A LEITURA NO UNIVERSO EDUCACIONAL DE JOVENS E ADULTOS. LAURENICE FRAZÃO GUEDES (UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ - UFPA). Resumo Este trabalho tem por objetivo descrever o modo como se conduz o processo de leitura no espaço limitado do sistema de ensino da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Para a execução desta pesquisa levou–se em consideração pressupostos teóricos tais como a concepção de leitura divulgada por Kleiman (2002) – em que a leitura é vista como um ato individual de construção de significado num contexto que é configurado mediante a interação entre autor, leitor e que, portanto, terá atribuições de significado diferente para cada leitor, dependendo de seus conhecimentos prévios, interesses e objetivos no momento da leitura – e de SILVA (1982) que discute o fato de que a leitura não é apenas uma mera decodificação de sinais com reprodução mecânica de informações, mas um ato no qual o leitor insere–se como participante ativo neste processo. Da metodologia consta a aplicação dos instrumentos: questionário – conversa informal para respectivamente identificar os procedimentos pedagógicos aplicados pelo professor no processo ensino/aprendizagem dos educandos em questão, e para diagnosticar o perfil, como leitores, dos alunos, que constituíram o universo da pesquisa. Do caminho metodológico também faz parte o confronto dos dados da pesquisa com o paradigma que determina o perfil de um leitor proficiente e a situação ideal de ensino/ aprendizagem de leitura. Palavras-chave: EJA, CONCEPÇÃO DE LEITURA, LEITOR. Considerações Iniciais Este trabalho se inscreve no domínio daqueles que se voltam para as questões pertinentes ao ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa. Deliberamos fazer uma pesquisa que pudesse trazer informações sobre uma modalidade de educação que tem um papel muito especial na vida das sociedades letradas, na medida em que tal modalidade procura inserir na vida escolar pessoas que, por algum motivo, não iniciaram ou não seguiram regularmente seus estudos no nível básico. O nosso objeto de estudo é, pois, a chamada Educação de Jovens e Adultos (EJA). O que prevê a Lei de Diretrizes e Bases da Educação para a educação de jovens e adultos (EJA) A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) n° 9394/96 prevê que um tipo especial de educação seja destinada a Jovens e Adultos que não tiveram acesso (ou não deram continuidade) aos estudos no ensino Fundamental e Médio, na faixa etária de 07 a 17 anos. Este tipo de educação deve ser oferecido em sistemas gratuitos de ensino com oportunidades educacionais apropriadas, considerando características, interesses, condições de vida e trabalho do cidadão. As diretrizes configuradas na Lei n° 9394/96 destacam que a EJA, enquanto modalidade de ensino básico deve considerar o perfil dos alunos e sua faixa etária ao propor um modelo pedagógico de modo que possa assegurar equidade e respeito à diferença. Para que haja uma transformação no quadro socioeconômico desigual não é necessário apenas ofertar uma educação de qualidade, mas alicerçá-la a transformações em diversas áreas de vida. É necessário um investimento no campo específico da Educação de Jovens e Adultos, em que se demonstre consciência dos limites dos educandos, acreditando que é possível contribuir para a formação de cidadãos autônomos e críticos capazes de agir e transformar seus espaços. Perfil dos alunos atendidos pela a Educação de Jovens e Adultos (EJA) de acordo com a Lei nº 9394/96 Os alunos atendidos pela EJA constituem uma classe bastante heterogênea quanto à idade, características socioculturais, inserção ou não no mundo do trabalho, local de moradia etc. A clientela da EJA inclui, de fato, jovens e adultos. É preciso esclarecer que essa modalidade de educação foi concebida, em princípio, para atender adulto, mas acabou incorporando uma população jovem por diversas razões, destacando-se duas: as sucessivas reprovações e as evasões de alunos jovens o que os inclui no rol dos considerados "fora da relação idade/ série" etc. Os jovens e adultos que retornam à sala de aula não raramente convivem com muitas dificuldades no meio social conforme se verá a seguir. Daí seu comportamento ser diagnosticado diversas vezes como problema por alguns docentes; os vários campos de interesses, crenças, culturas e ações desses alunos são vistos como fatores que dificultam suas relações pessoais e até o seu próprio crescimento em sala de aula. Uma parte dos alunos, ao ingressar nessa modalidade especial de educação, procura programas de elevação de escolaridade, em sua maioria, buscando melhorar suas chances para ingressar no mercado de trabalho, ou seja, objetiva, claramente, um certificado formal do nível de estudos alcançados. Outra parte ingressa pela razão de buscar reconhecimento social e de afirmar a sua autoestima. Enfim, são diversas as motivações que levam os alunos da EJA de volta aos estudos ou ao ingresso pela primeira vez na sala de aula. Assim também, diversos são os fatores que afastam da sala de aula os alunos dessa modalidade de ensino como: a necessidade de trabalho, mudança domiciliar, problemas familiares e financeiros, casamento, gravidez, falta de interesse pela escola etc. Além desses motivos, há também as dificuldades enfrentadas pelos adultos durante a jornada de estudos, como falhas de memória, não conciliação entre trabalho e estudo, cansaço, visão deficiente, etc. Perfil dos alunos da EJA que constituíram o corpus da pesquisa De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, os alunos que são atendidos pela a educação de jovens e adultos são pessoas que nunca frequentaram ou deixaram de freqüentar a escola. A pesquisa se relata em duas etapas: a primeira relacionada ao perfil de leitor referente a preferências temáticas e a motivos que os fazem leitores ou não; e a segunda, relacionada à capacidade de compreensão de textos ratifica o perfil desses alunos de acordo com a LDB nº 9394/96. Os alunos são de perfis heterogêneos. Os jovens não têm, fora da sala de aula, os mesmos compromissos que os adultos e fazem parte da turma da EJA devido a diversas reprovações e também ao fato de julgarem que estudar durante a noite é mais fácil quanto à obtenção de aprovação no fim do ano letivo, segundo alguns deles. Já os adultos são casados, têm filhos, trabalham durante o dia numa jornada cansativa e estudam por motivos diversos. Três deles estudam porque almejam trabalhos melhores, haja vista que seus trabalhos exigem deles muita força bruta e também porque eles têm idade incompatível com o trabalho que desenvolvem, fator esse que dificulta suas tarefas diárias. Os demais alunos adultos, envolvidos na pesquisa, estudam simplesmente porque gostariam de concluir o ensino médio por questão de auto-estima. Outro dado revelado pela pesquisa é que os adultos abandonaram a salas de aula quando mais jovens porque casaram e em seguida vieram os filhos e, com isso, não puderam concluir os estudos e hoje, como os filhos já estão crescidos e alguns formados, "sobra", segundo eles, tempo para dedicar aos estudos. Esses mesmos alunos enfrentam dificuldades como falta de estímulos por parte dos familiares e docentes, fazendo com que suas jornadas educacionais sejam bastante difíceis, pois precisam conciliar trabalho e estudo. Concepções de leitura Em sentido bem restrito, a leitura é compreendida como um procedimento de descoberta de sentido, a partir de um conjunto de questionamentos préestabelecidos. Em termo de escolaridade esse tipo de leitura é muito comum nas aulas de língua portuguesa e serve ao propósito de exercitar a leitura e ajudar a decifrar o código da escrita. Identifica-se esse modo de leitura, em sentido restrito, como o mais presente nas aulas de língua portuguesa, pelo fato de que, por mais que sejam usados textos durante as aulas para a prática de leitura, o que se vê realmente é um direcionamento para ler somente as palavras expressas no texto, ou seja, uma leitura desvinculada de sentido/ significação. Não se pensa na qualidade nem na profundidade da leitura. Mais além ainda, não se busca pela formação do futuro cidadão, para agir positivamente na sociedade. É importante ressaltar que decodificar um texto não deixa de ser trabalho necessário para a compreensão, pois como nos diz Maria Helena: "Decodificar sem compreender é inútil; compreender sem decodificar, impossível".(MARTINS 1989:32) É por meio da leitura e de textos que se busca o enriquecimento de repertório linguístico e cultural do aluno, o que contribui para que o aluno possa melhor interagir no mundo. Precisamos fazer o discente se relacionar com a diversidade de textos que circulam na vida social. Na interação entre aluno e texto, conhecimentos adquiridos anteriormente devem se fundir com os novos. Os textos devem levá-lo a uma reflexão crítica acerca da sociedade e do mundo; devem leválo a quebra de barreiras, de tabus ideológicos da classe dominante. Uma concepção de leitura na escola também implica não se apresentar, como na concepção tradicional, uma interpretação fechada, normalmente aquela que é fornecida pelo professor. O significado de um texto não se constrói apenas com o que está escrito, mas também com o que o leitor já conhece acerca de mundo. A leitura na escola precisa considerar os vários significados que um texto pode suscitar. Com isso, a escola não apenas realiza um trabalho de valorização das leituras dos alunos, mas também incentiva sua criatividade e imaginação. Contudo, é preciso tomar cuidado em um ponto: não são todos os textos que permitem interpretações variadas. Observemos esse trecho retirado do livro "Parâmetros Curriculares Nacionais", elaborado pela Secretaria de Educação para a Língua Portuguesa. (PCN, 1997:56-57): Há textos nos quais as diferentes interpretações fazem sentido e são mesmo necessárias: é o caso de bons literários. Há outros que não: textos instrucionais, enunciados de atividades e problemas matemáticos, por exemplo, só cumprem suas finalidades se houver compreensão do que deve ser feito. Em vista da compreensão de que ler é um processo de interação entre produtor e leitor, devemos usar estratégias que possibilitem aos nossos alunos fazer essa interação de modo mais produtivo ao praticar a leitura. O processo de formação de leitor na educação de jovens e adultos Um bom leitor sempre deve refletir sobre alguns questionamentos como, por exemplo, sobre o que ele quer e o que ele pretende fazer para alcançarem seus objetivos traçados. Sendo assim, para um bom andamento do processo da formação de leitor na EJA é necessário que o professor faça uma adequação do conteúdo exigido ao interesse desse aluno, pois se partimos das suas preferências temáticas, o processo de leitura passa a ser conduzido de forma mais dinâmica, de modo a levar o leitor não só para a leitura dos textos, mas também para uma leitura apoiada em conhecimento de vida, cotidiano, de mundo que o aluno dessa modalidade de ensino conhece muito bem. Diante disso, antes de ser definido o texto a ser trabalhado, é imprescindível que sejam especificadas de forma clara os objetivos da leitura, pois só assim o leitor saberá o que buscar. Sabemos que são diversos os objetivos que norteiam o ato de ler e dentre eles, os mais frequentes são: ler para estudar, ler para se informar e ler por prazer; dentre esses, o mais praticado pelos alunos atendidos pela EJA que participaram da pesquisa é o primeiro, haja vista que eles lêem apenas para fazer o dever solicitado pelo professor. Os alunos dessa modalidade de ensino deveriam praticar a leitura nos moldes como sugere (KLEIMAN, 2002: 27): (...) O mero passar de olhos pela linha não é leitura, pois leitura implica uma atividade de procura por parte do leitor, no seu passado, de lembranças e conhecimentos, daqueles que são relevantes para a compreensão de um texto que fornece pistas e sugere caminhos, mas certamente não explicita tudo o que seria possível explicitar. Assim como se deve selecionar textos que atendam aos interesses dos alunos da EJA, deve-se instigá-los para que eles formem ou aperfeiçoem o senso crítico ao trabalhar com os textos. Assim, é necessário apresentar textos com os quais o aluno facilmente se identifique, por tratarem de aspectos do cotidiano, do ambiente, da situação que de alguma maneira já conhecem. Com isso, veremos que o interesse pela leitura é uma atitude favorável ao texto, além disso, o primeiro contato com a leitura deve ser adequado à idade, à escolaridade e ao nível social do leitor. Depois deste despertar, devemos ampliar sua leitura e apresentá-lo a outras realidades. Como foi diagnosticado em nossa pesquisa, o aluno da Educação de Jovens e Adultos precisa de um objetivo específico para a leitura, pois estes têm dificuldades em praticar esse ato e essa dificuldade é manifestada porque, segundo eles, a jornada de trabalho é longa e não "sobra" tempo para nada. Se não fosse assim, o processo de leitura e compreensão que se adequam aos objetivos do leitor e que são determinados pelo tipo ou forma de textos, aconteceriam mais vezes. Segundo Kleiman (KLEIMAN, 2002: 34), a disposição de se constituir objetivos na leitura é considerada como uma "estratégia metacognitiva", ou seja, esta estratégia reflete e controla o próprio conhecimento. Devido a esta estratégia, pode-se dizer que a leitura é um processo e as diferentes formas de ler são diversos caminhos para alcançar os objetivos estipulados pelo leitor. Uma das estratégias metacognitivas é a formulação de hipóteses, em que o leitor terá que postular conteúdos e uma estruturação para eles, ou seja, a partir de alguns dados como o título, a fonte, imagens etc., o leitor poderá prever do que o texto trata. Uma vez que este consiga levantar as hipóteses necessárias, irá fazer a verificação destas por meio de uma leitura detalhada do texto; assim irá confirmar ou refutar e depois revisar. Daí, o processo de leitura torna-se uma atividade consciente e auto controlada pelo autor, por isso deve-se fazer com que este tenha a certeza de que o texto está sempre em construção, em formação e assim o leitor não deve temê-lo, mas decifrá-lo de forma concisa, objetiva, direta. Ao abordar o ato de ler é muito delicado tomarmos liberdades para classificar como forma concreta e finita estas concepções, pois estamos lidamos com pessoas diferentes na idade, concepções de vida, trabalho etc. Ainda no que se refere ao leitor, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, ser leitor, na essência da palavra, pressupõe uma série de domínios, como por exemplo, do código (verbal ou não) e suas convenções; dos mecanismos de articulação dos segmentos textuais que constituem o todo significativo; do contexto em que se insere esse todo. Para os PCN, o bom leitor deve ser capaz de analisar e interpretar idéias no contexto de interlocução, de reconhecer recursos expressivos da linguagem, de identificar manifestações culturais no eixo temporal, reconhecendo os momentos de tradição e de ruptura, de emitir juízos críticos sobre manifestações culturais, de identificar-se como usuário e interlocutor de linguagens que estruturam uma identidade cultural própria, de analisar metalinguisticamente as diversas linguagens. Pois as habilidades de ler e interpretar podem desenvolver-se com atividades relacionadas a antecipação e interferência, título e índices, elementos da narrativa, efeitos de sentido, autoria, escolhas e estilo. A pesquisa Os procedimentos metodológicos Sabíamos que identificar o perfil de leitor em uma modalidade de ensino tão especial como é a EJA não seria tarefa fácil, pois são diversos os fatores que influenciam no processo de ensino desses alunos, mas sabemos também que para a prática de leitura acontecer, de fato, é necessário que todos os docentes da instituição relacionados a essa modalidade de ensino unam forças, isto é, trabalhem juntos na busca de plantar ou apenas despertar, em seus educandos o prazer em ler, em compreender, em refletir aquilo que lê e não somente partilhar da concepção de que a disponibilidade para a leitura é tarefa do educador de língua portuguesa. Para identificarmos o perfil dos alunos atendidos pela EJA, propusemos uma pesquisa de campo - questionário para que pudéssemos identificar o perfil desses alunos no que se refere à prática de leitura e preferências temáticas e também leitura enquanto compreensão de textos. Para fins de esclarecimentos, informamos que a pesquisa foi elaborada em uma turma da EJA de uma escola pública em Belém, pois faz parte da concepção dessa modalidade de ensino que as aulas sejam ministradas pela rede pública de ensino. Para a identificação do perfil dos alunos, contamos com questionários que foram divididos em duas etapas: o primeiro questionário foi referente à prática de leitura, motivação para que esse ato aconteça e, também, às preferências temáticas e os alunos responderiam SIM ou NÃO e justificariam suas escolhas. O segundo dizia respeito à leitura em sentido amplo, de reflexão, compreensão daquilo que se lê e, mais uma vez, os alunos responderiam a questões objetivas e subjetivas. O primeiro questionário já citado anteriormente e o resultado expressa que, dos 15 alunos que participaram da pesquisa, 14 costumam ler jornais; 9 lêem apenas o livro didático para fazer trabalho; 12 têm dificuldades para compreender o texto; 10 gostariam de ler temas referentes à suas realidades, como violência, sexo, amor, trabalho e desemprego etc. Porém esse diagnóstico não foi suficiente para afirmar o perfil desses alunos como leitores. Para fins de esclarecimentos, cumpre dizer que o perfil de leitores considerado é o divulgado por KLEIMAN (2002), em que a leitura é vista como um ato individual de construção de significado num contexto que é configurado mediante a interação entre autor e leitor, e que, portanto, será diferente, para cada indivíduo dependendo de seus conhecimentos, interesses e objetivos do momento. O perfil de leitor identificado nos informantes da pesquisa Nota-se nas respostas dos informantes que a prática de leitura dos alunos em textos é quase nula, pois eles só lêem para fazer algum trabalho da escola ou simplesmente lêem porque ainda encontraram um texto que lhe chame a atenção. Eles também justificaram que não costumam ler pela dificuldade que têm para depreender o que lêem, ou porque não conseguem dispor de tempo para a leitura, ou porque não foram acostumados a ler, ou porque não encontram textos que despertem neles o desejo de lê, ou simplesmente porque não gostam de ler. No que se refere à linguagem dos textos que são trabalhados, alguns alunos sentem dificuldades em compreender o texto devido à linguagem ser difícil e outros apenas disseram que não compreendem. Na questão referente ao fato de os textos serem interessantes ou não, alguns disseram que são difíceis e por isso não são interessantes e outros evidenciaram a relevância de se trabalhar com as preferências temáticas deles para a aprendizagem fluir melhor, pois, sendo assim, os textos passam a ter sentido com a vida real desses alunos, ou seja, com o cotidiano deles. Na questão referente à freqüência com que esses alunos praticam a leitura, houve um empate entre ler pouco e ler médio com quase 50% para cada, enquanto àqueles que lêem muito somaram apenas 6,6%. No que se refere a temática preferencial do aluno do que teve uma maior relevância para o levantamento do perfil dos alunos da EJA, o que diz respeito a preferências temáticas é que todos os educandos evidenciaram a importância de se trabalhar temas diversos e primordialmente relacionados com a realidade em que vivemos hoje como, violência, desemprego, trabalho, saúde, política, sexo etc. No segundo questionário, o teste de leitura foi baseado na compreensão de textos escritos em linguagem verbal e reflexão sobre as questões propostas, com o objetivo de desenvolver e alcançar metas pessoais e também o conhecimento e potencial individual ansiando à participação plena na vida em sociedade. Nesse questionário os alunos teriam que identificar informações específicas até a capacidade de compreender e interpretar corretamente o texto apresentado, o que inclui a reflexão sobre o seu conteúdo e suas características. Este teste de leitura foi constituído por diferentes tipos de itens, tais como de múltipla escolha, de resposta construída curta e que exigem respostas mais extensas. A primeira questão, de identificação-recuperação de informação a identificação da alternativa correta e exigia apenas uma leitura atenciosa, o que serviria não só para recuperar a informação solicitada, como para eliminar as três alternativas incorretas. Os alunos tiveram 90% de acerto e os alunos que erraram a questão mostram que esses sequer leram o texto, e escolheram, dentre as alternativas apresentadas, aquela que parecia corresponder, de alguma maneira, a uma interpretação de senso comum. Esse foi um fator muito importante durante a elaboração dessa tarefa, pois os alunos falavam muito de seus conhecimentos de mundo e não atentavam para o que dizia o texto.[1]. A segunda questão aberta era referente ao estilo1 do texto, no entanto vale ressaltar que essa noção não costuma ser apresentada nas escolas, pelo menos, aquela que acompanhamos durante quatro meses. Nesta questão 90% receberam crédito parcial porque forneceram respostas que se vinculam ao conteúdo, isto é, falaram do conteúdo e não do estilo, e 10% não responderam. A questão número 03 era de interpretação. O aluno precisava integrar parte de um texto, que lhe foi apresentado para respondê-lo. Só 50% acertaram, e os alunos que erraram essa questão talvez tenham mais uma vez inferindo a respostas seus conhecimentos de mundo, haja vista que a opção marcada por eles dizia respeito ao fato de a vacina, a que se referia o texto, ser incômoda. A questão número 04 era de reflexão, ou seja, avaliava a pertinência de uma seção do texto em relação ao seu significado e propósito gerais. Constata-se que 100% dos alunos não receberam nenhum crédito nessa questão e isso chamou a nossa atenção porque os alunos responderam de forma inadequada à pergunta feita. As tarefas nesse nível requerem que os leitores avaliem criticamente um texto, ou hipóteses a respeito de informação no texto, usando conhecimento formal ou público. Mais uma vez confirma-se que nossas escolas não ainda estão longe de promover atividade de leitura adequada que, baseadas em diferentes gêneros textuais, permitam o desenvolvimento nos alunos dessa competência. A última questão era de reflexão sobre o conteúdo. Nela, os alunos tinham que aplicar um conjunto de critérios presentes em um texto a situações semelhantes. Verificou-se que e 30% acertaram, mas, referente a esta questão em particular, talvez um fator tenha sido preponderante para o baixo índice de acertos que foi um distrator presente no texto. Talvez mais uma vez se possa levantar a hipótese de que os alunos que optaram pelas três alternativas incorretas ou não leram o texto ou não voltaram a ele, após a leitura da questão a das alternativas, para fazerem a correta interpretação exigida para a escolha da alternativa correta. Em ralação aos saberes desses alunos, nota-se que eles compreendem uma informação quando essa está identificada diretamente no texto. No que se refere às dificuldades desses alunos, as questões propostas exigiram que eles avaliassem criticamente o texto, ou levantassem hipóteses a respeito de informações no texto, usando conhecimento formal ou conhecimento de mundo, no entanto nota-se que as dificuldades apresentadas pelos alunos evidenciam aquilo que temos presenciado no decorrer das aulas de leitura: lê-se para identificar problemas gramaticais, corrigir, pronúncia etc. Não se trabalha a leitura como interpretação de sentido; isso se explica por que o grau de dificuldades desses alunos foi grande quando a questão exigia interpretação, reflexão. CONSIDERAÇÕES FINAIS Por um lado foi uma oportunidade feliz a de poder escrever um pouco sobre a educação de jovens e adultos no que se refere ao processo de leitura, no âmbito dessa modalidade de ensino. Por outro lado foi um momento de angústia em vista das constatações feitas durante o desenvolvimento da pesquisa. Angústia essa devido ao fato de termos diagnosticado práticas inadequadas e improdutivas, não-condizentes com aquelas mais recentes concepções de leitura e, consequentemente, com objetivos mais amplos que legitimamente se pode pretender para o ensino da EJA. Como quer que seja, foi excelente a oportunidade de apresentar essa modalidade de ensino e sugerir para alguns caminhos, segundo alguns autores, que possam ajudar na reorientação de atividade pedagógica de leitura no processo de ensino desse modo especial de educação, que é a EJA. Acreditamos que os objetivos deste trabalho foram alcançados, pois o contato com alunos da EJA permitiu não só formular um diagnóstico acerca de seu comportamento, mas também ver, na prática, que a escola ainda precisa empenhar-se mais em promover atividades que concorram para melhorar a competência de leitura. Conhecer as habilidades de leitura faz muita diferença, à medida que esse conhecimento é fundamental para que alunos tenham melhor desempenho em situações concretas de leitura, dentro e fora da sala de aula. Não saber tais estratégias concorre para deixar alunos da EJA menos preparados para enfrentar as exigências de um mercado de trabalho cada vez mais rigoroso em diversos aspectos. Se o que predomina nas aulas de leitura continua sendo uma prática desvinculada de sentido, significado, praticar esse ato pode não ter muita importância principalmente, para quem precisa, de imediato, adquirir competência em leitura. Referências Bibliográficas ANTUNES, Irandé. Aula de português: encontro & interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003. BELLEGER, Lionel. Os métodos de leitura. Rio de Janeiro: editora Zahar, 1979. KLEIMAN, Ângela. Oficina de leitura: teoria e prática. 9ª edição. Campinas. SP: Pontes, 2002 MAROTE, João Teodoro D'Olim & FERRO, Cláucia D'Olim Marote. Didática da língua portuguesa. São Paulo: Ática, 1990. _______________________Parâmetros Médio. Brasília, SEF 1997. Curriculares Nacionais para o Ensino ______________________Parâmetros Curriculares Nacionais Linguagem, Códigos e Suas Tecnologias. Brasília, 2004 Ensino Médio: SILVA, Ezequiel Teodoro da. A produção da leitura na escola. São Paulo: Ática, 1995. [1] A noção de estilo postulada por Bakhtin permite que compreendemos os estilos institucionais e/ou individuais como necessariamente articulados aos gêneros e à sua diversidade. O autor chama a atenção para o fato de que nem todos os gêneros estão aptos a refletir a individualidade.