EU AMO O PÃO QUE AMADURECE NO FOGO
O MILAGRE DA ARTE NA CONSTRUÇÃO DA CASA DO HOMEM
PEDRO N. BENÍTEZ
EU AMO O PÃO QUE AMADURECE NO FOGO | PEDRO N. BENÍTEZ
O MILAGRE DA ARTE NA CONSTRUÇÃO DA CASA DO HOMEM
Quero dizer: eu tudo sei.
Junto os ossos em gelo bate uma veia
que sobe, quente; que em silêncio ascende
e bate na língua: - eu amo o pão que amadurece
no fogo.
Amo a ideia que a morte alimenta
agora na noite. Cinza sobre pepitas.
Herberto Helder
Quase que vou deixando de existir quando o silêncio toma conta dos meus passos, a voz da
pessoa que habito diz
- Poeta
e o poeta a distinguir o silêncio nos lugares que a carne nunca poderá vasculhar, que eu não
poderei nunca conhecer porque sou homem e os meus olhos ainda não alcançam o admirável,
a casa que os estranhos habitam e lá se alimentam, sem que haja pão
- Poeta
o poeta a lançar o design na morte para o chão e a lamber e a rasgar a sua sombra, e o
homem dentro do poeta a adivinhar o sopro, à procura de uma escadaria, não para subir ou
descer, o poeta não sobe nem desce escadarias, o poeta reescreve o homem para que o
homem reescreva o intuito de construir o mundo, a arte e o mundo e o homem habitam em
rede na construção
(e a minha mão zangada com o que tinha escrito)
e a minha mão zangada com o que tinha escrito, a mão a proibir a mão de abrir a porta, a mão
não abre a porta, a mão traz aflição no sangue, a mão está no mundo, a mão declina a
estética, a mão
- Como te chamas poeta?
não tem nome o poeta, se tivesse chamar-se-ia poeta, não há resposta para o nome do poeta,
o poeta é o homem, o poeta vem nu, com um sorriso, procura uma casa em todos os lugares,
sejam eles de lume ou de água, mastiga sede, reza pelos inúmeros pecados que comete por
ver com todos os outros sentidos e exagera na verdade que chega quase a ser mentira
- São seis da tarde, queres ir tomar um café?
um café é arte, a sua temperatura, a boca espremida à espera do seu calor, a arte vive entre o
que é visível e o que é invisível
- Choram os deuses, sabias poeta?
e o poeta, o poeta anula-se quando atinge o amor e a poesia, o homem deixa de ser homem
quando atinge a arte, a arte torna-se casa e a casa torna-se homem e habitar é construir, o
poeta tira o chapéu, fuma, fuma a vida enquanto contempla as roseiras do quintal, entra na
sala, contempla os retratos antiquíssimos de crianças, velhas-crianças que choram, é pesado o
pó dos séculos, o fotógrafo ainda vive em cada retrato, poucas caras olham o poeta, uma figura
de Jesus na parede, a avó no quarto a morrer, doente de idade, entre o mundo e o mundo, os
degraus da arte, a contemplar a verdade, os homens a fugirem da casa, a casa demasiado
EU AMO O PÃO QUE AMADURECE NO FOGO | PEDRO N. BENÍTEZ
O MILAGRE DA ARTE NA CONSTRUÇÃO DA CASA DO HOMEM
pequena para o homem, o homem não constrói para viver, constrói porque tem comichão na
alma
- O milagre da arte na construção da casa do homem?
o milagre tão vazio, tão cheio, refúgio melancólico que ocupa as lágrimas, a dor de escrever
estas palavras no branco do papel, a vontade do corpo em sair do corpo e visitar outro lugar,
erguer o irmão, o caminho está pálido, faltam horas a este dia, e esta é a minha raiva, a minha
ira, a minha dor
- O que te dói irmão?
e a vida a escorrer pelos braços, tanto ruído nos olhos, a noção de habitar, a visão sistémica
de mundo, o vinho a embriagar os passos do poeta, do filósofo, do escultor, do pintor, do
bailarino e o bailarino e o pintor e o escultor e o filósofo e o poeta no interior do homem,
entraram pelas narinas, num ligeiro sopro e o milagre da arte um reflexo do mar todo, e eu tão
feio a dizê-lo (digo-o)
- A arte é pó
a arte, um espantalho com vida, a diluir-se na chuva depois das vinte horas de um dia qualquer
de Fevereiro, e a mão tão longe a chorar o pai ainda mais longe e o poeta a perguntar às flores
pelas abelhas, o pó abraçado à vida, o cosmos no estômago
- Quem és?
quem sou? de facto, quem sou? e a vida a repeti-lo no milagre da casa, no milagre da
construção, no milagre do homem, digo, no milagre do milagre
- Quem sou?
como é triste não compreender isto, o homem é mutante, traz um cálice no coração, o homem
existe e eu sinto-me só, a arte foi-se embora, ficaram as artes e o olhar tão longínquo da
criança, com os olhos orvalhados falava dialectos estranhos, idiomas esquecidos pelo poeta, a
criança abraçada ao poeta, o poeta a morrer nos braços da vida e não encontro respostas
- Mãe Mãe
os baldios caminhos entorpeçam os pés, ó mãe onde estás? doem-me as horas cá dentro, as
pessoas não percebem, desembaraçam-se com pequenas casotas, não constroem casas,
morrem todos os dias sem saberem que os dias anoitecem e se prolongam nas trevas até à luz
e a luz o milagre dos milagres
- Mãe Mãe Mãe
as gengivas a doerem nos dentes, a bicicleta yé yé a partir e a desaparecer do caminho, as
palavras a faltarem na boca, a língua a apodrecer as palavras e o poeta à procura de um gesto
- Anda cá
os dedos a pingarem sangue na construção da casa, a casa saca da vida perfumes e outros
pássaros, quase verdejantes como campos e os pássaros choram, junto aos figos, aos ramos
secos que secam o mundo e os pássaros caem do céu quando morrem, pássaros de bronze
ou de prata, cravados de chumbo nas asas, pesados, com rebuçados no bico, mártires da
liberdade, pássaros cobertos de lepra no vazio da eternidade, assim se dá o milagre, com o
sangue a ferver no sopro e o rio quente, no meio da carne a existir.
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Luís Aguiar – “Eu Amo o Pão que Amadurece no Fogo”