UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ RICARDO DE MATTOS RUSSO RAFAEL Barreiras na prevenção do câncer do colo uterino: uma análise mediada pelo Modelo de Crenças em Saúde e sob a perspectiva da Estratégia de Saúde da Família Rio de Janeiro 2009 2 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ RICARDO DE MATTOS RUSSO RAFAEL Barreiras na prevenção do câncer do colo uterino: uma análise mediada pelo Modelo de Crenças em Saúde e sob a perspectiva da Estratégia de Saúde da Família Dissertação apresentada à Universidade Estácio de Sá como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Saúde da Família. Orientadora: Profª Drª Anna Tereza Miranda Soares de Moura Rio de Janeiro 2009 3 4 Aos meus pais, Alberto Carlos Rafael de Oliveira e Maria Angélica de Mattos Rafael, pelo amor incondicional a mim dedicado todos esses anos; À minha avó e segunda mãe, Marly Tupacinunga de Mattos (em memória), por sua presença, mesmo que não física, em todos os momentos da minha vida; À Maria Clenice de Mattos Carvalho, tia, madrinha e amiga, por acreditar no meu potencial e me cobrir de carinho desde as épocas da infância; À Aline Pereira Ribeiro, namorada e futura esposa, por sua dedicação e companheirismo; Aos meus amigos e família, por constituírem minha base social e fazerem parte do meu cotidiano. 5 AGRADECIMENTOS À minha querida orientadora, professora Anna Tereza Miranda Soares de Moura, por seu compromisso e dedicação com o processo ensino-aprendizagem, tornando os conceitos e métodos científicos o mais simples possível; por seu carinho, vibração e amizade que tanto me auxiliaram nesta caminhada. Às professoras Claudia Leite Moraes e Adriana Cavalcanti de Aguiar, por seus sábios ensinamentos metodológicos que tanto me ajudaram na elaboração deste trabalho de pesquisa. À Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e ao Centro de Estudos e Pesquisas em Saúde Coletiva (CEPESC) por apoiarem financeiramente a realização deste Mestrado. Aos meus amigos-irmãos, Ana Patricia Martire, Caroline Moraes, Crissia Soares, Daniele Marinho, Ian Garcez, Janilson Pereira Torres Junior e Pedro Paulo Simões Salles, que muito me ajudaram tanto na construção e elaboração deste estudo, quanto me fazendo acreditar que existia vida após o mestrado. Aos meus amigos do mestrado, Ana Tereza Derraik Barbosa, Andrea Augusta de Castro, Dilma Cupti de Medeiros, Mônica Alegre de Lima Pinho, Sabrina Aquino e Tatiane Caldeira, pela oportunidade de convívio e pela troca de experiências. Vocês já fazem parte da minha história. À Professora Rogéria Maria Silva do Nascimento, coordenadora do curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Iguaçu, pela amizade e incentivo na realização deste mestrado. 6 À minha grande amiga e ex-coordenadora da Estratégia de Saúde da Família do município de Nova Iguaçu, Flavia Resende Marques, pelas várias vivências teóricas e práticas compartilhadas ao longo destes anos; e por compartilhar ao meu lado momentos de luta pelos ideais da Saúde Família neste município. Aos colegas, Acirléia Cortês, Amanda Lorena, Debora Mascarenhas, Fabíola Zumpiachi, Fernanda Pelegrini, Márcio Giammattey, Marisa Pimentel, Martha da Silva, Priscila Vicente e Viviane Teixeira, que dividiram grandes momentos na Coordenação da Atenção Básica de Nova Iguaçu e que sempre acolheram com muito carinho minha célebre frase: “Gente... tenho que ir! Preciso fazer minha dissertação!” A todos os colegas da minha eterna Unidade de Saúde da Família de Vila Tânia por serem incansáveis e partícipes nos principais momentos de realização deste trabalho e pelo companheirismo. Especial agradecimento aos Agentes Comunitários de Saúde Alexandre Caetano de Souza, Daiane dos Santos Duarte, Eliane da Silva Alexandrino, Francilei Rodrigues de Souza, Luisa Helena Carneiro Ribeiro, Monique Souza Moraes, Patricia Carvalho Sanches, Rosana da Silva Santos, Rosangela Aparecida de Souza; a Enfermeira Adriana Laporte e demais componentes da equipe pelo apoio incondicional na coleta de dados deste estudo. Aos meus caríssimos alunos pela compreensão e carinho mesmos nos dias de maior estresse por conta dos inúmeros afazeres da rotina de uma Pós-Graduação. Aos demais amigos e familiares que colaboraram direta ou indiretamente para a conclusão deste trabalho. 7 [...] Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar o autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz encontrar um oásis no recôndito da sua alma [...] Fernando Pessoa 8 RESUMO O objetivo deste estudo foi analisar os fatores impeditivos do acesso às práticas preventivas do câncer do colo uterino em mulheres residentes na área de cobertura da Estratégia de Saúde da Família (ESF) do município de Nova Iguaçu, RJ. Foi realizado um inquérito domiciliar com uma amostra de 281 mulheres com idade entre 20 e 59 anos residentes em área de cobertura da ESF. Para a avaliação do perfil de utilização dos serviços de rastreio do câncer do colo uterino foi utilizado o módulo de “Exames para detecção de câncer de colo de útero e mama e uso de hormônios” do Instituto Nacional do Câncer. Para avaliação das barreiras de acesso ao exame utilizou-se a versão em português do instrumento Champion´s Health Belief Model Scale. Observouse que 95,37% (IC 95%: 92,90 / 97,84) das entrevistadas já haviam realizado o exame alguma vez na vida. Apenas 33,80% (IC 95%: 28,24 / 39.37%) das mulheres não realizaram a colpocitologia no último ano. Medo com relação ao resultado (39,85%; IC 95%: 34,09 / 45,61) e ao profissional examinador (31,31%; IC 95%: 25,86 / 36,77), vergonha (39,85%; IC 95%: 34,09 / 45,61) e esquecimento (32,02%; IC95%: 26,53 / 37,51), foram as principais barreiras de acesso referidas pelas mulheres. A Saúde da Família de alguma forma já contempla a participação social nas abordagens preventivas, haja vista o perfil de utilização dos serviços de rastreio da doença na amostra estudada. Porém, ainda existe um grande percurso para o reconhecimento dos fatores impeditivos do acesso às práticas preventivas deste câncer. Acredita-se que através do entendimento destes fatores e da reordenação dos serviços pela Saúde da Família pode-se contribuir muito para modificar o atual panorama do câncer do colo do útero. Palavras-chave: Neoplasias do colo uterino, Prevenção, Saúde da Família 9 ABSTRACT The aim of this study was to analyze the factors impeding access to preventive practices of cervical cancer in women living in the area of coverage of the ESF from Nova Iguaçu, RJ. We conducted a household survey with a sample of 281 women aged between 20 and 59 years residing in the coverage area of the Family Health Strategy. For the evaluation of the profile of use of services from screening of cervical cancer has used the module "exams to detect cancer of the uterine cervix and breast and use of hormones" the National Cancer Institute. To evaluate the barriers to using the test version of the instrument in Portuguese Champion's Health Belief Model Scale. It was observed that 95.37% (CI 95%: 92.90 / 97.84) of respondents had performed the test ever in life. Only 33.80% (CI 95%: 28.24 / 39.37%) women did not have a Pap smear in the last year. Fear related to the result (39.85%; CI 95%: 34.09 / 45.61) and the professional examiner (31.31%; CI 95%: 25.86 / 36.77), shame (39.85%; CI 95%: 34.09 / 45.61) and forgetting (32.02%; CI 95%: 26.53 / 37.51) were the main barriers to access by those women. The Family Health somehow now includes social participation in preventive approaches, given the profile of use of the screening of the disease in the sample. However, there is still a great way to recognize the factors impeding the access of cancer preventive practices. It is believed that understanding these factors and reorganization of services for Family Health, can contribute much to change the current landscape of cancer of the cervix. Key words: Uterine cervical neoplasm, Prevention, Family Health. 10 LISTA DE TABELAS E FIGURAS Páginas Capítulo 2 Tabela 2.1: Descrição das perdas amostrais 64 Tabela 3.1: Correspondência entre os objetivos da pesquisa e os artigos científicos 70 Tabela 1: Perfil sócio-demográfico da amostra de mulheres residentes na área de cobertura da Estratégia de Saúde da Família, Nova Iguaçu, 2009 82 Tabela 2: Perfil ginecológico e obstétrico das mulheres residentes na área de cobertura da Estratégia de Saúde da Família, Nova Iguaçu, 2009 83 Tabela 3: Perfil de utilização da colpocitologia oncótica em mulheres residentes na área de cobertura da Estratégia de Saúde da Família, Nova Iguaçu, 2009 84 Figura 1: Descrição dos problemas pré-existentes que motivaram a busca pela colpocitologia oncótica em mulheres residentes na área de cobertura da Estratégia de Saúde da Família, Nova Iguaçu, 2009 85 Tabela 1: Perfil sócio-demográfico da amostra de mulheres residentes na área de cobertura da Estratégia de Saúde da Família, Nova Iguaçu, 2009 108 Tabela 2: Fatores que dificultam o acesso a colpocitologia oncótica em mulheres residentes na área de cobertura da ESF, Nova Iguaçu, 2009 109 Tabela 3: Fatores relacionados ao procedimento e as características dos serviços de saúde que dificultam o acesso a colpocitologia oncótica distribuídos nos diferentes subgrupos de mulheres residentes na área de cobertura da ESF, Nova Iguaçu, 2009 110 Tabela 4: Barreiras de acesso à colpocitologia oncótica relacionadas à dinâmica de vida das mulheres residentes na área de cobertura da ESF de Nova Iguaçu (2009) nos diferentes subgrupos estudados. 111 Capítulo 3 Artigo 1 Artigo 2 11 Capítulo 4 Tabela 4.1: Prevalência (%) dos resultados obtidos na escala de susceptibilidade do CHBMS em mulheres residentes na área de cobertura da ESF de Nova Iguaçu, 2009. 131 Tabela 4.2: Prevalência (%) dos resultados obtidos na escala de benefícios do CHBMS em mulheres residentes na área de cobertura da ESF de Nova Iguaçu, 2009. 132 Tabela 4.3: Prevalência (%) dos resultados obtidos na escala de gravidade do CHBMS em mulheres residentes na área de cobertura da ESF de Nova Iguaçu, 2009. 133 Tabela 4.4: Média dos resultados obtidos nas escalas do CHBMS nos diferentes subgrupos de mulheres residentes na área de cobertura da ESF de Nova Iguaçu, 2009. 134 Tabela 4.5: Média dos resultados obtidos nas escalas do CHBMS nos diferentes subgrupos de mulheres residentes na área de cobertura da ESF de Nova Iguaçu, 2009. 135 12 LISTA DE SIGLAS E ABREVIAÇÕES ACS: Agente Comunitário de Saúde APS: Atenção Primária à Saúde CHBMS: Champion´s Health Belief Model Scale CPS: Comportamento Preventivo de Saúde DAB: Departamento de Atenção Básica DATASUS: Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde EqSF: Equipes de Saúde da Família ESF: Estratégia de Saúde da Família HIV: Vírus da Imunodeficiência Humana HPV: Papiloma Vírus Humano IDH: Índice de Desenvolvimento Humano IMIP: Instituto Materno Infantil de Pernambuco INCA: Instituto Nacional do Câncer MCS: Modelo de Crenças em Saúde MS: Ministério da Saúde NOAS: Norma Operacional da Assistência à Saúde NOB: Norma Operacional Básica OMS: Organização Mundial da Saúde OPAS: Organização Pan-Americana de Saúde PAB: Piso de Atenção Básica PACS: Programa de Agentes Comunitários de Saúde PAISM: Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher PNAB: Política Nacional de Atenção Básica PNCCU: Programa Nacional de Combate ao Câncer do Colo Uterino 13 PROESF: Projeto de Expansão e Consolidação da Saúde da Família PS: Promoção da Saúde SIAB: Sistema de Informação em Atenção Básica SISCOLO: Sistema de Informações do Câncer do Colo do Útero SUS: Sistema Único de Saúde UBS: Unidades Básicas de Saúde URG: Unidades Regionais de Governo USF: Unidades de Saúde da Família 14 SUMÁRIO RESUMO......................................................................................................................... 8 ABSTRACT .................................................................................................................... 9 LISTA DE TABELAS E FIGURAS ........................................................................... 10 LISTA DE SIGLAS E ABREVIAÇÕES .................................................................... 12 APRESENTAÇÃO ....................................................................................................... 17 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................... 22 1.1 O câncer do colo do útero: definições e magnitude ........................................... 22 1.2 A promoção da saúde e a prevenção do câncer de colo do útero ..................... 25 1.2.1. A promoção da saúde e sua influência nos comportamentos preventivos ......... 25 1.2.2. Prevenção primária do câncer do colo uterino ................................................... 28 1.2.3 Prevenção secundária do câncer de cérvice-uterina ........................................... 32 1.3 Comportamentos Preventivos de Saúde ............................................................. 34 1.3.1 O Modelo de Crenças em Saúde (MCS) e suas influências na prevenção do câncer.. ............................................................................................................................ 34 1.3.2 O comportamento preventivo versus o acesso às práticas preventivas .............. 37 1.4 A ESF e a Política de Saúde da Mulher .............................................................. 44 1.4.1 Saúde da Família: um breve histórico e sua dinâmica de funcionamento .......... 44 1.4.2 A saúde da mulher como tema de interesse para a saúde pública no Brasil....... 50 1.5 Justificativa ........................................................................................................... 57 1.6 Objetivos da pesquisa ........................................................................................... 60 1.6.1 Objetivo geral .................................................................................................... 60 1.6.2 Objetivos específicos ......................................................................................... 60 15 2 PROCEDIMENTOS E MÉTODOS ................................................................... 62 2.1 Tipo de estudo ....................................................................................................... 62 2.3 Tamanho e seleção da amostra ............................................................................ 63 2.4 Trabalho de campo ............................................................................................... 64 2.5 Instrumentos de coleta de dados ......................................................................... 66 2.6 Análise dos dados .................................................................................................. 67 2.7 Aspectos éticos ...................................................................................................... 68 3 RESULTADOS ..................................................................................................... 70 3.1 Artigo 1: “Perfil de utilização dos serviços de rastreio do câncer do colo do útero na Estratégia de Saúde da Família de Nova Iguaçu (RJ)” ............................. 71 3.2 Artigo 2: “Barreiras na realização da colpocitologia oncótica: um inquérito domiciliar na área de abrangência da Estratégia de Saúde da Família de Nova Iguaçu, RJ” ................................................................................................................... 95 4 CONSIDERAÇÕES ADICIONAIS .................................................................. 123 4.1 A situação do rastreio do câncer do colo uterino na saúde pública de Nova Iguaçu .......................................................................................................................... 123 4.2 Resultados adicionais referentes ao inquérito domiciliar ............................... 125 4.2.1 Modelo de crenças: a susceptibilidade, a gravidade e os benefícios percebidos .................................................................................................................... 125 4.2.2 Média dos resultados obtidos nas escalas do CHBMS por subgrupos estudados ..................................................................................................................... 126 4.3 Considerações finais e desdobramentos futuros .............................................. 128 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 136 16 ANEXO 1: CADERNO DOS ENTREVISTADORES ............................................ 144 ANEXO 2: INSTRUMENTO DA PESQUISA ........................................................ 157 ANEXO 3: QUESTIONÁRIO INDIVIDUAL TIPO A (INCA)............................. 165 ANEXO 4: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ........ 170 ANEXO 5: ESTUDO ECOLÓGICO DA PREVENÇÃO SECUNDÁRIA DO CÂNCER DE COLO DO ÚTERO NA SAÚDE PÚBLICA DE NOVA IGUAÇU, RJ. ................................................................................................................................ 171 17 APRESENTAÇÃO O câncer de colo uterino corresponde a cerca de 15% de todos os tipos de neoplasias femininas, sendo o segundo câncer de maior freqüência em mulheres no mundo (MARTINS et al., 2005). Pode-se observar que a freqüência desta neoplasia está associada à forma de implantação e operacionalização dos programas de assistência e controle, evidenciando uma relação de redução da doença de acordo com o grau de desenvolvimento do local e a forma de implantação dos serviços de saúde. Comparada aos outros cânceres genitais, a neoplasia de colo uterino possui uma alta prevalência e uma considerável taxa bruta de mortalidade, mesmo existindo métodos capazes de reduzir a incidência e realizar captação precoce dos casos. Destacase que quanto mais longo for o período pré-clínico de uma neoplasia e mais elevada a taxa de prevalência, maiores serão as possibilidades de realização do rastreio precoce e controle da doença (SILVA et al., 2004). O Ministério da Saúde recomenda realização da colpocitologia oncótica como método de screening da doença (BRASIL, 2002d). O exame é considerado a medida mais adequada para rastreamento do câncer, sendo prático e de baixo custo. O mesmo consiste na coleta de amostras celulares do epitélio cervical e vaginal, possibilitando a identificação de lesões pré-neoplásicas (DAVIM et al., 2005). Por sua vez, a Estratégia de Saúde da Família (ESF) como modelo de reorganização da Atenção Primária a Saúde (APS) no Brasil, facilita a oferta e a captação das mulheres para o exame (OLIVEIRA et al., 2007). Neste contexto, o presente estudo tem como questão norteadora a seguunte: Por que algumas mulheres residentes em áreas cobertas pela ESF, não adotam práticas preventivas para o câncer do colo do útero? 18 Este questionamento surgiu durante alguns anos de atuação no campo da assistência em Saúde da Família e na coordenação da Atenção Básica do município de Nova Iguaçu. Durante este período, foi possível perceber que ações de captação das mulheres para a realização dos métodos de rastreio e prevenção do câncer do colo uterino não contemplavam em sua totalidade as questões de âmbito social e individual destas pacientes. Foi possível perceber que havia a necessidade de investigar algo além de questões biomédicas referentes ao câncer do colo uterino, algo que contemplasse os fatores motivacionais e impeditivos de realização do exame. Com o ingresso no Mestrado em Saúde da Família e o contato com os professores, foi possível perceber a necessidade de aprofundamento teórico em questões que iam além da prática clínica, surgindo então o recorte deste trabalho. Visando estruturar uma pesquisa que contemplasse colaborações e possíveis respostas para a indagação citada, este estudo integrou-se a linha de pesquisa de “Diagnósticos Locais e Cuidados Básicos em Saúde da Família”. Esta linha tem como objetivos diagnosticar as necessidades, demandas, utilização e satisfação da população em uso de cuidados básicos de saúde, a resolubilidade destas práticas e a multicausalidade do processo saúde e doença. Em conformidade com a linha de pesquisa descrita, este estudo, em particular, teve como finalidade analisar os fatores impeditivos do acesso às práticas preventivas do câncer do colo uterino em mulheres residentes na área de cobertura da ESF do município de Nova Iguaçu, RJ. A dissertação está dividida em cinco capítulos. O primeiro capítulo aborda a introdução, objetivos e justificativa do estudo, sendo subdivido em seis seções. A primeira seção discute a magnitude e a relevância do problema, apresentando as 19 definições do Ministério da Saúde para este câncer, os dados epidemiológicos e o impacto financeiro ocasionado pela doença. A segunda seção descreve a influência da promoção da saúde e dos comportamentos preventivos sobre o rastreio do câncer de colo uterino. São abordados os aspectos de prevenção primária, possíveis intervenções inespecíficas ao câncer do colo uterino e discutidos os fatores de risco. Destaca-se que o presente estudo não aborda a prevenção terciária do câncer do colo do útero, uma vez que este nível de intervenção não está inserido no escopo da Atenção Primária à Saúde e, em decorrência, desta pesquisa. A terceira seção destina-se a discussão sobre os Comportamentos Preventivos em Saúde, o Modelo de Crenças em Saúde e suas influências sobre a adoção de métodos preventivos. Pretende-se neste momento estabelecer momentos de discussão que vislumbrem alguns dos motivos que impedem as mulheres em realizar os exames de screening para o câncer do colo uterino. A quarta seção apresenta um breve histórico do desenvolvimento da Estratégia de Saúde da Família, elegendo como balizadoras a Constituição Federal de 1988 e a publicação da Política Nacional de Atenção Básica em 2006. Nesta seção realiza-se também uma breve discussão sobre o desenvolvimento da saúde da mulher sob o prisma das políticas públicas e as várias formas de abordagem deste grupo. Por fim, as duas últimas seções do capítulo introdutório são destinadas à apresentação dos objetivos e da justificativa do estudo. O segundo e terceiro capítulo da dissertação destinam-se a apresentar a metodologia e os resultados obtidos na realização deste estudo. Os resultados são apresentados em forma de dois artigos científicos. O primeiro artigo trata do perfil de 20 utilização dos serviços de rastreio do câncer do colo do útero em mulheres entre 20 e 59 anos de idade, residentes na área de adscrição da Estratégia de Saúde da Família. O segundo artigo contempla questões referentes aos motivos que impediam ou dificultavam estas mulheres de realizarem o exame colpocitológico. Outras informações relevantes estão dispostas no quarto capítulo da dissertação em forma de “Considerações Adicionais”. Por fim, o último capítulo trata das referências bibliográficas relacionadas ao corpo do trabalho. Destaca-se que ao término de cada artigo científico também consta sua própria lista de referências bibliográficas, porém formatadas segundo os requisitos de cada periódico ao qual serão submetidos. 21 CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO 22 1 INTRODUÇÃO 1.1 O câncer do colo do útero: definições e magnitude Segundo o Ministério da Saúde (MS), tumor maligno ou câncer é a denominação utilizada para um grupo de mais de 100 doenças que possuem em comum o crescimento desordenado de células, com poder infiltrativo e capacidade de produzir metástases (BRASIL, 2008c). Este grupo heterogêneo de patologias é decorrente de alterações na função dos genes que efetuam a regulação dos atos de proliferação e diferenciação (SCHWARTSMANN e MARTELETE, 2006). Atualmente, os cânceres integram as principais causas de mortalidade em adultos jovens no Brasil, configurando um importante problema de saúde pública (RAMOS et al., 2007). Acredita-se que 15 milhões de novos casos de neoplasia serão detectados ao ano, a partir de 2020, onde apenas 30% destas regiões possuem um sistema de saúde estruturado para o controle da doença (ROBERTO NETO et al., 2001). Em relação à população feminina, destacam-se os cânceres de colo uterino por suas elevadas taxas de incidência em várias regiões do país (BRASIL, 2002a; 2002b; KRIVAK et al., 2005; BRITO et al., 2007). Segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer – INCA (BRASIL, 2007c) para o ano de 2008, a taxa de incidência do câncer de colo uterino foi de 19,18/100.000 mulheres, sendo maior na região Sul (24/100.000), seguido das regiões Norte (22/100.000), Centro-Oeste (19/100.000), Nordeste e Sudeste (18/100.000). Uma das explicações para esta distribuição das taxas é o perfil sóciodemográfico das regiões. Acredita-se que áreas mais carentes possuam maior incidência da doença, devido a problemas referentes à estruturação da rede de serviços de saúde e, 23 conseqüentemente, da captação e tratamento precoce dos casos suspeitos da doença. Em contrapartida, as elevadas taxas na região Sul do país sugerem uma melhor captação e notificação dos casos da doença (NOVAES et al., 2006; PESSINI e SILVEIRA, 2006). Dentre as neoplasias malignas, o câncer de colo de útero representa a segunda mais importante causa de morte por câncer em mulheres brasileiras, superado apenas por neoplasias mamárias, com o coeficiente de mortalidade, em 2005, de 4,8 casos / 100.000 mulheres (BRASIL, 2007a). Esta patologia é considerada evitável devido ao seu longo período pré-clínico e as altas possibilidades de detecção precoce (BRASIL, 2000 ; ROBERTO NETO et al., 2001; KRIVAK et al., 2005; BRITO et al., 2007). No Brasil, observa-se um crescimento das taxas de mortalidade, como evidenciado por estudos do INCA: [...] Em 1979, a taxa [de mortalidade] era de 3,44/100.000, enquanto em 1998 era de 4,45/100.000, correspondendo a uma variação percentual relativa de 29% [...] (BRASIL, 2002b, p.10). Já para alguns autores, a mortalidade proporcional, no período de 2002 a 2004, foi de 4,71%, superada apenas nos estados das regiões nordeste, com 5,68%, e Sul, com 5,47%. Destaca-se, ainda, que a região sudeste possui uma mortalidade abaixo da média brasileira, porém ainda considerada alta, com 4,45%. Já, em relação à taxa de mortalidade segundo à localização primária do tumor, observa-se que o câncer de colo uterino ocupa o terceiro lugar em mortalidade por neoplasias na região Norte, devido à baixa razão do exame de detecção precoce em mulheres de 25 a 59 anos (BOING et al., 2007) A ocorrência desta patologia dificilmente é alta em mulheres com idade menor do que 30 anos, tendo pico geralmente entre 40 e 60 anos de idade (BRASIL, 2002b). A faixa etária com maior proporção de casos está entre 40 e 49 anos. Contudo, também existe grande distribuição nas faixas de 30 a 39 e 60 a 69 anos, sendo a idade média a de 24 52,2 anos (KRIVAK et al., 2005; PESSINI e SILVEIRA, 2006). Observa-se porém que a maioria dos exames de detecção são realizados em mulheres com faixa etária inferior a 35 anos. Assim, os grupos mais vulneráveis não se beneficiam com esta prática de detecção, corroborando para a detecção tardia do agravo e com a demora no início do tratamento adequado (INCA. 2002). Segundo o INCA, 70% das pacientes internadas estão em estágios avançados da doença, limitando as possibilidades terapêuticas e de cura (BRASIL, 2002f). No Brasil, no período de 2002 a 2004, foi observado que o tempo médio de permanência hospitalar devido ao câncer do colo uterino foi em torno de 4,7 dias, sendo este superior às internações por câncer de mama. Em relação ao valor gasto por internação, observa-se que o gasto com câncer de colo uterino também foi superior ao custeio com o câncer de mama (BOING et al., 2007). No entanto, os dados epidemiológicos referentes aos cânceres genitais na população feminina podem não estar corretos no Brasil devido a dois fatores principais: existência de sub-notificação e problemas de interpretação da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas de Saúde – CID-10. Apesar de ter sido estabelecido, em 1988, o sistema de Bethesda, versando sobre a classificação das alterações citológicas da cérvice-uterina, o Brasil durante muito tempo utilizou diversos sistemas para estas classificações, dificultando a realização de um diagnóstico sistematizado desta patologia (PESSINI e SILVEIRA, 2006). Somente em 2006 o Programa Nacional de Combate ao Câncer do Colo Uterino (PNCCU) estabeleceu critérios diagnósticos e de rastreio citológico, elegendo o exame de Papanicolaou como técnica única de rastreio, estando indicado de forma anual para as mulheres de 25 a 60 anos. Após dois resultados negativos, o exame precisa ser 25 realizado apenas a cada três anos (BRASIL, 2006b). Desta forma, com base em experiências exitosas dos programas de rastreio do câncer do colo uterino de países desenvolvidos, em que a doença chega a ocupar o sexto lugar em cânceres femininos (BRASIL, 2002b), evidencia-se a necessidade de maior investimento preventivo (BOING et al., 2007). 1.2 Promoção da saúde e prevenção do câncer de colo do útero 1.2.1. A promoção da saúde e sua influência nos comportamentos preventivos Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde – OPAS (OPAS, 2008a, p. 2), na produção da Carta de Ottawa, durante a I Conferência Internacional, em 1986, a Promoção da Saúde (PS) pode ser conceituada como um: [...] processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo. Para atingir um estado de completo bem-estar físico, mental e social os indivíduos e grupos devem saber identificar aspirações, satisfazer necessidades e modificar favoravelmente o meio ambiente. A saúde deve ser vista como um recurso para a vida, e não como objetivo de viver. Nesse sentido, a saúde é um conceito positivo, que enfatiza os recursos sociais e pessoais, bem como as capacidades físicas. Assim, a promoção da saúde não é responsabilidade exclusiva do setor saúde, e vai para além de um estilo de vida saudável, na direção de um bem-estar global. Neste contexto, entende-se PS como uma forma permanente de transformação na vida dos indivíduos, através de mudanças na maneira de articular e utilizar os conhecimentos na construção de práticas que visem ampliar o bem-estar, individualmente ou de forma coletiva, e sem se ater a uma patologia específica. O usuário do serviço passa a incorporar os conceitos e ações de saúde no em sua vida, adequando os seus hábitos diários e em co-responsabilidade aos profissionais do setor 26 saúde. Com isso, ao invés de realizar ações específicas de prevenção de uma única patologia, o indivíduo é conduzido à reflexão de sua práxis diária, colaborando para adoção de hábitos que levariam a melhoria de suas condições de vida e do meio que o cerca (CZERESNIA, 2003). Um dos focos para a PS é a equidade em saúde, através da adoção de ações e políticas que proporcionem a saúde da população de forma mais equânime. Os profissionais e demais grupos sociais deveriam atuar como mediadores entre os diferentes indivíduos e instituições partícipes do processo a fim de adequar os serviços de saúde para as necessidades e realidades locais (OPAS, 2008a). Na II Conferência Internacional sobre PS realizada em 1988 na Austrália, ocorreu à elaboração da Declaração de Adelaide e, por sua vez, a saúde é reafirmada como um direito social. Neste contexto, a participação comunitária e as práticas intersetoriais são eleitas como fundamentais para o desenvolvimento de ações em saúde. Dentre as áreas prioritárias deste documento, destaca-se a atenção à saúde da mulher, por entender que as mesmas participam ativamente da formulação e implementação da promoção da saúde de cada núcleo familiar em que se inserem. A referida declaração ainda recomenda acesso diferenciado e ampliado às informações e aos recursos do setor saúde para este gênero (OPAS, 2008b). Nas conferências subseqüentes sobre PS, este conceito foi sendo ampliado com novas propostas a fim de aumentar, cada vez mais, a resolutividade dos problemas de saúde da população. Dentre as estratégias sugeridas destacam-se as ações intersetoriais e integrais, de base territorial e com enfoque nas necessidades da população (TEIXEIRA, 2006). 27 Considerando que a saúde é um resultado da organização do trabalho, da produção e da sociedade inserida em um contexto histórico e cultural, as práticas direcionadas à prevenção são mais periféricas e pontuais do que as ações de promoção. A prevenção visa evitar alguma doença ou situação específica e, por isso, age sob um determinado foco, tendo dificuldade para conseguir modificar os determinantes mais amplos do processo saúde-doença (BRASIL, 2006d). A PS, por esta análise, já permeia as limitações sociais e extrapola a assistência à saúde sob o modelo biomédico, através de ações intersetoriais e de empoderamento da população. Com a disseminação e incorporação de práticas voltadas à PS, seria possível atingir um melhor desempenho no âmbito da atenção à saúde, principalmente no seu nível primário de assistência (FREITAS, 2003). Em paralelo ao modelo de PS, porém ainda necessários, estão os métodos de prevenção. Esta palavra tem origem no latim e denota sentido de vir antes e premeditar (BUENO, 2000). Por este prisma, prevenção pode ser conceituada como ações de caráter primário, secundário e terciário, que objetivam a redução da suscetibilidade de adoecimento e de seu aparecimento, detecção precoce das patologias, instituição de terapêutica adequada e redução da morbidade nos portadores da doença (SILVEIRA, 2003). Assim, as práticas preventivas necessitam ser constantemente estimuladas para que possam ser incorporadas pelos usuários. Para que estes processos transformadores idealizados e implementados na lógica da PS ocorram, faz-se necessária a adoção de práticas que levem a reflexão dos modelos comportamentais e que considerem a cultura e a realidade populacional, como no caso do câncer de colo uterino (PINHO e FRANÇA-JUNIOR, 2003). 28 1.2.2. Prevenção primária do câncer do colo uterino A prevenção primária engloba ações voltadas à redução de fatores de risco na população e, por sua vez, a incidência de câncer. Cerca de 80% dos casos de câncer podem ser relacionados a fatores ambientais, aumentando assim as possibilidades de prevenção, principalmente através da conscientização, mudança nos hábitos de vida e co-responsabilização da população. Para isso é necessário que ocorra uma mobilização e articulação dos profissionais que compõem as equipes de saúde e demais setores sociais envolvidos nestas ações, para que o conhecimento destas mudanças possa ser disseminado principalmente para os grupos de maior vulnerabilidade (BRASIL, 2002a; 2002b; FIGUEIREDO, 2005). As ações de prevenção primária consideradas inespecíficas para o câncer do colo uterino versam sobre o envolvimento de situações de risco presentes em diversas outras neoplasias e, por isso, são de extrema relevância para a prática em saúde pública. Dentre elas se destacam as ações para o controle do tabagismo, dietas hipolipídicas, uso racional de medicamentos, proteção da exposição a agentes carcinogênicos e agentes infecciosos e parasitários (BRASIL, 2002a). Já as ações de prevenção específica são aquelas que visam intervir diretamente nos fatores de risco envolvidos em determinada doença (BRASIL, 2002a; FIGUEIREDO, 2005). Muitos autores afirmam que em 80 a 90% dos casos os fatores de risco envolvidos no câncer do colo uterino são externos aos aspectos genéticos, tais como: a vulnerabilidade social, a pluralidade de parceiros sexuais, as doenças sexualmente transmissíveis, a precocidade do início da atividade sexual, a multiparidade, o tabagismo, algumas carências nutricionais e o uso de anticoncepcionais (DAVIM et al., 2005; KRIVAK et al., 2005; GREENWOOD et al., 2006; BRITO et al., 29 2007). Por isso, tais aspectos são merecedores de maiores estudos e propostas de intervenção a fim de reduzir a morbimortalidade da patologia. Neste contexto, os aspectos de vulnerabilidade social continuam sendo fatores de risco importantes para a incidência e a mortalidade por este tipo de câncer, devido a questões tais como: a dificuldade de acesso as técnicas de rastreio e detecção precoce, as mazelas econômicas e os aspectos culturais, como medo e preconceito em relação às abordagens ginecológicas. Os autores também apontam para a existência de maior incidência em zonas urbanas do que nas rurais, bem como é evidente a maior freqüência nos países em desenvolvimento do que em regiões mais desenvolvidas (PESSINI e SILVEIRA, 2006). Em um estudo transversal realizado com 1.482 mulheres de 20 a 59 anos de idade, residentes na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, observa-se que o exame de rastreio de câncer de cérvice uterina é menos realizado em mulheres com baixo nível socioeconômico e pouca escolaridade, bem como naquelas sem companheiro (HACKENHAAR et al., 2006). Os autores ainda afirmam que: [...] O percentual de usuárias que não sabia o resultado de seus exames aumentava conforme diminuía a escolaridade: a proporção foi cerca de três vezes maior entre aquelas com até quatro anos de escolaridade em relação a mulheres com doze anos ou mais de escolaridade [...] (HACKENHAAR et al., 2006, p. 107 - 108) Sugere-se que mulheres entre 40 e 60 anos, negras, de pouca escolaridade e baixo nível socioeconômico tenham maiores chances de desenvolver a doença, denotando a dificuldade de acesso ao exame e a deficiência nas estratégias de captação desta população (MARTINS et al., 2005). 30 Fatores como o início precoce das atividades sexuais e da primeira gravidez, bem como a pluralidade de parceiros sexuais estão intimamente relacionados ao aumento de risco para infecções como a do Herpes Vírus e do Papiloma Vírus Humano (HPV), elevando as possibilidades de desenvolvimento do câncer do colo uterino. O início precoce das atividades sexuais e da gravidez podem ser considerados fatores de risco devido à intensificação da metaplasia, que ocorre na adolescência. A multiplicidade de parceiros aumenta a possibilidade de infecção por doenças de transmissibilidade sexual, em especial a infecção pelo HPV, considerado co-fator na gênese dos cânceres cervicais, em especial o escamoso e sendo identificado em 99% dos casos câncer do colo uterino (KRIVAK et al., 2005; PESSINI e SILVEIRA, 2006). A prevalência do vírus na população feminina, em geral, é alta e a elevação coincide com a disseminação da contracepção por hormônios orais e redução dos métodos contraceptivos de barreira, ocorrida a partir de 1960 (BRASIL, 2002d). Um estudo realizado na década de oitenta revelou que jovens antes dos 17 anos com apenas um parceiro sexual apresentaram risco relativo para esta neoplasia de apenas 1,55, crescendo para 7,53 se tivesse seis ou mais parceiros (ALEIXO NETO, 1991). A associação da infecção do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) com lesões pré-neoplásicas e co-infecção com HPV também vem aumentando as possibilidades de neoplasias malignas neste grupo de pacientes. Nas pacientes HIV soropositivas, as alterações pré-neoplásicas são mais freqüentes e recorrentes, bem como possuem evolução mais rápida e com pior resposta ao tratamento padrão. Essa agressividade da doença se dá pela maior possibilidade de infecção de genótipos de alto risco do HPV (MELO et al., 2003). 31 Os anticoncepcionais hormonais orais também podem ser considerados como um fator de risco para o câncer do colo uterino, pois ocasionam deficiência de folato no colo uterino (PESSINI e SILVEIRA, 2006) e para a infecção por HPV (MURTA et al., 1997), devido à tendência a não utilização de preservativos. Contudo, salienta-se que não existe comprovação desta afirmação, havendo necessidade de aprofundamento das pesquisas (KRIVAK et al., 2005). Outro fator que vem sendo apontado como de alta relevância para o desenvolvimento deste câncer é o tabagismo. O fumo aumenta a possibilidade de secreção de substâncias mutagênicas no muco cervical, ocasionando alterações no DNA deste epitélio. Neste estudo, os autores demonstram um risco relativo no desenvolvimento de neoplasias de colo uterino maior para as mulheres fumantes (PESSINI e SILVEIRA, 2006). Alguns autores ainda apontam que o comportamento em relação à dieta pode estar associado à redução do câncer, principalmente alimentos ricos em vitamina A e C, podendo reduzir os riscos de lesão intra-epitelial e câncer de colo uterino (BRASIL, 2002b; ROSS, 2003). Segundo Ross (2003), inúmeras pesquisas apontaram os fatores benéficos da vitamina A e retinóides para a redução dos riscos do câncer. Porém, a intolerância a longo prazo deste macromineral acaba por dificultar a análise e comprovação desta hipótese, sendo necessária a intensificação de pesquisas que comprovem estas afirmativas. O uso de outras vitaminas e minerais estudados não se mostrou significativo no controle desta patologia (BRASIL, 2002b). 32 1.2.3 Prevenção secundária do câncer de cérvice-uterina A prevenção secundária é entendida como sendo toda e qualquer ação que abranja práticas de diagnóstico precoce e instituição de terapêutica imediata a fim de aumentar a possibilidade de cura, reduzir a mortalidade e aumentar a qualidade de vida e sobrevida das mulheres portadoras da patologia. Dentre os meios utilizados para este tipo de prevenção destacam-se as técnicas de rastreio e detecção precoce das neoplasias (BRASIL, 2002a; 2002b; FIGUEIREDO, 2005) O rastreamento ou screening é definido por um exame cuja finalidade é a detecção precoce dos casos de uma dada doença, ofertado a todos os indivíduos vulneráveis a ela (BRASIL, 2002a; 2002b; SALUD), 2007). No tocante a prevenção do câncer de colo uterino, o exame eleito para realização do rastreio da doença é a colpocitologia oncótica, que consiste [...] na análise das células oriundas da ectocérvice e que são extraídas com raspagem do colo de útero (BRITO et al., 2007, p. 388). Este método, apesar dos avanços tecnológicos na área, continua sendo considerado o mais eficaz, como destacados em alguns estudos temporais que demonstram a redução da doença após a introdução dos programas de rastreio, bem como em estudos, que evidenciam risco aumentado em mulheres que nunca realizaram o exame (MARTINS et al., 2005). As altas taxas de prevalência e a lenta evolução da doença justificam os gastos com técnicas de detecção precoce, como nos casos de neoplasias de cérvice uterina, ou seja, como a doença possui um longo período pré-clínico, o que facilita a captação das mulheres para o exame, e uma alta possibilidade de cura, justifica-se o custo-benefícioefetividade destes procedimentos (MARTINS et al., 2005). A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os programas de controle do câncer do colo uterino 33 objetivem a coleta de amostras de células cervicais na faixa etária de 25 a 49 anos, com ênfase no período de 35 a 49 anos, por ser a fase de maior risco da neoplasia (SALUD), 2007). No entanto, o que tem se observado é que as mulheres, principalmente na faixa etária acima de 35 anos, não realizam o exame com regularidade, estando a procura pelo serviço geralmente relacionada à existência de queixas ginecológicas (SILVA et al., 2004). Para Brito (2007): A realização da citologia oncótica nas unidades de saúde tem mostrado que a mulher como sujeito social, com valores próprios e sentimentos singulares, ainda tem sido vista pelo sistema de saúde como um ser passivo, com pouco poder de decisão sobre seu corpo, sadio ou doente. O abandono ao tratamento do câncer do colo de útero é significativo e pode ser uma das respostas que as mulheres têm dado ao mau atendimento, tanto por precariedade técnica e de competência, como por relações extremamente autoritárias exercidas sobre elas (BRITO et al., 2007, p. 388). A percepção e a consideração dos valores e crenças das mulheres que serão submetidas a estas práticas também permitem favorecer o rastreio, uma vez que tornam estas usuárias partícipes do seu processo saúde-doença (MINAYO, 1993; SILVEIRA, 2003). Por esta perspectiva, a detecção precoce dos casos de câncer do colo uterino deve ser realizada conjugando a captação oportunística e a programada. Entende-se por captação oportunística a identificação das usuárias que se enquadrem nos critérios de elegibilidade do exame de rastreio, porém que estejam na unidade de saúde para qualquer outro fim, visando o aumento da sensibilização e da captação das pacientes que por ventura não estejam realizando a prática (BRASIL, 2002c; 2002d). Por outro lado, o rastreamento organizado ou sistematizado, utilizado em países desenvolvidos, é mais eficaz do que o oportunístico/espontâneo, disseminados em países em desenvolvimento. Destaca-se que a política desenvolvida pelo INCA contempla o rastreio sistematizado, porém em algumas regiões do país a captação oportunística ainda 34 prevalece como método de escolha, provocando uma dissociação entre o planejamento do nível central e a prática cotidiana. (SILVA et al., 2004; SALUD), 2007). A OMS ainda recomenda que os programas de rastreio e detecção precoce das neoplasias do colo uterino não devem desperdiçar nenhuma oportunidade de realização do exame. Os programas devem ser providos de mecanismos de captação e busca ativa nos casos em que as mulheres não acessarem o serviço (SALUD), 2007). Com isso, acredita-se que a o monitoramento das famílias através de práticas de vigilância em saúde e a promoção do vínculo entre a comunidade e as unidades de saúde possibilite melhores resultados no controle da doença. É de suma importância destacar que esta estratégia somente trará resultados efetivos caso os sistemas de referência e contrareferência dos municípios também estejam definidos e articulados, visto que, no que tange a práticas de prevenção, a Atenção Primária à Saúde (APS) se propõe somente atividades de prevenção primária e secundária (SILVA et al., 2004; BRASIL, 2006c). 1.3 Comportamentos Preventivos de Saúde 1.3.1 O Modelo de Crenças em Saúde (MCS) e suas influências na prevenção do câncer O Comportamento de Saúde pode ser definido como o conjunto de atividades e hábitos adotados por indivíduo que visem a cura, a melhoria ou a manutenção da saúde (RODRIGUES et al., 2005). Nesta perspectiva, o Comportamento Preventivo de Saúde (CPS) é entendido como uma ação realizada por um indivíduo com o objetivo de evitar ou detectar uma doença em período assintomático (SANTOS, 2008). 35 As teorias que versam sobre estes comportamentos podem ser classificadas de acordo com o nível de influência, a saber: comunitário, interpessoal e individual. As teorias de âmbito comunitário são aquelas tratam de questões coletivas e institucionais, considerando os aspectos históricos e culturais de uma determinada comunidade. As teorias de nível interpessoal versam sobre as relações existentes entre os núcleos sociais e que podem influenciar no CPS. Já as teorias de nível individual estudam os fatores intrapessoais e pré-existentes que influenciam no comportamento de um indivíduo, tais como suas crenças, atitudes, motivação, personalidade e experiências passadas (NATIONAL_CANCER_INSTITUTE, 2005; SANTOS, 2008). Dentre as teorias de âmbito individual destaca-se o MCS, originalmente denominado de Health Belief Model, por ter sido uma das primeiras teorias que versam sobre os comportamentos de saúde. Este modelo foi desenvolvido por uma equipe de psicólogos norte-americanos, no início da década de 50, com o intuito de estudar os motivos que levavam certos grupos populacionais a não adotarem comportamentos preventivos para doenças cuja prevenção já havia sido estudada e que, em certos casos, era amplamente oferecida à população. O MCS desenvolvido por Rosenstock é baseado na percepção do paciente sob quatro variáveis capazes de influenciar sobre a escolha de comportamentos preventivos: a suscetibilidade, a gravidade, os benefícios e as barreiras (CARVALHO, 1996; COLETA, 2003; NATIONAL_CANCER_INSTITUTE, 2005; FUGITA e GUALDA, 2006; SANTOS, 2008). A suscetibilidade refere-se à percepção que o indivíduo possui em relação ao risco ou sua vulnerabilidade para contrair uma determinada doença. Esta forma de perceber-se em risco pode influenciar a adoção de comportamentos preventivos de forma positiva ou não. Além disso, a suscetibilidade pode intervir diretamente na 36 capacidade do paciente em aceitar um diagnóstico, já que o mesmo pode ou não perceber-se doente, ou ainda em sua re-suscetibilidade, em caso de já ter adquirido a patologia alguma vez (CARVALHO, 1996; FUGITA e GUALDA, 2006; SANTOS, 2008). Alguns fatores podem interferir nesta sensação do paciente em estar doente, tais como as atitudes, idéias e falsas crenças a respeito do câncer, bem como a falta de conscientização da comunidade a cerca da doença. Em muitos lugares a doença é ignorada pelo poder público e, por sua vez, pela população (SALUD), 2007) Outra variável percebida pelo paciente é a gravidade atribuída à doença, uma vez que permite avaliar o grau de perturbação emocional, familiar ou social que determinada doença pode ocasionar no indivíduo (CARVALHO, 1996; COLETA, 2003; SANTOS, 2008). Os sentimentos produzidos pela gravidade de uma doença permitem que o paciente avalie as conseqüências de adotar ou não um comportamento preventivo ou uma terapêutica curativa. Por fim, a partir destas sensações o usuário pode fazer a opção de participar ativamente ou não do seu processo de saúde-doença (FUGITA e GUALDA, 2006). A associação da suscetibilidade e da gravidade percebidas pelo paciente gera ameaças que irão determinar o grau de atenção que será adotado à doença, auxiliando a determinar a adesão de tratamentos preventivos ou, até mesmo, curativos. Quanto ao câncer, a possibilidade de cura ou complicações decorrentes do tratamento pode influenciar de maneira positiva ou não no momento de adotar uma prática de prevenção. Destaca-se que o conhecimento o qual o indivíduo possui sobre um determinado agravo exercerá influência direta na percepção da sua suscetibilidade e da severidade da doença (FUGITA e GUALDA, 2006). 37 Os benefícios percebidos pelos indivíduos são relativos às crenças na eficiência e eficácia do método em questão, seja ele preventivo ou curativo/reabilitador. A suscetibilidade e severidade percebidas podem atuar como motivadores da busca pela prevenção ou cura, porém o que determina esta ação é a percepção dos benefícios que serão ocasionados por ela. Já as barreiras percebidas referem-se aos aspectos que impedem ou dificultam a adoção de determinada prática de saúde. Destaca-se que estas barreiras vão além de questões físicas e estruturais, como agenda do profissional, distância dos serviços, fila de espera, etc. Somam-se a estas questões relacionadas aos serviços e sistemas de saúde características próprias do paciente e do profissional. Neste aspecto, o indivíduo avalia o custo-benefício da ação antes de adotá-la (CARVALHO, 1996; COLETA, 2003; FUGITA e GUALDA, 2006; SANTOS, 2008). A forma que as equipes de saúde irão programar suas ações deverá levar em consideração as crenças e percepções dos indivíduos sobre o ato pretendido. Com isso, os planejamentos dos serviços de saúde deverão considerar a percepção sobre a suscetibilidade e severidade de uma determinada doença, bem como os aspectos facilitadores e impeditivos da ação (FUGITA e GUALDA, 2006). 1.3.2 O comportamento preventivo versus o acesso às práticas preventivas A forma que um indivíduo ou uma comunidade percebe o significado de sua saúde varia de acordo com a época e a cultura vivenciada pela sociedade, já que esta percepção é influenciada pelas relações sociais e pelo meio que cerca cada indivíduo (OLIVEIRA e PINTO, 2007). Já a forma que um indivíduo vivencia o seu processo saúde-doença influencia diretamente em sua qualidade de vida, interferindo em todos os 38 aspectos de sua vida pessoal, incluindo seu estado de saúde e os comportamentos e métodos preventivos que irá aderir (PINHO e FRANÇA-JUNIOR, 2003; BRITO et al., 2008) Em um estudo de abordagem qualitativa em quatro Unidades de Saúde da Família (USF) de Ribeirão Preto, Oliveira e Pinto (2007) destacam que as usuárias do serviço apresentaram um conceito de saúde abrangente e explicativo, em concordância ao conceito de saúde proposto na Conferência de Ottawa, em 1986. As entrevistadas extrapolaram o conceito biomédico, arraigado na sociedade, discursando sobre aspectos sociais, econômicos e comportamentais e sua influência no processo saúde-doença. Estas mulheres citaram ainda as relações diretas do núcleo familiar a que pertencem para estabelecer suas condições de saúde e doença, bem como as dos outros entes partícipes destes núcleos. A forma que as mulheres compreendem o seu processo saúdedoença advém da necessidade de entendimento acerca das influências em suas decisões sobre a adoção de práticas preventivas e de promoção da saúde (OLIVEIRA e PINTO, 2007). Soares et al (2000) relatam que a compreensão sobre a doença é um fator que também está diretamente associado ao modo pelo qual o indivíduo irá conduzir o seu tratamento, seja ele preventivo ou curativo. O autor destaca este tipo de conduta frente às patologias de foro oncológico (SOARES et al., 2000). Neste caso, as práticas de diagnóstico e terapêutica do câncer associam-se muitas vezes a importantes repercussões emocionais, podendo contribuir negativamente para a qualidade de vida dos pacientes e, por vezes, funcionando como barreira para a descoberta da doença por meio de práticas de rastreio (CONDE et al., 2006). 39 Quanto à percepção da mulher sobre o exame de rastreio de neoplasias malignas do colo uterino, Duavy (2007) afirmou que o entendimento das entrevistadas sobre o exame versa com uma forma de manter sua vida saudável. Entretanto, segundo o mesmo autor, algumas mulheres somente buscam assistência com o aparecimento de sintomas e pelo julgamento de que o câncer ginecológico é algo temível do qual ela pode ser vitimada. A motivação para a realização do exame também esta pautada na presença de supostos fatores de risco percebidos pelas pacientes, como a hereditariedade do câncer e relações extraconjugais, sendo este último visto como um aspecto implícito na falta de segurança da fidelidade do companheiro (DUAVY et al., 2007). Ressalta-se que como muitas mulheres demonstram desinformação sobre a prática do rastreio colpocitológico, uma vez que a exposição de sua genitália ao exame remete a questões referentes à sexualidade, gerando ansiedade e sentimentos de desconforto, medo e vergonha (DUAVY et al., 2007). Embora as mulheres tenham acesso a conteúdos disponibilizados em campanhas de informação e presentes com certa regularidade em campanhas desenvolvidas pelo Ministério da Saúde e instituições afins, ainda existe uma dissociação entre a informação e a apropriação de conhecimento sobre o câncer (OLIVEIRA et al., 2005). O desconhecimento sobre a patologia e as práticas preventivas pode estar relacionado a um dos aspectos do modelo de crença em saúde, no qual predomina a preferência do indivíduo em desconhecer a existência da doença. Este desconhecimento pode estar relacionado à não exposição à prática preventiva prévia ou ao não acesso a informações corretas ou completas acerca da doença. Desta forma, os sentimentos de resistência relacionados ao exame de rastreio, aliados ao desconhecimento sobre a doença, podem despertar resistência aos métodos de rastreio colpocitológico, 40 colaborando negativamente para a qualidade de vida e continuidade do exercício e adoção de comportamentos preventivos (OLIVEIRA et al., 2005). Em relação aos sentimentos como fatores impeditivos à realização do exame, destacam-se a vergonha e o pudor devido à exposição do corpo. Pelo fato de a sexualidade ainda ser uma temática discutida superficialmente, e por vezes não ser debatida nas diversas fases do ciclo vital, constitui-se como uma forma de bloqueio e conflito, principalmente para a mulher. A forma como algumas usuárias manifestam seus sentimentos de resistência no momento do exame, pode estar associada a vergonha relatada ao procedimento. Desta forma, trabalhar a sexualidade do outro envolve aspectos de sua liberdade, bem como questões comumente não abordadas durante a prática da saúde (DUAVY et al., 2007). O medo e a ansiedade também são apontados como barreiras freqüentes na realização da colpocitologia oncótica. O medo é freqüentemente relacionado pelas mulheres diante do procedimento e da expectativa do resultado, estando também associado à forma pela qual elas percebem a saúde (BRITO et al., 2007; DUAVY et al., 2007). O diagnóstico do câncer possui um efeito quase devastador sobre a paciente, trazendo a idéia de aproximação da morte, mutilações e dor, proveniente dos tratamentos. Por isso, o enfrentamento de um possível diagnóstico da doença pode proporcionar incontáveis problemas emocionais (OLIVEIRA et al., 2005). A percepção com relação à idade avançada e a estabilidade no relacionamento intra-familiar podem exercer influência negativa nas práticas preventivas e, por isso, algumas mulheres julgam não ser necessário o rastreamento citológico. Estes aspectos somados a desorganização dos serviços corroboram, em várias regiões do país, para o 41 adiamento e, por sua vez, para a procura tardia por métodos assistenciais do câncer de colo uterino (OLIVEIRA et al., 2005). No que tange aos exames preventivos da mulher, os fatores associados à renda, escolaridade, planos de saúde e região de moradia, estão intimamente ligados à adesão aos programas de saúde pública e práticas de rastreio do câncer de colo uterino. Salienta-se ainda que a percepção da mulher sobre sua saúde e o acesso a profissionais de referência também são aspectos determinantes à utilização regular deste setor (NOVAES et al., 2006). Algumas mulheres não acessam os métodos devido à dificuldade de agendamento do serviço, a barreiras financeiras para custear consultas pelo sistema privado de saúde, à ausência/descumprimento de dispositivos legais de dispensa do emprego para adoção de medidas preventivas e a violência intra-familiar. Os cuidados com a família também atuam de forma determinante na adesão a estas práticas preventivas. Muitas usuárias comparecem às consultas com seus filhos menores, dificultando, inclusive, uma abordagem mais aprofundada e de qualidade nas consultas. (OLIVEIRA et al., 2005; DUAVY et al., 2007). Outro fator de extrema relevância e diretamente ligado às dificuldades de acesso aos serviços de rastreio do câncer é a cor da mulher. As mulheres de cor negra ou parda apresentam menor freqüência na realização do exame Papanicolaou. As desigualdades de gênero também podem ser consideradas como fator de influência sobre o acesso aos serviços de saúde. Pressupõe-se que algumas mulheres ainda não compartilham suas necessidades ou não são ouvidas por seus parceiros no que tange à adoção de práticas de rastreio oncológico. (AMORIM et al., 2006; DUAVY et al., 2007; BAIRROS et al., 2008). 42 Inúmeros outros fatores podem atuar como barreiras a prevenção, tais como: a baixa prioridade dos profissionais no que tange à assistência integral à mulher, falta de humanização da assistência, falta de organização da rede, dentre outros. O INCA recomenda a criação de mecanismos que facilitem o acesso, com a formação de um ambiente favorável às práticas educativas, à captação oportunística e sistemática e a adoção de um profissional de referência à escolha da mulher. Além disso, o gestor municipal deve prever e prover os recursos humanos e materiais para que seja realizada uma média de quatro exames/hora para os profissionais médicos e três exames/hora para os enfermeiros, conforme a necessidade do território de adscrição. Estas medidas contribuem para a garantia do atendimento de qualidade tanto em relação à freqüência do exame quanto ao acolhimento da usuária (BRASIL, 2002c). Ainda neste contexto, a periodicidade com que as usuárias realizam os exames pode ser afeta pela falta de regulação dos serviços. Enquanto algumas mulheres nunca realizaram o exame, por dificuldades de agendamento, pelos fatores impeditivos supracitados ou pelo simples desconhecimento da importância da técnica, outras exageram nas práticas, por medo do adoecimento ou por indicações dos próprios profissionais de saúde (DUAVY et al., 2007). Como fatores importantes para a garantia do acesso e continuidade do tratamento, também podem ser citados o estabelecimento do sistema de referência e contra-referência e a busca ativa das mulheres faltosas. Com isso, o INCA ainda recomenda que sejam formalizadas, de acordo com os planos municipais, as unidades ou centros de especialidade que receberão as mulheres referenciadas pela Atenção Primária, com posterior retorno a e contra-referência da unidade de origem. O ideal é que no momento em que a usuária seja encaminhada ela saiba o local, a data e horário 43 do novo atendimento, a fim de evitar abandono do tratamento e, por sua vez, atraso na assistência terapêutica (BRASIL, 2002c; 2002d; , 2006c). Nos casos de mulheres faltosas ao retorno, na consulta de referência ou ainda em casos de abandono do tratamento, faz-se necessário a busca ativa da usuária e sensibilização para o comparecimento na unidade (BRASIL, 2002c; 2002d). De acordo com a Política Nacional de Atenção Básica, são atribuições das Equipes de Saúde da Família (EqSF) a busca ativa de usuárias do serviço que por ventura tenham abandonado o tratamento ou meramente faltado a uma consulta (BRASIL, 2006c). Outro aspecto de extrema relevância para garantia de acesso e otimização nas medidas de rastreio e prevenção primária é o contingente adequado de recursos humanos para atendimento da clientela, bem como a educação permanente destes profissionais (TUCUNDUVA et al., 2004). O autor em um estudo quantitativo observou que muitos profissionais não questionam regularmente suas pacientes sobre a realização do exame colpocitológico, enquanto outros adotam medidas excessivas de prevenção, reduzindo as possibilidades de acesso a outras usuárias. A necessidade de vínculo da população com a unidade de saúde pode estar presente de forma facilitadora ao processo, uma vez que a interação entre o profissional e a usuária tende a criar um ambiente mais propício para as práticas de saúde, como no caso da Estratégia de Saúde da Família (ESF). Porém, a escolha da mulher pela unidade e/ou profissional deve ser flexível, a fim de que o profissional de referência não atue como barreira ao processo de captação da mulher. A falta de afinidade e confiança na relação entre o profissional de saúde e a usuária pode inviabilizar a adesão aos métodos de prevenção (GREENWOOD et al., 2006; BRITO et al., 2007; DUAVY et al., 2007). 44 Enfim, observa-se que a estruturação das práticas de prevenção e rastreio do câncer do colo uterino devem ser pautadas pelo reconhecimento da realidade do território e de sua comunidade, uma vez que a distribuição iníqua dos aparelhos sociais e de saúde também auxiliam a desestimular a mulher procurar os serviços. Desta forma, estabelecer parceria direta dos serviços de saúde com a população e fomentar o reconhecimento da cultura e suas influências sobre as práticas de detecção da doença são ferramentas que podem contribuir para facilitar o acesso destas mulheres (DUAVY et al., 2007). 1.4 A ESF e a Política de Saúde da Mulher 1.4.1 Saúde da Família: um breve histórico e sua dinâmica de funcionamento Com a elaboração da Constituição Federal, em 1988, e a implementação do Sistema Único de Saúde (SUS) em 1990, houve uma difusão dos serviços de saúde para todas as camadas da sociedade, pautadas nos princípios e diretrizes de universalização, descentralização, integralidade e hierarquização. Este novo sistema previa, em todo o país, a articulação de redes e serviços, a fim de resolver os problemas de saúde e atender às necessidades da população por meio de ferramentas epidemiológicas e pela participação popular. Porém, desde sua implementação na década de 90, o SUS passou por vários problemas de operacionalização, a saber: o financiamento das ações de saúde não estava claro aos municípios, dificultando a adesão da proposta; a articulação entre o sistema público e o privado também não possuía clareza e definições, dificultando a diretriz de integralidade; o modelo biomédico, presente nas ações de saúde, ocasionava resistência à proposta e à mudança substancial para as “novas” práticas, pautada 45 principalmente na prevenção de doenças e na promoção da saúde (BRASIL., 1990; VIANA e DAL-POZ, 1998) Em 1991, com base nas experiências vividas pelo MS no final da década de 80, é oficialmente criado o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS). O PACS visava promover, através de visitas domiciliárias de agentes de saúde, a interação entre o serviço de saúde e a comunidade, com base no cadastramento e acompanhamento de famílias definidas por um território (MELAMEDI, 1998; BRASIL, 2004a). De forma paralela a implementação do SUS e a criação do PACS, o país inicia um período delicado em sua economia, com graves mudanças nas finanças públicas e nas taxas de crescimento. Demograficamente, o país também atravessava uma fase de alterações, com redução do crescimento populacional e da taxa de fecundidade, bem como aumento de crescimento da população idosa. Com essas alterações no perfil demográfico da população brasileira, houve também um reflexo na distribuição das doenças infecciosas e crônicas, mudando o perfil epidemiológico no país. Este período foi caracterizado pelo aumento insidioso das doenças e agravos não-transmissíveis, exigindo a adoção de novas medidas interventoras (VIANA e DAL-POZ, 1998). A fim de tentar intervir no cenário exposto e partindo da premissa que saúde é um direito de cidadania, o Ministério da Saúde, em 1994, cria a ESF. O principal objetivo desta ação foi reorientar a APS com base nas necessidades básicas da população. Para tanto, a Estratégia é operacionalizada por meio da implantação de equipes multiprofissionais, em Unidades Básicas de Saúde (UBS), responsáveis por territórios definidos e população adscrita. Além disso, possui como foco a transformação das práticas e dos profissionais que atuam nesta área, integrando o cuidado ao indivíduo como um sujeito partícipe da família e do meio social que o cerca 46 (BRASIL, 2004a; COSTA e CARBONE, 2004; BRASIL, 2006c; RONZANI e SILVA, 2008) Após a criação da ESF, a APS deixa de ser vista como uma forma de atenção assistencialista e isolada do âmbito social, caracterizando-se por ações de promoção à saúde e prevenção primária, secundária e terciária de doenças, no âmbito físico, social e mental, expandindo suas ações e sendo capaz de promover o cuidado de forma mais ampliada (COSTA e CARBONE, 2004). Neste primeiro momento de implantação (1994 – 1995), definido por fase emergencial, a ESF pouco evolui em termos de cobertura, ficando sua expansão limitada a áreas desprovidas de atendimento ou com baixa cobertura por serviços de saúde, a saber: regiões norte e nordeste do país. Em 1995, a cobertura do PACS começa a avançar para a região Centro-Oeste do país. Um dos motivos para que esta expansão tenha ocorrido de forma limitada neste período foram os mecanismos de transferências de recursos para os municípios, que se demonstraram insuficientes (HEIMANN e MENDONÇA, 2005). Em 1996, ocorre a publicação da Norma Operacional Básica (NOB) 01/96, definindo uma nova forma de financiamento da APS e instituindo o Piso de Atenção Básica (PAB). Esta medida incentivou os municípios a aderirem a proposta e fortaleceu a ESF, ampliando a implantação de equipes de saúde da família em várias regiões do país. Nos anos que se seguem, 2000 e 2001, é criado o Departamento de Atenção Básica (DAB) e ocorre a edição da Norma Operacional da Assistência à Saúde (NOAS), qualificando a APS e estruturando ainda mais a ESF. Este conjunto de ações revela a importância que o MS vem dispensando à ESF, com mobilização das várias instâncias envolvidas na sua implantação. Fica claro que, apesar dos entraves e desafios, a ESF 47 permanece como norteadora da APS por favorecer a resolutividade dos problemas de acordo com as necessidades do território de abrangência (BRASIL, 2004a; HEIMANN e MENDONÇA, 2005). No ano de 2003, tem início a fase de consolidação e expansão planejada da ESF, com período previsto até 2010. Esta fase apóia-se no Projeto de Expansão e Consolidação da Saúde da Família (PROESF), negociado em 2002 e que conta com o financiamento internacional de US$ 275 bilhões e igual contrapartida do Governo Federal. Destaca-se que este projeto prevê de forma prioritária os seguintes aspectos (HEIMANN e MENDONÇA, 2005): • Conversão do modelo tradicional da assistência à saúde para a ESF em municípios com mais de 100.000 habitantes; • Adoção de métodos de avaliação e monitoramento das ações realizadas; • Incentivo a Educação Permanente, com vistas ao desenvolvimento de recursos humanos condizentes com as novas propostas. Mais recentemente, em 2006, foi publicada a PNAB, que define os valores de repasse do governo federal para o municipal, destinados ao incentivo da ESF. A Política recomenda que as equipes sejam compostas minimamente pelos seguintes profissionais: quatro a doze agentes comunitários de saúde, um auxiliar de consultório dentário, um enfermeiro, um médico, um odontólogo, um técnico de enfermagem e um técnico de higiene dental. Estes profissionais devem ter suas ações integradas à rede de serviços de saúde em outros níveis de atenção, com previsão de resolutividade dos problemas de saúde da população em cerca de 80%. Para tanto, o MS recomenda que os serviços estejam organizados para disponibilizar uma unidade básica de saúde sob o modelo 48 tradicional da assistência para cada 30.000 habitantes, enquanto que em unidades com a ESF, sejam cobertos até 12.000 pessoas. Esta mudança de proposta de assistência objetiva oferecer serviços com mais qualidade e sob aspectos mais amplos (BRASIL, 2006c). Além disso, a prática da ESF considera o núcleo “família” como sendo o foco de suas ações, auxiliando a integração dos indivíduos à própria prática do cuidado e, por sua vez, a adoção de práticas preventivas. Para isto, algumas das atribuições da Estratégia são: a delimitação territorial, o reconhecimento dos fluxos da comunidade, a programação das atividades com base nas necessidades populacionais, a garantia de acesso a exames diagnósticos e laboratoriais previstos na APS, como no caso das técnicas de detecção precoce do câncer do colo uterino (BRASIL, 2006c). Entretanto, ao analisar a percepção dos gestores, profissionais de saúde e usuários da ESF de dois municípios de Minas Gerais, os autores afirmam que, devido às tradições parternalistas e clientelistas criadas pelo modelo antigo da atenção à saúde, a implantação da Estratégia pode estar sendo prejudicada, sendo vista como um mecanismo de barganha política. A necessidade de mudança na formação dos profissionais de saúde também é apontada como um aspecto importante, já que, embora este “novo” modelo de saúde necessite de incorporação de novos saberes, as práticas profissionais ainda estariam voltadas ao modelo hospitalocêntrico. Alguns profissionais de saúde e a própria população tem dificuldade em compreender a base da ESF, como uma forma de uma assistência integral e praticada por profissionais generalistas (RONZANI e SILVA, 2008). A prática da intensificação da especialização dos profissionais e a visão biomédica da saúde está arraigada no contexto social e no discurso destes profissionais. 49 Observa-se que a expansão da ESF nos grandes centros encontra-se lenta e com menor impacto nos indicadores de saúde quando comparado com municípios menores. A Estratégia teve um maior crescimento e consolidação em regiões com um menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Este fato pode ter relação com a menor inserção, no passado, de práticas de saúde pública em regiões mais periféricas e carentes, sendo mais fácil a implantação de novos modelos que também trariam novos investimentos. Já nas metrópoles, ainda persiste a prática médica baseada em especialidades e grandes tecnologias, podendo ser uma das explicações para o hábito observado em segmentos da população, que optam por profissionais cada vez mais especializados (CONILL, 2008). Destaca-se o fato que o MS recomenda a realização de educação permanente, a fim de impactar de forma positiva sobre os indicadores de saúde e transformar a prática profissional (BRASIL, 2006c). Esta nova metodologia visa à reflexão do profissional sobre o seu próprio processo de trabalho buscando uma transformação que é decorrente de discussões entre os membros das equipes e que ocorre através de um processo participativo. Busca também a percepção das causas dos problemas, abordando as múltiplas dimensões do processo de trabalho, tais como aspectos organizacionais, técnicos e humanos, atendendo, assim, aos interesses coletivos e institucionais, respeitando a singularidade dos sujeitos envolvidos e o trabalho interdisciplinar. Esta metodologia não fragmenta o processo de trabalho, uma vez que toda a equipe é envolvida na discussão, visando a horizontalização da informação e dos interesses, além de incorporar a realidade local dos serviços e a co-participação de todos os envolvidos (CECCIM, 2005a; 2005b). A educação permanente apresenta-se como uma forma de integrar o conceito ampliado de saúde e a prática da Vigilância em Saúde no contexto do trabalho em APS, possibilitando a “[...] construção de um novo contrato ético e 50 político dos profissionais com a população” (RIBEIRO e MOTTA, 1998, p.12), orientando a assistência às necessidades da comunidade. Desta forma, a ESF busca distintas formas de contato com as famílias residentes em seu território de cobertura, não tendo como exclusividade a consulta médica como metodologia de acesso aos serviços. Conseqüentemente, a Vigilância em Saúde pode ser exercida com maior intensidade e, por isso, acredita-se que as intervenções de promoção de saúde e prevenção de agravos possam ocorrer de maneira otimizada (VIANA e DAL-POZ, 1998). 1.4.2 A saúde da mulher como tema de interesse para a saúde pública no Brasil A saúde da mulher até a década de 70 traduzia uma visão restrita direcionada principalmente ao ato reprodutivo, baseado em sua especificidade biológica e no papel social como cuidadora do lar e da família, levando a sociedade civil organizada a repensar questões que até então eram marginais às políticas de saúde. Os programas de saúde até então tinham o objetivo de assistir aos grupos enquadrados no conceito de vulnerabilidade social da época, como as crianças, idosos e gestantes. Outra característica marcante destas ações é que todas elas eram verticalmente impostas e fragmentadas, devido ao modelo de saúde antecessor ao SUS, resultando em baixo impacto sobre a assistência e indicadores de saúde deste gênero (BRASIL, 2004d). O movimento feminista em associação aos outros grupos da época, como o Movimento Sanitário, percebendo a visão reducionista da assistência à mulher articulou-se a fim de argumentar sobre as desigualdades sociais e de saúde entre os gêneros. Vários outros segmentos da sociedade participaram deste debate como reflexo 51 do surgimento e disseminação de novas teorias comportamentais. Novas propostas de modelo de relacionamento, necessidade e interesse de inserção da mulher no mercado de trabalho, surgimento de métodos de contracepção, são apenas alguns exemplos de mudança que vem suscitando o reposicionamento da mulher na sociedade (BRASIL, 2004d). Tais movimentos contribuíram para que em 1984, o MS criasse um Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM). Como o desenvolvimento deste programa ocorreu em paralelo ao Movimento Sanitário e a criação do arcabouço do SUS, acabou incorporando os seus princípios e diretrizes. A nova proposta de assistência a saúde da mulher passou a incluir ações que iam além do ciclo reprodutivo, contemplando parcialmente as necessidades socioculturais da mulher. Com isso, grupos historicamente esquecidos do sistema de saúde, devido a sua ausência de função reprodutiva, como as mulheres no climatério, foram incorporados a este programa. Outras ações estratégicas, tais como as de planejamento familiar e as de assistência ao câncer de colo uterino e de mama, demonstram que os alicerces do programa foram discutidos com base nos indicadores sociais e de saúde da população, bem como pela participação social (BRASIL, 2004d). No início da década de 90, logo após a implantação do PAISM, o programa já começa a receber influências do novo modelo de saúde, devido à criação do SUS e do Programa de Saúde da Família – PSF, como era denominado na época (BRASIL, 2004d). No entanto, observa-se que, por mais que o programa recebesse o título de integral, ainda apresentava-se com perfis de assistência marcados pelo modelo biomédico, não havendo extrapolação da esfera biológica para as sociais, psíquicas e espirituais. Além disso, grupos historicamente alijados do contexto social não recebiam 52 atenção individualizada e com maior especificidade, como nos casos das mulheres negras e indígenas. Com vistas à tentativa de assistir integralmente a mulher e devido ao aumento das neoplasias malignas neste grupo populacional, o Brasil, após a Conferência Mundial sobre Mulher ocorrida em 1995 na China, passou a investir na organização da rede de detecção precoce do câncer de cérvice uterina e de mama, realizando a implantação do Projeto-Piloto Viva Mulher (PINHO, 2003). Esta proposta surgiu com o objetivo de reduzir a mortalidade do câncer de colo uterino e de mama, bem como suas repercussões físicas, psíquicas e sociais, por meio da formação de uma rede integrada,da ampliação do acesso aos serviços, da capacitação de recursos humanos, da normatização de procedimentos, da melhoria da qualidade de assistência e da motivação da mulher em relação ao cuidado com sua saúde. Para atingir estes objetivos, iniciou-se um processo de ampliação de serviços de assistência à mulher quanto à detecção precoce de lesões precursoras de neoplasias malignas e seu tratamento curativo e reabilitador (BRASIL, 2000 ; , 2002f). A primeira fase do Programa teve início em 1997, a partir de um projeto-piloto em seis localidades brasileiras, a saber: Belém, Brasília, Curitiba, Recife, Rio de Janeiro e no estado de Sergipe. A fase posterior foi a de Intensificação, ocorrida em 1998 e marcada pela criação do PNCCU. O objetivo desta etapa era fornecer subsídios para a criação de novas estratégias no controle do câncer de colo uterino a partir da identificação das mulheres portadoras de diagnósticos de alterações na colpocitologia oncótica, com o auxílio de uma base de dados para o acompanhamento dos resultados citológicos, denominada Sistema de Informações do Câncer do Colo do Útero (SISCOLO). Além disso, outras regiões passaram a participar da estratégia, 53 disseminando a proposta. Por fim, em 1999, foi iniciada a fase de Consolidação, destinada à capacitação profissional para o manejo do câncer de colo uterino e de mama, bem como à melhor reestruturação da rede, buscando a adequação do sistema de informações e o financiamento para estas ações (BRASIL, 2000 ). Com a publicação da NOAS, em 2001, os municípios passam a ter maior responsabilidade sobre as ações relacionadas à Atenção Básica, bem como ficam estabelecidas regras sobre o fortalecimento da gestão do SUS e o processo de descentralização. Na área técnica de saúde da mulher, esta norma estabeleceu ações mínimas que os municípios deveriam cumprir, dentre elas a prevenção do câncer do colo do útero (BRASIL, 2004c). Isso criou condições favoráveis para que fosse iniciada a Segunda Fase de Intensificação do PNCCU, em 2002, que objetivou a ampliação da cobertura de ações de rastreio do câncer do colo uterino e da captação de mulheres em faixa etária de risco da doença. Para tanto, foram desenvolvidas estratégias de articulação que pudessem reduzir a desigualdade de acesso através do redimensionamento de tecnologias em cada território e da criação de uma rede nacional de controle desta neoplasia, além de uma rede social de comunicação para a mulher. Além disso, as ações também previam a informação e capacitação de recursos humanos e confecção de um plano de vigilância do agravo (BRASIL, 2002g) Mesmo com esses esforços, foram apontadas várias lacunas na assistência à saúde da mulher, como a não inclusão de ações de combate à violência nas agendas de saúde pública e a ausência de uma assistência diferenciada aos grupos historicamente alijados, corroborando a necessidade de criação de uma nova política de saúde, em 2003, com publicação em 2004. Foram então incorporadas estratégias de assistência sexual e reprodutiva, ao abortamento inseguro, de combate à violência intra-familiar e 54 sexual, bem como de atenção às mulheres portadores de agravos não-transmissíveis. Além disso, ações destinadas aos grupos historicamente segregados, como as mulheres negras, deficientes e presidiárias foram também contempladas por esta nova política (BRASIL, 2002f; 2002g) Outro fato merecedor de destaque é a publicação, em 2006, da Política Nacional de Atenção Básica. Este documento define a assistência à saúde da mulher como uma das áreas estratégias que operacionalizam a APS e a ESF, colaborando para o aumento da oferta e do acesso das usuárias às práticas de rastreio do câncer de colo uterino (BRASIL, 2006c; OLIVEIRA et al., 2007). Nesta perspectiva, a saúde da mulher ganha outro significado para a saúde pública, devido à mudança nos hábitos de vida e ao expressivo aumento da morbimortalidade desta doença nas últimas décadas. Cita-se como exemplos de resignificação da saúde da mulher o foco dado em determinadas ações para grupos que historicamente foram esquecidos dos sistemas de saúde: profissionais do sexo, presidiárias, deficientes físicas, dentre outros (BRITO et al., 2007). 1.4.3 Particularidades da ESF no município de Nova Iguaçu O município de Nova Iguaçu tem cerca de 830.000 habitantes e está localizado na região metropolitana, uma das áreas mais importantes para a economia do Estado do Rio de Janeiro. É considerado um município com IDH médio, a saber: 0,762 (BRASIL, 2007a; NOVA_IGUAÇU, 2008a). Administrativamente, o município está dividido em nove Unidades Regionais de Governo (URG), que se subdividem-se em bairros, abrigando uma das maiores populações do Estado. 55 O seu sistema público de saúde é constituído por 64 UBS, 3 unidades mistas, uma policlínica geral, uma unidade estadual de pronto atendimento, uma maternidade e um Hospital Geral, que recebe pacientes oriundos do município de Nova Iguaçu, municípios adjacentes e todos os pacientes em estado de urgência e emergência provenientes das rodovias que cortam a cidade. Quanto à rede de Atenção Básica, 33 unidades de saúde possuem a ESF implantadas, conforme as informações obtidas, no mês de setembro de 2008, pelo Sistema de Informação em Atenção Básica (SIAB). A Estratégia foi implantada em 1998 com base nas experiências do Projeto Cáritas, que por tempo foi atuante no município. Atualmente, atende cerca de 42650 famílias, cerca de 20% da população geral, através de ações executadas por 55 EqSF distribuidas nas unidades básicas (NOVA_IGUAÇU, 2008b). A Estratégia tem como prioridade as áreas de maior vulnerabilidade social e com vazios sanitários, utilizando-se de indicadores fornecidos pela Vigilância em Saúde para mapear e planejtar a implantação das equipes. Seguindo a linha do MS, a ESF do município trabalha com adscrição de famílias e territorialização, tendo cerca de 3500 habitantes por EqSF. O método de trabalho consiste na implantação das EqSF (médico generalista, enfermeiro, técnico de enfermagem e cerca de seis Agentes Comunitários de Saúde ACS) em unidades básicas, prestando ações de promoção da saúde, prevenção, cura e reabilitação de doenças nos espaços da unidade, no domicílio das famílias cadastradas e demais equipamentos sociais presentes no território de abrangência. Dentre as ações realizadas pelas equipes estão as visitas domiciliares periódicas realizadas por todos os profissionais, busca ativa das principais ocorrências em saúde coletiva, formação de grupos educativos, agendamento de exames e consultas de média e alta complexidade 56 na própria unidade com entrega ao domicílio, bem como assistência em todas as áreas programáticas previstas pelo MS. Devido ao processo de implantação das EqSF no próprio território adscrito, em um raio de aproximadamente 2 km da unidade, o acesso dos usuários fica mais facilitado. Permite também que os profissionais (re)conheçam as atividades e os fluxos presentes na comunidade, compreendendo o território comunitário como um processo dinâmico e adequando as ações de saúde conforme a necessidade e realidade do local. Para isto, a ESF do município conta com uma equipe de apoio a fim de fornecer suporte técnico-teórico das questões pertinentes as condições sociais e de saúde da população. Esta equipe de apoio atualmente é composta por psicólogos, fisioterapeutas, assistêntes sociais, farmacêuticos e enfermeiros, que participam de discussões periódicas com as equipes. Todavia, como muitos outros centros urbanos, o municipio vem apresentando uma lenta expansão da Estratégia, devido ao pequeno incentivo financeiro do Ministério da Saúde, em função da assistência prestada aos municípios limítrofes no que tange a atenção secundária e terciária, pela dificuldade de locação de imóveis com estrutura adequada em determinadas regiões e com a escassez de recursos humanos com perfil de saúde da família. A metodologia de trabalho da ESF de certa forma já contempla a abordagem preventiva e promotora da saúde ao incentivar a participação da comunidade no desenvolvimento das ações a serem implementadas, facilitando a percepção dos benefícios e redução das barreiras. Porém, esta prática ainda necessita de maior aprimoramento pelas equipes, pois, durante muito tempo, tanto os profissionais de saúde quanto a clientela dos serviços foi acostumada ao assistencialismo e à demanda 57 espontânea, o que dificulta a organização destas e, por sua vez, ações de sensibilização da comunidade. Fica o questionamento de como a ESF deverá e/ou poderá se estruturar para atender a demanda gerada pelo câncer do colo do útero. Vale ressaltar que não se trata apenas do desenvolvimento de ações de rastreio e detecção precoce, mas também de estratégias que contemplem todos os comemorativos que envolvem o diagnóstico deste agravo. O câncer traz sentimentos e conflitos intra e interpessoais para o portador da doença e sua família. Desta forma, acredita-se que a Estratégia pode ser considerada um local propício para abordagem destas questões, uma vez que se aproxima da realidade da usuária e de seu núcleo familiar, bem como permite a assistência de grupos que historicamente não foram contemplados pelos sistemas de saúde. 1.5 Justificativa Com a mudança nos papéis ocupados pela mulher na sociedade brasileira, temas relacionados à saúde deste público estão ocupando as agendas de discussão, principalmente na saúde pública. Vários são os motivos que colaboraram para esta mudança, tais como: a entrada da mulher no mercado de trabalho, o foco na saúde familiar e, sob este contexto, a modificação nos hábitos de vida das famílias. Historicamente, a mulher ocupa a posição de gerência do lar e base de sustentação da família, com um importante papel em relação às práticas de saúde e de vida. Além disso, como este grupo está cada vez mais inserido no mercado de trabalho, por vezes, as funções relativas à própria saúde não são exercidas, ficando algumas mulheres mais suscetíveis a doenças evitáveis ou com maiores possibilidades de cura 58 frente à detecção precoce. Neste contexto, observa-se que o número de cânceres de colo uterino vem aumentando, mesmo com a alta possibilidade de cura nos casos precocemente descobertos. Por este prisma, os profissionais de saúde são de grande relevância para o auxílio na mudança deste panorama, pois podem participar da disseminação de práticas preventivas em todos os níveis de assistência. Portanto, a rede de serviços necessita estar articulada e com a porta de entrada capacitada para a captação precoce das usuárias e disseminação de práticas de prevenção primária e secundária, através da ampliação do acesso ao rastreio do câncer do colo uterino – Exame de Papanicolaou. Esta práxis pode ser mais bem executada e refletida na ESF devido aos vários fatores diferenciados que incorporam o modelo, como a formação de vínculo, acolhimento, formato da equipe, visitas domiciliares com vistas à educação popular e monitoramento dos indicadores de saúde. A formação de vínculo entre as usuárias do serviço e a equipe multiprofissional tende facilitar o acolhimento como forma de reorientação de práticas saudáveis e de queixas, colaborando para o acesso facilitado e ao monitoramento dos indicadores de saúde da clientela. Outro ponto de destaque das práticas de prevenção executadas pelas equipes de Saúde da Família são as visitas domiciliares, executadas tanto pelos Agentes Comunitários de Saúde quanto pelos demais profissionais. Estas visitas, além de aproximar o cuidador do núcleo familiar da usuária, possibilitam a maior formação de vínculo, facilitam o processo de observação de problemas de saúde deste núcleo diretamente, bem como colabora com o processo de construção do saber popular. Desta forma, além de agir de maneira pontual e preventiva, a ESF possibilita o a incorporação 59 de conhecimentos e capacidade de modificar hábitos pela mulher, com vistas à melhoria de sua qualidade de vida. A adoção destas práticas preventivas depende de muitos fatores, alguns associados à percepção da mulher sobre a sua saúde, gravidade da doença, sua suscetibilidade e dos benefícios e fatores impeditivos decorrentes destas ações. Outros fatores de influência referem-se a questões de estruturação e acesso dos serviços de saúde. Os profissionais de saúde ao realizarem abordagens que visem à melhoria da qualidade de vida e prevenção de doenças devem levar em consideração tais aspectos, a fim de mediar os conflitos e as barreiras do acesso da mulher, neste caso ao exame ginecológico, devido aos estigmas e desconfortos provenientes do procedimento. Neste contexto, a presente pesquisa pretende contribuir com a compreensão do perfil de utilização dos serviços de prevenção do câncer do colo uterino e dos fatores que dificultam ou impedem a realização dos exames de detecção precoce da doença. Acredita-se que o entendimento destes aspectos pode auxiliar na (re)programação dos serviços de Saúde da Família nos âmbitos da assistência e gestão. Além disso, poucos são os estudos publicados no âmbito do município eleito, o que pode colaborar com a descoberta de particularidades inerentes a outros territórios, bem como estudar as similaridades apresentadas por outros grandes centros. Desta forma, justifica-se este estudo por existir a necessidade de discussão dos fatores que reduzem a adesão na realização de práticas preventivas e da operacionalização dos métodos preventivos na ESF; e por servir de suporte para futuras pesquisas na área, uma vez que existe uma carência de trabalhos que foquem o envolvimento dos aspectos sociais e comportamentais com os problemas de saúde. 60 1.6 Objetivos da pesquisa 1.6.1 Objetivo geral Analisar os fatores impeditivos do acesso às práticas preventivas do câncer do colo uterino em mulheres residentes na área de cobertura da ESF do município de Nova Iguaçu, RJ. 1.6.2 Objetivos específicos • Estimar o perfil de exposição aos fatores de risco ginecológico e obstétrico do câncer do colo uterino em mulheres residentes na área de cobertura da ESF do município de Nova Iguaçu, RJ. • Analisar a utilização do serviço de colpocitologia oncótica em mulheres residentes na área de cobertura da ESF do município de Nova Iguaçu, RJ. • Identificar as barreiras impeditivas do acesso ao rastreio de neoplasias malignas do colo do útero no âmbito da ESF do município de Nova Iguaçu, RJ. 61 CAPÍTULO 2: PROCEDIMENTOS E MÉTODOS 62 2 PROCEDIMENTOS E MÉTODOS 2.1 Tipo de estudo Na medida em que se pretende estimar a prevalência dos fatores de risco envolvidos com a doença e discutir as barreiras que interferem na realização do exame colpocitológico, optou-se por realizar um estudo observacional, do tipo transversal, a partir de entrevistas de um inquérito domiciliar com uma amostra de mulheres. 2.2 Cenário do estudo O cenário deste estudo foi o município de Nova Iguaçu, localizado na região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro e dividida em nove URGs. Conforme descrito anteriormente, o município conta com 55 EqSF distribuídas nas unidades básicas de saúde e cobrindo cerca de 20% da população, as quais cerca de 28,0% são mulheres entre 20 a 59 anos (NOVA_IGUAÇU, 2008b). Destaca-se que assim como várias outras cidades do estado, principalmente as de grande porte, Nova Iguaçu ainda apresenta dificuldades na implantação da ESF e na redução da mortalidade pela neoplasia maligna de colo do útero, em especial, na cobertura do rastreio citológico e tratamento precoce das lesões de cérvice-uterina. Além disso, apenas 5% da população coberta pela Estratégia possuem seguros de saúde. Para a seleção das regiões participantes do estudo foram estabelecidos critérios de elegibilidade. Optou-se primeiramente por definir a URG a ser utilizada como campo de estudo. O critério utilizado na escolha da região foi à exclusão de territórios distantes e/ou com dificuldade de acessar a região central do município, uma vez que a concentração de serviços de saúde está neste segmento com quatro regiões elegíveis. 63 Dentre estas, a região de Comendador Soares foi escolhida por conveniência, devido a questões de facilidade operacional e proximidade com o centro. Esta regional possui 3 Unidades de Saúde da Família (USF) implantadas, perfazendo o total de 6 EqSF, com cobertura aproximada de 20.000 habitantes. O território possui semelhança com as outras áreas do município, exceto pelo fato de ser mais próximo do centro. Portanto, os territórios de pesquisa foram definidos com base nos critérios de tempo de implantação da ESF, mais de 5 anos, e cobertura aproximada de 50% da comunidade. 2.3 Tamanho e seleção da amostra A população-fonte do estudo compreendeu o conjunto de mulheres com idade entre 20 e 59 anos, residentes na área de cobertura das EqSF descritas anteriormente, perfazendo o total de 1724 sujeitos selecionáveis. A escolha da faixa etária baseou-se no público-alvo do Programa de Assistência e Controle do Câncer do Colo do Útero, do Ministério da Saúde (BRASIL, 2002c). Com base na lista de sujeitos selecionáveis, foi confeccionada uma listagem global contendo o nome, a idade e o endereço, a fim de proceder a uma amostragem sistemática das mulheres. Esta listagem foi construída com base na identificação do número de família atribuído pelas próprias equipes, permitindo contemplar todos os setores de cadastro das EqSF. Utilizando-se o programa Epiinfo 3.5.1 (CDC, 2008), o tamanho amostral mínimo foi de 272 mulheres, assumindo-se uma prevalência do evento de 30%, um erro de 5% e 10% de perdas. Como as estatísticas referentes ao câncer do colo do útero 64 variam consideravelmente entre os estudos, utilizou-se a prevalência estimada de resultados de colpocitologia oncótica alterados, conforme sugestão do INCA (BRASIL, 2002c). Prevendo as perdas ocasionais de estudos por inquérito domiciliar, foi realizada uma sobre-amostra de 20%, perfazendo o tamanho amostral de 326 mulheres. Os critérios de inclusão do estudo foram: ter idade entre 20 e 59 anos na época da entrevista e concordar em participar da pesquisa, após assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foram excluídos do estudo os sujeitos que apresentaram duas tentativas infrutíferas de encontro no domicílio e os casos de mudança de endereço. Destaca-se que estas perdas representaram aproximadamente 13,8% do total da amostra, conforme demonstrado pela Tabela 2.1, e não excederam a sobre-amostra estimada. Tabela 2.1 – Descrição das perdas amostrais Característica n = 45 Recusa 7 Não se aplica 1 Tentativas infrutíferas 26 Mudança de endereço 11 % 2,1 0,3 8,0 3,4 2.4 Trabalho de campo As entrevistas foram realizadas por nove ACS das EqSF eleitas no estudo e supervisionadas pelo pesquisador principal (o autor do trabalho). Os entrevistadores receberam um treinamento acerca da temática do estudo, envolvendo aspectos epidemiológicos do câncer do colo do útero, suas repercussões para a saúde da mulher e da coletividade, os métodos de prevenção secundária e sobre o modelo de crenças em saúde, destacando a importância da relação da temática do estudo com a ESF. Em 65 seguida, foram trabalhadas as técnicas de entrevista, abordagem das respondentes e a aplicação dos instrumentos da pesquisa, dirimindo possíveis dúvidas sobre o questionário e visando sua aplicação homogênea. Durante o desenvolvimento do curso, que totalizou a carga horária de 40 horas, todos os ACS receberam pastas contendo: os instrumentos a ser aplicados, um “Caderno dos Entrevistadores” (Anexo 1) elaborado a partir do manual utilizado na tese “Suspeição, detecção e notificação de casos de violência contra a criança em serviços de saúde” (MOURA, 2006), lápis, caneta, borracha, apontador e um bloco para anotações. Por fim, foi realizado um estudo piloto, na mesma região da pesquisa, no território de uma EqSF não contemplada no estudo, a fim de avaliar a logística do estudo, as técnicas e abordagens das respondentes e a aplicação do instrumento. Após a fase de preparo e treinamento do estudo, iniciou-se a fase de convite às mulheres selecionadas para o estudo. Os entrevistadores, divididos em turnos, compareceram ao domicílio dos sujeitos efetuando convite verbal / escrito, agendando o dia da entrevista. A aplicação dos instrumentos ocorreu no período de 9 à 27 de março de 2009, por meio de entrevista face a face e com tempo médio de 15 minutos. O local para a coleta de dados foi o domicílio dos sujeitos da pesquisa, exceto quando o ambiente não favoreceu a relação entrevistador-entrevistado. Nestes casos, permitiu-se ao sujeito do estudo sugerir outro espaço para a realização da entrevista. Nos casos em que as mulheres não poderiam ser encontradas durante o período diurno dos dias úteis da semana, foi agendada a entrevista para o período noturno e em raros casos no fim de semana. A fim de dar continuidade ao processo de entrevistas, 66 foram negociados dias de folga para os ACS e os mesmos foram divididos em grupos para atuar fora do horário de expediente. Foi elaborado um esquema de supervisão de campo que contemplou apoio imediato às mulheres que necessitassem de realização do exame colpocitológico. Nestes casos, as mulheres foram acolhidas pelas respectivas Equipes de Saúde da Família responsáveis por seu acompanhamento. 2.5 Instrumentos de coleta de dados As informações do estudo foram coletadas através de um questionário estruturado e multidimensional (Anexo 2). O primeiro módulo do instrumento refere-se à caracterização da amostra. Para compor esta fase do instrumento foram utilizadas algumas questões do instrumento da “Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios” – PNAD (IBGE, 2006) e os critérios de Classificação Econômica da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP, 2003), perfazendo o quantitativo de 10 questões. Para compor o segundo módulo, foi eleito o “Questionário Individual Tipo A” utilizado pelo INCA no Inquérito Domiciliar sobre Comportamentos de Risco e Morbidade Referida de Agravos Não Transmissíveis (BRASIL, 2002e). Deste questionário foram utilizadas as questões referentes ao “Módulo Exames para detecção de câncer de colo de útero e mama e uso de hormônios” (Anexo 3), excluindo as perguntas que se referiam ao câncer de mama, por não fazerem parte do escopo da pesquisa. Esta fase do estudo contemplou 25 questões que abarcaram a regularidade e os fatores que motivaram a realização do exame (7 questões), histórico ginecológico e 67 obstétrico (10 questões), o perfil de utilização de anticoncepcionais hormonais orais (3 questões) e menopausa (5 questões). O terceiro e último módulo do instrumento foi composto por questões referentes ao Modelo de Crenças em Saúde, constituindo-se pelo questionário “Champion´s Health Belief Model Scale” (CHBMS), validado e adaptado transculturamente ao Brasil. O instrumento original foi desenvolvido para avaliação do MCS em pacientes portadoras de câncer de mama. Todavia, a autora afirma que o CHBMS pode ser utilizado para avaliar o MCS em outros tumores, uma vez que já foi utilizado em pesquisas destinadas ao câncer do colo uterino e de colorretal (SANTOS, 2008). O CHBMS é composto por 29 questões dividas em quatros escalas: susceptibilidade (5 questões), gravidade (7 questões), benefícios (5 questões) e barreiras (12 questões). As quatro escalas que compõe o instrumento mensuram a maior percepção do indivíduo na dimensão testada de acordo com a maior pontuação. Desta forma, quanto maior a pontuação da escala, maior é a percepção do indivíduo sobre a dimensão estudada. (SANTOS, 2008). 2.6 Análise dos dados Para a construção do banco de dados e digitação dos instrumentos utilizou-se o software Epidata 3.1 (LAURITSEN, 2006). Posteriormente, foi realizada a limpeza, o processamento e as análises estatísticas através do software Stata SE 10 (STATACORP, 2007). Para aumentar a significância dados, os intervalos de confiança das prevalências foram estimados para todas as proporções (RODRIGUES e WERNECK, 2009). O teste Qui-Quadrado foi utilizado para avaliar a significância entre as variáveis de interesse, 68 considerando os resultados significativos quando o p-valor foi igual ou inferior a 0,05 e limítrofes quando no intervalo entre 0,05 a 0,1 (ARANGO, 2009). 2.7 Aspectos éticos Visando ao respeito aos aspectos éticos que envolvem os estudos de campo, bem como ao cumprimento da Resolução CNS 196/96, que dispõe sobre pesquisa com seres humanos no setor saúde, foi realizada uma conversa informal com o gestor da ESF do município de Nova Iguaçu. Neste encontro foi explicitada a intenção da realização de coleta e análise de dados no cenário, bem como foram dirimidas as dúvidas as quais na ocasião emergiram. Neste momento, deu-se uma autorização para realização da pesquisa. Em seguida, após formalização da pesquisa com responsáveis pelas EqSF, o Projeto de Pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estácio de Sá, obtendo autorização em 03 de fevereiro de 2009, sob o código CAAE 0137.0.000.308-09. Conforme orienta a Resolução 196/96, o estudo utilizou Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo 4), a fim de esclarecer os objetivos do trabalho ao entrevistado, bem como garantir o anonimato. Após a conclusão da pesquisa, foram realizadas palestras no município a fim de discutir com as EqSF os resultados do estudo. 69 CAPÍTULO 3: RESULTADOS 70 3 RESULTADOS Com vistas a tornar a leitura seqüencial, optamos por apresentar os resultados da pesquisa em formato de artigos científicos. A Tabela 3.1, demonstra a relação dos objetivos da pesquisa com os resultados dispostos nos artigos. Outros resultados encontrados também serão apresentados no capítulo de “Considerações Adicionais”. Tabela 3.1 – Correspondência entre os objetivos da pesquisa e os artigos científicos Objetivos Artigo 1 Artigo 2 Estimar o perfil de exposição aos fatores de risco ginecológico e obstétrico do câncer do colo uterino X em mulheres residentes na área de cobertura da ESF do município de Nova Iguaçu, RJ. Analisar a utilização do serviço de colpocitologia oncótica em mulheres residentes na área de cobertura da ESF. Discutir as barreiras impeditivas do acesso ao rastreio de neoplasias malignas do colo do útero no âmbito da ESF X X 71 3.1 Artigo 1: “Perfil de utilização dos serviços de rastreio do câncer do colo do útero na Estratégia de Saúde da Família de Nova Iguaçu (RJ)” Em fase de avaliação no periódico “Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil” do Instituto Materno Infantil de Pernambuco (IMIP). 72 Perfil de utilização dos serviços de rastreio do câncer do colo do útero na Estratégia de Saúde da Família de Nova Iguaçu (RJ) Cervical cancer screening utilization profile on the Family Health Strategy in Nova Iguaçu (RJ) Ricardo de Mattos Russo Rafael. Rua do Riachuelo, 27, 6º andar, Lapa – Rio de Janeiro (RJ). CEP 20.230-010. Programa de Mestrado em Saúde da Família. Universidade Estácio de Sá – UNESA. Anna Tereza Miranda Soares de Moura. Rua do Riachuelo, 27, 6º andar, Lapa – Rio de Janeiro (RJ). CEP 20.230-010. Programa de Mestrado em Saúde da Família. Universidade Estácio de Sá – UNESA. Endereço de correspondência: Ricardo de Mattos Russo Rafael Rua do Riachuelo, 27, 6º andar, Lapa – Rio de Janeiro (RJ). CEP 20.230-010. E-mail: [email protected] 73 Resumo Objetivo: analisar o perfil da clientela e da utilização dos serviços de rastreamento do câncer do colo do útero na Estratégia de Saúde da Família do município de Nova Iguaçu, RJ. Métodos: estudo observacional, do tipo transversal, a partir de inquérito domiciliar com uma amostra de 281 mulheres com idade entre 20 e 59 anos, residentes em área de cobertura da Estratégia de Saúde da Família. Resultados: observou-se que 95,37% das entrevistadas (IC 95%: 92,90 / 97,84) relataram já ter realizado o exame alguma vez na vida. Apenas 33,80% (IC 95%: 28,24 / 39.37%) das mulheres não realizaram o exame no último ano. Grande parte das mulheres também relatou que utilizam o Sistema Único de Saúde (72,01%; IC 95%: 66,60 / 77,42) para a realização do rastreio do câncer do colo uterino. Quanto aos fatores motivacionais de procura pelo exame, percebeu-se que 79,71% (IC 95%: 74,98 / 84,44) das mulheres o realizam como rotina de pesquisa para o câncer. Conclusões: constatou-se que a Estratégia de Saúde da Família vem ultrapassando as expectativas e seguindo as recomendações acerca do quantitativo rastreio do câncer do colo uterino. Todavia, o perfil de fatores de risco e o intervalo entre os exames apontam para necessidade de reflexão sobre possíveis lacunas na organização e qualidade dos métodos de prevenção e detecção precoce da doença. Palavras-chave: Neoplasias do colo do útero, Esfregaço vaginal, Saúde da Família. Abstract Objective: To analyze the clients and use profile of the cervical cancer screening on the Family Health Strategy in the municipality of Nova Iguaçu, RJ. Methods: observational, cross-sectional, based on household survey with a sample of 281 women aged between 20 and 59 years residing in area of the Family Health Strategy. Results: It was observed that 95.37% of the respondents (CI 95%: 92.90 / 97.84) reported having done the exam once in their lives. Only 33.80% (CI 95%: 28.24 / 39.37%) of the women were not given an examination last year. Most women also reported using the National Health System (72.01%, CI 95%: 66.60 / 77.42) in order to be subjected to 74 cervical cancer screening. As for the motivational factors behind the search for the exam, it was observed that 79.71% (CI 95%: 74.98 / 84.44) of the women perform ti as a routine search for the cancer. Conclusions: it was found that the Family Health Strategy has been surpassing expectations and following the recommendations on the quantitative screening of cervical cancer. However, the risk factors profile and the interval between examinations emphasize the need for reflection on possible gaps in the organization and quality of prevention methods and early detection of the disease. Key words: Uterine cervical neoplasms, Vaginal smears, Family Health. 75 Introdução As neoplasias integram atualmente uma das quatro principais causas de mortalidade em adultos jovens no Brasil, configurando-se como um relevante problema de saúde pública no país e também no mundo1. Com relação à população feminina, especial atenção vem sendo direcionada ao câncer de colo uterino devido às suas elevadas taxas de incidência e mortalidade, ocupando as primeiras posições neste público. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), somente para o ano de 2008, estimou-se o desenvolvimento de 19 novos casos da doença para cada 100.000 mulheres, elevando os custos e a demanda por exames e tramento2. A preocupação com a melhoria nos indicadores de morbi-mortalidade relacionados a esta doença vem sendo objeto de investimentos nas áreas direcionadas à saúde da mulher. A partir de longa e aprofundada discussão, que culminou com a elaboração do Programa Nacional de Controle do Câncer do Colo do Útero (PNCCCU), o exame de colpocitologia oncótica com a técnica de Papanicolaou foi escolhido como o método de rastreio mais adequado, devido à sua boa relação custo-benefícioefetividade3. A observação de uma maior vulnerabilidade em faixas etária superiores a 30 anos de idade4,5, sugeriu a realização de um exame colpocitológico a cada três anos em mulheres entre 25 a 59 anos de idade, após a ocorrência de dois resultados negativos e consecutivos em exames realizados com intervalo inferior a um ano6. O Programa traz ainda importante contribuição ao recomendar a ampliação da oferta do método e conseqüente captação precoce das mulheres vulneráveis, como ações capazes de promover a cura em até 100% dos casos em fases iniciais da doença4,7,8. Todavia, as formas com que as ações de captação e prevenção da doença vêm sendo desenvolvidas acabam por não contemplar de maneira igualitária todas as 76 camadas da população. A literatura mostra que as características sócio-demográficas de um determinado território parecem exercer forte influência no desenvolvimento da doença, uma vez que, as regiões menos desenvolvidas sócio-economicamente apresentam incidência cerca de duas vezes maior, quando comparadas com as mais desenvolvidas5. Este achado reforça a necessidade de uma maior atenção a esses grupos mais vulneráveis. Nesta perspectiva, ações que levam em consideração as características dos diferentes grupos populacionais no desenvolvimento de intervenções primárias podem resultar na redução da incidência deste câncer de maneira mais efetiva. Estima-se que cerca de 90% dos fatores de risco envolvidos na evolução da doença sejam externos aos aspectos genéticos e biológicos, tais como as carências nutricionais e o tabagismo, além de aspectos relacionados às questões gineco-obstétricas como a pluralidade de parceiros e precocidade do início da atividade sexual, presença de doenças sexualmente transmissíveis, multiparidade e o uso de anticoncepcionais hormonais orais4,7,9. A proposta de atenção à saúde desenvolvida a partir da criação do Programa de Saúde da Família (PSF) em 1994, atualmente nomeado Estratégia de Saúde da Família (ESF), traz a possibilidade de ampliação de atuação frente à problemática exposta. A ESF possui como um dos seus principais focos a transformação das práticas tradicionais de atenção à saúde, além da mudança no olhar dos profissionais, que passariam a praticar o cuidado integrado ao indivíduo, avaliado como um sujeito partícipe de sua família e meio social10,11,12,13. Além disso, na maior parte das vezes, as ações são voltadas para o núcleo familiar, o que pode contribuir para a disseminação de práticas saudáveis entre os vários atores envolvidos no processo social. Para alcançar estes objetivos a Estratégia parte do princípio de delimitação territorial, com o 77 reconhecimento da estrutura organizacional e prioridades de cada comunidade adscrita. Realiza a programação de suas atividades com base nas necessidades de sua clientela, visando a garantia de acesso a exames diagnósticos e laboratoriais previstos na Atenção Primária à Saúde, como no caso das técnicas de detecção precoce do câncer do colo uterino 11. O presente estudo visa analisar o perfil da clientela e da exposição dos fatores de risco do câncer do colo uterino e a utilização do serviço de colpocitologia oncótica na ESF do município de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro (RJ). O município eleito configura-se como uma das regiões mais importantes do Estado do Rio de Janeiro e seu perfil sóciodemográfico se aproxima a de outros grandes centros urbanos do Estado. A ESF municipal, ainda em desenvolvimento, assiste cerca de 20% da população, cobrindo principalmente as regiões mais carentes e com menor cobertura assistencial. Desta forma, a análise realizada poderá contribuir com subsídios para a reprogramação das atividades da Estratégia e formulação de possíveis ações de detecção precoce desta neoplasia na região, que carece de estudos nesta área temática. Métodos Foi realizado estudo observacional, do tipo transversal, com entrevistas realizadas a partir de um inquérito domiciliar em regiões cobertas pela ESF de Nova Iguaçu. O município está localizado na região metropolitana do estado do Rio de Janeiro, uma das mais importantes regiões deste, tanto por sua elevada densidade populacional, quanto por seu desenvolvimento econômico. Como critérios de elegibilidade para definição do território de pesquisa, foram consideradas as regiões administrativas mais próximas do centro da cidade e com maior concentração de 78 serviços de saúde, perfazendo o quantitativo de quatro áreas possíveis. Dentre elas, dois territórios da ESF foram eleitos por intencionalidade, devido ao tempo de implantação das equipes, cerca de 5 anos, e pela cobertura aproximada de 50% da população da área. A população-fonte da pesquisa compreendeu o conjunto de mulheres com idade entre 20 e 59 anos, residentes na área de cobertura das equipes de saúde da família da área selecionada, com um total de 1724 sujeitos elegíveis. O tamanho amostral calculado foi de 272 mulheres, assumindo-se uma prevalência do evento de 30%, erro de 5% e 10% de perdas. Prevendo as perdas ocasionais ocorridas em estudos por inquérito domiciliar, foi realizada uma sobre-amostra de 20%, de forma que o tamanho amostral final foi de 326 mulheres. Criou-se uma listagem com base no cadastramento realizado pelas equipes em toda a região, utilizando-se técnica de amostragem sistemática para a escolha dos participantes. As entrevistas foram realizadas por nove Agentes Comunitários de Saúde (ACS), sob a supervisão do pesquisador principal (autor do trabalho). Realizou-se um estudo piloto, na mesma região a ser pesquisada, porém nos limites de outra equipe de Saúde da Família. O convite para participação na pesquisa foi realizado pelos entrevistadores, divididos em turnos, que compareceram aos domicílios das mulheres elegíveis, agendando as entrevistas. A aplicação dos instrumentos ocorreu no mês de março de 2009, na residência das entrevistadas com duração média de 15 minutos por entrevista. Destaca-se que nos casos em que o domicilio não favoreceu a relação entrevistador-entrevistado foi permitida a sugestão de outro espaço de encontro mais reservado. Nos casos em que as mulheres não poderiam ser encontradas no período diurno e nos dias úteis da semana, a entrevista foi agendada em horário alternativo (noturno ou 79 fim de semana). A busca era interrompida após duas tentativas de contato ou devido à mudanças de endereço. Destaca-se que as perdas representaram 13,8% do total da amostra e somente seis sujeitos selecionados recusaram a realização das entrevistas. O número final de entrevistas realizadas foi de 281, ultrapassando o previsto no cálculo amostral inicial. As informações foram coletadas através de um questionário estruturado e multidimensional. Para avaliação do perfil da amostra foram utilizadas algumas questões do instrumento da “Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios” (PNAD)14 e os critérios de Classificação Econômica da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa 15 . Quanto às questões específicas do estudo, optou-se pela utilização do “Módulo Exames para detecção de câncer de colo de útero e mama e uso de hormônios” do “Questionário Individual Tipo A” utilizado pelo INCA no Inquérito Domiciliar sobre Comportamentos de Risco e Morbidade Referida de Agravos Não Transmissíveis 16 , excluídas as questões que se referiam ao câncer de mama. Para construção do banco de dados e digitação dos instrumentos utilizou-se o software Epidata 3.117. A limpeza, processamento e as análises estatísticas, foram realizadas com o software Stata SE 1018. Uma análise descritiva foi utilizada para estimar a prevalência de exposição a fatores de risco do câncer do colo uterino, com os respectivos Intervalos de Confiança (IC 95%) calculados via método binomial exato19. A fim de atender o cumprimento da Resolução CNS 196/96, que dispõe sobre pesquisa com seres humanos no setor saúde, os objetivos do estudo foram explicitados às equipes de Saúde da Família da região pesquisada e o projeto encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estácio de Sá, obtendo autorização sob o CAAE 0137.0.000.308-09. O estudo utilizou Termos de Consentimento Livre e 80 Esclarecido, a fim de esclarecer os objetivos do trabalho ao entrevistado, bem como garantir o anonimato das respondentes. Nos casos necessários, as respondentes foram orientadas a procurar o serviço de Saúde da Família, bem como foi agendado no próprio local a realização de consultas médicas e de enfermagem. Resultados A Tabela 1 apresenta o perfil sócio-demográfico da amostra estudada, com predominância de mulheres entre 20 e 39 anos (60,1%; IC 95%: 54,4 / 65,9), em sua maioria de cor parda (44,1%; IC95%: 38,3 / 50,0) e casada ou em união consensual estável (65,1%; IC 95%: 59.5 / 70,7). Com relação à escolaridade, evidenciou-se que 43,8% (IC 95%: 37,9 / 49,6) das respondentes somente haviam estudado até o 5º ano do ensino fundamental. Houve predomínio da classe C entre as respondentes (59,1%; IC95%: 53,2 / 64,8). A Tabela 2 demonstra as prevalências referentes ao histórico ginecológico e obstétrico das respondentes. Observou-se que 56,6% (IC95%: 50,7 / 62,4) da população estudada teve sua menarca a partir dos 12 anos de idade. Quanto ao tempo de utilização dos anticoncepcionais hormonais orais, pode-se notar que um número significativo de mulheres (40,2; IC 95%: 32,9 / 47,6) o fizeram no período máximo de até quatro anos, embora se perceba que 31,6% (IC 95%: 24,6 / 38,6) das respondentes fizeram uso prolongado por mais de 10 anos. O estudo evidenciou que a maioria das mulheres iniciou seu período de climatério abaixo dos 48 anos de idade (53,6; IC95%: 40,1 / 67,0) e que 19,3% (IC 95%: 8,7 / 29,9) utilizam terapia de reposição hormonal há 3,3 anos (DP: 1,7 / 4,9) em 81 média. Houve maior freqüência de multigestas (43,4; IC 95%: 37,6 / 48,2) e quase metade das mulheres teve sua primeira gravidez abaixo dos 19 anos de idade (47,4; IC 95% 41,3 / 53,4), revelando um alto número de gestações na adolescência. O perfil de utilização dos serviços de prevenção do câncer do colo uterino está representado na Tabela 3. A maior parte das entrevistadas (95,4%; IC 95%: 92,9 / 97,8) relatou já ter realizado o exame colpocitológico alguma vez na vida e apenas 33,8% (IC95%: 28,2 / 39,4%) destas mulheres não o haviam realizado no último ano. Quanto ao tempo do último exame, observou-se predomínio em intervalos menores de 1 ano (72,4%; IC 95%: 66,9 / 77,9), realizados em sua maioria no Sistema Único de Saúde (72,0%; IC 95%: 66,6 / 77,4). Quanto aos fatores que motivaram a procura pela colpocitologia oncótica, observou-se que 79,7% (IC 95%: 75,0 / 84,4) das mulheres o realizaram como rotina. A Figura 1 mostra a distribuição dos demais problemas pré-existentes que motivaram a busca pela realização do exame ginecológico, sendo as leucorréias as queixas mais encontradas (50,9%; IC 95%: 37,3 / 64,5). Também foi relatada a procura devido a outras queixas ginecológicas (30,9%; IC 95%: 18,3 / 43,5), DSTs (7,3%; IC 95%: 0,2 / 14,3), gestação (5,4%; IC 95%: 0 / 11,6), afecções de trato urinário (3,6%; IC 95%: 0 / 8,7) e queixas álgicas (1,8%; IC95%: 0 / 5,5). 82 Tabela 1. Perfil sócio-demográfico da amostra de mulheres residentes na área de cobertura da Estratégia de Saúde da Família, Nova Iguaçu, 2009 Característica da amostra (n=281) Prevalência % (IC 95) Idade De 20 a 29 anos 31,0 (25,5 / 36,4) De 30 a 39 anos 29,2 (23,8 / 34,5) De 40 a 49 anos 22,8 (17,8 / 27,7) De 50 a 59 anos 17,1 (12,6 / 21,5) Raça / Cor Branca 29,9 (24,5 / 35,3) Preta 25,3 (20,1 / 30,4) Parda 44,1 (38,2 / 50,0) Amarela/Indígena 0,7 (0,3 / 1,7) Escolaridade Nenhuma 5,3 (2,7 / 8,0) De 1ª a 4ª série 38,4 (21,7 / 44,1) De 5ª a 8ª série 28,8 (23,5 / 34,1) Ensino médio 25,6 (20,5 / 30,7) Ensino universitário 1,8 (0,2 / 3,3) Situação conjugal Casada / União Consensual 65,1 (59,5 / 70,7) Solteira 21,7 (16,8 / 26,5) Desquitada / Divorciada / Viúva 13,2 (9,2 / 17,1) Classe econômica B 6,8 (3,8 / 9,7) C 59,1 (53,3 / 64,8) D 32,4 (26,9 / 37,9) E 1,8 (0,2 / 3,3) 83 Tabela 2. Perfil ginecológico e obstétrico das mulheres residentes na área de cobertura da Estratégia de Saúde da Família, Nova Iguaçu, 2009 Característica n Prevalência % (IC 95) Idade da menarca 281 Até 12 anos 43,4 (37,6 / 49,7) ≥ 12 anos 56,6 (50,7 / 62,4) Tempo de anticoncepção oral 174 < 1 ano 9,2 (4,8 / 13,5) De 1 a 4 anos 31,0 (24,1 / 38,0) De 5 a 9 anos 28,2 (21,4 / 34,9) ≥ 10 anos 31,6 (24,6 / 38,6) Idade da menopausa 56 < 48 anos 53,6 (40,1 / 67,0) ≥ 48 anos 46,4 (32,9 / 59,9) Situação obstétrica 281 Nuligesta 10,0 (6,4 / 13,5) Primigesta 17,4 (13,0 / 21,9) Secundigesta 29,2 (23,8 / 34,5) Multigesta 43,4 (37,6 / 48,2) Idade da primeira gestação 266 < 16 anos 10,1 (6,5 / 13,8) 16 – 19 anos 37,2 (31,4 / 43,1) 20 – 29 anos 42,1 (36,1 / 48,1) 30 – 39 anos 10,5 (6,8 / 14,2) 84 Tabela 3. Perfil de utilização da colpocitologia oncótica em mulheres residentes na área de cobertura da Estratégia de Saúde da Família, Nova Iguaçu, 2009 Característica n Prevalência % (IC 95) Já realizaram o exame 281 Sim 95,37 (92,90 – 97,84) Não 4,62 (2,15 – 7,09) Fr do exame nos últimos 12 meses 281 Nenhum 33,80 (28,24 – 39,37) 1 exame 55,16 (49,30 – 61,01) 2 exames 11,03 (7,34 – 14,71) Intervalo de tempo do último 257 exame Menos de 1 ano 72,37 (66,87 – 77,87) De 1 a 3 anos 22,56 (17,42 – 27,71) Mais de 3 anos 5,05 (2,36 – 7,75) Utilização do SUS 268 Sim 72,01 (66,60 – 77,42) Não 27,98 (22,57 – 33,39) Motivo da busca pelo exame 266 Rotina 79,71 (74,98 – 84,44) Problemas pré-existentes 20,28 (15,55 – 25,01) 85 Figura 1. Descrição dos problemas pré-existentes que motivaram a busca pela colpocitologia oncótica em mulheres residentes na área de cobertura da Estratégia de Saúde da Família, Nova Iguaçu, 2009 (n = 55). 86 Discussão Estima-se que a partir de 2020 o número de novos casos de cânceres aumente e que poucas regiões no mundo possuirão sistemas de saúde devidamente estruturados para o seu controle20. Ações direcionadas à abordagem ampliada destas patologias, englobando desde a sua detecção precoce em grupos de maior vulnerabilidade até o controle dos efeitos provenientes do seu tratamento merecem ser desenvolvidas. Atualmente, as neoplasias vêm sendo encaradas como pertencentes ao grupo de doenças crônicas, já que os avanços obtidos promoveram sensível melhora na sobrevida dos pacientes. Porém, para alguns grupos estes avanços ainda não puderam ser incorporados, devido a questões relacionadas ao acesso aos serviços e à realização de exames de detecção precoce. Para o câncer de colo de útero, estas questões têm maior importância, devido à sua alta incidência, principalmente em regiões menos favorecidas economicamente2,21. Diante deste cenário, estudos sobre as estratégias de captação das usuárias para realização da colpocitologia oncótica e detecção precoce da doença se mostram oportunos e até necessários. O perfil sócio demográfico da amostra avaliada abrange riscos elevados para o desenvolvimento do câncer do colo do útero. De acordo com alguns estudos, a faixa etária de maior prevalência da doença encontra-se entre 30 e 49 anos4,5,8. Merece destaque o maior predomínio no estudo de mulheres pardas e negras, com pouco tempo de estudo e em classes econômicas mais baixas, que por estarem em plena fase laborativa e reprodutiva podem ter ainda mais dificuldade de acesso a exames de detecção. Este grupo acaba por não ser absorvido pelas estratégias de captação e busca ativa realizadas rotineiramente pelas equipes de saúde3,22. 87 Em relação ao perfil ginecológico e obstétrico da amostra, chama atenção a prevalência significativa de mulheres que relataram a utilização de anticoncepcionais hormonais orais por tempo igual ou superior a 10 anos. Embora não exista um consenso sobre as conseqüências destes medicamentos em relação à gênese do câncer do colo uterino4, alguns trabalhos apontam que a anticoncepção hormonal possa acarretar em um aumento da exposição às infecções pelo Papiloma Vírus Humano (HPV)23. Destacase que o aumento da prevalência desta infecção coincide historicamente com a ampliação dos métodos de contracepção hormonal e com a redução da adesão aos métodos de barreira, em especial da utilização dos códons durante a atividade sexual24. Outro ponto que merece destaque são os dados referentes ao número de gestações e o período de início das atividades sexuais, por também ser aventados como fatores de riscos tanto para o desenvolvimento do câncer do colo uterino, quanto para a infecção pelo HPV5. Ações de promoção da saúde que contemplem a participação social, como no caso da ESF, parecem auxiliar na melhoria destes fatores condicionantes. Rocha e Soares25, em uma pesquisa sobre o impacto das práticas comunitárias, apontam que a ESF após uma média de oito anos de atuação é capaz de reduzir significativamente a taxa de fecundidade e aumentar a empregabilidade da população adscrita. Em contrapartida, acredita-se que estas intervenções devam ser formuladas de maneira cautelosa, a fim de contemplarem a dinâmica de funcionamento das famílias e, por sua vez, o cenário histórico e social do território. Quanto ao perfil de utilização dos serviços de rastreio do câncer do colo uterino, observa-se que o percentual em relação ao intervalo do exame nos últimos três anos aproxima-se do encontrado em um estudo realizado na ESF da cidade de Londrina (PR)26. Além disso, os dados demonstram-se superiores ao encontrado na maior parte 88 das capitais brasileiras estudadas pelo INCA27. Acredita-se que o número adequado de exames encontrados em Nova Iguaçu esteja relacionado ao tipo de assistência ao qual a população alvo do estudo teve acesso. Em outros municípios estudados onde não havia cobertura expressiva da ESF, os números de exames realizados foram inferiores. As características do modelo de atenção preconizadas pela Saúde da Família11, em especial o trabalho com território definido e adscrição de clientela, parecem favorecer o processo de captação das usuárias para a realização destas práticas preventivas. Corroborando para a adesão ao método de rastreio, observa-se que dentre os principais fatores motivacionais de procura pela colpocitologia está a realização do exame por rotina. Este dado também foi encontrado como principal motivo de busca em outros estudos que contemplavam áreas com cobertura da Saúde da Família28. Ramos et al29 sugerem que quanto maior o tempo de cadastro das mulheres na Estratégia, maior a adesão e utilização das ações de rastreio colpocitológico. Esta prática pode estar relacionada à incorporação de outras ações individuais de promoção de saúde, trazendo também uma maior possibilidade de prevenção de outros agravos e doenças não transmissíveis. Nesta perspectiva, as ações desenvolvidas no âmbito da ESF podem trazer um diferencial fundamental no controle das doenças que mais atingem a população feminina atualmente. Em contrapartida, chama-se atenção para o intervalo entre a realização dos exames de colpocitologia e o seu número anual. Na maior parte dos casos, a freqüência do rastreio da doença excede ao recomendado pelo Ministério da Saúde6. Embora este dado possa indicar uma boa adesão aos métodos de rastreio, acredita-se que ele pode revelar certa iniqüidade no acesso, já que a mesma paciente pode estar realizando o exame várias vezes. Depreende-se que, apesar do número de exames razoavelmente 89 satisfatório, algumas mulheres que habitualmente possuem dificuldades e fatores de impedimento com relação à realização dos métodos preventivos permanecem com acesso limitado a estas práticas. Como estratégia de enfrentamento desta problemática, aponta-se o exemplo do “Programa de Seleção Coordenada” instituído em 1995, na Noruega, com o objetivo de reduzir os custos e aumentar a cobertura de rastreio do câncer do colo uterino em populações de maior risco. Este programa almejou a redução do número de exames em mulheres cujo esfregaço vaginal acusava normalidade e a ampliação da cobertura para aquelas que possuíam indicação da colpocitologia, em especial as mulheres acima de 50 anos. Como resultado desta reprogramação dos serviços, o país atingiu uma redução da incidência de câncer invasivo em cerca de 20% 30. Nesta perspectiva, acredita-se que seja necessário repensar a forma que as equipes de saúde da família estão realizando as práticas de busca ativa para a realização dos exames de rastreio da doença. Uma possibilidade que se apresenta favorável para esta reflexão seria a intensificação do exercício de vigilância em saúde e participação social em nível local, a fim de avaliar regularmente as ações e nortear a (re-) programação das agendas e atividades. Além disso, aponta-se para a necessidade da efetivação do rastreio sistematizado, já recomendado pelo Ministério da Saúde6, a fim de contribuir para a redução dos exames desnecessários e para o aumento da cobertura nos grupos de maior necessidade. Devido ao desenho transversal do estudo, não foi possível realizar inferências causais com relação à utilização dos serviços de rastreio e as ações desenvolvidas pela Saúde da Família, demonstrando-se necessária esta investigação em pesquisas ulteriores. Além disso, outros estudos estão em andamento, a fim de contemplar os 90 fatores impeditivos do acesso às técnicas de rastreio e a qualidade deste exame ginecológico no município estudado. Com vistas à redução das limitações deste estudo, em especial pela dificuldade de adesão dos participantes observada em inquéritos domiciliares, optou-se pela realização das entrevistas pelos ACS. Estes profissionais possuem um maior vínculo com a população usuária dos serviços e, na maior parte das vezes, são eles que realizam as buscas ativas para as atividades da Saúde da Família. Isto pode ter contribuído para a maior adesão ao estudo, bem como para os relatos mais próximos da realidade da comunidade. O envolvimento destes profissionais também contribuiu de maneira favorável na elaboração da logística do trabalho de campo, uma vez que foi possível traçar estratégias de captação das mulheres para entrevistas em horários adequados para as respectivas famílias. Nesta perspectiva, constatou-se que os esforços da ESF, no que tange às práticas de rastreio do câncer do colo uterino, estão contemplando minimamente o intervalo entre os exames colpocitológicos, conforme o recomendado pelo Ministério da Saúde. Entretanto, o perfil de exposição aos fatores de risco da população e o quantitativo excessivo de exames no último ano apontam para lacunas na qualidade destas ações preventivas. Vale ressaltar que este cenário pode estar ocorrendo em outros municípios de porte semelhante, já que a expansão e objetivos da Estratégia ainda estão longe de serem alcançados em sua plenitude no estado do Rio de Janeiro. Desta forma, a Saúde da Família como estratégia norteadora da Atenção Primária possui atribuições que vão muito além da realização de exames e da prática clínica propriamente dita. Pretende oferecer aos usuários cadastrados ações que transformem a sua prática diária, a partir de uma participação mais ativa nas suas 91 escolhas por comportamentos saudáveis, melhorando os indicadores de saúde. Estes objetivos não são de fácil execução e precisam de maior comprometimento e parcerias mais próximas entre os serviços e seus usuários. Apesar da cobertura próxima da média estadual, a ESF é relativamente recente no município de Nova Iguaçu, necessitando de tempo para a incorporação de suas práticas inovadoras entre os usuários, a rede de serviços e os profissionais envolvidos. Referências 1. Ramos C, Carvalho JEC, Mangiacavalli MASC. Impacto e (i)mobilização: um estudo sobre campanhas de prevenção ao câncer. Ciênc saúde coletiva. 2007; 12: 1387-96. 2. Brasil. Ministério da Saúde. Estimativas 2008: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA (Instituto Nacional do Câncer); 2007. 3. Martins L, Thuler L, Valente J. Cobertura do exame de Papanicolaou no Brasil e seus fatores determinantes: uma revisão sistemática da literatura. Rev Bras Ginecol Obstet. 2005; 27: 485-92. 4. Krivak T, Mcbroom J, Elkas J. Câncer cervical e vaginal. In: Berek JE, editor. NOVAK – Tratado de Ginecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2005. p. 1119-62 5. Pessini SA, Silveira GPG. Câncer genital feminino. 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Costa E, Carbone M. Saúde da Família: uma abordagem interdisciplinar. Rio de Janeiro: Rubio; 2004. 13. Ronzani T, Silva CM. O Programa Saúde da Família segundo profissionais de saúde, gestores e usuários. Ciênc saúde coletiva. 2008; 13: 23-34. 14. IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios: questionário da pesquisa. Rio de Janeiro: IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística); 2006. 15. Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa. Critério de Classificação Econômica Brasil. 2003. Disponível em URL: http://www.abep.org/codigosguias/ABEP_CCEB.pdf [2008 Dez 02]. 16. Brasil. Ministério da Saúde. Questionário individual – tipo A. Inquérito domiciliar sobre comportamentos de risco e morbidade referida de agravos não transmissíveis. Rio de Janeiro: INCA (Instituto Nacional do Câncer); 2002. 17. EpiData [programa de computador]. Versão 3.1. Odense Denmark: EpiData Association; 2006. 18. StataCorp. Stata/SE 10.0 for Windows College Station (TX): Stata Corporation, 2007. 93 19. Rodrigues LC, Werneck GL. Estudos Caso-controle. In: Medronho RA, Bloch KV, Luiz RR, Weneck GL (Org). Epidemiologia. 2ª ed. São Paulo: Atheneu; 2009. 20. Aleixo Neto A. Aspectos epidemiológicos do câncer cervical. Rev Saúde Pública. 1991; 25: 326-33. 21. Novaes H, Braga P, Schout D. Fatores associados à realização de exames preventivos para câncer nas mulheres brasileiras, PNAD 2003. Ciênc saúde coletiva. 2006; 11: 1023-35. 22. Pinho AA, França-Junior I. Prevenção do câncer de colo do útero: um modelo teórico para analisar o acesso e a utilização do teste de Papanicolaou. Rev Bras Saúde Matern Infant. 2003; 3: 95 - 112. 23. Murta E, Souza M, Lombardi W, Borges L. Aspectos epidemiológicos da infecção pelo Papilomavírus Humano. J Bras Ginecol. 1997; 107: 95-9. 24. Brasil. Ministério da Saúde. Prevenção do câncer do colo do útero: manual técnico - profissionais de saúde. Rio de Janeiro: INCA (Instituto Nacional do Câncer); 2002. 25. Rocha R, Soares RR. Evaluating the impact of community-based health interventions: evidence from Brazil's Family Health Program. 2009. Disponível em URL: http://ftp.iza.org/dp4119.pdf [2009 Ago 27] 26. Silva I, Brenna S, Moriwaki O, Maniani Neto C. Avaliação dos programas brasileiros para controle do câncer genital feminino. Rev Adm em Saúde. 2004; 24: 97-102. 27. Brasil. Ministério da Saúde. Inquérito domiciliar sobre comportamentos de risco e morbidade referida de doenças e agravos não transmissíveis: Brasil, 15 capitais e Distrito Federal, 2002-2003. Rio de Janeiro: INCA (Instituto Nacional do Câncer); 2004. 28. Oliveira M, Silva A, Brito L, Coimbra L. Cobertura e fatores associados a não relização do exame preventivo de papanicolau em São Luís, Maranhão. Rev Bras Epidemiol. 2006; 9: 325-34. 94 29. Ramos A, Palha P, Costa-Junior M, Sant´Anna S, Lenza N. Perfil de mulheres de 40 a 49 anos cadastradas em um núcleo de Saúde da Família, quanto a realização do exame preventivo de Papanicolaou. Rev Latino-am Enfermagem. 2006; 14: 170-4. 30. Nygard J, Skare G, Thoresen S. The cervical cancer screening programme in Norway, 1992-2000: changes in Pap smear coverage and incidence of cervical cancer. J Med Screen. 2002; 9: 86-91. 95 3.2 Artigo 2: “Barreiras na realização da colpocitologia oncótica: um inquérito domiciliar na área de abrangência da Estratégia de Saúde da Família de Nova Iguaçu, RJ” Em fase de avaliação no periódico “Cadernos de Saúde Pública” da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/FIOCRUZ) 96 Barreiras na realização da colpocitologia oncótica: um inquérito domiciliar na área de abrangência da Saúde da Família de Nova Iguaçu (RJ) Barriers to the implementation of the Pap smear oncotic: a household survey in the area of coverage of the Family Health Strategy in Nova Iguaçu (RJ) Ricardo de Mattos Russo Rafael (RAFAEL, RMR)¹ Anna Tereza Miranda Soares de Moura (MOURA, ATMS)² Título corrido: Barreiras na realização da colpocitologia oncótica ¹²Programa de Mestrado em Saúde da Família. Universidade Estácio de Sá – UNESA. Rua do Riachuelo, 27, 6º andar, Lapa – Rio de Janeiro (RJ). CEP 20.230-010. E-mail: [email protected] 97 Resumo O objetivo deste estudo foi analisar as barreiras impeditivas do acesso ao rastreio do câncer do colo uterino no âmbito da Saúde da Família do município de Nova Iguaçu. Por meio de um inquérito domiciliar, foram entrevistadas 281 mulheres com idade entre 20 e 59 anos. Para avaliação das barreiras de acesso ao exame, utilizou-se a versão em português do instrumento Champion´s Health Belief Model Scale. O medo relacionado ao resultado do exame (39,85%; IC 95%: 34,09 / 45,61) e ao profissional examinador (31,31%; IC 95%: 25,86 / 36,77), a vergonha (39,85%; IC 95%: 34,09 / 45,61) e o esquecimento relacionado ao agendamento do exame (32,02%; IC95%: 26,53 / 37,51) foram referidos como as principais barreiras impeditivas do acesso. Como os fatores de impedimento variaram de acordo com as características sócio-demográficas da população, acredita-se que a estruturação das práticas de rastreio da doença deve ser pautada na realidade territorial. Palavras-chave: Neoplasias do colo do útero, Acesso aos serviços de saúde, Esfregaço vaginal, Saúde da Família. Abstract The aim of this study was to analyze the barriers preventing access to cervical cancer screening in the Family Health of the municipality of Nova Iguacu. Through a household survey, we interviewed 281 women aged between 20 and 59 years old. To assess the barriers to access to the examination, a Portuguese version of the Champion's Health Belief Model Scale was used. Fear related to the examination results (39.85%, 98 CI 95%: 34.09 / 45.61) and to the professional examiner (31.31%, CI 95%: 25.86 / 36.77), shame (39.85%, CI 95%: 34.09 / 45.61) and forgetting scheduling the examination (32.02%, CI 95%: 26.53 / 37.51) were reported as the main barriers preventing access to it. Once the constraining factors varied according to the sociodemographic characteristics of the population, it is believed that the organization of the disease screening practices should follow territorial reality. Key words: Uterine cervical neoplasms, Health Services Accessibility, Vaginal Smears, Family Health. 99 Introdução As neoplasias malignas atualmente integram as principais causas de óbito da população mundial. Estima-se que a incidência dos cânceres seja na ordem de 16 milhões de novos casos ao ano a partir de 2020, a maior parte ocorrendo em países em desenvolvimento1. Em relação ao público feminino, o câncer do colo uterino é aventado como um dos principais problemas de saúde pública para este grupo, devido ao seu perfil de incidência e mortalidade atingirem elevadas taxas em regiões de menor desenvolvimento socioeconômico2,3. Desta forma, o investimento em políticas públicas que contemplem métodos de prevenção primária e secundária parecem favoráveis ao controle desta doença. Características peculiares deste câncer, relacionadas ao seu desenvolvimento lento e longo período pré-clínico, tornam possível a cura em até 100% das pacientes que obtém um diagnóstico precoce4,5. No Brasil, muito se tem avançado no conhecimento relacionado à detecção precoce e tratamento deste câncer. O Programa Nacional de Controle do Câncer do Colo Uterino (PNCCU), proposto pelo Ministério da Saúde (MS), tem recomendado a utilização da colpocitologia oncótica pela Técnica de Papanicolaou como forma de rastreio a cada três anos em mulheres de 25 a 59 anos de idade que não possuem alterações citológicas pré-existentes. Acredita-se que a ampla disseminação deste exame nas faixas etárias de maior risco, especialmente de 35 a 49 anos, possa resultar em redução expressiva da mortalidade feminina por este agravo6. A sistematização recomendada para a realização adequada do exame de rastreio esbarra, porém, em questões relacionadas à oferta do exame pelos serviços de saúde e na adesão da clientela, entre outros fatores. A maneira que as equipes de saúde realizam a programação de suas ações acabam por influenciar na adesão aos métodos preventivos 100 oferecidos. As experiências exitosas no controle desta doença estão fundamentadas, em sua maioria, em programas de rastreio seletivo e sistematizado que priorizam os grupos de maior risco. Além disso, baseiam-se nos sistemas de busca ativa das mulheres faltosas no próprio ambiente familiar, possibilitando o aumento da captação precoce e adesão das pacientes às medidas de prevenção2,3,7.Acredita-se que a Estratégia de Saúde da Família (ESF), implantada pelo MS em 1994, possa oferecer grandes contribuições na efetivação do rastreio sistematizado desta doença. A Estratégia contempla práticas de vigilância em saúde em uma população adscrita e em território previamente definido. A participação ativa da comunidade, uma premissa fundamental desta nova proposta de atenção à saúde, permite o reconhecimento da dinâmica social local, além de possibilitar a formulação de agendas adequadas ao perfil de cada clientela8,9. Apesar destas novas iniciativas na reorganização das ofertas dos serviços de saúde, com o auxílio dos protocolos preconizados, observa-se que o exame de rastreio não costuma ser realizado regularmente por algumas mulheres pertencentes aos grupos de maior vulnerabilidade. Ademais, a busca pelos serviços de saúde geralmente está atrelada a pré-existência de queixas ginecológicas, dificultando a detecção precoce dos casos10. A escolha pela realização do exame parece não estar diretamente relacionada apenas à prevenção da doença e, por isso, é necessário repensar a organização e as formas de atuação das equipes, a fim de contemplar outros determinantes que influenciam na adesão das usuárias11,12. Nesta perspectiva, o Modelo de Crenças em Saúde (MCS), proposto por Rosenstock13,14, apresenta-se como um possível dispositivo para o reconhecimento dos comportamentos da clientela e da sua forma de enfrentamento dos problemas de saúde. Segundo este modelo, a incorporação de métodos preventivos na vida dos indivíduos 101 está fundamentada na percepção de quatro variáveis – a saber: vulnerabilidade ou susceptibilidade, gravidade da doença, benefícios e barreiras associadas à ação proposta. Parte-se da premissa que o processo decisório sobre a escolha das atitudes em relação ao processo saúde-doença perpassa pela percepção individual destes quatro aspectos15. O presente estudo visa analisar as possíveis barreiras impeditivas do acesso ao rastreio do câncer do colo uterino através da utilização do MCS, no âmbito da ESF do município de Nova Iguaçu. A literatura sobre o tema, embora bastante ampla, preocupase basicamente com os perfis epidemiológicos e clínicos da doença, contemplando poucos aspectos referentes ao comportamento preventivo das mulheres em situação de maior vulnerabilidade. Para o controle e melhoria dos indicadores relacionados à doença, faz-se necessário o entendimento mais ampliado dos motivos que dificultam a procura por ações que levariam à sua prevenção. A incorporação deste conhecimento poderá auxiliar na reflexão sobre quais estratégias merecem ser implementadas para a captação adequada das mulheres no que tange à realização do exame de rastreio do câncer do colo uterino, além de contribuir para uma prática mais equânime no âmbito da Saúde da Família. Métodos Contexto do estudo O município de Nova Iguaçu tem cerca de 830.000 habitantes e está localizado na região metropolitana do Rio de Janeiro. Faz parte de uma malha de municípios de grande importância política e econômica para o Estado, sendo um dos mais populosos da região. Seu Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), de 0,762, é 102 classificado como médio16,17. O sistema público de saúde local possui uma configuração ainda diminuta para o tamanho populacional, apresentando uma unidade hospitalar, uma maternidade de alto risco, uma policlínica de referência e cerca de 60 unidades básicas de saúde. No primeiro nível de atenção, o município conta com uma cobertura aproximada da ESF de 20% da população e ainda em fase de expansão. Administrativamente está dividido em nove Unidades Regionais de Governo (URG). A URG de Comendador Soares, escolhida para participar do estudo, localiza-se próximo da região central do município e possui 6 Equipes de Saúde da Família, com cobertura aproximada de 20.000 habitantes. Foram eleitos os territórios de cobertura de duas equipes, considerando o tempo de implantação de pelo menos 5 anos, e os territórios com maior cobertura da Estratégia. Desenho do estudo, população alvo e fonte Foi realizado estudo transversal de base populacional. A população-alvo da pesquisa compreendeu o conjunto de mulheres com idade entre 20 e 59 anos, residentes na área de cobertura da ESF da região de Comendador Soares. Segundo os dados cadastrais das equipes, em fevereiro de 2009 havia 1724 sujeitos elegíveis. Tamanho e seleção da amostra A população do estudo foi selecionada por meio de uma amostragem sistemática com base na listagem nominal de mulheres cadastradas pelas Equipes de Saúde da Família participantes do estudo. Assumindo-se uma prevalência esperada para o evento de 30%6, erro de 5% e 10% de perdas, o tamanho amostral previsto foi de 272 103 indivíduos. Prevendo as perdas ocasionais ocorridas em estudos de base populacional, foi realizada uma sobre-amostra de 20%, perfazendo o total de 326 sujeitos a serem entrevistados. Os critérios de inclusão do estudo foram: idade entre 20 e 59 anos na época da entrevista e concordar em participar da pesquisa, após assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos os sujeitos que, após duas tentativas, não puderam ser encontrados e os casos de mudança de endereço. Coleta de dados Após a aplicação de um estudo piloto em região próxima da área escolhida, os dados foram coletados em março de 2009 através de entrevistas face a face, com duração média de 15 minutos, no domicílio das mulheres selecionadas. Foi permitido que as mulheres optassem por outro local para a realização da pesquisa quando o ambiente não favorecesse uma adequada relação entrevistador-entrevistado. As entrevistas foram conduzidas por equipe composta por nove Agentes Comunitários de Saúde (ACS) da localidade, supervisionadas por um dos autores (RMRR), após treinamento específico com ambientação temática, abordagem e instruções referentes à condução das entrevistas e a forma de aplicação dos instrumentos. Nos casos em que as respondentes não puderam ser encontradas no período de trabalho dos ACS, foi agendado um novo encontro no turno da noite ou aos finais de semana. Foi elaborado um esquema de supervisão de campo que contemplou apoio imediato às mulheres que necessitassem de realização do exame colpocitológico. Nestes 104 casos, as mulheres foram acolhidas pelas respectivas Equipes de Saúde da Família responsáveis por seu acompanhamento, para possíveis agendamentos, se necessário. Instrumentos de aferição O instrumento de coleta de dados foi composto por um questionário estruturado e multidimensional. O primeiro módulo contemplou questões referentes à caracterização da clientela, utilizando itens do instrumento da “Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios” (PNAD)18 e os critérios de Classificação Econômica da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa 19. Para as informações sobre as barreiras de acesso à colpocitologia oncótica, foi utilizado o instrumento “Champion´s Health Belief Model Scale” – CHBMS, já validado e adaptado transculturamente para uso no Brasil. O instrumento original foi desenvolvido para avaliação do Modelo de Crenças em Saúde em pacientes portadoras de câncer de mama, já tendo sido utilizado também em pesquisas que abordaram neoplasias do colo uterino e de colorretal20. O instrumento é composto pelas quatro dimensões que compõem o Modelo: vulnerabilidade, gravidade, benefícios e barreiras. Neste estudo foram avaliados apenas os 12 itens que compõem a escala de barreiras do MCS. Processamento e análise de dados Para a construção do banco e digitação dos dados, utilizou-se o software Epidata 3.1.21. Posteriormente, foi utilizado o software Stata 10 SE para realização da limpeza, processamento e análises estatísticas22. Uma análise descritiva foi utilizada para 105 caracterização do perfil da clientela e dos fatores que associados ao acesso ao exame colpocitológico, com os respectivos Intervalos de Confiança (IC 95%) calculados via método binomial exato23. Considerou-se os casos positivos para os fatores impeditivos de acesso todas as respostas que contemplavam as opções “concordo” e “concordo totalmente” na escala de barreiras do instrumento CHBMS. Foi realizada uma análise bivariada para verificar a associação entre as barreiras de acesso ao exame e o perfil sócio-demográfico da população. O qui-quadrado foi utilizado para avaliar a significância entre as variáveis de interesse, considerando os resultados significativos quando o p-valor foi igual ou inferior a 0,05 e limítrofes quando no intervalo entre 0,05 a 0,123. Aspectos éticos A fim de atender a Resolução CNS 196/96, que dispõe sobre pesquisa com seres humanos no setor saúde, o estudo foi submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Estácio de Sá, obtendo autorização sob o CAAE 0137.0.000.308-09. Todas as participantes assinaram o TCLE, que dispunha os objetivos do trabalho e a garantia do anonimato. Nos casos necessários, as respondentes foram acolhidas e orientadas a procurar os serviços oferecidos pelas equipes de Saúde da Família para, se necessário, agendar consultas médicas e de enfermagem. Resultados Foram entrevistadas 281 mulheres, extrapolando a amostra inicial calculada de 272 sujeitos. Dentre os sujeitos listados inicialmente, 11 haviam mudado de endereço, 106 26 não foram encontrados no domicílio e apenas sete se recusaram a participar do estudo. Como indicado na Tabela 1, a maioria da amostra tinha idade entre 20 e 39 anos (60,1%; IC 95%: 54,4 / 65,9) e a maior concentração etária foi na faixa de 20 a 29 anos (31,0%; IC 95%: 25,5 / 36,4). Em relação à cor, 44,1% (IC 95%: 38,3 / 50,0) das entrevistadas se identificavam como pardas e houve predomínio em relação ao tempo de estudo até o ensino fundamental (72,6%, IC 95%: 67,3 / 77,8), sendo que 5,3% (IC 95%: 2,7 / 8,0) das entrevistadas referiram não ter nenhum ano de estudo. Mais da metade da amostra (65,1%; IC 95%: 59,5 / 70,7) referiu ter um companheiro fixo e encontrava-se na classe C (59,1%; IC 95%: 53,3 / 64,8) segundo os critérios econômicos da ABEP19. Os fatores que dificultaram ou impediram o acesso às técnicas de rastreio do câncer do colo uterino estão demonstrados na Tabela 2. O medo relacionado ao resultado do exame e a vergonha proveniente da exposição do corpo foram os aspectos que apresentaram maior prevalência (39,8%; IC 95%: 34,1 / 45,6). O esquecimento do agendamento prévio das consultas ginecológicas (32,0%; IC95%: 26,5 / 37,5) e o medo do profissional examinador (31,3%; IC 95%: 25,9 / 36,8) seguiram como os principais fatores impeditivos relacionados à prática da colpocitologia. A Tabela 3 expõe as barreiras relacionadas ao exame colpocitológico e às características dos serviços de saúde. Especial destaque é dado às características de escolaridade (p-valor ≤ 0,06) e classe econômica (p-valor ≤ 0,04), que apresentaram significância estatística quando associadas à maior parte das barreiras analisadas. As barreiras relacionadas à dinâmica de vida das mulheres estudadas foram demonstradas na Tabela 4. Percebe-se que de maneira geral, as barreiras de acesso mostraram-se distribuídas de forma homogênea nos diferentes subgrupos estudados, 107 exceto para as características socioeconômicas da amostra. Observou-se maior significância estatística (p-valor ≤0,04) na associação das barreiras com classes econômicas mais carentes. 108 Tabela 1. Perfil sócio-demográfico da amostra de mulheres residentes na área de cobertura da Estratégia de Saúde da Família, Nova Iguaçu, 2009 Características da Amostra (n = 281) Prevalência % (IC 95) Idade De 20 a 39 anos 60,2 (54,4 / 65,9) De 40 a 59 anos 39,8 (34,1 / 45,6) Raça / Cor Pardas 44,1 (38,3 / 50,0) Demais etnias 55,9 (50,0 / 61,7) Escolaridade Até o ensino fundamental 72,6 (67,3 / 77,8) Ensino médio completo / incompleto 25,6 (20,5 / 30,7) Ensino universitário completo / incompleto 1,8 (0,2 / 3,3) Situação conjugal Com companheiro 65,1 (59,5 / 70,7) Sem companheiro 34,9 (29,3 / 40,5) Classe econômica B 6,8 (3,8 / 9,7) C 59,1 (53,3 – 64,8) D 32,4 (26,9 – 37,9) E 1,8 (0,2 – 3,3) 109 Tabela 2. Fatores que dificultam o acesso a colpocitologia oncótica em mulheres residentes na área de cobertura da ESF, Nova Iguaçu, 2009 Fatores de impedimento (n=281) Prevalência % (IC 95%) Relacionados ao procedimento e as características dos serviços de saúde Custo do exame 13,9 (9,8 / 17,9) Dificuldade de agendamento do exame 17,4 (13,0 / 21,9) Medo de sentir dor durante o procedimento 15,3 (11,0 / 19,5) Medo relacionado à técnica do exame 19,6 (14,1 / 24,2) Medo relacionado ao profissional 31,3 (25,9 / 36,8) Medo relacionado ao resultado do exame 39,8 (34,1 / 45,6) Necessidade de preparo para a realização do exame 22,4 (17,5 / 27,3) Vergonha do examinador 39,8 (34,1 / 45,6) Relacionadas à dinâmica de vida da mulher Dificuldades com o transporte 15,3 (11,0 / 19,5) Dificuldades relacionadas ao cotidiano das mulheres 0,71 (0 / 1,70) Esquecimento da data agendada 32,0 (26,5 / 37,5) Importância atribuída ao exame 7,8 (4,7 / 11,0) 110 Tabela 3. Fatores relacionados ao procedimento e as características dos serviços de saúde que dificultam o acesso a colpocitologia oncótica distribuídos nos diferentes subgrupos de mulheres residentes na área de cobertura da ESF, Nova Iguaçu, 2009 NecesMedo de DificulMedo Medo sidade sentir Medo dade no relaciorelaciode Vergodor relacioCusto do agendanado à nado ao preparo nha do Características N durante nado ao exame mento técnica resultapara a examio profisdo do do do realizanador procedisional exame exame exame ção do mento exame Idade 281 De 20 a 39 anos 169 14,2 16,0 15,4 17,2 30,8 41,4 20,7 31,9 De 40 a 59 anos 112 13,3 19,6 15,2 23,2 32,1 37,5 25,0 51,8 p-valor 1,000 0,428 1,000 0,222 0,896 0,536 0,465 0,001 Raça / Cor 281 Pardas 124 18,5 11,3 9,7 16,9 25,8 33,9 23,4 35,5 Demais etnias 157 10,2 22,3 19,7 21,7 35,4 44,59 21,7 43,3 p-valor 0,365 0,092 0,086 0,774 0,220 0,056 0,018 0,020 Escolaridade 281 Até ensino fundamental 204 15,2 22,0 18,1 22,5 34,8 44,6 27,0 42,2 Ensino médio 72 8,3 5,6 6,9 12,5 22,2 26,4 11,1 36,1 Ensino universitário 5 40,0 0,0 20,0 0,0 20,0 40,0 0,0 0,00 p-valor 0,128 0,102 0,127 0,065 0,002 0,053 0,018 0,008 Situação conjugal 281 Com companheiro 183 14,2 15,8 11,5 15,3 28,4 39,9 23,5 36,6 Sem companheiro 98 13,3 20,4 22,4 27,5 36,7 39,8 20,4 45,9 p-valor 1,000 0,410 0,177 1,000 0,653 0,160 0,023 0,018 Classe econômica 281 B 19 5,3 5,3 10,5 15,8 5,3 21,0 0,0 42,1 C 166 12,6 15,7 12,0 15,7 30,1 39,8 19,9 37,9 D 91 17,6 19,8 18,7 25,3 36,3 41,8 29,7 41,8 E 5 20,0 80,0 80,0 60,0 80,0 80,0 60,0 60,0 p-valor 0,423 0,098 0,719 0,005 0,003 0,036 0,004 0,002 111 Tabela 4. Barreiras de acesso à colpocitologia oncótica relacionadas à dinâmica de vida das mulheres residentes na área de cobertura da ESF de Nova Iguaçu (2009) nos diferentes subgrupos estudados. Dificuldades Dificuldades Esquecimento Importância relacionadas ao Características n com o da data atribuída ao cotidiano das transporte agendada exame mulheres Idade 281 De 20 a 39 anos 169 16,0 1,2 31,4 4,1 De 40 a 59 anos 112 14,29 0,0 33,0 13,4 p-valor 0,738 0,519 0,795 0,006 Raça / Cor 281 Pardas 124 16,1 0,0 32,3 7,3 Demais etnias 157 14,6 1,3 31,8 8,3 p-valor 0,742 0,505 1,000 0,826 Escolaridade 281 Até ensino fundamental 204 19,1 1,0 35,3 8,8 Ensino médio 72 5,6 0,0 25,0 5,6 Ensino universitário 5 0,0 0,0 0,0 0,0 p-valor 1,000 0,106 0,640 0,010 Situação conjugal 281 Com companheiro 183 14,2 0,5 32,2 8,2 Sem companheiro 98 17,3 1,0 31,6 7,1 p-valor 0,491 1,000 1,000 0,820 Classe econômica 281 B 19 15,8 0,0 15,8 5,3 C 166 9,0 0,6 28,9 5,4 D 91 24,2 0,0 38,5 12,1 E 5 60,0 20,0 80,0 20,0 p-valor 0,130 0,001 0,040 0,020 112 Discussão Os resultados encontrados permitem iniciar uma reflexão sobre os fatores que dificultam a adesão das mulheres aos métodos preventivos do câncer do colo uterino. A partir da escolha pela realização de um inquérito domiciliar foi possível apresentar dados que contemplassem também e, principalmente, mulheres que não freqüentam regularmente os serviços de saúde; informações que não são de fácil obtenção. Acredita-se que a partir desta abordagem, os resultados observados se aproximam de maneira especial da realidade vivenciada por estas mulheres, trazendo um olhar sobre as dificuldades que influenciam no processo decisório quanto à utilização dos exames de rastreio deste câncer. Outro ponto positivo foi o baixo índice de perdas e recusas observado no estudo, já que a complexidade operacional envolvida na coleta de dados em inquéritos domiciliares costuma trazer desafios à captação da amostra. A opção de envolver os ACS para a realização das entrevistas parece ter contribuído para a maior adesão das respondentes à pesquisa. Os Agentes de Saúde constituem um dos principais mediadores do processo de atuação da Estratégia com a população adscrita, uma vez que também pertencem à comunidade e se apresentam como importantes atores na captação dos usuários8. As ações de busca ativa se constituem como uma das ferramentas centrais da atuação da ESF, uma vez que as equipes podem antever a instalação dos agravos sobre a população e assim, proporcionar certa longitudinalidade do cuidado em saúde. Esta prática se desenvolve, na maioria dos casos, através das visitas domiciliares realizadas pelos profissionais das equipes. Todavia, questiona-se se os serviços ainda estão pautando a assistência oferecida no paradigma biomédico. Percebe-se que, em muitos aspectos, a atenção aos agravos está focalizada apenas na oferta dos exames em geral (e também de rastreio), existindo a necessidade de considerar os aspectos relativos aos comportamentos e as crenças da população nas práticas desenvolvidas pela ESF24,25. Salienta-se como uma das principais 113 dificuldades para a incorporação destas práticas na rotina das equipes de saúde o predomínio de uma visão imediatista de resolução dos problemas, tanto por parte dos profissionais quanto da comunidade assistida26. Devido às constantes demandas sociais e aos inúmeros problemas de saúde vivenciados pela população, a ESF necessita de ferramentas que possibilitem um melhor direcionamento de suas ações. Principalmente no que diz respeito às escolhas entre as questões que podem ser trabalhadas a médio e longo prazo daquelas que devem ser priorizadas. O Modelo de Crenças utilizado no estudo auxilia de certa forma, o entendimento do comportamento das mulheres frente à procura pelas técnicas de rastreio da doença, de maneira contextualizada ao seu território. Pode ser ainda uma ferramenta para a melhor compreensão da maneira como a população percebe a doença e seus cuidados, o que influencia diretamente na escolha por práticas e atitudes de prevenção. A proposta do MCS abarca apenas algumas dimensões destas possíveis barreiras, sendo importante considerar outros fatores como os aspectos históricos, culturais e familiares destas mulheres, com vistas à programação de estratégias que sejam pertinentes às peculiaridades de cada comunidade13,14,15,20,27. Acredita-se que a ESF, instrumentalizada pelo MCS, pode oferecer uma janela de oportunidades para a compreensão destes contextos, uma vez que sua dinâmica de atuação favorece a formação do vínculo entre as equipes de saúde e a população. As principais barreiras referidas pelas respondentes foram o medo e a vergonha, relacionados à prática do exame de rastreio colpotitológico, em consonância com outros achados de pesquisas realizadas nos município de Campinas 28 e Londrina (PR)10. A exposição do corpo no momento do procedimento remete a questões referentes à sexualidade e gênero, podendo aflorar sentimentos negativos de bloqueio e conflito para algumas mulheres. E estas resistências são geralmente externadas como medo, vergonha e desconforto relacionado ao exame29. A incorporação da discussão sobre sexualidade ainda é incipiente no 114 âmbito dos serviços de saúde, dificultando a construção de vínculo profissional-usuária. No caso especifico da atenção ao câncer de colo do útero, estas questões são centrais a todo o processo de cuidado, sendo necessária uma reflexão das práticas de acolhimento habitualmente utilizadas. Mais uma vez, a dinâmica de trabalho e as premissas da ESF se apresentam como diferenciadoras na incorporação destas inovações necessárias. O medo como fator impeditivo merece um pouco mais de reflexão. O sentimento foi abordado em quatro dimensões, guardando relações com a realização do procedimento, o profissional examinador, a dor e o possível resultado; sendo o último apresentado como uma das principais dificuldades para a realização do exame. Estudos apontam que o medo está freqüentemente associado à maneira como as mulheres percebem a sua saúde4,29. O diagnóstico do câncer possui um efeito quase devastador sobre a paciente, trazendo a idéia de aproximação com a morte, possíveis mutilações e a dor provenientes dos tratamentos. O enfrentamento de um possível diagnóstico da doença não é fácil, proporcionando incontáveis problemas emocionais 30. Nesta perspectiva, acredita-se que estratégias centradas no contexto familiar assegurando suporte para a paciente, além de considerar o seu saber e o da comunidade, podem amenizar estes sentimentos negativos frente aos exames diagnósticos e outros cuidados de saúde. O medo relacionado ao profissional examinador também merece destaque, uma vez que as diretrizes da Política Nacional de Atenção Básica8 dispõem sobre a formação de equipes de referência para cada grupo populacional. De acordo com esta Política, cada equipe é responsável por uma clientela específica, com o objetivo de facilitar a formação de vínculo. Contudo, observa-se que esta normativa não assegura que os problemas trazidos pelas usuárias serão necessariamente contemplados, principalmente nos casos de agravos estigmatizantes, onde as questões referentes à empatia entre o paciente e seu cuidador são fundamentais. Neste caso, o ideal seria que escolha do profissional de referência pudesse 115 partir da própria usuária, a fim de minimizar as dificuldades de acesso ao rastreio colpocitológico. Os resultados do estudo estão em sintonia com outros trabalhos, ao sugerir uma forte relação das barreiras de acesso ao exame com a classe econômica e a escolaridade das mulheres, bem como revelar significância estatística para a maior parte dos fatores impeditivos analisados5,28,31. Acredita-se que estas características podem guardar certa relação com a dificuldade de acessar a unidade de saúde por conta da rotina de vida destas mulheres. Alguns fatores amplamente discutidos na literatura como impeditivos do acesso ao rastreio deste câncer, como a situação conjugal e a cor, não foram estatisticamente significativos neste estudo28. Uma das possibilidades seria a homogeneidade da amostra em relação a estas variáveis. A utilização de um instrumento fechado para abordar um constructo que permeia a subjetividade pode ter contribuído como limitação do estudo, visto que outros fatores de impedimento estão envolvidos no processo de adesão às técnicas de rastreio colpocitológico. Ressalta-se, no entanto que o instrumento já foi utilizado com este objetivo em outros estudos no Brasil, mostrando certa adequação nos resultados encontrados. A comparação dos achados da presente pesquisa com estudos anteriores requer um cuidado especial. Apesar das diferenças metodológicas, principalmente no que tange a faixa etária e aos instrumentos de aferição utilizados para identificação das barreiras de acesso ao exame colpocitológico, pareceu interessante confrontar os resultados obtidos com estudos proximais realizados no país. Acredita-se que esta discussão tenha permitido apontar para hipóteses explicativas do fenômeno, ao revelar aspectos particulares à dinâmica da ESF, incentivando a ampliação das investigações sobre o tema. A população de Nova Iguaçu vivencia um complexo e interessante processo de mobilidade pendular, ou seja, se desloca regularmente para outros municípios – em especial a 116 capital - com objetivo de trabalhar ou estudar32. Este movimento de ida e vinda diário dificulta sobremaneira o acesso ao sistema de Atenção Primária à Saúde, já que as ações desenvolvidas pela ESF geralmente são ofertadas durante os dias úteis da semana e em horários fixos. Este processo também é comum em outras regiões intrametropolitanas, tornando necessária a reflexão sobre as formas de atuação da ESF no que concerne a captação dos usuários para a efetiva realização de práticas de saúde mais equânimes. Esta adequação da oferta de serviços não é tarefa fácil, e a ampla participação dos demais setores envolvidos com a saúde é fundamental para esta transformação. Mais uma vez, a proposta da ESF prevê este olhar intersetorial como forma de resolução dos problemas sob a ótica da promoção da saúde. Ainda será necessário percorrer um amplo caminho até que questões referentes ao gênero sejam contempladas nas agendas de discussão dos serviços de saúde. A despeito dos avanços observados e da redefinição do papel da mulher na sociedade ao longo do tempo, as repercussões geradas na qualidade de vida da população feminina nem sempre foram positivas. A sobreposição das atividades laborativas com os cuidados com o domicílio e a família sobrecarrega a mulher e dificulta a sua opção por práticas de cuidado. Além disso, considera-se importante o aspecto singular que a mulher exerce sobre as escolhas destas práticas no seu núcleo familiar e que também pode estar permeado pelas barreiras elucidadas neste estudo. Desta forma, os sentimentos de conflito vivenciados pela mulher acerca da adesão aos comportamentos preventivos podem ser generalizados para os outros componentes familiares, assumindo características de impedimentos a outras práticas de saúde. Estas reflexões deveriam permear a programação das atividades oferecidas no âmbito da ESF, a fim de contemplar integralmente as necessidades de saúde deste grupo33,34. Algumas possibilidades podem ser propostas a fim de amenizar os sentimentos de desconforto em relação à realização do exame colpocitológico, como a criação de espaços de 117 escuta e discussão sobre as barreiras de acesso, permitindo a formação de vínculos mais estreitos entre os atores envolvidos. A criação de estratégias de expansão dos horários de atuação da equipes de saúde da família também pode favorecer a captação das usuárias, uma vez que parte desta população acumula tarefas entre os espaços domiciliar e de trabalho. Conforme já exposto, estas não são tarefas fáceis e necessitam de uma articulação organizada e ampla. Mas acredita-se que a ESF seja um lugar privilegiado para o desenvolvimento destas mudanças, trazendo a perspectiva de melhoria na atenção à saúde da mulher, que passaria a ser oferecida de forma integral e mais humanizada. Referências 1. Instituto Nacional do Câncer (INCA). Estimativas 2008: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2007. 2. 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Benites APO, Barbarini N. Histórias de vida de mulheres e saúde da família: algumas reflexões sobre gênero. Psicol soc. 2009; 21:16-24. 122 CAPÍTULO 4: CONSIDERAÇÕES ADICIONAIS 123 4 CONSIDERAÇÕES ADICIONAIS Nos resultados expostos anteriormente não foi possível abarcar todos os resultados obtidos ao longo desta pesquisa, limitando-se apenas aos dados que contemplassem os objetivos do trabalho. Com isso, este capítulo destina-se a expor alguns resultados preliminares de análises ainda em andamento, bem como ressaltar possíveis desdobramentos para futuros estudos na área de investigação das barreiras de acesso ao rastreio do câncer do colo uterino. 4.1 A situação do rastreio do câncer do colo uterino na saúde pública de Nova Iguaçu Algumas questões foram necessárias para elaboração e concepção desta dissertação, a fim de permitir o reconhecimento do cenário do rastreio do câncer do colo do útero no município de Nova Iguaçu. Este levantamento caracterizou-se por um estudo ecológico, retrospectivo e analítico sobre a prevenção secundária do câncer do colo uterino, no banco do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Partindo da premissa que o maior número de rastreios colpocitológicos ocorre no nível primário da assistência à saúde, o recorte temporal ocorreu baseado no período de maior investimento e ampliação da ESF municipal nos anos de 2003 a 2005. A metodologia apoiou-se em análise descritiva dos dados referentes à patologia e as técnicas de rastreio da doença em mulheres de 25 a 59 anos de idade. Como os objetivos do estudo foram conhecer a situação da prevenção secundária e as taxas de mortalidade por câncer na região, elegeu-se como variáveis desta pesquisa a 124 cobertura de exames cérvico-vaginais, a adequabilidade das amostras coletadas, a mortalidade pela doença e o perfil sócio-demográfico dos óbitos por este câncer. Percebeu-se, portanto, que o município de Nova Iguaçu, embora tenha uma elevada cobertura de exames colpocitológicos, apresenta coeficiente de mortalidade específica superior à média estadual e nacional. Estes dados podem revelar problemas na forma de captação das usuárias para realização do exame. Acredita-se que uma mesma paciente possa estar realizando o exame, de forma indiscriminada, várias vezes ao ano. Esta situação pode auxiliar a elevação do número de exames coletados e dificultar a captação de mulheres com necessidade de rastreio da doença, mas que por ventura tenham dificuldades em acessar as unidades de saúde. Quanto ao perfil sócio-demográfico dos óbitos, percebeu-se forte relação com os demais estudos da área, sugerindo associações da doença com as vulnerabilidades e iniqüidades sociais. Também se pode observar uma elevada proporção de limitações e inadequações nas lâminas coletadas pelos serviços públicos de Nova Iguaçu. Os dados apontam que cerca de 60% das amostras coletadas neste período possuíam limitações, fossem elas por ausência de dados clínicos, presença de sangue ou material purulento, espessamento e dessecamento do material na lâmina, por ausência de células e outras causas. Acredita-se que as limitações apresentadas podem colaborar para o aumento dos resultados falso-negativos para câncer do colo uterino, dificultando a detecção precoce dos casos e implicando no aumento da mortalidade pela doença. Portanto, acredita-se que a análise de estratégias de educação permanente dos profissionais de saúde, bem como de captação seletiva e sistematizada das mulheres para realização dos exames colpocitológicos poderão auxiliar na melhoria da detecção precoce e dos indicadores de mortalidade pela doença. Estes aspectos permearam todo o desenvolvimento do percurso metodológico, incluindo os critérios de eleição dos instrumentos 125 de aferição utilizados e auxiliaram na composição do pano de fundo do capítulo de resultados. Além disso, os dados obtidos neste estudo resultaram em um artigo científico (Anexo 5), em fase de edição para a submissão no periódico “Epidemiologia e Serviços de Saúde”. 4.2 Resultados adicionais referentes ao inquérito domiciliar 4.2.1 Modelo de crenças: a susceptibilidade, a gravidade e os benefícios percebidos Em atendimento aos objetivos do estudo, o capítulo de resultados desta dissertação só contemplou os dados referentes à escala de barreiras. Desta forma, esta seção se destina a apresentação dos resultados obtidos nas outras escalas do MCS. A Tabela 4.1 apresenta a prevalência da percepção de susceptibilidade com relação à doença. De maneira geral, as mulheres se percebem pouco susceptíveis a doença. Dos cinco itens presentes nesta escala, poucas entrevistadas concordavam com as assertivas que explicitam a percepção da susceptibilidade. Mesmo com uma baixa percepção da susceptibilidade, as mulheres, de maneira geral, mostraram reconhecer e perceber os benefícios gerados pelas práticas preventivas do câncer do colo uterino. A Tabela 4.2 apresenta as prevalências dos resultados obtidos na escala de benefícios do CHBMS. A Tabela 4.3 demonstra a percepção de gravidade com relação à este câncer. Chama atenção a baixa percepção de gravidade em três dos sete itens da escala. Apenas 31,67% (26,20 / 37,14) das respondentes se mostraram sensíveis à duração dos problemas que 126 poderiam ser gerados pela doença. Outro item que se destacou foi a ameaça do relacionamento com o companheiro em decorrência do câncer, apontado por menos da metade da amostra (43,77%; IC 95%: 37,93 / 49,60). Já o terceiro item, o de menor prevalência (23,48%; IC 95%: 18,50 / 28,47) na amostra, versou sobre o risco e o tempo de morte relacionado à doença. Os dados aqui apresentados ainda merecem análises aprofundadas visando à compreensão e o reconhecimento da participação de outros aspectos subjetivos e relacionados ao MCS na opção da mulher em realizar o exame colpocitológico. 4.2.2 Média dos resultados obtidos nas escalas do CHBMS por subgrupos estudados Outros resultados que merecem ser explicitados e futuramente analisados são as médias obtidas nas escalas do CHBMS conforme os subgrupos estudados. Destaca-se que nesta subseção serão apenas apresentados e comparados os dados entre os próprios componentes das escalas. A Tabela 4.5 apresenta a associação entre as características sócio-demográficas e as médias obtidas nestas escalas. Como pode ser observado, há diferenças significativas entre as médias obtidas nas escalas quando associadas às faixas etárias. Quanto maior a faixa etária, maior a percepção da susceptibilidade da doença. Todavia, as mulheres entre 50 e 59 anos se viram menos susceptíveis do que as demais. Ainda nesta faixa etária, pode-se evidenciar a percepção de menor gravidade da doença e dos benefícios atribuídos às ações preventivas e maiores barreiras para acessar estas práticas. Em relação à etnia, pode-se observar que as mulheres brancas percebem-se de forma menos susceptível do que as demais, bem como apresentam menor percepção da gravidade da doença. Em relação às mulheres pardas, evidenciam-se menor percepção da gravidade e dos benefícios atribuídos às práticas preventivas. No que tange às barreiras de acesso, as mulheres 127 que apresentam maior dificuldade para realização do exame são as de cor negra, amarela e indígena. As mulheres que possuíam ensino universitário perceberam-se menos susceptíveis, com menor gravidade da doença e com menos benefícios atribuídos ao exame. Em relação às barreiras ao acesso, observa-se que, quanto maior a escolaridade, menor a percepção de fatores impeditivos ao exame. As mulheres que possuíam uma situação conjugal com companheiros fixos, ou seja, mulheres casadas e em união consensual, perceberam de forma mais fraca a susceptibilidade e a gravidade da doença, embora tenham relatado maiores benefícios ao exame. Quanto às mulheres solteiras, viúvas e desquitadas, observou-se que atribuíam menores benefícios ao exame preventivo e que apresentavam maiores dificuldades de acesso às práticas preventivas. A característica de classe econômica se comportou de forma similar à situação conjugal. Quanto maior a classe, menor a percepção de susceptibilidade e gravidade da doença. Já as classes econômicas mais baixas, classes D e E, apresentaram maiores barreiras impeditivas ao acesso e menor percepção dos benefícios do exame. A Tabela 4.6 demonstra a associação entre as médias obtidas nas escalas do CHBMS e a utilização dos serviços de prevenção do câncer do colo do útero. As mulheres que já realizaram o exame ao menos 1 vez na vida, as que realizaram duas colpocitologias nos últimos 12 meses e as que buscam a prática colpocitológica como rotina para o rastreio, possuem maior percepção da doença com relação à sua gravidade. Quanto à escala de benefícios, observou-se média menor quando as mulheres nunca realizaram o exame, as que não o realizaram no último ano e as que buscaram a realização da colpocitologia mediante a um problema pré-existente. 128 Já com relação às barreiras ao acesso à colpocitologia, as diferenças entre as médias demonstraram-se mais expressivas nos casos nos quais as mulheres nunca realizaram a colpocitologia oncótica, nas que não realizaram o exame no último ano e nos casos de procura por outras práticas preventivas com intervalo superior a um ano. Também pôde observar-se relação entre os fatores motivacionais de realização da prática preventiva e da percepção das barreiras. As mulheres que não buscaram o exame como rotina perceberam maior dificuldade de realização do rastreio do câncer do colo uterino do que as demais. Futuros estudos poderão contemplar estes resultados para melhor compreensão do comportamento preventivo com relação ao câncer do colo uterino, principalmente no que tange à opção pela realização ou não das técnicas de rastreio da doença. 4.3 Considerações finais e desdobramentos futuros Os resultados encontrados ao longo deste estudo demonstraram que a ESF de certa forma já contempla alguns aspectos da participação social nas abordagens preventivas do câncer do colo uterino, haja vista o perfil de utilização dos serviços de rastreio da doença na amostra estudada. A despeito dos avanços conquistados, muito ainda precisa ser feito para que os aspectos comportamentais das mulheres sejam contemplados nas políticas e programas de prevenção do câncer. Acredita-se que os achados deste estudo possam estar ocorrendo em outras localidades com perfil sócio-demográfico semelhante, podendo ser considerado um problema multi-municipal. O medo e a vergonha como principais barreiras impeditivas do exame sugerem a necessidade de repensar a forma de atuação das equipes de saúde. Acredita-se que a criação 129 de espaços discussão sobre sexualidade e gênero, bem como sobre a forma de realização do exame parecem surtir efeito sobre estes fatores impeditivos, uma vez que contemplam os sentimentos e expectativas das mulheres sobre os serviços de rastreio da doença. Outra ação que parece colaborar para a redução destas barreiras é a capilarização da ESF, visando o aumento do acesso ao exame e, por sua vez, de outras práticas preventivas em relação ao câncer do colo uterino. Os estudos que abarcam as crenças em saúde e o comportamento preventivo do câncer do colo uterino ainda carecem de uniformização metodológica e conceitual, bem como de maior aprofundamento na Saúde da Família como cenário de pesquisa. Uma das frentes de trabalho a serem desenvolvidas é a forma pela qual as crenças em saúde podem influenciar os comportamentos de prevenção do câncer do colo do útero. A percepção da susceptibilidade e gravidade da doença, bem como os benefícios atribuídos ao exame, também merecem análises mais detalhadas. Acredita-se que estudos que contemplem estas análises possam contribuir para a programação das atividades da ESF tanto a nível local quanto no âmbito da gestão. Outro estudo que parece favorável à compreensão da dinâmica de prevenção deste câncer é a análise dos relatos dos profissionais que atuam na linha de frente da Saúde da Família. A partir destes dados será possível o entendimento acerca do modo de estruturação das ações e os principais aspectos que dificultam e motivam este tipo de prevenção. Confrontando estes resultados será possível perceber as reais dificuldades acerca da programação dos serviços de prevenção e detecção precoce do câncer do colo do útero. Portanto, acredita-se que através de análises científicas dos comportamentos da população, muito ainda se pode contribuir para a oferta de ações de prevenção do câncer e promoção da saúde. Através do reconhecimento dos principais fatores impeditivos ao acesso às práticas de rastreio e da reordenação dos serviços pela Saúde da Família, pode-se colaborar 130 com subsídios para as políticas públicas de saúde, bem como para modificar o atual panorama do câncer do colo do útero. 131 Tabela 4.1. Prevalência (%) dos resultados obtidos na escala de susceptibilidade do CHBMS em mulheres residentes na área de cobertura da ESF de Nova Iguaçu, 2009. Concordo Discordo / Não concordo em nem discordo Tenho certeza que vou ter câncer de colo do útero algum dia 8,18 (4,96 – 11,40) 91,81 (88,59 - 95,03) Acho que vou ter câncer do colo do útero algum dia 8,89 (5,54 - 12,24) 91,10 (87,75 - 94,45) Tenho grande chance de ter câncer do colo do útero nos próximos 10 anos 7,11 (4,09 – 10,14) 92,88 (89,85 - 95,90) Minha chance de ter câncer do colo do útero é grande 8,54 (5,25 – 11,82) 91,45 (88,17 – 94,74) 4,27 (1,89 – 6,64) 95,72 (93,35 – 98,10) Questão N 281 Tenho mais chance de ter câncer do colo do útero que as outras pessoas 132 Tabela 4.2: Prevalência (%) dos resultados obtidos na escala de benefícios do CHBMS em mulheres residentes na área de cobertura da ESF de Nova Iguaçu, 2009. Concordo Discordo / Não concordo em nem discordo Quando eu faço o exame preventivo que o médico mandou, eu fico aliviada 92,52 (89,43 – 95,62) 7,47 (4,37 – 10,56) Quando eu faço o exame preventivo, não me preocupo muito com o câncer do colo do útero 69,03 (63,60 – 74,47) 30,96 (25,52 – 36,39) Fazer o exame preventivo ajuda a descobrir logo o câncer do colo do útero 93,59 (90,71 – 96,47) 6,40 (3,52 – 9,28) Fazer o exame preventivo diminui a chance de eu morrer de câncer do colo do útero 92,52 (89,43 – 95,62) 7,47 (4,37 – 10,56) 92,88 (89,85 – 96,90) 7,11 (4,09 – 10,14) Questão n 280 Fazer o exame preventivo diminui a chance de eu ter uma cirurgia grande se eu tiver câncer do colo do útero 133 Tabela 4.3: Prevalência (%) dos resultados obtidos na escala de gravidade do CHBMS em mulheres residentes na área de cobertura da ESF de Nova Iguaçu, 2009. Concordo Discordo / Não concordo em nem discordo A idéia de câncer do colo do útero me apavora 61,92 (56,20 – 67,63) 38,07 (32,36 – 43,79) Quando eu penso em ter câncer do colo do útero, meu coração dispara 56,58 (50,75 – 62,41) 43,41 (37,58 – 49,24) Tenho medo até de pensar em câncer do colo do útero 59,78 (54,01 – 65,55) 40,21 (34,44 – 45,98) Os problemas que eu teria com câncer do colo do útero iriam durar muito tempo 31,67 (26,20 – 37,14) 68,32 (62,85 – 73,79) O câncer do colo do útero pode ameaçar minha relação com meu parceiro 43,77 (37,93 – 49,60) 56,22 (50,39 – 62,06) Se eu tivesse câncer do colo do útero, minha vida toda iria mudar 60,85 (55,11 – 66,59) 39,14 (33,40 – 44,88) 23,48 (18,50 – 28,47) 76,51 (71,52 – 81,49) Questão n 281 Se eu tiver câncer do colo do útero, não vou viver mais que cinco anos 134 Tabela 4.4: Média dos resultados obtidos nas escalas do CHBMS nos diferentes subgrupos de mulheres residentes na área de cobertura da ESF de Nova Iguaçu, 2009. Características Idade De 20 a 29 anos De 30 a 39 anos De 40 a 49 anos De 50 a 59 anos Raça / Cor Branca Preta Parda Amarela/Indígena Escolaridade Nenhuma De 1ª a 4ª série De 5ª a 8ª série Ensino médio Ensino universitário Situação conjugal Casada/União Cons. Solteira Desquitada/Viúva Classe econômica B C D E Susceptibilidade n M 281 10,56 10,57 10,81 9,68 281 9,73 10,59 10,83 14,50 281 10,20 10,49 10,45 10,62 9,00 281 10,25 10,95 10,75 281 8,63 10,37 10,84 13,80 Gravidade n M 281 21,58 21,43 20,95 20,25 281 20,73 22,26 20,81 22,50 281 21,13 21,76 21,67 19,86 19,00 281 21,13 20,98 21,64 281 19,47 21,09 21,42 25,60 Benefícios n M 280 16,22 16,37 15,89 15,85 280 16,32 16,25 15,95 14,00 280 15,86 15,99 16,12 16,41 15,80 280 16,27 15,95 15,67 280 16,84 16,23 15,81 15,50 Barreiras N M 280 20,91 20,64 20,70 23,16 280 19,89 22,80 21,05 25,50 280 23,60 22,27 20,80 19,79 16,40 280 20,57 22,51 21,94 280 17,31 20,75 22,42 28,50 135 Tabela 4.5: Média dos resultados obtidos nas escalas do CHBMS nos diferentes subgrupos de mulheres residentes na área de cobertura da ESF de Nova Iguaçu, 2009. Características Já realizaram o exame Sim Não Fr do exame nos últimos 12 meses Nenhum 1 exame 2 exames Intervalo de tempo do último exame Menos de 1 ano De 1 a 3 anos Mais de 3 anos Motivo da busca pelo exame Rotina Problemas pré-existentes Susceptib. n M 281 11,76 10,47 281 10,56 10,49 10,96 257 10,42 10,56 10,53 281 10,47 10,47 Gravidade n M 281 21,07 23,07 281 21,62 21,03 20,48 257 20,94 22,13 19,46 281 20,95 22,03 Benefícios n M 280 16,21 14,25 280 15,82 16,23 16,48 257 16,27 16,22 16,30 280 16,19 15,87 Barreiras n M 280 20,87 27,91 280 23,73 20,04 19,06 257 19,88 23,15 20,30 280 20,82 22,54 136 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABEP. Critério de Classificação Econômica Brasil. 2003. Disponível em: <http://www.abep.org/codigosguias/ABEP_CCEB.pdf> Acessado em: 02 de dezembro de 2008 ALEIXO NETO, A. Aspectos epidemiológicos do câncer cervical. Rev Saúde Pública, v.25, n.5, p.326 - 333. 1991. AMORIM, V, et al. 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Estudo da atitude e do conhecimento dos médicos não oncologistas em relação às medidas de prevenção e rastreamento do câncer. Rev. Assoc. Med. Bras, v.50, n.3, Jul / Set, p.257 - 262. 2004. VIANA, A.DAL-POZ, M. A reforma do sistema de saúde no Brasil e o Programa de Saúde da Família. Rev. Saúde Coletiva, v.15 (Suplemento), 2005. Disponível em: < www.saocamilo-ba.br/clipping/saude.pdf >. Acessado em: 17 de agosto de 2008 143 ANEXOS 144 ANEXO 1: CADERNO DOS ENTREVISTADORES UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ MESTRADO EM SAÚDE DA FAMÍLIA BARREIRAS NA PREVENÇÃO DO CÂNCER DO COLO UTERINO: UMA ANÁLISE MEDIADA PELO MODELO DAS CRENÇAS EM SAÚDE E SOB A PERSPECTIVA DA ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA “Caderno dos Entrevistadores” I INTRODUÇÃO Esta pesquisa é um dos projetos do Programa de Mestrado em Saúde da Família, sediado na Universidade Estácio de Sá (UNESA), desenvolvido sob a linha de pesquisa “Diagnósticos Locais e Cuidados Básicos em Saúde da Família”. Esta linha tem como objetivos diagnosticar as necessidades, demandas, utilização e satisfação da população em uso de cuidados básicos de saúde, a resolubilidade destas práticas e a multicausalidade do processo saúde e doença. Em conformidade com a linha de pesquisa descrita, este estudo, em particular, tem como finalidade analisar os fatores impeditivos do acesso às práticas preventivas do câncer do colo uterino em mulheres residentes na área de cobertura da ESF do município de Nova Iguaçu, RJ. Visando atender o objetivo exposto, será realizado um estudo do tipo corte transversal, através de um inquérito domiciliar, na população residente no território de cobertura de duas equipes de saúde da família amostradas por critério de conveniência. Será aplicado um questionário estruturado, após autorização formal e assinatura do “Termo de Consentimento 145 Livre e Esclarecido” (TCLE), numa amostra de 326 mulheres na faixa etária de 20 a 59 anos, selecionadas por meio da técnica de amostragem sistemática. A duração da coleta está prevista para 3 semanas. As informações necessárias ao estudo serão obtidas a partir de entrevista face-a-face em um ambiente reservado e de escolha da própria respondente, abordando questões relativas a caracterização da clientela, aos hábitos de prevenção do câncer do colo do útero, aos fatores de risco e de exposição, a percepção da mulher sobre a suscetibilidade e a gravidade da doença e os benefícios e barreiras advindos das práticas preventivas. Os entrevistadores e o coordenador da pesquisa vão estar presentes no campo do estudo ao longo das semanas e distribuídos em turnos. Destaca-se novamente que o entrevistador só poderá dar início ao estudo com o consentimento verbal e escrito da mulher selecionada. Neste contexto, faz necessário salientar que neste momento está se iniciando uma das mais importantes etapas deste tipo de estudo: a coleta de dados. Um trabalho de campo sem o necessário cuidado pode prejudicar todos os esforços praticados e conduzidos até o presente momento, pois pode levar a perda de confiabilidade dos dados. Nesta perspectiva, o trabalho realizado pelo grupo de entrevistadores assume um papel ímpar e de importância estratégica para o sucesso da pesquisa. Para assegurar que os dados coletados sejam comparáveis, este guia de instruções e procedimentos tem por finalidade uniformizar as ações dos entrevistadores durante o processo de coleta de dados. Em pesquisas epidemiológicas, como esta, não há lugar para improviso. Em caso de dúvidas ou problemas que não possam ser sanados com o auxílio deste manual, consulte o colega ou coordenador do projeto. 146 II DIRETRIZES GERAIS PARA CONDUÇÃO DA ENTREVISTA 2.1. Informações gerais do instrumento. • As caixas de texto contendo frases em negrito e itálico deverão ser lidas integralmente para as respondentes. • O instrumento contem frases de orientações para o entrevistador. Elas sempre estarão dispostas em negrito e iniciando com a palavra “Entrevistador”. Em hipótese alguma estas frases deverão ser lidas em voz alta, a fim de não influenciar a resposta do entrevistado. • As opções de resposta, na maior parte das vezes, não deverão ser lidas para os entrevistados, cabendo ao entrevistador falar somente o enunciado da questão. Nos casos em que for prevista a leitura das opções de resposta para a entrevistada, sempre haverá uma indicação após a pergunta. • Algumas opções de resposta estão vinculadas a outras perguntas (como exemplo, a questão 5). Neste caso sempre haverá uma indicação entre parênteses e em negrito para qual pergunta o entrevistador deverá passar. Fique atento! • Todos os pequenos problemas em cada questão devem ser registrados ao lado das mesmas (quando houver espaço) ou na margem superior ou inferior da folha. Nunca faça registros que possam vir a prejudicar a leitura do instrumento. Atenção também quanto a forma da escrita, a fim de viabilizar o entendimento do registro realizado. 2.2. Regras gerais para uma boa entrevista. Há certas regras que você deve ter em mente para a garantia de uma entrevista imparcial e com fidedignidade das respostas – a saber: • Permaneça sempre neutro 147 - Você deve manter sempre uma atitude neutra para com a mulher; - Não mostre surpresa ou faça comentários com as coisas que ouve. No momento da coleta qualquer informação que não esteja prevista no instrumento e na pesquisa, poderão alterar a precisão dos dados. Fique tranqüilo, pois ao término do estudo estas mulheres serão convidadas a participar de rodas de discussão com base na análise dos dados coletados; - Coloque a entrevistada a vontade, criando um clima propício para a entrevista e ganhando sua confiança. • Faça todas as perguntas exatamente como elas estão formuladas - Não mude nem mesmo uma palavra do questionário impresso; - Na maioria das vezes, a menor mudança pode afetar o sentido da pergunta, alterando a resposta da mulher e impossibilitando o cruzamento de dados de outras entrevistas; - Mesmo que você sinta que a pergunta pode ser formulada de maneira mais simples, não improvise. Cada palavra tem um motivo para estar lá. • Faça as perguntas na ordem em que elas aparecem - Nunca mude a ordem das perguntas do questionário. As perguntas seguemse uma às outras numa seqüência lógica. Mudar esta seqüência destruirá a finalidade do questionário; - Se a mulher está falando livremente, você pode sentir que ele já respondeu a algumas das perguntas antes que você tenha chegado nelas. Mesmo assim, não pule nenhuma pergunta, mesmo que haja alguma repetição. Se alguma mulher se irritar um pouco e disser: “Já falei isso...”, você pode 148 dizer alguma coisa agradável como: “tenho que ter certeza de que V/S me deu a resposta completa para isso”, ou "V/S pode ter me falado sobre isso, mas deixe-me perguntar de novo para me certificar”; - No entanto, há perguntas que você será instruído a omitir ou pular, dependendo das respostas a outras perguntas. Mas isto estará sempre claramente indicado e haverá instruções escritas para você seguir. As instruções de pulo e omissão de perguntas virão sempre antecedidas da palavra “Entrevistador” em negrito. • Certifique-se de que a mulher não esteja vendo as perguntas - As mulheres podem ser influenciadas ao saber as perguntas que virão ou ao ver as categorias de respostas, que nem sempre são para ser mostradas. Existirá sempre uma indicação na pergunta quando as opções de resposta devem ser lidas para a mulher. • Não aceite um fácil “não sei” como resposta sem mais uma tentativa de obter a informação que precisamos - Tente mais uma vez obter uma réplica para uma resposta “não sei” antes de aceitá-la como a resposta final. Tenha cuidado para não forçar uma resposta caso ela diga novamente que não sabe. Nesse caso, marque a opção NS (não sabe) e passe para a próxima questão. • Direito da mulher de não querer responder - Lembre-se que a mulher tem o direito de não responder a qualquer pergunta que ela queira. Nesses casos marque a opção NR (não respondeu) e passe para a próxima questão. 149 • Checando as respostas - Checar uma resposta é esclarecer ou confirmar a informação prestada pela mulher. Perguntas estruturadas devem ser comprovadas apenas se a mulher não responder dentro das possibilidades previstas; - Por exemplo, suponha que a mulher lhe dê uma resposta para uma pergunta estruturada que não se encaixa exatamente em nenhuma das categorias préestabelecidas. Você pode dizer: "Bem, qual dessas opções se aproxima mais?” e repetir as respostas que estão na pergunta. • Desestimule irrelevâncias - Às vezes, uma determinada pergunta pode fazer com que a mulher se lembre de alguma coisa ou relate alguma história ilustrativa da resposta que ele acabou de dar, sobretudo entre “entrevistadas faladoras”; - Você fará um favor tanto para si mesmo quanto para a mulher se imprimir à entrevista um tom profissional. - Se você se depara com uma mulher dispersa, digressiva, ou que envereda numa conversa irrelevante, não hesite em interromper e trazê-la de volta ao ponto da pergunta, repetindo o que você quer saber. Ao mesmo tempo, é claro, tenha cuidado para não antagonizar a mulher. • Não explique palavras de uma pergunta a menos que haja indicação para isso - Algumas vezes, as entrevistadas pedirão para que você explique palavras de uma pergunta ou partes dela. Em algumas situações especiais, você pode 150 fazer isso. Mas, nesses casos, haverá uma indicação que lhe dirá qual a explicação ou definição a ser dada; - Se não estiver especificado, você não pode oferecer sua própria definição ou explicação. Você deve responder à dúvida dizendo: “o que quer que isso signifique para V/S”. - Se a mulher não consegue responder a pergunta devido à sua falta de entendimento, codifique NS. Lembre-se de fazer alguma anotação explicando a natureza do problema. III PROBLEMAS QUE PODEM AFETAR AS PERGUNTAS • Respostas divergentes - Em alguns casos você se defrontará com alguns problemas que dificultam o manuseio das perguntas que têm opções de resposta. Por exemplo: às vezes a mulher não consegue escolher nenhuma das categorias de respostas oferecidas; - Pode acontecer que a mulher sinta que nenhuma das respostas pré-definidas serve ou que ela escolheria uma resposta sob certas condições e outra resposta sob condições diferentes; - Neste caso, você deve tentar induzi-la à generalização, repetindo a pergunta e dizendo: “De modo geral, é desse jeito ou do outro?” ou “na maioria das vezes...” ou “quase sempre...”, etc. - Se ela insistir que não pode escolher, escreva sua primeira resposta e anote do lado da pergunta que isso aconteceu. 151 • Respostas vagas e generalizadas - Nas conversas diárias, às vezes as pessoas conversam em termos vagos ou imprecisos. É comum que no início da entrevista as mães respondam de forma pouco precisa. É importante estimulá-la a se expressar de forma mais específica. • Respostas “não sei” - Em geral, a entrevistada responde “não sei” a uma pergunta por um dos quatro motivos listados a seguir: ♦ Ela não entende a pergunta e diz “não sei” para evitar dizer que não entendeu. ♦ Ela está pensando na pergunta e diz apenas para ganhar tempo para pensar mais. ♦ Ela pode estar fugindo do assunto porque se sente pouco informada e tem medo de dar uma resposta errada. ♦ - Porque a pergunta lhe parece muito pessoal, íntima ou inoportuna. Não se apresse para checar uma resposta “não sei”. Se você ficar quieto – mas com uma atitude de expectativa – a mulher achará que há algo mais para ser dito. Silêncio e espera são, geralmente, a melhor coisa a fazer nestas horas. - Caso isso não funcione, você pode dizer: “mas, o que você acha disso?” ou “Em geral..., mais ou menos...?”, etc. • Respostas à perguntas dependentes - Perguntas dependentes são aquelas que são perguntadas somente à algumas entrevistadas. A determinação de quem deve ser perguntado “depende” da resposta à pergunta anterior. 152 - Por exemplo, se a mulher responde “não” à pergunta 30, deve-se checar a idade da respondente. Caso ela tenha 35 anos ou mais, deve-se passar para a questão 32. Caso ela tenha menos de 35 anos, deve-se passar para a questão de número 38. - Nas perguntas que foram puladas, em decorrência de perguntas dependentes, informe o código NA (não se aplica). - Sempre que for necessário um pulo, haverá uma indicação na pergunta avisando qual a próxima questão a ser perguntada. - É comum que a entrevistadora comece a formular uma pergunta dependente, antes de conferir se, realmente, ela deve ser feita. Para evitar isso, você deve conhecer bem o questionário e suas instruções antes de começar o trabalho de campo. Se acontecer de você fazer uma pergunta a alguém que não deveria, risque a resposta registrada. IV REGISTRANDO AS RESPOSTAS • Já falamos sobre como formular as perguntas e como esclarecer e completar as respostas. Ambas são tarefas muito importantes. No entanto, se você erra ao registrar a resposta, todos os seus esforços anteriores terão sido em vão. Em geral, é claro, o seu registro deve ser o mais fiel possível aquilo que a entrevistada diz. Como em nosso estudo, a grande maioria das perguntas são fechadas, isto é, tem opções de resposta já especificadas, devemos nos concentrar para descrever uma das opções oferecidas. • Esteja pronto para escrever. Tenha o lápis preparado quando você fizer as perguntas. • Use abreviações. No entanto, depois de terminada a entrevista, observe as abreviações que você usou. Se alguma puder causar confusão para o digitador do questionário, escreva o termo por extenso antes de entregar o trabalho. Certifique-se de que a sua caligrafia é legível. 153 • Peça a mulher para falar devagar. As pessoas em geral gostam quando você pede que falem mais devagar, ou repitam alguma coisa, ou que esperem um minuto até que você entenda melhor, porque você “não quer perder nada” ou “quer registrar tudo”. Outras técnicas incluem você falar mais devagar e ir lendo à medida que escreve. • Tenha sempre material extra. Anote sempre as respostas com lápis. Leve pelo menos três para o caso de algum quebrar. • Desenhe um círculo em volta da opção de resposta dada pela mulher; • Deve-se dar atenção especial ao desenho do círculo de modo que ele não inclua mais do que uma opção de resposta. Lembre-se: problemas nessa etapa são impossíveis de resolver depois. • Use um X ao lado da questão que tiver merecido algum tipo de esclarecimento por parte do entrevistador ou que tenha merecido alguma observação escrita no questionário. • Por favor, faça suas próprias observações quando sentir que algo precisa de explicação. Use o espaço em branco disponível do questionário, conforme orientado anteriormente. Você pode querer dar explicações, tais como: a mulher começou a se inquietar, a mulher riu, a mulher chorou e se recusou a responder a pergunta, etc. Todas as suas observações podem ser úteis durante o procedimento de análise dos dados. • Se a mulher mudar de idéia depois de você fizer o círculo em torno de uma opção de resposta, apague-o e circule a opção correta 154 V REVISANDO AS ENTREVISTAS. • LOGO depois de terminada a entrevista, revise o questionário e certifique-se de que o preencheu de forma correta e completamente. Esse procedimento, mesmo que tome muito tempo, é parte importante do trabalho do entrevistador, pois essa é a última chance de corrigir erros, anotar algo que tenha sido pulado ou tirar qualquer outra dúvida com a mulher, pois será muito difícil ter oportunidade de encontrá-la novamente. • Alguns dos objetivos dessa revisão são: - Identificar e corrigir ou explicar erros ou omissões no registro. Erros comuns que podem ser flagrados numa revisão: códigos omitidos, perguntas puladas erradamente e erros ao circular os códigos. Sob a pressão da situação da entrevista, você pode cometer qualquer um desses erros. A maioria deles pode ser corrigida se você faz a revisão logo após a entrevista. - Aprender para que os erros não se repitam. Normalmente os erros que ocorrem em uma entrevista tendem a se repetir. Estude seus erros e fique atento para que não aconteçam novamente. - Melhorar a caligrafia e escrever as abreviações por extenso. - Anotar as dúvidas e problemas que por ventura tenham ocorrido para ser checado com o coordenador da pesquisa. VI DEMAIS ORIENTAÇÕES DO TRABALHO DE CAMPO. • Cada entrevistador está recebendo uma pasta contendo: lápis, borrachas e canetas para o trabalho de campo, questionários em branco e os Termos de Consentimento Livre e 155 Esclarecido para o preenchimento durante a entrevista, uma planilha contendo o nome e o endereço das mulheres selecionadas para entrevista, folhas para anotações e o caderno de instruções da pesquisa. • Ao chegar no domicílio, apresente-se de forma cordial, informando o motivo da visita e a importância da colaboração para a entrevista “Bom dia / Boa tarde. Meu nome é (nome do entrevistador). Qual o seu nome? Sou entrevistador (a) da pesquisa sobre câncer do colo do útero, que está sob a coordenação do Enf. Ricardo de Mattos Russo Rafael. Nesta pesquisa, pretende-se retratar os hábitos e as percepções das mulheres em relação a doença e suas formas de prevenção. A Sra. foi selecionada através do cadastro da Equipe de Saúde da Família X. Será de extrema importância a sua colaboração, pois com base neste estudo poderão ser estabelecidas estratégias para melhoria das condições de prevenção deste câncer. A Sra. poderia participar deste estudo conosco? (...)” • Caso a mulher aceite participar do estudo, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido deverá ser preenchido e assinado em duas vias (uma que ficará em posse do entrevistador e anexado ao instrumento e outra que deverá ser entregue para a mulher entrevistada). Nos casos em que a entrevistada não saiba escrever, o entrevistador deverá justificar e rubricar ao lado. • Se não for possível encontrar alguém no domicílio, tentar mais 2 vezes em outros horários e dias da semana. Registre no caderno de anotações para que outro colega possa tentar em outro momento. • Se a entrevista precisar ser interrompida pela mulher, tentar negociar com a respondente para chegar até o final, pois isso inviabilizaria aquela entrevista e poderia prejudicar o estudo. 156 • Ao sair para o trabalho de campo o entrevistador deverá levar sua pasta com questionários preenchidos até o coordenador. Lembre-se: os questionário serão recolhidos diariamente ao término do turno de entrevistas. Muito obrigado pela atenção e ajuda! Uma boa sorte! 157 ANEXO 2: INSTRUMENTO DA PESQUISA UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ MESTRADO EM SAÚDE DA FAMÍLIA INSTRUMENTO DA PESQUISA: BARREIRAS NA PREVENÇÃO DO CÂNCER DO COLO UTERINO: UMA ANÁLISE MEDIADA PELO MODELO DAS CRENÇAS EM SAÚDE E SOB A PERSPECTIVA DA ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA Respondente: [______________________________________]. Telefone: [_|_|_|_-_|_|_|_] Código do entrevistador: [__] (1) Alexandre Caetano de Souza; (2) Daiane dos Santos Duarte; (3) Eliane da Silva Alexandrino; (4) Francilei Rodrigues de Souza; (5) Luisa Helena Carneiro Ribeiro; (6) Monique Souza Moraes; (7) Patricia Carvalho Sanches; (8) Rosana da Silva Santos; (9) Rosangela Aparecida de Souza. Data: [___ / ____/ 2009]. Horário de início da entrevista - [__|__:__|__] Considerar os seguintes códigos: Não respondeu / Não sabe (NR/NS) – 777 Não se aplica – 999 MÓDULO I - INFORMAÇÕES GERAIS 1. Quantos anos a Sra. tem? [_ | _] anos. 2. Como a Sra. classifica a sua cor/etnia? (1) Branca (2) Preta (3) Amarela (4) Parda (5) Indígena 158 3. A Sra. sabe ler e escrever? (1) Sim (0) Não 4. Qual a sua escolaridade? (0) Nenhuma. (1) Primário incompleto. (2) Primário completo. (3) Ginasial incompleto. (4) Ginasial completo. (5) Colegial incompleto (6) Colegial completo (7) Superior incompleto. (8) Superior completo. 5. Qual a sua situação conjugal? (1) Casada/União consensual (Passe 7) (2) Separada/Divorciada/Desquitada (3) Solteira (4) Viúva 6. Possui parceiro fixo? (1) Sim (0) Não 7. Em média, qual a sua renda mensal? R$ [_|_|_|_|_,_|_] 8. Quanto aos seus bens, por favor, me responda à quantidade de cada item desta lista que vou ler... Itens Televisão em cores Rádio Banheiro Automóvel Empregada Mensalista Aspirador de pó Máquina de lavar Vídeo cassete e/ou DVD Geladeira Freezer (independente geladeira duplex) Pontuação ou parte da 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Quantidade de Itens 1 2 3 2 3 4 1 2 3 2 3 4 2 4 5 2 4 4 1 1 1 1 1 1 2 2 2 2 2 2 0 1 1 1 4 ou + 5 4 4 5 4 1 1 2 2 1 159 9. Qual a escolaridade do chefe de família, ou seja, da pessoa responsável pela casa? Grau de instrução do chefe Pontos Analfabeto/ primário incompleto 0 Primário completo/ ginásio incompleto 1 Ginásio completo/ colegial incompleto 2 Colegial completo/ superior incompleto 3 Superior completo 5 10. Entrevistador: Este campo está destinado ao somatório das questões 8 e 9. Esta ação é destinada ao coordenador da pesquisa (autor do trabalho). Escore da Classificação Econômica Brasil: [_|_] 160 MÓDULO II - EXAMES PARA DETECÇÃO DE CÂNCER DO COLO DE ÚTERO E USO DE HORMÔNIOS 11. A Sra. alguma vez fez exame preventivo? (1) Sim (0) Não (passe 17) 12. Quantos exames preventivos a Sra. fez nos últimos 12 meses? [ _|_ ] Exames (0) Nenhum 13. Em que mês e ano a Sra. fez o seu último exame preventivo? [ _|_ ] Mês e [_|_|_|_] Ano Ou [ _|_ ] Idade Ou (777) NR/NS 14. Na última vez que a Sra. fez o exame preventivo, a Sra. fez: Entrevistador: Leia as alternativas. (1) Como exame de rotina, não apresentando nenhum problema visível no momento do exame (passe 16) (2) Para checar/ examinar problemas existentes ou anteriores ao momento do exame. (3) Outros _____________(especifique) (passe 16) (777) NS/NR (Não leia) – Passe para 16 15. Que problema ? Entrevistador: Leia as alternativas. (1) Problema que pode levar a câncer de colo do útero / infecção por HPV (2) Corrimento (3) Outros ______________(especifique) (777) NS/NR (Não leia) 16. Na última vez que a Sra. fez o preventivo, a Sra usou o Sistema Único de Saúde, quer dizer, procurou atendimento público gratuito? (1) Sim (0) Não 17. Desde a 1ª vez que a Sra. fez o preventivo, com freqüência a Sra. fez outros exames preventivos, como as consultas médicas ou de enfermagem periódicas, exames de mamas e outros exames ginecológicos? (1) 6 em 6 meses (2) Anualmente (3) 1 vez a cada 2 anos (4) 1 vez a cada 3 anos (5) 1 vez a cada 4 – 5 anos (6) 1 vez a cada 6 – 10 anos (7) Menos freqüente a cada 10 anos (8) Só fez uma vez na vida (9) Variável (777) NS/NR 18. Sra. já ficou grávida? (1) Sim (0) Não (passe 25) 19. Quantas vezes a Sra. ficou grávida? [ _|_ ] Vezes 20. Com que idade a Sra. teve a sua primeira gravidez? [ _|_ ] Idade ou [_|_|_|_] Ano da primeira gravidez ou [ _|_ ] Idade do primeiro filho 21. A Sra. teve filhos nascido vivos? (1) Sim (0) Não (passe 25) 22. Quantos filhos vivos a Sra. teve? [ _|_ ] Filhos 161 23. A Sra. amamentou algum de seus filhos, mesmo que por período curto? (1) Sim (0) Não (passe 25) 24. Em média, quanto tempo a Sra. amamentou cada filho? (0) Não amamentei (1) Menos de 6 meses (2) Entre 6 meses e 1 ano (3) Entre 1 e 2 anos (4) Mais de dois anos 25. A Sra. já tomou pílulas anticoncepcionais, quer dizer pílulas para evitar a gravidez, seja para evitar a gravidez, seja por algum outro motivo? (1) Sim (0) Não (passe 28) 26. Atualmente, a Sra. toma pílulas anticoncepcionais? (1) Sim (0) Não 27. Durante quanto tempo a Sra. toma (ou tomou) pílulas anticoncepcionais? [ _|_ ] Anos [ _|_ ] Meses 28. Com que idade a Sra. ficou mestruada pela primeira vez? [ _|_ ] Anos 29. A Sra. já fez alguma cirurgia para retirada de útero e ovários? (0) Sim (1) Não (Se for mulher de 35 anos ou mais passe para 31. Se for mulher de 20 anos a 34 anos passe para o módulo III do instrumento) 30. A Sra. retirou: (1) Só o útero (2) Útero e 1 ovário (3) Útero e 2 ovários (4) Só 1 ovário (5) 2 ovários 31. A Sra. sabe o que é menopausa? (1) Sim (passe 32) (0) Não (se Não, ler o texto abaixo) 32. A Sra. já entrou na menopausa ou algum médico lhe disse que a Sra. estava apresentando sintomas da menopausa? (1) Sim (0) Não (passe para o módulo III do instrumento) (777) NS/NR (passe para o módulo III do instrumento) 33. Com que idade a Sra. entrou na menopausa? [ _|_ ] Anos (777) NS/NR 34. Algumas vezes, os médicos receitam medicamentos que são hormônios para o tratamento dos sintomas da menopausa. Esses medicamentos, chamados de hormônios de reposição, podem ser usados em forma de gel para passar no corpo, em forma de adesivo ou em forma de comprimidos ou creme vaginais. A Sra. usa ou já usou algum medicamento deste tipo para a menopausa? (1) Sim (0) Não (passe para o módulo III) (777) NS/NR (passe para o módulo III) 35. Por quanto tempo? [ _|_ ] Anos e [ _|_ ] Meses 162 MÓDULO III – ESCALA DO MODELO DE CRENÇAS EM SAÚDE DE CHAMPION Agora eu farei algumas afirmativas sobre como a Senhora se sente em relação à doença e ao exame preventivo. Gostaria que a Senhora respondesse para cada afirmativa que eu fizer, se discorda totalmente, apenas discorda, se não discorda e nem concorda, se concorda ou se concorda totalmente. Não se preocupe, pois a cada afirmativa que eu fizer, irei ler as opções de resposta. Entrevistador: leia as perguntas, informando as opções de resposta em todos os quadros que se seguem. Susceptibilidade Discordo Não discordo, Concordo Discordo Concordo Totalmente nem concordo totalmente 1. Tenho certeza que vou ter câncer de colo do útero algum dia. 2. Acho que vou ter câncer do colo do útero algum dia. 3. Tenho grande chance de ter câncer do colo do útero nos próximos 10 anos. 4. Minha chance de ter câncer do colo do útero é grande. 5. Tenho mais chance de ter câncer do colo do útero que as outras pessoas. 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 Concordo Concordo totalmente Gravidade Discordo Não discordo, Discordo Totalmente nem concordo 1. A idéia de câncer do colo do útero me apavora. 2. Quando eu penso em ter câncer do colo do útero, meu coração dispara. 3. Tenho medo até de pensar em câncer do colo do útero. 4. Os problemas que eu teria com câncer do colo do útero iriam durar muito tempo. 5. O câncer do colo do útero pode ameaçar minha relação com meu parceiro. 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 163 Gravidade Discordo Discordo Totalmente 6. Se eu tivesse câncer do colo do útero, minha vida toda iria mudar. 7. Se eu tiver câncer do colo do útero, não vou viver mais que cinco anos. Não discordo, nem concordo Concordo Concordo totalmente 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 Benefícios 1. Quando eu faço o exame preventivo que o médico mandou, eu fico aliviada. 2. Quando eu faço o exame preventivo, não me preocupo muito com o câncer do colo do útero. 3. Fazer o exame preventivo ajuda a descobrir logo o câncer do colo do útero. 4. Fazer o exame preventivo diminui a chance de eu morrer de câncer do colo do útero. 5. Fazer o exame preventivo diminui a chance de eu ter uma cirurgia grande se eu tiver câncer do colo do útero. Discordo Totalmente Discordo Não discordo, nem concordo Concordo Concordo totalmente 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 Barreiras 1. Fico com vergonha de fazer o exame preventivo. 2. Tenho medo de descobrir alguma coisa se eu fizer o exame preventivo. 3. Tenho medo de fazer o exame preventivo porque eu não sei o que vão fazer comigo 4. Não sei o que fazer para marcar o exame preventivo. Discordo Totalmente Discordo Não discordo, nem concordo Concordo Concordo totalmente 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 164 Barreiras 5. O preparo para fazer o exame preventivo vai demorar muito. 6. Acho que o exame preventivo vai deve doer muito. 7. O pessoal que faz a exame preventivo pode ser grosseiro. 8. É difícil arrumar condução para ir fazer o exame preventivo. 9. Tenho coisas mais importantes para fazer do que o exame preventivo. 10. O exame preventivo vai atrapalhar minha vida. 11. O exame preventivo é muito caro. 12. Sempre me esqueço de marcar o exame preventivo Discordo Totalmente Discordo Não discordo, nem concordo Concordo Concordo totalmente 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 Entrevistador: houve respeito a privacidade, ou seja, a informante foi entrevistada: (1) Sozinha (2) Na presença do cônjuge ou companheiro (3) Na presença de filhos/ ou pais (4) Na presença de outras pessoas_____________________________(especifique) Observações: ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ Horário do término – [__|__:__|__] AGRADEÇA E FINALIZE A ENTREVISTA 165 ANEXO 3: QUESTIONÁRIO INDIVIDUAL TIPO A (INCA) MÓDULO DE EXAMES PARA DETECÇÃO DE CÂNCER DE COLO DE ÚTERO E MAMA E USO DE HORMÔNIOS (INCA). Exame preventivo, também chamado teste de Papanicolaou, é um exame no qual se colhe um material do colo de útero para análise em laboratório. Esse material é usado para diagnóstico de problemas que podem levar ao câncer. 1. A Sra. Alguma vez fez exame preventivo? ( ) Sim ( ) Não (passe 8) 2. Quantos exames preventivos a Sra. fez nos últimos 12 meses? ( ) Exames ( ) Nenhum 3. Em que mês e ano a Sra. fez o seu último exame preventivo? ( ) Mês e ( ) Ano Ou ( ) Idade Ou ( ) NR/NS 4. Na última vez que a Sra. fez o exame preventivo, a Sra. fez: Entrevistador: Leia as alternativas. ( ) Como exame de rotina, não apresentando nenhum problema visível no momento do exame (passe 6) ( ) Para checar/ examinar problemas existentes ou anteriores ao momento do exame. ( ) Outros _____________(especifique) (passe 6) ( ) NS/NR (Não leia) – Passe para 6 5. Que problema ? Entrevistador: Leia as alternativas. ( ) Problema que pode levar a câncer de colo do útero / infecção por HPV ( ) Corrimento ( ) Outros ______________(especifique) ( ) NS/NR (Não leia) 6. Na última vez que a Sra. fez o preventivo, a Sra usou o Sistema Único de Saúde, quer dizer, procurou atendimento público gratuito? ( ) Sim ( ) Não 7. Desde a 1ª vez que a Sra. fez o preventivo, com freqüência a Sra. fez outros exames preventivos? Entrevistador: Leia as alternativas. Se a entrevistada mudou de conduta em 2 ou mais períodos diferentes considerar o período mais recente. ( ) 6 em 6 meses ( ) Anualmente ( ) 1 vez a cada 2 anos ( ) 1 vez a cada 3 anos ( ) 1 vez a cada 4 – 5 anos ( ) 1 vez a cada 6 – 10 anos ( ) Menos freqüente a cada 10 anos ( ) Só fez uma vez na vida 166 ( ) Variável ( ) NS/NR 8. Auto-exame de mama, é um exame em que a mulher apalpa a sua própria mama, procurando nódulos ou caroços. A Sra. conhece esse exame? ( ) Sim ( ) Não (passe 13) 9. A Sra. já fez o auto-exame? ( ) Sim ( ) Não (passe 13) 10. Como a Sra. aprendeu a fazer este exame? Entrevistador: Leia as alternativas. - Com o médico, enfermeiro ou outro profissional de saúde. ( ) Sim ( ) Não - Aprendeu na televisão ( ) Sim ( ) Não - Aprendeu sozinha ( ) Sim ( ) Não - Nunca aprendeu, não sabe fazer ( ) Sim ( ) Não Outros __________________(especifique) ( ) NS/NR 11. Quando foi a última vez que a Sra. fez auto-exame de mama? Entrevistador: Leia se necessário. ( ) Há 1 mês ( ) Mais de 1 mês até 3 meses ( ) Mais de 3 meses até 5 meses ( ) Mais de 5 até 6 meses ( ) Mais de 6 meses ( ) Variável ( ) NR/NS (Não leia) 12. Com que freqüência em geral a Sra. faz o auto-exame de mama? ( ) Pelo menos 1 vez por mês ( ) Mais de 1 mês até 3 meses ( ) Mais de 3 meses até 6 meses ( ) Mais de 6 meses ( ) Variável ( ) Só fez uma vez na vida ( ) NS/NR (Não leia) 13. Exame clínico de mama é um exame no qual o médico ou enfermeiro apalpa as mamas para procurar algum possível problema, como caroços, nódulos ou possíveis doenças. Algum médico ou enfermeiro já fez exame clínico das suas mamas? ( ) Sim ( ) Não (passe 17) 14. Quando um médico ou enfermeiro fez o exame clínico das suas mamas pela última vez? Entrevistador: Leia se necessário. ( ) Há até 1 ano ( ) Mais de 1 até 2 anos ( ) Mais de 2 anos até 4 anos ( ) Mais de 4 anos até 6 anos ( ) Mais de 6 anos até 10 anos ( ) Mais de 10 anos 15. Na última vez que um médico ou enfermeiro fez o exame clínico das suas mamas, a Sra. estava sendo atendida pelo Sistema Único de Saúde, quer dizer, no atendimento público gratuito? ( ) Sim ( ) Não 16. Na última vez que um médico ou enfermeiro, fez o exame clínico das suas mamas, a Sra. fez: Entrevistador: Leia as alternativas. ( ) Como exame de rotina, não apresentando nenhum problema visível no momento. 167 ( ) Para checar/ examinar problemas existentes ou anteriores ao momento do exame. ( ) Outros _____________(especifique) ( ) NS/NR (Não leia) 17. A mamografia é um exame no qual as mulheres vão a uma clínica para fazer um raio-X ou chapa das mamas. Este exame é usado para detectar caroços, nódulos, câncer ou doenças. A Sra. alguma vez fez mamografia? ( ) Sim ( ) Não (passe 23) 18. Quando foi a última vez que a Sra. fez uma mamografia? Entrevistador: Leia se necessário. ( ) Há até 1 ano ( ) Mais de 1 até 2 anos ( ) Mais de 2 anos até 4 anos ( ) Mais de 4 anos até 6 anos ( ) Mais de 6 anos até 10 anos ( ) Mais de 10 anos 19. Na última vez que a Sra. fez a mamografia, a Sra. usou o Sistema Único de Saúde, quer dizer, procurou atendimento público gratuito? ( ) Sim ( ) Não 20. Na última vez que a Sra. fez mamografia, a Sra. fez: Entrevistador: Leia as alternativas. ( ) Como exame de rotina, mesmo não apresentando problema visível no momento do exame. ( ) Para checar/examinar problemas existentes ou anteriores ao momento do exame. ( ) Outros ______________(especifique) ( ) NS/NR (Não leia) 21. Desde a primeira vez que a Sra. fez mamografia, com que freqüência a Sra. fez outras mamografias? Entrevistador: Se a entrevistada mudou de conduta em 2 períodos diferentes, considere o período mais recente. ( ) De 6 em 6 meses (passe23) ( ) Anualmente (passe23) ( ) 1 vez a cada 2 anos (passe23) ( ) 1 vez cada 3 anos (passe23) ( ) 1 vez a cada 4 – 5 anos (passe23) ( ) 1 vez a cada 6 – 10 anos (passe23) ( ) Menos freqüente do que cada 10 anos (passe23) ( ) Só fez uma vez ( ) NS/NR (passe23) 22. Há quanto tempo a Sra. fez? ( ) Anos e ( ) Meses Agora eu farei algumas perguntas sobre o número de filhos que a Sra. tem ou teve e sobre amamentação desses filhos. Também farei perguntas sobre uso de pílulas anticoncepcionais e menstruação. 23. Sra. já ficou grávida? ( ) Sim ( ) Não (passe 30) 24. Quantas vezes a Sra. ficou grávida? ( ) Vezes 25. Com que idade a Sra. teve a sua primeira gravidez? Entrevistador: Caso a entrevistada não lembre a idade em que teve a sua primeira gravidez, obtenha o ano da gravidez. ( ) Idade Ou ( ) NS/NR ( ) Ano da primeira gravidez Ou ( ) NS/NR 168 26. A Sra. tem ou teve filhos nascido vivos? ( ) Sim ( ) Não (passe 30) 27. Quantos filhos vivos a Sra. tem ou teve? ( ) Filhos 28. A Sra. amamentou algum de seus filhos, mesmo que por período curto? ( ) Sim ( ) Não (passe 30) 29. Quanto filho? Filho 1: ( Filho 2: ( Filho 3: ( Filho 4: ( Filho 5: ( Filho 6: ( Filho 7: ( Filho 8: ( Filho 9: ( Filho 10: ( tempo a Sra. amamentou cada ) Anos ( ) Anos ( ) Anos ( ) Anos ( ) Anos ( ) Anos ( ) Anos ( ) Anos ( ) Anos ( ) Anos ( ) Meses ) Meses ) Meses ) Meses ) Meses ) Meses ) Meses ) Meses ) Meses ) Meses 30. A Sra. já tomou pílulas anticoncepcionais, quer dizer pílulas para evitar a gravidez, seja para evitar a gravidez, seja por algum outro motivo? ( ) Sim ( ) Não (passe 33) 31. Atualmente, a Sra. toma pílulas anticoncepcionais? ( ) Sim ( ) Não 32. Durante quanto tempo ou há quanto tempo a Sra. toma (ou) pílulas anticoncepcionais, descontando algum tempo que tenha ficado sem tomar? ( ) Anos ( ) Meses 33. Com que idade a Sra. ficou mestruada pela primeira vez? ( ) Anos 34. A Sra. já fez alguma cirurgia para retirada de útero e ovários? ( ) Sim ( ) Não (Se for mulher de 35 anos ou mais passe 36. Se for mulher de 25 anos a 34 anos passe 41) 35. A Sra. retirou: ( ) Só o útero ( ) Útero e 1 ovário ( ) Útero e 2 ovários ( ) Só 1 ovário ( ) 2 ovários Entrevistador: As perguntas a seguir devem ser respondidas pelas mulheres que têm 35 anos ou mais. Caso a entrevistada tenha 34 anos ou menos, passe 41. Agora eu farei algumas perguntas sobre a menopausa e sobre medicamentos usados para tratar menopausa. 36. A Sra. sabe o que é menopausa? ( ) Sim (passe 37) ( ) Não (se Não, ler o texto abaixo) A menopausa ocorre quando os períodos de sangramento da mulher terminam e, geralmente, acontece nas mulheres que têm em torno de 48 a 52 anos, mas também pode ocorrer mais cedo. Antes de ocorrer a menopausa, a mulher começa a apresentar alguns sintomas como calores no corpo (também chamado de fogacho), alterações no sangramento menstrual, irritabilidade, dores nos ossos e outros. 169 37. A Sra. já entrou na menopausa ou algum médico lhe disse que a Sra. estava apresentando sintomas da menopausa? ( ) Sim ( ) Não (agradeça e finalize a entrevista) ( ) NS/NR (agradeça e finalize a entrevista) 38. Com que idade a Sra. entrou na menopausa? ( ) Anos ( ) NS/NR 39. Algumas vezes, os médicos receitam medicamentos que são hormônios para o tratamento dos sintomas da menopausa. Esses medicamentos, chamados de hormônios de reposição, podem ser usados em forma de gel para passar no corpo, em forma de adesivo ou em forma de comprimidos ou creme vaginais. A Sra. usa ou já usou algum medicamento deste tipo? ( ) Sim ( ) Não (agradeça e finalize a entrevista) ( ) NS/NR (agradeça e finalize a entrevista) 40. Por quanto tempo? ( ) Anos e ( ) Meses 41. Entrevistador, houve respeito a privacidade, ou seja, a informante foi entrevistada: ( ) Sozinha ( ) Na presença do cônjuge ou companheiro ( ) Na presença de filhos/ ou pais ( ) Na presença de outras pessoas_____ ________________________(especifique) Observações: __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ Término do módulo: ( ( ) minutos ) horas e AGRADEÇA E FINALIZE A ENTREVISTA. 170 ANEXO 4: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Título da pesquisa: Barreiras na Prevenção do Câncer do Colo Uterino: uma análise mediada pelo Modelo das Crenças em Saúde e sob a perspectiva da Estratégia de Saúde da Família. Pesquisador: Ricardo de Mattos Russo Rafael. Contatos: Telefone (21) 7897.0435; E-mail: [email protected] Professor Responsável: Profª Dra. Anna Tereza Miranda Soares de Moura. Eu,________________________________________________________________, RG _________________, abaixo assinado, autorizo a realização da pesquisa e declaro ter pleno conhecimento do que se segue: 1. Objetivo da Pesquisa: avaliar os fatores impeditivos do acesso às práticas preventivas do câncer do colo uterino em mulheres residentes na área de cobertura da ESF do município de Nova Iguaçu, RJ. 2. Benefícios que possam ser obtidos: a criação de um perfil dos fatores de risco para o câncer do colo uterino e a identificação das barreiras impeditivas aos métodos de rastreio da doença. 3. Receberei resposta ou esclarecimento a qualquer dúvida acerca de assuntos relacionados com o objeto da pesquisa. 4. Caso seja necessário, autorizo a utilização de gravação de voz para finalidade desta pesquisa, preservando minha identidade e origem. 5. Tenho a liberdade de retirar o meu consentimento a qualquer momento e deixar de participar do estudo. 6. A pesquisa manterá o caráter oficial das informações relacionando-as com a minha privacidade e o anonimato. Rio de Janeiro, _____de ___________________de 2009 ______________________________________________ Assinatura do Respondente 171 ANEXO 5: ESTUDO ECOLÓGICO DA PREVENÇÃO SECUNDÁRIA DO CÂNCER DE COLO DO ÚTERO NA SAÚDE PÚBLICA DE NOVA IGUAÇU, RJ. Artigo em fase de edição para submissão no periódico “Epidemiologia e Serviços de Saúde” do Ministério da Saúde. 172 Estudo ecológico da prevenção secundária do câncer de colo do útero na saúde pública de Nova Iguaçu, RJ Ecological study of the secondary prevention of cancer of the cervix in public health at Nova Iguaçu, RJ Ricardo de Mattos Russo Rafael (RAFAEL, RMR)¹ Anna Tereza Miranda Soares de Moura (MOURA, ATMS)² ¹²Programa de Mestrado em Saúde da Família. Universidade Estácio de Sá – UNESA. Rua do Riachuelo, 27, 6º andar, Lapa – Rio de Janeiro (RJ). CEP 20.230-010. E-mail: [email protected] 173 Resumo O presente estudo visa conhecer a situação da prevenção secundária do câncer de colo do útero na saúde pública de Nova Iguaçu, RJ. A metodologia trata de um estudo ecológico, utilizando as informações referentes a patologia e os métodos de prevenção da doença em mulheres de 25 a 59 anos. Os dados foram coletados no banco de dados do DATASUS, utilizando-se o recorte temporal no período de 2002 a 2005. Encontrou-se como resultado uma alta razão de exames cérvico-vaginais no município, quando comparado com o Estado e o país. Foi identificada uma média de 58,5% de amostras cérvico-vaginais limitadas. Observou-se elevada mortalidade pela doença no município pesquisado, quando comparado com as taxas estaduais e nacionais. Estes achados sugerem que os esforços realizados até o momento não estão atingindo os objetivos propostos pelo Programa Nacional de Controle deste câncer. Palavras chaves: Neoplasias do colo do útero, Esfregaço vaginal, Saúde Pública Summary This study aims to ascertain the situation of secondary prevention of cancer of the cervix in the health of Nova Iguaçu, RJ. The methodology deals with an ecological study, using information about the condition and methods of prevention of disease in women 25 to 59 years. Data were collected from the database of DATASUS, using the cut time in the period 2002 to 2005. It was found as a result a high rate of cervical-vaginal examinations in the city, compared with the state and country. It identified an average of 58.5% of cervical-vaginal samples limited. There was high mortality from the disease in the city studied, as compared 174 with the state and national rates. These findings suggest that efforts to date are not reaching the goals proposed by the National Program for Control of the cancer. Keywords: Uterine cervical neoplasms, Vaginal smears, Public health 175 Introdução As neoplasias configuram-se atualmente como um importante problema de saúde pública, integrando as quatro principais causas de morte em adultos no Brasil 1, com especial destaque para os de colo do útero devido a suas altas incidências e possibilidade de cura na população feminina 2,3,4,5 . No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) 6 estimou a ocorrência de 19,18 casos novos de câncer do colo do útero por 100.000 mulheres somente no ano de 2008. Estas características se aproximam ao encontrado em países mais pobres 7. Para muitos autores4,5,8,9,10,11,12, as características sócio-demográficas de uma região podem influenciar diretamente na ocorrência deste câncer devido aos casos de vulnerabilidade social que contribuem para a maior dificuldade de acesso aos serviços de saúde. No Brasil, o Ministério da Saúde implantou o Programa Nacional de Controle do Câncer do Colo do Útero (PNCCU) em 1997, através do Projeto-Piloto Viva Mulher, com vistas à redução da mortalidade por esta neoplasia13. Dentre as estratégias desenvolvidas no PNCCU estiveram presentes a organização da rede de detecção precoce e a qualificação dos profissionais para o manejo do câncer 13,14 , além de eleger a técnica de Papanicolaou como método de escolha para o rastreio da doença devido à boa relação custo-benefício-efetividade deste exame 11. Portanto, acreditou-se que com o desenvolvimento desta tríade, seria possível uma mudança no perfil de morbi-mortalidade da doença, através da ampliação da oferta de técnicas de rastreio, captação precoce das usuárias dos serviços e, por sua vez, instituição de terapêutica adequada em fases iniciais da doença13. Devido à menor incidência desta patologia em mulheres com idade inferior a 30 anos e com maior freqüência na faixa etária entre 40 e 60 anos 5,12, o INCA preconiza a realização de um exame colpocitológico a cada três anos em mulheres com idade entre 25 e 59 anos que obtiveram dois resultados negativos e consecutivos para suspeita da doença 3,15,16. Acredita-se que a possibilidade de cura possa ser atingida em até 100% dos casos, quando existe 176 regularidade na aplicação dos testes de rastreio devido ao aumento das possibilidades de detecção em fases precoces da doença 3,4,5. Apesar dos avanços em relação à possibilidade de detecção e cura da doença, entendese que a qualificação do profissional que realiza o exame ginecológico é de extrema relevância, devido à necessidade de articulação entre a técnica de rastreio e as demais instâncias de prevenção 17 . Por ser um exame que se propõe a analisar amostras celulares, o procedimento de coleta deverá ser sempre guiado pelo exame clínico e pelos locais de maior ocorrência da patologia, aumentando as possibilidades de captação de alterações celulares. A qualidade do exame clínico e a adequabilidade do material coletado pelo profissional são fatores que podem influenciar diretamente a capacidade de detecção de alterações celulares durante o exame colpocitológico. 18. Neste contexto, espera-se como resultados a contribuição com subsídios para (re-) formulação de estratégias no território pesquisado, e outros grandes centros com características similares, uma vez que serão desvelados problemas como a razão de exames cérvico-vaginais e de adequabilidade das amostras coletadas. Justifica-se a realização da pesquisa no município de Nova Iguaçu, devido sua configuração populacional ser numerosa e de grande importância para o Estado do Rio de Janeiro. Além disso, poucas pesquisas utilizaram este município como cenário de estudo, tornando-o carente para o entendimento de várias questões técnico-científicas. Desta forma, a presente pesquisa visa conhecer a situação da prevenção secundária do câncer de colo do útero na saúde pública do município de Nova Iguaçu, RJ. 177 Metodologia O município de Nova Iguaçu faz parte da região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, que se constitui por uma malha de cidades de grande importância econômica para o Estado. O município exibe um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) classificado como médio e abriga uma das maiores populações da região, cerca de 830.000 habitantes19,20. Seu sistema municipal de saúde é composto pelos três níveis de atenção à saúde, contando com 64 unidades básicas, três unidades mistas, uma policlínica geral, uma maternidade e um hospital geral, que recebe pacientes oriundos de todo o município e regiões adjacentes. Além disso, conta com uma extensa rede laboratórios, clínicas e hospitais conveniados, que atuam de maneira complementar ao sistema público do município. Quanto a rede de serviços da Atenção Básica, das 64 unidades básicas mais da metade possuem a Estratégia de Saúde da Família implantada21. A Estratégia foi implantada em 1998 com base nas experiências do Projeto Cáritas que por tempo foi atuante no município. Atualmente, atende cerca de 20% da população geral, através de ações executadas por 55 equipes de Saúde da Família distribuidas nas unidades básicas21. A Estratégia tem como prioridade as áreas de maior vulnerabilidade social e com vazios sanitários, utilizando-se de indicadores fornecidos pela Vigilância em Saúde para mapear e planejar a implantação das equipes. A pesquisa caracterizou-se por um estudo ecológico sobre a prevenção secundária do câncer do colo do útero no município de Nova Iguaçu. As informações foram obtidas no mês de fevereiro de 2009, utilizando os dados disponíveis no banco do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde – DATASUS 22. O recorte temporal para o estudo foi o período de 2002 a 2005. Os critérios de inclusão foram mulheres de 25 a 59 anos que realizaram o exame colpocitológico no período 178 selecionado e com residência no município de Nova Iguaçu. Para atender ao objetivo do estudo optou-se pela escolha de variáveis referentes ao perfil sócio-demográfico das mulheres, número de exames cérvico-vaginais, adequabilidade das amostras dos exames e mortalidade por câncer do colo uterino. Foi utilizado o software Excel para a construção e o processamento do banco dos dados. Os resultados obtidos foram dispostos respectivamente pela razão entre os exames cérvico-vaginas e os sujeitos eleitos, análise das prevalências de adequabilidade das amostras coletadas através do exame de Papanicolaou, comparação dos coeficientes de mortalidade pela doença no município, estado e território nacional e o perfil sócio-demográfico dos óbitos. Resultados Visando o conhecimento sobre a utilização dos exames cérvico-vaginais a Figura 1 preocupou-se em revelar a cobertura dos exames cérvico-vaginais na população alvo do PNCCU. Percebeu-se que o município de Nova Iguaçu possui uma alta razão de exames, quando comparado ao Estado do Rio de Janeiro e ao Brasil no mesmo período. Chama-se atenção para um importante decréscimo na razão de exames do município, reduzindo de 0,20, no ano de 2002, para 0,16 no ano de 2005. Já no Brasil, no período de 2003 a 2005, evidenciou-se um comportamento distinto do Estado do Rio de Janeiro e do município de Nova Iguaçu, apresentando crescimento na quantidade de amostras coletadas. A Figura 2 demonstra a adequabilidade das amostras de exame cérvico-vaginal analisadas no município de Nova Iguaçu, no período de 2002 a 2005. A média de amostras com limitação no período da análise foi de 58,5%, distribuídas em limitações por ausência de dados clínicos, presença de sangue ou material purulento, espessamento e dessecamento do material na lâmina, por ausência de células e outras causas. 179 Os coeficientes de mortalidade por câncer do colo do útero estão representados na Figura 3. Observou-se que o município apresentou um crescimento considerável da mortalidade por esta neoplasia do ano de 2002 (8,8 casos/100.000 mulheres) até 2004 (13,35 casos/100.000 mulheres), com ulterior queda no ano de 2005 (10,33 casos/100.000 mulheres. Em relação ao Estado, pode-se observar um crescimento progressivo até 2004, onde notou-se uma acentuada queda até o ano de 2005. Já o país apresenta uma certa linearidade dos coeficientes em todo o período estudado. O perfil sócio-demográfico dos 80 óbitos na faixa etária entre 25 e 59 anos, por neoplasias malignas do colo do útero ocorridas no período de 2002 a 2005, no município de Nova Iguaçu, foi exposto na Tabela 1. Evidenciou-se que a predominância da mortalidade ocorre em mulheres na faixa etária de 40 a 49 anos (47,5%), solteiras (60,0%), pardas (42,5%) e com tempo máximo de estudo de até 7 anos (77,6%). 180 Figura 1 – Comparação entre a razão de exames cérvico-vaginais em mulheres de 25 a 59 anos, no período de 2002 a 2005, no município de Nova Iguaçu, Estado do Rio de Janeiro e Brasil 181 Figura 2 – Adequabilidade das Amostras de Exame Cérvico-Vaginal, de mulheres de 25 a 59 anos, analisadas no período de 2002 – 2005 182 Figura 3 – Coeficiente de Mortalidade (/100.000) por Neoplasias Malignas do Colo do Útero, em mulheres de 25 a 59 anos, no período de 2002 – 2005 183 Tabela 1 – Perfil Sócio-demográfico dos Óbitos por Neoplasias Malignas do Colo do Útero, em mulheres de 25 a 59 anos, no período de 2002 – 2005, no município de Nova Iguaçu Característica Idade De 25 a 29 anos De 30 a 39 anos De 40 a 49 anos De 50 a 59 anos Estado civil Solteira Casada Viúva Separada Ignorado Cor Branca Preta Parda Ignorado Tempo de Estudo Nenhuma De 1 a 3 anos 4 a 7 anos 8 a 11 anos 12 anos e mais Ignorado n Prevalência (%) 80 2,5 16,3 47,5 33,8 80 60,0 27,5 6,3 2,5 3,8 80 36,3 20,0 42,5 1,3 80 15,0 26,3 36,3 13,8 1,3 7,5 184 Discussão A análise dos dados sobre a cobertura dos exames cérvico-vaginais demonstra que o município de Nova Iguaçu possui uma razão de colpocitologias oncóticas 3,7 vezes superior a estadual e 2,8 vezes maior que a nacional, evidenciando uma preocupação com a patologia e suas conseqüências. Porém, a partir de 2004 observa-se um declínio nestes números, o que pode sugerir a ocorrência de saturação ou redução da capacidade instalada de serviços de saúde que promovem ações de rastreio cérvico-vaginal, talvez por falta de investimentos, recursos humanos qualificados, fluxos de envio e recebimento de resultados e aquisição de materiais necessários a coleta. Quando comparados a cobertura municipal com a nacional, observa-se um comportamento distinto, evidenciando-se um aumento das amostras coletadas no país. Este dado pode estar relacionado com a ampliação do acesso ao exame de Papanicolaou em determinadas regiões do país, devido à intensificação do Projeto Viva Mulher, ocorrido em 2002 23 , com a expansão da cobertura pelo nível primário da assistência em saúde, em especial pela Estratégia de Saúde da Família (ESF) 24 , e com reflexos da publicação dos indicadores que regulam o monitoramento e a avaliação da Atenção Básica, em 2005 25 . Destaca-se que de acordo com a OMS26, uma cobertura de 80% dos exames de detecção precoce da doença em mulheres na faixa etária entre 35 e 59 anos causaria um impacto de redução da doença em aproximadamente quatro anos. Acredita-se que o município não acompanhou a expansão da ESF ocorrida no país e no Estado do Rio de Janeiro devido a fatores operacionais e de implantação da Atenção Básica. Atualmente, o primeiro nível de assistência é responsável pela maior quantidade de rastreio da doença27, bem como é utilizado como principal fator de organização da rede de 185 saúde28. Assim como o município de Nova Iguaçu, muitos outros grandes centros apresentam dificuldades de expansão da ESF. A sobrecarga de trabalho das equipes, a falta de infraestrutura adequada, o desequilíbrio da oferta-demanda nos serviços de saúde e as transformações demográficas são apenas alguns dos fatores que contribuem para uma expansão dificultosa da ESF nos grandes centros urbanos 29,30,31 Outro fator capaz de interferir na capacidade do rastreio deste câncer é a qualidade das amostras celulares coletadas durante o exame. Acredita-se que 62% dos falso-negativos para câncer do colo do útero sejam decorrentes de falhas durante o procedimento18, tais como: ausência de dados clínicos, presença de sangue e de exsudato inflamatório, espessamento e dessecamento do material posicionado na lâmina e outras causas32. Nota-se que são falhas evitáveis e provenientes de erros dos próprios profissionais de saúde 33. Durante o período estudado observa-se que a média de amostras satisfatórias foi de apenas 40%, o que possivelmente aumentou o número de resultados falso-negativos, cuja ausência de informações no banco de dados impossibilitou uma análise mais detalhada. Outro fator evidenciado foi a queda do padrão de qualidade das amostras celulares acompanhou de maneira diretamente proporcional o declínio da razão de exames cérvico-vaginais no município, colaborando para a redução do diagnóstico da doença. Acredita-se que o declínio da mortalidade no município de Nova Iguaçu possa estar relacionado ao aumento dos resultados falso-negativos e pela redução da cobertura do exame. Nesta perspectiva, acredita-se que a determinação da causa dos óbitos possa ter sofrido interferências, resultando em modificações nos coeficientes de mortalidade 12 . Entretanto, mesmo com a tendência de declínio, o município apresenta o coeficiente médio de mortalidade por câncer do colo do útero 3,0 vezes maior que o estadual e 1,7 vezes maior que o nacional, sugerindo a necessidade de implantação de ações específicas para o controle desta morbidade. 186 Quanto ao perfil de mortalidade, pode-se observar relação com os demais trabalhos que tratam destes fatores 4,5,8,9,11,12 . A predominância de a mortalidade ser acima de 40 anos pode possuir relação com a maior exposição aos fatores de risco durante a fase mais jovem da vida e ao longo período pré-clínico da doença. Quanto ao estado civil, as mulheres solteiras geralmente são mais expostas aos fatores de risco de pluralidade de parceiros e uso de anticoncepcionais hormonais orais 12,34,35 ou, por vezes, tem a percepção de não haver necessidade de realização do exame devido a menor freqüência sexual 36 . Já as variáveis de cor e tempo de estudo sugerem forte relação com os aspectos de vulnerabilidade e iniqüidade social que, por sua vez, associam-se às dificuldades de acesso a exames de rastreio da doença. Para alguns autores, esta neoplasia possui uma forte relação com aspectos relacionados às condições de vida das pacientes 10,11 , sendo sugerida como um excelente indicador de qualidade do setor saúde, aferindo as condições de acesso e o poder de resolutividade dos serviços37. Os dados obtidos apontaram para uma cobertura de exames cérvico-vaginais no município de Nova Iguaçu superior a estadual e a nacional, porém com alta limitação destes exames, já que grande parte das lâminas analisadas neste período foram consideradas limitadas. Outro achado relevante foram os coeficientes de mortalidade pela doença no município, que se mantiveram elevados em todo o período de análise, quando comparados aos parâmetros estaduais e nacionais. O perfil sócio-demográfico dos óbitos ocorridos demonstrou sintonia com os demais estudos que abordam esta temática, sugerindo forte relação da doença com as vulnerabilidades e iniqüidades sociais. Os achados sugerem que os esforços realizados até o momento não estão atingindo os objetivos propostos pelo PNCCU no município avaliado, que versam sobre a redução substancial da mortalidade por esta patologia. A alocação de recursos na educação permanente dos profissionais, a disponibilização de serviços descentralizados e a expansão da 187 Atenção Básica, em especial a ESF, com base nas necessidades locais podem trazer benefícios e auxiliar na modificação do panorama epidemiológico apresentado. Esta pesquisa possui limitações características de estudos ecológicos e retrospectivos, bem como pela utilização de apenas um banco de informações. Pode-se apontar que estudos de base populacional que contemplam o perfil de utilização dos serviços de rastreio do câncer do colo uterino e as barreiras de acesso aos métodos de prevenção da doença já se encontram em andamento. Sugere-se que outras pesquisas abarquem questões referentes aos relatos dos profissionais que atuam na linha de frente dos serviços de saúde. A partir destes dados será possível o entendimento sobre a forma de estruturação das ações e os principais aspectos que dificultam e motivam este tipo de prevenção. Referências 1. RAMOS C, CARVALHO JEC, MANGIACAVALLI MASC. IMPACTO E (I)MOBILIZAÇÃO: UM ESTUDO SOBRE CAMPANHAS DE PREVENÇÃO AO CÂNCER. CIÊNC SAÚDE COLETIVA. 2007; 12(5):1387-96. 2. Instituto Nacional do Câncer. Ações de enfermagem para o controle do câncer: uma proposta de integração ensino-serviço. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Câncer; 2002. 3. Instituto Nacional do Câncer. Falando sobre câncer do colo do útero. 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