A PRODUÇÃO LEITEIRA E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL: UMA LEITURA.
Méd. Vet. Adriane Lobo Costa – MSc Educação Ambiental
RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo demonstrar a importância da educação ambiental para o leiteiro
familiar, visando uma melhor qualidade de vida e melhoria da qualidade do produto. Faremos uma breve
contextualização da modernização conservadora e da produção de leite, procurando demonstrar a
globalização do mercado e as diferenças de condições de produção dessa globalização. Acreditamos que
as diferenças entre os países lhe são inerentes e portanto, no mundo mercantilizado, não poderiam ser
tratados da mesma maneira. Ao analisar o aspecto do mercado relacionado à produção leiteira, se chega a
conclusão que o leiteiro familiar está rechaçado do processo mundial. Ele ignora a maioria dos
movimentos que ditam o valor do seu produto. Através de entrevistas, que naõ serão apresentadas por
absoluta falta de espaço, os leiteiros familiares se mostram a parte das decisões sobre seus destinos. A
educação ambiental cumpre o papel necessário de auxiliar no processo de apropriação de seu mundo,
portanto no processo de conscientização, principalmente através das seguintes propostas: i)educação
ambiental como facilitadora no reconhecimento do seu meio; ii)educação ambiental como auxiliadora no
processo de tomada de decisões; iii)educação ambiental como promotora da assunção de seu que-fazer.
Nas palavras finais, pretendemos desenhar uma proposta a ser construída com os leiteiros em
comunidade, para que, apropriados da realidade, através da ação-reflexão, no movimento dialético da
práxis, sejam mais. Portanto a educação ambiental proposta para a extensão rural, no âmbito específico
deste trabalho, deverá levar os homens ao reconhecimento do seu meio,portanto maior respeito, à
assunção como produtores de um alimento nobre e à autonomia, ou seja, a construção coletiva do seu
mundo, num espaço eminentemente ético.
Palavras-chave: Agricultura familiar, produção de leite, educação ambiental.
Eixo Temático: Educação Não Formal/Informal
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INTRODUÇÃO:
O presente trabalho é fruto de minha dissertação de Mestrado em Educação
Ambiental. No trabalho original, apresentamos alguns aspectos da produção leiteira no
seu contexto sócio-econômico-ambiental-político. Elencamos alguns tópicos para
entrevistas abertas e entrevistamos oito leiteiros familiares. Analisamos as expressões
dos leiteiros sob a luz do pensamento de Paulo Freire, tendo como pano de fundo a
Pedagogia do Oprimido. Para tanto, fez-se necessária uma aproximação da técnica
produtivista aos seus possíveis efeitos sócio-ambientais.
No processo da “modernização conservadora” experimentado pela sociedade
brasileira dos anos 50 para adiante, intensificado após 64, traz em si uma clara proposta
de diminuição da importância relativa da agricultura no contexto econômico e desloca
seu eixo fortemente para a indústria, formando Complexos Agroindustriais, processo
que marginalizou os agricultures familiares, principalmente quando as dívidas dos
financiamentos começaram a vencer. O êxodo rural fez com que, em poucas décadas, a
relação populações rural/urbana se invertesse totalmente. Os agricultores familiares que
resistem ao processo são responsáveis por uma parte considerável da alimentação
interna, sendo 85% do leite produzido no Estado.
Os produtores de leite do estado, em sua maioria familiares, têm uma média de
produção/unidade produtiva baixa. Do total de produtores, 67,3% produzem menos de 20 litros/dia,
responsáveis por 33,8% da produção total. Entre 20-50 litros/dia estão 13,5% dos produtores e 17,3% da
produção do estado. De 50-100 litros/dia está a maior quantidade de leite produzida, 39,4%, mas são
17,2% dos produtores, enquanto aqueles que produzem mais de 100 litros/dia, são 2% dos produtores e
representam 9,5% da produção (EMBRAPA/EMATER-RS, 1998).
Além do aspecto social, a “dívida ecológica” (Sachs, 1986) resultante da adoção
dos pacotes tecnológicos preconizados para a agropecuária, sobretudo quando da
Revoução Verde (1950-80), deixou quadros desoladores de destruição, contaminação e
morte.
O comprometimento da saúde, não só das pessoas, mas dos ecossistemas, é um
claro sinal de saturação.
A busca da construção de novas tecnologias deverá, necessariamente, passar
pelo diálogo entre os saberes existentes. Desse encontro deverá surgir a síntese, fruto da
reflexão e que se refletirá em ação, para nova reflexão, num processo contínuo de
desenvolvimento (Altiere, 1989).
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Dividimos o trabalho em três seções. A primeira delas, Educação como
reconhecimento do meio, trata dos aspectos relacionados ao meio que estamos inseridos
e à importância do olhar crítico ao que nos cerca e ao que fazemos ao meio.
Na segunda, Educação como prática de libertação, discute-se o processo
pedagógico, a ação educadora em si. Quais são os elementos que caracterizam uma ação
libertadora, dialógica e quais aqueles que dizem respeito às ações antidialógicas. Tratase um pouco da invasão cultural e da construção do conhecimento através da ação.
Na terceira seção, Educação como assunção da condição de produtor de
alimentos, trata-se da reflexão do sujeito e da transformação de sua realidade através da
síntese cultural. No contexto da agricultura, a nobre tarefa de produzir alimentos, já traz
em si um forte apelo ético. Assumir-se como produtor de alimentos poderá ser um
caminho para valorizar sua atividade, tornando-a cada vez mais consciente, ao mesmo
tempo desencadeando um processo de comprometimento típico do despertar da
cidadania.
Essas são algumas propostas de reflexão para o trabalho de educação ambiental
com os leiteiros familiares da comunidade pesquisada.
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Educação como reconhecimento do meio
Os ensinamentos de Freire, convergem para a codificação e descodificação da realidade.
Considerando que um dos principais problemas da produção leiteira, na opinião dos leiteiros familiares
entrevistados, seja a incidência elevada da mosca-do-chifre e suas conseqüências para a produção, vimos
que a discussão de como essa mosca chegou no nosso meio (o que já é, por si só uma transformação, já
que sua origem é européia), de como ela se disseminou de uma forma tão rápida (que se relaciona à sua
ecologia, ou seja, a sua relação com o meio, no ecossistema, seus inimigos naturais etc), como seja o seu
ciclo de vida, seus hábitos, sua inserção na cadeia trófica local, são fundamentais para o tão importante
apoderamento da realidade.
Portanto, o reconhecimento do meio, de forma consciente, leva a busca de soluções que sejam
mais apropriadas, considerando tantos fatores quantos forem apreendidos. Logo, com esse tipo de postura,
se poderá ter cada vez mais segurança de estar sendo éticos, no sentido mais amplo do termo. Também
visando, cada vez mais, um produto de qualidade que atenda a necessidade das pessoas que o
consumirem. Nesse contexto, a ética se torna o principal fator de decisão, pois, é nela que a práxis se
realiza.
O reconhecimento do meio, não como adestramento ambiental (Brüger, 1994), mas como parte
constituinte de uma realidade que necessita ser visualizada de forma o quanto mais clara possível, terá o
seu espaço garantido, porém não privilegiado.
Essa questão diz respeito ao que Jollivet (1994) a considera “atos técnicos”.
“O ato técnico do qual falamos é mais ou menos complexo, indo
de uma simples prática (por exemplo, desmatamentos, colheitas ou
mesmo uma simples abertura do meio florestal à visitação) a uma
operação de ordenamento (por exemplo, um remembramento do
solo) até mesmo um esquema de desenvolvimento global ou de
gestão integrada, passando por “itinerários técnicos” e “sistemas
técnicos”’1 (p 46).
É nesse sentido que o reconhecimento do meio e a provável/possível intervenção sobre esse
meio, na busca de solução de um determinado problema, passa a ser importante. Pois, quanto mais
conhecimento sobre o que se passa ao redor, mais conscientes de si mesmos estarão sendo.
Sendo a tecnologia uma ciência que se desenvolve na ação humana, e a técnica a mais pura
expressão do trabalho do homem, em sua ação perante a natureza, a evidenciação do continuum existente
entre o natural e o social desnuda a importância da interdisciplinaridade (idem, p 48).
A oposição entre ciências humanas e ciências da natureza dificultam sobremaneira a abordagem
interdisciplinar do contexto, ao que Jollivet (1994) sugere que as ciências técnicas seriam o elo de
1
Jollivet esclarece em página seguinte que os atos técnicos, sistemas técnicos, ordenamentos, ações de
desenvolvimento, políticas de gestão são, todas da mesma forma, ações do homem sobre os recursos e o
meio, portanto atos ou sistemas de atos técnicos. Em segundo lugar, diz que mesmo as práticas não
produtivas ou improdutivas, sendo uma ação sobre o meio, implica em uso de uma ou várias técnicas
(Jollivet, 1994).
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ligação, pois as técnicas seriam os processos naturais controlados pelo homem, portanto, socializados.
Aponta como importante o conhecimento dos processos naturais aos quais as técnicas se apoiam, e as
restrições sociais com que elas se defrontam, tanto na sua concepção, quanto na sua aplicação.
“Vemos aqui de fato a ecologia (e mais abrangente a biologia)
irromper em um campo até agora totalmente dominando pela
física, a mecânica e a química. A técnica é então, por isso,
integralmente colocada diante do social: é o homem que destrói a
natureza. É, portanto, irracionalmente também, pois a ação do
homem desconhece a racionalidade da natureza que a ecologia
tenta ressaltar” (idem, p 54).
Freire também entende que a formação técnico-científica não é antagônica à formação
humanista, já que as duas, numa sociedade revolucionária, “devem estar a serviço de sua libertação
permanente, de sua humanização” (Freire, 1977, p 156).
O que se torna crucial é o peso que a tecnologia passa a ter em uma sociedade onde a visão se
torna mais holística e libertadora. Nessas circunstâncias a ciência e a tecnologia devem estar a serviço da
humanização e não da opressão.
Entretanto, para humanizar-se é essencial ao homem desvelar a realidade e, percebendo-se nela e
com ela, intervir de forma a tornar-se mais humano, enquanto humaniza o mundo.
“A percepção ingênua ou mágica da realidade da qual resultava a
postura fatalista cede seu lugar a uma percepção que é capaz de
perceber-se. E porque é capaz de perceber-se, enquanto percebe a
realidade que lhe parecia inexorável, é capaz de objetivá-la”
(Freire, 1987, p 74).
Portanto, o reconhecimento do meio por parte dos leiteiros familiares se torna muito importante
dentro de uma visão libertadora da educação, à qual se deve debruçar a educação ambiental por nós
referida.
Educação como prática de libertação
A educação libertadora parte do princípio de que “ninguém educa ninguém, os homens se
educam entre si, mediatizados pelo mundo” (Freire, 1987, p 69).
Isso nos leva a crer na impossibilidade de uma educação verdadeira se dar na solidão, ou seja,
sem a devida coletivização das ações e reflexões. O que nos alerta Freire, é que, num determinado
momento do processo, passa a existir o medo de liberdade, pois, devido a estarem extremamente aderidos
à realidade, não enxergam outra humanização possível, a não ser a de seus opressores. Dessa forma,
buscam a libertação de sua atuação como oprimidos, para poderem quiçá, oprimir alguém. A essa
introjeção dos opressores por parte dos oprimidos, Freire chama de sombra. O medo da expulsão dessa
sombra de dentro de si se explica pela necessidade do preenchimento que o nascido vazio deixaria. Esse
conteúdo deveria ser o de sua autonomia, sua responsabilidade “sem o que não seriam livres” (Freire,
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1987, p 34). Portanto, a liberdade subentende uma constante busca, que só se torna verdadeira quando os
homens se assumem seres inconclusos, ou seja, quando assumem a responsabilidade de sua existência, da
sua vocação ontológica de ser mais. Para isso, o reconhecimento crítico da situação, a “razão” de porque
ela se encontra da maneira como se apresenta, passa a ser fundamental.
A ação cultural para a liberdade, segundo Freire (1987), pressupõe como características suas a
co-laboração, a união, a organização e a síntese cultural, ao que se contrapõe em sua ação antidialógica a
conquista, a divisão para manter a opressão, a manipulação e a invasão cultural. No contexto de nossa
pesquisa, podemos visualizar com muita clareza todas as características da ação antidialógica.
A conquista se expressa pelo paternalismo com que se estampam as relações com as lideranças e
com a sociedade em geral. Há sempre uma espera de algo.
“Daí que os opressores desenvolvam uma série de recursos
através dos quais propõem à ‘ad-miração’ das massas
conquistadas e oprimidas um falso mundo. Um mundo de engodos
que, alienando-as mais ainda, as mantenha passivas em face dele.
Daí que, na ação da conquista, não seja possível apresentar o
mundo como problema, mas, pelo contrário, como algo dado,
como algo estático, a que os homens se devem ajustar” (Freire,
1987, p 136).
A função desses mitos, descritos por Freire, é de embaraçar a visão dos oprimidos para, não
sendo ad-mirada a realidade, não seja convocada a sua vocação ontológica de ser mais, e se mantenha o
status quo, como de interesse dos opressores.
Para manter a continuidade da situação, uma das estratégias utilizadas pelas minorias é a divisão
das maiorias. Para a ação libertadora, é indispensável a união, a organização, a luta. Por isso, esses são
conceitos considerados perigosos pelo mantenedores do status quo, que assim agem por interesses
diversos.
A compreensão de seu sistema de produção englobando sistemas maiores de um município,
região, estado, país, planeta e universo, vistos a partir de uma visão de parcialidades em totalidades, está
diametralmente oposta à alienação do indivíduo, quando o todo se confunde com as partes, mas sem as
possibilidades de interrelação, intercomunicação e interconexões.
O treinamento de líderes, para Freire, teria a mesma finalidade de divisão já que, promove uma
parte, o que não significa a promoção do todo. O seu distanciamento da realidade e a sua afirmação como
diferente dos que seriam iguais, permite uma manipulação maior, o que dificilmente ocorreria se o
processo se desse de forma totalizada e totalizadora, abarcando a comunidade e não somente os seus
líderes. Uma ação que atende ao trabalho coletivo implica à percepção do estado de despersonalização a
que os sujeitos estão submetidos enquanto divididos em seus procedimentos. Obviamente que, aos
oprimidos, não é permitido visualizar essa situação, pois que, dessa maneira, já estaria dado o primeiro
passo para a sua libertação.
Um outro elemento importante para a opressão e a prática antidialógica é a manipulação. Ela
aparece como instrumento de conquista, juntamente com a divisão. A manipulação se presta ao papel de
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“conseguir um tipo inautêntico de ‘organização’, com que evite o
seu contrário, que é a verdadeira organização das massas
populares emersas e emergindo” (1979, p 145).
Podemos, da mesma forma, identificá-la na comunidade em questão, através de formas de
organização existentes. Na ‘organização’ manipulada, as massas populares passam a ser meros objetos
dirigidos, encarnando as finalidades dos manipuladores, sem saberem ao certo as suas próprias
finalidades. Na organização como ação cultural para a liberdade, os indivíduos são sujeitos da sua própria
organização, seguindo as suas próprias finalidades. O princípio dessa organização é a problematização da
realidade, bem como da manipulação a que estão sujeitos.
O principal objetivo da manipulação é o de “anestesiar as massas populares para que não
pensem” (idem, p 146). Um dos maiores riscos para o status quo é a emersão da “consciência
revolucionária” ou “consciência de classe”, o que é considerado por Freire como um pensar certo. Dessa
forma, o assistencialismo anestesia as ações e reflexões das pessoas, pois não buscam a verdadeira causa
e a verdadeira solução para o problema2 .
A invasão cultural, que está também a serviço da conquista, é, com certeza, um dos traços mais
marcantes da tecnologia moderna e todo o aparato que está à sua disposição. As propostas da tecnologia,
expressas pela ciência como pacotes, muito raramente levam em consideração aspectos culturais dos
propositantes.
“Desrespeitando as potencialidades do ser a que condiciona, a
invasão cultural é a penetração que fazem os invasores no
contexto cultural dos invadidos, impondo a estes a sua visão do
mundo, enquanto lhes freiam a criatividade, ao inibirem sua
expansão” (1979, p 149).
Uma das premissas da invasão cultural é embotar a visão do invadido para ver a realidade que
interessa ao invasor. Mas para isso é importante que os invadidos conheçam a sua “inferioridade
intrínsica”.
“Como não há nada que não tenha seu contrário, na medida em
que
os
invadidos
vão
reconhecendo-se
‘inferiores’
necessariamente irão reconhecendo a ‘superioridade’ dos
invasores. Os valores destes passam a ser pauta dos invadidos,
mais estes quererão parecer com aqueles: andar como aqueles,
vestir à sua maneira, falar a seu modo” (Freire, 1979, p 151).
Sabemos que o modelo de modernidade de longe se adeqüa ao que se poderia chamar de modelo
da agricultura familiar. Portanto, no processo de modernização conservadora que viveu a agricultura
brasileira, os agricultores, sobremaneira os familiares, sofreram uma forte invasão cultural
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Como o intuito da invasão cultural é o “não pensar”, ocorre que, mesmo dentro de uma
comunidade que possa estar no mesmo nível de opressão, existam opressões internas. A invasão cultural
realizada no contexto da extensão rural foi também discutida por Freire, que contestou os métodos
utilizados como antidialógicos. Em seu ensaio sobre o assunto, descreve as palavras de muitos agrônomos
extensionistas que consideram “perda de tempo o diálogo” (Freire, 1977, p 46). Os motivos pelos quais
os agricultores se tornam tão apáticos devem ser descobertos em razões “de ordem histórico-sociológica,
cultural e estrutural que explicam sua recusa ao diálogo” (idem, p 48).
É necessário compreender que toda a sua experiência de vida se deu em espaços antidialógicos,
dos quais a sociedade está formada. Em realção aos leiteiros familiares entrevistados, que têm uma idade
média de 51 anos, eles terão nascido por volta de 1948, espaço de tempo em que houve o início e o
incremento da industrialização do Brasil. Portanto, a introjeção de uma imagem de agricultor, o crédito
fácil, os preços compensadores, professores para ensinar a fazer e pesquisadores bem pagos e
aparelhados, não condizem com a realidade atual de falta total de recursos para uma pequena melhoria na
atividade, a não existência de mercado regular. Autalmente os negócios agrícolas são agronegócios, que
estão à mercê de conjunturas internacionais pouco consideram os agricultores familiares e mesmo os
consumidores.
Educação como assunção da condição de produtor de alimentos
A educação libertadora torna-se impossível sem a co-laboração. A educação se dá entre os seres,
onde um constitui o outro em dialeticidade. Como não há conquista ou dominação, não havendo
competição, a ação dialógica, que irá construir a ação cultural, deve se dar na co-laboração. Portanto, “há
sujeitos que se encontram para a pronúncia do mundo, para a sua transformação” (Freire, 1987, p 166
grifo nosso).
A união, assim como a co-laboração, não se dará fora da práxis se for realmente ação cultural
para a liberdade. O que percebemos na comunidade em questão é um descrédito profundo quanto às
formas de organização existentes, e inclusive, por parte de um entrevistado, a busca de uma forma
diferente das que existem.
Segundo Freire(1979), a classe dominada está sob o poder da opressão, o que a torna imóvel.
Mas, para que ocorra a descodificação da realidade e a sua transformação, é necessário que essa ação se
dê em comunhão, e não em antagonismo. Isso se torna bastante difícil, já que a ação da classe opressora é
justamente dividir e antagonizar a massa oprimida.
Porém, em qualquer situação, a ação libertadora deve querer
“aclarar aos oprimidos a situação objetiva em que estão, que é
mediatizadora entre eles e os opressores, visível ou não. Somente
estas formas de ação que se opõem, de um lado, aos discursos
verbalistas e aos blablablás inoperantes e, de outro, ao ativismo
mecanicista, podem opor-se, também, à ação divisória das elites
2
Apesar disso, Freire, em sua análise dialética, diz que, no entanto, há um momento de positividade que o
assistencialismo pode gerar, que se refere à dificuldade de limites da assistência aos assistidos e a
inquietação dos não assistidos, para serem assistidos também (1977, p 149).
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dominadoras e dirigir-se no sentido da unidade dos oprimidos”
(idem, p 174-5).
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É desta maneira que a ação-reflexão coletivas se apresenta como um dos pressupostos da ação
dialógica para a libertação.
Freire coloca o testemunho como o principal constituinte da ação
revolucionária. O testemunho é uma variante do momento
histórico de cada um. Portanto, é importante que o testemunho
seja parte integrante e integradora do diálogo na ação cultural,
pois, sem ele, corre-se o risco de absolutizar o relativo e mitificar
a realidade, alienando.
Logo, o trabalho de organização de agricultores, com certeza, é um trabalho lento, mas que deve
ser gradual e avançando em etapas, que cada vez mais leve à autonomia de si, como ser mais, num
processo coletivo de humanização. Ele deve ser um trabalho que implique em autoridade, sem ser
autoritário, e liberdade, sem ser licencioso. Logo, ao ser constatado que para ser ação dialógica
libertadora, ela não poderá ser induzida, introduzimos o outro componente da ação dialógica: a síntese
cultural.
Partimos do princípio que toda a forma de ação sistematizada e deliberada, que incide sobre a
estrutura social, “ora no sentido de mantê-la como está ou mais ou menos como está, ora no sentido de
transformá-la” (Freire, 1987, p 178) é ação cultural. Compreendemos que, assim sendo, ela terá a sua
teoria, que determina os seus fins e delimita os seus métodos. Destarte, ou ela está a serviço da
dominação, ou da libertação dos homens.
Mas, as duas ações, ou já o seu resultado sobre a estrutura social, se dão de forma dialética, na
unidade permanência-mudança. Por ser unidade dialética, ela é dinâmica, mas nunca em absolutização
dos seus elementos, mas sim na dialeticidade deles, num movimento histórico-cultural. Portanto, a
estrutura social, para ser, necessita estar sendo.
A ação cultural dialógica pretende, a partir da descodificação da estrutura social, superar as
contradições antagônicas. É seu objetivo, também, superar as ações induzidas. Na prática da ação cultural
libertadora, o fato de adentrarmos o mundo popular como quem vem para conhecê-lo com o povo, já
significa estarmos praticando a síntese cultural, em antagonismo total à sua invasão. É nesse sentido que a
investigação temática e a ação como síntese cultural acabam por fazer parte do mesmo processo, o
mesmo momento.
Como na ação antidialógica, o universo temático dos homens com os quais se pretende trabalhar,
não é considerado ou levado em conta, e o que se faz são prescrições alienantes e alienadas, dificilmente
os invadidos irão ultrapassar os modelos que lhes são ensinados.
“Como na síntese cultural não há invasores, não há modelos
impostos, os atores, fazendo da realidade objeto de sua análise
crítica, jamais dicotomizada da ação, se vão inserindo no
processo histórico, como sujeitos” (idem, p 181).
Essa ação conjunta faz nascer a pauta para a ação, com o mesmo peso que tem o saber e a ação
do povo e das lideranças que com eles irão atuar. Esse processo dinâmico dá lugar a uma ação e um saber
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desalienantes para ambos. Portanto, somente nessa forma de atuar, ou seja, na síntese cultural, as
contradições poderão ser superadas, com a visão do mundo de um, enriquecendo a visão do outro.
“A síntese cultural não nega as diferenças entre uma visão e
outra, pelo contrário, se funda nelas. O que ela nega é a invasão
de uma pela outra. O que ela afirma é o indiscutível subsídio que
uma dá à outra” (idem, p 181).
Isso, num primeiro momento de análise, não foi possível verificar com os leiteiros entrevistados.
A descrença nas lideranças, e, em analogia, em si mesmos, a não existência de um trabalho que lhes
permita e lhes estimule falar a sua palavra, tornou-os pessoas alienadas de sua condição, desmerecidas no
seu saber e criticadas em suas ações. Com essa autodesvalia exacerbada, e como vimos que o homem se
faz homem através de sua atuação na natureza, relacionadas ao seu trabalho e ao mundo, também o
trabalho e o produto dele passam a não ter a importância devida.
O agricultor, como produtor de alimentos, gera a agricultura, que “é a base da humanidade”
(Primavesi, 1997 p 97). Como podemos conceber a humanidade sem alimentos? A importância da
agricultura também está no processo que as plantas desenvolvem, transformando a energia do Sol em
energia química e substâncias orgânicas, ou seja, tornando a energia solar assimilável por todos os seres
que não realizam a fotossíntese.
Além disso, o agricultor, no seu trabalho, gera cultura (por isso mesmo agricultura), o que se
torna muito importante socialmente falando, principalmente numa era de desempregos como a que
estamos vivenciando (Forrester, 1997) e que se noticiam por todos os meios de comunicação.
Por essas e muitas outras razões, o produtor de alimentos é uma pessoa fundamental em qualquer
sistema de vida3 , pelo menos como a conhecemos.
O homem é o único ser que faz cultura. O seu trabalho, enquanto forma de atuar que transforma
a natureza em culturas, tem uma importância antropológica grande. Mas, para não se tornar um trabalho
de Sísifo, é necessário que tenha uma finalidade4. Essa finalidade é que dará sentido ao seu trabalho.
Devido a todo o avanço da tecnologia, e a crença cega de que ela poderá resolver todos os
problemas da humanidade e também pelo fato de que “oficialmente agricultura é o ramo econômico
menos lucrativo” (Primavesi, 1997, p 97), acabamos por relegar à agricultura uma importância relativa
muito pequena.
Acreditamos que um trabalho de educação ambiental que leve à assunção do homem, levará à
sua assunção como produtor de alimentos, tarefa tão nobre, desmistificando a sua inferioridade e trazendo
para si a responsabilidade que deverá ser exercida eticamente.
3
“Mesmo vivendo em prédios urbanos, nem sabendo mais como é um frango ou uma vaca ou qual a
diferença entre milho e trigo, o homem não escapa de ter o seu corpo formado com aquilo que a terra
forneceu” (Primavesi, 1997, p 99).
4
Nesse caso, nos baseamos em Gadotti, quando esse afirma a diferença entre finalidade e objetivo, ou
seja, finalidade “é particularmente ligada à noção de caminho, de direção, de horizonte, e como tal, é
radicalmente diferente da noção de objetivo...(esses) por natureza, são mensuráveis, fixos, determinados,
só indiretamente ligados à pessoa, ao homem” (Gadotti, 1992, p 72).
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Para Freire, a discussão sobre assunção é muito importante. Ele diz que, para assumir uma
mudança, é necessário ter pleno conhecimento de como a forma que se está agindo, pode estar afetando, a
si ou aos outros.
Interessante perceber que essa assunção, como todo o seu pensamento, está intimamente ligada
aos outros, e não à sua exclusão, pois é justamente essa “’outredade’ do ‘não eu’ ou do tu, que me faz
assumir a radicalidade de meu eu” (Freire, 1996, p 46). Nesse caso, torna-se fundamental o respeito à
cultura do educando, no nosso caso, dos leiteiros familiares, para que haja a assunção de nós por nós
mesmos, coisa que o treinamento, puro e simplesmente, não faz. Nas palavras de Freire, na experiência
profunda da assunção, ensaiadas entre educando-educadores e entre educandos, assumir significa:
“Assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante,
comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos, capaz
de ter raiva porque capaz de amar. Assumir-se como sujeito capaz
de reconhecer-se como objeto” (Freire, 1996, p 46).
A importância reconhecida ao seu saber, estimula a autoconfiança no seu mundo de coisas, de
que-fazeres, expandindo o mundo da esperança de poder ser-no-mundo de modo diferente.
“Se eles sabem selar um cavalo e sabem quando vai chover, se
sabem semear, etc..., não podem ser ignorantes (durante a Idade
Média, saber selar cavalo representava alto nível técnico), o que
falta é um saber sitematizado” (Freire, 1979, p 28).
O saber está constantemente sendo superado, e o que era ignorância, superada será saber, assim
como o saber, também superado, torna-se ignorância. Por isso, nenhum pode ser absoluto. A assunção da
sua condição de produtor de alimentos só pode ser possível através da reflexão da realidade, o que inclui a
sua ação sobre ela. Ao se ver dessa forma importante no seu que-fazer, importante tornar-se-à o produto
que o seu trabalho gesta.
Muito intimamente ligado à assunção está o compromisso. Freire (1979), em um de seus
inúmeros textos, discute o “compromisso do profissional com a sociedade”5. Nesse texto ele esclarece
que o compromisso só tem sentido se envolver a “decisão lúcida e profunda de quem assume”. O seu
primeiro questionamento é: “quem pode comprometer-se?” Como não podemos separar o ato
comprometido do ser que se compromete, esse contém a essência daquele. Logo, “a primeira condição
para que um ser possa assumir um ato comprometido está em ser capaz de agir e refletir” (idem, p 16).
Com esse engajamento, desaparece a neutralidade6, que já não é mais possível a seres
comprometidos. “O verdadeiro compromisso é sempre solidário”. Logo, “sendo um encontro dinâmico
de homens solidários”, que, ao ser exercitado por aqueles que desenvolvem um trabalho comprometido,
incidindo sobre alguém seu compromisso, esse retorna àqueles, “num único gesto amoroso” (idem, p 19).
Mas, primordialmente, o homem, por ser homem, já é um ser comprometido. Somado a isso tem
o seu compromisso de profissional. Mas, como não podemos ser homens separadamente de profissionais,
5
6
Esse texto faz parte do livro Educação e Mudança, 1990, pp 15-25.
Freire diz que a neutralidade reflete o medo que se tem de revelar o compromisso.
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já que o segundo é um atributo do primeiro, o compromisso terá que se dar da mesma forma, já que o
compromisso se dá na práxis. Portanto, mais comprometido será o homem, quanto mais profissional o
for, sendo, dessa maneira, mais comprometido, na dialeticidade da realidade que determina o históricocultural e por eles é determinada.
O verdadeiro comprometimento não poderá se dar para aqueles que têm uma consciência
ingênua da realidade, não podendo estar nela, que não percebem na realidade algo passível de mudança,
através de sua atuação conscientemente crítica. Se não vêem a totalidade da realidade, é porque ela se
apresenta “enclausurada em departamentos estanques” (idem, p 21).
Ao abordar a questão do profissional comprometido com a transformação da realidade, Freire
questiona a atuação de profissionais que acreditam na neutralidade da técnica, ou seja, que a sua simples
transferência de um país para outro, possa trazer os resultados que demonstraram no país de origem. Para
ele, os compromissos desse profissional se desfaz, na medida em que o seu instrumento de atuação é
“estranho, às vezes antagônicos, à sua cultura” (idem, p 24). Portanto, acredita-se no papel da educação
ambiental, reconhecidamente interdisciplinar, capaz de, ao chegar ao encontro dos leiteiros familiares,
dialogicamente, através do processo de respeito à sua cultura e saberes. Acredita-se na construção de
novos saberes, construindo um mundo também novo, onde cada pessoa tenha a sua real importância, e o
seu trabalho não seja um simples cotidiano imutável, dado, mas, um presente cheio de futuridade, já que é
a partir dela que podemos sonhar e acreditar na utopia de um mundo onde o respeito por todas as formas
de vida seja imperioso.
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C-296
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A PRODUÇÃO LEITEIRA E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL: UMA