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Interações Entre Sistemas Frontais da América do Sul e a Convecção na
'Amazônia. Parte I: Aspectos Climatológicos.
Alda Santos de Oliveira (1)
Carlos Afonso Nobre (1)
Resumo:
Analisou-se 10 anos (1975-1984) de imagens do satélite geostacionário
GOES-EAST para se estabelecer uma climatologia da interação entre sistemas
frontais (SF) penetrando merid~onalmente em direção às baixas latitudes sobre
o continente suláTnericano e a convecção tropical, especialmente sobre a
Amazônia. Nestas análises verificou-se que a interação dos SFs é bastante
freqUente quando estes estão localizados ao longo da costa Atlântica entre
35ºS - 20ºS. Esta interação se dá na forma de uma faixa de nebulosidade
convectiva, associada ao SF, de direção preferencial noroeste-sudeste sobre a
região Amazônica e parte central do Brasil. A comparação dos regimes de
precipitação da região Amazônica, com os resultados obtidos por este estudo,
indicam que existe grande semelhança entre o ciclo anual da precipitação na
Amazônia e a distribuição ~~ual de eventos de interação dos SFs com. a
convecção naquela região, sugerindo que esse mecanismo seja realmente um dos
responsáveis pelos máximos climatológicos de precipitação em algumas partes da
Amazônia, notadamente os setores central e sul desta região.
Introdução:
Penetrações de sistemas frontais na América do Sul foram apontadas
por Kousky e r·íolion (1981) como s.endo um dos mecanismos causadores de
precipitação sobre a Amazônia.
Koush-y (1979) estudou um periodo de verão onde verificou um
deslocaffiênto
da atividade pluviométrica, sobre a Amazônia para leste,
acompanhando o deslocamento para nordeste de um sistema frontal. Virji e
Kousl<y (1983) detectaram a organização de sistemas convectivos na Amazônía
associados a una frente fria na costa do Brasil. Houve deslocamento da faixa
de ncbulcsionde fOl~ada pela interação destes sistemas para leste, nov~llente
seguindo o d('slocamento da frente para nordeste e, também, mantendo a direção
pr(>fL~l'(';lCi..1 noroc:stc-sudcste. Neste estudo, verificaram que estações da
reg)::;o l\m:-cônicê1 receberam, dUré-ú1te o periodo de poucos dias nos quais o
sistema fl"Dntal esteve associado
a convecçao tropical, mais de 25% da
precipitaç?io mensal.
-
(1) Instihlto de PCSqUiSê~ Espaciais - TNPEsão José dos Cé:irnpos - SP - BRASIL
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Nobre (1984) cita a existência, na região central da América do Sul,
de um eixo de máximo de precipitação, com orientação noroeste-sudeste, a mesma
orientação pre:ferencial da :faixa observada por Virji e Kousky (1983). Parece,
então, interessante tentar relacionar a interação entre sistemas frontais das
lati tudes médias e atividade convectiva na Amazônia com estes máximos de
precipi tação existentes no centro do Brasil. Para tal, :fez-se necessário
determinar a freqUência de ocorrência de tal fenômeno e
a sua distribuição
anual, resul tados estes que serão apresentados na Parte I deste trabalho,
abaixo, e determinar, também, sua influência na precipitação, provocada ou
associada, e as condições dinâmico-sinóticas nas quais as interações foram
comumente observadas. Esta segunda parte será apresentada na Parte 11
(Oliveira e Nobre, 1986). Estas duas partes são um resumo de Oliveira (1986),
onde podem ser encontrados maiores detalhes à respeito destas interações.
Será visto, nesta Parte" I, que este tipo de interação se dá durante
todo o ano, e é bastante freqUente nos meses da primavera ao outono,
principalmente no verão, quando a convecção tropical é bastante intensa.
Metodologia
Foram feitas análises. subjetivas de imagens do satélite
geostacionário GOES-EAST no periodo janeiro de 1975 a dezembro de 1984. Estas
análises consistiram de observações visuais da nebulosidade onde foram
computados: 1) o número de sistemas frontais (SFs) que atingiram o 11mi te
inferior de bandas de. latitude selecionadas, ao longo da costa, desde que
apresentasse nebulosidade sobre o continente; 2) o número de SFs que
encontravam-se associados à convecção tropical (CT) desde que, dentro de u~a
dada banda latitudinal, houvesse nebulosidade convectiva estendendo-se deste
SF na costa do continente até a região Amazônica; 3) e o número de dias em que
cada SF, na costa do continente, esteve associado à CT sobre a Amazônia, que
foi computado como o número de dias de formação de faixa de nebulosidade
convectiva (FxNC). Não entraram, na contagem dos números 2 e 3, dias em que
não houve associação aparente da convecção tropical com o SF. As bandas
latitudinais foram definidas, em latitudes selecionadas continente adentro, em
uma direção pre:ferencial noroeste-sudeste, que se mostrou como a orientação
prefcn.:ncial dos SFs sobre o continente. Definiu-se lati tudes de refcT2ncia
para estas b~"1l1das ao longo da costa Atlântica do continente da seguinte
maneira: B~1da 1 = 40 2 S - 35 2 S; Banda 2 = 35 2 S - 25 2 S; Ba~da 3 = ?5 2 S - 20~S;
Banda 4 = Ao norte de 20 2 S.
Resultados:
o estudo climatológico basc;:tdo em
10 anos 0975-1984) de
jm.'ücns do
satél1 te GOES-EAST confirmou que a nebulosidade sobre a região centro-norte do
contincntt", t':o;r('ci;:tlrTK:nte a rcgi2í.o .Nnazônjca, tem comportamento quali. L.l.iV0
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Os SFs possuem maior tendência à estacionaridade na banda 3 do que na
banda 2. Isto é claramente visivel observando-se as Figuras 2 e 3 : note que o
maior nÚmero de SFs que organizam CT aparece na banda 2, sendo significativo
na panda 3. Por outro lado, o maior n~ero de dias com FxNC ocorre na banda 3,
ou seja, os SFs permanecem mais tempo cem FxNC na banda 3. Esta tendência à
estacionaridade, observada na banda 3, só é superada na banda 4 e nos meses de
fevereiro a abril e agosto a outubro (Oliveira, 1986). Nos demais meses é
igual ou menor à tendência da banda 3, porém, sendo menor o número de eventos
de interação na banda 4, esta torna-se menos significativa a longo prazo.
Levantou-se, também, neste estudo o nÚmero de dias com FxNC
localizada em áreas distintas da Amazônia: as partes leste, central e oeste.
Notou-se que a interação entre SFs localizados na banda 1 e a região central
da Amazônia é pouco significativa. Nesta banda, os SFs atuam mais sobre a
parte oeste da Amazônia. Já os SFs localizados na banda 2 apresentam grande
interaç&o com a parte central e bem menos com a parte oeste. A interação da
banda 2 com a parte leste da Amazônia isoladamente é poucs significativa. Os
SFs localizados na banda 3 são os que mais interagem com" a parte central da
Amazônia, mais do que qualquer outra banda e mais do que interagem com o leste
e oeste da região. Isto é devido, talvez, à orientação preferencial de
noroeste-sudeste das FxNC. Já os SFs localizados na banda 4 interagem com o
centro e o leste
da Amazônia quase que igualmente, tendendo a serem
ligeira~ente mais atuantes sobre a parte central.
É curioso notar que o máximo de precipitação das estações localizadas
no sul do nordeste brasileiro (sul da Bahia) acontece em março-abril, e em
novembro-dezembro. No primeiro periodo, há um máximo secundário do nÚmero de
SFs que organizam convecção na banda 4 e em novembro-dezembro há o máximo
principal (Figura 2d). Estes máximos de precipitação podem estar relacionados
à incursões frontais que são particularmente atuantes em todo sul do Nordeste
em novembro e dezembro e no litoral sul da Bahia em março e abril.
Conclusões:
Ncste estudo climatológico ficou evidente que os SFs interagem com a
CT, durante todo o ano, principalmente quando se localizam entre as lati l-udes
de 35ºS - 20ºS. Existe, en~rctanto, uma prefel~ncia para ocorl~r ~stê~
interôçõcs nos meses de outubl~ a março. A semelhança entre o regime de
precipi tnçõ-o de est2ções localizadas sobre o máximo de precipi tação do centro
da Ama..~,ônia (01 iW'il'a, 1986) com as variações anuais de interação SF
CT
(Figtll'ôS 2 e 3), sugere que exista uma influência direta dos SFs sobre a
ativid:.. . dc C()llV",tiv.:i ~;c>brc o continente, cspeciôJmente nnqucla rtcgião. Por
outro 1Rdo, i1 r'1"'-.;pl'ia presença da CT sobre o continente provavelmente favorece
cste tipo de tni."I''''';;o. Nos meses de i.nvcrno, os SFs necessitLtm vencer os
m('c"ni~;mos de 1;\ly,.--.-('o=;c.:11a inibidorcs da CT (subsidência de larga-escala),
314
semelhante ao mostrado. nas cartas de brilho médio para o periodo 1967-1970 por
Miller et al11 (1971). Nos meses de verão, a CT encontra-se espalhada sobre a
América do Sul, principalmente ao'sul de 5ºS, centrada pproximadamente em 10ºS
- 12ºS. Desloca-se em direção norte-nordeste, ficando mais prÓxima do equador
e da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) sobre o Atlântico, no inicio do
outono, e no fim desta estação, já se encontra acima de 5ºS como uma só faixa
entre a ZCIT do Atlântico e a do Pacifico. Esta última configuração é também a
dos meses de inverno, principalmente os meses de junho e julho, que nao
apresentam nenhuma nebulosidade sobre o continente ao sul de 5ºS, a não ser
quando da presença de sistemas de latitudes médias. Também, sobre a América
Central, aparece nos meses de 'inverno a maior nebulosidade, situação que
persiste até a primavera, quando a convecção gradativamente retoma ao centro
do continente, proveniente do norte-noroeste (prÓximo à América Central) até
retornar ao padrão dos meses de verão.
-
Os resultados da climatologia aqui desenvolvida são apresentados em
forma de histogramas da distribuição anual: 1) do nÚmero total de SFs que
penetraram em cada banda lati tudinal (Figura 1), sem se levar em consideração
se orgànizaram ou não a CT; 2) do nÚmero de SFs que estiveram associados à CT
(Figura 2); 3) do nÚmero de dias com formação de FxNC (Figura 3). O nÚmero de
dias com FxNC na parte central da Amazônia, região de maior interesse neste
trabalho,
devido à localização do eixo de maximo climatologico de
precipi. tações, será descri to mas não mostrado devido a limi tação de espaço. As
demais figuras resultantes desta climatologia podem ser encontradas em
Oliveira (1986).
A Figura 1 mostra que a Banda 1 é a região onde há o maior numero de
incursões frontais, durante todo o ano. É seguida pelas bandas 2,3,4 nesta
ordem. Também, nota-se que o periodo de inverno é quando ocorrem penetrações
frontais com maior freqüência até a banda 2. Nas bandas 3 e 4 o período de
maior freqüência é a primavera. Apesar disso, a Figura 2 mostra que é
justamente o inverno o periodo menos significativo na ocorrencia de interações
entre SFs e CT, em todas as bandas lati tudinais. Também, nesta Figura 2,
nota-se que é na faixa entre 35 2 S e 20 2 S (bandas 2 e 3) onde ocorre o maior
número de associações entre SFs e CT (Figura 2b e 2c) . Ainda na Figura 2,
verifica-se que os meses de outubro a março são os de maior freqüência desta
interação, em todas as bandas. A distribuição anual do nÚmero de dias com FxNC
é bastante semelhante a do nÚmero de SFs que organizam CT (Figuras 3 e 2
respectivamente). Nota-se, na Figura 3, que o maior nÚmero de dias com FxNC
aparece na banda 3 (Figura 3c) e nos meses de outubro a março com mais de 9
dias por mês com FxNC (com exceção de fevereiro), em média. Também na banda 2
(Figura 3b) é significativa esta interação, porém, com uma redução do nÚmero
de dias com FxNC em relação à banda 3. Na banda 4 (Figura 3d) ainda há
mais
de 4 dias com FxNC nos meses de outubro a abril. Há pcquena interação na b~~rlrt
1 (Figura 3a), significativa somcnte nos meses de dezembro a fevereiro. Fica
ainda mais visivel na Figura 3, o reduzido nÚmero dC'dias com associações nos
mescs de inverno.
315
para produzir convecção sobre o continente.
o estudo de casos selecionados, apresentados na Parte 11 (Oliveira e
Nobre, 1986), esclarecerá alguns aspectos singulares destas interações.
Agradecimentos
Ao Dr. Vernon Edgar Kousky, Dr. Pedro Leite da Silva Dias, Dr Luis
Carlos Baldicero Molion, Dr Antonio Divino Moura e Sr. Manoel Alonso Gan pelas
sugestões e criticas construtivas.
Ao Departamento Nacional de Energia Elétrica pelo fornecimento dos
dados diários de precipitação.
Bibliografia
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