ALESSANDRO RICARDO DE OLIVEIRA ESTUDO DA VIABILIDADE DE FABRICAÇÃO DE DISPOSITIVOS SEMICONDUTORES BASEADOS EM FILMES DE CARBETO DE SILÍCIO CRESCIDOS POR PECVD Tese apresentada à Escola Politécnica da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor em Engenharia São Paulo 2006 ALESSANDRO RICARDO DE OLIVEIRA ESTUDO DA VIABILIDADE DE FABRICAÇÃO DE DISPOSITIVOS SEMICONDUTORES BASEADOS EM FILMES DE CARBETO DE SILÍCIO CRESCIDOS POR PECVD Tese apresentada à Escola Politécnica da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor em Engenharia Área de Concentração: Engenharia de Microeletrônica Orientador: Prof. Dr. Marcelo N. P. Carreño São Paulo 2006 Este exemplar foi revisado e alterado em relação à versão original, sob responsabilidade única do autor e com a anuência de seu orientador. São Paulo, 25 de setembro de 2006. Assinatura do autor ____________________________ Assinatura do orientador _______________________ FICHA CATALOGRÁFICA Oliveira, Alessandro Ricardo Estudo da viabilidade de fabricação de dispositivos semicondutores baseados em filmes de carbeto de silício crescidos por PECVD / A. R. Oliveira -- ed. rev. -- São Paulo, 2006. 170 p. Tese (Doutorado) - Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos. 1. Carbeto de Silício 2. PECVD 3. Dispositivos Semicondutores. I. Universidade de São Paulo. Escola Politécnica. Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos.II.t DEDICATÓRIA Dedico este trabalho aos meus pais, Celso e Clarisse, ao meu irmão Adriano e a minha noiva Adriana pelo carinho e apoio que me ofereceram em todos os momentos. AGRADECIMENTOS Gostaria de agradecer primeiramente a FAPESP pelo auxílio financeiro, a todos do Grupo de Novos Materiais e Dispositivos e principalmente ao meu orientador Prof. Dr. Marcelo N. P. Carreño e a Prof. Dra Inés Pereyra pela oportunidade e por toda dedicação. A professora Márcia Carvalho de Abreu Fantini pelas medidas de XRD e por todas as sugestões. A professora Dra. Magali Estrada del Cueto pela amizade e colaboração nos estudos de simulação dos transistores de filme fino. Ao amigo Henrique Peres pelos processos de dopagem por implantação iônica. Ao amigo Gustavo P. Rehder pela ajuda no desenvolvimento das máscaras de processo. A Kátia Franklin pela inestimável ajuda com as medidas elétricas dos capacitores e transistores MOS, por todas as sugestões e discussões e principalmente pela amizade e apoio nos momentos difíceis. Ao professor Dr. Manfredo H. Tabacniks e ao Dr. Marcel Dupret pelas medidas SIMS. Aos amigos Edison F. Motta, Emerson Arashiro, Alexandre T. Lopes, Denise Criado, Márcia Ribeiro e Marco Alayo pela amizade, apoio no laboratório e momentos de descontração. Ao pessoal do Laboratório de Microeletrônica: Tereza, Rita, Márcio Valle, João, Marco e Cristina pelo precioso apoio no processamento em sala limpa. SUMÁRIO FICHA CATALOGRÁFICA ...................................................................................... i LISTA DE FIGURAS .................................................................................................. i LISTA DE TABELAS ............................................................................................... vi LISTA DE SÍMBOLOS, SIGLAS E ABREVIATURAS ..................................... viii RESUMO .................................................................................................................... xi ABSTRACT ............................................................................................................... xii CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO............................................................................... 1 1.1 - INTRODUÇÃO ................................................................................................ 1 1.2 - OBJETIVOS ..................................................................................................... 3 1.3 - ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO ................................................................ 4 CAPÍTULO 2 – ESTADO DA ARTE ....................................................................... 5 2.1 - INTRODUÇÃO À TECNOLOGIA DO SIC..................................................... 5 2.2 – O CARBETO DE SILÍCIO CRISTALINO (C-SIC) ......................................... 7 2.2.1 - Politipos e definições................................................................................. 7 2.2.2 - Propriedades elétricas............................................................................... 9 2.2.3 - Aplicações dos dispositivos baseados em SiC ......................................... 10 2.2.4 - Produção do SiC...................................................................................... 11 2.3 - O CARBETO DE SILÍCIO AMORFO HIDROGENADO (A-SIC:H) ............ 17 2.3.1 - Os mecanismos de condução nos semicondutores amorfos .................... 19 CAPÍTULO 3 - PROCEDIMENTOS EXPERIMENTAIS................................... 25 3.1 - OBTENÇÃO DOS FILMES ........................................................................... 25 3.1.1 - Amostras depositadas com e sem diluição em hidrogênio ...................... 27 3.2 - TÉCNICAS DE CARACTERIZAÇÃO .......................................................... 30 3.2.1 - Perfilometria............................................................................................ 30 3.2.2 - Espectroscopia de Infravermelho (FTIR)................................................ 31 3.2.3 - Difração de raios X (XRD) ...................................................................... 32 3.2.4 - Condutividade elétrica no escuro............................................................ 33 3.2.5 - Espectrometria de massa de íons secundários (SIMS)............................ 36 3.3 – METODOLOGIA........................................................................................... 41 3.3.1 – Processos de Fabricação ........................................................................ 41 I. Cristalização e corrosão dos filmes ............................................................. 41 II. Processos de dopagem................................................................................ 42 3.3.2 – Dispositivos............................................................................................. 50 I. Capacitores tipo metal-óxido-carbeto de silício (MOSiC) .......................... 50 II. Heterojunções SiC/Si ................................................................................. 61 III. Transistores de filme fino.......................................................................... 72 CAPÍTULO 4 – RESULTADOS E DISCUSSÃO .................................................. 82 4.1 - PARTE 1: CRISTALIZAÇÃO E CORROSÃO DOS FILMES DE SIC ............................ 82 4.1.1 - Cristalização............................................................................................ 82 4.1.2 - Corrosão .................................................................................................. 90 4.2 - PARTE 2: DOPAGEM ......................................................................................... 95 4.2.1 - Dopagem in-situ com N2 .......................................................................... 95 4.2.2 - Implantação iônica de boro (B+) e difluoreto de boro (BF2+) .............. 100 4.2.3 - Difusão térmica de alumínio ................................................................. 107 4.3 - PARTE 3: DISPOSITIVOS .................................................................................. 113 4.3.1 – Capacitores MOSiC .............................................................................. 113 4.3.2 – Heterojunções SiC/Si ............................................................................ 122 4.3.3 – TFTs de SiC........................................................................................... 132 CAPÍTULO 5 – CONCLUSÕES ........................................................................... 140 TRABALHOS FUTUROS ..................................................................................... 144 ANEXO A – TRABALHOS DECORRENTES.................................................... 145 ANEXO B – CARACTERIZAÇÃO DOS CAPACITORES MOS .................... 147 REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 158 i Lista de Figuras LISTA DE FIGURAS Figura 2. 1 – Estrutura atômica do SiC: (a) ligações tetraédricas (b) camada dupla hexagonal com átomos de silício e carbono ligando tetraedricamente.............................................................................. 8 Figura 2. 2 – Seqüência de empilhamento de diferentes politipos de SiC: (a) 3C-SiC, (b) 4H-SiC e (c) 6H-SiC.............................................. 8 Figura 2. 3 – Estrutura cristalina de diferentes polítipos de SiC mostrados paralelamente ao plano (1120): (a) estrutura cúbica 3C-SiC, (b) hexagonal 4H-SiC e (c) hexagonal 6H-SiC.............................. 8 Figura 2. 4 – Esquema do arranjo cristalográfico do politipo 6H-SiC..... Figura 2. 5 – Desenho esquemático do processo de sublimação 9 via crescimento por semente. O processo é uma modificação do processo original de sublimação de Lely........................................ 13 Figura 2. 6 – A esquerda uma lâmina de 6H-SiC de 2,5 cm fabricada pela Cree Research em 1990, e a direita cristais de 6H-SiC obtidos pelo método de Lely e Acheson.............................................................. 14 Figura 2. 7 – Microscopia de força atômica de um típico micropipe na superfície de um 6H-SiC................................................................. 15 Figura 2. 8 – Densidade de spin Ns para filmes obtidos por GD e SP como uma função de x. Os dados foram retirados da referência [64]...... 19 Figura 2. 9 – Densidade de estados para um semicondutor amorfo. EC e EV separam o intervalo de energia entre estados localizados e não localizados....................................................................................... 21 Figura 2. 10 – Esquema dos principais mecanismos de condução esperados em semicondutores amorfos........................................... 22 Figura 2. 11 – Ilustração da dependência da temperatura com a condutividade. A energia de ativação está associada com os vários processos descritos anteriormente................................................................... 24 Figura 3. 1 – Representação esquemática do sistema PECVD utilizado para obtenção dos filmes......................................................................... 26 ii Lista de Figuras Figura 3. 2 – Espectros de absorção na região do infravermelho do a-SiC:H dos tipos C3680 e C3690H não-dopado......................................... 32 Figura 3. 3 – Esquema dos contatos elétricos para medida de condutividade. 34 Figura 3. 4 – Sistema de caracterização elétrica: (a) micromanipuladores, (b) eletrômetro e (c) sistema de aquecimento................................. 35 Figura 3. 5 – Curvas de condutividade em função da temperatura para amostras não-dopadas de a-SiC:H tipo C3680 e C3690H.............. 36 Figura 3. 6 – Esquema da técnica SIMS................................................... 37 Figura 3. 7 – Relação entre a forma do perfil da profundidade e a área detectada......................................................................................... 39 Figura 3. 8 – Número de artigos publicados no campo do SiC nas últimas décadas: (quadrados abertos) como material semicondutor e (triângulos fechados) como estruturas metal-óxido-semicondutor MOS................................................................................................ 51 Figura 3. 9 – Curvas obtidas a altas (linha pontilhada) freqüências, (linha contínua) e baixas medidas am ambos sentidos (inversão → acumulação e acumulação → inversão) a temperatura ambiente num capacitor tipo-p de 6H-SiC [125]........ 55 Figura 3. 10 – Estrutura final do capacitor MOSiC............................................... 61 Figura 3. 11 – Diagrama de bandas qualitativo para um semicondutor com composição uniforme e gradual...................................................... 63 Figura 3. 12 – Diagrama de bandas qualitativo para um semicondutor de gap estreito localizado entre duas camadas de semicondutores de gap largo................................................................................................ 63 Figura 3. 13 – Diagrama de bandas de energia de uma heterojunção p-n.............. 66 Figura 3. 14 – Esquema do heterodiodo..................................................... 71 Figura 3. 15 – Layout das máscaras de processo utilizadas para a fabricação dos TFTs................................................................................................ 74 Figura 3. 16 – Ilustração da seqüência das etapas de processos para a fabricação dos TFTs de a-SiC:H..................................................................... 75 Figura 3. 17 – Perfil de dopagem por implantação iônica de fósforo simulado TRIM.............................................................................................. 78 iii Lista de Figuras Figura 3. 18 – Estrutura Final................................................................................. 81 Figura 4. 1 – Microscopia óptica da superfície das amostras tratadas termicamente a 1000 ºC por 2 horas............................................... 84 Figura 4. 2 – Espectro na região do infravermelho dos filmes de SiC como-depositado e recozidos termicamente a 550, 750 e 1000 ºC............................................................................................ 85 Figura 4. 3 – Deconvolução aplicada ao espectro FTIR da amostra recozida a 750 ºC.............................................................................................. 86 Figura 4. 4 – Evolução da fração cristalina e do conteúdo de hidrogênio, estimada dos espectros FTIR, como uma função do processo de recozimento térmico........................................................................ 87 Figura 4. 5 – Espectros de difração de raios X para as amostras de SiC comodepositadas e recozidas a 1000 ºC.................................................. 88 Figura 4. 6 – Espessuras dos filmes para as amostras de SiC como-depositadas e cristalizadas.................................................................................. 89 Figura 4. 7 – Taxa de corrosão para amostra de SiC como-depositada: (a) como uma função da concentração de O2 na mistura gasosa e (b) como uma função da potência de rf. Os outros parâmetros estão indicados na figura................................................................. 91 Figura 4. 8 – Taxa de corrosão para amostra como-depositada como uma função da pressão de processo. Os demais parâmetros estão indicados na figura.......................................................................... 92 Figura 4. 9 – Taxa de corrosão para as amostras como-depositada e recozidas em função da temperatura de recozimento. Os demais parâmetros estão indicados na figura................................................................. 93 Figura 4. 10 – Condutividade versus 1/T para amostras intrínsecas e dopadas in-situ com N2: a) amostras tipo C3680 sem diluição em H2 e b) amostras tipo C3690H crescidas com diluição em H2................ 96 Figura 4. 11 – Espectro FTIR das amostras intrínsecas e dopadas in-situ com nitrogênio: (a) amostras tipo C3680 (menor ordem estrutural) e (b) amostras tipo C3690H (maior ordem estrutural)....................... 98 iv Lista de Figuras Figura 4. 12 – Bandgap óptico das amostras intrínsecas e dopadas in-situ com nitrogênio........................................................................................ 99 Figura 4. 13 – Condutividade versus 1/T para amostras: intrínsecas (quadrado), dopadas com B+ (triângulo) e dopadas com BF2+ (círculo)............ 100 Figura 4. 14 – Perfil de boro das amostras dopadas por implantação iônica de BF2+ e B+......................................................................................... 102 Figura 4. 15 – Cratera formada pelo feixe de íons primários: (a) Medida de perfilometria da profundidade e (b) Microscopia óptica da superfície......................................................................................... 104 Figura 4. 16 – Espectro FTIR das amostras de a-SiC:H não-dopada e dopadas por implantação iônica com B+ e BF2+........................................... 105 Figura 4. 17 – Caracterização IxV para verificação dos contatos elétricos............ 108 Figura 4. 18 – Condutividade em função da condição de dopagem....................... 108 Figura 4. 19 – Resistividade em função dos valores de temperatura de processo. 109 Figura 4. 20 – Resistividade em função da temperatura........................................ 111 Figura 4. 21 – Espectros FTIR das amostras dos Grupos 1, 2 e 3......................... 113 Figura 4. 22 – Estrutura do capacitor MOS de Si contendo as estruturas: convencional (vertical) e proposta (horizontal).............................. 114 Figura 4. 23 – Curvas C-V a alta freqüência dos capacitores de Si para: (a) estrutura vertical e (b) estrutura horizontal............................... 115 Figura 4. 25 – C-V a alta freqüência dos capacitores de SiC com oxidação: (a) térmica seca e (b) térmica úmida............................................... 117 Figura 4. 26 – Curvas C-V a alta freqüência dos capacitores de SiC com isolantes depositados por PECVD: (a) óxido de silício e 119 (b) oxinitreto de silício. Figura 4. 27 – Campo elétrico de ruptura, EB, em função das amostras dos Grupos 1 e 2.................................................................................... 120 Figura 4. 28 – Esquema da medida e curvas I-V características das heterojunções PECVD SiC tipo-p/Si tipo-n medidas a diferentes temperaturas: (a) como-depositada (b) recozida a 550 ºC, (c) a 750 ºC e (d) a 1000 ºC............................................................ 124 v Lista de Figuras Figura 4. 29 – Curva I-V característica em escala linear das heterojunções SiC tipo-p/Si tipo-n medidas a temperatura ambiente para as amostras como-depositada e recozidas a 550, 750 e 1000 ºC........................ 125 Figura 4. 30 – Dependência da temperatura com o termo pré-exponencial A para as amostras como-depositada (círculos) e recozida a 550 ºC (quadrados)..................................................................................... 127 Figura 4. 31 – Densidade de corrente de saturação, J0, em função da temperatura para as amostras como-depositada e recozida a 550 ºC.............................................................................................. 128 Figura 4. 32 – Curva de capacitância-voltagem característica da amostra como-depositada............................................................................. 130 Figura 4. 33 – Curvas de saída de um TFT de a-SiC:H de dimensões L = 20 µm e C = 300 µm.................................................................................. 132 Figura 4. 34 – Curvas de transferência de um TFT de a-SiC:H de dimensões L = 20 µm e C = 300 µm................................................................ 133 Figura 4. 35 – Curvas de saída de um TFT de a-SiC:H com um filme isolante de espessura de 250 nm....................................................................... 135 Figura 4. 36 – Estrutura do TFT simulado............................................................. 137 Figura 4. 37 – Comparação entre as curvas de saída simuladas para diferentes densidades de estados localizados na banda proibida de um TFT de a-SiC:H....................................................................................... 138 vi Lista de Tabelas LISTA DE TABELAS Tabela 2. 1 – Comparação entre os principais politipos de SiC com Si e GaAs. Os dados foram retirados das referências [1,26]............................ 10 Tabela 3. 1 – Condições de deposição de a-Si0,5C0,5:H........................................ 29 Tabela 3. 2 – Tipos de substratos usados na deposição de amostras.................... 30 Tabela 3. 3 – Elementos dopantes com suas respectivas energias de ionização em 6H-SiC...................................................................................... 44 Tabela 3. 4 – Condições de dopagem in-situ com N2........................................... 46 Tabela 3. 5 – Propriedades elétricas de óxidos crescidos sobre 3C, 4H e 6H-SiC............................................................................................ 53 Tabela 3. 6 – Condição de deposição das amostras obtidas por PECVD............. 57 Tabela 3. 7 – Parâmetros utilizados para o processo de oxidação térmica........... 57 Tabela 3. 8 – Condição de deposição das amostras isolantes obtidas por PECVD........................................................................................... 58 Tabela 3. 9 – Resultados de caracterizações I-V e C-V de vários tipos de SiC/Si heterojunções.................................................................................. 69 Tabela 3. 10 – Condição de deposição das amostras obtidas por PECVD............. 70 Tabela 3. 11 – Condição de deposição dos filmes de a-Si1-XCX:H......................... 76 Tabela 3. 12 – Condições de processo de dopagem por implantação de íons de fósforo............................................................................................. 78 Tabela 3. 13 – Condição de deposição das amostras isolantes obtidas por PECVD........................................................................................... 79 Tabela 4. 1 – Número das ligações Si-C, Si-H e C-H para as amostras comodepositada e recozidas. A concentração de hidrogênio foi estimada pela relação (NSi-H+NC-H/NSi-H+NC-H+NSi-C).................... 87 Tabela 4. 2 – Energia de ativação (EA) e gap óptico (EG) da amostras tipo C3680 e C3690H dopadas com uma concentração de 1×1020 cm-3..................................................................................... 101 Tabela 4. 3 – Composição do substrato de vidro da marca Corning tipo 7059.... 104 Tabela 4. 4 – Condições de dopagem das amostras referentes à Figura 4. 19...... 109 Tabela 4. 5 – Condições de dopagem das amostras referentes à Figura 4. 20….. 111 Lista de Tabelas vii Tabela 4. 6 – Parâmetros elétricos dos capacitores MOS extraídos das estruturas vertical e horizontal a partir da curva C-V a alta freqüência........................................................................................ 115 Tabela 4. 7 – Parâmetros elétricos extraídos a partir da curva C-V a alta freqüência dos capacitores MOS de SiC oxidados termicamente.. 118 Tabela 4. 8 – Parâmetros elétricos extraídos a partir da curva C-V a alta freqüência dos capacitores MOS de SiC com isolantes depositados por PECVD................................................................. 119 Tabela 4. 9 – Processos de condução básicos. EG é o gap de energia, k é a constante de Boltzmann, T é a temperatura absoluta, η é o fator de idealidade (obtido a partir da inclinação de região linear de corrente), EA é a energia de ativação e ΦB é a barreira de energia. 126 Tabela 4. 10 – Parâmetros utilizados na simulação do TFT de a-SiC:H................ 138 Lista de Símbolos, Siglas e Abreviaturas LISTA DE SÍMBOLOS, SIGLAS E ABREVIATURAS ω : Número de onda. α(ω): Coeficiente de absorção. η: Fator de idealidade. φF: Potencial de Fermi. ψF: Potencial de Fermi. φM: Função trabalho do Metal. φMS: Diferença entre as funções trabalho do metal e do semicondutor. χOX: Afinidade eletrônica do óxido. χS: Afinidade eletrônica do semicondutor. φS: Função trabalho do semicondutor. ψS: Potencial de superfície no semicondutor. β-SiC: Carbeto de silício cúbico. α-SiC: Carbeto de silício hexagonal. µ: mobilidade. a-Si:H: Silício amorfo hidrogenado. a-SiC:H: Carbeto de silício amorfo hidrogenado. B2H6: Gás Diborana. C: Capacitância. CH4: Gás Metano. CMAX: Capacitância máxima em regime de acumulação. CMIN: Capacitância mínima em regime de inversão a alta freqüência. COX: Capacitância do óxido. c-SiC: Carbeto de silício cristalino. CT: Capacitância total do capacitor MOS. C-V AF: Curva Capacitância – Tensão de Alta Freqüência. C-V BF: Curva Capacitância – Tensão de Baixa Freqüência. CVD: Chemical Vapor Deposition. Dit: Densidade de estados de interface. EA: Energia de ativação. viii Lista de Símbolos, Siglas e Abreviaturas EB: Campo elétrico de ruptura. EC: Nível de condução. EF: Nível de Fermi. EFM: Nível de Fermi do Metal. EG: Largura da banda proibida. Ei: Nível intrínseco. ESR: Electron Spin Resonance. EV: Nível de valência. Evácuo: Nível de energia de vácuo. EXAFS: Estrutura Fina Estendida de Absorção de Raios X. FTIR: Infrared Fourier Transform. GaAs: Arseneto de gálio. GD: Glow Discharge. H2: Gás Hidrogênio. I: Corrente. IDS: Corrente entre fonte e dreno. J: Densidade de corrente. J0: Densidade de corrente de saturação. k: Constante de Boltzmann (1,38062×10-23 J/K). LED: Light Emitting Diode. MBE: Molecular Beam Epitaxy. MEMS: Microelectromechanic Systems. MOS: Estrutura Metal-Óxido-Semicondutor MOSFET: MOS-Field-Effect-Transistor. MOSiC: Estrutura Metal-Óxido-SiC. N2: Gás Nitrogênio. N2O: Gás Óxido Nitroso. NA: Concentração dopantes aceitadores. ND: Concentração dopantes doadores. ni: Concentração de portadores intrínsecos. P: Potência. p: Pressão. ix Lista de Símbolos, Siglas e Abreviaturas PDS: Photothermal Deflection Spectroscopy. PECVD: Plasma Enhanced Chemical Vapor Deposition. PH3: Gás Fosfina. q: Carga do elétron (1,602×10-19 C). Qeff: Concentração de cargas efetivas. RCA: Radio Corporation of America. rf: Rádio freqüência. RIE: Reactive Ion Etching. SCLC: Space Charge Limited Current. Si: Silício. SiC: Carbeto de Silício. SiH4: Gás Silano. SIMS: Secondary Ion Mass Spectrometry. SiO2: Óxido de silício. SiOXNY: Oxinitreto de silício. T: Temperatura. TFT: Thin Film Transistor. tOX: Espessura do óxido. V: Tensão. Vbi: Potencial interno. VDS: Tensão aplicada entre os contatos de fonte de dreno. VFB: Tensão de banda plana. VG: Tensão aplicada no contato de porta. WD: Largura da região de depleção. XANES: X-Ray Absorption Near Edge Structure. XRD: X-Ray Diffraction. ε0: Permissividade elétrica no vácuo (8,84×10-14 F/cm). εOX: Permissividade elétrica do óxido (3,9×10-13 F/cm). εS: Permissividade elétrica do semicondutor. εSiC: Permissividade elétrica do SiC (9,7×10-13 F/cm). σd: Condutividade elétrica no escuro. x xi Resumo RESUMO Neste trabalho é estudada a viabilidade de produção de dispositivos eletrônicos baseados em filmes semicondutores de carbeto de silício estequiométrico (a-Si0,5C0,5:H) obtidos por deposição química por vapor assistida por plasma, PECVD. A proposta do projeto envolve a realização de uma série de trabalhos que permitam avaliar as potencialidades do a-SiC:H para a fabricação de dispositivos semicondutores simples. Deste modo, desenvolvemos as principais etapas para a construção de dispositivos, as quais envolveram a dopagem elétrica por diferentes técnicas com a utilização de diferentes elementos dopantes, a corrosão seletiva por plasma e a obtenção um dielétrico apropriado e compatível com a tecnologia do SiC, bem como o desenvolvimento de processos de cristalização, que podem se mostrar fundamentais para melhorar as propriedades dos filmes de a-SiC:H. Com tais processos aprimorados, fabricamos estruturas MOSiC (metal-óxidocarbeto de silício) a partir do SiC cristalizado, utilizando como dielétrico de porta o SiO2 crescido por oxidação térmica (seca e úmida) dos próprios filmes de carbeto de silício cristalizados. Essas estruturas apresentaram o comportamento típico de um capacitor MOS, com regiões de acumulação, depleção e inversão bem definidas em todos os casos. Também fabricamos heterojunções de filmes de SiC tipo-p (como depositado e tratado termicamente) sobre substratos de Si tipo-n, os quais mostraram boas caracterísitcas retificadoras para as heteroestruturas formadas pelo a-SiC:H como-depositado e tratado termicamente a 550 ºC. Além do mais, também projetamos, fabricamos, modelamos e caracterizamos transistores de filme fino de a-SiC:H. De acordo com as caracterizações elétricas observamos que podemos controlar a condutividade do canal, embora os dispositivos ainda precisem ser aprimorados para se obter melhores níveis de corrente. Vemos, portanto que, embora ainda tenham que ser aperfeiçoados, foram construídos com sucesso dispositivos eletrônicos semicondutores baseados em filmes de a-Si0,5C0,5:H obtidos por PECVD. xii Abstract ABSTRACT In this work we studied the viability to build devices based on stoichiometric amorphous silicon carbide semiconductor films (a-Si0.5C0.5:H), obtained by plasma enhanced chemical vapor deposition technique. The project proposal involves the realization of a series of studies that evaluate the potentialities of the a-SiC:H for the fabrication of simple semiconductor devices. In this way, we developed the main steps for the devices’ fabrication, which involved electric doping, by different doping techniques using different doping sources, selective plasma etching and the obtention of an appropriate and compatible dielectric for SiC technology. Besides, we performed crystallization processes that were essential to improve the properties of the amorphous films. By establishing the processes steps, we manufactured MOSiC (metal-oxidesilicon carbide) structures starting from crystallized SiC and using SiO2 as the gate dielectric, which was obtained by thermal oxidation (wet and dry) of the crystallized silicon carbide films. All the structures presented a typical MOS capacitor behavior, with accumulation, depletion and inversion regions well-defined in all the cases. We also fabricated heterojunctions formed by p-type SiC films (as-deposited and annealed) on n-type silicon substrates that showed good rectifying characteristics for as-deposited and annealed at 550ºC a-SiC:H films. Moreover, we designed, manufactured, modeled and characterized a-SiC:H thin film transistors. The electric characterization demonstrated that it is possible to control the channel conductivity; however, the devices still need to be improved to obtain better current levels. Although some improvement still need to be made, we built successfully electronic semiconductor devices based on a-Si0.5C0.5:H films obtained at low temperatures by PECVD technique. Capítulo 1 - Introdução 1 CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO 1.1 - INTRODUÇÃO O interesse em desenvolver dispositivos semicondutores baseados em carbeto de silício (SiC) está relacionado às extraordinárias propriedades deste material [1]. Devido à sua alta dureza mecânica, o carbeto de silício foi primeiramente muito utilizado como material abrasivo e em ferramentas de corte, mas nos últimos anos vem despertando cada vez maior interesse para aplicações eletrônicas e optoeletrônicas. De fato, o SiC é um semicondutor de alto gap (maior que 2,4 eV) que soma à sua estabilidade química e alta condutividade térmica (superior à do cobre), uma alta tensão de ruptura (~3,8×106 V/cm) e uma alta velocidade de saturação de portadores (para elétrons é de ~2×107 cm/s). Por isso, é indicado para o desenvolvimento de circuitos eletrônicos que possam operar em condições extremas de temperatura e potência, como é o caso de aplicações em eletrônica de potência na indústria aeronáutica, na instrumentação para reatores nucleares, em satélites e naves espaciais [1,2,3] onde o silício não pode ser utilizado ou tem aplicação limitada. O atual interesse que o SiC desperta teve início a partir do final da década de 80, com o desenvolvimento de técnicas de fabricação de lâminas que pudessem realmente ser utilizadas como substratos na fabricação de dispositivos semicondutores a base deste material. As técnicas de crescimento em questão envolvem processos de sublimação de SiC policristalino a temperaturas da ordem de 2500 ºC, no entanto também têm sido estudadas técnicas de crescimento epitaxial a partir de fonte gasosa [4,5]. Estas técnicas operam em temperatura um pouco menores (~1300-1800 oC) e são utilizadas para crescer películas de SiC sobre substratos de silício. Assim, em função desta disponibilidade crescente de substratos de SiC de boa qualidade, os últimos 15 anos testemunharam numerosos trabalhos visando o aprimoramento das técnicas de obtenção, a compreensão de suas propriedades e o desenvolvimento de tecnologias que permitissem fabricar dispositivos eletrônicos de SiC. Como resultado desse esforço, progressos significativos têm sido alcançados e hoje em dia a literatura reporta a fabricação de diodos, transistores de efeito de campo, sensores, estruturas microeletromecânicas Capítulo 1 - Introdução 2 (MEMS) e até circuitos amplificadores, totalmente baseados em SiC cristalino, que podem operar a temperaturas de até ~600 ºC [6,7]. Nesse contexto, a técnica de Deposição Química por Vapor Assistida por Plasma (“Plasma Enhanced Chemical Vapor Deposition”, ou PECVD) surge como um método alternativo para obtenção de SiC em baixas temperaturas. Seu maior atrativo é a possibilidade de crescer películas finas de SiC a temperaturas abaixo de 400 ºC sobre diversos tipos de substratos, tais como vidro, polímeros, as tradicionais lâminas de silício, etc. O material assim obtido, porém, é uma liga amorfa hidrogenada de silício-carbono, de composição variável, denominada “a-Si1-XCX:H” [8], que tem sido utilizada com sucesso no desenvolvimento de diversos dispositivos ópticos e optoeletrônicos, como células solares com estrutura PIN [9], diodos emissores de luz (LED) [10] e como camada isolante em transistores de filme finos (TFT) [11]. É importante destacar que essas ligas não possuem exatamente as mesmas propriedades daquelas do SiC cristalino, não somente pelo fato por serem amorfas, mas também porque sua composição (presença de átomos de hidrogênio) e ordenamento dos seus átomos não são idênticos ao do carbeto de silício cristalino. O Grupo de Novos Materiais e Dispositivos (onde foi desenvolvido este trabalho) é um dos poucos que trabalha com filmes finos de a-SiC:H obtidos por rf PECVD a partir da mistura gasosa de SiH4+CH4 no Brasil. As pesquisas com este material tem permitido ao grupo atingir um bom entendimento das suas propriedades e das condições necessárias para obtenção de um material de boa qualidade. A este respeito podemos dizer que a principal contribuição tem sido identificar uma condição particular de crescimento (condição de “starving plasma” [12,13]) na qual o material obtido apresenta menores concentrações de microporos, maiores bandas proibidas (até ~ 4 eV em filmes ricos em carbono) e, em filmes estequiométricos (a-Si0,5C0,5:H), uma ordem química e estrutural semelhante à do SiC cristalino [13,14,15,16]. Em outras palavras, um material com estrutura semelhante à do SiC cristalino, com baixas concentrações de poros, baixa incorporação de hidrogênio e com átomos de silício ligando-se preferencialmente a átomos de carbono. Dentre essas propriedades as mais importantes e promissoras são a ordem química e estrutural do material, já que estamos falando de uma liga amorfa, nas Capítulo 1 - Introdução 3 quais em geral, a desordem estrutural é um sério obstáculo à obtenção de uma dopagem elétrica eficiente. De fato, é uma característica quase universal dos semicondutores amorfos a dificuldade em se obter altas eficiências de dopagem, o que em última instância limita a aplicação destes materiais em dispositivos eletrônicos. Nos últimos anos as pesquisas do grupo têm permitido demonstrar que a ordem química e estrutural do material pode ser melhorada ainda mais crescendo os filmes em maiores potências de rf e diluindo em hidrogênio a mistura precursora de (silano + metano) [17]. A diluição em hidrogênio é uma técnica bastante conhecida para obter nanocristais de silício e o grupo a utilizou para maximizar a ordem química do a-SiC:H. Assim, resultados obtidos por EXAFS e XANES indicam que o material obtido nestas condições é efetivamente mais ordenado [15,17], de modo que é de grande interesse tentar fabricar dispositivos à base deste material, daí a motivação para desenvolvermos este trabalho. 1.2 - OBJETIVOS No presente trabalho estudamos a viabilidade de fabricação de dispositivos eletrônicos semicondutores baseados em filmes de carbeto de silício estequiométrico (a-Si0,5C0,5:H) obtidos por PECVD. Nesse sentido a proposta do projeto envolve duas linhas de pesquisa principais: uma primeira, que é o desenvolvimento e aprimoramento dos processos básicos para a fabricação dos dispositivos; e uma segunda, a qual trata da fabricação propriamente dita dos dispositivos semicondutores baseados neste material. O objetivo é desenvolver, fabricar e caracterizar estruturas básicas que avaliem as potencialidades do material, e não o desenvolvimento de um tipo específico de dispositivo. Capítulo 1 - Introdução 4 1.3 - ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO Esta tese está dividida em 6 capítulos. Cada capítulo procura abordar um assunto de forma quase independente dos demais, mas dando subsídios para que o leitor possa na leitura de cada capítulo ter a informação para auxiliá-lo na compreensão do capítulo seguinte. No capítulo 1 é apresentado um breve resumo histórico, abordando o interesse que o carbeto de silício desperta para a fabricação de dispositivos eletrônicos. Ainda neste capítulo estão descritos os objetivos e justificativas para o desenvolvimento deste trabalho. No capítulo 2 é apresentado o estado da arte na pesquisa e desenvolvimento das tecnologias empregadas na obtenção do semicondutor, caracterização e fabricação de dispositivos baseados em SiC. No capítulo 3 são descritas, de forma sucinta, o processo de obtenção das películas de SiC no reator PECVD e todas as técnicas de caracterização utilizadas, além das metodologias adotadas no trabalho. O capítulo 4 traz ao leitor os resultados obtidos utilizando as técnicas anteriormente descritas. Em seguida, é feita toda análise dos resultados das caracterizações físicas, estruturais e elétricas do material e dos dispositivos. O capítulo 5, por sua vez, permite ao leitor ter uma visão global de todo o trabalho desenvolvido, as dificuldades encontradas, as propostas de solução e a conclusão obtida com base nos resultados e discussões. Por fim, no anexo A expomos os trabalhos apresentados em eventos nacionais e internacionais e, no anexo B, uma breve introdução à teoria dos capacitores MOS. Capítulo 2 – Estado da Arte 5 CAPÍTULO 2 – ESTADO DA ARTE 2.1 - INTRODUÇÃO À TECNOLOGIA DO SiC Na atualidade, diversos dispositivos eletrônicos e circuitos semicondutores baseados em carbeto de silício cristalino estão sendo desenvolvidos para aplicações que envolvam altas temperaturas e altas potências, onde os semicondutores tradicionais, como o silício e o arseneto de gálio, não podem operar adequadamente [19,20,21]. Uma característica importante do SiC é que seu óxido nativo é o óxido de silício (SiO2), o que traz vantagens evidentes uma vez que, como na tecnologia do silício, pode ser usado como porta dielétrica em estruturas MOS, como camada passivadora ou como máscara em processos de fabricação. O SiC também possui alta condutividade térmica (até 3,3 vezes maior que a do Si à 300K) e alto campo elétrico de ruptura (até 10 vezes maior que o do Si). Portanto, é esperado dispositivos de SiC possam operar em condições extremas e possibilitem melhorias significativas no desempenho de uma ampla variedade de dispositivos utilizados na indústria automotiva, de telecomunicações e de sensores em geral [18,19,20]. Entretanto, estas evidentes vantagens ainda têm que ser desenvolvidas experimentalmente, o que esbarra no fato da tecnologia de crescimento de cristais de SiC ainda necessitar de avanços para obtenção de um material de melhor qualidade. Além disso, a tecnologia de fabricação de dispositivos eletrônicos ainda não se encontra desenvolvida num grau requerido para a incorporação segura destes dispositivos em sistemas eletrônicos [21,22,23]. Além do desenvolvimento de métodos de “bulk” para obter lâminas de SiC, também tem sido muito estudado o crescimento de películas epitaxiais sobre substratos de silício, devido às vantagens de simplicidade e compatibilidade com as atuais tecnologias de semicondutores. Entretanto, de um modo geral, uma limitação dessas técnicas são as altas temperaturas envolvidas, acima de 1300 ºC. Alternativamente, o carbeto de silício amorfo hidrogenado (a-SiC:H) também tem atraído grande interesse tecnológico por permitir a produção de películas com propriedades que podem ser ajustadas de acordo com as necessidades de diferentes Capítulo 2 – Estado da Arte 6 aplicações tecnológicas. Por exemplo, filmes de a-SiC:H ricos em carbono, podem apresentar propriedades similares ao diamante, como alta dureza e baixo coeficiente de fricção. Estes filmes têm sido usados para aplicações mecânicas como camadas protetoras em discos rígidos de computadores, lentes, ferramentas mecânicas entre outras mais [24]. Ligas de a-SiC:H ricas em silício, por outro lado, possuem menor concentração de defeitos estruturais e apresentam boas propriedades elétricas (tal como uma eficiente dopagem elétrica), as quais propiciam a aplicação em dispositivos eletrônicos, como em células solares e diodos emissores de luz [25,26]. Neste contexto, películas de a-SiC:H estequiométricas que sejam verdadeiramente a fase amorfa do c-SiC têm sido pouco investigadas, sendo a maior parte dos trabalhos da literatura dedicados a filmes com baixo conteúdo de carbono. Como já foi dito, o SiC cristalino é um semicondutor de alto gap que apresenta excelentes propriedades elétricas, mecânicas e térmicas, portanto é razoável supor que sua contrapartida amorfa, se produzida em condições apropriadas possua pelo menos propriedades similares [27,28]. Diversas aplicações podem ser beneficiadas com essa possibilidade, por exemplo, o uso do carbeto de silício amorfo pode ser preferido se comparado com o uso do material monocristalino. Isto porquê a relativa baixa temperatura de formação possibilita depositá-lo sobre os mais diversos substratos (inclusive sobre os sensíveis à temperatura), e proporciona uma maior compatibilidade entre os processos de obtenção do carbeto de silício com a atual tecnologia do silício, sendo bastante interessante para aplicação em dispositivos. Capítulo 2 – Estado da Arte 7 2.2 – O CARBETO DE SILÍCIO CRISTALINO (c-SiC) 2.2.1 - Politipos e definições O SiC possui muitas formas cristalinas com a mesma composição química, isto se deve às diferentes seqüências de empilhamento dos átomos (ver figura a seguir). Este fenômeno é chamado de politipismo. Cada estrutura cristalina é chamada de politipo. Apesar do fato que todos os politipos do SiC consistem em 50% de átomos de carbono ligados covalentemente com 50% de átomos de silício, cada politipo possui suas propriedades eletrônicas características. Existem mais de 100 politipos conhecidos, porém só alguns são comumente crescidos de forma aceitável para uso como um semicondutor. Os politipos mais comuns utilizados em aplicações eletrônicas são o 3C-SiC, 4H-SiC e o 6H-SiC. O 3C-SiC, também conhecido como β-SiC, é o único com uma estrutura cristalina cúbica. Os politipos não-cúbicos são chamados ambiguamente de α-SiC. Os politipos 4H-SiC e o 6H-SiC são dois de muitos cristais possíveis com estrutura hexagonal. O politipo 15R-SiC é o mais comum com uma estrutura romboédrica. Como as propriedades eletrônicas são peculiares de cada estrutura cristalina, é necessário um entendimento maior da estrutura cristalina e de suas terminologias. Os diferentes politipos de SiC são compostos de diferentes seqüências de empilhamento de bicamadas de Si-C (também chamadas de camadas duplas), onde cada bicamada de Si-C pode ser simplesmente vista como um plano de átomos de silício unida a um plano de átomos de carbono. O plano formado por uma bicamada de átomos de Si e C é conhecido como plano basal, enquanto que o eixo-c de direção cristalográfica, também conhecido como direção de empilhamento, é definido como normal em relação ao plano da bicamada Si-C (ver Figura 2. 1, 2 e 3). Capítulo 2 – Estado da Arte 8 (a) (b) Figura 2. 1 – Estrutura atômica do SiC: (a) ligações tetraédricas (b) camada dupla hexagonal com átomos de silício e carbono ligados tetraedricamente. (a) 3C-SiC (b) 4H-SiC (C) 6H-SiC Figura 2. 2 – Seqüência de empilhamento de diferentes politipos de SiC: (a) 3C-SiC, (b) 4H-SiC e (c) 6H-SiC. (a) 3C-SiC (b) 4H-SiC (C) 6H-SiC Figura 2. 3 – Estrutura cristalina de diferentes polítipos de SiC mostrados paralelamente ao plano (1120): (a) estrutura cúbica 3C-SiC, (b) hexagonal 4H-SiC e (c) hexagonal 6H-SiC. A Figura 2. 4 esquematiza a seqüência de empilhamento do politipo 6H-SiC, o qual requer seis bicamadas de Si-C para definir uma célula unitária ao longo da direção do eixo-c. O carbeto de silício é semicondutor polar pelo eixo-c, ou seja, cada extremidade deste eixo é terminada com átomos de silício e carbono, respectivamente. Como mostrado na Figura 2. 4, estas superfícies são chamadas de “silicon face” e “carbon face”, respectivamente. Maiores informações a respeito do politipismo cristalográfico do SiC podem ser obtidas na referência [29]. Capítulo 2 – Estado da Arte 9 Figura 2. 4 - Esquema do arranjo cristalográfico do politipo 6H-SiC. 2.2.2 - Propriedades elétricas Devido ao diferente arranjo dos átomos de Si e C na rede cristalina do SiC, cada politipo exibe propriedades ópticas e elétricas particulares. Algumas destas propriedades são mostradas na Tabela 2. 1 para os politipos 3C, 4H 6H-SiC. Para comparação também é apresentada as propriedades do Si e GaAs. Na referência [30] e em suas respectivas referências pode ser encontrada uma análise mais detalhada destas propriedades. Como o silício é o semicondutor mais utilizado na eletrônica de estado-sólido comercial, naturalmente é uma importante referência para avaliação. Dessa maneira, os principais politipos de SiC possuem vantagens e desvantagens em suas propriedades básicas quando comparadas às do Si. Das propriedades apresentadas as mais interessantes do SiC em relação às do Si são o alto campo elétrico de ruptura, o largo “gap” de energia e a alta condutividade térmica. Capítulo 2 – Estado da Arte 10 Tabela 2. 1 - Comparação entre os principais politipos de SiC com Si e GaAs. Os dados foram retirados das referências [1,30] Propriedades Silício GaAs 4H-SiC 6H-SiC 3C-SiC Gap de Energia (eV) 1,1 1,42 3,2 3,0 2,4 Constante Dielétrica 11,9 13,1 9,7 9,7 9,7 Campo Elét. Ruptura a (MV/cm) 0,6 0,6 3 3,2 > 1,5 Cond. Térmica (W/cm-K) 1,5 0,5 3–5 3–5 3–5 Conc. Portadores Intrínsecos (cm-3) 1010 ~ 106 ~ 10-7 ~ 10-5 ~8 Mob. elétrons b (cm2/V-s) 1400 8500 800 400 750 Mob. lacunas c (cm2/V-s) 600 400 115 90 40 Dopantes Doadores e P: 45 N: 45 P: 80 Energia Ionização (meV) As: 54 P: 80 N: 85 Be: 28 Al: 200 Al: 200 Mg: 38 B: 300 B: 300 Dopantes Aceitadores e Energia Ionização (meV) a B: 45 Si: 5,8 N: 50 Al: 270 Diâmetro da lâmina d (cm) 20 7,62 5,08 5,08 5,08 Preço d (US$) por lâmina 40* 100* 890** 450** 1900*** ND = 1017 cm-3; b ND = 1016 cm-3; c NA = 1016cm-3; d Ano de 2004 *Wafer World Inc [31]; **Intrinsic Semiconductor [32]; ***Hoya Technologies [44] 2.2.3 - Aplicações dos dispositivos baseados em SiC - Operação a altas temperaturas O seu elevado gap de energia e a conseqüente baixa concentração de portadores intrínsecos do SiC permitem manter seu comportamento de semicondutor a temperaturas muito mais altas que no caso do silício, por exemplo. Isto possibilita que dispositivos baseados neste material possam operar a temperaturas muito mais elevadas. Como é sabido, um dispositivo semicondutor pode operar até um limite de temperatura onde a contribuição dos portadores intrínsecos, gerados banda a banda, é desprezível na condução do material, então a condutividade elétrica é controlada pela concentração intencional de impurezas (dopantes). Com o aumento da temperatura, os portadores intrínsecos aumentam exponencialmente e conseqüentemente a Capítulo 2 – Estado da Arte 11 corrente de fuga cresce em uma escala inaceitável. De fato, a temperaturas suficientemente altas, a operação do dispositivo semicondutor é superada pela condutividade incontrolável dos portadores intrínsecos que excedem a concentração intencional de dopantes. Assim, dependendo da característica de um dispositivo, a concentração de portadores intrínsecos limita a operação dos dispositivos. No caso do Si, o limite de operação é de aproximadamente 300 ºC. Já no caso do SiC, que possui menor concentração de portadores intrínsecos, estudos teóricos indicam que os dispositivos podem operar a temperaturas superiores a 800 ºC. Este limite de temperatura ainda não foi alcançado experimentalmente, porém, tem sido demonstrada a operação de dispositivos a temperaturas de até 600 ºC [33,34]. - Operação a altas potências O alto campo elétrico de ruptura e a alta condutividade térmica do SiC permitem que dispositivos baseados em SiC operem eficientemente em densidades de potências extremamente altas. O campo elétrico de ruptura do SiC é aproximadamente 8 vezes maior que para o silício, assim um dispositivo de uma dada dimensão de SiC irá suportar uma tensão 8 vezes maior que o mesmo dispositivo de silício. Por outro lado, a alta condutividade térmica propicia uma dissipação mais eficiente de calor do dispositivo. Com isso, componentes de resfriamento, que são normalmente necessários para impedir o superaquecimento dos dispositivos que operam a altas potências, podem ser muito menores ou até mesmo eliminados. 2.2.4 - Produção do SiC - Histórico da produção do SiC A maior parte das importantes propriedades elétricas do SiC já são conhecidas há décadas. Ainda no começo da era dos semicondutores, o SiC também foi considerado, em conjunto com o silício e o germânio, como um dos candidatos à Capítulo 2 – Estado da Arte 12 fabricação dos primeiros transistores. Porém, para a produção comercial em massa de dispositivos eletrônicos são necessários alguns pré-requisitos, como uma consistente produção de lâminas, com tamanho e qualidade reprodutíveis, o que não foi inicialmente possível para o caso do SiC. Muitos materiais semicondutores podem ser derretidos e recristalizados em grandes monocristais por meio de uma “semente cristalina”, como é o caso do método de Czochralski empregado para a produção de silício. Isto facilita razoavelmente a produção em massa de lâminas de Si. Porém, nas pressões utilizadas convencionalmente o SiC sublima ao invés de fundir, portanto não é possível obter SiC pelas técnicas tradicionais de derretimento amplamente utilizadas para a produção de lâminas de Si. Na década de 50, a produção do SiC era possível somente pelo processo industrial de Acheson para a obtenção de materiais abrasivos [35]. Em 1955, um processo de sublimação foi desenvolvido por J. A. Lely no laboratório de pesquisas da Philips, em Eindhoven, Holanda [36]. No processo de Lely a nucleação dos cristais é descontrolada, e o material resultante é crescido randomicamente em cristais hexagonais [37]. Apesar da alta qualidade cristalina que pode ser obtida com o método de Lely, o processo nunca foi considerado como uma técnica importante para uma exploração comercial futura por causa do rendimento baixo a da obtenção de cristais irregulares com diferentes tamanhos. Num processo modificado, que é um processo de crescimento por sublimação por semente, estes problemas são superados, entretanto ao preço de uma qualidade cristalina consideravelmente mais baixa. O método foi obtido com sucesso primeiramente por Tairov e Tsvetkov, em 1978 [38], embora tentativas prévias de um procedimento de crescimento semelhante tinham sido arriscadas por Hergenrother et al. [39]. Seguindo o sucesso de Tairov e Tsvetkov, em 1987, um grupo de pesquisa liderado por R. F. Davis, da Universidade Estadual da Carolina do Norte (NCSU), anunciou a implementação do processo de sublimação via crescimento por semente [40], que é uma modificação do processo original de sublimação de Lely, o qual pode ser visto na Figura 2. 5. Entretanto, a tecnologia para a produção em escala comercial do SiC só foi alcançada no final da década de 80. Mais precisamente em 1987, pesquisadores do grupo da NCSU fundaram uma pequena empresa, chamada Cree Research [41], para produzir Capítulo 2 – Estado da Arte 13 comercialmente lâminas de SiC e, em 1990, dispunham de lâminas de 6H-SiC com 25 mm de diâmetro. 1 – Tampa 2 – Sistema de aquecimento 3 – Fonte de SiC 4 – Reator de grafite 5 – Isolamento 6 – Semente cristalina Na técnica modificada de Lely, o SiC em pó ou em grânulos é colocado dentro de um reator cilíndrico de grafite. O reator é selado por uma tampa também de grafite, sob a qual é fixada uma semente cristalina, como ilustrado ao lado. O reator é aquecido em uma atmosfera de argônio, a uma pressão abaixo da pressão atmosférica, até aproximadamente 2200 ºC. Um gradiente térmico é aplicado ao longo do reator de tal maneira que o SiC em pó, localizado ao fundo do reator, permaneça a uma temperatura mais alta que a da semente cristalina. O gradiente térmico é mantido tipicamente na ordem de 20 - 40 ºC/cm. O SiC em pó sublima à alta temperatura, formando um vapor de carbono contendo diferentes moléculas de silício, tais como Si2C, SiC2, Si2 e Si. Considerando que o gradiente térmico é escolhido tal modo que a parte mais fria do reator é a posição da semente, o vapor se condensará em SiC e o cristal crescerá. Figura 2. 5 - Desenho esquemático do processo de sublimação via crescimento por semente. O processo é uma modificação do processo original de sublimação de Lely. A Figura foi retirada da referência [42]. Deste modo, antes de 1980 os dispositivos eletrônicos eram experimentalmente confinados em pequenos blocos irregulares de cristais de SiC da ordem de 1 cm2, crescidos pelo método de Lely. No entanto, a partir de 1990, com a produção comercial de lâminas pela Cree Research, ocorreu um ressurgimento das pesquisas com o SiC sem precedentes. Atualmente, lâminas com mais 35 mm de diâmetro dos politipos 3C, 4H e 6H estão disponíveis comercialmente, as quais são produzidas por diversas empresas de todo o mundo [41,43,44]. Na Figura 2. 6 pode ser visto exemplos uma lâmina de 6H-SiC produzida pela Cree Research em 1990 e Capítulo 2 – Estado da Arte 14 cristais de 6H-SiC obtidos pelo método de Lely e Acheson, os quais representam os substratos obtidos antes de 1990. Figura 2. 6 - A esquerda uma lâmina de 6H-SiC de 2,5 cm fabricada pela Cree Research em 1990, e a direita cristais de 6H-SiC obtidos pelo método de Lely e Acheson. - Crescimento epitaxial de SiC Como vimos, atualmente já é possível encontrar comercialmente lâminas de diferentes politipos, porém estas são extremamente caras, pequenas e geralmente de qualidade inferior (densidade de defeitos) quando comparadas com as lâminas de Si ou GaAs (ver Tabela 2. 1). O principal obstáculo à produção de lâminas de SiC de alta qualidade é a formação dos defeitos chamados de “micropipes”. Micropipes são defeitos em forma de buracos que podem penetrar grandes distâncias no cristal. Graças ao progresso alcançado nos últimos anos, têm sido fabricadas lâminas com densidade de defeitos cada vez mais baixos. Isto não é surpreendente se considerarmos que as lâminas de Si e GaAs passaram por décadas de aperfeiçoamento. Na Figura 2. 7 pode ser visto uma microscopia de força atômica de um micropipe típico na superfície de um substrato de 6H-SiC. Capítulo 2 – Estado da Arte 15 Devido às “deficiências” apresentadas pelas lâminas de SiC, a maioria dos dispositivos eletrônicos de SiC não são fabricados diretamente sobre as lâminas de SiC, mas sim em camadas de SiC de alta qualidade crescidas epitaxialmente sobre as lâminas obtidas por sublimação. Atualmente existe uma grande variedade de técnicas de crescimento epitaxial de SiC, como epitaxia em fase líquida (LPE) [45], MBE (“molecular beam epitaxy”) [46] e CVD (deposição química por vapor) [47]. A técnica de crescimento por CVD é considerada como o método mais comum de crescimento epitaxial de SiC. Nesta técnica é possível produzir camadas epitaxiais reprodutíveis e de qualidade. Esta técnica possui algumas variantes, mas consiste basicamente no aquecimento de um substrato de SiC em uma câmara com um ambiente composto por gases que contém silício e carbono. Estes gases são decompostos termicamente na superfície do substrato sob condições bem controladas de pressão, fluxo e temperatura, promovendo o crescimento de um filme monocristalino. O crescimento epitaxial por CVD convencional é realizado a temperaturas entre 1400 e 1700 ºC e pressões de 0,1 até 1 atm, resultando em taxas de crescimento da ordem de micrometros por hora [48,49]. Taxas de crescimento maiores, da ordem de centenas de micrometros por hora, são obtidas a temperaturas ainda mais altas, acima de 2000 ºC [50]. Figura 2. 7. Microscopia de força atômica de um micropipe típico na superfície de um 6H-SiC [51]. Capítulo 2 – Estado da Arte 16 - Crescimento heteroepitaxial de SiC sobre substratos de Si O crescimento de filmes de SiC sobre substratos de silício é muito vantajoso por permitir combinar as propriedades interessantes do carbeto de silício com o baixo custo do substrato e a bem conhecida tecnologia do silício. Com este fim, um dos primeiros trabalhos referente ao crescimento heteroepitaxial de SiC sobre substratos de silício ocorreu em 1983 [52], e a partir de então diversos trabalhos têm sido reportados [5,53,54]. Nestes estudos, as películas de SiC são do politipo cúbico (3C-SiC), devido à estrutura cúbica do substrato de silício. Porém, devido às diferenças de constante de rede (diferença de 20 % entre o Si e o SiC) e do coeficiente de expansão térmica (diferença de 8 %), a heteroepitaxia do SiC utilizando o Si como substrato normalmente resulta no crescimento do 3C-SiC com uma alta densidade de defeitos estruturais [55].Como no caso do crescimento homoepitaxial, para o crescimento de SiC sobre Si normalmente é utilizada a técnica de CVD a temperaturas acima de 1400 ºC [56]. Na década de 80 foram apresentadas as primeiras tentativas de fabricação de dispositivos eletrônicos baseados em 3C-SiC crescido sobre silício, porém estes dispositivos, transistores de efeito de campo tipo metal-óxido-semicondutor (MOSFET), apresentavam grande corrente de fuga [57] ou baixa corrente de saturação [58] devido à alta densidade de defeitos estruturais. Contudo, nos últimos anos ocorreu um grande avanço na tecnologia de crescimento heteroepitaxial e já se encontra disponível comercialmente lâminas do politipo 3C-SiC, fabricadas pela Hoya Advanced Semiconductor Technologies [44]. Esta melhoria significativa da tecnologia do crescimento epitaxial, em conjunto com a disponibilidade de uma tecnologia de processamento mais madura, tem levado a um renovado interesse a este politipo e a dispositivos baseados em 3C-SiC. Estes avanços tecnológicos já podem ser notados na fabricação de dispositivos eletrônicos baseados neste material [59,60,61]. Como exemplo, em contraste com a mobilidade de canal muito baixa de dispositivos MOSFET fabricados a partir do 4H-SiC (geralmente < 25 cm2/V-s), dispositivos baseados em 3C-SiC têm demonstrado uma mobilidade efetiva de canal da ordem de 160 cm2/V-s [59]. Assim, o potencial de integração com a tecnologia do silício se tornou ainda mais interessante com estes avanços alcançados na tecnologia de processamento do SiC. Capítulo 2 – Estado da Arte 17 2.3 - O CARBETO DE SILÍCIO AMORFO HIDROGENADO (a-SiC:H) Ligas de carbeto de silício amorfo hidrogenado de estequiometria variável (a-Si1-XCX:H) têm sido normalmente empregadas em aplicações eletrônicas e fotônicas, devido principalmente à possibilidade de variar o seu gap de energia (de ~1,8 eV até ~4 eV) controlando a incorporação de carbono nos filmes. Em função desta possibilidade vários trabalhos têm sido realizados no sentido de esclarecer as propriedades estruturais, ópticas e elétricas do carbeto de silício amorfo. Apesar disso, as propriedades do material são bastante sensíveis aos métodos e às condições de deposição, em função disso, a literatura reporta resultados muitas vezes conflitantes. As primeiras tentativas de se depositar películas de a-SiC utilizaram técnicas como CVD, sputtering e glow discharge (PECVD). O primeiro trabalho sobre a obtenção do carbeto de silício amorfo hidrogenado data de 1977, onde Anderson e Spear [62] estudaram as propriedades ópticas e elétricas de várias ligas de a-Si depositadas por PECVD, entre elas o a-SiC. A hidrogenação do carbeto de silício surgiu em referência a um trabalho desenvolvido por Spear e LeComber [63], onde os autores demonstraram a importância da hidrogenação em filmes de silício amorfo, o qual o hidrogênio tem um papel fundamental: o de saturar as ligações incompletas, diminuindo a densidade de estados na banda proibida, resultando num gap melhor definido e que proporciona uma maior mobilidade de portadores. Desde então uma grande variedade de técnicas e métodos têm sido utilizados para a obtenção do a-SiC:H. No que se refere às propriedades ópticas do a-SiC:H, os dois parâmetros principais são o índice de refração e o gap óptico, os quais dependem diretamente da composição dos filmes. No que diz respeito às propriedades elétricas do a-SiC:H, estas são determinadas pela densidade de estados permitidos no gap, que têm origem na desordem e nos defeitos estruturais do material, e têm grande influência sobre o transporte eletrônico nos semicondutores. Em semicondutores amorfos os defeitos mais comuns são os “dangling bonds”, ou ligações incompletas, as quais introduzem Capítulo 2 – Estado da Arte 18 estados localizados próximos ao meio do gap e atuam como armadilhas para elétrons e lacunas. Já a desordem estrutural introduz estados localizados nas bordas das bandas de condução e valência, dando origem às chamadas caudas, as quais atuam como armadilhas rasas. Vários estudos têm sido realizados para determinar a densidade de estados na banda proibida (DOS). Por meio de medidas como a SCLC (“Space Charge Limited Current”), PDS (“Photothermal Deflection Spectroscopy”) e técnicas como ESR (“Electron Spin Resonance”) e fotocondutividade, estes estudos indicam que o aumento da concentração de carbono nas películas de a-Si1-XCX:H aumenta a densidade de estados em seu gap. Apesar disso, não há consenso sobre a relação entre a densidade de defeitos e a concentração de carbono, silício e hidrogênio na rede atômica do a-SiC:H. Dados de SCLC publicados por Schmidt [64] estão em acordo com os resultados de PDS e ESR obtidos por Boulitrop [65] e Morimoto [66] (ver Figura 2. 8), mostrando um aumento da densidade de estados com aumento de x. A Figura 2. 8 mostra a densidade de spin Ns derivada do sinal ESR como função da concentração de carbono x, para filmes depositados por plasma (GD) e por sputtering (SP). O sinal ESR é considerado ser originado das ligações incompletas dos átomos de Si ou C. Como podemos ver, a densidade de spin Ns para filmes depositados por plasma aumenta aproximadamente 4 ordens de grandeza com o aumento de x de 0 para 0,77. Filmes obtidos por SP apresentam um comportamento semelhante ao apresentado pelo obtidos por GD, porém com um aumento de 3 ordens de grandeza. Por outro lado, medidas de PDS e fotocondutividade realizadas por Skumanich [67] e Fiorini [68] mostram que filmes de a-SiC:H com baixos conteúdos de carbono não exibem grande variação da densidade de defeitos quando comparado com o material sem carbono (a-Si:H). Isso mostra que há muito para ser entendido sobre a criação de defeitos em ligas amorfas de silício-carbono. Não obstante, é aceito que a desordem da rede do silício é ligeiramente perturbada pela incorporação de pequenas quantidades de carbono, porém a interpretação quantitativa é contraditória, haja visto que o método e os parâmetros para a obtenção dos filmes influenciam diretamente sobre as propriedades das películas. Capítulo 2 – Estado da Arte 19 Figura 2. 8 – Densidade de spin Ns para filmes obtidos por GD e SP como uma função de x. Os dados foram retirados da referência [66]. 2.3.1 - Os mecanismos de condução nos semicondutores amorfos Durante as últimas décadas tem havido um grande interesse na obtenção e estudo das propriedades físicas dos sólidos amorfos. A motivação deve-se principalmente a duas razões: primeiramente a pesquisa dos materiais no estado amorfo, que apresenta grandes desafios no campo da ciência dos materiais e, em segundo lugar, a possibilidade de desenvolver materiais de interesse para aplicações na área da eletrônica, óptica e áreas correlacionadas [69]. O silício amorfo hidrogenado foi um dos primeiros materiais no campo dos semicondutores amorfos a receber um grande impulso tecnológico. Já partir da década de 70 despertou grande interesse quanto a sua potencialidade na fabricação de células solares, devido entre outros aspectos, à possibilidade de ser obtido em baixas temperaturas e em grandes áreas, à perspectiva de custo de produção reduzido. Desde então têm sido utilizados na fabricação de scanners para fac-símile, detectores de Capítulo 2 – Estado da Arte 20 imagens e principalmente em mostradores de cristal líquido de matriz ativa, que hoje em dia movimenta um mercado milionário. Em termos estruturais, um semicondutor cristalino exibe grande periodicidade nas posições relativas entre os átomos, com as orientações das ligações se repetindo regularmente, dando origem a uma estrutura periódica que se estende ao longo de todo o material. Esta é chamada de “ordem de longo alcance”. Do ponto de vista da estrutura de bandas, os materiais cristalinos apresentam bandas com bordas abruptas e uma região bem definida de energias proibidas. No caso dos semicondutores amorfos isso não acontece e os átomos ligam-se tridimensionalmente de forma irregular. Certamente os átomos ligados com seus primeiros vizinhos não apresentam irregularidades muito significativas, devido à sua natureza química que impõe que cada átomo deve completar suas ligações segundo sua valência química, com comprimentos e ângulos de ligações característicos. Assim, no material amorfo cada átomo liga-se aos seus primeiros vizinhos de uma mesma forma, constituindo uma “ordem de curto alcance” que não difere muito daquele no material cristalino, porém, conforme nos afastamos, as ligações perdem gradativamente a regularidade espacial. A perda da ordem de longo alcance e o aumento dos defeitos na rede causam efeitos importantes sobre as propriedades do material amorfo, como a diminuição da mobilidade, tempo de vida e livre caminho médio dos portadores. Porém, permanece uma estrutura de bandas de energia, já que esta é conseqüência da ordem de curto alcance, ou seja, das distâncias interatômicas e dos ângulos das ligações, e não apenas da periodicidade dos potenciais atômicos. Nos materiais amorfos, como é o caso do a-SiC:H, a estrutura de bandas de energia apresenta uma distribuição contínua de estados permitidos, localizados naquilo que passa a ser uma pseudo banda proibida. Este pseudo-gap apresenta as chamadas “caudas” das bandas de condução e de valência (ver Figura 2. 9), constituídas por estados originados pelas desordens nas ligações atômicas e uma alta densidade de “estados profundos” (localizados no meio do gap), provenientes principalmente de dangling-bonds (ligações incompletas) e impurezas. Portanto, as propriedades dos semicondutores amorfos são determinadas por dois tipos de estados de energias disponíveis para os Capítulo 2 – Estado da Arte 21 elétrons: estados estendidos, nas bandas de energia, e estados localizados, no interior do gap. Estados Estendidos Estados Localizados Pseudogap Cauda da Banda de Valência Cauda da Banda de Condução Aceitadores Doadores Defeitos Profundos EV EC EF Figura 2. 9 – Densidade de estados para um semicondutor amorfo. EC e EV separam o intervalo de energia entre estados localizados e não localizados. Uma maneira de diminuir a concentração de defeitos na banda proibida é a introdução de hidrogênio no material. É sabido que o hidrogênio incorporado em pequenas porcentagens atômicas (aproximadamente 10%) age como elemento passivador, saturando as ligações químicas incompletas (dangling-bonds), conseqüentemente diminuindo a densidade de estados permitidos na banda proibida do material. Dessa maneira, o maior controle sobre o processo de crescimento e o desenvolvimento de técnicas capazes de reduzir a quantidade de impurezas e defeitos nos filmes permitiram uma investigação mais apurada de suas propriedades intrínsecas. Também, a adição controlada de dopantes associada com um melhor entendimento da incorporação dos mesmos no material é fundamentalmente para as aplicações em dispositivos eletrônicos. Em função das particularidades da distribuição de estados no pseudo-gap, o transporte de portadores em semicondutores amorfos pode seguir basicamente três caminhos de condução. Estes caminhos, ou melhor, mecanismos de transporte de Capítulo 2 – Estado da Arte 22 portadores são: a) condução nos estados estendidos (σ1), b) condução nas caudas das bandas (σ2) e c) condução por hopping (saltos) no nível de Fermi (σ3). A Figura 2. 10 apresenta um esquema dos três principais mecanismos de condução esperados num semicondutor amorfo. Energia EC σ1 σ2 EF EA EB σ3 σ1 σ2 σ3 σ2 EV σ1 Densidade de estados Figura 2. 10 - Esquema dos principais mecanismos de condução esperados em semicondutores amorfos. (a) Transporte por portadores excitados entre as extremidades de mobilidade via estados estendidos (não-localizados) nas bandas de condução e valência: A condutividade é dada por: ⎛ − EA ⎞ ⎟, ⎝ kT ⎠ σ = σ 0 exp⎜ sendo σ 0 um fator pré-exponencial e EA a energia de ativação. Este mecanismo de condução domina principalmente a altas temperaturas (tipicamente para temperaturas acima da temperatura ambiente) e corresponde à condução entre estados estendidos. EA é a diferença entre o nível de Fermi e a borda de mobilidade, ou seja, EC-EF para elétrons e EF-EV para lacunas, onde EC e EV são os limiares de mobilidade para as bordas das bandas de condução e valência, respectivamente. Capítulo 2 – Estado da Arte 23 Elaborando um gráfico de lnσ versus 1/T, teremos uma linha reta se EC-EF é uma função linear de T no intervalo de temperatura medido. Dessa maneira podemos obter a energia de ativação através do coeficiente angular da reta, sendo que σ0 será o valor da condutividade em 1/T = 0. (b) Transporte de portadores excitados em estados localizados nas caudas das bandas de valência e condução: A condutividade é dada por: σ = σ b exp − Eb kT , que corresponde ao transporte ativado termicamente por hopping em estados localizados nas caudas, com Eb = EB+W, onde W é a energia de hopping (energia de ativação da ordem de kT) e EB é a energia média do caminho de condução nos estados de cauda. A energia de ativação W deve diminuir com o decréscimo da temperatura, uma vez que o portador terá menos energia para saltar de um estado localizado para outro. Normalmente o valor do fator σb é várias ordens de grandeza menor que o valor do fator pré-exponencial σ0 e depende da densidade de estados e da superposição das funções de onda. (c) Transporte via estados localizados no meio da banda proibida: A temperaturas muito baixas, a condução por saltos será dada principalmente por estados localizados no meio do gap na forma: 1 σ = σ h exp ( −T0 4 ) T . Este mecanismo de transporte é conhecido como variable-range hopping, que domina a baixas temperaturas ou em amostras com uma alta densidade de defeitos. Este mecanismo corresponde à condução por hopping em torno do nível de Fermi, EF. Temos T0 = 16α3/kN(EF), onde α é o comprimento de localização da função de onda e N(EF) é a densidade de estados no nível de Fermi. Para os semicondutores amorfos, o comprimento de localização é tipicamente da ordem de aproximadamente 10 Å [70]. Este comportamento da condutividade geralmente é observado em semicondutores amorfos não hidrogenados que apresentam uma alta densidade de defeitos [71]. Capítulo 2 – Estado da Arte 24 A condutividade total, para todos os processos, é obtida a partir da somatória de todos os estados de energia disponíveis, conforme mostrado na figura a seguir. ln σ EA = EC - EF Eb = EB + W T -1/4 1/T Figura 2. 11 – Ilustração da dependência da temperatura com a condutividade esperada de acordo com o modelo da referência [71]. A energia de ativação está associada com os vários processos descritos anteriormente. Como podemos notar, os processos de condução ocorrem simultaneamente, porém, a contribuição de cada um destes processos à condutividade total depende em geral da temperatura e da densidade de defeitos do material. Para altas temperaturas a condução nos estados estendidos das bandas é dominante, enquanto para baixas temperaturas a condução se dá por tunelamento termicamente ativado entre os estados localizados do gap. Portanto, a condutividade em função da temperatura pode, em princípio, ser expressa em forma geral por uma relação da forma [71]: σ = σ 0 exp − EA kT + σ b exp − Eb kT 1 + σ h exp ( −T0 4 ) T Uma descrição mais detalhada dos diferentes mecanismos de transporte nos semicondutores amorfos pode ser encontrada nas referências [71,72]. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 25 CAPÍTULO 3 - PROCEDIMENTOS EXPERIMENTAIS Descreveremos neste capítulo o crescimento dos filmes e as metodologias utilizadas na caracterização dos filmes depositados pela técnica PECVD, assim como as características dos equipamentos utilizados e seus principais componentes. 3.1 - OBTENÇÃO DOS FILMES Todos os filmes estudados neste trabalho foram crescidos pela técnica de deposição química a vapor assistida por plasma [73] (“Plasma Enhanced Chemical Vapour Deposition”, ou PECVD). Nesta técnica as moléculas dos gases precursores, ou reagentes, são quebradas por um campo elétrico aplicado entre duas placas de eletrodos, sendo que os radicais resultantes desta decomposição reagem quimicamente e formam o filme sólido. O sistema de deposição é de acoplamento capacitivo com os eletrodos em configuração triodo. Este sistema opera com um gerador de rádio freqüência de 13,56 MHz e permite controlar vários parâmetros no processo de deposição, tais como: potência de rf, fluxo dos gases, pressão de processo e temperatura do substrato. Um diagrama esquemático da sua configuração é apresentado na Figura 3. 1. O sistema de aquecimento do porta-substratos é do tipo resistivo, com uma temperatura máxima de operação de aproximadamente 400 ºC. O monitoramento da temperatura é feito via termopar, colocado diretamente sobre o porta-substratos. A pressão de deposição é monitorada por um manômetro tipo “baratron” que é controlada por uma válvula de processo. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 26 sensor de pressão sensor / controlador de fluxo resistência .... substrato rf eletrodos gerador de potência de rf .... gases bombas mecânicas de processo bomba de alto vácuo válvula automática Figura 3. 1 – Representação esquemática do sistema PECVD utilizado para obtenção dos filmes. O reator conta com dois sistemas de bombeamento de vácuo, um para processo de limpeza da câmara (alto vácuo por meio de uma bomba turbo molecular) e o outro para a etapa de deposição (bomba mecânica de processo). A etapa de alto vácuo tem como função garantir que a deposição seja tanto quanto possível isenta de contaminantes prejudiciais às características dos filmes, e é ativada horas antes de realizar a deposição. Este sistema é composto por uma bomba turbomolecular modelo V-450, assistida por uma bomba rotatória de pré-vácuo modelo SD-300, ambas fabricadas pela Varian. Isto permite que se atinjam pressões em torno de 10-6 Torr no interior da câmara de processo. A monitoração da pressão é realizada por um medidor do tipo cátodo frio, capaz de medir pressões entre 10-3 e 10-9 Torr. O sistema de vácuo para a etapa de deposição é composto por uma bomba mecânica rotatória de duplo estágio modelo TRIVAC-D65-B em série com outra do tipo Roots, modelo Ruvac-WAU-251-US, ambas de fabricação Leybold-Heraeus. O controle da pressão de deposição pode ser realizado manualmente por uma válvula tipo borboleta em série com uma válvula automática (throttle valve) que é controlada por um equipamento de fabricação MKS. A monitoração da pressão para esta etapa é realizada por um medidor do tipo pressão absoluta (sistema capacitivo, Baratron122A, MKS) que permite medidas entre 10 e 10-3 Torr. Este medidor de tipo baratron Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 27 é um manômetro cujo funcionamento independe da espécie gasosa, realizando a medida através da variação da capacitância devido à influência da pressão sobre uma das placas do capacitor. 3.1.1 - Amostras depositadas com e sem diluição em hidrogênio Como dito anteriormente, na deposição química a vapor assistida por plasma, as moléculas dos gases precursores (silano (SiH4) e metano (CH4)) são quebradas por um campo elétrico aplicado entre duas placas de eletrodos, e os radicais produtos desta decomposição reagem quimicamente e formam o filme sólido. Nesse sentido, seus respectivos produtos de decomposição primária são os radicais neutros SiH2, SiH3, CH3 e CH2, enquanto que espécies como SiH, CH, Si e C também são formadas, mas com diferença de pelo menos uma ordem de grandeza em proporção [74]. É sabido que a densidade de potência de rf (potência total fornecida aos eletrodos dividida pela área dos mesmos) e a pressão na câmara durante o processo de crescimento dos filmes governam as reações químicas no plasma. Atualmente se aceita a existência de dois diferentes regimes de densidade de potência de rf, válidos para uma mistura gasosa de metano a silano: os regimes de alta e baixa densidade de potência de rf. Consideramos que a deposição é realizada no regime de alta densidade de potência de rf quando a densidade de potência é suficientemente alta para ativar tanto a quebra do silano quanto à do metano, por colisões elétronmolécula, que se decompõe independentemente um do outro. Por outro lado, podemos dizer que a deposição é realizada no regime de baixa densidade de potência de rf quando ela é baixa o bastante para que praticamente não exista deposição de filme a partir do metano puro, mas seja ainda suficientemente alta para promover a quebra do silano. Neste último regime, para um mesmo fluxo de silano a taxa de deposição é independente da composição gasosa num grande intervalo de concentrações de metano, mas diminui enormemente para altas concentrações do mesmo, dizemos assim então que nos encontramos dentro das condições de plasma faminto por silano. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 28 Nestas condições os radicais de silano têm maior probabilidade de reagirem com moléculas de metano do que com moléculas ou radicais de silano. Isso ocorre não somente para altos fluxos de metano, mas também para um menor fluxo de silano e/ou menor pressão na câmara de deposição, justamente porque conseguimos diminuir a densidade de moléculas e radicais de silano bem como seu tempo de permanência na câmara de deposição. Com isso diminuímos a probabilidade de um possível encontro e, portanto, diminuímos o número de reações entre eles. Como conseqüência disso o carbono se incorpora no filme unicamente por reações químicas induzidas pelos radicais de silano com moléculas de metano, uma vez que praticamente não ocorre deposição a partir do metano puro, o que favorece a formação de ligações Si-C no material obtido [27,74]. Como uma forma de conseguir um material mais ordenado estruturalmente os filmes também podem ser crescidos em diluição em hidrogênio, esta técnica é amplamente utilizada na obtenção de filmes microcristalinos de silício crescidos por PECVD [75]. Esta técnica induz a competição entre os processos de corrosão e deposição, fazendo com que grande parte das ligações C-Hn e Si-H sejam eliminadas do filme durante seu crescimento, diminuindo a quantidade incorporada de hidrogênio e favorecendo uma maior coordenação entre átomos de silício e carbono, promovendo a deposição de filmes mais densos, homogêneos e com menor Si-C 3690H Si-C-Si 0 1 2 3 Distância Aparente (Å) 4 Transformada de Fourier (u.a.) Transformada de Fourier (u.a.) quantidade de poros [27]. β -SiC Si-C-Si c-Si Si-Si Si-C 0 1 2 3 4 Distância Aparente (Å) Figura 3.1.1. Transformada de Fourier dos dados de EXAFS de: (a) amostra tipo C3690H e (b) Espectros das referências (c-Si e β-SiC), mostrando seus picos característicos. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 29 A diferença de ordem química e estrutural entre as amostras C3680 e C3690H pode ser analisada a partir da medida de EXAFS (ou Estrutura Fina Estendida de Absorção de Raios X). O resultado para a amostra do tipo C3690H é apresentado na anterior (Figura 3.1.1.a). Os dados apontam que nossas amostras de a-Si0,5C0,5:H apresentam as duas primeiras esferas de coordenação, correspondentes às ligações de primeiros vizinhos (Si-C) e segundos vizinhos (Si-C-Si). É importante destacar que os resultados não apresentam o pico referente à ligação Si-Si, indicando que o material é composto essencialmente por átomos de silício ligados a átomos de carbono. No momento não dispomos no momento dos resultados de EXAFS da amostra tipo C3680, mas podemos extrapolar a partir de análises feitas em amostras crescidas em condições semelhantes às amostras crescidas sem diluição em H2 (como nossa C3680) são mais desordenadas, exibindo uma pequena fração de átomos de silício ligados a silício. Uma análise detalhada destes comentários pode ser encontrada na referência [27]. Assim, neste trabalho utilizamos dois tipos de amostras de a-Si0,5C0,5:H. Num primeiro conjunto, as amostras são crescidas nas mesmas condições de amostras já estudadas anteriormente. Ou seja, serão amostras próximas da estequiometria (x~0,5) que exibem uma elevada ordem química e estrutural (tipo C3680) [27]. No segundo conjunto as amostras, também quase estequiométricas (x~0,5), os filmes serão crescidos com diluição em H2 (tipo C3690H), o que como já dissemos, promove o crescimento de um material ainda mais ordenado, semelhante ao c-SiC [76]. O principal objetivo aqui é estudar o comportamento num material com melhores propriedades. Na tabela a seguir são apresentadas às condições de crescimento para os dois tipos de amostras. Tabela 3. 1 - Condições de deposição do a-Si1-XCX:H. Amostra Tipo C3680 C3690H Fluxo SiH4 (sccm) 3,6 3,6 Fluxo CH4 (sccm) 14 32,4 Fluxo H2 (sccm) *Concentração de carbono estimada por RBS. **Concentração de hidrogênio estimada por FTIR. 200 Densidade de Potência (mW/cm2) 50 250 Temp. (ºC) x* H (at. %)** 320 320 0,53 0,52 35 ± 3 22 ± 2 Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 30 A densidade de potência rf é obtida a partir da divisão da potência total aplicada nos eletrodos pela área dos mesmos (400 cm2). Os filmes foram depositados em diferentes substratos, escolhidos em concordância com as propriedades a serem estudadas e com os processos de caracterização a serem utilizados. Na Tabela 3. 2 são apresentados os tipos de substratos utilizados e as técnicas de caracterização a que se destinam. Tabela 3. 2 - Tipos de substratos usados na deposição de amostras. Tipo de Substrato Caracterização Vidro Corning Elétrica Silício com degrau Espessura Silício Cristalino Espectroscopia FTIR 3.2 - TÉCNICAS DE CARACTERIZAÇÃO 3.2.1 - Perfilometria Esta medida tem como objetivo a determinação da espessura dos filmes depositados. Esta técnica mede basicamente as variações de planicidade nas amostras, o sensor do aparelho é composto por uma fina agulha de diamante que realiza movimentos horizontais sobre a superfície da amostra, as translações verticais que a agulha sofre durante o percurso são detectadas pelas mudanças elétricas de um transformador diferencial linearmente variável (LVDT), cujo núcleo está acoplado mecanicamente no mesmo eixo da agulha. As mudanças produzem um sinal elétrico proporcional ao deslocamento vertical da agulha, os sinais são digitalizados via conversor e armazenados na memória em forma de dados para posterior manipulação. Devido à alta sensibilidade do aparelho é necessário que ele opere numa área com um mínimo de vibrações mecânicas. O aparelho utilizado foi um perfilômetro Tencor, modelo Alpha Step 500, localizado no Laboratório de Microeletrônica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 31 3.2.2 - Espectroscopia de Infravermelho (FTIR) As medidas de espectroscopia na região do infravermelho [77] (“Fourier Transform Infrared Spectroscopy”, ou FTIR) produzem informações a respeito das ligações atômicas do material. Dessa maneira, essas medidas tiveram o objetivo de estudar a estrutura atômica dos dois tipos de a-SiC:H obtidos por PECVD utilizados neste trabalho (C3680 e C3690H), antes e depois da dopagem e dos tratamentos térmicos. Esta técnica consiste na incidência de uma determinada radiação sobre a película produzindo mudanças no estado vibracional das moléculas que compõem o material. A freqüência de radiação necessária para mudar o estado vibracional da molécula está geralmente compreendida na região de infravermelho (0,77 μm ∼ 1000 μm). Durante a vibração de uma molécula devida, por exemplo, a uma radiação infravermelha, a distribuição de carga sofre uma mudança periódica e, em geral como conseqüência, o momento dipolar também muda periodicamente. Quando a freqüência de radiação, incidindo sobre uma molécula, coincide com a freqüência de ressonância natural da molécula, ocorrerá uma mudança no estado vibracional, que se for acompanhada por uma mudança no momento dipolar e, portanto, na energia da molécula, uma banda de absorção associada com este estado vibracional será observada no espectro de absorção. A intensidade desta absorção dependerá da magnitude da transição do momento dipolar enquanto que a freqüência da absorção dependerá das massas dos átomos envolvidos e suas posições relativas para a determinada ligação [78,79]. Em materiais amorfos, apesar destes apresentarem um arranjo de primeiros átomos vizinhos muito similar ao material cristalino, há dispersão tanto na distância das ligações dos elementos presentes como no ângulo das ligações, o que provoca o alargamento das bandas de absorção dos espectros. Assim o aumento de desordem num material amorfo originará mudanças nas ligações químicas dos elementos componentes causando deslocamento da freqüência de ressonância daquelas estruturas desordenadas dentro do material amorfo. Os espectros de infravermelho de ambos os tipos de amostras de a-SiC:H são apresentados na figura a seguir, onde aparecem normalizados pela espessura para que Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 32 possamos compará-los de forma que todas as variações no espectro sejam de caráter composicional. Si-C Absorbância (u.a.) (a) - C3690H (b) - C3680 Si-CH n C-H n Si-H n (a) (b) 3200 2800 2400 2000 1600 1200 800 400 -1 Número de onda (cm ) Figura 3. 2 – Espectros de absorção na região do infravermelho do a-SiC:H dos tipos C3680 e C3690H não-dopado. Através do espectro apresentado podemos observar as bandas de absorção no infravermelho características do a-SiC:H e as ligações químicas as quais elas estão associadas. Os espectros de absorção das amostras de a-SiC:H foram obtidos a partir de medidas de absorção utilizando um espectrofotômetro por transformada de Fourier, modelo FTS-40, Bio Rad, pertencente ao Laboratório de Microeletrônica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. 3.2.3 - Difração de raios X (XRD) A difração de raios X [80] (“X-Ray Diffraction”, ou XRD) é uma técnica comumente utilizada para análise da estrutura cristalina dos materiais, que possibilita distinguir se o filme é amorfo ou cristalino. Com essa técnica também é possível distinguir os politipos cristalinos existentes em uma matriz. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 33 O principio desta técnica está baseado na interação de um feixe de raios X com o material em análise, uma vez que o comprimento de onda do raio (~1 Å) tem a mesma ordem de grandeza das distâncias interatômicas. A distinção entre um material cristalino e um amorfo poderá ser feita na análise do difratograma, a intensidade espalhada por um material cristalino é quase nula em todo o espectro, exceto em certos ângulos, onde indica picos intensos e finos, determinados pela Lei de Bragg. Os materiais amorfos possuem estruturas características por uma quase total ausência de periodicidade, e uma tendência apenas à ordem local, vista no empacotamento atômico preferencial a certa distância típica; o resultado é um difratograma mostrando somente um ou dois máximos alargados. Quanto menor for o tamanho do grão cristalino, mais larga será a reflexão. O limite de transição entre um material cristalino e amorfo é um assunto controverso. A diferença entre um material cristalino e um amorfo está na dimensão da ordem de longo alcance, ou seja, no tamanho do cristalito. Considera-se, como é comumente definido pela literatura, um material nanocristalino aquele que possui um empacotamento entre 5 e 50 planos cristalinos, portanto, um tamanho de grão entre 10 Å e 100 Å. Para tamanho de grão maior que 100 Å, considera-se que o material é microcristalino. Para a análise de nossas amostras utilizamos os equipamentos de XRD do Laboratório de Cristalografia do Instituto de Física da USP (LCr-IFUSP). Foram utilizados os equipamentos URD-6, marca Zeiss Jena, com geometria Theta-2Theta e potência do filamento de 0,8 KW (40KV/20mA), e um outro difratômetro Rigaku, com geometria Theta-Theta e gerador de raios X de 3 kW. Ambos os equipamentos utilizam a radiação Kα do Cu, com λ=1,5418 Å. Os dados foram analisados consultando e comparando com os resultados mais comuns encontrados na literatura. 3.2.4 - Condutividade elétrica no escuro Para a caracterização elétrica das amostras dopadas e não-dopadas utilizamos medidas de condutividade no escuro. Este tipo de caracterização tem sido amplamente empregado pelo meio científico para avaliar a dopagem de materiais semicondutores, pois permite determinar importantes parâmetros do material, tais Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 34 como a energia de ativação (deslocamento do nível de Fermi) e a variação da condutividade elétrica em função das condições de dopagem. As medidas foram realizadas em películas crescidas sobre substratos isolantes de vidro (Corning 7059) com baixo conteúdo iônico. Contatos de Al em arranjo coplanar foram evaporados sobre a superfície de a-SiC:H, os quais foram sinterizados por uma etapa de recozimento térmico a 420 ºC durante 20 minutos. O esquema dos contatos elétricos é apresentado na figura a seguir. (a) (b) Figura 3. 3 – Esquema dos contatos elétricos para medida de condutividade. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 35 A caracterização elétrica foi realizada utilizando um eletrômetro Keythley, modelo 6517A, na configuração I/V (corrente/tensão). A condutividade elétrica foi obtida através da medida de corrente elétrica para temperaturas que variavam entre 27 até 250 ºC a uma tensão constante de 40 V. A tensão aplicada foi escolhida de forma que a amostra se encontre em regime ôhmico. Um sistema completamente automático foi usado para medir a condutividade como uma função da temperatura. As medidas foram realizadas em duas etapas diferentes, porém sucessivas: a primeira partindo da temperatura ambiente e aquecendo lentamente até 250 ºC, e a segunda, resfriando lentamente até a temperatura ambiente. O sistema de caracterização elétrica é apresentado na Figura 3. 4. Figura 3. 4 - Sistema de caracterização elétrica: (a) micromanipuladores, (b) eletrômetro e (c) sistema de aquecimento. A partir destes resultados elaboramos um gráfico da condutividade no escuro em função do inverso da temperatura. Uma função de Arrhenius foi aplicada aos dados para cada condição de dopagem. Deste modo, a energia de ativação da condutividade pode ser obtida como função da condição da dopagem, podendo avaliar o seu efeito. Baseado na reprodutibilidade dos resultados foi calculado um erro menor que 10% para a medida de condutividade. Para a energia de ativação o erro foi obtido por comparação do máximo e mínimo ajuste da função de Arrhenius. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 36 As amostras de a-SiC:H indicam o mecanismo de condução por estados estendidos (não-localizados) nas bandas de condução e valência como principal mecanismo de condução elétrica com a variação da temperatura medida. Uma curva típica da condutividade em função da temperatura para uma amostra não dopada é mostrada na Figura 3. 5. Temperatura (K) -8 500 480 460 440 420 400 380 360 10 Condutividade (Ω.cm) -1 C3680: EA = 1,2 eV (Gap = 2,4 eV) C3690H: EA = 1,4 eV (Gap = 2,9 eV) -10 10 σ = σ0 exp (-EA/kT) -12 10 -14 10 0,0020 0,0022 0,0024 0,0026 0,0028 -1 1/T (K ) Figura 3. 5 - Curvas de condutividade em função da temperatura para amostras não-dopadas de a-SiC:H tipo C3680 e C3690H. Como podemos ver na figura anterior a condutividade exibe um comportamento ativado termicamente e os níveis de Fermi das amostras encontramse muito próximos do meio do gap, justamente como deve ser num material semicondutor não-dopado. Podemos notar também que devido à alta resistividade das amostras intrínsecas (o limite de sensibilidade da medida de condutividade do eletrômetro é de aproximadamente 10-13 (Ω.cm)-1) só foi possível medir a condutividade elétrica a temperaturas relativamente altas, acima de 150ºC. 3.2.5 - Espectrometria de massa de íons secundários (SIMS) A Espectrometria de Massa de Íons Secundários [81] (“Secondary Ion Mass Spectrometry”, ou SIMS) é uma técnica analítica que pode ser usada para Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 37 caracterizar sólidos (e alguns líquidos) desde a superfície até uma profundidade de aproximadamente 30 μm. A técnica utiliza um feixe de íons primários (0,5-20 keV) para provocar uma “pulverização” (sputtering) da superfície da amostra, produzindo partículas ionizadas secundárias que são detectadas usando um espectrômetro de massa. A Figura 3. 6 ilustra o método SIMS. O feixe de íons primários pode ser de O2+, O-, Cs+, Ar+, Xe+, Ga+ entre várias possibilidades, sendo que feixes de O2+ são normalmente usados para detecção de espécies eletropositivas, enquanto os de Cs+ são utilizados para espécies eletronegativas. A amostra pode ser interceptada pelo feixe de íons primários em diferentes ângulos de incidência, com uma faixa típica até 60º da normal. O processo de pulverização não envolve apenas a remoção de átomos de superfície pela perda de energia da espécie primária na forma de uma cascata de colisões, mas também é acompanhado pela implantação da espécie primária na amostra. Assim, diversas espécies são formadas pela interação do feixe com a amostra, porém somente os íons secundários positivos e negativos são as espécies de interesse para a análise SIMS. Os íons secundários são extraídos por campos elétricos e sua massa é analisada. FONTE DE ÍONS ANALISADOR DE ENERGIA ESPECTRÔMETRO DE MASSA ESPECTRO DE MASSA íons primários (O+) íons secundários DETECTOR PERFIL AMOSTRA IMAGEM Figura 3. 6 - Esquema da técnica SIMS. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 38 A Figura 3. 6 mostra os três tipos de análises que podem ser realizadas pela técnica SIMS: espetros de massa, perfis de profundidade e imagens produzidas pelos íons. O espectro de massa é obtido através de pulverização da amostra, enquanto o espectrômetro de massa varre a faixa de massas atômicas. Se a superfície da amostra é pulverizada muito lentamente, removendo menos de 1 % da monocamada superior de átomos enquanto o espectrômetro de massa é varrido, o espectro irá conter informações sobre quais massas moleculares estão presentes e suas intensidades. Esta aplicação é chamada de SIMS estático. O SIMS também pode ser utilizado no modo de coleção de dados, de modo análogo ao microscópio eletrônico de varredura (MeV). Neste caso, ao invés de obter imagens da amostra usando um feixe de elétrons focado e detectar elétrons secundários emitidos da amostra, a imagem é formada por um bombardeio com um feixe de íons, que grava uma imagem formada por íons secundários emitidos da amostra que são detectados por um espectrômetro de massa. Desta maneira pode se obter um mapeamento de elementos químicos e sua distribuição espacial na amostra. Perfis de profundidade são obtidos se o espectrômetro de massa monitorar continuamente os íons secundários excitados pela pulverização numa mesma região da amostra. Além disso, uma ou mais massas poderão ser detectadas consecutivamente trocando rapidamente de canal entre as massas. Perfis de profundidade precisos requerem um bombardeamento iônico uniforme na área analisada, evitando coletar íons das paredes da cratera formada, adjacente à superfície da amostra. A Figura 3. 7 mostra um esquema da dependência do perfil de profundidade com o tempo/profundidade de pulverização para diferentes regiões, onde os íons secundários são coletados. Com o objetivo de obter uma boa resolução, a área pulverizada dever ser maior que a área de detecção. A área pulverizada é definida como a área percorrida pelo feixe de íons primários. A área de detecção, por sua vez, é localizada em uma “janela” central que corresponde normalmente a 20% da área varrida pelo feixe de íons. A Figura 3. 7 indica que a forma do perfil das espécies monitoradas depende significantemente do tamanho da área detectada. Se a área detectada for à mesma do feixe, então as espécies monitoradas no filme podem ser detectadas em regiões mais profundas que aquelas do perfil real, uma vez que contribuições das paredes da cratera formada pelo feixe ainda estarão presentes. Densidade de íons secundários Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 39 FEIXE DE ÍONS PRIMÁRIOS REGIÃO COLETADA PENETRAÇÃO UNIFORME FEIXE TOTAL COLETADO REGIÃO CENTRAL COLETADA 0 1 2 3 4 Tempo ou Profundidade Figura 3. 7 - Relação entre a forma do perfil da profundidade e a área detectada. Perfis de profundidade e espectros de massas são dados complementares. Espetros de massas produzem informações úteis sobre interferências de massa necessárias, com o intuito de tomar decisões sobre quais espécies compõem o melhor perfil ou o melhor limite de detecção em um perfil de profundidade. Concluindo, a técnica SIMS pode ser usada para identificar e quantificar uma determinada espécie de interesse na superfície estudada ou pode ainda ser usada para estudar as distribuições das espécies em função da profundidade da amostra. Nesse último caso, os íons de interesse são monitorados em função do tempo de análise (tempo de pulverização do filme). O tempo de análise pode ser convertido em profundidade medindo-se a profundidade da cratera num perfilômetro, enquanto a escala de intensidade pode ser convertida em concentração usando-se os fatores de sensibilidade apropriados. Historicamente, tem sido difícil obter uma análise quantitativa usando SIMS. A taxa de geração de íons secundários pode variar mais de 6 ordens de grandeza de um dado material para outro. Estas variações na sensibilidade para elementos não podem ser modeladas com precisão usando modelos teóricos para emissão de íons. A necessidade para quantificar as espécies Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 40 forçou a comunidade que utiliza SIMS a desenvolver uma extensa base de padrões para calibrar instrumentos empiricamente para sensibilidade. O perfil de profundidade dos átomos de boro na dopagem por implantação iônica de B+ e BF2+ foi determinado pela técnica SIMS utilizando um equipamento Cameca, modelo SQ156, pertencente ao Laboratório de Materiais e Feixes Iônicos (LAMFI) do Instituto de Física da Universidade de São Paulo. É importante aqui destacar que o perfil do flúor não pôde ser analisado por se tratar de uma espécie eletronegativa, a qual necessita de um feixe primário de Cs+, que não se encontra disponível no equipamento. O perfil de boro foi obtido monitorando os íons secundários B+ produzidos pelo bombardeamento iônico primário de oxigênio com uma energia de 9 keV. O foco do íon primário foi centrado numa área quadrada de 100 μm x 100 μm. Uma técnica de abertura eletrônica foi usada para assegurar que a massa analisada só foi contada a partir de íons secundários que tinham sido pulverizados de uma janela central de 20% da área do feixe primário, eliminando assim grande parte dos íons pulverizados das paredes de cratera. Os íons de boro monitorados em função do tempo de análise foram convertidos em profundidade medindo-se a profundidade da cratera, a qual foi determinada pelo perfilômetro descrito anteriormente. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 41 3.3 – METODOLOGIA Apresentamos aqui os processos básicos para a fabricação de dispositivos baseados em a-Si0,5C0,5:H obtido por PECVD. Estes processos envolvem a dopagem e corrosão, bem como processos de cristalização que podem se mostrar fundamentais para melhorar as propriedades dos filmes de a-SiC:H. Por fim, apresentamos a tecnologia empregada para a fabricação dos primeiros dispositivos protótipos, entre eles capacitores MOS, heteroestruturas SiC/Si e transistores de filme fino. 3.3.1 – Processos de Fabricação I. Cristalização e corrosão dos filmes Para fabricar dispositivos eletrônicos ou MEMS, é exigida uma corrosão seletiva do material porque o SiC é inerte à maioria das substâncias químicas aquosas a temperaturas menores que 600 ºC. A corrosão úmida através de ácidos ou bases não é um método prático para fabricação de dispositivos de SiC, porém, foi mostrado que corrosões secas baseadas em plasmas de compostos fluorados são capazes de produzir taxas de corrosão aceitáveis (10-100 nm/min) [82,83]. Os mecanismos básicos para a corrosão do SiC em plasmas fluorados consistem em uma combinação de reações químicas (reações com F e O) e físicas (íons enérgicos) para o processo de remoção. Em geral, os parâmetros que devem ser considerados para o processo de corrosão seca por plasma incluem a taxa de corrosão, seletividade com relação à camada de mascaramento, anisotropia e presença ou ausência de resíduos na região corroída. Como mencionado anteriormente, filmes amorfos e cristalinos de SiC devem ser utilizados na fabricação de dispositivos para sejam avaliados quanto ao seu desempenho. Assim, apresentamos a cristalização de filmes de a-SiC:H obtidos a baixas temperaturas pela técnica PECVD e a corrosão destes respectivos filmes utilizando plasmas baseados em CHF3+O2. Deste modo, filmes de a-SiC:H foram produzidos utilizando a técnica PECVD a partir da mistura gasosa de silano (SiH4), metano (CH4) e hidrogênio (H2). Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 42 As condições de deposição são dadas na Tabela 3. 1, onde as concentrações de carbono e hidrogênio (deduzido do espectro FTIR), também são mostradas. As amostras foram depositadas sobre substratos de silício (100) e o processo de cristalização foi realizado num forno em alto vácuo (pressões da ordem de ~10-6 Torr) a 550, 750, 1000 e 1250 ºC por 2 horas. Nestes experimentos, a natureza das ligações químicas foi determinada pela espectrometria FTIR. Considerando a banda de absorção do espectro FTIR, a concentração de ligações nos filmes é dada por [84]: NSi-C,Si-H,C-H = A ∫ α (ω )dω , ω onde α(ω) é o coeficiente de absorção, ω é o número de onda e A é um coeficiente para as ligações Si-H (1,4×1020 cm-2), C-H (1,35×1021 cm-2) e Si-C (2,13×1019 cm-2). Assim, a intensidade integrada é diretamente proporcional à concentração das ligações nos filmes [85,86] e o conteúdo de hidrogênio pode ser calculado. Medidas de difração de raios X (XRD) foram realizadas para analisar a cristalização do material. Utilizando estes filmes amorfos e cristalizados, experimentos de corrosão foram realizados num reator de placas paralelas com eletrodos de Al no modo de corrosão de reação por íon reativo (“Reactive Ion Etching”, ou RIE), com uma freqüência de rf de 13,56 MHz. A temperatura T e o fluxo de gás total (CHF3+O2) foram mantidos constantes em 20 ºC e 50 sccm, respectivamente. Os parâmetros variáveis foram à porcentagem de O2 na mistura com CHF3, a pressão de processo p e a potência P. Um perfilômetro Tencor Alfa Step 500 foi usado para determinar as espessuras corroídas. II. Processos de dopagem Geralmente, para aplicações em dispositivos, é desejado preparar filmes com o máximo de condutividade elétrica. Filmes finos de a-SiC:H com condutividade Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 43 apropriada têm sido tradicionalmente obtidos pela dopagem in-situ, ou seja, durante o crescimento dos filmes. Filmes de a-SiC:H com alta condutividade elétrica, alta transparência e baixa densidade de defeitos são necessárias, por exemplo, na tecnologia de produção de células solares e podem ser obtidos por dopagem in-situ com boro (dopagem tipo-p) ou fósforo (dopagem tipo-n) [87]. Geralmente a dopagem tipo-p é produzida adicionando o gás B2H6 (diborana) junto aos gases precursores (normalmente SiH4 + CH4), enquanto para dopagem tipo-n é obtida utilizado o gás PH3 (fosfina). Técnicas de dopagem pós-deposição, como a implantação iônica, não têm sido muito aplicadas para o a-SiC:H. Esta técnica oferece algumas vantagens importantes sobre a dopagem in-situ, entre as principais podemos citar a possibilidade de controlar a concentração de impurezas e a possibilidade de criar padrões de dopagem. Não obstante, a criação de danos à rede devido ao processo de implantação é a principal desvantagem desta técnica. Como no carbeto de silício cristalino, é necessário realizar um processo de recozimento térmico para recuperar os danos causados à rede e principalmente para ativar eletricamente as impurezas. Por causa da alta densidade de estados permitidos no gap existente nos materiais amorfos, os poucos trabalhos que reportam a implantação iônica como processo de dopagem utilizam altas doses de impurezas [88,89], acima de 1019 cm-3. No caso do carbeto de silício cristalino, a dopagem é normalmente realizada via implantação iônica e dopagem epitaxial controlada (in-situ). A dopagem por difusão térmica de dopantes, muito utilizada na tecnologia do silício, não é utilizada em c-SiC por requerer temperaturas muito altas, acima de 1800 ºC. Isso se deve à elevada energia da ligação do Si-C, que implica num baixo coeficiente de difusão de impurezas em c-SiC [90]. Os elementos químicos comumente empregados como dopantes doadores e aceitadores em SiC são os do grupo V e grupo III da tabela periódica. A implantação de alumínio é utilizada para produzir filmes tipo-p, já que este elemento produz os melhores resultados de aceitadores ativos em SiC. A dopagem com nitrogênio, por outro lado, produz os melhores resultados em filmes de SiC tipo-n. Assim como no silício, o fósforo também pode ser utilizado como impureza doadora, sendo que a Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 44 energia de ionização do fósforo é comparável à do nitrogênio e também produz dopagem tipo-n, conforme é mostrado na tabela abaixo. Tabela 3. 3 - Elementos dopantes com suas respectivas energias de ionização em 6H-SiC. Elemento Nitrogênio Fósforo Alumínio Boro Energia de Ionização 54 ± 5 meV [95] 80 ± 5 meV [95] 200 - 250 meV [96] 300 - 400 meV [96] Outra técnica que também tem sido muito estudada em c-SiC é a dopagem durante o processo de crescimento epitaxial (in-situ) [91]. Larkin et al. [92] desenvolveu uma técnica de controle de dopantes conhecida como “site-competition epitaxy”. A dopagem é controlada desde altas doses (>1×1019 cm-3) até baixas doses (aproximadamente 1×1014 cm-3) com a introdução de uma fonte dopante em conjunto com a variação da fonte de gás de Si e C. Silano e propano são as típicas fontes de gases de silício (Si) e carbono (C), respectivamente. O estudo desta técnica também foi reproduzido em outros laboratórios que usam o gás metano como fonte de carbono. A técnica site-competition epitaxy tem sido utilizada para controlar a incorporação de dopantes como o nitrogênio, fósforo, alumínio e boro. As lâminas são normalmente dopadas tipo-n durante o seu crescimento por meio da adição dos gases fosfina ou nitrogênio, e tipo-p por diborana ou trimetilalumínio. Taxas de crescimento típicas de lâminas homoepitaxiais de 6H-SiC tipo-n são de aproximadamente 3 μm.h-1. O controle da quantidade de dopantes a serem incorporados substitucionalmente no cristal de SiC é realizado através do ajuste da relação da fonte de gases de Si/C no reator de crescimento. O modelo é baseado em competições entre átomos de nitrogênio e carbono nos sítios de C e com átomos de alumínio e silício competindo nos sítios de Si na rede do SiC. Esta técnica também é utilizada para o boro e o fósforo. Muitos grupos de pesquisas têm rotineiramente produzido o crescimento homoepitaxial de SiC de alta qualidade. Como podemos notar, tanto em a-SiC como em c-SiC ambos os tipos de dopagem, in-situ e a implantação iônica, são ferramentas vitais para fabricação de dispositivos eletrônicos. A implantação iônica tem a vantagem da possibilidade de Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 45 uma dopagem seletiva, além da facilidade do controle prévio de impurezas a ser incorporado no material. Por outro lado à dopagem in-situ tem a vantagem de não introduzir danos à rede do material, a qual elimina a necessidade de etapas posteriores de dopagem e de recozimento térmico para ativação de impurezas e reconstrução da rede, além de ser um processo mais simples e econômico, uma vez que o filme já sai dopado reator de deposição e não necessita de processos subseqüentes. Em trabalhos anteriores [28,93,94] foram desenvolvidos estudos sobre a dopagem elétrica de filmes de a-Si1-XCX:H quase estequiométricos (x~0,5) obtidos pela técnica PECVD a baixas temperaturas (320ºC). As amostras foram dopadas tipo-n e tipo-p pelas técnicas de implantação iônica e difusão térmica. Para dopagem tipo-n foi utilizada a técnica de implantação iônica de nitrogênio e fósforo, com diferentes doses, energias e tratamentos térmicos pós-implantação. Para a dopagem tipo-p foi empregado o processo de difusão térmica de alumínio, estudando diferentes temperaturas e tempos recozimento. Também foram feitos testes de dopagem por implantação iônica de boro. Agora, neste presente trabalho, a proposta é a de aprimorar ainda mais estes processos de dopagem. Assim, apresentamos um estudo de dopagem in-situ com nitrogênio para formação de películas dopadas tipo-n a partir do próprio reator de deposição PECVD. Além disso, realizamos também um estudo detalhado de aprimoramento da dopagem tipo-p com o processo de implantação iônica com BF2+, e via difusão térmica de alumínio, em conjunto com a cristalização dos filmes, este processo seguiu-se conforme os estudos apresentados anteriormente de cristalização. As condições de dopagem tipo-n, com nitrogênio, e tipo-p, com boro e alumínio, são apresentadas a seguir: A. Dopagem “in-situ” com nitrogênio Em carbeto de silício cristalino o nitrogênio e o fósforo são os dopantes mais utilizados. Devido à sua menor energia de ionização (~54 meV), a dopagem com nitrogênio é normalmente mais eficiente, além de ser um gás de baixo custo e não Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 46 tóxico [95]. Portanto, neste trabalho apresentamos um estudo da dopagem in-situ com N2 em filmes de a-Si0,5C0,5:H obtidos em baixas temperaturas por PECVD. Os filmes foram crescidos com e sem diluição em hidrogênio na mistura gasosa precursora, com o intuito de estudar o efeito da dopagem em materiais com diferente ordem química e estrutural. A dopagem foi obtida através da adição de pequenas quantidades de N2 à mistura gasosa (SiH4 + CH4) com o objetivo de promover a incorporação do nitrogênio nos filmes de a-Si0,5C0,5C:H. Neste caso foram estudadas amostras crescidas nas mesmas condições da Tabela 3. 1. A quantidade de N2 adicionada à mistura gasosa é dada na Tabela 3. 4. O efeito da dopagem foi avaliado através de condutividade elétrica no escuro (σd) e pela energia de ativação (EA) obtidos de medidas corrente-voltagem (IxV) a diferentes temperaturas. A natureza das ligações químicas foi determinada por espectroscopia no infravermelho (FTIR). Tabela 3. 4 - Condições de dopagem in-situ com N2. Amostra Tipo C3680 C3690H Nome Fluxo N2 (sccm) N0,1 N0,5 N1,0 N0,1 N0,5 N1,0 0,1 0,5 1,0 0,1 0,5 1,0 B. Dopagem por implantação iônica com B+ e BF2+ Para a formação de perfis de dopagem tipo-p são utilizados íons de átomos trivalentes do grupo III da tabela periódica (especialmente Al e B em SiC). Em comparação com o alumínio, em SiC o boro possui menor solubilidade e um nível aceitador mais profundo no seu gap de energia. Por outro lado, o boro possui um interesse especial devido à sua menor massa. Com isso, sua implantação causa menos danos à rede cristalina e possibilita a utilização de menores energias de Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 47 implantação para alcançar uma mesma profundidade ou, no caso de maiores energias, uma maior facilidade em se obter junções profundas. Porém, a massa menor torna-se um problema para a obtenção de uma alta concentração de dopantes na superfície, prejudicando, por exemplo, a obtenção de um bom contato ôhmico. Troffer et al. [96] apresentaram um estudo a respeito da dopagem de Al e B via implantação iônica, onde o efeito da difusão do boro durante o recozimento térmico pós-implantação para ativação das impurezas e reconstrução da estrutura cristalina foi analisado. Foi observado que o tratamento térmico promove uma difusão do boro para o substrato, e a superfície sofre uma exodifusão dos seus átomos, influenciando diretamente o comportamento elétrico das amostras. Diversos trabalhos têm reportado o processo de difusão de boro em c-SiC [97,98]. Na tecnologia do silício, onde o boro é a principal impureza doadora, é muito difícil obter uma junção p+/n ultra-rasa devido ao tunelamento do boro e à sua difusão. Para satisfazer à necessidade da formação de uma junção ultra-rasa, várias adaptações têm sido implementadas nos processos, como exemplo, a utilização de energias de implantação extremamente baixas. Diversos artigos [99,100] têm reportado uma alternativa a esta questão, que é a utilização da implantação iônica de BF2+. A implantação utilizando BF2+ ao invés de B+ tem sido amplamente utilizada na formação de camadas tipo-p para a fabricação de dispositivos eletrônicos baseados em Si, devido a sua maior massa e conseqüente minimização do efeito de tunelamento do íon implantado. Até então, nossos resultados prévios com implantação iônica com boro [93] não foram muito satisfatórios e, baseados nos bons resultados apresentados pela literatura do silício relacionada com a produção de junções rasas p+, decidimos investigar aqui pela primeira vez o efeito da implantação de BF2+ em nossos filmes de a-Si0,5C0,5:H. Estes experimentos de dopagem com B+ e BF2+ foram realizados no implantador iônico pertencente ao Laboratório de Microeletrônica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. As condições de processo são apresentada na tabela a seguir, as quais foram definidas de acordo com simulações prévias realizadas no simulador SRIM-2000 utilizando múltiplas doses e energias, com a Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 48 finalidade de produzir uma camada homogeneamente dopada de 300 nm. Uma concentração fixa de 1×1020 cm-3 de B+ e BF2+ foram estudados. Após o processo de dopagem foi realizado um tratamento térmico em 550 ºC por 1 hora num sistema em alto vácuo (~10-6 Torr) para induzir a ativação elétrica dos elementos dopantes e redução dos danos causados à rede. O efeito da dopagem foi avaliado através da varição da condutividade elétrica no escuro (σd) e pela energia de ativação (EA) obtidos de medidas corrente-voltagem (IxV) a diferentes temperaturas. A natureza das ligações químicas foi determinada pela espectroscopia no infravermelho (FTIR) e o perfil de profundidade dos átomos de boro foi determinado pela técnica SIMS. Condições de dopagem das amostras de a-SiC:H por implantação de BF2+ e B+. Concentração C= 1020 at./cm3 Energia 10 keV 30 keV 65 keV Doses D1 = 5,00 1014 cm-2 D2 = 1,00 1014 cm-2 D3 = 1,50 1015 cm-2 C. Dopagem por difusão térmica de alumínio Nos últimos anos tem ocorrido um significante progresso na compreensão das propriedades do carbeto de silício cristalino, no crescimento de monocristais e no desenvolvimento de uma tecnologia voltada para a produção de dispositivos eletrônicos baseados especificamente em SiC. Não obstante, ainda são muitos os obstáculos a serem superados antes do SiC poder ser amplamente utilizado em dispositivos. Muitos destes problemas estão relacionados com o recozimento para reconstrução dos danos produzidos no cristal pela implantação iônica (já que este é praticamente o único método praticável para dopagem seletiva devido à necessidade de temperaturas muito elevadas para a dopagem por difusão térmica) e mais especificamente com a ativação elétrica de átomos aceitadores em SiC [101]. Em contraste com o doador nitrogênio, todos os átomos aceitadores possuem um nível aceitador relativamente profundo em SiC. Assim, é muito difícil produzir baixas resistividades em lâminas tipo-p de SiC, a qual é necessária, por exemplo, para a formação de bons contatos ôhmicos num material tipo-p. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 49 O principal elemento aceitador em SiC é o alumínio, com uma energia de ionização de aproximadamente 200 meV. De acordo com modelos teóricos [101] são necessárias concentrações maiores que 2×1020 cm-3 para se obter resistividades abaixo de 0,1 Ω.cm em temperatura ambiente. Além disso, outro problema está relacionado com a solubilidade do Al em c-SiC, na qual em concentrações acima de 2×1020 cm-3 tem havido problemas com a ativação das impurezas devido à precipitação de Al. Heera et al. [102] tem reportado a dopagem de altas concentrações de Al por implantação em SiC nanocristalino, onde a estrutura eletrônica e a capacidade de incorporação de impurezas são modificadas. Em trabalhos anteriores [93] temos realizado com sucesso a dopagem tipo-p em filmes de a-SiC:H via difusão térmica de Al, que indica apresentar um coeficiente de difusão térmica diferente do c-SiC por se tratar de um material amorfo. Agora, neste novo trabalho, promovemos a dopagem dos filmes a temperaturas um pouco mais elevadas, com o objetivo de também cristalizar o material. Para a dopagem por difusão térmica foi depositada uma película de Al de aproximadamente 50 Ǻ pela técnica de Electron Beam, e o processo de difusão seguiu-se conforme os estudos de cristalização realizados previamente: tratamentos térmicos a 550, 750 e 1000 ºC por 2 horas num sistema em alto vácuo com pressões da ordem de 10-6 Torr. Para a caracterização elétrica, eletrodos de Al em arranjo coplanar foram obtidos por evaporação térmica, uma posterior sinterização foi realizada em 400 ºC por 20 minutos. O efeito da dopagem foi avaliado através da condutividade elétrica no escuro (σd) e pela energia de ativação (EA) obtidos de medidas corrente-voltagem (IxV) a diferentes temperaturas. A natureza das ligações químicas foi determinada por espectroscopia no infravermelho (FTIR). Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 50 3.3.2 – Dispositivos I. Capacitores tipo metal-óxido-carbeto de silício (MOSiC) Como já dito anteriormente, o carbeto de silício é um material semicondutor interessante para aplicações que envolvem altas temperaturas, altas potências e altas freqüências devido as suas propriedades elétricas e mecânicas. Embora, historicamente, o SiC tenha sido o primeiro semicondutor a apresentar eletroluminescência, a dificuldade em obter cristais levou o desenvolvimento de outros materiais semicondutores (sendo que o principal deles foi o da indústria do silício), conseqüentemente o interesse pelo SiC diminuiu muito no final dos anos 60. Porém, no final da década de 1970, foram desenvolvidos novos métodos para obtenção de cristais a de crescimento epitaxial, como o método de Lely e o CVD. Com estes novos métodos as propriedades elétricas de lâminas do SiC se encontravam num padrão que permitia fabricar uma grande variedade de dispositivos eletrônicos, embora ainda não fossem produzidas lâminas comercialmente, o que só ocorreu no final da década de 1980. A Figura 3. 8 mostra o número de artigos produzidos relacionados à tecnologia do SiC ao longo dos anos. Neste gráfico percebe-se claramente um crescimento de exponencial do número de artigos referentes ao SiC a partir da década de 1980, devido o aperfeiçoamento e produção comercial de lâminas de SiC. Outra característica extremamente importante do carbeto de silício é que ele é o único material semicondutor, além do silício, a produzir termicamente óxido de silício. Não obstante, a qualidade deste óxido é adequada para fabricação de dispositivos eletrônicos industrialmente. Muitos pesquisadores têm estudado o crescimento de SiO2 sobre SiC visando a melhoraria da sua qualidade. Como pode ser visto na Figura 3. 8, a contribuição de artigos com estruturas SiO2/SiC (análises física, química e elétrica de estruturas MOS) também tem crescido exponencialmente no últimos anos. Camadas isolantes de óxido são necessárias em muitas aplicações: (i) a principal de todas, para fabricar estruturas MOS, que é a primeira etapa para Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 51 integração; (ii) para fabricar óxido de campo usado, por exemplo, em estruturas “mesa” de diodos de bloqueio de tensão reversa >1 kV, no qual o campo elétrico de superfície é maior que em dispositivos baseados em silício e (iii) como máscara para fabricação de dispositivos. Para as duas primeiras aplicações é necessária uma boa qualidade elétrica do óxido (resistividade e um campo elétrico de ruptura o mais alto possível). Como podemos notar a fabricação de estruturas MOS é uma ferramenta importante para caracterização elétrica de um semicondutor e de fundamental importância para a fabricação de dispositivos eletrônicos. Com isso em mente, neste capítulo apresentaremos um breve estado da arte a respeito da oxidação e caracterização de capacitores tipo metal-óxido-carbeto de silício (MOSiC), em conjunto com os primeiros resultados experimentais referentes a oxidação de filmes cristalizados de SiC PECVD, além da caracterização elétrica de diferentes estruturas MOSiC feitas a partir deste material. Figura 3. 8 - Número de artigos publicados no campo do SiC nas últimas décadas: (quadrados abertos) como material semicondutor e (triângulos fechados) como estruturas metal-óxidosemicondutor MOS. Os dados foram retirados da referência [103]. - Oxidação térmica Crescido sob as mesmas condições, a oxidação térmica do SiC é mais lenta que a oxidação do Si. Numa oxidação realizada em condições convencionais (fluxo de O2 ou H2O entre 800 e 1200 ºC) são necessárias várias horas de processo para Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 52 obter uma camada de óxido. Por exemplo, o crescimento de 40 nm de óxido seco a 1150 ºC em uma lâmina de 6H-SiC leva 3,5 horas no experimento descrito na referência [104]. Os óxidos térmicos têm sido caracterizados por elipsometria e espectroscopia Auger, apresentando uma sílica praticamente estequiométrica. Como tem sido demonstrado [105], os fenômenos e comportamentos da cinética de oxidação do SiC são os mesmos que descrevem a oxidação do Si, como definido por Deal e Grove [106]. No início, o regime de crescimento do óxido é linear, no qual a oxidação é limitada pelas reações na interface SiO2/SiC. Então, uma vez formada a camada de óxido, a espécie oxidante tem que passar através desta camada de óxido. Durante esta fase controlada pela difusão, a taxa de oxidação se torna menor e apresenta um regime de crescimento parabólico. Esta lei de crescimento pode ser escrita como: x2 +Ax = B(t + τ), onde x é a espessura do óxido e t é o tempo de oxidação. Quando um óxido de espessura x é formado, 0,45x é consumido da espessura do SiC. A constante τ leva em conta a espessura inicial da camada de óxido. A razão B/A é chamada de taxa linear e é proporcional à taxa de reação da reação mais lenta. A constante B é proporcional ao coeficiente de difusão, o qual é chamado de taxa parabólica. Estas duas constantes são ativadas termicamente como exp(-EB/A/kT) e exp(-EB/kT) para a taxa linear e parabólica, respectivamente. A dependência da taxa de oxidação em relação aos diferentes politipos não é conhecida. Parâmetros como concentração de dopantes, face do cristal (face-Si ou face-C), pressão parcial de oxigênio e temperatura de oxidação são fatores que aparentemente determinam o processo de oxidação do SiC [107]. Dados experimentais também têm demonstrado que a face-C oxida mais rapidamente que a face-Si. A oxidação de SiC amorfo [108,109] é muito mais rápida que a oxidação do SiC cristalino. Alguns trabalhos [109,110] têm mostrado que o óxido formado em regiões do SiC que tenham sido amorfizadas (mudadas para o estado amorfo) por implantação iônica, é de baixa qualidade de ponto de vista elétrico e não pode ser usado como isolante em dispositivos MOS. Porém pode ser utilizado como camadas espessas de óxido de campo [110], uma vez que a taxa de crescimento é muito maior Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 53 que do c-SiC. Também é possível usar este óxido para fabricar regiões oxidadas localmente, de maneira similar à oxidação local da tecnologia do silício (LOCOS). - Propriedades elétricas Uma grande parte dos estudos tem sido dedicada à análise de capacitância (C) em função da voltagem (V), C(V), de dispositivos MOS baseados em SiC. Para a limpeza inicial dos substratos, o procedimento mais comum é, primeiramente, desengordurar as lâminas usando uma seqüência de solventes orgânicos como acetona, tricloroetileno (TCE) e metanol ou propanol [111]. Entre cada etapa, a lâmina é enxaguada em água deionizada (água DI). Então, a amostra é limpa quimicamente em HF ou HNO3 e novamente em água DI. Finalizando, submete-se a limpeza padrão RCA (Radio Corporation of America) [112]. Após o processo de oxidação, é freqüentemente realizado um processo de recozimento térmico em ambiente de Ar à mesma temperatura de oxidação, com o intuito de diminuir cargas e armadilhas de interface no óxido [103]. Tem sido comumente observado que dispositivos baseados em SiC possuem uma grande quantidade de cargas e armadilhas de interface, tanto em oxidação úmida como seca, quando comparados aos fabricados em Si. Tabela 3. 5 - Propriedades elétricas de óxidos crescidos sobre 3C, 4H e 6H-SiC. Politipo 6H Campo Elétrico de Ruptura (MV cm-1) 8 [110], 9,5 [113] 9,5 [114] 10 [115,116] 2 [108], 10-11 [117] 3C 2,5 [118], 3,3 [119] 6 [120], 8 [121] 10 [115] 4H 10 [115] Índice de Refração 1,463 ± 0,003 [108] 1,49 ± 0,05 [108] Resistividade (Ω.cm) 2×1012 [108] 8,5×1015 [118] ~1016 [119] A Tabela 3. 5 sumariza algumas propriedades do óxido crescido sobre SiC. Como pode ser visto o campo elétrico de ruptura, EB, é da ordem de 8-11 MV cm-1, valor comparável aos dos óxidos crescidos sobre Si (13 MV cm-1). Friedrichs et al. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 54 [115] mostraram que o campo elétrico de ruptura não depende nem do politipo (4H e 6H-SiC) e nem da concentração de dopantes. Porém, alguns estudos realizados em politipos cúbicos (3C-SiC) tem apresentado baixos valores de EB, de 2,5 até 6 MV cm-1 [118,120]. De acordo com Soloviev et al. [122], a ruptura ocorre em locais que possuem defeitos estruturais (como regiões com diferentes orientações cristalográficas, inclusões de politipos e diferentes concentrações de dopagem entre outras). O índice de refração é o mesmo do óxido crescido sobre silício, de 1,457 [108], e alta resistividade, da ordem ~1016 Ω cm, têm sido reportada pela literatura [119]. - Propriedades elétricas deduzidas partir de medidas C-V O capacitor MOS é a estrutura básica para caracterização de tecnologias MOS. Ele é muito utilizado para esta finalidade pela simplicidade da sua fabricação e análise. A estrutura MOS é formada por um material condutor (alumínio, silício policristalino altamente dopado, etc.), isolante (dióxido de silício, oxinitreto de silício, etc.) e semicondutor (silício, carbeto de silício, etc.). A diferença com um capacitor de placas paralelas é a troca de uma das placas metálicas por um semicondutor. A partir daí, tem-se uma capacitância adicional (capacitância do semicondutor) que em série com a capacitância tradicional devido ao isolante (capacitância do óxido), altera o valor final da capacitância total do dispositivo. A alteração da capacitância total é função da tensão aplicada nos terminais do dispositivo e pode ser observada na curva de capacitância em função da tensão (C-V). A partir das medidas de capacitância em função da tensão a alta e baixa freqüência (C-V AF e C-V BF) pode-se extrair uma série de parâmetros tecnológicos fundamentais. Como o carbeto de silício possui um alto gap de energia (aproximadamente 3 eV para o 6H-SiC), portanto a concentração de portadores intrínsecos é muito menor que para o silício (ver Tabela 2. 1), a qual produz uma taxa de geração e recombinação de portadores muito pequena comparadas com o Si. Com isso, não é comum observar a formação da camada de inversão em dispositivos MOSiC sem iluminar as amostras, principalmente para dispositivos tipo-p [123,124]. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 55 Em geral, curvas a altas freqüências (AF) são obtidas a 1 MHz ou 100 kHz. A Figura 3. 9 mostra curvas C-V obtidas a 1 MHz de um capacitor tipo-p de 6H-SiC [125] (linha contínua). O deslocamento na tensão de banda plana, ΔVFB, em relação à curva teórica (não apresentada) é devido à quantidade de cargas efetivas presentes no óxido (Qeff), da ordem de 1012 cm-2. Quando a estrutura está originalmente em acumulação e a rampa de tensão é aplicada à porta, a capacitância entra em depleção profunda se a amostra estiver no escuro. Após iluminá-la a camada de inversão é formada. Quando a tensão de porta muda a estrutura de inversão para acumulação, observa-se uma “lombada” na capacitância [103,120,124], devido à densidade de estados de interface. Com o aumento da concentração de lacunas, a densidade de estados de interface diminui através da captura de lacunas, produzindo a lombada observada, como também é observado em estruturas MOS de Si em 77 K [126]. A histerese apresentada é um indicativo de que o número de estados não é igual à temperatura ambiente. Esta histerese também tem sido reportada em estruturas MOS de Si 77 K [126] e no experimento de Shenoy et al. [111]. Os autores [111] sugerem que as armadilhas responsáveis por esta histerese estão próximas à interface e interagem com o semicondutor por tunelamento. Figura 3. 9 - Curvas obtidas a altas (linha contínua) e baixas (linha pontilhada) freqüências, medidas am ambos os sentidos (inversão → acumulação e acumulação → inversão) a temperatura ambiente num capacitor tipo-p de 6H-SiC [125]. Capacitâncias a baixas freqüências (BF) são medidas usando o método quaseestático (QSM), utilizando um tempo de varredura lento da ordem de 20 mV s-1. No caso da Figura 3. 9, quando a medida é feita da inversão para a Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 56 acumulação, a presença de um pico na zona de depleção é interpretada como função das armadilhas de interface [125]. Realizando a medida em outra direção, a presença do pico é devida às condições de não-equilíbrio, por exemplo, a injeção de portadores minoritários que estão em excesso na superfície do substrato [127]. Quando esta carga de superfície não se recombina em uma determinada a taxa de varredura. A densidade de estados de interface, Dit, geralmente tem sido obtida utilizando as curvas a baixa freqüência, a qual pode ser calculada pelo método descrito por Brews e Niccolian [128]. - Detalhes experimentais Para a fabricação dos capacitores MOSiC foram utilizados diferentes dielétricos, de modo a comparar o comportamento dos dispositivos baseados com estes diferentes isolantes. Dessa maneira dividimos o experimento em três grupos de capacitores: • Grupo 1 – Capacitores MOSiC (metal-óxido-carbeto de silício), com óxidos crescidos termicamente a partir do SiC PECVD cristalizado: oxidação seca e úmida; • Grupo 2 – Capacitores MOSiC (metal-óxido-carbeto de silício) com diferentes isolantes depositados por PECVD: óxido de silício e oxinitreto de silício e • Grupo 3 – Capacitores MOS (metal-óxido-silício) fabricados a partir de substratos de silício via oxidação térmica seca, para ser utilizado como um capacitor de referência. Filmes de a-SiC:H com espessura de 850 nm foram depositados por PECVD sobre lâminas tipo-n de Si(100) (ρ ~ 3 Ω.cm) de 2 polegadas. As condições de deposição são apresentadas na Tabela 3. 6, onde a concentração de carbono dos filmes, medida por RBS, também é mostrada. Para a fabricação dos capacitores do Grupo 1, após a deposição dos filmes amorfos foi realizado um processo de cristalização num forno em ambiente de N2 a Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 57 1100 ºC por 2 horas. Como pode ser visto no capítulo referente ao processo de cristalização, é formado um filme de 3C-SiC policristalino. Após um processo de limpeza padrão RCA em ambiente de sala limpa, uma etapa de oxidação seca sacrificial (processo chamado convencionalmente de “gettering”) foi realizada a 900 ºC durante 30 minutos (aproximadamente 80 nm de espessura de SiO2). A camada de óxido foi removida por uma solução de HF com o intuito de remover pequenos defeitos causados pela cristalização além de remover impurezas da superfície. As amostras foram então novamente limpas e oxidadas. A Tabela 3. 7 apresenta as condições de oxidação seca e úmida utilizadas para este processo. Por outro lado, para a fabricação dos capacitores do Grupo 2, logo em seguida a deposição do a-SiC:H foi depositado o filme isolante, no mesmo processo, sem a abertura da câmara PECVD. As condições de deposição dos filmes de SiO2 e SiOXNY são mostradas na Tabela 3. 8. Somente então, com a estrutura isolante/SiC/Si formada, foi realizado o processo de cristalização seguindo as mesmas condições utilizadas para as amostras do Grupo 1. Tabela 3. 6 - Condição de deposição das amostras obtidas por PECVD. Amostra C3690H Fluxo SiH4 (sccm) 3,6 Fluxo CH4 (sccm) 32,4 Fluxo H2 (sccm) 200 rf (W) 20 Temp. (ºC) 320 Espessura (nm) 850 ± 30 x 0,52 Tabela 3. 7 - Parâmetros utilizados para o processo de oxidação térmica. Oxidação Seca Úmida Limpeza Gettering: 80 nm de SiO2 + RCA Gettering: 80 nm de SiO2 + RCA Temperatura Tempo Espessura 1000 ºC 160 min 158 nm 900 ºC 90 min 61 nm Para o processo de fabricação do capacitor de Si de referência, Grupo 3, seguiu-se as mesmas seqüências empregadas para a fabricação do MOSiC fabricado com oxidação térmica seca (Grupo 1). Neste processo de oxidação da lâmina de referência de silício obteve-se um óxido térmico com a espessura de 125 nm, ou seja, 30 % mais fino que o óxido obtido sob as mesmas condições de processamento a Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 58 partir do SiC PECVD cristalizado (160 nm). Como vimos anteriormente, a literatura reporta que a oxidação térmica do SiC monocristalino é mais lenta que a oxidação do Si monocristalino crescidos sob as mesmas condições. Portanto, isto é um indicativo de que nosso material “cristalizado” ainda deve ser policristalino e conter uma grande quantidade de defeitos estruturais que contribuirão fortemente na qualidade do óxido obtido e, conseqüentemente, diretamente no desempenho dos dispositivos. Dando continuidade a fabricação dos dispositivos de SiC, foi realizada uma etapa de fotolitografia do óxido, na qual uma parte da camada de SiO2 foi removida para que contatos elétricos pudessem acessar o SiC. Um esquema das máscaras utilizadas no processo de fotolitografia para a fabricação da estrutura MOSiC é apresentada na Figura 3. 10. Os dispositivos foram então metalizados através da evaporação térmica de Al, com espessura de aproximadamente 500 nm. Os contatos elétricos foram definidos por um processo litográfico convencional, definindo geometrias quadradas de áreas de 9, 16 e 25×10-4 cm2. Para melhorar a qualidade dos contatos elétricos foi realizado um recozimento térmico a 400 ºC por 20 min. Tabela 3. 8 - Condição de deposição das amostras isolantes obtidas por PECVD. Isolante Fluxo SiH4 (sccm) Fluxo N2O (sccm) rf (W) Temp. (ºC) Espessura (nm) SiO2 SiOXNY 3 15 39 45 100 200 320 320 226 140 Os capacitores foram caracterizados eletricamente a partir de medidas de capacitância-tensão (C-V) a alta freqüência (taxa de varredura de 20mV/s), utilizando um equipamento Keithley Serie 82. A partir destas medidas extraímos as principais características elétricas. 50 μm 50 μm 300 μm 300 μm (a) Máscara C1 - Definição da geometria para corrosão do filme isolante (acesso ao filme semicondutor) Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 59 20 μm 250 μm (b) Máscara C2 - Definição dos contatos elétricos Máscaras de Processo A seguir ilustramos a seqüência das etapas do processo para a fabricação dos capacitores MOSiC: A – Limpeza química do substrato de Si B – Deposição do filme de SiC pela técnica PECVD C – Deposição ou crescimento do filme isolante Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 60 D – Fotogravação com a Máscara C1 e corrosão do filme isolante (acesso ao SiC) E – Fotogravação com a Máscara C2 (lift-off) e deposição do filme metálico F – Remoção do fotoresiste e definição dos contatos elétricos: Estrutura final Legenda: Substrato Silício Isolante Filme SiC PECVD Alumínio Fotoresiste Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 61 contato isolante contato SiC Vista superior do dispositivo Figura 3. 10 - Estrutura final do capacitor MOSiC. II. Heterojunções SiC/Si Estudos com heteroestruturas de SiC/Si são interessantes, por exemplo, para fabricação de transistores heterobipolares [129,130] ou para dispositivos optoeletrônicos [131,132]. O uso do carbeto de silício amorfo pode ser preferido se comparado com o uso do material monocristalino por causa da temperatura de formação ser relativamente baixa, a qual garante uma maior compatibilidade entre os processos de obtenção do carbeto de silício com a atual tecnologia do silício. Além disso, as propriedades de heterojunções de filmes de c-SiC e poli-SiC crescidos sobre c-Si sofrem com a elevada diferença das constantes de rede e dos coeficientes de expansão térmica entre os dois materiais, gerando um stress residual e uma alta densidade de defeitos de interface. Apesar deste inconveniente, existem várias aplicações que podem ser beneficiadas com esse sistema heteroepitaxial. SiC/Si com propriedades aperferfeiçoadas possuem potenciais aplicações, por exemplo, em dispositivos chaveadores [133,134], sensores [135] e sistemas microeletromecânicos (MEMS) como membranas com baixo stress [136]. Desse modo, é importante obter heterojunções de SiC/Si de alta qualidade e entender suas propriedades físicas e elétricas. A literatura tem reportado que a deposição de películas de SiC sobre Si em baixas temperaturas resulta em junções Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 62 com pobre desempenho elétrico, isto é, com baixa voltagem de ruptura e elevada corrente reversa de fuga [137]. Assim sendo, é de grande interesse fabricar heterojunções de a-SiC:H PECVD depositado a baixa temperatura sobre substratos de silício cristalino e estudar, por exemplo, o efeito do processo de cristalização. Com isso em mente, neste capítulo apresentamos uma breve introdução teórica, com os conceitos básicos relativos às heterojunções, e também os resultados experimentais de heterojunções de SiC/Si com filmes de carbeto de silício amorfos e cristalizados. O objetivo é comparar o desempenho de heterojunções de SiC/Si desde a fase amorfa até um material policristalino. - Conceitos básicos Diodos p-n convencionais utilizam perfis de dopagem de modo a controlar as correntes de elétrons e lacunas. As cargas de doadores e aceitadores ionizados na região de depleção, perto do limite entre os semicondutores tipo-n e p, criam um campo elétrico no qual resulta uma barreira de potencial para elétrons e lacunas. A energia de potencial para elétrons é determinada pela parte inferior da banda de condução e a energia potencial para lacunas é determinada pelo topo da banda de valência. Na presença de um campo elétrico as bandas são entortadas, mas ainda permanecem paralelas entre si. Mudando a composição do material em função da espessura, é possível criar novas formas de governar o comportamento de elétrons e lacunas, como foi explicado por Kroemer [138]. A Figura 3. 11 compara qualitativamente o diagrama de bandas de semicondutores com uma composição uniforme e gradual e, conseqüentemente, com gaps de energia uniforme e gradual, respectivamente. Em um semicondutor gradual, o campo “empurra” elétrons e lacunas para a mesma direção. Se a mudança da composição do material é abrupta, a mudança no gap de energia também é abrupta, como ilustrado na Figura 3. 12. O diagrama de bandas mostrado nesta figura corresponde a uma camada de um semicondutor com gap de energia estreito localizado entre duas camadas de um semicondutor de gap largo. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 63 energia EC EC EV EV composição uniforme composição gradual distância Figura 3. 11 - Diagrama de bandas qualitativo para um semicondutor com composição uniforme e gradual. energia EC EV distância Figura 3. 12 - Diagrama de bandas qualitativo para um semicondutor de gap estreito localizado entre duas camadas de semicondutores de gap largo. Se a camada de gap de energia estreito for bastante fina, forma-se um poço de potencial quântico para portadores de cargas. As mudanças abruptas na banda de condução e de valência são criadas por forças químicas produzidas pelo contato entre os dois diferentes materiais que formam a heteroestrutura. Os dois exemplos descritos nas figuras anteriores mostram claramente que um sistema baseado em heteroestruturas que pode abrir novas e interessantes possibilidades para dispositivos semicondutores. Como dispositivos incluem diodos, transistores, células solares, diodos emissores de luz, lasers e outros dispositivos Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 64 optoeletrônicos. Porém, neste trabalho foi investigada apenas uma heteroestrutura baseada num heterodiodo. Quando dois semicondutores diferentes são unidos os átomos da heterointerface têm que formar ligações químicas. Se as constantes de rede dos dois materiais são diferentes, os átomos da heterointerface têm que se ajustar desenvolvendo uma tensão. Se esta tensão excede um valor crítico, resulta em deslocações na rede cristalina, as quais são imperfeições que se propagam por várias camadas atômicas. Outra conseqüência dos defeitos de rede entre dois materiais numa heterojunção é a formação de estados de interface, similar aos da interface metal-semicondutor. Estes defeitos atuam como centros de geração e recombinação para elétrons e lacunas, limitando o tempo de vida e a mobilidade. O resultado disso pode ser a obtenção de dispositivos com propriedades eletrônicas muito pobres. Um possível modo de evitar este problema é usar materiais com constantes de redes muito parecidos, como no caso do GaAs e AlAs. Outra maneira é usar uma fina película alternativa entre os dois materiais semicondutores, que distribui mais uniformemente as tensões entre os dois materiais, inibindo a formação de defeitos. Por exemplo, em heteroestruturas de SiC/Si, tem sido estudada [139] a modificação da superfície do Si (111) pela pré-deposição de uma fina película de Ge sobre o Si em combinação com o posterior crescimento epitaxial de SiC. Este crescimento promove uma melhora substancial nas propriedades elétricas da heterojunção. Em resumo, as interfaces de heterojunções podem estar longe da ideal, especialmente quando a diferença de constante de rede for grande. Não obstante, um modelo para uma heterojunção ideal, que foi primeiramente desenvolvido por Anderson [140], tem sido muito útil para compreender o comportamento destes dispositivos. De acordo com este modelo, a banda de energia em cada um dos materiais que forma a heteroestrutura não é afetada. Conseqüentemente, o problema se reduz a um alinhamento da banda na heterointerface. Anderson assumiu que o nível de energia de vácuo é contínuo e que a descontinuidade da banda de condução é determinada pela diferença das eletroafinidades, X1 e X2, das duas regiões: ΔEC = X1 – X2 A descontinuidade da banda de valência é então dada por: Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 65 ΔEV = ΔEG – ΔEC = ΔEG – X1 + X2 onde ΔEG é a descontinuidade do gap de energia. Porém, este modelo está em desacordo com os dados experimentais e diferentes modelos alternativos têm sido propostos (por exemplo, Kromer et al. [141] e Tersoff et al. [142]). Tersoff postulou que as descontinuidades da banda das heterojunções são controladas pelo mesmo mecanismo que controla a altura de barreira em diodos Schottky. Além da troca de elétrons que acontece entre os dois materiais no caso ideal, este mecanismo responde também pela troca de portadores com estados de interface. De acordo com este modelo, considerando os dois materiais separadamente, a descontinuidade da banda de condução pode ser relacionada à diferença das alturas das barreiras Schottky como nível de vácuo, qφb1 e qφb2, então: ΔEC = q(φb1 - φb2). Eizenberg et al. [143] testou este modelo experimentalmente medindo as alturas das barreiras Schottky e a descontinuidade de bandas para AlXGa1-XAs (com diferentes valores de x) e GaAs utilizando a técnica de fotoemissão interna e obteve boa correlação. Na maioria dos modelos, entretanto, a única diferença em relação ao modelo ideal de Anderson é a diferente escolha do ΔEC/ΔEV. Em princípio este parâmetro pode ser determinado experimentalmente. Porém, diferentes experiências reportam valores um pouco diferentes, até mesmo para a heterojunção de AlXGa1-XAs/GaAs, que tem sido amplamente estudada. Quando dois semicondutores formam uma heterojunção, o nível de Fermi dever ser constante ao longo do sistema em equilíbrio. Como para uma junção p-n convencional, esta exigência conduz a um entortamento das bandas, como mostrado na figura a seguir. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 66 Figura 3. 13 - Diagrama de bandas de energia de uma heterojunção p-n. Se a descontinuidade da banda de condução, ΔEC, é conhecida, o potencial interno, Vbi, pode ser encontrado a partir desta figura: qVbi = EG1 - ΔEFn - ΔEFp + ΔEC Aqui, EG1 é o gap de energia do semicondutor de gap estreito, o qual nós assumimos ser dopado tipo-p, ΔEFp é a diferença entre o nível de Fermi e o topo da banda de valência neste material, e ΔEFn é a diferença entre a parte debaixo da banda de condução e o nível de Fermi do semicondutor de gap largo. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 67 - Propriedades elétricas As propriedades elétricas que caracterizam uma heterojunção são obtidas a partir das curvas características de corrente-tensão (I-V) e capacitância-tensão (C-V). De fato, a partir destas propriedades é possível obter informações a respeito da estrutura de bandas de uma heterojunção (por exemplo, o tipo de heterojunção e o potencial interno), bem como determinar seu desempenho como dispositivo. Portanto, a seguir descrevemos brevemente os principais modelos usados pela literatura para explicar o comportamento elétrico dos dispositivos. Quando dois semicondutores com condutividades opostas são colocados em contato, as cargas são transferidas de um para o outro até que os níveis de Fermi sejam igualados. Isso causa a formação de uma região de depleção em ambos os lados da interface. Anderson [140] mostrou que a expressão para a capacitância de junção de uma heterojunção com estados de interface desprezíveis pode ser derivada facilmente. Com base neste modelo a capacitância de junção por unidade de área de uma heterojunção abrupta pode ser escrita como: 1/ 2 ⎡ qε n ε p N n N p ⎤ −1 / 2 C= ⎢ ⎥ .(Vbi − V ) , ⎣⎢ 2(ε n N n + ε p N p ) ⎦⎥ onde Nn e Np são as concentrações de doadores e aceitadores, e εn e εp são as constantes dielétricas dos semicondutores tipo-n e p respectivamente, Vbi é o potencial interno, V a tensão aplicada e q a carga eletrônica. Como pode ser visto, com esta expressão é possível extrair o valor do potencial interno Vbi a partir de um gráfico de C-2 em função de uma tensão reversa V. O comportamento é linear e quando extrapolado até interceptar o eixo de tensão é obtido o potencial interno. De fato, a variação linear da curva C-2 em função de V é um indicativo da presença de uma heterojunção abrupta e tem sido freqüentemente utilizada para determinar o valor experimental de Vbi. As curvas de corrente-tensão de uma variedade grande de heterojunções têm sido extensivamente caracterizadas em diversos trabalhos. Alguns dos resultados destas investigações são apresentados na Tabela 3. 9. Como pode ser visto, tem sido uma prática comum comparar as características de tensão direta com uma relação de corrente-tensão do tipo: Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 68 ⎛ qV ⎞ ⎟⎟ , I ∝ exp⎜⎜ ⎝ ηkT ⎠ onde η, o fator de idealidade, é um parâmetro relacionado a várias propriedades físicas da heterojunção. É interessante notar que esta expressão se assemelha às expressões teóricas dos modelos de condução por difusão, emissão e emissãorecombinação [194]. Newman [144], porém, observando seus resultados experimentais de corrente em função da tensão e da temperatura mostrou que a relação de corrente-tensão mostrada anteriormente não descrevia adequadamente seus resultados obtidos, mas sim pela expressão: I ∝ exp(AV) exp(BV) onde A e B são constantes essencialmente dependentes da voltagem e temperatura. Esta relação empírica foi mais tarde justificada por Donnely e Milnes [145] com base no mecanismo de condução por tunelamento-recombinação. Embora as curvas com polarizações reversas também tenham sido medidas junto com as polarizações diretas, muito pouca atenção tem sido dada a esta análise. Normalmente tem sido observado quase em todos os trabalhos baixo valor de tensão de ruptura, o que não tem sido bem entendido. Alguns autores, porém, têm fitado seus experimentos baseados na relação de “power-law”, na forma IR ∝ Vm, onde m é ≥ 1, tentando explicar seus resultados com base no modelo de tunelamento de Riben e Feucht [146]. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 69 Tabela 3. 9 - Caracterizações I-V e C-V de vários tipos de heterojunções de SiC/Si. Heterojunção Tipo Concentração de Potencial impurezas (cm-3) Interno Corrente direta Ref. Doadores Aceitadores obtido por η Tipo-n Tipo-p C-V (eV) I∝ exp(qV/ηkT) - - [147] 7 ×1014 - - [148] - - - [149] 1019 - 1,9 [150] 5 ×1017 0,55 >1,5 [151] - 0,39 1,6 [152] 16 10 15 3C-SiC/Si n-p 10 3C-SiC/Si n-p 1017 nc-SiC/Si n-p 10 15 nc-SiC/Si n-p 1015 a-SiC/Si n-p 10 15 3C-SiC/Si n-p - a-SiC/Si n-p 1015 - 0,8 1,58 [153] a-SiC/Si n-p 10 15 - 2,6 >1,5 [137] 3C-SiC/Si n-p 1015 - 3C-SiC/Si n-p 10 15 3C-SiC/Si n-p a-SiC/Si a-SiC/Si 0,57 1,05 [154] 16 0,75 1,2 [139] 1016 1015 0,58 1,3 [155] p-n 10 16 10 15 - 1,2 [191] n-p 1015 - - 1,3 [156] 10 - Detalhes experimentais Filmes de a-SiC:H com espessura de 350 nm foram depositados por PECVD sobre lâminas tipo-n de Si(100) (ρ ~ 3 Ω.cm). As condições de deposição são apresentadas na Tabela 3. 10, onde a concentração de carbono dos filmes, medidas por RBS, também é mostrada. Heterojunções foram fabricadas com filmes comodepositados e recozidas em vácuo a 550, 750 e 1000 ºC por 2 horas. Os dispositivos foram então fabricados pela evaporação térmica de contatos ôhmicos de Al, com espessura de aproximadamente 500 nm, sobre as superfícies do SiC e Si. Os contatos elétricos sobre o SiC foram definidos por um processo litográfico convencional, em geometrias quadradas de área de 9×10-4 cm2. Para melhorar a qualidade dos contatos elétricos foi então realizado um recozimento térmico a 400 ºC por 20 min. Um esquema da estrutura fabricada pode ser visto na Figura 3.14. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 70 Tabela 3. 10 - Condição de deposição das amostras obtidas por PECVD. Fluxo SiH4 Fluxo CH4 (sccm) (sccm) C3690H 3,6 32,4 Amostra Fluxo H2 (sccm) 200 rf (W) 20 Temp. (ºC) 320 Espessura (nm) 350 ± 20 x 0,52 As caracterizações elétricas das heteroestruturas foram feitas a partir de medidas elétricas de corrente-voltagem (I-V) características, na faixa de temperatura entre 27 e 200 ºC, utilizando um analisador de semicondutor HP 4145A, e curvas de capacitância-voltagem (C-V) utilizando um HP4280A que opera a freqüência de 1 MHz. A seguir ilustramos a seqüência das etapas do processo para a fabricação dos das heterojunções: A – Limpeza química do substrato de Si B – Deposição do filme de SiC pela técnica PECVD C – Metalização em ambos os lados (superfícies do Si e SiC) e fotogravação do filme metálico sobre a superfície do SiC para definição da geometria dos contatos Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 71 contato superior (filme SiC) contato inferior (substrato Si) Substrato Silício Filme SiC PECVD Alumínio D – Estrutura Final Figura 3. 14 - Esquema do heterodiodo. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 72 III. Transistores de filme fino Aqui apresentaremos o desenvolvimento, fabricação e caracterização de transistores de filme fino de a-SiC:H. Um estudo de simulação dos dispositivos foi realizado no México em colaboração com a professora Dra. Magali Estrada del Cueto, do Centro de Investigación y de Estudios Avanzados del Instituto Politécnico Nacional (Cinvestav). - Introdução Transistor de filme fino (“Thin Film Transistor”, ou TFT), como o próprio nome diz, são transistores baseados em filmes finos semicondutores depositados sobre os mais diversos substratos, que proporcionam uma alternativa para o campo da eletrônica de grandes áreas e baixos custos. A grande maioria destes dispositivos é feita de silício amorfo. A primeira proposta de desenvolvimento de TFT de silício amorfo para aplicações em dispositivos foi feita por LeComber et al. [157], em 1979. Desde então, as pesquisas destes dispositivos têm crescido mundialmente, o que resultou na utilização em diversas aplicações. Talvez o maior exemplo seja como matriz ativa em mostradores de cristal líquido, o qual tem sido aplicado em produtos comerciais por diversas empresas de todo o mundo [158]. Outras importantes aplicações incluem a área de sensores [159,160]. A fabricação de TFTs baseados em outros materiais semicondutores amorfos não tem sido normalmente reportada. Este fato se deve principalmente à dificuldade de fabricação com sucesso de dispositivos eletrônicos baseados em semicondutores amorfos. Como vimos anteriormente, a presença de estados localizados na banda proibida e a sua distribuição influenciam diretamente nas características destes dispositivos. Mesmo para o caso do silício, que tem sido amplamente estudado, os dispositivos amorfos apresentam valores de mobilidades muito baixos quando comparados ao cristalino. Além disso, a resistência série de fonte e dreno possui uma influência muito significativa. Com relação ao carbeto de silício cristalino, a literatura tem reportado amplamente a fabricação de transistores, dividindo-se em duas categorias: uma Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 73 primeira que utiliza substratos (lâminas) de SiC e, uma segunda, feita a partir de filmes finos cristalinos de SiC, TFTs, depositados sobre lâminas de silício. Em geral, os dispositivos baseados em lâminas de SiC como substrato possuem melhores características que aqueles de filmes finos de SiC. Além disso, notamos também que praticamente não existe fabricação de TFTs de a-SiC, e de dispositivos com filmes depositados sobre outros substratos que não sejam o Si. Deste modo, neste trabalho pretendemos desenvolver a fabricação de transistores de filme finos de a-SiC:H depositados por PECVD em baixas temperaturas (320 ºC). Estes dispositivos poderão ser fabricados sobre diferentes substratos, constituindo uma alternativa para a eletrônica de grande área e de baixo custo. - Estrutura do dispositivo e fabricação O carbeto de silício amorfo é um material semicondutor que possui uma alta resistividade elétrica, por isso, para a fabricação dos nossos dispositivos, utilizamos uma estrutura com o contato de porta na parte superior do TFT, com o intuito de diminuir a resistência série de fonte e dreno [161]. Esta estrutura é mais estável para a fabricação de regiões de fonte e dreno, as quais são feitas por implantação iônica. Desse modo, para a fabricação dos dispositivos, foi projetado um conjunto de máscaras que contém 16 células. Cada célula possui 9 dispositivos com dimensões diferentes entre si. Foram fabricados transistores com largura de canal L = 20, 40 e 60 μm e comprimento de canal de 100, 200 e 400 μm. Definidas as dimensões dos dispositivos a serem fabricados, foram então projetadas um conjunto com 3 máscaras: • Máscara M1 - Definição das marcas de alinhamento e das regiões de fonte e dreno. • Máscara M2 - Definição das regiões de corrosão no filme isolante para acesso ao semicondutor. • Máscara M3 - Definição dos contatos elétricos. Na Figura 3. 15 (a) (b) e (c), apresentamos o “layout” das máscaras, que foram desenhadas utilizando o programa o AutoCad 2000. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais (a) M1 – Implantação: fonte e dreno (b) M2 – Ataque SiO2 para abertura dos contatos de fonte e dreno (c) M3 - Metalização Figura 3. 15 – Layout das máscaras de processo utilizadas para a fabricação dos TFTs. 74 Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 75 A Figura 3. 16 ilustra a seqüência de etapas do processo para a fabricação destes dispositivos. Logo em seguida apresentamos uma descrição detalhada de cada etapa. A D B E C F G - Estrutura Final Legenda: Substrato: vidro Corning 7059 Filme isolante de oxinitreto de silício Filme de a-SiC:H Alumínio a-SiC:H dopado tipo-n Fotoresiste Figura 3. 16 - Ilustração da seqüência das etapas de processos para a fabricação dos TFTs de a-SiC:H. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 76 A – Limpeza química Esta limpeza é feita seguindo-se um procedimento padrão, que consiste nas seguintes etapas mergulhando as lâminas em soluções de: 1. NH4OH/ H2O2/H2O (1:1:5) em 80ºC por 10 minutos. Esta solução remove a gordura e os metais do grupo IB e IIIB (Cu, Ag, Zn, Cd); 2. HCl/H2O2/H2O (1:1:5) em 80ºC por 10 minutos. Esta solução dissolve os íons alcalinos (Na+, K+) e hidróxidos de Fe+3, Al+3 e Mg+3 das superfícies dos substratos. Entre uma etapa e outra, as lâminas de silício são enxaguadas com água deionizada (água DI) durante 3 minutos e deixadas mais 3 minutos dentro do béquer com água, e novamente enxaguadas. Depois de realizadas todas as etapas, as lâminas são secas com nitrogênio, colocadas num recipiente especifico para seu transporte e não são mais expostas ao ambiente de laboratório. B – Deposição do filme semicondutor de a-SiC:H por PECVD Filmes de a-SiC:H foram produzidos utilizando a técnica PECVD a partir da mistura gasosa de silano (SiH4), metano (CH4) e hidrogênio (H2). As condições de deposição são dadas na Tabela 3. 11, onde as concentrações de carbono e hidrogênio (deduzido do espectro FTIR) também são mostradas. Tabela 3. 11 - Condição de deposição dos filmes de a-Si1-XCX:H. Amostra C3690H Fluxo SiH4 (sccm) 3,6 Fluxo CH4 (sccm) 32,4 Fluxo H2 (sccm) 200 rf (W) Temp. (ºC) Espessura (nm) 100 320 620 ± 30 C – Fotogravação para definição das regiões de fonte e dreno As etapas do processo de fotolitografia do tipo lift-off (“invertida”) para definição das regiões de fonte e dreno são as seguintes: Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 77 1. Aplicação do fotorresiste AZ5214 com umidade relativa do ar de 50% e temperatura de 25ºC na sala. A velocidade do Spinner é de 4500 rpm com tempo de 40seg. 2. Pré-cura do fotorresiste numa chapa quente (hot-plate) com temperatura de 90ºC durante 4 minutos. 3. Exposição em luz ultravioleta (S = 9 mW/cm2) do fotorresiste durante 16 segundos no modo CI-II (ajuste da fotoalinhadora) com a máscara M1. 4. Cura do fotorresiste numa chapa quente (hot-plate) com temperatura de 118ºC durante 1 minuto e 45 segundos. 5. Exposição em luz ultravioleta (S = 9 mW/cm2) do fotorresiste durante 40 segundos no modo CI-II (ajuste da fotoalinhadora) sem máscara. 6. Revelação do fotorresiste sensibilizado com solução reveladora. O tempo de revelação foi de aproximadamente 1 minuto e 10 segundos. D – Dopagem por implantação iônica das regiões de fonte e dreno As irradiações foram realizadas em um implantador iônico instalado no Laboratório de Microeletrônica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Neste processo de dopagem tipo-n foi definido uma implantação de íons de fósforo, com concentração de 1×1021 cm-3, a qual foi escolhida de acordo com estudos prévios de condutividade. Com intuito de obter-se um perfil de dopagem constante ao longo de uma profundidade de aproximadamente 2000 Å, utilizamos múltiplas energias e fluências de feixe, as quais foram simuladas pelo programa TRIM [162]. O perfil de dopagem simulado pode ser visto na Figura 3. 17. As condições do processo são apresentadas na Tabela 3. 12. Após o processo de dopagem as amostras foram submetidas a uma etapa de recozimento térmico para ativação das impurezas e rearranjo do material. O processo foi feito num forno em alto vácuo (pressão de 5×10-7 Torr) a 550 ºC por 1 hora. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 78 Tabela 3. 12 - Condições de processo de dopagem por implantação de íons de fósforo. Energia Doses C = 1021 cm-3 10 keV 30 keV 63 keV 100 keV D1 = 2,00×1015 at/cm2 D2 = 3,20×1015 at/cm2 D3 = 5,50×1015 at/cm2 D4 = 9,00×1015 at/cm2 -2 Log Concentração (cm ) Concentração 10 keV 30 keV 63 keV 100 keV Perfil Final 15 10 14 10 13 10 12 10 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 Profundidade (Angstrom) Figura 3. 17 – Perfil de dopagem por implantação iônica de fósforo simulado TRIM. E – Deposição do filme isolante de oxinitreto de silício por PECVD Para a obtenção dos filmes de oxinitreto de silício, SiOxNy, foram utilizadas misturas gasosas de silano e óxido nitroso (SiH4 + N2O) à temperatura de 320 ºC. Em trabalhos prévios desenvolvido pelo Grupo de Novos Materiais e Dispositivos [163], foram estudadas as propriedades dielétricas e de interface deste material, visando à aplicação em dispositivos MOS e de filme fino. Portanto, aqui neste trabalho, nós utilizamos condições de processo aperfeiçoadas para a obtenção dos filmes isolantes de SiOxNy, a qual é apresentada na tabela a seguir. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 79 Tabela 3. 13 - Condição de deposição das amostras isolantes obtidas por PECVD. Isolante Fluxo SiH4 (sccm) Fluxo N2O (sccm) rf (W) Temp. (ºC) Espessura (nm) SiOXNY 15 45 200 320 140 F – Fotogravação para definição das regiões de acesso fonte e dreno para metalização Idem procedimento da etapa C, utilizando a máscara M2 e corroendo o oxinitreto de silício em solução de HF. G – Evaporação de filme de alumínio – Contatos metálicos Para a evaporação do filme metálico de alumínio foi utilizada uma evaporadora localizada na Sala Limpa do Laboratório de Microeletrônica da Universidade de São Paulo. Antes da evaporação foi realizada uma nova etapa de fotolitografia tipo lift-off, utilizando a máscara M3. Momento antes de carregar as amostras na câmara de processo, mergulhou-se a lâmina em solução buffer de HF (BOE) durante aproximadamente 5 segundos seguido de enxágüe durante 1 minuto. Os parâmetros do processo de deposição do filme de alumínio por evaporação foram: • Pressão base: 2×10-6 mTorr. • Pressão: 4×10-5 mTorr. • Taxa de deposição: 10 nm/s. • Espessura do filme: 0,5 µm. A remoção do alumínio foi feita mergulhando-se a lâmina fotogravada em solução de H3PO4/HNO3 (proporção 9,5:0,5) aquecida a 30ºC. O tempo de corrosão foi de aproximadamente 1 minuto. Depois de feita a corrosão as lâminas foram enxaguadas em água DI (resistividade = 18 MΩ.cm). O fotorresiste foi retirado da lâmina com acetona, álcool isopropanol e água DI (resistividade = 18 MΩ.cm). Em seguida, foi feita uma limpeza utilizando-se o mesmo procedimento descrito na etapa A. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 80 Por fim, foi feita a sinterização do filme de alumínio para formação de contato ôhmico, obtendo-se a estrutura final, a qual pode ser vista na Figura 3. 18. O processo foi realizado em forno térmico convencional com temperatura de 350ºC. A seqüência de passos do processo de sinterização do contato de alumínio é a seguinte: • Entrada da barqueta de quartzo no forno, em ambiente de gás verde (8%H2/92%N2) com fluxo de 1 l/min, por tempo maior que 3 minutos. • Manter a amostra neste ambiente durante 30 minutos. • Retirada da barqueta de quartzo do forno, em ambiente de gás verde (8%H2/92%N2) com fluxo de 1 l/min, por tempo maior que 3 minutos. L C M1 – Definição das regiões de F e D M2 – Abertura no isolante p/ contatos M3 – Geometria dos contatos elétricos (a) Dispositivo Final – Esquema da vista superior do TFT. Capítulo 3 – Procedimentos Experimentais 81 (b) Dispositivo Final - Microscopia óptica dos dispositivos. Figura 3. 18 – Estrutura Final. As curvas características dos TFTs foram extraídas a partir de um analisador de parâmetros de semicondutores HP 4155A a temperatura ambiente. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 82 CAPÍTULO 4 – RESULTADOS E DISCUSSÃO Neste capítulo apresentaremos os resultados experimentais, os quais foram divididos em três partes e serão apresentados em forma de tabelas e gráficos a fim de ajudar sua análise e compreensão. Na Parte 1 apresentamos um estudo referente ao processo de cristalização e corrosão dos filmes de carbeto de silício obtidos por PECVD. Foram analisados filmes estequiométricos de a-SiC:H crescidos com diluição em H2 na condição de “silane starving plasma”. O objetivo foi o de investigar o processo de transição de filmes amorfos de SiC, com diferente ordem química e estrutural, em filmes policristalinos de SiC. Análises como a absorção óptica na região do infravermelho (FTIR) e difração de raios X (XRD) foram utilizadas para avaliar o processo de cristalização dos filmes. Na Parte 2 aperfeiçoamos alguns processos de dopagem, uma vez que questões importantes e pendentes de trabalhos anteriores ainda precisavam ser respondidas. Assim, nesta parte, apresentamos um estudo de dopagem in-situ com nitrogênio para formação de películas dopadas tipo-n durante o crescimento dos filmes. Para a dopagem tipo-p, por sua vez, estudamos o processo dopagem por implantação iônica com BF2+ e o de difusão térmica com alumínio. O processo de dopagem por difusão de alumínio foi realizado em conjunto com um processo de cristalização dos filmes de SiC, conforme os resultados apresentados na Parte 1 de cristalização do material. Por fim, na Parte 3, apresentamos a fabricação dos primeiros dispositivos propriamente ditos de SiC PECVD, a saber heterodiodos de SiC/Si, capacitores tipo MOSiC (metal-óxido de silício-carbeto de silício) e transistores de filmes finos TFTs. 4.1 - Parte 1: Cristalização e corrosão dos filmes de SiC 4.1.1 - Cristalização Os filmes de SiC como-depositados e cristalizados possuem superfícies lisas e espelhadas, sem qualquer indicação de formação de “pinholes” (furos) nos filmes, Capítulo 4 – Resultados e Discussão 83 o qual é comprovado pelas medidas de microscopia óptica. Porém, como pode ser apreciado pela Figura 4. 1(a), alguns filmes de SiC apresentam trincas, provavelmente originadas pela diferença entre os coeficientes de expansão térmica e os de constante de rede. O aparecimento de trincas em filmes de SiC cristalizados sobre substratos de silício também tem sido reportado pela literatura [164,165]. Por outro lado, a Figura 4. 1(b) mostra imagens de micrografia óptica da superfície de filmes de SiC cristalizados a 1000 ºC fabricados sobre substratos de silício, os quais não apresentam qualquer tipo de fissura no filme. Este aparecimento de trincas é um fenômeno que ocorre aleatoriamente e pode estar relacionado com diversos problemas experimentais além dos já apresentados anteriormente, como exemplo: contato da amostra com o porta-substrato do reator PECVD durante o crescimento do filmes, rampa de aquecimento e resfriamento do processo de cristalização, limpeza do substrato de silício entre outros. Esta é ainda uma questão em aberto e que deve ser mais bem estudada. Foram realizados diversos processos de cristalização em diferentes amostras e condições de processo, e mesmo assim não foi verificada nenhuma relação entre a condição de processo e aparecimento das trincas. (a) Capacitores de SiC cristalizados sobre substratos de Si(100). Capítulo 4 – Resultados e Discussão 84 (b) Transistores de filme fino de SiC cristalizados sobre substratos de Si(100). Figura 4. 1 - Microscopia óptica da superfície das amostras tratadas termicamente a 1000 ºC por 2 horas. A estrutura e a configuração das ligações químicas dos filmes de carbeto de silício antes e depois do recozimento térmico foram investigadas por FTIR, os espectros são mostrados na Figura 4. 2. Como pode ser visto a amostra comodepositada exibe as características típicas do carbeto de silício amorfo hidrogenado: a banda principal a 780 cm-1 relacionada com modo de vibração stretching da ligação Si-C, a banda ao redor de 2100 cm-1 devida ao modo de vibração stretching da ligação Si-H e em 2900 cm-1 a banda relacionada ao modo de vibração stretching da ligação C-H. Além disso, é mostrado um ombro ao redor de 950 cm-1, que é devido ao modo de vibração Si-CHn. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 85 -1 Absorção, α (ω) (u.a.) (Si-C)stretching@ 800 cm -1 Si-CHn @ 950 cm -1 -1 (Si-H)stretching@ 2100 cm (C-H)stretching@ 2900 cm 5X 1000 ºC 750 ºC 550 ºC como depositada 3000 2800 2600 2400 2200 2000 1000 750 500 -1 Número de onda (cm ) Figura 4. 2 - Espectro na região do infravermelho dos filmes de SiC como-depositado e recozidos termicamente a 550, 750 e 1000 ºC. A região compreendida com os números de onda entre 1900 e 3100 cm-1 foi ampliada cinco vezes para facilitar a observação das variações nas propriedades estruturais das amostras. No entanto, o processo de recozimento introduz variações significantes nas propriedades estruturais das amostras. É observado que para os filmes recozidos a posição do pico das ligações Si-C, inicialmente centrado em ~760 cm-1 para o filme como-depositado, desloca-se para 800 cm-1, além disso, se torna mais pronunciado e fino. A evolução da forma e o estreitamento da largura das bandas são uma indicação da cristalização do material. De fato, a forma de uma Gaussiana reflete uma distribuição Gaussiana dos comprimentos e ângulos das ligações Si-C, a qual caracteriza o estado amorfo. Por outro lado, a banda em forma de Lorentziana é característica de uma baixa distorção dos ângulos e a uma baixa dispersão das ligações, o que é consistente com um ambiente mais ordenado das ligações Si-C [166,167], indicando uma ordem crescente da cadeia atômica devido à formação de micro-cristalitos [168]. Dessa maneira, a evolução do espectro FTIR da Figura 4. 2 é uma indicação de uma variação estrutural induzida pelo tratamento térmico. Para estimar a fração cristalina das amostras, nós deconvoluímos a banda ao redor de 800 cm-1 em componentes Gaussianas e Lorentzianas. A Figura 4. 3 Capítulo 4 – Resultados e Discussão 86 reproduz um exemplo típico da deconvolução aplicada aos espectros de FTIR. A fração cristalina pode ser estimada pela relação de L/(L+G), onde L e G representam as áreas das componentes Lorentziana e Gaussiana, respectivamente. Este método já foi adotado em condições comparáveis por outros autores [169], e pode ser justificado pelo fato que é assumido que L, em contraste com G, é proporcional à quantidade de ligações Si-C na fase cristalina. A Figura 4. 4 mostra a fração cristalina como uma função da temperatura de recozimento. Como pode ser visto, a fração cristalina aumenta com o aumento da temperatura de recozimento. Para amostra recozida a 750 ºC a fração cristalina é ~45%, enquanto que a amostra recozida a 1000 ºC é praticamente totalmente cristalizada. Resultados semelhantes foram obtidos por Calcagno et al. [169], que investigou a cristalização de filmes estequiométricos de SiC obtidos por PECVD e obteve a transição de material amorfo para cristalino na faixa de temperatura entre 850-950 ºC. recozida a 750 ºC Absorção, α (ω) (a.u.) Experimental Fit (Si-CHn)amorfo - G (Si-C)amorfo - G (Si-C)cristalino - L 1200 1000 800 600 400 -1 Número de onda (cm ) Figura 4. 3 - Deconvolução aplicada ao espectro FTIR da amostra recozida a 750 ºC. A Tabela 4. 1 mostra a densidade das ligações Si-C, Si-H, C-H e as concentrações estimadas de hidrogênio do espectro FTIR da Figura 4. 2. Como pode ser visto, a concentração das ligações Si-H e C-H decrescem continuamente para Capítulo 4 – Resultados e Discussão 87 altas temperaturas, contudo a concentração de ligações C-H permanece sempre superior as Si-H. Por outro lado, a densidade de ligações Si-C apresenta um aumento com o aumento da temperatura de recozimento. Tabela 4. 1 - Número das ligações Si-C, Si-H e C-H para as amostras como-depositada e recozidas. A concentração de hidrogênio foi estimada pela relação (NSi-H+NC-H/NSi-H+NC-H+NSi-C). NSi-H (×1022 cm-3) 0,16 0,10 0,06 0 Amostra como-depositada recozida a 550 ºC recozida a 750 ºC recozida a 1000 ºC NC-H (×1022 cm-3) 0,28 0,18 0,13 0 NSi-C (×1022 cm-3) 1,53 1,83 1,91 2,40 Concentração de Hidrogênio 22 % 13 % 9% 0% Estes resultados indicam que ocorre uma desorpção de hidrogênio na forma de espécies voláteis, resultando em um filme composto preferencialmente por ligações Si-C mais ordenada. Fração cristalina, fC (%) 100 20 90 80 15 70 como-depositada 10 60 50 5 40 30 20 0 0 200 400 600 800 1000 Concentração de hidrogênio, HC (%) 25 110 Temperatura de recozimento (ºC) Figura 4. 4 - Evolução da fração cristalina e do conteúdo de hidrogênio, estimada dos espectros FTIR, como uma função do processo de recozimento térmico. Maiores evidências a respeito da cristalização dos filmes de carbeto de silício foram obtidas através da caracterização por XRD. Os difratogramas foram obtidos na Capítulo 4 – Resultados e Discussão 88 configuração θ-2θ ao longo do intervalo 20-50º. A Figura 4. 5 mostra os resultados para as amostras como-depositada e recozida a 1000 ºC. Um difratograma de um substrato de silício monocristalino (100) também é apresentado para comparação. As características principais das curvas da Figura 4. 5 são o destacado pico de difração localizado em ~34º (relacionado ao substrato de silício) e a uma banda larga em ~35,6º, provavelmente relacionada ao 3C-SiC. É importante aqui destacar que esta região também pode estar associada com a difração do 4H-SiC (hexagonal), entretanto o mais provável é que seja realmente a formação do plano (111) do politipo 3C-SiC (cúbico) por se tratar de uma epitaxia do substrato de silício, que também possui uma estrutura cúbica [167,168,169]. O pico em 35,6º foi então analisado após a subtração do pico devido ao substrato de silício, este procedimento também foi adotado por outros autores [170]. Neste caso a dedução do tamanho de grão pela fórmula de Scherrer, que é associada à largura a meia altura (FWHW) do pico de difração, é dificultada devido à proximidade destes dois picos. Também podemos notar a presença de um pico em ~29º, que pode ser atribuído a cristalitos de Si(111) [170]. Intensidade (u.a.) substrato c-Si como depositada recozida a 1000 ºC 3C-SiC em 35,6 º 10 1 3C-SiC(111) 20 25 30 35 40 45 50 2θ (graus) Figura 4. 5 - Espectros de difração de raios X para as amostras de SiC como-depositadas e recozidas a 1000 ºC. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 89 Embora também tenha sido observado o pico de difração característico do 3C-SiC para a amostra recozida a 750 ºC, notamos um significativo aumento do mesmo para a amostra recozida a 1000 ºC. Este resultado corrobora com o resultado de fração cristalina obtido pelo espectro FTIR, o qual indica uma cristalização quase que completa para a amostra recozida a 1000 ºC. Outro efeito importante induzido pelo processo de recozimento térmico foi a densificação do filme, o qual é mostrado na Figura 4. 6 por um gráfico da espessura do filme de SiC em função da temperatura de recozimento. Como podemos ver, a espessura dos filmes decresce com o aumento da temperatura de recozimento, alcançando seu valor mínimo para a amostra recozida a 1000 ºC. Podemos notar que este comportamento está em acordo com a variação estrutural sugerida pela Figura 4. 4. Espessura do filme (nm) 660 630 como-depositado 600 570 540 510 480 450 250 500 750 1000 1250 Temperatura de recozimento (ºC) Figura 4. 6 - Espessuras dos filmes para as amostras de SiC como-depositadas e tratadas termicamente. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 90 4.1.2 - Corrosão Antes de caracterizar o processo de corrosão por plasmas baseados em CHF3 dos filmes cristalizados de SiC, foi primeiramente determinada uma taxa de corrosão ótima. Neste estudo, amostras como-depositadas foram caracterizadas em função da concentração de oxigênio na mistura de gasosa, potência de rf aplicada e da pressão de processo. Uma vez que as condições de processo foram aprimoradas, as corrosões dos filmes amorfos e cristalizados de SiC foram analisados em detalhes. A corrosão do a-SiC:H é um processo complexo que envolve efeitos físicos e químicos na remoção dos átomos de Si, C, H do filme. Como quebrar as ligações de Si-H ou C-H em filmes de a-SiC:H é relativamente fácil, o principal fator limitante para o processo de corrosão é a remoção dos átomos de carbono [171]. A corrosão do SiC por RIE (Reactive Ion Etching) tem sido comumente investigada utilizando gases fluorados misturados com oxigênio [172]. Em geral, a dissociação de gases fluorados leva à formação de átomos livres de F e fragmentos fluorados, que reagem com os átomos de silício. Por outro lado, a corrosão do carbono pode ser feita pela adição de O2 na mistura de gasosa, assim os produtos SiF4 e COn (n = 1 ou 2), respectivamente, são voláteis [172]. Para caracterizar o efeito do oxigênio misturado com o CHF3, na Figura 4. 7(a) é mostrada a taxa de corrosão para o material como-depositado como uma função de concentração de oxigênio na mistura gasosa, mantendo constante os outros parâmetros de corrosão. É observado um aumento geral na taxa de corrosão com o aumento de oxigênio na mistura até aproximadamente 60%, onde é alcançada uma máxima taxa de corrosão de 32 nm/min. Aumentando ainda mais a concentração de O2 ocorre uma diminuição na taxa de corrosão. Este efeito tem sido amplamente reportado na corrosão de SiC em plasmas baseados em CHF3 [173]. O aumento da taxa de corrosão com a adição de oxigênio não é surpreendente, na verdade é bem conhecido que a adição de oxigênio aumenta a concentração de átomos de F na fase gasosa (aumentando a corrosão de silício) [171], além de remover rapidamente os átomos de carbono através da oxidação. Em altas porcentagens de O2 (> 60%) o nível de átomos livres de F chega a um ponto de saturação e então começa a diminuir, Capítulo 4 – Resultados e Discussão 91 tornando-se um fator limitante no processo de corrosão [172], fazendo com que a taxa de corrosão do SiC diminua abruptamente. Usando a concentração de O2 que conduz a máxima taxa de corrosão, foi então variada a potência de rf, partindo de 100 W até 200 W, em passos de 25 W. Os resultados são mostrados na Figura 4. 7 (b). Como pode ser visto a taxa de corrosão aumenta linearmente com o aumento da potência de rf. Uma taxa de corrosão máxima de 86 nm/min foi obtida para a potência de 200 W. Taxa de corrosão (nm / min) 35 (a) 30 25 20 rf = 100 W p = 100 mTorr T = 20 ºC como-depositado a-Si0,5C0,5:H 15 20 30 40 50 60 70 80 % Oxigênio Taxa de corrosão (nm / min) 100 90 (b) 80 70 60 50 O2 = 60 % p = 100 mTorr T = 20 ºC 40 30 20 como-depositado a-Si0,5C0,5:H 100 120 140 160 180 200 Potência de rf (W) Figura 4. 7 - Taxa de corrosão para amostra de SiC como-depositada: (a) como uma função da concentração de O2 na mistura gasosa e (b) como uma função da potência de rf. Os outros parâmetros estão indicados na figura. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 92 Por fim, o efeito da pressão de processo foi analisado. Fixando a mistura gasosa em CHF3/60%O2 e a potência de rf a 200 W, a pressão foi variada de 80 mTorr até 300 mTorr. Como mostrado na Figura 4. 8, é observado um aumento monotônico da taxa de corrosão até 200 mTorr, para pressões mais altas (entre 200300 mTorr) a taxa de corrosão permanece quase constante em 125 nm/min. Como pode ser visto, a pressão do processo tem um forte efeito em todos os parâmetros de corrosão. Isto pode ser devido ao fato de que a concentração das espécies ativas aumenta com uma pressão crescente [174], conseqüentemente aumentando a taxa de corrosão. Características de corrosão semelhantes foram observadas por outros autores [171,174], a qual foi dividida em dois regimes: o primeiro a baixas pressões, onde a taxa de corrosão é limitada pela reação devido à baixa concentração dos reagentes. O segundo regime, porém, é dado que o aumento da pressão corresponde a um aumento da densidade de espécies de neutras, da qual resulta em uma limitação da variação da taxa de corrosão. Por fim, é importante mencionar que as áreas corroídas obtidas estão livres de resíduos poliméricos indesejáveis, fazendo com que este processo seja muito satisfatório para fabricação de dispositivos baseados neste material. Taxa de corrosão (nm / min) 130 120 110 100 90 O2 = 60 % rf = 200 W T = 20 ºC 80 como-depositado a-Si0,5C0,5:H 70 80 120 160 200 240 280 320 Pressão de processo (mTorr) Figura 4. 8 - Taxa de corrosão para amostra como-depositada como uma função da pressão de processo. Os demais parâmetros estão indicados na figura. Conhecendo e utilizando as condições de processo para a obtenção da maior taxa de corrosão do material como-depositado, analisamos então o comportamento com material cristalizado. As taxas de corrosão para o SiC amorfo e cristalizado são Capítulo 4 – Resultados e Discussão 93 mostradas na Figura 4. 9 como uma função da temperatura de recozimento. Como pode ser visto, a taxa de corrosão diminui com o aumento da temperatura de recozimento. Porém, é importante notar que a taxa de corrosão diminui abruptamente para amostras recozidas a temperaturas abaixo de 750 ºC e, por outro lado, diminui mais lentamente acima desta temperatura de recozimento. Com base nestes resultados, nós podemos dividir a taxa de corrosão em função da temperatura de recozimento em duas fases: a primeira, para amostras recozidas a temperaturas abaixo de 750 ºC, onde a taxa de corrosão deve ser afetada principalmente pela efusão de hidrogênio e compactação do filme; e a segunda fase, acima de 750 ºC, que pode ser associada principalmente à maior cristalização de filme. Taxa de corrosão (nm / min) 130 como-depositada (320 ºC) 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 O2 = 60 % rf = 200 W p = 300 mTorr T = 20 ºC 250 500 750 1000 1250 Temperatura de recozimento (ºC) Figura 4. 9 - Taxa de corrosão para as amostras como-depositada e recozidas em função da temperatura de recozimento. Os demais parâmetros estão indicados na figura. Nós atribuímos os dois comportamentos distintos da Figura 4. 9 à maior cristalização dos filmes a temperaturas de recozimento acima de 750 ºC. De fato, as altas taxas de corrosão observadas para as amostras recozidas a temperaturas abaixo de 750 ºC podem ser relacionadas com a alta concentração de hidrogênio presente nos filmes, uma vez que a energia de dissociação das ligações Si-H (298 kJ/mol) e C-H (337 kJ/mol) são menores que a ligação Si-C (435 kJ/mol). Assim, o hidrogênio reage relativamente rápido com os átomos de F, criando sítios ativos, que aumentam a taxa de corrosão, baixando a barreira de energia para as formações de outros Capítulo 4 – Resultados e Discussão 94 produtos voláteis. Por outro lado, a cristalização induzida por temperaturas acima de 750 ºC compactam os filmes de SiC, maximizando as fortes ligações Si-C, reduzindo então a taxa de corrosão. Reforçando isto, podemos notar na Figura 4. 4 e Figura 4. 6 que filmes recozidos a 1000 ºC alcançam máxima densificação e são cristalizados quase que completamente, por conseguinte a taxa de corrosão tende a alcançar um limite mais baixo, como mostrado em Figura 4. 9. Além disso, este limite é ao redor de 40 nm/min, muito próximo dos 35 nm/min reportados pela literatura para a corrosão do 3C-SiC monocristalino usando condições de processo similares (60% de O2 na mistura de CHF3/O2) [172]. Concluindo, nesta parte do trabalho apresentamos um estudo referente à cristalização de filmes de SiC obtidos por PECVD na condição de “plasma faminto por silano” e a corrosão por RIE destes filmes usando plasmas de CHF3+O2. O estudo de cristalização indica que os recozimentos térmicos induzem a cristalização do material. Os filmes foram caracterizados por FTIR e XRD; estes resultados mostraram evidências de cristalização do SiC com a formação de policristais cúbicos de carbeto de silício (3C-SiC). No estudo referente ao aperfeiçoamento dos parâmetros de corrosão dos filmes de a-SiC:H verificou-se um aumento na taxa de corrosão do SiC com o aumento do oxigênio na mistura gasosa. Foi obtida uma taxa máxima de 32 nm/min para 60% de O2 na mistura de gás. O aumento da potência de rf mostra um crescimento linear da taxa de corrosão, alcançando um valor de máximo de 86 nm/min para 200 W de potência. Pressões de processo crescentes conduzem a um aumento monotônico da taxa de corrosão, e permanecem quase constante a um valor máximo de 125 nm/min na faixa de pressão entre 200-300 mTorr. Para os filmes cristalizados foi observada uma forte influência do grau de cristalinidade sobre a taxa de corrosão. O recozimento térmico promove a efusão do hidrogênio e uma compactação dos filmes, favorecendo um aumento da fração cristalina dos filmes. O aumento da temperatura de recozimento provoca um aumento da ordem química, com a formação de estruturas cristalinas ordenadas, que resultam em uma redução na taxa de corrosão. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 95 4.2 - Parte 2: Dopagem 4.2.1 - Dopagem in-situ com N2 A condutividade em função da temperatura para as amostras dopadas in-situ crescidas com diferentes fluxos de N2, obtidas com e sem diluição em hidrogênio, são mostradas na Figura 4. 10 a e b. Podemos observar que a condutividade das amostras depositadas sem diluição em hidrogênio (C3680) apresenta um comportamento mais consistente que as amostras crescidas com diluição e que, para maiores concentrações de N2 na mistura gasosa, maior é condutividade elétrica dos filmes, resultando em uma clara indicação do efeito da dopagem elétrica nestes filmes. Por outro lado, para amostras depositadas com diluição em hidrogênio (C3690H – Figura 4. 10b) os resultados não são tão evidentes, e podemos notar variações no comportamento da condutividade elétrica. Por exemplo, para maiores temperaturas (maiores que aproximadamente 460 K) as condutividades das amostras dopadas e intrínsecas tendem a ser a mesma. Além disso, amostras com maiores níveis de condutividade (crescidas com 0,5 a 1,0 sccm de N2) exibem dois regimes de condutividade: o primeiro com baixa energia de ativação (~0,15 eV) em baixas temperaturas e um segundo, para temperaturas maiores que 450 K, com energia de ativação próxima da 0,9 eV. Ainda, para a amostra depositada com 1 sccm de fluxo de nitrogênio pode ser notado até mesmo um terceiro regime de condução, com energia de ativação de aproximadamente 0,6 eV para temperaturas intermediárias. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 96 Temperatura (K) 550 10 450 400 350 C3680 - sem diluição H2 -1 Condutividade (Ω.cm) 500 -9 10 -10 10 -11 10 -12 0,5 sccm 0,1 sccm intrínseca EA = 0,6 ± 5% eV EA = 1,2 ± 5% eV EA = 0,8 ± 5% eV -13 10 0,0018 0,0021 0,0024 0,0027 0,0030 -1 1/T (K ) (a) T e m p e ra tu ra (K ) 10 -9 550 500 450 400 350 C 36 90H - co m d ilu içã o H 2 Condutividade (Ω.cm) -1 1 ,0 s c c m 0 ,5 s c c m 0 ,1 s c c m in trín s e c a 10 -1 0 10 -1 1 10 -1 2 E A = 0 ,8 0 ± 5 % e V E A = 0 ,9 5 ± 5 % e V E A = 0 ,1 5 ± 5 % e V E A = 0 ,1 0 ± 5 % e V E A = 0 ,8 ± 5 % e V E A = 1 ,4 ± 5 % e V -1 3 10 0 ,0 0 1 8 0 ,0 0 2 1 0 ,0 0 2 4 0 ,0 0 2 7 0 ,0 0 3 0 -1 1 /T (K ) (b) Figura 4. 10 - Condutividade versus 1/T para amostras intrínsecas e dopadas in-situ com N2: a) amostras tipo C3680 sem diluição em H2 e b) amostras tipo C3690H crescidas com diluição em H 2. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 97 Apesar das características particulares exibidas pela amostra C3690H, as quais necessitam de maiores estudos para um melhor entendimento sobre o seu comportamento, para a amostra C3680 é observado um aumento da condutividade que é consistente com os resultados reportados por Nakaaki e Naito [175] sobre filmes depositados utilizando a técnica PECVD, e que podem ser atribuídos ao aumento do nível de dopagem (incorporação do nitrogênio como impureza substitucional) com o aumento do fluxo de N2. A curva da amostra C3680 crescida com maior fluxo de N2 (1 sccm) não é mostrada na Figura 4. 10 devido a problemas com os contatos elétricos. Para verificar a incorporação de nitrogênio nos diferentes níveis de dopagem relacionados aos fluxos estudados, espectros FTIR e análise sobre o gap óptico das amostras foram realizados. Os resultados referentes às medidas FTIR das amostras intrínsecas e dopadas, tipo C3680 e C3690H, são mostrados nas Figura 4. 11 a e b, respectivamente. Como esperado, os espectros das amostras não dopadas (0% de fluxo de N2) mostram as características típicas de um carbeto de silício amorfo hidrogenado, ainda evidenciando diferenças em suas ordens química e estrutural. Deste modo, todos os espectros exibem uma banda principal em 780 cm-1, relacionada à ligação Si-C no modo stretching, em 1020 cm-1 a banda relacionada à vibração Si-CHn. A vibração da ligação C-H stretching posiciona-se em torno de 2900 cm-1 e a banda volta de 2100 cm-1 corresponde à vibração stretching da ligação Si-H. As amostras crescidas com diluição em H2, C3690H (Figura 4. 11b), apresentam menor incorporação de hidrogênio e uma mais pronunciada banda Si-C, indicando uma maior incorporação de ligações Si-C com conseqüente aumento de sua ordem química e estrutural. Por outro lado, para ambos os tipos de amostras, pequenas quantidades de nitrogênio em sua composição induzem a mudanças, especialmente para a amostra menos ordenada C3680. Para maiores fluxos de N2, em amostras depositadas sem diluição em hidrogênio, é possível observar o aparecimento de uma pequena banda ao redor de 1000 cm-1, a qual pode ser atribuída à vibração da ligação Si-N [175]. Também é notado que para os maiores fluxos de nitrogênio é aumentada à vibração da ligação Si-H, acompanhada pelo decréscimo da banda Si-C. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 98 (a) C3680 - N2 in-situ Si-C Si-H Absorbância (u.a.) C-H Si-CHn Si-H 1,0 sccm N2 0,5 sccm N2 0,1 sccm N2 intrínseca 3200 2800 2400 2000 1600 1200 800 400 -1 Número de onda (cm ) (b) C3690H - N 2 in-situ Absorbância (u.a.) 1,0 sccm N 2 0,5 sccm N 2 0,1 sccm N 2 intrínseca Si-C Si-CH n Si-H C-H 3200 2800 2400 2000 1600 1200 800 400 -1 Número de onda (cm ) Figura 4. 11 - Espectro FTIR das amostras intrínsecas e dopadas in-situ com nitrogênio: (a) amostras tipo C3680 (menor ordem estrutural) e (b) amostras tipo C3690H (maior ordem estrutural). Os valores de gap calculados pela técnica de extrapolação de Tauc [176] são apresentados na Figura 4. 12 em função do fluxo de nitrogênio. Para ambos os tipos Capítulo 4 – Resultados e Discussão 99 de amostras, C3680 e C3690H, não são apreciadas mudanças significativas em seus valores. Os resultados de FTIR e gap óptico são uma indicação que a incorporação do nitrogênio permanece a níveis suficientemente baixos para não provocar mudanças significativas no material. Para concluir, neste trabalho estudamos o efeito da dopagem in-situ com o gás N2 de filmes estequiométricos de a-SiC:H com diferentes ordens química e estrutural, obtidos pela técnica PECVD a baixas temperaturas. Primeiramente podemos concluir que, em ambos os tipos de materiais, maiores esforços são necessários para obter maiores níveis de condutividade. Porém, para aplicações nas quais são desejadas menores concentrações de dopantes, como por exemplo, na região de canal de um transistor MOS, a dopagem in-situ com N2 apresentou níveis de condutividades promissoras para a construção de dispositivos eletrônicos devido a sua facilidade de processamento e o baixo custo. Contudo, para as amostras C3690H, cujas características observadas nas medidas elétricas de condutividade versus temperatura apresentaram dois regimes de condução que devem ser mais bem entendido e novos estudos são necessários. 3,6 C3690H C3680 Bandgap óptico (eV) 3,4 3,2 3,0 2,8 2,6 2,4 2,2 2,0 1,8 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 Fluxo N2 (sccm) Figura 4. 12 - Bandgap óptico das amostras intrínsecas e dopadas in-situ com nitrogênio. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 100 4.2.2 - Implantação iônica de boro (B+) e difluoreto de boro (BF2+) O efeito da implantação com B+ e BF2+ sobre as propriedades elétricas do a-Si0,5C0,5:C pode ser apreciado na Figura 4. 13 e Tabela 4. 2. Como podemos ver a condutividade das amostras dopadas com boro não é muito alta, confirmando os pobres resultados obtidos em trabalhos anteriores [93]. Por outro lado, os valores de condutividade elétrica para amostras dopadas BF2+ são muito promissores, alcançando valores da ordem de 10-1 (Ω.cm)-1 e apresentando uma energia de ativação baixa (~18 meV). É importante destacar que estes níveis de condutividade obtidos com implantação de BF2+ são muito expressivos para uma dopagem tipo-p num semicondutor de alto gap, valores superiores aos reportados pela literatura da dopagem de boro implantado em a-SiC:H [89]. Estes níveis de condutividade podem ser comparados inclusive com os reportados pela literatura de dopagem por implantação iônica tipo-p em c-SiC [177]. Até o momento tem sido um desafio à produção de camadas tipo-p com elevada eficiência de dopagem, mesmo para o SiC cristalino, principalmente a implantação de boro, a qual a dopagem não conduz a resultados satisfatórios. Temperatura (K) 550 Condutividade (Ω.cm) -1 10 1 10 -1 10 -3 10 -5 10 -7 10 -9 500 BF 2 -11 10 -13 0,0018 400 350 300 + Símbolo cheio - C3680 Símbolo aberto - C3690H BF 2 B B 10 450 + + + intrínsecas 0,0021 0,0024 0,0027 0,0030 0,0033 -1 1/T (K ) Figura 4. 13 - Condutividade versus 1/T para amostras: intrínsecas (quadrado), dopadas com B+ (triângulo) e dopadas com BF2+ (círculo). Capítulo 4 – Resultados e Discussão 101 Relembrando, na literatura do silício [99,100] a implantação com BF2+ no lugar de B+ é utilizada para produzir lâminas rasas p+. De fato, devido a sua maior massa, o BF2+ não apresenta os problemas normalmente associados com a implantação de B+, como o tunelamento e a difusão/exodifusão no material. Por estas razões nós esperamos evitar as instabilidades térmicas observadas em nossos experimentos prévios com este elemento. Efetivamente a curva σ vs. 1/T das amostras implantadas com BF2+ na Figura 4. 13 são bastante estáveis e reprodutíveis. Tabela 4. 2 - Energia de ativação (EA) e gap óptico (EG) da amostras tipo C3680 e C3690H dopadas com uma concentração de 1×1020 cm-3. Amostra Tipo C3680 Íon Energia de ativação (eV) Gap óptico (eV) intrínseco 1,20 2,4 B+ 0,20 2,3 0,25 2,1 intrínseco 1,40 3,0 B+ 0,20 2,9 0,15 2,5 BF2 C3690H BF2 + + Também podemos observar que, comparando com a dopagem tipo-n com fósforo realizada previamente [178], a dopagem tipo-p com BF2+ conduz a maiores valores de condutividade elétrica e menores valores de energia de ativação. Este fato pode estar relacionado particularmente com a boa propriedade aceitadora do BF2+, o qual deve ser mais bem estudado. Mas também pode ser uma conseqüência das propriedades de baixa injeção de elétron dos nossos contatos de Al. De fato, é conhecido da literatura do SiC cristalino que o alumínio não é um bom contato elétrico para aplicações em materiais tipo-n, uma vez que ele introduz uma elevada barreira para os elétrons na interface metal/semicondutor. Para SiC tipo-n, bons contatos ôhmicos são obtidos em metais como níquel, titânio e tungstênio. Além disso para a formação de um contato ôhmico é necessário um processo de recozimento térmico em elevadas temperaturas (acima de 800 ºC) [179]. Por outro lado, como o Al é uma impureza aceitadora em SiC, qualquer difusão de alumínio sob os eletrodos pode definir uma região p+, a qual atua com um bom contato injetor para amostras de a-SiC:H dopadas tipo-p. Assim, nos experimentos aqui descritos Capítulo 4 – Resultados e Discussão 102 nossos contatos elétricos baseados em Al provavelmente possuem uma boa propriedade de injeção para o material dopado tipo-p, mas certamente não atua da mesma maneira para o caso da dopagem tipo-n. A seguir, na Figura 4. 14, mostramos o perfil de boro em função do tempo de sputtering (pulverização) para as amostras de a-SiC:H dopadas por implantação iônica de BF2+ e B+. A abscissa dos gráficos é o tempo de sputtering, medido em segundos. Profundidade (μm) 0,0 0,6 1,2 1,8 2,4 substrato a-SiC:H Log (Contagens/seg) (Corning glass 7059) 4 10 + I/I BF2 + I/I B 3 10 interface: a-SiC:H / substrato 2 10 0 100 200 300 400 Tempo de sputtering (seg) Figura 4. 14 - Perfil de boro das amostras dopadas por implantação iônica de BF2+ e B+. Como vimos anteriormente, na literatura do silício a implantação de BF2+ é utilizada em vez de B+ para produzir camadas rasas p+. De fato, devido a sua maior massa, BF2+ não apresenta os problemas normalmente associados com a implantação de B+, como o tunelamento do boro. Com o intuito de verificar se o efeito é responsável pela condutividade alta em nossas amostras implantadas com BF2+, nós medimos o perfil de distribuição de boro das implantações com BF2+ e B+ pela técnica SIMS. Os resultados são mostrados na Figura 4. 14, onde a abscissa do gráfico é o tempo de sputtering, medido em segundos. O perfil em profundidade correspondente, estimado por medida de perfilometria da profundidade da cratera Capítulo 4 – Resultados e Discussão 103 formada (ver Figura 4. 15), é mostrado no eixo superior da mesma figura. A linha tracejada em 0,6 μm indica a espessura do filme. Como pode ser visto, a amostra implantada com BF2+ exibe uma concentração de boro maior que a amostra implantada com B+. Esta diferença se estende ao longo de toda espessura do filme, especialmente na superfície. Devido à falta de um padrão apropriado para calibrar a sensibilidade do SIMS infelizmente nós não pudemos obter os valores absolutos da concentração de boro. Então, na Figura 4. 14 mostramos que a implantação com BF2+ leva a uma concentração de boro de aproximadamente uma ordem de grandeza maior que a obtida com a implantação de B+. Este comportamento é provavelmente devido a efeitos de efusão induzida pelo processo de tratamento térmico. De fato, como reportado para o silício cristalino [180], o coeficiente de difusão do boro implantado por BF2+ é menor do que o implantado por B+. Baseado nisto, acreditamos que em nossos filmes de a-SiC:H a presença do flúor pode estar reduzindo a difusão de boro na etapa de recozimento térmico, por isso obtemos uma maior concentração de boro na amostra implantada com BF2+. Na Figura 4. 15 também podemos observar um perfil de boro para profundidades maiores que 0,6 μm, a qual é devida à presença de boro na composição (ver Tabela 4. 3) do substrato de vidro Corning 7059 (bária alumínio Profundidade da cratera (m) borosilicato). 0,0 -2,0µ Espessura SiC = 0,6 μm interface SiC / substrato -4,0µ -6,0µ -8,0µ Tempo de sputtering = 1800 seg -10,0µ -12,0µ 0,0 100,0µ 200,0µ 300,0µ Largura (m) (a) 400,0µ 500,0µ Capítulo 4 – Resultados e Discussão 104 (b) Figura 4. 15 – Cratera formada pelo feixe de íons primários: (a) Medida de perfilometria da profundidade e (b) Microscopia óptica da superfície. Tabela 4. 3 – Composição do substrato de vidro da marca Corning tipo 7059. Composição SiO2 Al2O3 B2O3 BaO As2O3 Concentração (%) 49 10 15 25 1 A alta condutividade elétrica das amostras implantadas com BF2+ também pode estar relacionada à presença de flúor no filme. De acordo com a literatura do silício amorfo [181,182], a incorporação de átomos de flúor pode produzir um efeito similar ao do hidrogênio na redução da densidade de estados na banda proibida. Matsumura et al. [183] tem reportado uma dopagem in-situ tipo-p com boro pela adição do gás BF3 em filmes de a-Si:F, sem a adição do gás hidrogênio. Nestes filmes os átomos de flúor atuam saturando as ligações incompletas (dangling-bonds) e os de boro como átomos dopantes aceitadores. Baseado nisto, acreditamos que um efeito similar possa estar ocorrendo em nossas amostras. Neste caso os átomos de flúor, como o hidrogênio, também reduzem a densidade de estados na banda proibida, saturando os dangling-bonds, melhorando as propriedades de transporte eletrônico do material. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 105 Por último, a alta condutividade elétrica poderia estar relacionada aos defeitos originados pela mudança estrutural dos filmes, induzidas pelo processo de implantação iônica. Sobre isto, um espectro de absorção FTIR na Figura 4. 16 mostra que o processo de implantação não introduz mudanças significativas no material, descartando esta possibilidade. Neste trabalho, portanto, foi estudada a dopagem elétrica tipo-p por implantação iônica com B+ e BF2+ em a-Si0,5C0,5:H com elevada ordem química e estrutural. Pela primeira vez na tecnologia do a-SiC:H foi utilizada a implantação de BF2+, a qual apresentou uma condutividade no escuro de ~10-1 (Ω.cm)-1, valor comparável aos reportados pela literatura do c-SiC. Amostras com estas condutividades apresentam uma baixa energia de ativação (~0,15 eV), indicando essencialmente um processo de condução não ativado termicamente. -1 não-dopada (Si-C) @ 800 cm + Absorbância (u.a.) I/I B + I/I BF2 -1 Si-CHn @ 950 cm -1 (C-H) @ 2900 cm 3200 2800 -1 (Si-H) @ 2100 cm 2400 2000 1600 1200 800 400 Número de onda (cm ) -1 Figura 4. 16 – Espectro FTIR das amostras de a-SiC:H não-dopada e dopadas por implantação iônica com B+ e BF2+ O perfil de distribuição dos átomos dopantes de boro no a-SiC:H, foi medido através da técnica de espectrometria de massa de íons secundários (SIMS). Além disso, obtivemos também informações a respeito das ligações químicas presentes no material através da espectroscopia na região do infravermelho (FTIR). De acordo com as caracterizações realizadas, acreditamos que devido à maior concentração dos átomos de boro associada à diminuição da densidade de defeitos (saturação dos Capítulo 4 – Resultados e Discussão 106 dangling-bonds pelos átomos de flúor) são os principais fatores responsáveis pela maior eficiência da dopagem do a-SiC:H implantado com BF2+ com relação a implantação com B+. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 107 4.2.3 - Difusão térmica de alumínio Como no caso das amostras intrínsecas cristalizadas, as amostras dopadas por difusão térmica de Al a temperaturas acima de 550 ºC também apresentam cristalização do a-SiC:H, com a formação de cristais de 3C-SiC. Com relação às caracterizações elétricas, primeiramente apresentamos os resultados de medidas elétricas IxV para verificar o caráter ôhmico dos contatos elétricos. Foram depositados 500 nm de Al por evaporação térmica com subseqüente tratamento térmico de sinterização dos contatos, realizado a 550ºC por 1 hora. Como podemos notar na Figura 4. 17 a corrente elétrica cresce linearmente com o aumento da tensão. A seguir, na Figura 4. 18 apresentamos os valores de condutividade elétrica em função da temperatura de recozimento para difusão/cristalização do material. Podemos notar claramente o efeito da dopagem, demonstrando o aumento da condutividade a temperatura ambiente, que cresce em torno de 11 ordens de grandeza em relação à amostra intrínseca. De acordo com os resultados de cristalização dos filmes de a-SiC:H, separamos em duas fases a evolução da condutividade elétrica. A primeira ocorre entre 350 e 500 ºC, na qual notamos um elevado aumento da condutividade em relação à temperatura de difusão. Creditamos principalmente este aumento de condutividade devido à maior eficiência da difusão do Al com o aumento da temperatura e, conseqüentemente, da eficiência da dopagem, uma vez que ainda se trata de um material amorfo. A segunda fase, acima de 500 ºC, nós associamos o aumento da condutividade elétrica também com o aumento da eficiência da dopagem, porém agregada ao efeito da cristalização do material, uma vez que existe uma maior continuidade espacial para o movimento dos elétrons. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 108 C3690H - Dif.550-90 -4 8,0x10 Corrente (A) Contatos de Al - sinterização: 550ºC por 1 h -4 4,0x10 0,0 -4 -4,0x10 -4 -8,0x10 -2,0 -1,5 -1,0 -0,5 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 Tensão (V) Figura 4. 17 – Caracterização IxV para verificação dos contatos elétricos. Difusão térmica de Al em SiC C3690H 0 10 Condutividade (Ω.cm) -1 1000ºC por 2 h -2 10 550ºC por 2 h fase cristalina - trabalho atual 750ºC por 2 h fase amorfa - trabalhos anteriores -4 10 500ºC por 2 h -6 10 450ºC por 6 h -8 10 -10 10 350ºC por 6 h -12 10 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 Temperatura de difusão (ºC) Figura 4. 18 - Condutividade elétrica a temperatura ambiente em função da condição de dopagem. Na figura a seguir apresentamos um gráfico comparando as resistividades obtidas em nosso estudo com os dados reportados pela literatura do c-SiC utilizando Capítulo 4 – Resultados e Discussão 109 a implantação iônica (I/I) de Al. As condições de processo utilizadas pela literatura são apresentadas na tabela abaixo. O gráfico é dado em função da temperatura de recozimento que, em nosso caso, é utilizada para a dopagem por difusão e cristalização e, no caso da literatura, é dada para ativação das impurezas e recristalização. Como se pode notar foram obtidos níveis de resistividade muito promissores, comparáveis ao da literatura do c-SiC, porém com temperaturas de processamento consideralvelmente inferiores. Experimentos de dopagem com Al selecionados para a produção de baixa resistividade tipo-p em c-SiC 2 Resistividade (Ω.cm) 10 Difusão Al e cristalização a-Si0,5C0,5:H I/I Al - literatura c-SiC 1 10 0 10 -1 10 C3690H -2 10 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 2000 Temperatura de recozimento (ºC) Figura 4. 19 - Resistividade em função dos valores de temperatura de processo. Tabela 4. 4 - Condições de dopagem das amostras referentes à Figura 4. 19. Concentração de Al (cm-3) 2,0×1018 Temperatura de implantação (ºC) 500 Recozimento (ºC/min) 1800/30 Troffer et al. [96] 1,6×10 20 Ambiente 1700 Kimoto et al. [184] ▲ 5,0×10 19 400 1550/10 Wirth et al. [185] ○ ∆ ● 1,0×1020 650 1670/12 Billon et al. [186] 1,5×1020 800 1600/15 Handy et al. [187] 20 850 1600/45 Rao et al. [188] Legenda ▼ □ 1,0×10 Referência Capítulo 4 – Resultados e Discussão 110 Como dissemos anteriormente é muito difícil produzir carbeto de silício tipo-p com baixa resistividade devido o seu elevado nível aceitador. Além do mais, de acordo com modelos teóricos, são necessárias concentrações acima de 2×1020 cm-3 para obter resistividades abaixo de 0,1 Ω.cm à temperatura ambiente, o que gera a necessidade de elevadas temperaturas para ativação das impurezas e reconstrução da estrutura cristalina. Além disso, outro problema está relacionado com a solubilidade do Al no c-SiC, para o qual em concentrações acima de 2×1020 cm-3 tem havido problemas com a ativação das impurezas devido à precipitação de Al. Sabendo disso, Heera et al. [102] conseguiram obter baixos valores de resistividade (<0,1 Ω.cm) partindo de uma lâmina de 6H-SiC (Figura 4. 20). Em seu trabalho, a dopagem foi produzida pela combinação de altas doses (1,0 – 3,3×1016 cm-2) e múltiplas energias (50-450 keV) de implantação iônica de Al+ a temperaturas extremamente baixas, de aproximadamente –130ºC, para a produção de um material nanocristalino. Segundo o autor, a amorfização do material possibilita uma incorporação maior de Al no carbeto de silício, o que consequentemente aumenta a eficiência da dopagem. A recristalização do material foi induzida pela implantação de 5×1015 cm-2 de Si+ a 500 ºC, com subseqüente tratamento térmico a 1500 ºC por 10 minutos. Acreditamos que um mecanismo semelhante esteja ocorrendo com nossas amostras, uma vez que obtivemos baixos níveis de resistividade com temperaturas de processamento relativamente baixas. A seguir apresentamos os resultados obtidos por Heera [102], em conjunto sobrepomos um outro gráfico com os valores de condutividade elétrica obtidos para as amostras dopadas por difusão térmica a 550, 750 e 1000 ºC. Podemos notar que as amostras cristalizadas apresentam valores de resistividades e os comportamentos em função da temperatura semelhantes aos reportados por Heera et al. [102]. As vantagens do nosso processo com relação ao processo descrito na Figura 4. 20 estão relacionadas principalmente a dois pontos: à facilidade e ao baixo custo do nosso processo, que não exige sofisticados sistemas de dopagem e pode ser realizado a temperaturas bem inferiores. Além disso, Heera, em seu processo, partiu de uma lâmina de 6H-SiC que custa aproximadamente US$ 450 (ver Tabela 2.1) e, em nosso caso, partimos de um substrato de Si Capítulo 4 – Resultados e Discussão 111 consideravelmente mais barato (~US$ 10). Dessa forma, com o exposto anteriormente, fica evidente a maior facilidade e o menor custo da tecnologia proposta neste trabalho. Figura 4. 20 - Resistividade em função da temperatura. Os dados da literatura foram retirados do trabalho de Heera et al. [102], em conjunto também são apresentados os nossos resultados de difusão térmica. As condições de dopagem são apresentadas na tabela abaixo. Tabela 4. 5 - Condições de dopagem das amostras referentes à Figura 4. 20. Amostra Al (cm-3) Temperatura Implantação (ºC) Dose implantação silício. (500 keV/500 ºC) Recozimento (ºC) Estrutura L 1,5×1020 1500 Cristalina 400 -2 5,0×10 cm 1500 Cristalina 1,5×1020 -130 5,0×1015 cm-2 1500 Nanocristalina H 5,0×10 20 400 - 1500 Cristalina H_Si 5,0×10 20 400 5,0×10 cm 1500 Cristalina H_IBIC 5,0×10 20 -130 Nanocristalina X 5,0×10 400 5,0×10 cm - 1500 20 1650 Cristalina difusão difusão difusão - 550 750 1000 Nanocristalina Nanocristalina Nanocristalina L_Si L_IBIC -□-●-▲- 1,5×10 ? ? ? 400 - 20 15 15 15 -2 -2 Capítulo 4 – Resultados e Discussão 112 Os elevados valores de condutividade apresentados para amostras difundidas e cristalizadas com Al podem ser explicados pela formação de uma banda de impureza, devido a uma alta densidade de átomos de Al eletricamente ativos. Podemos notar também que o material apresenta um comportamento termicamente ativo, o que descarta a possibilidade de uma condução metálica, a qual é independente da temperatura. De qualquer maneira, outras análises devem ser realizadas, como exemplo, medidas de efeito Hall para comprovar o caráter tipo-p das amostras além da determinação da concentração dopantes presente no material. Nesta parte do trabalho, portanto, demonstramos a possibilidade de dopagem em conjunto com um processo de cristalização de filmes de a-Si0,5C0,5:H via difusão térmica de alumínio. Como no caso das amostras intrínsecas, o tratamento térmico conduz à formação 3C-SiC. Cabe aqui destacar que não foi possível realizar a caracterização elétrica nas amostras tipo C3680 devido à formação de trincas. Porém, em amostras tipo C3690H que não apresentaram trincas foram obtidos baixos níveis de resistividade elétrica, da mesma ordem dos materiais cristalinos. A dopagem por difusão térmica de Al conjuntamente com um processo de cristalização é um processo promissor de dopagem se comparado com o tradicional processo de implantação iônica de Al em SiC. Isso se deve à grande simplicidade e baixo custo do processo, com a obtenção de valores de resistividade muito próximos aos reportados pela literatura utilizando o processo de dopagem por implantação iônica, da ordem de 1 Ω.cm, entretanto com temperaturas de processamento muito inferiores. Outro importante ponto a destacar é a inovação do processo de dopagem em SiC, uma vez que a literatura não reporta nenhum trabalho com esta técnica de dopagem. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 113 4.3 - Parte 3: Dispositivos 4.3.1 – Capacitores MOSiC Para investigar o tipo de ligações químicas presentes nas camadas de óxido, foram realizadas medidas de espectroscopia na região o infravermelho FTIR. A Figura 4. 21 mostra o espectro FTIR das amostras dos Grupos 1, 2 e 3. Como podem ser visto, os espectros exibem as características típicas de um óxido de silício. O pico de absorção em 1050 cm-1, devido ao modo de vibração stretching da ligação Si-O, é claramente visível para todas as amostras. Além deste pico, mais outros dois picos menores também estão presentes: o primeiro, em 800810 cm-1, atribuído ao modo de vibração bending da ligação Si-O e um segundo, em 460 cm-1, relacionado ao modo de vibração rocking da ligação Si-O. Ainda é possível notar que a amostra de oxinitreto de silício também apresenta um espectro muito semelhante ao do óxido de silício, sugerindo que o tratamento térmico realizado para a cristalização do SiC deve ter promovido uma oxidação destes filmes, uma vez que estes experimentos não foram realizados em ambiente a vácuo. -1 Si-O bending @ 810 cm -1 Si-O stretching @ 1050 cm -1 Absorbância (u.a.) Si-O rocking @ 460 cm SiC/SiO2 térmico seco SiC/SiO2 PECVD SiC/SiO2 térmico úmido Si/SiO2 térmico seco (referência) SiC/SiOXNY PECVD 500 1000 1500 2000 -1 Número de onda (cm ) Figura 4. 21 - Espectros FTIR das amostras dos Grupos 1, 2 e 3. 2500 Capítulo 4 – Resultados e Discussão 114 A seguir apresentamos a caracterização elétrica das amostras, a qual se iniciará pela amostra de referência de Si. Normalmente um capacitor convencional possui uma estrutura vertical, ou seja, com os contatos elétricos paralelos. Porém, em nosso caso, estamos utilizando filmes de SiC e não lâminas, portanto necessitamos de um suporte mecânico para os filmes e, conseqüentemente, todos contatos elétricos estão localizados na superfície superior do dispositivo. Nesse sentido, o primeiro passo foi comparar o comportamento dos dispositivos fabricados com a estrutura proposta com o comportamento dos dispositivos baseados na estrutura convencional, a partir de capacitores fabricados com lâminas de referência de Si, que é um material muito estudado e conhecido pela literatura. Deste modo, foram fabricadas ambas as estruturas numa mesma amostra, vertical (convencional) e horizontal (proposta para os filmes de SiC), de modo a comparar as curvas C-V características. Na Figura 4. 22 apresentamos um esquema das estruturas utilizadas para a caracterização elétrica. CONTATO DE PORTA (comum p/ as estruturas) ( d t t + ~ ) - CONTATO DE BULK (estrutura “proposta”) + ~ - CONTATO DE BULK (estrutura “convencional”) Metal – Alumínio Óxido (~ 0,1 μm) Substrato de Silício Figura 4. 22 - Estrutura do capacitor MOS de Si contendo as estruturas: convencional (vertical) e proposta (horizontal). Na Figura 4. 23 e Tabela 4. 6 mostramos as curvas características de capacitância em função da tensão em alta freqüência (1 MHz) e os parâmetros extraídos das estruturas horizontal e vertical, respectivamente. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 115 90 Capacitância (pF) 80 (a) silício - estrutura vertical 70 60 50 40 30 20 -12 -9 -6 -3 0 Tensão aplicada (V) Capacitância (pF) 16,0 (b) silício - estrutura horizontal 14,0 12,0 10,0 8,0 6,0 -12 -9 -6 -3 0 Tensão aplicada (V) Figura 4. 23 - Curvas C-V a alta freqüência dos capacitores de Si para: (a) estrutura vertical e (b) estrutura horizontal. Tabela 4. 6 - Parâmetros elétricos dos capacitores MOS extraídos das estruturas vertical e horizontal a partir da curva C-V a alta freqüência corrigida pela resistência série. Capacitor VTH (V) VFB (V) Qeff (cm-2) COX (pF) tox (Å) Área calculada (cm2) Si vertical -7,3 -3,6 6,18 ×1011 83,11 1250 28 ×10-4 Si horizontal -6,7 -3,4 6,89 ×1011 80,95 1250 26 ×10-4 Capítulo 4 – Resultados e Discussão 116 Como se pode observar as curvas apresentam um comportamento de um semicondutor tipo-n praticamente idêntico. De acordo com a Tabela 4. 6 podemos notar que os parâmetros característicos das curvas, tais como tensão de limiar (VTH), tensão de banda plana (VFB) e densidade de cargas no óxido (Qeff) possuem valores muito próximos, dentro de um erro experimental, o que sugere que os dispositivos são idênticos, a não ser pelos valores de capacitância. De fato, devido à resistividade do substrato (~3 Ω.cm), não devemos esperar que a capacitância da estrutura horizontal seja idêntica à estrutura vertical. A maioria dos capacímetros comerciais mede a capacitância utilizando o modelo paralelo de um capacitor MOS, por esse motivo, se houver uma resistência não desprezível associada em série com a estrutura (resistência série), pode-se introduzir um erro na extração dos parâmetros da curva C-V [128]. Por isso os valores das capacitâncias são diferentes para as estruturas. Assim, para a extração dos parâmetros elétricos de todas as estruturas horizontais foi necessária à correção da curva C-V, a qual foi realizada pelo próprio programa do equipamento de medida. Com base na caracterização elétrica realizada nos capacitores de Si fabricados a partir das estruturas horizontal e vertical, podemos observar que os resultados são em geral muito semelhantes (ver Tabela 4. 6), o que nos habilita a caracterizar os capacitores fabricados a partir dos filmes cristalizados de SiC com a estrutura horizontal. Deste modo, na Figura 4. 24 e Tabela 4. 7 mostramos as curvas de capacitância em função da tensão a alta freqüência (1 MHz) características e os parâmetros extraídos amostras do Grupo 1, capacitores de SiC com óxido térmico seco e úmido, respectivamente. É importante aqui destacar que para a extração dos parâmetros característicos das curvas C-V foram consideradas algumas constantes da literatura do 3C-SiC, tais como a constante dielétrica: ε3C-SiC = 9,7, o número de portadores intrínsecos a temperatura ambiente: ni = 8 cm-3 e a altura da banda proibida: EG = 2,4 eV (ver Tabela 2. 1). Em todos os dispositivos baseados em SiC só foi possível obter a curva em alta freqüência, devido à alta corrente de fuga dos dispositivos [128], o que impossibilitou o cálculo da densidade de estados de interface. Outra informação importante que pode ser obtida dos capacitores baseados em nossos filmes de SiC é que todos apresentam um comportamento típico de um semicondutor tipo-p. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 117 Lembrando que estes dispositivos consistem de uma estrutura formada SiC “intrínseco” depositado sobre um substrato de Si tipo-n. Conseqüentemente, o comportamento tipo-p só pode ser devido ao filme de SiC, o que indica que nossos filmes intrínsecos possuem uma dopagem não intencional tipo-p. Através da Tabela 4. 7 vemos um deslocamento na tensão de banda plana, VFB, que é devido à quantidade de cargas efetivas presente no óxido (Qeff), da ordem de 1012 cm-2. Capacitância (pF) 30,0 SiC - oxidação seca (a) 25,0 20,0 15,0 inversão - acumulação acumulação - inversão 10,0 5,0 -50 -40 -30 -20 -10 Tensão aplicada (V) SiC - oxidação úmida Capacitância (pF) 60 (b) 50 40 inversão - acumulação acumulação - inversão 30 -25 -20 -15 -10 -5 Tensão aplicada (V) Figura 4. 24 - Curvas C-V a alta freqüência dos capacitores de SiC com oxidação: (a) térmica seca e (b) térmica úmida. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 118 Tabela 4. 7 - Parâmetros elétricos extraídos a partir da curva C-V a alta freqüência dos capacitores MOS de SiC oxidados termicamente. Capacitor WDMAX (nm) NA (cm-3) VFB (V) COX (pF) Qeff (cm-2) tox (Å) Área Calculada (cm2) SiC/Seco 816 6,8×1015 -24,7 30 3,14×1012 1584 26×10-4 SiC/Úmido 91 2,5×1016 -15,8 60 5,2×1012 612 27×10-4 Na Figura 4. 25 e Tabela 4. 8 mostramos as curvas de capacitância em função da tensão a alta freqüência (1 MHz) características e os parâmetros extraídos amostras do Grupo 2, capacitores de SiC com óxido de silício e oxinitreto de silício depositados por PECVD, respectivamente. Podemos notar que para estes dispositivos também foram encontradas cargas efetivas presentes no óxido (Qeff) da ordem de 1012 cm-2, da mesma ordem de grandeza reportada pela literatura para filmes isolantes depositados em SiC [103,118]. Podemos notar que para ambos os casos, quando a estrutura está originalmente em acumulação e a rampa de tensão é aplicada à porta, a capacitância entra em depleção profunda. Como o carbeto de silício possui um alto gap de energia (~ 2,4 eV), a concentração de portadores intrínsecos é muito menor que para o silício, por exemplo (da ordem de 8 cm-3 para o 3C-SiC), o qual produz uma taxa de geração e recombinação de portadores muito pequena comparada com o Si. Tem sido comum observar o fenômeno de depleção profunda em dispositivos MOSiC, principalmente para dispositivos do tipo-p [189,190]. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 119 SiC/SiO2 PECVD Capacitância (pF) 25,0 (a) 20,0 15,0 10,0 inversão - acumulação acumulação - inversão -25 -20 -15 -10 -5 0 Tensão aplicada (V) 32,0 Capacitância (pF) SiC/SiOXNY PECVD (b) 28,0 24,0 20,0 16,0 inversão - acumulação acumulação - inversão 12,0 -20 -16 -12 -8 -4 0 Tensão aplicada (V) Figura 4. 25 - Curvas C-V a alta freqüência dos capacitores de SiC com isolantes depositados por PECVD: (a) óxido de silício e (b) oxinitreto de silício. Tabela 4. 8 - Parâmetros elétricos extraídos a partir da curva C-V a alta freqüência dos capacitores MOS de SiC com isolantes depositados por PECVD. Capacitor WDMAX (nm) NA (cm-3) VFB (V) COX (pF) Qeff (cm-2) tox (Å) Área calculada (cm2) SiC/SiO2 559 8,2×1015 -15,6 26 1,31×1012 2260 25×10-4 SiC/SiOXNY 91 1,1×1016 -13,3 29 1,77×1012 1390 24×10-4 Capítulo 4 – Resultados e Discussão 120 Para a caracterização da qualidade dos isolantes também foram feitas medidas de corrente em função da tensão para obter o valor de campo elétrico de ruptura, EB. Os resultados de EB são apresentados na Figura 4. 26. Para todos os capacitores foram obtidos baixos valores de campos de ruptura (0,5-1,8 MV/cm), fenômeno conhecido como ruptura precoce [128], resultado este que é normalmente atribuído à baixa qualidade do óxido. No caso das amostras do Grupo 2, as quais o isolante foi depositado por PECVD, foram obtidos os valores mais baixos (menores que 1 MV/cm). Uma hipótese para este fato é que no caso das amostras do Grupo 2 o processo de cristalização dos filmes de SiC ocorreu após a deposição dos isolantes, o que pode ter prejudicado a qualidade do isolante. Por outro lado, para as amostras do Grupo 1 (oxidadas termicamente) também apresentaram valores baixos de EB, porém com níveis comparáveis aos reportados pela literatura do 3C-SiC monocristalino (ver 5,0 -1 Densidade de corrente, J (A cm ) Tabela 3. 5). 4,5 térmico seco térmico úmido SiO2 PECVD SiOXNY PECVD 4,0 3,5 3,0 2,5 2,0 1,5 1,0 0,5 0,0 0,0 400,0k 800,0k 1,2M 1,6M 2,0M -1 EB (V cm ) Figura 4. 26 - Campo elétrico de ruptura, EB, em função das amostras dos Grupos 1 e 2. Assim, nesta parte do trabalho demonstramos a viabilidade de fabricação de capacitores MOSiC baseados em filmes cristalizados de SiC obtidos por PECVD a baixas temperaturas. A oxidação térmica destes filmes resultou na formação de um típico óxido de silício, com uma taxa de crescimento superior ao dos óxidos crescidos, sob mesmas condições, em substratos de silício cristalino (contrário do observado em oxidação de SiC monocristalino), sugerindo que estes filmes de SiC Capítulo 4 – Resultados e Discussão 121 cristalizados devem apresentar grande quantidade de defeitos estruturais. As propriedades elétricas dos dispositivos fabricados com óxidos crescidos termicamente e isolantes depositados por PECVD demonstraram que os filmes de SiC possuem um comportamento típico de um semicondutor tipo-p. Para todos os capacitores foram obtidos baixos valores de campos de ruptura (0,5-1,8 MV/cm), porém, no caso dos oxidados termicamente, com valores comparáveis aos reportados pela literatura do 3C-SiC. As cargas efetivas presentes no óxido são da mesma ordem de grandeza reportado pela literatura do SiC, de 1012 cm-2. É importante destacar que estes são resultados preliminares e ainda necessitam de um estudo mais aprofundado, bem como um aperfeiçoamento dos processos de fabricação que também deve ser realizado. Entretanto, embora estes resultados ainda sejam preliminares e apresentem características inferiores aos reportados pela literatura do SiC monocristalino, demonstram ser promissores por se tratar de filmes que foram obtidos a baixas temperaturas e cristalizados posteriormente. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 122 4.3.2 – Heterojunções SiC/Si De acordo com os resultados obtidos no capítulo anterior (capacitores MOSiC), foi observado um comportamento tipo-p em nossos filmes de SiC obtidos por PECVD, portanto, para a caracterização das heterojunções, nós assumimos a formação de um heterodiodo de SiC tipo-p/Si tipo-n, uma vez que a dopagem tipo-n do substrato de Si era previamente conhecida. A partir disso, analisamos as curvas I-V características das amostras comodepositadas e recozidas termicamente (550, 750 e 1000 ºC). A Figura 4. 27(a-d) mostra o esquema da caracterização elétrica e a dependência I-V com a temperatura. A Substrato Silício Filme SiC PECVD Alumínio Esquema da caracterização elétrica I-V das heterojunções SiC/Si. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 123 2 (a) como-depositada 2 Densidade de corrente (A/cm ) 10 0 10 -2 10 27 ºC 50 ºC 100 ºC 150 ºC 200 ºC -4 10 -6 10 -1 0 1 2 3 Tensão aplicada (V) 2 Densidade de corrente (A/cm ) 0 10 (b) recozida a 550 ºC -2 10 -4 10 27 ºC 50 ºC 100 ºC 150 ºC 200 ºC -6 10 -8 10 -1 0 1 Tensão aplicada (V) 2 3 Capítulo 4 – Resultados e Discussão 1 (c) recozida a 750 ºC 2 Densidade de corrente (A/cm ) 10 124 -1 10 27 ºC 50 ºC 100 ºC 150 ºC 200 ºC -3 10 -5 10 -1 0 1 2 3 2 Densidade de corrente (A/cm ) Tensão aplicada (V) 2 10 (d) recozida a 1000 ºC 1 10 0 10 -1 10 27 ºC 50 ºC 100 ºC 150 ºC 200 ºC -2 10 -3 10 -4 10 -8 -6 -4 -2 0 2 4 6 8 Tensão aplicada (V) Figura 4. 27 – Esquema da medida e curvas I-V características das heterojunções PECVD SiC tipo-p/Si tipo-n medidas a diferentes temperaturas: (a) como-depositada (b) recozida a 550 ºC, (c) 750 ºC e (d) 1000 ºC. A Figura 4. 27 mostra as diferenças entre as amostras como-depositada e amostras recozidas, principalmente com relação às amostras tratadas termicamente a Capítulo 4 – Resultados e Discussão 125 750 e 1000 ºC. Como pode ser visto, a amostra como-depositada se comporta como um diodo típico, com uma densidade de corrente reversa relativamente baixa. Por outro lado, para amostras recozidas, podemos notar que a densidade de corrente reversa aumenta de acordo com aumento da temperatura de recozimento térmico. Este comportamento é um indicativo de que pode estar ocorrendo um aumento da densidade de defeitos na heterointerface SiC/Si em função do aumento da temperatura de processo, uma vez que o recozimento provoca a cristalização do material (ver capítulo cristalização). Estes defeitos podem atuar como centros de geração e recombinação para elétrons e lacunas, limitando o tempo de vida e a mobilidade [194]. Como resultado, podemos ver a obtenção de dispositivos com propriedades eletrônicas muito pobres, principalmente para os tratados a 750 e 1000 ºC, que efetivamente apresentam uma fração cristalina de SiC apreciável. Na Figura 4. 28 mostramos um gráfico IxV em escala linear para a amostra tratada a 1000 ºC (com maior fração cristalina) que, como se pode notar, apresenta um comportamento típico de um resistor, com a corrente crescendo praticamente linearmente com a tensão aplicada. 0,02 recozida a 1000 ºC Corrente (A) 0,01 0,00 -0,01 -0,02 -5 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 5 Tensão aplicada (V) Figura 4. 28 - Curva I-V característica em escala linear das heterojunções SiC tipo-p/Si tipo-n medidas a temperatura ambiente para as amostras como-depositada e recozidas a 550, 750 e 1000 ºC. Levando em conta estas características, separamos a análise das amostras em dois grupos diferentes: amostras com densidade moderada de corrente reversa (como-depositada e recozida a 550 ºC) e amostras com densidade alta de corrente Capítulo 4 – Resultados e Discussão 126 reversa (recozida a 750 e 1000 ºC). A seguir analisamos o mecanismo de transporte dominando para cada amostra e sua dependência com a temperatura. - Amostras como-depositada e recozida a 550 ºC De acordo com os modelos de retificação de junção, a relação entre a densidade de corrente J e a tensão aplicada é expressa por [194]: ( ) J (V , T ) = J 0 (T ). e A(T ).V − 1 onde J0 é a densidade de corrente de saturação, a qual é extraída do gráfico IxV em escala logarítmica a partir da extrapolação da região linear até a tensão igual a zero volt, e A é um coeficiente que normalmente depende da temperatura T. As expressões particulares para J0 e A dependem do mecanismo que domina a corrente. Um resumo dos mecanismos básicos de condução [194] é apresentado na Tabela 4. 9. Tabela 4. 9 - Processos de condução básicos. EG é o gap de energia, k é a constante de Boltzmann, T é a temperatura absoluta, η é o fator de idealidade (obtido a partir da inclinação de região linear de corrente), EA é a energia de ativação e ΦB é a barreira de energia. Mecanismo de condução Difusão Recombinação Tunelamento Emissão Η A J0 η=1 η≤2 η ≠ constante η=1 A = q/kT A = q/ ηkT A = constante A = q/kT J0 α exp(-EG/kT) J0 α exp(-EG/2kT) J0 α exp(-EA/kT) J0 α [exp(-ΦB/kT)]kT3/2 Então, como um primeiro passo para elucidar qual mecanismo de corrente é dominante, a Figura 4. 29 mostra a dependência do coeficiente de temperatura A para as amostras como-depositada e recozida a 550 ºC. Para ambas amostras o parâmetro A tem uma dependência bastante linear com 1000/T, contudo diminui como o aumento de temperatura para amostra comodepositada. Do gráfico de log J-V (Figura 4. 27a e b), para tensões menores que 0,5 V foram derivados os valores do fator de idealidade. Para a amostra comodepositada o valor de η encontrado é quase que independente da temperatura, de aproximadamente η = 1,6 ± 0,1. Estes resultados indicam que o mecanismo de transporte de difusão-recombinação é dominante nesta amostra. Por outro lado, para amostra recozida a 550 ºC, a origem da corrente é diferente. O fator de idealidade Capítulo 4 – Resultados e Discussão 127 demonstra para ser dependente da temperatura (a baixas temperaturas (~27 ºC) o valor é de η = 1,6 ± 0,1 e cresce como o aumento de temperatura, chegando a um valor de η = 3,3 ± 0,2 para ~200 ºC) sugerindo que o mecanismo de transporte por tunelamento é dominante neste caso. 28 como depositada recozida a 550 ºC 24 -1 A(V ) 20 16 12 8 4 1,8 2,0 2,2 2,4 2,6 2,8 3,0 3,2 3,4 3,6 -1 1000/T (K ) Figura 4. 29 - Dependência da temperatura com o termo pré-exponencial A para as amostras como-depositada (círculos) e recozida a 550 ºC (quadrados). Com intuito de confirmar o mecanismo de transporte dominante nesta região, foi estudada a dependência da J0 com a temperatura. A Figura 4. 30 mostra a dependência densidade de corrente de saturação J0 em função de 1/kT para ambas as heteroestruturas. Como pode ser visto, J0 depende exponencialmente de T e dá para uma energia de ativação EA = 1,08 eV para amostras como-depositadas. Podemos notar que o valor da energia de ativação desta amostra é muito próximo do valor do gap de energia do silício cristalino (~1,12 eV) e confirma a indicação prévia que o mecanismo de condução principal é difusão-recombinação (ver Tabela 4. 9). O mesmo mecanismo de condução foi achado em heteroestruturas de SiC/c-Si por outros autores [191,192]. 2 Dens. corrente de saturação J0 (A/cm ) Capítulo 4 – Resultados e Discussão 128 -2 10 -3 10 -4 10 EA = 1,08 eV -5 10 -6 10 EA = 1,25 eV -7 10 como depositada recozida a 550 ºC -8 10 -9 10 22 24 26 28 30 32 34 36 38 40 42 -1 1/KT (eV ) Figura 4. 30 - Densidade de corrente de saturação, J0, em função da temperatura para as amostras como-depositada e recozida a 550 ºC. Para a amostra recozida a 550 ºC, o gráfico de log (J0) versus 1/kT também é linear e dá uma energia de ativação EA = 1,25 eV. O valor experimental da energia de ativação, EA = 1,25 eV, é maior que EF-EV obtidos de medidas de condutividade da dopagem tipo-p de nossos a-SiC:H [93]. Assim, o transporte de corrente nesta região pode ser devido ao multitunelamento de elétrons da banda de condução do Si para estados localizados no gap de energia do a-SiC:H em ET = EV + 1,25 eV e subseqüente emissão destes elétrons de ET para a banda de condução do a-SiC:H recozido a 550 ºC. - Amostras recozidas a 750 e 1000 ºC Nesta seção nós analisaremos as amostras com densidade alta de corrente reversa. Como pode ser visto na Figura 4. 27(c) e (d), as amostras recozidas a 750 e 1000 ºC não apresentam um comportamento típico de um diodo retificante, mas sim de um resistor, no qual a corrente aumenta praticamente de forma linear em função do aumento da tensão aplicada (Figura 4. 28). Como já dissemos anteriormente, podemos notar que a densidade de corrente reversa aumenta com o aumento da temperatura do tratamento térmico, e que pode ser associada a um aumento da densidade de defeitos presentes na heterointerface Capítulo 4 – Resultados e Discussão 129 devido à cristalização do material. A elevada diferença entre as constantes de rede (20%) e dos coeficientes de expansão térmica (8%) entre c-SiC/c-Si, provoca um stress residual e uma alta densidade de defeitos na heterointerface [193], os quais atuam como centros de geração e recombinação para elétrons e lacunas, limitando o tempo de vida e a mobilidade. Uma recombinação muito rápida na interface implica que haverá uma retificação muito baixa, ou até mesmo nenhuma retificação [194]. Esta é a provável causa do baixo nível de retificação dos dispositivos que são cristalizados, entretanto um estudo mais aprofundado ainda deve ser realizado. - Medidas C-V características A existência da uma região de depleção nas vizinhanças da heterojunção SiC/Si pode ser confirmada pela medida C-V. A Figura 4. 31 mostra as curva 1/C2 -V característica, medidas a temperatura ambiente polarizando reversamente a heterojunção SiC como-depositado/Si. Como podemos ver a capacitância da junção decresce com o aumento da tensão reversa, apresentando uma relação linear 1/C2 -V (a qual indicada uma heterojunção abrupta [194]). Este resultado indica que a camada de depleção é ampliada na redondeza da interface da heterojunção com o aumento da tensão reversa, justamente como numa junção de p-n convencional. Em uma heterojunção SiC tipo-p/Si tipo-n, a capacitância diferencial como uma função da tensão aplicada é determinada pela relação da capacitância de junção por unidade de área: 1/ 2 ⎡ qε n ε p N n N p ⎤ −1 / 2 C= ⎢ ⎥ .(VD − V ) , ⎣⎢ 2(ε n N n + ε p N p ⎦⎥ onde Nn e Np são as concentrações de doadores e aceitadores, e εn e εp são as constantes dielétricas dos semicondutores tipo-n e p respectivamente, Vbi é o potencial interno, V a tensão aplicada e q a carga eletrônica. Considerando a constante dielétrica do 3C-SiC de 9,7 e a concentração de doadores do Si de aproximadamente 2,2 ×1015 cm-3, estimada a partir da resistividade da lâmina de Si tipo-n (3 Ω cm), a concentração de aceitadores do SiC pode ser estimada utilizando a relação anterior. Dessa maneira, foi então encontrada uma Capítulo 4 – Resultados e Discussão 130 concentração de aceitadores de aproximadamente 8,5 ×1015 cm-3 no SiC comodepositado. No caso das amostras recozidas termicamente (550, 750, e 1000 ºC durante 2 horas) foram obtidos valores de potencial interno muito altos (acima de 2 eV), indicando a presença de uma alta densidade de estados na interface SiC/Si [195,196]. 22 5x10 como depositada 22 22 3x10 2 -2 1/C (F ) 4x10 VD ~ 0,6 V 22 2x10 22 1x10 0 -2,1 -1,8 -1,5 -1,2 -0,9 -0,6 -0,3 0,0 0,3 0,6 0,9 Tensão aplicada (V) Figura 4. 31 - Curva de Capacitância-voltagem característica da amostra como-depositada. Concluindo, como podemos notar, heterodiodos formados por SiC tipo-p, amorfo e tratado termicamente, sobre substratos de Si tipo-n foram fabricados e caracterizados eletricamente. As curvas I-V mostraram boas propriedades retificadoras para as amostras como-depositada e tratada termicamente a 550 ºC. Diferentes mecanismos de transporte foram encontrados como origem da corrente. Para a amostra como-depositada o mecanismo de transporte dominante deve ser o de difusão-recombinação, enquanto que para a recozida em 550 ºC o mecanismo de transporte por tunelamento deve ser o dominante. No caso das amostras recozidas a 750 e 1000 ºC foi observada uma elevada densidade de corrente reversa, a qual foi sugerida que poderia ser associada a um aumento dos defeitos na heterointerface SiC/Si como uma função do processo de cristalização, porém novos estudos ainda devem ser realizados. A partir de medidas C-V, foi encontrado para amostra comodepositada uma concentração de aceitadores de Np = 8,5×10-15 cm-3, e um potencial Capítulo 4 – Resultados e Discussão 131 interno de Vbi = 0,6 V. No caso das amostras recozidas (550, 750, e 1000 ºC durante 2 horas) não foi possível obter este parâmetros devido provavelmente à presença de defeitos na heterointerface SiC/Si. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 132 4.3.3 – TFTs de SiC Na Figura 4. 32 apresentamos um esquema da caracterização elétrica dos transistores de a-SiC:H em conjunto com as curvas de saída de um TFT com canal de 20 µm de largura e 300 µm de comprimento. O gráfico mostra a corrente de dreno IDS como uma função da tensão aplicada entre dreno e fonte VDS, para diferentes tensões VG aplicadas na porta. Como podemos ver, quando aplicamos uma tensão VG<0 a corrente tende a diminuir, enquanto para VG>0 a corrente de dreno cresce até aproximadamente 12 nA para VG=14V (com VDS=40 V). Fonte Porta Dreno VG VDS Substrato: Corning 7059 a-SiC:H dopado tipo-n Filme de a-SiC:H Isolante Alumínio Esquema da caracterização elétrica dos transistores. Corrente de dreno, IDS (A) 12,0n VG = 14 V VG = 7 V VG = 0 V VG = -7 V VG = -14 V VG = -21 V VG = -28 V 10,0n 8,0n 6,0n L = 300 μm C = 20 μm 4,0n 2,0n 0,0 -2,0n -5 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 Voltagem de dreno, VDS (V) Figura 4. 32 – Curvas de saída de um TFT de a-SiC:H de dimensões L = 20 µm e C = 300 µm. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 133 É importante notar na figura anterior que o comportamento da corrente IDS em função de VDS é muito similar para os diferentes valores de VG, apresentando um lento crescimento da corrente com VDS, diferentemente do que se deve esperar de uma curva típica de um transistor, na qual a variação de corrente é abrupta com VDS. Isto pode ser um indicativo de que o aumento de corrente seja dado pela soma de uma corrente de fuga que atravessa o filme isolante de oxinitreto de silício. De fato, realizando testes (fixando VDS = 0 V, variando o valor de VG e medindo IDS), verificamos que o valor da corrente de fuga no filme isolante é da ordem da corrente apresentada pelo dispositivo. Na Figura 4. 33 mostramos as curvas de transferência dos dispositivos. Como se pode ver não existe um comportamento característico de um transistor. Se medirmos IDS ao fazer as medida de IDS vs. VDS, vemos que por está passando muita corrente IG. Este comportamento é típico de um filme isolante muito fino que apresenta uma alta corrente de fuga [161]. Corrente de dreno, IDS (A) 1,0n L = 300 μm C = 20 μm 0,0 VDS = 0 V VDS = 0,1 V VDS = 10 V -1,0n -30 -20 -10 0 10 20 30 Voltagem de Porta, VGS (V) Figura 4. 33 – Curvas de transferência de um TFT de a-SiC:H de dimensões L = 20 µm e C = 300 µm. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 134 Como una tentativa de minimizar as grandes correntes de fuga através do óxido de porta, nós fabricamos novos dispositivos depositando filmes de SiOxNy com espessura maior, de 250 nm. Portanto, o novo processo de fabricação se segue: 1. Limpeza química do substrato; 2. Deposição de a-SiC:H intrínseco (500 nm) sobre corning 7059; 3. Deposição de SiO2 PECVD (500 nm) (máscara para implantação); 4. Fotolitografia M1 e corrosão do SiO2 para definir fonte e dreno; 5. Implantação iônica tipo-n com fósforo (concentração: 1×1021 cm-3); 6. Tratamento térmico para ativar as impurezas implantadas (550 ºC por 2 horas); 7. Remoção total do SiO2; 8. Limpeza química; 9. Deposição do filme isolante de SiOxNy por PECVD (250 nm); 10. Fotolitografia M2 e corrosão do isolante para definir os contatos de fonte e dreno; 11. Fotolitografia M3, lift-off e metalização com alumínio e 12. Tratamento térmico a 350 ºC por 30 min para sinterização dos contatos elétricos. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 135 Corrente de dreno, IDS(A) 60,0p VG= 10 V VG = 8 V VG = 6 V VG = 4 V VG = 2 V 40,0p L = 20 μm C = 300 μm 20,0p 0,0 -20,0p -10 0 10 20 30 40 Voltagem de dreno, VDS(V) Figura 4. 34 – Curvas de saída de um TFT de a-SiC:H com um filme isolante de espessura de 250 nm. Na Figura 4. 34 apresentamos as curvas de saída de um TFT de a-SiC:H fabricado com o filme isolante de espessura de 250 nm. Nesta figura podemos ver que a corrente de dreno também tende a decrescer com o aumento da tensão aplicada a porta, além do mais todas as curvas possuem valores de corrente IDS muito baixos (da ordem de pA) devido à maior espessura do filme isolante. Além disso, também vemos que as curvas estão muito próximas. Este comportamento é um indicativo da existência de uma elevada resistência séria, o que deve ser típico do a-SiC:H, que é um semicondutor muito resistivo. Com o intuito de tentar diminuir esta resistência série, foi realizado um teste no qual o dispositivo foi aquecido até 80 ºC e media-se a sua curva de saída a diferentes temperaturas. Se a resistência série realmente diminuísse a corrente de origem deveria aumentar mais rapidamente, separando um pouco mais as curvas. Porém, o que foi notado é que esta faixa de temperatura não foi suficiente para promover um aumento de corrente. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 136 - Simulação dos dispositivos Desde alguns anos atrás, o Grupo de Novos Materiais e Dispositivos trabalha em colaboração com a professora Dra. Magali Estrada del Cueto e seu grupo, do Centro de Investigación y de Estudios Avanzados del Instituto Politécnico Nacional (CINVESTAV), México, D.F., na obtenção e caracterização de TFTs de silício amorfo a-Si:H. O grupo possui grande experiência na fabricação, caracterização e modelamento de dispositivos baseados em semicondutores amorfos, especialmente no caso de silício amorfo. Assim, com esta colaboração, foram analisadas por simulação as curvas esperadas de transferência e de saída características dos TFTs de a-SiC:H para diferentes distribuições de estados localizados. Esta simulação foi feita no simulador ATLAS, da SILVACO International, licenciado pelo centro de pesquisa CINVESTAV. Estrutura do dispositivo e parâmetros de entrada Como é sabido, a presença de estados localizados nas caudas e no meio da banda proibida determinam fortemente as características dos dispositivos baseados em semicondutores amorfos. Para o a-SiC:H, tem sido reportado que a densidade dos estados localizados depende da concentração de carbono no filme. Aumentando a concentração acima de 0,5 é produzido um aumento excessivo da densidade de estados e, conseqüentemente, um filme de baixa qualidade do ponto de vista elétrico [197]. Entretanto, a distribuição dos estados localizados tem sido pouco estudada e não é bem compreendida. Por esta razão, consideraremos a presença de ambos estados, nas caudas e profundos no meio da banda, como tendo uma dependência exponencial e uma energia de ativação. Partiu-se de uma distribuição de estados localizados baseada num modelo para o silício amorfo hidrogenado [198] com valores de banda proibida do a-SiC:H tipo C3690H (2,9 eV) e mobilidade de banda (µ = 0,01 cm2/Vs), dessa maneira se analisou a influência da distribuição e a densidade de estados para TFTs de a-SiC:H. A estrutura simulada é apresentada na figura abaixo. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 137 Figura 4. 35 - Estrutura do TFT simulado. Resultados A Figura 4. 36 mostra a comparação entre as curvas de transferência para um TFT com dimensões L = 10 µm e C = 110 µm e de espessura do a-SiC:H intrínseco de 0,1 µm, correspondentes a diferentes densidades e distribuições de estados localizados na banda proibida. Os parâmetros incluídos em cada simulação são apresentados na tabela a seguir. Nas simulações apresentadas na Tabela 4.10 podemos notar que apenas para a densidade de estados de 1×1017 cm-3eV-1 (simulações 3 e 5) foi obtido uma curva de transferência típica de um transistor, na qual se observa um considerável aumento de corrente IDS com o aumento da tensão VG, para um VDS constante. Para densidade de estados acima deste valor verificamos não é possível formar um canal sob a porta dos dispositivos. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 138 Tabela 4. 10 – Parâmetros utilizados na simulação do TFT de a-SiC:H. 1 Densidade de estados (cm-3eV-1) 5×1018 2 5×1018 423 10 tipo-n 3 1×1017 300 10 tipo-n 4 1×1018 300 10 tipo-p 5 1×1017 300 10 tipo-p 6 1×1018 300 10 tipo-n Simulação Temperatura (K) VDS (V) 300 10 Caráter da distribuição tipo-n 1 2 3 4 5 6 Corrente de dreno, IDS (A) -12 10 -15 10 -18 10 VDS constante 0 4 8 Tensão de porta, VG (V) 1 - Densidade de estados de 5×1018 cm-3eV-1 (T = 300K e tipo-n) 2 - Densidade de estados de 5×1018 cm-3eV-1 (T = 423K e tipo-n) Legenda: 3 - Densidade de estados de 1×1017 cm-3eV-1 (T = 300K e tipo-p) 4 - Densidade de estados de 1×1018 cm-3eV-1 (T = 300K e tipo-p) 5 - Densidade de estados de 1×1017 cm-3eV-1 (T = 300K e tipo-n) 6 - Densidade de estados de 1×1018 cm-3eV-1 (T = 300K e tipo-n) Figura 4. 36 – Comparação entre as curvas de transferência simuladas para diferentes densidades de estados localizados na banda proibida de um TFT de a-SiC:H. Capítulo 4 – Resultados e Discussão 139 Estes resultados sugerem que em nosso caso, na fabricação e caracterização experimental dos nossos TFT, possa estar ocorrendo algo semelhante. Nosso material deve possuir uma elevada densidade de estados em sua banda proibida, a qual não permite a formação de um canal devido à alta taxa de recombinações causadas pela excessiva densidade de defeitos presente no filme. Uma maneira tentar resolver este problema seria promover a redução da densidade de estados no a-SiC:H, que pode ser obtida pela cristalização do material. Como o processo de cristalização dos filmes envolve uma etapa de recozimento térmico a temperatura de aproximadamente 1000 ºC, não pudemos cristalizar os dispositivos já fabricados, uma vez que os mesmos foram depositdos sobre substratos de vidro. Deste modo, seria necessário à utilização de outros substratos, que suportem esta temperatura de processamento, como por exemplo, lâminas de quartzo. Contudo, nesta parte do trabalho projetamos, fabricamos, simulamos e caracterizamos transistores de filme finos de a-SiC:H obtidos por PECVD a baixas temperaturas. A partir das caracterizações elétricas notamos que os dispositivos não funcionaram como esperado, não apresentando um bom comportamento para um TFT. Os dispositivos apresentavam elevadas correntes de através do filme isolante e possuíam altas resistências de canal. Com o intuito de compreender o que estava ocorrendo, foi realizado um estudo de simulação destes dispositivos. Foi observado que a elevada densidade de estados presente em sua banda proibida deve ser a principal causa do mau funcionamento dos dispositivos. É importante destacar que estes são resultados preliminares e ainda necessitam de um estudo mais aprofundado, bem como um aperfeiçoamento dos processos de fabricação que também deve ser realizada (por exemplo, a fabricação de TFTs de SiC policristalinos). Devido às interessantes propriedades físicas do carbeto de silício, em conjunto com a possibilidade de fabricação e modelamento destes dispositivos, é pertinente o aprofundamento deste estudo por oferecer um campo de pesquisa muito interessante para sua aplicação na eletrônica de baixo custo. Capítulo 5 – Conclusões 140 CAPÍTULO 5 – CONCLUSÕES O objetivo deste projeto foi estudar a viabilidade de fabricar dispositivos semicondutores baseados em filmes de carbeto de silício estequiométrico (a-Si0,5C0,5:H) obtidos por PECVD, material que tem sido bastante estudado pelo Grupo de Novos Materiais e Dispositivos e que ainda não havia sido testado em dispositivos eletrônicos. Assim sendo, a proposta do projeto envolveu a realização de uma série de trabalhos que permitiram avaliar as potencialidades do a-SiC:H PECVD na contrução de dispositivos semicondutores básicos, e não a fabricação e o aperfeiçoamento de um tipo específico de dispositivo. Nesse sentido, a metodologia adotada envolveu as seguintes atividades: 1. Aprimoramento dos processos de dopagem: Na dopagem tipo-n nós estudamos o processo de dopagem in-situ com nitrogênio (durante o crescimento dos filmes). Os resultados mostraram que, enquanto pequenos fluxos de N2 (menores que 1 sccm) adicionados à mistura gasosa induzem um pequeno aumento na condutividade elétrica dos filmes (para aproximadamente 10-9 (Ω.cm)-1), maiores fluxos levam à formação de ligas nitrogenadas. Assim, embora a obtenção de maiores condutividades elétricas exija novos estudos, os resultados demonstraram que este é um caminho promissor, que tem como principal vantagem à facilidade de processamento, já que os filmes dopados são obtidos diretamente no reator PECVD. Com relação à dopagem tipo-p aperfeiçoamos os processos cujo estudo havia sido iniciado anteriormente e precisavam ser melhorados. Nesse sentido estudamos a implantação de BF2+ ao invés de B+, obtendo resultados muito promissores. De fato, a condutividade no escuro de filmes dopados com 1×1020 cm-3 foi da ordem de 10-1 (Ω.cm)-1. Numa segunda abordagem, também estudamos a dopagem tipo-p por difusão térmica de alumínio, com a qual foram obtidas condutividades da ordem de 1 (Ω.cm)-1 em processos de difusão realizados a 1000 ºC. Estabelecemos, portanto, dois métodos para obter a dopagem tipo-p, utilizando boro e alumínio como impurezas, obtendo Capítulo 5 – Conclusões 141 em ambos os casos valores de condutividade elétrica comparáveis aos reportados pela literatura do c-SiC. 2. Cristalização e corrosão dos filmes: Objetivando investigar a cristalização dos filmes finos de a-Si0,5C0,5:H estudamos as variações induzidas nas propriedades do material por tratamentos térmicos a altas temperaturas. Os resultados destas pesquisas mostraram evidências de cristalização do SiC para temperaturas acima de 750 ºC, com a formação de cristais de carbeto de silício cúbico (3C-SiC). Ainda, com o intuito de comprovar a qualidade desses filmes e sua aplicabilidade na fabricação de dispositivos, estudamos a corrosão por plasma dos filmes como-depositados e cristalizados, onde pudemos observar uma forte influência do grau de cristalinidade dos filmes sobre a taxa de corrosão. De fato, o recozimento térmico promove a efusão de hidrogênio e uma compactação dos filmes, promovendo um aumento da fração cristalina e uma redução da taxa de corrosão. Assim, amostras recozidas a 1000 ºC apresentam taxas de corrosão semelhantes às reportadas pela literatura do SiC cúbico cristalino. 3. Oxidação e fabricação de capacitores MOS com filmes de SiC cristalizados: Em virtude do nosso interesse em fabricar dispositivos que operem por efeito de campo, um pré-requisito fundamental é dispor de um dielétrico apropriado e de boa qualidade. Para dispositivos baseados em SiC PECVD uma alternativa natural é utilizar SiO2 também obtido por PECVD, porém, como no caso do silício o óxido nativo do SiC é o SiO2, é muito interessante obter a oxidação térmica do SiC. Sendo assim, estudamos a oxidação térmica seca e úmida do SiC cristalizado (a 1100 ºC) e obtivemos com ambas as técnicas filmes de óxido de silício com boas propriedades estruturais. Na oxidação térmica seca são necessárias 3 horas para se obter filmes de SiO2 com 158 nm de espessura a temperatura de 1000 oC. Já na oxidação úmida (a 900 oC), é necessário 1,5 horas para crescer 61 nm de SiO2. Finalmente, a partir destes resultados fabricamos estruturas MOSiC a partir do SiC cristalizado, utilizando como dielétrico de porta filmes de SiO2 obtidos por oxidação térmica (seca e úmida) dos próprios filmes de aSi0,5C0,5:H e também de filmes Capítulo 5 – Conclusões 142 isolantes depositados por PECVD. Todas as estruturas apresentaram um comportamento típico de um capacitor MOS, com regiões de acumulação, depleção e inversão bem definidas. Entretanto, devido a problemas com correntes de fuga e elevadas resistências série, não pudemos obter as curvas em baixa freqüência, de forma que não foi possível determinar a densidade de estados de interface. 4. Fabricação e caracterização de heterojunções de (SiC tipo-p)/(Si tipo-n): Uma heterojunção não é necessariamente um dispositivo, entretanto diversos sistemas eletrônicos tem se beneficiado de heteroestruturas devido à possibilidade de aplicação de diferentes materiais com características próprias num único dispositivo, daí a importância de entender o comportamento das heterojunções. Com esse intuito, estudamos heterojunções de filmes de SiC tipo-p (como depositado e tratado termicamente) sobre substratos de Si tipo-n. As curvas I-V mostraram boas propriedades retificadoras nas junções com a-SiC:H amorfo (como depositado) e tratado termicamente a 550 ºC. No caso das amostras recozidas a 750 e 1000 ºC observamos um aumento da corrente reversa e uma perda do caráter retificante da junção. Este comportamento pode estar associado a um aumento dos defeitos na interface SiC/Si como resultado do processo de cristalização do filme de SiC, porém estudos mais aprofundados são necessários para esclarecer o mecanismo de transporte através da heterojunção. 5. Fabricação de transistores de filme fino: Também projetamos, fabricamos, modelamos e caracterizamos TFTs de a-SiC:H. De acordo com as caracterizações elétricas observamos que podemos controlar a condutividade do canal, mas os dispositivos ainda precisam ser aprimorados para se obter melhores níveis de corrente e um comportamento de transistor aceitável. De acordo com os resultados de modelamento, o desempenho pobre dos dispositivos foi atribuído à existência de uma alta concentração de estados localizados no interior do gap dos filmes de a-SiC:H. Capítulo 5 – Conclusões 143 Vemos, portanto, que embora ainda tenham que ser aperfeiçoados, foram desenvolvidos os processos básicos para a produção de dispositivos baseados em a-Si0,5C0,5:H obtido por PECVD. Estes processos envolvem: a dopagem elétrica por diferentes técnicas utilizando diferentes elementos dopantes; a corrosão seletiva por plasma, a obtenção um dielétrico apropriado e compatível com a tecnologia do SiC, bem como o desenvolvimento de processos de cristalização que podem se mostrar fundamentais para melhorar as propriedades dos filmes de SiC. Apesar das dificuldades encontradas, consideramos que os objetivos principais do projeto foram alcançados, ficando o aperfeiçoamento dos resultados para trabalhos futuros que, de uma forma ou de outra, certamente seriam necessários. Nossa principal contribuição foi demonstrar com sucesso a viabilidade de fabricação de dispositivos semicondutores totalmente baseados em a-SiC:H obtido por PECVD. Por último, deve ser mencionado que, como conseqüências do trabalho desenvolvido neste projeto, foram apresentados diversos trabalhos em conferências nacionais e internacionais, dos quais quatro artigos foram publicados em periódicos internacionais indexados. Trabalhos Futuros 144 TRABALHOS FUTUROS Com relação ao estudo da dopagem elétrica dos filmes de SiC é necessário aprofundar nossos conhecimentos sobre a incorporação dos elementos dopantes no material. Por exemplo, nada sabemos a respeito dos sítios ocupados pelos elementos dopantes, o que tem grande importância para aumentar a eficiência da dopagem e inclusive obter melhores resultados. No caso da dopagem in-situ (durante o crescimento dos filmes) este conhecimento permitiria elaborar novas estratégias de deposição. Apesar de todos os avanços alcançados, uma questão pendente de grande relevância está relacionada aos contatos elétricos. De fato, a junção ou contato metalsemicondutor é de fundamental importância para os dispositivos eletrônicos, pois é ela que permite a formação da conexão do dispositivo semicondutor com o mundo vizinho e/ou externo, incluindo a formação das interconexões entre dispositivos dentro de um circuito integrado. Além de conexões com e entre dispositivos, a junção metal-semicondutor pode também constituir a parte intrínseca de alguns tipos de dispositivos, como é o caso do diodo tipo Schottky. Até o momento temos utilizados contatos elétricos “convencionais” de alumínio, os quais não são necessariamente os mais indicados para o SiC. Uma vez concluído o desenvolvimento dos contatos, novos dispositivos MOS poderiam ser fabricados empregando os contatos aperfeiçoados. A estrutura dos dispositivos fabricados poderiam ser as mesmas daquelas usadas em trabalhos prévios (durante o projeto de doutorado), com o contato de porta de Al e o isolante o SiO2, e os resultados então comparados com aqueles obtidos anteriormente, com contatos elétricos não-aperfeiçoados. Anexo A – Trabalhos Decorrentes 145 ANEXO A – TRABALHOS DECORRENTES Parte dos trabalhos realizados neste período, em conjunto com resultados obtidos durante o projeto de mestrado e que deram início a esta proposta, foram apresentados em eventos nacionais e internacionais: 1. A. R. Oliveira, I. Pereyra e M. N. P. Carreño, “Optimization of n and p-type doping by ion implantation in highly ordered stoichiometric a-SiC:H obtained by PECVD”, foi apresentado no 20th International Conference On Amorphous & Microcrystalline Semiconductors: Science & Technology ICANS20, realizado em Campos do Jordão-SP em setembro de 2002. 2. A. R. Oliveira e M. N. P. Carreño, “In-situ and ion implantation nitrogen doping on near stoichiometric a-SiC:H films by PECVD”, foi apresentado no 18th Symposium On Microelectronics Technology And Devices” - SBMicro 2003, o qual foi publicado no periódico Journal of Integrated Circuits and Systems, Volume 1 (2004) 26. 3. A. R. Oliveira, I. Pereyra e M. N. P. Carreño, “Structural and electrical properties of low-temperature PECVD SiC/c-Si heterostructures”, foi apresentado no 2nd Brazilian Material Research Society Meeting - SBPMat, realizado no Rio de Janeiro – RJ, de 26 a 29 de outubro de 2003, o qual foi publicado na periódico Materials Science and Engineering B, Volume 112 (2004) 144. 4. A. R. Oliveira e M. N. P. Carreño, “Formation of 3C-SiC films on silicon by thermal annealing process” foi apresentado no 19th Symposium on Microelectronics Technology and Devices - SBMicro 2004, o qual foi publicado no The Electrochemical Society Proceedings, Volume 2004-03 (2004) 283. Anexo A – Trabalhos Decorrentes 146 5. A. R. Oliveira e M. N. P. Carreño, “Electrical characterization of postgrowth crystallized PECVD SiC films” foi apresentado no 3nd Brazilian Material Research Society Meeting - SBPMat, realizado em Foz do Iguaçu PR, de 26 a 29 de outubro de 2004. 6. A. R. Oliveira e M. N. P. Carreño, “Post thermal annealing crystallization and reactive ion etching of SiC films produced by PECVD” foi apresentado no 21th International Conference On Amorphous & Nanocrocrystalline Semiconductors: Science & Technology – ICANS21, realizado em setembro de 2005 na cidade de Lisboa, Portugal, o qual foi publicado no periódico Journal of Non-Crystalline Solids 352 (2006) 1392. 7. A. R. Oliveira e M. N. P. Carreño, “N and p-type doping of PECVD a-SiC:H obtained under “silane starving plasma” condition with and without hydrogen dilution”, foi publicado no periódico Materials Science and Engineering B 128 (2006) 44-49. 147 Anexo B – Caracterização Elétrica dos Capacitores MOS ANEXO B – CARACTERIZAÇÃO ELÉTRICA DOS CAPACITORES MOS A estrutura de um capacitor MOS apresenta três interfaces: metal/óxido, óxido/semicondutor e semicondutor/metal, como ilustra a Figura A1(a). A Figura A1(b) apresenta o diagrama de bandas de energia de um capacitor MOS ideal em equilíbrio termodinâmico. Um capacitor é considerado ideal quando não há presença de cargas no óxido ou na interface óxido/semicondutor, as funções trabalho do semicondutor e do metal são idênticas, e a distribuição de dopantes no substrato (semicondutor) é uniforme. Semicondutor tipo-p Óxido Metal Figura A1 (a) – Estrutura de um capacitor MOS considerando um semicondutor tipo-p. M O S χOX χS φM nível de vácuo φS EC EI EFS + + + + + + + + EV metal isolante semicondutor tipo-p EC: energia do limite inferior da banda de condução; EFS: energia do nível de Fermi no semicondutor tipo-p; EFM: energia do nível de Fermi no metal; EV: energia do limite superior da banda de valência; EI: energia do nível de Fermi no semicondutor intrínseco; EG=EC-EV: banda proibida; EVAC: energia de referência no nível de vácuo; φM: função trabalho do metal; φS: função trabalho do semicondutor; χS: afinidade eletrônica do semicondutor; χOX: afinidade eletrônica do óxido; ψS: potencial de superfície no semicondutor; ψF=(EI-EFS): potencial de Fermi. Figura A1 (b) – Diagrama de bandas de energia de um capacitor MOS ideal tipo-p. Um capacitor MOS é fabricado da seguinte forma: sobre um material semicondutor (substrato) é depositada ou crescida (oxidação térmica) uma camada fina de um material isolante (normalmente óxido de silício). Utilizando-se um material condutor (metal), são formados dois eletrodos: o primeiro sobre a camada de óxido (denominado eletrodo superior) e o segundo sob o semicondutor (denominado 148 Anexo B – Caracterização Elétrica dos Capacitores MOS eletrodo do substrato), como ilustra a Figura A1(a). Basicamente, os dispositivos com estrutura metal-óxido-semicondutor (MOS), quando polarizados por um sinal de tensão elétrica aplicado entre seus eletrodos, operam sob o efeito do campo elétrico resultante na superfície do semicondutor. Maiores informações podem se obtidas nas referências [199,200,201,202]. 70 CMÁX baixa frequência Capacitância (pF) 60 50 40 30 20 10 alta frequência CMIN ACUMULAÇÃO -4 -2 DEPLEÇÃO 0 INVERSÃO 2 4 Tensão (V) Figura A2 - Esboço de uma curva C-V de um capacitor MOS ideal com substrato tipo-p. Para uma análise qualitativa das características C-V de um capacitor MOS ideal é necessário definir diferentes situações de polarização em função de ψF e ψS, sendo VG a tensão no eletrodo superior em relação ao eletrodo do substrato (aterrado). O potencial de superfície do semicondutor ψS é função de VG e está relacionado com o encurvamento das bandas de energia. Considera-se nesta descrição que o substrato é do tipo-p. Para o substrato do tipo-n a descrição é semelhante. Na superfície do semicondutor podem ocorrer seis situações [199]: 1) VG<<0 e ψ<<0: acumulação de portadores majoritários (lacunas); 2) VG=0 e ψS=0: condição de banda plana (não há encurvamento das bandas de energia); 3) VG>0 e ψF>ψS>0: formação da camada de depleção de lacunas (portadores majoritários); Anexo B – Caracterização Elétrica dos Capacitores MOS 149 4) VG>>0 e ψS=ψF: condição de superfície intrínseca, ou seja, superfície do semicondutor com concentração de portadores majoritários (lacunas) igual à de minoritários (elétrons); 5) VG>>>0 e 2ψF>ψS>ψS: condição de inversão fraca - concentração de portadores minoritários (elétrons) maior que a de majoritários (lacunas); 6) VG>>>>0 e ψS>2ψF: condição de inversão forte - concentração de elétrons muito maior que a de lacunas; As características das curvas C-V (Figuras A2) podem ser divididas em três regiões [199]: i. Região de acumulação: aplicando-se uma tensão negativa no eletrodo superior (VG<< 0), as lacunas, que são os portadores majoritários (substrato tipo-p), são atraídas à superfície do substrato (interface óxido/semicondutor). A concentração de lacunas aumenta na superfície do semicondutor, formando-se uma região de acumulação de portadores majoritários. O nível de energia de Fermi (EFS) aproxima-se da banda de valência. Como este nível mantém-se constante em equilíbrio térmico, há um encurvamento das bandas de energia de valência (EV) e condução (EC) (Figura A3(b)). A camada de acumulação, para uma concentração alta de portadores majoritários, pode ser considerada como o segundo eletrodo de um capacitor de placas paralelas, pois o primeiro é o eletrodo superior, resultando em um campo elétrico EB=-VG/tOX no óxido, como ilustra a Figura A3(a). Em condição de acumulação forte, desde que ocorra um contato ôhmico direto entre o substrato tipo-p e a região de acumulação das lacunas, a capacitância da estrutura MOS é máxima e aproximadamente igual à capacitância no óxido, que é: CMAX = COX = (ε0.εOX.A)/tOX, onde COX é a capacitância no óxido, ε0 é a permissividade no vácuo, εOX é a permissividade no óxido, A é a área do eletrodo superior e tOX a espessura do óxido. 150 Anexo B – Caracterização Elétrica dos Capacitores MOS VG<<0 M O S -------EB ++++++++ --------EFM região de acumulação |qVG| ++ ++++++++++++ metal (a) isolante EC EI EFS EV semicondutor tipo-p (b) Figura A3 – (a) Esquema da região de acumulação no capacitor e (b) Diagrama de bandas de energia na estrutura MOS, com o encurvamento nos níveis de energia EC, EV e EI. Diminuindo-se a tensão negativa no eletrodo superior (VG<0), a camada de acumulação de portadores majoritários é reduzida, pois o campo elétrico no óxido fica menos intenso. Diminuindo-se ainda mais a tensão no eletrodo superior para VG=0, a camada de acumulação é extinta, tornando as concentrações de portadores na superfície semelhante as do corpo do substrato. Nesta condição não há encurvamento das bandas de energia (condição de banda plana, ou “flat band”, ver Figuras A4(a) e (b)) e a tensão aplicada no eletrodo superior é denominada tensão de banda plana (VFB), sendo CFB a capacitância de banda plana correspondente. Para o capacitor MOS ideal, a tensão VFB é nula. 151 Anexo B – Caracterização Elétrica dos Capacitores MOS VG=0 M S O ----EC +++++ +++++++ metal isolante EI EFS EV semicondutor tipo-p (b) (a) Figura A4 – (a) Esquema da condição de banda plana no capacitor e (b) Diagrama de bandas de energia na estrutura MOS, não há encurvamento nos níveis de energia EC, EV e EI. ii. Região de depleção: para uma tensão no eletrodo superior maior que a tensão de banda plana (VG>VFB), ocorre um deslocamento dos portadores majoritários (lacunas) da superfície do substrato, expondo os íons das impurezas aceitadoras (cargas negativas). Assim, forma-se uma região de depleção de portadores na superfície, com largura WD, constituída pelos íons aceitadores, que compensa o campo elétrico aplicado (Figura A5(a)). Na condição de depleção, ocorre à aproximação do nível de Fermi em direção ao meio da banda proibida do semicondutor e o encurvamento de bandas, como é esquematizado na Figura A5(b). Ressalta-se que a largura WD é proporcional ao potencial de superfície ψS(VG), que está relacionado com o encurvamento das bandas, ou seja, é função da tensão VG aplicada no eletrodo superior. WD é dado por: ⎡ 2.ε .Ψ ⎤ WD = ⎢ S S ⎥ ⎣ q.N A,D ⎦ 1/ 2 , onde εS é o coeficiente de permissividade do semicondutor, q é a carga do elétron e NA,D é a concentração de dopantes aceitadores ou doadores, respectivamente. 152 Anexo B – Caracterização Elétrica dos Capacitores MOS A esquematização da região de depleção e o respectivo diagrama de bandas de energia da estrutura MOS estão nas Figuras A5(a) e (b). VG>0 M O S ++++++++ --------EB WD -------região de depleção qVG EFM metal ++++++++++ isolante (a) EC EI EFS EV semicondutor tipo-p (b) Figura A5 – (a) Esquematização da região de depleção no capacitor e (b) Diagrama de bandas de energia na estrutura MOS, com o encurvamento nos níveis de energia EC, EV e EI. A capacitância relacionada à região de depleção é associada em série com a capacitância do óxido do eletrodo superior, resultando em uma capacitância total da estrutura do capacitor MOS: ⎡⎛ 1 CT (VG ) = ⎢⎜⎜ ⎣⎝ COX ⎞ ⎛ ⎞⎤ 1 ⎟⎟ + ⎜⎜ ⎟⎟⎥ ⎠ ⎝ CSD (VG ) ⎠⎦ 1/ 2 , onde CT é capacitância total da estrutura MOS, COX é a capacitância no óxido e CSD(VG) é a capacitância da região de depleção, que é dada por: CSD (VG ) = εS WD (VG ) , onde εS é a constante dielétrica do semicondutor. iii. Região de inversão: aumentando-se ainda mais a tensão VG aplicada no eletrodo superior da estrutura MOS (VG>>VFB), consegue-se igualar as concentrações de portadores (minoritários e majoritários) com a concentração do nível intrínseco do semicondutor (n=p=ni). Neste caso, os níveis intrínseco e de Fermi no diagrama de bandas assumem valores iguais. Ocorre a atração de portadores minoritários (elétrons) em direção a superfície do substrato. 153 Anexo B – Caracterização Elétrica dos Capacitores MOS Forma-se uma camada de inversão do tipo-n na interface semicondutor/isolante. Com um valor maior de VG (mantendo-se as condições de equilíbrio), há um aumento na concentração de elétrons na superfície do substrato, ΨS(VG) torna-se saturado e WD torna-se constante, alcançando um valor máximo. Esta é a condição de inversão forte (VG>2VFB ⇒ ΨS >2ΨF), com WD=WDMAX (região de depleção com largura máxima). O nível de Fermi aproxima-se da banda de condução próxima da superfície, como mostram as Figuras A6(a) e (b). VG>>>0 M O ++++++++ ------------EC -- camada de inversão -------- - - - S EFM qVG +++++++ EI EFS EV região de depleção metal (a) isolante semicondutor tipo-p (b) Figura A6 – (a) Esquematização da região de inversão forte no capacitor e (b) Diagrama de bandas de energia na estrutura MOS, com o encurvamento nos níveis de energia EC, EV e EI. O valor da capacitância da estrutura MOS, em condição de inversão, é função da freqüência do sinal AC de polarização aplicado no eletrodo superior. Para as medidas C-V em baixa freqüência, tipicamente entre 5 a 100 Hz, o período de um sinal AC é muito maior que o tempo de resposta dos portadores minoritários. Então, quando formada a camada de inversão, ocorre a geração de pares elétrons-lacunas suficiente para compensar o sinal aplicado, ou seja, os elétrons (portadores minoritários) em alta concentração acompanham o sinal AC de baixa freqüência, mantendo-se um estado de equilíbrio. Assim, a capacitância total para a condição de inversão torna-se igual à COX. Para medidas C-V a alta freqüência (> 1 kHz), em condições de acumulação e depleção, há portadores majoritários em concentração suficiente para responder a um sinal AC deste tipo. Mas, na inversão, a capacitância é determinada pelo tempo de 154 Anexo B – Caracterização Elétrica dos Capacitores MOS resposta dos portadores minoritários. Para um sinal de polarização a alta freqüência, há um atraso dos portadores minoritários em relação a este sinal AC, ou seja, estes portadores não são gerados em taxa alta suficiente para compensar o sinal aplicado no eletrodo superior. Ocorre a modulação da camada de depleção de largura máxima e constante. Na condição de inversão forte, portanto, a capacitância total da estrutura MOS torna-se mínima: CMIN ⎡⎛ 1 = ⎢⎜⎜ ⎣⎝ COX ⎞ ⎛ WDMAX ⎟⎟ + ⎜⎜ ⎠ ⎝ εS ⎞⎤ ⎟⎟⎥ ⎠⎦ 1/ 2 , onde CMIN é a capacitância total mínima para condição de inversão utilizando um sinal de polarização de alta freqüência, WDMAX é a largura da camada de depleção, COX é a capacitância no isolante e εS a constante dielétrica do semicondutor. Numa estrutura MOS não ideal, há a presença de cargas no isolante e na interface semicondutor/isolante, e as funções trabalho do metal e do semicondutor são diferentes. Isto provoca um deslocamento da curva C-V da estrutura MOS real em relação a ideal, pois a diferença de potencial entre os eletrodos do capacitor MOS (VG) depende diretamente da diferença das funções trabalho (φMS), da tensão no óxido (VOX), que é relacionada com as cargas efetivas no óxido Qeff, e do potencial de superfície ΨS: VG = VOX + φMS + ΨS (a) Para um capacitor MOS ideal, a torna-se: VG=ψS, pois VOX = 0 e φΜS=0. Para VG=VFB (condição de banda plana); ψS=0, portanto, VFB=0. (b) Para um capacitor MOS real: VOX = Qeff . A , COX onde A é a área do dispositivo. Da expressão anterior, tem-se que: Qeff = [φMS − VFB ]. COX . A Desta maneira, verifica-se um deslocamento no eixo da tensão (de VFB=0 para VFB =VG) da curva C-V experimental (real) em relação à teórica. A técnica C-V permite determinar importantes propriedades elétricas das estruturas MOS, através Anexo B – Caracterização Elétrica dos Capacitores MOS 155 de comparação das curvas experimentais e teóricas. Diferentes procedimentos de medidas e métodos (recursivo, gráficos e de deslocamentos de curvas C-V) são utilizados para determinar estas propriedades, como: capacitância de banda plana (CFB), tensão de banda plana (VFB), largura da camada de depleção (WD), espessura do óxido (tOX), concentração efetiva de dopantes eletricamente ativos (NA,D, sendo A para dopantes aceitadores de elétrons e D para dopantes doadores de elétrons) e a densidade de carga efetiva no óxido (Qeff). DETERMINAÇÃO DAS CARACTERÍSTICAS ELÉTRICAS • Cálculo da espessura do óxido. Quando o capacitor está em regime de acumulação, tem-se que CT = CMAX. Neste caso, a capacitância máxima está relacionada à capacitância do óxido por unidade de área (COX), assim temos: C MÁX = C OX . A , onde A, é a área da porta do capacitor MOS. Substituindo pela equação COX=ε0.εOX/tOX, e isolando tOX, tem-se: t OX = • ε 0 .ε OX C MÁX .A . Cálculo da largura máxima da região de depleção. Como visto anteriormente, é possível obter a largura máxima da região de depleção quando a capacitância do dispositivo atinge seu valor mínimo (CMIN), correspondendo à associação em série da capacitância máxima com a capacitância de depleção. A capacitância mínima no semicondutor é dada por: 156 Anexo B – Caracterização Elétrica dos Capacitores MOS C SICMÍN ⎡ 1 ⎢⎢ 1 = . 1 A⎢ 1 − ⎢C ⎣ MIN C MÁX ⎤ ⎥ ⎥. ⎥ ⎥ ⎦ Deste modo, a largura máxima da região de depleção é dada por: WDMAX = • ε 0 .ε SiC C SiCMIN . Cálculo da densidade de dopantes Para o calculo da concentração efetiva de dopantes eletricamente ativos temos: NA = 4.ε SiC k .T N . . ln A . 2 ni q.WDMAX q São necessárias algumas interações para se obter o valor de NA. • Cálculo tensão de banda plana Para obter o valor da tensão de banda plana experimentalmente, deve-se primeiramente calcular a capacitância de banda plana (CFB) de acordo com os modelos teóricos básicos por meio da seguinte expressão: ε OX C FB = t OX ε + OX ε SiC k .T .ε SiC q 2 .N A . 157 Anexo B – Caracterização Elétrica dos Capacitores MOS Obtendo-se o valor da capacitância de banda plana, encontra-se o valor correspondente de tensão para o mesmo na curva C-V de alta freqüência. O valor adquirido será referente à tensão de banda plana (VFB). • Cálculo da densidade de carga efetiva no óxido. Na estrutura MOS real ocorre à presença de cargas no óxido e na interface isolante/semicondutor, o que causa um deslocamento no eixo da tensão (de VFB=0 para VFB=VG) da curva C-V experimental (real) em relação à teórica (ideal). A neutralidade global de cargas na estrutura MOS é alcançada pela presença de uma carga imagem no semicondutor ou no metal correspondente às cargas no óxido e na interface isolante/semicondutor. Define-se como densidade de cargas efetivas no óxido Qeff, a densidade da carga imagem induzida no semicondutor. Da expressão anterior, é obtida experimentalmente a tensão de banda plana. Utilizando este valor podemos isolar a densidade de carga efetiva no óxido resultando na seguinte expressão: N SS = • Qeff q (ψ SiC = 0) = [φMS − VFB ]. COX . q Cálculo do Campo Elétrico de Ruptura Para a obtenção do campo elétrico máximo de ruptura do dielétrico de porta do capacitor MOS, aplicam-se tensões progressivamente maiores até que se observe uma mudança brusca (de várias ordens de grandeza) no valor da corrente medida. Essa medida é feita polarizando-se o capacitor MOS na região de acumulação. Quando se observa esse aumento abrupto de corrente diz-se que foi atingida a tensão de porta para a qual o óxido rompe (VB). Esta tensão pode ser utilizada no cálculo da tensão elétrica de ruptura do óxido. A tensão VB é a tensão de porta para a qual ocorre a ruptura, mas como visto anteriormente, quando aplicada uma tensão na porta do capacitor MOS, parte cai no óxido e parte cai no semicondutor, até que se Anexo B – Caracterização Elétrica dos Capacitores MOS 158 atinja uma situação de banda plana, onde, para valores menores que VFB, nós teremos toda a tensão aplicada caindo sobre o óxido (B.4.1). Assim, tem-se que o valor de campo de ruptura EB é dado por: EB = VB t OX . Referências 158 REFERÊNCIAS [1] Morkoç, H.; Strite, S.; Gao, G. B.; Lin, M.E.; Sverdlov, B.; Burns, M.; Large-band-gap SiC, III-V nitride, and II-VI ZnSe-based semiconductor-device technologies, J. Appl. Phys. 76 (1994) 1364. [2] Dreike, P. L.; Fleetwood, D. M.; King, D. B.; Sprauer, D. C.; Zipperian, T. E.; An overview of high-temperature electronic device technologies and potential applications, IEEE Trans. Comput. Hybrids, Man. Tech. A17 (1994) 594. [3] Casady, J. B.; Johnson, R. W.; Status of silicon carbide (SiC) as a wide-bandgap semiconductor for high-temperature applications: A review, Solid State Elec. 39 (1996) 1409. [4] Fujiwara, H.; Danno, K.; Kimoto, T.; Tojo, T.; Matsunami, H.; Effects of C/Si ratio in fast epitaxial growth of 4H-SIC(0001) by vertical hot-wall chemical vapor deposition, J. of Cryst. Growth 281 (2005) 370. 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