PROBLEMATIZANDO UM GÊNERO ACADÊMICO: A APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS EM CONGRESSOS Rosa Maria Hessel SILVEIRA (Universidade Luterana do Brasil/Universidade. Federal do Rio Grande do Sul) Letícia Fonseca Richthofen de FREITAS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) ABSTRACT: Events becoming a routine in the academic context have allowed the emergence of textual genres, such as ‘communication in a congress’. This genre may be characterised, as for Maingueneau, as having a recognised aim ― communicating theoretical work or research results; with a defined speaker― author of a written work; with hearers localised in a particular space; with a previously defined time; and often a textual support shared by assistants and speaker. This genre seems to glide between a rather oral performance and a loud reading of a prior text, and undergoing a strong pressure concerning the speaking time. This work problematises this genre’s characteristics and gliding, by interviewing 10 researchers, to map out its regularities and variations, focusing particularly on the genre textual organisation, solutions found concerning oral–written ambiguity, effects of the determinant of ‘scheduled time’ for speaking, and assessment by these speakers/hearers concerning having reached the genre’s aims. KEYWORDS: Genre; Communication in a congress; Oral performance 1. Introdução Um dos gêneros que vem se desenvolvendo e apresentando uma relevância cada vez maior no âmbito acadêmico-científico é o gênero “apresentação de comunicação em congresso” e é com a atenção voltada para o mesmo que desenvolvemos o presente trabalho. Seu objetivo é problematizar as características e flutuações desse gênero discursivo, no campo específico da Educação, a partir das representações do mesmo trazidas por 10 pesquisadores1 da área, freqüentadores regulares de eventos dessa natureza. Assim realizamos entrevistas com os mesmos, a fim de mapear regularidades e variações, focalizando especificamente a organização textual do gênero, as soluções encontradas em relação à ambigüidade oralescrito, a influência da determinante “tempo marcado” para a elocução, assim como as avaliações feitas por esses locutores/ouvintes com relação ao atingimento dos objetivos do gênero, além de outras questões nele envolvidas. Se considerarmos uma abordagem mais tradicional dos gêneros, relacionada à Literatura e à Retórica clássicas, vemos que neles eram evidenciadas as regularidades de forma e de conteúdo e, com base nessa visão, tributária de Aristóteles, considera-se a existência de três gêneros: o épico, o lírico e o dramático. Já de acordo com a tradição retórica haveria cinco tipos textuais: a argumentação, a descrição, a narração, a explicação e o diálogo (CUNHA, 2002). Sob a influência, principalmente, dos estudos de Bakhtin sobre gêneros, tais classificações, mesmo sendo seculares, foram se ampliando e dando lugar a outros parâmetros de análise, de modo que, atualmente, a noção de gênero foi estendida e abrange toda a variedade da produção textual, tanto oral quanto escrita. Justamente por corresponderem às mais variadas esferas da atividade humana e por se alterarem com o fluxo do tempo e com as mudanças sociais e culturais, os gêneros possuem fronteiras fluidas, estando sempre abertos a mudanças. Mesmo possuindo regularidades que tolhem nossas escolhas, em sua produção e recepção, não podemos conceber os gêneros como “modelos estanques nem como estruturas rígidas, mas como formas culturais e cognitivas de 1 Agradecemos aos 10 entrevistados a disponibilidade para concederem entrevistas e o interesse com que participaram das mesmas. 1722 ação social corporificadas de modo particular na linguagem” (MARCUSCHI, 2005, p. 18). Devido a isso, a tendência, atualmente, é analisar os gêneros considerando-os na sua forma dinâmica e processual, uma vez que eles se renovam e se adaptam de acordo com as mudanças sociais e culturais. Quando nos debruçamos sobre o contexto acadêmico, percebemos que cada vez mais eventos, como simpósios, congressos e seminários vêm se tornando rotineiros, e tais eventos ensejam o surgimento de novos gêneros textuais, como o gênero “apresentação de comunicação em congresso”, o qual faria parte, segundo Maingueneau (2004), do regime dos gêneros instituídos. O autor distingue “dois regimes de genericidade”: o regime dos gêneros conversacionais e o regime dos gêneros instituídos. De acordo com Maingueneau, os gêneros conversacionais englobam, conforme o nome revela, toda a gama de interações conversacionais. Já nos gêneros instituídos podem ser incluídos: o ensaio, a dissertação, o tratado, a revista, a entrevista, os debates televisivos, a consulta médica, o jornal impresso, etc. Nesse último regime, o dos gêneros instituídos, os papéis dos participantes são fixados a priori pelas instituições e são imutáveis durante o ato da comunicação. Maingueneau sublinha o fato de que, na sua perspectiva, os instituídos “são os que melhor correspondem à definição de gênero do discurso, visto como dispositivo de comunicação e definido em perspectiva sócio-histórica” (2004, p. 47). Um outro aspecto discutido por Maingueneau (2001) é o que diz respeito à submissão dos gêneros discursivos a critérios de êxito2, aos quais todos os atos de linguagem estão submetidos. Entre tais condições situam-se uma finalidade reconhecida (todo gênero tem uma finalidade e é necessário que ela seja determinada corretamente a fim de que o destinatário possa se comportar adequadamente) e o estatuto de parceiros legítimos, ou seja: nos variados gêneros do discurso já é determinado de quem parte e a quem a fala ou a escrita é dirigida, sendo claros os papéis do enunciador e do co-enunciador. O lugar e o momento legítimos seria outra condição de êxito, já que cada gênero pressupõe um momento e um lugar legítimos, e isso seria, de acordo com Maingueneau, algo constitutivo do gênero. Seria de se estranhar, por exemplo, se víssemos um padre rezando uma missa em praça pública ou um professor dando uma aula em um bar, dada a inadequação do lugar para a realização de tais gêneros. Também neste sentido, o suporte material - oral ou escrito - seria elemento essencial a todo e qualquer gênero discursivo, uma vez que qualquer modificação do suporte material de um texto modifica o gênero do discurso. O último elemento ao qual Maingueneau se refere é a organização textual; segundo o autor, todo gênero possui uma certa organização textual, isto é, determinados constituintes que são encadeados em diferentes níveis. Os modos de organização dos gêneros podem ser em alguns casos ensinados – como uma dissertação, uma resenha, etc. – ou aprendidos por impregnação – a conversa. Já Bazerman (2005, 2006) enfatiza, em seus estudos, a forte relação entre os gêneros textuais e o que ele chama de “fatos sociais”. Nesse sentido, o autor relembra que (2005, p. 22) cada texto se encontra encaixado em atividades sociais estruturadas e depende de textos anteriores que influenciam a atividade e a organização social. (...) Cada texto bem sucedido cria para seus leitores um fato social. Os fatos sociais consistem em ações sociais significativas realizadas pela linguagem, ou atos de fala. A partir dos elementos estabelecidos por Maingueneau e da visão de Bazerman, podemos nos voltar para o gênero apresentação de trabalhos em eventos e, com base em nossa experiência prévia de engajamento em contextos onde tal gênero se concretiza, caracterizá-lo 2 A título de exemplo, Maingueneau (2001) refere-se ao ato de prometer alguma coisa a alguém: para que isso seja feito, é necessário estar em condições de cumprir com o prometido, é preciso que o destinatário esteja interessado na realização dessa promessa, etc 1723 preliminarmente como tendo uma finalidade reconhecida – comunicação de resultados de pesquisa ou de elaboração teórica; com um enunciador também determinado – autor de um trabalho escrito que antecede tal apresentação; com ouvintes localizados em um lugar limitado; com uma duração antecipadamente prevista e, freqüentemente, com um suporte textual escrito partilhado pelos assistentes e pelo enunciador (telas ou transparências). Tal gênero, a nosso ver, parece flutuar entre uma realização preferentemente oral e uma leitura em voz alta de um texto prévio, sofrendo, ainda, uma forte pressão relativa ao tempo da elocução, o que poderia alterar a coesão e a coerência do texto, assim como o ritmo da elocução e o uso dos chamados recursos visuais. Além disso, o gênero aqui tratado também possui características compartilhadas com aquelas atribuídas por Dolz, Schnewly, Pietro e Zahna (2004), ao gênero textual “exposição oral”. Os autores sublinham que se trata de um gênero realizado em uma situação de comunicação denominada bipolar, uma vez que reúne o orador ou expositor e seu auditório – no caso de eventos acadêmicos a bipolaridade da situação envolve o apresentador de trabalho em uma comunicação e o público. Com base, portanto, no que acima demarcamos e nas leituras feitas sobre gênero textual-discursivo, delineamos a investigação cujos resultados sintetizamos a seguir. Seu objetivo não era o de delimitar “precisamente” as características formais, textuais e situacionais do gênero, uma vez que não partimos da análise direta de suas concretizações; ao contrário, temos como finalidade trazer as representações (entendidas como re-apresentações de entendimentos singulares) de algumas das dimensões deste gênero discursivo, representações estas construídas por freqüentes enunciadores e “ouvintes” de tais eventos discursivos. 2. O gênero em questão Os dados que serão aqui trazidos e brevemente analisados foram obtidos por meio de 10 entrevistas com pesquisadores que atuam no campo da Educação e que freqüentam regularmente eventos científicos tanto em âmbito nacional quanto em âmbito regional. Dos dez entrevistados, cinco são graduados em Pedagogia, três em Letras, um em Geografia, um em Psicologia e um em Música. Quatro deles são doutores em Educação, três estão cursando Doutorado e três estão finalizando Mestrado – também em Educação. Todos estudam ou estudaram em universidades públicas. Alguns são, inclusive, professores universitários; outros são bolsistas da Capes ou do CNPq de Mestrado ou Doutorado. Todos eles têm um histórico de apresentação de trabalhos em congressos prestigiados na área, como as Reuniões Anuais da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), Reuniões Regionais, Congresso de Leitura do Brasil (COLE), dentre outros. A fim de que se mantivessem preservadas as identidades dos entrevistados, sua menção será codificada, desde E1 (Entrevistado 1) a E10.3 O roteiro das perguntas foi elaborado com base nos critérios acima estabelecidos por Maingueneau. Como se tratava de pessoas da rede de relações das autoras, as entrevistas foram realizadas de forma bastante informal, tendo sido gravadas e posteriormente transcritas. Dos critérios citados pelo autor, foram selecionados os seguintes itens para inspirar as 3 Para melhor especificação, arrolamos a formação e a situação acadêmica de cada um, a seguir: E1: Graduado em Letras – Mestrando em Educação; E2: Graduado em Letras – Doutor em Educação; E3: Graduado em Psicologia – Doutorando em Educação; E4: Graduado em Geografia – Doutor em Educação; E5: Graduado em Pedagogia – Mestrando em Educação; E6: Graduado em Pedagogia – Mestrando em Educação; E7: Graduado em Pedagogia – Doutorando em Educação; E8: Graduado em Pedagogia – Doutorando em Educação; E9: Graduado em Pedagogia – Doutor em Educação; E10: Graduado em Letras – Doutor em Educação 1724 perguntas: finalidade/objetivos de uma apresentação, suporte material/recursos utilizados, o limite de tempo, a influência do público. As respostas às perguntas foram agrupadas e analisadas conforme os tópicos que passamos a apresentar. 2.1 Objetivos do gênero Nesse tópico as respostas4 mais recorrentes por parte dos entrevistados no que concerne aos principais objetivos de uma apresentação de comunicação em congresso foram a publicização de uma pesquisa (grifos nossos) – “Divulgar a pesquisa e suas idéias” (E3)/ “Como apresentadora de trabalho penso que o objetivo da apresentação é mostrar para quem está assistindo, de forma clara e objetiva, o que estás pesquisando” (E8) e também o espaço para interlocução - “Mostrar o que está pesquisando, é um espaço de interlocução” (E1)/ “Lançar as coisas que a gente está lendo, investigando e também conhecer os trabalhos que estão sendo produzidos no Brasil” (E6). Destacamos, a seguir, dois excertos que ampliam um pouco essa visão, no sentido de considerar o retorno dado à sociedade por pessoas que estudam em universidades públicas, no primeiro, e enfatizar a questão da síntese de pesquisas mais amplas, no segundo: E7: Boa oportunidade de mostrar o trabalho e dar um retorno, porque é uma universidade pública e tem todo um investimento no aluno, mesmo não-bolsista. É uma maneira então de retribuir esse investimento socializando a produção e também podendo ter acesso a outros trabalhos. E10: Eu acho que o objetivo maior da apresentação de um trabalho é sintetizar, fazer um recorte de um trabalho maior que a gente está desenvolvendo. (...) Ele pode ter uma abordagem teórica mais significativa, enfim, ou pode ter uma abordagem pedagógica, enfim, a ênfase pode ser no pedagógico, mas enfim a gente tem que ter, quando vai montar a apresentação de um trabalho, a habilidade de fazer um recorte inteligível, que seja compreensível para quem está assistindo. Além do já citado, a obrigatoriedade de se apresentar trabalhos em eventos para melhorar o currículo pessoal ou a pontuação institucional (numa época em que as avaliações quantitativas têm um grande prestígio), como um caminho de aquisição de bens simbólicos, também foram objetivos lembrados: E3: Publicação, exigência, porque conta pontos. O objetivo principal, que seria a discussão,se perde, por causa da obrigação. E5: Também tem que levar em consideração que a gente vai em eventos pra melhorar o currículo, né? É, Capes, cada vez ela avalia de forma mais quantitativa, então a gente acaba tendo que responder a isso, às vezes pra conseguir uma bolsa no pós. E outra coisa: eu me preocupo também com a instituição, se tu apresentas trabalhos, isso daí aqui no pós, através da avaliação da Capes, quer dizer que pode ter mais bolsas pra pós-graduação, são coisas que a gente tem que pensar, a gente estuda numa universidade pública. Na opinião dos entrevistados, há ainda outros objetivos para se apresentar trabalhos em congressos – troca de material, contato com outros pesquisadores, discussão, mas alguns mencionam o não atingimento dos mesmos: 4 Fizemos uma transcrição ortográfica das entrevistas, já que o nosso objetivo não era o de estudar variantes lingüísticas e suas dimensões fonéticas e morfossintáticas. 1725 E4: O objetivo de divulgar o trabalho nem sempre acontece, porque às vezes você está em um grupo que o seu trabalho não tem nada a ver com os outros, o tempo é muito pouco e as pessoas que estão ali estão preocupadas que chegue a vez delas. Então o espaço que seria interessante para ouvir, para ter retorno do que eu estou apresentando se torna muitas vezes um monólogo bem rápido. E5: Embora eu esperasse que esses eventos tivessem mais espaço pra crítica, pra debates... Quando eu fui em ***(nome do evento) isso ficou assim bem marcado: tinha 10 minutos e realmente o debate que é... quer dizer, também não dá pra pensar o debate sem ter um tempo pra apresentar, mas o debate muitas vezes tem que ser cortado de forma abrupta porque não tem tempo suficiente. Isso daí acaba prejudicando também esse objetivo que é estabelecer trocas e relações. Como vimos, um dos principais motivos apresentados pelos entrevistados para que os objetivos citados como os mais centrais não sejam alcançados refere-se aos limites de tempo para apresentação e discussão. Esse tópico será tratado a seguir. 2.2 A limitação do tempo Os limites que o prazo temporal impõe às apresentações de trabalhos em eventos – em função de eles serem agrupados em sessões com vários trabalhos - parece ser uma questão central no gênero, a qual regeria toda a organização daquilo que será exposto e dos ajustes feitos, no caso de haver algum imprevisto no momento da apresentação e o pesquisador ultrapassar o tempo determinado. A seguir são apresentados alguns trechos das entrevistas que tratam dessa questão e neles os entrevistados, além de confessarem sua preocupação com o tempo, trazem experiências (ora se confessando como disciplinados, ora como transgressores da regra) e decisões ora tidas como habituais, inclusive ensaios, ora episódicas, para solucionar a “falta de tempo”: E1: A maior dificuldade é o tempo. Tem que ser muito direta no que vai dizer, só dar uma notícia, assim, meu trabalho é sobre isso, isso e isso, daí tu consegues. Eu nunca tive problema, sempre consegui apresentar nos 15 minutos, mas quando é 10 é muito complicado. Tem eventos que a gente vai que são 10 minutos, daí é complicado. E4: O tempo é pouco, mas eu tento me organizar e às vezes, já aconteceu, se o tempo está acabando, eu tento fazer algumas considerações finais e corto a parte teórica. Eu acho que o mais interessante de um trabalho é aquilo que eu achei e não o corpo teórico. No último recorte, o entrevistado já abordou outro aspecto que merece destaque e que envolve as questões de tempo: trata-se daquilo que é suprimido (ou que se pensa dever ser) da apresentação oral quando o tempo está acabando. No mais das vezes, segundo os entrevistados, a parte sacrificada é a teórica, enfatizando-se o material empírico e várias razões são invocadas para tal. Destacamos, a seguir, mais alguns depoimentos focalizando os tipos de ajustes feitos pelos apresentadores em relação à equação texto falado X prazo temporal. E2: Eu acho uma coisa importante assim: quando a gente vai falar do referencial teórico, a gente não vai dar uma aula sobre aquilo, porque a gente parte do princípio que as pessoas que estão ali, na mesma sala, têm algum conhecimento do que tu estás falando. Muito mais interessante é a parte empírica, que é o diferencial de cada trabalho. Por isso a parte que eu sacrifico é o referencial teórico. 1726 E3: Bom, já aconteceu de eu passar do tempo (...). A forma que eu vou gerenciar vai depender do tipo de trabalho que eu estou apresentando. Se ainda está em andamento a pesquisa, eu acho importante marcar um pouquinho o referencial teórico com o qual eu estou lidando, com aqueles elementos que eu tenho, porque inclusive podem vir dali contribuições. Se é uma pesquisa acabada, eu faço, claro, questão de apresentar os resultados. A questão do que eu vou cortar ou não vai depender até do tipo de platéia que tem ali. E8: Eu nunca passei do horário estipulado porque sempre repasso o texto dias antes da apresentação para ver se está no tempo. Se está além, corto as partes do referencial teórico e percurso metodológico, deixando mais tempo para as análises. Já vi muitas pessoas ultrapassarem o tempo estipulado. Alguns cortam tudo pela metade para chegar o mais rápido possível ao final e tem aquelas que não se incomodam e continuam falando, falando, apesar dos avisos. E9: Pra mim o tempo às vezes é um problema, mas em apresentações de trabalho quase sempre consigo permanecer dentro do previsto. Isso porque, sabendo que falo bastante, acabo montando poucas lâminas. (...) Já houve casos em que tive que correr pra terminar. Quando aconteceu, a parte que deixei de lado nunca foi o final. (...) deixei de ler excertos que acompanhavam (...) passei direto pras considerações finais, onde recuperei aspectos, fazendo ligações ou comentários pra dar coesão. Quase sempre dou mais destaque para os dados da pesquisa do que para o referencial teórico. E10: O tempo geralmente é algo assim que me atrapalha. (...) eu acho que a experiência vai ensinando a gente a reduzir, digamos, os detalhes, a focalizar os aspectos que a gente acha mais significativos... é sempre uma seleção, né? (...) Se eu tenho que sacrificar alguma coisa, procuro ver... Eu nunca dei muita ênfase nas minhas apresentações à fundamentação teórica, eu nunca reservei tempo pra fazer uma grande exposição. (...) Claro, um conceito fundamental, importante, a partir do qual muitos desdobramentos serão feitos, isso aí, tudo bem. (...) Dar uma idéia do campo teórico e tudo o mais. Mas eu sempre assim por questão de opção, enfim, de característica pessoal, enfim, eu gosto de dar uma boa ênfase à análise dos dados, no material empírico, como é que funcionou, que resultados que eu fui identificando. De acordo com os entrevistados, há várias adaptações que são feitas nas apresentações levando-se em consideração o fator tempo, sendo o desrespeito à duração estabelecida vista como algo bem problemático (“...tem aquelas pessoas que não se incomodam e continuam falando, falando, apesar dos avisos...”, disse uma entrevistada). Além da tendência a que as bases teóricas sejam a parte mais sacrificada, houve uma informante que, inclusive, aludiu a nuances nos cortes, conforme o tipo de trabalho que está sendo apresentado. A forma como a comunicação é estruturada e os recursos utilizados também são - conforme fica explicitado nos excertos acima - uma maneira de controlar o tempo. Um dos entrevistados, inclusive, formulou sua resposta na mesma direção do que trazem Rojo e Schneuwly (2006), em sua análise do gênero “conferência acadêmica”: “o texto dos slides esquematiza a fala e o número de slides, por sua vez, serve de controle do tempo de execução da fala (p. 6)”. Uma exploração maior desse último recurso – não só como um “metrônomo da fala”, como foi sugerido - faremos na próxima seção. 2.3 Suporte material e a opção entre leitura e fala Geralmente o modo que as pessoas referem como o dominante na apresentação de seus trabalhos é o que se dá a partir de um suporte escrito, seja ele lâminas, slides/power point ou um texto. Para Rojo e Schneuwly, o gênero “conferência acadêmica” é um gênero oral formal e público cuja apresentação e elaboração englobam complexas relações entre textos orais e escritos. Nesse sentido, da mesma forma, o gênero “apresentação de comunicação em 1727 congresso” repousa, freqüentemente, nessa dualidade, uma vez que a sua produção e a sua apresentação envolvem as relações entre oral e escrito de uma maneira ampla e complexa. Ainda de acordo com os autores, é comum que os conferencistas – e acrescentamos: também os pesquisadores que apresentam comunicações – escrevam inicialmente um texto e depois elaborem slides com esquemas, enumerações, citações, etc. A partir desses “dois escritos e em relação com eles, articula-se a fala do conferencista (...)” (ROJO e SCHNEUWLY, 2006, p. 4). A menção ao uso do suporte escrito e à sua função articuladora da fala é recorrente nas apresentações das pessoas entrevistadas, que também expuseram o que costumam inserir neste suporte partilhado, porque projetado para os assistentes. E4: Eu não vou para um evento sem preparar um roteiro, alguma coisa para as pessoas que estão assistindo também acompanharem o trabalho. Geralmente faço lâminas, de 10 a 12. E6: Lâminas e data-show facilitam pra gente se organizar e pro público. Eu acho que o público gosta de ver isso, alguma coisa que remeta ao trabalho. Eu procuro colocar tópicos e idéias que remetam ao trabalho, a algum autor que seja conhecido naquele local e que seja de interesse do público e do meu interesse. E7: Eu uso os recursos que me são disponibilizados pelo evento. (...) Eu trabalho com imagens, então eu sempre uso DVD, o que implica maiores custos. Pelo curto espaço de tempo, se tu usares um recurso, ele te centra, porque não tem como escapar; se tu fizeste 10 lâminas, tem ali o tempo, apresentas as lâminas e vai falar em cima das lâminas. E8: Eu sempre usei recursos audiovisuais nas apresentações, desde o tempo dos salões de iniciação científica: lâminas, data-show, trechos de documentários. Nas lâminas e data-show procuro utilizar não só texto, mas imagens sobre a pesquisa. Nas apresentações de 10 minutos tenho sempre em torno de 5 lâminas, o que dá em torno de 1 lâmina para 2 minutos. Penso que esses recursos servem para explicar o que estás dizendo (e não lendo) e para exemplificar também. E10: Eu acho que isto é uma aprendizagem, né? Acho que a gente tem que saber selecionar o material para os recursos visuais. Eu procuro fazer um esquema, colocar palavras-chave, palavras significativas, idéias significativas, títulos instigantes e através da linguagem oral eu desenvolvo aquele esquema. Exemplos, por exemplo: excertos de textos de crianças ou de adultos, enfim, vale a pena colocar um excerto numa transparência, porque as pessoas não têm. Tu podes trabalhar, fazer a análise textual, isso enriquece. Os detalhes trazidos pelos entrevistados apontam para soluções às vezes idiossincráticas (o cálculo da relação entre lâminas e minutos usados), ou mais gerais – escolha do tipo de texto que deve ser colocado nas lâminas (imagens, exemplos, tópicos, idéias, etc.), mas, de diversas formas, é referida a função de controle temporal que o escrito que se mostra “na parede”, verticalmente, para toda a platéia (lâminas, slides, powerpoint, DVD) exerce na apresentação. Foi consenso entre os entrevistados que a exposição oral torna a apresentação mais dinâmica e lhe confere um caráter mais informal; alguns entrevistados, inclusive, foram bastante enfáticos ao condenarem a leitura em voz alta como forma de apresentação, buscando, inclusive, atribuir motivações para tal decisão. É interessante notar, nos trechos abaixo, a menção a que pessoas de maior relevância no contexto do evento – os palestrantes, os conferencistas – têm a prerrogativa de ler. Mas grande parte das condenações à leitura em voz alta passa pelo caráter monótono de tal enunciação, que seria incapaz de prender a atenção dos ouvintes. Apenas um dos entrevistados afirmou ter usado da leitura em uma apresentação. 1728 E3: Eu acho a questão da leitura um desrespeito à platéia, acho que pra ler você não precisa deslocar pessoas de vários pontos, então manda por e-mail. Você economiza tempo, dinheiro e não desvaloriza o evento que você está participando. Eu particularmente apresento lâminas ou power point com os tópicos principais e eu vou falando, porque eu fiz o trabalho, eu pesquisei, porque... se eu não tiver condições de falar livremente sobre aquilo que eu pesquisei... E7: A leitura, dependendo do evento, dependendo do palestrante, do conferencista, se é uma pessoa extremamente conhecida, ela pode se permitir ler um texto, porque ela é o centro das atenções. Ainda assim, ela tem que ter uma preocupação com essa leitura, de que essa leitura seja introduzida por falas, por cortes, por exemplos que dêem movimentos pra essa apresentação. Mas se é uma pessoa que está iniciando esta trajetória, que não é um consagrado, eu acho complicado, porque se torna totalmente enfadonho. Se torna uma coisa extremamente pouco atraente. Uma apresentação oral só tem vantagens, pra quem domina, só tem vantagem. E8: (...) mesmo sendo uma leitura, ela deve ter as suas pausas para comentários, para exposição do material em lâminas, enfim. Mesmo que a pessoa leia, por ter sido ela quem fez a pesquisa, ela deve mostrar algum domínio do trabalho falando espontaneamente sobre ele. E9: Nos eventos que tenho participado, quase metade das pessoas opta por ler um texto. Quase sempre a pessoa se mantém sentada, algumas vezes quebra a leitura com um comentário rápido, algumas vezes olha para o grupo que o escuta. Mesmo os painéis mais amplos e conferências em que falam pessoas referenciadas na área, muitas vezes a opção do pesquisador é a leitura (para não fugir do tema e para respeitar o tempo, dizem eles nas falas iniciais). Eu, particularmente, não sou muito fã de apresentações com leitura, a menos que a pessoa realmente dê vida ao texto, e certamente tem gente que consegue fazer isso com um texto escrito. Acho que é possível conciliar leitura e comentários mais amplos, por exemplo, e assim fica bem mais interessante. E5: Eu acho que ler torna mais formal, porque deixa menos espaço pro escape. Embora eu não ache uma questão menor, a da leitura. Eu não fiquei tão mal por ter feito isso [lido], porque nos seminários e congressos onde estão os professores doutores eles lêem também, porque é difícil sintetizar a tua fala sem o apoio da escrita. Então a gente tem que se dar conta das suas limitações, afinal de contas eu estou em processo de aprendizagem. E1: Eu acho que o pessoal que lê não tem muita segurança, ou, às vezes, é uma pessoa tímida. Os palestrantes lêem, a grande maioria lê. Eu não acho ruim ler se for com entonação adequada, se for ler pausadamente, lê, levanta os olhos, olha para as pessoas, baixa de novo, não faz um texto muito extenso. Interessante é a menção que se faz a que o apresentador demonstre o seu conhecimento sobre o trabalho que está apresentando, o que não ficaria evidente numa simples leitura em voz alta De uma certa forma, parece haver, por parte dos entrevistados, uma valorização de uma maneira mais informal de se apresentar. Entretanto, dois entrevistados levantaram questões referentes à necessidade de um certo cuidado envolvendo a linguagem e a postura daquelas pessoas que apresentam um trabalho, o que valoriza uma postura mais cuidadosa, e um entrevistado relatou dar importância à liberdade de poder dar um tom informal à sua apresentação. Destacam-se abaixo os referidos trechos: E2: A questão da formalidade e da informalidade não é só ler, tem as palavras que vai usar, como vai apresentar. As pessoas levam o texto e explicam com suas 1729 palavras, mas mesmo o explicar não é uma linguagem coloquial, tem que se aproximar de uma linguagem acadêmica. E4: A questão passa até pela apresentação, tem gente que vai com uma folhinha, desdobra, e é o que preparou pra falar ali. Isso envolve a linguagem, a postura, você vai falar de uma forma respeitosa, valorizando não só o seu trabalho, mas aquela platéia que está ali. E3: Eu gosto de ser relativamente informal no sentido de falar, ficar à vontade e de deixar a platéia à vontade. (...) eu estou falando de informalidade no sentido de você ficar à vontade pra falar, não necessariamente ficar usando palavras rebuscadas, palavras difíceis, pra mostrar uma determinada autoridade ou legitimidade. E10: Eu, geralmente, falo quando apresento um trabalho, porque acho uma coisa é tu preparares um trabalho escrito, para as pessoas lerem, acompanharem o texto escrito, e outra coisa é tu preparares um trabalho para a pessoa ouvir. Acho que tem uma diferença grande. Para capturar a atenção da platéia, eu acho que o apresentador tem que ter essa habilidade, ter um certo domínio da linguagem oral. Se é para fazer a leitura do trabalho, assim, ao pé da letra, formal, eu respeito as pessoas que fazem essa opção, é uma opção que circula bastante nos meios acadêmicos, enfim, eu não gosto. Eu preciso ter o texto em mãos para poder interagir. Eu acho que o texto escrito ele é feito para ser lido. Tem alguns textos escritos que podem ser cuidadosamente produzidos para serem ouvidos, né, mas eu acho que aí a pessoa tem que ter uma habilidade de leitura, saber o momento de interromper e trazer um exemplo ao vivo e a cores. E, convenhamos, isso não é uma coisa assim tão comum e tão simples, tão fácil, essa desenvoltura, acho que as pessoas que têm mais experiência talvez consigam. Acho que tem que dosar [formalidade e informalidade], né? Quem fala o quê, para quem, né? Depende do congresso, depende do grupo para o qual vou falar. Dosar e, entre aspas, “o conteúdo”, o que pode ser dito, essa noção de adequação semântica, sintática, adequação do conteúdo. A questão da informalidade à qual tantos entrevistados aludiram pode ser interpretada dentro do quadro mais geral de tendências atuais do discurso, conforme propõe Fairclough (2001). Ao abordar cinco áreas do que chama de “democratização” atual do discurso, o autor observa que “uma manifestação central de informalidade crescente é a forma com que o discurso conversacional tem sido e está sendo projetado de seu domínio primário, nas interações pessoais da esfera privada para a esfera pública.” Ou seja: cada vez mais a conversação estaria colonizando vários tipos de discurso, mesmo os públicos, que viriam adquirindo um caráter cada vez mais conversacional. Nesse sentido, mesmo em situações que não seriam propriamente de “conversa”, entendida como gênero habitual e descontraído, alguns traços dessa coloquialização estariam sendo incorporados, para tornar menos pesado um determinado ambiente. E tal tendência estaria sendo incorporada ao gênero que estamos estudando. 2.4 Público Resgatando a idéia de que a apresentação de trabalho em um evento envolve uma situação bipolar, na qual estão inseridas um apresentador e seu público, há que se considerar a importância desse último e o quanto ele afeta ou conduz a apresentação do expositor. Nesse sentido, houve depoimentos bastante variados por parte dos entrevistados. Enquanto alguns afirmaram que o público é importante e que ele influencia aquilo que é apresentado, também foi enfatizado que na maior parte das vezes não há mudanças significativas no momento da exposição do trabalho em função do público, pois a apresentação já viria preparada. A questão do número de assistentes é um item bastante abordado, mas é relativizado em função de aspectos da interação – através dos olhares, das caretas, dos sinais corporais de 1730 desinteresse, das perguntas... Também alguns entrevistados se questionam sobre a possível intenção das pessoas que vão assistir (se vão apresentar na mesma sessão ou gostaram da temática), enquanto outros abordam a intimidação quando alguém em especial está na platéia. E4: Eu acho que em relação ao público, tem muito a ver com a sessão em que te colocam, porque às vezes te colocam no último dia, no último horário, ou às 8 da manhã. É claro que você vai apresentar o seu trabalho, mas você fica pensando, será que os que vieram aqui vieram pra ouvir ou só pra apresentar? Mas certamente é muito bom quando você te apresentando e vê assim alguém mexendo com a cabeça, interagindo com você. Então eu acho que nesse sentido o público influencia. E5: Agora assim, quanto mais informal é o evento, mais à vontade eu me sinto. Se tem algum conhecido na platéia, é uma forma de julgamento, tu estás sendo avaliado. O público, as características do evento influenciam bastante. E6: O fato de as pessoas estarem interessadas ou não, fazerem perguntas ou não, é claro que isso te mobiliza. E7: Muita gente me apavora. Mas nunca mudei minha apresentação por causa do público, porque é muito complicado isso, está organizado, né? E8: Eu acho que o público é importante sim. Faz diferença falar para duas pessoas ou quinze, assim como faz diferença falar num grupo que compartilha dos mesmos referenciais teóricos ou não. E, portanto, acredito que faça diferença a orientação da apresentação. Para determinado público vais enfatizar mais tal coisa do que para outro. A interação da pessoa que apresenta com o público também é importante. Falar para pessoas que estão sorrindo, balançando a cabeça de forma que concordem com o que estás dizendo é muito bom. Lembro-me que uma vez apresentei em um congresso, no qual uma mulher fazia muitas caretas enquanto eu falava. Isso me deixou muito nervosa porque eu achava que ela não estava entendendo o que eu estava dizendo e acabei me perdendo na apresentação. E9: A atenção dedicada pelo público também influencia diretamente o apresentador. Públicos mais ativos, mais empolgados, permitem uma apresentação mais viva, mais interativa. Públicos desinteressados, dispersos fazem a gente desejar terminar rapidamente, pra não cansar ninguém. O número de pessoas é um dado relativo, acho eu. Muitas vezes uma sala cheia e dispersiva inibe, e um grupo pequeno e atento permite que a pessoa se solte na apresentação. Quantidade não é qualidade. Acho que influencia muito mais a questão do “quem” está assistindo do que “quantos” estão assistindo. E10: Eu já participei de congressos e de sessões em que o público era bem numeroso, várias pessoas, e isso tanto causa uma sensação de respeito, assim, de desafio, de provocação, “puxa! quantas pessoas se interessaram por essa temática, né?” te coloca numa outra posição, assim.. quanto também já enfrentei platéias bem reduzidas, em número de pessoas, mas que foram ricas em termos de interação. (...) Me lembro de um congresso em Buenos Aires num trabalho sobre leitura, né, e tinha umas 4 ou 5 pessoas, mas foi um grupinho tão agradável, com tantas perguntas, as pessoas que realmente estavam ali tinham interesse. Eu acho que isso também é válido. Então, a gente tem surpresas nessas apresentações. (...) E eu sempre apresento com o mesmo rigor, com o mesmo entusiasmo, eu não deixo de apresentar se tiver 4 pessoas. Dois dos entrevistados tiveram uma opinião um pouco diferente dos demais, sendo que um deles relatou, inclusive, uma experiência na qual tinha mudado o rumo de sua apresentação em função do público, conforme os excertos abaixo relacionados: E2: Tive uma experiência agora o ano passado [2006], quando eu fui falar sobre o Orkut no Rio de Janeiro, eu estava me apresentando, eu comecei a falar e vi que 1731 tinha um monte de estudantes de Letras e da Pedagogia que eram mais moços e quando eu comecei a falar sobre alguns professores, eles começaram a se olhar, a gente vê, né? eles sabiam do que estava falando, estavam de acordo, eu senti. Até simpatizei mais, porque tinha uma empatia do público, uma receptividade bem grande (...) Mas foi muito interessante, porque no momento em que eu percebi que tinha estudantes na platéia, o meu discurso, a minha fala, assim, eu mudei, eu enfatizei mais o que eu percebi que estava agradando aquele tipo de platéia. E3: Evidente que o público influencia no modo como você vai se relacionar com a platéia. Se você está ali, está vendo que as pessoas estão fazendo outra coisa, estão ali só pra apresentar, lendo seu próprio trabalho, olhando no relógio, então isso tudo vai coordenar a sua forma de falar. Então aí que está a postura de quem está apresentando, de se coordenar a partir daquele povo que está ali. Tem público receptivo ou não. 3. À guisa de conclusão A partir desta breve incursão que fizemos sobre as experiências e os entendimentos que um grupo de pesquisadores tem do gênero “apresentação de trabalhos em congressos”, é possível elaborar algumas observações finais. Evidentemente, o gênero tem um caráter institucional bastante marcado e seu conhecimento e reconhecimento está limitado a uma comunidade discursiva também específica: professores universitários, pesquisadores, mestrandos, doutorandos e alguns acadêmicos. As ocorrências do gênero têm lugar, hora e duração definidas de antemão, além da restrição temática – pesquisas, discussões teóricas, acadêmicas – assim como de quem pode ser enunciador, já que os enunciadores se candidatam a sê-lo e necessitam de uma aprovação prévia para que possam desempenhar tal papel. Entretanto, das entrevistas, emerge a representação de um gênero cujo domínio não é propriamente “fácil”, tendo sido citadas várias estratégias, truques e procedimentos usados pelo usuário/enunciador para conseguir simultaneamente atingir o público, relatar o que preparou e atender estritamente o prazo temporal concedido. O uso de recursos visuais, como lâminas ou slides/powerpoint é considerado como essencial, não apenas para permitir ao público acompanhar a apresentação, como também para conferir uma determinada cadência temporal ao enunciador. Neste sentido, diferentemente de palestras, onde parece haver uma maior flexibilidade temporal de exposição, uma vez que o palestrante está revestido de uma certa autoridade conferida pelo próprio papel acadêmico, nas sessões de comunicação, os enunciadores estão sujeitos a um controle mais estrito de tempo, pelo coordenador da sessão. Também o público exerce sua força, embora, via de regra, não possa se manifestar verbalmente durante a apresentação do trabalho; nossos entrevistados citaram várias dimensões em que o número, a receptividade, a atitude dos assistentes se reflete no desempenho. É interessante observar, por fim, que foi por todos indicado o hibridismo entre língua falada e escrita (principalmente das lâminas), embora – em tempos onde, conforme Fairclough, a conversa “coloniza” outros gêneros, a simples leitura dum texto prévio não é bem vista, sendo, no máximo, tolerada por alguns. Mas, novamente, houve referências a que os palestrantes dos eventos o fazem com freqüência, sem maiores problemas. Cremos que, com esse trabalho, mesmo sem ter essa intenção prévia, seguimos o que Marcuschi (2005, p. 34) sugere, em relação aos gêneros: “Não é prioritária a análise da forma como tal nem da estrutura e sim da organização e das ações sociais desenvolvidas, bem como dos atos retóricos praticados”. E, mais adiante, ele relembra (p. 35): “os gêneros são um tipo de gramática social, isto é, uma gramática da enunciação”. Um pouco da representação desta gramática foi o que procuramos trazer neste trabalho. 1732 Referências BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez Editora, 2005. CHARAUDEAU, P. Visadas discursivas, gêneros situacionais e construção textual. In: MACHADO, I.L.; MELLO, R. (orgs.) Gêneros: Reflexões em Análise do Discurso. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2004. p. 13- 41 CUNHA, Dória de Arruda Carneiro. 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