendo, portanto, em cada área, múltiplos graus e modalidades que se ajustam. Entretanto, em face da globalização e seus efeitos locais, “[...] os tempos lentos são referidos ao tempo rápido, mesmo quando este não se exerce diretamente sobre lugares ou grupos sociais” (SANTOS, op. cit., p. 213). Aqui, no caso de Ayrton Senna importa apreender a contabilidade do tempo vivido e exposto pelos homens no curso da construção de sua moradia. Lastreando-se na 70Expressão freqüentemente utilizada pelos depoentes ao referir-se ao tempo utilizado no processo de construção da unidade habitacional. 345 idéia de um tempo intermediário, que nessa área de estudo parece mais se articular à noção de tempo lento, constata-se, a partir do depoimento da moradora, uma forte presença de um tempo alongado no passo lento dos eventos cotidianos, ou seja, um processo de produção da moradia efetivamente desencadeado “devagarzinho”, como expõe a depoente: Agora que tá construído (o barraco), tou comprando os tijolos devagarinho. Já ta ná metade. [...] num mês a gente compra os tijolos, no outro compra a areia e o cimento. Agora vou ver se acabo de levantar (a casa) (Severina Maria dos Santos. Moradora. Entrevista realizada em maio de 2005). Um sentimento de paciência, fruto também das circunstâncias vividas cotidianamente, prevalece, enquanto seu agir parece perder-se no tempo do construir e reconstruir contínuo de sua moradia. Expressões como: “aos pouquinhos”, “quando podia”, “devagarzinho”, “um barraquinho” extraídas dos depoimentos apontam para a permanente interrupção da construção da moradia, ou a sua construção alongada no tempo e contraditoriamente para a constância do erguer da casa. No diminutivo, o sentido das palavras permite conceber uma conotação dada pelos depoentes da existência de uma parte menor, amesquinhada, depreciada. 5.4. ENTRE OS LIMITES E A AÇÃO – LUTA E DESENCANTO Duas ordens de questões aparecem quando se abordam os limites enfrentados pelos ocupantes de Ayrton Senna, no seu viver cotidiano: a expectativa frente à ação do poder público e a violência enfrentada pelos moradores pobres. Se, no momento da ocupação, a guerra constitui-se pelo embate com o poder público municipal, guardião das terras ocupadas, durante a entrevista constatou-se que a guerra, nos dias atuais, era mais intestina. Era uma guerra de indivíduos e famílias desarmados, acuados e desprotegidos frente à penetração da violência em suas casas, suas ruas, seus caminhos, seus espaços de convivência. A conquista da moradia, entremeada de tantos esforços, envolvimento da família e no decurso de anos, parece agora solapada por uma questão de maior envergadura: uma surda busca de garantia da vida. Nessas condições, a organização para 346 lutas reivindicatórias por melhores condições de habitação perde potência, arrefece o poder de embate, reacendendo, de outro canto, um forte desejo de sair do lugar. A luta por habitação desencadeada, quando da ocupação da terra, estimulava o olhar para um outro horizonte. Os caminhos palmilhados para autoconstruir a moradia prometia a vida livre do aluguel e da coabitação, melhores condições de habitabilidade asseguradas pelo poder público. A questão da violência fez o investimento para a melhoria da casa, com recursos escassos, entrar em compasso de espera. Conquistas cotidianas, obtidas na construção da moradia, aparecem, nesse momento, como que sufocadas. A violência, que se abateu sobre a localidade, desviou o curso do desejo de permanência no lugar, alterou as possibilidades de reunir forças, aparentemente frágeis, de organização interna para reivindicar melhoria das condições habitacionais. Essa violência era mencionada com reserva por alguns, muitas vezes cifrada em gestos e olhares captados no decorrer das entrevistas mas, em determinadas conversas, manifestada de modo explícito, embora com a solicitação de não publicização dos nomes71 dos depoentes. A realidade vivida no local de moradia pode ser sentida através dos relatos abaixo: [...] houve uma violência muito grande no ano passado, no período de novembro e dezembro. Foi uma luta muito grande, aí na invasão. Invadiram barraco, levaram as coisas. Aí acontece que a gente queria terminar, (a moradia), mas meu marido ficou tão triste que disse: não vou fazer mais nada nessa casa. Como agora eu tô pensando se termino ou não. Tô, sem vontade. [...] aí devido essa violência, esse clima de cada dia. Aparecia botava fogo num barraco, então as pessoas ficavam traumatizadas, com medo. Eu queria sair daqui porque a violência tá muito grande. Eu queria sair daqui ou ser indenizada ou ter um canto pra gente ir. Mesmo aqui esse lugar tá muito visado. Comparando o momento da ocupação com os últimos meses, acrescentou a moradora, a tensão de agora seria maior, porque “[...] teve dia aqui da gente ver trinta e dois caras tudo armado”, e concluiu: “É outra coisa”. O lugar “está visado” pela freqüência dos acontecimentos vividos e a constância de sua citação ganha as páginas dos jornais locais. Além dos limites internos impostos pelas circunstâncias para o morador do lugar, a violência desdobra-se sobre o 71Em razão das observações em campo da situação sobre a situação vivida pelos moradores do lugar, preserva-se em relação aos relatos sobre a questão o nome dos declarantes. 347 estreito mundo do trabalho, nas relações com a circunvizinhança, ao reforçar uma teia de preconceitos e de formas de discriminação dessa população e o seu espaço de moradia. Internamente, estabeleceu-se, em Ayrton Senna, uma espécie de “toque de recolher”, graduado em relação ao local em que está assentada a habitação. Ou seja, na parte mais externa da área, como por exemplo, na Estrada do Barbalho, às dezenove horas “[...] os filhos não podem nem brincar na rua, tem que tá tudo dentro de casa”. A violência que aprisiona, na interpretação de outro depoente, “[...] atrasa muito, mete muito medo na gente, porque a gente somos pais e a gente gostaria de ver nossas crianças brincar, correr na rua, mas infelizmente a coisa é diferente. Aqui não tem essa liberdade, nossos filhos não têm essa liberdade”. Dessa forma, a rua perdeu o sentido como extensão da moradia do pobre. Transformou-se em campo de batalha. A preocupação com a educação dos filhos emerge de outras falas que acentuam as dificuldades do lugar: “A bandidagem. A violência aqui é grande. Hoje em dia a gente não pode criar os filhos da gente aí brincando, minhas filhas não podem brincar, tem que ficar em casa, porque a qualquer momento pode haver um tiroteio aí atingir ela. Muito difícil”. Adentrando-se a área mais próxima ao rio, as casas cerram suas portas mais cedo, entre 17h 30min e 18h 00horas. Colheu-se de uma depoente a mudança no comportamento familiar para prevenir riscos, reafirmando a fala anterior: [...] nesse beco aqui, é um perigo de noite, sei que de seis horas da noite eu tô trancada dentro de casa [...] eu não vou deixar as menina solta na rua de noite. Toma banho, todo mundo janta, tem ali a televisão, mas de seis horas as porta tem que tá fechada, ninguém tem direito de ficar na rua não, de jeito nenhum, ninguém tem direito. A evasão da área foi expressiva. Registro do Programa Saúde da Família dá conta de que, antes da intensificação da violência, o número diário de famílias visitadas por uma Agente de Saúde era em torno de dez famílias; no decorrer desse período, esse número ficou em torno de seis. A busca de locais mais seguros para viver provocou um retorno de famílias, procedentes do interior, aos seus pontos de origem, outras se destinaram a diferentes localidades do tecido urbano. Mas, como extraído de outra fala, nos dias atuais, a vida parece voltar à normalidade na conivência entre os moradores de Ayrton Senna: “Graças a Deus, agora, tá ótimo. Tá tudo calmo. Os moradores que tinham ido embora agora voltaram. [...] tem pessoas que não voltaram, pessoas que vieram do interior e nunca passaram por esse tipo 348 de coisa”. Ou aparece na repetição da expressão: “[...] agora tá melhor, tá melhor, tá melhor [...]”. Um sentimento de alívio reaviva as possibilidades de retomada do curso da vida, da circulação sem o medo do retorno à casa no horário da noite, de autoconstrução de uma casa melhor. O combate inicial para instalar-se no território ocorreu na disputa com o poder público. Combates cotidianos significam a luta pela sobrevivência, a luta para ter acesso a uma moradia para a família, uma luta progressiva para construir a moradia. Porém a mais dura e mais severa das lutas tem sido contra a violência, mesmo que pelo silêncio. Também foram expressivas as queixas em tom de apelo endereçadas ao Estado a quem se atribui o poder de reprimir e controlar e, ainda, a responsabilidade de garantir a segurança dos indivíduos, deixando perpassar alguns elementos das raízes da situação: Pra ter segurança é preciso que a Justiça, o Prefeito, o Governador tome providência, nesse lugar. [...] a gente tá precisando de segurança muito boa nesse momento. Aqui, mora pai de família, mora família boa. Porque não é o povo daqui, é o povo que vem de fora, porque é favela, né? [...] Ayrton Senna [...] entra Governador, Prefeito, Presidente e ninguém vem fazer nada por isso aqui, nada, nada. Desde que começou essa favela aqui não entrou Prefeito para organizar. [...] Aqui continua o mesmo. A busca de diferenciar-se, de distanciar-se da situação vivida, mostra-se quando se destaca que é “[...] o povo que vem de fora”, portanto, não diz respeito às pessoas do lugar, pois aqui “mora família boa”. Assenhoreia-se a depoente de atributos aceitos socialmente, renegando aqueles que põem os moradores da localidade numa posição de desconfiança em relação ao conjunto da sociedade. A expectativa frente ao poder público desvela a cobrança sobre a implementação de políticas públicas de habitação, investindo na localidade, onde mora “um povo humilde”, ou seja, em situação de pobreza, “sem condições de comprar casa em outro lugar”. O saneamento básico foi incluído entre as alternativas que propiciariam melhores condições de habitabilidade, como apontam Aurino Marcelino (Comissão de Comando da Ocupação), acrescentando e alegando Renato Luiz dos Santos (Morador) a impossibilidade do “morar ali por baixo”, uma referência ao local situado nas proximidades da ponte de pedestre, local onde as casas, entre as quais as do tipo palafita, avançam sobre a margem enlameada do rio Capibaribe. Na acepção dos moradores, o seu único interlocutor é o Estado, em suas várias instâncias. 349 [...] estamos aqui ainda que a Prefeitura, não só a Prefeitura, mas também o Governador desse uma olhadinha pelo povo aqui do Ayrton Senna, porque o povo aqui precisa, é um povo humilde [...] não tem condições de comprar uma outra casa, em outro lugar. Não pode comprar um terreno e tanto o governo municipal como o governo estadual ou o federal mesmo, se pudesse olhar mais pra gente [...] acho que olha pra algumas partes e deixa as outras sem benefício nenhum (Aurino Marcelino. Comissão de Comando da Ocupação. Entrevista em maio de 2005). O que poderia ser feito [...] o Prefeito, o Governo olhasse pro lugar. Desse uma moradia melhor pro povo. O povo não tem condições de morar ali por baixo. Não tem condições de ficar, mora porque é o jeito. [...] Eu acho que o governo tem condições de fazer isso (Renato Luiz dos Santos. Morador. Entrevista realizada em junho de 2005). Interessante destacar a associação realizada pelo depoente abaixo entre a implantação de melhorias urbanas e as possibilidades de redução da violência. Supostamente, ao serem organizadas as ruas, abrir-se-iam caminhos de fácil deslocamento no assentamento, afugentando os fatores geradores desta violência. De certa forma, essa interpretação localiza na própria área as razões para a agressão desencadeada no lugar, e cotidianamente enfrentada por seus ocupantes. Dessa forma, passa ao largo a compreensão sobre as causas dessa realidade que estão situadas para além dos muros imaginários de Ayrton Senna, extrapolando ao local, ganhando dimensões sem fronteiras territoriais. A Prefeitura podia organizar isso daqui, porque na verdade a gente não tem vontade de sair daqui [...] Ela podia fazer um saneamento aqui, organizar essas ruas. Porque se ela organizar a violência vai acabar, não acaba, vai diminuir. A expectativa frente ao poder público reverbera na necessidade explicitada de inserção dos moradores de Ayrton Senna no mundo do trabalho, destacando a presença daqueles que se deslocaram do meio rural para o Recife, além dos jovens, das mulheres, dos adultos, ou seja, do conjunto da população do lugar, como pode ser acompanhado no depoimento seguinte. Eu acho que o Prefeito, Governador deveria melhorar essa ocupação fazer o saneamento básico. Deveria ser um tipo de trabalho para que as pessoas pudessem ocupar, porque tem muitas pessoas que são trabalhadores ali, pessoas que vieram do campo que, se tiver um trabalho, eles fazem esse trabalho. Tem que botar uma atividade para aquelas pessoas, tanto para a mulher como para o 350 jovem, para os adultos (Sandra Cleide da Conceição. Moradora. Entrevista realizada em maio de 2005). Observa-se, outrossim, no depoimento acima um desejo de que o poder público tome a iniciativa de implementar políticas públicas e desenvolver ações capazes de reverter de modo satisfatório para os habitantes do assentamento, muito embora se perceba também uma faltar de vigor e credulidade na ação governamental. Ao que tudo indica, ocorre um descompasso entre o que percebem como papel do Estado e o que crêem que seja concretização no desempenho deste papel. No que pesem as manifestações apreendidas durante algumas entrevistas sobre a vontade de ser indenizado e transferir-se do lugar, esse sentimento se deixa perpassar por elementos que se contradizem ao desejo da saída. Sobressai, como desestímulo à permanência, a falta de infra-estrutura e a indefinição sobre a propriedade da terra. Assim, a definição do projeto de urbanização poria termo às questões verbalizadas. Somar-se-ia essa definição ao desejo de permanência e a vontade de poder dar continuidade à construção da moradia, dando-lhe as feições que o tempo dos acontecimentos favorecessem, sem o medo de perder os investimentos realizados. Quer dizer, alteradas as condições de habitabilidade do lugar, a qualidade da moradia e sua conclusão e superadas as questões geradas pela violência, Ayrton Senna responderia às aspirações daqueles que lutaram pela ocupação da terra. O desejo da permanência aparece no relato de esforços para ter “onde botar a cabeça debaixo”, quando o entrevistado ressalta as facilidades de morar em Ayrton Senna: uma localidade servida de transporte coletivo, circulando pela Estrada do Barbalho, limite da área; uma rede de comércio; a proximidade de hospital, para onde é possível deslocarse a pé, em síntese, “perto de tudo”. Esses fatores reforçam a necessidade de um tratamento urbanístico na localidade, concedendo-lhe as condições fundamentais de habitação. Esse desejo de permanência é apreendido entre os entrevistados na reafirmação das qualidades atribuídas ao lugar como ponto de inserção na vida da cidade, destacando-se a proximidade dos serviços coletivos, de locais de trabalho, e a facilidade de deslocamento. Entre os desejos e a realidade concretamente vivida, a dimensão das carências habitacionais podem ser captadas na amplitude do depoimento abaixo, quando a depoente indaga: “E agora o pessoal está precisando de quê?” Após nominar em tom de denúncia o conjunto das necessidades, resume os requerimentos em um “projetão”, 351 indicativo da demanda por ações abrangentes capazes de alterar a fisionomia do lugar, as condições da habitação, de habitabilidade e a vida de seus habitantes. Conclui com uma seqüência de repetições sobre o imprescindível: “Então, tá precisando disso tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo”. E mais precisam de “[...] atenção que não têm”. Essa frase desvela um profundo sentimento de desamparo, entre os habitantes desse quinhão do Recife, a população pobre habitante da área de Ayrton Senna, assentada numa perspectiva de desterritorialização contínua, cristalizada na insegurança das indefinições políticoadministrativas do poder público, na incerteza nas condições de trabalho e de sobrevivência, que deixam fendas dolorosas espelhadas na longa e intermitente labuta da autoconstrução de sua moradia. E agora o pessoal precisa de quê? Da urbanização da área, tô falando tudo, tudo, esgotamento sanitário, urbanização da área, dividir os lotes, fazer as casas do povo que não tiveram, porque tem muita gente que tem barraco de plástico, tauba na beira rio Capibaribe, então, a gente tá precisando desse projetão mesmo, mais atenção que não tem. Então, tá precisando disso tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo (Neide Santana. Presidente da Associação do Barbalho. Entrevista realizado em junho de 2005). O processo de autoconstrução de moradias por iniciativa própria, colhido dos depoentes dos habitantes de Ayrton Senna, demonstra que a construção da moradia se dá nas condições dos limites enfrentados pelos pobres do lugar, como: difícil acesso ao solo; recursos escassos para construir a habitação, formas de organização, luta e “combate” no enfrentamento com o poder público para ter parte num quinhão do território citadino, acrescido de lutas vividas no interior da própria área proveniente da violência urbana nos dias atuais. Espelha o recorte estudado uma modalidade de acesso à habitação e à cidade em uma situação de penúria enfrentada pela população pobre para ter “um canto onde colocar a cabeça”. As formas e processos, desenvolvidos e envolvidos na autoconstrução da moradia por iniciativa própria realizadas em Ayrton Senna, ao que indica, integram e articulam-se a uma sistemática adotada pelos pobres recifenses na longa trajetória de formação da cidade, e abre caminhos para ampliar o entendimento da autoconstrução da habitação por esse segmento no curso da expansão urbana do Recife. CONSIDERAÇÕES FINAIS Uma leitura crítica sobre a questão habitacional, elegendo centro de análise o acesso à habitação através, da autoconstrução pelos segmentos de mais baixa renda na cidade do Recife, é instigada pela necessidade de compreensão mais alargada do fenômeno presente na cidade no transcurso de sua formação, persistente nos dias atuais e, igualmente, de indagar sobre a ação da população e ação do Estado e suas formas operativas de resolver o problema. No decurso da pesquisa, tornou-se mais evidente a multiplicidade de fatores que envolvem o acesso à habitação dos pobres urbanos, constatando-se uma articulação entre os fatores determinantes e aqueles condicionantes que juntos perpassam o tempo, manifestando-se e mantendo-se profundamente arraigados e renovados. A dinâmica desses fatores que dialogam entre si, rebatem nas dificuldades e impossibilidades enfrentadas pelos segmentos populares para assegurar o acesso à moradia e o acesso à cidade. Transforma-se a busca por habitação, para a população de mais baixa renda, em lutas históricas, que têm assento na cristalização da desigualdade, nas diferenças seculares, no Recife, da partilha da riqueza socialmente produzida entre os habitantes citadinos do núcleo urbano. Firma-se nessas circunstâncias um processo de embate entre os diferentes grupos sociais despontando, ora lento e quase surdo, ora declaradamente ostensivo. Estruturam-se entre os mais pobres modos de organização diversos, alternados por fluxos e refluxos no enfrentamento da questão habitacional, e passam esses modos a integrar a sua cotidianidade. Sustenta seu agir em estratégias e táticas, na permanente reafirmação entre idas e vindas, na constância do uso de recursos escassos, no desperdiçar dos poucos recursos disponíveis, por meio de um processo infindo da construção do seu espaço de habitação. Observa-se que a forma dominante de produção da riqueza no Estado e na Região, na sua constituição histórica, como levantado na hipótese deste trabalho, incide e explica a adoção dos mecanismos de acesso à habitação, por intermédio da autoconstrução da moradia pelos mais pobres. Adiciona-se a esse processo o acesso ao solo, centrado em 353 privilégios de concessão que, somados ao poder econômico e político de frações da população, engendram mecanismos impeditivos, excludentes de acesso à habitação pelos menos aquinhoados. O Estado, por vezes, coloca-se como provedor, por outras, ao ser pressionado, exerce o papel de intermediador e assume posições variadas. Busca legitimidade e realiza a cooptação, mas também instiga pela ação a ampliação da luta por habitação, a abertura de espaços de negociação, movido pela perspectiva do direito à moradia. Uma ação geradora de processos contraditórios. Observa-se que, em nenhuma das situações examinadas, o Estado assumiu o caráter de transformador, ao contrário, mesmo nos momentos de aparente ou de reais avanços, manteve-se na postura reformista e apaziguadora dos conflitos, por habitação e terra de habitação, ou ainda incorporou posição repressora disfarçada nesses conflitos. Ao absorver as propostas públicas de acesso à habitação, por meio da autoconstrução, a população identifica-a com uma alternativa vinculada a seus direitos de ter um canto para morar, e, assim, uma garantia à casa, melhor qualidade do habitat, proximidade dos serviços de uso coletivo que sobre suas vidas exercem papel essencial no processo de produção e reprodução social. A escolha para o exame no campo empírico dos processos autoconstrutivos conduziu a selecionar duas situações: uma, em que a população empreende por iniciativa própria ou espontânea a autoconstrução de sua habitação; outra, diz respeito à autoconstrução desenvolvida, por meio do financiamento público, ou induzida pelo Estado. As duas experiências somaram-se e forneceram elementos para a compreensão dessa questão no ambiente urbano recifense. Foram as áreas selecionadas como campo de estudo empírico, intencionalmente pensadas e previstas como realidades diferentes, sem nenhum intento comparativo, mas, ao contrário, o objetivo foi de considerá-las nas suas particularidades, como retalhos do tempo, que propiciassem a apreensão das múltiplas formas acionadas pelos pobres citadinos para ter acesso à habitação. É o Recife uma cidade autoconstruída? Aplica-se, neste estudo, o título de nomeação da tese “A Cidade Autonstruída”? Seguindo o curso das informações angariadas durante este trabalho, observa-se a existência de uma cidade erguida por parcelas dos 354 segmentos populares na sua luta cotidiana, situada fora das regras do mercado, portanto, impossibilitada, por seu intermédio, de ter acesso à habitação. Muito embora se constate entre essa população a recomposição de formas adotadas pelo mercado, como a venda e aluguel de casas aos pobres pelos pobres. É patente, ao tomar-se como referência o século XX a restrita presença do Estado de Pernambuco como provedor de habitação para os segmentos mais pobres sendo em muitos momentos inteiramente ausente. A política formulada e executada para esse segmento popular, entre final dos anos trinta e início dos anos quarenta, caracterizou-se mais pela supressão da habitação do que pelo acesso à habitação. Foi uma ação assinalada, sobretudo pela expulsão parcial dos habitantes das áreas alagadas empurrando-a para os morros da Zona Norte. Essa população passou a habitar localidades distantes de núcleo urbano, sem infra-estrutura que propiciasse condições de habitabilidade, ao mesmo tempo em que voltou a erguer, nesses locais, suas habitações por conta própria utilizando-se das modalidades de autoconstrução. A essa população foi somando-se o contingente que adentrava a cidade integrante do fluxo migratório. A ação estadual no campo da habitação popular por meio da autoconstrução, realizada nos dois primeiros anos da década de sessenta foi bastante localizada, enquanto àquelas implementadas entre o final da década de setenta e a primeira metade dos anos oitenta, tornaram-se intervenções focalizadas em poucas localidades e a autoconstrução pensada com uma modalidade construtiva, naqueles anos, foi substituída pelo processo de construção via pequenas empreiteiras. Destaque-se no Recife nos anos noventa o PREZEIS, uma política de caráter inovador que assegurou a permanência da população pobre em espaços de ocupação consolidada. Ainda, entre os últimos anos da década de oitenta e início dos anos noventa a Política Habitacional voltada para os segmentos de mais baixa renda aparece como àquela de caráter mais abrangente, tendo adotado e estimulado a autoconstrução como alternativa de acesso à habitação. Contudo, foi insuficiente para modificar a problemática habitacional existente no Recife. Nesse caso, a ausência de dados, enfrentada no andamento da pesquisa sobre a comprovação quantitativa a respeito das habitações autoconstruídas no núcleo citadino, é indicativo da atenção dispensada a esse segmento social, mas não nega a cidade 355 autoconstruída. Contradita essa ausência com a existência de um ambiente construído em que a autoconstrução modelou o território ocupado pelos pobres, manifestando-se vigorosamente presente na formação e expansão da cidade, gerando diferentes territorialidades. Adentrar nas informações, dados, relatos e depoimentos obtidos sobre e no Buriti e Ayrton Senna significa realizar uma caminhada na história do acesso à habitação, através da autoconstrução desencadeada pela população pobre do Recife, construtora desse território. As duas áreas concedem a possibilidade de fazer um mergulho nos múltiplos e complexos elementos envolvidos e vivenciados na labuta cotidiana pelos pobres para ter um lugar na cidade. Admite-se que este estudo ao abrir-se a discussão para à análise abre também as possibilidades de ter expostas lacunas que ensejarão novas fontes de pesquisa. REFERÊNCIAS ABRAMO, Pedro. A regulação urbana e o regime urbano: a estrutura urbana, sua reprodutibilidade e o capital. Ensaios FEE. Porto Alegre-RS-Brasil, 1995. p. 510 -555. ALBUQUERQUE, Roberto Cavalcanti de. A questão social no Brasil: um balanço do século XX. Seminário Especial Mini-Fórum em homenagem aos 40 anos do IPEA. Rio de Janeiro, set. 2004. Estudos e Pesquisa, n. 82. Versão Preliminar. Mimeografado. ALTVATER, Elimar. Os desafios da globalização e da crise ecológica para o discurso da democracia e direitos humanos. In: A Crise dos Paradigmas em Ciências Sociais e os Desafios para o Século XXI. HELLER, Agnes (Org.). Rio de Janeiro: Contraponto, 1999. ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência: introdução ao jogo e a suas regras. São Paulo: Edições Loyola, 2000. ANDRADE. Manual Correia. 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