Capítulo 5 DINÂMICA (CINÉTICA) DE UM SISTEMA DE PARTÍCULAS 5.1 INTRODUÇÃO Neste capítulo estudar-se-á a cinética de corpos rígidos, isto é, as relações que existem entre as forças que actuam num corpo, a sua forma e massa, e o movimento resultante. No capítulo anterior estudaram-se relações semelhantes, admitindo então que o corpo podia ser considerado uma partícula, ou seja, que a sua massa podia ser concentrada num ponto e que todas as forças actuavam nesse ponto. A forma do corpo e a localização exacta dos pontos de aplicação das forças vão ser agora tidas em devida conta. O objectivo é o estudo do movimento do corpo como um todo, bem assim como o seu movimento em torno do seu centro de massa. Nos sistemas de partículas abordados, considera-se que a distância entre duas quaisquer partículas permanece inalterável (noção de corpo rígido). Os corpos rígidos podem ser classificados em: – Conjuntos discretos (finitos): consistem em sistemas de partículas isoladas rigidamente ligadas entre si. – Conjuntos contínuos (infinitos): trata-se de sistemas contínuos, isto é, as partículas não são numeráveis. – Conjuntos mistos: consistem numa anteriores. associação dos dois 151 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas 5.2 EQUAÇÕES DE MOVIMENTO DE UM SISTEMA DE PARTÍCULAS A abordagem a efectuar neste capítulo assenta no princípio de que os corpos rígidos não são mais do que conjuntos de várias partículas e, por essa razão, pode-se utilizar os resultados obtidos no capítulo anterior para o movimento de uma partícula sujeita a um campo de forças, fazendo o somatório (ou o integral) estendido a todas as partículas. As forças actuantes num sistema de partículas podem ser classificadas em: – Forças interiores – são forças que ocorrem entre as partes constituintes do sistema de partículas, as quais, pelo princípio de igualdade da acção e da reacção, constituem pares de forças autoequilibradas por serem iguais e r r directamente opostas ( Fij = − F ji ). – Forças exteriores – são forças cuja origem ou causa é exterior ao sistema de partículas. Figura 5.1 – Forças interiores e exteriores. No estudo da dinâmica dos sistemas de partículas irá ser utilizada uma notação específica para as forças. Assim, as forças com um só índice designarão forças exteriores ao sistema de partículas, actuando sobre a parte ou partição com a designação do índice. As forças interiores às partes constituintes são designadas por dois índices, um indica de onde vêm e o outro indica para onde vão: r Fi – resultante das forças exteriores aplicadas sobre mi; r Fij – força interior devida à interacção entre as massas mi e mj, estando autor r r r equilibrada com F ji , isto é, Fij + F ji = 0 . Do princípio da força de D’Alembert ou da 2ª lei de Newton aplicada à partícula i do sistema de partículas, resulta: r n r r r d 2 ri Fi + ∑ F ji = mi ⋅ ai = mi ⋅ 2 dt j =1 j ≠i 152 (5.1) Capítulo 5 Como o princípio de D’Alembert é válido para todas as partículas ou partes constituintes do sistema de partículas, isto é, para i = 1, 2, ..., n, ter-se-á o seguinte sistema de equações: r n r r d 2 r1 F1 + ∑ F j1 = m1 ⋅ dt 2 j =1 j ≠1 r 2r n r F + ∑ F = m ⋅ d r2 1 2 j =1 j 2 dt 2 j≠2 ... r n−1 r 2r F + ∑ F = m ⋅ d rn 1 n j =1 jn dt 2 (5.2) Ter-se-á assim um sistema de n equações diferenciais do movimento das partículas constituintes do sistema de partículas. A solução deste sistema pode ser obtida por integração directa (se for integrável) ou por integração numérica (por exemplo, o método de Euler, o método de Runge-Kutta, etc.) a partir das condições fronteira temporais apropriadas, também designadas por condições iniciais. Note-se que enquanto o referido sistema de equações diferenciais do movimento constitui uma condição necessária e suficiente do equilíbrio dinâmico do sistema de partículas, a soma vectorial das referidas equações, membro a membro, resulta numa condição necessária mas não suficiente. De facto, r n n r n r Fi + ∑ ∑ F ji = ∑ mi ⋅ ai ∑ i =1 i =1 j =1 i =1 j ≠i n ⇒ O somatório de forças auto-equilibradas é nulo. ⇒ n r n ∑ F = ∑m i =1 i i =1 i r ⋅ ai (5.3) Esta é uma condição necessária de equilíbrio mas não é condição suficiente, pois não garante que o sistema rode em torno de si próprio. 153 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas r Representando por ri o vector posição da partícula de massa mi que faz parte de um sistema de partículas materiais e tomando os momentos em relação ao ponto O das várias forças actuando em mi, vem: n r r r r r r ri × Fi + ∑ ri × F ji = ri × (mi ⋅ ai ) (5.4) j =1 j ≠i Figura 5.2 – Equilíbrio de um sistema de partículas. Repetindo este procedimento para cada partícula mi do sistema, obtém-se n equações idênticas à anterior. A soma vectorial dessas equações resulta também numa condição necessária alternativa à anterior: n n r r r r r n r r F r F = r × ( m ⋅ a × + × ∑ ∑ ∑ ∑ i i i ji i i i) i =1 i =1 i =1 j =1 j ≠i n ⇒ O somatório de momentos de forças auto-equilibradas é nulo. ⇒ n r r n r r ∑ r × F = ∑ m ⋅ (r × a ) i =1 i i i =1 i i i (5.5) As equações (5.3) e (5.5) representam somente condições necessárias de r equilíbrio, para as quais o efeito das forças internas, F ji , é nulo. Note-se porém, que isto não significa que as forças internas não tenham efeito sobre as partículas do sistema. Por exemplo, as forças de atracção gravítica que o Sol e os planetas exercem entre si consideram-se internas relativamente ao sistema solar, e, por essa razão equipolentes a zero. No entanto, estas forças são as responsáveis pelo movimento dos planetas em redor do Sol. Analogamente, não se pode concluir das duas equações referidas que dois sistemas de forças externas, que possuem a mesma resultante e o mesmo momento resultante, produzem o mesmo efeito sobre um sistema de partículas. Os dois sistemas mostrados na figura 5.3 têm a mesma resultante e o mesmo momento resultante; Figura 5.3 – Sistemas de forças equivalentes. 154 Capítulo 5 no entanto, o primeiro sistema acelera a partícula A e deixa intacta a partícula B, enquanto o segundo sistema acelera B e não afecta A. 5.3 CENTRO DE MASSA. TEOREMA DO CENTRO DE MASSA A equação (5.3) pode escrever-se de outra forma se for considerado o centro de massa do sistema de partículas. Como já se viu no capítulo 3 (Geometria de Massas), o centro de massa do sistema é o ponto G definido pelo seguinte vector r posição rG : – Sistema de partículas discreto, n r rG = ( xG , yG , zG ) = ∑m i i =1 r ⋅ ri n ∑m i =1 = r 1 n ⋅ ∑ mi ⋅ ri ⇒ M i =1 i xG = ⇒ yG = zG = n ∑m i =1 n i M ∑m i =1 n i ⋅ yi (5.6) M ∑m i =1 ⋅ xi i ⋅ zi M Figura 5.4 – Centro de massa de um sistema discreto. – Sistema de partículas contínuo, r r rG = ( xG , yG , zG ) = ∫ r dm M ∫ dm = 1 M r ∫ r dm ⋅ ⇒ M M 155 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas x = G ⇒ yG = z = G ∫ x dm M M ∫ y dm M M ∫ z dm (5.7) M M Figura 5.5 – Centro de massa de um sistema contínuo. Apenas por simplicidade de notação serão inferidos os princípios da dinâmica a sistemas de partículas discretos, utilizando, por isso, a notação de somatório e não de integral. Portanto, o centro de massa é: n r rG = ∑m i i =1 r ⋅ ri n r r M ⋅ rG = ∑ mi ⋅ ri ⇒ M (5.8) i =1 Derivando sucessivamente esta expressão em relação ao tempo, vem: n d (M ⋅ rrG ) = d ∑ mi ⋅ rri dt dt i =1 r r n drG dri = ∑ mi ⋅ M⋅ dt dt i =1 ⇒ ⇒ r n drG r M⋅ = ∑ mi ⋅ vi dt i =1 ⇒ r r drG d n d M ⋅ = ∑ mi ⋅ vi dt dt i =1 dt ⇒ r r n dvi d 2 rG M ⋅ 2 = ∑ mi ⋅ dt dt i =1 ⇒ n r r M ⋅ aG = ∑ mi ⋅ ai (5.9) ⇒ (5.10) i =1 como, n r r r m a ⋅ = ∑ i i ∑ Fi = F n i =1 (5.11) i =1 então, substituindo em (5.10) vem: r r F = M ⋅ aG 156 (5.12) Capítulo 5 A expressão (5.12) define o movimento do centro de massa G de um sistema de partículas, traduzindo assim o teorema do centro de massa: “O centro de massa de um sistema de partículas desloca-se como se toda a massa do sistema e todas as forças externas estivessem concentradas nesse ponto”. Este princípio pode ser melhor ilustrado pela análise do movimento de uma granada que entretanto explode. Sabe-se de antemão que, se a resistência do ar for desprezável, o movimento da granada segue uma trajectória parabólica. Após a granada ter explodido, o centro de massa G dos fragmentos resultantes continua a descrever a mesma trajectória. Na verdade, o ponto G deve mover-se como se a massa e o peso de todos os fragmentos estivessem aí concentrados; devem, por isso, deslocar-se como se a granada não tivesse explodido. Do que foi referido, destacam-se três pontos que traduzem a importância do teorema do centro de massa: 1º Ponto) Redução do sistema de partículas a um único ponto O teorema do centro de massa permite aplicar certas leis da mecânica quando se supõe o sistema de partículas com massa concentrada num único ponto – o centro de massa. Por exemplo, se um sistema de partículas executa um movimento de translação, este pode ser caracterizado completamente pelo movimento de translação de um único ponto identificado com o centro de massa, com massa igual à massa total do sistema e r r movendo-se com velocidade e aceleração, vG e aG , iguais às do centro de massa. 2º Ponto) Permite ignorar as forças interiores do sistema O teorema do centro de massa torna possível desenvolver as equações de movimento do sistema de partículas ignorando ou desconhecendo as forças interiores ao sistema. Note-se que o seguinte duplo somatório é nulo: 157 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas n n r ∑∑F i =1 j =1 j ≠i ji r =0 (5.13) Isto significa que as forças interiores ao sistema de partículas não influenciam o movimento do centro de massa, qualquer que seja o sistema. No entanto, as forças interiores influenciam o movimento de cada partícula individualmente, conforme se infere do princípio das forças de D’Alembert, constituindo uma equação diferencial do movimento de cada partícula de massa mi. Veja-se, por exemplo, o movimento de uma granada que entretanto explode, como foi abordado anteriormente. 3º Ponto) Descrição do movimento numa perspectiva global Como se verificou no 2º ponto, o movimento do centro de massa caracteriza o movimento do sistema de partículasnuma perspectiva global, isto é, no seu conjunto; mas não caracteriza o movimento do sistema de partículas no seu aspecto local. Exemplo de aplicação 158 Capítulo 5 5.4 MOMENTO DE INÉRCIA DE MASSA Como se viu na expressão (5.12), e de acordo com o princípio da força de D’Alembert, o anulamento da resultante das forças exteriores aplicada ao ponto fictício de centro de massa do sistema de partículas garante apenas que o centro de massa está em equilíbrio. Mas para assegurar o equilíbrio de um sistema de partículas não basta que esteja em equilíbrio o seu ponto fictício, isto é, o centro de massa. Por isso é que a equação anterior constitui uma condição necessária de equilíbrio de um sistema de partículas, pois nem sempre quando é nula a resultante das forças exteriores o sistema estará em equilíbrio. É, então, necessário encontrar a equação suficiente de equilíbrio, recorrendo a outros conceitos e princípios de dinâmica do sistema de partículas. 159 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas O princípio de força de D’Alembert, na sua versão translação, pode ser expresso por: r n r r F = ∑ Fi = m ⋅ a (5.14) i =1 Daqui se conclui que a massa de uma partícula é a constante de proporcionalidade entre a resultante das forças exteriores aplicadas numa direcção e a correspondente aceleração vectorial linear nessa direcção: m= F a (5.15) Assim se compreende a definição alternativa de massa como sendo uma característica da inércia da translação dos corpos. Existe outra grandeza que caracteriza a inércia de rotação dos corpos. Como se sabe, a massa de um corpo e a posição do centro de massa não permitem, por si sós, descrever de maneira única a distribuição da massa do corpo. Figura 5.6 – Distribuição da massa de diferentes corpos. Como se verifica na figura 5.6, a localização do centro de massa é independente da localização e grandeza das massas parcelares, ou seja, é independente da distribuição das massas. É, por isso, necessário fazer intervir outro conceito que traduza a distribuição das massas do corpo. Este conceito tem em conta as características da rotação do sistema de partículas. Figura 5.7 – Características de rotação de um sistema de partículas. 160 Capítulo 5 Como se viu, a massa m é definida como a seguinte constante de proporcionalidade: n m= ∑F i i =1 a = F a (5.16) Se a massa se encontra em movimento de rotação, então verifica-se a seguinte relação para as componentes tangenciais: m= F Ft = ; com at = α ⋅ R a at (5.17) O momento, MF, da força F em relação ao eixo ∆ tem a grandeza da componente tangencial dessa força multiplicada pelo raio do círculo (dado que a componente normal não produz momento). Então, esse momento é igual a: M F = Ft ⋅ R ⇒ MF = Ft R (5.18) Considerando a expressão (5.17) e substituindo em (5.18) vem: m= MF R ⋅α ⋅ R ⇒ m= MF α ⋅ R2 ⇒ MF α = m ⋅ R2 = I∆ (5.19) Esta quantidade mecânica, identificada por I∆, é designada de momento de inércia de massa de uma partícula de massa m relativamente ao eixo ∆ e é dado pelo produto da massa pelo quadrado da distância da partícula a esse eixo. Considerando as definições de momento de inércia abordadas no capítulo 3 sobre geometria de massas, define-se: – Momento de inércia de massa de sistemas de partículas discretos n I ∆ = ∑ mi ⋅ d i2 i =1 1 ou di ( rri × ur∆ = rri ⋅ ur∆ ⋅ senθ i = rri ⋅ senθ i ) n r r I ∆ = ∑ mi ⋅ ri × u ∆ (5.20) 2 i =1 Figura 5.8 – Momento de inércia de massa de um sistema discreto. 161 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas – Momento de inércia de massa de sistemas de partículas contínuo I ∆ = ∫ d 2 dm M ou I∆ = r r ∫ r ×u (5.20) 2 ∆ dm M Figura 5.9 – Momento de inércia de massa de um sistema contínuo. 5.5 RAIO DE GIRAÇÃO O raio de giração, rG, representa uma distância fictícia (relativamente a um ponto, a um eixo ou a um plano) onde se poderia supor concentrada a massa total de um sistema de partículas, sem alterar o seu momento de inércia de massa (relativamente ao ponto, ao eixo ou ao plano). Figura 5.10 – Raio de giração. Para um sistema de partículas contínuo tem-se: I ∆ = ∫ r dm = M ⋅ (rG ) 2 2 ∆ ⇒ (rG ) ∆ = ∫r 2 dm (5.21) M M M Enquanto que para um sistema de partículas discreto se tem: n n I ∆ = ∑ mi ⋅ d i2 = M ⋅ (rG ) 2∆ ⇒ i =1 (rG ) ∆ = ∑m i =1 i M ⋅ d i2 (5.22) ou seja, (rG ) ∆ = 162 I∆ M (5.23) Capítulo 5 Note-se que esta distância rG caracteriza não um único ponto, mas uma infinidade de pontos, situados sobre a superfície cilíndrica de eixo de revolução coincidente com o eixo ∆. Ou seja, existe simetria de revolução axial, esférica ou plana, em relação à caracterização do raio de giração, consoante o momento de inércia a que se refere seja relativamente a um ponto, eixo ou plano. Nota: O raio de giração é o análogo mecânico do desvio padrão estatístico. 5.6 TEOREMA DOS EIXOS PARALELOS. TEOREMA DE STEINER Como se viu no capítulo 3, uma vez conhecido o momento de inércia em relação a um eixo ∆, é possível obter rapidamente o momento de inércia relativamente a qualquer eixo ∆' paralelo ao anterior e que se situe à distância d, considerando o teorema dos eixos paralelos: Figura 5.11 – Teorema dos eixos paralelos. sendo I ∆ = ∫ l 2 dm e I ∆ ' = ∫ l '2 dm = ∫ (l + d ) 2 dm (5.24) I ∆ ' = ∫ l 2 dm + ∫ d 2 dm + 2 ⋅ d ⋅ ∫ l dm (5.25) I ∆' = I ∆ + M ⋅ d 2 + 2 ⋅ d ⋅ S∆ (5.26) M então M M ou seja, M M M Quando o eixo ∆ é baricêntrico (∆≡∆G), o teorema dos eixos paralelos assume a versão do teorema de Steiner (S∆=0): I ∆' = I ∆ + M ⋅ d 2 (5.27) 163 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas 5.7 QUANTIDADE DE MOVIMENTO DE UM SISTEMA DE PARTÍCULAS A quantidade de movimento de um sistema de partículas corresponde à soma vectorial (ou integral, se o sistema for contínuo) das quantidades de movimento das partículas constituintes, ou das massas elementares em movimento. Para sistemas de partículas discretos tem-se: n n r r r P (t ) = ∑ pi (t ) = ∑ mi ⋅ vi (t ) i =1 (5.28) i =1 Enquanto que para um sistema de partículas contínuo se tem: r r r P (t ) = ∫ dp = ∫ v (t ) dm P (5.29) M Considerando a definição para sistemas de partículas discretos (o que vem a seguir também é válido para sistemas de partículas contínuos), então: r n n r dri (t ) d n r r = ∑ mi ⋅ ri (t ) P (t ) = ∑ mi ⋅ vi (t ) = ∑ mi ⋅ dt dt i =1 i =1 i =1 (5.30) Tendo em conta a definição de centro de massa, n r rG (t ) = ∑m i =1 i r ⋅ ri (t ) M (5.31) Substituindo na expressão (5.30) vem: r r r drG (t ) r d r r d n P (t ) = ∑ mi ⋅ ri (t ) = [rG (t ) ⋅ M ] ⇒ P (t ) = M ⋅ = M ⋅ vG (t ) (5.32) dt i =1 dt dt ou seja, n r r r P (t ) = ∑ mi ⋅ vi (t ) = M ⋅ vG (t ) (5.33) i =1 Esta expressão mostra que a quantidade de movimento de um sistema de partículas é a mesma que teria uma partícula única de massa igual à massa total, 164 Capítulo 5 localizada no centro de massa, e movendo-se com uma velocidade igual à do centro de massa. Fica assim justificado que para o estudo da dinâmica de translação de sistemas de partículas rígidos quaisquer, poder-se-á substituir a dinâmica do todo, pela dinâmica do seu centro de massa, no qual se supõe concentrada a massa total. 5.8 TEOREMA DA QUANTIDADE DE MOVIMENTO DE UM SISTEMA DE PARTÍCULAS. PRINCÍPIO DA CONSERVAÇÃO DA QUANTIDADE DE MOVIMENTO Derivando a quantidade de movimento em ordem ao tempo vem: r r dvi (t ) n r n r dP (t ) d n = ∑ mi ⋅ vi (t ) = ∑ mi ⋅ = ∑ mi ⋅ ai (t ) dt dt i =1 dt i =1 i =1 (5.34) como, n r n r r F (t ) = ∑ Fi = ∑ mi ⋅ ai (t ) i =1 (5.35) i =1 então, associando as expressões (5.34) e (5.35), vem: r dP (t ) r = F (t ) dt (5.36) Esta expressão está associada ao teorema da quantidade de movimento. Foi também r movimento P e relacionadas por relação: já visto, na expressão (5.33), que a quantidade de movimento de r a velocidade associada ao centro de massa vG se encontram r r P (t ) = M ⋅ vG (t ) . Assim, é possível também obter a seguinte r r dvG (t ) r r dP (t ) d = [M ⋅ vG (t )] = M ⋅ = M ⋅ aG (t ) dt dt dt (5.37) Tendo em conta a expressão (5.36) e substituindo em (5.37), vem: 165 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas r r F = M ⋅ aG (t ) (5.38) r sendo F a resultante das forças aplicadas ao sistema de partículas. Assim, de acordo com o teorema da quantidade de movimento, em qualquer instante, a derivada da quantidade de movimento total em ordem ao tempo é igual à resultante das forças exteriores actuantes nesse instante no sistema de partículas. Se a resultante das forças exteriores for nula, isto é, se o sistema for isolado, ou não actuado por forças exteriores, então: r r r r dP r F (t ) = 0 ⇒ = 0 ⇒ P = constante (5.39) dt Isto traduz o princípio da conservação da quantidade de movimento, segundo o qual, num sistema isolado, a quantidade de movimento total permanece constante. 5.9 CHOQUE 5.9.1 Definição de choque A colisão entre dois corpos que ocorre num intervalo de tempo muito curto, e durante o qual os corpos exercem entre si forças de interacção relativamente elevadas; é designado por choque. Estas forças de interacção são forças interiores ao sistema de partículas e, sendo elevadas, significa que a elas vão estar associados grandes gradientes temporais de velocidades (porque o intervalo de tempo de choque é pequeno) o que significa variações apreciáveis das velocidades instantâneas, antes e após o choque. As leis da mecânica newtoniana permitem deduzir propriedades das trajectórias e das velocidades após o choque, conhecendo as suas características antes do choque, sem ser necessário conhecer as enormes forças de interacção. A normal comum à superfície de contacto durante o choque designa-se linha de choque. Consoante as posições dos centros de massa dos dois corpos durante o choque, distingue-se os seguintes tipos de choques: 166 Capítulo 5 – Choque central: Os centros de massa dos corpos que colidem situam-se na linha de choque. Neste tipo de choque ainda se distinguem dois sub-tipos de choque: • Choque directo ou frontal – As velocidades dos centros de massa dos corpos que colidem têm a direcção da linha de choque. • Choque oblíquo – Pelo menos uma das velocidades dos centros de massa dos corpos que colidem não têm a direcção da linha de choque. – Choque excêntrico: Se algum dos corpos, ou ambos, têm um centro de massa que, antes ou após o choque, não pertence à linha de choque, então o choque é excêntrico. choque central directo choque central oblíquo choque excêntrico Figura 5.12 – Tipos de choque. Neste capítulo só irão ser analisados os choques centrais. 5.9.2 Princípios da conservação aplicados ao choque central No estudo do choque admite-se que os corpos antes e após o choque são rígidos e que o fenómeno de choque ocorre em dois períodos distintos: – um período inicial de compressão desde o instante de contacto inicial pontual até ao instante de contacto máximo; – um período final de restituição entre o instante de contacto máximo e o instante de contacto final (pontual). 167 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas Figura 5.13 – Fases de choque. O objectivo do estudo do choque é determinar as velocidades após o choque, conhecidas as velocidades antes do choque. Admite-se que o choque ocorre num plano horizontal no qual a energia potencial de posição é a mesma para todas as massas envolvidas. Admite-se ainda que, antes e após o choque, não são aplicadas aos corpos nenhumas forças exteriores (para além dos pesos verticais, os quais, como se sabe, não realizam trabalho no plano horizontal) nem mesmo eventuais atritos de contacto com as superfícies. Na ausência de forças exteriores, as velocidades antes e após o choque serão forçosamente constantes, isto é, o movimento antes e após o choque será rectilíneo e uniforme (ou seja, movimento teórico correspondente a aceleração nula porque as forças exteriores são nulas). Assim, o sistema “corpos em colisão” comporta-se antes e após o choque como um sistema isolado (isto é, sem forças exteriores aplicadas), relativamente ao qual são válidos os princípios da conservação da mecânica newtoniana, nomeadamente: – princípio da conservação da quantidade de movimento; – princípio da conservação da energia total (não apenas mecânica); – princípio da conservação do momento cinético (o qual deverá ser aplicado no caso do choque excêntrico, que não irá ser estudado). 168 Capítulo 5 Neste capítulo limita-se o estudo do choque à aplicação dos dois primeiros princípios: → o princípio da conservação da quantidade de movimento que corresponde a uma equação vectorial no plano de choque: r r n n ∑ mi ⋅ vi antes do choque = ∑ mi ⋅ v 'i depois do choque i =1 ou inicial i =1 ou final (5.40) → o princípio da conservação da energia total, que é um princípio escalar que traduz a conservação da energia total de todas as origens: Einicial = Efinal ⇒ ⇒ Ti + U i = T f + U f + Energias perdidas ou dissipadas (calor, atrito, etc.) (5.41) Como se pressupõe que o choque se dá sobre um plano horizontal, então U i = U f , logo: Ti = T f + ∆E (5.42) Consoante o valor da parcela de energia dissipada, ∆E, distingue-se: – Choque elástico (ex.: bolas de bilhar) – A parcela de energia dissipada, ∆E, é nula. Isto é, não há dissipação de energia, logo, a energia cinética inicial antes do choque é elasticamente restituída pelo fenómeno do choque na cinética final das massas que colidiram. – Choque inelástico ou dissipativo (ex.: colisão de automóveis) – A parcela de energia dissipada, ∆E, é não nula. No choque elástico, os corpos mantêm invariável o seu estado físico, enquanto que no choque inelástico há alteração do estado físico, isto é, há deformação. 5.9.3 Choque central directo ou frontal Considere-se as duas partículas A e B, com massas mA e mB, ilustradas na figura 5.14, que se deslocam na mesma linha recta e para a direita com velocidades r r v A e vB conhecidas. 169 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas Se a velocidade da partícula A for superior à velocidade da partícula B, a partícula A irá colidir com a partícula B. Sob o efeito do choque, as duas partículas deformar-se-ão e, no fim do período de deformação, elas r u. possuirão a mesma velocidade Seguidamente, tem lugar um período de restituição, no fim do qual, e dependendo da intensidade das forças de choque e dos materiais em jogo, as duas partículas recuperarão a sua forma original ou permanecerão deformadas. Figura 5.14 – Choque frontal. r r O objectivo é a determinação das velocidades v ' A e v ' B das partículas no fim do período de restituição. Como não existem forças exteriores, a quantidade de movimento total das duas partículas mantém-se constante, logo: r r r r m A ⋅ v A + mB ⋅ v B = m A ⋅ v ' A + mB ⋅ v ' B (5.43) Uma vez que as velocidades estão dirigidas segundo o mesmo eixo (linha de choque), pode-se substituir a equação acima, considerando apenas as componentes escalares: m A ⋅ v A + mB ⋅ v B = m A ⋅ v ' A + mB ⋅ v ' B (5.44) r r Para obter as velocidades v ' A e v ' B torna-se necessário estabelecer uma segunda relação entre as componentes escalares v' A e v' B . Com este propósito considere-se agora o princípio da conservação da energia total: Ti = T f + ∆E ⇒ 1 1 1 1 ⋅ m A ⋅ v A2 + ⋅ mB ⋅ v B2 = ⋅ m A ⋅ v'2A + ⋅ mB ⋅ v'2B + ∆E 2 2 2 2 m A ⋅ (v A2 − v'2A ) = mB ⋅ (v'2B −vB2 ) + 2 ⋅ ∆E ⇒ ⇒ m A ⋅ (v A − v' A ) ⋅ (v A + v' A ) = mB ⋅ (v' B −v B ) ⋅ (v' B + vB ) + 2 ⋅ ∆E 170 (5.45) Capítulo 5 Aplicando nesta expressão o princípio da conservação da quantidade de movimento, m A ⋅ (v A − v' A ) = mB ⋅ (v' B −vB ) , vem: v A + v' A = v' B + vB + 2 ⋅ ∆E α ; α = m A ⋅ (v A − v' A ) = mB ⋅ (v' B −v B ) 2 ⋅ ∆E v ' B −v ' A =1− =e α ⋅ (v A − vB ) v A − vB ⇒ v' B −v' A = e ⋅ (v A − vB ) (5.46) Nesta expressão e designa o coeficiente de restituição. Uma vez que v' B −v' A representa a velocidade relativa das duas partículas depois do choque, e (v A − vB ) representa a velocidade relativa das duas partículas antes do choque. A expressão anterior significa que: “a velocidade relativa das duas partículas depois do choque pode obter-se pela multiplicação da velocidade relativa antes do choque pelo coeficiente de restituição”. Assim, a velocidade das duas partículas depois do choque pode obter-se pela resolução das equações (5.44) e (5.46). Como se pode verificar, o coeficiente de restituição, e, toma um valor qualquer entre [0, 1]. Existem três casos conceptualmente distintos de choque frontal correspondentes aos seguintes valores do coeficiente de restituição: → e=1 → choque elástico → e=0 → choque plástico → 0 < e < 1 → choque inelástico Existem dois casos particulares de choque frontal com interesse especial: 1. e = 0, choque frontal plástico r r Quando e = 0, resulta que v ' B = v ' A , isto é, significa que as massas, após o choque, se deformam e seguem juntas, com uma velocidade determinada pela equação: m A ⋅ v A + mB ⋅ v B = (m A + mB ) ⋅ v' ; v' = v' A = v' B (5.47) 171 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas 2. e = 1, choque frontal elástico Quando e = 1, resulta que: v ' B −v ' A = v A − v B ⇒ v A + v' A = v B + v' B (5.48) isto significa que as velocidades relativas antes e depois do choque são iguais, ou seja, a velocidade de aproximação é igual à velocidade de afastamento entre as duas massas. Considerando o princípio da conservação da quantidade de movimento: m A ⋅ (v A − v ' A ) = m B ⋅ (v ' B − v B ) (5.49) e tendo em conta a expressão (5.48), vem: m A ⋅ (v A − v ' A ) ⋅ (v A + v ' A ) = m B ⋅ ( v ' B − v B ) ⋅ ( v ' B + v B ) ⇒ m A ⋅ v A2 − m A ⋅ v'2A = mB ⋅ v'2B −mB ⋅ v B2 ⇒ ⇒ ⇒ (dividindo por 2) 1 1 1 1 ⋅ m A ⋅ v A2 + ⋅ mB ⋅ v B2 = ⋅ m A ⋅ v'2A + ⋅ mB ⋅ v'2B 2 2 2 2 (5.50) Que traduz a conservação da energia cinética total das partículas. 5.9.4 Choque central oblíquo Considere-se duas partículas que colidem e cujas velocidades não estão dirigidas segundo a linha de choque. Está-se, por isso, na presença de choque oblíquo. Considera-se ainda que são conhecidas as velocidades, vA e vB, antes do choque e as respectivas inclinações αA e αB em relação à linha de choque. Desconhecem-se as velocidades, v'A e v'B, tanto em direcção, α'A e α'B, como em grandeza, após o choque. Figura 5.15 – Choque central oblíquo. 172 Capítulo 5 Assim, o problema associado ao estudo do choque central oblíquo consiste em determinar v'A, v'B, α'A e α'B, uma vez conhecidos vA, vB, αA e αB. Tem-se assim quatro incógnitas, sendo, por isso, necessário estabelecer quatro equações independentes para determinar essas incógnitas. No entanto, os princípios de conservação (da quantidade de movimento e da energia total) só permitem estabelecer as seguintes três equações (considerando os eixos coordenados segundo n e t): – Aplicação do princípio de conservação da quantidade de movimento r r r r m A ⋅ v A + mB ⋅ v B = m A ⋅ v ' A + mB ⋅ v ' B ⇒ r r na direcção n → m A v A cos α A − mB v B cos α B = −m A v ' A cos α ' A + mB v ' B cos α ' B r r na direcção t → m A v Asenα A + mB vB senα B = m A v ' A senα ' A + mB v ' B senα ' B (5.51) – Aplicação do princípio de conservação da energia total TA + TB = T ' A +T ' B + ∆E ⇒ ⇒ m A ⋅ v A2 + m B ⋅ v B2 = m A ⋅ v ' 2A + m B ⋅ v ' 2B + 2 ⋅ ∆ E (5.52) Portanto, as três equações são: r r m A ⋅ v A ⋅ cos α A − mB ⋅ vB ⋅ cos α B = −m A ⋅ v ' A ⋅ cos α ' A + mB ⋅ v ' B ⋅ cos α ' B r r (5.53) m A ⋅ v A ⋅ senα A + mB ⋅ vB ⋅ senα B = m A ⋅ v ' A ⋅senα ' A + mB ⋅ v ' B ⋅senα 'B m ⋅ v 2 + m ⋅ v 2 = m ⋅ v'2 + m ⋅ v'2 +2 ⋅ ∆E B B A A B B A A Verifica-se assim que o sistema é indeterminado, sendo resolúvel em casos particulares mediante a introdução ou conhecimento de algumas características adicionais. 173 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas 1º caso) As superfícies de contacto são perfeitamente lisas e sem atrito Figura 5.16 – Choque oblíquo com superfícies de contacto lisas e sem atrito. Na hipótese da superfície de contacto ser perfeitamente lisa e sem atrito, verifica-se que as forças de interacção entre as partículas são dirigidas ao longo da direcção normal à superfície de contacto (isto é, à linha de choque), ou seja, segundo o eixo n. Conclui-se então que: 1. As forças de interacção não têm componente segundo t, logo não há gradientes temporais da velocidade segundo este eixo, isto é, as componentes de velocidade segundo a direcção t não se alteram, ou seja: (v A ) t = (v' A ) t v A ⋅ senα A = v' A ⋅senα ' A ⇒ (v B ) t = (v' B ) t vB ⋅ senα B = v' B ⋅senα ' B (5.54) 2. Ao longo do eixo n, a componente da quantidade de movimento total das duas partículas mantêm-se constantes (princípio da conservação da quantidade de movimento): r r m A v A cos α A − mB v B cos α B = −m A v ' A cos α ' A + mB v ' B cos α ' B (5.55) 3. Pelo princípio da conservação da energia total vem que: (v' B ) n − (v' A ) n = e ⋅ [(v A ) n − (v B ) n ] (5.56) As expressões (5.54), (5.55) e (5.56) constituem as quatro equações resolventes deste choque oblíquo. 174 Capítulo 5 2º caso) Choque oblíquo de corpos de massas iguais Considerando que as duas partículas têm um choque oblíquo e que têm massas iguais a m, então as três equações resultantes dos princípios de conservação vêm: n n ⋅ = m v mi ⋅ (v'i ) n ( ) ∑ i i n ∑ i =1 i =1 n n ⋅ = m v ( ) ∑ i i t ∑ mi ⋅ (v'i ) t i =1 i =1 T = T + ∆E f i ⇒ r r v A ⋅ cos α A − v B ⋅ cos α B = −v ' A ⋅ cos α ' A +v ' B ⋅ cos α ' B r r ⇒ v A ⋅ senα A + v B ⋅ senα B = v ' A ⋅senα ' A +v ' B ⋅senα ' B v' −v' = e ⋅ (v − v ) A B B A (5.57) Quadrando e somando os dois membros das duas primeiras equações vem: (v A ⋅ cos α A − vB ⋅ cos α B ) 2 + (v A ⋅ senα A + vB ⋅ senα B ) 2 = r r r r = (−v ' A ⋅ cos α ' A + v ' B ⋅ cos α ' B ) 2 + (v ' A ⋅senα ' A + v ' B ⋅senα ' B ) 2 ⇒ v A2 ⋅ (sen 2α A + cos 2 α A ) + v B2 ⋅ (sen 2α B + cos 2 α B ) + + 2 ⋅ v A ⋅ vB ⋅ (senα A ⋅ senα B − cos α A ⋅ cos α B ) = v'2A ⋅(sen 2α ' A + cos 2 α ' A ) + v'2B ⋅(sen 2α ' B + cos 2 α ' B ) + + 2 ⋅ v' A ⋅v' B ⋅(senα ' A ⋅senα ' B − cos α ' A ⋅ cos α ' B ) ⇒ ⇒ v A2 + v B2 + 2 ⋅ v A ⋅ v B ⋅ cos(α A + α B ) = v' 2A + v' 2B +2 ⋅ v' A ⋅v' B ⋅ cos(α ' A +α ' B ) (5.58) Tendo em conta que a terceira equação resolvente pode ser escrita como: v A2 + vB2 = v'2A +v'2B + 2 ⋅ ∆E m (5.59) 175 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas Comparando com a equação anterior vem: 2 ⋅ v A ⋅ v B ⋅ cos(α A + α B ) − 2 ⋅ v' A ⋅v' B ⋅ cos(α ' A +α ' B ) = 2 ⋅ ∆E m (5.60) Esta equação forma, conjuntamente com as três equações resolventes anteriores, um sistema determinável para as quatro incógnitas pretendidas. Note-se que esta condição adicional é de origem trigonométrica. Exemplos de aplicação Exemplo 1 176 Capítulo 5 Exemplo 2 Exemplo 3 177 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas 178 Capítulo 5 5.10 SISTEMAS MATERIAIS DE MASSA VARIÁVEL Nos sistemas de partículas até agora estudados tem-se admitido que a massa total do sistema permanece invariável no tempo. Existem, contudo, numerosas aplicações da mecânica newtoniana (não relativista) de sistemas de partículas de massas variáveis no tempo. É o caso do estudo da dinâmica de comboios com entrada e saída de passageiros, propulsão de foguetões, veículos, etc.. Assim, nesta secção serão analisados sistemas de partículas que, durante o seu movimento, ganham massa pela absorção contínua de partículas ou perdem massa pela expulsão contínua das mesmas. Em qualquer dos casos, sistemas com ganho ou perda de massa, aplicar-se-á o teorema da quantidade de movimento na sua versão de teorema do impulso, segundo o qual o impulso total de todas as forças exteriores aplicadas ao sistema de partículas num certo intervalo de tempo, é igual à variação da quantidade de movimento do sistema de partículas nesse intervalo de tempo. 5.10.1 Sistemas materiais com absorção de massa Considere-se o sistema mostrado na figura 5.17. A sua massa, igual a m no instante t, aumenta ∆m no intervalo de tempo ∆t. A velocidade do sistema no instante t r representa-se por v , a velocidade desse r r sistema no instante t+∆t por v + ∆v e a r velocidade das partículas absorvidas por vabs . De modo a ser possível aplicar-se o princípio do impulso e da quantidade de movimento ao sistema em estudo, deve considerar-se no instante t o sistema inicial mais as partículas de massa ∆m, que são absorvidas pelo sistema durante o intervalo de tempo ∆t. Figura 5.17 – Sistema com absorção de massa. A quantidade de movimento no instante t é: r r r p (t ) = m ⋅ v (t ) + ∆m ⋅ vabs (t ) (5.61) 179 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas enquanto que no instante t+∆t é: ( r r r p (t + ∆t ) = (m + ∆m) ⋅ v (t ) + ∆v [t ,t + ∆t ] ) (5.62) Aplicando o teorema do impulso entre os instantes t e t+∆t, vem: n t + ∆t r r r r I [t ,t + ∆t ] = ∑ ∫ Fi (t ) dt = p (t + ∆t ) − p (t ) i =1 (5.63) t para valores de ∆t pequenos, tem-se: r r F ( t ) dt ≅ F i i (t ) ⋅ ∆t ∫ t + ∆t (5.64) t substituindo na equação (5.63) vem: n r r r ∑ F (t ) ⋅ ∆t = p(t + ∆t ) − p(t ) (5.65) r r r p (t + ∆t ) = (m + ∆m) ⋅ (v + ∆v ) (5.66) r r r p (t ) = m ⋅ v + ∆m ⋅ vabs (5.67) i =1 i como, substituindo as expressões (5.66) e (5.67) em (5.65) fica: n r r r r r ∑ F ⋅ ∆t = (m + ∆m) ⋅ (v + ∆v ) − (m ⋅ v + ∆m ⋅ v i =1 ⇒ i abs ) ⇒ r r r r r r r F ∑ i ⋅ ∆t = m ⋅ v + m ⋅ ∆v + ∆m ⋅ v + ∆m ⋅ ∆v − m ⋅ v − ∆m ⋅ vabs n ⇒ i =1 ⇒ n r r r r ∑ F ⋅ ∆t = m ⋅ ∆v + ∆m ⋅ (v − v i =1 i abs r ) + ∆m ⋅ ∆v (5.68) Introduzindo a velocidade relativa das partículas que são absorvidas: r r r vr = vabs − v (5.69) r e desprezando o último termo da equação (5.68), ∆m ⋅ ∆v , que é de segunda ordem, vem: 180 Capítulo 5 r n r r ∑ F ⋅ ∆t = m ⋅ ∆v − ∆m ⋅ v i i =1 (5.70) r Dividindo por ∆t e, depois, fazendo ∆t tender para zero, tem-se no limite: r r ∆v ∆m r Fi = lim m ⋅ − ⋅ vr ∑ ∆t →0 ∆t ∆t i =1 n ⇒ r r dv dm r Fi = m ⋅ − ⋅ vr ∑ dt dt i =1 n ⇒ n r ∑F + i =1 i ⇒ ⇒ r dm r ⋅ vr = m ⋅ a dt (5.71) Esta expressão mostra que o efeito da absorção de massa é equivalente à actuação r de uma força igual a dm dt ⋅ vr com sentido contrário ao do movimento. Ou seja, a força devida à absorção de massa tende a reduzir a velocidade do sistema. Uma vez que: r r vabs < v ⇒ r r r vr = vabs − v (5.72) então a velocidade relativa das partículas a absorver tem sentido contrário à r velocidade do sistema. Por isso, a força adicional dm dt ⋅ vr conduz à redução da velocidade do sistema. 5.10.2 Sistemas materiais com perda de massa As equações obtidas no ponto anterior podem também utilizar-se para determinar o movimento de um sistema com perda massa. Neste caso, o caudal mássico e a acção, sobre o sistema das partículas que são expelidas são equivalentes à força de “propulsão” com sentido do movimento, oposto àquele em que as partículas são expelidas. Um foguete representa um caso típico de um sistema que perde continuamente massa. Assim, neste caso tem-se, respectivamente, as seguintes quantidades de movimento nos instantes t e t+∆t: r r p (t ) = ( m + ∆m) ⋅ v (5.73) r r r r p (t + ∆t ) = m ⋅ (v + ∆v ) + ∆m ⋅ vabs (5.74) 181 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas substituindo as expressões (5.73) e (5.74) em (5.65) fica: n r r r r r r ∑ F ⋅ ∆t = p(t + ∆t ) − p(t ) = m ⋅ (v + ∆v ) + ∆m ⋅ v i =1 i ⇒ n r r r r ∑ F ⋅ ∆t = m ⋅ v + m ⋅ ∆v + ∆m ⋅ v i =1 i r n abs r i i =1 r − (m + ∆m) ⋅ v r r − m ⋅ v − ∆m ⋅ v r ∑ F ⋅ ∆t = m ⋅ ∆v + ∆m ⋅ (v ⇒ abs abs r − v) ⇒ ⇒ (5.75) Considerando a definição de velocidade relativa das partículas que são expulsas, ver expressão (5.69), e dividindo por ∆t, fazendo depois ∆t tender para zero, tem-se no limite: r r ∆v ∆m r Fi = lim m ⋅ + ⋅ vr ∑ ∆t →0 ∆t ∆t i =1 n r r dv dm r Fi = m ⋅ + ⋅ vr ∑ dt dt i =1 n ⇒ ⇒ n r ∑F − i =1 i r dm r ⋅ vr = m ⋅ a dt ⇒ ⇒ (5.76) A expressão (5.76) mostra que o efeito da perda de massa é equivalente à r actuação de uma força igual a dm dt ⋅ vr com o mesmo sentido do movimento. Exemplo de aplicação 182 Capítulo 5 183 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas 5.11 MOMENTO CINÉTICO DE UM SISTEMA DE PARTÍCULAS MATERIAIS 5.11.1 Definição O momento cinético de um sistema de partículas materiais em qualquer ponto fixo do espaço é a soma vectorial dos momentos cinéticos nesse ponto de todas as partículas ou massas elementares do sistema nesse instante. Considerando o ponto fixo identificado por O, tem-se: – para sistemas discretos: n n n r r r r r r H O (t ) = ∑ H O ,i (t ) = ∑ ri × pi = ∑ mi ⋅ ri × vi i =1 i =1 (5.77) i =1 – para sistemas contínuos: r r r r r H O (t ) = ∫ r × dp = ∫ r × v dm r P (5.78) M 5.11.2 Teorema da composição do momento cinético Considere-se um referencial absoluto em relação ao qual se estuda a dinâmica de um sistema de partículas discreto, e um referencial baricêntrico Gx'y'z' em translação em relação ao referencial absoluto. r O vector posição ri pode ser expresso pela seguinte soma vectorial: Figura 5.18 – Composição do momento cinético. r r r ri (t ) = rG (t ) + r 'i (t ) (5.79) r r em que, rG é o vector posição do centro de massa e r 'i é o vector posição da partícula i em relação ao referencial baricêntrico Gx'y'z'. r Derivando o vector posição ri em ordem ao tempo: 184 Capítulo 5 r r r dri drG dr 'i = + dt dt dt r r r vi = vG + v 'i ⇒ (5.80) onde, r drG r vG = dt → é a velocidade do centro de massa em relação ao referencial absoluto newtoniano. Como o sistema de partículas é rígido, é igual à velocidade de qualquer dos seus pontos se o sistema apenas possuísse movimento de translação. r dr 'i r é a velocidade da partícula i em relação a um referencial → v 'i = dt baricêntrico. A expressão (5.80) caracteriza instantaneamente o teorema da composição das velocidades, já referido na cinemática de sistemas de partículas, segundo o qual em r qualquer instante a velocidade vi de qualquer partícula i de um sistema de partículas em movimento é a soma vectorial instantânea das suas velocidades r vectoriais e instantâneas de transporte (traduzida por vG ) e relativa (traduzida por r v 'i ). Retomando a definição do momento cinético: n r r r H O (t ) = ∑ mi ⋅ ri × vi (5.81) i =1 ele pode ser escrito, atendendo às (5.79) e (5.80), por: n r r r r r H O (t ) = ∑ mi ⋅ (rG + r 'i ) × (vG + v 'i ) ⇒ i =1 ⇒ n n n n r r r r r r r r r H O (t ) = ∑ mi ⋅ rG × vG + ∑ mi ⋅ r 'i ×vG + ∑ mi ⋅ rG × v 'i + ∑ mi ⋅ r 'i ×v 'i i =1 i =1 i =1 (1) (1) – n (3) (4) n r r r r r r ⋅ r × v = ( r × v ) ⋅ mi = M ⋅ rG × vG ∑ i G G G G ∑m i =1 (2) (5.82) i =1 i =1 (2) – O centro de massa em relação a um referencial baricêntrico tem coordenadas nulas e é traduzido por: 185 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas n r rG = n ∑m logo i i =1 ∑m i =1 i M r ⋅ r 'i r =0 ⇒ n r r ⋅ r ' = 0 i i ∑m i =1 r r r r r ⋅ r 'i × vG = 0 × vG = 0 , ou seja, o segundo termo da soma é nulo. r n dr 'i r r r r r n mi ⋅ rG × v 'i = rG × ∑ mi ⋅ v 'i = rG × ∑ mi ⋅ ∑ dt i =1 i =1 i =1 (3) – ⇒ r n n n r r r dr ' r r d como se viu, ∑ mi ⋅ r 'i = 0 ⇒ ∑ mi ⋅ r 'i = 0 ⇒ ∑ mi ⋅ i = 0 dt i=1 dt i =1 i =1 n ⇒ n i =1 (4) – n ∑m i =1 r r r ⋅ r i G × v 'i = 0 , portanto também o terceiro termo da soma é nulo. ∑m i r r r ⋅ r 'i ×v 'i = H G , ou seja, corresponde ao momento cinético em relação ao centro de massa. Portanto, o momento cinético em relação ao ponto O pode ser obtido a partir do momento cinético em relação ao centro de massa, pela seguinte expressão: r r r r r r H O (t ) = H G (t ) + H O ,G (t ) = H G (t ) + M ⋅ rG (t ) × vG (t ) (5.83) Esta expressão traduz o teorema da composição do momento cinético, segundo o qual, em qualquer instante o momento cinético de um sistema de partículas num ponto fixo qualquer O é igual à soma vectorial do momento cinético do sistema em r relação ao centro de massa, H G , com o momento cinético em relação ao ponto fixo de uma partícula de massa igual à massa total M do sistema, localizada no centro de massa e movendo-se com uma velocidade igual à velocidade do centro de massa. 5.11.3 Teorema do momento cinético Considerando o sistema de partículas definido no ponto anterior e a definição do momento cinético, n r r r H O (t ) = ∑ mi ⋅ ri × vi i =1 186 (5.84) Capítulo 5 derivando em ordem ao tempo vem: r r r n d r r dH O d n = ∑ mi ⋅ ri × vi = ∑ (ri × pi ) = dt dt i =1 i =1 dt r r d ri r r dpi = ∑ × pi + r × dt i =1 dt (5.85) n (1) (2) r r (1) – os vectores dri dt e pi são colineares, por isso, o seu produto vectorial é nulo; r r (2) – de acordo com a segunda lei de Newton, Fi = dpi dt então: r n r r dH O = ∑ ri × Fi dt i =1 (5.86) Esta expressão traduz o teorema do momento cinético, segundo o qual, em qualquer instante a derivada do momento cinético de um sistema de partículas em relação a qualquer ponto fixo O é igual à soma vectorial dos momentos, nesse ponto, de todas as forças exteriores aplicadas ao sistema nesse instante, ou seja, é igual ao momento no ponto fixo do torsor das forças exteriores aplicadas ao sistema de partículas nesse instante. 5.11.4 Princípio da conservação do momento cinético Num sistema isolado, isto é, se não houverem forças exteriores aplicadas, então a derivada do momento cinético em qualquer ponto e em qualquer instante é nula. r n r r r r r dH O Se Fi = 0 ⇒ = ∑ ri × 0 = 0 ⇒ dt i =1 r r Se Fi = 0 ⇒ r H O = constante (5.87) 187 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas Isto traduz o princípio da conservação do momento cinético, segundo o qual, num sistema isolado (não actuado por forças exteriores) o momento cinético do sistema calculado em qualquer ponto do espaço permanece constante no tempo. A esta invariabilidade temporal do momento cinético em sistemas isolados poderá estar associado um valor constante diferente de zero. A estas duas hipóteses correspondem duas situações distintas de movimento de um sistema de partículas, conforme se verá a seguir. 5.12 CONDIÇÕES GERAIS DE EQUILÍBRIO DE UM SISTEMA DE PARTÍCULAS Nos sub-capítulos anteriores viu-se que se for nula a resultante das forças exteriores aplicadas a um sistema de partículas, o seu movimento será tal que o centro de massa estará em equilíbrio. Como se viu, pelo teorema do centro de massa tem-se: n r r r F (t ) = ∑ Fi = M ⋅ aG (5.88) i =1 r r r r Se F = 0 ⇒ aG = 0 , então: – o centro de massa está em repouso; ou, – o centro de massa tem um movimento rectilíneo e uniforme. Tal como foi referido anteriormente, a equação n r ∑F i =1 i r r = M ⋅ aG = 0 (5.89) representa apenas uma condição necessária de equilíbrio de um sistema de partículas, pois que do anulamento das forças exteriores (ou da sua resultante) apenas fica assegurado o equilíbrio do ponto fictício centro de massa. 188 Capítulo 5 Note-se que o centro de massa, G, poderá estar em equilíbrio sem que o sistema de partículas esteja em equilíbrio, pois ele poderá ter ainda movimento de rotação em torno de qualquer eixo que passa pelo centro de massa. Por definição de equilíbrio, é condição necessária e suficiente para que um sistema de partículas materiais esteja em equilíbrio, que todas as partes constituintes (ou seja, todas as partículas) estejam em equilíbrio. Portanto, a condição necessária e suficiente de equilíbrio implica que todas as partículas estejam em repouso ou em movimento rectilíneo e uniforme. Portanto, um sistema está em equilíbrio nas seguintes duas situações: 1ª) Todas as partículas estão em repouso: – condição necessária de equilíbrio: ∀i r r r r vi = 0 ⇒ ai = 0 ⇒ n r r r ∑F = F = M ⋅a i =1 i G r =0 (5.90) – condição suficiente de equilíbrio: ∀i n n r r r r r r r r vi = 0 ⇒ H O (t ) = ∑ mi ⋅ ri × vi = ∑ mi ⋅ ri × 0 = 0 ⇒ i =1 i =1 (5.91) r dH O (t ) n r r r ⇒ = ∑ ri × Fi = 0 dt i =1 2ª) Todas as partículas estão em movimento rectilíneo e uniforme: – condição necessária de equilíbrio: ∀i r r r r vi = 0 ⇒ ai = 0 ⇒ n r r r ∑F = F = M ⋅a i =1 i G r =0 (5.92) – condição suficiente de equilíbrio: ∀i r n r r r r r dH O (t ) r =0 vi = 0 ⇒ H O (t ) = ∑ mi ⋅ ri × vi = constante ⇒ dt i =1 (5.93) 189 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas Em resumo: r r r → F = M ⋅ aG = 0 – r dH O (t ) n r r r = ∑ ri × Fi = 0 – → dt i =1 representa a condição necessária de equilíbrio e significa ausência de translação do centro de massa, isto é, o centro de massa está em equilíbrio. representa a condição suficiente de equilíbrio e significa ausência de rotação do sistema de partículas materiais em torno de qualquer ponto O. 5.13 ENERGIA CINÉTICA DE UM SISTEMA DE PARTÍCULAS A energia cinética T de um sistema de partículas define-se como a soma das energias cinéticas das várias partículas do sistema: 1 n T = ⋅ ∑ mi ⋅ vi2 2 i =1 (5.94) Figura 5.19 – Energia cinética de um sistema de partículas. Para o cálculo da energia cinética de um sistema compreendendo um vasto número de partículas (como é o caso de um corpo rígido) torna-se, muitas vezes, conveniente considerar o movimento do centro de massa, G, do sistema separadamente do movimento relativo ao sistema de referência (baricêntrico) ligado a G. r Conforme se viu na secção 5.11.2, a velocidade vi da partícula Pi relativamente a um referencial newtoniano Oxyz, pode ser obtido pela soma r vectorial da velocidade de translação vG do centro de massa do sistema e da r velocidade v 'i relativamente ao referencial baricêntrico Gx'y'z': r r r vi = vG + v 'i r r Atendendo a que vi2 = vi ⋅ vi , então: 190 (5.95) Capítulo 5 r r 1 n T = ⋅ ∑ mi ⋅ (vi ⋅ vi ) 2 i =1 ⇒ T= ⇒ T= ⇒ r r r r 1 n ⋅ ∑ mi ⋅ (vG + v 'i ) ⋅ (vG + v 'i ) ⇒ 2 i=1 r r 1 n r 1 n 1 n ⋅ ∑ mi ⋅ vG2 + ⋅ ∑ mi ⋅ 2 ⋅ vG ⋅ v 'i + ⋅ ∑ mi ⋅ v 'i2 2 i =1 2 i =1 2 i =1 (5.96) Como, r r r n r 1 n ⋅ ∑ mi ⋅ 2 ⋅ vG ⋅ v 'i = vG ⋅ ∑ mi ⋅ v 'i 2 i =1 i =1 (5.97) mas, n r ∑ m ⋅ v' i =1 i i r = M ⋅ v 'G2 (5.98) r em que v 'G é a velocidade de G relativamente ao referencial baricêntrico Gx'y'z', que é nula (a velocidade relativa de G em relação ao referencial que se move com r velocidade vG é nula). Logo, n r r n r r r ⋅ v ' = v ⋅ m ⋅ v ' = v ∑ G i G i i G ⋅0 = 0 r ∑m ⋅v i =1 i (5.99) i =1 então a energia cinética, definida na expressão (5.96), vem: n r 1 1 n T = ⋅ vG2 ⋅ ∑ mi + ⋅ ∑ mi ⋅ v 'i2 2 2 i =1 i =1 ⇒ ⇒ r 1 1 n 2 T = ⋅ M ⋅ vG + ⋅ ∑ mi ⋅ v 'i2 2 2 i =1 (5.100) Esta equação mostra que a energia cinética T de um sistema de partículas pode obter-se adicionando a energia cinética do centro de massa G (supondo que toda a massa está concentrada em G) com a energia cinética do sistema durante o seu movimento em relação ao referencial baricêntrico Gx'y'z'. 191 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas 5.13.1 Energia cinética de um sistema de partículas contínuo A equação (5.100) traduz a energia cinética de um sistema de partículas. No entanto, para sistemas contínuos, a energia cinética é traduzida por uma expressão alternativa que resulta da interpretação da r velocidade relativa v 'i . Tratando-se de um sistema em que as partículas estão rigidamente ligadas entre si, a velocidade relativa da partícula Pi pode ser obtida pelo seguinte produto vectorial: Figura 5.20 – Energia cinética de um sistema contínuo. r r dr 'i r r v 'i = = ω × r 'i dt (5.101) r em que r 'i é o vector posição em relação ao referencial baricêntrico, com grandeza constante, porque o sistema é rígido. Logo, atendendo à equivalência entre os v operadores matemático d dt e mecânico ω × , quando aplicados a um vector variável no tempo mas de grandeza constante, a igualdade definida em (5.101) é válida. Desta forma, a energia cinética do sistema pode ser obtida considerando a segunda parcela da soma definida na expressão (5.100) como sendo a energia cinética devida ao movimento em relação ao referencial baricêntrico, definida por: r r r r r 1 n 1 n ⋅ ∑ mi ⋅ v 'i2 = ⋅ ∑ mi ⋅ (ω × r 'i ) ⋅ (ω × r 'i ) = 2 i =1 2 i =1 r r r r 1 n = ⋅ ∑ mi ⋅ (ω ⋅ u × r 'i ) ⋅ (ω ⋅ u × r 'i ) = 2 i =1 = r r r r 1 n ⋅ ∑ mi ⋅ ω 2 ⋅ (u × r 'i ) ⋅ (u × r 'i ) 2 i =1 r r r r 2 (u × r 'i ) 2 = u × r 'i = d G2 i = 192 1 n ⋅ ∑ mi ⋅ d G2 ⋅ ω 2 2 i =1 i (5.102) Capítulo 5 como o momento de inércia de massa em relação ao eixo baricêntrico ∆G é dado por: n I ∆ = ∑ mi ⋅ d G2 G i =1 (5.103) i substituindo na expressão (5.102) vem: r 1 n 1 ⋅ ∑ mi ⋅ v 'i2 = ⋅ I ∆ ⋅ ω 2 2 i =1 2 G (5.104) Portanto, a energia cinética de um sistema de partículas rigidamente ligadas entre si pode ser definida como: T (t ) = 1 1 ⋅ M ⋅ vG2 (t ) + ⋅ I ∆ ⋅ ω 2 (t ) 2 2 G (5.105) em que, 1 ⋅ M ⋅ vG2 (t ) → 2 corresponde à energia cinética de translação do sistema de partículas, isto é, identifica-se com a energia cinética do seu centro de massa. 1 ⋅ I ∆ ⋅ ω 2 (t ) → corresponde à energia cinética de rotação do sistema de 2 partículas em relação a um eixo baricêntrico ∆G relativamente ao qual o sistema roda instantaneamente com velocidade angular ω(t). G 5.14 TEOREMA DAS FORÇAS VIVAS OU TEOREMA DA VARIAÇÃO DA ENERGIA CINÉTICA DE UM SISTEMA DE PARTÍCULAS No capítulo 4, dinâmica das partículas, viu-se que, de acordo com o teorema r das forças vivas, o trabalho realizado pela força Fi , aplicada à massa mi, para deslocar do ponto A para o ponto B, é igual à variação da energia cinética da partícula: B r (W ) = ∫ F ⋅ drr = (T ) − (T ) B A i i B i A i (5.106) A 193 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas Num sistema de partículas materiais, este princípio pode aplicar-se a cada partícula Pi do sistema, em que (WAB )i representa o trabalho realizado pelas forças r r internas f ji e pela resultante das forças externas Fi que actuam sobre Pi. Adicionando as energias cinéticas das várias partículas do sistema e considerando o trabalho de todas as forças envolvidas, pode aplicar-se a equação (5.106) a todo o sistema: (W ) B A sistema ⇒ n n B r n r n = ∑ (WAB )i = ∑ ∫ Fi ⋅ dr = ∑ (TB )i − ∑ (TA )i (W ) i =1 B A ext . i =1 A i =1 + (WAB )int . = ∑ (TB )i − ∑ (TA )i = TB − TA ⇒ (W ) n n i =1 i =1 B A ext . ⇒ i =1 + (WAB )int . = TB − TA ⇒ (5.107) em que, (W ) – trabalho realizado pelas forças exteriores; (W ) – trabalho realizado pelas forças interiores. B A ext . B A int Na mecânica dos corpos rígidos (sólidos indeformáveis), as partículas não se r r deslocam entre si, logo as forças interiores, f ji e f ij , não realizam trabalho, portanto, o trabalho realizado pelas forças interiores, (WAB )int , é nulo: B Corpos indeformáveis: (WA )ext . = TB − TA Exemplo de aplicação 194 (5.108) Capítulo 5 195 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas 5.15 MOVIMENTO DE ROTAÇÃO DE UM CORPO RÍGIDO EM TORNO DE UM EIXO FIXO Quando um corpo rígido é obrigado a rodar em torno de um ponto fixo O, é preferível escrever uma equação que envolva os momentos, em relação a O, das forças aplicadas, uma vez que esta equação não conterá a reacção desconhecida existente em O. Recorde-se que, de acordo com o teorema do momento cinético (ver 5.11.3), o momento no ponto fixo O do torsor das forças exteriores aplicadas ao sistema num dado instante é igual à derivada temporal do momento cinético: r r r dH O (t ) n r = ∑ ri (t ) × Fi (t ) = M O (t ) (5.109) dt i =1 r onde M O (t ) é o momento axial no ponto O devido ao torsor resultante das forças exteriores aplicadas. Neste sub-capítulo serão definidas as equações de equilíbrio de um corpo rígido com movimento de rotação em torno de um eixo fixo, tendo em conta o conceito de momento axial de um torsor e a determinação da sua energia cinética. 5.15.1 Movimento de rotação em torno de um eixo fixo qualquer Considere-se um corpo indeformável efectuando um movimento de rotação em torno de um eixo ∆ que passa pelo ponto O. Sendo ∆ o eixo de rotação, então qualquer ponto que se encontre sobre esse eixo terá velocidade nula: r r vO = 0 ; ∀O ∈ ∆ (5.110) Figura 5.21 – Rotação em torno de um eixo qualquer. A velocidade em qualquer ponto do corpo fora do eixo de rotação pode ser obtida em função da velocidade angular dada por: 196 Capítulo 5 r r r vi (t ) = ω (t ) × ri (t ) ; r ri (t ) = Pi (t ) − O (5.111) r O momento cinético, H O , em relação ao ponto fixo O será: n r n r r r H O (t ) = ∑ H O ,i (t ) = ∑ mi ⋅ ri (t ) × vi (t ) i =1 ⇒ n r r r r H O = ∑ mi ⋅ ri × (ω × ri ) ⇒ r r (ω = ω ⋅ u∆ ) i =1 ⇒ ⇒ i =1 n r r r r H O = ω ⋅ ∑ mi ⋅ ri × (u∆ × ri ) (5.112) i =1 r Projectando o vector momento cinético H O na direcção do eixo de rotação vem: n r r r r r r H ∆ = H O ⋅ u ∆ = ω ⋅ ∑ mi ⋅ ri × (u∆ × ri ) ⋅ u ∆ i =1 r r r A r r r r r r ( A × B ⋅ C = C × A ⋅ B) → B C n r r r r H ∆ = ω ⋅ ∑ mi ⋅ u ∆ × ri ⋅ (u∆ × ri ) ⇒ i =1 ⇒ n r r 2 H ∆ = ω ⋅ ∑ mi ⋅ (u∆ × ri ) (5.113) i =1 como, r r r r u∆ × ri = u∆ ⋅ ri ⋅ senα i = 1 ⋅ ri ⋅ senα i = d i (5.114) em que di é a distância da partícula Pi ao eixo ∆. Figura 5.22 – Distância da partícula Pi ao eixo ∆. então, (ur∆ × rri )2 = d i2 (5.115) logo, substituindo em (5.113) vem: n H ∆ = ω ⋅ ∑ mi ⋅ d i2 (5.116) i =1 tendo em conta que o momento de inércia de massa em relação ao eixo ∆ é: 197 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas n I ∆ = ∑ mi ⋅ d i2 (5.117) i =1 então a componente do momento cinético em relação ao ponto O segundo o eixo ∆ é dada por: H∆ = ω ⋅ I∆ (5.118) De acordo com o teorema do momento cinético, o momento axial do torsor em torno do eixo ∆ é igual à derivada temporal do momento cinético em relação a ∆: dH ∆ d dω d 2θ = (ω ⋅ I ∆ ) = I ∆ ⋅ = I∆ ⋅ 2 M∆ = dt dt dt dt ⇒ ⇒ M ∆ = I∆ ⋅α (5.119) Esta é a equação governativa do movimento de rotação dum corpo rígido em torno de um eixo qualquer ∆, que traduz o princípio fundamental da dinâmica escalar da rotação de um corpo rígido. O correspondente princípio fundamental da dinâmica em termos vectoriais da rotação de um corpo rígido é: v r r r d 2θ r M ∆ = M ∆ ⋅ u∆ = I ∆ ⋅ 2 ⋅ u∆ = I ∆ ⋅ α ⋅ u∆ = I ∆ ⋅ α dt (5.120) Existe uma analogia entre o princípio fundamental da dinâmica vectorial de rotação de um sistema de partículas e o princípio fundamental da dinâmica vectorial de translação, o qual é expresso, como se sabe, pela segunda lei de Newton através de: r r r d 2r F = m⋅a = m⋅ 2 dt (5.121) (Daqui se constata que I∆ é uma medida da inércia de rotação). Se o movimento de rotação se der em torno de um eixo qualquer não baricêntrico, então a velocidade do centro de massa será: r r r vG (t ) = ω (t ) × rG (t ) 198 (5.122) Capítulo 5 e uma aceleração dada por: r r r r r dvG (t ) dω (t ) r drG (t ) aG (t ) = = × rG (t ) + ω (t ) × dt dt dt ⇒ ⇒ r r r r r aG (t ) = α (t ) × rG (t ) + ω (t ) × vG (t ) (5.123) Isto significa que o centro de massa está em movimento acelerado. E, de acordo, com o teorema do centro de massa, a equação de equilíbrio dinâmico de translação é dada por: n r r r F (t ) = ∑ Fi (t ) = M ⋅ aG (t ) (5.124) i =1 r sendo aG (t ) a aceleração associada ao centro de massa, que é obtida pela expressão (5.123). Assim, as equações de equilíbrio dinâmico de um corpo rígido em movimento de rotação em torno de um eixo qualquer não baricêntrico são: n r r r - equilíbrio de translação: F (t ) = ∑ Fi (t ) = M ⋅ aG (t ) i =1 - equilíbrio de rotação: v r M ∆ (t ) = I ∆ ⋅ α (t ) 5.15.2 Movimento de rotação em torno de um eixo baricêntrico Utilizando um raciocínio idêntico ao anterior e considerando que o eixo de rotação passa pelo centro de massa, ∆G, encontrar-se-ia sucessivamente: r r H ∆ (t ) = ω (t ) ⋅ I ∆ G (5.125) G r r dH ∆ (t ) r d 2θ (t ) = I∆ ⋅ = I ∆ ⋅ α (t ) M ∆ (t ) = 2 dt dt G G G G (5.126) Neste caso, a velocidade do centro de massa é nula (porque o eixo de rotação é baricêntrico) e, por consequência, a aceleração do centro de massa é nula: r r r r r r aG (t ) = α (t ) × rG (t ) +rω (t ) × vG (rt ) = 0 (5.127) colineares, logo = 0 =0 199 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas Logo, a resultante das forças exteriores é nula porque: r r r n r r F = ∑ Fi = M ⋅ aG = M ⋅ 0 = 0 (5.128) i =1 Todavia, existe um binário resultante expresso por: r r d 2θ (t ) M ∆ (t ) = I ∆ ⋅ = I ∆ ⋅ α (t ) 2 dt G G (5.129) G Assim, as equações de equilíbrio dinâmico de um corpo rígido em movimento de rotação em torno de um eixo qualquer baricêntrico são: n r r r - equilíbrio de translação: F (t ) = ∑ Fi (t ) = 0 i =1 - equilíbrio de rotação: v r M ∆ (t ) = I ∆ ⋅ α (t ) G G 5.15.3 Energia cinética do movimento de rotação Conforme se viu em 5.13, a energia cinética de um sistema de partículas, ou em particular de um corpo rígido, é decomposta na soma da parcela do movimento de translação do seu centro de massa e da parcela do movimento das restantes partículas relativamente ao centro de massa: r 1 1 n 1 1 2 T = ⋅ M ⋅ vG + ⋅ ∑ mi ⋅ v 'i2 = ⋅ M ⋅ vG2 + ⋅ I ∆ ⋅ ω 2 2 2 i =1 2 2 G (5.130) Esta expressão evidencia que a dinâmica global do sistema é analisada de modo equivalente pela dinâmica de um sistema com características baricêntricas (vG, I∆G). Portanto, mesmo que o sistema tenha um movimento global não baricêntrico, a sua energia cinética é calculada como a soma das duas referidas parcelas expressas em características baricêntricas. Mas, se o corpo tiver uma rotação não baricêntrica em torno de um eixo ∆, a velocidade do seu centro de r massa vG será expresso por: Figura 5.23 – Rotação não baricêntrica. 200 Capítulo 5 r r r vG (t ) = ω (t ) × rG (t ) (5.131) r r em que ω (t ) é o vector rotação instantâneo do corpo em torno do eixo ∆ e rG (t ) é o vector posição instantâneo do centro de massa relativamente a qualquer ponto O localizado no eixo de rotação. Assim, r r r r r r r r vG2 = (ω × rG ) ⋅ (ω × rG ) = ω 2 ⋅ (u∆ × rG ) ⋅ (u ∆ × rG ) = ω 2 ⋅ d G2 (5.132) em que dG é a distância do baricentro G ao eixo ∆ ou, alternativamente, a distância dos eixos paralelos ∆ e ∆G. Portanto, atendendo às expressões (5.130) e (5.132), para qualquer movimento geral de rotação não baricêntrica, a energia cinética é dada por: 1 1 T = ⋅ M ⋅ ω 2 ⋅ d G2 + ⋅ I ∆ ⋅ ω 2 2 2 G ⇒ ⇒ 1 T = ⋅ (M ⋅ d G2 + I ∆ )⋅ ω 2 2 G (5.133) Pelo Teorema de Steiner, sabe-se que o momento de inércia de massa I∆ em relação ao eixo de rotação ∆ é obtido a partir do momento de inércia de massa I∆G em relação ao eixo baricêntrico ∆G, paralelo ao eixo ∆, pela seguinte relação: I ∆ = I ∆ + M ⋅ d G2 G (5.134) substituindo na expressão (5.133) vem: 1 T = ⋅ I ∆ ⋅ω 2 2 (5.135) Portanto, para rotações não baricêntricas, a energia cinética do corpo é dada por: T (t ) = 1 1 1 ⋅ M ⋅ vG2 (t ) + ⋅ I ∆ ⋅ ω 2 (t ) = ⋅ I ∆ ⋅ ω 2 (t ) 2 2 2 G (5.136) 201 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas 5.16 EXTENSÃO DO PRINCÍPIO DE D'ALEMBERT AO MOVIMENTO DE UM CORPO RÍGIDO No estudo da dinâmica da partícula, visto no capítulo anterior, verificou-se que o Princípio de D'Alembert recorria a uma força fictícia (designada de força de inércia) para estabelecer o equilíbrio dinâmico da partícula em movimento como se tratasse de um equilíbrio estático: r n ∑F k k =1 r r r r + Finércia = 0 ; ( Finércia = − m ⋅ a ) (5.137) Um sistema de partículas materiais tem, geralmente, para além de movimentos de translação, movimentos de rotação. Deste modo, existe, como se viu, um princípio fundamental da dinâmica para a translação do corpo e um princípio fundamental da dinâmica para a rotação do corpo. De igual modo, existirá o princípio de D'Alembert para formular o equilíbrio dinâmico instantâneo associado à translação e o princípio de D'Alembert para formular o equilíbrio dinâmico instantâneo associado à rotação: – Princípio de D'Alembert – versão translação n r r r F = ∑ i ∑ mi ⋅ ai = M ⋅ aG n i =1 ⇒ ⇒ i =1 r r r F F 0 + = ∑ i inércia n ; i =1 r r ( Finércia = − M ⋅ aG ) (5.138) – Princípio de D'Alembert – versão rotação n r r r r M ∆ = ∑ ri × Fi = I ∆ ⋅ α ⇒ i =1 ⇒ r r r M ∆ + M inércia = 0 ; r r ( M inércia = − I ∆ ⋅ α ) (5.139) Assim, segundo este princípio, em qualquer instante é nulo o momento das forças sobre um corpo em movimento, calculado em qualquer ponto P do espaço, quando nessa soma de momentos está incluído o momento das forças de inércia. 202 Capítulo 5 5.17 CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O TEOREMA DO IMPULSO Viu-se anteriormente que o teorema do impulso pode ser caracterizado de duas formas diferentes: 1ª forma) O impulso exercido pelas forças aplicadas a um sistema de partículas durante um intervalo de tempo [t1, t2] é igual à diferença entre as quantidades de movimento nos instantes t2 e t1: t r r r r I [t ,t ] = ∫ F (t ) dt = p (t 2 ) − p (t1 ) 2 1 2 (5.140) t1 2ª forma) Quando um sistema se encontra sob a acção de forças durante um certo intervalo de tempo [t1, t2], a quantidade de movimento final, r p (t 2 ) , do sistema pode obter-se pela soma vectorial da sua r quantidade de movimento inicial, p (t1 ) , com o impulso exercido pelas forças aplicadas durante o intervalo de tempo considerado. t r r r p (t 2 ) = p (t1 ) + ∫ F (t ) dt 2 (5.141) t1 Uma terceira forma corresponde a uma extensão da segunda, aplicável a sistemas de partículas e que permite caracterizar instantaneamente as características do movimento de rotação do sistema de partículas: t r r r m p [ p (t2 )] = m p p (t1 ) + ∫ F (t ) dt t 2 (5.142) 1 em que mp[...] representa o momento das forças indicadas entre parêntesis recto em relação à origem do sistema de eixos de referência. Como o momento da quantidade de movimento corresponde ao momento r r cinético, H P (t ) = m p [ p (t )] , então: ( r r r H p (t 2 ) = H p (t1 ) + m p I [t ,t 1 2 ] ) (5.143) que traduz o princípio da conservação da quantidade de movimento – versão rotação. 203 Dinâmica (cinética) de um sistema de partículas A expressão anterior poderia também ser definida através da consideração da r r r definição de momento ( mP ( x ) = r × x ): t r r r p (t 2 ) = p (t1 ) + ∫ F (t ) dt 2 se (5.144) t1 t r r r r r r × p (t 2 ) = r × p (t1 ) + ∫ F (t ) dt t 2 então ⇒ 1 ⇒ r r r r r r r × p (t 2 ) = r × p (t1 ) + r × I [t ,t 1 2 ] (5.145) Esta expressão é equivalente à expressão (5.143). Habitualmente, o ponto P é escolhido de modo a anular os momentos das forças impulsivas sobre o sistema de partículas (frequentemente desconhecidos). Figura 5.24 – Rotação em torno do ponto P. 204