UENF – UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE FLUMINENSE DARCY RIBEIRO PAULO CÉSAR DA COSTA HEMÉRITAS O CINEMA AMBIENTAL CONTEMPORÂNEO EM QUESTÃO: CRÔNICA DA LUTA POR RECONHECIMENTO DOS DIREITOS HUMANOS DE TERCEIRA GERAÇÃO Campos dos Goytacazes - RJ 2011 PAULO CÉSAR DA COSTA HEMÉRITAS O CINEMA AMBIENTAL CONTEMPORÂNEO EM QUESTÃO: CRÔNICA DA LUTA POR RECONHECIMENTO DOS DIREITOS HUMANOS DE TERCEIRA GERAÇÃO Defesa de dissertação apresentada ao Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro como requisito parcial à obtenção do título de mestre em Cognição e Linguagem Orientadora: Profª Drª Arlete Parrilha Sendra Campos dos Goytacazes - RJ 2011 Agradecimentos Ao finalizar o presente trabalho e o curso de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem, gostaria de externar minha gratidão pela colaboração dos seguintes amigos, familiares, professores e Instituições: À FAPERJ – Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro pela concessão da bolsa de estudos. A minha orientadora Professora Arlete Parrilha Sendra, amiga de todas as horas, pela preciosa e exemplar atuação docente, agradeço especialmente pelo espírito ético empreendido em nosso trabalho, a colaboração acadêmica, pedagógica e artística. Aos amigos Carla Mota, Flávia Solares, Rita de Cássia e Lutiane Marques pelo companheirismo e solidariedade – sempre. Ao Professor Frederico Schwerin Secco pelo empréstimo de sua sabedoria. Aos Professores Marcelo Gomes, Marcelo Sthel ,Glauco Tostes e Ulisses Guedes por terem aberto as portas da Universidade. Aos Professores Ismail Xavier da USP – Universidade de São Paulo e Cláudia Mesquita da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais pelas preciosas orientações em cinema. Ao Antonio Luiz Baldan, pela aproximação ao cinema ambiental. À Miri Anne pelo apoio de mãe e companheira inspiradora, muito obrigado. Aos meus pais Adhemar e Paula por todo apoio já fora de hora, mas imprescindíveis. Agradeço especialmente ao Paulo, à Marianna e à Fernanda por ensinarem diariamente lições exemplares da nossa Natureza. Ora, vocês que vivem fora, digam-me, se por acaso lhes acontece captar, na densa massa de sons que os cerca, o canto de Eurídice, o canto que a mantém prisioneira e que por sua vez é prisioneira do não canto que massacra todos os cantos, se conseguem reconhecer a voz de Eurídice na qual soa o eco distante da música silenciosa dos elementos, digam-me, dêem-me notícias dela, vocês extraterrestres, vocês provisoriamente vencedores, para que eu possa retornar meus planos de trazer Eurídice de volta ao centro da vida terrestre, de restabelecer o reino dos deuses do dentro, dos deuses que habitam a espessura densa das coisas, agora que os deuses de fora, os deuses dos altos Olimpos e do ar rarefeito deram a vocês tudo o que podiam dar, e está claro que não basta. Calvino ( 2007: 364) Resumo A presente dissertação versa sobre a trajetória ambiental realizadas a partir dos anos 60, gênese trabalho apresenta o diálogo entre as produções reconhecimento e direitos humanos de terceira integridade do Ambiente. das produções de cinema sob viés dos movimentos sociais “verdes”. O fílmicas e os conceitos de luta por geração, reivindicações relativas à Palavras-chave: Ambiente, Cinema, Direitos, Reconhecimento, Sociedade. Abstract This dissertation examines the trajectory of environmental film productions made from the 60 year period in which social movements emerge, "green" and establishes a dialogue between the film and the concepts of struggle for recognition and rights of the third generation, claims relating to the integrity of the Environment. Keywords: Environment, Film, Rights, Recognition, Society. Sumário Lista de ilustrações............................................................................................................9 Apresentação...................................................................................................................10 Parte I Os “verdes”: cenários......................................................................................................12 Parte II A luta por reconhecimento.............................................................................................21 Da luta luta por autoconservação à luta por reconhecimento..........................................21 O conceito de luta por autoconservação..........................................................................23 I - O Príncipe – Maquiavel..............................................................................................23 II - O Leviatã – Thomas Hobbes.....................................................................................25 O conceito de luta por reconhecimento – recíproco........................................................27 Parte III Globalização, democracia e direitos humanos: cenários.................................................31 A questão ambiental e a discussão paradigmática das ciências.......................................31 Antecedentes...................................................................................................................31 1. “Tempo, espaço, procedimentos e substância da democracia”...................................34 2. “A incongruência de ordens”......................................................................................37 3. “A autoridade política do mercado mundial”..............................................................39 4. “As questões do espaço do meio ambiente”................................................................41 5. “Reaparece a questão da forma e da substância da democracia”................................43 6. “Novos sujeitos do processo democrático”.................................................................47 7. “A democracia industrial além do fossilismo e do fordismo”.....................................49 8. “Limites ambientais, sustentabilidade e direitos humanos”........................................50 Parte IV Exemplificação de filmes ambientais..............................................................................53 Guerra ao terror...............................................................................................................53 Uma verdade inconveniente............................................................................................59 Os segredos da tribo........................................................................................................65 Parte V Inventário de filmes sob viés ambiental no Brasil..........................................................69 Ficha técnica dos filmes..................................................................................................81 Considerações Finais.......................................................................................................85 Referências......................................................................................................................87 9 Lista de ilustrações Fotografias 01. Disponível em: www.cine-luz.blogspot.com, acessado em 10/01/2011 02. 4ª Mostra cinema e direitos humanos na América do Sul. Catálogo Oficial. São Paulo: Cinemateca brasileira, 2009: 68. 03. FERREIRA, Manoel R. A Ferrovia do diabo. São Paulo: Melhoramentos, 2005: 352. 04. 32 ª Mostra internacional de cinema de São Paulo – SP. Catálogo oficial. São Paulo: Imprensa oficial, 2008: 153. 05. “É tudo verdade” 15º Festival internacional de documentários. Catálogo oficial. São Paulo: Imprensa oficial, 2010: 26. 06. “É tudo verdade” 15º Festival internacional de documentários. Catálogo oficial. São Paulo: Imprensa oficial, 2010: 40. 07. “É tudo verdade” 15º Festival internacional de documentários. Catálogo oficial. São Paulo: Imprensa oficial, 2010: 58. 08. XI FICA – Festival internacional de cinema e vídeo ambiental. Catálogo oficial. Goiânia - GO: Agepel, 2009: 71. 09. 32 ª Mostra internacional de cinema de São Paulo – SP. Catálogo oficial. São Paulo: Imprensa oficial, 2008: 167. 10. XII FICA – Festival internacional de cinema e vídeo ambiental. Catálogo oficial. Goiânia - GO: Agepel, 2009: 41. 11. “É tudo verdade” 15º Festival internacional de documentários. Catálogo oficial. São Paulo: Imprensa oficial, 2010: 94. 12. IX FICA – Festival internacional de cinema e vídeo ambiental. Catálogo oficial. Goiânia - GO: Agepel, 2009: 45. 13. Son of Babylon. Disponível em: festival.sundance.org/a_son_of_baghdad/ acessado em 28.05.2010. 14. CUNHA, Marcio Werneck da. América de Americo: o desencontro de dois mundos em Cabo Frio (1503-c.1512), incluindo o naufrágio da capitânia de Gonçalo Coelho em Fernando de Noronha. Armação dos Búzios-RJ: Ágama, 2004, p.250. 15. “É tudo verdade” 15º Festival internacional de documentários. Catálogo oficial. São Paulo: Imprensa oficial, 2010:21 16. Disponível em: www. escrevercinema.com, acessado em 10/01/2011. 17. XI FICA – Festival internacional de cinema e vídeo ambiental. Catálogo oficial. Goiânia - GO: Agepel, 2009: 111. 18. LINS, Consuelo. O documentário de Eduardo Coutinho: cinema, televisão e vídeo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004: 43. LEÃO, Beto. O cinema Ambiental no Brasil: uma primeira abordagem. Goiânia – GO: Agepel, 2001: 108. 19. LEÃO, Beto. O cinema Ambiental no Brasil: uma primeira abordagem. Goiânia – GO: Agepel, 2001: 108. 10 Apresentação Durante os últimos dois anos, foram analisadas as possibilidades de enquadramento do amplo painel temático do cinema ambiental contemporâneo na moldura interdisciplinar do curso de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem que envolveu conhecimento nos campos da Semiótica, Filosofia, Antropologia e Cinética. A presente pesquisa foi realizada junto ao acervo de filmes dos “festivais” temáticos mais expressivos da América Latina e os arquivos audiovisuais da ECA – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – e da Cinemateca Brasileira. Foram úteis também a biblioteca do CCH/ Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro e a Biblioteca da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, campus Leonel de Miranda. Essencialmente, o texto a seguir apresenta o encontro entre o repertório contemporâneo do cinema ambiental e a fundamentação teórica acerca das lutas por reconhecimento dos direitos humanos de terceira geração, fenômeno percebido em função da intensificação das atividades produtivas em escala global e o seu impacto no “discurso da democracia e dos direitos humanos”. A relativa pouca idade das preocupações da sociedade com a finitude dos recursos naturais infere à questão uma série de concepções ingênuas, exageros e deduções a respeito da relação entre o futuro da Humanidade e os níveis de sua dependência ecológica. A curiosidade que as amplas possibilidades de informação que o assunto ambiente demanda e uma série de eventos climáticos extremos – calamidades associadas à “reação da Natureza” – fizeram brotar produções cinematográficas documentais pelo mundo afora que associam o caos (planetário) e as agressões (locais) aos ecossistemas ao pretenso amor (do sujeito) pela Natureza. No campo das ciências sociais, há uma clara dificuldade em enxergar na extensão do problema físico-geográfico contemporâneo uma crise ambiental, cujo conceito tem uma amplitude impressionante. Não obstante, o de cinema passar por transformações significativas facilmente observáveis pela dinamização dos mecanismos eletrônicos de registro audiovisual. Entretanto, a falta de unanimidade científica não representou em nossa análise, ausência de aprofundamento sobre o tema. Existe ampla discussão na esfera do 11 “Pensamento Ambiental” e da “Filosofia” sobre a condição humana contemporânea, um “chão explicativo” para esta análise. A crônica do cinema ambiental contemporâneo pode constituir-se de uma ampla reserva audiovisual. Uma nova visão de mundo e um aporte esclarecedor sobre os impactos do relativo descaso com os direitos humanos de terceira geração, experiências que não deverão repetir-se com tanta intensidade, no futuro, são os papéis valorosos desejados para o cinema ambiental. . 12 PARTE I - “Os Verdes”: cenários A presente dissertação defende a proposição de que o cinema ambiental é um instrumento de testemunho privilegiado da luta por reconhecimento dos direitos humanos de terceira geração – aqueles vinculados à reivindicação pela integridade do meio ambiente. A delimitação do objeto do presente estudo originou-se do estranhamento quanto à repercussão do tema “direitos humanos” em uma análise pormenorizada de filmes do gênero documentário sob viés ambiental produzidos, no período de 2007 a 2010. A crônica, cujo primeiro significado remete a uma leitura organizada de eventos pelo fator tempo articula as obras de cinema ambiental contemporâneo, apresentadas no trabalho, no sentido de estabelecer uma avaliação conjunta dos problemas ambientais que se apresentam à vida cotidiana de sujeitos em atividade produtiva ao redor do planeta. Através da tradição própria do gênero documentário em seu compromisso ético de filmar a apreensão parcial da realidade, a crônica do cinema ambiental narra os pormenores da relação sociedade-natureza convertendo-se em fonte preciosa da história. Nesse cinema não ficcional está compreendido um universo temático variado e o objetivo do estudo foi realizar uma leitura panorâmica sobre a geopolítica ambiental, em que despontaram, como argumento, assuntos como: poluição, habitats, contingência, mundo do trabalho e limites do espaço natural. Hipoteticamente, o universo temático do cinema ambiental estaria relativamente subordinado à realidade particular das lutas por reconhecimento dos direitos humanos de terceira geração 1– quadro teórico-político definido por Altvater (1999), e enfrentado como conceito-chave da pesquisa. 1 A luta por reconhecimento dos direitos humanos apresentou-se, historicamente, através de ações gradativas e permanentes. Considerando, a partir do século XVIII, o advento do Iluminismo os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade encaminharam a reivindicação da primeira geração de direitos humanos relativos a direitos civis que culminam com a Revolução Francesa (1789). O pensamento socialista surgido no século XIX e as lutas por melhores condições de trabalho e remuneração estariam associadas ao pleito dos direitos de segunda geração, relativos a valorização do trabalho. A principal inovação relativa a terceira geração de direitos humanos é que esta reivindicação é coletiva e relativa a interesses difusos. Os direitos humanos relativos aos entornos sociais midiáticos estão sendo percebidos como de quarta geração, a serem estabilizados. 13 A questão da luta por reconhecimento, recentemente revista por Honneth (2009), está fundamentada a partir dos estudos jurídico-morais em Hegel, em sua fase docente em Jena; é um conceito subsidiário ao presente trabalho. Os filmes de cinema ambiental analisados foram selecionados a partir do rol de obras que participaram das edições mais recentes dos seguintes Festivais: “FICA – Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental”; “É tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários”; ”Mostra Cinema e Direitos Humanos da América Latina” e “Mostra Internacional de Cinema de São Paulo”. A proposta de estudo em questão fundamenta-se no estabelecimento de um diálogo entre os filmes ambientais selecionados, a ótica artística de seus realizadores e a abordagem teórica de Elmar Altvater sobre “os desafios da globalização e da crise ecológica para o discurso da democracia e dos direitos humanos”. É um encontro firmado entre as características espaço-temporais: a) do pensamento político de Altvater, fragmentado pelo autor em oito subtítulos; b) dos filmes ambientais, apresentados por resenhas dos filmes, fichas técnicas e ilustrações correspondentes. Nos últimos 40 anos, movimentos sociais têm-se organizado com o objetivo de preservar a garantia ao direito natural que povos e cidadãos têm de sobreviver em um ambiente em harmonia perante o iminente risco de destruição dos ecossistemas que dão suporte a sua existência. Num contexto de globalização da economia, a desigualdade social – interna e externa aos países – e o desrespeito aos direitos humanos animaram a luta desses movimentos sociais pela integridade do meio ambiente, levando-os a assumirem novos arranjos organizacionais, em fronteiras políticas móveis para além dos tradicionais limites locais. A incorporação e o apoio de organizações sociais de atuação internacional exerceram-se a partir de uma retórica de alteridade em que o atraso, a corrupção, a alimentação, a escolaridade, o desmatamento e o autoritarismo são aspectos evidentes apreendidos pelo cinema ao emprestar sua estética variada da crueldade, do melodrama e do suspense, transformando uma manifestação cultural midiática num instrumento competitivo entre as diversas civilizações. 14 Como o núcleo de ação das organizações não governamentais é expositivo, os apelos ocorrem através de campanhas de adesão, em mídia, que buscam o convencimento de sua causa permanentemente. Os resultados concretos das ações políticas mantém-se sempre em suspenso, não havendo, necessariamente, a intermediação formal de um partido político entre as demandas sociais, essas organizações e o Estado. Justificando-se, então, a importância dos veículos de propaganda, como o cinema, a televisão e a internet. Para o terceiro setor – ONGs – Organizações não governamentais, predominam ações comunicativas. Foto nº 1 – “Aruanda”, filme de Lindoarte Noronha Este panorama de lutas por reconhecimento dos direitos humanos de terceira geração não indica o respeito prévio aos direitos humanos de primeira e segunda gerações, o que não ocorre de maneira uniforme, segundo o panorama sócio-global. A verdadeira inovação nesta luta são os limites espaço-temporais de sua ocorrência. O novo lugar contrasta com o histórico de lutas reivindicativas por reconhecimento dos direitos humanos tradicionais relativos à liberdade, ao trabalho e à cultura, bem situados nas fronteiras nacionais onde se deram o foro e as deliberações das revoluções políticas e sociais ocorridas a partir do século XVII, como as revoluções burguesas, as independências das colônias da América e as revoluções socialistas. 15 A ilustração que nos ocorre é a experiência vivenciada por “mulheres, índios, africanos, loucos, homossexuais e minorias” que, historicamente, custaram a ter reconhecimento como sujeitos de direitos humanos. A exemplo da “Declaração dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas – ONU”2, de 1948, marco histórico importante para a constituição de uma assembléia supranacional de direitos humanos, ocorreram, a partir de 1994, julgamentos em corte internacional por crimes ambientais ocorridos em Bophal – Índia e Chernobyl, Ucrânia. . Foto nº 2 - “Corumbiara”3, filme de Vincent Carelli (2009). A leitura textual do cinema ambiental contemporâneo revelaria, nesse sentido, um viés discursivo construído entre dois antagonismos: o bem e o mal, caracterizando a defesa (o bem) e o desrespeito (o mal) aos direitos humanos de terceira geração. A atuação cognitiva dos filmes ambientais, a partir de um amplo campo de experimentação e liberdade, teria um papel voltado à sensibilização da causa ambiental. O sentido atuante das obras cinematográficas, sob viés ambiental, residiria em despertar sentimentos altruístas capazes de incorporar ao público espectador o conhecimento, 2 A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi promulgada no dia 10 de dezembro de 1948 através da III Assembléia Geral das Nações Unidas, realizada entre Paris e Nova Iorque, presidida por Herbert Evatt (resolução 217 A). “Cinquenta e um estados participaram, nenhum votou contra, mas alguns se abstiveram (Arábia Saudita, África do Sul e bloco soviético). Sessenta anos depois, a Declaração Universal ainda vigora e, embora largamente inaplicada, seus trinta artigos estão traduzidos em 360 línguas e luzem mais do que nunca.” (REIS, Daniel Aarão: 2009:3). 3 O fotograma apresenta o exato momento do encontro entre o indianista Marcelo Santos e um casal sobrevivente do massacre da gleba Corumbiara. O filme, sob viés ambiental, mais premiado da história do cinema brasileiro. 16 ocupando assim uma lacuna deixada por outros veículos midiáticos como a televisão, que, na atualidade, não dispensa, cotidianamente, uma lógica ou relevância social à cobertura de cada item de sua pauta jornalística. Surge uma indagação: o testemunho da luta por reconhecimento dos direitos humanos de terceira geração, expresso na tela pelos depoentes de filmes documentários sob viés ambiental, é capaz de despertar no público receptor a luta por reconhecimento desses mesmos direitos? A comunicação do gênero ambiental intuída de reflexão, participação e mudança nos costumes, influenciada pela tradição do gênero de cinema documentário – de apreensão parcial da realidade – nos oferece, assim, um contraponto: articula-se como um veículo convincente de denúncia e apelo da causa político-ambiental globalizada. Pelo uso fiel das técnicas de captação de imagem-som, a força persuasiva do cinema ambiental retrata, com realidade excepcional, as diversas modalidades de destruição e conflito envolvendo a sociedade e a natureza, o que coloca o espectador num lugar privilegiado na cena dos acontecimentos. A partir dos anos 70, estudos científicos fundamentados em leis da “termodinâmica” – relação entre a conservação e a qualidade da energia – e na demografia apontaram, pioneiramente, o tempo de renovação dos recursos naturais como limitadores do crescimento econômico. Esta perspectiva de futuro é que configura uma “crise ambiental global”, justificada através da simulação de modelos matemáticos baseados na finitude dos recursos naturais ante a escalada de incremento populacional. Os custos ambientais tornaram-se, então, um elemento de ponderação do mercado, ocasionando a contabilização de seus encargos ao orçamento de “governos” e “corporações” com impacto político sobre a afirmação da legitimidade da causa ambiental. A criação de ministérios e secretarias do meio ambiente4, a promulgação de legislação específica que ordena a relação entre sociedade e natureza e o funcionamento de cursos de educação e gestão ambiental são alguns dos indícios formais da amplitude que a questão atingiu. 4 Em 30 de outubro de 1973, o Decreto 73.030 da Presidência da República criava, no âmbito do Ministério do Interior, a Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA), primeiro organismo brasileiro, de ação nacional, orientada para a gestão integrada do meio ambiente. Fonte: (DIAS, 1990: 39). 17 Uma reação do mercado ocorreu, como se podia esperar, e surgiu na forma de segmentação de uma “tecnologia verde”, com a produção dirigida ao consumidor informado de uma gama de produtos tidos como naturais, integrais, orgânicos e sustentáveis, a princípio de consumo saudável e de menor impacto ambiental. Foto nº 3 - O presidente JK5 nas obras da rodovia Cuiabá- Porto Velho A validade dessas iniciativas esbarra na impossibilidade do consumo desses produtos universalizar-se num modelo econômico de extrema desigualdade; limitandose os mesmos aos gastos das classes sociais mais elevadas. Este tipo de oportunismo é possível: apropria-se, episodicamente, do cinema sob viés ambiental através de autorias variadas em que o sensacionalismo descortina para o mundo uma série de acontecimentos em que a condição humana deplora por melhorias de qualidade de vida. O avanço nas pesquisas em ciências ambientais como a Ecologia e a Biologia tem suscitado reflexões sobre a perspectiva orgânica de renovação da Natureza, cuja sobrevivência integral de seus habitats estaria apoiada numa dependência encadeada em escala planetária. A sociedade humana, nesta perspectiva sistêmica, deveria reintegrarse como elemento orgânico da natureza e obedecer suas leis como reconhecimento a condição inseparável de todos os seres. Essa ideia fundamenta a ação de organizações sociais supranacionais em defesa de ecossistemas, fauna e flora estratégicos a esta 5 Em menos de 50 anos, a representatividade deste gesto sofreu uma reviravolta por conta de uma nova consciência ambiental. Em 1960, o presidente da República Juscelino Kubitscheck comemora, em Vilhena, a derrubada da última árvore para a execução das obras da rodovia. 18 integridade, como: a bacia amazônica, o complexo do pantanal matogrossense, o Alaska, as baleias, a araucária, os ursos da Mongólia e o povo ianomâmi. Há nesta visão de mundo, a constatação de um lapso temporal incorrigível entre o período necessário para a renovação dos recursos naturais utilizados nos processos produtivos (energia) – a longuíssimo prazo – e a ideia de progresso material das sociedades de consumo (desenvolvimento) – a curtíssimo prazo. As soluções experimentadas até o momento apontam para uma contradição entre as expectativas econômicas de desenvolvimento e as expectativas ecológicas de conservação. A “Era Nuclear” também inseriu um novo parâmetro temporal na questão ambiental. Como exemplos dos efeitos ecológicos dos resíduos em acidentes nucleares, temos o vazamento de Chernobyl, na Ucrânia e a destruição da cápsula de césio 137, em Goiânia. A repercussão desses acidentes sobre o espaço ecológico é muito superior ao tempo de vida de dezenas de gerações, suplantando um período costumeiro de gestão governamental e a tomada de decisões legais. O tempo de dissolução dos resíduos industriais tem suscitado muitas discussões sobre o seu destino, o que levou Lawrence Summers (2000), do Banco Mundial a afirmar: “Acho que a lógica econômica presente na ideia de se jogar uma carga de lixo tóxico num país de salário mais baixo é impecável; deveríamos enfrentar este fato.” Em 2010, o filme vencedor do XII FICA – Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, Hu xiao de jin shu – Heavy Metal, produzido na China, apresentou o seguinte argumento: Mais de vinte anos atrás, os resíduos eletrônicos do Japão, EUA, Austrália e outros países foram transportados para uma pequena cidade chamada Fengjang. Cerca de 50 mil trabalhadores imigrantes das partes atingidas pela pobreza do centro-oeste da China formaram um exército de desmantelamento de resíduos eletrônicos. Eles decompõem e reciclam, com métodos primitivos cerca de 2 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano. O filme conta a história de sobrevivência de duas famílias de trabalhadores, Zhang e Qiu-xia, escutando seus gemidos e suspiros. (XII FICA, 2010: 49). Apesar de censurado em seu país, “Heavy Metal”, pôde ser exibido no Brasil e a partir da repercussão internacional da premiação do XII FICA, a situação dos trabalhadores de Fengjang aspira uma nova expectativa quanto à observação dos direitos humanos de terceira geração. 19 O nível de revelação da Natureza, ao longo do século XX, foi extraordinário, o cinema e a TV registraram imagens e sons e os exibiram com a descrição audiovisual desde a profundidade dos oceanos às maiores altitudes das cordilheiras, da ictio à masto fauna, o teor das culturas mais isoladas, os locais mais secos e menos habitados, o solo da Lua, as erupções dos vulcões, que constituem a memória visual e narrativa contemporânea destes ambientes, uma ampla reserva passível de atuar por substituição em tempos de realidades virtuais. É factível que a ocultação, o segredo fossem os últimos recursos do qual dispunha a Natureza para preservar-se. As mudanças climáticas, a geopolítica dos recursos hídricos, o caráter negativo da globalização e a persistência das desigualdades sociais são alguns dos temas cristalizados com maior intensidade nos filmes, episodicamente exibidos pelas obras sob viés ambiental, e transformados numa experiência que associa arte e conhecimento. O acesso às facilidades tecnológicas de produção e edição, em vídeo, e a oferta pública, em editais de fomento audiovisual, são alguns dos motivos que operaram algumas mudanças na trajetória do cinema ambiental tanto qualitativas quanto quantitativas. É visível o deslocamento dos antigos depoentes de filmes documentários em realizadores, levando para trás das câmeras lideranças de povos indígenas e de comunidades extrativistas, exercendo um papel importante na democratização das representações sociais. Quanto ao número de produções, multiplicaram-se, expressivamente na última década, ampliando, não somente, o eixo temático, apresentando escolhas por roteiros sobre temas da natureza pormenorizada quanto visões macroespaciais. Floresceram oportunidades de exibição através da organização de Festivais, como6: FICMA (Barcelona), Ecofilmes (Atenas), Sembrando Cine (Lima), The Dutch Environmental Film Festival (Amsterdã e Roterdã), Planet in Focus Toronto Environmental Festival (Toronto), Voices from the Waters (Bangalore), Ekotopfilm (Bratislava) além de canais de TV educativos e especializados. A presença dos espectadores nos festivais reside também nas limitadas oportunidades de distribuição destes filmes no circuito comercial de cinemas e nos canais de TV aberta. 6 Fonte: (FICA – Revista do festival internacional de cinema e vídeo ambiental, ano 1, vol. II, 2010: 72, 73, 74). 20 Neste cenário, o Brasil desponta como lugar de convergência de interesses ambientais globais: historicamente, o país pensa o seu desenvolvimento de olho na exploração veloz de imensas riquezas naturais, distribuídas por um território continental. Assiste, cotidianamente, à ocorrência de conflitos ambientais, quer em relação a disputas fundiárias entre nativos indígenas, garimpeiros e proprietários rurais, quer casos alarmantes, de episódios de caráter fundiário na Amazônia, por exemplo onde ocorreram o massacre da gleba Corumbiara (1985), o assassinato do líder sindical Chico Mendes (Xapuri-Acre, 1989), o massacre de Eldorado de Carajás (1996) e o assassinato da missionária Dorothy Stang (2008). No país, desponta uma produção audiovisual da qual se pode extrair uma leitura ambiental há pelo menos 50 anos, quando teve início a trajetória contemporânea do cinema ambiental nacional com “Arraial do Cabo”, de Paulo Cesar Saraceni e Mario Carneiro e “Aruanda”, de Linduarte Noronha, documentários brasileiros sobre o cotidiano de comunidades pesqueira e quilombola, respectivamente. Para a realização da hipótese – a que se propõe o estudo – esse apresenta como metodologia, uma revisão teórica dos conceitos de luta por reconhecimento e de direitos humanos de terceira geração, sobreposto aos filmes ambientais analisados. Com o objetivo de situar a fundamentação teórica proposta, as obras de cinema ambiental serão exemplificadas em epígrafe nas Partes II e III da dissertação e ilustradas com fotografias representativas de seu argumento. Na Parte IV, estão apresentadas particularidades específicas a três filmes do gênero ambiental de maior repercussão de público e crítica no segmento cinético. Na Parte V há uma relação histórica da produção nacional de filmes ambientais a partir dos anos 60. A dissertação finaliza-se com as considerações finais e os referenciais bibliocinematográficos. Foto nº 4 - “Mataram a Irmã Dorothy”, filme de Daniel Junge, (2008). 21 PARTE II - A luta por reconhecimento Vilarejo na fronteira entre a Cisjordânia e Israel, Budrus ocupou as manchetes em 2003, quando foi palco de um inusitado protesto nãoviolento. O motivo foi o anúncio da construção de um muro pelos israelenses que destruiria oliveiras históricas e economicamente importantes. À frente do movimento estava Ayed Morrar, cuja liderança comunitária e pacifista uniu em torno da causa facções palestinas rivais, como a Fatah e o Hamas, e judeus progressistas. Também importante para a mobilização foi IItezam, a filha de Morrar, que conseguiu uma adesão maciça de mulheres. Ouvindo todos os lados envolvidos, a diretora brasileira de origem libanesa Júlia Bacha, monta um amplo painel de uma situação explosiva no Oriente Médio que encontrou solução por via pacífica. (É tudo verdade, 2010: 26). Embora este filme seja sobre uma aldeia palestina, ele conta uma história muito maior sobre o que é possível no Oriente Médio. Ayed conseguiu fazer o que muitas pessoas acreditavam ser impossível: uniu facções políticas locais palestinas, incluindo Fatah e Hamas; trouxe as mulheres para o centro da luta, ao incentivar a liderança de sua filha IItezam; e recebeu de braços abertos centenas de israelenses, em território palestino pela primeira vez, convidando-os a participar desta iniciativa pacifista.Enquanto muitos documentários sobre o conflito palestino-israelense romantizam a noção de paz, ou mergulham no sofrimento das vítimas do conflito, este filme se foca no sucesso de um movimento pacifista liderado por um palestino. (BACHA, 2010: 27) Da luta por autoconservação à luta por reconhecimento Seria o termo “luta por reconhecimento” aplicável àquelas [lutas] relativas aos direitos humanos de terceira geração, frequentemente expressas nos filmes sob viés ambiental? O uso literal do termo “luta por reconhecimento” evoca uma discussão sobre sua aplicabilidade quanto à atribuição esclarecedora-sensibilizadora apropriada pelo cinema. Devido a seu maior teor investigativo e libertário para revelar novas realidades sociais observáveis – como a terceira geração de direitos humanos – acreditamos que os filmes permitam essas percepções eficientemente, se comparados a outras abordagens midiáticas de história mais recente. A linguagem cinematográfica, amadurecida por uma trajetória centenária, utiliza-se de recursos artísticos de sensibilização como a música, a dança, a poesia e a fotografia. Ainda conta com as linhas de dramaturgia que, em especial no gênero documentário, inserem às obras linhas melodramáticas ao explorar a realidade social dos testemunhos. Como nas obras literárias consagradas, o gênero 22 documentário dispõe de uma voz do narrador que influencia a condução dos fatos, em que pese a relativa perda da inocência do espectador contemporâneo. Com o auxílio do léxico Grand Robert de la langue française, segundo Ricoeur (2006), “reconhecer” seria: “I. Apreender (um objeto) pela mente, pelo pensamento, ligando entre si imagens, percepções que se referem a ele; distinguir, identificar, conhecer por meio da memória, pelo julgamento ou pela ação. II. Aceitar, considerar verdadeiro (ou como tal). III. Demonstrar por meio de gratidão que se está em dívida com alguém (sobre alguma coisa, uma ação)”. (RICOEUR, 2006: 22-23 ) Quanto ao sentido filosófico do termo, apresenta-se a seguir um breve histórico de seu tecido constitutivo: A atualização histórica do significado do termo “luta por reconhecimento” devemos à tese de livre docência do pensador Axel Honneth, da Universidade de Frankfurt-Main7. Honneth recorre aos escritos do pensador alemão Hegel, em sua fase em Jena, para esclarecer-nos sobre a necessidade primeira da presença de motivação moral no florescimento das ações de “lutas por reconhecimento”. Hegel investigou, em sua filosofia, os mecanismos sociais mais importantes nas formas de reconhecimento e reciprocidade para a integração de uma comunidade ética. A vivência dos sentimentos: amor, respeito e estima, constituem para Hegel, uma prática associada à formação da identidade pessoal, portanto requer um reconhecimento íntimo, refletido em sua opinião, nas relações pessoais onde surge a reciprocidade. As suas reflexões originaramse na observação dos conflitos imperantes nas relações familiares. Hegel motivado por um novo panorama socioeconômico em curso na Europa propusera uma mudança teórica relativa ao pensamento político vigente em Maquiavel e Hobbes. As revoluções burguesas irradiaram pelo continente uma possibilidade concreta de legitimação do regime democrático, sepultando um dos pilares mais resistentes da hierarquia social: a ordenação perpétua segundo critérios de nascimento. Os ares da liberdade soprados pela Revolução Francesa influenciaram de ideais reformistas os pensadores alemães, cuja nação vivia uma conjuntura mista de 7 Instituição em cujo Departamento de Filosofia Social, fundado em 1924, por Max Horkheimer, Felix Weil e Friedrich Polock notabilizaram-se os estudos do Instituto de Pesquisa Social, responsável pelas pesquisas da Teoria Crítica (Escola de Frankfurt). 23 despotismo na política e feudalismo na economia. Hegel (1996), afirma, em Jena, ocupada pelas forças de Bonaparte: “Vi o imperador – esta alma do mundo – cavalgar pela cidade, em visita de reconhecimento: suscita, verdadeiramente, um sentimento maravilhoso a visão de tal indivíduo, que, abstraído em seu pensamento, montado a cavalo, abraça o mundo e o domina.” (HEGEL, 1996: 7 grifos do autor). As duas principais doutrinas políticas que outrora inspiraram a condução dos Estados Nacionais Modernos por seus soberanos – o Príncipe, de Maquiavel e o Leviatã, de Thomas Hobbes – concebiam a política como um conceito social sobre a luta por autoconservação física, num cenário de competição individual hostil, de preocupações do bem estar pessoal no futuro. “O conceito de homem como um ser egocêntrico, atento somente ao proveito próprio”, segundo Honneth (2009), justificaria a presença de um soberano absoluto a mediar toda a sorte de conflitos pessoais originados por esta competição. A supremacia dos governantes, então, esteve vinculada ao controle das aspirações individuais para a manutenção do Rei em seu Estado absolutista. O século que separa no tempo as duas obras, “O Príncipe” e “O Leviatã” foi suficiente para transformar as suposições de Maquiavel em perspectiva fundamentada cientificamente por Hobbes (a ciência política), ao sabor das discussões recém-enumeradas por Galileu e a ciência moderna. Portanto, consideramos necessário esclarecer, brevemente, alguns tópicos de duas obras desses pensadores para reativar tanto sua importância histórica como a proposição de uma fundamentação teórica construída por oposição, em Hegel, sobre o potencial motivador moral de uma “luta por reconhecimento”. O conceito de luta por autoconservação I - O Príncipe – Maquiavel Não ignoro que a natureza invejosa dos homens, sempre prontos a criticar e lentos a elogiar a ação dos outros, torna toda descoberta de novas ordens e modos tão perigosa para seu autor quanto é para os navegadores a procura de mares e terras desconhecidas. No entanto, animada por esse desejo, que me leva sem cessar fazer o que é vantajoso para todos, me determinei a abrir uma rota ainda não trilhada na qual, sem dúvida, terei muita dificuldade de caminhar. Maquiavel (Discorsi-proemio) 24 Niccolò Machiavelli (Florença, 1469-1527), foi secretário da república principesca italiana, onde nascera, e que lhe serviu de inspiração em várias obras de sua autoria como O Príncipe e Mandrágora. Maquiavel protagonizou, no cenário local, momentos políticos cruciais, atuando na resolução de conflitos diplomáticos entre Florença, seus vizinhos e a Igreja. Caminho comum trilhado por pensadores renascentistas, Maquiavel tomou a releitura de autores clássicos (como Tito Lívio), em seu fundamento teórico, exemplificado em sínteses comparativas elaboradas entre a política das cidades-estado das sociedades clássicas (greco-romanas) e os estados italianos. Em sua cidade natal, o poder econômico das atividades mercantis pareceu suplantar o rito tradicional que legitimava os nobres no poder. O cotidiano do Estado, envolto em guerras, na Itália (entre os século XV e XVI), será o pano de fundo inspirador da principal obra de Maquiavel, O Príncipe, “para quem a finalidade da arte política é a manutenção da República”. (NASCIMENTO, 1998: 16 ). No entanto, a burguesia florentina nascente chegou ao poder contestada. A casa financeira dos Médicis é derrubada em 1494, retorna ao poder de Florença de 1512 a 1527, quando é espoliada do poder novamente, agora por Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Para Martins (1996), “A ilegitimidade do poder [que impera em pequenos principados...governados por casas reinantes sem tradição dinástica] gera situações de crise e instabilidade permanente, onde somente o cálculo político, a astúcia e a ação rápida e fulminante contra os adversários são capazes de manter o príncipe.” O manual de instruções políticas de Maquiavel (O Príncipe) discute o uso da força militar e de medidas preventivas, como a auto-destruição de cidades para a manutenção do poder. A militarização se faz necessária para conter tanto a oposição interna quanto as ameaças externas: pelo uso de forças disponíveis; através de os condottiere – milícias organizadas e dispendiosas – e através da militarização da população ou do “cidadão soldado”. A prática parece ser tão comum na Europa moderna que o historiador renascentista Buckhardt (1990), cita de seu anedotário: Outrora, os habitantes de uma cidade – pelo visto, trata-se de Siena – tiveram um general que os libertou da pressão estrangeira. Todos os dias consultavam-se para saber como recompensá-lo, e concluíram que não tinham em seu poder qualquer recompensa à sua altura, nem mesmo se convertessem-no em senhor da cidade. Finalmente, um 25 deles levantou-se e sugeriu: Matemô-lo e então adorêmo-lo como santo padroeiro da cidade”. E dizem que assim se fez com ele, à semelhança do que fizera o Senado romano com Rômulo. (BUCKHARDT, Jacob apud GAY, Peter, 1990: 131) Pressionados pelo novo quadro – que se avizinhava – de transição entre o poder descentralizado (feudal) e a constituição dos primeiros estados nacionais europeus com bases mercantis, as potências europeias como a França e a casa dos Habsburgos, (ávidos por novas conquistas territoriais estratégicas para o mapa europeu), executam uma série de invasões ao território italiano. Pelo hábito de governar que se tornou práxis na Modernidade (depotismo), restaram alguns conceitos inconvenientes dos princípios maquiavélicos, conforme Houaiss (2001): Maquiavélico: 1 - relativo a ou próprio do maquiavelismo; em que há maquiavelismo; maquiavelista. Ex.: doutrina m., princípios m. 2 Derivação: sentido figurado. que envolve perfídia, falsidade; doloso, pérfido Ex.: plano m. 3 - Derivação: sentido figurado. que se caracteriza pela astúcia, duplicidade, má-fé; ardiloso, velhaco. Ex.: governante m. O cenário social de mudanças dos tempos modernos em que viveu Maquiavel, é marcado por transformações em quatro sentidos: político, com o absolutismo moderno; científico e cultural, pelo renascimento; econômico, com as grandes navegações e religioso, pela reforma protestante. II - O Leviatã – Thomas Hobbes Esse mesmo ambiente tido como uno e limitado pode ser evocado para explicar a ocorrência de conflitos de formato hobbesiano, onde um mundo materialmente escasso estaria submetido à ação das figuras do individualismo possessivo com desejos sem limites. (ACSELRAD 2004: 14). Como é possível deduzir desse excerto de Acselrad (2004), o núcleo do pensamento hobbesiano continua a suscitar reflexões e pontuar as “teorias” em Ciências Sociais, notadamente quando pensamos em conflitos contemporâneos que requeiram a imposição de limites aos desejos humanos pela mediação do Estado. Thomas Hobbes de Malmesbury (Aldeia de Westport, 1588- 1679) acreditava que as pré-condições naturais de igualdade física e intelectual entre todos os homens os colocavam em constante disputa por direitos universais de autoconservação, Essa luta, estaria na raiz de suas afirmações mais conhecidas: “o homem é lobo do homem” e “a 26 guerra de todos contra todos”. Hobbes supunha que os homens, contraditoriamente, geravam esta violência para vivenciar momentos de paz, acordados por um pacto ou contrato social, afirmara: O maior dos poderes humanos é aquele que é composto pelos poderes de vários homens, unidos por consentimento numa só pessoa, natural ou civil, que tem o uso de todos os seus poderes na dependência de sua vontade: é o caso do poder de um Estado. (HOBBES, 1997: 83). Essas características vinculadas ao direito natural da sociedade humana, assinaladas por Hobbes, a diferenciavam das demais sociedades, cooperativas naturalmente, como as abelhas e formigas. O pensador inglês assistiu às mudanças provocadas pela ascensão do Parlamento na Inglaterra, após o período entre as revoluções burguesas e Revolução gloriosa. Carlos I foi decapitado e mesmo após a restauração da monarquia, ela foi submetida ao Parlamento. As guerras européias ( como a dos 30 anos), influenciaram o pensamento hobbesiano, temerário da violência e carnificina que assistira, conforme assinala Kennedy (1989): Quando Luís XIV assumiu a direção plena do governo francês, em março de 1661, o cenário europeu era particularmente favorável a um monarca disposto a impor-lhe suas opiniões. Ao sul, a Espanha ainda se esgotava na tentativa inútil de recuperar Portugal. Do outro lado do Canal da Mancha, uma monarquia restaurada sob Carlos II tentava pôr-se de pé, e nos círculos comerciais ingleses havia um grande ciúme dos holandeses. (KENNEDY, 1989: 104). O conceito de estado de natureza em Hobbes não designa as primeiras formas de socialização do homem, trata-se de um exercício de suposições acerca do comportamento social subtraído da presença do Estado Moderno. Para isso, seria necessária a presença do Leviatã (Houaiss, 2001): Leviatã: 1. monstro marinho do caos primitivo, mencionado na Bíblia, e cujas origens remontariam à mitologia fenícia; encarna a resistência oposta a Javé ou Jeová pelos poderes do mal. 2. Derivação: por metáfora, por extensão de sentido. Rubrica: política. o Estado, como soberano absoluto e com poder sobre seus súditos que assim o autorizam através do pacto social [O termo foi retomado no s. XVII por Thomas Hobbes (1588-1679) que assim designa o Estado moderno, não para marcá-lo como arbitrário ou despótico, mas para defendê-lo como poder absoluto.]3. Derivação: por extensão de sentido. Rubrica: política. O Estado totalitário provido de vasta burocracia. 4. Derivação: por analogia (da acp. 1).ser ou 27 coisa colossal, de aparência monstruosa. 5. qualquer coisa de dimensões colossais. O conceito de luta por reconhecimento recíproco Em Hegel, encontraremos uma guinada teórica crítica a respeito da validade do contrato social, especificamente, quanto a sua determinação de localizar circunstancialmente a presença de motivação moral no surgimento da “luta por reconhecimento”. Sob o ponto de vista de Hegel: O direito é a relação da pessoa em seu procedimento para com o outro, o elemento universal do seu ser livre ou a determinação, limitação de sua liberdade vazia. Essa relação ou limitação, eu não tenho por minha parte de maquiná-la ou introduzi-la de fora, o próprio objeto é esse produzir do direito em geral, isto é, a relação que reconhece. (HEGEL apud HONNETH, 2009:85). Esta reflexão indica uma disposição prévia, íntima, em que aparece a necessidade pessoal de reconhecimento recíproco, procedente às aspirações contratuais perante o direito natural. Para Hegel, no momento anterior ao pleito do indivíduo pelos direitos derivados do contrato social, é que está localizado o potencial das motivações morais. A sua concepção indica a necessidade de os indivíduos sentirem-se reconhecidos, mutuamente, antes de quaisquer conflito. Para confirmar a elaboração da questão, Hegel, reafirma: No reconhecer o si cessa de ser esse singular, ele está juridicamente no reconhecer, isto é, não está mais em seu ser-aí imediato. O reconhecido é reconhecido como válido imediatamente, por seu ser, mas precisamente esse ser é gerado a partir do conceito; é ser reconhecido. O homem é necessariamente reconhecente. Essa necessidade é a sua própria, não o nosso pensamento em oposição ao conteúdo. Como reconhecer, ele próprio é o movimento, e esse movimento supera justamente seu estado de natureza: ele é reconhecer. (HEGEL apud HONNETH, 2009:85). Estas afirmações, em resumo, creditam ao sentimento de desprezo social segundo Hegel, o florescimento das principais ações motivadoras das lutas por reconhecimento recíproco. Uma transformação do pensamento em Hobbes quanto a sua concepção de luta para assegurar a autoconservação física em um ambiente de competição social. O autorrespeito proveniente do sentimento de amor próprio perante as relações recíprocas asseguraria a iniciativa da luta por reconhecimento: uma luta moralmente motivada. A partir de percepções particulares, esse potencial moral de “luta 28 por reconhecimento” poderia ser generalizado e acarretar o desenvolvimento de conflitos sociais. Como? Através de uma linguagem comum motivar os movimentos sociais. Para Honneth (2009), “(...) a experiência de desrespeito está ancorada nas vivências afetivas dos sujeitos humanos, de modo que possa dar, no plano motivacional, o impulso para a resistência social e para o conflito, mais precisamente, para uma luta por reconhecimento.” Foto nº 5 - “Budrus”, filme de Júlia Bacha (2010). Contudo, o interesse do presente trabalho na utilização do sentido filosófico do termo “luta por reconhecimento”, em Hegel, é somente vislumbrar a tentativa de uma aproximação teórica entre a novidade do amplo painel de reivindicações por direitos humanos de terceira geração exibidos nos filmes sob viés ambiental. O seu potencial é capaz de despertar e sensibilizar o florescimento dos sentimentos morais que motivem as ações políticas pelas quais clamam os movimentos sociais “verdes”. Haveria nesta reivindicação comunicativa, um poder catalisador. Uma expressão desta tentativa de aproximação teórica que ilustra nosso interesse pelo assunto é exemplificando a teoria da “luta por reconhecimento” pelas afirmações de Nobre (2009): A reconstrução da lógica dessas experiências do desrespeito e do desencadeamento da luta em sua diversidade se articula por meio da análise da formação da identidade prática do indivíduo num contexto prévio de relações de reconhecimento. E isto em três dimensões 29 distintas, mas interligadas: desde a esfera emotiva que permite ao indivíduo uma confiança em si mesmo, indispensável para os seus projetos de autorrealização pessoal, até a esfera da estima social em que esses projetos podem ser objeto de um respeito solidário, passando pela esfera jurídico-moral em que a pessoa individual é reconhecida como autônoma e moralmente imputável, desenvolvendo assim uma relação de autorrespeito. No entanto, é somente nas duas últimas dimensões que Honneth vê a possibilidade de a luta ganhar contornos de um conflito social, pois na dimensão emotiva não se encontra estruturalmente, segundo ele, uma tensão moral que possa suscitar movimentos sociais, o que não faltaria às formas de desrespeito como a privação de direitos e a degradação de formas de vida, ligadas respectivamente às esferas do direito e da estima social. (NOBRE apud HONNETH, 2009: 18). Portanto, a “luta por reconhecimento” obedece a uma lógica articulada de atitudes e percepções que consiste na ultrapassagem das seguintes etapas pelo indivíduo: em primeiro lugar, por relações fundamentadas em sentimentos como o amor e a amizade, relacionados ao campo emotivo, necessários ao sujeito para aquisição de autoconfiança, imprescindível para sua autorrealização pessoal; em segundo lugar, atuariam as relações jurídicas fundamentadas em direitos; nesta etapa jurídica e moral o sujeito é reconhecido e atribuível de significados morais associados a sentimentos de autorrespeito; a terceira etapa é aquela relativa à estima social, em que as aspirações do sujeito em termos de autorrealização pessoal conduzem a uma experiência de solidariedade reconhecida como autoestima. Segundo Nobre (2009), “(...) interessam-lhe aqueles conflitos que se originam de uma experiência de desrespeito social, de um ataque à identidade pessoal ou coletiva, capaz de suscitar uma ação que busque restaurar relações de reconhecimento mútuo ou justamente desenvolvê-las num nível evolutivo superior.” (NOBRE, 2009: 18). A aproximação teórica ao conceito de luta por reconhecimento, vista aqui tanto no sentido literal quanto filosófico, permite utilizá-la como modelo a ser sobreposto à questão dos direitos humanos de terceira geração. A seguir, propõe-se uma discussão sobre a trajetória de estabilização deste novo conceito – direitos humanos de terceira geração – e as possibilidades de enquadramento ao amplo repertório temático do cinema ambiental. A constatação por se tratarem de obras documentais, a princípio não ficcionais, transformam-se, textualmente, em experiências testemunhais imagético-sonoras bem evidenciadas de luta por reconhecimento de direitos humanos de terceira geração, aquelas vinculadas à integridade do ambiente. Estes testemunhos funcionam como 30 instrumento de convencimento à adesão pelas suas lutas ao público espectador, cumprindo suas finalidades éticas8 de arte-conhecimento. Quadro I O esquema geral descritivo da teoria do reconhecimento por Honneth (2009) : Objeto de reconhecimento/ Modo de reconhecimento Indivíduo (carências concretas) Intuição (afetivo) Família (amor) Conceito (cognitivo) Intuição intelectual (afeto que se tornou racional) Fonte: (HONNETH, 2009: 60) Pessoa (autonomia formal) Sujeito (particularidade individual) Sociedade civil (direito)9 Estado (solidariedade) 8 Este compromisso está expresso no inciso I do Código de Ética do Fórum Nacional de Organizadores de Eventos Audiovisuais. “I – A finalidade em si de um festival é promover o produto audiovisual, respeitando-o como manifestação artística, formando e informando o público.” (XII FICA, 2010: 13). 9 Localizada no centro do esquema geral de Honneth e no meio da trajetória entre as aspirações individuais e o Estado, a arregimentação da sociedade civil pode garantir o sucesso das reivindicações por direitos humanos de terceira geração. 31 PARTE III – Globalização, democracia e direitos humanos: cenários No momento em que procuram realizar um filme sobre a reunião de famílias dispersas por guerras, organizadas pela ONU entre os refugiados do território do Saara Ocidental, há três décadas disputado pelo Marrocos e a Frente Polisário, os cineastas Violeta Ayala e Dan Fallshaw descobrem-se repentinamente no centro de um turbilhão. Depois que os relatos dos saaráuis negros comprovam a persistência de relações de escravidão deles em relação aos árabes, em pleno século XXI e debaixo do nariz da ONU, os diretores passam a correr enormes riscos. Neste terreno minado pelo entrechoque feroz de vários interesses, eles têm de recorrer a um mirabolante esquema para salvar não só os preciosos rolos de seu filme, como sua própria vida. (É tudo verdade, 2010: 40). As duas primeiras viagens aos campos foram tranqüilas, mas na terceira, tudo mudou quando descobrimos a escravidão. Desde o momento em que a frente Polisário percebeu que nós filmávamos algo que era de seu desagrado, tentaram nos deter. Fomos presos, oficiais militares da ONU vieram e a embaixada australiana em Paris negociou nossa libertação da Argélia, um dos países mais perigosos do mundo. Escondemos nossas fitas no deserto, torcendo para que alguém as contrabandeasse para fora do país. Ao tentar recuperá-las, acabamos nos metendo numa queda de braço política entre a FP e Marrocos. Por 18 meses, éramos só nós dois, nossas pequenas câmeras e sem nenhuma cópia de segurança, com a FP e Marrocos na nossa vida. ( FALLSHAW; AYALA, 2010: 41). A questão ambiental e a discussão paradigmática das ciências Antecedentes – cenários O funcionamento dinâmico da economia em escala planetária fez surgir uma série de superações teóricas colocadas no campo das ciências sociais. As novas fronteiras de atuação do mercado desregulamentado colocaram em xeque as políticas públicas de desenvolvimento dos Estados nacionais, com impacto contundente à soberania política; novos obstáculos foram colocados aos países “periféricos” no sentido de integrar-se à ordem econômica mundializada. O funcionamento do livre comércio e o imperativo da desregulamentação exprimem o futuro da economia sem fronteiras e aparentemente sem limites. Porém, um empecilho aos países da periferia da economia mundializada surgiu. É um novo componente de respeito à ordem democrática internacional: o respeito às normas ambientais. As imagens de desflorestamento, queimadas e outras técnicas rudimentares da relação sociedade-natureza assumem nesta nova ordem um caráter de sérias implicações comerciais. 32 Já nos países considerados industrializados, não é raro observar, rotineiramente, representações sociais em que manifestantes de rua pleiteiam integridade nos planos de seguridade social ou protestos anti-globalização, como os que sacudiram Seattle10 e o entorno das reuniões do G-7 – grupo dos sete países mais ricos do planeta. A duração do estado de bem estar social em alguns países aparece sob ameaça antes de sua desejada universalização. As crises econômicas pelas quais passam, em princípios do século XXI, Grécia e Portugal põem em risco a continuidade das políticas públicas do welfare state. O comportamento das forças de acumulação capitalista neste cenário desregulamentado em que a economia mundial funciona a partir de economias nacionais, tem, como desafio, administrar um limite ecológico. A discussão sobre a validade dos paradigmas científicos, a despeito de uma possível crise ambiental global, surgiu a propósito dos limites ecológicos do desenvolvimento econômico, constatados nos inícios dos anos 70 pelo Clube de Roma e, teoricamente, por Meadows (1972), sobre os limites do crescimento: Se as atuais tendências de crescimento da população mundial – industrialização, poluição, produção de alimentos e diminuição de recursos naturais – continuarem imutáveis, os limites de crescimento neste planeta serão alcançados algum dia dentro dos próximos cem anos. O resultado mais provável será um declínio súbito e incontrolável, tanto da população quanto da capacidade industrial. (MEADOWS apud BRÜSEKE, 1985: 30). Decorridos aproximadamente 40 anos desta afirmação, o discurso da sustentabilidade tornou-se uma premissa da preocupação da ONU – Organização das Nações Unidas – para que sejam asseguradas, no presente, às futuras gerações, os recursos naturais condizentes com a satisfação de suas próprias necessidades. (Comissão Brundtland, 1987)11. Para as ciências sociais, o significado da crise ambiental está além de quantificações e limites pois a relação entre sociedade-natureza possui significados históricos e culturais que ensejam os conflitos pela posse e exploração deste patrimônio material. 10 O filme Surplus do diretor Erik Gandini (2003) premiado na VII edição do FICA descreve as cenas dos acontecimentos em Seattle e oferece uma ampla discussão sobre os malefícios sociais da economia globalizada. 11 Fonte: (BRÜSEKE, 1995: 33) 33 Para Altvater (1999), “os paradigmas podem mudar porque o poder explicativo dos conceitos teóricos falha diante de desafios históricos”. (ALTVATER, 1999:110). As análises do campo econômico, por exemplo, que fundamentaram-se tendo por modelo as sociedades beneficiadas pelo estado de bem estar social, tem como desafio a superação deste modelo, num cenário de desregulamentação do mercado e o surgimento dos limites do espaço ambiental. Foto nº 6 - “ Roubados”, filme dos diretores Dan Fallshaw/ Violeta Ayala (2009). Este novo paradigma científico – relativo aos limites do crescimento econômico – surgiu há algumas décadas, e por conta de alguns acontecimentos sintomáticos, como exemplificados: a) crescimento e adensamento populacional urbano; b) crescimento industrial acelerado; c) destruição das florestas tropicais: pobreza e superexploração dos recursos naturais em África, Ásia e Ámérica Latina. Com o passar do tempo, esses fenômenos tornaram-se conhecidos e sua difusão por veículos de comunicação cooperaram para a constatação de uma crise ambiental global. Para assegurar a trajetória de assimilação dos direitos humanos de terceira geração, aqueles vinculados ao direito à integridade do ambiente, a seguir, distingue-se um esquadrinhamento geral do assunto, em oito subtítulos propostos por Altvater (1999), ilustrados por recortes temáticos do cinema ambiental contemporâneo, apresentados em epígrafe, a seguir: 34 I “Tempo , espaço, procedimentos e substância da democracia” “Os Representantes”, de Felipe Lacerda (2009): Quando começa a acompanhar a instalação de um gabinete de crise para atender problemas causados pela seca na Amazônia, em outubro de 2006, o documentarista Felipe Lacerda descobre a ponta de um iceberg no mecanismo de distribuição de cestas básicas, investigando o controle exercido por José Melo, um deputado ligado ao governo estadual amazonense, o cineasta embrenha-se por vilas ao redor da região de Boas Novas (AM). Nessa pequena localidade, encontra o vereador Quinho um perfeito interlocutor para revelar, muitas vezes inadvertidamente, alguns meandros do varejo da política brasileira. Em torno do vereador, articula-se uma rede clientelista, que distribui favores, transporte e refeição a eleitores em dias de votação – o que é vetado por lei – e mesmo dinheiro. (É tudo verdade, 2010: 58). Fui para a Amazônia tentar entender como a população enfrentava a maior crise ambiental da sua história e terminei por encontrar o microcosmo da política brasileira.Depois de ter feito esse filme, não consigo olhar a política sem questionar a legitimidade da democracia representativa em uma sociedade desigual como a brasileira.O controle dos meios de comunicação, a articulação com a Igreja, o baixo nível educacional do país, a propaganda política institucional e a manipulação das esperanças se articulam de maneira perversa para a perpetuação de um sistema de poder baseado no assistencialismo imediatista e na manutenção da miséria. (LACERDA, 2010: 59). A democracia moderna é um regime político baseado em delimitações espaçotemporais que asseguram a governabilidade dentro das fronteiras do tradicional Estado nacional, onde ocorrem as deliberações políticas e a cidadania. Este vínculo histórico é fruto de uma centralização política ocorrida no início dos tempos modernos e que substituiu uma tradição anterior de política descentralizada conhecida, genericamente, na Europa como feudalismo. A formação dos Estados nacionais modernos esteve baseada em questões territoriais, culturais e econômicas, mas a adoção de regimes democráticos é mais recente, inaugura a “Era contemporânea” e a superação dos estados absolutistas – monárquicos. Trata-se de uma conquista dos movimentos revolucionários fundamentados nos ideais iluministas. Estas conquistas históricas estão ameaçadas por uma realidade econômica de integração dos mercados mundiais. Ainda não ocorreu a adoção da democracia para a governança global, embora já ocorra uma gestão econômica ou exercício de poder dos mercados em dimensões planetárias e uma demanda internacional significativa sobre o governo de reservas florestais, como a região amazônica. Esses fenômenos abalam a confiança da soberania 35 política local que, neste contexto, está sob vigilância constante em relação a procedimentos democráticos formais, uma exposição às restrições sistêmicas do mercado. Mas ainda há a necessidade de fronteiras que garantam o exercício democrático de alguns procedimentos formais. A cidadania, o voto, o recurso ao direito estabelecido de indivíduos e dos povos ocorrem em territórios nacionais. A história da democracia revela que as conquistas relativas a direitos formais e substanciais deste regime transformaram-se em padrões sociopolíticos originados com o iluminismo. Em resumo, procedimentos e tempo de tomada de decisão democráticos constituíram-se a partir de delimitações espaço-temporais relacionadas, diretamente, à cidadania baseada em igualdade material e substancial. Na história do pós-guerra ocorreu a consolidação do estado de bem estar social coletivo como conquista ou reivindicação, em curso na Europa, perante os Estados nacionais vigidos pela ONU como direitos sociais, econômicos e culturais, sob os limites físicos destes estados, onde tradicionalmente operam os mecanismos de reivindicação da democracia. A partir dos anos 60, para Altvater (1999), o que mudou neste panorama foi a exigibilidade de novos direitos: Os direitos humanos tradicionais – da “primeira” e da chamada “segunda” gerações – têm que ser complementados pelos da “terceira” geração, reivindicação que vem ganhando cada vez mais força. Portanto, direitos humanos compreendem também direitos de indivíduos (e povos) em relação à integridade da natureza, isto é, do meio ambiente em que os seres humanos vivem. A primeira geração de direitos humanos se formou a partir de reivindicações de indivíduos contra violações cometidas por agentes econômicos, Estados, instituições políticas e agentes sociais; a segunda geração combateu as violações, mesmo indiretas ou estruturais, à integridade pessoal ou social, além de abranger o direito a um desenvolvimento cultural, econômico e social autônomo, contra os obstáculos resultantes de uma ordem internacional injusta; a terceira geração inclui os direitos relativos à integridade ambiental. Além do direito ao desenvolvimento, à justiça social e ao acesso à riqueza natural, a integridade ambiental tornou-se uma questão em destaque, em função da crise ambiental aguda. (ALTVATER, 1999: 115). A partir destas afirmações esclarecedoras a respeito da existência destes direitos humanos de terceira geração, pergunta-se como eles se manifestam no cenário atual de mundialização? 36 Uma característica comum aos países tidos como desenvolvidos refere-se ao atendimento pleno aos direitos humanos de primeira e segunda geração a partir do término da segunda guerra mundial, “(...) tornaram-se pré-requisito para o discurso democrático moderno”, Altvater (1999: 116). No entanto, esta ordem democrática vivencia no momento os seguintes riscos: por um lado a constatação de limites ecológicos inesperados; de outro, o enfraquecimento da soberania política local, em função da sua superação por deliberações de ordem econômica. A história européia revela os passos que levaram à lenta e gradativa incompatibilização entre as fronteiras das políticas nacionais e a inexistência delas para o funcionamento dinâmico da economia em escala mundial. O aparecimento simultâneo tanto dos estados nacionais quanto dos mercados mundiais ocorreu devido às grandes navegações e o Renascimento artístico, comercial e científico, que significaram o sucesso do modelo imperialista europeu. Para Altvater, “(...) a economia se separa do controle social e subjuga a sociedade às leis de acumulação capitalista e da racionalidade que lhe é inerente.” (ALTVATER, 1999: 117). Foto nº 7 - “Os Representantes”, filme de Felipe Lacerda (2009). A racionalidade praticada pela economia mercantilizada não combina certamente, com os termos da política nacional. Para o núcleo decisório da economia as fronteiras nacionais inexistem ou interessam apenas no sentido especulativo dos mercados, acarretando “(...) uma tensão crescente entre globalização e estados 37 nacionais, restrições sistêmicas e desregulamentação política.” (ALTVATER, 1999: 117). O conflito entre a necessidade de formalização no campo das decisões políticas e a presença material em torno das questões sociopolíticas sofrem no momento, um processo de intensificação, “Isso indica uma perda de controle político-administrativo sobre as variáveis econômicas essenciais.” (ALTVATER, 1999: 117). É um processo típico dos inícios da modernidade que colocam em choque, dois tipos de interesse: (1) os Estados nacionais soberanos que, numa relação binária (entre amigo e inimigo, cidadão e estrangeiro), estabeleceram uma ordem política internacional de respeito mútuo e de amplos benefícios ao cidadão reconhecido oficialmente; (2) - o mercado mundializado que tem sua potência na contínua competição e não em inimigos. Desta forma, o cenário atual, caracterizaria-se para Altvater (1999): (...) o mercado desregulamentado segue sua racionalidade sem compromissos, oferecendo uma utopia intimidadora e não amigável, por causa de sua destrutividade ecológica... Consequentemente, enquanto a racionalidade econômica, em sua forma pura, é a desregulamentação, a forma pura de racionalidade política é a regulamentação. A desregulamentação econômica prejudica a soberania política – e, portanto, a capacidade de regulamentação política – e vice-versa: a regulamentação política é um meio de controlar e comprometer a racionalidade econômica. (ALTVATER, 1999: 118). II “A incongruência de ordens” “Morrendo em Abundância”, de Yorgos Avgeropoulos (2008): Algumas empresas multinacionais têm conseguido controlar o “coração” de nossa comida: a própria semente, enfim, a produção agrícola mundial. Corretores de países desenvolvidos apostam com os alimentos, aumentando e reduzindo preços e brincando com o direito básico de milhões de pessoas: o acesso à comida. Enquanto isso, quase um bilhão de pessoas no mundo estão desnutridas e 25 mil morrem de fome a cada dia. Será que a Terra não consegue mais alimentar sua população? (FICA, 2009: 71). A relação entre a desregulamentação requerida pelo mercado e o destino da soberania do Estado, onde estão os limites territoriais de ações democráticas formais – regulamentados – implicaram uma perda significativa de poder político do Estado. A história comum a muitos estados nacionais revela que em sua delimitação espaçotemporal (território-eleitoral) ocorre a validação dos procedimentos formais da democracia quanto à harmonia em termos de tomada de decisão entre cidadãos e 38 Estado. Para Altvater, “(...) esta é a única forma pela qual uma nação pode ser uma comunidade de destino.” (ALTVATER, 1999: 118). O espaço que envolve o Estado nacional é, portanto, o lugar onde têm eficácia as regras formais de funcionamento da democracia, onde pacificou-se o papel de mediador do Estado perante os diferentes interesses sociais. A incongruência de ordens, neste novo cenário econômico globalizado, teria surgido como uma ameaça à harmonia entre governo e cidadãos, baseada na integridade entre espaço territorial e direitos relativos à cidadania. “Desgastam-se os limites territoriais, antes claros, do território do Estado, do poder da nação e do povo da nação. Tornam-se menos claros os espaços inequívocos de direitos e deveres, assim como as regras de participação em decisões e os mecanismos de legitimação.” (ALTVATER, 1999: 119). Fundamentalmente, nos últimos anos, a autoridade conquistada por empresas transnacionais que atuam nos países em desenvolvimento são um bom exemplo da incongruência de ordens. A desatenção dos governos a determinadas regras de atuação das empresas transnacionais, como a recente polêmica envolvendo o Congresso Brasileiro e a indústria norte-americana Monsanto – a respeito do seu desejo de vender aos agricultores brasileiros sementes geneticamente modificadas , “transgênicas” – sem que houvesse o tempo necessário para uma avaliação dos impactos ambientais sobre a saúde humana dos lavradores, sobre os ecossistemas que comportam as plantações e sobre a saúde dos consumidores dos produtos derivados da soja transgênica, revela a perda de autoridade dos Estados nacionais sobre os riscos inerentes às atividades empresariais. Foto nº 8 - “Morrendo em abundância”, filme de Yorgos Avgeropoulos (2009). 39 A ocorrência de intensa migração internacional é outra característica problematizadora em termos da relação entre a política, a cidadania e o território dos Estados nacionais. Paralelamente, a intensificação do fluxo migratório, em muitos países, dissimula as conquistas de cidadania nacionais por conta do risco de perda de identidade cultural, religiosa e étnica. Na opinião de Altvater: Politicamente, a globalização e a desregulamentação, a ela associada, também significam que: primeiro, a tomada de decisão privatizada é despolitizada, ou seja, não precisa mais da legitimação do cidadão. Os “poderes inconstitucionais” na economia e o mundo da mídia precisam apenas apresentar um mercado atrativo para os clientes, acenar com um lucro para os acionistas e alcançar uma taxa de audiência alta; eles só tem que obedecer as regras da esfera econômica (e da mídia). Os “poderes inconstitucionais” não estão atrelados a decisões políticas; os cidadãos, que formam uma comunidade política, são interessantes, antes de mais nada, como sujeitos econômicos, particularmente como consumidores. Portanto, a globalização levanta questões novas que não estavam na agenda, uma vez que a restrição sistêmica do mercado internacional não era uma questão séria e a soberania do Estado em um certo território era uma premissa natural. (ALTVATER, 1999: 119). III “A autoridade política do mercado mundial” “Garapa”de José Padilha (2009): Segundo a ONU, mais de 920 milhões de pessoas sofrem de fome crônica no mundo. O significado desses números depende da nossa compreensão do que significa “passar fome”. Geralmente, os meios de comunicação discutem a questão fornecendo números e debates sobre as suas causas. Para que se compreenda o real significado do problema, é necessário conhecê-lo de perto. Garapa é o resultado dessa preocupação. O filme é fruto de mais de 45 horas de material filmado por uma pequena equipe que, durante quatro semanas, acompanhou o cotidiano de três famílias no Ceará. (FICA, 2009: 105). A forma e a substância da democracia estão sendo abaladas pela crise ecológica. A desarmonia de ordens tornou-se evidente por ocasião do Acidente de Chernobyl, na Ucrânia. Os efeitos sobre a saúde humana deste acidente foram visíveis nos países vizinhos e mesmo em outros continentes, destino comum dos produtos agropecuários da Ucrânia, consumidos nos EUA e Brasil. O foro de reivindicação por esses direitos, por esta cidadania ultrajada não estava localizado nos limites do Estado nacional. Este exemplo nos revela que a perda parcial de soberania do Estado pode ser um indicativo de que as sociedades territorialmente constituídas estão sofrendo por um lapso temporal entre “as extensões de tempo (períodos múltiplos de 10 mil anos de meia-vida para o 40 material nuclear) e espaço (cruzando todo o planeta) tornaram-se muito grandes para a dimensão humana que acompanha a tomada de decisões racionais.” (ALTVATER, 1999: 121). Aparentemente a relação dinâmica entre globalização, desregulamentação e despolitização é contraditória para a democracia, que num panorama político de empoderamento crescente do mercado mundial, vê, por exemplo, os sistemas políticos autoritários perderem seu significado ante a diminuição de poder da política perante o poder econômico. A história recente da América e dos países do leste europeu ilustram a resposta política condizente aos tempos de globalização. A transição política no Brasil, sob a forma de abertura lenta e gradual, a Lei de Anistia de 1979 são modelos de adequação das democracias sob o temor da “restrição sistêmica” do mercado mundial. Na opinião de Volk (1997), em relação à América Latina, “Altamente transnacionalizado e fraco o Estado age como um síndico da sua própria falência, e o processo despolitiza, desmobiliza, privatiza e assegura que qualquer abertura democrática será limitada.” O resultado deste quadro é que a desregulamentação da economia conseguiu suplantar a regulamentação na política. Não é por acaso que os programas de desenvolvimento dos países periféricos da economia mundial tem sérios obstáculos para se concretizarem, porque os níveis de investimentos em infraestrutura, que melhorariam a performance econômica local, custam a implementarem-se. Nos países tidos como ricos, as dificuldades mais visíveis se dão na manutenção previdenciária do estado de bem-estar social. Para os países em desenvolvimento, uma série de enquadramentos quanto aos direitos humanos de primeira, segunda e terceira geração são exigidos para que pleiteiem ajuda internacional através das “agências de fomento” e instituições internacionais. A filiação às “instituições de ajuda internacional” estaria sujeita ao “(...) teste da democracia, de modo a assegurar direitos humanos e padrões ecológicos mínimos. A transparência democrática e o respeito aos diretos humanos são entendidos como ingredientes irrenunciáveis de boa governança.” (ALTVATER, 1999:122). 41 Foto nº 9 - “Garapa”, filme de José Padilha (2008). Desta forma, fica evidente a correspondência entre a vida política e econômica dos países e instituições. “Países e povos que foram praticamente cuspidos do mercado internacional estão em um estado mais desolador que muitas sociedades integradas a ele de forma subalterna.” (ALTVATER, 1999: 116). Nesse caso, o papel dos governantes estaria muito mais voltado às adaptações da economia nacional ao mercado, tornando-a atraente ao capital que circula no mercado mundial, garantindo condições de competitividade aos empreendimentos nacionais. Os países sujeitos, então, às restrições sistêmicas do mercado mundial, como aquelas relativas ao respeito a padrões mínimos de condições de trabalho e do ambiente estariam em condições competitivas de receber estes investimentos, segundo Altvater, “a democracia formal não custa nada. Pelo contrário, ela reduz os atritos sociais e, portanto, os custos das transações econômicas.” (ALTVATER, 1999: 124). IV “As questões do espaço do meio ambiente” “Bananas”, de Fredrik Gertten ( 2009): A maior companhia de frutas do mundo está em julgamento nos EUA sob a acusação de envenenar seus funcionários. Pela primeira vez na História, um pequeno escritório americano de advocacia representa os trabalhadores nicaragüenses que alegam estar inférteis por causa das substâncias tóxicas utilizadas pela empresa em suas plantações. Será que esse pequeno escritório de advocacia terá uma chance contra o poder de uma corporação multibilionária? ( FICA, 2010: 41). 42 O ponto de partida da discussão sobre as questões do espaço do meio ambiente reside na impossibilidade de democratização de certas apropriações materiais. Apesar de haver relativa igualdade política de condições dos cidadãos num regime democrático, o mesmo não se pode afirmar quanto ao acesso e consumo do patrimônio natural. Essa condição pode agravar-se com a possibilidade do aumento do consumo dos recursos naturais apontar a chegada de um limite ecológico. Os limites do crescimento ecológico desabonariam, assim, as perspectivas econômicas de desregulamentação política e ultrapassagem das fronteiras nacionais, instituindo novas fronteiras, relativas aos recursos naturais. Na opinião de Altvater, (1999): A questão democrática é radicalizada por dois lados antagônicos. De um lado a globalização da economia e a mídia da informação atravessam as fronteiras políticas tradicionais. De outro, a crise ecológica cria fronteiras novas que não podem ser ignoradas a longo prazo. Isso leva à questão tradicional de como compatibilizar um mercado em expansão, sem amarras (globais) e desregulamentado, e o lugar limitado da política. A nova questão diz respeito aos efeitos dos limites do espaço ambiental sobre as possibilidades de participação, a legitimação das instituições, a representação dos interesses e, finalmente, a governabilidade do espaço ambiental, limitado sob os auspícios dos processos econômicos sem fronteiras, desenraizados e desregulamentados. Portanto, as respostas à questão democrática tem que compreender os efeitos da globalização da economia e da mídia (dissolução das fronteiras na política), assim como os efeitos da crise ecológica (novas fronteiras da política). (ALTVATER, 1999: 126, 127). O surgimento desses novos parâmetros espaço-temporais colocam em questão outros aspectos problematizadores: as fronteiras ecológica, política e econômica não coincidem e, são configurados novos limites a partir da existência de entidades atuantes na defesa de patrimônio ambiental através de sujeitos engajados em movimentos sociais supranacionais (entidades ambientalistas). A ação desses sujeitos confronta a legislação do espaço nacional àquelas do espaço ambiental. Esse conflito, “De um lado [do estado nacional], há uma tendência forte e dominante de desregulamentação; de outro [ambientalista], há uma necessidade incondicional de regulamentar a relação da sociedade com a natureza.” (ALTVATER 1999: 127). Assim, o discurso da produtividade e aumento da performance dos setores produtivos, resumidos em programas de qualidade empresarial e aceleração do 43 crescimento econômico chocam-se com os alarmes ecológicos de exaustão dos recursos naturais, poluição atmosférica e contaminação dos cursos d’água. Foto nº 10 - “Bananas”, filme de Fredrik Gertten (2009). V “Reaparece a questão da forma e da substância da democracia” “A Cidade dos Mortos”, de Sérgio Trefaut (2009): Em torno das tumbas do cemitério El Arafa, no Cairo, surgiu uma verdadeira cidade, de um milhão de habitantes. Numa convivência estreita e inusitada, mercados, casas, padarias, escolas infantis, oficinas mecânicas e outros estabelecimentos espalharam o burburinho da vida cotidiana entre os túmulos, nesta que é conhecida como “Cidade dos Mortos”. Pelas ruas, pastores conduzem seus rebanhos de cabras, não raro cruzando-se com os cortejos fúnebres que, como é de esperar, são freqüentes ali. Uma população pobre leva adiante sua luta pela sobrevivência naquele território em que, em princípio, previa-se somente o descanso eterno. (É tudo verdade, 2010: 94). Segundo o Banco Mundial, em 2004, o PIB12 – Produto Interno Bruto Mundial – atingiu a cifra de US$ 41,4 trilhões de dólares, o que representa num universo de 6,54 bilhões de habitantes do planeta uma renda per capita aproximada de US$ 6.330,00 (seis mil, trezentos e trinta dólares) ou US$ 17,85 diários para cada ser humano sobreviver, aproximadamente R$ 30,00 (trinta reais). No entanto, a distribuição por continente deste PIB, apresenta os seguintes números:13 12 13 Fonte: (Enciclopédia Abril 2007: 342) Fonte: (Idem: 356) 44 TABELA 02: PIB MUNDIAL, POPULAÇÂO E RENDA PER CAPITA – 200414 CONTINENTES PIB % POPULAÇÃO % RENDA P CAPITA US$ milhões Total Milhões total US$ média África 795.843,00 2% 924,50 14% 861 14% América Central 182.499,00 0,1% 75,00 1% 2.433 38% América do Norte 13.366.299,00 32% 441,90 7% 30.247 478% América do Sul 1.189.059,00 3% 380,30 6% 3.127 49% Ásia 10.847.478,00 26% 3.945,30 60% 2.749 43% Europa 14.295.166,00 35% 744,30 11% 19.206 303% Oceania 747.317,00 2% 33,20 1% 22.510 356% TOTAIS 41.423.661,00 100% 6.544,5 100% 6.330 Considerando o raciocínio de Pzeworski (1994), quando afirma que “uma ordem democrática nunca falhou depois da Segunda Guerra Mundial num país com renda per capita superior a US$ 4.335,00” e de Lipset (1959), “Quanto mais se constrói uma nação, maiores as chances de que ela sustente a democracia”, deduziremos que os dados oferecidos na tabela acima sugerem que embora o problema substancial da democracia não seja a produção econômica e sim a sua distribuição, a desigualdade observada (entre os 14% sobre a renda média per capita com que sobrevivem os povos africanos comparados aos 478% sobre a renda média per capita dos norte-americanos – em que pese a relatividade destes números), pode ocasionar riscos ao curso do processo democrático formal. As riquezas produzidas pela América do Norte (32% do total) somadas às produzidas pela Europa (35% do total), perfazem 67% da produção de riquezas mundiais, distribuídas a uma população equivalente a 18% do total da população 14 Fonte: (Ibidem: 356) % sobre a 45 mundial. Restaram assim, 33% da riqueza mundial para serem distribuídas a 82% de população. Os impactos desta distribuição global das riquezas para o discurso da democracia, para Altvater (1999), seriam: A liberdade de decidir o futuro está aberta apenas para aqueles que controlam as alternativas e não são obrigados a aceitar imposições. Portanto, é difícil estabelecer estruturas globais de governança. Uma das conseqüências disso é que a sustentabilidade ecológica ou não é possível ou se torna possível apenas sob condições de extrema desigualdade global. Portanto, o requisito básico da aplicabilidade de procedimentos democráticos não é preenchido. (ALTVATER, 1999: 128,129). Uma questão que envolve a distribuição desigual das condições substanciais da democracia formal é quanto às perspectivas de universalização dos padrões de consumo daqueles 18% de população mais desenvolvidos do planeta. Haveria limitação quanto aos recursos ambientais necessários para a concretização desta perspectiva? Uma das restrições que aparecem inicialmente neste debate sobre a relação entre nações com maiores ou menores condições substanciais “democráticas” e acesso à melhoria em seus níveis de renda per capita é aquela relativa à exploração de energias fósseis. O nível tecnológico para exploração, distribuição e beneficiamento dos derivados do petróleo tem exigido das nações industrializadas investimentos a cada dia maiores, o que distancia da atividade os países em desenvolvimento, mesmo aquelas nações que possuem riquezas minerais, mas que não dispõem de tecnologia de extração, transporte e refino. Para Altvater (1999): A extração das riquezas petrolíferas na região de Ogoni, na Nigéria, é a maior responsável pelo subdesenvolvimento socioeconômico e pela disseminação do caos político. Também nos casos do Equador, do Afeganistão e mesmo da Austrália e dos estados que sucederam a antiga União Soviética, ricos em matérias-primas, as riquezas em matérias-primas minerais ou agrárias não se transformaram em aumento de renda e riqueza das respectivas populações. A riqueza natural, em sua maior parte, é transferida para os países industrializados, onde é transformada em riqueza industrial e apropriada por aqueles que dispõem do poder aquisitivo necessário, isto é, moeda forte no mercado mundial. (ALTVATER, 1999: 131). As desigualdades entre a renda per capita dos países mais industrializados e aqueles em desenvolvimento têm acarretado ainda contornos mais graves em relação ao desrespeito aos direitos humanos de terceira geração. A decisão estratégica de empresas transnacionais instalarem atividades poluidoras ou de risco à integridade dos recursos 46 naturais (cursos d’água, solo, ar, fauna) em países onde são mais baixos os níveis de renda per capita está sendo motivada pela possibilidade de redução de custos indenizatórios. Como os cálculos atuariais são efetuados com base na expectativa de ganhos que os cidadãos terão em sua vida econômica ativa, a opção por instalar atividades poluidoras em países de baixos níveis de renda per capita reduz os possíveis custos indenizatórios. Em resumo, o cálculo pecuniário sobre uma comunidade de renda média, em torno de US$ 30.247,00, seria muito mais dispendioso que em uma comunidade com ganhos médios de US$ 861,00. Foto nº 11 - “Cidade dos mortos”, filme de Sérgio Trefaut (2009). A valoração da vida atinge assim a questão da igualdade dos direitos humanos, uma das premissas básicas da Declaração Universal da ONU: os direitos a um meio ambiente saudável, a uma vida cuidadosa com o planeta em que vivemos, aberta às próximas gerações. O acesso ao meio ambiente sadio estaria sujeito também às mesmas lógicas restritivas de distribuição de renda entre países industrializados e em desenvolvimento, acarretando uma questão conflitante, como assinala Altvater (1999): A democracia ocidental só poderia ser ocidentalizada se o estilo de vida ocidental pudesse ser globalizado. Falando em termos termodinâmicos: longe do equilíbrio entrópico, todas as possibilidades de desenvolvimento e participação democrática estão abertas. Mas os limites do espaço ambiental fazem com que os bens ambientais necessários para a produção e o consumo tornem-se bens oligárquicos, isto é, reservados a uma oligarquia que assegura seu 47 acesso aos recursos por meios monetários (seguindo portanto a racionalidade econômica do resultado, e não a racionalidade política da liberdade combinada com igualdade). (ALTVATER, 1999: 134). VI “ Novos sujeitos do processo democrático” Ainda há pastores?, de Jorge Pelicano (2006): Há lugares que quase não existem. Casais de Folgosinho nem sequer é um lugar. Perde-se no silêncio de um vale entre as montanhas de Portugal. Em outros tempos foi um autêntico santuário de pastores. Hoje, os mais velhos vão morrendo e os novos fogem da dura sina de ser pastor. (FICA, 2007: 45). A cena da política ambiental requer delimitações espaço-temporais inovadoras, como vimos até o momento, em uma ordem econômica mundializada. A incongruência entre os limites tradicionais dos Estados nacionais e dos limites ecológicos (que não podem ser sobrepostos), ofereceu um choque entre a legislação formal (nacional) e um novo ethos ecológico, construído a partir da conflagração de uma crise ambiental global – sua gênese está associada à percepção dos limites do crescimento econômico e da finitude dos recursos naturais – surgiram assim novos atores políticos em torno da causa ambiental – cuja atuação ocorre além das fronteiras nacionais de sua origem. Foto nº 12 - “Ainda há pastores?”, filme de Jorge Pelicano (2006). Esta constatação inicial permite afirmar se é possível a configuração de uma democracia ecológica construída a partir de novos entornos sociais? O surgimento das 48 Organizações não Governamentais,15 anos 60, trouxe à cena política instituições supranacionais em defesa do ambiente comum. É possível que a intensificação do processo de globalização e a correspondente fragilização das democracias nacionais tenham aberto espaço na sociedade civil para atuação das ONGs. Esses novos atores políticos pleiteiam, junto ao Estado, a observância de normas internacionais relativas à integridade do ambiente, como as “Convenções da Desertificação e da Biodiversidade” e os “Protocolos de Kyoto e Montreal” e a “Dúzia suja”16. Sobre o papel social desempenhado pelas ONGs, diz Altvater: Sempre houve grupos lutando contra a destruição de seu meio ambiente, frequentemente de forma ágil. Com o predomínio completo do capital nas sociedades modernas e a correspondente devastação ambiental, o protesto outrora localmente limitado, temporário e singular se expandiu, tornando-se uma característica onipresente e permanente das sociedades modernas e pós-modernas. Os antigos grupos de interesse locais e temporários, vinculados a uma única questão, transformam-se em movimentos sociais permanentes e, também em partidos de um lado, e organizações não governamentais (ONGs), de outro. Os partidos ainda estão atrelados ao território nacional, tal não se dá no entanto, com os novos movimentos sociais e, ainda mais claramente, com organizações não governamentais. Elas representam certos interesses sociais, especialmente o de conservação da natureza, de forma muito mais direta e flexível que os partidos. Tornam-se agentes importantes de política ambiental. (ALTVATER, 1999: 136). 15 O WWF – Fundo Mundial para a Natureza, fundado em 1961, com sede na Suíça, mantém representações em mais de 100 países e dedica-se a conter a degradação do meio ambiente, conservar a biodiversidade, reduzir a poluição e promover o uso de recursos naturais renováveis. Em 1971, surgiu no Canadá o Greenpeace, com o objetivo de protestar contra o uso de energia nuclear. A partir de novas reivindicações como o desarmamento, a proteção dos oceanos e das florestas tropicais e da qualidade do ar, a organização ampliou a sua atuação e mantém escritórios em 29 países. Fonte: (Enciclopédia Abril, 2007: 213). 16 A convenção de combate à desertificação, de 1994, foi criada para combater a desertificação principalmente, nos países africanos. A Convenção da Diversidade Biológica de 1992, pretende estabelecer critérios de compensação econômica sobre o patrimônio genético explorado das florestas de grande biodiversidade. O Protocolo de Kyoto, adotado em 1997, define metas de redução de poluentes na atmosfera que provocam a intensidade do efeito estufa. Os EUA não aceitam o acordo em função das restrições de sua economia. O Protocolo de Montreal estipula metas para emissões de produtos químicos na atmosfera que produzem danos à camada de ozônio. A dúzia “suja” foi estabelecida na Convenção de Estocolmo em relação à proibição do uso agrícola de 12 produtos de alta toxidade para o ambiente e a saúde humana, os POPs – poluentes orgânicos persistentes. Fonte: (Idem: 213,214). 49 No Brasil, foram criadas, pioneiramente a FBCN – Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, em 1958 e a AGAPAN – Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, em 1971. Em Campos dos Goytacazes, em 13 de dezembro de 1978 é criado o CNFCN – Centro Norte Fluminense para a Conservação da Natureza, cuja trajetória se confunde com a história de lutas por qualidade de vida associada à integridade dos ecossistemas locais. VII “A democracia industrial além do fossilismo e do fordismo” “Um negócio florescente”, de Ton van Zantvoort ( 2009): É um documentário poético sobre habitantes do Quênia prisioneiros da indústria global de flores. Os dilemas da indústria ficam claros a partir de um mundo obscuro de opressão, abuso sexual e terríveis condições de trabalho. So há uma conclusão possível: o aroma das rosas importadas não é doce, mas amargo. O filme combina observação e comentários dos personagens principais. A câmera é ausente e presente ao mesmo tempo. Com grande humanidade, Van Zantvoort nos mostra um mundo diferente em que toda vida humana é valiosa. (FICA, 2010:50). As condições prévias da democracia formal estiveram, desde o último século, vinculadas a uma perspectiva de organização social muito ligada à atividade industrial. É comum, numa hierarquia entre as nações, segregá-las entre aquelas mais e menos industrializadas. O fordismo foi uma atribuição comum às democracias industriais e o estado de bem estar social, uma condição da democracia formal desejável. A adoção no Brasil por conta do Governo Federal, de um Programa de Aceleração do Crescimento – PAC exprime uma norma comum aos países ocidentais: o desejo de crescimento da renda. O investimento previsto pelo PAC em geração de energia e infraestrutura visa dotar o país das condições materiais necessárias ao desenvolvimento industrial e por fim aumentar a produtividade da sua economia. Durante o século XX, as teorias de desenvolvimento visaram reunir atores sociais (sindicatos, empresários e governos) em torno dos benefícios comuns ao aumento da produtividade. Geração de empregos formais, aumentos reais de salários, aumento do poder de compra são alguns dos adjetivos “positivos” requeridos pelos trabalhadores, através dos sindicatos por um desenvolvimento econômico. O motor das mudanças sociais e econômicas que atravessaram o século passado, o fordismo, considerado aqui não apenas como um modelo de organização industrial, 50 mas como “modo de produção e regulamentação” inaugurou uma nova forma de relação entre a sociedade e a natureza, por sua forte dependência aos recursos de energia fóssil. Dentro da lógica descrita do desejo de crescimento das nações, este fordismo representou um modelo baseado em apropriações crescentes dos recursos naturais. O crescimento obtido pela indústria ocidental foi o resultado da expansão da utilização das máquinas combustíveis em escala progressiva de substituição da força humana. A realocação do trabalho humano encontra agora um novo desafio: os limites das emissões das máquinas que intensificam o efeito estufa, o protagonista das mudanças climáticas. Para Altvater (1999): Nos limites do espaço ambiental, o vínculo entre crescimento de produtividade (isto é, aumento de output de material e de energia por input de trabalho) e aumento de salários ( isto é, crescente consumo de energia e material per capita) está ecologicamente desatado. O aumento na produtividade não pode ser alcançado sem um aumento no consumo de recursos naturais. Nem a revolução da eficiência, difundida por tecnocratas ecológicos, pode mudar isso. O uso da energia fóssil é o principal responsável pelo efeito estufa; os sistemas de transportes modernos (estradas, aeroportos etc.), pela destruição de vidas; o lixo pela contaminação de solos e reservas aquáticas; a destruição dos ecossistemas, pela extinção de espécies etc. (ALTVATER, 1999: 139). A constatação acima, leva-nos a refletir que a limitação ecológica imposta ao sistema fossilista de produção tem suas repercussões no arranjo produtivo em que se baseou o sistema econômico nos últimos anos. Podemos refletir, neste sentido sobre as possíveis ameaças às formas substantivas da democracia formal e os episódios recentes do cotidiano político observados no Equador, na Venezuela e na Bolívia. VIII “ Limites ambientais, sustentabilidade e direitos humanos” “Boca de Lixo”, Eduardo Coutinho (1992): O tema deste documentário não poderia ser mais difícil, porque lida com o clichê da pobreza brasileira: restos da civilização industrial do Ocidente, periferia da periferia dos países ricos, quinto mundo, fim do mundo. As primeiras imagens se assemelham a um filme de ficção científica, daqueles em que o futuro é apenas a intensificação do que há de mais caótico no presente: porcos atolam em restos, um cachorro esquelético revolve detritos, um cavalo branco mastiga alguma coisa em meio a uma névoa que paira sobre um deserto de lixo, um bando de urubus voa sobre o lixão. No plano seguinte defrontamos o pior, na imagem e também no som – até então praticamente inexistente: o “bicho-homem entra em cena, em bando, todos falando ao mesmo tempo com enxadas, pás e ancinhos, investem sobre o lixo que acaba 51 de ser despejado do caminhão, em uma imagem que provoca mal estar e repulsa: repulsa de fazer parte de uma sociedade que produz cenas de crianças, adultos e velhos chafurdando no lixo para comer, o que, para dizer o mínimo, é constrangedor, mal estar de se deparar com tal estado de degradação. (LINS, 2004: 87). A inclusão de direitos ambientais no sistema de direitos humanos é uma medida recente e deve fundamentar a legislação que regulamenta a relação sociedade-natureza. No entanto, há controvérsia no campo das ciências sociais. Para a economia, por exemplo, a racionalidade das ciências proverá as futuras gerações de instrumentos tecnológicos que superarão os limites colocados pelo espaço ambiental. Neste debate, as desigualdades sociais atuais, não são ponderadas. Para encarar os novos limites que se impõem pelo espaço ambiental, há necessidade de um discurso democrático renovado, em que novos atores e fronteiras sejam considerados. Uma série de convenções, protocolos e acordos internacionais já vigoram, mas há necessidade da constituição de uma corte internacional para mediar conflitos ambientais no caso de acidentes residuais e agressões que atinjam fronteiras além daquelas dos Estados nacionais. A partir dos trabalhos da Comissão Brundtland e da Conferência Rio-92, há um consenso entre as entidades ambientalistas sobre a necessidade de respeito ao conceito de sustentabilidade – a preocupação de desenvolver a economia atual até o ponto de não comprometer as condições ambientais das gerações futuras. Os programas de desenvolvimento deveriam absorver as premissas do conceito de sustentabilidade, no entanto, “De fato, o desenvolvimento na forma que predomina nos países altamente desenvolvidos, não é nem socialmente justo nem ecologicamente sustentável.” (ALTVATER, 1999: 146). A crise econômica que atinge os mercados, oportunamente, as reformas liberais e o processo de globalização na economia fragilizaram as entidades locais que podiam conter a degradação ambiental, o agravamento das questões sociais como, por exemplo, o desemprego, a fome e a deterioração das cidades. A atuação das entidades da sociedade civil e das ONGs vem ocupando espaços onde deveria atuar, historicamente, o estado. No entanto, o seu papel ainda é limitado em relação a entidades em que predomina a figura mediadora do Estado como as agências de fomento internacionais (Banco Mundial e FMI) e as empresas transnacionais. Enfim, o panorama de mudanças apresentadas até aqui condiz com uma renovação dos conceitos estabelecidos nas ciências sociais acerca dos desafios de um 52 cenário globalizado e de novas fronteiras espaciais. A estrutura político-econômica predominante do século XXI que combina democracias liberais à economia de mercado parece não oferecer respostas convincentes aos desafios ecológicos apresentados. Em muitos casos, o relativo afastamento entre as realidades sociais emanadas pelo poder público – as verdades públicas – e o cotidiano apreendido pelo testemunho do cinema documentário – as verdades privadas – oferecem variáveis para uma leitura cuidadosa da realidade. 53 PARTE IV – Exemplificação de filmes ambientais De maneira ostensiva, nossa aldeia global encontra-se inflacionada pelo poder persuasivo das imagens veiculadas. Tudo está mediatizado como presentificação de entidades virtuais a serviço dos fluxos e refluxos do capital. A imagem é tudo e tudo é imagem – esta parece ser a máxima da civilização telemática contemporânea. ( GALEFFI, 2007: 97) Filmes polêmicos e premiados, como por exemplo “Guerra ao terror”, “Uma verdade Inconveniente”, e “Os segredos da tribo” são exemplos de produções fílmicas recentes que produziram significados político-ideológicos. Essas produções mantém um vínculo estreito com a questão da luta por reconhecimento dos direitos humanos. Por oferecerem um conjunto de representatividades sociais relacionadas a conceitos importantes da Parte III desse trabalho, como o fossilismo, a oligarquia sobre as novas delimitações espaciais e direitos dos povos estão sendo utilizados. Guerra ao terror – pelos bolsões solares, guerra paralisa o cinema na Babilônia. Entre as memórias importantes reservadas de minha infância, figuram aquelas ocasiões em que vivenciamos, numa sala escura, as primeiras sessões de cinema. O centro da cidade de São Paulo, nos anos 70, abrigava dezenas de grandes salas, disputava-se, muitas vezes, com entusiasmo, um lugar privilegiado no grande “Comodoro”, num tempo de avatares tecnológicos limitados. Durante os 90 minutos daquelas representações ficcionais, os sentidos envolvidos captavam reações, alimentaram sonhos ingênuos, inscritos, misteriosamente, no inconsciente. Era notável que a cada filme, um acréscimo em nosso acervo onírico e cognitivo estava a impulsionar leituras de mundo tão intensas, que hoje, não hesitam em ser evocadas, a ponto de servir de instrumento revisor do meu olhar sobre o outro. A alguns milhares de quilômetros dali, na cidade de Bagdá, o Al Zawra, o Sinbad e o Al Khayan17, eram alguns dos endereços importantes da sétima arte. Após um longo período de solidão e saudade, os sonhos outrora acalentados pelos 14 Cinemas em Bagdá, disponível em: <http://cinematreasures.org/location/country. Acesso em 28.05.2010 54 espectadores das projeções de cinema, ressurgem, no Iraque, e nutrem a esperança desta sociedade de reviver um tempo em que desfrutavam de autodeterminação. A partir de maio de 2010, na avenida Sadoun, Bagdá18, acionaram-se os antigos projetores do cine “Semiramis” para a exibição de Son of Babylon, de autoria do iraquiano Mohamed al Daradji. O filme apresenta elenco e locações nacionais, redesenha caminhos para a cultura local buscar novas sensações visuais, reforça a possibilidade de experimentar, coletivamente, um outro olhar sobre sua própria história, realçando a perspectiva de “(...) uma referência cultural amplamente compartilhada.” (COMOLLI, 2008). O segundo longa-metragem da filmografia de Al Daradji, Son of Babylon é uma narrativa inspirada nas dificuldades de três gerações de uma família curda, abalada pelas incertezas de uma morte presumida durante a Guerra do Golfo. Os ingredientes da trama iraquiana, em conjunto, quer sejam o cotidiano de famílias monoparentais, o horizonte das paisagens áridas ou a travessia, assemelham-se ao argumento principal comum a “Terra Sonâmbula” de Tereza Cruz (2009) e “Central do Brasil”, de Walter Salles (1998), remetendo-nos à tradição literária do brasileiro Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas) e do moçambicano Mia Couto (Terra Sonâmbula). Apesar da suspensão do funcionamento das tradicionais salas de cinema em Bagdá, na última década, em virtude da ocupação em curso das forças angloamericanas (a partir de 2003), a cidade não interrompeu sua trajetória de cidade representada. Foto nº 13 - Yasser Taleeb é Ahmed em Son of Babylon (2009) 18 Fonte: (jornal O Estado de São Paulo, caderno internacional, edição impressa de 8/05/2010, com o seguinte título: Cinéfilos celebram a volta da cultura no Iraque. Filme de diretor iraquiano leva identidade do país ao divã). 55 Guerra ao terror Lançado no início de 2010, “Guerra ao terror”, filme premiado da diretora Kathryn Bigelow versa sobre o cotidiano de um grupo de militares norte-americanos, sediados no Iraque, em cumprimento à tarefa revestida de muito suspense: desarmar minas terrestres instaladas pelo país. A obra é sustentada por um repertório políticoideológico disseminado após os atentados ao World Trade Center, em 2001, favorável a ocupação das tropas internacionais no Iraque. A invasão ao país, justificada pela “Guerra ao terror” tem garantido o funcionamento da atividade petrolífera da região (a 3ª maior produtora mundial), ao custo de inestimáveis perdas humanitárias e destruição de uma cultura milenar. “Guerra ao terror” é uma ficção que utiliza recursos técnicos de documentário para aumentar seu poder de convencimento quanto ao real. Um convite para análise das representações sociais recentes produzidas pelo ocidente sobre a cultura oriental e a cidade de Bagdá, capital iraquiana e vítima, na obra de Bigelow, das facetas de um novo imperialismo, eficiente em duas estratégias conjuntas de fundamentação da sua ação política19: a dimensão territorialista e a cultural. A dimensão territorialista da destruição: Atinge a cidade através da guerra convencional, como: embargos econômicos, corte de energia, água e racionamento ou com o saque do seu valioso patrimônio cultural (museus, sítios arqueológicos e infraestrutura urbana). Por via dos deslocamentos de constantes tropas invasoras, estimada num contingente de centenas de milhares de soldados e armas pesadas, provocam, simetricamente, baixas humanitárias com mortes e a diáspora do povo invadido20. Para Said (2003), “Nossas lideranças e seus vassalos intelectuais não parecem capazes de compreender que a história não pode 19 Na opinião de Wallerstein (2002): Em realidade, o fim da Guerra Fria suprimiu o último sustentáculo da hegemonia e da prosperidade dos Estados Unidos, o escudo soviético. O resultado foi o Iraque, a crise do golfo Pérsico. 20 Segundo informações recentes da ACNUR – Agência da ONU - Organização das Nações Unidas para refugiados, o Iraque é o país líder das solicitações para asilo em países industrializados com 12% do total mundial considerado (2008), apresentando de 20 a 60 (mil) pedidos anuais desde 1990. Fonte: (disponível em: <http://www.onu.org.br. Acesso em 29.05.2010). 56 ser apagada – como se estivesse escrita num quadro negro – para que "nós" possamos escrever nosso próprio futuro e impor nosso modo de vida aos povos inferiores.” Apesar da existência de cidades da antiguidade e medievais na região invadida, como Bagdá, Mossul, Níneve e Umma, o patrimônio cultural milenar não foi valorizado nas locações. A guerra, objeto do filme, despreza as destruições irreparáveis aos tesouros arqueológicos da antiga Mesopotâmia, considerada o berço da civilização, por abrigar inúmeros registros da escrita cuneiforme21. O Iraque pós-ocupação revela a discrepância entre a significação de tecnologias e mentalidades entre colonizados e império. Enquanto o povo iraquiano lamenta o número de baixas humanitárias – uma centena de vezes maior que os números de óbitos dos invasores – as tropas estrangeiras difundem, repetidamente, o exagero dos gastos com o conflito dotado de novas tecnologias22 de guerra (aviões bombardeiros não tripulados, artilharia de longo alcance). É a uma missão “civilizadora” de sustentar “o pesado fardo”23 de impor a sua visão de democracia ao local. A dimensão cultural: Após os eventos de setembro de 2001, em Nova York, subiu o número de ações afirmativas que contribuem para o agravamento do conceito de Oriente24, já bastante deturpado – agências de notícias internacionais esclareceram aos espectadores sobre o 21 Na opinião de Jarouche: Muitos dos processos matriciais da passagem das sociedades préhistóricas para as sociedades complexas ocorreram pela primeira vez nessa região: as primeiras tentativas de domesticação dos animais, de realização da agricultura, as primeiras cidades da história. Até onde sabemos, a primeira vez que o homem registrou um sistema de escrita, isso ocorreu em Uruk, um dos primeiros centros urbanos do sul da Mesopotâmia.(Jarouche, 2003). 22 Sob a ótica de Vieira Pinto (2005), é um episódio cíclico do imperialismo: “Agora, porém, estamos na fase em que à produção do centro metropolitano não restam outras perspectivas de conservar o ritmo de crescimento senão apelando pela substituição qualitativa de tecnologia.” 23 No auge do imperialismo do século XIX , o escritor Rudyard Kipling (1899), escreveu: Assuma o fardo do Homem Branco E obtenha a sua recompensa de sempre: A censura daqueles que você melhora, O ódio daqueles que você guarda. 24 Para Said, é possível creditar parte dos equívocos da política externa norte-americana a um malogrado campo de estudos, o Orientalismo, o autor afirma que, “Especialistas do mundo árabe e muçulmano, como Bernard Lewis e Fuad Ajami, exerceram uma influência importante sobre o Pentágono e o Conselho Nacional de Segurança de George Bush: ajudaram os falcões a pensarem com conceitos tão grotescos como o "espírito árabe" e o "declínio secular do islamismo."(SAID, 2003). 57 fim da ilusão, que tínhamos, sobre um suposto império desterritorializado:25 a questão islâmica impediria a sua continuidade, ou suspensão, até a eliminação do terror ser concluída. “Guerra ao Terror”26, de Kathryn Bigel (2009) tomou o cotidiano dos conflitos como argumento principal do filme. Sob o ponto de vista particular dos invasores, os protagonistas da narrativa têm em sua relação com o outro, o invadido, uma jornada odiável, acompanhada em, contagem regressiva, entre as cenas da trama. A cidade de Bagdá (filmada na Jordânia), aparece em “Guerra ao Terror”, sob uma atmosfera de contínuo suspense e medo. É um território de escombros e lixo (muitas sequências entre os protagonistas da história se passam nas dependências sanitárias, onde se higienizam constantemente). A narrativa despreza completamente o fazer cultural e histórico do outro, não distingue o lugar que se assemelha às representações sociais das periferias de outras cidades quaisquer. Este conjunto de imagens que pode transformar-se em monumento histórico, soterra qualquer possibilidade de escritura de outra história. O Iraque, na visão do ocupado, possibilitaria uma ótica minoritária a indicar uma tradição cultural bastante recuada no tempo. No caso de “Guerra ao terror”, o campo de visão no cinema tornouse muito limitado. Para Shohat e Stam (2007), a vertente imagética de conflitos no Iraque e a cobertura jornalística, exibida em tempo real sobre a Guerra do Golfo, representam: No caso da Guerra do Golfo, tecnologia de última geração foi posta a serviço de idéias extraídas de fontes milenares, das cruzadas cristãs contra os muçulmanos “às guerras selvagens” contra os índios. Na Guerra do Golfo o extermínio em massa e a descontinuidade radical entre vivos e os mortos revelam as limitações de um mundo visto somente através do prisma do simulacro. (SHOHAT; STAM, 2007, p.271). 25 Conforme o conceito de Meszáros (2006). Premiado em 2010 com 6 prêmios do Oscar. Sobre o assunto, Ella Shohat afirma: “Até as cerimônias de entrega do Oscar constituem uma forma poderosa de propaganda, a platéia é global e o produto promovido é sempre americano, enquanto o resto do mundo é relegado à categoria restrita de filme estrangeiro.” (SHOHAT, Ella; STAM, Robert, 2007, p. 271). 26 58 Esta visão que o Ocidente conserva do Oriente tem sua origem delimitada no tempo e no espaço. Esta estranha racionalização de uma imagem do outro, teve um objetivo claro que o constituiu, que facilitou a relação entre império e colônia, no sentido da exploração, mereceu um campo de estudo específico na obra de Edward Said: Orientalismo, em que investiga a literatura, a ciência e política coloniais. A aventura marítima que o Renascimento científico impulsionou, ampliou as referências cartográficas medievais. Nossa consciência sobre o que são lugar e destino adotam como referências geográficas um planisfério muito semelhante ao utilizado pelos grandes navegadores, contendo os limites do planeta. Para Bornheim (2000): O outro lado do platonismo chama-se nominalismo, que destitui o conceito de qualquer vínculo de ordem teológica. O nominalismo não apresenta apenas caráter filosófico: de fato, ele invade todos os setores da realidade humana: o filosófico, o científico, o político, o artístico. O universal passa a ser interpretado, então, através de novas balizas, que são a geográfica e a histórica.” (BORNHEIM, 2000, p. 9). Para usar da cobiça colonialista recente, assumidamente enfocar as reservas de petróleo da região do Golfo Pérsico, conforme a sua preocupação declarada em não haver paralisação na produção das reservas, a antiga Babilônia revê uma história secular de apropriações coloniais, a partir do século XVI, com o controle do império turcootomano até o início do século XX. Neste correr do tempo, constituiu-se uma ideia do Oriente, que extrapola o campo cartográfico. Para Said (1990): O que quero provar é que a metamorfose de uma subespecialidade filológica relativamente inócua (o orientalismo) em uma capacidade de dirigir movimentos políticos, administrar colônias, fazer declarações quase apocalípticas sobre a difícil missão civilizadora do Homem Branco, é algo que ocorre dentro de uma cultura que se diz liberal, muito preocupada em preservar as suas alardeadas regras de universalidade, pluralidade e amplitude do pensamento. O que na verdade se verifica é o exato oposto do liberalismo: o enrijecimento da doutrina e do sentido, fornecidos pela “ciência”, que assume ares de “verdade”. Se uma tal verdade se atribui o direito de considerar o Oriente imutavelmente oriental, do modo que tenho mencionado, a tolerância não passava de uma forma de opressão e preconceito intelectual. (SAID, 1990: 259). 59 Foto nº 14 - Orbis typus universalis tabula de Jerônimo Marini (1512). Um dos pilares que fundamentaram as teorias da cultura são as considerações que as potências imperialistas, através do tempo, fizeram sobre o outro. Como estratégia comum, os teóricos que contribuíram na afirmação de práticas coloniais, dissecavam as características culturais das populações submetidas e dali constituíam sua própria imagem, superior. A força catalisadora do Islã, que constitui territórios além daqueles estabelecidos na cartografia política mundial tem sido uma das exceções de resistência a uma cultura pós-moderna, em vias de universalização de seus costumes. Há um dilema estabelecido: se as forças colonizadoras sobreviverão às redes materiais que caminham para uma perspectiva multicultural. Em meados dos anos 70, enquanto o Comodoro luzia, vivia o Brasil sob uma cerrada ditadura. Sadam Hussein preparava um golpe militar no Iraque. Vestía-se um bom jeans para ir ao cinema assistir a um filme sensacionalista e os EUA, em sua política externa adoçava a vida destes generais. No despertar do milênio, o cine Comodoro foi destruído pelas chamas e o Samiramis está de volta. 2 - Uma verdade inconveniente A reação climática Era como caminhar pela natureza atravessando o livro do Apocalipse. 60 Em 2004 foi preciso reescrever os livros de ciência. Eles antes diziam: “É impossível haver furacões no Atlântico Sul”. Mas naquele ano, pela primeira vez, um furacão atingiu o Brasil. Já começamos a ver as ondas de calor que, segundo os cientistas, serão muito mais comuns se não enfrentarmos o problema do aquecimento global. No verão de 2003, a Europa foi atingida por uma fortíssima onda de calor que matou 35 mil pessoas. Quase todas as geleiras de montanhas que existem no mundo estão derretendo, várias delas rapidamente. Há uma mensagem nisso. Surgiram cerca de 30 “novas doenças” nos últimos 25 a 30 anos. Além disso, certas doenças antigas que estavam sob controle, hoje voltam a atacar. O que vemos é uma colisão colossal, sem precedentes, entre a nossa civilização e o planeta Terra. Ao ignorar o consenso científico em questões de importância crítica, como as mudanças climáticas globais, estão ameaçando o futuro da Terra. Agora só depende de nós. Precisamos colocar em ação a nossa democracia e a capacidade que Deus nos deu de raciocinar juntos sobre o nosso futuro, e fazer opções morais para mudar as políticas e os comportamentos nocivos que, se continuarem, deixarão um planeta degradado, empobrecido e hostil para nossos filhos e netos – e para toda a humanidade. Precisamos tomar a decisão de transformar o século XXI em uma época de renovação. Aproveitamos a oportunidade que está implícita nesta crise, podemos liberar a criatividade, a inovação e a inspiração – que são parte dos direitos de nascença do ser humano, tanto quanto nossa vulnerabilidade, cobiça e mesquinharia. A escolha é nossa. A responsabilidade é nossa. O futuro é nosso. (GORE, 2006). Esta série de representações acerca das conseqüências catastróficas das reações climáticas foram selecionadas do livro Uma verdade inconveniente, de Gore (2006). São enunciações persuasivas que relacionam diretamente problemas climáticos de alcance global ao comportamento das sociedades industrializadas perante o consumo27. O uso desmedido da energia fóssil e o acúmulo de gás carbônico na atmosfera são apresentados por Gore, numa perspectiva progressiva, concomitante ao surgimento de eventos climáticos extremos. 27 Nos últimos dez anos, a economia global sofreu prejuízos de quase US$ 1 trilhão por conta de desastres naturais. Diante de fenômenos que afetam áreas cada vez mais povoadas, com impacto global, a Organização das Nações Unidas criou o primeiro plano internacional de redução de riscos de desastres. O objetivo é que todos os governos signatários adotem até 2015 as diretrizes, uma espécie de guia sobre o que cada cidade, governo estadual e nacional precisa fazer para proteger as populações e alertar países vizinhos dos riscos. Fonte: (disponível em: <http://www.estadao.com.br. Acessado em:11.dez.2010). 61 Gore elaborou uma convocação humanitária enfática para que todos se associem a uma causa aparentemente comum, levando o público a refletir sobre a continuidade de sua trajetória destrutiva. Obedecendo a uma lógica do mercado cultural sob domínios globais, o livro Uma verdade inconveniente, tornou-se filme do gênero documentário em seguida, cristalizando-se em um produto vendável, em que figura, como estrela principal do apelo mercadológico, o fenômeno das mudanças climáticas, aquelas que ocasionam um temor universal, conhecido por aquecimento global. A iniciativa de Gore incentiva a produção de um rol de artigos conhecidos mercadologicamente como “linha verde”, artigos que amenizam o impacto sobre as reações climáticas, por sua natureza não residual. O cenário onde se dá a propagação desse mercado cultural, permitindo a difusão e assimilação destas ideias e artigos, com um conteúdo ideológico, é um fenômeno típico da modernidade, caracterizado para Michéa (1999): Como expansão de si mesma ao infinito no tempo dos homens (que é a subsistência da sua vida): a lógica da economia – fundada no culto do desempenho e da valorização do cálculo e da eficácia – tende a invadir a totalidade da existência e a transformar tudo o que pode ser sagrado, respeitável, honrável ou simplesmente gratuito, em “capital simbólico”, a ser “administrado” racionalmente. Nosso vocabulário moderno nos dá um triste testemunho na vida moderna, “administra-se” a vida afetiva, a imagem, a doença, o resultado de uma partida esportiva, etc. (MICHÉA, 1994: 55). Uma série de produtos industrializados aproveita o apelo do cenário de crise ambiental para sedimentar uma imagem participativa e atualizada frente aos dilemas do futuro, perante o público consumidor. Conforme a edição da revista Veja, dez/2010, selecionamos as seguintes mensagens publicitárias: 1- Se um projeto não é bom para o planeta, não está nos nossos projetos. Em cada novo projeto, a Honda busca alinhar o máximo de benefícios à sociedade, sempre respeitando o meio ambiente. Conheça alguns dos sonhos que a Honda transformou em realidade. FCX primeiro modelo do mundo movido a hidrogênio e produzido em série. ASIMO robô humanóide capaz de andar de mãos dadas, reconhecer pessoas e ajudar em tarefas do dia a dia. CG TITAN MIX é a primeira moto bicombustível. Funciona com álcool (etanol) ou gasolina e polui muito menos. 2- OMO LÍQUIDO: super concentrado, o único a combinar o insuperável poder de limpeza com o poder de preservar o planeta. 3- GOL ECOMOTION: eleito pela revista autoesporte o carro verde do ano. Se você não viu, melhor consultar o oftalmologista. O Gol ecomotion tem emissão reduzida de CO2, pneus verdes e economiza 62 em média 10% de combustível. O resultado é um impacto menor no meio ambiente. (VEJA 2196, ano 43, págs. 4,5,6,7,14 e 15). Do conteúdo de “Uma verdade inconveniente” é possível perceber considerações discursivas de natureza diversa, ora emergindo do senso comum e da ciência, ora, da religião, tornando-o um texto dirigido a um público abrangente. Esta obra aproxima-se didaticamente, de um manual de sobrevivência, um texto que contém em suas centenas de páginas, ilustrações (gráficos, fotografias, planisférios) e que prescreve universalmente, uma saída para os dramas estabelecidos por motivo das mudanças climáticas. Nesse sentido, a reação climática é causadora de transtornos, doenças, mortes e um futuro sombrio de diversos endereços do planeta, reafirmando o próprio subtítulo do livro: “O que devemos saber (e fazer) sobre o aquecimento global”. Transcorridos cinco anos do lançamento de “Uma verdade inconveniente”, seu maior dilema parece ser a sua sujeição à questão mais emblemática da teoria da cultura contemporânea – a efemeridade das obras artísticas. Um delicado contorno precisa ser enfrentado ao tratar de temas inerentes à continuidade da civilização humana – ao passar pelo crivo do prazo de validade, característico, das obras de arte, numa teoria da cultura das sociedades tidas como pós-modernas. A atividade de entretenimento a que se dedicam o cinema e a literatura, a princípio, não compartilhariam de temas “inconvenientes”. Na opinião de Garrard (2005), o discurso analisado, apresenta-se a princípio, Segundo uma lógica pós-modernista universalmente desabonadora, a crença na existência de uma crise ambiental global é apenas mais uma metanarrativa, pois a teoria da cultura insiste em que as ameaças ambientais (como todo o resto) são socialmente construídas e culturalmente definidas: não existem ameaças universais compartilhadas – os diferentes grupos privilegiam aquelas com que seus interesses particulares se confrontam. (GARRARD, 2005: 28). A afirmação de Garrard logo é confirmada pelo próprio Gore, candidato derrotado às eleições presidenciais dos EUA por George W. Bush, ao afirmar: Enquanto o novo governo ia se firmando, eu tinha de tomar decisões sobre o que fazer da minha vida. Afinal, eu agora estava sem emprego. Não foi uma época fácil, mas me deu a chance de começar de novo – de dar um passo atrás, considerar bem as coisas e direcionar minhas energias. Comecei a lecionar em duas universidades no Tenessee . Ao lado de Tipper, publiquei dois livros sobre a família americana. Mudamos para Nashville e compramos 63 uma casa a menos de uma hora da nossa fazenda em Carthage. Entrei para o mundo dos negócios e fundei duas novas empresas. Tornei-me consultor de duas grandes empresas de alta tecnologia. Tenho grande entusiasmo por esses empreendimentos, e me sinto afortunado por ter encontrado uma maneira de ganhar a vida e ao mesmo tempo ajudar o mundo – pelo menos um pouquinho – a caminhar na direção certa. (GORE, 2006: 9). A visão de mundo expressa por Gore, observada pelo campo das representações sociais, compartilhada pelos leitores e espectadores do filme, confirmada pelo sucesso editorial e bilheteria de sua obra, revestida de preocupações altruístas, pode estar intuindo na verdade a atenção com a duração do bem estar social das sociedades industrializadas. Os termos da proposta Gore de uma nova aliança global são inovadores ao contrariar um legado secular conquistado, pioneiramente, pela sociedade norteamericana conhecido como estado de bem estar social (welfare state)28, um dos termos fundantes da época moderna, em que “O desenvolvimento das instituições sociais modernas e sua difusão em escala mundial criaram oportunidades bem maiores para os seres humanos gozarem de uma existência segura e gratificante que qualquer tipo de sistema pré-moderno.” (GIDDENS, 1991: 16). O estado de bem estar social, fundamentado na obra de Keynes, fora iniciado para remediar uma enorme crise em 1929, posteriormente alcançado por algumas regiões reconstruídas da Europa e do Oriente com o apoio norte-americano. Após a segunda guerra mundial, graças à manutenção de mecanismos de desenvolvimento econômico que consideraram a exploração comercial sobre as regiões menos industrializadas como América Latina e África no jogo da Guerra Fria, foi possível ampliar o bem estar de boa parte do norte. Os riscos iminentes que a reação climática oferece à durabilidade deste estado de bem estar social, numa cartografia mundial de extrema desigualdade econômica, pode ser na verdade, a real preocupação do texto de Gore. A influência do bem estar na vida das sociedades industrializadas foi contagiante, segundo Hobsbawn (1999): 28 No espaço de autonomia das políticas nacionais, onde o Estado tinha margem de liberdade para tratar da renda interna, da distribuição, de incentivos à demanda e ao crescimento, mantendo-se regras internacionais graças à soltura da política monetária norte-americana, os europeus fizeram o welfare state. Nesse espaço, fizemos a nossa industrialização. ( FIORI, 97: 170) 64 Pobreza? Naturalmente a maior parte da Humanidade continuava pobre, mas nos velhos centros industrializados, que significado poderia ter o “De pé, ó vítimas da fome!” da “Internationale” para trabalhadores que agora esperavam possuir seu carro e passar férias anuais remuneradas nas praias da Espanha? E se os tempos se tornassem difíceis para eles, não haveria um Estado previdenciário universal e generoso pronto a oferecer-lhes proteção, antes nem sonhada, contra os azares da doença, da desgraça e mesmo da terrível velhice dos pobres? (HOBSBAWN, 1999: 477). A trajetória de reivindicações dentro do estado de bem estar social se inicia com os primeiros sinais de que a conquistada qualidade de vida não era plena nas sociedades tidas como desenvolvidas, com as jornadas estudantis de maio de 1968, em Paris. Nelas segundo, Marcuse (1968): Os estudantes não se revoltam contra uma sociedade pobre e mal organizada, mas contra uma sociedade bastante rica e organizada. E a revolta não é contra as desgraças dessa sociedade, mas contra seus benefícios. Eles recusam o establishment e a obrigação de consagrar toda a sua existência às exigências da sociedade industrial. (MARCUSE, 1968: 20). Neste novo cenário, no entanto, o estado do ambiente, o clima, a destruição da natureza tem sido reivindicada como causa comum, além das fronteiras nacionais. A difusão da pregação do texto “Uma verdade inconveniente”, em escala planetária, através do cinema, internet, livro e televisão, o medo propagado justifica-se para Gore (2006), pois: Depois de mais de trinta anos estudando a crise climática, tenho muita coisa para compartilhar. Procuro contar essa história de uma maneira interessante para todos os tipos de leitores. Minha esperança é aqueles que leem o livro ou assistem ao filme comecem a sentir o mesmo que eu: o aquecimento global não é apenas uma questão científica nem política. É na verdade uma questão moral. (GORE 2006: 10). “Uma verdade inconveniente” tornou-se filme documentário de sucesso em todo o mundo, dirigido por Guggenheim (2006), foi premiado com o Prêmio Nobel da Paz e duas estatuetas do Oscar, o prêmio máximo da academia holywoodiana de cinema, e obteve repercussão expressiva em todo o Brasil, circulando pelo circuito comercial e informal de cinema. O uso das técnicas do gênero documentário, na opinião de Nicholls (2005), tem por objetivos, mais que uma busca, 65 Esses filmes representam de forma tangível aspectos de um mundo que já ocupamos e compartilhamos. Tornam visível e audível, de maneira distinta, a matéria de que é feita a realidade social, de acordo com a seleção e a organização realizadas pelo cineasta. Expressam nossa compreensão sobre o que a realidade foi, é e o que poderá vir a ser. Esses filmes também transmitem verdades, se assim quisermos. (NICHOLS, 2005: 26). A reação do clima29 induzida, diretamente, pela passagem pecaminosa da sociedade humana pelo “planeta”, sua responsabilização pela inviabilidade de seu futuro, e o subordinamento da salvação do planeta a preceitos morais é, possivelmente, uma construção ideológica inédita na história e contraria algumas tendências elaboradas sobre as teorias da cultura. O recurso discursivo, utilizado no texto de Gore (2006), ao combinar ciência, religião e senso comum, contraria, à primeira vista, as proposições teóricas contemporâneas de Lyotard (1980)30, quando relaciona a decadência das metanarrativas a uma cultura tida como pós-moderna. 3 - Os Segredos da Tribo Ninguém sabe exatamente por que os ianomâmis sobreviveram enquanto muitas tribos vizinhas se extinguiram. Na serra Parima, os ianomâmis estavam resguardados de contágio externo. Seu isolamento nas terras altas, reforçado por suspeitas, dificultava o comércio e a comunicação entre as aldeias. Durante as epidemias, os grupos evitavam uns aos outros. Na opinião de Ayode (2004), “Uma mudança no clima implica uma mudança na circulação geral da atmosfera, da qual o clima depende em última análise. Contudo, o clima envolve não somente a atmosfera como também a hidrosfera, a biosfera, a litosfera e a criosfera. Estes são cinco componentes que formam o sistema climático. Este sistema também está sujeito a influências extraterrestres, particularmente à do Sol”. (AYOADE, 2004: 211). Para o autor, as causas das mudanças climáticas, resumem-se em: a. causas terrestres 1. migração polar e deriva continental 2. mudanças na topografia da terra 3. variações na composição atmosférica 4. mudanças na distribuição das superfícies continentais e hídricas 5. variações na cobertura de neve e de gelo b. causas astronômicas 1. mudanças na excentricidade da órbita terrestre 2. mudanças na precessão dos equinócios 3. mudanças na obliqüidade do plano de eclíptica c. causas extreterrestres 1. variações na quantidade de radiação solar (output solar) 2. variações na absorção da radiação solar exterior à atmosfera terrestre 30 Trata-se A condição pós-moderna, em que a decadência das metanarrativas figuram como indicativo da pós-modernidade, no sentido filosófico. 29 66 Outra razão da sobrevivência dos ianomâmis é o fato de que não havia malária nas montanhas. Este estado de coisas começou a mudar na década de 50 em diante. (TIERNEY, 2002: 398). Sobre o estado de coisas que começou a mudar na década de 50 para os povos ianomâmis é que versa o filme “Os Segredos da Tribo”, do diretor José Padilha (2009), baseado na obra de Patrick Tierney – “Trevas do Eldorado: como cientistas e jornalistas devastaram a Amazônia e violentaram a cultura ianomâmi”. A força de povo guerreiro – ainda isolado dos altos da Amazônia – foi a qualidade que despertou o interesse de pesquisadores em desvendar e contrabandear o poder genético desses nativos. O documentário de Padilha (2009) narra a trajetória das expedições de antropólogos norte-americanos, franceses e venezuelanos, além da atuação dos missionários salesianos junto à população ianomâmi da Amazônia venezuelana. Ambientado em locações amazônicas, mas com depoimentos coletados em Caracas, Estados Unidos e Europa, no filme, são colocados em discussão, através de depoimentos e imagens de arquivo, as principais personagens do livro de Tierney: os antropólogos Napoleon Chagnon, Jacques Lizot e Keneth Good, o cientista James Neel, o escritor Patrick Tierney e alguns representantes não identificados da nação ianomâmi. Foto nº 15 - “Os segredos da tribo”, filme de José Padilha (2009) Um dos méritos do filme é demarcar bem o período histórico a que se refere, dos anos 50 aos 70, e os escândalos que envolveram o primeiro encontro entre as 67 civilizações da selva amazônica (visitados) e a dos pesquisadores (visitantes). Os episódios narrados na obra de Tierney impossibilitam a imparcialidade de quem assiste ao filme. Apesar dos esforços planejados pela produção em ouvir o testemunho de todos os envolvidos, a natureza das acusações deixa o espectador logo nos primeiros momentos posicionado. As denúncias que envolvem principalmente: 1 - o abuso sexual de centenas de crianças praticados por Lizot, qualificado no filme como um dos pupilos do professor Lévi-Strauss; 2 - a aplicação injetável de material radioativo nos nativos ianomâmis, através das experiências de Neel, qualificado como militar atuante nos EUA, em projetos de energia nuclear; 3 - a constatação do roubo do material genético indígena, praticado pela equipe de Chagnon, em coletas sucessivas de sangue, pele e saliva, com ênfase para as imagens de arquivo recuperadas da contaminação de sarampo e “influenza” sofrida pelos nativos logo após os primeiros contatos; 4 – o casamento de Good com uma criança ianomâmi. Para Padilha (2009): “Segredos da Tribo” é um documentário muito importante para mim, porque lida com um assunto que amo: a filosofia da ciência. Nele exploro um evento da história da antropologia mundial, as pesquisas que antropólogos famosos fizeram na Amazônia venezuelana sobre os índios ianomâmi, para refletir um pouco sobre o mundo dos antropólogos, e como eles se perderam no contexto de suas pesquisas amazônicas, em parte por não disporem de metodologias científicas confiáveis. (PADILHA, 2010: 21). A pesquisa prévia realizada pela produção de “Os Segredos da tribo” localizou entre a população ianomâmi adulta aqueles indivíduos que na condição ainda pueril eram aliciados por Lizot. No testemunho dos nativos, há alguns relatos emocionados sobre os costumes libidinais do antropólogo, entre os quais o de presentear os nativos com facas, facões e armamentos de fogo em troca de favores sexuais. Segundo o filme, o antropólogo contava com a anuência de autoridades francesas e venezuelanas para a continuidade das práticas repugnantes em prol da continuidade de suas pesquisas de campo. Tierney (2002), a partir dos depoimentos de Good, afirma: 68 Tayari-teri, a aldeia de Lizot, era a mais estranha de todas. Chagnon construiu lá um galpão de depósito que Good visitava de tempos em tempos. Um dos primeiros dados que o impressionou foi que o número de homens ultrapassava grandemente o de mulheres e que a estas proibiam a aproximação do bangalô de Lizot, onde o antropólogo vivia com uma comunidade de garotos. As mulheres usavam uma passagem separada em torno do conjunto de Lizot. E os garotos executavam estranhas lides, incluindo cuidados com uma pequena horta de maconha.Todos os rapazinhos estavam fumando e usando desodorante e bugigangas. Era muito desagradável. (TIERNEY, 2002: 181). Com respeito às imagens de arquivo, no filme são retransmitidas imagens produzidas pela equipe de Chagnon, de cunho etnográfico sobre momentos cruciais do contato entre os pesquisadores e as experiências mal sucedidas com vacinas. A mortandade por doenças transmitidas por expedições e experiências científicas chegou a exterminar mais de 30 % das populações ianomâmis e os seus efeitos ainda são sentidos até o momento na saúde ianomâmi. “Neel vacinou em Mavaca, no dia 15 de fevereiro, uma quinta-feira. Já no domingo, dia 18 de fevereiro, houve um surto de epidemia de sarampo nas cercanias da missão”. (TIERNEY, 2002: 105). As imagens finais de “Os segredos da tribo” procuram não deixar dúvidas sobre o papel destas expedições. Apesar de a imagem “arranhada” dos pesquisadores após a repercussão de “Trevas do Eldorado”, o filme apresenta imagens de eventos realizados em apoio aos pesquisadores, em atitudes corporativas em que o som de fundo é direto e a câmera perambula durante minutos, sem nenhuma narração, por muitas estantes de livros de Antropologia, como se pudesse interrogar o espectador para que serve tudo isto, ninguém vai reparar os danos aos ianomâmis. 69 PARTE V – Inventário de filmes sob viés ambiental no Brasil “Serras da desordem”, de Andrea Tonacci (2006): Carapiru é um índio nômade, que escapa de um ataque surpresa de fazendeiros. Durante dez anos ele perambula sozinho pelas serras do Brasil Central, até ser capturado, a 2.000 km de distância. Levado a Brasília pelo sertanista Sydney Ferreira Posuelo, em uma semana ele se torna manchete por todo o país e centro de uma polêmica entre antropólogos e lingüistas em relação à sua origem e identidade. Na tentativa de identificar sua origem, ele reencontra um filho, com quem retorna ao Maranhão. Porém o que Carapiru encontra ao retornar já não está mais de acordo com sua vida nômade. (FICA, 2009: 111). A crônica das lutas por reconhecimento: nacionais O cinema ambiental do Brasil, apesar de uma intensa realização de filmes nos últimos 50 anos, possui uma pequena produção analítico-teórica, limitada a algumas publicações esparsas em revistas especializadas e ao livro pioneiro do jornalista Beto Leão: O Cinema Ambiental no Brasil, uma primeira abordagem31, que reúne informações preciosas de mais de cem anos de cinema, dispersas por cinematecas e institutos de pesquisas do país. O conceito de o que é o cinema ambiental está em discussão, mas há concordância entre os teóricos, como o Prof. Ismail Xavier, em afirmar que a maior parte das produções consideradas ambientais, não ficcionais, pertenceriam ao conjunto abrangente do gênero documentário. Para Andrade (2007): (...) juntar dois níveis de sensibilidade, a ambiental e a artística, eis o desafio a que se propõe o FICA, desde sua idealização, em 1999. Despertava-se assim para a consciência do dever de questionar o mundo, de manter acesa a preocupação com as condições fundamentais para a manutenção da vida. (ANDRADE, 2007:11). Portanto, há a necessidade de enquadramento de um filme como ambiental surgiu apenas, recentemente, nos anos 90, posteriormente à realização de muitos filmes 31 A publicação foi encomendada pelos organizadores do III FICA. A realização do FICA, a partir de 1999, é um marco importante para o registro do cinema ambiental, na medida em que constituiu-se nos últimos doze anos no maior festival temático do país, assegurando qualidade na projeção convergida para a mostra competitiva internacional do Festival. Ocorre ali o encontro significativo de realizadores de dezenas de nacionalidades, permitindo a edição de catálogos e revistas que constituem a memória audiovisual do gênero. A inclusão da prática de atividades educativas de cinema na programação do Festival tem garantido o aperfeiçoamento de dezenas de técnicos e realizadores. 70 que permitem uma leitura das questões políticas relativas a integridade dos recursos naturais, surgidos no Brasil, a partir dos anos 60. O diretor de cinema João Batista de Andrade, organizador do maior festival do gênero no Brasil, afirma: “Para ter um filme militante no FICA, só se a obra escapasse do imediatismo do comércio das idéias e fosse um bom cinema, antes de tudo.” Através da obra de Leão (2001), foi possível realizar uma pesquisa organizada através de um panorama descritivo abrangente, em que o autor relaciona o histórico de filmes ambientais à delimitação regional de seus ecossistemas correspondentes. A sistematização adotada pelo autor confere à obra o seguinte roteiro: Mata Atlântica, Amazônia, Caatinga, Cerrados e Pantanal matogrossense. Os ambientes foram problematizados com a referência de sua história audiovisual de maior representatividade. Foto nº 16 - “Boca de lixo”, filme do diretor Eduardo Coutinho (1992). Para Leão (2001), o critério utilizado para transformar a sua obra em um registro histórico, para o gênero, foi enquadrar os filmes pesquisados segundo um princípio: O conceito de cinema ambiental adotado aqui é bastante amplo não se restringindo aos filmes ecologicamente engajados, mas também todos aqueles que tratam de temas que permitem uma leitura ambiental, seja na forma de documentário ou ficção, reportagens e séries para tv. (LEÃO, 2001, p. 7). Foram selecionados, a partir das referências fílmicas da obra de Leão (2001), os realizadores considerados de maior importância histórica e temática, apresentando-os a 71 seguir organizados em termos históricos32. Os filmes de maior representividade para o cinema ambiental nacional, a partir desta escolha, seriam os trinta e sete seguintes em ordem cronológica de produção: 1 – “Arraial do Cabo”, de Paulo Cesar Saraceni e Mário Carneiro (1959). Trata-se do primeiro filme documentário ambiental brasileiro. Segundo os registros da Programadora Brasil (2010), Arraial do Cabo é uma denúncia sobre os impactos da indústria mineradora sobre o extrativismo: Com fotografia deslumbrante de Mário Carneiro, que co-dirige o filme, e texto do jornalista Claudio Mello Souza, o documentário mostra as transformações sociais e as interferências nas formas primitivas de vida de pescadores do vilarejo de Arraial do Cabo, no litoral do Estado do Rio de Janeiro. A Fábrica Nacional de Álcalis, que se instalou no local, causa a morte dos peixes, o que faz com que muitos integrantes da comunidade partam em busca de trabalho. Os modos tradicionais de produção se chocam com os problemas da industrialização. Gravuras de Oswaldo Goeldi abrem o filme. (Programadora Brasil, 2010: 50). 2 – “Apelo”, de Trigueirinho Neto (1960). É o primeiro filme da história do cinema ambiental no Brasil, segundo Bernadet (2001), estaria relacionado a “Apelo”, um filme rodado por inspiração a tese de Mario G. Ferri sobre o empobrecimento do solo, sua degradação: Apelo, filme de curta metragem, a mais recente de Trigueirinho Neto, é um documentário que nos parece novo no panorama paulista, pela sua expressão e pelo fato de não se limitar a descrever, mas de ser também uma tomada de posição. (...) Apelo trata da vegetação no Brasil: a pobreza vegetal é mais frequentemente oriunda da pobreza do solo que da falta de água, e um reflorestamento cientificamente orientado permitiria obter resultados satisfatórios. (BERNADET apud LEÃO, 2001: 11). 3 – “Aruanda”, de Linduarte Noronha (1960). O filme é considerado por muitos uma obra de importância permanente e decisiva para a estética do cinema novo. É o cotidiano de uma comunidade quilombola 32 Há uma polêmica que envolve a primazia do filme ambiental brasileiro entre os professores Ismail Xavier e Jean Claude Bernadet. O prof. Ismail considera Arraial do Cabo (1959) como pioneiro enquanto o prof. Bernadet, afirma a primazia a Apelo (1960). 72 em Serra do Talhado, na Paraíba. O diretor do documentário Linduarte Noronha, realizou expedições de caráter jornalístico à comunidade e ficou impressionado com o seu isolamento e a produção artesanal baseada em técnicas ancestrais de cerâmica. Segundo o jornal O Estado de São Paulo: E não é que o jovem Linduarte teve a caradura de se deslocar ao Rio de Janeiro e pedir a Humberto Mauro, então presidente do Ince ( Instituto Nacional do Cinema Educativo), que lhe emprestasse câmera e outros apetrechos? Diz que formulou o pedido a Mauro, que, de tão surpreso gritou a um funcionário: “Este rapaz da Paraíba quer que todos nós sejamos presos!” Mas como Mauro não era Diretor igual aos outros, escravos da burocracia, Linduarte saiu do Instituto com uma câmera Bell & Howell debaixo do braço. Voltou com ela à Paraíba e lá começou a fazer história, ainda que sob descrença e chacota de seus colegas de redação. (O Estado de SP, 29/12/2010: D12). 4 – “Kuarup, ritual fúnebre dos camaiurá”, de Heinz Förthmann (1966). O filme que projetou Förthmann – fotógrafo e cinegrafista que acompanhou a trajetória do Professor Darcy Ribeiro, segundo Mendes (2001): [Forthmann] atingiu o auge de sua maturidade e rigor técnico como fotógrafo, montador e etnólogo. A interação desenvolvida com os Camaiurá e a sensibilidade com que registrou danças e lutas tribais, transformaram o filme num clássico do cinema brasileiro e numa obra humanista reveladora do profundo respeito que o realizador manteve pelos povos indígenas com que conviveu. (MENDES apud LEÃO, 2001: 55). 5 – “Os Homens do caranguejo”, de Ipojuca Pontes (1969). Filme que narra o cotidiano de catadores de caranguejo em Livramento, localidade próxima a João Pessoa. 6 – “Os Imaginários”, de Geraldo Sarno (1970). No filme, Sarno narra a história sobre os artesãos santeiros em atividade na cidade de Juazeiro do Norte, em Pernambuco. 7 - “O país de São Saruê”, de Wladimir Carvalho (1971). Filme sobre uma das regiões mais áridas do Nordeste, o polígono da seca, fronteiriça aos estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará. Baseada na obra do cordelista Manoel Camilo dos Santos, esteve censurada por nove anos. Para Carvalho (2001): 73 Com a extinção da nação cariri pelos colonizadores, os índios perderam suas terras nos sertões do Nordeste, há quase três séculos. No início dos anos 70, registra-se uma espécie de renascimento, com a exploração de novos minérios. A antiga cultura pastoril, a rusticidade dos costumes, os campos lavrados sol a sol, a folgaça do Bumba-meu-Boi definham e convivem melancolicamente com outras formas de vida trazidas pelo rádio, cinema e televisão. A cadência do poema, uma forma próxima do épico, antiga grega (também sertaneja) de se narrar a história, marca o longo prólogo, como uma voz da terra, um monólogo do sertão, e só desaparece totalmente na segunda metade do filme, quando passa a predominar o som das entrevistas, o ritmo andante dos versos de Jomar Souto, à medida que o filme avança, cede lugar à narração, que por suave é, aos poucos, substituída pela fala dos entrevistados. (CARVALHO apud LEÃO, 2001: 74). 8 – “Uirá – um índio em busca de Deus”, de Gustavo Dahl (1972). Filme baseado na obra do Professor Darcy Ribeiro e que narra o desaparecimento da nação urubu-caapor, em 1939. 9 – “Iracema uma transa Amazônica”, de Jorge Bodansky e Orlando Senna (1974). Um panorama dos conflitos sociais advindos do início da construção durante o regime militar da Rodovia Transamazônica. Para Bodanzky (2001): Eu comecei a trabalhar mais esse tipo de cinema a partir dos anos 70, partindo de uma questão social. O tema de meu primeiro grande filme, Iracema, uma transa Amazônica, foi a colonização da Amazônia, onde naquela época tinha início a devastação, no auge da construção da Transamazônica. Para se ter uma idéia, a propaganda governamental mostrava um trator derrubando uma árvore, simbolizando o progresso. Já naquela época nós tínhamos na cabeça que a coisa não era bem por aí, que esse era um caminho errado. Nós queríamos mostrar o outro lado desse pseudo progresso, a devastação da Amazônia. Então nós entramos na questão ecológica a partir da questão social. Nós queríamos denunciar a presença do homem no modo como a colonização estava sendo feita e acabamos denunciando a sua agressão à natureza. Era também uma questão política, pois queríamos denunciar um programa de governo com o qual não concordávamos. (BODANZKY apud LEÃO, 2001: 61). 10 – “Ponto Final”, de José de Anchieta Costa (1975). Filme sobre os riscos do excesso de poluição atmosférica e o uso de equipamentos de proteção. 74 11 – “Roças” de Rogério Corrêa (1975). Filme sobre uma comunidade de agricultores familiares em Barreirinha no Maranhão com apoio da Igreja católica e fundamentada pelos princípios da Teologia da Libertação. 12 – “Cubatão”, de Mário Kuperman (1976). Filme sobre o distrito industrial localizado na baixada santista e considerado nos anos 80 o local mais poluído do mundo. Para Kuperman (2001), “ela [a Ecologia] se contaminou de tal forma, de um ranço ideológico, que virou coisa de fanático por plantinha, flor ou passarinho. Entendo que a questão é bem mais complexa, traz em si elementos sociais, políticos e econômicos.” 13 –“ Raso da Catarina”, de Hermano Penna (1977). O filme sobre a lendária região onde estabeleceu-se o Arraial de Canudos. Para Penna (2001): Em primeiro lugar, o Raso da Catarina não era desabitado; no seu interior existiam os remanescentes de um povo extraordinário pela sua resistência étnica, os índios Pankararés. E mais, o Raso era imensa Arca de Noé da fauna e da flora do Nordeste brasileiro, sendo brutalmente agredida. Antigamente, ninguém entreva no Raso, fora os índios e seus aliados: cangaceiros e outros perseguidos da ordem, tudo pelo intrincado do mato e pela falta de água. Na ocasião, duas estradas abandonadas da Petrobrás abriram o Raso para os caçadores profissionais e a matança chegou em escala industrial. Caminhões de peles e carnes de animais silvestres para abastecer os mercados das cidades vizinhas a até mesmo Salvador. (PENNA apud LEÃO, 2001: 60). 14 – “Raoni”, de Luiz Carlos Lacerda e Jean Pierre Dutilleux (1978). Filme baseado na visita que o cacique Raoni faz, em São Paulo, ao indianista Claudio Villas Boas para denunciar a ocupação irregular de áreas demarcadas no parque Nacional do Xingu. 15 – “Augusto Ruschi – Guainumbi”, de Orlando Bonfim Neto (1979). No filme, a biografia do naturalista Augusto Ruschi. Para Bonfim (2001): É o único filme sobre o trabalho deste naturalista pioneiro na luta ecológica (que morreu do veneno de um sapo), cuja existência foi voltada para o estudo de nossa flora e fauna.” 75 16 – “A década da destruição”, de Adrian Cowell (1980). Filme sobre a Amazônia e os primeiros registros cinematográficos da destruição da floresta para a construção da rodovia Rondônia-Manaus. 17 – “Sete quedas”, de Sylvio Back (1980). O documentário que registra a paisagem de Sete Quedas em Guaíra, no Paraná, e a angústia da destruição de suas corredeiras por conta da construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu. 18 – “A Ferrovia do Diabo”, de João Batista de Andrade (1981). Filme baseado na obra de Manoel Rodrigues Ferreira e que mostra a condição dos ferroviários após o abandono da ferrovia Madeira-Mamoré. Foto nº 17 - “Serras da desordem”, filme de Andrea Tonacci (2007). 19 – “Mato Eles?”, de Sergio Bianchi (1983). O documentário versa sobre o extermínio dos índios da reserva de Mangueirinha, no Sudoeste do Paraná, último remanescente de Mata de pinhos brasileiros, a “araucária angustifólia”. Para Bernadet (2001): É o filme mais contundente sobre a questão dos índios; denuncia a violência de que são vítimas, a violação de suas terras, os assassinatos de líderes e denuncia também aqueles que afirmam, sinceramente ou não, estarem interessados nos índios. Um filme que interdita toda forma de boa consciência face ao genocídio que se estende por séculos: a ironia ácida de Mato Eles? Nos impede mesmo da segurança da comiseração. (BERNADET apud LEÃO, 2001: 40). 76 Foto nº 18 - “Cabra marcado para morrer”, filme de Eduardo Coutinho ( 1984). 20 – “Cabra marcado para morrer”, de Eduardo Coutinho (1984). Filme sobre as Ligas camponesas em ação na Paraíba. O filme foi interrompido durante vinte anos por conta da censura do regime militar no Brasil. Na sequência acima, o momento em que a equipe de Coutinho reencontra Elisabeth Teixeira, a protagonista do filme. 21 – “Raso da Catarina: Reserva Ecológica”, de Guido Araújo (1984). Filme sobre o andamento das pesquisas científicas realizadas na reserva de caatinga do Raso da Catarina, como: geomorfologia, pedologia e bioecologia. 22 – “Xingu”, de Washington Novaes (1985). Série de onze episódios documentais sobre o cotidiano das nações que habitam o Parque Nacional do Xingu. 23 – “Avaeté, semente da violência”, de Zelito Viana (1986). Filme sobre o massacre dos índios cinta-largas, com atuação de Macsuara Kadiweu e trilha sonora assinada por Egberto Gismonti. 77 24 – “Babaçu”, de Lyonel Lucini (1987). Filme sobre as atividades extrativistas e artesanais em torno da economia do Babaçu, no Maranhão com fotografia de Antonio Segatti. 25 – “Amazônia – Paraíso em perigo”, de Paulo Alceu (1988). Um panorama da região amazônica após o assassinato do seringalista Chico Mendes. 26 – “Caramujo flor”, de Joel Pizzini ( 1988). Filme sobre a trajetória poética do escritor matogrossense Manoel de Barros. 27 – “Uma questão de terra”, de Manfredo Caldas (1988). Filme sobre a questão fundiária e analisa as circunstâncias da morte da líder camponesa Margarida Maria Alves. 28 - “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado (1989). O filme popularizou-se por uma estética bem humorada e irreverente. É a história de um lixão – da Ilha das Flores-SC – o diretor acompanha o percurso de alimentos desde a sua aquisição em um supermercado até o seu descarte em um lixão. Para Furtado (2001), “a idéia do filme é mostrar o absurdo dessa situação, seres humanos, que numa escala de prioridade, estão depois dos porcos. Mulheres e crianças que, num tempo determinado de cinco minutos, garantem, na sobra de porcos, sua alimentação diária”. 29 – “A Paisagem Natural”, de Vladimir Carvalho (1990). Documentário pertencente à tetralogia da terra, versa sobre Brasília – a última utopia. Para Carvalho (2001): Esse filme é uma espécie de panorama abarcando toda uma região, com seus rios, cachoeiras, vales, grutas e cavernas, de inacreditável beleza. Chamei-o de A Paisagem Natural e deixei-me levar (e enlevar) pelo espetáculo caprichoso da fauna e da flora do Planalto. O único narrador é um velho matador de onças que aparece com sua espingarda a se vangloriar de suas proezas tão ingênuas quanto predadoras.” (CARVALHO apud LEÃO, 2001: 85). 78 30 – “A Dívida da Vida”, de Octácio Bezerra (1993). Filme sobre a devastação da Amazônia e o comércio de madeira pelo rio Amazonas. 31 – “Josué de Castro – cidadão do mundo”, de Silvio Tendler (1994). Filme sobre Josué de Castro e a sua concepção acerca de questões sociais como: fome, pobreza e habitat. 32 – “Naturezas mortas”, de Penna Filho (1995). Filme sobre o duro cotidiano dos trabalhadores da indústria carbonífera em Criciúma – SC e seu impacto sobre a saúde humana. 33 – “Rio das Amazonas”, de Ricardo Dias (1995). O filme narra o cotidiano das populações ribeirinhas da Amazônia acompanhado do zoólogo Paulo Vanzolini, que celebrizou-se como compositor de MPB. 34 – “O cineasta da Selva”, de Aurélio Michiles (1997). O filme biográfico sobre o cineasta Silvino Santos – o cineasta da borracha, o autor dos primeiros documentários rodados na região amazônica. Dirigiu “No paiz das Amazonas” (1922), “No rastro do Eldorado” e “Terra encantada” (1925). 35 – “Primeiros Viajantes”, de Sergio Sanz (1999). O filme versa sobre as expedições de viajantes e naturalistas que lançam seu olhar sobre a natureza brasileira em visita ao país nos séculos XVI e XVII. 36 – “O rio Paraíba do Sul”, de Mário Kuperman (1999). Filme sobre o estado crítico do rio que cruza os Estados mais industrializados do Brasil, também responsável pelo transporte em ciclos econômicos históricos como a mineração e a cafeicultura. Para Kuperman (2001): Nos três primeiros séculos de nossa história, a exploração do território brasileiro ocorreu, sobretudo por via fluvial. A supremacia do transporte pelos rios foi mantida até cerca de 1850, quando as primeiras ferrovias foram inauguradas e teve início a expansão da malha rodoviária. A decadência do transporte fluvial parece ter 79 determinado uma redução do interesse da sociedade pelos rios. Esta série de documentários [sobre os rios Paraíba do Sul, Tietê e Iguape] pretende ampliar as informações disponíveis sobre a extensa, pouco conhecida e subutilizada rede fluvial do país. Como vias de transporte, fontes de água e de alimento, quando se integraram à expansão das cidades, esses cursos d’água passaram a sofrer as conseqüências do adensamento populacional. Cada rio tem seu metabolismo, as enchentes e as vazantes, os ciclos da flora e da fauna e, sobretudo, as atividades e o convívio de habitantes de suas margens determinam traços característicos. Essa série, com abordagem de caráter “anímico”, objetiva resgatar e valorizar a as peculiaridades de cada um desses cursos d’água. (KUPERMAN apud LEÃO, 2001: 36). 37 – “Bubula – o cara vermelha’, de Luiz Eduardo Jorge (1999). O filme percorre a trajetória do documentarista Jesco Von Puttkamer, especial homenageado pela organização do FICA com o troféu em seu nome dedicado ao filme melhor média metragem. Para os organizadores do FICA (2009), Jesco Von Puttkamer: Foi o precursor do cinema antropológico em Goiás. Engenheiro, fotógrafo e naturalista, sempre admirou a vida dos povos indígenas, registrando-a durante 42 anos em película e fotografias. Jesco veio para Goiás em 1948 depois de escapar da perseguição nazista. Juntamente com os irmãos Villas Boas, Francisco Meirelles e outros, participou das frentes de atração dos índios na Amazônia e no Centro-Oeste. (IX FICA, 2009: 13). Foto nº 19 - “Césio 137 o pesadelo de Goiânia”, filme de Roberto Pires (1989). 80 FICA – QUADRO GERAL DE PARTICIPAÇÕES APÓS 11 EDIÇÕES33 Edição I II III IV V VI 154 224 358 429 299 232 837 Estrangeiros 20 20 19 329 199 122 Nacionais34 17 18 17 100 100 5 3 7 9 Filmes selecionados 37 38 36 Estrangeiros 20 15 18 Filmes inscritos Goianos VII VIII IX X XI 347 522 446 556 637 150 322 238 292 110 200 197 200 208 264 5 34 34 42 48 48 54 49 28 29 31 27 31 31 29 24 12 11 15 12 17 10 18 11 Nacionais 17 23 18 25 16 18 16 15 14 21 Goianos 5 3 7 9 5 8 5 6 5 4 4 Países selecionados 8 15 18 24 12 11 15 12 17 10 13 33 34 Fonte: (XI FICA: 2009: 11). È possível considerar o crescimento das produções nacionais sob viés ambiental, que chegaram a 264 em 2009, um dos resultados da política audiovisual do FICA – Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental de Goiás – GO. 81 Ficha técnica dos filmes analisados 1 – “Os segredos da tribo” Direção de fotografia e câmera: Lula Carvalho Edição: Felipe Lacerda Som: Denilson Lelis Música: João Nabuco Produção Executiva: Marcos Prado Direção: José Padilha Estúdio: Stampede e Zazen Produções 2 – “Budrus” Roteiro: Júlia Bacha Câmera: Mohammed Fawzi, Shai Pollack Edição: Geeta Gandbhir Música: Kareem Rouston Produção Executiva: Jehane Nouajaim, Ronit Avni, Julia Bacha Direção: Júlia Bacha Estúdio: Just Vision 3 – “Roubados” Roteiro, fotografia e câmera: Dan Fallshaw e Violeta Ayala Edição: Dan Fallshaw Som direto: Peter Purcel Edição de som: William Lawlor Música: John Macdowell Produção Executiva: Dan Fallshaw, Tom Zubrycki, Violeta Ayala Direção: Dan Fallshaw, Deborah Dickson, Tom Zubricki, Violeta Ayala Estúdio: United Motions Film 4 – “Os Representantes” Roteiro, Edição, Som direto, Produção Executiva: Felipe Lacerda Fotografia, Câmera: Alberto Bellezia Edição de Som: Fiskal Música: Fiskal Direção: Felipe Lacerda Estúdio: Aeroplano Filmes 5 – “A cidade dos Mortos” Roteiro: Sérgio Tréfaut Fotografia, Câmera: Nancy Abdel-Fattah, Carlo Lo Giudice, Inês Gonçalves Edição: Pedro Marques Edição de som: Sameh Gamal Direção: Sérgio Tréfaut, José Sanchez-Montes Estúdio: Faux/Atico Siete 82 6 – “Serras da Desordem” Roteiro: Andrea Tonacci Fotografia: Aloysio Raulino, Alziro Barbosa Câmera: Fernando Coster Edição: Cristina Amaral Música: Rui Weber Som direto: Valéria Martins Ferro e René Brasil Direção, Produção Executiva: Andrea Tonacci Estúdio: Extrema Produção Artística Ltda. 7 – “Garapa” Roteiro: Felipe Lacerda e José Padilha Fotografia, Câmera: Marcela Bourseau Edição: Felipe Lacerda Edição de som: Yan Saldanha Direção: José Padilha Estúdio: Zazen Produções 8 – “Morrendo em Abundância” Roteiro: Yorgos Avgeropoulos Fotografia: Dinesh Lal Edição: Ylannis Biliris, Anna Prokou Produção: Anastasia Skoubri Direção: Yorgos Avgeropoulos Estúdios: Small Planet 9 – “Corumbiara” Roteiro, Fotografia: Vincent Carelli Edição: Mari Corrêa e Tiago Torres Direção: Vincent Carelli Estúdios: Vídeo nas Aldeias 10 – “Um negócio florescente” Roteiro: Ton van Zantvoort Som: Stijn van Eekeln Fotografia, Edição: Ton van Zantvoort Direção: Ton van Zantvoort Estúdio: Newton Films 83 11 – “Heavy Metal” Roteiro e Fotografia: Huaqing Jin Som e Produção: Chen’an Xia Direção: Huaqing Jin 12 – “Bananas” Roteiro: Fredrik Gertten Fotografia; Frank Pineda Edição: Jesper Osmund Som: Martin Hennel Produção: Margarete Jangard Direção: Fredrik Gertten Estúdios: Autlook Films 13 – “Boca de Lixo” Roteiro: Eduardo Coutinho Fotografia: Breno Silveira Fotografia adicional: Luiz Augusto Tigu, Estevão Pantoja Som direto: Flávio Protásio Cecon Som adicional: Aloysio Compasso, Antônio Gomes Música: Tim Rescala Edição: Pablo Pessanha e Thereza Jassouroun Produção executiva: Thereza Jassouroun Direção: Eduardo Coutinho Estúdios: Iser Vídeo e Cecip 14 – “Ainda há pastores?” Roteiro: Cátia Vicente, Jorge Pelicano e João Morais Fotografia: Jorge Pelicano/ Paulo César Fajardo Edição, Produção: Jorge Pelicano Direção: Jorge Pelicano 15 – “Mataram a irmã Dorothy” Roteiro: Daniel Junge Fotografia: Marcela Bourseau, Daniel Junge Edição: Davie Coombe Música: Pedro Bronfman Produção: Henry Ansbacher Direção; Daniel Junge Estúdios: Just Media 84 17 –“ Uma verdade Inconveniente” Roteiro: Lawrence Bender, Scott Burns, Laurie Lennard e Scott Z. Burns Música: Michael Brook e Melissa Etheridge Edição: Jay Lash Cassidy e Dan Swietlik Direção: Davis Guggenheim Estúdios: Lawrence Bender Productions / Participant Productions Distribuidora: Paramount Classics / UIP 18 – “Guerra ao terror” Roteiro: Mark Boal Música: Marco Beltrami e Buck Sanders Fotografia: Barry Ackroyd Direção de arte: David Bryan Fgurino: George L. Little Edição: Chris Innis e Bob Murawski Produção: Kathryn Bigelow, Nicolas Chartier, Mark Boal e Greg Shapiro Direção: Kathryn Bigelow Estúdios: First Light Productions / Kingsgate Films / Grosvenor Park Media 19 – “Son of Babylon” Roteiro: Mohamed Al-Daradji, Jennifer Norridge, Mathel Khasea Fotografia: Mohamed Al-Daradji, Duraid Al-Munajim Edição: Pascale Chavance, Mohamed Jabarah Música: Kad Achouri Produção: Isabelle Stead, Atia Al-Daradji, Mohamed Al-Daradji, Dimitri de Clercq Direção: Mohamed Al-Daradji Estúdio: Roissy Films 85 Considerações finais Através da presente dissertação foram apresentadas algumas características do exame realizado de sessenta filmes reconhecidos como “cinema ambiental”, enquadrados assim sob a ótica de autores especializados e corpo de jurados dos “festivais” e “mostras” mais importantes da América Latina. O acervo audiovisual dos últimos quarenta anos deste novo gênero do cinema documentário é uma fonte textual ilustrada da condição humana perante uma consciência adquirida pelas limitações ecológicas e os seus impactos sobre “o discurso da democracia e dos direitos humanos”, tema que foi adotado desde o princípio do trabalho para justificá-lo, tendo em vista a sua relevância social. O objetivo da pesquisa foi revelar, numa primeira etapa, o conceito de cinema ambiental, quais as suas principais características, quais os principais realizadores, quando se iniciou e quais os seus problemas. Como metodologia, foi utilizada a análise de filmes, entrevistas e pesquisa bibliográfica. O que mais despertou a atenção da análise foi o florescimento de produções significativas em todos os continentes, sobre questões ambientais bastante heterogêneas, das quais seria possível fazer uma leitura ambiental. Portanto, a delimitação do objeto do trabalho surgiu após uma investigação sobre um tema que fosse comum aos filmes de cinema sob viés ambiental. A experimentação da pesquisa, iniciada em março de 2009, percorreu inicialmente a visão sacralizada da natureza, mas mostrou-se restritiva. A seguir, a análise foi estruturada sobre a utilização de metanarrativas nos filmes, e a conclusão de que o assunto não é pacífico nas teorias de cultura, sendo rechaçada. Por fim, foi encontrado menor conflito teórico e maior abrangência sobre os filmes a partir da constatação da delimitação definitiva: “o cinema ambiental contemporâneo em questão: uma crônica da luta por reconhecimento dos direitos humanos de terceira geração”. Este estudo dedicou-se a uma análise de filmes e dentre algumas opções avaliadas nos últimos anos, encontrou, como característica comum aos filmes, a reivindicação por direitos humanos, característica exemplificada ao longo desta dissertação, através de resumos dos filmes e ilustrações. A hipótese, em nossa opinião, realizou-se plenamente. Ao “enfrentar-se” o principal teórico do presente 86 trabalho, Altvater (1999), surgiu o aprofundamento de uma questão que está presente em todas as nações: o cenário da globalização e seus efeitos na integridade do meio ambiente. O recorte sobre as lutas por reconhecimento e a concepção filosófica do termo foi uma opção adotada no sentido de ratificar o caráter de apreensão recente dos direitos humanos de terceira geração. A impressão inicial que tivemos sobre o cinema ambiental, ao assistirmos os primeiros filmes num grande “festival”, nos remete a São Paulo, anos 70, numa sala escura, e hoje, durante horas consecutivas, permaneceu, em mim aquele sentimento juvenil de protesto e contestação tão comuns que parecia terem morrido. Senti-me contagiado por pequenas platéias e renovada a expectativa do poder transformador da comunicação e da integração dos povos, e como alerta da nossa consciência sobre o que se passa além de nossos quintais. 87 Referências ACSELRAD, Henri. Conflitos ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004. ALTVATER, Elmar. Os desafios da globalização e da crise ecológica para o discurso da democracia e dos direitos humanos. In: A crise dos paradigmas em ciências sociais e os desafios para o século XXI. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999. ENCICLOPÈDIA ALMANAQUE ABRIL 2007. Ano 33. São Paulo: Abril, 2007. ANDRADE, João Batista. Cinema em primeiro plano. 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