A LEITURA NO UNIVERSO EDUCACIONAL DE JOVENS E ADULTOS.
LAURENICE FRAZÃO GUEDES (UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ - UFPA).
Resumo
Este trabalho tem por objetivo descrever o modo como se conduz o processo de
leitura no espaço limitado do sistema de ensino da Educação de Jovens e Adultos
(EJA). Para a execução desta pesquisa levou–se em consideração pressupostos
teóricos tais como a concepção de leitura divulgada por Kleiman (2002) – em que a
leitura é vista como um ato individual de construção de significado num contexto
que é configurado mediante a interação entre autor, leitor e que, portanto, terá
atribuições de significado diferente para cada leitor, dependendo de seus
conhecimentos prévios, interesses e objetivos no momento da leitura – e de SILVA
(1982) que discute o fato de que a leitura não é apenas uma mera decodificação de
sinais com reprodução mecânica de informações, mas um ato no qual o leitor
insere–se como participante ativo neste processo. Da metodologia consta a
aplicação dos instrumentos: questionário – conversa informal para respectivamente
identificar os procedimentos pedagógicos aplicados pelo professor no processo
ensino/aprendizagem dos educandos em questão, e para diagnosticar o perfil, como
leitores, dos alunos, que constituíram o universo da pesquisa. Do caminho
metodológico também faz parte o confronto dos dados da pesquisa com o
paradigma que determina o perfil de um leitor proficiente e a situação ideal de
ensino/ aprendizagem de leitura.
Palavras-chave:
EJA, CONCEPÇÃO DE LEITURA, LEITOR.
Considerações Iniciais
Este trabalho se inscreve no domínio daqueles que se voltam para as
questões pertinentes ao ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa.
Deliberamos fazer uma pesquisa que pudesse trazer informações sobre
uma modalidade de educação que tem um papel muito especial na vida das
sociedades letradas, na medida em que tal modalidade procura inserir na vida
escolar pessoas que, por algum motivo, não iniciaram ou não seguiram
regularmente seus estudos no nível básico. O nosso objeto de estudo é, pois, a
chamada Educação de Jovens e Adultos (EJA).
O que prevê a Lei de Diretrizes e Bases da Educação para a educação de
jovens e adultos (EJA)
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) n° 9394/96 prevê que um
tipo especial de educação seja destinada a Jovens e Adultos que não tiveram
acesso (ou não deram continuidade) aos estudos no ensino Fundamental e Médio,
na faixa etária de 07 a 17 anos.
Este tipo de educação deve ser oferecido em sistemas gratuitos de ensino
com oportunidades educacionais apropriadas, considerando características,
interesses, condições de vida e trabalho do cidadão.
As diretrizes configuradas na Lei n° 9394/96 destacam que a EJA,
enquanto modalidade de ensino básico deve considerar o perfil dos alunos e sua
faixa etária ao propor um modelo pedagógico de modo que possa assegurar
equidade e respeito à diferença.
Para que haja uma transformação no quadro socioeconômico desigual não
é necessário apenas ofertar uma educação de qualidade, mas alicerçá-la a
transformações em diversas áreas de vida. É necessário um investimento no campo
específico da Educação de Jovens e Adultos, em que se demonstre consciência dos
limites dos educandos, acreditando que é possível contribuir para a formação de
cidadãos autônomos e críticos capazes de agir e transformar seus espaços.
Perfil dos alunos atendidos pela a Educação de Jovens e Adultos (EJA) de
acordo com a Lei nº 9394/96
Os alunos atendidos pela EJA constituem uma classe bastante heterogênea
quanto à idade, características socioculturais, inserção ou não no mundo do
trabalho, local de moradia etc.
A clientela da EJA inclui, de fato, jovens e adultos. É preciso esclarecer que
essa modalidade de educação foi concebida, em princípio, para atender adulto, mas
acabou incorporando uma população jovem por diversas razões, destacando-se
duas: as sucessivas reprovações e as evasões de alunos jovens o que os inclui no
rol dos considerados "fora da relação idade/ série" etc.
Os jovens e adultos que retornam à sala de aula não raramente convivem
com muitas dificuldades no meio social conforme se verá a seguir. Daí seu
comportamento ser diagnosticado diversas vezes como problema por alguns
docentes; os vários campos de interesses, crenças, culturas e ações desses alunos
são vistos como fatores que dificultam suas relações pessoais e até o seu próprio
crescimento em sala de aula.
Uma parte dos alunos, ao ingressar nessa modalidade especial de
educação, procura programas de elevação de escolaridade, em sua maioria,
buscando melhorar suas chances para ingressar no mercado de trabalho, ou seja,
objetiva, claramente, um certificado formal do nível de estudos alcançados. Outra
parte ingressa pela razão de buscar reconhecimento social e de afirmar a sua autoestima. Enfim, são diversas as motivações que levam os alunos da EJA de volta aos
estudos ou ao ingresso pela primeira vez na sala de aula.
Assim também, diversos são os fatores que afastam da sala de aula os
alunos dessa modalidade de ensino como: a necessidade de trabalho, mudança
domiciliar, problemas familiares e financeiros, casamento, gravidez, falta de
interesse pela escola etc. Além desses motivos, há também as dificuldades
enfrentadas pelos adultos durante a jornada de estudos, como falhas de memória,
não conciliação entre trabalho e estudo, cansaço, visão deficiente, etc.
Perfil dos alunos da EJA que constituíram o corpus da pesquisa
De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, os alunos que são
atendidos pela a educação de jovens e adultos são pessoas que nunca
frequentaram ou deixaram de freqüentar a escola.
A pesquisa se relata em duas etapas: a primeira relacionada ao perfil de
leitor referente a preferências temáticas e a motivos que os fazem leitores ou não;
e a segunda, relacionada à capacidade de compreensão de textos ratifica o perfil
desses alunos de acordo com a LDB nº 9394/96.
Os alunos são de perfis heterogêneos. Os jovens não têm, fora da sala de
aula, os mesmos compromissos que os adultos e fazem parte da turma da EJA
devido a diversas reprovações e também ao fato de julgarem que estudar durante a
noite é mais fácil quanto à obtenção de aprovação no fim do ano letivo, segundo
alguns deles. Já os adultos são casados, têm filhos, trabalham durante o dia numa
jornada cansativa e estudam por motivos diversos. Três deles estudam porque
almejam trabalhos melhores, haja vista que seus trabalhos exigem deles muita
força bruta e também porque eles têm idade incompatível com o trabalho que
desenvolvem, fator esse que dificulta suas tarefas diárias. Os demais alunos
adultos, envolvidos na pesquisa, estudam simplesmente porque gostariam de
concluir o ensino médio por questão de auto-estima.
Outro dado revelado pela pesquisa é que os adultos abandonaram a salas
de aula quando mais jovens porque casaram e em seguida vieram os filhos e, com
isso, não puderam concluir os estudos e hoje, como os filhos já estão crescidos e
alguns formados, "sobra", segundo eles, tempo para dedicar aos estudos. Esses
mesmos alunos enfrentam dificuldades como falta de estímulos por parte dos
familiares e docentes, fazendo com que suas jornadas educacionais sejam bastante
difíceis, pois precisam conciliar trabalho e estudo.
Concepções de leitura
Em sentido bem restrito, a leitura é compreendida como um procedimento
de descoberta de sentido, a partir de um conjunto de questionamentos préestabelecidos. Em termo de escolaridade esse tipo de leitura é muito comum nas
aulas de língua portuguesa e serve ao propósito de exercitar a leitura e ajudar a
decifrar o código da escrita. Identifica-se esse modo de leitura, em sentido restrito,
como o mais presente nas aulas de língua portuguesa, pelo fato de que, por mais
que sejam usados textos durante as aulas para a prática de leitura, o que se vê
realmente é um direcionamento para ler somente as palavras expressas no texto,
ou seja, uma leitura desvinculada de sentido/ significação. Não se pensa na
qualidade nem na profundidade da leitura. Mais além ainda, não se busca pela
formação do futuro cidadão, para agir positivamente na sociedade.
É importante ressaltar que decodificar um texto não deixa de ser trabalho
necessário para a compreensão, pois como nos diz Maria Helena: "Decodificar sem
compreender é inútil; compreender sem decodificar, impossível".(MARTINS
1989:32)
É por meio da leitura e de textos que se busca o enriquecimento de
repertório linguístico e cultural do aluno, o que contribui para que o aluno possa
melhor interagir no mundo. Precisamos fazer o discente se relacionar com a
diversidade de textos que circulam na vida social. Na interação entre aluno e texto,
conhecimentos adquiridos anteriormente devem se fundir com os novos. Os textos
devem levá-lo a uma reflexão crítica acerca da sociedade e do mundo; devem leválo a quebra de barreiras, de tabus ideológicos da classe dominante.
Uma concepção de leitura na escola também implica não se apresentar,
como na concepção tradicional, uma interpretação fechada, normalmente aquela
que é fornecida pelo professor. O significado de um texto não se constrói apenas
com o que está escrito, mas também com o que o leitor já conhece acerca de
mundo. A leitura na escola precisa considerar os vários significados que um texto
pode suscitar. Com isso, a escola não apenas realiza um trabalho de valorização
das leituras dos alunos, mas também incentiva sua criatividade e imaginação.
Contudo, é preciso tomar cuidado em um ponto: não são todos os textos
que permitem interpretações variadas. Observemos esse trecho retirado do livro
"Parâmetros Curriculares Nacionais", elaborado pela Secretaria de Educação para a
Língua Portuguesa. (PCN, 1997:56-57):
Há textos nos quais as diferentes interpretações fazem sentido e são mesmo
necessárias: é o caso de bons literários. Há outros que não: textos instrucionais,
enunciados de atividades e problemas matemáticos, por exemplo, só cumprem
suas finalidades se houver compreensão do que deve ser feito.
Em vista da compreensão de que ler é um processo de interação entre produtor
e leitor, devemos usar estratégias que possibilitem aos nossos alunos fazer essa
interação de modo mais produtivo ao praticar a leitura.
O processo de formação de leitor na educação de jovens e adultos
Um bom leitor sempre deve refletir sobre alguns questionamentos como,
por exemplo, sobre o que ele quer e o que ele pretende fazer para alcançarem seus
objetivos traçados. Sendo assim, para um bom andamento do processo da
formação de leitor na EJA é necessário que o professor faça uma adequação do
conteúdo exigido ao interesse desse aluno, pois se partimos das suas preferências
temáticas, o processo de leitura passa a ser conduzido de forma mais dinâmica, de
modo a levar o leitor não só para a leitura dos textos, mas também para uma
leitura apoiada em conhecimento de vida, cotidiano, de mundo que o aluno dessa
modalidade de ensino conhece muito bem.
Diante disso, antes de ser definido o texto a ser trabalhado, é
imprescindível que sejam especificadas de forma clara os objetivos da leitura, pois
só assim o leitor saberá o que buscar. Sabemos que são diversos os objetivos que
norteiam o ato de ler e dentre eles, os mais frequentes são: ler para estudar, ler
para se informar e ler por prazer; dentre esses, o mais praticado pelos alunos
atendidos pela EJA que participaram da pesquisa é o primeiro, haja vista que eles
lêem apenas para fazer o dever solicitado pelo professor. Os alunos dessa
modalidade de ensino deveriam praticar a leitura nos moldes como sugere
(KLEIMAN, 2002: 27):
(...) O mero passar de olhos pela linha não é leitura, pois leitura implica uma
atividade de procura por parte do leitor, no seu passado, de lembranças e
conhecimentos, daqueles que são relevantes para a compreensão de um texto que
fornece pistas e sugere caminhos, mas certamente não explicita tudo o que seria
possível explicitar.
Assim como se deve selecionar textos que atendam aos interesses dos
alunos da EJA, deve-se instigá-los para que eles formem ou aperfeiçoem o senso
crítico ao trabalhar com os textos. Assim, é necessário apresentar textos com os
quais o aluno facilmente se identifique, por tratarem de aspectos do cotidiano, do
ambiente, da situação que de alguma maneira já conhecem. Com isso, veremos
que o interesse pela leitura é uma atitude favorável ao texto, além disso, o primeiro
contato com a leitura deve ser adequado à idade, à escolaridade e ao nível social
do leitor. Depois deste despertar, devemos ampliar sua leitura e apresentá-lo a
outras realidades.
Como foi diagnosticado em nossa pesquisa, o aluno da Educação de Jovens
e Adultos precisa de um objetivo específico para a leitura, pois estes têm
dificuldades em praticar esse ato e essa dificuldade é manifestada porque, segundo
eles, a jornada de trabalho é longa e não "sobra" tempo para nada. Se não fosse
assim, o processo de leitura e compreensão que se adequam aos objetivos do leitor
e que são determinados pelo tipo ou forma de textos, aconteceriam mais
vezes.
Segundo Kleiman (KLEIMAN, 2002: 34), a disposição de se constituir
objetivos na leitura é considerada como uma "estratégia metacognitiva", ou seja,
esta estratégia reflete e controla o próprio conhecimento. Devido a esta estratégia,
pode-se dizer que a leitura é um processo e as diferentes formas de ler são
diversos caminhos para alcançar os objetivos estipulados pelo leitor.
Uma das estratégias metacognitivas é a formulação de hipóteses, em que o
leitor terá que postular conteúdos e uma estruturação para eles, ou seja, a partir
de alguns dados como o título, a fonte, imagens etc., o leitor poderá prever do que
o texto trata. Uma vez que este consiga levantar as hipóteses necessárias, irá fazer
a verificação destas por meio de uma leitura detalhada do texto; assim irá
confirmar ou refutar e depois revisar. Daí, o processo de leitura torna-se uma
atividade consciente e auto controlada pelo autor, por isso deve-se fazer com que
este tenha a certeza de que o texto está sempre em construção, em formação e
assim o leitor não deve temê-lo, mas decifrá-lo de forma concisa, objetiva, direta.
Ao abordar o ato de ler é muito delicado tomarmos liberdades para
classificar como forma concreta e finita estas concepções, pois estamos lidamos
com pessoas diferentes na idade, concepções de vida, trabalho etc.
Ainda no que se refere ao leitor, de acordo com os Parâmetros Curriculares
Nacionais, ser leitor, na essência da palavra, pressupõe uma série de domínios,
como por exemplo, do código (verbal ou não) e suas convenções; dos mecanismos
de articulação dos segmentos textuais que constituem o todo significativo; do
contexto em que se insere esse todo.
Para os PCN, o bom leitor deve ser capaz de analisar e interpretar idéias no
contexto de interlocução, de reconhecer recursos expressivos da linguagem, de
identificar manifestações culturais no eixo temporal, reconhecendo os momentos de
tradição e de ruptura, de emitir juízos críticos sobre manifestações culturais, de
identificar-se como usuário e interlocutor de linguagens que estruturam uma
identidade cultural própria, de analisar metalinguisticamente as diversas
linguagens. Pois as habilidades de ler e interpretar podem desenvolver-se com
atividades relacionadas a antecipação e interferência, título e índices, elementos da
narrativa, efeitos de sentido, autoria, escolhas e estilo.
A pesquisa
Os procedimentos metodológicos
Sabíamos que identificar o perfil de leitor em uma modalidade de ensino
tão especial como é a EJA não seria tarefa fácil, pois são diversos os fatores que
influenciam no processo de ensino desses alunos, mas sabemos também que para
a prática de leitura acontecer, de fato, é necessário que todos os docentes da
instituição relacionados a essa modalidade de ensino unam forças, isto é, trabalhem
juntos na busca de plantar ou apenas despertar, em seus educandos o prazer em
ler, em compreender, em refletir aquilo que lê e não somente partilhar da
concepção de que a disponibilidade para a leitura é tarefa do educador de língua
portuguesa. Para identificarmos o perfil dos alunos atendidos pela EJA,
propusemos uma pesquisa de campo - questionário para que pudéssemos
identificar o perfil desses alunos no que se refere à prática de leitura e preferências
temáticas e também leitura enquanto compreensão de textos.
Para fins de esclarecimentos, informamos que a pesquisa foi elaborada em
uma turma da EJA de uma escola pública em Belém, pois faz parte da concepção
dessa modalidade de ensino que as aulas sejam ministradas pela rede pública de
ensino.
Para a identificação do perfil dos alunos, contamos com questionários que
foram divididos em duas etapas: o primeiro questionário foi referente à prática de
leitura, motivação para que esse ato aconteça e, também, às preferências
temáticas e os alunos responderiam SIM ou NÃO e justificariam suas escolhas. O
segundo dizia respeito à leitura em sentido amplo, de reflexão, compreensão
daquilo que se lê e, mais uma vez, os alunos responderiam a questões objetivas e
subjetivas.
O primeiro questionário já citado anteriormente e o resultado expressa
que, dos 15 alunos que participaram da pesquisa, 14 costumam ler jornais; 9 lêem
apenas o livro didático para fazer trabalho; 12 têm dificuldades para compreender o
texto; 10 gostariam de ler temas referentes à suas realidades, como violência,
sexo, amor, trabalho e desemprego etc. Porém esse diagnóstico não foi suficiente
para afirmar o perfil desses alunos como leitores. Para fins de esclarecimentos,
cumpre dizer que o perfil de leitores considerado é o divulgado por KLEIMAN
(2002), em que a leitura é vista como um ato individual de construção de
significado num contexto que é configurado mediante a interação entre autor e
leitor, e que, portanto, será diferente, para cada indivíduo dependendo de seus
conhecimentos, interesses e objetivos do momento.
O perfil de leitor identificado nos informantes da pesquisa
Nota-se nas respostas dos informantes que a prática de leitura dos alunos
em textos é quase nula, pois eles só lêem para fazer algum trabalho da escola ou
simplesmente lêem porque ainda encontraram um texto que lhe chame a atenção.
Eles também justificaram que não costumam ler pela dificuldade que têm para
depreender o que lêem, ou porque não conseguem dispor de tempo para a leitura,
ou porque não foram acostumados a ler, ou porque não encontram textos que
despertem neles o desejo de lê, ou simplesmente porque não gostam de ler.
No que se refere à linguagem dos textos que são trabalhados, alguns
alunos sentem dificuldades em compreender o texto devido à linguagem ser difícil e
outros apenas disseram que não compreendem.
Na questão referente ao fato de os textos serem interessantes ou não,
alguns disseram que são difíceis e por isso não são interessantes e outros
evidenciaram a relevância de se trabalhar com as preferências temáticas deles para
a aprendizagem fluir melhor, pois, sendo assim, os textos passam a ter sentido
com a vida real desses alunos, ou seja, com o cotidiano deles.
Na questão referente à freqüência com que esses alunos praticam a leitura,
houve um empate entre ler pouco e ler médio com quase 50% para cada, enquanto
àqueles que lêem muito somaram apenas 6,6%.
No que se refere a temática preferencial do aluno do que teve uma maior
relevância para o levantamento do perfil dos alunos da EJA, o que diz respeito a
preferências temáticas é que todos os educandos evidenciaram a importância de se
trabalhar temas diversos e primordialmente relacionados com a realidade em que
vivemos hoje como, violência, desemprego, trabalho, saúde, política, sexo etc.
No segundo questionário, o teste de leitura foi baseado na compreensão de
textos escritos em linguagem verbal e reflexão sobre as questões propostas, com o
objetivo de desenvolver e alcançar metas pessoais e também o conhecimento e
potencial individual ansiando à participação plena na vida em sociedade. Nesse
questionário os alunos teriam que identificar informações específicas até a
capacidade de compreender e interpretar corretamente o texto apresentado, o que
inclui a reflexão sobre o seu conteúdo e suas características.
Este teste de leitura foi constituído por diferentes tipos de itens, tais como
de múltipla escolha, de resposta construída curta e que exigem respostas mais
extensas.
A primeira questão, de identificação-recuperação de informação a
identificação da alternativa correta e exigia apenas uma leitura atenciosa, o que
serviria não só para recuperar a informação solicitada, como para eliminar as três
alternativas incorretas. Os alunos tiveram 90% de acerto e os alunos que erraram
a questão mostram que esses sequer leram o texto, e escolheram, dentre as
alternativas apresentadas, aquela que parecia corresponder, de alguma maneira, a
uma interpretação de senso comum. Esse foi um fator muito importante durante a
elaboração dessa tarefa, pois os alunos falavam muito de seus conhecimentos de
mundo e não atentavam para o que dizia o texto.[1].
A segunda questão aberta era referente ao estilo1 do texto, no entanto vale
ressaltar que essa noção não costuma ser apresentada nas escolas, pelo menos,
aquela que acompanhamos durante quatro meses. Nesta questão 90% receberam
crédito parcial porque forneceram respostas que se vinculam ao conteúdo, isto é,
falaram do conteúdo e não do estilo, e 10% não responderam.
A questão número 03 era de interpretação. O aluno precisava integrar
parte de um texto, que lhe foi apresentado para respondê-lo. Só 50% acertaram, e
os alunos que erraram essa questão talvez tenham mais uma vez inferindo a
respostas seus conhecimentos de mundo, haja vista que a opção marcada por eles
dizia respeito ao fato de a vacina, a que se referia o texto, ser incômoda.
A questão número 04 era de reflexão, ou seja, avaliava a pertinência de
uma seção do texto em relação ao seu significado e propósito gerais. Constata-se
que 100% dos alunos não receberam nenhum crédito nessa questão e isso chamou
a nossa atenção porque os alunos responderam de forma inadequada à pergunta
feita. As tarefas nesse nível requerem que os leitores avaliem criticamente um
texto, ou hipóteses a respeito de informação no texto, usando conhecimento formal
ou público. Mais uma vez confirma-se que nossas escolas não ainda estão longe de
promover atividade de leitura adequada que, baseadas em diferentes gêneros
textuais, permitam o desenvolvimento nos alunos dessa competência.
A última questão era de reflexão sobre o conteúdo. Nela, os alunos tinham
que aplicar um conjunto de critérios presentes em um texto a situações
semelhantes. Verificou-se que e 30% acertaram, mas, referente a esta questão em
particular, talvez um fator tenha sido preponderante para o baixo índice de acertos
que foi um distrator presente no texto. Talvez mais uma vez se possa levantar a
hipótese de que os alunos que optaram pelas três alternativas incorretas ou não
leram o texto ou não voltaram a ele, após a leitura da questão a das alternativas,
para fazerem a correta interpretação exigida para a escolha da alternativa correta.
Em ralação aos saberes desses alunos, nota-se que eles compreendem
uma informação quando essa está identificada diretamente no texto.
No que se refere às dificuldades desses alunos, as questões propostas
exigiram que eles avaliassem criticamente o texto, ou levantassem hipóteses a
respeito de informações no texto, usando conhecimento formal ou conhecimento de
mundo, no entanto nota-se que as dificuldades apresentadas pelos alunos
evidenciam aquilo que temos presenciado no decorrer das aulas de leitura: lê-se
para identificar problemas gramaticais, corrigir, pronúncia etc. Não se trabalha a
leitura como interpretação de sentido; isso se explica por que o grau de
dificuldades desses alunos foi grande quando a questão exigia interpretação,
reflexão.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por um lado foi uma oportunidade feliz a de poder escrever um pouco
sobre a educação de jovens e adultos no que se refere ao processo de leitura, no
âmbito dessa modalidade de ensino. Por outro lado foi um momento de angústia
em vista das constatações feitas durante o desenvolvimento da pesquisa. Angústia
essa devido ao fato de termos diagnosticado práticas inadequadas e improdutivas,
não-condizentes com aquelas mais recentes concepções de leitura e,
consequentemente, com objetivos mais amplos que legitimamente se pode
pretender para o ensino da EJA. Como quer que seja, foi excelente a oportunidade
de apresentar essa modalidade de ensino e sugerir para alguns caminhos, segundo
alguns autores, que possam ajudar na reorientação de atividade pedagógica de
leitura no processo de ensino desse modo especial de educação, que é a EJA.
Acreditamos que os objetivos deste trabalho foram alcançados, pois o contato com
alunos da EJA permitiu não só formular um diagnóstico acerca de seu
comportamento, mas também ver, na prática, que a escola ainda precisa
empenhar-se mais em promover atividades que concorram para melhorar a
competência de leitura.
Conhecer as habilidades de leitura faz muita diferença, à medida que esse
conhecimento é fundamental para que alunos tenham melhor desempenho em
situações concretas de leitura, dentro e fora da sala de aula. Não saber tais
estratégias concorre para deixar alunos da EJA menos preparados para enfrentar as
exigências de um mercado de trabalho cada vez mais rigoroso em diversos
aspectos.
Se o que predomina nas aulas de leitura continua sendo uma prática
desvinculada de sentido, significado, praticar esse ato pode não ter muita
importância principalmente, para quem precisa, de imediato, adquirir competência
em leitura.
Referências Bibliográficas
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Editorial, 2003.
BELLEGER, Lionel. Os métodos de leitura. Rio de Janeiro: editora Zahar, 1979.
KLEIMAN, Ângela. Oficina de leitura: teoria e prática. 9ª edição. Campinas. SP:
Pontes, 2002
MAROTE, João Teodoro D'Olim & FERRO, Cláucia D'Olim Marote. Didática da língua
portuguesa. São Paulo: Ática, 1990.
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Médio. Brasília, SEF 1997.
Curriculares
Nacionais
para
o
Ensino
______________________Parâmetros Curriculares Nacionais
Linguagem, Códigos e Suas Tecnologias. Brasília, 2004
Ensino
Médio:
SILVA, Ezequiel Teodoro da. A produção da leitura na escola. São Paulo: Ática,
1995.
[1] A noção de estilo postulada por Bakhtin permite que compreendemos os estilos
institucionais e/ou individuais como necessariamente articulados aos gêneros e à
sua diversidade. O autor chama a atenção para o fato de que nem todos os gêneros
estão aptos a refletir a individualidade.
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