O PODER DA VOZ NO ROCK
Rodrigo Dias Grecco
Souza Lima Ensino de Música
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1. Introdução
O rock é um estilo musical surgido no início dos anos 1950, sempre associado à
juventude e à rebeldia, cuja base é oriunda do blues e do country.
Foi desenvolvido musicalmente ao longo das décadas, com a inserção de novos
elementos e instrumentos musicais, recebendo influência de outros gêneros. Provocou,
participou e promoveu grandes mudanças comportamentais e sociais desde a sua existência. E
sobreviveu. O canto no rock, com sua força de expressão e colocação, foi – e ainda é – de
extrema importância no comportamento do jovem de todas as gerações.
A proposta deste artigo é relacionar como aconteceram as modificações dos modelos
vocais a cada período e mostrar o poder de influência do rock, desde a sua fundação, na
maneira de se expressar a cada década. Sobretudo no início, quando a primeira geração de
rock’n rollers mudou os parâmetros do comportamento do jovem; a segunda geração, que
atravessou o oceano e trouxe a invasão britânica, capitaneadas por The Rolling Stones e The
Beatles – dois dos maiores fenômenos da cultura mundial; o movimento flower power, que
ajudou a parar uma guerra; os conflitos da geração seguinte, os punks, com suas ideias
anárquicas e o “faça você mesmo”, até a música pacifista da década seguinte, em 1980. Por
meio deste texto, faça uma pequena viagem ao mundo do rock, sabendo como a forma de se
expressar e cantar ajudou a modificar o mundo e comportamento do jovem de cada período.
2. O início de tudo
2.1 Anos 1950
Com suas bases musicais calcadas no blues e country-western, dois gêneros
marginalizados pela maior parte da sociedade americana por terem sido criados e
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desenvolvidos nas áreas mais pobres da população. Como esse novo estilo, o rock’n’roll
modificou o esquema das grandes gravadoras, que foram obrigadas a buscar novos talentos
adaptados ao estilo em gravadoras menores e regionais. Transformou, por essa qualidade, os
padrões do cenário social dessa época, vindo ao encontro do gosto do jovem daquela época.
Fats Domino, aos 21 anos, escreveu a canção-base do rock’n’roll, The Fat Man
(1949), mas foi com Bill Haley, um artista branco e de cabelos louros, que conseguiu o
primeiro sucesso nas paradas Américas com a sua Rock Around the Clock (1954). Nesse
mesmo ano, descoberto em uma pequena gravadora, a Sun Records, surgiu Elvis Aaron
Presley, que em 1955 foi contratado pela “major” RCA Victor.
Elvis foi a simbiose perfeita desses elementos da música branca e negra. Um dos
fatores que fez com que ele se tornasse um grande cantor do gênero foi a sua voz rouca e
sensual do negro, com sua grande extensão, potência, timbre e força interpretativa. Além de
todos os atributos vocais, possuía a imagem e os trejeitos no palco, que modificaram
diretamente a forma de atuar artisticamente no estilo, transformando-o no Rei do Rock. Elvis
abriu caminho para os rock’n’rollers negros, como Chucky Berry e Little Richard, que já
vinham incorporados ao estilo pulsante e acelerado, mas ainda não haviam ganhado a grande
massa. Existiam também os rock’n’rollers brancos, como Carl Perkins e Jerry Lee Lewis.
Segundo Elvis, uma música que foi desafiadora para ele gravar foi Jailhouse Rock,
escrita por Jerry Leiber e Mike Stoller e lançada em 24 de setembro de 1957, como single em
45 rpm. O Rei do Rock, nessa música, apresentou um som de voz mais “crunchy”, na posição
elevada de laringe, que traz uma característica de rispidez e é uma das formas mais difundidas
de cantar o gênero em sua fase inicial, também com leve assento de ressonância nasal, que
contribui para essa áurea de liberdade e rebeldia na interpretação do texto.
Elvis acertou em cheio em sua interpretação vocal e, com isso, levou para aquela
geração da América do Norte e, depois, para o resto do mundo, a sensação de libertação dos
padrões anteriores, que eram mais fechados e moralistas. Os temas, em geral, falavam de
rebeldia, carros e garotas, e foram ao encontro do jovem da época, que se identificou
prontamente com essa forma de pensar e agir.
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2.2 Estilo vocal nos anos 1950
O estilo de cantar rock’n’roll nos anos 1950 tinha, em sua grande maioria, traços e
maneirismos influenciados pelo blues e country, como mencionado anteriormente. Ou seja,
combinava a força de expressão do blues e o estilo mais rápido do country.
a) Fraseado: O fraseado base, que originou as melodias das canções, é gerado
pelas escalas pentatônicas1 nos seus modos maiores e menores, e muitas vezes com a
inserção da “blue note”, que é uma nota a mais dentro da escala pentatônica menor, entre
seu quarto e quinto grau, muito utilizada em vários estilos da música negra.
Muitos fraseados e melodias, pela associação ao ritmo pulsante e rápido,
muitas vezes exigia uma dicção clara, domínio da respiração e seus respectivos tempos de
respiro.
b) Tonalidades: As primeiras músicas de rock’n’roll foram feitas e gravadas em
diversos tons. Mas os mais comuns eram em tom de Lá, Sib, Si, Dó, Réb, Ré, Mib, Mi e
Fá.
c) Tessitura Vocal2: A tessitura vocal média da época variava entre o Lá 2 do
piano (região grave e dentro do registro de barítono) até o Mi 4 do piano (região inicial dos
agudos no registro de tenor). Óbvia e claramente podemos observar exceções, como
Johnny Cash, com seus profundos graves basais de peito no registro de baixo, e Little
Richard, com agudos na voz de peito no registro de tenor, e cabeça com expressão mais
“clean” ou “drive3” em “screaming4” nas regiões de vozes femininas, que influenciou
muitas maneiras de se cantar o estilo nas gerações seguintes.
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Pentatônicas são escalas geradas por cinco notas, surgidas no oriente em regiões mongólicas e japonesas.
Difundidas amplamente nos estilos fundamentais americanos, o blues e o country, teve total influência no
desenvolvimento do estilo rock’n’roll. Suas formas mais comuns como mencionado acima, são a maior e menor,
muito características em vários estilos populares, mas existem também variações como a dominante e a
diminuta, muito utilizadas no jazz. A escala de Blues, vulgarmente é conhecida como “penta blues”, apesar de
ter 6 notas, nada mais é que uma uma pentatônica acrescida de mais um grau, o 4º aum, o que a deixa com som
bem característico do estilo Blues e seus derivados, nesse caso o rock.
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Tessitura Vocal é o conjunto de notas com naturalidade emitidas pelo cantor entre seus registros vocais.
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Drive” é a maneira de “sujar” a voz, dando aspecto de rouquidão ao timbre, pode ser de forma artificial,
técnica, ou natural dependo do padrão e estrutura vocal do cantor.
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“Screaming” é forma técnica de cantar gritado, mais comumente utilizado nas regiões dos registros de cabeça.
Forma muito utilizada no hard rock e no heavy metal.
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2.3 Técnicas aplicadas
a) Respiração: Em sua base, deve ser utilizado o apoio diafragmático central, para a
sustentação da voz e o controle da pressão da emissão vocal no centro-médio da voz, em
menor proporção nos registros de voz mais basais e graves.
Nos registros agudos de peito, a impulsão e pressão devem ser maiores, assim como os
agudos no registro de cabeça, ou entre o peito e cabeça, gerando um registro de voz misto
com domínio das passagens entre eles; e principalmente nos ”screamings” e “drives”, que
devem ser associados ao apoio dos músculos intercostais e da cintura pélvica para dar mais
suporte e conforto à emissão nesse tipo de registro e altura.
b) Ressonância: Basicamente oral, na máscara, mas com muita ascensão a ressonância nasal,
que remete a interpretações e expressões vocais, à sensação de liberdade, à transgressão e à
rebeldia.
c) Ornamentações, Expressões e Interpretação: Alguns vibratos de semitom, mais
especificamente nas baladas como Love me Tender, de Elvis Presley, são mais presentes.
Os sons mais “crunchy” e “drive” são mais presentes e dão o caráter de rebeldia, indo de
encontro ao estilo das músicas que falavam de carros, relacionamentos amorosos e festas.
Essa forma de cantar e interpretar os temas influenciou diretamente o jovem que estava se
começando a encontrar um caminho diferente na sociedade do pós-guerra. Nos anos 1950,
o rock’n’roll deu a voz inicial de uma nova juventude.
3. A década da revolução
3.1 Anos 1960
No final da década de 1950, surgiu o movimento “beat”, termo de várias conotações
que sugeriam a busca de uma “purificação do espírito”, com influência de religiões orientais,
mas também se referia a um estilo de vida aventureiro. A poesia beat foi de grande
importância para o rock dos anos 1960, influenciando músicos como Bob Dylan, John
Lennon, Jim Morrison e Joan Baez, críticos ao estilo de vida americano: drogas, bebedeiras,
sexo livre, visões cósmicas, utopias e o cotidiano. Era o princípio de uma cultura alternativa.
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A canção de Bob Dylan, Blowin´in the Wind (1963), se tornou uma espécie de hino
dos movimentos antirracistas. Dylan modificou seu estilo, o “folk acústico” partir de sua
apresentação no Festival de Newport em 1965, acompanhado já de guitarra elétrica e isso
influenciou novos artistas como os ingleses The Beatles, e diretamente os que tinham origem
no “folk”: The Band; Buffalo Springfield; The Byrds; Crosby, Stills, Nash and Young; Simon
and Garfunkel; Creedence Clearwater Revival.
3.2 O rock atravessa o Atlântico
Enquanto acontecia o processo de politização da juventude universitária norteamericana e a ascensão da música de protesto, o rock’n’roll ressurgiu com grande ímpeto na
Inglaterra e desde então, tornou-se um dos principais polos da cultura jovem mundial.
Com base no “skiflle”, uma espécie de imitação do blues norte-americano, o rock
inglês adquiriu uma sólida base de blues, através dos pioneiros Alex Kormer e John Mayall.
O rock chegou no mercado britânico no início da década de 60 já misturado com o
rhythm and blues, country, rockabilly, calipso e a música negra da Motown, recebendo uma
nova roupagem dos britânicos dada a fusão feita com o skiflle.
Surgiram centenas de grupos em Londres e Liverpool e dois deles, já no início da
década, alcançaram sucesso internacional sem precedentes, modificando profundamente não
só a música mundial, mas todo o estilo de vida da juventude: The Beatles e The Rolling
Stones. Essas bandas foram duas forças motrizes, capazes de dar início a toda convulsão
cultural dos anos 1960.
The Beatles foi um verdadeiro laboratório de pesquisas e influências que misturava
todo e qualquer gênero musical ao rock, que, associados a temas existenciais nas mensagens
de suas letras, formaram uma visão filosófica daquele cotidiano.
The Rolling Stones eram menos sutis e mais intensos. Com um balanço e batida
musical bem mais próximas das tonalidades negras, enraizadas no blues e nos temas de cunho
mais violento.
Viu-se surgir duas vertentes na juventude inglesa daquela época: os mods (origem do
The Who), que eram jovens aspirantes a classe média, com seus terninhos e colarinhos
redondos, cabelos compridos à Beatles primeira fase, e havia os rockers, vivendo quase á
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margem da sociedade, esses jovens formavam bandos de motoqueiros, com suas jaquetas de
couro pretas.
Diferentemente do que ocorreu nos EUA, e sua inconsequente juventude transviada,
o rock britânico começava a demonstrar uma consciência mais crítica em relação à sua
geração, misturando humor negro, característica inglesa, e uma dose de “inocência”, sem
deixar de ser jovem, como demonstra a força e explosão de Roger Daltrey, vocalista do The
Who, em My Generation (1965).
Agora, o antigo rock’n’roll passava a ser apenas rock, fundamento dos movimentos
jovens da segunda metade da década.
Diversificado em várias tendências, mas com muito blues eletrificado, vários grupos
começaram a ganhar importância nesse novo cenário: The Animals, The Yardbyrds, The
Kinks, The Who, Traffic, Cream e outros.
A explosão do rock inglês despertou e influenciou o rock norte-americano, que
parecia cair no ostracismo no início dos anos 60.
Esse despertar ficou acentuado a partir de 1964, quando os Beatles fizeram sua
primeira excursão americana, abrindo o mercado para outros grupos e músicos britânicos, e
incentivando a formação de novos músicos e grupos americanos: The Jefferson Airplane, The
Mammas and The Pappas, Canned Heat, Greatful Dead, The Velver Underground, Frank
Zappa and The Mothers of Invention, The Doors, citando alguns deles.
Cada um desses grupos partiu em busca de novos caminhos musicais se tornando
canais de expressão para os movimentos jovens dos anos 1960, período conturbado,
efervescente e transformador, época de movimentos antirracistas, Guerra Fria entre EUA e
URSS, avanços tecnológicos nas comunicações e corrida espacial.
Surge aí a “contracultura”, movimento que levou boa parte dos jovens a
abandonarem padrões estabelecidos pela sociedade, para construir um mundo alternativo e
com uma “cultura” própria, sob um ponto de vista hedonista, baseado no desejo elementar da
felicidade individual, fora dos padrões de regras impostas pelo sistema e a ordem vigente. Era
chegada a “Era de Aquarius”.
É dentro desse contexto que se insere a grande utopia dos hippies e a construção de
um mundo de “paz e amor” em paraísos próprios, assim entendidos os agrupamentos de
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jovens sob esses ideais, formando comunidades, culminando na descoberta do misticismo, a
psicodelia das drogas lisérgicas, alterando e alternando os estados de consciência. São
Francisco, situada na costa oeste americana, foi o epicentro dessas comunidades.
Esse foi um grande movimento, que questionou a cultura ocidental em seus padrões
políticos e morais, criando uma espécie de guerrilha cultural dentro do próprio sistema
americano, e que, espontaneamente, conquistou muitos adeptos que queriam ver no poder a
utopia do “flower power”. Foi isso que fez o jovem americano questionar sua ida à Guerra do
Vietnã e qual a necessidade de tudo isso. Em resumo: o rock ajudou a parar a guerra.
O marco inicial desses anos de contracultura é o Monterrey Pop Festival, ocorrido
entre 16 e 18 de junho de 1967, evento que abriu a época dos grandes festivais (Woodstock,
Altamont e Isle of Wight). Foi lá que se apresentou, após estrondoso sucesso na Inglaterra,
Jimi Hendrix, que foi quem concretizou a fusão do blues com o rock’n’roll. Utilizando-se de
muito instinto musical, balanço e swing, oriundos de sua origem ancestral, e técnica apurada,
desbravou novos caminhos para o rock.
Nesse cenário, Woodstock representa um capítulo à parte. Realizado em agosto de
1969, durante três dias, apresentaram-se muitas bandas e artistas que perduram no meio
musical até os dias de hoje, vivos e mortos: Jimi Hendrix, Creedence Clearwater Revival, Joe
Cocker, Carlos Santana, Mountain. “Para a contracultura, Woodstock foi uma espécie de
cerimônia sagrada (de quinhentas mil pessoas), que anunciava a “Era de Aquarius” (Brandão,
Duarte, 1990, p.57).
Parecia a estreia de uma nova sociedade: a paz, o amor e o rock, sempre. Mas o
sistema, observando a assimilação do jovem a esse movimento, não ficou pra trás e, através
de suas atuantes e eficientes indústrias fonográfica e cinematográfica, associado à criação de
um mercado em torno da onda hippie, transformou o conceito em produto.
Outro nome icônico desse período foi Janis Joplin, que conseguiu trazer com sua voz
a fusão da música negra com a branca. Janis nasceu no Texas, mas foi radicada em São
Francisco, cidade que, como em Liverpool, proliferaram novos grupos e tendências no rock.
O chamado “acid rock”, que teve base na Califórnia, procurava reproduzir as
sensações emocionais da experiência psicodélica com as drogas por meio da criação de
espaços musicais mais amplos e abstratos, com a inserção de estranhas sonoridades, climas e
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sugestões nas músicas. Os grupos que mais ganharam fama com essa experimentação foram:
Jefferson Airplane, The Doors, de Jim Morrison, e Greatful Dead, capitaneado pelo guru
psicodélico da cena musical americana, Jerry Garcia.
O disco Sgt. Peppers (1967), dos Beatles, foi considerado um divisor de águas não
apenas na carreira da banda, mas na história do rock. Nesse disco, os garotos de Liverpool
fundiram a psicodelia surgida na América com variados estilos musicais, que iam do jazz à
música indiana, passando por banda de fanfarra e cordas orquestrais, unindo aos acordes da
tradicional guitarra os sons de música concreta de vanguarda, pré-fabricada em estúdio. Foi a
abertura das portas para o novo rock inglês, que surgiria com o expoente Pink Floyd e todas
suas camadas e texturas ácidas, na fase inicial com Syd Barret, revelando um
experimentalismo instigante, transformando em uma grande geração de músicos que
formariam um novo movimento, o rock progressivo (fusão entre rock com música erudita)
dos anos 1970.
3.3 Os estilos vocais dos anos 1960
Com variados contextos políticos e sociais que efervesceram os anos 1960, a forma
de se expressar e maneira de cantar rock foram amplamente modificas em relação aos iniciais
anos 1950. Assim, a base inicial de blues permanece em boa parte do contexto musical.
3.4 Faixa 1
The Beatles: I Saw Her Standing There, do álbum Please Please me (1963)
O estilo de cantar de Paul Mc Cartney nessa faixa lembra um pouco o estilo
americano dos anos 1950, que o influenciou muito no início (especialmente Little Richard,
vide a versão dos Beatles de “Long Tall Sally”, muito próxima ao original), e aquele tema
típico de romance ingênuo de salão de baile. Era a transição. O rock tinha atravessado o
Oceano Atlântico e deixado toda a sua influência na Europa, com base na Inglaterra, que
pegou seu skiffle e o fundiu com o rock´n´roll, dando o sotaque britânico a essa nova geração.
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3.5 Análise musical e vocal
Como a pronúncia britânica do inglês por vezes soa mais fechada, o som da voz
apresenta um aspecto diferenciado à articulação, trazendo um som robusto e limpo na
emissão, com características frontais e orais de ressonância associados também a trecho com
ascensão nasal, sem constrição laríngea proporcionando um timbre vocal muito homogêneo.
Atuação de pressão maior diafragmática presente nas notas mais altas de peito, como no
trecho sublinhado da frase: “Whoah, we danced through the night”, que apresenta uma nota
Lá 4 do tenor. Ou quando trabalha com emissão firme no registro de cabeça, que nesse ponto,
chega ao E5 do piano, região feminina, no trecho sublinhado:” And I held her hand in
mine...”. Ou mais ainda com pressão de apoio diafragmático na saída da voz em “screaming”
antes do solo de guitarra amplamente, como já mencionado, pelo estilo de Little Richard, que
chega ao estratosférico G5 do piano, região de soprano. Sem contar a segunda voz de John
Lennon que caminha junto nos refrões e na parte “B” da música variando a melodia em
intervalos mais baixos que a principal, entre terças maiores e menores e quartas, fazendo uma
simbiose perfeita no vocal seja no bom gosto da colocação, ou no timbre, que lembra muito o
estilo de cantores de skiflle. A melodia feita na escala maior com leves acentuações na
pentatônica maior, na tonalidade Mi.
3.6 Faixa 2
Bob Dylan: Blowin´in the Wind, do álbum The Freewheelin´ Bob Dylan (1963)
O contexto aqui é mais literário e poético, para que o indivíduo que esteja ouvindo
preste atenção à mensagem, o que faz dispensar malabarismos ou texturas vocais que
colocariam o tema em segundo plano. Ou seja, voz ao nível da fala, que é uma característica
muito peculiar dessa fase do rock que tem influência direta da música folk, de cunho mais
acústico e politizado, dando ênfase às palavras. Era o desejo de mudança no comportamento
da sociedade. Os grandes nomes desse caminho folk rock influenciado pelo movimento
beatnik são: Bob Dylan, Joan Baez, James Taylor, Cat Stevens.
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3.7 Análise musical e vocal
Colocação básica, registro de peito, próxima da região de fala e sem muita alteração
na tessitura. A variação não chega a uma oitava, fica em torno de uma quinta do tom.
Acento forte no estilo country/folk de cantar, com ressonância trazida à região nasal e
acentuação rítmica com leves antecipações do tempo. Sem nenhum tipo de pressão glótica e
apoio diafragmático leve, devido á região da melodia que foi escrita em cima da escala maior
e pentatônica maior na tonalidade de Sol. Forma correta de se passar a mensagem, voz
peculiar, de timbre único, mas sem se sobrepor a mensagem.
3.8 Faixa 3
The Doors: The End, do álbum The Doors (1967)
Essa música pode ser considera a síntese de vários elementos que transformaram o
rock e a sociedade dessa época. A faixa tem longos 11 minutos, sombria, misteriosa,
totalmente fora dos padrões radiofônicos. O texto remete a um “épico edipiano de luxúria e
morte” (DYMERY, SUSANNA, 2008, p.116); onde Jim Morrison retrata a sua visão sobre o
drama de Édipo, relatando a rejeição do pai e o desejo pela mãe, isso claramente relacionados
aos seus traumas familiares e fortemente influenciado pelos conceitos de Friedrich Nietzsche,
filósofo alemão do século XIX. Jim também extravasa vários conceitos sobre o
individualismo e caos, seu contato com a poesia beat, faz alusões à Guerra do Vietnã (música
de forte influência popular durante o período da guerra) com metáforas complexas, sob a
influência da lisergia e do psicodelismo.
3.9 Análise musical e vocal
“The End” transita entre a música tonal e modal, sob a forte influência da música
oriental, ritmos tribais em alguns trechos, jazzísticos em outros, o que traz um clima cativante,
transcendental, lisérgico, criando uma cama perfeita para a narrativa de Jim Morrison.
No início dessa faixa, Jim conduz sua voz de barítono, influenciada por grandes
“crooners” americanos, de forma contundente, deixando o registro basal de peito tomar conta
da colocação vocal (pouca pressão diafragmática por conta da região, o que vai aumentando
de acordo com subida da melodia), deixando a ambiência sombria na interpretação, mas clara
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na emissão. A melodia da voz, feita na maior parte no registro médio da voz masculina,
circula em tom menor de Ré, com a escala menor do tom e por vezes trabalha o modo dórico
de Dó que acentua a 6M ao invés da 6m que caracteriza a escala menor do tom.
Ela volta para aquele clima inicial e termina num profundo e belo grave de barítono
na nota Ré 3 do piano, a nota mais aguda fica por conta de um Fá 4 do piano, nota
característica do s agudos de um barítono. Lembrando que Jim, mesmo tendo características
de timbre de barítono, em várias faixas trabalha agudos na região do tenor pela própria
influência melódica e contextual de suas canções, o que caracteriza uma tessitura extensa. A
partir do final dos anos 1960 e início dos anos 1970, os cantores de rock começaram a
desenvolver sua capacidade vocal elevando-a a níveis estratosféricos. A fusão nessa faixa
entre melodias trabalhadas, voz falada e texto profundo traz a ideia inicial do que viria a ser o
rock-teatro.
4. A difusão do rock
4.1 Anos 1970: a geração do virtuosismo e da revolta contra o sistema
Pode-se dizer que dois estilos marcaram a primeira metade dos anos 1970: o rock
progressivo (progressive rock) e o rock pesado (hard rock), sendo a Inglaterra o principal
berço desses dois novos movimentos.
O rock progressivo teve suas origens baseadas nas experimentações dos anos 1960,
principalmente relacionadas ao acid rock. O estilo foi um dos responsáveis pelas
experimentações de vanguarda (fusões com o jazz e a musica erudita) e pelo uso de novas
tecnologias, como os sintetizadores.
O inicio do movimento do “progressive rock” foi marcado pelo primeiro
experimentalismo de rock com orquestra e a forma “tema conceito”, que liga as musicas a um
único tema, no álbum Days of The Future Past (1967) da banda Moody Blues, gravado com
London Festival Orchestra. Mas foram grupos como Yes, Emerson Lake & Palmer, Pink
Floyd, Jethro Tull, King Crimson e Gentle Giant, entre outros, que deram a forma inicial ao
movimento.
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O outro estilo foi o “hard rock”, forjado na base da força e peso de suas guitarras
distorcidas e muita amplificação. Teve como inspiração, ainda no final da década de 1960, os
guitarristas Jymmy Page, Jeff Beck nos Yardbyrds e Eric Clapton com o Cream, sem deixar
de citar o grande caminho que abriu Jimi Hendrix com sua guitarra, que modificou o cenário
do blues e do rock, fazendo uma fusão pesada entre os dois.
Os grandes grupos desse gênero foram Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath,
que formaram a trilogia básica para a concretização definitiva desse estilo. Mas surgiram
também bons grupos do gênero, como Free, Uriah Heep, Grandfunk Railroad (EUA), AC/DC
(Austrália), Scorpions (Alemanha), e o rock foi expandindo seus horizontes territoriais.
Surgiu, nesse período, a banda Queen, que foi algo muito diferente por mostrar ao mundo
suas harmonias vocais rebuscadas, composições com influência de muitos outros padrões
musicais, extrema competência, refinamento musical, busca pela perfeição e bom gosto.
Freddie Mercury, com sua magnífica voz com ares operísticos e apresentações cheias de
energia, era uma figura carismática e ímpar. Mercury foi um dos maiores cantores que já
existiram. Também apareceram, nessa fase, Alice Cooper, que fazia um rock teatral (esse era
o ponto alto de seus shows, extremamente fora dos padrões vistos anteriormente); Kiss, com
suas máscaras estilo “kabuki” e toda sua pirotecnia nos espetáculos, arrebanhando multidões;
e Van Halen, com guitarrista Eddie Van Halen, mudando os padrões da guitarra no rock –
como Hendrix já tinha feito uma década antes.
Led Zeppelin é um capitulo à parte. Talvez seja o grupo seminal do estilo, pois veio
como um míssil para essa nova geração. Inicialmente enraizado no blues, mas cheio de
elementos mais pesados, o Led Zeppelin não teve limites para tentar desenvolver seu próprio
estilo sem medo da critica ou rejeição do público. Tudo isso, somado a um cantor singular, de
voz única e poderosa, chamado Robert Plant, que abriu as portas de um novo estilo de se
cantar rock com novos maneirismos e possibilidades, usados e imitados até os dias atuais,
elevando uma oitava na tessitura e grande influência do blues americano e do folk inglês.
Black Sabbath, outro grupo de rock pesado, talvez seja um dos que mais tenham
influenciado os novos subgêneros do rock pesado. Sua temática diferente, com referências ao
ocultismo em suas letras, e um vocalista de voz identificável e possuidor de grande carisma,
Ozzy Osbourne, davam um ar realmente pesado sobre tudo o que já se tinha ouvido no rock.
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Dizem que eles são os pais de um estilo muito influente a partir dos anos 1980, o “heavy
metal”.
Outro grupo, o Deep Purple, tinha influência clara, além daquele blues pesado e
inglês, da musica erudita e do jazz, formado pela precisão e virtuosismo de seus membros,
flertou com o movimento progressivo. Porém, a partir de 1969, com a entrada do vocalista Ian
Gillan, fizeram grandes álbuns e chegaram ao Japão, onde gravaram três apresentações,
culminando no que é considerado o maior álbum ao vivo de uma banda em todos os tempos, o
Made in Japan (1972). Ian Gillan, por seu desempenho, foi considerado um dos grandes
vocalistas de seu tempo.
Na época de ouro e virtuosismo no rock, surgiram artistas novos e com novas visões
sobre o rock. David Bowie e o seu “space rock” inicial, associado a Elton John, formaram o
princípio do “glam rock”: estilo que se baseava em um rock rápido, com artistas se vestindo
de forma andrógina, com trajes extravagantes e temas relacionados à fama e à decadência.
A indústria fonográfica do rock se expandiu como nunca, e o rock havia chegado no
seu grau máximo de sofisticação e desenvolvimento de vários subgêneros do estilo que
surgiram, até culminar na discothèque, produto da “subcultura” homossexual, negra e latina
dos grandes centros urbanos dos EUA. Foi um período evasivo do rock e da música no
mundo. Assim, surgiu um novo movimento de contestação na segunda metade dos anos 1970,
em que o rock restabeleceu seu poder crítico e contestador em relação à sociedade e de
autocritica, recuperando sua energia primitiva e incorporando outros ritmos do Terceiro
Mundo (como reggae, afro e outros), o movimento punk. Na verdade, a primeira metade da
década de 1970 apresentou componentes que serviriam de base para o surgimento desse
movimento em artistas como Iggy Pop, David Bowie, MC5 e Lou Reed, uma espécie de
proto-punk.
Bandas de garagem amadoras, acalentadas pelo sonho do sucesso, representavam
novamente aquela força primitiva do rock. Algumas delas chegaram ao estrelato, como os
Ramones.
O punk inglês teve um elemento importante na sua formação musical: o reggae.
Assim, bandas como The Clash, Sex Pistols, The Buzzcoks e The Damned, mesmo no início
de suas trajetórias e ainda sem gravar, chamaram a atenção da mídia especializada da época
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por sua música crua e simples, de volta aos três básicos acordes e de temática efervescente,
pois combatia a questão do desemprego e a ameaça terrorista, estimulando a anarquia e o
surgimento das gangues e do “faça você mesmo”. Com isso, surgiram os fanzines (revista
feita de próprio punho para os que se interessavam pelo conceito) e gravadoras independentes
ganharam força, já que as grandes companhias pouco se interessaram pelo movimento.
Tratava-se de uma guerrilha jovem contra o sistema, que utilizaria o som e as palavras como
armas. O período punk terminou com a morte do baixista dos Sex Pistols, Sid Vicious.
4.2 Os estilos vocais dos anos 1970
O rock, nesse período, ganhou muitos elementos musicais e alguns tecnológicos em
sua construção nessa fase devido às experimentações em outros estilos já ocorridas na
segunda metade dos anos 1960. O progressive rock ganhou força por sua fusão entre o jazz e
o erudito, modificando a parte conceitual, instrumental e vocal no rock, como Peter Gabriel,
do Genesis, e sua interpretação teatral dos temas; Ian Anderson, do Jethro Tull, com melodias
marcantes; Jon Anderson, do Yes, com seu timbre de voz diferenciado e grande alcance e
harmonias vocais, muitas vezes não tão convencionais, indo até a forma do contraponto. O
Pink Floyd foi uma das bandas que mais se aprofundou em uma nova tecnologia e produziu
um dos seus álbuns mais marcantes: The Dark Side of the Moon (1973). O hard rock, com sua
força explosiva, da maior amplificação dos instrumentos e seus vocalistas que subiram o
estilo das melodias de uma quinta até uma oitava da geração anterior, como Robert Plant e Ian
Gillan, criaram base para o desenvolvimento vocal que perdura até os dias de hoje. Com a
base inicial do rock, oriunda do blues, e fusão de melodias folk, soul, country e também a
influência do Oriente, mas cantados com colocação mais pesada. Em contrapartida, com o
surgimento do movimento punk, o estilo anárquico e com forma musical simples e direta,
ficou bem explícito na maneira de se cantar e interpretar os temas contra o sistema opressor.
4.3 Faixa 1
Led Zeppelin: Stairway to Heaven, do álbum Led Zeppelin IV (1971)
Com o fantástico 4° álbum, o Led Zeppelin se prepara para encher estádios com suas
músicas pesadas. Mitologia, espiritualidade e ocultismo fizeram a banda ir a outro patamar.
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Stairway to Heaven, a música mais tocada nas rádios americanas até hoje, é considerada um
hino do rock. Sua letra, baseada nas leituras de Robert Plant no fantástico mundo de Tolkien,
tem uma gama de misticismos à sua volta.
4.4 Análise musical e vocal
Além da brilhante introdução de violão e flautas, é válido ressaltar o solo de guitarra
magnífico de Jimmy Page, e a classe e precisão de John Boham, que parecia sempre encontrar
o ponto certo para cada faixa. E nesta canção ele realmente esperou o momento certo: a voz
de Robert Plant começa suave, com leve acento em “fry”, quase chorada, e vai evoluindo de
acordo com o texto “tolkiano”, explodindo após o solo de guitarra, nas mais altas misturas de
voz de registro de peito, com misturas extremamente homogêneas, com registro de cabeça e
culminando em um “screaming” perfeito em voz de cabeça no trecho “When all are one and
one is all”.
4.4 Faixa 2
Pink Floyd : Time/Breathe Reprise, do álbum The Dark Side of the Moon (1973)
O famoso álbum do “prisma” do Pink Floyd, é uma coleção de canções brilhantes e
vibrantes, e é o “álbum de entrada” para o universo que vai da psicodelia ao progressivo do
grupo inglês Pink Floyd. Temas que falam sobre preocupações humanas como: tempo,
dinheiro, loucura e morte são abordados na temática das letras.
4.5 Análise musical e vocal
Time/Breathe Reprise é a quarta faixa do álbum e possui uma introdução com
eloquência de sons de relógio que nos remete a um “despertar”, seguindo entra uma batida
que simula batimentos cardíacos e clima vai crescendo com fills de bateria praticamente
sinfônicos, até explodir no canto firme de David Gilmour, voz plena de peito com ocasionais
“drives” impulsionados pela força das palavras. Nas duas partes “B” da música, Gilmour
entoa um timbre à meia voz, suave e delicado, tudo isso entrelaçado em vocais femininos
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celestiais, culminando em um solo de guitarra melódico de extremo bom gosto. O estilo de
Gilmour acerta em cheio a textura complexa da banda.
4.6 Faixa 3
Sex Pistols: Anarchy in UK, do álbum Never Mind the Bollocks Here´s the Sex
Pistols (1977)
É um álbum que sintetiza a essência punk e toda sua revolta contra o sistema
opressor e os altos índices de desemprego. Seu título é um verdadeiro soco na boca do
sistema.
4.7 Análise musical e vocal
A faixa Anarchy in Uk é uma espécie de grito, o epicentro do ódio desse movimento.
Johnny Rotten, a cada nota, literalmente berra contra a realeza inglesa. Sem forma técnica e
formosura no seu canto, ele dá voz ao jovem proletariado inglês sons guturais proferidos de
sua garganta frases apocalípticas como “No future for you”, despejando e simbolizando toda a
raiva contra o seu governo.
5. A década das indefinições
5.1 Anos 1980
Ao final dos anos 1970, o punk havia se tornado sinônimo de má reputação e
violência. Nessa época, a indústria abriu caminho para outros valores, tais como: The Police,
Elvis Costello, The Pretenders, Talking Heads, Blondie, B-52’s. Essa foi chamada de “new
wave” (nova onda), e é muito difícil de delimitar esse estilo, pois abriu uma vasta gama de
modalidades, reciclando linguagens e estilos das décadas anteriores.
A “nova onda” também teve sua versão mais pesada. Surgiu na Inglaterra, ainda com
um pouco de influência punk no som, mas com guitarras trabalhadas, cenários e temas
grandiosos, uma nova geração do rock pesado. A “NWOBHM” (nova onda do heavy metal
britânico), que teve em suas principais bandas e desenvolvedores do estilo, o Diamond Head,
Motorhead, Saxon, Judas Priest e Iron Maiden.
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Com
as
novas
tecnologias
desenvolvidas
nessa
época,
instrumentos
computadorizados, sequenciadores, samplers e MIDIs, que armazenam e inventam qualquer
som desejado, tornou possível aos músicos criar qualquer tipo de linguagem musical, e
também se apropriar de trechos de músicas já editadas. A partir desse contexto, bandas e
artistas como Joy Divison (embrião do New Order), The Smiths, Depeche Mode, Echo and
the Bunnymen, The Cure, The Cult, Laurie Anderson começaram a fundir mais amplamente o
rock com a base eletrônica, e a crítica passou a denominar esse novo estilo de tecnopop e new
psychodelic. Outra tendência importante desse período foi a confluência da música negra com
essas novas tecnologias, cujo grande expoente é Prince, além da fusão dessas tecnologias com
o reggae e ritmos africanos, quando surgiram Alpha Blondie e UB40.
Com esse olhar para a África, onde se substituiu o modelo convencional de colônia
por novas formas de dominação, já que, mesmo com a independência política da maioria dos
países, não foi concedida a mínima estrutura para se tornarem de qualquer forma
independentes do domínio econômico branco, com as consequentes e recorrentes segregação
racial e pobreza extrema, é que entram novamente a música e o rock em cena, chamando a
atenção do mundo para esse tema. Campanhas como USA for Africa, e shows, como Live Aid
e Free Mandela Concert, procuraram arrecadar fundos e sensibilizar o mundo para esses
graves problemas políticos e sociais africanos.
Essa visão voltada para África trouxe influência direta para grandes músicos como
Peter Gabriel, Davis Byrne, Phillip Glass, Paul Simon, Brian Eno, Miles Davis que ouvindo
esse novo som vindo de lá, o afro beat, e de nomes como Fela Kuti e Youssou N´Dour,
criaram um caldeirão efervescente que na música pop foi considerada denominação “world
music”.
É na segunda metade dessa década, agora nos EUA, que surge um novo movimento,
chamado “glam metal”, com suas maquiagens e cabelos com aparência quase feminina,
ostentando um rock de arena e muito colorido no palco. Os grandes expoentes desse cenário
são Twisted Sister, Motley Crue, Poison, Bon Jovi, Skid Row e Cinderella, mas sem dúvida, a
maior banda de rock dessa época e que ganhou proporções mundiais de sucesso com sua
dupla explosiva Axl Rose e Slash, foi o Guns’N’Roses.
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Outro fator importante da época foi introdução das bandas de rock na chamada
“Cortina de Ferro”, expressão usada para denominar a divisão da Europa Oriental (que esteve
sob o domínio ou influência da União Soviética), da Ocidental, e tinha um regime
extremamente fechado. Mas uma vez estava lá o rock, com sua força de juventude e capaz de
modificar os padrões estabelecidos. Nos dias 12 e 13 de agosto de 1989 no Lenin Stadium em
Moscou, o Moscow Peace Festival promoveu “a paz mundial” e contou com bandas de
sucesso na época como Cinderella, Bon Jovi, Skid Row e Motley Crue, além de contar com
Ozzy Ousbourne. Foi o primeiro show que as pessoas puderam assistir em pé. A partir daí e
depois com a queda do regime comunista, o leste europeu entrou definitivamente na agenda
dos grandes artistas do gênero. Os anos 1980 foram efervescentes na questão política e social.
5.2 Estilos musicais e vocais dos anos 1980
Muitos novos estilos e denominações aconteceram ao longo da década. Alguns
exemplos são notórios: de Simon Le Bon e seu rock pop glamoroso com o Duran Duran,
Sting no The Police, com voz aguda e bem colocada e ritmos flertados com o ska, Bono Vox
e seu U2 contestador na primeira fase, apresentando boa técnica vocal, á os famigerados
cantores de heavy metal, Rob Halford com seus “screamings” lascinantes no substimado
Judas Priest, Bruce Dickinson e sua potente voz aguda no Iron Maiden, Ronnie James Dio,
que apesar de ser cantor de longa data, foi nos 1980 que ganhou nome e força no mercado,
lançando excelentes álbuns com o Black Sabbath (substituindo Ozzy Osbourne) e com sua
banda solo, chamada apenas Dio, com sua voz gloriosa e olímpica, elevando demais o nível
técnico do estilo. No rock, ainda pesado, também surgiram novos cantores com novas formas
de voz aguda e cantadas nos registros de cabeça, trabalhadas em “drive”, como Sebastian
Bach, do Skid Row, Jon Bon Jovi e Jon Bon Jovi, Vince Neil do Motley Crue e, talvez, o
mais famoso de todos, Axl Rose, do Guns N´ Roses.
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5.3 Faixa 1
U2: Sunday Boody Sunday, do álbum War (1983)
A letra dessa música descreve o horror, como num noticiário, onde as tropas
britânicas atiraram e mataram manifestantes dos direitos civis na Irlanda do Norte em 1972.
Ficou conhecido como “Domingo Sangrento”.
5.4 Análise musical e vocal
Com um riff de guitarra antológico de guitarra e batidas que remetem batidas usadas
nas paradas militares, somando-se ao texto que conta a batalha descrita acima, Bono Vox
despejou todo seu potencial vocal e senso de interpretação, apoiada no diafragma e na
cavidade orofaríngea, colocando a voz de registro de peito. Muito boa técnica, interpretação
na medida certa que o elevaram ao patamar de um dos maiores cantores de rock até hoje.
5.5 Faixa 2
Iron Maiden: The Number of the Beast, do álbum The Number of the Beast (1982)
O Iron Maiden é uma espécie de religião para os seus fãs espalhados por todo globo.
Esse álbum marcou a estreia de Bruce Dickinson, uma das vozes mais poderosas do rock, e
foi alvo dos críticos ativistas cristãos que associaram a capa e temática como algo diabólico e
criou grande polêmica à época.
5.6 Análise musical e vocal
Bruce Dickinson e sua voz potente de tenor sofreram rejeição por parte dos fãs que
estavam habituados ao estilo do vocalista anterior, Paul Di´anno. Logicamente isso não
demorou muito a se dissipar. Dotado de potência e técnica vocal, além de performances
teatrais elevou o nível da banda ao reconhecimento mundial. Nessa faixa, Bruce faz um
“screaming” gigantesco na introdução. Outra marca consagrada, é seu registro agudíssimo de
peito e pequenas misturas com registro de cabeça e seu vibrato diafragmático como fazem os
cantores de ópera, que influenciou gerações de cantores de heavy metal.
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5.7 Faixa 3
Guns N´Roses: Welcome to the Jungle, do álbum Appetite for Destruction
Hollywood, Los Angeles, década de 1980. O glamour e tecnologia do cinema, Sunset
Strip fervendo novamente de novas bandas, prostituição, drogas sintéticas e muito álcool.
Cenário perfeito para uma nova banda, formada genuinamente em L.A., sintetizar todo esse
universo em um álbum. Essa banda era a polêmica Guns N´Roses e seu disco de estreia.
Welcome to the Jungle é a faixa de abertura e mostra o contexto todo da cidade da costa oeste
americana.
5.8 Análise musical e vocal
Com uma introdução de guitarras em repetição, um grito primal proferido por Axl,
desembocando num riff de guitarra visceral, essa é a explosão inicial da faixa. Axl canta com
“drive”, região aguda de peito, transitando entre os registros de peito e cabeça, traduzindo a
força da letra de vulgaridade obscena, trazendo o rock pra algo contestador novamente,
divergindo dos padrões sociais.
6. O planeta globalizado
6.1 Década de 1990
A geração dos anos 1990 chegou com influências múltiplas de vários gêneros
musicais e até subgêneros do próprio rock. Bandas como Red Hot Chilli Peepers, que trouxe
muitos elementos do funk, especialmente do Funkadelic Parliament, Faith No More, com sua
mistura genuína com o hip hop e rap americanos, o Rage Against hte Machine, com sua
mistura de elementos do rap inspirado em Public Enemy e sua ideologia esquerdista contra o
corporativismo e desigualdade social, o Green Day e o The Offspring com seu “pós punk
pop” e Jane’s Addiction, Blur, Radiohead e Oasis com seu “rock alternativo”, Slayer,
Megadeth, Anthrax e Mettalica com o “thrash metal”, uma versão mais moderna e rápida do
“heavy metal”, tendo este último alcançado fama mundial a partir de seu Black Album (1991),
deram outras feições àquele rock glamoroso que vinha da segunda metade da década de 1980,
que falava sobre carros velozes, festas e garotas.
Mas sem dúvida, o movimento icônico daquele período foi o surgido na cidade de
Seattle, o “grunge”. Soundgarden, Mother Love Bone, Alice in Chains, Temple of the Dog,
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L7, Mudhoney, The Melvins, Screeming Trees foram bandas criadas a partir desse
movimento musical de grandes proporções, de alcance mundial, que explodiu com o
lançamento do Pearl Jam e Nirvana. O período entre 1990 e 1994 foi o auge do movimento. O
Nirvana, com Nevermind (1991), trouxe o rock de novo à grande mídia. Seu líder e
compositor, Kurt Cobain, foi uma espécie de “porta-voz” dessa geração, pois explorou em
suas canções a angústia, os conflitos internos pessoais, temas que vieram ao encontro dos
anseios dos jovens daquela geração, além de uma forma autêntica e despojada de se vestir,
tocar e cantar.
6.2 O estilo musical e vocal dos anos 1990
Formas variadas de se cantar o rock foram incorporadas ao estilo. Da influência
rap/hip hop/funk de cantores como Mike Patton do Faith No More e de Anthony Kiedis do
Red Hot Chilli Peepers, ao estilo “rocker”, vigoroso e técnico de Chris Cornell, talvez a maior
voz do período, foi a de Kurt Cobain a voz que mais influenciou essa geração.
6.3 Faixa
Nirvana:Smells Like a Teen Spirit, do álbum Nevermind (1991)
Kurt Cobain certamente foi um grande interlocutor dessa geração e Nevermind sem
dúvida foi o álbum mais importante dos anos 90. Com uma sequência de quatro acordes
gerando sutileza e aspereza, com toda a “explosividade” das bandas de garagem, o texto de
Kurt retrata o espírito do jovem dos anos 90, o dualismo do tédio e euforia, da depressão à
gloria num turbilhão desenfreado de sensações.
6.4 Análise musical e vocal
Com uma sequência de quatro acordes ininterruptos, mas que vão da sutileza à
aspereza de uma banda sólida de garagem, fazendo todo o clima necessário e “meio de
campo” para Kurt ir da voz mediana na tessitura em registro de peito, até urrar em
“screaming” nas regiões próximas da quebra de registro masculinas na parte do refrão, a voz
nessa faixa alterna entre esses dois mundos: da contundente clareza das estrofes à certeza
massacradora do refrão.
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7. A geração “Internet”
7.1 Os anos 2000
A partir dos anos 2000, com a globalização por meio da internet, a troca constante de
arquivos de mídia em geral trouxe uma maior interação nesse mundo novo entre as pessoas,
sua conectividade e a exploração de muitas fontes de pesquisa. Mas também deflagrou uma
atitude mais efêmera por parte do jovem, que se distanciou da profundidade dos fatos e isso,
obviamente, está diretamente relacionado à queda da indústria musical, e o rock não está fora
desse padrão.
Muitas bandas e artistas expressivos do rock surgiram nessa época, como os
“alternativos” Coldplay, Muse, The Strokes e a dupla White Stripes, do talentosíssimo Jack
White; o “new metal”, com System of a Down, Korn, Slipknot, Deftones e Incubus; e até
mais recentemente as chamadas “indie rock”, como Artic Monkeys, Arcade Fire, Imagine
Dragons, as mais conhecidas dessa geração. Todas essas bandas fazem um som no ambiente
do rock e seus subgêneros, e suas vozes chegam à grande massa dos novos roqueiros, tocando
em grandes festivais. Porém, nos dias atuais, não há um movimento relevante que vem
modificando o comportamento do jovem. Vamos aguardar, pois a história continua a ser
contada.
7.1 Faixa:
The White Stripes: Seven Nation Army, do álbum Elephant (2003)
Com o riff de guitarra mais emblemático da “era 2000”, que o transformou num
refrão sem palavras, Jack White, um grande músico e compositor dessa geração, “relata
algumas das preocupações de Jack com sua crescente fama” (DYMERY, KENNEDY, 2008,
p. 912);
7.2 Análise musical e vocal
Jack White trabalha essa faixa, cantada no tom de Mi menor, com base na escala
pentatônica menor e de Mi e com acento caraterístico da melodia, utilizando o 7° grau da
escala menor harmônica de Mi. Com voz marcante de peito na primeira parte e passagens de
registro fazendo uma mistura homogênea entre as ressonâncias de peito e cabeça na segunda
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parte, sempre com base no apoio diafragmático, que dão ar de dramaticidade a sua
interpretação, criando sua própria e peculiar maneira de cantar.
REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:
BRANDÃO, Antonio Carlos; Duarte, Milton Fernandes. Movimentos Culturais de Juventude.
Ed. 16. São Paulo: Moderna, 1990.
DIMERY, Robert. 1001 livros para ouvir antes de morrer. Ed.1. Rio de Janeiro: Sextante,
2007.
VILLELA, Eliphas Chinellato. Fisiologia da Voz. Ed. 2. São Paulo: Ricordi, 1968.
Discos:
Guns N´Roses, Appetite for Destruction, Geffen, 1987.
The White Stripes, Elephant , XL, 2003.
Nirvana, Nevermind, Geffen, 1991.
Metallica, Metallica, Elektra, 1991.
Iron Maiden, The Number of the Beast, EMI, 1982.
U2, War, Island, 1983.
Sex Pistols, Never Mind The Bolloocks Here´s Sex Pistols, Virgin, 1977.
Pink Floyd, The Dark Side of the Moon, Harvest, 1973.
Led Zeppelin, Led Zeppelin IV, Atlantic, 1971.
Deep Purple, Made in Japan, Purple, 1972.
The Doors, The Doors, Elektra, 1967.
Bob Dylan, The Freewheelin´ Bob Dylan, Columbia, 1963.
The Beatles, Please Please me, Parlophone, 1963.
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O PODER DA VOZ NO ROCK Rodrigo Dias Grecco Souza Lima