INSPER Instituto de Ensino e Pesquisa RAFAEL MONNERAT DIREITO E FINANÇAS: COMO AS INSTITUIÇÕES IMPACTAM AS DECISÕES DE INVESTIMENTO São Paulo 2015 1 INSPER Instituto de Ensino e Pesquisa RAFAEL MONNERAT DIREITO E FINANÇAS: COMO AS INSTITUIÇÕES IMPACTAM AS DECISÕES DE INVESTIMENTO Dissertação apresentado ao Insper Instituto de Ensino e Pesquisa como requisito para obtenção do título de Bacharel em Economia apresentada a Andrea Minardi, Luciana Yeung e Michael Viriato. Campo de conhecimento: Análise Financeira do Direito (Law and Finance) Orientadora: Luciana Yeung São Paulo 2015 2 RESUMO Os países que oferecem um ambiente jurídico mais adequado ao desenvolvimento de negócios tendem a elevar o nível do retorno sobre o capital, uma vez que as decisões de investimento não são apenas afetadas por variáveis financeiras. O objetivo dessa dissertação é correlacionar duas vertentes - finanças e direito - tendo como resultado esperado obter um conjunto de variáveis capaz de explicar a diferença de retorno sobre o capital investido em diferentes países, a partir do ambiente legal. A contribuição deste estudo é indicar que as instituições são um fator relevante na política econômica, contribuindo para maior eficiência na alocação de recursos de empresas públicas e privadas. Palavras-chave: Law and Finance, instituições, retorno do capital. 3 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO................................................................................................................ 6 2. OBJETIVO ..................................................................................................................... 11 3. 4. REVISÃO DA LITERATURA ......................................................................................... 12 3.1. LAW AND FINANCE: LA PORTA ET AL (1998) .................................................... 12 3.2. TEORIA FINANCEIRA: MARKOWITZ (1952) E MODIGLIANI ET AL (1958) ......... 19 METODOLOGIA ........................................................................................................... 22 4.1. VÁRIAVEL RESPOSTA ......................................................................................... 24 4.2. VARIÁVEIS EXPLICATIVAS ................................................................................. 30 4.3. ESTIMAÇÃO ......................................................................................................... 37 4.4. RESULTADOS ...................................................................................................... 43 5. CONCLUSÃO ............................................................................................................... 50 6. REFERÊNCIAS ............................................................................................................ 51 7. APÊNDICE ................................................................................................................... 52 4 5 1. INTRODUÇÃO As decisões de alocação de capital têm uma importante função na trajetória de crescimento de um país. Quando estas decisões são eficientes, há um aumento na produtividade do trabalho que é capaz de gerar empregos e aumentar o nível renda. De forma contrária, estas podem acabar tendo o efeito reverso, tal que a fronteira de possibilidade de produção permaneça estagnada e limite a possibilidade de Produção (y) expansão da oferta em função da escassez de recursos. Depreciação Novo steady-state y’=f(K’,H,A) y=f(K,H,A) Steady-state inicial Estoque de capital (k) Figura 1: Modelo de Solow com inovação tecnológica Essa relação causal entre investimento e desenvolvimento econômico teve início com o trabalho de Solow (1950) sendo sucedida por outros autores como Mankiw, Romer & Weil (1992) e Jones (2009). Uma breve síntese desta discussão está apresentada na Figura 1, que mostra que um aumento no estoque de capital (k) é capaz de elevar a produção (y) de determinado país. Caso este investimento possua um retorno marginal superior ao antigo estoque, este novo capital será capaz de gerar inovações tecnológicas que, por meio da maior eficiência, irão se traduzir em maior renda para população. De forma análoga, existem investimentos capazes somente de sustentar o nível de depreciação de determinado país, sem que necessariamente haja um aumento na fronteira de possibilidade de produção (y) – na Figura 1 indicado pela função linear depreciação. Contudo, como está discussão está inserida no contexto do direito e das finanças? 6 Apesar das implicações para o desenvolvimento econômico terem sido esclarecidas, o processo de formação das variáveis que compõem o modelo ainda não possui evidências empíricas claras que indiquem como as instituições impactam a formação bruta de capital – apesar de serem um dos principais componentes nos modelos de desenvolvimento econômico. Um exemplo desta situação é descrito por Mankiw, Romer & Weil (1992) na determinação do estoque de capital humano, em que não há uma variável internacional que permita indicar a qualidade da formação de diferentes profissionais. Outro caso, por exemplo, é o nível de eficácia na criação de inovações tecnológicas entre países, já que: i. As instituições de proteção à inovação variam amplamente e; ii. Na maioria das vezes, essas instituições sofrem mais com as implicações de instituições informais – aquelas em que não há regulamentação oficial (hábitos e cultura) -, do que propriamente com instituições formais – aquelas em que há regulamentação oficial (leis de patentes e subsídios a inovação). Sendo assim, apesar do direito exercer uma importante relação no processo de desenvolvimento econômico, há pouca teoria que sustente as implicações de forma objetiva e quantitativa. Ainda que na teoria econômica não haja uma intersecção evidente entre a formação de capital (investimentos) e o direito (instituições), ao analisar a teoria financeira, há também poucas evidências empíricas no processo de alocação de capital. Ao tomar como base os principais autores responsáveis pela consolidação do conceito de estrutura de capital – Modigliani et al (1958) - e alocação da carteira - Markowitz (1952) -, poucas foram as análises que trataram sobre a influência regulatória de um país sobre o retorno do capital. Dada a especificidade do tema e a abordagem de cada um dos autores sobre os respectivos assuntos, a decisão de se alavancar ou alocar entre diferentes ativos é tratada como um processo exógeno, em que taxa de juros, alíquota de imposto, beta e outras variáveis - que não envolvam as instituições - são exógenas. No caso específico de Modigliani et al (1958), a estrutura de capital é abordada pela razão dívida e patrimônio líquido, tomando como base uma alíquota marginal (ou efetiva) de imposto de renda, retorno do ativo livre de risco e o modelo de CAPM (Figura 2). Dessa forma, o retorno do acionista será beneficiado por uma estrutura 7 ótima entre os elementos descritos, tal como irá se traduzir em um menor custo de Custo do capital capital próprio para companhia. Retorno esperado pelo acionista WACC Alavancagem (Dívida/patrimônio) Figura 2: Estrutura de capital por Modigliani et al (1958) Ainda que esta relação seja de amplo conhecimento entre analistas de investimentos e diretores financeiros, é comum que esta “alocação ótima” não seja satisfeita entre as empresas. Dessa forma, a implicação para o desenvolvimento econômico seria que os recursos disponíveis não estariam sendo utilizados da maneira mais eficiente possível, já que as empresas não estariam operando em sua estrutura ótima de capital. Do ponto de vista racional e econômico, por que as companhias não operariam em sua estrutura ótima de capital? Uma explicação possível é que, se em determinado país os contratos podem não ser cumpridos pelos agentes, a percepção das empresas sobre a estrutura ótima pode variar conforme o nível de confiança relacionados à perspectiva futura de geração de fluxo de caixa. Ou seja, se há pouca confiança de que a política macroeconômica será previsível nos próximos anos, a equação que satisfaz as condições de Modgiliani et al (1958) pode facilmente se alterar. Nesse sentido, a estrutura ótima de capital de uma companhia estaria mais associada à expectativa do cumprimento dos contratos do país, do que necessariamente atrelada à decisão de endividamento. 8 Sendo assim, estabelece-se algumas evidências de que existe uma lacuna entre o processo de alocação de capital e seu reflexo sobre o desenvolvimento econômico. Antecipando alguns dos objetivos desta dissertação, o propósito será indicar que o retorno do capital investido - que está diretamente associado a decisão de estrutura de capital – deve sofrer impactos diretos do ambiente institucional, que podem ter influência sobre o desenvolvimento econômico. Outro importante problema a ser discutido nesta dissertação será o diferencial de retorno entre os países. Como já apresentado acima, do ponto de vista econômico e financeiro, há poucas soluções para a questão de expectativa do cumprimento de contratos e obrigações entre os agentes. Dessa vez, analisando sob um espectro mais amplo, a partir da teoria financeira, como pode ser explicado o diferencial de retorno entre diferentes países? Nesse sentido, a teoria econômica prioriza a explicação do diferencial de crescimento em detrimento ao retorno absoluto entre dois países. De acordo com Markowitz (1952), o retorno de um mercado (agregado de ativos passíveis de investimentos em determinado país) está associado ao retorno histórico descontado à taxa livre de risco, tal que a diferença de retorno agregado de dois países é o prêmio/desconto relativo. Ou seja, logo de início, não há qualquer variável que evidencie quais são as relações de causa/consequência para existência deste Expectativa de retorno prêmio/desconto. Linha de mercado de títulos Beta Figura 3: Linha de retorno por Markowitz (1952) 9 Do ponto de vista de um ativo, por sua vez, a expectativa de retorno é, em parte, explicada como a variação média histórica deste ativo em comparação à carteira de mercado. A relação conhecida como CAPM assume a existência de equilíbrio no mercado de capitais, em que o investidor toma como base todas as informações disponíveis no mercado para tomar a decisão de investimento (Figura 3). Mais uma vez, não há paralelos com as instituições. Assim, ao relacionar este conceito com a teoria do desenvolvimento econômico, assume-se não existir dinamismo sobre à expectativa da alocação de capital e retorno de investimento, tal que limita a percepção sobre diferenciais de retorno em vários países. É importante ressaltar que Modigliani et al (1958) e Markowitz (1952) não abrangem toda a literatura acerca do tema de estrutura de capital e alocação de carteira. A referência principal a estes autores, na abordagem financeira, se deve à relevância acadêmica e à forma ampla na qual os conceitos aplicados são apresentados. A abordagem da dissertação é dedicada ao estudo das práticas de Law and Finance, cujo enfoque será no entendimento das instituições como variável explicativa para o contexto formal de finanças. Nesse sentido, a referência principal será La Porta et al (1998), não apenas para condução do estudo relacionado às instituições, mas como um guia de discussão para toda a dissertação. O objetivo de La Porta et al (1998) foi entender se a origem legal tem influência sobre os direitos dos acionistas em diferentes países. Sendo os autores pioneiros - e parcialmente responsáveis pela formulação do conceito de Law and Finance -, a obra introduziu importantes percepções, mas com conclusões que permanecem incompletas. Assim, tomando como base o trabalho destes autores, esta dissertação tem como propósito trazer outro viés: entender como as instituições impactam a alocação de capital, que por sua vez terá reflexo no retorno dos acionistas. O estudo das instituições tem importante relevância no contexto econômico, como já apresentado por Douglas North, – ganhador do Prêmio Nobel de 1993 com o estudo sobre o desenvolvimento das economias no longo prazo a partir da análise das instituições. Neste caso, o Law and Finance é uma corrente específica dentro dos estudos das instituições, mas que tem como propósito explorar aspectos das instituições no contexto de finanças. Assim, a importância desta dissertação é avançar com a discussão iniciada por La Porta et al (1998), mas evoluir em questões relacionadas ao contexto de condução de política econômica e alocação de capital, 10 sendo a principal contribuição, a apresentação de variáveis qualitativas capazes de quantificar o impacto sobre o retorno de capital das empresas. Como discutido, é possível indicar que o contexto do problema é que há pouco envolvimento entre a teoria econômica e financeira para embasar como o retorno do investimento está associado a influência das instituições. Além de atual, a relevância dessa questão está associada há diversos fatores de condução de política econômica, bem como na formulação de carteiras no processo de investimentos. Algumas das questões que a dissertação propõe responder: (i) a eficácia e a eficiência no desenvolvimento de política econômicas que considerem o contexto institucional para incentivar investimentos; (ii) a importância do entendimento no processo de alocação de capital para geração de inovação e, portanto, renda; (iii) explicitar a diferença de crescimento entre países, não apenas por meio de decisões de agentes públicos (investimento em educação, nível de poupança etc), mas também por meio do ambiente jurídico e (iv) o impacto das instituições no processo de alocação de capital. 2. OBJETIVO O objetivo dessa dissertação é responder se há influência das instituições sobre o retorno do capital investido em diferentes países. Como exemplo, a pesquisa irá responder e desenvolver questões atuais, como, por exemplo: (i) como é afetada a decisão de alocação de capital quando não há credibilidade no estabelecimento dos contratos? (ii) como o custo de capital e da dívida são afetados em um ambiente de excessiva corrupção e burocracia? (iii) como são os retornos sobre o capital empregado quando o governo altera as “regras do jogo”? Além do arcabouço teórico já apresentado, casos recentes de discussão também envolvem este tipo de problema como: a Petrobrás, que passa por processo investigativo em razão da corrupção; a limitada capacidade de escoamento da infraestrutura, em função de processos condicionados à disponibilidade de verbas para as autoridades; incentivos específicos para determinados setores da economia, tal como a criação do FIES para instituições de ensino superior privada. Em todos estes casos, o retorno do capital e a decisão de alocação são afetados. Assim, um gestor toma decisões de investimento com base em aspectos macroeconômicos, mas também em função do ambiente socioeconômico que 11 permeia a companhia. Este contexto engloba não apenas questões microeconômicas relativas às decisões gerenciais, mas também permeia a eficiência do desenvolvimento econômico. Assim, se utilizando da abordagem do direito para entendimento das questões institucionais e das finanças para análise da alocação de capital, o estudo terá como resultado esperado obter um conjunto de variáveis que seja capaz de apontar os fatores críticos que influenciam o retorno sobre a decisão de investimento. 3. REVISÃO DA LITERATURA 3.1. LAW AND FINANCE: LA PORTA ET AL (1998) Com a expansão do campo acadêmico da análise econômica do direito, os estudos em Law and Finance foram realizados especialmente na década de 1990 com La Porta et al (1998). O estudo dos autores sugere que países com origem legal no common law oferecem mais proteção aos acionistas quando comparados com países cuja origem legal é o direito civil romano. O objetivo apresentado por La Porta et al (1998) se assemelha à finalidade da discussão desse estudo, conforme exemplo abaixo: The rights attached to securities become critical when managers of companies act in their own interest. These rights give investors the power to extract from managers the returns on their investments (…) Does being a shareholder in France given an investor the same privileges as being a shareholder in the United States, India or Mexico? (p. 1114) Os autores separam suas conclusões em quatro sessões: (i) direitos dos acionistas; (ii) direitos dos credores; (iii) enforcement e (iv) concentração. Em direito dos acionistas, La Porta et al (1998) tem como propósito indicar qual origem legal oferece maior proteção aos investidores minoritários, a partir de 9 variáveis que envolvem o direito de voto em assembléia e os parâmetros estabelecidos no estatuto social de companhias abertas. A principal conclusão é que, países com origem common law são aqueles que oferecem maiores proteções aos acionistas, sendo o direito civil romano aquele que apresentou o pior indicador. 12 Como nesta dissertação serão correlacionadas apenas questões que envolvem a qualidade da alocação de capital vis-à-vis o ambiente jurídico e institucional das empresas, a contribuição das conclusões de La Porta et al (1998) é limitada à sessão dedicada ao direito dos acionistas, enquanto outros pontos de seu argumento (credores, enforcement e concentração) tem menor valor para o desenvolvimento do estudo. Isto porque a análise terá como foco o excedente de retorno sobre o custo de capital do acionista, sem que haja influência direta sobre o direito dos credores, enforcement ou concentração. Assim, apesar da comparação das conclusões se concentrar apenas em uma das sessões, os componentes de maior valor para o estudo estão na discussão do resultado esperado e na composição da metodologia. Em relação ao resultado esperado, os autores tem uma pergunta semelhante à feita neste estudo: existe diferença em ser acionista no Brasil ou nos Estados Unidos? Uma citação do artigo de La Porta et al (1998) que exemplifica a questão identificada pelos autores é descrita abaixo: Since the protection investors receive determines their readiness to finance firms, corporate finance may critically turn on these legal rules and their enforcement. The difference in legal protections of investors might help explain why firms are financed and owned so differently in different countries. (p. 1114) A resposta positiva encontrada pelos autores é a mesma esperada por este estudo. No entanto, a principal diferença entre esta tese e o artigo de La Porta et al (1998) é a formulação da pergunta. Enquanto aquele trabalho propôs entender qual é a influência da origem legal no direito dos acionistas, esta dissertação tem uma proposta de entender como foi influenciada a alocação de capital a partir de um conjunto de variáveis institucionais. Ou seja, há uma relação invertida entre causa e consequência. Sendo a variável resposta o parâmetro institucional, ficou condicionado que a origem legal seria o fator determinante para qualidade dos direitos dos acionistas. Apesar da abordagem ser válida, a expectativa neste artigo é contrária, já que é esperado 13 obter um conjunto de variáveis capazes de explicar o diferencial de retorno, e não determinada por apenas um único parâmetro. Nesse sentido, o objetivo de se inverter a questão tem a ver com a metodologia utilizada pelos autores. O problema em utilizar a origem legal como um fator dominante para explicação dos direitos dos acionistas interfere em alguns importantes aspectos como, por exemplo: (i) há uma ampla discussão acerca da origem legal – desde a influência da multicolinearidade até as fronteiras de o que são as leis do direito romano e o common law; (ii) qual é a interferência empírica da origem legal sobre os direitos acionistas – apesar de se tomar como base a constituinte para a formulação da lei, não necessariamente é preciso existir uma correlação com as melhores práticas de governança corporativa e (iii) há pouca informação quantitativa e empírica para formulação de políticas públicas, já que a origem legal não é uma variável simples que pode ser alterada. Assim, o processo de análise, partindo de uma base conhecida – o retorno sobre o capital investido – e entendendo as resultantes da formação desta variável – aspectos institucionais - por um processo endógeno, evita-se o efeito condicional realizado por La Porta et al (1998). Ao analisar a metodologia utilizada pelos autores, existe a influência de algumas dificuldades relacionadas às variáveis institucionais que também irão suceder nesta dissertação. Um destes problemas é a pouca disponibilidade de dados e comparáveis relacionados às questões do ambiente legal e institucional. De tal forma, para evitar que não haja coerção entre a análise das variáveis e de diferentes países, La Porta et al (1998) agrupa os países de acordo com a respectiva origem legal e parte de um índice agregado de acordo com a variável explicativa a fim de evitar que haja discrepâncias específicas entre um ou outro país. Uma importante referência no campo do estudo sobre a metodologia dos autores foi a crítica de Hammergren (2007). A autora sugere que ao invés da utilização de variáveis que segreguem os países a partir da origem legal, seja feita a divisão com base na ausência ou presença de regras ou instituições específicas. Nesse caso, a crítica refere-se ao fato que o La Porta et al (1998) sugere que países que utilizam do common law são superiores aos países que utilizam do direito civil. Como descrito acima, essa conclusão induz problemas de multicolinearidade, conforme apresentado por Heckman (2008). 14 Assim, a solução descrita por Hammergren (2007) atende bem à finalidade deste trabalho. Ao comparar o ambiente jurídico com variáveis discricionárias fornecidas por algumas instituições, é possível agrupar determinados países em clusters que se assemelham e, portanto, identificar países em que se espera ter uma dispersão semelhante em termo de retorno sobre o capital. Além do ponto apresentado por Hammergreen (2007) e Heckman (2008), a utilização da origem legal como variável explicativa é questionada por outros autores como Yeung (2010). Na visão da autora, este tipo de inferência repercute questionamentos conceituais acerca da definição das variáveis. Apesar da definição da origem legal em determinado país acontecer em função de um processo histórico, não é possível afirmar que a formação da jurisprudência do common law ocorreu independente da formação do direito codificado. Assim, a estimação de La Porta et al (1998) reforça a existência de multicolinearidade, já que empiricamente o common law e o direito codificado são variáveis correlacionadas. Esta discussão é apresentada pelos autores Yeung (2010) e Heckman (2008) no trecho abaixo: Pode-se ainda levantar outras ressalvas econométricas. Heckman (2008) discute exatamente o tipo de problema apresentado pelos trabalhos de Law and Finance; é o que ele chama de “problema de avaliação”: o estudioso observa um agente em um determinado estado s, e com um determinado resultado y. Nestes casos, não é possível saber qual seria o resultado alternativo lançado por este mesmo agente, caso ele estivesse em outro estado s’, que na prática não aconteceu. Ou seja, não é possível construir uma contraparte empírica – ou o que os econometristas chama de contrafactual – para o efeito causal ao nível individual. (p.60) Apesar da segregação da amostra ser questionável, os critérios utilizados para seleção dos países fazem bastante sentido. No total foram selecionados 49 países, dos quais: (i) contem pelo menos um país da América do Norte, Europa, América do Sul, África, Asia e Austrália; (ii) não há países socialistas ou em transição e (iii) países que tenham pelo menos cinco instituições não financeiras e que sejam de companhias de capital aberto. Até com o propósito de comparabilidade, a seleção 15 dos países feita por La Porta et al (1998) será tomada como base para realização deste estudo. Outra inspeção detalhada que vale ser destacada são as variáveis escolhida pelos autores para defender os direitos dos acionistas. Nesse sentido, todas as variáveis a serem apresentadas tem caráter binário. Ou seja, há ou não existência do direito – com exceção do percentual requerido. No âmbito da análise dos direitos dos acionistas, foram escolhidas às seguintes variáveis: i. Uma ação, um voto: avaliar se o acionista detentor de uma ação tem também direito a pelo menos um voto. O objetivo desta variável é identificar se o acionista de determinado país tem poder proporcional a composição do capital social; ii. Envio de voto por e-mail: facilidade/restrição com a qual os acionistas tem a possibilidade de participar da assembleia geral. Ou seja, quanto mais acessível aquele país for para a condução da assembleia para o acionista, maior direito este terá; iii. Quantidade de ações bloqueadas antes da assembleia: restrição em termos de negociação das ações antes e depois da realização da assembleia. É desejável que o acionista não necessite realizar o depósito para companhia de tal forma que ficaria restrito na posição após ou antes da realização da assembleia; iv. Voto cumulativo: possibilidade de investidores minoritários acumularem o voto para obtenção de determinado direito – cadeira no conselho, por exemplo. Quando possível, indica uma sinalização que o investidor minoritário tem poder representativo; v. Mecanismos para proteção do minoritário: ações que permitam o investidor minoritário questionar a ação da diretoria executiva. O propósito é confirmar a existência de leis que ofereçam proteção ao minoritário – tag along, por exemplo; vi. Direito de preferência: se a legislação prevê a execução de direito de preferência para os acionistas minoritários – situações em que há aumento de capital e emissão de novas ações, por exemplo; 16 vii. Percentual necessário para convocar assembleia: a participação mínima necessária para que o acionista minoritário tenha direito de convocar uma assembleia geral. Quanto maior for este percentual, maior é esperada a restrição aos acionistas; viii. Dividendo mandatório: percentual requerido pelas empresas pagarem dividendos aos acionistas. Se há um percentual requerido, então há menor direito aos acionistas. O primeiro ponto a destacar é a aplicação das variáveis. Ao tomar o caso brasileiro como exemplo, qualquer empresa listada pode variar dentro de cada um destes itens de forma positiva ou negativa. Ou seja, como os autores tomam como base um fator agregado e não individual para cada uma das empresas, não é possível afirmar se há um enforcement das aplicações destas leis. Nesse sentido, seria conveniente considerar o percentual médio das empresas que aderem a cada uma das variáveis acima, ao invés de considerar uma questão binária. Outra questão válida a ser mencionada é a falta de hegemonia entre os dados. Como muitas das variáveis apresentadas são conceitualmente pouco metrificadas, pode existir uma discrepância na padronização do banco de dados, o que aponta para outro problema no estudo de La Porta et al (1998). Na realização do estudo, os autores utilizaram a maioria dos dados tomando como base o Estatuto Social das companhias. Sendo assim, pode haver distorções na forma pela qual a lei é aplicada. Mais uma vez retornando ao caso brasileiro, o estabelecimento de uma regra de dividendo mínimo obrigatório pode ser comum a todas as empresas, mas o direito de preferência é associado apenas as empresas que fazem parte do Novo Mercado (nível de governança corporativa máxima estabelecido pela BM&F Bovespa, em que não há nada embasado no direito civil romano). Neste cenário, qual é o padrão? Além disso, se compararmos com as normas estipuladas pelo SEC, a votação por e-mail em assembleia é possível, enquanto no Brasil, isso só pode acontecer por meio de procuração. Ou seja, se extrapolarmos questões como estas entre 49 países, é possível que haja claras distorções na forma pela qual a intepretação do resultado pode ocorrer. Essas questões amostrais e metodológicas são relevantes principalmente no estudo das instituições, pois na maioria dos artigos identificados há um claro questionamento sobre a definição das variáveis e a correlação com a evidência 17 empírica que se pretende provar. Apesar de ser uma questão que será melhor apresentada a frente, o objetivo desta contextualização é apontar as principais divergências com a realização do estudo de La Porta et al (1998), a fim de oferecer maior robustez para construção do banco de dados. Um segundo ponto a ser destacado na seleção das variáveis é a subjetividade. No estudo de La Porta et al (1998), não há qualquer artigo que indique que as variáveis definidas sejam referências de maior proteção ao acionista. Um exemplo que pode ser citado é a questão do bloqueio de votos antes da assembleia: a relevância de bloqueio se equipara a proporcionalidade dos votos? O direito de preferência é tão importante quanto o percentual mínimo para convocar uma assembleia? Ou seja, mesmo que estas variáveis selecionadas sejam relevantes para a proteção do acionista, quais são as evidências que apontam a ordem de relevância entre estes fatores e até mesmo essas variáveis como preponderantes? Ainda assim, em defesa dos autores, vale citar seu esclarecimento sobre a utilização de variáveis institucionais: The trouble is, there have been no systematic data available on what the legal rules pertaining to corporate governance are around the world, how well these rules are enforced in different countries, and what effect these rules have. There is no systematic knowledge, for example, of whether different countries actually do have substantially different rules that might explain differences in their financing patterns. Comparative statistical analysis of the legal underpinnings of corporate finance – and commerce more generally – remains uncharted territory. (p. 1115) Apesar da discussão da origem legal ser completa e possuir importantes elementos para a realização deste estudo, uma das principais conclusões sobre o artigo de La Porta et al (1998) é que há pouco embasamento técnico do ponto de vista da teoria financeira e estatística. Ainda que a academia seja crítica em relação ao trabalho dos autores, estes permanecem como referência, uma vez que foram os únicos poucos que se aprofundaram no estudo de Law and Finance de maneira contundente. Como os 18 próprios autores apontam, há pouca referência sobre este assunto, mas La Porta et al (1998) foram importantes para iniciar uma trajetória de pesquisa que ainda oferece bastante espaço para ser aprofundada - sendo este o principal motivo para utilizar estes autores como referência base para formulação deste artigo. Assim sendo, apesar de não se tratar do foco da questão, mas a fim de embasar esta dissertação e não incorrer no erro de La Porta et al (1998), a seguinte discussão apresenta os principais acadêmicos relacionados ao processo da alocação de capital e da formação de carteira para embasar o arcabouço financeiro deste estudo. 3.2. TEORIA FINANCEIRA: MARKOWITZ (1952) E MODIGLIANI ET AL (1958) Em termos da análise financeira serão utilizados como referência os principais autores que fundamentaram a teoria moderna do portfólio – Markowitz (1952) – e da estrutura ótima de capital – Modigliani et al (1958). Apesar do estudo não tratar diretamente sobre a seleção de portfólio ou estrutura ótima de capital, o processo de alocação de capital envolve a expectativa de retorno do mercado apresentado por Markowitz (1952) e o conceito de eficiência no direcionamento da dívida e do capital próprio apresentado por Modigliani et al (1958). A iniciar a discussão por Markowitz (1952), o processo que otimiza a alocação do portfólio de investidores é uma relação maximizada entre risco e retorno. Isto é: conceitualmente o processo de decisão de investimento envolve uma variável que contém parâmetros baseados em questões institucionais – como, por exemplo, risco do cumprimento de um contrato -, mas sem que haja uma clara descriminação de como o ambiente jurídico impacta a possibilidade de retorno ou risco. Neste sentido, o autor determina que o processo de alocação ótima de portfólio depende apenas do retorno histórico dos ativos, volatilidade e custo de oportunidade do ativo livre de risco. Ou seja, variáveis exógenas que tem pouca contribuição de informação sobre o ambiente institucional em que o portfólio está inserido. Nesse sentido, o contraponto a este argumento é de que, em mercados em que há maior risco estrutural, o prêmio de risco será superior a países que apresentam menores riscos estruturais. No entanto, mesmo que este processo seja válido, há pouca perspectiva sobre qual tipo de variável traz maior ou menor risco estrutural para o modelo desenvolvido por Markowitz (1952). Com isto, é possível afirmar que 19 o risco apresentado pelo processo de formação do portfólio é nada mais do que um resíduo gerado durante a estimação. A relevância de observar este resíduo sobre uma perspectiva endógena para a tomada de decisão de investimento é plausível e pode ser exemplificada em questões atuais como, por exemplo, no caso já citado da Petrobras: Qual seria o custo associado a índices de corrupção? Qual é a contribuição do fator corrupção para a estimativa do retorno esperado da carteira de mercado? Apesar de uma correlação obviamente negativa, não há evidência clara que descreva, de forma objetiva, qual é a implicação de A para B. Nesse sentido, a resposta por Markowitz (1952) seria que a resultante da corrupção estaria retratada através do retorno e da volatilidade histórica. Ou seja, caso o investidor estivesse investindo hoje em PETR4 provavelmente estaria menosprezando o impacto da corrupção, já que o desvio padrão teria pouco impacto em incorporar a informação dos últimos doze meses vis-à-vis o período histórico de negociação do ativo. A importância da falta da identidade para o prêmio de risco apresentado por Markowitz (1952), traz implicações não apenas para o processo de alocação do portfólio, mas retrata a pouca importância em premiar melhores práticas de governança corporativa. Neste caso, uma empresa que possui práticas questionáveis, pode disfarçar o retorno e a volatilidade do ativo por meio de práticas ilícitas que são incentivadas por um ambiente de instituições fracas. Como discutido anteriormente, o caso de Markowitz (1952) não serve como um contexto geral para todo o trabalho acadêmico desenvolvido sobre a estimação do risco com base em variáveis legais. No entanto, em função do autor ser uma referência na alocação do portfólio (que retrata justamente um dos objetivos desse estudo – evidenciar a diferença na alocação de capital entre diferentes países), o estudo de Markowitz traz pouca contribuição para formar um processo endógeno do diferencial de retorno entre dois países. No tocante ao estudo de Modigliani et al (1958), que trata especificamente da estrutura de capital ótima do ativo, é possível retratar de forma microeconômica quais sãos os principais componentes que fornecem o custo de capital da firma – comumente conhecido por WACC – e quais os paralelos que podem ser extraídos 20 para a análise do ambiente institucional. Neste caso, o WACC é derivado da alocação de capital da firma com base nas seguintes variáveis: .:. Equação I i. Custo de capital (Re): O custo de capital é usualmente derivado do modelo CAPM elaborador por Markowitz (1952). O objetivo do custo de capital é indicar o retorno mínimo exigido pelo investidor/empresa ao tomar a decisão de investimento; ii. Custo da dívida (Re): O custo da dívida é o custo efetivo que a companhia/investidor tem acesso na hora de realizar a emissão ou contratação de algum instrumento financeiro. Nesse caso a variável tem mesmo significado que o custo de capital, mas do ponto de vista do emissor da dívida. Isto é: qual é o custo mínimo exigido para optar por utilizar dívida na estrutura de capital; iii. Estrutura de capital (E/V e D/V) : A estrutura de capital é derivada dos dois elementos acima citados: capital próprio e dívida. A empresa/investidor decidem qual é a proporção que deseja utilizar entre capital e dívida para financiar o projeto; iv. Tributação (t): A alíquota efetiva que a empresa incide sobre o lucro presumido. O precedente para essa variável é que a utilização de dívida permite que haja um benefício fiscal em função menor base tributável. A partir da Equação I, é possível entender quais os elementos que, do ponto de vista de Modigliani et al (1958), são relevante sobre como maximizar estrutura de capital e, portanto, o retorno da firma. Nesse sentido, a empresa deverá ajustar a escolha entre capital próprio e dívida para maximizar o retorno sobre o capital empregado, mas, no entanto, não fica claro sobre qual é o contexto em que a firma está atuando. Sendo assim, a firma provavelmente só irá otimizar a estrutura de capital, quando tiver confiança que o fluxo de caixa esperado esteja condizente às perspectivas futuras. Dessa forma, uma empresa poderá tanto se alavancar acima do patamar ótimo, mas também de forma contrária a depender da expectativa futura de fluxo de caixa. Ou seja, ainda que no contexto acadêmico de finanças há indícios de existir 21 uma estrutura eficiente, há menos evidência empíricas que suportem que companhias que estejam operando sobre esta estrutura. Ainda que essa dissertação não vá tratar diretamente sobre a estrutura de capital ótima, é de se esperar que países que ofereçam melhores condições para o desenvolvimento de negócio apresentem maior ROIC, uma vez que a estrutura de capital é intimamente associada ao retorno. Nesse sentido, o objetivo é mais uma vez apontar que, assim como Markowitz (1952), Modigliani et al (1958) também deu menos importância para o entendimento do impacto das variáveis institucionais para a formação da estrutura de capital. De tal forma, a crítica feita a este tipo de abordagem pode ser o fato de estas variáveis já estarem retratadas no custo de capital ou no custo da dívida. Ou seja, países que tenham instituições com pior qualidade devem exigir um custo de capital e/ou dívida mais alto – uma análise análoga a feita no caso de Markowitz (1952). Ainda assim, como já apresentado, incorporar as instituições no prêmio de risco por meio do diferencial entre dois ativos/países não cria uma relação endógena, mas um resíduo sobre a composição dos retornos entre diferentes ativos/países. Assim, a breve apresentação do estudo de Markowitz (1952) e Modigliani et al (1958) tem como principal propósito entender o atual contexto sobre o processo de decisão de investimento e quais são as variáveis importantes ao analisar o do retorno de investimento. Com isso, os elementos relevantes a serem identificados nesta dissertação serão: (i) comprovar a hipótese que companhias/investidores tem incentivos para determinar o retorno não apenas com base no risco, mas também no ambiente jurídico; (ii) comprovar a hipótese que as instituições são um processo endógeno à formação do custo de capital e da dívida e, portanto, relevantes na determinação da estrutura de capital e (iii) a estrutura de capital varia conforme a expectativa dos agentes relativa ao ambiente institucional que permeia as companhias. 4. METODOLOGIA A metodologia do estudo será realizada com base na discussão apresentada anteriormente e a partir de elementos do estudo de La Porta et al (1998). Em síntese, a variável resposta será uma proxy do retorno sobre o capital investido 22 agregado em um determinado país e será testado em comparação a 12 variáveis institucionais. O objetivo será identificar quais, entre estas 12 variáveis explicativas selecionadas, serão capazes de responder a formação do retorno sobre o capital investido. Além disso, o processo de análise tem como objetivo responder a principal hipótese do estudo: se há evidência de um conjunto de variáveis capazes de explicar o retorno médio do capital, com base nas instituições e jurisprudências de diferentes países. A amostra contém 46 países, tomando como base a seleção de La Porta et al (1998) – 3 países a menos em função da indisponibilidade de informações. Além de oferecer uma base de comparação na obtenção dos resultados, a amostragem do autor oferece condições que satisfazem as necessidades deste estudo, entre eles: i. Países da América do Norte, Europa, América do Sul, África, Asia e Austrália; ii. Não há países socialistas ou em transição; iii. Países que tenham pelo menos cinco instituições não financeiras e que sejam de companhias de capital aberto; Amostra de países África do Sul Coréia do Sul Alemanha Dinamarca Argentina Egito Austrália Espanha Áustria Estados Unidos Bélgica Filipinas Brasil Finlândia Canadá França Chile Grécia Colômbia Holanda Hong Kong Índia Indonésia Irlanda Israel Itália Japão Jordânia Quênia Malásia México Nigéria Noruega Nova Zelândia Paquistão Peru Portugal Reino Unido Singapura Sri Lanka Suécia Suíça Taiwan Tailândia Turquia Venezuela Tabela 1: Amostra de países Essas restrições permitem também duas importantes implicações para análise da hipótese a ser testada: (i) a obtenção de países que tenham Bolsa de Valores e, portanto, informações que sejam publicamente acessíveis sendo na maioria das vezes regidas por normais contábeis padrões; (ii) países que oferecem ambiente institucional suficiente para realização de negócios com disponibilização de informações qualitativas. Assim, a fim de esclarecer o processo resultante da análise do estudo, a metodologia será dividida em cinco etapas: 23 i. Variável resposta: Como a construção da variável resposta é uma das principais e mais sensíveis componentes do estudo, nesta etapa será apresentada o passo a passo de como foi realizada a obtenção da variável resposta; ii. Variáveis explicativas: Nesta sessão serão apresentadas a definição de todas as variáveis explicativas a serem utilizadas; resultado esperado para cada um dos regressores; a distribuição estatística da amostra e o resultado esperado dada a variável resposta construída no item anterior; iii. Estimação: Apresentação do modelo econométrico; principais premissas em torno da estimação; estimações iniciais para obtenção do modelo final e obtenção do modelo formal; iv. Resultados: Após a obtenção do modelo econométrico formal e o valor final dos regressores serão apontados os principais resultados do estudo. 4.1. VÁRIAVEL RESPOSTA A variável resposta agregada - desenvolvida como indicador de retorno sobre o capital investido - será uma variável agregada por país, e tem como objetivo ser uma proxy da eficiência da alocação de capital daquela determinada nação. A construção da variável será realizada a partir do ROIC de cada empresa, de acordo com a fórmula abaixo: .:. Equação II Em que: EBIT (Lucro antes de imposto e resultado financeiro): É a geração de resultado operacional da companhia antes do pagamento de tributos ao governo e das despesas financeiras passiva às instituições financeiras; Dívida líquida: Montante que representa a disponibilidade de capital de terceiros líquida de caixa que a companhia detém ao final do período; Patrimônio Líquido: Montante que representa a disponibilidade de capital próprio que a companhia detém ao final do período. O ROIC é uma variável comum na literatura financeira, utilizada como coeficiente de rentabilidade que analisa a eficiência da companhia em gerar resultado operacional 24 por meio de todo capital investido. Assim, o ROIC atende à finalidade do estudo de apenas analisar a capacidade dos gestores da empresa em alocar o capital de acordo com ambiente de negócio. Neste estudo, esta medida atende melhor aos objetivos do que o indicador ROE (return on equity), já que não considera o pagamento das despesas financeiras e o pagamento dos impostos, além de permitir observar apenas a capacidade de geração de resultado da companhia de maneira isolada – sem intervenção das instituições financeiras e do governo. Outro ponto importante para utilizar o ROIC,ao invés do ROE, é a intenção de evitar eventuais problemas com a multicolinearidade para futura análise com variáveis institucionais, tal que, a partir do pagamento de despesas financeiras e de impostos, há uma interferência de regulação de aspectos específicos de cada país que impacta na análise de geração de resultado operacional. Por último, com intuito de evitar que houvesse distorções no ROIC em determinado ano, foi considerado o ROIC médio dos últimos 5 anos entre o período de 2014 até 2009. Assim, para que fosse obtido um fator agregado para cada país foram feitas as seguintes etapas: 1º Passo: Obtenção das 100 empresas com negociação mais ativas por país com capitalização de mercado acima de 50 milhões de dólares Foram listadas 100 empresas, por país, com maior valor de negociação médio do último 1 ano, bem como aquelas que tivessem capitalização de mercado acima de 50 milhões de dólares. Estas restrições tem dois objetivos: (i) evitar empresas que tivessem pouca negociação e, portanto, pudessem causar distorções no valor de mercado e (ii) evitar empresas com valor de mercado muito baixo, que não tivessem representatividade em termos de impacto econômico. Com base nos critérios estabelecidos, nem todos os países tiveram 100 empresas representativas, já que para cada nação foram consideradas apenas empresas que satisfizessem todas as restrições acima. 2º Passo: Ponderação do ROIC de cada empresa pelo valor de mercado 25 ∑ em que ) ∑ ( .:. Equação III Após a determinação do ROIC médio dos últimos 5 anos para cada uma das empresas dos 46 países, a ponderação foi feita tomando como base o valor de mercado médio de cada uma das empresas, nos últimos 5 anos, de acordo com a moeda local. Assim, o critério “peso” é a representatividade que essa companhia tem, em termos de valor de mercado, dentro do composto das 100 empresas selecionadas. 3º Passo: Desconto do custo de capital .:. Equação IV Por último, a fim de replicar em quanto cada país - em média - consegue investir acima do custo de capital, o ROIC será descontado pela taxa livre de risco do país. Assim, será possível equiparar os países de forma homogênea, sem que haja distorções no retorno mínimo exigido. Nesse sentido, o objetivo é mensurar o valor que a firma consegue aplicar o caixa acima do custo de oportunidade mínimo. Abaixo são apresentados os principais resultados estatísticos da composição da amostra, com base no processo explicado acima: ROIC médio dos últimos cinco anos (antes de impostos - %) Amostra (#) Juros (%) Média Mediana Máximo Mínimo Ponderado Descontado 13.3% 67.9% -1.8% 16.0% 9.2% 9.9% 9.4% 21.1% -0.9% 10.5% 10.4% 13.1% 15.7% África do Sul 59 6.2% 17.1% Alemanha 56 0.2% Argentina 34 11.7% 51.1% 3.9% 8.5% -4.1% Austrália 31 3.6% 8.2% 7.5% 20.6% -2.4% 9.7% 5.9% Áustria 29 0.2% 8.7% 8.2% 28.7% -26.8% 8.1% 8.0% Bélgica 30 0.2% 12.2% 8.1% 51.8% 1.0% 11.5% 11.3% Brasil 45 9.1% 13.3% 10.5% 64.0% 3.7% 15.0% 5.3% Canadá 63 0.4% 5.2% 5.0% 24.1% -10.7% 7.0% 6.6% Chile 32 4.0% 8.9% 8.5% 26.5% 0.9% 8.3% 4.1% Colômbia 14 4.6% 7.5% 7.0% 19.2% -3.0% 11.6% 6.7% Coréia do Sul 34 3.4% 7.3% 5.3% 32.4% 1.1% 7.0% 3.4% Dinamarca 38 0.2% 11.1% 7.6% 50.4% -7.9% 25.5% 25.3% Egito 22 7.0% 8.1% 32.2% -14.4% 12.5% 5.2% 9.5% 26 Espanha 39 0.2% 8.8% 6.6% 63.9% -15.1% 11.2% 11.0% Estados Unidos 85 0.3% 7.7% 7.4% 80.0% -68.0% 13.8% 13.6% Filipinas 41 2.6% 7.0% 7.1% 14.6% -4.2% 8.6% 5.9% Finlândia 41 0.2% 10.7% 8.7% 36.7% -6.6% 12.7% 12.5% França 70 1.9% 8.3% 7.5% 57.4% -4.9% 7.5% 5.5% Grécia 22 0.2% 5.9% 4.9% 40.7% -29.0% 12.7% 12.5% Holanda 39 2.6% 12.3% 9.7% 49.1% -11.3% 15.2% 12.3% Hong Kong 64 0.0% 6.8% 21.6% 0.9% 8.4% 8.4% Índia 48 8.0% 11.3% 8.4% 36.8% 1.5% 16.9% 8.2% Indonésia 59 7.4% 14.0% 11.9% 43.0% 2.6% 18.5% 10.4% Irlanda 15 0.2% 12.0% 8.8% 46.0% 3.0% 10.0% 9.9% Israel 31 1.6% 8.5% 8.3% 22.7% -13.2% 9.3% 7.6% Itália 40 0.2% -1.9% 5.6% 31.5% -342.8% 6.3% 6.2% Japão 59 0.5% 3.4% 4.0% 19.9% -63.5% 4.4% 3.9% 9 4.1% 12.5% 9.5% 30.3% 3.3% 8.0% 3.7% Quênia 10 7.5% 14.8% 13.6% 28.1% 5.7% 21.1% 12.7% Malásia 30 2.7% 10.1% 7.3% 83.9% 2.2% 14.2% 11.1% México 61 1.2% 10.4% 10.0% 31.1% -7.9% 16.9% 15.5% Nigéria 22 8.5% 13.2% 11.9% 34.3% 2.2% 14.2% 5.2% Noruega 35 2.3% 8.1% 9.2% 32.8% -41.2% 6.6% 4.3% Nova Zelândia 49 4.1% 9.1% 8.0% 36.5% -6.3% 8.9% 4.6% Paquistão 48 7.9% 12.9% 9.9% 38.4% 2.2% 17.5% 8.9% Peru 15 2.3% 13.9% 10.3% 47.8% 3.2% 12.9% 10.3% Portugal 18 0.2% 6.5% 5.8% 16.9% 1.8% 5.1% 4.9% Reino Unido 55 0.2% 10.7% 9.9% 28.8% -11.8% 12.7% 12.5% Singapura 48 0.2% 9.6% 7.9% 36.1% -6.9% 8.0% 7.8% Sri Lanka 26 8.6% 10.7% 9.6% 20.8% 0.3% 8.1% -0.5% Suécia 51 0.2% 10.3% 8.3% 38.6% 0.6% 13.4% 13.3% Suíça 55 0.0% 11.1% 10.5% 30.0% -1.4% 14.1% 14.1% Taiwan 57 2.9% 7.0% 5.3% 25.7% -4.0% 11.5% 8.3% Tailândia 39 2.0% 7.7% 6.9% 22.1% -6.1% 7.6% 5.5% Turquia 23 16.0% 9.2% 8.7% 24.6% 1.6% 9.3% -5.8% 14.9% 34.2% 29.0% 47.1% 26.5% Tabela 2: Descrição estatística das variáveis (ROIC) 36.1% 18.5% Jordânia Venezuela 3 8.0% Valor de mercado (milhões na moeda local) Amostra (#) Média Mediana Máximo Mínimo Total África do Sul 59 146,833 39,747 1,455,636 539 8,663,156 Alemanha 56 20,533 7,289 110,398 434 1,149,829 Argentina 34 107,110 9,988 1,223,271 116 3,641,725 Austrália 31 26,191 6,920 154,967 271 811,927 Áustria 29 1,892 1,129 9,164 65 54,882 Bélgica 30 9,330 1,025 183,742 54 279,886 Brasil 45 29,657 8,180 297,849 530 1,334,551 Canadá 63 17,550 5,206 116,509 200 1,035,462 Chile 32 2,708,828 1,025,230 11,777,009 16,465 86,682,507 Colômbia 14 17,926,822 12,124,778 84,700,399 144,587 250,975,512 27 Coréia do Sul 34 5,204,847 2,148,521 32,432,505 261,360 176,964,781 Dinamarca 38 69,203 17,325 998,785 265 2,629,702 Egito 22 6,815 3,268 49,847 70 149,925 Espanha 39 13,589 3,483 92,195 54 529,975 Estados Unidos 85 63,000 30,305 278,119 223 3,716,984 Filipinas 41 169,875 100,311 587,013 1,823 6,964,885 Finlândia 41 3,861 1,223 25,486 78 158,303 França 70 22,772 12,939 126,692 489 1,343,545 Grécia 22 614 259 3,676 54 13,499 Holanda 39 45,051 9,300 349,235 60 1,756,976 Hong Kong 64 340,621 76,930 2,935,006 5,099 20,096,653 Índia 48 755,923 303,609 4,847,558 4,691 36,284,319 Indonésia 59 45,807,589 11,833,500 363,661,386 624,000 2,702,647,734 Irlanda 15 5,708 4,357 20,760 173 85,625 Israel 31 11,472 3,949 109,285 414 355,630 Itália 40 7,503 2,456 61,272 185 300,106 Japão 59 2,844,476 1,478,604 28,359,125 72,508 167,824,110 9 769 416 3,600 83 6,917 Quênia 10 135,323 35,395 689,125 4,975 1,353,232 Malásia 30 18,265 551 88,474 67 547,959 México 61 462,151 105,911 3,413,444 1,524 27,266,935 Nigéria 22 122,616 13,108 922,593 1,093 2,697,551 Noruega 35 51,806 12,769 498,386 564 1,813,214 Nova Zelândia 49 4,853 646 99,658 65 237,801 Paquistão 48 86,009 43,396 796,532 5,729 4,128,424 Peru 15 6,547 3,803 26,353 53 98,211 Portugal 18 8,036 1,537 92,378 62 144,651 Reino Unido 55 22,933 11,115 133,107 51 1,261,325 Singapura 48 8,427 1,829 71,104 63 404,517 Sri Lanka 26 39,280 13,956 208,475 55 1,021,284 Suécia 51 124,787 50,463 774,527 1,002 6,364,125 Suíça 55 23,466 5,558 263,042 510 1,290,617 Taiwan 57 238,321 91,742 3,695,068 3,402 13,584,313 Tailândia 39 71,636 23,361 484,338 589 2,793,822 Turquia 23 9,099 6,052 26,652 92 209,284 3 127,971 154,732 209,541 19,639 Tabela 3: Descrição estatística das variáveis (capitalização de mercado) 383,912 Jordânia Venezuela Valor de mercado (milhões em dólares) Amostra (#) Média Mediana Máximo Mínimo Total África do Sul 59 13,530 3,662 134,127 50 798,252 Alemanha 56 27,262 9,678 146,579 576 1,526,674 Argentina 34 13,264 1,237 151,483 14 450,972 Austrália 31 23,609 6,238 139,690 244 731,885 Áustria 29 2,513 1,499 12,167 86 72,869 Bélgica 30 12,387 1,360 243,961 71 371,617 Brasil 45 12,602 3,476 126,563 225 567,084 Canadá 63 15,867 4,707 105,333 181 936,134 28 Chile 32 4,749 1,798 20,649 29 151,982 Colômbia 14 8,955 6,057 42,313 72 125,376 Coréia do Sul 34 4,943 2,040 30,801 248 168,064 Dinamarca 38 12,330 3,087 177,958 47 468,547 Egito 22 963 462 7,043 10 21,183 Espanha 39 18,043 4,625 122,411 72 703,669 Estados Unidos 85 63,000 30,305 278,119 223 3,716,984 Filipinas 41 3,826 2,260 13,222 41 156,884 Finlândia 41 5,126 1,624 33,838 104 210,186 França 70 30,235 17,180 168,214 649 1,783,879 Grécia 22 815 344 4,881 72 17,923 Holanda 39 59,816 12,348 463,694 80 2,332,809 Hong Kong 64 43,928 9,921 378,511 658 2,591,751 Índia 48 12,386 4,975 79,430 77 594,537 Indonésia 59 3,861 997 30,649 53 227,779 Irlanda 15 7,579 5,784 27,563 230 113,688 Israel 31 3,206 1,104 30,544 116 99,396 Itália 40 9,962 3,261 81,354 246 398,463 Japão 59 26,849 13,956 267,678 684 1,584,072 9 1,083 585 5,070 117 9,743 Quênia 10 1,539 403 7,838 57 15,391 Malásia 30 5,581 168 27,033 21 167,425 México 61 34,768 7,968 256,796 115 2,051,310 Nigéria 22 779 83 5,865 7 17,148 Noruega 35 8,221 2,026 79,088 90 287,736 Nova Zelândia 49 4,026 536 82,674 54 197,273 Paquistão 48 851 429 7,879 57 40,835 Peru 15 2,306 1,340 9,282 19 34,593 Portugal 18 10,670 2,041 122,654 83 192,058 Reino Unido 55 37,736 18,289 219,023 84 2,075,471 Singapura 48 6,651 1,443 56,118 49 319,259 Sri Lanka 26 301 107 1,597 0 7,822 Suécia 51 18,188 7,355 112,892 146 927,609 Suíça 55 25,613 6,066 287,116 556 1,408,738 Taiwan 57 38,793 14,933 601,466 554 2,211,192 Tailândia 39 2,206 719 14,912 18 86,017 Turquia 23 4,158 2,765 12,178 42 95,627 Jordânia Venezuela 3 20,365 24,624 33,346 3,125 Tabela 4: Descrição estatística das variáveis (capitalização de mercado em dólares) 61,095 Como apresentado na discussão de La Porta et al (1998), umas das preocupações que persiste na formulação do banco de dados é a homogenia da origem das informações. Assim, com o intuito de preservar a consistência da informação desses dados, todas as informações foram extraídas do banco de dados da Bloomberg. A amostra contém 1.794 empresas, de 46 diferentes países, que na média correspondem a cerca de 73,9% da capitalização de mercado da Bolsa de Valores. 29 Em uma inspeção mais detalhada da amostra, é possível notar alguns fatores interessantes: ao comparar o ROIC descontado com o PIB per capita dos países, pode-se perceber que existe uma correlação positiva leve entre as variáveis. Assim, de acordo com a Figura 4, é possível afirmar que há algum indício de que, países com maior PIB per capita, na média, tendem a apresentar melhor alocação de capital. 25% 20% 15% 10% 5% 0% 0 10,000 20,000 30,000 40,000 50,000 60,000 70,000 -5% -10% Figura 4: ROIC descontado vs. PIB per capital de 2013 em dólares Ainda que seja cedo para elaborar qualquer hipótese sobre o resultado esperado, essa análise aponta para um primeiro ponto sobre a tese: países mais desenvolvidos normalmente oferecem melhores condições institucionais, logo, possivelmente seja verdade que existam variáveis institucionais capazes de explicar o ROIC. Ou seja, é um bom ponto de partida para as análises que irão suceder. 4.2. VARIÁVEIS EXPLICATIVAS A seguir, serão apresentadas as 12 variáveis explicativas que serão utilizadas para realização da estimação. Além da descrição de cada uma das variáveis, o objetivo é indicar o resultado esperado dessa estimação, tomando como base o ROIC descontado conforme explicado anteriormente. Em parêntesis, está indicado o nome da variável para futura referência e estimação. 30 i. Índice do direito dos credores (Direito): Índice de eficiência dos direitos legais, mede o grau em que as leis de garantias e falências protegem os direitos dos mutuários e credores, facilitando assim a concessão de empréstimos. O índice varia de 0 a 12, com scores mais altos indicando que estas leis são as melhores para expandir o acesso ao crédito. O indicador formulado com base no estudo de La Porta et al (1998) tem como objetivo verificar se os direitos dos credores é um fator determinante para o ROIC. Não é testado neste caso o direito dos acionistas, uma vez que iria incorrer em endogeneidade. Além disso, a avaliação dos direitos dos credores também é uma proxy para facilidade de obtenção de crédito, já que, em países que oferecem maior proteção aos credores, é esperado que o spread para contratação seja menor e, portanto, o custo da dívida para as firmas; ii. Tempo necessário para validar um contrato (Contrato): Tempo necessário para se fazer cumprir um contrato em número de dias corridos, a partir da propositura da ação em juízo até a decisão final e, se for caso disso, o pagamento. A credibilidade do sistema judiciário na execução de suas penas é um importante indicador, uma vez que aponta o período no qual os contratos são estabelecidos. Em países que a demora é muito longa, provavelmente há um estímulo ao não cumprimento dos contratos, dado que os custos de transação do contrato aumentam. O impacto sobre o retorno sobre o capital se dá através da maior eficiência para a gestão da empresa. Um exemplo da situação é uma empresa que realiza algum F&A ou precisa receber o aval de algum processo para começar a operar; iii. Tempo necessário para obter eletricidade (Eletricidade): O tempo necessário para obter energia elétrica é o número de dias para se obter uma ligação permanente de eletricidade. A medida captura a duração média que a companhia de eletricidade e os peritos indicam ser necessário, na prática, ao invés do que o exigido por lei, para concluir um procedimento. O tempo necessário para obtenção de eletricidade é uma proxy para avaliar a facilidade de expansão dos negócios. Sendo a eletricidade um item essencial para operação/expansão de novos negócios, em países nos quais o tempo necessário é muito elevado, se espera que a alocação de capital venha a ser prejudicada, por conta da maior dificuldade em expandir as operações; 31 iv. Tempo necessário para registrar uma propriedade (Propriedade): O tempo necessário para registrar uma propriedade é o número de dias necessários para que uma empresa garanta os direitos de propriedade. A variável propriedade tem como fim entender o custo de transação dos contratos e a eficiência do setor de comércio, serviço e agronegócio. Diferente da variável eletricidade, o setor de comércio e serviço está menos associado à necessidade da própria eletricidade, já que está inserido em regiões normalmente adensadas. Por outro lado, a expansão das operações neste segmentos está diretamente atrelada ao registro de propriedade. Assim como a variável anterior, é esperado que países com maior dificuldade em estabelecer os direitos de propriedade terão retorno inferior sobre o capital; v. Tempo necessário para abrir um novo negócio (Start-up): Tempo necessário para iniciar um negócio é o número de dias necessários para completar os procedimentos que permitem operar legalmente um negócio. Caso um procedimento possa ser acelerado por um custo adicional, o procedimento mais rápido, independente do custo, é escolhido. Métrica que aponta para a eficiência em desenvolver o empreendedorismo e, consequentemente, inovações. Diferente da variável burocracia, a variável Start-up tem como objetivo identificar se a morosidade do sistema avaliando-se é crítica para o ROIC; vi. Tributação como percentual do lucro (Tributo): Total de medidas de taxa de imposto sobre o valor dos impostos e das contribuições obrigatórias a serem pagos pelas empresas após a contabilização de deduções e isenções como uma parcela dos lucros comerciais. Impostos retidos (como o imposto sobre o rendimento das pessoas físicas) ou recolhido e remetido às autoridades fiscais (tais como impostos sobre valor agregado, impostos sobre vendas ou de mercadorias e taxas de serviço) são excluídos. Como, para esta análise, foi utilizado o ROIC antes de impostos, essa variável tem como fim avaliar se a tributação que as empresas pagam são um fator determinante para dispersão do ROIC. Além de responder a uma demanda da teoria financeira da alocação de capital após impostos, a variável ajuda a entender se países com maior carga tributária tendem a oferecer menos retorno – não pelo 32 dispêndio tributário custo, mas pelo custo de oportunidade em operar das empresas; vii. Tempo para preparação do imposto (Imposto): Tempo para preparar e pagar impostos é o tempo, em horas por ano, que é preciso para preparar, arquivar e pagar (ou reter) três principais tipos de impostos: o imposto de renda das empresas, o valor acrescentado ou imposto sobre vendas e impostos sobre o trabalho, incluindo impostos sobre os salários e contribuições para a segurança social. Essa variável é uma proxy para indicar a complexidade do sistema tributário do país. Nesse contexto, países em que empresas dedicam mais tempo para realização da preparação do imposto demonstram a dificuldade em entender o funcionamento das regras fiscais deste determinado país. Com isto, a expectativa é de que, quanto maior for o tempo dispendido para realização de imposto, menos tempo disponível para que as companhias se preocupem com sua operação e, portanto, afetando diretamente a qualidade da operação; viii. Índice de qualidade de crédito (Crédito): Índice de qualidade de crédito mede as regras que afetam o escopo, a acessibilidade e a qualidade das informações de crédito disponíveis através de registros de crédito públicos ou privados. O índice varia de 0 a 8, com valores mais altos indicando a qualidade/disponibilidade de mais informações de crédito, a partir de um registro público ou uma agência privada, para facilitar as decisões de concessão de empréstimos. A variável tem como principal objetivo parametrizar a qualidade e a disponibilidade de crédito para as companhias. Neste caso, a expectativa é de que, países com menor disponibilidade e informação sobre contratação de crédito tenham empresas com estrutura de capital ineficiente, afetando o retorno sobre o capital investido. Note que esse parâmetro está associado à discussão apresentada sobre Modigliani et al (1958), em que empresas que não operam em sua estrutura de capital ótima, não estão extraindo o máximo que poderiam do giro do ativo; ix. Documentos para exportar (Exportação): Todos os documentos necessários para registrar e enviar os produtos para exportação - supondo que o contrato já foi acordado e assinado por ambas as partes. Documentos necessários para entidades do governo, autoridades alfandegárias, autoridades portuárias 33 e de terminais de containers, saúde e órgãos de controle técnico e bancos. Desde o pagamento por carta de crédito, todos os documentos exigidos pelos bancos para a emissão ou a fixação de uma carta de crédito também são levados em conta. Documentos que são renovados anualmente e que não necessitam de renovação por remessa (por exemplo, uma certidão negativa de imposto anual) não estão incluídos. Assim, o objetivo ao observar o processo de exportação é avaliar a possibilidade das empresas em fazer comércio. Neste caso, quando empresas tem oportunidade de negociar com outros mercados, isto acontece porque provavelmente estas possuem melhores oportunidades de crescimento além do mercado interno. Ou seja, com o maior desenvolvimento do comércio, empresas conseguem otimizar o retorno sobre o capital, já que conseguem extrair maior resultado da base de capital instalada; x. Facilidade em se realizar negócios (Business): Facilidade de fazer negócios classifica 189 economias, sendo o primeiro lugar considerado o melhor. Um ranking elevado (baixa classificação numérica) significa que o ambiente regulatório é propício para a operação do negócio. O índice é a média do ranking de 10 tópicos entre os países cobertos pelo Doing Business do Banco Mundial. A classificação em cada tópico é a média simples dos rankings percentuais sobre seus indicadores de componentes. O índice é reconhecido internacionalmente como um indicador agregado da qualidade de instituições, compilando uma série de fatores relacionados ao ambiente institucional e envolvendo uma série de variáveis deste contexto. O propósito de relacionar o Doing Business é observar se uma boa posição no ranking também indica boa alocação de capital; xi. Malha logística (Logística): Índice de Performance Logística consiste em uma pontuação global que reflete as percepções de logística de um país, com base na eficiência do processo de desembarque aduaneiro, qualidade da infraestrutura relacionada ao transporte, facilidade de arranjar embarques a preços competitivos, qualidade de serviços de logística, capacidade de controlar e rastrear remessas, e frequência com que os embarques chegam ao destinatário dentro do tempo programado. O índice varia de 1 a 5, com uma pontuação mais elevada representando o melhor desempenho. Os 34 dados são embasados no Índice de Desempenho Logístico - pesquisas conduzidas pelo Banco Mundial em parceria com instituições acadêmicas internacionais, juntamente com empresas privadas e indivíduos envolvidos no setor de logística internacional. Em 2009, a pesquisa abrangeu mais de 5.000 avaliações por país, por cerca de 1.000 transitórios internacionais. Os entrevistados avaliam oito mercados em seis dimensões do núcleo em uma escala de 1 (pior) a 5 (melhor). Os mercados são escolhidos com base na relevância destes mercados de exportação e importação do país do respondente, seleção aleatória, e, para os países sem litoral, os países que os conectam com os mercados internacionais vizinho. Os scores para as seis áreas são compostos por médias de todos os entrevistados e agregados para uma pontuação única que utiliza a análise de componentes principais. Detalhes da metodologia da pesquisa e metodologia de construção do índice estão em Arvis et al (2010) - 'Conexão com Competir 2010: Comércio Logística na Economia Global'. Ao avaliar a malha logística, é possível entender se o custo associado em operar naquele determinado país é determinante para o retorno sobre o capital. Um exemplo desse caso seria o custo Brasil – muitas empresas optam por não estabelecer operações no Brasil devido ao alto custo associado a malha logística; xii. Processos necessários para abrir um novo negócio (Burocracia): Procedimentos iniciais necessários para começar um negócio, incluindo interações para obter autorizações e licenças necessárias para completar todas as inscrições, verificações e notificações também requeridas. Os dados são originados de empresas com características específicas de propriedade, tamanho e tipo de produção. O indicador é uma proxy de burocracia para a realização de novos negócios. Quando são poucos os dias para abrir um negócio, há o estímulo da inovação por meio do empreendedorismo, tal que as empresas são incentivadas a ter retorno sobre o capital – uma vez que inovações/novos negócios bem-sucedidos tendem a ser a melhor alternativa para substituir negócios menos competitivos. Abaixo está apresentada a tabela com o resumo da amostra, considerando o ROIC descontado e as variáveis explicativas acima descrita. Além disso, todos os dados foram retirados do banco de dados do World Bank Indicatorscom objetivo de 35 preservar a homogeneidade do banco de dados. O resultado para cada um dos indicadores acima é o valor médio da variável nos últimos 5 anos - entre 2014 e 2009. África do Sul Alemanha Argentina Australia Austria Bélgica Brasil Canadá Chile Colombia Coréia do Sul Dinamarca Egito Espanha Estados Unidos Filipinas Finlândia França Grécia Holanda Hong Kong India Indonésia Irlanda Israel Itália Japão Jordânia Kenya Malaysia México Nigeria Noruega Nova Zelândia Paquistão Peru Portugal Reino Unido Singapura Sri Lanka Suécia Suiça Taiwan Thailândia Turquia Venezuela Resposta Explicativa ROIC Direito Contrato Eletricidade Propriedade 9.2% 6 600 222 23 10.4% 7 394 28 40 -4.1% 3 590 91 51 5.9% 10 395 75 5 8.0% 6 397 23 22 11.3% 5 505 88 69 5.3% 3 731 56 28 6.6% 8 570 156 17 4.1% 5 480 30 30 6.7% 6 1,327 145 19 3.4% 6 230 18 9 25.3% 9 405 38 19 5.2% 3 1,010 54 70 11.0% 6 513 96 13 13.6% 10 352 70 13 5.9% 4 842 42 35 12.5% 8 375 42 17 5.5% 5 392 79 62 12.5% 4 1,185 62 21 12.3% 5 514 121 5 8.4% 9 333 58 36 8.2% 7 1,420 80 47 10.4% 5 489 98 26 9.9% 8 605 185 36 7.6% 8 890 102 113 6.2% 3 1,198 124 22 3.9% 5 360 103 13 3.7% 1 689 48 21 12.7% 9 465 159 72 11.1% 9 478 41 49 15.5% 6 406 130 71 5.2% 8 475 259 73 4.3% 6 280 66 3 4.6% 11 216 67 1 8.9% 5 982 195 50 10.3% 7 427 100 8 4.9% 3 547 64 3 12.5% 9 418 114 26 7.8% 9 150 31 14 -0.5% 4 1,318 119 61 13.3% 7 316 52 17 14.1% 7 399 39 16 8.3% 5 422 144 25 5.5% 4 460 35 2 -5.8% 4 420 70 6 18.5% 2 552 161 50 Tabela 5: Descrição das variávieis descritivas (parte 1 de 2) Start-up 20 15 25 3 25 4 110 5 16 12 8 6 8 35 5 37 14 6 15 6 4 27 56 11 17 7 15 12 32 10 6 28 6 1 19 29 4 10 3 25 16 17 35 30 6 143 Tributo 30% 47% 114% 47% 53% 57% 67% 24% 26% 77% 32% 27% 43% 50% 45% 44% 41% 66% 46% 39% 23% 63% 30% 26% 30% 67% 50% 29% 45% 36% 52% 32% 41% 34% 35% 37% 42% 35% 21% 73% 52% 29% 64% 34% 41% 61% 36 África do Sul Alemanha Argentina Australia Austria Bélgica Brasil Canadá Chile Colombia Coréia do Sul Dinamarca Egito Espanha Estados Unidos Filipinas Finlândia França Grécia Holanda Hong Kong India Indonésia Irlanda Israel Itália Japão Jordânia Kenya Malaysia México Nigeria Noruega Nova Zelândia Paquistão Peru Portugal Reino Unido Singapura Sri Lanka Suécia Suiça Taiwan Thailândia Turquia Venezuela 4.3. Resposta ROIC 9.2% 10.4% -4.1% 5.9% 8.0% 11.3% 5.3% 6.6% 4.1% 6.7% 3.4% 25.3% 5.2% 11.0% 13.6% 5.9% 12.5% 5.5% 12.5% 12.3% 8.4% 8.2% 10.4% 9.9% 7.6% 6.2% 3.9% 3.7% 12.7% 11.1% 15.5% 5.2% 4.3% 4.6% 8.9% 10.3% 4.9% 12.5% 7.8% -0.5% 13.3% 14.1% 8.3% 5.5% -5.8% 18.5% Explicativa Impostos Crédito Exportação Business 200 7 6 40 213 7 4 14 423 7 6 124 107 6 5 10 169 6 3 20 157 4 4 41 2,600 6 6 122 129 7 3 16 304 5 5 40 209 6 4 44 218 7 3 5 133 5 4 4 420 7 8 113 183 6 4 33 181 7 3 7 194 3 6 91 143 5 4 9 134 5 2 32 210 6 4 63 133 6 4 27 79 6 3 3 252 6 7 141 262 5 4 116 78 6 2 15 234 6 4 39 282 6 3 54 338 6 3 28 129 0 5 117 342 0 8 137 137 6 4 19 379 7 4 41 931 1 9 173 86 5 4 6 162 6 4 2 569 2 8 128 325 7 5 35 288 6 4 24 110 7 4 9 83 5 3 1 233 5 7 102 122 4 3 12 63 5 3 21 350 5 8 92 264 5 5 27 226 5 7 53 828 4 8 183 Tabela 6: Descrição das variáveis descritivas (parte 2 de 2) Logística Burocracia 4 4 3 4 4 4 3 4 3 3 4 4 3 4 4 3 4 4 3 4 4 3 3 4 3 4 4 3 3 4 3 3 4 4 3 3 3 4 4 3 4 4 4 3 3 3 5 9 14 3 8 3 13 1 8 8 5 4 7 9 6 17 3 5 10 5 3 12 10 4 5 6 8 7 11 5 6 8 5 1 10 7 4 6 3 9 3 6 13 5 6 17 ESTIMAÇÃO A equação inicial para estimação dos resultados, com base nas variáveis acima apresentadas, é a seguinte: 37 .:. Equação V O método utilizado será a estimação por cross-section, em que a variável resposta é o ROIC médio agregado e descontado para cada um dos países nos últimos cinco anos (2014 a 2009) e as variáveis explicativas consistem nas 12 especificadas anteriormente - também compreendidas entre a média do período de 2014 e 2009. Além disso, com intuito de corrigir eventuais problemas de estimação por conta da heterocedasticidade, foi utilizado o estimador robusto de White, a fim de conferir maior embasamento ao estudo. Regressores Start-up Tributo Propriedade Logística Impostos Exportação Eletricidade Direito Crédito Contrato Business Burocracia C β 0,001462 -0,070171 0,000385 0,027219 -0,000034 -0,003942 0,000078 0,006904 -0,006275 0,000037 -0,000343 0,001747 -0,024556 p-valor 0,0058 0,1127 0,4310 0,3701 0,0413 0,6072 0,5858 0,0504 0,2909 0,3364 0,3535 0,6297 0,8254 R² 0,398861 R² ajustado 0,180265 Teste F 0.084898 Figura 5: Regressão com todas às variáveis - regressão por mínimos quadrados ordinários com estimador robusto de White Ao final deste artigo (Apêndice II) estão apresentadas as descrições estatísticas de cada uma das variáveis juntamente com a tabela descritiva e o histograma, a fim de indicar que as principais premissas por trás da estimação estão sendo respeitadas para obtenção dos resultados. Com isto, por meio da Equação V, o primeiro resultado preliminar obtido está apresentado na Figura 5. O primeiro resultado aponta que apenas três variáveis são estatisticamente relevantes com um nível de confiança de 95%, sendo estas: o tempo necessário 38 para abrir um negócio; tempo gasto para preparação dos impostos e o índice dos direitos dos credores. A estimação indicou que estas variáveis explicam 18,0% das variações no ROIC médio agregado de cada país de acordo com o coeficiente de explicação R² ajustado. Além disso, o teste F aponta que, com 90% de confiança, ao menos uma das variáveis é relevante para explicar a diferença entre o ROIC médio agregado dos países. Assim, inicialmente há bons indícios de que a estimação é adequada. Outro ponto importante a ser ressaltado é que nem todas as três variáveis com significância de 5% apresentaram o coeficiente (β) em linha com o resultado esperado, isto é: i. Um aumento em um dia no tempo necessário para abrir um negócio não necessariamente implica que a maior morosidade do sistema tem impacto negativo sobre o ROIC. Assim, o resultado foi o oposto ao esperado inicialmente; ii. Um aumento no tempo gasto com a preparação de impostos pode implicar em uma menor dedicação dos diretores chaves para execução de outras atividades e, portanto, tem indícios de impactar o ROIC agregado médio negativamente. Desta forma, esta conclusão está alinhada ao resultado esperado; iii. Países com maior proteção aos credores indicam que há um ROIC agregado médio maior em comparação a outros países. Não apenas um resultado em linha com o esperado, mas que também contribui para a confirmação da tese de La Porta et al (1998). Apesar do resultado inicial ser positivo, indicando que há variáveis relevantes para a compreensão do ROIC, outras variáveis - que seriam inicialmente consideradas relevantes para a estimação - não apresentaram um bom indicativo. Tomando alguns exemplos que chamam mais atenção, é possível citar alguns casos a serem discutidos antes de se prosseguir a nova estimação, já com base apenas nas variáveis relevantes: um exemplo que se destaca é o caso do direito de propriedades; o direito de propriedade não apenas é uma variável amplamente discutida no âmbito de Law and Economics, como tem também um papel importante no contexto de formulação de políticas. Um exemplo desta questão é apresentado 39 por Coase, ganhador do prêmio de Nobel de economia em 1991, com trabalhos aclamados como a “The Nature of the Firm” e “The Problem of Social Cost”. Nos artigos apresentados por Coase, uma das principais interpretações feitas pelo autor é que, se os direitos de propriedades não estiverem claramente definidos pelos agentes, então deve existir custos de transação que podem impossibilitar a existência de negócios. Isto é, em países em que há pouca transparência sobre o estabelecimento de políticas públicas - acerca dos direitos de propriedade -, deve existir menos incentivos para realização de trocas. Nesse sentido, essa é interpretação considerada importante para este estudo e que diverge de seu resultado, já que não há indícios de que os direitos de propriedades tenham envolvimento sobre a qualidade da alocação de capital. Com isso, apesar de possivelmente haver menos transações nestes países, tal como já foi indicado por Coase, não há impacto no resultado da transação. Assim, é possível indicar que, por mais que existam custos de transação, tais custos não justificam a diferença entre alocação de capital entre países diferentes. Outra variável que vale ressaltar é o Business, já que, por ser um agregado macro de indicadores que analisam diretamente a qualidade de negócios de um determinado país, poderia ter resultado na indicação de uma significância considerável. Ainda assim, o resultado negativo aponta para duas possibilidades na análise: (i) não há um agregado de variáveis que seja capaz de explicar a qualidade de capital em diferentes países; (ii) o Doing Business tem como princípio analisar a qualidade das instituições e avaliar a capacidade de surgimento de novos negócios mas, neste caso, são tratadas apenas empresas com influência relevante que estejam menos preocupadas com o desenvolvimento das instituições. Além dos mencionados, a quantidade de procedimentos necessários para abrir um novo negócio, bem como o índice de logística, também não apresentaram um nível de confiança confortável. Com isso, podemos indicar que, por mais que a quantidade de dias necessários para abrir um negócio seja relevante, a quantidade de processos executados ao longo da abertura não deverá afetar o resultado da alocação de capital de determinado país. Já no caso do índice de logística, apesar do Brasil ser uma referência negativa neste âmbito, o resultado não comprovou que tal fator seja crucial para o entendimento do ROIC agregado médio de cada país. Os 40 demais itens que não apresentaram um nível de significância razoável, de certa forma, trariam entendimento marginal quando comparado aos citados acima. Por fim, ajustando a equação de regressão apenas com as variáveis que demonstraram nível de significância superior a 90%, foram selecionadas aquelas principais, citadas anteriormente – com exceção de tributo sobre o lucro das empresas, que apresentou um nível de significância próximo ao mínimo estipulado. Abaixo segue a nova equação ajustada e o resultado da estimação, tomando como base os ajustes mencionados: .:. Equação VI Regressores Start-up Tributo Impostos Direito C β 0,001198 -0,059621 -0,000043 0,008317 0,047629 p-valor 0,0001 0,1900 0,0017 0,0105 0,1313 R² 0,296559 R² ajustado 0,227931 Teste F 0,005226 Figura 6: Regressão após 1º ajuste - regressão por mínimos quadrados ordinários com estimador robusto de White A partir da Equação VI, é possível observar que o resultado permanece positivo com todas as variáveis apontadas anteriormente, tendo significância superior em quase 99% com o coeficiente de explicação ajustado passando para 22.8% (de 18.0%, na primeira estimação). Por fim, o teste F passou a ter maior significância, apontando que ao menos uma das variáveis é capaz de justificar as variações no ROIC médio agregado dos países com quase 95% de confiança. Por outro lado, ao manter a variável Tributo, que permanecia com baixo nível de confiança, o resultado da estimação foi ainda pior. Assim, ao retirar a variável Tributo como problema da questão e permanecendo somente com aquelas que tiveram alguma relevância dentro da estimação, abaixo segue a equação com a nova regressão: .:. Equação VII 41 Regressores Start-up Impostos Direito C β 0,001180 -0,000047 0,009911 0,012661 p-valor 0,0001 0,0004 0,0044 0,5977 R² 0,264901 R² ajustado 0,212394 Teste F 0,004479 Figura 7: Regressão após 2º segundo ajuste- regressão por mínimos quadrados ordinários com estimador robusto de White Após feitos os ajustes necessários, a Equação VII aponta para resultados positivos para esclarecer quais as variáveis institucionais relevantes para explicar o ROIC médio agregado entre diferentes países. Na Figura 7, os principais indicadores estatísticos apontam que todas as variáveis dependentes são relevantes com confiança de 95% e são capazes de explicar 21,2% da variação no ROIC médio agregado entre diferentes países. Além disso, o teste F aponta que, com 5% de significância, há evidência de que ao menos uma da variáveis é relevante para explicar a variável resposta. Ou seja, foi possível obter dados bastante robustos para conduzir uma análise mais específica do resultados e de como as variáveis explicativas são capazes de justificar o diferencial de ROIC entre os países. Com isto, segue apresentado abaixo a equação final de regressão, que será utilizada para condução dos resultados e para a conclusão do estudo: .:. Equação VIII Assim, a partir da Figura 7 temos que: i. Um aumento em um dia no tempo necessário para abrir um novo negócio impacta positivamente o ROIC agregado de um país, na média, em 0.1%; ii. Um aumento melhora em um ponto no índice do direito dos credores impacta postiviamente o ROIC agregado de um país, na média, em 1%; iii. Um aumento em 100 horas (ou, aproxidamente, 4 dias) no tempo necessário para preparação do imposto por ano impacta negativamente o ROIC agregado de um país, na média, em 0,5%. Vale lembrar que, por mais que as variáveis tenham baixa sensibilidade ao ROIC, uma variação média de 1% representa não apenas um aumento sobre o retorno do 42 capital investido, mas um aumento sobre o retorno do capital investido acima da taxa livre de risco. Ou seja, a tradução desse incremento é marginalmente superior ao valor absoluto do ROIC. Sendo assim, a partir do processo de estimação realizado, serão feita as principais observações acerca do resultado, tomando como base a Equação VIII. 4.4. RESULTADOS Apesar da estimação apontar a significância de apenas 3 das 12 variáveis específicadas, é possível observar alguns resultados importantes relacionados à expectativa inicial do estudo. Não apenas a estimação teve um coeficiente de explicação relevante, com um nível de confiança bastante alto, como também os regressores vão de encontro aos tópicos discutidos em sessões anteriores. Ao iniciar a análise a partir da variável start-up, que mede a quantidade de horas necessárias para abrir um novo negócio, é possível concluir que o resultado final foi diferente do resultado inicial. Isto é, era esperado que, países com uma quantidade de dias necessárias maior para abrir um novo negócio, tivessem um menor ROIC médio agregado, já que isso impediria a execução de novos negócios que incentivassem a inovação e, como consequência, maiores retornos sobre o capital investido. Apesar de inicialmente parecer contrasensual, uma justificativa para este resultado pode ser baseada no desenvolvimento de barreiras de entrada para segmentos de negócios que já estão operando. Apesar da inovação e de novos negócios serem uma importante ferramenta para a expansão da fronteira de possibilidade de produção e, consequentemente, para o desenvolvimento econômico, há também maior risco de competição para as empresas que já estão operando. Um exemplo empírico para o fato mencionado é o setor de E-Commerce. Mesmo que a quantidade de dias para abrir um novo negócio não seja uma barreira de entrada, é mais um impeditivo para as empresas ingressantes no mercado. Assim, tomando como exemplo este setor, altamente dependente da inovação, mas com baixas barreiras de entrada, temos poucas empresas com ROIC superior à taxa livre de retorno. Ou seja, de acordo com o resultado da estimação, é possível concluir que, países que oferecem mais dificuldades à criação de novos negócios, de certa forma incentivam o monopólio (ou oligopólio), trazendo retornos superiores às grandes empresas. 43 Esse resultado é importante por três motivos: i. Aponta que nem sempre boas instituições estão relacionadas a um aumento no retorno do capital investido de empresas consolidadas. Neste caso, ocorre justamente o oposto: instituições que incentivam a criação de novos negócios podem levar a maior competição e, portanto, menor retornos sobre o capital; ii. Do ponto de vista de alocação de capital, em ambientes competitivos, as empresa - na média - precisam colocar mais capital para proteger os ativos que possuem, o que pode afetar o retorno sobre o capital investido. Esse resultado tem uma correlação direta com a discussão de Modigiliani et al (1958), já que, se países não estão operando em um ambiente competitivo estável, provavelmente a estrutura de capital deverá estar operando em sua estrutura sub/sobre-ótima; iii. No caso de Law and Finance, os países com condições judiciárias contrárias ao estabelecimento de novos negócios terão resultados positivos para o retorno sobre o capital investido. Nesse sentido, instituições regulatórias como o CADE podem desenvolver políticas públicas que promovam novos negócios, de forma a incentivar a competição. Vale ressaltar um contraponto, válido para esta discussão: outra variáveis que poderiam confirmar esta tese não apresentaram relevância estatística - entre elas, aquelas que ajudariam a corroborar são: a quantidade de procedimentos necessários para abertura de novos negócios; e o tempo necessário para validar um contrato. Ainda assim, é possível afirmar que, mesmo neste caso, a quantidade de procedimentos é menos relevante do que o tempo total para abertura de um novo negócio. Um país, mesmo burocrático, que possibilite porém a abertura de novos negócios em tempo inferior, será mais eficiente em reduzir barreiras de entrada. Em relação ao tempo necessário para validar um contrato, apesar de se tratar de um indicativo para realização de novos negócios, este fator não se aplica apenas a novos negócios. Ainda que o tempo para validação de um contrato seja crítico para realização de um negócio, de forma geral, pode não impedir que ele ocorra. Ou seja, ainda que haja poucas evidências que suportem esta tese - de que a quantidade de 44 dias para abrir um negócio favorece a criação de barreiras à entrada -, este é um ponto a ser checado em outros estudos. Ao analisar a segunda variável (Direito) capaz de explicar o ROIC médio agregado entre os países, o resultado tem implicações diretas com o estudo de La Porta et al (1998) e a discussão de Modiligiani et al (1958). O índice organizado pelo WDI tem relação direta com a obra dos autores de Law and Finance, o que permite realizar uma comparação direta com o resultado obtido entre os dois estudos. No estudo de La Porta et al (1958), a conclusão da sessão sobre os direito dos credores se assemelha muito com o resultado obtido com a proteção dos acionistas. Isto é: países com origem no common law oferecem mais proteção aos credores que países originados no direito civil romano. Apesar desta discussão não ser foco do estudo, já que este artigo se foca nos retorno dos acionistas e das empresas, o índice de proteção dos credores de La Porta et al (1998) aponta para um resultado mais interessante do que propriamente ao da origem legal. De acordo com os resultados da estimação, é possível observar que o índice desenvolvido pelo autores é relevante para explicar as variações no ROIC médio agregado de diferentes países. Ou seja, países que oferecem maior proteção aos credores tendem a apresentar retornos superiores sobre o capital investido. No âmbito de Modigliani et al (1958) temos um paralelo interessante com a vertente do Law and Finance e a teoria moderna de finanças. De acordo com a estimação, se pode concluir que, países que oferecem mais proteção aos credores, tenderão a apresentar ROIC superiores à média. Na teoria de moderna de finanças, a estrutura ótima de capital é co-relacionada diretamente com o custo da dívida e a decisão da proporção entre dívida e capital próprio. Assim, sendo a proteção aos credores uma variável importante para determinação do ROIC em diferente países, temos que a estrutura de capital ótima de Modigiliani et al (1958) depende também do nível de proteção dos credores para determinar estas duas variáveis. Nesse sentido, a interpretação para o resultado da variável envolve: credores com maior proteção que tendem a oferecer melhor qualidade de crédito às companhias e, portanto, incentivam a alavacagem; e que a maior proteção ao crédito implica em um custo da dívida menor, uma vez que existem maiores garantias em determinados países do que em outros. 45 No entanto, é possível notar que o impacto no ROIC, neste caso, ocorre através do denominador da equação (dívida líquida e capital próprio) e que não influencia diretamente na capacidade do gestor de obter resultado operacional. A implicação disto é que as instituições poderão ser uma externalidade positiva ou negativa, já que, dado um ambiente jurídico que protege - ou não - o credor, este estará disposto a oferecer - ou não - mais crédito às instituições, com um spread mais alto ou mais baixo. Um importante exemplo para este resultado é observado no caso da Argentina: Sendo este um país que, na média, possui um índice 3 em 12 dos direito dos credores, é possível concluir que as companhias terão maior limitação de acesso ao capital, uma vez que não há confiança de que as obrigações dos credores serão cumpridas. Isto é, a equação de Modigliani fica comprometida neste contexto. Vale destacar também que, apesar da variável Direito ter sido estatisticamente relevante, a varíavel Crédito não foi. Portanto, por mais que houvesse garantia no cumprimento do contratos estabelecidos entre credores e instituições, a disponibilidade e a qualidade da informação pública disponível não são. Assim, é possível afirmar que, desde que os credores estejam protegidos contra eventuais problemas de calote, a informação disponível não é relevante para formação do ROIC. A partir deste ponto, outro paralelo possível de traçar é com o trabalho de Markowitz (1952), já que, tendo investidores o acesso a toda informação disponível no mercado, não deveria existir arbitragem no mercado financeiro. Apesar da referência estar muito próxima à teoria da eficiência, a hipótese a ser discutida está relacionada à linha de mercado de títulos, uma vez que é esperado que os mercados estejam em equilíbrio. Com isto, o resultado obtido na estimação aponta que, ao contrário do resultado esperado, a disparidade de informação no mercado não tem impacto algum sobre o retorno sobre o capital investido. Ainda que o autor trate sobre a alocação no mercado de capitais, o ROIC é uma importante medida para determinar se a companhia é ou não capaz de gerar valor ao acionista. Dessa forma, há uma correlação indireta entre a teoria de Markowitz (1952) - em que se espera haver uniformidade nas informações disponíveis para evitar arbitragem -, mas o resultado indica que a variável Crédito não é determinante e, portanto, não cria oportunidade de arbitragem. No entanto, é possível afirmar que 46 a diferença entre o CAPM de diferentes países (prêmio/desconto de risco) esteja associada à qualidade da proteção aos credores, pois empresas que operam em uma estrutura sub-ótima de capital devem apresentar retornos inferiores. Já no ponto de vista de crescimento econômico, a proteção aos credores pode oferecer uma boa explicação aos modelos de crescimento endógenos, que consideram o impacto das instituições financeiras. Nestes modelos, uma das variáveis é a qualidade do crédito identificado pelo spread médio, que toma como base o risco de default de determinado país. A principal implicação é que, quando há maior risco de calote, o potencial gerado para acelerar o crescimento de um país fica limitado, já que a possibilidade de alavancagem é menor – o que pode ser relacionado à teoria de Modigliani et al (1958), porém em um âmbito macroeconômico. Nesse sentido, em termos de formulação de políticas públicas, instituições legais que protejam o direito dos credores podem ser uma ferramenta para incentivo do crescimento à longo prazo das economias que ainda não estão no steady-state. Com isto, é possível concluir não só que a variável Direito faz sentido do ponto de vista estatístico, mas também do ponto de vista teórico. Por fim, a variável Impostos apresenta uma implicação interessante para o estudo das instituições. Retomando o conceito da variável, temos que, países que necessitam de mais tempo para elaboração de impostos apontam para maior complexidade do sistema tributário. Com isto, não apenas as empresas tem menos foco para dedicar à operação do negócio, como também apresentam maiores dificuldades com relação às "regras do jogo". Um exemplo que pode ser dado é o ICMS, no Brasil. Cada Estado possui uma alíquota de ICMS com legislação, regimes de créditos e incentivos fiscais próprios. Nesse sentido, o impacto sobre o retorno sobre o capital empregado ocorre sobre duas formas: (i) tempos e recursos gastos para entendimento da legislação tributária e adequação às normas de determinado país; (ii) maior dificuldade na captação e distribuição de capital próprio e de terceiros, já que a maior complexidade do sistema tributário resulta na maior complicação para realizar uma transação. Assim, o impacto do maior tempo dedicado à realização de impostos tem efeito tanto sobre o numerador do ROIC – EBIT que indica a capacidade de geração de resultado operacional – e o denominador – capital investido que indica a estrutura de capital da companhia. 47 Um contra exemplo ao fato mencionado do ICMS no Brasil são os paraísos fiscais. Pode-se notar que, na maioria das vezes, empresas, fundos de investimento e até mesmo pessoas físicas tendem a realizar operações baseadas nestas regiões, a fim de fugir da complexidade tributária. Por outro lado, é importante mencionar que a variável Impostos, como explicada anteriormente, é diferente da variável Tributo. Enquanto a variável tributo quantifica o percentual sobre as vendas que são dedicadas aos impostos, a variável imposto implica na complexidade do regime tributário. Por isso, apesar da variável tributo não ser estatisticamente relevante, aponta duas conclusões: i. Apesar do ROIC antes do pagamento de impostos, a tributação incidente sobre as companhias não é um fator relevante para justificar a diferença de retorno entre diferentes países. Neste caso, é um resultado importante, já que, caso o valor fosse estatisticamente relevante, a utilização do ROIC antes do pagamento de impostos poderia ser questionada; ii. Além disso, já que o percentual médio pago pela empresas em imposto não é estatisticamente relevante, pode se concluir que a complexidade do sistema tributário de um país tem impacto direto sobre o retorno sobre o capital investido, uma vez que torna a operação menos eficiente. Neste caso, o resultado aponta que, teoricamente, a alíquota média paga tem menos relevância que o processo para o pagamento. Esse resultado faz sentido dentro do conceito econômico, uma vez que aponta para o efeito que os procedimentos, adotados pelo Governo, podem ter sobre o resultado da alocação de capital das empresas. Neste caso, políticas econômicas que incentivem mais simplicidade no regime tributário podem ser uma boa forma de melhorar a eficiência do estoque de capital de um país. No âmbito de Law and Finance, há uma referência relevante, no caso de Coase, que, mesmo não tendo sido mais explorada em sessões anteriores, ajuda a conceituar a relação de causa e consequência entre as duas variáveis. Nota-se que, neste caso, a instituição de um regime tributário mais complexo implica em maior dificuldade no estabelecimento de contratos. Isto é, quando um comprador deseja realizar negócios com um vendedor, o entendimento do processo tributário é uma importante parte para o estabelecimento desta contrato (no entanto, o percentual pago, não). Assim, quanto maior for a morosidade do sistema para conseguir 48 entender, identificar e executar as regras estabelecidas pelo Governo, são esperados maiores custos de transação para a conclusão do contrato. Ainda que Coase trate mais especificamente de questões relacionadas aos direitos de propriedade, a noção de custos de transação do contrato é uma importante referência na literatura de Law and Economics. Retomando a outro exemplo, em um contexto no qual uma empresa varejista decide começar a operar no Brasil: para um empreendedor que não possui nenhum conhecimento sobre o regime tributário, qual é o impacto dos custos de transação em entender o funcionamento da tributação sobre a venda de produtos, trabalhistas e sobre o lucro? Neste caso, ao contrário do resultado obtido pela variável Start-up, não há um efeito barreira de entrada, mas um efeito custo de transação para as companhias grandes que operam no país. Ainda neste ponto, diferente do caso da variável Start-up, em que o resultado foi diferente do esperado, o impacto da complexidade tributária é maior na medida em que empresas são maiores. Ou seja, existem muitas chances de que uma empresa com um faturamento líquido de R$100 milhões de reais terá uma dificuldade muito menor R$1 bilhão de reais. Além da questão relacionada à dificuldade no entendimento das regras, outra implicação indireta está ligada à informalidade. Neste caso, como empresas menores, na média, são menos fiscalizadas que empresas de grande porte, países que dedicam mais horas à realização dos impostos criam incentivos para informalidade em pequenas e médias empresas. O resultado disso é que empresas com operações muito grandes tem uma obrigação maior com o fisco comparativamente a uma empresa iniciante. Enquanto uma empresa com capital aberto (que é o caso desta amostragem) deve ter os demonstrativos financeiros auditados - criando menos manobra para criatividade fiscal -, empresas pequenas podem preferir adotar a informalidade do que dispender todo o tempo necessário para elaboração de impostos. Um exemplo empírico pode ser visto nos atacados de autosserviço. Atualmente, cerca de 35% das compras feitas neste estabelecimentos são feitas por pequenos varejistas que desejam sonegar impostos e, por isso, compram através da pessoa física, ao invés da pessoa jurídica, para evitar o pagamento de impostos extras. Neste caso, apesar da existência de uma relevância, para o pequeno varejista, deste percentual a ser pago, as grandes companhias consideram este percentual 49 indiferente, pois já possuem em seu planejamento a expectativa de quitá-lo. Assim, o impacto esperado é que, em um cenário em que pequenas empresas se tornam mais competitivas, por atuarem na informalidade, há aumento na competitividade do mercado, o que pressiona o retorno sobre o capital. Assim, temos que no caso da variável Imposto, o efeito é justamente o oposto da varíavel Start-up. Enquanto na primeira variável apresentada, o efeito era favorável ao desenvolvimento de um ambiente menos competitivo por parte das grandes empresas (versus pequenas empresas), a variável imposto apresenta uma situação oposta: empresas pequenas que atuam na informalidade podem pressionar o resultado de grandes companhias. Além disso, vale destacar que, apesar de incentivar a competição e reduzir a formação de monopólios e oligopólios, do ponto de vista legal, se trata de uma prática desleal. Com empresas operando na informalidade, os custos de transação associados à formação de novas companhias são comprometidos de tal forma que podem ter impacto maior sobre o bem-estar social se comparado ao impacto da permanência destes conglomerados. Em síntese, é possível inferir que o resultado obtido por este artigo esteve alinhado ao resultado esperado anteriormente. Ainda que apenas 3 das 12 variáveis tenham sido significantes, os parâmetros remanescentes apontaram para análises e conclusões relevantes para a condução de políticas que ajudem no desenvolvimento econômico, bem como no maior entendimento sobre as implicações das instituições na teoria financeira moderna. Nesse sentido, é possível responder à principal pergunta do artigo de forma positiva: existem variáveis institucionais que são capazes de explicar, de forma relevante, as variações e diferenças entre o retorno sobre o capital investido em diferentes países. 5. CONCLUSÃO A conclusão do estudo é que foram identificadas três variáveis capazes de explicar às variações sobre o retorno do capital investido entre diferente países sendo estas: a quantidade de horas necessárias em um ano para elaboração de impostos; a quantidade de dias necessárias para abertura de um novo negócio e a qualidade dos direitos dos credores. Com isso, o artigo foi capaz de responder e identificar elementos relevantes apontados anteriormente como: (i) que companhias e 50 investidores tem incentivos para determinar o retorno não apenas com base no risco, mas também no ambiente jurídico; (ii) as instituições são um processo endógeno a formação do custo de capital e da dívida e, portanto, sendo relevantes na determinação da estrutura de capital e (iii) a estrutura de capital pode variar conforme a expectativa dos agentes relativo ao ambiente institucional que permeia as companhias. Além disso, foram identificadas algumas possíveis políticas públicas que envolvem o ambiente jurídico e tributário das organizações que são capazes de melhorar ou piorar o retorno obtido pelas organizações. Assim sendo, o estudo ofereceu uma nova perspectiva e abordagem para o campo de Law and Finance dando continuidade ao estudo de La Porta et al (1998). Nesse sentido, as variáveis identficadas são uma oportunidades de estudo para entender de maneira mais específica como podem ser formuladas políticas públicas pautadas em instituições que incentivem o desenvolvimento econômico. 6. REFERÊNCIAS Coase, R. H.The Lighthouse in Economics. Journal of Law and Economics, Vol. 17, No. 2 (Oct., 1974), pp. 357-376 Documentos disponíveis da fonte eletrônica Bloomberg. F. Modigliani and M. H. Miller (1958). The Cost of Capital, Corporation Finance and the Theory of Investment. The American Economic Review, Vol. 48, No. 3 (Jun., 1958), pp. 261-297 Hammergren, L. (2007). Envisioning Reform – Improving Judicial Performance in Latin America. University Park: The Pennsylvania State University Press. Heckman, J. J. (2008). Econometric Causality. International Statistical Review, 76, 127. Jones. C. R&D-Based Models of Economic Growth. Journal of Political La Porta, R., Lopez-de-Silanes, F., Schleifer, A., & Vishny, R. W. et al. Law and Finance. Journal of Political Economy, 106 (6), 1113-1155. Economy. Vol. 103, No. 4 (Aug., 1995), pp. 759-784 Mankiw, N. G., Romer, D. and Weil, D. N. A Contribution to the Empirics of Economic Growth. The Quarterly Journal of Economics. Vol. 107, No. 2 (May, 1992), pp. 407437 51 North, D. N. Institutions. The Journal of Economic Perspectives Vol. 5, No. 1 (Winter, 1991), pp. 97-112 Markowitz, H. (1952). Portfolio Selection. The Journal of Finance, Vol. 7, No. 1. (Mar., 1952), pp. 77-91. Technical Change and the Aggregate Production Function Solow, R. M. Technical Change and the Aggregate Production Function.The Review of Economics and Statistics, Vol. 39, No. 3 (Aug., 1957), pp. 312-320 Yeung, L. Além dos “achismos”, do senso comum e das evidências anedóticas: uma análise econômica do judiciário brasileiro” / Luciana (Luk Tai) Yeung. - 2010. 242 f. WDI. The World Bank. Disponível em: <http://data.worldbank.org/data-catalog/worlddevelopment-indicators>. Acesso em: 12 jan. 2015 7. APÊNDICE Apêndice I: Distribuição da variável resposta (ROIC descontado) comparado com às variáveis eiplicativas ROIC descontado vs. Imposto 25% 20% 15% 10% 5% 0% 0 50 100 150 200 250 300 350 400 450 500 -5% -10% 52 ROIC descontado vs. Crédito 25% 20% 15% 10% 5% 0% 4 4 4 5 5 5 5 5 6 6 6 -5% -10% ROIC descontado vs. Direito 25% 20% 15% 10% 5% 0% 0 2 4 6 8 10 12 -5% -10% 53 ROIC descontado vs. Contrato 25% 20% 15% 10% 5% 0% 0 200 400 600 800 1,000 1,200 1,400 1,600 -5% -10% ROIC descontado vs. Doing Business 25% 20% 15% 10% 5% 0% 0 50 100 150 200 -5% -10% 54 ROIC descontado vs. Exportação 25% 20% 15% 10% 5% 0% 0 2 4 6 8 10 -5% -10% ROIC descontado vs. Logística 25% 20% 15% 10% 5% 0% 2 3 4 5 -5% -10% 55 ROIC descontado vs. Burocracia 25% 20% 15% 10% 5% 0% 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 -5% -10% ROIC descontado vs. Eletricidade 25% 20% 15% 10% 5% 0% 0 50 100 150 200 250 300 -5% -10% 56 ROIC descontado vs. Tributação 25% 20% 15% 10% 5% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% -5% -10% ROIC descontado vs. Start-up 25% 20% 15% 10% 5% 0% 0 5 10 15 20 25 30 35 40 -5% -10% 57 ROIC descontado vs. Propriedade 25% 20% 15% 10% 5% 0% 0 10 20 30 40 50 60 70 80 -5% -10% Apêndice II: Descrição estatística das variáveis 58 59 60 61