Anais do 6º Encontro Celsul - Círculo de Estudos Lingüísticos do Sul “TUDO” EM LÍNGUA PORTUGUESA: REFERENCIALIDADE Daiane Martins de OLIVEIRA (Universidade Federal de Santa Catarina) ABSTRACT : The nominal “all”, classified as indefinite pronoum, is the focus in this article. We study the nominal under a functional perspective. We intending to establish if the nominal “all” can be referential.We have a nominal sensitive to the propositional modality under whose scope it fall. It seem exhibit varying probabilities of a referring interpretation. KEYWORDS: functionalism; functions; pronoum indefinite; ‘all’; reference. 0. Introdução - Esta pesquisa é feita sob uma orientação funcionalista (Givón 1993; 1995; 2001). Tratamos aqui da referencialidade de sintagmas nominais (SNs) aos quais o item lexical “tudo” pertence. O tratamento dado, neste estudo, à referencialidade centra-se na relação entre expressões lingüísticas e a modalidade proposicional sob cujo escopo estão. A teoria funcionalista nos serve de orientação, por tratar da gramática no discurso, considerando que os indivíduos se comunicam num processo de interação lingüística. Esse processo compreende, além de codificação e decodificação de formas lingüísticas, aspectos semântico-proposicionais e pragmáticodiscursivos. Ou seja, a concepção de linguagem da gramática funcional “vê” o sistema lingüístico enquanto estrutura sem dissociá-lo das funções que tem de preencher. No que diz respeito à relação estrutura (forma) e função, essa teoria reconhece a instabilidade da língua e seu dinamismo. Givón (1995: 10) cita algumas premissas para uma melhor definição funcionalista sobre a língua, linguagem, gramática e mudança: a linguagem é uma atividade sócio-cultural; a estrutura lingüística serve a funções cognitivas ou comunicativas; a estrutura é não-arbitrária, motivada, icônica; a mudança e a variação estão sempre presentes; o significado é dependente do contexto; as categorias não são discretas; a estrutura é maleável, não-rígida; a gramática é emergente; as regras da gramática permitem alguma flexibilidade. A funcionalidade de “tudo” é discussão de um projeto de pesquisa que estamos desenvolvendo e já apresenta algumas indicações do que seriam as funções desse item lexical. As funções que identificamos em nossa pré-análise são: quantificador, intensificador, qualificador e marcador discursivo. A função de quantificação (Q) é a mais recorrente até agora e pode ser dividida em dois tipos: (Q) sem correferente no discurso, e (Q) com correferente no discurso. Este último tipo é dividido em subfunções: (Q) anafórico e (Q) catafórico. Cada uma dessas subfunções pode ainda agregar outras duas: (Q) resumitivo e (Q) ampliador. Para este estudo fazemos um recorte em que os dados a serem analisados são os descritos como (Q) com correferente no discurso. A análise é qualitativa e para isso usamos dados dos Bancos de Dados Entrevistas Sociolingüísticas – UNESC e VARSUL. O item lexical “tudo” , como já foi mencionado, é tradicionalmente classificado como pronome indefinido. Tal classificação nos parece uma tanto problemática e inadequada. O primeiro problema está em ela não recobrir a multiplicidade de funções que “tudo” vem assumindo na língua. O segundo problema reside na classificação ‘indefinido’, pois temos por hipótese que em vários contextos “tudo” seja definido. Apesar de não discutirmos aqui descrições ou conceitos que fundamentem a “definitude” para o “tudo”, consideramos que uma das características que está intimamente ligada à definitude deste seja a referencialidade. Então, nosso objetivo aqui é estabelecer em que medida, pelo menos em parte das ocorrências na língua, “tudo” pode apresentar referencialidade, e a partir daí discutir a hipotética definitude de “tudo”. As questões a serem respondidas neste trabalho são: 1) o vocábulo “tudo” pode ser referencial?; 2) o status referencial de “tudo” é sensível à modalidade proposicional sob cujo escopo recai?; e 3) em quais modalidades proposicionais “tudo” pode ser referencial? Para a discussão dessas questões analisamos os dados conforme a proposta Givón (1993; 2001)1 . O autor propõe que os chamados nomes ou sintagmas indefinidos têm seu status referencial sensível ao escopo da modalidade proposicional sob o qual recaem. Tendo em vista tal proposta nossas hipóteses para as questões acima são, respectivamente: 1) o vocábulo em questão pode ser referencial; 2) seu status referencial é sensível à modalidade proposicional sob cujo escopo 1 A discussão do autor é sobre referencialidade na língua inglesa, mas se mostra bastante aplicável ao nosso objeto de estudo. recai; e 3) “tudo” pode ser referencial em qualquer das modalidades proposicionais, sejam estas factuais ou não-factuais. Este artigo está organizado da seguinte maneira: Introdução; Delimitando: Quantificador e Referencialidade; Uma proposta para a análise da Referencialidade – Givón (1993; 2001); “Tudo” em Língua Portuguesa: Referencialidade; Algumas Considerações; e Bibliografia. 1. Delimitando: Quantificador e Referencialidade 1.1 Quantificador As Gramáticas Tradicionais (GT) classificam “tudo” apenas como “Pronome Indefinido”, classificação que, como já explicitamos, não dá conta da funcionalidade do termo. Estudos lingüísticos mais recentes trazem outras denominações, como por exemplo, a mesma que usamos em nosso trabalho: quantificador. Vejamos um exemplo: “os quantificadores são modificadores que se combinam com os nomes em termos do tamanho do conjunto de indivíduos ou em termos da totalidade da substância que está sendo referida” (Lyons, 1977: 454-5 apud Castilho, 1993: 213-214). Vale assinalar que, assim como em outros tantos estudos sobre o assunto, o estudo de Castilho não questiona o caráter “indefinido” de “tudo”; pois embora denomine-o, não mais pronome, mas quantificador,“tudo” continua a aparecer em exemplos que ilustram somente seu caráter indefinido. Vem daí a necessidade de refinar a análise e distribuir a função maior, “quantificador”, em subfunções para que possamos descrever adequadamente “tudo” em todas as ocorrências de uso que registramos em nosso estudo. 1.2 Referencialidade A relação entre a linguagem e “as coisas” das quais a linguagem trata é tema discutido há muito tempo em uma vasta literatura seja da lógica, da lingüística, da filosofia. O tratamento dado à referencialidade é relativo à especificidade de cada disciplina, apresentando-se diferentemente mesmo no âmbito de cada uma das disciplinas. Assumiremos em termos gerais, o que Cardoso nos diz sobre referência, já que a proposta dela parece adequar-se ao que Givón diz sobre o assunto: “a relação entre a linguagem (um dizer) e uma exterioridade (um não dizer), relação necessária para que a linguagem tenha o seu valor e não se encerre em si própria, é o que se chama de referência. Referente é o objeto a que a linguagem visa, com o objetivo de descrevê-lo, transformá -lo, ou mesmo (...) de constituí-lo (...) O referente é necessário para que a palavra tenha um valor, não se volte para si mesma, mas se volte para algo que lhe é exterior” (Cardoso, 2003: 1-2). 2. Uma proposta para análise da Referencialidade – Givón (1993; 2001): Esta proposta de Givón concentra-se na análise da referencialidade de expressões nominais classificadas como indefinidas 2 . O autor observa que as expressões definidas parecem ser inerentemente referenciais e por isso a análise destes não apresentaria novidades. Há uma longa tradição lógica no tratamento da referência (também chamada denotação ou extensão) que a considera um mapeamento da relação entre termos lingüísticos e entidades existentes no Mundo Real (Russel 1905, 1919; Carnap 1958 apud Givón 2001). O autor observa que a linguagem humana usa os mesmos mecanismos para marcar, codificar, diferentes referentes, ignorando a denotação “ancorada no Mundo Real”. Na linguagem humana, o que parece acontecer a respeito de referência não é um mapeamento das expressões lingüísticas para entidades do Mundo Real (MR), mas um mapeamento das expressões lingüísticas para entidades estabelecidas verbalmente no Universo do Discurso (UD). Importante assinalar que o autor não desconsidera a relevância da existência de entidades no MR para análises sobre referência, pois comenta que o MR e o UD compartilham ‘espaço’ na língua de alguma forma. Referência no UD é assunto do que Givón (2001:439) chama “cripto-pragmática”, uma espécie de “teoria da referência”. Analisada assim, a referência ultrapassa os limites da proposição. Ou seja, o UD é estabelecido por um falante particular o qual tem a intenção de que as entidades sejam referenciais ou nãoreferenciais. A intenção do falante parece ser o fator mais relevante para a gramática da referência em linguagem humana. Citando a noção de Frege (1892,1949) sobre sentido, o autor acrescenta que qualquer expressão nominal é em si mesma isenta de referência, tendo só um sentido semântico-lexical. Givón propõe analisar a referencialidade considerando que os “nominais” são sensíveis a modalidade proposicional sob cujo escopo estão. 2 A análise aborda outras pontos como definitude, mas para o presente trabalho nos interessa, por ora, a referencialidade. As modalidades citadas acima têm sua origem na tradição lógica que as trata como uma propriedade das proposições, desvinculadas do contexto comunicativo. A interpretação comunicativo-pragmática das quatro modalidades as redistribui em termos de estados epistêmicos e metas comunicativas dos dois participantes de uma transação comunicativa – falante e ouvinte (Austin, Searle, Grice apud Givon, 2001). O contraste entre realis e irrealis não é mais entre eventos reais e irreais, conforme quer a tradição lógica. O foco do contraste muda: cognitivamente, da verdade lógica para certeza subjetiva; comunicativamente, da semântica orientada para o falante para a pragmática interativa, envolvendo uma negociação social entre o falante e o ouvinte. As modalidades são marcadas uniformemente em poucas línguas, com exceção da asserção negativa que é facilmente identificável. As outras modalidades (pressuposição, asserção realis asserção irrealis) são gramaticalizadas a partir de uma grande variedade de domínios, uma vez que aparecem em múltiplos contextos gramaticais. A distribuição dessas quatro modalidades em contextos gramaticais é altamente previsível e universal. Nas subseções seguintes temos a descrição das modalidades e as considerações do autor sobre a relação entre referencialidade e modalidade proposicional, e alguns contextos nos quais as modalidades são identificáveis. 2.1 Descrição das modalidades proposicionais na perspectiva pragmático-discursiva: a) b) c) d) Pressuposição – a proposição é admitida como verdadeira, por definição, concordância prévia, convenções genéricas culturalmente compartilhadas, por ser óbvia todos os presentes à situação de fala, ou por ter sido enunciada pelo falante e não contestada pelo ouvinte. Asserção realis– a proposição é fortemente asserida como verdadeira. Mas a contestação pelo ouvinte é apropriada, embora o falante tenha evidências ou outros fundamentos para defender a forte crença. Asserção irrealis – a proposição é fracamente asserida como possível ou provável (ou necessária ou desejada, convergindo com o caso de avaliação); mas o falante não está preparado para retomar com evidências e outros fortes fundamentos; e a contestação do ouvinte é facilmente cogitada ou já explicitamente solicitada. Asserção Negativa – a proposição é fortemente asserida como falsa , mais comumente em contradição com a crença explícita ou assumida do ouvinte; a contestação do ouvinte é antecipada e o falante tem evidências ou outros fundamentos para retomar sua forte crença (Givón, 1993:170). As modalidades apresentadas são agrupadas em duas mega modalidades: factual (pressuposição e asserção realis); e não factual (asserção irrealis e negação). Sobre a relação existente entre referencialidade e modalidade proposicional, Givon (1993: 216 e 2001: 442) afirma o seguinte: Sob o escopo não factual, ‘nominais’ podem ser interpretados como referenciais ou não-referenciais; Sob o escopo factual, ‘nominais’ só podem ser interpretados como referenciais. Em outras palavras: Nominais podem ser interpretados não referencialmente só se eles estão sob o escopo de alguma modalidade não-factual. Senão eles devem ser interpretados referencialmente (Givón, 2001: 441). 2.1.1 Contextos para identificação das modalidades - segundo o autor, uma vasta maioria dos verbos traz consigo, inerentemente, a modalidade realis, sendo poucos os que trazem as modalidades irrealis, de negação e pressuposição. Então é mais econômico enumerar os verbos desses três últimos tipos. O autor enumera os que considera mais típicos: a) Verbos inerentemente irrealis Querer, gostar, procurar, sonhar, pensar, acreditar b) Verbos inerentemente negativos Precisar, recusar, declinar, errar, fallar c) Verbos inerentemente pressuposicionais Saber, esquecer, arrepender, ‘ser feliz’ (2001:443) Tempo e aspecto têm importante correlação com as modalidades discursivas, como mostra o seguinte quadro: Distribuição de modalidade em tempo-aspecto Modalidade Tempo aspecto factual passado Perfectivo presente perfeito progressivo não-factual futuro habitual repetitivo (Givón 2001: 443) Além dos verbos cujos traços semânticos inerentes podem determinar a modalidade proposicional, e além da correlação da modalidade com tempo e aspecto, Givón lista alguns operadores irrealis que mantêm sob seu esco po os nominais, os quais podem (grifo nosso), por isso, ser interpretados como não-referenciais como nos exemplos (não-referenciais) listados abaixo: a) b) Condicional: Se ela encontrar um homem lá... Questões para serem respondidas com sim ou não (yes/ no questions): Ela encontrou um homem lá ? c) Imperativos: Encontre um homem! d) Advérbios Epistêmicos: Talvez ela encontre um homem lá. e) Modais: Ela pode encontrar um homem lá. f) Escopo de verbos de modalidade não implicativa (non-implicative modality verb ): Ela quis encontrar um homem lá. g) Escopo de verbos de manipulação não implicativa: Eles falaram para ela encontrar um homem lá. h) Escopo de verbos não factivos de cognição: Eles pensaram que ela encontrou um homem lá. (Givón 1993: 217-218) Considerando que só aos nominais sob o escopo irrealis é permitida a interpretação não-referencial, há entre esse tipo de nominais o que Givón chama de “probalidade variante de interpretação referencial”. Ou seja, dentre os contextos irrealis, parece haver uma escala de probabilidade de referencialidade como nos exemplos listados abaixo. Os exemplos estão organizados de forma que de (a) a (h) se forme uma escala de probabilidade de referencialidade decrescente: a) Realis (Ref): Ela está comprando uma casa. b) Futuro: Ela comprará uma casa. c) Complemento modal: Ela quer comprar uma casa d) Modal: Ela pode comprar uma casa e) Condicional: Se ela comprar uma casa ... f) Subjuntivo condicional: Se ela realmente comprar uma casa, ... g) Questão (Wh-question) (Não-Ref?): Quem comprou uma casa? h) Negação (Não-Ref): Ela comprou uma casa. O princípio que governa esta gradação parece ser: • Quanto maior a probalidade de ocorrência do evento, maior a probabilidade de os nominais sob o escopo irrealis serem interpretados como referenciais (Givón 2001:450). O autor apresenta ainda três escalas de gradação da referencialidade que se combinam em uma grande escala baseada em exemplos como os citados abaixo: a) b) c) d) e) f) Você viu alguma coisa lá? Você viu alguém lá? Você viu qualquer homem lá? Você viu algum homem lá? Você viu um ho mem lá? Você viu um homem alto lá? g) h) Você viu um homem alto vestindo camisa azul? Você viu um homem lá vestindo uma camisa azul e sentado em um barril vermelho e girando um bastão cinza em sua mão esquerda? Podemos perceber uma clara gradação de (a) para (h) em termos de referencialidade. Givón afirma que tal gradação parece estar ligada a três mecanismos gramaticais ilustrados na escala seguinte: Mecanismos gramaticais codificando a força referencial a) A escala de artigos indefinidos: qualquer>algum>um b) A escala de modificação restritiva menos>mais c) A escala de especificação nominal coisa>pessoa>nome específico 2.2 Quantificador e Referencialidade - Para falar dos quantificadores, o autor volta a mencionar a tradição lógica para falar da possibilidade de referencialidade que estes itens apresentam nas línguas naturais, diferentemente do que os lógicas postularam, como nos exemplos que vêm abaixo. A tradição lógica considerou por muito tempo que as expressões nominais podiam ser usadas em dois sentidos, um referencial traduzido pela terminologia ‘Aristotélica’ (Aristotle’s sensus divisus), o outro genérico (Aristotle’s sensus compositions). Em Russel (1905 apud Givón 2001) temos a distinção entre quantificador existencial (referencial) e universal (genérico, não-referencial): Quantificador Universal (não referencial) All Greeks are bald. Todos os Gregos sao carecas ‘Para todo (x), se (x) é grego, então (x) é careca’. Quantificador Existencial (referencial) Sócrates is bald. Sócrates é careca. ‘Existe um (x), tal que (x) é Sócrates e (x) é careca’. (Givón, (2001: 440) O autor comenta que a distinção feita por estes estudiosos não corresponde ao que realmente acontece em linguagens naturais. Em vez disso Givón afirma que contrastes entre referenciais e nãoreferenciais podem aparecer em três ambientes gramaticais: Predicados Nominais, Escopo de Irrealis, e Escopo de negação: Predicados Nominais a) Referencial Ela é uma professora que eu encontrei no colégio (Você me perguntou quem era ela) b) Não-referencial John é um professor (Você me perguntou o que ele faz (função)) Escopo de Irrealis a) Referencial Ela estava procurando por uma professora que eu recomendei (mas não a encontrou) b) Não-referencia l Ela estava procurando uma professora para ensiná-la (mas não encontrou nenhuma) Escopo de Negação a) Referencial Ela não encontrou a professora que eu recomendei (Ela está fora da cidade) b) Não-referencial Ela não encontrou uma professora que lhe ensinasse3 . (Givón, 2001: 440) 3 Adaptação do exemplo traduzido da língua inglesa. Os exemplos servem para ilustrar a afirmação feita acima sobre os ambientes gramaticais. Vemos que o artigo indefinido “uma” tanto pode ser interpretado como referencial quanto não-referencial. As considerações do autor sobre o quantificador vêm mostrar que diferentemente da teoria lógica, abordagens mais modernas sobre o assunto não consideram apenas distinções como universal vs. existencial ou existência no mundo real vs. não existência no mundo real. Baseando-nos nessa proposta de Givón, fazemos uma análise mais aprofundada sobre o quantificador “tudo” e a referencialidade na próxima seção. 3. “Tudo” em Língua Portuguesa: Referencialidade Nessa seção analisaremos os dados conforme a proposta apresentada, fazendo os devidos comentários sobre a atuação das modalidades proposicionais sobre o status referencial, assim como de outros mecanismos gramaticais que possam estar atuando. A análise organiza-se da seguinte maneira: listamos as sentenças das quais “tudo” faz parte, mostrando um possível contexto discursivo, representado por (CD), e as informações que o falante (IF) possui a respeito da mesma; classificamos a ocorrência de “tudo” quanto a sua função (F); classificamos a modalidade discursiva sob cujo escopo “tudo” está (MD); por fim, baseando-nos nas constatações anteriores, apontamos o status referencial de “tudo”. (1) Eu tive meus filhos TUDO com parteira. ... eu tinha meus filhos tudo em casa. CD:...hoje, o José, o João, a Maria e a Rita tem tanta saúde quanto os nasceram em um hospital. IF: grupo de pessoas que são os próprios filhos: José, João, Maria e Rita F: (Q) Anafórico MF: Asserção realis; tempo verbal: passado SR: Referencial filhos das minhas irmãs que Em nosso exemplo o grupo filhos se restringe no contexto e na própria proposição, por isso chamaremos este grupo, restrito4 . Nesse exemplo o possessivo “meus” subclassifica o que chamaremos classe ampla, no caso “filhos”. Ou seja indica que os filhos citados não são outras pessoas, outros filhos que não os próprios filhos do falante. Além disso, o possessivo de primeira pessoa indica uma íntima relação entre o falante e o correferente de “tudo”“meus filhos”. A tabela apresentada na proposta de Givón segundo a qual, a modificação restritiva é um dos mecanismos gramaticais que codifica a força referencial, prediz o que vemos nesse exemplo. A relação com a modalidade proposicional se mantém. (2) ...quinta série e era contra a sexta e as gurias eram TUDO grandes, ... CD: as gurias da oitava série eram menores e por isso não participaram da competição IF: grupo restrito, pois a classe “gurias” é subclassificada: classe formada pelas gurias da quinta e da sexta série de um determinado colégio em determinada competição. F: (Q) Anafórico MP: Asserção realis; Tempo verbal: passado. SR: Referencial (3 ) ...pode trazer teus papéis TUDO, que o ano que vem... CD. Já tens eles prontos, mesmo! 4 Segundo Liberato (2001: 42-47), para que um SN remeta inequivocamente ao referente pretendido, o falante deve fornecer uma descrição do referente suficientemente detalhada para distingui-lo de todos os outros referentes possíveis no universo do discurso. Atribuir uma característica a um referente é enquadrá-lo em uma classe (...) Toda descrição, mais ou menos detalhada, começa com uma classe mais ampla que vai sendo restringida na medida do necessário (...)A autora define classificador - delimita a classe mais ampla em que o referente é enquadrado numa determinada descrição. Na primeira sentença analisada temos filhos como exemplo de classificador. Para a restrição de uma classe ampla Liberato define o que seja subclassificador – delimita uma subclasse de uma classe mais ampla em que o referente é enquadrado na descrição e que engloba outras subclasses possíveis no contexto (tem função restritiva). O exemplo na sentença (1) apresenta como subclassificador de “filhos”, “meus”. IF: papéis (documentos) solicitados em uma listagem para a efetuação de determinada inscrição. O ouvinte conhece a mesma e já declarou ao falante que tem todos os papéis em casa. F: (Q) Anafórico MR: Asserção Irrealis; o modal “pode” determina esta modalidade proposicional. Apesar de o modal ‘pode’ projetar a ação para o futuro, e isso poder indicar não-referencialidade, o que parece ter mais força é o possessivo ‘teus’ que restringe a classe papéis. Tal classe é mais restringida ainda fora do discurso, pois o ouvinte sabe exatamente quais dos papéis (documentos) que ele tem em casa, terá que trazer. (SP): Referecial (4) As casas eram todas pequenininhas, TUDO de tauba, eram todas coisinhas pretinhas ... CD: Morei no Bairoo São José. Lá as casas.... IF: casas de um determinado bairro. Função: (Q) Anafórico MP: Asserção Realis; tempo verbal: passado. SR: Referencial Apesar de a classificação só ser restringida no contexto discursivo, consideramos a expressão referencial, pois não são quaisquer casas, mas as casas daquele bairro conforme apontam as informações do falante. (5) ...quero encher o carro de bolo e doce e levar embora e comer aquilo TUDO. CD. ... mas ainda não sei quais bolos e doces. IF: o falante planeja comprar quaisquer bolos e doces. F: (Q) Anafórico MP: Asserção Irrealis; O modal “querer” é inerentemente irrealis, pois projeta a ação para o futuro. SR: Não referencial O exemplo se configura em não-referencial, em primeiro lugar porque a MP permite essa interpretação, em segundo lugar por não apresentar nenhuma mecanismo de restrição das classes “bolos” e “doces”. Se transformarmos o exemplo, mantendo toda a estrutura original, mas usando algum subclassificador para “bolos” e “doces”, podemos ter um uso referencial de “tudo”: ...quero encher o carro com os bolos e doces que a Denise me deu e comer aquilo TUDO. (6) ...a gente estava indo embora TUDO, e os caras chegaram por trás. CD. Eu, o jonas e o marcelo fomos em um bar e quando... IF: o falante se inclui no grupo que, portanto, é restrito, mesmo que subclassificações não apareçam no discurso. F: (Q) Anafórico MP: Asserção Realis; tempo verbal: passado. SR: Referencial (7) Aí tu juntas TUDO isso numa tigela... CD: Tu vais usar 2 ovos, 2 xícaras de farinha de trigo e 1 pitada de sal. IF: os grupos não são restrito, é qualquer ovo, qualquer farinha etc . F: (Q) Anafórico Resumitivo MP: Asserção Irrealis; verbo ‘juntas’ projeta a ação para o futuro. SR: Não Referencial Obs.: A mesma sentença pronunciada no tempo passado, ou seja sendo uma Asserção Realis, poderia ter um “tudo” referencial, pois a possibilidade de ser qualquer ovo, farinha etc, se perderia. (8) Os assaltantes vêm TUDO de fora. CD: A vila era calma, não tinha violência, o pessoal era o mesmo de sempre, mas começou a crescer... (IF): a classe não sofre restrições; tratam-se de quaisquer assaltantes. Função: (Q) Anafórico MP: Asserção irrealis; no português o tempo verbal presente parece revelar habitualidade da ação assim como o gerúndio. SR: Não Referencial (10) Esses prédios novos que estão surgindo, TUDO com elevador. IF: qualquer prédio que esteja sendo construído ou possa vir a ser construído terá elevador. F: (Q) Anafórico MP: Asserção irrealis; o aspecto verbal presente no gerúndio revela uma continuidade da ação, algo não acabado com projeção futura, continuidade. SR: Não-Referencial Mesmo com a subclassificação “novos” e “que estão surgindo” o exemplo permanece nãoreferencial, pois a idéia da continuidade de surgimento dos prédios nega qualquer delimitação do objeto. Analisados alguns dados, parece ser possível estabelecer um quadro de gradação de referencialidade do item lexical “tudo”: * Quadro de Gradação de Referencialidade do “Tudo” Probabilidade de Referecialidade Maior probabilidade........................................Menor probabilidade Tipo de Correferente Modalidade Proposicional Função Falante-participante Factual Sub-classificado Classe ampla Não Factual (Q) Anafórico ou Catafórico que seja Resumitivo (Q) Anafórico ou Catafórico (Q) Anafórico ou Catafórico que seja Ampliador 5 4. Algumas Considerações - Este estudo mostra a possibilidade de analisarmos a referencialidade partindo da relação existente entre expressão nominal e a modalidade proposicional sob qual escopo está. Constatamos que o status referencial do item lexical com funções do tipo (Q) com correferentes nominais no discurso é sensível ao escopo da modalidade proposicional sob o qual está. Como na análise de Givón para os ‘indefinidos’, nosso fenômeno se mostrou referencial sob o escopo factual, asserção realis; e tanto referencial quanto não-referencial sob escopos não-factuais, asserção irrealis. O status referencial do quantificador “tudo” se mostrou bastante sensível a um outro mecanismo gramatical citado pelo autor, modificação restritiva. A participação do falante no escopo da expressão nominal também se mostrou relevante, apesar disso não ser citado por Givón. Como já dissemos a análise da referencialidade, neste estudo, contempla apenas algumas das funções de “tudo” e sendo assim não se completa aqui. Este trabalho, como parte de uma pesquisa em andamento, tem por objetivo mostrar uma das muitas propostas existentes para os estudo referencial de “tudo”; assim como servir de base para os estudos que seguirão sobre o “tudo” sob outros enfoques. RESUMO: O vocábulo “tudo”, classificado como pronome indefinido, é nosso foco nesse artigo. Estudamos o vocábulo sob uma perspectiva funcionalista. Pretendemos estabelecer se o vocábulo pode apresentar * O quadro ainda é uma hipótese por não termos todos os dados necessários para confirma-lo. Nem todas as funções citadas para esta análise apresentaram dados adequados para serem analisados aqui. O quadro resulta de algumas simulações de discurso, feitas pela autora. Os traços tipo de correferente, modalidade proposicional e função parecem exercer influência sobre a referencialidade, mas não, necessariamente, precisam estar co-ocorrendo juntos. 5 A função de quantificador ampliador não está entre os exemplos analisados neste trabalho e para exemplificar temos: “Chegando do colégio, tu varres a casa, lava a louça, TUDO”. Tanto o falante quanto o ouvinte sabem que os itens quantificados por “tudo” não se restringem aos citados na sentença, por isso a função é ampliador, diferentemente da função de resumitivo, que quantifica apenas o que é citado na sentença. referencialidade..Temos um fenômeno sensível `a modalidade discursiva sob qual escopo recai e apresentase com diferentes níveis de referencialidade. PALAVRAS-CHAVE: funcionalismo; funções; pronome indefinido; ‘tudo’; referencialidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CARDOSO, Sílvia Helena Barbi. A questão da referência: das teorias à dispersão de discursos. Campinas, SP: Autores Associados, 2003. CASTILHO, Célia M. M . Quantificadores Indefinidos (Observaçãoes para uma abordagem sintática). In: Castilho, Ataliba Teixeira de (org.) Gramática do português falado. Editora da UNICAMP, São Paulo: FAPESP, 1993. GIVÓN, Talmy. English Grammar: a function-based introduction . Amsterdan/ Filadelfia. John Benjamins Publishing. 1993. ___________. Functionalism and Grammar. Amsterdan/ Filadelfia. John Benjamins Publishing. 1995 ___________. Sintax – An Introduction. Amsterdan/ Filadelfia. John Benjamins Publishing. 2003 LIBERATO, Yara Goulart. A estrutura interna do SN em Português. In: Decat, Maria Beatriz Nascimento et al.(orgs) Aspectos da gramática do Português:uma abordagem funcionalista. Mercado de Letras, Campínas, SP, 2001.