Linguagem: sentido e subjetividade 1
Resumo:
O presente texto objetiva analisar as discussões acerca do sentido na
linguagem presente no livro Lógica do sentido, de Gilles Deleuze, e contrastálos como a narrativa de Clarice Lispector presente no livro Água viva.
A partir do conceito de fluxo, de devir e de acontecimento puro, analisa-se a
abrangência que a linguagem e a subjetividade tomam sob este novo
paradigma da linguagem.
Procura-se através deste texto mostrar que atrás de uma linguagem que segue
padrões racionais encontramos também uma linguagem que se desenvolve na
esteira de paradoxos, que muitas vezes através de uma narrativa poética,
deixa transparecer uma gama infinita de suas possibilidades de sentido e
significação e chega as proximidades de dizer sobre a própria constituição do
ser e de sua subjetividade.
Palavras-chaves:
Linguagem; Filosofia; Clarice Lispector; Devir.
“Estou consciente de que tudo o que sei não posso dizer, só sei pintando e pronunciando
sílabas cegas de sentido. E se tenho aqui que usar-te palavras, elas têm que fazer um sentido
quase que corpóreo, estou em luta com a vibração última”.
Clarice Lispector
Ao discutirmos as abordagens possíveis da linguagem nos deparamos quase
que imediatamente com a dimensão última de nossa constituição como seres
de expressão e sentido.
Quando nos referenciamos à linguagem, analisando suas estruturas, podemos
encontrar algo muito maior que meras conexões lógicas de sentido. Talvez
devêssemos deixar de lado concepções e regras lineares conduzidas pela
racionalidade formal tradicional para discutirmos tal questão.
As discussões de vertentes contemporâneas acerca da linguagem trazem à
reflexão a necessidade de se ampliar ao máximo o conceito de sentido, de
esmiuçar sua gama infinita de possibilidades.
1
Trabalho apresentado no Encontro Paulista de Filosofia Clínica – Campinas – SP
1
O filósofo francês Gilles Deleuze em seu livro Lógica do sentido nos diz que a
teoria do sentido é formada por uma série de paradoxos, esta teoria não é
separável dos paradoxos, pois, assim como afirma Deleuze, o sentido é uma
entidade não–existente, ele tem com o não-senso relações muito particulares.
Entender o sentido ampliado e amparado numa série de paradoxos equivale a
dizer que há aí uma ruptura com padrões tradicionais da concepção e
abordagem deste conceito, estes padrões diziam, ou faziam com que o bom
senso dissesse, que há sempre um sentido determinável em todas as coisas.
Já abordar o sentido no âmbito dos paradoxos é a afirmação de que este existe
dentro de acontecimentos contraditórios ao mesmo tempo, não havendo dessa
forma para ele uma única determinação apenas.
Os acontecimentos são descritos por Deleuze como uma simultaneidade de um
devir cuja propriedade é furtar-se ao presente. Na medida que o devir se furta
ao presente ele não suporta mais a separação do antes e do depois, do
passado e do futuro. A essência desse devir é avançar nos dois sentidos,
passado e futuro, ao mesmo tempo. Não há determinação ao sentido que se
ampara neste devir, neste puro devir, que é ilimitado – determinação entendida
aqui como encerrar apenas uma possibilidade ao sentido.
Quando tomamos a explicitação de Deleuze acerca do devir e de sua essência,
podemos identificá-lo, descrito de maneira poética, na obra de Clarice
Lispector, Água viva, como o instante-já. Ela explicita a tentativa de abordagem
deste instante-já, deste puro devir:
(...) estou tentando captar a quarta dimensão do instantejá que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se
um novo instante-já que também não é mais. (...) Esses
instantes que decorrem do ar que respiro (...) E quero
capturar o presente que me é interdito (...) a atualidade
sou eu sempre no já. (Lispector, 1998. p. 9)
A proposta de abordar o sentido na dimensão do devir é algo que promove ou
evidencia toda uma abordagem filosófica de ruptura com os paradigmas
tradicionais, pois é retirar da base de suas indagações o alicerce imóvel,
2
estável, e consolidar as bases do pensamento numa corrente de fluxo, de
movimento e de constante geração de sentido. Eis porque dizer que o sentido
se instala numa série de paradoxos, que ele se mantém simultaneamente em
todas as dimensões e direções do devir.
Segundo Deleuze, a relação do devir com a linguagem já aparece desde
Platão, em Crátilo, sendo questionada. Deleuze questiona:
Não seria talvez esta relação essencial à linguagem,
como em um ‘fluxo’ de palavras, um discurso
enlouquecido que não cessaria de deslizar sobre aquilo
a que se remete sem jamais se deter? (Deleuze, 2006.
p. 2)
A linguagem sendo abordada dessa forma aparece, para Deleuze, como sendo
aquela que, ao mesmo tempo em que possui a característica de fixar os limites
possui também a capacidade de ultrapassá-los e os restituir à equivalência
infinita de um devir ilimitado. Disso decorrem as inversões promovidas pelos
paradoxos em que se deslocam os sentidos da linguagem, está contida nestas
inversões uma mesma conseqüência, ou seja, a contestação de uma
identidade única e fixa do sentido que se enuncia na linguagem. Com essa
contestação perde-se de vista uma base que, de certa maneira, garante a
permanência de um saber, pois este saber agora demanda um entrelaçamento
dos contrários que são arrastados pelo puro devir e deslizam na linguagem dos
acontecimentos, é neste ponto, também, que toda a identidade prévia de um eu
na linguagem se perde. As garantias de um saber permanente se dissolvem
nas possibilidades de um saber ainda mais abrangente, que considera o
sentido presente na simultaneidade do devir.
O paradoxo é, em primeiro lugar o que destrói o bom
senso como sentido único, mas, em seguida, o que
destrói o senso comum como designação de identidades
fixas. (Deleuze, 2006. p.3)
Ao lermos a narrativa de Clarice Lispector em seu livro Água viva2 percebemos
que seu discurso acontece exatamente em consideração a esses extremos da
linguagem, acontece na esteira dos paradoxos. Esses paradoxos são trazidos
para o questionamento de um eu da linguagem, ou seja, é trazida à
2
Esta obra de Clarice Lispector, que teve uma primeira edição em 1973, inicialmente se
chamaria Atrás do pensamento: um monólogo com a vida e em seguida Objeto gritante.
3
manifestação de uma linguagem interna ao raciocínio, que se diz sempre em
primeira pessoa.
Há em sua narrativa a demonstração do sentido que se constrói em
consonância ao tempo fluído e que é igualmente absorvido num fluxo que
entrelaça passado e futuro num presente constante. Dentro desta perspectiva
podemos nos remeter à importância dada à questão do tempo que os estóicos
reformulam e que Deleuze explora para uma nova reflexão acerca de uma
lógica presente no sentido, uma lógica que parece estar atrás do pensamento,
atrás de um raciocínio causístico, de uma lógica que não decorre de uma
sucessão do tempo, que não necessita da explicitação da relação de causa e
efeito para sua compreensão.
Segundo Deleuze, os estóicos designam duas espécies de coisas, a primeira
se refere aos estados de coisas - os corpos, as misturas dos corpos -, e a
segunda se refere aos efeitos incorporais - os acontecimentos.
Aos estados de coisas, os corpos, o único tempo possível é o tempo presente,
pois o presente vivo, de acordo com Deleuze, “é a extensão temporal que
acompanha o ato, que exprime e mede a ação do agente, a paixão do
paciente”. Na medida da unidade dos corpos entre si, na medida da interação
do princípio ativo e passivo, pode se falar, ainda segundo Deleuze, da
existência de um presente cósmico que envolve todo o universo, e que,
portanto, só os corpos existem no espaço e só o presente no tempo. Não existe
relação de causa e efeito entre os corpos, eles são causas entre si, e na
extensão do presente cósmico essa unidade de causas entre si é chamada de
destino.
No que se refere à segunda distinção das espécies de coisas da qual nos fala
os estóicos através de Deleuze, temos a questão dos efeitos incorporais. Estes
são atributos lógicos ou dialéticos, com já dito, são os acontecimentos. Antes
porém que estes acontecimentos existam, eles subsistem, eles insistem, ou
4
seja, eles parecem estar numa dimensão intrínseca à existência dos estados de
coisas.
Segundo Deleuze, assim como o sentido, os acontecimentos são entidades não
existentes. No âmbito da linguagem eles não são nem os substantivos, nem os
adjetivos - estes se encaixariam melhor na classificação recorrente aos estados
de coisas -, eles são os verbos.
Os acontecimentos são os resultados impassíveis das relações entre os corpos,
eles não são presentes vivos, eles são infinitivos. A dimensão do tempo que
abrange os acontecimentos, Deleuze nos diz chamar-se Aion.
O tempo Aion é um devir que se divide ao infinito em passado e em futuro e
sempre se esquiva o presente.
Sob essa perspectiva, então, o tempo deve ser apreendido de duas maneiras
complementares: como tempo inteiro, presente vivo nos corpos que agem e
padecem; e inteiro como instância infinitamente divisível em passado e futuro,
presente nos efeitos incorporais que resultam dos corpos, de suas ações e de
suas paixões.
A dimensão presente, portanto, existe no tempo e reúne passado e futuro. A
dimensão passado-futuro insiste no tempo e divide infinitamente cada presente.
Desta distinção, segundo Deleuze, decorre que não devemos encarar, ou
interpretar, passado, presente e futuro como três dimensões sucessivas, mas
sim como duas leituras simultâneas do tempo.
Quando dissociam a relação de causalidade presente na abordagem do tempo,
os estóicos e os epicuristas deslocam a reflexão filosófica, ou seja, as coisas
não são mais atributos de uma Idéia, como no platonismo, mas sim atributos
das misturas dos corpos e que resultam nos acontecimentos puros.
5
Para Deleuze a dissociação da relação causal sempre nos remeterá à
linguagem, seja a partir de uma declinação das causas, seja a partir da
existência e uma conjugação dos efeitos.
A dualidade entre os corpos, ou estados de coisas, e efeitos incorporais
conduz, portanto, a uma subversão da filosofia. Esta subversão, que fora
promovida pelos estóicos e epicuristas, faz com que tudo que se achava preso
e justificado da profundidade da idéia de ser suba à superfície, o devir não é
mais um fundo que se acha recalcado, repelido na profundidade dos corpos, o
devir não é mais o simulacro que escapa do fundo, ele é agora efeito que se
manifesta e desempenha seu papel na superfície do pensamento, assim como
disse Deleuze: “o que se furtava à Idéia subiu à superfície, limite incorporal, e
representa agora toda a idealidade possível, destituída esta de sua eficácia
causal e espiritual”. (op. cit., p.8)
A importância de se trazer a reflexão sobre o devir à superfície é devida ao fato
dele se configurar no próprio acontecimento, pois este reúne de forma
abrangente
os
paradoxos.
O
acontecimento
é
o
paradoxo
vivido
simultaneamente. Nos acontecimentos encontram-se os contrários ao mesmo
tempo.
No paradoxo tudo se passa na fronteira entre as coisas e as proposições, as
enunciações da linguagem. O paradoxo aparece, portanto, como a destituição
da profundidade, como a exibição dos acontecimentos na superfície, como
desdobramento da linguagem ao longo deste limite, entre profundidade e
superfície.
A incorporação do devir, do acontecimento e da misturas dos corpos à
linguagem é de uma tal vitalidade que podemos observar na narrativa de
Lispector uma nova constituição da subjetividade a partir deste novo paradigma
da linguagem. Clarice Lispector narra a necessidade de uma mistura tão
6
original entre o corpo e o fator incorporal decorrente da relação de estar no
mundo, que é possível observar o fluxo de pensamento que se esvai da vida e
toma uma dimensão espetacular do sujeito que se agarra e se constitui sob
uma forma toda autentica de relações infinitamente possíveis. Não há fixidez
para essa nova caracterização do sujeito, este exige a própria ambiência num
efêmero presente.
O presente é o instante que a roda do automóvel em alta
velocidade toca minimamente no chão. E a parte da roda
que ainda não tocou, tocará num imediato que absorve o
instante presente e torna-o passado.(..) Mais que um
instante, quero o fluxo. (Lispector, 1998. p.15)
Quando passamos a considerar a linguagem como uma ferramenta de
expressão e de articulação do homem e do mundo, passamos a entender
também que há com a linguagem a criação da subjetividade que incorpora para
si uma dimensão de infinitas possibilidades, pois essa constituição instala-se no
fluxo dos acontecimentos, é esta uma constituição livre, ela segue
simultaneamente nas direções intrínsecas do devir ilimitado.
A noção de sentido, assim como Deleuze explora em seu livro Lógica do
sentido, é notada também na obra Água viva de Clarice Lispector. Podemos
notar que não há a defesa da existência prévia e estática do sentido, pois
sendo este decorrente do fluxo dos acontecimentos ele extrapola limites de
fixidez, tanto de compreensão quanto de enunciação.
Nesse instante-já estou envolvida por um vagueante
desejo difuso de maravilhamento e milhares de reflexos
do sol na água que corre da bica na relva de um jardim
todo maduro de perfumes, jardim e sombras que invento
já e agora são o meio concreto de se falar neste meu
instante de vida. Meu estado é o de jardim como água
correndo. Descrevendo-o tento misturar palavras para
que se
faça. O
que
te digo deve ser lido
rapidamente como quando se olha. (Lispector, 1998.
p.16)
O sentido que se considera sob esse ponto de abordagem, de um ponto,
portanto, que escapa ao estático, nos faz refletir que não o podemos captar a
não ser vivendo cada coisa que decorra dos acontecimentos. Mais uma vez
podemos notar que entre os acontecimentos e a linguagem há uma relação
7
fundamental, essencial, pois todas as decorrências dessas implicações são
expressas.
A constituição, tanto da linguagem quanto da subjetividade, é expressa através
das proposições. Deleuze destaca três relações distintas entre as proposições,
que aqui serão brevemente destacadas apenas para evidenciar a necessidade
da ampliação do conceito de sentido.
A primeira relação das proposições diz respeito à designação ou indicação,
esta trata da relação do que se enuncia ao estado de coisa. A designação
opera pela representação do estado de coisa. Da designação não se pode
dizer que é necessária. Nesta primeira distinção, o que conta é que certas
palavras na proposição servem apenas como formas vazias, portanto, a
designação não é um conceito universal, ela é singularidade formal e tem
apenas papel de designantes ou indicadores. Os nomes próprios são, dentre
as designações, os de importância especial, pois são os únicos a formarem
singularidades materiais. O valor lógico da designação é verdadeiro ou falso,
ou seja, podemos dizer que uma designação é verdadeira ou falsa a partir da
representação que expressa do estado de coisa.
A segunda relação das proposições é a relação de manifestação, esta é a
relação da proposição com o sujeito que fala e que se exprime através dela. A
manifestação não deve ser considerada secundária em relação à designação,
ao contrário é ela que a torna possível. Dentre as proposições há os
manifestantes, e o manifestante de base é o eu, este tem a mesma importância
do nome próprio para a designação. O manifestante eu serve de princípio a
toda designação possível. O valor lógico da manifestação é o poder de dizer a
veracidade ou o engano da proposição.
A terceira relação da proposição é a relação de significação, esta é a relação
da palavra com conceitos universais e gerais. Nesta relação os elementos da
proposição são considerados significantes das implicações de conceitos que
8
podem remeter a outras proposições. A significação define-se, como afirma
Deleuze, por essa ordem de implicação conceitual em que uma proposição é
considerada elemento de uma demonstração, no sentido mais geral da palavra.
A implicação denota a relação da premissa com a conclusão expressa na
proposição. O valor lógico da significação é o poder de dizer a condição de
verdade desta. Segundo Deleuze, quando se define a significação com o valor
lógico de dizer a condição de verdade, atribui-se a ela o que é característico ao
sentido, pois quando falamos a condição de verdade nós nos posicionamos
acima do verdadeiro e do falso, uma vez que uma proposição falsa tem um
sentido ou uma significação. O mesmo acontece quando atribuímos verdade a
uma proposição, pois há muitas formas de possibilidades da proposição.
Após nos mostrar estas três distinções das relações das proposições, Deleuze
nos conduz a necessidade, assim como a que Clarice Lispector manifestou, em
Água viva, o desejo de capturar a quarta dimensão do instante-já, de se
acrescentar a essas relações uma quarta dimensão que é a do sentido.
Sob essa perspectiva o sentido ganha uma dimensão que ultrapassa as
condições da significação da linguagem.
Para Deleuze, o sentido não pode se localizar na designação, pois esta, como
vimos, diz sobre a verdade e a falsidade de uma proposição e o sentido, em
razão de sua evanescência, não pode constituir-se naquilo que torna uma
proposição verdadeira ou falsa. Contudo, é certo que toda designação supõe
um sentido e de antemão nos instalamos no sentido para operar toda
designação.
Na tentativa de identificar o sentido à manifestação da proposição, segundo
Deleuze, teremos maiores chances de êxito, uma vez que os designantes têm
sentido a partir de um eu manifesto na linguagem. Daí poderíamos concluir que
o sentido reside nas crenças e desejos 3 daquele que se exprime e se manifesta
3
Deleuze define crença e desejo com inferências causais e não associações. O desejo é a
causalidade interna de uma imagem que se refere à existência do objeto ou estado de coisa
9
pela linguagem. Porém, é apenas num último recurso que acontece a
identificação do sentido à significação.
Quando lançamos a questão do sentido dentro das dimensões das proposições
somos jogados num círculo e reduzidos a paradoxos, em que a significação
jamais poderá exercer o papel de último fundamento e pressupõe uma
designação irredutível.
A significação e o sentido se diferem porque no âmbito da condição de verdade
o sentido encontra-se acima do verdadeiro e do falso de uma proposição.
Desta forma, então, o sentido assume a condição de possibilidade de uma
proposição. É o sentido o incorporal presente na superfície das coisas,
entidade complexa, irredutível, acontecimento puro que insiste e subsiste na
proposição. O sentido é expresso na proposição.
Através da leitura que Deleuze faz dos estóicos, estes quando se referiam ao
sentido diziam que ele não era nem palavra, nem corpo, nem representação
sensível, nem representação racional, mais do que isto, o sentido seria, talvez,
neutro, indiferente por completo tanto ao particular quanto ao geral.
O sentido está na fronteira entre a linguagem e o mundo, entre a proposição e
os estados de coisas, podemos, portanto, tanto inferir indiretamente o sentido
através do círculo das proposições, quanto podemos fazê-lo aparecer por si
mesmo no desdobramento que ocorre ao longo da fronteira entre a proposição
e as coisas.
A essa nova dimensão do sentido e da linguagem que Deleuze nos traz, como
já dito anteriormente, somos lançados a uma enorme gama de liberdade para a
configuração do processo de subjetivação. Nossa existência, sob esse novo
prisma, ganha uma significação que ultrapassa os limites de meras
designações do eu. A subjetivação do eu, nesse sentido, reúne em si toda a
correspondente. A crença é a espera desse objeto ou estado de coisa, enquanto sua existência
deve ser produzida por uma causalidade externa.
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dimensão do devir, do tempo, da linguagem e da vida. Esse processo segue a
fluidez da existência de uma realidade que é sempre em movimento
constituída. Assim como o sentido encontra-se na fronteira entre linguagem e
mundo, a subjetividade é a fronteira entre o que se manifesta, que se grita, pela
linguagem e o que fica intrínseca desse processo de supremacia do sentido
fluído.
O sentido, como afirma Deleuze, tem agora uma dimensão de neutralidade a
partir do momento que se encontra além da veracidade ou da falsidade
expressa na linguagem através das proposições. O sentido é neutro justamente
porque se mantém indiferente a todos os opostos, estes são somente modos
das proposições consideradas em suas relações com as designações e
significados e não características do sentido que se exprime através delas. A
característica de neutralidade do sentido reside exatamente na reunião de
elementos opostos ao mesmo tempo.
A partir dessa abordagem que caracteriza a neutralidade do sentido no âmbito
da linguagem, podemos ver também em Água viva a identificação de um
elemento neutro na constituição da subjetividade, na constituição de um
sentido intrínseco à existência da subjetividade, o que Lispector chama de “it”,
ou o impessoal que transcende as fronteiras que cercam as determinações do
eu, aquelas determinações que atribuem gêneros ao eu, que dizem os limites
do eu, que determinam o eu masculino e o eu feminino. O impessoal da
subjetividade aponta para a liberdade de se atribuir sentido para o eu, pois este
se encontra no fluxo de um devir ilimitado, este eu expande-se em direções
opostas ao mesmo tempo. Não é absurdo, portanto, dizer que um eu
impessoal, assim como um sentido neutro, não tenha significação, o absurdo, a
partir da leitura de Deleuze, é dizer que não há atribuição de sentido, de
significado as impessoalidades e contraditoriedades expressas e contidas na
linguagem e na constituição da dimensão subjetiva do ser.
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Ao nos dizer sobre o eu Lispector nos coloca em contato e em ambiência aos
acontecimentos, pois descreve um eu elástico e separado de outros corpos,
assim como já apontava a distinção dos estóicos sobre os efeitos incorporais e
os estados de coisas4. Na medida em que o eu se instala no fluxo dos
acontecimentos
ele
é
e
constitui-se
em
processo,
na
medida
dos
acontecimentos o eu é e vai tomando para si o sentido de sua existência. O eu
que Lispector explora em sua narrativa 5 parece estar localizado numa
dimensão além da lógica racional, numa dimensão, que como ela mesmo nos
diz, atrás do pensamento6 e com sua impessoalidade que lhe é própria está
ávido de sentido.
Será que isto que estou te escrevendo é atrás do
pensamento? Raciocínio é que não é. Quem for capaz
de parar de raciocinar – o que é terrivelmente difícil que
me acompanhe.(...) Mas sou caleidoscópica: fascina-me
as
minhas
mutações
faiscantes
que
aqui
caleidoscopicamente registro (LISPECTOR, 1998. p. 30
– 31)
Através desse novo paradigma, tanto da abordagem do tempo quanto do
sentido, pudemos observar que tudo nessa relação passa pela linguagem e na
linguagem. A linguagem expande suas fronteiras em direções que vão muito
além de paradigmas estáticos. Quando consideramos o movimento, o fluxo,
acerca da linguagem podemos abranger as dimensões que quase sempre
permanecem ocultas nas discussões sobre a constituição da subjetividade,
pois esse fluxo abrange todas as contradições que se manifestam ao mesmo
tempo, na medida em que somos nas várias instâncias de nossas vidas.
Sob esse aspecto, então, assim como nas palavras de Clarice Lispector,
quando nos referimos a nossa subjetividade, somos como “um coração
batendo no mundo” (op. cit.,p.33), nossa subjetividade se constitui no ritmo de
cada batida, ela segue o fluxo dos acontecimentos ilimitados, incausados,
acontecimentos que são na medida em que são, assim, nossa subjetividade é.
4
A observação aqui feita é com base na leitura dos estóicos feita por Deleuze, em DELEUZE,
G. Lógica do sentido. São Paulo: perspectiva, 2006.
5
LISPECTOR, C. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
6
Op. cit. p. 27.
12
Quando nos referimos ao sentido da linguagem, a este, assim como também
nas palavras de Lispector, “não há padrão a seguir”. O sentido se expande
para todas as direções e permite que a linguagem abranja com muito mais
magnitude a realidade do mundo e de suas relações.
A análise do sentido na linguagem presente em Lógica do sentido parece nos
remeter a uma dissolução das formulações de uma linguagem ideal, ou seja,
daquela que busca regras universais para encerrar e decifrar os enigmas do
mundo, formulações que compreendem o mundo como objeto previamente
dado que necessita apenas ser decifrado para que sua verdade seja
conhecida. Quando somos, então, remetidos a essa dissolução nos deparamos
com possibilidades que a razão desconsidera em suas apreensões. A esse
respeito talvez as palavras de Clarice Lispector faça todo sentido: “Quando a
existência de mim e do mundo ficam insustentáveis pela razão – então me
solto e sigo uma verdade latente”. (op.cit., p.37)
Bibliografia:
DELEUZE, G. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 2006.
LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
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“Estou consciente de que tudo o que sei não posso dizer, só sei