Insper Instituto de Ensino e Pesquisa Programa de Mestrado Profissional em Economia Leonardo Jamil Feres DIFERENCIAL DE TARIFA ENTRE PICO E VALE COMO FERRAMENTA DE SUAVIZAÇÃO DA DEMANDA NO SISTEMA DE TRANSPORTE PÚBLICO DA CIDADE DE SÃO PAULO São Paulo 2015 2 Leonardo Jamil Feres Diferencial de tarifa entre pico e vale como ferramenta de suavização da demanda no sistema de transporte público da cidade de São Paulo Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado Profissional em Economia do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Economia Área de concentração: Microeconomia Aplicada Orientador: Prof. Dr. Rodrigo Moita São Paulo 2015 3 Feres, Leonardo Jamil Diferencial de tarifa entre pico e vale como ferramenta de suavização da demanda no sistema de transporte público da cidade de São Paulo / Leonardo Jamil Feres; orientador Rodrigo Moita – São Paulo: Insper, 2015 42p. Dissertação (Mestrado – Programa de Mestrado de Profissional em Economia. Área de concentração: Microeconomia Aplicada) – Insper Instituto de Ensino e Pesquisa. 1.Escolha Discreta 2.Transporte Público 4 FOLHA DE APROVAÇÃO Leonardo Jamil Feres Diferencial de tarifa entre pico e vale como ferramenta de suavização da demanda no sistema de transporte público da cidade de São Paulo Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado Profissional em Economia Insper, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Economia. Área de concentração: Microeconomia Aplicada Aprovado em: 28/01/2015 Banca Examinadora João Manoel Pinho de Mello Instituição: Insper Assinatura: Cláudio Ribeiro de Lucinda Instituição: FEA-RP/USP Assinatura: 5 Agradecimentos Agradeço a Deus pela vida. Agradeço à minha esposa e minha filha, pelo apoio incondicional. Agradeço à minha família por ter me feito chegar até aqui, especialmente à minha mãe e meu irmão, pedras fundamentais. Agradeço ao meu orientador, Rodrigo Moita, por ter trazido a ideia de falarmos sobre transporte público, e por ter sido decisivo para a conclusão deste trabalho, com paciência e objetividade. Agradeço a todos os meus colegas de turma, em especial a Adriano Ortega e Evandro Buccini, sem o apoio e a inspiração deles não teria chegado ao final deste curso. Agradeço à Mercedes-Benz, onde tive apoio para dedicar tempo a este mestrado. 6 Resumo Feres, Leonardo Jamil. Diferencial de tarifa entre pico e vale como ferramenta de suavização da demanda no sistema de transporte público da cidade de São Paulo. São Paulo, 2015. 37 f. Dissertação (Mestrado) – Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, São Paulo 2015. A demanda por transporte público de qualidade nas grandes cidades do mundo é definitivamente crescente e ponto crucial na qualidade de vida dos cidadãos, o objetivo deste trabalho é estimar o impacto de tarifas variáveis ao longo do dia na demanda por transporte público. Através de um modelo LOGIT de escolha discreta a conclusão é que, apesar da baixa elasticidade a preço dos usuários do transporte público, é possível suavizar a demanda eventualmente sem perda de receitas caso seja concedido desconto de 10% na tarifa durante o horário de vale (fora-do-pico). Palavras-chave: Modelo de escolha discreta, Transporte Público; 7 Abstract Feres, Leonardo Jamil. Peak and off-peak fare variation as a tool for smoothing demand on public transit system of the municipality of São Paulo. São Paulo, 2015. 37 p. Dissertation (Mastership) – Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, São Paulo 2015. The increasing demand for a good quality public transit system on the big cities in the world is definitely a crucial issue for life quality of all citizens, the goal of this work is to estimate the impact of variable fares throughout the day on the demand for public transportation. Using a discrete choice model (LOGIT), the conclusion is that, although the low price elasticity of the commuters, it is possible to smooth the demand eventually having no revenue loss, when a discount of 10% on the off-peak fare is offered. Key words: Discrete choice model, Public transportation; 8 Sumário Executivo Atualmente as tarifas do transporte público na cidade de São Paulo são cobradas independentemente do horário que o usuário utiliza o sistema, diferentemente de cidades na América do Sul como Santiago e Bogotá, por exemplo, onde a tarifa varia ao longo do dia. A qualidade do transporte público, de certo modo, pode ser mensurada pelo conforto que os passageiros percebem quando utilizam-se dos meios de transporte. Especificamente no caso do ônibus, que é o foco deste trabalho, o conforto tem relação direta com a quantidade de passageiros utilizando o ônibus ao mesmo tempo, e os ônibus da cidade de São Paulo durante o horário de pico estão frequentemente lotados, causando desconforto aos passageiros e desencorajando alguns a utilizar o transporte coletivo. Como a mobilidade, que inclui o transporte público, é quesito importante para o nível de satisfação e bem estar das pessoas em áreas urbanas, e a qualidade deste transporte também é ponto relevante, discutir maneiras de melhorar a qualidade do transporte coletivo é questão relevante para a vida nas cidades. Atualmente, como dito, não há no transporte público ferramenta que suavize a demanda no sistema, de forma a melhorar a qualidade do serviço dando mais conforto aos passageiros, e é esse aspecto que o presente trabalho visa discutir, ou seja, estimar o efeito de uma política pública de tarifa diferenciada entre o horário de pico e o horário de vale na suavização da demanda por transporte público. Este trabalho simula tanto o aumento (entre 10% e 100%) das tarifas nos horários de pico quanto o desconto (também entre 10% e 100%) nos horários de vale, sugerindo como melhor política o desconto de 10% nas tarifas no horário de vale. Em comparação ao atual método de cobrança tarifária fixa, como de certa forma diferenciais de preço coordenam a demanda, a proposta de tarifa variável é melhor do que a atual política de tarifa única sem diferencial de horário, tendo a vantagem de, segundo o modelo matemático, suavizar a demanda aumentando o total de usuários no sistema (considerando pico e 9 vale), sem impactos à receita no sistema, o que também é importante, e melhorando a qualidade de vida do usuário. A solução é proposta para ser implementada somente na cidade de São Paulo, uma vez que todas as simulações, as estimações das escolhas dos indivíduos e os valores envolvidos foram trabalhados somente com dados da capital paulista, a metodologia desenvolvida poderia ser aplicada também em outras cidades, mas sugere-se que antes de aplicá-la seja estudada a melhor forma de aplicá-la, em todos os seus detalhes. A principal análise do trabalho, que estima a demanda por transporte público e simula diferentes políticas, como já mencionado, é feita com base na Pesquisa de Origem e Destino do Metrô, que contém dados detalhados de mais de 160.000 observações (viagens) de pessoas na cidade de São Paulo, coletados através de entrevista no ano de 2007. Muitos trabalhos acadêmicos em diversos países observaram o impacto de tarifa variável no transporte público, e a maioria deles, assim como o presente trabalho, recomendam a tarifa variável ao longo do dia como boa ferramenta para suavizar a demanda por transporte público nas cidades, também é importante voltar a mencionar que cidades ao redor do mundo (não somente Bogotá e Santiago, mas também Minneapolis nos Estados Unidos, por exemplo) já aplicam tarifa variável há anos. Como recomendação de política pública com relação a tarifas de transporte, a partir dos dados e resultados obtidos, um desconto de tarifa para os horários de vale da ordem de 10% pode atingir o objetivo principal da proposta deste trabalho, que é suavizar a demanda por transporte público no sistema, uma vez que esse desconto poderia reduzir em 6,5% a quantidade de usuários durante o pico, aumentando em 20,5% a quantidade de usuários que trafegam no horário de vale. O sistema de pagamento no transporte coletivo paulistano já é equipado de cobrança eletrônica, o que permitiria com bastante facilidade e praticidade a aplicação de tarifa variável. 10 Sumário Sumário Executivo ................................................................................................................... 8 Introdução ................................................................................................................................ 12 1. Revisão Bibliográfica (Revisão dos Trabalhos Existentes) ................................... 15 1.1. Modelos de escolha discreta (LOGIT) ................................................................... 16 1.2. Cálculo do preço ótimo através dos custos marginais e externalidades (“marginal external costs”) .............................................................................................. 17 1.3. Estimativa de escolha entre horários (pico e vale) através de questionário aos usuários .............................................................................................................................. 20 2. Metodologia ......................................................................................................................... 21 2.1. Modelo Teórico .......................................................................................................... 23 3. Dados .................................................................................................................................... 25 3.1. Custos de viagem para modal privado (carro e motocicleta)............................. 29 3.2. Custos de viagem para modal público (metrô, trem e ônibus municipal) ........ 30 3.3. Custos de viagem para outros (passageiro de automóvel, bicicleta, a pé ou outros)................................................................................................................................. 31 3.4. Parâmetros de Tempo e Custo das alternativas não escolhidas pelos indivíduos (contra-factual) ............................................................................................... 31 3.5. Experiências internacionais de tarifas variáveis (referência) ............................. 32 4. Resultados ........................................................................................................................... 33 5. Conclusões.......................................................................................................................... 39 6. Considerações Finais ....................................................................................................... 40 Referências Bibliográficas................................................................................................... 42 Anexo 1: Possíveis modelos de tarifário.............................................................................. 44 Anexo 2: Alterações de Participação de Mercado dos Meios de Transporte após redução de 10% na tarifa do Vale (simulação) .................................................................... 45 11 Lista de Tabelas Tabela 1 - Custos marginais estimados no transporte urbano ......................... 18 Tabela 2 - Custos marginais estimados no transporte urbano ......................... 19 Tabela 3 - Modais e Participação dos Modais na POD .................................... 27 Tabela 4 - Preços de Passagem em Outros Países (Exemplos)...................... 32 Tabela 5 - Modelo LOGIT Condicional Estimado ............................................. 34 Tabela 6 - Elasticidades Próprias e Cruzadas conforme Modelo ..................... 36 Tabela 7 – Simulação das Possíveis Políticas de Tarifa Simuladas ................ 37 Lista de Figuras Figura 1 - RMSP conforme apresentado na POD ............................................ 26 Figura 2 - Histogramas dos horários de pico e vale estimados em São Paulo 28 Figura 3 - Impactos Estimados na Receita dada cada Política de Tarifa Simulada .......................................................................................................... 38 12 Introdução A influência da mobilidade na qualidade de vida das pessoas que moram em áreas urbanas é indiscutível, principalmente em grandes metrópoles. Em recente pesquisa dos Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município de São Paulo da Rede Nossa São Paulo (IRBEM – pesquisa completa disponível em www.nossasaopaulo.org.br/portal/irbem), realizada em janeiro de 2014 pelo Instituto Ibope Inteligência, entre 25 quesitos de qualidade de vida elencados pela pesquisa, a mobilidade (o transporte público e o trânsito) ocupa o 21º lugar em um ranking de qualidade percebida, ou seja, é um dos cinco aspectos da cidade mais carentes de melhorias no curto prazo. A nota atribuída ao quesito mobilidade é calculada pela média de 12 atributos da mobilidade, e os pontos que puxam a média deste quesito da cidade para baixo são: “tempo de deslocamento”, “tarifa do transporte público” e “tempo de espera nos pontos de ônibus”, e é interessante notar que o transporte público influencia os três quesitos mencionados, daí a motivação para se discutir transporte público nesta dissertação. O efeito capturado pela pesquisa encontra na observação do dia-a-dia sua confirmação, pois realmente a população conta com relativamente poucas opções de transporte de qualidade. Vale mencionar números como o crescimento da frota de veículos na cidade de São Paulo (hoje próxima dos 8 milhões de veículos ativos, conforme DETRAN-SP), o adensamento populacional nas periferias (dos 20 distritos mais populosos da cidade, 18 ficam a mais de 10 km do centro – fonte IBGE), e o sistema de transporte público sem a eficiência esperada. Algumas melhorias na mobilidade da cidade vêm sendo aplicadas nos últimos anos, pode-se ressaltar ações como a construção do anel rodoviário, a restrição de circulação de caminhões no centro expandido, o aumento da malha metroviária, a recente criação de corredores de ônibus, a regulamentação sobre a qualidade e vida útil dos ônibus e a política de restrição de circulação de carros dependendo do número final da placa do veículo (rodízio), porém também é notório que tais medidas, apesar de relativa eficácia, não resolvem por completo a questão da mobilidade, e que a 13 demanda por novas propostas e iniciativas dos governantes, dos órgãos regulamentadores e da sociedade persiste, para que a cidade seja enfim um lugar que ofereça transporte de maior qualidade a todos os seus moradores, melhorando substancialmente a qualidade de vida na cidade. Existem trabalhos disponíveis, principalmente no meio acadêmico (não exclusivamente, pois há autoridades de transporte público ao redor do mundo estudando este tema a fundo) sobre qualidade no transporte público, e uma análise através de lógica fuzzy determinou, de maneira empírica, os principais aspectos de qualidade de um sistema de transporte público por ônibus [Santos, 2004], sendo eles: 1. Tempo Total de Viagem; 2. Área Disponível por Passageiros; 3. Disponibilidade de Assentos; 4. Conforto Térmico; 5. Ventilação nos Veículos; 6. Índice de Pontualidade; 7. Frequência de Acidentes com Passageiros; 8. Índice de Gravidade de Acidentes com Passageiros; Analisando esta relação de aspectos, vê-se o primeiro item, “Tempo Total de Viagem”, como o aspecto obviamente mais importante, reforçando a tese já colocada na pesquisa IRBEM de “Tempo de Deslocamento”, porém como tal característica não depende somente do planejamento do transporte público em si, a decisão foi de não discuti-la neste trabalho. As características mencionadas nos itens 2, 3, 4 e 5 têm relação direta com o número de passageiros utilizando os ônibus ao mesmo tempo (lotação dos veículos), tema que chamou a atenção, e a intenção de estudá-lo mais a fundo foi a motivação principal deste trabalho. Portanto, conforme já mencionado, o foco deste trabalho será estudar um método para reduzir a lotação dos ônibus municipais, ou seja, suavizar a demanda por ônibus no município de São Paulo. Pesquisando artigos acadêmicos específicos sobre a utilização do sistema de transporte (custos de lotação, estimações de demanda, etc.) , no 14 campo da economia, interessantes abordagens foram feitas sobre o custo da lotação do transporte público, sob diferentes óticas principalmente trabalhos que tratam do custo marginal do transporte (público e privado), relacionando-o com o preço das tarifas, bem como trabalhos que tratam da estimação da demanda via modelos de escolha discreta, buscando entender os impactos da diferenciação de tarifas ao longo do dia na demanda por transporte público. Também há trabalhos discutindo externalidades que cada passageiro impõe ao outro por transitar em horários de pico. Das três abordagens acima descritas, a estimação por modelos econômicos de escolha discreta foi escolhida para ser tratada no presente trabalho, de certa forma compondo uma linha de estudo em construção onde tal modelo tem sido utilizado para estimar a demanda por transporte público na cidade de São Paulo através de dados da pesquisa de origem e destino do Metrô de São Paulo, propondo políticas públicas como o pedágio urbano (Lucinda, Meyer, & Ledo, 2014). Em suma, este trabalho se propõe a estudar, através de um modelo de escolha discreta (LOGIT Condicional), o impacto de uma tarifa diferenciada entre os horários de pico e vale (fora-do-pico) no sistema de transporte público paulistano (somente região de São Paulo, diferente dos trabalhos acima citados que tratam da RMSP como um todo), e para tal tarefa, será explorada uma base de dados construída através de uma Pesquisa de Origem e Destino (POD) feita a cada 10 anos pelo Metrô de São Paulo, que contém as mais diferentes características relevantes ao transporte público de indivíduos de mais de 40.000 domicílios que responderam à tal pesquisa no ano de 2007. Entende-se também a importância de se pensar nos aspectos positivos e negativos da proposta que será estudada, e neste sentido, é salutar mencionar que o maior impacto positivo no caso de sucesso da tarifa variável em suavizar a demanda pelo serviço seria uma menor lotação dos veículos de transporte coletivo durante os horários de pico, gerando mais conforto aos passageiros e encorajando usuários que atualmente não utilizam transporte público, a passar a integrar o sistema, proporcionando mais receita. Por outro lado, o maior impacto negativo, dependendo da estratégia de tarifa adotada, seria retirar usuários do sistema, que devido a um custo diferenciado (mais 15 alto) poderiam decidir utilizar outro meio de transporte (por exemplo: carro, motocicleta ou mesmo carona), o que seria positivo por reduzir a demanda no pico, porém reduziria consequentemente o número total de usuários e a receita do sistema, o que de certa forma não é desejável. Faz-se necessário também mencionar que a estimação do impacto de uma tarifa variável em si parte de uma premissa razoavelmente forte, a de que as pessoas podem, e de certa forma desejarão mudar o horário que elas entrarão no sistema. A hipótese de possibilidade de troca de horário é forte dada a relativa inflexibilidade de trabalhadores e estudantes com relação ao seu horário, existem pesquisas sobre esta questão, que estão apresentadas na revisão da bibliografia. A próxima seção deste trabalho focará em revisar a bibliografia existente tanto sobre modelos de escolha discreta LOGIT quanto de modelos de tarifa variável, já a seção 2 discorrerá sobre a metodologia, a seção 3 discutirá os dados e a seção 4 apresentará os resultados empíricos do estudo. Já a seção 5 conclui presente estudo. 1. Revisão Bibliográfica (Revisão dos Trabalhos Existentes) A estimação de demanda por transporte público é um assunto relativamente bem explorado no campo da economia, onde se destacam as abordagens por modelo de escolha discreta LOGIT-Condicional (Lucinda, Meyer, & Ledo, 2014), modelo de escolha discreta LOGIT-Multimomial (Lopes, 2012) e por pesquisa aos usuários (Bakens, Knockaert, & Verhoef, 2010). Também o cálculo de preço ótimo tem sido utilizado para avaliar os impactos de alterações de tarifa na demanda por transporte público, que é uma abordagem interessante com conclusões que consideram os efeitos de externalidades como poluição do ar e avaliam o impacto de diferentes tarifas ao longo do dia (Mayeres, Ochelen, & Proost, The Marginal External Costs of Urban Transport, 1996). Dentre as abordagens acima mencionadas, a estimação de demanda por transporte público através de um modelo LOGIT-Condicional, diferenciando 16 horários de pico e vale como alternativas de escolha é uma especificidade que não foi encontrada na literatura, e basicamente este é o diferencial e a contribuição deste trabalho para esta linha de estudos. As próximas três seções detalham um pouco mais as abordagens comuns de modelamento de tarifas variáveis de transporte público, baseadas no horário de utilização do sistema. 1.1. Modelos de escolha discreta (LOGIT) Tanto o modelo LOGIT-Condicional quanto o LOGIT-Multinomial já foram utilizados para estimação de demanda por transporte público, com foco em diferentes questões como o pedágio urbano (Moita, 2013) e a própria escolha de horário (Liu & Charles, 2013). Neste último modelo mencionado, que trata de escolha discreta para a opção do horário de utilização do sistema de transporte público, a estimação prevê que em face de um aumento de 10% nas tarifas do pico, 7% dos usuários estariam dispostos a deixar de viajar no horário de pico (não necessariamente passando para o vale), e frente a um aumento de 20%, 13% dos usuários estariam dispostos a deixar de viajar no horário de pico. Em contrapartida, este mesmo estudo aponta que uma redução de 10% nas tarifas do vale poderia trazer para este horário 6% dos passageiros que viajam atualmente no pico, e um desconto de 40% moveria 19% dos usuários do pico para o vale. Há também artigos que modelam a escolha de modal dos usuários em sistemas de trens no norte da Inglaterra concluindo que reduções substanciais de lotação dos trens nos horários de pico podem ser atingidas por diferenciação de tarifas entre pico e vale. A principal conclusão dos pesquisadores é que é mais eficaz, do ponto de vista econômico, precificar a utilização do sistema no pico (aumentar a tarifa no pico) do que reduzir as tarifas no vale, porém qualquer uma destas propostas pode ter um efeito negativo na receita. Prevê-se também um efeito neutro na receita caso ambas 17 políticas sejam implementadas paralelamente, ou seja, combinando aumento no pico e desconto no vale (Whelan & Johnson, 2004). 1.2. Cálculo do preço ótimo através externalidades (“marginal external costs”) dos custos marginais e Foram consultados trabalhos onde o preço ótimo das tarifas de transporte público é calculado via custos marginais do transporte, e esta seção busca exatamente, de forma breve, revisar os resultados de tais trabalhos. Primeiramente, é interessante mencionar um artigo que, motivado pela percepção do autor de que havia uma espiral viciosa no transporte público inglês, onde cada vez o trânsito ficava mais caótico, piorando o serviço do transporte público, levando mais pessoas a desejar se transportar por meios privados, aumentando a ociosidade e as tarifas do transporte público, causando o ciclo citado, decidiu estudar tanto o excedente do consumidor quanto o preço ótimo do transporte público, e concluiu que seria desejável buscar no sistema de transporte público a transferência de passageiros, tanto do pico para fora-do-pico, independentemente do meio, quanto do carro para o ônibus, ainda que no pico [Glaister, Generalised Consumer Surplus and Public Transport Pricing, 1974]. Outra conclusão importante é que tanto as tarifas do transporte público no pico quanto fora do pico devem ser menores do que o custo marginal (“marginal social cost”), uma vez que devem, no pico, atrair os motoristas de automóveis e, fora do pico, atrair os usuários que trafegam durante o pico. O autor termina o trabalho com a seguinte frase: “no geral, na ausência de maior conhecimento sobre as magnitudes das respostas das diversas demandas a preço, e de custos por nível de demanda, o modelo não dá a priori justificativa alguma para algumas recomendações convencionais de que deve-se cobrar mais nos horários de pico, cobrar o custo marginal em situações de ausência de congestionamento, ou mesmo buscar rentabilidade”. Em outro artigo, foi desenvolvido um método quantitativo sob o argumento de testar a hipótese de “segundo melhor preço” que vigorava na Inglaterra, onde se justificava o subsídio às tarifas do transporte público pelo 18 fato de que, tais baixas tarifas poderiam eventualmente encorajar usuários de outros meios de transporte, especialmente individuais, a passar a utilizar o sistema de transporte público, e a principal conclusão foi a de que realmente algum subsídio ao transporte público faz sentido, assim como diferenciar a tarifa de transporte público em aproximadamente 20% entre o pico e fora do pico também poderia ser uma política razoavelmente eficaz [Glaister Lewis, An Integrated Fares Policy for Transport in London, 1978]. A proposta de um modelo de cálculo de custo marginal externo da utilização do automóvel, sob o argumento de que o espaço nas ruas e rodovias é um bem escasso que deve ser utilizado da melhor maneira possível é trabalhada por um artigo que partindo de formulações simples considerando quantidade de caminhões e carros em circulação, combinada com parâmetros também simples do tráfego de uma cidade (velocidade, nível de poluição sonora e do ar, risco de acidentes e custos de manutenção de vias) e alguns valores monetários um pouco mais complexos de se estimar (por exemplo, o valor do tempo para as pessoas), chega a resultados interessantes, demonstrando a brutal diferença de custo (“total marginal external congestion costs”) no tráfego urbano entre viagens no pico e fora-do-pico [Mayeres, The Marginal External Cost of Car Use - with an application to Belgium, 1993], o que é um resultado interessante e fonte de referência para o presente trabalho. Aplicação Urbana Rodoviária Outras Situação Vale Pico Sem Congestionamento Congestionamento Leve Congestionamento Médio Congestionamento Pesado Sem Congestionamento Congestionamento Leve Congestionamento Pesado Custos Totais Marginais do uso do Automóvel na Bélgica (em Francos Belgas de 1989) 4,350 14,551 1,062 1,331 14,122 77,273 1,699 2,183 6,027 Tabela 1 - Custos marginais estimados no transporte urbano 19 Um artigo que se destaca é um trabalho que determina o preço ótimo do transporte público, concluindo que é eficiente que a tarifa varie ao longo do dia, dado que o seu custo marginal também varia ao longo do dia, e tal estratégia de tarifas altera a demanda por transporte público, reduzindo a utilização nos horários de pico, uma vez que a proposta é que a tarifa seja maior nesses horários [de Borger, Mayeres, Proost, Wouters, 1996]. Neste mesmo trabalho, os autores avançam um pouco mais no cálculo de custos externos marginais, separando os diversos tipos de veículos, utilizando metodologia similar ao trabalho de 1993, onde fica clara a conclusão da brutal diferença de custo externo marginal entre pico e fora-do-pico tanto para automóveis quanto para ônibus. Aplicação Situação Carro a Gasolina Pequeno Carro a Diesel Pequeno Carro a Gasolina Pequeno Ônibus Ônibus Tram Tram Metrô Caminhão Caminhão Pico Pico Vale Pico Vale Pico Vale Pico Pico Vale Custos Totais Marginais do uso do Automóvel na Bélgica (em Francos Belgas de 1989) 1,511 1,508 0,189 4,042 1,178 4,278 1,517 0,692 3,213 0,627 Tabela 2 - Custos marginais estimados no transporte urbano No modelo básico apresentado no trabalho, sem restrições de orçamento ou de tarifas, obviamente o preço das tarifas se iguala aos custos externos marginais totais calculados, porém, em um modelo levemente mais sofisticado, onde se inclui restrições de orçamento e tarifas, permitindo diferenciação entre pico e fora-do-pico, há um incremento substancial nas tarifas, dada a restrição de orçamento para o transporte. Finalmente o trabalho conclui que, dada tal diferença de custo externo marginal entre pico e vale, a tarifa no pico deveria ser maior. 20 1.3. Estimativa de escolha entre horários (pico e vale) através de questionário aos usuários Primeiramente vale mencionar um relatório da LEK (consultoria Australiana) de 2010 que estima que 40% das redes de trens urbanos do mundo já adotam um regime de tarifa diferenciada (aumento no pico ou desconto no vale). Para se ter uma evidência clara da eficácia de qualquer política na demanda por transporte, especialmente em termos de tarifário, deve-se realizar uma análise “antes e depois”, sendo que o efeito de alteração da política de tarifas também leva certo tempo para ser evidenciado, não é algo que possa ser verificado em curto prazo, uma vez que para os usuários alterarem seus hábitos no transporte, outros hábitos relativamente pouco flexíveis também devem ser alterados, porém, infelizmente, estudos sobre o impacto de alteração nas tarifas são bastante escassos (Traveler Response to Transportation System Changes, McCollom e Prat). O estudo de acima mencionado também faz uma importante observação sobre gratuidade ou redução de tarifa para idosos, onde conclui que tarifas reduzidas no vale podem transferir usuários desta categoria do pico para o vale, onde é citado um estudo da cidade de Pittsburgh nos Estados Unidos, onde após uma redução de 45% no valor da tarifa do vale para esta categoria de passageiro, houve apenas 19% de redução desta frequência no pico, enquanto aumentou 51% no vale. Dada a escassez de estudos que tratam de maneira objetiva os impactos das alterações de tarifas por uma metodologia “antes e depois”, os principais estudos existentes tratam de pesquisas de opinião feitas com usuários dos sistemas sobre esquemas hipotéticos de tarifário do transporte público local. Alguns dados que são relevantes são fatos por exemplo de que descontos nas tarifas de vales são mais bem-vindos do que aumentos das tarifas nos picos, e o percentual de desconto esperado neste esquema flutua entre 25 e 30% (em uma tabela presente no estudo há uma pesquisa feita em 21 Londres onde, caso 10% de desconto fosse aplicado na tarifa do vale, 10% dos usuários muito provavelmente mudariam de horário de viagem [Liu Charles, 2013]. Em outro estudo mencionado pelo artigo, desta vez sobre a cidade de Sydney na Austrália, é reportado o fato de que 37% das pessoas se dizem totalmente inflexíveis quanto ao horário que elas utilizam o sistema e 33% dizem que poderiam alterar o horário de sua viagem em no máximo 15 minutos, o que resulta em relativa inflexibilidade de horário de viagem em 70% da população). Um aspecto que não está sendo relevado no presente trabalho, porém não deve ser negligenciado para estudos futuros, são as reduções de custo operacional possíveis dada melhor distribuição dos passageiros ao longo do dia, este aspecto é estudado por Currie (2010 – Enhancing rail capacity using free fare incentives to shift demand peaks), que conclui, ainda no caso do “early bird free ticket” australiano que as perdas de receita dada a gratuidade podem ser totalmente recuperadas por tais reduções de custo operacional. 2. Metodologia O trabalho tem três objetivos principais, que são (1) estimar a demanda por transporte público através de um modelo de escolha discreta, (2) calcular a elasticidade da demanda tanto no pico quanto no vale e (3), no caso da elasticidade ser diferenciada entre os períodos mencionados, simular a possível alteração na demanda em resposta a uma alteração no custo da tarifa. Para cumprir com o primeiro objetivo, foi estimado um modelo LOGITCondicional tanto com características de cada modal (dividindo entre público, privado e outros) quanto características dos indivíduos, com os parâmetros de custo do transporte, renda, etc. O modelo escolhido tem três principais restrições, que são razoavelmente aceitáveis para a estimação em questão. A primeira restrição se dá pelo fato de que as alternativas devem ser mutuamente excludentes, pois para que a participação de cada modal na demanda seja estimada, deve-se considerar que o indivíduo escolha uma ou outra. Sabe-se que há a 22 possibilidade de que o usuário opte por mais de um modal, porém conclui-se através da análise descritiva dos dados que tal restrição não é um impeditivo para a validação do modelo (a ser discutido em mais detalhes na apresentação dos dados). A segunda restrição se dá pelo fato de que todas as opções possíveis de escolha devem estar presentes para cada um dos indivíduos, ou seja, as três opções do modelo serão estimadas para todos os indivíduos com uma possível participação maior do que zero (também o número de escolhas deve ser finito, que é exatamente o caso deste presente modelo – 3 escolhas). A terceira restrição, que na verdade é uma limitação do modelo, é o problema conhecido por “iia” em econometria, ou seja, a presença de uma alternativa adicional, por mais similar que esta seja de uma alternativa já presente, alterará a estimação de forma matematicamente igual, sem ser considerada tal similaridade. Partindo da premissa que os dados deste presente trabalho, baseados na POD, podem constituir um modelo com as restrições acima mencionadas, sem prejuízo à precisão da conclusão, foi definida a função utilidade do indivíduo que será maximizada através do modelo: , , (1) Onde é um vetor de características de cada indivíduo “i”, é um vetor de características observadas de cada meio de transporte “j” referente a cada indivíduo “i” e é um vetor de características não observadas de cada meio de transporte “j” referente a cada indivíduo “i”. A função utilidade portanto passa a ser descrita como: , , = + + + (2) Para que o modelo LOGIT seja uma boa opção para este tipo de estimação de demanda, deve-se assumir que características não observáveis de cada meio de transporte são não correlacionadas entre si. Existem para este tipo de estimação alguns modelos que poderiam ser utilizados, o LOGITMultinomial, o Mixed-LOGIT e o LOGIT-Condicional por exemplo. 23 2.1. Modelo Teórico O modelo mais básico de escolha discreta seria um modelo linear de escolha binária, a partir do qual se evolui para um modelo que permite mais do que duas alternativas e se baseia em uma função densidade de probabilidade acumulada (fdp), que é exatamente o caso do LOGIT, que trata das probabilidades como se fossem uma curva logística padrão, ou seja, a função G(x) passa a ser logística no caso abaixo: ( = 1|) = () ≡ () () = Λ() ≡ exp( ) 1 + exp() É importante mencionar que, sendo a função uma fdp acumulada, os valores que ela adotará serão estritamente entre 0 e 1, a função será estritamente crescente, e a interpretação dos betas deste modelo LOGIT seguirá a seguinte lógica: ( ) = () onde é a variação de probabilidade da escolha dada uma alteração na variável explicativa (caso contínuo) ou a escolha ou não (caso binário). Outra questão igualmente importante, além de estimar as probabilidades de escolha de cada alternativa, é calcular os efeitos parciais de cada característica x sobre a escolha do indivíduo, o que, caso seja calculado para o preço do bem, multiplicado pela variação unitária do preço do mesmo bem, dará a elasticidade própria do preço, e caso multiplicado pelo preço de outro bem (alternativa, ou seja, outra escolha possível), resultará na elasticidade cruzada entre os preços dos bens. 24 No caso do modelo LOGIT Condicional, que é o modelo que será utilizado neste trabalho, consideramos por exemplo, uma população com N indivíduos potencialmente heterogêneos que são confrontados com escolhas J (alternativas), com características x, que podem ser tanto características dos indivíduos (renda, idade, gênero, etc) quanto características das próprias alternativas (preço, tempo de viagem, etc). A utilidade dos indivíduos é definida como sendo , que é a utilidade que o indivíduo n obtém escolhendo a opção j. Assumindo que o indivíduo maximiza sua utilidade, as suas escolhas podem ser representadas por: 0$% ! = " > ´ ()*(%+, ≠ ,´ 1.)$/./01+á+3/ Como já mencionado, as escolhas dos indivíduos dependem de muitos fatores que podem afetar a sua utilidade, fatores que podem ser relacionados a suas próprias características ou às características de suas escolhas. Alguns desses fatores podem ser observados pelo econometrista, outros não, pois são intrinsicamente impossíveis de se observar (por exemplo aversão ao risco). Isso dito, assumimos que a utilidade pode, portanto, ser decomposta em duas partes, uma parte dependente das variáveis observadas e outra parte dependente de variáveis não observadas (resíduos). = + Onde: é um conjunto de variáveis observadas relativas à alternativa j para o indivíduo i que depende dos atributos da alternativa é o vetor correspondente de coeficientes das variáveis observadas, e captura o impacto de todas as características não observadas que afetam a escolha do indivíduo. Quando segue uma distribuição de extremo valor, dizemos que pertence à família de modelos de valor extremo generalizado (VEG) Enfim, o modelo estimado para a escolha de modal e horário no transporte público foi: 25 = 4 .$1/ + 5 1%6/ + 7 +%08) + 9 38)8% + : %$18)01% + ; 0/. 6/+)8. +%$38 + = )1/6ó?%* + onde 4 e 5 são parâmetros das características específicas das alternativas e entre 7 e @ são os parâmetros das características dos indivíduos por escolha; 3. Dados A principal base de dados é a Pesquisa Origem e Destino (POD), pesquisa que é realizada desde 1967 na Região Metropolitana de São Paulo – RMSP pelo Metrô, com periodicidade de dez anos, e tem por objetivo o levantamento de informações atualizadas sobre as viagens realizadas pela população da metrópole em dia útil típico. Esta base de dados constitui-se no principal instrumento de coleta de informações sobre viagens, servindo de base para os estudos de planejamento de transporte. Os dados coletados consistem em aproximadamente 170.000 observações e possibilitam a caracterização dos deslocamentos diários não somente na cidade de São Paulo como também nos 38 municípios que formam a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), como apresentado na figura a seguir. 26 Figura 1 - RMSP conforme apresentado na POD Os dados coletados por esta pesquisa são compartilhados com entidades que desenvolvem estudos prospectivos sobre a RMSP e diversos setores públicos: transporte, planejamento urbano, saúde, educação e segurança pública e são compartilhados também com instituições acadêmicas e empresas do setor privado. Dos dados disponibilizados pela pesquisa, as informações utilizadas para o presente trabalho são: 1. Meio de transporte utilizado por cada indivíduo por viagem; 2. Hora e minuto de saída e chegada de cada indivíduo por viagem; 3. Tempo de deslocamento em cada viagem; 4. Coordenadas das origens e destinos de cada viagem; 5. Quantidade de automóveis que cada indivíduo possui; 6. Motivo da viagem tanto na origem quanto no destino; 7. Gênero do indivíduo; 8. Renda do indivíduo; 9. Ocupação do indivíduo; 27 Para o item 1, é importante mencionar que na POD são considerados os modais conforme tabela abaixo (números após ajustes da amostra, necessários para o presente trabalho), onde consta o modal como considerado na pesquisa e como eles foram interpretados na estimação, na agregação de modais necessária para o modelo de escolha discreta definido. Modal Ônibus Município de S.Paulo Microônibus e Van Município de S.Paulo Microônibus e Van Outros Municípios Microônibus e Van Metropolitano Metrô Trem Dirigindo Automóvel Motocicleta Passageiro Automóvel Bicicleta A pé Outros Ônibus Fretado Escolar Táxi Participação 16,4% 1,4% 0,0% 27,4% 0,0% 8,8% 0,7% 27,7% 29,0% 1,3% 10,3% 0,7% 39,8% 28,7% 0,2% 0,3% 3,8% 2,6% 0,8% Modal Considerado Público Privado Outros Desconsiderados Tabela 3 - Modais e Participação dos Modais na POD A representatividade das viagens a pé pode ser explicada pela grande quantidade de deslocamentos curtos, até 2 km, que somam mais do que 44% da amostra. No item 2, procurou-se entender e mapear as viagens reportadas na pesquisa, para tanto foram feitos alguns histogramas baseados no horário de saída e de chegada dos indivíduos (que foi utilizado como proxy do horário que estes estão em trânsito). 28 Figura 2 - Histogramas dos horários de pico e vale estimados em São Paulo A intenção com os histogramas acima é definir para o presente estudo qual devem ser os horários de pico considerados, e como o objetivo principal é analisar os modais públicos e privados (sem foco nos “outros”), definiu-se, pelos histogramas acima, que os horários de pico serão entre 6:00 e 9:00 (pico da manhã) e entre 17:00 e 19:00 (pico da tarde), os demais horários serão considerados como “vale”. Importante mencionar que quando os outros modais são incluídos na análise surge de maneira indiscutível um pico na hora do almoço, possivelmente puxado pelo horário escolar, mas novamente, como o objetivo aqui é estudar a divisão de modal principalmente entre modais públicos e privados, foi decidido desconsiderar este pico. 29 A pesquisa considera “micro dados”, ou seja, as informações mencionadas acima podem ser atribuídas a cada indivíduo que respondeu à pesquisa (obviamente, em caráter anônimo) e isso é ponto crucial para a estimação do modelo de escolha discreta pois dá importantes opções de regressores a serem utilizados. As viagens reportadas na pesquisa seguem certo critério hierárquico para definir qual o modo principal, por exemplo, se um indivíduo faz uso de metrô e ônibus, o meio de transporte da viagem é considerado como sendo o metrô. Tal classificação em modo principal de viagem é vital para que se possa atender a uma premissa do modelo LOGIT, onde as alternativas devem ser mutuamente excludentes, ou seja, a opção por um modal automaticamente exclui qualquer outro modal na contagem das viagens reportadas na pesquisa, obviamente isso traz certa perda de informação. A hierarquia dos modais segundo a POD é, na ordem: metrô, trem, ônibus, transporte fretado, transporte escolar, táxi, dirigindo automóvel, passageiro de automóvel, motocicleta, bicicleta, outros e finalmente a pé. Foi mencionado que a principal fonte de dados deste trabalho é a pesquisa de origem e destino do metrô, mas alguns dados relevantes para o modelo econômico proposto não estavam contidos na POD e foram calculados especificamente para a presente estimação, a seguir um detalhamento de cada um deles. 3.1. Custos de viagem para modal privado (carro e motocicleta) Em diversos trabalhos, o custo de viagem juntamente com o tempo de viagem, são mencionados como os aspectos mais relevantes para a decisão de modal dos indivíduos, portanto não haveria a menor possibilidade de um modelo econômico que desconsiderasse tais parâmetros. Para estimar os custos das viagens de carro, foi utilizada a seguinte fórmula: 8 8 A$1/BCDDE = F ÷ H. I . 1 1 30 Onde d é a distância da viagem, t é o tempo de viagem, g é o consumo médio de combustível do automóvel e I é o preço do combustível. Como a distância dividida pelo tempo de viagem é a velocidade do veículo, primeiramente temos que definir qual velocidade será utilizada, e para isso foi pesquisada a base de dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) que aponta a velocidade média dos veículos em algumas horas do dia, número que em 2007 era de 17 km/h no pico da manhã (entre 5:00 e 8:00) e 14,2 km/h no pico da tarde (entre 17:00 e 20:00). Para obter a velocidade média nos outros períodos do dia foi calculada a média de velocidade entre todos os períodos conforme a POD. O valor de consumo de combustível (distância dividido pela quantidade consumida de combustível) é calculado desde 2009 para diversos tipos de automóveis (os mais vendidos do Brasil) pelo INMETRO, e este valor foi ponderado pela quantidade de carros vendidos em São Paulo entre 2002 e 2007, utilizando os dados da FENABRAVE. Para o caso do consumo de combustível de motocicletas foi considerada a média ponderada de consumo de combustível dos sete modelos de motocicletas mais comuns no Brasil, que somam mais de 80% do total de motocicletas em circulação, tal valor está disponível em sites especializados. A média do preço da gasolina na cidade de São Paulo para cada mês de 2007 está disponível no site da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), e tal dado foi utilizado. 3.2. Custos de viagem para modal público (metrô, trem e ônibus municipal) De acordo com a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), a tarifa para utilização de trens no ano de 2007 era de R$ 2,30. O mesmo valor era cobrado para usuários do Metrô e dos ônibus municipais. À época já existia o bilhete único que cobrava R$ 3,50 caso o usuário utilizasse dois meios de transporte para uma única viagem dentro do período de 2 horas. 31 3.3. Custos de viagem para outros (passageiro de automóvel, bicicleta, a pé ou outros) Este grupo, conforme já mencionado anteriormente, não considera ônibus fretado, ônibus escolar ou táxi (3,8% da amostra), portanto foi considerado custo zero para este modal (o que é razoavelmente aceitável uma vez que este modal é dominado pelos seguintes meios: a pé (72% das observações), passageiro de automóvel (26% das observações), bicicleta (1,5% das observações) e outros (0,5% das observações). 3.4. Parâmetros de Tempo e Custo das alternativas não escolhidas pelos indivíduos (contra-factual) Um parâmetro também importante para o modelo econômico a ser estudado é o tempo de viagem e os custos relacionados às alternativas que os indivíduos tinham à disposição, porém não foram escolhidas. Obviamente esses valores influenciam diretamente o modelo econômico, portanto essa parte dos dados merecem atenção especial, pois não existem dados específicos na pesquisa que reportem essa informação. Os custos e o tempo de viagem das alternativas que não foram escolhidas foram estimados através de uma regressão linear a partir das escolhas observadas para cada modal e indivíduo. A variável dependente foi o tempo de viagem e o custo da viagem, e as variáveis independentes foram as seguintes: - variáveis "dummy" para horários de partida e de chegada; - variáveis "dummy" para a motivação da viagem; - variáveis “dummy” a escolha de modal e horário; - distância da viagem em quilômetros; Esta última variável, a distância em quilômetros, foi calculada como sendo a distância euclideana entre as coordenadas geográficas das zonas de origem e destino reportada pelas pessoas na POD. O resultado desta regressão linear foi transferido posteriormente para a base de dados conforme o horário e a motivação da viagem de cada observação (indivíduo), alocada à escolha que se tratava de preencher, por exemplo, o custo de transporte resultante da regressão para a escolha de carro 32 no pico, saindo às 11:00 da manhã, chegando às 13:00 da tarde, indo para o trabalho foi alocado em todas as observações que batiam com esta característica porém retratavam escolha não optada pelo indivíduo. Sabe-se que nem todos os modais estão ou estavam disponíveis a todos os usuários, porém entende-se que, dentro da cidade de São Paulo há relativo acesso a todos os meios de transporte para todos os cidadãos. Explicados os dados utilizados no presente trabalho, a próxima seção discutirá o modelo econométrico utilizado e os resultados do estudo empírico. 3.5. Experiências internacionais de tarifas variáveis (referência) Em outros países no mundo são adotados regimes de tarifa variável ao longo do dia, conforme mencionado no trabalho da consultoria LEK (Austrália, 2011), aproximadamente 40% dos sistemas de trens no mundo adotam tal esquema de tarifa variável. Este tipo de tarifário é adotado na TranSantiago (Chile), na TransMilênio (Colômbia) e no sistema de transporte de Minneapolis (EUA), por exemplo, o resumo encontra-se na tabela abaixo. Pico Vale Vale menor do que o Pico Chile Santiago CLP 640,00 CLP 590,00 -8% Colômbia Bogotá COP 1.800,00 COP 1.500,00 -17% EUA Minneapolis USD 2,25 USD 1,75 -22% Tabela 4 - Preços de Passagem em Outros Países (Exemplos) Como estes diferenciais de preços já estão aplicados nos países em referência há mais de 5 anos, são importantes referências para os resultados que este trabalho se propõe a estimar, portanto o objetivo desta menção é que, durante a apresentação dos resultados empíricos, estes dados e informações sejam utilizados como base de comparação. 33 4. Resultados As alternativas às quais os indivíduos são apresentados consideram tanto os modais quanto seu horário de utilização, pois para a estimação a seguir, não basta trabalhar o horário como uma característica estanque do indivíduo, o horário de viagem deve realmente ser possibilidade de escolha para que o modelo funcione e possa prever a demanda no caso de alteração da tarifa (deve ser uma alternativa, lembrando que está é uma das hipóteses mais importantes para este trabalho, a de que é possível que os indivíduos mudem de horário de transporte), a seguir as 5 alternativas possíveis para todos os indivíduos: 1. Transporte Público no Vale 2. Transporte Público no Pico (entre 6:00 e 9:00 e entre 17:00 e 20:00) 3. Transporte Privado no Vale 4. Transporte Privado no Pico (entre 6:00 e 9:00 e entre 17:00 e 20:00) 5. Outros meios de transporte (em todos os horários) A partir dos dados descritos, e baseando-se no modelo desenvolvido para estimar o impacto de pedágios urbanos no trânsito da RMSP (Lucinda, Meyer, & Ledo, 2014) foi estimado um modelo de escolha discreta para avaliação da demanda por transporte público na cidade de São Paulo. O modelo trabalhado foi um tipo particular de LOGIT-Condicional, chamado de “Alternative Specific Conditional Logit”, pois permite definir quais características são específicas dos indivíduos e quais alternativas são específicas às escolhas. As características utilizadas na regressão, relativas aos indivíduos, foram a sua renda (em sua forma logarítmica), a idade do indivíduo, o número de moradores em sua residência, a distância que percorrem entre a origem e o destino do seu deslocamento e duas variáveis do tipo “dummy”, sendo elas: estudante (1 caso estude atualmente e 0, caso contrário) e propriedade de automóvel (1 caso possua carro ou motocicleta e 0, caso contrário). Os parâmetros relativos às alternativas que os indivíduos tinham à sua disposição foram simplesmente o custo e o tempo de viagem de cada alternativa (incluindo o contra-factual explicado anteriormente, onde foram 34 estimados os custos e tempos de viagem das alternativas que não foram escolhidas originalmente). Através do software “Stata” foram feitos diversos modelos LOGIT Condicionais, dentre os quais teve maior precisão e maior representatividade econômica e estatística o modelo apresentado a seguir. Variáveis Específicas das Alternativas Custo Tempo de Viagem Variáveis Específicas dos Indivíduos (base outros meios de transporte) Renda (logarítmo da renda) Idade (dummy) Estudante (dummy) Número de Moradores na Residência Distância de Deslocamento Propriedade de Automóvel ou Motocicleta (dummy) -1,071 *** (0,056) 0,054 *** (0,011) Transporte Público -0,057 *** (0,013) 0,017 *** (0,001) -0,447 *** (0,052) -0,061 *** (0,008) 0,315 *** (0,008) -0,324 *** (0,030) Observações: 601.145 Número de Casos: 120.229 Wald chi2: 29.950,71 Log pseudolikelihood: -22.980.216 Transporte Público -0,031 * (0,013) 0,004 *** (0,001) -0,968 *** (0,056) -0,067 *** (0,008) 0,318 *** (0,008) -0,244 *** (0,031) Transporte Privado -0,184 *** (0,011) 0,030 *** (0,001) -2,583 *** (0,084) -0,164 *** (0,011) 0,315 *** (0,010) 3,138 *** (0,065) Transporte Privado -0,248 *** (0,008) 0,022 *** (0,001) -3,338 *** (0,100) -0,131 *** (0,010) 0,328 *** (0,010) 3,031 *** (0,059) Tabela 5 - Modelo LOGIT Condicional Estimado Sobre as variáveis específicas das alternativas, seria intuitivo que tanto o custo quanto o tempo de viagem tivessem um sinal negativo, pois os dois são pontos caros aos usuários (quanto maior, pior deveria ser para o usuário), e quanto menor o custo e o tempo de viagem, maior deveria ser a chance de escolha da alternativa. Isso ocorreu de maneira clara no parâmetro do custo, porém no parâmetro do tempo de viagem, tivemos um beta positivo. Pesquisando outros trabalhos, como por exemplo o que estima a demanda por transporte público em Kuala Lampur (Nurdden, Rahmat, & Ismail, 2007), vimos que não é incomum termos um sinal positivo no parâmetro do custo, portanto entende-se que se pode seguir com o modelo dessa forma. No que diz respeito às variáveis específicas dos indivíduos, e esclarecendo que a base da regressão acima são os demais meios de transporte (outros), majoritariamente a pé ou bicicleta, também não é intuitivo o 35 coeficiente negativo para a renda pois esta deveria ser diretamente proporcional às escolhas dos modos público e privado, porém também o significado econômico deste coeficiente é relativamente baixo e não será discutida a fundo esta questão. Ser estudante reduz a probabilidade de utilizar qualquer um dos meios de transporte, ou seja, a probabilidade do estudante ir a pé ou de bicicleta para a escola (partindo do princípio que o transporte escolar já foi desconsiderado da base de dados) é muito maior do que o indivíduo ir de ônibus, e no caso do carro, fica claríssimo que ser estudante derruba dramaticamente a sua probabilidade de se transportar dirigindo seu próprio veículo, o que é totalmente intuitivo. A variável do número de moradores na residência, assim como a variável de idade, tem razoável significância estatística e serve bem para controlar e dar mais acurácia ao modelo. A distância de deslocamento aparece com sinal positivo e tem relativo significado econômico, o que também é simples de se imaginar, pois quanto maior a distância a ser percorrida, maior a chance do indivíduo optar por ônibus, metrô, trem, carro ou moto em detrimento de andar a pé ou ir de bicicleta. Já a “dummy” de propriedade de um veículo (carro ou motocicleta) tem sinal negativo no caso de ônibus (que demonstra que ter um veículo reduz a chance de optar por transporte público) e sinal positivo, com uma intensidade altíssima, no caso das alternativas de transporte privado, o que indica indiscutivelmente que um veículo próprio aumenta muito a chance de se optar por transporte privado, é praticamente dizer que uma vez feita a escolha de se comprar um veículo, é líquido e certo que tal veículo deverá ser utilizado como transporte frequentemente. Após concluído o modelo de escolha discreta, partiu-se para o cálculo das elasticidades de preço para entender qual seria a reação dos indivíduos dada uma alteração nos preços dos meios de transporte (tarifa no caso do transporte público e combustível no caso do transporte privado, porém não 36 diretamente proporcional dada a fórmula do custo do transporte privado já apresentada anteriormente). Abaixo a tabela com as elasticidades próprias e cruzadas calculadas conforme o modelo. Elasticidades de Preço Público Vale Público Pico Carro Vale Carro Pico Outros Público Vale -0,17 0,04 0,03 0,03 0,08 Público Pico 0,04 -0,16 0,02 0,02 0,08 Carro Vale 0,03 0,02 -0,12 0,02 0,05 Carro Pico 0,03 0,02 0,02 -0,12 0,05 Outros 0,08 0,08 0,05 0,05 -0,27 Tabela 6 - Elasticidades Próprias e Cruzadas conforme Modelo Por esta tabela de elasticidades vê-se que, conforme já previsto por alguns trabalhos anteriores citados na revisão bibliográfica, o transporte público é razoavelmente pouco elástico aos custos, e este resultado é relativamente importante para lastrear de certa forma os impactos na demanda que serão simulados a seguir. Olhando para as elasticidades próprias, encontramos os maiores valores, sendo o valor da elasticidade própria dos outros meios de transporte a maior, possivelmente pois esse meio de transporte é gratuito (ou algo muito próximo disso) e qualquer variação em seu preço geraria movimento dos seus adeptos de maneira possivelmente imediata e intensa. De posse dos resultados do modelo de escolha discreta e das elasticidades, o próximo passo foi simular alterações de demanda caso ou se aumente as tarifas no pico ou se conceda descontos para utilizar o sistema de transporte no horário de vale. Estima-se, por trabalhos comentados na revisão bibliográfica, que o mais eficaz é trabalhar as duas políticas simultaneamente, porém neste trabalho serão simuladas as políticas separadamente. 37 Foram simuladas alterações de demanda para aumentos entre 10% e 100% nos períodos de pico e descontos entre 10% e 100% nos horários de vale (100% aqui representa gratuidade), a tabela com os resultados está a seguir. Aumento no Pico Desconto no Vale Alteração na Tarifa 10% 20% 50% 100% -10% -20% -50% -100% Público Vale 5% 10% 21% 30% 20% 44% 130% 308% Público Pico -18% -34% -66% -90% -6% -13% -35% -68% Carro Vale 2% 4% 8% 11% -3% -7% -21% -53% Carro Pico 3% 5% 10% 13% -3% -7% -22% -54% Outros 2% 4% 8% 10% -3% -6% -20% -50% Tabela 7 – Simulação das Possíveis Políticas de Tarifa Simuladas A tabela acima resume a alteração simulada na demanda pelos diferentes tipos de transporte na cidade de São Paulo, dada certas alterações no preço da tarifa do transporte público, por exemplo, se a tarifa no vale for reduzida em 10%, a demanda por transporte público no vale aumentará em 20% enquanto a demanda no pico reduzirá em 6%, e como pode-se ver pela simulação que os outros modais também perderão usuários, estima-se que todos estes usuários se transfeririam do pico para o vale, que é exatamente o objetivo maior da política em estudo (suavização de demanda por transporte público). Além de estimar os impactos das tarifas na demanda, também é importante, para os agentes envolvidos no sistema, entender os impactos nas receitas, portanto, baseado nas simulações, foi estimada uma curva de impactos na receita do sistema de transporte com as diversas políticas possíveis mencionadas acima, a seguir: 38 Figura 3 - Impactos Estimados na Receita dada cada Política de Tarifa Simulada É importante mencionar que a política da linha azul clara, de aumentar a tarifa no pico, tende sempre a reduzir a receita esperada no sistema, pois dada a elasticidade ao preço, aumentos nas tarifas dos picos seriam mais do que compensadas (negativamente) pela fuga de usuários para viagens no vale ou mesmo para outros modais. Já no caso da política de conceder descontos para viagens nos vales, vê-se que existe um ponto ótimo entre o desconto de 10% e 20%, onde estimase que a redução da tarifa pode ser positivamente compensada pelo aumento de usuários no sistema como um todo. Vê-se que esse efeito é bem marginal, o aumento de receita estimado no caso de descontos entre 10% e 20% é de apenas 1%, podendo ser entendido como um efeito praticamente neutro. 39 Interessante lembrar o ponto 1.2.4 deste trabalho que menciona experiências internacionais de descontos entre 8 e 22% nos horários de vale, valores razoavelmente próximos aos simulados e também similar ao valor que será proposto na próxima seção de conclusões. 5. Conclusões Como recomendação de política pública com relação a tarifas de transporte, a partir dos dados e resultados obtidos, e lembrando que uma observação importante de trabalhos recentes é de analisar este tipo de política pública de transporte sempre com base em avaliações “antes e depois”, um desconto de tarifa para os horários de vale da ordem de 10% pode atingir o objetivo principal da proposta deste trabalho, que seria suavizar a demanda por transporte público no sistema, uma vez que esse desconto poderia reduzir em 6,5% a quantidade de usuários durante o pico, aumentando em 20,5% a quantidade de usuários que trafegam no horário de vale. Interessante mencionar que a suavização de demanda entre pico e vale ocorre de maneira mais aguda caso a política de aumentar a tarifa do transporte durante o horário de pico seja aplicada, porém cabe lembrar que é também relevante que a demanda seja suavizada mas que a quantidade de usuários no sistema não seja reduzida, uma vez que quanto mais usuários temse no sistema, mais eficiente é sua utilização (e consequentemente sua qualidade e benefícios dos envolvidos), e no caso desta política, a quantidade global de passageiros utilizando o sistema de transporte público tende a cair. A política proposta também teria efeitos colaterais positivos, como o aumento global de usuários no sistema de transporte público de São Paulo (é estimado um aumento global – pico e vale – de 7,6% de usuários no sistema) e a manutenção da receita, ou seja, sem impactos de redução na entrada de recursos do sistema, proveniente de tarifas. É importante lembrar que, obviamente, o modelo estimado tem limitações tanto matemáticas, quanto econômicas e práticas. As limitações matemáticas mais relevantes são as dificuldades do modelo prever de maneira 40 totalmente precisa o comportamento dos agentes e as possíveis variáveis não observadas no modelo que podem ter papel importante, lembrando dois aspectos já mencionados: (1) a teoria da preferência revelada, que formula que os indivíduos já maximizam sua utilidade nas opções que são atualmente escolhidas, ou seja, podem não ter motivação para alterar o horário da sua viagem e (2) a inflexibilidade de horários, onde 70% das pessoas indicaram não ter flexibilidade de alterar seus horários de viagem em mais de 30 minutos [Liu Charles, 2013]. Já a limitação econômica mais relevante que deve ser mencionada é comprovar que é justo que seja cobrado menos dos usuários no vale, e tal limitação pode ser vencida caso, em estudos futuros, o custo marginal do transporte em São Paulo seja computado assim como foi feito na Europa [de Borger, Mayeres, Proost, Wouters, 1996]. As limitações práticas vêm de fatores não estudados por este trabalho, como por exemplo, os esquemas já adotados e funcionais onde o número de ônibus por período do dia já está definido e encaixado com os horários dos funcionários das companhias de ônibus, o que deveria ser entendido para avaliar a aplicação prática deste novo tarifário (é importante mencionar que, dado o bilhete eletrônico, não é visto impedimento algum no quesito tecnologia para cobrança de tarifas diferenciadas). Finalmente, entende-se que a política de aplicar tarifas variáveis no transporte público da cidade de São Paulo pode ser um passo importante na melhoria da mobilidade na cidade, que lembrando a pesquisa IRBEM, carece de melhorias neste aspecto no curto prazo. 6. Considerações Finais Acredita-se que um aspecto importante para este modelo seja tratar uma variável “dummy” que controle quem foi o pagador da passagem para o indivíduo, isto pode gerar uma melhor estimação, seria interessante saber, portanto, quem arcou com o custo da passagem de cada viagem, informação que está parcialmente disponível na POD, infelizmente não podendo ser utilizada no modelo do presente trabalho. Sugere-se portanto que, na próxima POD (eventualmente em 2017), tal quesito seja preenchido completamente. 41 Caso a política tarifária apresentada seja entendida como viável e que tal implementação ocorra no decorrer de 2015, haverá um impacto positivo na qualidade do sistema de transporte público em São Paulo. O ano de 2015 poderia ser um ano interessantíssimo do ponto de vista econômico no que diz respeito à uma avaliação “antes e depois” criteriosa, e a próxima POD que será feita em meados de 2016, poderia eventualmente refletir os efeitos dessa política, podendo ser verificados já na POD de 2017, o que dará uma visão mais clara dos impactos de tarifas variáveis no transporte público da cidade. Atualmente a estratégia de cobrança de tarifas no transporte público da cidade de São Paulo é a de uma tarifa única ao longo do dia, que é a ferramenta mais simples e óbvia de cobrança pelo transporte. Este trabalho focará em investigar os impactos de uma tarifa variável baseada no horário de utilização do sistema, porém é importante mencionar que existem outras maneiras de se cobrar pelo transporte público. O Anexo 1, apresenta uma tabela do TCRP Norte-americano (Transit Cooperative Research Program), que resume as vantagens e desvantagens entendidas para cada modelo de tarifário possível, que é uma interessante informação e fonte de discussão para entender-se qual seria o melhor modelo tarifário a ser adotado, caso se possa torná-lo variável. 42 Referências Bibliográficas Arnott, R., de Palma, A., & Lindsey, R. (Março de 1993). A Structural Model of Peak-Period Congestion: A Traffic Bottleneck with Elastic Demand. The American Economic Review, p. 20. Bakens, J., Knockaert, J., & Verhoef, E. T. (Maio de 2010). Rewarding off-peak railway commuting: A choice experiment. p. 19. de Borger, B., Mayeres, I., Proost, S., & Wouters, S. (Janeiro de 1996). Optimal Pricing of Urban Passenger Transport: A Simulation Exercise for Belgium. Journal of Transport Economics and Policy, p. 25. Glaister, S. (Dezembro de 1974). Generalised Consumer Surplus and Public Transport Pricing. 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Vantagens Desvantagens Reduz manuseio de dinheiro no sistema Baixo custo de implementação e administração Tarifa baseada na Distância Percorrida Potenciais conflitos com motoristas Usuários menos frequentes pagam mais Melhor utilização da frota ao longo do dia Transferências são difíceis de gerenciar Requer melhoria significativa de infra-estrutura Difícil de implementar e administrar Cálculo de tarifa para viagens não regulares é complexo Tarifa justa: maiores viagens cobram maiores tarifas Pode potencialmente aumentar o Pode potencialmente aumentar as receitas número de usuários Tarifa baseada no Horário de Utilização Necessárias melhorias na Aumento de tarifa causa maior Maiores custos de administração para gerenciar vários meios de cobrança de tarifas (tecnologia) perda de usuários pagamento Sem relação entre tarifa e Não é eficiente: nível de tarifa Menor liquidez: maior valor distância percorrida / utilizada não corresponde aos custos é necessário para adquirir operacionais maiores descontos Desencoraja viagens de curta distância Cobra demais dos usuários que fazem viagens curtas Fácil de compreender e comunicar Altos descontos dificultam o cálculo de custo por viagem Traz fidelidade dos usuários Simplicidade Menor nível de abuso de tarifas Tarifa baseada no Meio de Pagamento Tarifa Única ao longo do dia Transferências entre serviços diferenciados são complexas Resistência dos usuários para servios de maior custo Pode potencialmente aumentar as receitas Tarifa justa: serviços de melhor qualidade têm tarifa mais alta Simplicidade Tarifa baseada no Serviço 44 Anexo 1: Possíveis modelos de tarifário 18% 13% 16% 14% 40% 100% 15% 14% 16% 14% 41% 100% Público Vale Público Pico Carro Vale Carro Pico Outros Total - -4% -1% -2% -6% 20% Simulação Impacto Percentual (participação de mercado simulada para (aumento ou redução de usuários no 10% de redução de tarifa de transporte no modal e horário, comparando a simulação vale) com a base) Base (participação de mercado observada antes da política) Modal e Horário 0 -2 0 0 -1 3 Impacto em Pontos Percentuais (diferença da participação de mercado comparando a simulação com a base) 45 Anexo 2: Alterações de Participação de Mercado dos Meios de Transporte após redução de 10% na tarifa do Vale (simulação)