1 ESTUDO PRELIMINAR DO CICLO DIÁRIO DAS CIRCULAÇÕES LOCAIS EM PETROLINA, SUBMÉDIO SÃO FRANCISCO Ewerton Cleudson de Sousa Melo 1 , Magaly de Fátima Correia2, Maria Regina da Silva Aragão 2 Resumo Dados de vento à superfície coletados por uma estação automática foram utilizados com intervalo de 3 horas para estudar a variabilidade do escoamento das escalas local e sinótica em Petrolina. A análise dos dados sugere a existência de interação entre essas escalas, apresentando sazonalidade de acordo com os sistemas atmosféricos atuantes na área. O escoamento médio horário em Petrolina tem menor (maior) intensidade e maior (menor) variação na direção no período chuvoso (seco), quando os alísios e ventos locais termicamente induzidos têm menor (maior) intensidade. De modo geral, o escoamento médio horário apresenta valores mais baixos no final da noite-início da manhã e valores mais elevados no meio da manhã, sugerindo a existência de interação entre as circulações local e de grande escala. Palavras Chave: Circulação Local, Interação de Escalas, Submédio São Francisco Abstract Surface wind data collected by an automatic platform were used at 3-hour intervals to study the surface flow variability on the synoptic and local scales at Petrolina. The data analysis suggests the existence of interaction between these scales, showing seasonality in accordance with the atmospheric systems that influence the area. The hourly mean flow in Petrolina shows lower (higher) intensity and higher (lower) variation in direction during the wet (dry) season, when the trades and thermally induced local winds have lower (higher) intensity. In general, the hourly mean flow has lower values in late night-early morning and higher values in mid-morning, a result that indicates the existence of interaction between the local and large-scale circulation. Palavras Chaves: Local Circulation, Scale Interaction, Submédio São Francisco 1 Aluno do Doutorado em Meteorologia, email:[email protected] Professora Doutora UACA/UFCG, email: [email protected], [email protected] Endereço: Unidade Acadêmica de Ciências Atmosféricas, Centro de Tecnologia e Recursos Naturais, Universidade Federal de Campina Grande, Avenida Aprígio Veloso 882, 58109-970 Campina Grande – Paraíba, Fone (0xx83 33101202). 2 2 INTRODUÇÃO Compreender a variabilidade espacial e temporal do vento é de grande importância, porque ele é responsável pelo transporte de umidade e calor necessários para a formação de nuvens. Por outro lado, o vento à superfície influencia direta ou indiretamente quase todas as atividades humanas a exemplo das operações de pouso e decolagem de aeronaves, a pesca marítima para as embarcações veleiras entre outras. A variabilidade diária do escoamento em um determinado local depende da região e da época do ano porque está relacionada com a fisiografia e a ocorrência de fenômenos sazonais ou anomalias atmosféricas de grande escala. No estudo desta variabilidade normalmente utilizam-se modelos numéricos regionais cujos resultados precisam ser validados com base em dados coletados com resolução adequada. A instalação de Plataformas de Coleta de Dados Automáticas – PCD’s possibilita armazenar, com alta resolução temporal, um número determinado de variáveis meteorológicas que contribuem significativamente para solucionar uma boa parte do problema de validação. Atualmente esse sistema é bastante caro para ser implantado em todos municípios, sendo instalado em locais selecionados a exemplo do município de Petrolina em Pernambuco. A cidade de Petrolina, localizada no sudoeste do estado de Pernambuco, é uma das principais cidades do Submédio São Francisco. Ela se destaca pelo potencial agrícola com o cultivo irrigado de videiras que possui especial importância econômica e social, na medida em que envolve um grande volume anual de negócios voltados para os mercados interno e externo, sendo a que apresenta o maior coeficiente de geração de empregos diretos e indiretos no Submédio do Vale de São Francisco. Dessa forma, o objetivo deste trabalho é estudar a variação do vento local em Petrolina, contribuindo com informações sobre esta variável meteorológica nesta área e utilizar os resultados para validação de modelos numéricos. ÁREA DE ESTUDO A cidade de Petrolina-PE (9°24’S, 40°29’W, 370m) está localizada na margem esquerda do Submédio do Rio São Francisco, aproximadamente 40km da represa do Sobradinho. Seu relevo é basicamente plano, suavemente ondulado. A vegetação nativa predominante é do tipo caatinga hiperxerófila (ATLAS ESCOLAR DE PERNAMBUCO, 2003). A estação chuvosa em Petrolina começa em novembro/dezembro (atuação dos vórtices ciclônicos) e termina em marçoabril(migração para norte da Zona de Convergência Intertropical - ZCIT) (SILVA ARAGÃO et al., 1997). 3 FONTE DOS DADOS Utilizaram-se dados diários do vento à superfície em intervalos de 3 horas, provenientes de um sensor ultra-sônico instalado a 10 m de altura da Plataforma de Coleta de Dados – PCD (estação automática constituída por um conjunto de sensores que registram automaticamente e de forma eletrônica dados meteorológicos) do município de Petrolina-PE nas coordenadas (09°18'S, 40°42'W, 366m), fornecidos pelo Laboratório de Meteorologia/Instituto Tecnológico de Pernambuco (LAMEPE/ITEP). Utilizou-se apenas os meses com poucas falhas nos dados, de modo que foram selecionados os seguintes períodos: maio a dezembro de 2001, janeiro a setembro de 2002 e julho a dezembro de 2004. METODOLOGIA Estatísticas Descritivas do Vento r Foi utilizada a velocidade do vento V disponível num intervalo de três horas, que pode ser r expressa como a soma de uma velocidade média diária V (vento sinótico) e uma flutuação da r r r r velocidade V ′ (escoamento local no horário da observação), de forma que V ′ = V − V . As médias mensais horárias foram determinadas de acordo com o número de anos ∑ (V n r existentes utilizando a expressão Vhj′ = i =1 r hji n r − Vhji ) , na qual o índice h indica o horário, j os meses, i os anos e n o número de anos de meses com dados. r As componentes zonal (u) e meridional (v) são dadas por u hji = − Vhji senθ e r r vhji = − Vhji cosθ , em que Vhji é o módulo da velocidade do vento, θ é a direção do vento em graus. A velocidade e a direção do vento médio foram determinadas a partir das médias de suas componentes. HODÓGRAFO O hodógrafo representa os vetores da média do vento horário da brisa. Idealmente, possui forma elíptica com rotação no sentido horário no hemisfério norte devido à força de Coriolis (HAURWITZ, 1947). Logo, é esperado que o giro no hemisfério sul seja no sentido anti-horário. 4 Na realidade os hodógrafos não seguem a forma teórica, por esta ser modificada pelas condições fisiográficas (DEXTER, 1958). Os hodógrafos são, muitas vezes, usados para ilustrar a rotação diária do vento. Sua utilização tem o propósito de auxiliar no estudo da dinâmica e interação das circulações de brisa, ou seja, a direção da rotação do vetor vento constitui em uma ferramenta para compreender as dinâmicas da camada limite atmosférica. Neste trabalho os hodógrafos são gerados utilizando a média, calculada para horários múltiplos de três horas para as PCD’s. RESULTADOS E DISCUSSÕES O escoamento médio horário em Petrolina (Figura 1a-d) apresenta baixa intensidade e maior variação na direção no período chuvoso (primeiro trimestre). Ao longo do ano a intensidade do escoamento médio aumenta, associada a uma grande variação diária ocasionada pela intensificação da circulação local, enquanto há predominância da direção sudeste devido a maior atuação dos alísios. Essa variação sazonal do escoamento médio concorda, em linhas gerais, com os resultados de Correia (2000), para o período de 1977-1981. Com relação à variação diária (Figura 1a-d), de modo geral, apresenta menores valores no final da noite/início da manhã, e maiores valores em torno do meio-dia evidenciando a existência de interação entre as circulações locais e de grande escala, coerente com o observado por Barreto (2001) para o período de 1977-1981. A menor e maior intensidade são observadas respectivamente em fevereiro (Figura 1a) e agosto (Figura 1c). 180 12 165 150 8 Jan Fev Mar 6 4 Direção (°) Velocidade (m/s) 10 Jan Fev Mar 120 105 90 2 75 0 60 0 3 6 9 12 15 18 0 21 3 6 9 12 Tempo (HL) Tempo (HL) (a) (c) 15 18 21 180 12 165 10 150 8 Jul Ago Set 6 4 Direção (°) Velocidade (m/s) 135 135 Jul Ago Set 120 105 90 2 75 0 60 0 3 6 9 12 Tempo (HL) 15 18 21 0 3 6 9 12 15 18 21 Tempo (HL) (b) (d) Figura1 Variação sazonal do ciclo diário da velocidade (a, b) e da direção (c,d) do vento à superfície em Petrolina para os trimestres: (a,e) Janeiro-Fevereiro-Março, (c,g) e Julho-AgostoSetembro. O eixo x apresenta a Hora Local (HL) e os eixos y apresentam a velocidade em ms-1 e a direção em graus. 5 Nos hodógrafos representados na Figura 2a,i os eixos dos gráficos estão orientados com o norte na direção do topo da página. Os números de 0 a 21 são as horas locais com intervalo de três horas. As escalas dos eixos são os totais que resultam da adição vetorial das componentes zonal e meridional do vento em unidades de metros por segundo. Os hodógrafos representam a média do vento local em todos os dias do mês. No primeiro trimestre (JFM), representado pelo ano de 2002, percebe-se a existência de uma circulação local relativamente fraca, dominada pela componente zonal (Figura 2a-c), associada à influência de ventos de origem local. As mudanças no decorrer de 24 horas nem sempre estão no sentido anti-horário e não ocorrem nos mesmos horários em JFM, concordando com Correia & Silva Dias (2003), pois nesta faixa de latitude torna-se desprezível o efeito de Coriolis em relação à influência do gradiente de pressão (forçante térmica). A direção da velocidade do vento local (eixo maior) apresentada nos hodógrafos mensais pode está associada ao regime do vento local na localização da PCD em Petrolina que é preferencialmente devido a circulações induzidas termicamente como ventos anabáticos e catabáticos com origem na serra situada a noroeste dali. Atinge as maiores intensidades acima de 3,0 3,0 2,0 2,0 2,0 1,0 1,0 9 21 3 0,0 15 06 18 12 9 12 15 0,0 21 3 6 -1,0 -1,0 -2,0 -2,0 -3,0 -3,0 -2,0 -1,0 0,0 1,0 2,0 3,0 -3,0 -3,0 -2,0 -1,0 0,0 1,0 2,0 3,0 3,0 6 15 0 3 18 -1,0 -2,0 -3,0 -3,0 -2,0 -1,0 0,0 1,0 2,0 3,0 u (m/s) (g) 1,0 18 21 6 -1,0 (c) 3,0 2,0 9 12 21 0,0 615 0 3 18 -1,0 -2,0 -3,0 -3,0 -2,0 -1,0 0,0 1,0 2,0 3,0 v (m/s) 21 0,0 3 0 u (m/s) 2,0 12 15 -2,0 -3,0 -3,0 -2,0 -1,0 0,0 1,0 2,0 3,0 3,0 9 v (m/s) 1,0 12 9 0,0 (b) (a) 2,0 1,0 u (m/s) u (m/s) v (m/s) 0 18 v (m/s) 3,0 v (m/s) v (m/s) 2,5m/s em torno das 0900HL e 1800HL. 1,0 21 9 0,0 0 12 6 3 18 15 -1,0 -2,0 -3,0 -3,0 -2,0 -1,0 0,0 1,0 2,0 3,0 u (m/s) (h) u (m/s) (i) Figura 2 Hodógrafo de Petrolina para o mês de: (a)janeiro, (b)fevereiro, (c)março, (d)julho, (f)agosto, (g)setembro. Os círculos e valores nos gráficos assinalam a hora local. A forma do hodógrafo não elíptica sugere que este escoamento sofre influencia de outras circulações locais. Quanto à forma de gancho observado (Figura 2g-i) Bossert et al. (1989) 6 estudando os aspectos regionais do escoamento em terrenos montanhosos, associaram este fenômeno à influência da topografia no escoamento noturno estratificado. CONCLUSÕES A análise de dados do vento à superfície coletados pela PCD de Petrolina –PE nos anos de 2001, 2002 e 2004 indica a existência de interação entre a circulação local e a grande escala em Petrolina. O escoamento médio horário em Petrolina apresenta menor (maior) intensidade e maior (menor) variação na direção no período chuvoso (seco). A respeito do escoamento médio horário, este apresenta menores valores no final da noite (início da manhã), e maiores valores em torno do meio-dia evidenciando a existência de interação entre as circulações locais e de grande escala. O escoamento local apresentou características singulares ao longo do dia e do ano, com menores (maiores) intensidades nos meses chuvosos (secos). A rotação do vento não se mostrou bem definida, em geral é de sentido anti-horário, e em certos meses, apresenta sentido contrário em um determinado período. A circulação local influencia tanto na intensidade como na direção do escoamento médio horário e sua contribuição parece ser percentualmente maior no início do ano. AGRADECIMENTOS Os autores agradecem ao Instituto Tecnológico de Pernambuco/Laboratório de Meteorologia de Pernambuco (ITEP/LAMEPE) na pessoa de Francis Lacerda, Werônica Meira de Sousa e Romilson Ferreira da Silva. Esta pesquisa foi parcialmente financiada pelo Programa de Pós-Graduação em Meteorologia da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) com bolsa de demanda social da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS ATLAS ESCOLAR DE PERNAMBUCO/Coordenador Manuel Correia de Oliveira Andrade. Ed. GRAFSET, João Pessoa – PB, 2003. BARRETO, A. B. Estudo do Ciclo diário do Vento à Superfície no Nordeste do Brasil. 2001. 56p. Dissertação (Mestrado em Meteorologia) – Universidade Federal da Paraíba, Campina Grande. CORREIA, A. A. Padrões de Variabilidade do Vento à Superfície no Nordeste do Brasil. 2000. 66p. Dissertação (Mestrado em Meteorologia) – Universidade Federal da Paraíba, Campina Grande. CORREIA, M.F.; SILVA DIAS, M.A.F. Variação do Nível do Reservatório de Sobradinho e seu Impacto Sobre o Clima da Região. Revista Brasileira de Recursos Hídricos, v.8, 157-168, 2003. DEXTER, R. V. The Sea-Breeze Hodograph at Halifax. Bulletin of the American Meteorological Society, v.39, n. 5, 1958. HAURTIZ, B. Comments on the sea-breeze circulation. J. Met., v. 4, p1-8, 1947. SILVA ARAGÃO, M. R.; CORREIA, M. F; ROSA SOBRAL, Z. Vento à Superfície e Chuva em Anos Contrastantes no Submédio São Francisco. Boletim Climatológico, n. 3, p. 213-217, 1997.