Apresentação de proposta para rua urbanizada conectando a área já construída do campus São Carlos da UFSCar e a área destinada à expansão da Universidade 1 Contexto O Conselho Universitário (ConsUni) da UFSCar, em sua 195ª Reunião Ordinária, realizada em 14 de dezembro de 2012, teve como ponto de pauta a expansão física da Universidade relacionada a área com vegetação de cerrado em regeneração no campus São Carlos. Tal debate – originalmente previsto para ser conduzido no âmbito do processo de atualização do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) em curso – foi precipitado por manifestação do Procurador da República no município de São Carlos, que, no dia 26 de novembro, encaminhou documento à Universidade recomendando a inserção da matéria na referida reunião do ConsUni, informando que, caso não fosse atendido, a Instituição estaria sujeita a uma “correção de natureza jurisdicional, seja da pessoa jurídica e/ou da(s) pessoa(s) física(s) responsável(eis), com repercussões civis (inclusive de cunho reparatório), administrativas (ato de improbidade) e/ou criminais”. Apesar da recomendação, o Conselho optou por deliberar sobre a questão em uma segunda sessão da mesma Reunião, considerando: a garantia constitucional de autonomia da Universidade; a composição atual do ConsUni, alterada recentemente pela eleição de grande quantidade de novos membros, que desconheciam o teor das propostas em discussão; e a ausência, no momento da reunião, dos representantes do corpo discente, a serem escolhidos em pleito agendado para o dia 15 de janeiro de 2013. Assim, na reunião do dia 14 de dezembro, foram apresentadas aos conselheiros as duas propostas existentes para a área em questão, e ficou definido que seria dado amplo conhecimento também à comunidade universitária como um todo de ambos os projetos existentes. Nesse contexto, a Administração Superior elaborou o presente documento, destinado a apresentar de forma clara e facilmente compreensível a proposta construída sob sua coordenação ao longo dos últimos anos, juntamente com o histórico do debate que agora deverá ser concluído, com a deliberação do ConsUni em reunião agendada para o dia 18 de janeiro de 2013. 2 Proposta da Administração Superior da UFSCar para conexão entre a área já urbanizada e área destinada à expansão futura no campus São Carlos As figuras apresentadas a seguir mostram de forma esquemática como a área com vegetação de cerrado em regeneração que está em discussão impede a expansão de forma contínua do campus São Carlos, ao dividi-lo em dois e impedir a existência de um único campus integrado. Mostram também como se pretende superar esse impasse, conciliando o compromisso ambiental da Instituição e o seu desenvolvimento futuro e oportunizando, inclusive, a produção de conhecimentos que auxiliem na solução de questões análogas àquela enfrentada atualmente pela UFSCar. Em seguida, a solução proposta (construída a partir de um processo amplo de discussões e também com base no conhecimento científico já acumulado pela própria Universidade) é detalhada na forma de perguntas e respostas, visando facilitar sua compreensão. É importante destacar que, independentemente da área em discussão, o campus São Carlos já conta, hoje, com cerca de 26% de sua área total averbada ou em processo de averbação como reserva legal. Embora a área onde está instalada a UFSCar seja considerada, desde 2005, uma área urbana (para as quais não há exigência de reserva), este índice é superior àquele exigido para áreas rurais em nossa região (que é de 20%). Com a proposta apresentada pela Administração Superior – que prevê a utilização de apenas 10% da área com vegetação de cerrado em regeneração para construção de rua urbanizada que garanta a conexão entre a área já construída e a região reservada para a expansão futura, bem como a averbação de área mais ao Norte como compensação –, cerca de um terço do campus São Carlos estará ocupado por áreas com vegetação preservada. Figura 1 – Visão geral do campus São Carlos, com ilustração referente à proposta de construção da rua urbanizada Figura 2 – Detalhe da proposta de construção da rua urbanizada 2.1 Detalhamento da proposta da Administração Superior Quais são as principais características da proposta construída pela Administração Superior da UFSCar para conexão entre a área já urbanizada do campus São Carlos e as áreas mais ao Norte destinadas à expansão futura da Instituição? A proposta atual é que seja mantida 90% da área com vegetação de cerrado em regeneração, com utilização de apenas 10% para a construção de uma rua urbanizada de baixa velocidade que viabilize a conexão entre as duas regiões do Campus, o que favorecerá a integração, facilitará o acesso aos serviços já existentes na Instituição e, também, garantirá condições de segurança adequadas à comunidade universitária e à própria área natural em questão. Essa proposta parte das seguintes premissas: reconhecimento da importância do fragmento de cerrado em questão; reconhecimento da necessidade de não fragmentação do campus São Carlos; e reconhecimento de que a interligação deve acontecer com as necessárias medidas de proteção à segurança das pessoas e da própria área com cerrado em regeneração. Porque é necessária uma passagem que conecte a área já urbanizada do campus São Carlos da UFSCar com a área prevista para a continuidade de sua expansão física? A área com vegetação de cerrado em regeneração que é objeto desta proposta configura uma espécie de “tampão” entre a área já urbanizada do Campus e a área mais ao Norte disponível para futuras expansões da Instituição, impedindo a conexão entre elas. O grupo que defende a preservação integral desse fragmento de vegetação propõe que o tráfego de automóveis seja feito por vias externas à Universidade, sendo viabilizada apenas a passagem de pedestres e ciclistas através da área em questão. No entanto, há vários obstáculos a essa alternativa. O primeiro desses obstáculos diz respeito à segurança dos motoristas que terão de utilizar uma rodovia para se locomover entre diferentes locais da Universidade e, também, ao próprio aumento do tráfego nessas vias externas à UFSCar. Também será colocada em risco a segurança dos pedestres e ciclistas que vierem a utilizar a passagem pelo cerrado, uma vez que ela terá 680 metros de extensão sem nenhuma urbanização e contato, em ambos os lados, apenas com a vegetação de cerrado. Deve-se considerar também que, ao aumentar significativamente o comprimento de deslocamento entre as áreas por um trajeto externo, haveria um aumento dos impactos ambientais decorrentes de emissões de poluentes e de consumo de combustíveis. Como se propõe, no projeto apresentado, a concretização dessa passagem? Está prevista a implantação de uma rua urbanizada de baixa velocidade que atravesse os 680 metros que separam o limite Sul e o limite Norte da área, permitindo a conexão interna do Campus. Essa rua deverá ter largura de 30 metros, incluindo calçada, pista de rolamento e canteiro central arborizado e com ciclovia. Nos primeiros 400 metros a partir do limite Sul, um dos lados dessa via (lado Oeste, com largura de 60 metros e em contato com a estrada-aceiro já existente no local) será ocupado com edificações, sendo que se manterá diretriz de baixa densidade de ocupação. A presença das edificações visa sobretudo garantir as mencionadas condições de segurança às pessoas e à própria área de vegetação. A partir destes 400 metros, ao longo do trecho de 280 metros restante, não haverá edificações em nenhum dos lados e a largura do corredor urbanizado será reduzida aos 30 metros já mencionados. Em alguns pontos desse trecho, serão implantados dispositivos aéreos e subterrâneos para travessia de animais, visando manter conectividade entre as áreas que margeiam, à esquerda e à direita, o referido trecho, bem como dispositivos que não permitam velocidades acima de 30 km/h para os veículos. Outros cuidados previstos são a implantação de cercas em ambos os lados do corredor (visando, mais uma vez, garantir concomitantemente a segurança das pessoas e das fauna e flora de cerrado) e a adoção de técnicas de arquitetura e construção sustentáveis (como, por exemplo, pavimentos permeáveis e iluminação pública que minimize a poluição luminosa). A implantação dessa rua urbanizada trará danos irreversíveis à fauna e à flora de cerrado presentes na área? A proposta construída pela Administração Superior visa, justamente, conciliar o equacionamento das questões sociais – ou seja, aquelas relacionadas ao compromisso com a expansão da oferta de Educação Superior pública e gratuita – e das questões ambientais envolvidas. É importante destacar que o compromisso ambiental sempre foi uma marca da UFSCar, como demonstram os números anteriormente apresentados relacionados às áreas averbadas como reserva legal. A Instituição foi, inclusive, pioneira ao criar, já em 1993, sua Coordenadoria Especial para o Meio Ambiente (CEMA). É importante mencionar que há hoje, nas áreas de Ecologia de Paisagens e Biologia da Conservação, um novo paradigma que nos mostra que áreas naturais não necessariamente terão sucesso se simplesmente forem isoladas e protegidas dos seres humanos. Área naturais sofrem perturbações naturais e, obviamente, também aquelas causadas pelos seres humanos, que as influenciam e provocam mudanças de estado. Assim, a persistência de espécies individuais em uma área depende de seu tamanho. Em áreas naturais muito grandes, esses processos em “não equilíbrio” ocorrem em regimes naturais e favorecem a diversidade de habitats e espécies. Contudo, quando o tamanho da área diminui, as perturbações, mesmo que naturais, podem se tornar destrutivas e diminuir a diversidade, tornando necessárias intervenções de manejo. Nesse sentido, pode-se dizer que as vantagens da manutenção de áreas pequenas e isoladas (especialmente por áreas urbanas, como é o caso do fragmento de cerrado em questão), frente às incertezas e aos custos da conservação da biodiversidade nelas existente, são muito pequenas, fazendo com que uma análise de prioridades de conservação dê maior atenção a áreas existentes em zonas rurais e com grande tamanho ou, ainda, com maior permeabilidade na paisagem. É importante também destacar que, quanto maior o tempo em que uma área esteve fragmentada e seu grau de isolamento, mais expostos ficam os organismos a outros efeitos da fragmentação, tais como desequilíbrio na cadeia alimentar, maior disputa por recursos, redução da variação genética e invasão de animais domésticos, especialmente em fragmentos próximos a centros urbanos. Essa proximidade com animais domésticos, como os cachorros e gatos presentes no campus da UFSCar, traz inclusive outras ameaças às espécies silvestres além da predação da fauna nativa, já que esses animais podem levar para o interior das áreas naturais doenças típicas – como a parvovirose e a cinomose – que podem ser fatais para as espécies silvestres. Por isso, algumas estratégias para a conservação de felinos e canídeos silvestres indicam seu afastamento de áreas peri-urbanas, para que seja evitado seu contato com esses riscos.1 E quais são as alternativas previstas a essa situação, na proposta apresentada pela Administração Superior? Primeiramente, como se prevê a manutenção de 90% do fragmento de cerrado em questão, a proposta prevê o investimento no manejo adequado dessa área, o que poderá inclusive ser facilitado pela presença da rua urbanizada. Além disso, caso seja aprovada pelos órgãos competentes a utilização dos 10% restantes para a implantação dessa rua, propõe-se a compensação em área localizada no extremo Norte do Campus, mais interessante do ponto de vista da conectividade e da permeabilidade da paisagem, já que estabelecerá a ligação com área de reserva legal localizada na Fazenda Engenho Velho, que faz fronteira com a Universidade ao Norte, viabilizando assim a conexão das áreas de preservação do Campus com fragmentos de maior tamanho e integridade ecológica e, consequentemente, diminuindo o isolamento dos blocos de área natural existentes dentro da UFSCar. Como foi construída essa proposta apresentada pela Administração Superior? A ocupação do extremo Norte do campus da UFSCar está prevista desde 1985. Em 2004, o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), elaborado em um processo participativo que envolveu toda a comunidade universitária, reforçou essa diretriz, ao estabelecer que, na implantação do zoneamento do campus São Carlos, fossem previstas ações de expansão física no sentido Norte, com ocupação do extremo Norte do Campus e criação de um “corredor de Cerrado” que proporcionasse a interligação no sentido Leste-Oeste entre as duas áreas de reserva existentes (Diretriz 4.1.6). Assim, a primeira proposta elaborada para a concretização da conexão entre as duas áreas do Campus previa a urbanização de 85% da área hoje ocupada pelo cerrado em regeneração, com destinação de 15% a um corredor de cerrado que conectaria as áreas de reserva legal existentes nas margens direita e esquerda do fragmento. Essa proposta estava sendo apreciada pela comunidade universitária quando, em 2007, a discussão foi levada para fora do âmbito institucional. Isto porque, naquele ano, um grupo de docentes e estudantes ingressou com representação junto ao Ministério Público Federal (MPF) solicitando o acompanhamento da expansão da área física da Universidade. A pedido do MPF, foram elaborados por especialistas os primeiros laudos referentes à proposta apresentada, sendo que dois desses laudos, apesar de reconhecerem a relevância do fragmento em questão, foram favoráveis à proposta da Universidade, considerando a fragilidade desse fragmento frente aos impactos da urbanização e, também, que a área proposta como compensação (a já mencionada área localizada no extremo Norte do Campus, que faria a interligação com a Fazenda Engenho Velho) seria ecologicamente mais relevante. Um terceiro laudo concluiu pela necessidade de manutenção integral do fragmento. Em 2011, sensível aos argumentos apresentados pelos grupos que reivindicam a conservação do fragmento de cerrado em regeneração, a Administração Superior elaborou nova proposta, que inverteu a lógica de ocupação da área, prevendo a manutenção de 71% da vegetação e a construção da rua urbanizada em área correspondente a 29% do total. Tal proposta também foi encaminhada ao 1 Algumas referências bibliográficas relacionadas a essa discussão estão relacionadas ao final deste documento. Ministério Público, que encomendou novo laudo a peritos, que concluíram pela viabilidade da proposta, desde que acompanhada de correspondente compensação ambiental. Posteriormente, o MPF consultou a Cetesb de São Carlos (órgão responsável pelo licenciamento ambiental necessário para a remoção da vegetação), que, naquele momento, deu resposta contrária à remoção, com base no artigo 4º da Lei Estadual nº 13550 (de 2009), que dispõe sobre a utilização e proteção da vegetação nativa do bioma Cerrado no Estado de São Paulo. Porém, como a referida legislação dá margem a diferentes interpretações, a própria Cetesb orientou a Universidade a encaminhar pedido formal de supressão da vegetação apresentando detalhes do projeto de expansão, para análise do órgão. Frente a esses eventos, a Administração Superior realizou reuniões nos Centros Acadêmicos do campus São Carlos (CECH, CCET e CCBS) e alguns outros eventos para debate da proposta elaborada em 2011. Tal proposta foi modificada a partir dessas discussões, levando à proposta atual, que reduz ainda mais a área a ser urbanizada, dentre outras modificações voltadas à minimização das interferências sobre o Cerrado (circunscrição das edificações a um único lado da rua urbanizada, definição da baixa densidade da ocupação com edificações e previsão dos trechos destinados à travessia de animais). A expectativa era que tal proposta ainda fosse objeto de análise da comunidade durante as discussões relacionadas ao processo de atualização do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) atualmente em curso; porém, essa alternativa tornou-se inviável frente à recomendação do Procurador da República no município de São Carlos de que a deliberação se desse já na próxima reunião do Conselho Universitário. Caso a proposta elaborada pela Administração Superior seja aprovada pelo Conselho Universitário, quais serão os próximos passos? A proposta será encaminhada, seguindo orientação do próprio órgão, à Cetesb, para que seja submetida a todos os procedimentos de licenciamento exigidos, em cumprimento ao que determina a legislação. 3 Bibliografia relacionada às considerações nas áreas de Ecologia de Paisagens e Biologia da Conservação CROOKS, K.R. & SOULÉ, M.E. Mesopredator release and avifaunal extinctions in a fragmented system. Nature, v.400, n.6744, p.563-566, 1999. HANSSON, L., FAHRIG,L. & MERRIAM,G. Mosaic Landscapes and Ecological Processes. London, Chapman & Hall. 1995. MEFFE, G.K. & CARROLL, C.R. Principles of Conservation Biology. Sunderland, Sinauer Associates, Inc. 1994. PICKETT, S.T.A.; OSTFELD, R.S.; SHACHAK,M. & LIKENS, G.E. The Ecological Basis of Conservation. Heterogeneity, Ecosystems, and Biodiversity. Chapman & Hall, New York, 1997.