Prevalência de Dentes Supranumerários no Município de Curitiba, Paraná, Brasil e suas Posições no Arco Dental pelo Exame de 3000 Ortopantomografias* Andresa Borges Soares | Professora doutora em Patologia da Faculdade de Ciências Médicas - UNICAMP e orientadora da monografia. Ulisses Genari Ferreira-Filho | Autor da monografia e Concluinte do Curso de Especialização em Cirurgia e Traumatologia Buco Maxilo Facial. Clóvis Marzola | Professor Titular de Cirurgia aposentado da USP de Bauru. João Lopes Toledo-Filho | Professor Titular de Anatomia da USP de Bauru. João Lucas Barbosa | Especialista em Ortodontia e Radiologia e proprietário da Clínica All Doc de Radiologia Odontológica em Curitiva, PR, Brasil. Ivonete Barreto HAAGSMA | Especialista em Radiologia e e proprietário da Clínica All Doc de Radiologia Odontológica em Curitiva, PR, Brasil. Resumo Introdução: Os dentes supranumerários são dentes formados em excesso, ou seja, os que excedem os 20 elementos decíduos ou os 32 elementos permanentes. Objetivo: O objetivo deste trabalho foi avaliar a presença de dentes supranumerários e suas características quanto ao gênero, localização, forma, situação no arco dentário e idade do paciente, comparando os dados deste trabalho com os da literatura. Material e Métodos: Foram utilizadas 3000 radiografias panorâmicas ortopantomográficas dos arquivos da clínica de Radiologia da Cidade de Curitiba. Resultados: Foram encontrados 61 dentes supranumerários, em 40 pacientes, sendo a região posterior da mandíbula a de maior ocorrência, apresentando 19 (32,15%) do total de casos de dentes supranumerários, com prevalência de dentes suplementares e retidos. Conclusão: A incidência de pacientes com dentes supranumerários foi de 40 casos, dentre as 3000 ortopantomografias avaliadas. Palavras-Chave: Dente Supranumerário; Radiografia panorâmica; Dente incluso. Abstract Introduction: Supernumerary teeth are those developed in excess, that is, in addition to the 20 deciduous and 32 permanent teeth. Purpose: The purpose of this study was to analyze the prevalence of supernumerary teeth in our population, comparing the data with those of the literature. Material and Methods: This study reports a radiographic review of 3,000 panoramic radiographs from the records of a radiology clinic in the city of Curitiba, Paraná. Brazil, for the purpose of evaluating the presence of supernumerary teeth and their characteristics, such as gender prevalence, location, morphology, situation in the dental arch and age of the patients. Results: Sixty-one supernumerary teeth were found in 40 patients, with the posterior mandibular region showing the greatest number, with 19 (32.15%) of the total of cases with supernumerary teeth and a prevalence of supplementary and impacted teeth. The results of the present study are not in agreement with the literature. Conclusion: The incidence of patients with supernumerary teeth was 40 cases out a total of 3,000 radiographs evaluated. Keys words: supernumerary, tooth; radiograph, panoramic; tooth, unerupted. * Parte da monografia apresentada e aprovada para conclusão do Curso de Especialização em Cirurgia e Traumatologia Buco Maxilo Facial da APCD regional de Bauru – 2007. REVISTA BRASILEIRA DE CIRURGIA BUCO-MAXILO-FACIAL V10 N1 P. 23 - 32 Recebido em 19/11/08 Aprovado em 02/03/10 Supermumerary teeth prevalence in the Municipality of Curitiba, Paraná, Brazil, and their Positions in the Dental Arch on 3000 Panoramic Radiographs 23 Prevalência de dentes Supranumerários no Município de Curitiba,Paraná, Brasil e suas posições no Arco Dental pelo Exame 3000 Ortopantomografias | Soares et al. Introdução 24 Os dentes supranumerários são alterações de desenvolvimento quanto ao número de dentes, na qual há formação de um ou mais dentes em número maior do que o normal. Estes dentes podem estar localizados na maxila ou mandíbula, ser uni ou bilateral, encontrando-se em sua maior parte retidos1. Denominam-se dentes retidos aqueles que, uma vez chegada época normal que deveriam iruir, ficam encerrados parcial ou totalmente no interior do osso, com a manutenção ou não da integridade do saco pericoronário2. Podem, também, ser denominados de hiperdontia, dente acessório, irrupção ectópica, dente extranumerário, dentículos, paramolares, distomolares, mesiodentes, superdentição, dentes hiperplásicos, aberrantes e, ainda, podem ser tratados como dentes da terceira dentição 3, 4, 5. O primeiro relato de dente supranumerário apareceu entre 23 e 79 a.C, e desde então vários termos têm sido usados 6 e, podendo ainda receber outras denominações dependendo de sua localização. Dente na região de incisivos superiores é chamado de mesiodens e, aqueles que aparecem na região distal aos terceiros molares são denominados quartos molares 12. A chamada terceira dentição pós-permanente também representa, na grande maioria dos casos, a irrupção ativa ou passiva (por reabsorção alveolar) de dentes supranumerários retidos, após a remoção da dentição permanente 8. Acreditam ainda que se trate de uma verdadeira terceira dentição, entretanto não foram encontradas bases científicas para sua comprovação 9. A etiologia do aparecimento de um dente supranumerário ainda é obscura, contudo várias hipóteses são citadas para explicá-la. A formação deste dente poderia ocorrer devido à hiperplasia da dentição, hereditariedade, ou até causas locais como inflamação, trauma, pressão anormal ou distúrbios relacionados à odontogênese 10,11. O fator hereditariedade, devido à ocorrência de mesiodens pode ser mais elevado em indivíduos que relatam casos na família 12. A presença de dentes supranumerá- rios também poderia estar relacionada às fissuras labiais e/ou palatinas, displasia ectodérmica e disostose cleidocraniana 13. Ainda poderia estar relacionada a uma predisposição genética, como a ocorrência de desordens em períodos precoces do desenvolvimento do germe dentário, acarretando um aumento excessivo de células durante os estágios de iniciação e proliferação 13-15. O atavismo, teoria que levanta a possibilidade de ancestrais humanos terem maior número de dentes, também é relatado por alguns autores 8, 16-19. A combinação entre fatores genéticos e fatores ambientais também tem sido relatada podendo gerar dentes supranumerários, hipótese sugerida pela dicotonia do germe dentário, aliada ao fator morfogenético no processo de odontogênese 20. A relação entre dentes supranumerários e síndromes é descrita por vários autores, destacando-se a síndrome de Gardner 17, 19, 21, a Displasia ou Disostose Cleidocraniana 8, 16, 19, 21, 22, o palato e/ou lábio fendido 21, a síndrome de Nance-Horan 19 e, a síndrome de Teachers Collins 26 que são algumas das síndromes mais citadas na literatura. Os dentes supranumerários podem apresentar diferentes formas e, quando é semelhante a um dente natural recebe seu nome. Caso contrário, quando sua morfologia é anormal, indica-se apenas como dente supranumerário localizado em determinada região. Aqueles que aparecem na distal aos terceiros molares são chamados de quartos molares, os que surgem entre os incisivos superiores de mesiodens, mas podem, também, estar localizados até entre os caninos e os incisivos laterais6. Ocorrem com menor frequência na dentição decídua, sendo mais comum na região dos incisivos superiores e, na dentição permanente, o mais comum é o mesiodens, em sua maioria pequeno, dismorfo, conóide e, às vezes duplo ou mesmo tríplice22,24,25. Podem ainda irromper regularmente na cavidade bucal ou permanecerem retidos nos maxilares. A frequência da irrupção pode variar entre 15 e 34% na dentição permanente e, aproximadamente 67% na decídua. Sua localização é descrita de forma variável na literatura e, a maioria dos estudos concorda que a maxila anterior é o local mais frequen- Foi observada sua presença nas cavidades nasais, órbita, seio maxilar, ovários, palato mole, sutura incisiva, concha oftálmica, sutura esfenomaxilar, tuberosidade maxilar e entre a órbita e o cérebro6. Em relação ao gênero, os homens são mais acometidos que as mulheres, na proporção de 2 para 8, 26, 33, 35 . O diagnóstico é comumente feito por exames radiográficos de rotina36. Sua presença pode levar a condições patológicas como apinhamentos, reabsorções ou danos aos dentes adjacentes, irrompimentos ectópicos, além da formação de cistos dentígeros37. Pode-se, também, aproveitá-los com boas possibilidades de sucesso para o transplante, tanto autógeno quanto homógeno, principalmente quando sob a forma de germe dental1, 2, 29, 38, 39. As manifestações clínicas dos dentes supranumerários podem ser de maior ou menor gravidade dependendo do número de dentes, localização e das patologias associadas40. Na maioria dos casos são assintomáticos, no entanto podem estar associados à dor, bem como à pericoronarite 25, 27, 29, 31. Ausência de dentes permanentes na arcada dentária, no período cronologicamente devido, pode estar associada a dentes supranumerários, mas não deve ser descartada a possibilidade do traumatismo na dentição decídua, acarretando a dilaceração corono-radicular41. As reabsorções das dentições decíduas e permanentes foram relatadas na presença de quadros de hiperdontia, não limitando este fator como única causa do processo patológico, podendo surgir de forma coadjuvante a outros fatores42, 43. Os efeitos causados pela presença sobressalente variam desde a não irrupção de dentes da série normal, mau posicionamento, diastemas, desenvolvimento de cisto dentígero, cefaléia, parestesia, distúrbios locais e reabsorção dos dentes adjacentes32, 40. Podem também causar várias alterações no desenvolvimento da oclusão e, entre estas complicações destacam-se o apinhamento dental, impacções de dentes permanentes, reabsorções radiculares, diastemas na linha média, irrupção na cavidade nasal além da formação de cisto periapical ou folicular44. Algumas patologias são relacionadas a esses dentes, como a presença de cistos dentígeros, cistos periapicais, doença periodontal e cárie no dente adjacente17, 43. As formas de tratamento variam conforme o caso e, também, de acordo com a condição do paciente, podendo ser poli-especializado, exodontia43, redução do tamanho pelo desgaste seletivo e tratamento endodôntico, além da hemissecção com restauração composta45. Visando, portanto minimizar estas consequências deve-se realizar uma intervenção o mais precocemente possível, por um diagnóstico preciso através de um exame clinico e radiográfico criterioso46. A extração dos dentes supranumerários é na maioria das vezes o tratamento de escolha, devendo ser realizada o mais cedo possível, com idade preferencial entre oito e 10 anos30, 36, 47. Os quarto molares são removidos usualmente no mesmo tempo cirúrgico em que se removem os terceiros molares retidos. Caso os superiores estejam marcadamente altos, podem ser extraídos em segundo estágio, ou pode-se optar pela realização desse procedimento em ambiente hospitalar, sob anestesia gera2, 29, 48 . A cirurgia pode gerar algumas consequências, como o rompimento de estruturas nobres como o feixe vásculo-nervoso do dente adjacente e parestesias8. O transplante tanto autógeno como homógeno pode ser uma alternativa de tratamento cirúrgico, principalmente se esse dente estiver sob a forma de germe dental, podendo solucionar uma ausência dental, aproveitando-se, de forma a ocupar o espaço do dente ausente. Limita-se este procedimento a alguns fatores como habilidade do profissional, idade do paciente, condição do dente a ser transplantado dentre outros15. Sendo o transplante dental possível e necessário, deve ser realizado num mesmo tempo cirúrgico2, 19. Em alguns casos, o julgamento clínico ou a resistência do paciente REVISTA BRASILEIRA DE CIRURGIA BUCO-MAXILO-FACIAL V10 N1 P. 23 - 32 Recebido em 19/11/08 Aprovado em 02/03/10 temente acometido, com prevalência de 89-96%, seguida pelos quartos molares, pré-molares e caninos 7,22,26-30. Relatos apontam a existência de quartos, quintos, sextos e até sétimos molares 25,26,28,31. 25 podem contra-indicar a remoção cirúrgica e, nestas circunstâncias, o controle radiográfico regular é obrigatório, como prevenção de possíveis complicações31, 49. O objetivo deste estudo é, pois de avaliar a prevalência radiográfica de dentes supranumerários em 3000 radiografias ortopantomográficas, classificando estes dentes quanto a sua localização, forma, idade e gênero dos pacientes. Sua importância destaca-se com finalidade da saúde bucal dos pacientes, assim como a escassez de trabalhos na literatura especializada. Prevalência de dentes Supranumerários no Município de Curitiba,Paraná, Brasil e suas posições no Arco Dental pelo Exame 3000 Ortopantomografias | Soares et al. Material e Método 26 Foi realizado um estudo radiográfico retrospectivo utilizando radiografias panorâmicas dos arquivos da Clinica de Radiologia “All Doc” da cidade de Curitiba, Paraná, Brasil, bem como fotos intra-orais em perfis normo-lateral, frontal e oclusal. Todos os dados recolhidos foram mantidos em sigilo e disponíveis somente aos pesquisadores. Nenhuma tomada radiográfica foi realizada com o objetivo de ser incluída nesta pesquisa. Essa pesquisa foi aprovada pelo Comité de Ética da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da UNICANPI sob número: 389-2006 e CAAE: 0.0.146.000-06. No grupo de estudos foram avaliadas 3000 radiografias panorâmicas de diferentes pacientes, como também fotos intra-orais em perfis normo-lateral, frontal e oclusal. Foram incluídas nesta pesquisa pacientes que apresentavam radiografias panorâmicas com boa nitidez, sem distorção, permitindo visualizar os elementos dentais, mesmo que estes se encontrassem retidos. Porém radiografias que apresentavam distorção e/ou pacientes desdentados totais foram excluídas da pesquisa. Os dados clínicos oferecidos pela clinica radiológica referemse ao gênero e faixa etária dos pacientes, onde foram agrupados em masculino e feminino e, divididos segundo sua faixa etária. As imagens radiográficas foram obtidas de fotos digitalizadas das mesmas, sendo analisadas por dois observadores através das quais foram observadas a forma, quantidade, posição e localização do dente supranumerário nas arcadas dentárias. Segundo a forma, os supranumerários foram divididos em cônicos (pequenos, coniformes e com raiz em desenvolvimento normal), tuberculares (multicuspídeos, pequenos e com raiz rudimentar), suplementares (iguais aos dentes da série), além dos odontomas (sem formato regular). Quanto à localização, os dentes supranumerários foram divididos em regiões de Linha Média Maxilar quando entre os incisivos centrais superiores; PréMaxilar quando localizados entre distal a distal de caninos superiores, exceto quando estava presente na linha média maxilar interincisivos centrais; PréMolares Superiores quando na região de mesial de primeiros pré-molares a distal de segundo prémolares superiores; Molares superiores quando na mesial de primeiros molares superiores a região distal de terceiros molares, incluindo a região da tuberosidade maxilar; Pré-Mandibular quando de distal a distal de caninos inferiores, englobando toda a região mentual; Pré-Molares Inferiores quando de mesial de primeiros pré-molares a distal de segundos pré-molares inferiores, além da região de Molares Inferiores quando de mesial de primeiros molares inferiores a distal de terceiros molares inferiores, incluindo a região do trígono retro-molar. Foi avaliado o número presente de dentes supranumerários na cavidade bucal, mesmo quando encontravam-se retidos, sendo adotada a análise descritiva dos resultados obtidos. Resultados Após analise dos material de arquivo pesquisados, sendo estes compostos por radiografias ortopantomográficas e fotos intra-orais de 3000 pacientes, foram excluídos desta pesquisa 63 (2,1%) arquivos de pacientes, pois estes apresentavam ausência de todos os elementos dentários e/ou distorção das imagens impedindo sua utilização nesta pesquisa, restando 2.937 (97,9%) arquivos, que foram utilizados nesta pesquisa. Desses 2.937 arquivos, foi observada a presença de dentes supranumerários em 40 arquivos. Foram encontrados 61 dentes supranumerários, sendo 27 (44,26%) no gênero masculino e, 34 (55,74%) no gênero feminino. A faixa etária variou de 09 a 68 anos de idade, sendo a média de 26 anos. sos (24,49%), 13 casos (21,31%) na de pré-molares inferiores, seis casos (9,83%) na de pré-maxilar, três casos (4,91%) na de pré-molares superiores, três casos (4,91%) na de pré-mandibular e, com 02 casos (3,28%) na linha média maxilar (Gráfico 03). Gráfico 03 - Prevalência de dentes supranumerários encontrados de acordo com a região de incidência nas arcadas dentárias. Segundo a forma habitual dos dentes e sua disposição na arcada dentária, os supranumerários foram encontrados nos achados radiográficos e classificados em 18 casos (29,51%) como quartos molares, 16 casos (26,23%) como pré-molares supranumerários, 15 casos (24,59%) como molares, 5 casos (8,19%) como caninos, 6 casos (9,84%) como incisivos e 1 caso (1,64%) como quinto molar (Gráfico 04). Gráfico 01 - Prevalência de dentes supranumerários presentes em cada uma das hemi-arcadas dentárias. A forma mais frequente dos supranumerários foi a suplementar com 30 casos (49,18%), seguida da cônica em 15 casos (24,59%), odontoma em 14 casos (22,95%) e, sob o formato tubercular em dois casos (3,28%) (Gráfico 02). Gráfico 04 - Prevalência de dentes supranumerários de acordo com a forma habitual dos dentes e disposição na arcada dentária. Discussão Gráfico 02 - Prevalência de dentes supranumerários encontrados de acordo com a forma. A região com maior prevalência foi a de molares inferiores com 19 casos (31,15%) encontrados, seguido da região de molares superiores com 15 ca- Os dentes supranumerários representam uma importante causa da retenção dental e, a necessidade de um diagnóstico precoce pelos profissionais é de extrema importância. Assim, a realização de exames radiográficos panorâmicos da face e outros exames de imagens devem ser solicitados, quando o irrompimento de um ou mais dentes estiver cronologicamente alterado ou a historia médica odontológica indicar33. Autores indicam a necessidade da REVISTA BRASILEIRA DE CIRURGIA BUCO-MAXILO-FACIAL V10 N1 P. 23 - 32 Recebido em 19/11/08 Aprovado em 02/03/10 Em 60 casos (98,36%) os supranumerários encontravam-se retidos e, apenas um caso (1,64%) achou-se irrompido na cavidade bucal. Dentre as arcadas dentárias, aquela que mais apresentou a prevalência de supranumerários foi a mandíbula com 35 casos (57,38%) e, em 26 casos (42,62%) na maxila. O hemiarco inferior direito com 21 casos (34,43%) foi onde ocorreu a maior prevalência de supranumerários, seguido do hemiarco superior esquerdo com 15 casos (24,59%), hemiarco inferior esquerdo com 14 casos (22,95%), hemiarco superior direito com nove casos (14,75%) e, na linha média superior foram observados dois casos (3,28%) (Gráfico 01). 27 Prevalência de dentes Supranumerários no Município de Curitiba,Paraná, Brasil e suas posições no Arco Dental pelo Exame 3000 Ortopantomografias | Soares et al. 28 realização de exames panorâmicos periódicos em crianças a partir dos seis anos de idade3, 41, enquanto que outros afirmam da necessidade eminente da realização de tomografia computadorizada nos casos de supranumerários para elucidar o diagnóstico, plano de tratamento e a conduta50. No presente trabalho a maioria dos casos foi diagnosticado somente com exames radiográficos, comprovando que este tipo de exame pode ser suficiente para detecção dos supranumerários, devendo-se ressaltar que não se deva irradiar um paciente sem critérios prévios. Em alguns casos há necessidade de se realizar um exame de tomografia computadorizada para verificar sua posição precisa, além, também, da proximidade com estruturas nobres. A incidência da presença de dentes supranumerários na arcada dental é bastante variada, tendo sido avaliados 48.550 pacientes, observando-se uma incidência variando de 0,8 a 3,3%7. Essa frequência foi, também, avaliada em 848 pacientes, relatando-se uma incidência de 6,4%26. Numa pesquisa de arquivo de 1991 a 2003, foi também avaliada a frequência de supranumerários em 36.057 pacientes, onde se constatou a incidência de 0,5 a 3,8%36. Essa pesquisa verificou uma incidência de 1,36%, dentre as 3000 ortopantomografias observadas, estando somente em desacordo com as pesquisas realizadas no sul do país33. Quanto ao número de supranumerários em cada paciente há concordância entre os autores, sendo que em 68,6% dos casos o dente supranumerário apresentava-se isoladamente e, em 31,4% apresentava mais de um elemento supranumerário26. Em outro estudo pode-se observar que em 72,4% haviam casos isolados e, em 27,6% havia mais de um supranumerário33. Na atual pesquisa os achados concordam com os achados da literatura, onde foi observada maior prevalência de apenas um caso de supranumerário por paciente, onde as taxas do atual trabalho igualam-se aos achados36, com 77,5% de incidência de apenas um dentre supranumerário e, com 22,5% com mais de um elemento dental por paciente. Em relação ao gênero, houve concordância quanto aos resultados obtidos neste trabalho com os demais estudados. A literatura relata uma leve predi- leção do gênero masculino24, 33, 34, que também foi observado nesta pesquisa, com uma incidência de 1,52% para o gênero masculino e 1,24% para o gênero feminino. Os resultados da presente pesquisa concordam com os achados da literatura, onde se observa que os supranumerários apresentam-se em sua maioria retidos (80%)16, 17, enquanto outra divulgação afirma que em 98,4% dos casos de supranumerários ocorria o fenômeno da retenção33. Neste estudo foi observada a incidência de 98,36% de supranumerários retidos. Num estudo com 48.550 adultos realizado na Filadélfia, foi constatada a presença de 500 supranumerários, sendo que 90% destes estavam presentes na maxila26. Em Tókio foram incluídos numa pesquisa 480 pacientes, sendo constatada a incidência de 85,3% dos supranumerários presentes na maxila16. Em Birmingham um estudo longitudinal 90% dos supranumerários encontravam-se na região da maxila17. Em Porto Alegre também foi realizado um estudo com 848 pacientes, sendo constatada a incidência de 85,9% dos supranumerários na maxila33. Contrariando estes achados, na atual pesquisa observouse uma incidência de supranumerários na região maxilar (57,38%) e, uma possível explicação para esta discordância talvez seja por todos os trabalhos acima citados pertencerem a entidades de estudos, onde há uma concentração de pacientes para disciplina de Cirurgia Bucal. Na sua maioria os dentes supranumerários que mais apareceram foram os mesiodens e, como este trabalho foi realizado com material de arquivo de uma clinica de radiologia, provavelmente estes dentes poderiam já haver sido extraídos. A prevalência de supranumerários descrita na literatura cientifica odontológica, afirma que os dentes com maior incidência são os mesio-dens7, 24, 26, 27, 29, 34 porém no atual estudo foram observados os quartos molares em maior número. A classificação da forma dos dentes supranumerários varia conforme o autor, não havendo uma unanimidade quanto a uma classificação que se poderia dizer universal38. Os supranumerários foram classificados em mesiodens (com uma incidência de 53,7%), suplementares (27,5%), cônicos (10,4%) e heterotópicos (8,4%)7. Por outro lado os supranumerários apresentaram-se na forma de conóides (cônicos e Conclusões Com base nos resultados, pode-se concluir que: 1. A incidência de pacientes com dentes supranumerários foi de 40 casos (1,33%), dentre as 3000 ortopantomografias avaliadas. 2. A incidência de dentes supranumerários foi de 61 dentes. 3. A região mais acometida pela presença de supranumerários foi a de molares inferiores (31,15%), seguida de molares superiores (24,49%), pré-molares inferiores (21,31%), pré-maxilares (9,83%), pré-molares superiores (4,92%), pré-mandibulares (4,92%) e, na linha média maxilar (3,27%), respectivamente. Referências 1. Souza JG. Dentes supranumerários. Rev Paul Odontol 1997; 2(6):91-6. 2. Marzola C. Fundamentos de Cirurgia e Traumatologia Buco Maxilo Facial. Bauru: Ed. Independente, 2005. 3. Amaral MAT, Santos MEO. Maloclusão causada por dentes extranumerários – relato de caso clínico. Rev Bras Odontol 1996; 53(1):2-4. 4. Campos LM, Silva SREP, Imparato JCP, Pinheiro SL. Dente supranumerário rudimentar: relato de caso clínico. JBC J Bras Clin Odontol Int 2002;6(32):129-32. 5. Contador RJ, Machado JAC, Acetoze PA. Considerações sobre dentes supranumerários. Rev Farm Odont 1975; 42(414):9-15. 7. Langland DE, Langlais RP. Princípios do diagnóstico por imagem em odontologia. São Paulo: Ed. Santos, 2002. 8. King NM. Multiple supernumerary premolars: their occurrence in three patients. Aust Dent J 1993; 38(1):11-6. 9. Silva PJ, Silva AEOB. Pré-molares inferiores supranumerários. Odontólogo Moderno 1985; 12(2):39. 10. Atterbury RA, Vazirani SJ. Multiple Impacted unerupted supernumerary teeth. Oral Surg. 1958; 11(2):141-5. 4. A retenção ocorreu em 60 casos (98,36%) e, em apenas 01 caso observou-se o supranumerário irrompido (1,64%). 11. Milles AEW. Malformation of teeth. Proc Royal Soc Med 1954; 47:817-26. 5. A forma mais encontrada foi a suplementar, seguida da cônica, do odontoma e da tubercular, respectivamente. 12. Weber FN. Supernumerary teeth. J Amer Dent Assoc 1964; 20(4):509-17. 6. A faixa etária variou de 09 a 68 anos de idade, sendo a média de 26 anos. 7. O gênero mais acometido foi o feminino com 34 (55,74%) casos, sendo que no masculino foram vistos 27 (44,26%) casos. 13. Proffit WR, Sarver DM, White RPJ. Contemporary treatment of dentofacial deformity. St. Louis: Ed. C. V. Mosby, 2003. 14. Marzola C. Autotransplantes de germes dentais – estudo clínico e radiográfico de 69 casos. Rev Bras Odontol 1969; 26:48-60. REVISTA BRASILEIRA DE CIRURGIA BUCO-MAXILO-FACIAL V10 N1 P. 23 - 32 Recebido em 19/11/08 Aprovado em 02/03/10 unirradiculares) e multirradiculares (sem formato regular, geralmente multicuspídeos e odontoma) e, os conóides apresentaram 90,6% de incidência, enquanto os multirradiculares tiveram a incidência de 9,4%33. Uma classificação mais detalhada foi apresentada baseando-se na forma destes dentes, sendo divididos em cônicos (com uma incidência de 35,7%), suplementares (34,9%), odontomas (25,2%) e tuberculares (4,11%)24. Outra classificação sugerida e sua respectiva incidência, em cônicos (60%), eumórficos (24,2%), molariformes (13,7%) e odontomas (2,1%)34. Dentre as varias classificações, embora a maioria delas venha apresentar muitas semelhanças, foi optado nesta pesquisa adotar-se uma classificação para o estudo final22, sendo que a maior incidência neste trabalho ocorreu entre os suplementares (49,18%), seguido dos cônicos (24,59%), odontomas (22,95%) e, os tuberculares (3,28%). 29 15. Marzola C. Transplantes e reimplantes. 2a ed. São Paulo: Ed. Pancast, 1997. 27. Escoda CG, Aytés LB. Cirurgia bucal. Madrid: Ergon. 1999. 16. Timocin N, Yalcin S, Ozgen M, Tanyeri H Supernumerary molars and paramolars. J Nihon Univ Asch Dent 1994 jun; 36(2):145-50. 28. Kokten G, Balcioglu H, Buyukertan M. Supernumerary fourth and fifth molars: a report of two cases. J Contemp Dent Pract 2003; 4:67-76. 17. Zhu J, Marcushamer M, King D, Henry RJ. Supernumerary and congenitally absent teeth: a literature review. J Clin Pediatr Dent 1996 Winter; 20(2):87-95. 29. Neville BW. Oral & maxillofacial pathology. 2a ed. Rio de Janeiro: Guanabara / Koogan, 2002. Prevalência de dentes Supranumerários no Município de Curitiba,Paraná, Brasil e suas posições no Arco Dental pelo Exame 3000 Ortopantomografias | Soares et al. 18. Kayalibay H. The treatment of a fusion between the maxillary central incisor and supernumerary tooth: report of a case. J Clin Pediatr Dent 1996; 20(3):237-40. 30 19. Trotman C. Four maxillary incisors: a case report. Special Care Dentistry 1994; 14(3):112-5. 20. Mason C, Azam N, Holt RD. A retrospective study of unerupted maxillary incisors associates with supernumerary teeth. Br J Maxillofac Surg. 2000;38(3):62-5. 21. Chadwick SM. Late development of supernumerary teeth: a report of two cases. Int J Pediatr Dent. 1993; 3(10):205-10. 22. Rajab LD, Hamdan MAM. Supernumerary teeth: review of the literature and a survey of 152 cases. Int J Pediatr Dent. 2002; 12:244-54. 23. McDonald RE, Avery DR. Odontopediatria. 5a ed. Rio de Janeiro: Guanabara / Koogan, 1991. 23. Anil S. Mandibulofacial disostosis: case report. Aust Dent J 1955; 40(1):39-42. 24. Stafne EC. Supernumerary teeth. Dent Cosmos 1932; 74(7)653-9. 25. Koo S, Salvador PS, Ciuffi Júnior J, Silva Júnior AR. Bilateral maxillary fourth molars a supernumerary tooth in maxillary canine region: a case report. South African Dent J 2002 oct; 57(10):404-6. 26. Ehsan D, Tu HK, Camarata J. Mandibular supernumerary tooth causing neurosensory changes: a case report. J Oral Maxillofac Surg 2000; 58:1450-51. 30. Proff P, Fanghänel J, Allegrini S Jr, Bayerlein T, Gedrange T. Problems of supernumerary teeth, hyperdontia or dents supernumerary. Ann Anat 2005; 188:163-9. 31. Desai RS, Shah NP. Multiple supernumerary teeth in two brothers: a case report. J Oral Pathol. 1998; 27:411-13. 32. Williams P. An unusual case of hypodontia. Br Dent J 1998; 184:371-2. 33. Cunha Filho JJ, Puricelli E, Henniigen T, Leite MGT, Pereira MA. Ocorrência de dentes supranumerários em pacientes do serviço de cirurgia e traumatologia buco-maxilo facial, Faculdade de Odontologia da UFRGS, no período de 1998 a 2001. Rev Fac Odontol 2002 dez; 43(2):27-34. 34. Fernández Montenegro P, Valmaseda Castellón E, Berini Aytés L, Gay Escoda C. Retrospective study of 145 supernumerary teeth. Med Oral Pathol Oral Cir Bucal 2006; 11:339-44. 35. Segura JJ, Nez-Rubio AA concomitant hyperdontia: simultanes occurrence of a mesiodens and agenesis of a maxillary lateral incisor. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol 1998; 86(4):473-75. 36. Chevitarese ABA, Tavares CM, Primo L. Clinical complications associates with supernumerary teeth: report of two cases. J Clin Pediat Dent 2003; 28(1):27-31. 37. Oliveira LM, Primo LG, Barcelos R, Portela MB, Bastos EP. Radiographic diagnosis of supernumerary teeth: report of six unusual cases. ASDC J Dent Child 2002; may-aug; 69(6):175-9, 125. 39. Tommasi AF. Diagnóstico em patologia bucal. 3a ed. São Paulo: Pancast, 2002. 40. Lellis WR, Leite MC, Mariano R. C. Dentes supranumerários: prevalência de quatro dentes na região ântero-superior. Rev Ass Paul Cirurg Dent 1991; 45(3):501-2. 41. Puricelli E, Closs L, Berthold T. Incisivo central superior com desvio do eixo de erupção e dilacerado: recuperação cirúrgica-ortodôntica. Rev Fac Odontol 1991; 32(2):22-5. 42. Atkins Jr CO, Mourino AP. Management of a supernumerary tooth fused to a permanent maxillary central incisor. Oral Surg 1986; 61(2):146-8. 43. Hou GL, Tsai CC. Fusion of maxillary third and supernumerary and fourth molars: a case report. Aust Dent J 1989; 34(3):219-22. 44. Almeida RR, Martins CMBI, Ramos AL, Terada HH, Ribeiro R, Carreiro LS. Supranumerários – Implicações e Procedimentos Clínicos. Rev Dent Press Ortod Ortop Max 1997; 2(6):91-108. 45. Stilwell KD, Coke JM. Bilateral fusion of the maxillary central incisors to supernumerary teeth: report of a case. J Am Dent Ass 1986; 112(1):624. 46. Urena A, Harfin J. Tratamento atípico, com supranumerarios: una problematica para pensar y resolver. Rev Sociedad Argentina Ortod 2001; 65(129):31-9. 47. Yamaoka M, Furusawa K, Okamoto S. Supernumerary impactions of the mandibular cuspids and bicuspids: a case report. Aust Dent J 1995; 40(1):34-5. 48. Marzola C. Técnica exodôntica. São Paulo: Ed. Pancast. 2000. 49. Garvey MT, Barry HJ, Blake M. Supernumerary teeth: an overview of classification, diagnosis and management. J Canad Dent Assoc 1999; 65(6):612-6. 50. Bertollo RM, Batista PS, Cançado RP, Oliveira HW, Gerhardt de Oliveira M. Dente supranumerário - tomografia computadorizada - método de localização: relato de caso clinico. Rev Odonto Ciência 2000; 15(30):97-109. Endereço para correspondência: Larissa Ramos Xavier Coutinho Nascimento Avenida Anita Nilo Peçanha n0.10 A São Francisco Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. CEP: 24360-210. E-mail: [email protected] REVISTA BRASILEIRA DE CIRURGIA BUCO-MAXILO-FACIAL V10 N1 P. 23 - 32 Recebido em 19/11/08 Aprovado em 02/03/10 38. Wuermann AH, Manson-Hing LR. Radiologia dentária. 3a ed. Rio de Janeiro: Guanabara / Koogan, 1977, cap. 7. 31