i i i i BIOÉTICA? Da Relação entre a Vida e a Biologia Américo Pereira 2009 www.lusosofia.net i i i i i i i i i i i i i i i i Covilhã, 2009 F ICHA T ÉCNICA Título: Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia Autor: Américo Pereira Colecção: Artigos L USO S OFIA Design da Capa: António Rodrigues Tomé Composição & Paginação: Filomena S. Matos Universidade da Beira Interior Covilhã, 2009 i i i i i i i i i i i i i i i i BIOÉTICA? Da Relação entre a Vida e a Biologia Américo Pereira Índice 1. Bioética na relação com a Biologia 2. Que é a Biologia? 3. Que é a Vida: a questão da definição do Bios 4. Uma Bioética 4.1. Que é e que deve ser uma Bioética? . . . . . . . . . . – O termo «Bios» . . . . . . . . . . . . . . . . . – O termo «Ética» . . . . . . . . . . . . . . . . 4.2. Algumas considerações sobre o Horizonte da Bioética . . . . 3 11 23 29 29 29 33 41 1. Bioética na relação com a Biologia O discurso comum da bioética, fundado nos pressupostos especialmente eleitos, que não naturais, para a sua fundamentação, 1 é 1 Damos como conhecidas as principais doutrinas: Principialismo, Deontologismo, Teleologismo, Consensualismo, Utilitarismo, Contratualismo ético, Personalismo: ontologia da pessoa e bem-comum, etc. 3 i i i i i i i i 4 Américo Pereira de uma manifesta precaridade, pois tais pressupostos, ao que parece voluntariamente, são, salvo mitigadamente no Personalismo, de índole não ontológica, ficando, assim, necessariamente, de fora exactamente o que de fundamental está em causa: o ser do ser vivo, ou seja, precisamente, o ser vivo enquanto ser vivo, não apenas enquanto ser ou enquanto vivo, mas enquanto ser e vivo, que é o que o ser vivo é, nisso que o distingue dos demais seres; fora isto, é tão ser quanto os outros, sem qualquer diferença própria relevante do ponto de vista em causa, exactamente o biológico. Se sobre o ser vivo se pensar tudo menos o seu mesmo ser, poder-se-á obter uma série de conclusões interessantíssimas acerca de tudo o que foi pensado, menos acerca do que interessa fundamentalmente nisso e relativamente a isso que está em causa e que é obviamente o seu ser. De que serve pensar tudo o que é acrescentado ao ser do vivente, enquanto tal, se este mesmo, enquanto propriamente ser vivente, não é pensado? Note-se que não se trata de pensar o ser independentemente de ser vivente ou o vivente independentemente de ser e de ser como vivente, mas necessariamente isso que é o ser vivente. Todo o pensamento que separe um de outro não pensa o ser vivo, pelo que não pode ser uma forma de pensamento biológico, mas apenas de pensamento meramente físico, ou outra qualquer. Apesar de depender de uma tradição recente profundamente reducionista, o que precisamente a biologia não pode ser é reducionista, reduzindo, por vezes logo à partida, o âmbito da sua pesquisa ou as virtualidades heurísticas da inteligência humana como possível instrumento de tal pesquisa, sob pena de nem bio-logia ser. Escusado será dizer que grande parte do que passa por biologia e mesmo por biologia científica (bem como todas as suas decorrências, puramente científicas e/ou aplicadas, mesmo no âmbito dos cuidados de saúde) não é biologia alguma, mas apenas uma qualquer forma sucedânea redutora: em vez de pensar a vida na sua máxima realidade possível, sem quaisquer restrições que não sejam ditadas pela www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 5 eliminação como não pertinentes de realidades provadamente não vivas, reduz a realidade pensável como vida a postulados que não derivam de sua mesma investigação, mas de âmbitos que nada respeitam à biologia, sejam ideológicos, religiosos ou de outra qualquer tipologia, sempre política, sempre de perversão do poder político. Isto implica que uma qualquer bioética que queira ser digna deste nome tenha de partir de uma biologia que seja não redutora; caso contrário, estará a reflectir não sobre a realidade biológica, mas sobre uma qualquer redução dessa mesma realidade e tudo o que disser participa da mesma irrealidade redutora da ciência base sobre que reflecte. Tememos que grande parte do discurso de bioética existente padeça deste defeito, dado que assume acriticamente os dados de formas de biologia redutora, precisamente sem os criticar à luz de uma biologia não redutora, não podendo senão chegar a conclusões que, se bem que eventualmente fiéis ao seu substracto preconceptual epistemológico, são profundamente infiéis à realidade biológica, uma vez que os dados de que partem não se referem a esta mesma realidade, mas a uma sua qualquer redução, por definição irreal. Especificamente, no que diz respeito ao homem, dado que a bioética existente é uma disciplina antropológica e tão só (ou seria uma outra forma redutora, porque necessariamente “moralizadora”, de biologia e de ecologia gerais), que interesse tem pensar todas as dimensões da mesma entidade humana menos a sua dimensão própria de entidade viva especificamente humana? Uma bioética que não pense o bios do homem, isto é, o seu ser como ser vivo, o homem como entidade biológica, não é uma bio-ética, mas uma outra coisa qualquer. Há, pois, que pensar, antes de mais e sempre, o ser do homem como ser biológico, isto é, como biológico e como ser, mas como ser cuja entidade não se reduz à sua biologia, ou, melhor, como ser cuja biologia própria não se reduz a uma mera materialidade diferenciada biologicamente, como nas www.lusosofia.net i i i i i i i i 6 Américo Pereira demais espécies, mas a uma bioentidade que é capaz de se pôr a si mesma como objecto de seu próprio pensamento, assim, propriamente bio-lógico, de uma bioentidade que só o é porque serve de suporte a uma capacidade intelectiva que lhe dá o acesso a si mesma, acesso que é propriamente a colheita de seu sentido como entidade viva, isto é, como biologia em acto,2 o que não acontece com qualquer outra espécie. Todo o acesso a qualquer forma de pensamento acerca do que é, na universalidade e particularidade do ser, logo, acerca da própria biologia – seu sub-conjunto – só é possível porque há uma intelectividade possível e uma inteligência próprias do homem, sustentadas pela sua mesma biologia, mas que não são a esta redutíveis ou nunca a concreta biologia teria dado origem a esta outra de si própria como ciência, isto é, se houvesse uma redução do pensamento à biologia, não haveria diferença alguma entre a biologia e o pensamento, pelo que, sendo aquela primeira quer cronológica quer ontologicamente, segundo 2 Neste sentido, a biologia não é primária e fundamentalmente uma ciência, mas, muito antes de o ser, é fundamental e primariamente a forma própria de o homem ser: o homem é a única entidade bio-lógica que conhecemos, isto é, é o único ser que é capaz de se pôr como objecto em acto de seu mesmo acto de sentido, em um único acto, que é ambos concomitantemente. Se há entidade a que o vetusto «no princípio, era o Verbo» se aplica é exactamente a humana, numa descoberta perfeitamente lógica do modo próprio de ser do homem, que é, antes de mais, logos, e que é, por ser logos, imediatamente um bios logos, um bios logikos, dado que se descobre imediatamente como um vivente que é porque pensa que é, quer dizer, que se descobre como ente e como ente vivo porque isto se lhe dá na forma de pensamento e do pensamento e unicamente assim. Assim sendo, uma bioética não pode ser apenas uma reflexão ética sobre a biologia, mas a ética própria de uma entidade que é concomitantemente ética e biológica: o mesmo homem. A bioética entendida como disciplina acerca da “correcção” das práticas da biologia, em sentido lato, é apenas um sub-conjunto de uma forma bioética mais vasta e que coincide com o próprio logos da acção do homem enquanto ser vivente, que é um ser ético por necessidade ontológica. Aliás, formalmente, uma tal “bioética” não seria propriamente uma «ética», talvez uma «deontologia», certamente uma qualquer forma de direito positivo, todo ele artificial e não necessariamente científico. www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 7 as mesmas teses de uma biologia materialista, e não havendo diferenciação real, o pensamento nunca teria sido. Ilógica e inexplicavelmente, todas as correntes materialistas, em perfeita coerência com os ilógicos fundamentos das doutrinas que defendem, querem fazer derivar a diferença própria do pensamento de algo puramente diverso do mesmo pensamento, violando assim, como, aliás, todo o evolucionismo não teleológico, a mais básica das regras lógicas acerca da possibilidade da evolução ontológica, segundo a qual, não é possível explicar o mais pelo menos, sem recurso a formas de pensamento sempre necessariamente mágicas, ainda que muito bem disfarçadas de ciência. É claro que, não sendo possível, segundo linhas causalistas mono-lineares do menos para o mais, explicar o aparecimento de maior riqueza ontológica, se recorre ao expediente mágico do acaso ou também ao não menos mágico expediente da qualificação pela simples quantificação. O acaso, a ser real, implicaria o acto mágico de poder haver qualquer efeito sem causa própria e a pura quantidade, sem mais, nada mais gera do que uma diferenciação quantitativa. Por exemplo, as famosas experiências de Miller acerca das possíveis analogias entre aquilo que se acredita ter sido a composição química da atmosfera e da geosfera terrestre há alguns milhares de milhão de anos e um ambiente químico artificial composto em laboratório nada mais prova do que aquilo que foi observado: que certas presenças, em certas quantidades quer de matéria quer de energia quer de interactividade entre os elementos presentes, produzem certos tipos de moléculas. Nada mais. Não surgiu vida naquele laboratório, como não surgiu vida no laboratório de Pasteur quando este, pela primeira vez, foi capaz de separar claramente o que era biológico do que não o era, pondo fim ao pensamento mágico acerca da adveniência natural de vida a partir da simples matéria, ainda que seja matéria “ex-viva”. Pensamos que certas teorias que querem forçar os dados – os que forem honestamente conseguidos são mesmo cientificamente www.lusosofia.net i i i i i i i i 8 Américo Pereira bons – de certas descobertas ao serviço de teorias de tipo ideológico, que ensaiam substituir os antigos mitos biológicos e biogénicos por outros novos, nada mais são do que formas perversas de pensamento pseudo-racional, constituindo, de facto, um retrocesso a formas de pensamento de tipo mítico-mágico anteriores ao advento do pensamento racional. Por nós, preferimos a clareza de um pensamento que se debruce sem quaisquer preconceitos acerca do que a realidade das coisas é, sempre tendo em conta as necessárias limitações da finita inteligência do ser humano. Os mitos, na sua grandeza de busca de uma explicação narrativa para o todo do ser segundo uma via poética, constituíram, no seu tempo e modo próprios, um grande avanço na história da humanidade e da sua constituição como comunidade universal humana de sentido. A queda mítica de certas ciências, por manifesta impotência gnosiológica dos pressupostos em que se baseiam, representa um sério retrocesso na caminhada da humanidade no sentido de uma cada vez maior inteligência em acto do ser em que vive. É esta irracionalização o grande perigo de todas as formas de pensamento reducionista e a biologia tem vivido nos últimos séculos num e de um clima de reducionismo, que necessariamente obriga, mais cedo ou mais tarde, logicamente, a que se caia em círculos viciosos, cuja única fuga é mágica, dado que o mecanismo de redução obriga a que tudo o que se encontra de aparentemente posterior esteja já, de algum modo, no anterior, reduzindo tudo à potencialidade arqueológica presente no início e num início que é necessariamente finito, ou não seria início algum, mas uma eternidade ontologicamente plena, que a biologia que conhecemos não aceita. Do suposto grande estoiro inicial de energia e matéria, ao homem e a uma qualquer possível posteridade de complexificação, o como material puramente quantitativo não consegue dar conta da imensa evolução complexificadora, observando nós, estupefactos, afirmações mágicas como, por exemplo e frequentemente: «a espécie decidiu que...», como se as espécies decidissem. www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 9 Tais afirmações, tal ambiente são profundamente anti-racionais e qualquer ciência que em tal caia dificilmente reencontrará o seu caminho racional, pois encontrou um outro, de muito maior facilidade, que permite, quando os pressupostos enformadores da ciência já não respondem em termos de fundamentação, inventar saltos mágicos, que magicamente preenchem as elipses racionais e permitem a uma ciência já moribunda continuar a funcionar. Exige-se de qualquer ciência materialista e quantitivista que seja capaz de uma precisão semelhante à dos engenheiros informáticos que são, ainda, capazes de ir, por exemplo, do um e do zero da linguagem máquina básica até às definições deste mesmo texto na pantalha do visor do computador. Tudo o mais é saltar por sobre a matéria e fazer magia. A ciência tem de escolher: ou continua a querer ser materialista e quantitivista e, então, tem mesmo de o ser coerentemente e até às últimas consequências, por mais absurdas que se venham a revelar, ou continua a ser semi-materialista e semimagista; ou, finalmente, tem de alargar infinitamente o horizonte e o zénite da possibilidade heurística da humana inteligência, assumindo que é possível fazer ciência de vários e não apenas de um modo, precisamente o modo único de que se reclama, o materialista. Precisamente, parece-nos que a biologia teria muito a ganhar se retornasse a uma concepção muito mais alargada de possibilidade de definição do vital, transcendendo a mera magia da vida como excreção ou secreção especial de modos especiais de encontros atómicos e moleculares. Deste modo, a bioética conta, logo à partida, com um condicionalismo epistemológico fortíssimo, que consiste no modo reducionista que a biologia reinante tem de lidar com os problemas etiológicos que se lhe deparam, remetendo as explicações para um começo – mítico, dado que não se conhece nem se pode conhecer, aliás, dado que não há material histórico-científico suficiente que permita o seu cabal conhecimento – tuti-explicativo e de onde tudo tem as suas razões, nada mais sendo verdadeiramente original, mas www.lusosofia.net i i i i i i i i 10 Américo Pereira apenas fruto de um desenvolvimento mecânico e material daquele também material e mágico princípio original. É este o pressuposto essencial e estrutural de todas as formas evolucionistas-passadistas, arqueocêntricas, puramente analépticas, de explicação da vida, em seu sentido mais lato, qualquer que seja a escola em causa, uma vez que não é admitida a possibilidade de uma real teleologia motora, essa, sim, aberta infinitamente a uma real novidade, dado que tudo o que haja de advir ainda não foi, ao passo que a perspectiva evolucionista arqueológica passadista implica necessariamente que tudo o que haja de ser seja apenas uma literal explicação de algo já existente num passado histórico real, movimento unidireccional e cujo sentido se pode reverter, verdadeiramente anulando realmente a aparente novidade, dissolvida retroactivamente no que foram os degraus da evolução que até ela levaram, conhecidos como suas «causas». O grande inimigo, e inimigo porque adversário mortal, de uma bioética que vise realmente o bem comum da espécie que é suposto servir reside imediatamente neste problema epistemológico do reducionismo de uma das disciplinas base de que se serve – a fundamental, aliás – e que anula, também imediatamente, o valor ou sentido ontológico próprio de cada entidade biológica, adjudicando o seu ser próprio (e realmente insubstituível no que é) a outros seres, seus substitutos, numa degradação crono-ontológica que esvazia de sentido toda a biologia, porque anula o que é realmente próprio das entidades que estuda. Este mecanismo redutor implica que o objecto próprio da biologia seja vazio, melhor, que a biologia como estudo redutor esvazie o seu objecto, à medida precisamente que o vai estudando, dado que este estudo consiste na redução do que o objecto é ao que são – foram – as suas causas, de onde tudo provém, sendo que, nesta linha de pensamento, nada mais pode vir de qualquer outro sítio que não das ditas causas analépticas, dado que não há outras. Este problema, cuja formulação é necessariamente abstracta, é www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 11 tudo menos um problema abstracto, no sentido popular do termo, dado que, quando se constitui uma qualquer disciplina, é suposto que essa disciplina disponha de um objecto a estudar. Ora, uma biologia redutora destrói o que é o seu possível objecto, enquanto realidade própria, pelo que a bioética corre o sério risco de ser uma “ética” ou uma deontologia ou um qualquer tratado de direito aplicado que pensa uma realidade que não existe realmente, o que, de facto, é o que se tem vindo a registar, pois a realidade biológica pensada não é exactamente aquela que deveria ser pensada, mas outras suas substitutas de etiologia política, isto é, fruto de construções elaboradas por conjuntos de entidades humanas. 2. Que é a Biologia? Antes de avançarmos nesta reflexão acerca da bioética, há que pensar a essência da própria biologia. Como é óbvio, há muitas definições manualísticas acerca deste tema, mas não é de uma dessas que necessitamos, mas de construir um percurso reflexivo que nos permita aproximar do que a biologia realmente é ou deve ser. 3 Não sendo possível saber quando começou o homem a pensar em si mesmo como ente vital, 4 não é descabido suspeitar que o 3 Este «deve» não é um «deve» moral, mas epistemológico; este «dever» epistemológico nada mais quer dizer do que a necessidade que qualquer ciência tem de ser o mais fiel possível ao seu mesmo objecto de estudo, humildemente procurando, por meio de todos os modos possíveis à inteligência humana, acercar-se da realidade própria de isso que estuda, sem cair na tentação de poder de forçar “razões”, sem qualquer intento tirânico sobre isso que estuda. Infelizmente, não é este o procedimento mais corrente, por mais que se diga o contrário. 4 A demarcação ontológica entre o que foi a história e o que a historiografia é implica uma diferença ontológica necessariamente inultrapassável, nunca podendo a segunda replicar a primeira, sendo a segunda apenas uma de infinitas possíveis formas de memória da primeira. A narração histórica pode tentar uma aproximação infinitesimal ao que foi a história, mas nunca poderá coincidir www.lusosofia.net i i i i i i i i 12 Américo Pereira tenha feito na aurora de sua vida como homem que se sabe como acto que é, quer dizer, que é já uma entidade reflexiva, que se põe a si próprio como objecto de seu mesmo pensamento. Ora, a vida própria e de seus semelhantes, bem como a vida de inimigos e entidades outras animadas, mesmo e talvez sobretudo daqueles que tem de matar para sobreviver, é um dado óbvio, sendo que provavelmente, a morte e a incoativa reflexão acerca do que pudessse ser há-de ter tido um papel importantíssimo para a descoberta do próprio distintivo da vida: no fim de contas, só se pode matar o que está vivo e esta diferença entre o que está vivo e o que já não está vivo é, a este nível, óbvia e imediata, não podendo escapar à atenção de um ente que precisamente necessita de uma extrema atenção a tudo, interna e externamente, 5 para continuar vivo. Esta questão é de tal modo importante e fundamental e difícil que, ainda hoje, perturba a mente dos homens, não tendo até hoje encontrado qualquer resposta cabal de outra ordem que não a mecom ela. Assim sendo, todas as reconstituições historiográficas mais não são do que esforços científicos (muito meritórios, se honestamente realizados) de reconstituição memorial de acontecimentos idos. O que se passou na mente de homens num qualquer tempo anterior é impossível de se saber com rigor infinito. Tudo o que se possa dizer acerca de tudo o que humanamente foi da ordem do pensado no passado é meramente especulativo. Mesmo acerca do que ficou materialmente registado temos de piamente acreditar que era mesmo isso que de isso percebemos que o registador queria “dizer”, significar... 5 Pensar-se que «agora é que o “homem” ou a “humanidade” pensa e reflecte» é talvez muito ingénuo, para além de autocomplacente: ninguém como um ser humano cuja existência está permanentemente em causa é obrigado a pensar constantemente quer a um nível de tipo mental-calculador-calculista (o paradigma da modernidade, paradigma muito primitivo...) quer a um nível reflexivo, verdadeiramente estratégico, capaz de antecipar genérica e tentativamente modelos de realidade nunca antes experienciados, o que implica não apenas formas de imaginação puramente replicativa, mas já criadora. Uma humanidade posta a viver sem perigo de exposição vital rapidamente perde esta capacidade, tornando-se coisa entediada e incapaz de verdadeiramente criar, limitando-se a repetir o que foi criado por outros in illo tempore. www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 13 tafórica: não há propriamente ciência da morte; resta saber se há verdadeiramente ciência da vida. Indaguemos. Podemos afirmar sem grande risco de erro que todos os grandes textos antigos que conhecemos (pelo menos os que quem escreve estas linhas conhece) podem ser vistos como meditações muito próprias acerca da vida, da sua mesma essência, sendo, neste sentido, textos profundamente biológicos. Não admira, pois, que muitos deles sejam textos fundadores de religiões, cosmogonias, antropogonias, etc.; textos fundadores de sentido e de um sentido em que vida e morte estão radicalmente presentes. Os exemplos abundam, mas fica o repto da prova em contrário. Temos, pois, que o pensamento biológico, para não lhe chamarmos biologia, a fim de evitar equivocidade, é talvez tão antigo quanto a própria humanidade, mas garantidamente tão antigo quanto a antiga humanidade que se pôs definitivamente como auto-consciente de ser precisamente humanidade, isto é, uma forma de vida humana, o vivente humano, o vivente humano que sabe que é vivente humano, isto é, vivente, humano e que sabe que é tudo isto porque é humano, ou seja, a forma de vida em que há a possibilidade e a actualidade de haver sentido de e como vida, sendo que é precisamente este sentido que constitui a vida humana. Sem este sentido, nunca teria havido qualquer possibilidade de constituição de uma qualquer biologia como forma de pensamento. Sendo esta reflexão necessariamente realizada no foro interior do ser humano, foro que se confunde ontologicamente com o seu mesmo lar ético, é possível dizer-se que a humanidade é incoativamente bioética, num sentido muito mais profundo e vasto do que o da vigente bioética: o ser humano, desde que é o que é, pensa a vida como radical diferença própria sua e pensa-a na raiz ética fundamental de onde toda a actividade nasce, de onde toda a actividade pode nascer. Neste sentido, a bioética é tão antiga quanto o mesmo ente humano. Por exemplo e na nossa tradição intelectual, formas biológicas de reflexão aparecem um pouco por toda a parte na filosofia www.lusosofia.net i i i i i i i i 14 Américo Pereira pré-socrática, na platónica e, por fim, a biologia acaba por nascer como actividade e disciplina científica com Aristóteles. A sua posteridade é conhecida, com seus altos e baixos, com a moderna a negação de seu pai, que levou a biologia a ter de viver numa constante tensão entre a herança genuinamente empirista de Aristóteles e as reduções realmente anti-empíricas de uma biologia que se quer maduramente científica e empírica, mas que tem vivido de formas irracionais de redução do campo da experiência possível. Um retorno a uma certa cósmica santidade e pureza holo-empírica aristotélica será inevitável, se a biologia quiser poder dizer ainda algo acerca da realidade biológica do universo e não apenas acerca da realidade biológica das reduções que previamente define e de que ultimamente tem partido. Há uma holística essencial, substancial e necessária à qual a biologia não pode escapar: a sua integração numa continuidade e contiguidade ontológica, que vai desde a mais basal e aparentemente simples física material, até ao domínio do espiritual, aqui entendido laica e precisamente como o âmbito que permite, por exemplo, fazer biologia, reflectir sobre ela, fazer bioética, etc. Não necessitamos de fazer apelo a qualquer tema supostamente religioso (não discutimos isto aqui) para pensar a biologia na sua maior profundidade, pelo contrário e seguindo a ordem natural das coisas, é exactamente no aprofundamento do pensamento acerca da essência das coisas – forma socrática-platónico-agostiniana-tomista de pensar – que se pode chegar a uma dimensão religiosa, caso tal se imponha naturalmente. Em ciência, nada impede a revelação sob qualquer forma, sempre como forma de acto da inteligência humana, mas aquela é sempre produto de um esforço (que deve ser humilde) do homem, não dom gratuito de algo que transcenda o homem. Por tal, realmente se faz tão pouca ciência. O domínio ontológico próprio da biologia situa-se indiscutivelmente na sequência imediata do domínio de uma física não biológica, em que energia e correspondente matéria são inanimados. www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 15 A grande questão é, assim, em biologia, a da diferença entre o inanimado – o não vivo, o morto, porque não vivo – e o animado, o vivo. Deveria, pois, ser tarefa primeira e primária da biologia definir, sem qualquer ambiguidade, o seu mesmo objecto próprio, sem o que não pode ser considerada verdadeiramente uma ciência. Ora, esta tarefa está por fazer, o que implica imediatamente que a biologia não possa ser considerada uma verdadeira ciência, pois lhe falta a definição do objecto próprio. O que existe sob o nome de «biologia» é um imenso conjunto de actividades, que, melhor ou pior, seguem métodos aceites como científicos – sem reflexão metodológica, pois esta demonstraria que não há propriamente objecto –, que vão servindo finalidades várias, mas que não podem dizer coisa alguma acerca da vida, dado que não foi definido isso acerca de que dizer alguma coisa. Diz-se muito acerca de muitas entidades tidas como “vivas”, mas não se sabe definir o que é a «vida» que supostamente faz com que se possa dizer que tais entidades são precisamente «vivas». De mal semelhante sofre a física, toda construída em torno da “energia”, mas que não sabe o que é a «energia» em torno de que está construída... Tais problemas não são mera anedota para fazer sorrir epistemólogos cínicos, mas a revelação da falta de fundamento das ciências contemporâneas, incapazes de sobreviver ao mero «como», mas impotentes para responder ao «porquê», resposta para a qual foram propositadamente impreparadas, pois seus fundadores pensaram, mal, que a questão acerca do «porquê» macularia metafisicamente a ciência. No entanto, e na sequência daquela descoberta ancestral da diferença própria manifesta do e pelo animado, há uma intuição obscura acerca do que é isso que é vivo em sua diferença própria, sendo acerca de tudo o que se assemelha a tal tipo entitativo obscuro que se refere o trabalho da biologia. A confusão epistemológica é ainda maior em disciplinas que necessariamente têm de ter um carácter misto como, por exemplo, uma bio-química, em que se estudam entidades não vivas que são suporte imediato ou me- www.lusosofia.net i i i i i i i i 16 Américo Pereira diato de entidades vivas (por exemplo, o ADN), sem que se consiga perceber exacta e precisamente como esta relação fundamental se dá, uma vez que não é possível definir rigorosamente uma relação entre entidades cujo estatuto próprio fundamental se desconhece rigorosamente. Mas o mais estranho de tudo é a deriva magista que parece viver-se em muitos ambientes hodiernos, em que aparentemente se espera o surgimento mágico da vida, como vida mesmo, a partir de entidades totalmente não vivas, numa definição que se quer mecânica da vida em seu acto, mas que é propriamente mágica: “juntam-se todas as peças físicas da célula e, só por isto, temos uma célula, isto é uma célula viva”. Se tal se verificar, há uma mecânica própria para a origem da vida – tal aplica-se também às especulações tipo milleriano acerca da origem absoluta da vida no universo, a partir de uma mera mistura mecânica de moléculas, moléculas já antigas, de “outros sóis”. Mas são expressões como esta: «célula viva» que nos podem ajudar a perceber o que está em causa. Pode habitualmente não se notar, mas a expressão «célula viva» é redundante: só há células vivas, não há células mortas, apenas cadáveres celulares de excélulas vivas. A diferença substancial entre uma célula viva e um cadáver de célula não é do tipo da que é sugerida pela audição ou visão retóricas do contraste gramatical entre as expressões materiais «célula viva» e «célula morta»: aqui, há apenas uma distinção de tipo gramatical, em que termos classificados como antagónicos qualificam (adjectivam) entidades substantivas deles aparentemente independentes. Assim, haveria uma entidade substantiva, a “célula”, que poderia estar ou “viva” ou “morta”, mas não ambas as coisas ao mesmo tempo (quanto à questão lógica de «sob o mesmo aspecto» é precisamente o que está em causa...). Nesta forma manifestamente errónea de pensar, o estar vivo ou estar morto não só é independente da entidade substantiva a que se refere como também é meramente adjectival; quem sabe, talvez mesmo alternativo, www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 17 multi-sequencial, podendo estar uma vez vivo, depois morto e depois vivo, etc., o que talvez permita algo como “somas algébricas de vida e morte e respectivos saldos”, talvez mesmo não unitários (por ex., 1,3 ou 0,6 de vida...), no que é já uma forma anedótica de pensar a realidade. A vida, é aqui entendida como algo de meramente acessório, acidental, não essencial, não substantivo: é apenas uma propriedade possível de uma entidade dela ontologicamenbte independente. Note-se que usámos propositadamente as expressões «célula viva» e «célula morta», mas poderíamos ter usado as expressões, psicologicamente mais contundentes, «pessoa viva» e «pessoa morta», para as quais a reflexão tecida é perfeitamente válida, não interessando, de modo algum, para aqui, a questão da complexidade do sistema biológico ou bio-físico em causa. Ora, a vida pode ser tudo, menos algo de não substantivo, de não essencial, de adjectival. Não sabemos o que a vida é, mas temos a obrigação intelectual de saber o que não é, que passa por, pelo menos, vislumbrar a sua importância ontológica própria. Sem o recurso a magias, mais ou menos bem disfarçadas, é apenas à experiência que podemos recorrer e o que esta nos mostra é que a diferença entre a «célula viva» e a «célula morta» não é acidental ou adjectival, mas substancial. Uma observação minimamente atenta e cuidada mostra que precisamente o que falta à «“célula morta”» é estar viva... De resto, no momento imediatamente (infinitesimalmente) posterior a ter «morrido», está lá tudo, exactamente tudo o que de material havia na «célula viva»; não admitir isto, é necessariamente fazer apelo a qualquer acto mágico que, num “instante” retirou a parte material que fazia a diferença no sentido próprio da vida. E, no entanto, apesar desta completude física, desta verdadeira igualdade material, a célula está não viva, está morta. Deste modo, não é material a diferença entre a célula e o seu cadáver. Esta conclusão não é logicamente rebatível e não há modo experiencial de medir a suposta “matéria” em falta, não por falta de mé- www.lusosofia.net i i i i i i i i 18 Américo Pereira todo ou de instrumentação, mas porque não há o que medir, dado que, à parte a vida que falta, tudo o mais, do ponto de vista puramente material, está presente. 6 É este acto sem tempo próprio, sem duração, entre o estar vivo e o estar não vivo que define o absoluto da diferença que, por sua vez, define o âmbito próprio de uma biologia que queira ser uma biologia e não apenas um apêndice pseudo-biológico de uma ciência física, essa sim, respeitando seus mesmos pressupostos vigentes, rigorosamente material e materialista. A biologia pode, pois, medir todo o material presente antes da morte, isto é, enquanto a vida é, pode medir todo o material presente depois da morte, isto é, quando a vida já não é, mas não pode medir o que faz a diferença entre um estado e o outro: não pode medir o que é precisa e propriamente a vida. Frustrante. Examinar um cadáver pode proporcionar saber tudo acerca de um complexo mero pedaço de matéria orgânica ou, mais propriamente, exorgânica e não só, isto é, também inorgânica, mas nada diz acerca do que é propriamente a vida; a menos que se queira introduzir uma noção biologicamente tão interessante como a de “vida do cadáver”... Insistir nesta senda é cair no mundo mágico de Frankenstein. Ora, este ficcional senhor poderia ser um físico notável que, sem a magia literária, nunca teria conseguido vida a partir da matéria orgânica não viva com que trabalhava. A vida pode ser um salto ontológico no seio do cosmos, mas não é um salto mágico e, se tem todas as características que levam o homem a espantar-se com a maravilha que manifesta ser, esta maravilha representa um salto qualitativo irredutível qualitativa e quantitativamente a qualquer estado ou estádio anterior ou posterior. 7 6 No entanto, esperaremos pacientemente pela construção de uma balança subtilmente capaz de medir a diferença gravítica ao nível do mar entre a massa de um qualquer corpo vivo e a massa de seus imediatos restos mortais: certamente essa diferença representará a massa (e a energia) da matéria que desapareceu quando o corpo morreu... 7 O problema fundamental de qualquer teoria evolucionista não teleológica www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 19 Pode-se dizer, no entanto, que, do ponto de vista material, «está lá tudo», é verdade, mas «estaticamente», faltando, assim, o aspecto «dinâmico» ou «cinético» da vida, o movimento e movimento autónomo que a vida necessariamente é. Tal afirmação inicial é perfeitíssima, em termos descritivos; mas dela não se segue logicamente que este movimento seja necessariamente consequência material de uma qualquer materialidade presente: para que o seja, para ser consequência (necessariamente e necessariamente de tipo causal) da pura materialidade presente, a pura presença desta – sem coisa alguma mais, sob pena de magia – deveria fazer com que houvesse vida. Ora, precisamente, é o que se passa no cadáver acabado de “produzir”, estando lá a matéria toda, sem que aquele deixe de ser cadáver. Este exemplo é definitivamente esclarecedor acerca da relação da matéria sem mais com a vida: pode ser apenas a de um a cadáver com a sua absoluta ausência de vida e nada mais, isto é, no que à vida respeita, positivamente, relação nenhuma, por ausência de um dos relacionáveis. A vida não é, pois, uma decorrência necessária e imediata da presença de um determinado arranjo puramente material, que também pode estar e está presente num cadáver, sem que, por tal, este esteja vivo. é cair necessariamente em mecanismos mágicos, os únicos capazes de explicar como é que no grau evolutivo n+1 há mais riqueza ontológica do que no grau n. A incapacidade de explicar etiologicamente o absolutamente novo emerso em cada nova forma biológica leva à utilização de palavras mágicas como «complexidade», «acaso», que nada dizem do ponto de vista racional, mergulhando a biologia numa irracionalidade fundamental que mina necessariamente a sua base realmente científica. É interessante notar que, sendo incapaz de, por meio destas “noções”, explicar cabalmente quer a intensificação da riqueza ontológica de seu biológico reino (uma delas é a, esta sim, real complexidade e complexificação de organismos e ecossistemas), recorra a proposições do tipo: «então, a vida enveredou por este caminho...», introduzindo uma tremenda cacofonia prosopopaica e teleológica onde nunca o deveria fazer, querendo verdadeiramente continuar fiel às suas supostamente únicas premissas materialistas e arqueo-pretéritocausalistas). www.lusosofia.net i i i i i i i i 20 Américo Pereira A vida não é da ordem do puro material, no sentido comum do termo, em que a matéria mais não é do que uma pura e mera concentração de energia, vista esta, por sua vez e em vicioso ciclo, apenas como uma “matéria subtil” ou desconcentrada, mas, ainda, como uma forma “material”. A vida pode ser material, mas no sentido antigo do termo, em que se remete para uma potencialidade, potencialidade esta que, antes de ser física, é metafísica. Reduzida a uma física material, a vida é simplesmente impossível ou então, surge nos termos (aliás comuns) de um paradoxal “cadáver animado”. Infelizmente, é com este cadáver animado que a moderna biologia pensa poder lidar, mesmo ao nível heurístico da descoberta da “essência” da vida. Uma bioética que assuma esta herança como base de trabalho mais não será do que uma bioética relativa a cadáveres “animados”. Esta redução materialista repete a insensatez do pai de todo o verdadeiro materialismo, Demócrito de Abdera, contemporâneo de Platão, que queria que tudo, incluindo a própria vida, fosse explicado (coerentemente, e é por isto que é verdadeiramente materialista e não materialista-magista, como grande parte dos modernos e contemporâneos) pelos choques entre os átomos, únicos componentes do seu mundo. Nada, na pura atomicidade não intersecável dos átomos, permite mais do que uma combinatória de mesa de bilhar – devido à necessária elasticidade dos choques – às três ou mais tabelas, nunca permitindo qualquer união, dado que os átomos são átomos isolados precisamente porque não são intersecáveis e não são intersecáveis porque não são secáveis; quando se tocam, sempre ressaltam, nunca havendo, em termos de pura atomicidade, algo que permita explicar a possibilidade de encontros casuais mais demorados do que o puro e instantâneo toque e respectivo necessário ressalto. Aqui, nem o milagroso acaso vale, dado que pode haver uma infinita casualidade sem que, por isso, haja mais do que infinitos casuais ressaltos: nenhuma estabilidade, nenhuma forma, nenhum cosmos, nenhuma vida, portanto. Acei- www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 21 tar, a partir deste esquema, a constituição de um qualquer cosmos, isto é, de uma qualquer forma ordenada minimamente estável dos átomos, é a primeira concessão a algo de tipo mágico, dado que nada, a não ser a mente do autor desta peregrina ideia, mostra a razão da existência de encontros diferentes de meros instantâneos choques. Demócrito, ao aceitar a realidade qualquer do cosmos, foi infiel à pureza de seu esquema fundamental. Mas é esta forma anedótica, modificada segundo os progressos da investigação das “partículas”, que persiste hodiernamente quer num esquema de tipo darwiniano puro quer num sistema explicativo de tipo milleriano; e estes dois bastam paradigmaticamente para dar conta da matriz de pensamento da biologia triunfante. Ora, por mais que o acaso actue, nada no puro acaso dos ressaltantes encontros ou dos electromagnéticos ou outros quaisquer encontros pode materialmente explicar a vida: um choque entre dois átomos quaisquer é o que é, nada mais, mesmo que o choque seja, agora, uma forma mais refinada de “encontro” atómico ou molecular, no respeito de todas as “leis” da física quântica e relativista. O mero encontro entre partículas, sem mais, nada mais é do que um mero encontro entre partículas. Ou se postula uma qualquer informação matricial presente na constituição dessas mesmas partículas, que condiciona em forma macroscopicamente cósmica tais encontros, ou se acredita numa forma meramente mágica de constituição do que é macroscopicamente o nosso mundo. Repetir este processo indefinidamente é iterar algo que em si é o que é e nada mais. Dizer que a vida surge, algures, no choque ou encontro n, e tem de ser num n qualquer discreto, pois não é possível o estabelecimento de simultaneidades absolutas, é usar uma afirmação mágica. Estranhamente, na base de muito do trabalho “teórico” da moderna biologia está uma afirmação mágica. É interessante notar que é esta a biologia que acusa a antiga de ser irracional. Mas mudemos de linguagem, modernizando-a: procurar a origem da vida nas sequências arqueológicas puramente materiais www.lusosofia.net i i i i i i i i 22 Américo Pereira associadas à “bioquímica” é esperar uma resposta mágica a uma questão que deveria ter uma resposta racional e científica: de repente, depois de uma evolução puramente não viva, surge a combinação premiada e isso que, até então, era não vivo, começou a viver. Como não pode ser “milagre”, só pode mesmo ser magia. Mesmo que este cenário fosse real, estaríamos na situação inversa da relação entre a «célula viva» e a «célula morta»: uma não é redutível à outra com mais ou menos algo homólogo à não viva e a distância ontológica que vai da célula a isso que é parecido materialmente com ela, mas não está vivo, é a mesma que dista de isso que é parecido com uma célula e não está vivo e uma célula. A célula, qualquer, quando emergiu como tal emergiu já como vida, a vida não foi acrescentada a algo de preexistente, de um ou outro modo, tanto dá, a uma matéria não viva, “mortinha” por viver: isto é magia, indigno, portanto, de ser considerado pensamento científico. A biologia estuda entidades vivas e condições não vivas ambientais, não estuda a passagem de vida a não vida e de não vida a vida, passagem que é simplesmente intangível, do ponto de vista da finita racionalidade humana, mormente da científica, cujas restrições metodológicas a obrigam a cuidados ainda maiores com a definição do objecto e do modo de acesso ao objecto, uma vez definido o objecto. Há, obviamente, uma outra opção, a de voltar a assumir o termo matéria como potencialidade ontológica, o que implica assumir abertamente a possibilidade de uma teleologia, de cuja necessidade, aliás, a biologia não consegue livrar-se, sendo bastantes como provas exemplares, todas as afirmações do género de «então, a espécie optou por ...», manifestamente impossíveis no regime causalista arqueológico passadista em que quer viver, mas com o qual não consegue sobreviver, tendo de constantemente recorrer aos “truques do inimigo”. Sem resolver a questão da definição do objecto e de tudo o que esta definição implica epistemologica- www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 23 mente a jusante, mas também a montante no plano dos princípios, a biologia nunca sairá deste impasse, com consequências nefastas, precisamente a jusante, sobre todas as disciplinas suas subsidiárias, mormente as aplicáveis à espécie humana e que interessam a uma disciplina de reflexão como a bioética. 3. Que é a Vida: a questão da definição do Bios Não é obviamente possível construir uma bioética, digna do nome e digna de ser considerada ciência, sem haver uma prévia definição da vida sobre que se quer construir uma ética. Sem esta definição tipológica ou, no caso de esta ser epistemologicamente impossível (o que só se pode saber encetando uma investigação reflexiva, levando-a até onde seja racionalmente possível), sem manter a tensão reflexiva no sentido de uma aproximação assimptótica ao que tal realidade possa ser, nenhuma ciência faz qualquer sentido racional. Uma bioética ou uma outra disciplina qualquer sem uma qualquer reflexão fundamental que a sustente não passa de um exercício espúrio de falsa intelectualidade, habitualmente ao serviço de um qualquer interesse tirânico ou oligárquico. Muito do que se encontra sob a denominação de «bioética» pertence a esta categoria. Que é, então, propriamente típico (em sentido forte, paradigmático, necessariamente platónico) da vida? Que faz com que se possa dizer que a entidade A é vida e a entidade B não é vida? Note-se, desde já, que a própria escolha do vocabulário e da sintaxe usada não pode ser arbitrária. Não se pode, por exemplo, dizer: «que faz com que se possa dizer que a entidade A é um ente vivo?». Tal formulação formalmente divide, separa a entidade A da vida, denotando que há uma qualquer entidade A que é viva ou que está viva, podendo haver essa mesma entidade A sem estar viva; entidade A viva e entidade A morta seriam, assim, a mesma www.lusosofia.net i i i i i i i i 24 Américo Pereira entidade, uma vez viva outra não viva, permanecendo a mesma entidade com vida ou sem ela, fazendo com que a vida seja meramente acidental ou acrescentada a uma entidade independente dela, aparentemente seu independente suporte. É nesta intuição errada do que é a relação da entidade qualquer com a vida que se baseiam as afirmações do tipo: «então, vi o corpo morto do meu amigo», afirmação que não está errada apenas do ponto de vista biológico, mas constitui algo de aberrante do ponto de vista antropológico. De facto, não há corpos biológicos que não estejam vivos: não há corpos mortos, 8 há cadáveres e um cadáver é um objecto puramente físico (salvaguardando a parte antropológica, que é importantíssima, ainda que não do ponto de vista estritamente biológico, agora, aqui, em causa). Como já deve ter observado quem tentou reanimar, não um corpo “inanimado” (expressão, aliás, incorrecta), mas um realíssimo cadáver – com a taxa de sucesso de zero por cento que é de esperar – a matéria exbiológica do já cadáver não volta à vida e, em termos meramente humanos, não há ressurreições. 9 Questões ditas de fronteira (e que 8 Estando aqui em causa, como é óbvio, a relação entre o que é a vida e o que é isso que é vivo, na sua mesma entidade como vivo e não como outra coisa qualquer, de nada serve dizer que, por vezes, há partes do “corpo” que ainda estão vivas: tal só seria válido se o corpo fosse não uma unidade entitária viva, mas uma mera soma de partes, o que não se verifica nem em algo como uma colónia de fungos num vulgar cogumelo: só há partes de cogumelo no prato do biólogo, não na realidade, nesta, ou há cogumelo como tal e tal é ser um cogumelo como entidade individual própria e irrepetível (não interessa que seja uma colónia ou outra coisa qualquer) ou não há cogumelo algum, apenas bocados materiais ou biológicos do que foi um cogumelo, mas já não é um cogumelo. A habitual incompreensão desta manifesta evidência é uma das razões mais graves da infantilidade epistemológica de muito do trabalho da biologia. Aqui, um retorno ao melhor do legado do fundador da disciplina far-lhe-ia muito bem. 9 É enternecedor o modo como certas disciplinas, muitas delas voluntariamente positivistas, retomam um vocabulário que deveriam detestar: o caso da “ressuscitação” (por exemplo, «ressuscitação cárdio-respiratória») é um bom exemplo. É claro que o «paciente» só ressuscita se ainda não estiver mesmo morto. É por não estar ainda mesmo morto que é possível “ressuscitá-lo”, que www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 25 o são verdadeiramente) como, por exemplo e paradigmaticamente, as relativas ao estatuto “biológico” dos vírus não complicam a reflexão, antes a simplificam, pois o que que falta perceber – se é que falta mesmo – é o que faz com que isso a que se chama «vírus» seja concomitantemente tão “simples” (alguém parece ter decretado que a vida tem de ser complexa ou complicada, mas não sabemos quem...), tão aparentemente “próximo” de algo puramente físico, e que, em certas condições, “parece” não estar vivo; mas, mudando as circunstâncias, para obviamente circunstâncias favoráveis, “parece” já estar vivo e “parece” de tal modo que é capaz de, por exemplo, parecendo mesmo estar vivo, matar toda a humanidade, mesmo os biólogos que defendem que não é entidade biológica. Repetimos, o que falta perceber é exactamente o que é que nestas entidades faz com que sejam entidades vivas, pois a vida não é algo que tenha de corresponder a uma definição construída artificialmente num laboratório ou numa escola qualquer, devendo, antes, a definição procurar coincidir com o que a vida é, em todas as suas manifestações, mesmo nas mais “estranhas” ou “aberrantes” (termos moralizantes, que nenhum valor epistemológico têm em biolomais não é do que a retoma das funções necessárias à existência de vida, não um processo mágico em que se volta a “pôr” vida em algo de onde ela já se tinha “retirado”. Como é óbvio, para além da parte propriamente mágica em causa, há, ainda, a considerar mais dois aspectos relevantes: o primeiro confirma a forma duplicista e alienada da relação entre a vida e a “entidade” em que esta “mora”: a inquilina vida ausentara-se (não mais de quatro minutos, por favor...) e a equipa ou o socorrista faz com ela volte à sua morada – eis o paciente ressuscitado...; em segundo lugar, a manifesta necessidade, sobretudo de quem anda no “terreno”, de recorrer a formas não positivistas de expressão, o que mitiga a angústia do trabalho – inevitável, se não se for um monstro mecânico, já não humano – e dá, de novo magicamente, o mesmo tipo de enquadramento que a velha religião dava aos que acreditavam “nessas coisas”, assumidamente assassinadas pelo senhor Comte e sua positivista posteridade. A propósito, aconselhamos que se veja o filme de Martin Scorcese Bringing out the dead. Só que ninguém verdadeiramente brings out the dead. www.lusosofia.net i i i i i i i i 26 Américo Pereira gia), mesmo as mais “simples” ou “próximo-materiais” ou mesmo, pasme-se, as “impossíveis”, como as encontradas em sítios “extremos” como as nascentes de água mineralizada “venenosa” (para o homem, claro...), a altas temperaturas e altas pressões, em fundos oceânicos em zonas de grande actividade geomórfica – teoricamente consideradas impossíveis, antes de serem descobertas (por vezes, a parte experimental da ciência tem destes aborrecimentos teóricos...). Afinal, tudo isto é vida e o papel da biologia não é antecipar dogmaticamente o que possa ser a vida, segundo os estreitos parâmetros do estudo pretérito sobre o que a vida historicamente foi, mas pensar o que é exactamente próprio da vida, isso que permite ao homem ser uma entidade viva, uma vida entitária, ao habitante das profundidades abissais ser também uma entidade diferente da humana, mas que também é vida, e ao vírus não ser apenas uma coisa física umas vezes “animada” outras “desanimada”, mas ser também, a seu modo, 10 vida. Mais, mesmo que seja possível produzir entidades de tipo viral de modo artificial e que tenham o mesmo “comportamento” dos vírus naturais, há que perceber o que é que na sua estrutura vital própria permite um corportamento vital e, portanto, vida. É precisamente o que está em causa. Se não sabemos o que a vida é, na sua mesma essência, 11 sabemos o que ela não é: não é uma mera física inerte magicamente promovida a algo de diferente, pois, se a realidade é toda ela física, 10 Pobres dos vírus, se estiverem à espera de se encontrar algo neles que lhes permita entrar nas tabelas oficiais da vida... Pobre ciência que define primeiro as tabelas, sem saber isso que essencialmente deveria definir o que é tabelável. 11 E as definições funcionalistas, como também no caso da «energia», podem satisfazer técnicos e tecnólogos e a sua capacidade intelectual, mas não satisfazem o interesse fundamental da ciência, que é descobrir o que as coisas são, tanto quanto é humanamente possível, sem constrangimentos quaisquer impostos por uma qualquer oligarquia possidente; não confundir com as consequências ecológicas e antropológicas, não só relevantes como verdadeiramente inegociáveis, no que ao bem comum diz respeito. www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 27 em sentido moderno, e nada mais, a física nunca é mais do que física e a realidade biológica é apenas uma outra forma de a pura física ser pura física e nada mais, sendo que a biologia nada mais é do que um mero apartado de uma física mais geral. Sem se querer afirmar que a vida é «meta»-física, o que não é comprovável, a não ser por meio de uma qualquer redução ao absurdo, que prove a insuficiência etiológica da física para tal..., afirma-se, no entanto, que há que procurar, na física, os instrumentos que permitem a relação entre o que é o puramente não vivo e o vivo, precisamente como o que não é absolutamente não vivo. Caso contrário, não é possível perceber-se o que é próprio da vida, caindo-se ou em absurdos mágicos ou em absurdos totais, situação hodierna da biologia. Eis um imenso trabalho de reflexão sobre os dados da biologia, trabalho que é o único que pode erguer a biologia da infantilidade epistemológica em que vive, sem ser uma pura física, mas não sendo, muitas vezes, mais do uma forma de pensamento mágico acerca das propriedades “vitais” da física. A resposta a esta magna questão não corresponderá à elaboração de discursos (como este nosso, aliás), ditos “teóricos” acerca da biologia, mas à exploração e elucidação racional de questões muito básicas (que são sempre as fundamentais em qualquer ciência) como: que diferença fundamental existe para um átomo de carbono estar isolado, estar numa molécula constituída por um par de átomos de carbono, numa estrutura molecular como o metano (e todas as outras em que pode estar)? A que corresponde cada uma destas relações? Que relação têm, cada uma delas, com uma possível vida? Em alguma destas estruturas há vida? E numa estrutura do mesmo tipo já usada em entidades vivas, já há vida? Qual a relação de cada molécula ou mesmo de cada átomo com a entidade viva em que se encontra? Mas «encontra-se» ou «constituia»?; que diferença há entre estes dois enuncidos? Há alguma evidência experimental ou teórica destas relações? Em que difere uma qualquer destas moléculas presentes num cadáver e uma sua www.lusosofia.net i i i i i i i i 28 Américo Pereira semelhante presente num corpo? Porquê? Qual a razão pela qual a simples acumulação correcta de moléculas não faz com que o cadáver seja corpo? A organização física e molecular correcta produz a vida ou a vida implica teleologicamente uma perfeição de correcção da acumulação molecular? Do ponto de vista da lógica da vida, que está primeiro, a vida em acto (que implica a correcta acumulação molecular) ou a acumulação molecular (que implica necessariamente o aparecimento da vida)? E em todos os possíveis micro-físicos mais finos e profundos, qual a relação entre as suas entidades e a vida? Repete-se: a resposta a estas questões não deve ser especulativa, mas correctamente experimental. Como é óbvio, as questões podem multiplicar-se indefinidamente, sobretudo por causa das próprias exigências da investigação. As que elencámos são apenas uma insignificante amostra. Se a biologia quiser ser ciência digna do nome e não apenas uma forma tecnológica ou moralóide, que vai mudando de padrão de trabalho à medida que as exigências de mercado e das oligarquias possidentes vão variando, terá de responder a estas questões de fundamentação. No entanto, não tendo nascido, na sua forma moderna, como saber descomprometido e fundamental, o mais provável é que continue a viver neste ambiente de indústria biotecnológica, em que pode perfeitamente ignorar as questões epistemológicas de fundo. Mas, se nesses seus inícios pragmáticos estiveram causas nobres e nobres homens como um Jenner ou um Pasteur, hoje em dia, havendo ainda muitas causas nobres, a motivação fundamental vem sobretudo de impulsos mercantis ou ainda mais vis, como os ligados à tecnologia biológica militar, mais ou menos terrorista. Prestamos a nossa homenagem aos biólogos sérios que ainda persistem em perceber o objecto a que a sua actividade os deve ligar. www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 29 4. Uma Bioética 4.1. Que é e que deve ser uma Bioética? – O termo «Bios» Antes de mais, há que pensar os termos associados no termo composto «bioética». A primeira parte do termo composto «bioética», «bio», é proveniente do termo grego «bios», que, em seu sentido fundamental, remete para a vida, não apenas para um sentido relativo qualquer de vida, mas para a vida em si mesma, na sua irredutibilidade própria. Tal noção, anterior a qualquer possível conceptualização e de que esta necessariamente depende, adveio lógica e necessariamente da intuição precoce de algo de específico diferenciador da entidade viva relativamente à entidade não viva. Dificilmente se pode pensar uma humanidade em acto que não tenha noção da diferença entre o vivo e o não vivo. Deste modo, podemos arriscar dizer que o sentido do «bios» acompanha desde sempre a própria humanidade e marca indelevelmente toda a sua existência exactamente como existência de um ente que se sabe possuidor de uma diferença fundamental relativamente ao não vivo e de uma semelhança fundamental relativamente ao restante vivo, seja ele qual for. Estas dissemelhança e semelhança fundamentais constituem o objecto fundamental de estudo de qualquer biologia e afins. Tal noção fundamental é tão forte que não nos surpreendemos ao encontrar nas tradições fundadoras de muitas culturas a definição das potências superiores, muitas vezes de tipo propriamente divino, como potências de vida, mesmo de pura vida, em oposição radical a potências de não vida: desde muito cedo, senão mesmo desde sempre, o homem teve noção da importância ontológica fundamental da «vida» e do seu contraditório, a morte. É importante www.lusosofia.net i i i i i i i i 30 Américo Pereira notar que vida e morte não são contrários, que podem existir concomitantemente, mas contraditórios, isto é, não podem existir concomitantemente em sentido pleno. Quando a vida está presente em determinado objecto, a morte nele encontra-se totalmente ausente; quando a morte se encontra presente em tal objecto (que já não é «tal objecto» senão em artificialidade teórica e abstracta), a vida não se encontra presente. Não há, pois, senão em más metáforas literárias, intermédio entre a vida e a morte. Deste modo, podemos perceber o peso imenso que o termo «bios» possui, não se confinando apenas a uma certa tradição, a da cultura que cunhou este preciso termo, mas possuindo relevância ontológica, com matizes diferentes, em toda a parte em que se encontrem seres humanos. O termo «bios» não é apenas uma referência técnica de uma qualquer ciência ou área científica, de uma qualquer doutrina ou cultura, mas ensaia dizer aquilo que o homem percebeu como sendo o cerne ontológico activo próprio da sua existência como irredutível entidade, isso sem o que, independentemente de qualquer estudo ou definição, não passa de um cadáver, isto é, de um pedaço de matéria inerte, física e quimicamente indiscernível de qualquer outro pedaço de matéria inerte, tenha ou não essa “mesma” matéria tido uso como apoio físicoquímico para a existência de vida, vida que, deste modo, sempre a transcende. Para mais, no homem, o «bios» atingiu precisamente a capacidade de se pensar a si próprio: com o homem, a vida atingiu a possibilidade e a actualidade de algo que se pode pôr a si mesmo como tema próprio seu, tema que é exactamente o tema fundamental de tal acto. A vida, ao descobrir-se, descobre-se como o grande tema de si própria. A reflexão sobre a vida, em seus multímodos modos, em disciplinas várias, desde a poesia mitográfica, às mais variadas formas de arte, passando pela filosofia e pela teologia, bem como por uma multidão de disciplinas científicas, é provavelmente tão antiga como o homem, não como entidade meramente viva, à maneira das www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 31 bestas, mas como entidade viva que já não é precisamente uma besta, mas um ser vivo capaz de se pôr como ser e como vivo e como inteligência em acto de entidade propriamente viva. Deste ponto de vista, a reflexão biológica é tudo menos uma disciplina moderna e muito menos recente. A bioética, que não pode fugir a esta evidência de sua mesma funda arqueologia, possui antepassados radicais do mais alto nível intelectual e deve, pois, ser capaz de se manter num nível de dignidade intelectual que os não deslustre. A bioética lida, pois, necessariamente com uma realidade cuja definição não pode ser dada por uma qualquer intervenção caprichosa de índole político-crática, mas tem de ser encontrada através da observação da realidade, sem preconceitos ou condicionalismos de qualquer tipo, ideológicos, religiosos, etc. A bioética não lida com problemas que não sejam os que se relacionam com a realidade do termo primeiro que constitui matricialmente o seu mesmo nome: o objecto da bioética é a vida na sua relação com algo que transcende a pura nocionalidade da vida e que é o poder de intervenção do homem sobre a vida. O seu âmbito coincide, pois, com o âmbito da abrangência total do conjunto intersectivo entre a cultura e a vida: nada há na relação entre o homem e a vida que possa ficar fora do âmbito de uma bioética que queira ser digna de seu nome. Não pode, pois, a bioética limitar-se a ser um forum de discussão e encontro de normas políticas de deontologia relativas ao campo da intervenção de cuidados de saúde e actividades afins. Se o for, nunca passará de uma disciplina menor nas mãos de endoutrinadores políticos de vários tipos, que visam apenas controlar a poderosíssima arma política que é a prestação de cuidados de saúde e sobretudo as suas extensões perversas de controlo político de pessoas, como foi, por exemplo, o tristemente célebre exemplo dos planos aparentemente piedosos «de higiene» biológica inventados sob a égide do Cabo Adolfo Hitler. A presença do termo «bios» na designação desta disciplina obriga-a, portanto, a ser uma disciplina que pensa, de determinado www.lusosofia.net i i i i i i i i 32 Américo Pereira modo, possivelmente de muitos modos – tantos quantos os que forem pertinentes para seu mesmo mister –, a vida e não apenas uma sua qualquer limitação operativa. Se era esta forma limitada de pensamento que se queria aquando da sua fundação, então, o nome escolhido deveria ter sido outro, por exemplo, «deontologia dos actos de cuidado de saúde e afins» ou outro qualquer devidamente adaptado à restrição de âmbito querida. Enquanto a bioética não se tornar uma verdadeira disciplina de reflexão acerca da vida no que esta tem de relação com a acção do homem, universalmente entendidas ambas, mais não será do que uma tentativa de ganhar predomínio político sobre a administração de cuidados de saúde e sobre a definição daquilo que deve ser a vida, especialmente a humana, velhíssima tentação de todos os tiranos. Tememos que uma bioética que não respeite o carácter holístico de seu objecto e de sua missão, que deve ser ditada por aquele e pelo seu único e exclusivo interesse, se torne apenas numa mera arma ao serviço de oligarquias e tiranias que na vida vêem apenas algo a dominar e a explorar em seu exclusivo benefício. Tem sido esta atitude e acção que tem provocado as tragédias ecológicas, no sentido o mais lato possível deste termo e noção, de todos conhecidas, em que predomina a maior falta de respeito precisamente pela vida como tal e pela vida objectivamente manifestada em entidades outras que a dos oligarcas ou dos tiranos. Uma verdadeira bioética deveria ser uma verdadeira ecologia. Aliás, com o nome de «bioética», deveria ter nascido a ecologia, pois esta mais não é exactamente do que uma forma de consideração e de preocupação holística com o ambiente – e a acção humana nele – como um todo e especialmente com a vida presente nesse ambiente, dado que, sem esta última, seria apenas uma meteorologia ou uma geologia, por exemplo. Quer isto dizer que na base de uma qualquer bioética digna de seu nome deveria existir um fundado conhecimento biológico, sobre o qual se deveria fundar um profundo respeito pela vida, em todas as suas formas, www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 33 mesmo quando a vida se torna prejudicial em parte ou no seu todo à vida humana. Parece claro que esta última só é possível e só é viável num horizonte bio-ontológico de ecossistematicidade holística, em que necessariamente entram muitas espécies e indivíduos, não dependendo do mero arbítrio humano a decisão acerca da sua possibilidade. Uma bioética reduzida a uma disputa acerca de questões políticas de administração sanitária e de limites quaisquer para a acção de intervenientes quaisquer dentro desta administração será sempre uma disciplina menor, sem dignidade objectual e de impossível verdadeira cientificidade, pois, sem a assunção plena de seu objecto, o «bios», será, por muito bons métodos que use, sempre vazia de conteúdo fundamental. Dedicada apenas ao que se tem vindo a dedicar, mais não é do que um moralismo mais ou menos grosseiro acerca de realidades que não devem ser moralizadas, antes devem ser estudadas em sua dignidade ontológica total, de modo a que seja possível, então, a definição de padrões políticos objectivos de acção. Esta definição objectiva não pode senão depender da pura objectividade ontológica do «bios» estudado, sob pena de se cair, mais do que num moralismo vazio, numa autêntica tirania. – O termo «Ética» O segundo grande problema da bioética consiste em que, se bem que o termo «ética» conste da sua designação onomástica, ser tudo menos uma «ética»: desde o seu nascimento que é fundamentalmente de ordem política e não ética. Dirigindo-se necessariamente ao domínio da relação entre sujeitos humanos, a bioética existente é necessariamente política. Uma ética biológica diria respeito apenas ao domínio da pura interioridade pessoal de cada ser humano, foro único da ética, na sua relação pessoalíssima com a www.lusosofia.net i i i i i i i i 34 Américo Pereira vida, enquanto tal, no estrito foro de sua mesma interioridade, sem transcendência intersubjectiva, esta imediatamente política. Sendo possível, seria apenas, enquanto ciência, uma “ciência” individual, cujo sujeito e objecto coincidiriam, dado que apenas cada pessoa pode dizer acerca da realidade de sua mesma interioridade ética. Seria uma forma de, por exemplo, psicologia. Não sendo possível um discurso acerca da interioridade de terceiros, teria de ser a própria pessoa a assegurar a feitura desta “ciência individual”, de que não se percebe muito bem qual seria o interesse, pois mais não seria do que uma lírica em discurso, travestida de ciência. Pode haver uma acepção racionalmente interessante para o termo «bioética», acepção que não é científica no sentido comum moderno do termo, e que seria a da procura de um modo de sabedoria na acção, enquanto princípio subjectivo interior, na forma de cada pessoa lidar com a vida. Forma auto-pedagógica, esta bioética teria todo o interesse, mas dependeria sempre, dado que ninguém nasce propriamente ensinado, de uma qualquer formação base que pudesse fundar a capacidade auto-pedagógica da pessoa no sentido da formação de um princípio de acção «bioético», de uma ética pessoal relativa à acção para com a vida. Como programa pessoal, tal bioética seria muito interessante, sobretudo se fosse pedagogicamente conduzida no sentido da inteligência da vida como um bem comum a promover em toda a sua plenitude, mesmo quando interfere negativamente com essa outra vida que é a humana, acção já política. Deste modo, minorar-seiam imenso as repercussões negativas sobre a vida e o biossistema total da acção humana que, recordemos, mais não é do que o somatório integrado, inter-integrado das acções de todos os seres humanos: melhorar, no sentido de um bem comum da vida ou da vida entendida como bem comum, toda a acção de cada ente humano não poderia deixar de ser positivo para a vida entendida na sua globalidade, pelo menos na sua globalidade conhecida. Este sentido possível para uma bioética seria muito bem vindo. Mas pensamos www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 35 que não existe e nunca existirá para além do espaço definido por estas poucas linhas. O que a bioética, de facto é, é uma bio-política e é como biopolítica que tem de ser pensada. A relação do homem com a vida em seu sentido o mais universal possível não é uma questão meramente ética, mas uma questão fundamentalmente política, pois, se bem que toda a acção possível e real da pessoa humana nasça única e exclusivamente, independentemente de quaisquer condicionalismos exteriores, de seu mesmo interior ético, é no âmbito da relação com terceiras entidades, humanas ou não, que as questões fundamentais se põem, salvo na questão do suicídio, questão bioética em sentido geral, mas que é fundamentalmente ética, sem mais. Quando se discutem questões da chamada «bioética» corrente, normalmente discute-se algo relativo à interacção política entre pessoas. É a definição dos modos desta interacção que importa em termos de «bioética»; mas, se assim é, a designação está pura e simplesmente errada. O erro, que não é novo, promana da confusão entre o que são regras deontológicas, políticas por essência, e o domínio da radical fundação ética dos actos das pessoas, domínio em que as regras nunca podem ser de etiologia política, sob pena de aniquilação da própria pessoa, por fundamental dependência heteronómica. O âmbito da fundação da ética é sempre da ordem do ontológico, da ontologia própria interna de cada pessoa, em que a mesma pessoa se constrói em actos de escolha puramente interiores, irredutíveis a qualquer outra fonte ou sede. A obediência a regras meramente exteriores anula a mesma pessoa, transformando-a em escrava dessas mesmas regras a si totalmente alheias. Esta evidência aplica-se a qualquer fonte de heteronomia, seja ela de ordem religiosa, civil ou outra, todas políticas, todas exercendo, se a sua influência for imediata, um trabalho de redução do que é próprio da pessoa, escravizando-a a uma forma de tirania cuja adjectivação se torna irrelevante. Sem a mediação do assen- www.lusosofia.net i i i i i i i i 36 Américo Pereira timento livre da pessoa, qualquer forma de ordenação de etiologia extra-ética é uma forma de aniquilamento da humanidade pessoal dessa mesma pessoa; e não há pessoas de forma diversa. Venha a ordem de um presidente, de um rei, de uma assembleia ou de um deus qualquer, será sempre uma forma de tirania, se não for mediada pelo assentimento pessoal da pessoa a quem se destina. Este assentimento é precisamente a parte ética em questão. Por tal, foi afirmado acima que uma verdadeira bioética se reduziria ao âmbito definitório deste mesmo assentimento e da acção (ou sua ausência, que é, ainda, uma forma de acção, se bem que pela negativa) dela decorrente. Não é manifestamente este o panorama de isso que vulgarmente se designa como «bioética», como é fácil de perceber consultando a vasta bibliografia existente. Desde os seus inícios, com o oncologista holandês Van Rensselaer Potter, que a chamada «bioética» não é propriamente uma ética, mas uma forma tentativamente científica e inter-disciplinar de procurar meios de regular movimentos de ordem política, sejam eles relativos aos procedimentos de cuidados de saúde, aos perigos de novas formas de meios militares de tipo biológico, à delimitação de âmbitos ou fronteiras definitórios do que é a vida, mormente a humana, etc., numa tentativa de síntese – sempre artificial – entre o que se pode designar como o conhecimento biológico e os chamados «valores humanos». Reside precisamente aqui o grande problema fundacional, epistémico, mas também ontológico, desta nova “disciplina”. Este problema não se encontra nas camadas superficiais de um relacionamento de tipo académico ou mesmo epistemológico entre sistemas de conhecimento: por um lado, o conhecimento biológico, por outro, o conhecimento dos sistemas de valores humanos. Não, a questão é muito mais profunda e reside exactamente na definição dos relacionáveis, necessariamente anterior à sua possibilidade de relacionamento. www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 37 O conhecimento biológico não constitui um qualquer reino epistemológico à parte: integra-se num esforço racional e epistémico universal que visa o entendimento das estruturas físicas do universo em que nos encontramos e cujo sentido só pode emergir mediante o mesmo esforço racional do homem. Assim sendo, o conhecimento biológico tem de ter em consideração todos os âmbitos, digamos assim, ecossistémicos em que se situa, não podendo funcionar como disciplina científica isolada, antes tendo de assumir-se como conhecimento o mais holístico possível. Ora, para tal, e dado que a vida, seu objecto, precisamente se relaciona com todas as formas entitárias contextuais, deve a biologia ter em consideração tudo o que for relevante, desde a mais bruta materialidade até às mais refinadas envolventes de tipo espiritual, todas elas relevantes para o seu objecto em estudo. O universo, sabe-se já há muito tempo, é um sistema imenso, em que tudo está, mais ou menos remotamente, integrado. Para um correcto conhecimento biológico não é possível prescindir deste sentido integracional, pelo que a biologia não pode não ser senão uma ciência ecossistémica holística. Ora, não é esta ciência que encontramos quando procuramos a biologia, pelo contrário, encontramos uma ciência redutora, acantonada em âmbitos ideologicamente pré-definidos, sem qualquer respeito pela ontologia própria do objecto que lhe cabe, a vida como um todo, todo em que apenas qualquer uma das partes pode fazer sentido e precisamente como parte integrante desse todo. Se a biologia e seus derivados não se podem alienar da sua necessária base material, também não se podem alienar da sua base cultural, isto é, da consideração do biótopo geral que estuda como biótopo em que a presença da cultura existe. No único biótopo que se conhece, é já, dada a universalização global da acção humana, muito difícil encontrar um biótopo regional qualquer em que a cultura não esteja presente – e a presença antiga é contemporânea, pois não há acção qualquer que não deixe uma qualquer marca. Mas, www.lusosofia.net i i i i i i i i 38 Américo Pereira abstractamente considerado, se houvesse um qualquer biótopo assim isolado, a acção investigativa da biologia sobre ele marcá-lo-ia culturamente, pelo que a biologia nunca pode mesmo prescindir do factor cultura, ainda que a sua própria em acto sobre o objecto. Ora, não há cultura sem os chamados valores, pelo que não compete a uma qualquer nova disciplina conciliar a biologia com quaisquer valores – e todos os valores criados pelo homem são necessariamente humanos, mesmo quando são “desumanos” –, dado que a biologia desde sempre teve de o fazer: lembremos, por exemplo, o trabalho e a vida do grande biólogo Louis Pasteur (18221895), precisamente o homem que concebeu e realizou a experiência definitiva que mostrou a dependência da vida actual de uma qualquer forma de vida actual anterior, acabando com o mito irracional da geração espontânea da vida, biólogo que sempre soube conciliar os valores não biológicos em que acreditava com valores biológicos que concomitante praticava, numa exemplar vida verdadeiramente bioética. Aliás, uma bioética e uma biopolítica decorrente poderiam muito bem começar estudando como foi possível a acção correctíssima de um Pasteur, não um oficial medíocre de uma actividade hetero-normada, mas genial figura científica e grande benemérito da humanidade: pense-se nos milhões de vidas já poupadas desde a invenção da pasteurização e da vacina contra a raiva, por exemplo. Como nova tentativa conciliadora de ciência biológica e valores humanos, a bioética é irrelevante, dado que os grandes cientistas que foram também grandes filantropos sempre o fizeram, bastando uma ciência histórica e normativa para compilar em forma deontológica paradigmática tais comportamentos, já de si conciliadores do melhor que a ciência biológica possui com o que o amor pelo bem comum implica na acção dos homens. Deste este ponto de vista, a bioética não é original ou útil; pior, ao pretender um regime de reflexão que não recorre aos grandes exemplos de serviço à ciência e à humanidade, trivializa e mediocratiza estes mesmos www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 39 serviços, retirando o atractivo ético e político que a paradigmatização das grandes figuras sempre constitui. Mas falta a questão do segundo termo a conciliar, precisamente os chamados «valores humanos». Este termo composto situa-nos imediatamente em perigosos terrenos movediços, ontologicamente entendidos; isto é, do ponto de vista da ontologia das coisas e sobretudo da coisa propriamente humana, que é o mesmo homem, qualquer definição de valores implica também imediatamente o recurso a formas de judicação, isto é, de avaliação do que o ser das coisas é, atribuíndo-lhe um valor. Este sentido vem desde, de forma ilegítima, os tempos teocêntricos, em que o valor é posto, de forma absoluta e indiscutível, pela mesma entidade absoluta que criou o universo e que, por isso, o conhece com uma precisão infinita e uma latitude também infinita, pelo que sabe exactamente qual o “valor” de cada coisa, sabe-o com precisão infinita. Mas esta precisão infinita de saber coincide precisamente com o acto de criação, pelo que o “valor” da coisa, para a divindade criadora, mais não é do que a contemplação do seu mesmo acto criador: para um deus 12 criador, o valor de cada coisa corresponde ao ser que lhe deu, à actualidade geral que nela pôs. Assim sendo, a avaliação feita por um tal deus é infalível e a apreciação é sempre ontologicamente infalível. Tal não é o caso do homem, que não possui outra forma de ajuizar acerca do ser das coisas senão através da contemplação das suas características patentes às suas variadas formas de inteligência; na ciência moderna e contemporânea, cujo especial paradigma epistemológico domina, estas características são, por opção da mesma ciência, todas físicas, materiais. Deste modo, qualquer valor dito pelo homem de ciência será sempre produto de uma avaliação incompleta, porque mera12 Propositadamente, grafamos «deus» sem maiúscula inicial, pois não se trata de uma referência concreta a um qualquer Deus de uma qualquer tradição, mas apenas ao conceito de um «deus criador», conceito puramente intelectual, paradigmático e an-histórico. www.lusosofia.net i i i i i i i i 40 Américo Pereira mente material, pelo que nunca poderá dar seja do que for uma apreciação realmente válida, quando muito uma aproximação, mas sempre infinitamente longínqua da realidade própria da coisa avaliada. A valorização é e será sempre uma forma falsa de contacto com o real, pelo que todo o valor é, por comparação com aquilo que avalia, sempre falso, sempre uma redução da realidade a avaliar a uma afirmação de um avaliador qualquer, a um seu juízo, a uma sua qualquer tese. Nada mais. O valor é, na melhor das hipóteses, uma falsidade ontológica, quando promana de um sujeito honesto, mas finito; na pior, uma mentira ontológia, quando promana de um avaliador desonesto, que usa a sua finitude de forma perversa precisamente como meio de apoucar a entidade própria das coisas. De nada serve acrescentar ao termo «valor» adjectivos cosméticos como, por exemplo, «humano». A falsidade fundamental do valor não é minorada por se lhe acrescentar a «humanidade» ou outra adjectivação qualquer. Para mais, não pode haver avaliação feita por um homem que não seja propriamente humana, não podendo ser canina ou asinina, por exemplo. Se por «valores humanos» se quer dizer algo como, por exemplo, «princípios de acção que tenham em consideração o bem comum da humanidade», então que se diga isto mesmo, o que é muito diferente daquela expressão, cujo sentido é fundamentalmente diferente do daquela afirmação. De facto, a única maneira de a humanidade poder, não já viver – num sentido de plenitude –, mas apenas sobreviver é o respeito pelo seu mesmo princípio ontológico, necessário para a existência da cidade humana universal, princípio do respeito pelo bem comum, isto é, pelo bem de todos e de cada um dos homens concomitantemente, necessariamente concomitantemente. Se é isto que se quer dizer com «valores humanos», então, que seja isto que se diga, não uma outra coisa qualquer. Ora, a bioética não é isto que tem feito, não tem procurado de- www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 41 senvolver princípios universais de busca de um bem comum, alargado ecossitemicamente, no que à acção relativa à vida diz respeito, mas apenas o estabelecimento tópico e assistémico de regras deontológicas não fundadas em bases ontológicas, antes recorrendo a formas consensualistas de definição de valores, formas que são perigosíssimas em termos da defesa do que é ontologicamente a vida e o direito ontológico, não político, mas ontológico, à vida quer do homem quer de todas as espécies que com ele partilham o único biótopo geral de que há conhecimento. Entre ser nova ciência de fundamentação ontológica do ser da vida e de procura de estabelecimento de princípios universais, ontologicamente fundados, para o exercício da acção no âmbito da vida e ser apenas um instrumento ideológico nas mãos de oligarquias e tiranias reinantes, a bioética parece ter escolhido a segunda opção. Se não se converter na primeira, mais valerá que deixe de existir. 4.2. Algumas considerações sobre o Horizonte da Bioética Há que fazer uma distinção básica fundamental entre modos de pensamento acerca da chamada «bioética»: entre um conjunto de tipos epistemológicos que não respeitam a ontologia própria do homem e uma tipificação que respeita esta mesma ontologia. Todas as outras possíveis distinções decorrem desta primeira e são suas subsidiárias. O bem próprio de cada entidade, seja ela qual for, depende apenas do que é o seu mesmo ser e este depende quer das suas possibilidades ontologicamente definidas quer da actualização destas mesmas possibilidades. Tanto mais rico é ontologicamente este ser, em sua mesma realidade concreta, quanto mais respeitadas forem as suas mesmas possibilidades ontológicas próprias, possibilidades que devem poder ser actualizadas ao máximo, www.lusosofia.net i i i i i i i i 42 Américo Pereira no necessário respeito pelo mesmo ontológico direito de todas as outras possíveis entidades que, com ela, constituem o mundo. Assim, o que cada entidade pode ser e é realmente não deve depender senão de seu mesmo potencial ontológico próprio, na necessária relação quer de possibilidade quer de actualização com todos os outros possíveis, as outras possíveis entidades. Tal implica que o desenvolvimento ontológico de cada entidade, no sentido da realização do melhor de suas mesmas possibilidades ontológicas, obedeça apenas a uma lei perfeitamente natural, lei do melhor possível, ontologicamente, quer para si quer para o universo total possível. É a questão do bem comum que aqui está necessariamente implicada; necessariamente, isto é, sem que possa não estar, sem que se possa sequer pensar que há um qualquer modo alternativo. Tal evidência ontológica aplica-se a toda a entidade possível e real, sem qualquer excepção. Aplica-se às entidades não humanas como às humanas, com as necessárias devidas adaptações. No que ao conjunto total das entidades não humanas diz respeito, toda a decorrência ontológica puramente própria relacional dá-se segundo um esquema que define prototipicamente a mesma naturalidade ontológica, sendo que todos os actos que ocorrem se dão na mesma intrínseca e necessária decorrência quer das potencialidades ontológicas de cada uma das entidades em causa quer das potencialidades que a sua mesma inter-relacionalidade necessariamente implica. Nada neste esquema, nada nestes necessários actos pode receber a qualificação quer de ético ou moral quer de político. Ética e política referem-se única e exclusivamente ao domínio ontológico do humano, domínio não estritamente natural, mas em que, a uma natureza incoativa dada e dada necessariamente em seu mesmo acto de doação, se junta todo um novo mundo formado a partir da acção não necessária, isto é, livre do homem, acção toda ela de ontológica fundamental base ética e também incontornável necessária repercussão ontológica política, sendo que o caso de uma acção puramente ética e não política é apenas uma figura www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 43 de razão, nunca actualizável nesta nossa dimensão, sempre política, em que somos verdadeiramente homens. Assim sendo, todo o acto de qualquer homem possui necessariamente uma dimensão política, não havendo realmente qualquer acto de um qualquer homem que não seja também um acto político. O âmbito da chamada «bioética» não escapa, como qualquer outro, a esta evidência, pelo que a bioética é concomitantemente uma tentativa de disciplina quer ética quer política. Mas, se bem que seja no domínio ético, da interioridade própria de cada pessoa, que se joga o fundamental em questão em bioética, isto é, a tomada de decisão quanto à acção a realizar, não é no domínio propriamente ético que o fundamental das consequências da acção que à bioética importam se joga, antes no domínio político, domínio em que a relativa bondade ou não bondade de nossos actos quaisquer se derramam, não apenas para nosso exclusivo maior ou menor bem, mas também e fundamentalmente para o maior ou menor bem de alguém que não nós: neste realíssimo trânsito do puramente ético da esfera interior do homem para o político da relação entre homens, tais relativos bens encarnam em absolutos actos, que definem para melhor ou para pior a ontologia própria de cada homem que connosco se relaciona, mas também, por seu intermédio, de todos os outros que com ele se relacionarem, numa virtualmente infindável cadeia ético-política não dominável por qualquer agente finito ao nível de suas consequências ontológicas. E todos os homens são precisamente agentes finitos. O âmbito fundamental de qualquer acto de qualquer ente humano é sempre o âmbito ontológico de moldagem do acto próprio de todos os homens, dado que não é possível saber precisamente que homens cada acto vai moldar, em que medida, quando, a que distância de qualquer tipo. Esta evidência é incontrovertível e válida para todo o campo do acto de homem. É precisamente esta especificidade que define o homem como é, na sua natural propriedade de ser não totalmente natural, forjando a mesma cultura, no www.lusosofia.net i i i i i i i i 44 Américo Pereira que esta tem de actualidade propriamente racional do acto próprio do homem. Não é possível definir humanamente o homem fora destes padrões. É nestes padrões que toda a inteligibilidade própria do homem se joga, bem como toda a sua acção própria, apenas classificável como propriamente humana se for manifestação de acto de inteligência propriamente humana. Inteligência que, provocada em seu acto de leitura do real pelas diferentes formas de carência humana, orienta a parte activa do homem no sentido da colmatação dessas mesmas carências, nascendo, assim, aquilo que se conhece como vontade. É do domínio próprio desta actividade inteligente do homem que diz todo o discurso acerca do propriamente ético e político no homem. Tudo o mais pertence ao domínio do puramente natural, em que o homem não escapa ao mesmíssimo “reino” natural a que pertencem todos os demais entes, desde o mais simples e primitivo ao mais sofisticado não humano (ambos desconhecidos). A chamada «bioética» pertence, pois, a este mesmo domínio da acção própria do homem e é como tal que deve ser encarada e criticada. Não é algo de “natural” ou de “sobrenatural”, mas algo de cultural, no sentido em que é cultural toda a acção propriamente humana, por oposição a tudo o mais, em que esta mesma acção não se faz absolutamente sentir. Como todas as actividades fundamentalmente políticas, ou se preocupa com o bem-comum dos homens ou se preocupa com o bem exclusivo de alguns homens; assim sendo, ou é uma teoria do amor ou é uma teoria da tirania, esta última mais ou menos mitigada oligarquicamente. Não é certamente uma teoria do primeiro tipo aquela que a chamada «bioética» configura nas suas várias formulações ditas laicas. Ora, é precisamente como disciplina trans-humana, capaz, portanto, de apelar a um nível cultural de tal modo profundo ontologicamente que deveria ser capaz de poder transcender todas as formas regionais de ideologia ou de “religião”, que a bioética deveria instalar-se, a fim, não de se constituir em e como mais um ins- www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 45 trumento de poder oligárquico ou tirânico, mas de contribuir para o real bem de todos os homens, que seria, deste modo, necessário bem-comum, sem alternativa possível que não a tirânica. Para tal, teria de se constituir numa teoria geral do bem de todos os homens, indiscernível necessariamente de uma teoria do amor. Adiantam-se mais algumas considerações acerca dos fundamentos epistemológicos do referido tentame de disciplina. Como já foi possível estabelecer, pouco do que à bioética diz respeito releva do campo de uma ética, sendo que o que se procura estabelecer pertence, antes, ao domínio do político, isto é, da relação entre o ser humano e algo que o transcende enquanto pura individualidade ética. Mesmo a possível definição como eventual nova ética médica, ou, mais genericamente, de saúde aplicada implica imediata e logicamente a sua fundamental matriz política, pois, como é óbvio, esta aplicação não é um mero e exclusivo retorno activo do sujeito ético sobre si mesmo. Deste modo, todas as questões fundamentais de uma «bioética», como definida pelos seus fundadores e habituais cultores, são, não do âmbito de uma ética, mas de uma política e é assim que devem ser pensadas. É exactamente porque não é do domínio de uma ética fundamental, isto é, de uma ontologia do acto próprio interior do homem, que a bioética é tão frágil, sempre navegando nas águas baixas de uma política não ontologicamente fundada – precisamente porque não fez o trabalho ontoantropológico fundamental – e por entre os escolhos da necessária relatividade etnológica que uma política sem bases ontológicas implica, sem possibilidade de saber o que seja um necessário bem comum, pois não pode saber o que é o bem ontológico de cada homem, que cada homem tem em comum com todos os outros, único horizonte ontológico, antropológico, ético e político sobre o qual se pode estabelecer, com um mínimo e um possível máximo (teoricamente paradigmático e ideal, mas não utópico), uma teoria de princípios políticos gerais acerca da acção no âmbito das dimensões biológicas da vida humana e não só humana, dimensões que www.lusosofia.net i i i i i i i i 46 Américo Pereira integram um todo ontológico mais vasto, que não aceita qualquer forma de reducionismo, sob pena de mortificar a mesma realidade humana fundamentalmente em causa. A necessária aplicabilidade e aplicação transcendente à pessoa do sujeito ético em causa na acção em campo «bioético» faz com que todo o trabalho de uma «bioética» tenha como finalidade não um domínio ético, mas político: a acção no domínio da «bioética» visa fundamentalmente não o meu crescimento como entidade ética pessoal, mas o bem de outrem ou de ambos e é apenas por meio da realização transcendente desse bem que o meu próprio bem ético se pode realizar, numa como que corrente política de retorno, em que o bem que fiz a um terceiro ente recai sobre mim, como imediata e directa compensação desse mesmo acto de bem. Pela negativa, o esquema aplica-se também ao mal politicamente transcendido desde mim: o mal feito a um terceiro recai sobre mim exactamente como o bem; as consequências do mal ou do bem feito a terceiros não se esgotam politicamente neles, mas, politicamente, recaem sobre mim, em meu íntimo foro ético e ontológico, como seu autor. Mas também ontologicamente: o bem ou o mal que fiz são parte de meu acto – eu sou o bem que fiz, mas sou também o mal que fiz, pelo menos até ao terreno fim de meus dias. Assim, do ponto de vista ético, a primeira conclusão a tirar, quer em bioética quer em qualquer outro domínio da acção do homem, é que todos os actos que eu fizer constituem-me ontologicamente para o sempre de meu acto, independentemente do possível horizonte último que este acto tiver. Nada ou ninguém pode desfazer em absoluto o que eu fiz: se salvei uma vida, salvei-a até ao fim de minha existência, qualquer que esta seja; se massacrei alguém, massacrei esse mesmo alguém até ao fim de minha existência, qualquer que seja esta. Ontologicamente, esta evidência é absolutamente incontrovertível e de nada servem desculpas ou panaceias artificiosas: os actos, que são o material ontológico de que a minha dimensão ética pessoal é feita, constituem-me e nada pode www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 47 fazer com que deixem de me constituir, sob pena de, elidido um qualquer acto, bom ou mau, o meu ser colapse no nada, pois apenas por meio do trânsito ontológico de acto para acto o meu ser se pode constituir como realidade ontológica contínua, continuidade sem a qual, seja ela qual for – e ninguém sabe o que é e como é –, a minha manutenção no ser é simplesmente impossível. Como exemplo, como agente de saúde, o paciente que salvei, salvei-o para sempre, independentemente do que lhe possa vir a acontecer posteriormente, e do modo como entendo este «para sempre», que pode ser finito ou infinito. Mas o mal que fiz a um qualquer paciente fica com ele e comigo para um mesmo «sempre», de modo semelhante ao bem, só que negativamente, mas de modo também absoluto, dado que, positivamente, a cada acto de bem feito corresponde um absoluto ontológico realizado (a mesma definição de bem), mas, negativamente, a cada acto de bem possível não realizado (mal) corresponde o absoluto negativo da ausência real desse mesmo bem realizado. Mas os cuidados a ter com o mal são obviamente muito mais dramática ou tragicamente importantes porque, por exemplo, se sei que o paciente qualquer que salvei vai, mais tarde ou mais cedo morrer, também sei que o ente humano que abortei não vai poder viver, mais cedo ou mais tarde. E tudo isto vale por si mesmo, independentemente de quaisquer colateralidades etiológicas ou outras quaisquer justificativas ou pseudo-justificativas. É esta a dimensão irredutível da ética e não há outra. É nesta dimensão que todos os actos de qualquer homem nascem e é a partir dela que se pode dar a transcensão política para o forum da inter-relacionalidade com os outros seres humanos. Sem esta fundamental dimensão ontológica e ética, pura e simplesmente não há qualquer acção humana possível. Sem esta dimensão ontológica, a antropologia, em qualquer das suas dimensões, doutrinas ou escolas, configura apenas uma qualquer mecânica imprópria para seres humanos, mas boa para autómatos materiais com figura humana, no entanto, já não essencial e substancialmente humanos. Ora, pa- www.lusosofia.net i i i i i i i i 48 Américo Pereira rece ser precisamente para este modelo degradado de humanidade que se encaminham epistemologicamente muitas ciências contemporâneas, perspectivando o homem não como uma entidade fundamentalmente semântica, mas como uma mera entidade mecânica ou mecânico-biológica, regida pelas mesmíssimas padronizações estatísticas do restante da variedade material do universo. Se for este o modelo a ter em consideração, modelo de uma humanidade reduzida a apenas mais um fenómeno – se mais ou menos complexo é fundamentalmente indiferente – puramente material, então uma disciplina como a actual bioética faz todo o sentido. Mas, se a humanidade for entendida como algo de diferente de apenas mais uma manifestação exclusivamente material, em que o sentido próprio haurido no seio da experiência de sua inteligência não possa ser reduzido a uma mera excreção material, então reclama-se, não uma bioética, também mecânica, de mecânicos “princípios”, sempre deontológicos e nada mais, mas uma ética da acção para a vida que respeite fundamentalmente o carácter irredutível não apenas da entidade humana, mas, a partir da infinitizável inteligência desta e seu sentido haurido, que respeite o carácter – por esta mesma inteligência percebido – de irredutibilidade de toda e qualquer entidade, num mundo em que nada é ou pode ser igual, mas em que, sendo todos os entes diferentes e todos contribuindo para a existência verdadeiramente solidária de todos e do todo, todos os entes merecem o respeito que lhes é devido, cada um em seu lugar ontológico próprio, numa economia da relação que, ainda que tenha de permitir o uso das entidades, nunca pode consentir o seu abuso. Se a chamada «bioética» quer ser algo que tenha um mínimo de dignidade como ética, tem de evoluir no sentido de se tornar uma teoria da acção interior do homem, prévia a toda a “aplicação”, anterior à transcendência política de acto que, nascendo no interior semântico do homem, tem a faculdade de modificar a ontologia própria de outros entes, para o bem ou para o mal, não apenas do agente e do tópico, ocasional paciente, mas de www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 49 todo o universo, próximo e longínquo, num realíssimo ecossistema geral, que é muito mais do que biológico: é universal, englobando ética, política, biologia (que inclui física, química e todas as suas dimensões ancilares). Requer-se, pois, um trabalho em que se forme a interioridade própria dos seres humanos de modo a tornar cada homem fonte autónoma de inteligência própria, isto é, pessoa, capaz de visão analítica, mas concomitante e necessariamente sintética, capaz de ponderação ética, mas ontologicamente alicerçada, sempre no respeito pelo único princípio objectivo que é verdadeiramente universal, o do bem comum, isto é, do maior bem possível, objectivamente, para todos os entes presentes em determinado momento da existência de cada homem, que engloba necessariamente em si a existência de todos aqueles que com ele estão presentes ao ser. Não é tarefa fácil esta. É muito mais difícil do que possuir uma qualquer tabela de regras heterónomas de comportamento político: estas últimas evitam todo o trabalho de pensamento necessário para a tomada de decisão, boa decisão, aquando do momento em que há que decidir. É muito mais fácil, do ponto de vista psicológico e sociológico, viver heteronomamente, apenas aplicando tabelas protocolares de princípios determinados por outros quaisquer: o peso do trabalho de deliberação e o peso ontológico da decisão tomada como que magicamente desaparecem e o homem sente-se muito mais leve na sua condição de instrumento de forças que o ultrapassam e a que se entrega de forma cega. Mas este homem já não é verdadeiramente um homem, apenas uma peça biológica numa máquina social que se limita a servir-se dele, precisamente como peça biológica, enquanto esta for necessária, enquanto não encontrar, para o exercício das mesmas funções mecânicas, uma peça já não biológica, mas apenas meramente mecânica, que cumpra a respectiva tarefa de uma forma ainda melhor, pois, então, não encerrará qualquer perigo de poder vir a ser, ainda, instância crítica. E o homem, este homem, torna-se perfeitamente dispensável, o que www.lusosofia.net i i i i i i i i 50 Américo Pereira é perfeitamente lógico e normal, neste esquema em que os homens já não são homens-pessoas, mas simples homens-máquina, quando muito homens-cidadão. Foi no sentido da produção não já de pessoas peritas em cuidados de saúde: médicos, enfermeiros, socorristas, técnicos auxiliares vários, mas meros «técnicos de saúde», mecânicos biológicos à imagem dos mecânicos de coisas não biológicas como, por exemplo, de automóveis, que a bioética evoluiu: em vez de procurar formar pessoas para uma capacidade pessoal de judicação acerca da acção a seguir, sempre no sentido do bem comum, procurou formas de reduzir esta mesma capacidade de julgamento autónomo, refugiando-se na produção de protocolos, bons tanto para homens como para máquinas. O mesmo protocolo deontológico que serve para a mecânica da decisão humana pode servir, posto em código binário, para programar máquinas sanitárias que sejam impecáveis do ponto de vista bioético: deixando viver segundo o regulamento protocolar, deixando morrer ou matando segundo o mesmo protocolo. Livra-se, assim, deste modo, a humaníssima humanidade das angústias não mecanicamente redutíveis das decisões, ficando estas para as máquinas, que teriam apenas que procurar os parâmentros paradigmatizados protocolarmente, executando, obviamente sem pensar, as consequências também protocolarmente previstas. Ninguém, sobretudo depois de os inventores deste esquema terem morrido, ficará com quaisquer “problemas de consciência”. Tudo o que acabou de ser dito não é uma qualquer anedota irónica, sendo perfeitamente possível, já hoje. Este esquema, que faria as delícias dos assassinos do Terceiro Reich de Hitler ou dos assassinos dos Gulags de Estaline, é hoje perfeitamente exequível e, se aqui o lembramos, é apenas porque representa o último estádio daquilo para que a bioética se encaminha ao querer transformar-se numa disciplina de doutrina protocolar acerca de princípios mecânicos para lidar com questões éticas e políticas, que nunca podem www.lusosofia.net i i i i i i i i Bioética? Da Relação entre a Vida e a Biologia 51 obedecer a meros protocolos redutores, venham eles de onde vierem, tenham eles a legitimidade jurídica que tiverem: lembremonos de que, no caso de Hitler, as suas ideias fundamentais, de que nunca se afastou, receberam um chamado «mandato democrático». Tal carta de apresentação é bastante para infirmar qualquer pretensão de necessária bondade por parte de qualquer norma que tenha um mesmo fundamento jurídico de validação de bondade intrínseca. Uma vez basta para qualquer pessoa inteligente perceber o valor que determinados mecanismos de validação superficial das doutrinas possuem. Tendo em conta tudo o que foi previamente afirmado, apenas uma bioética que se queira constituir como teoria fundamental do bem comum do homem, tendo que ter em fundamental consideração a ontologia própria da antropologia humana e da necessária acção para o serviço desse bem comum no âmbito da vida, pode tornar-se algo mais do que um novo instrumento intelectual ao serviço de tiranias e oligarquias várias, papel que a bioética existente vai cumprindo. A bioética ou visa o bem comum do homem, isto é, da humanidade como um todo, aquela que está em acto em cada instante presente no mundo político, mas também e talvez sobretudo aquela que é possível vir a estar, ou visa o bem de um qualquer tirano ou de um grupo alargado de potenciais tiranos ou de uma qualquer oligarquia. Não há outro modo possível para o desenvolvimento de uma bioética respeitadora do bem comum senão o trabalho no sentido da definição do que é o ser do homem, acompanhando este trabalho com um enorme esforço pedagógico no sentido do desenvolvimento das virtudes para o bem comum, únicas capazes de promover este mesmo bem comum. Falamos das vetustas virtudes cardeais, sem o uso das quais o homem mais não é do que um voraz ente de destruição dos outros em benefício próprio, quer seja um tirano à maneira obviamente egoísta de um Giges quer à maneira não tão obviamente egoísta, mas que o é também, de um Midas: www.lusosofia.net i i i i i i i i 52 Américo Pereira em ambos os casos, é a humanidade que sempre desaparece: e é no segundo caso que o desenlace é verdadeiramente trágico, pois, não há como fazer reviver em carne humana todo aquele material e estúpido ouro. A bioética que por aí anda parece oscilar estrategicamente entre a desumanização semântica do mundo de Giges e a desumanização material do mundo de Midas. Requere-se uma bioética que seja capaz de uma humanização da vital ontologia do homem, que tenha como meta algo como uma qualquer «cidade de Deus», em que os homens vivam não por mesquinhos interesses, mas pela vontade do bem de todos, definição mesma do amor. A bioética ou se converte a um sentido de amor recíproco, com todas as consequências que tal amor acarreta, transformando-se numa verdadeira teoria da amizade na e para a vida, ou mais não fará do que contribuir para a aceleração da morte do homem como homem. www.lusosofia.net i i i i