XXXI ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual: Desafios da Engenharia de Produção na Consolidação do Brasil no Cenário Econômico Mundial Belo Horizonte, MG, Brasil, 04 a 07 de outubro de 2011. ANÁLISE DOS MOTIVOS GERADORES DE FALHAS NA LOGÍSTICA INTERNA DE UMA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA PATRICK DE MORAIS HANRIOT (UNIFEI) [email protected] Renato da Silva Lima (UNIFEI) [email protected] Fabio Favaretto (UNIFEI) [email protected] A indústria farmacêutica nacional passa por mudanças significativas em seus mercados consumidores. Estas mudanças tiveram início com o surgimento dos medicamentos genéricos e similares, com preços mais baixos que os tradicionais medicamentoos de marcas. Esse novo cenário exigiu mudanças nas estruturas das empresas, devido à redução das margens, ao surgimento e crescimento de diversos laboratórios e das novas necessidades logísticas, exigidas pelo mercado consumidor, para este tipo de produto. O mercado está exigindo maior disponibilidade do medicamento nos pontos de vendas características de produtos do tipo comparação e conveniência, em detrimento às suas características anteriores, baseadas em produtos do tipo comparação. Este artigo apresenta uma pesquisa ação realizada em um laboratório farmacêutico nacional, com foco em produtos genéricos e similares, onde foram analisados os problemas logísticos internos mais comuns e propostas ações que eliminassem ou minimizassem tais problemas, visando o fortalecimento de uma das características fundamentais para produtos do tipo conveniência e comparação: a disponibilidade. Os resultados mostraram que, na área de Produção, a falha mais relevante era o “atraso na programação de produção”, principalmente devido aos gargalos ocasionados pela operação das emblistadeiras (equipamentos que realizam o acondicionamento dos comprimidos em envelopes vedados), visto que são os equipamentos com a menor disponibilidade da planta. Palavras-chaves: Logística Interna; Falhas, Indústria Farmacêutica XXXI ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual: Desafios da Engenharia de Produção na Consolidação do Brasil no Cenário Econômico Mundial Belo Horizonte, MG, Brasil, 04 a 07 de outubro de 2011. 1. Introdução A indústria farmacêutica nacional passa por mudanças significativas em seus mercados consumidores. Estas mudanças tiveram início com o surgimento dos medicamentos genéricos e similares, com preços mais baixos que os tradicionais medicamentos de marcas (VIEIRA, 2006). Esta alteração provocou uma mudança no mercado, com os consumidores procurando por medicamentos mais baratos – e nem por isto menos eficazes – e este comportamento mudou a história econômica deste ramo de negócios. Com a chegada dos medicamentos genéricos e similares e com a entrada no mercado de novos fornecedores de matérias primas – notadamente China e Índia - ocorreu a “revolução” do mercado. Esta alteração exigiu mudanças nas estruturas das empresas, devido à redução das margens, ao surgimento e crescimento de diversos laboratórios e das novas necessidades logísticas, exigidas pelo mercado consumidor, para este tipo de produto. O mercado está exigindo maior disponibilidade do medicamento nos pontos de vendas – características de produtos do tipo comparação e conveniência, em detrimento às suas características anteriores, baseadas em produtos do tipo comparação. Este artigo apresenta uma pesquisa ação realizada em um laboratório farmacêutico nacional, com foco em produtos genéricos e similares, onde foram analisados os problemas logísticos internos mais comuns e propostas ações que eliminassem ou minimizassem tais problemas, visando o fortalecimento de uma das características fundamentais para produtos do tipo conveniência e comparação: a disponibilidade. Assim, o objetivo do trabalho é levantar as principais causas destas falhas críticas, analisando a cadeia produtiva interna da fábrica. Entende-se por “falha crítica” do processo produtivo a não concretização da venda, principalmente se tratando de um produto do tipo “comparação” ou “conveniência”. O trabalho está organizado da seguinte forma: após essa breve introdução apresentam-se, na seção 2, os principais conceitos pesquisados. Na seção 3 está o detalhamento da pesquisa-ação realizada em uma industria farmacêutica. Finalizando, a seção 4 traz as conclusões do projeto, seguida da lista com as referencias bibliográficas. 2. Indústria Farmacêutica 2.1. Mercado O advento dos “genéricos e similares”, com a quebra das patentes dos princípios ativos, permitiu que pequenos laboratórios passassem a produzir medicamentos modernos, com custos mais baixos que o dos tradicionais fabricantes. Este mercado apresentou um crescimento expressivo, o que gerou interesse e necessidade de atuação por parte dos fabricantes tradicionais, uma vez que ocorreu a migração de consumo, dos medicamentos “de marca”, para produtos genéricos e similares. Os grandes laboratórios também entraram neste mercado, tornando-o ainda mais competitivo, ocorrendo, também, várias fusões e aquisições, com o objetivo de se adaptarem à nova realidade (MAGALHÃES et al. 2003). A evolução no número de registros de medicamentos genéricos no Brasil é uma clara demonstração do crescente interesse dos laboratórios farmacêuticos neste mercado (Figura 1). Além da evolução no número de registros dos medicamentos genéricos no Brasil, existe, ainda, um aumento em sua participação no mercado, tanto em volume quanto em faturamento. Este tipo de medicamento vem crescendo no mercado brasileiro, como pode-se ver na Tabela 1. Um dos fatores fundamentais para o crescimento dos medicamentos genéricos é justamente seu preço final ao consumidor. A Lei 9.787, promulgada 10 de fevereiro de 1999, determina 2 XXXI ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual: Desafios da Engenharia de Produção na Consolidação do Brasil no Cenário Econômico Mundial Belo Horizonte, MG, Brasil, 04 a 07 de outubro de 2011. que o medicamento genérico tenha preços, no mínimo 35% abaixo dos preços dos medicamentos de marca. Outro fator interessante do mercado é a migração da característica dos produtos: Antes tratados como produtos do tipo “especialidade” (num passado recente os medicamentos eram receitados pela marca) e agora um produto do tipo “comparação” ou mesmo “conveniência”, visto que os médicos, atualmente, possuem a recomendação, pela lei 9.787 de 10 de fevereiro de 1999, para prescrição pela denominação comum brasileira. Data 01/2001 01/2002 01/2003 01/2004 01/2005 01/2006 01/2007 01/2008 01/2009 01/2010 Figura 1 – Número de registros de medicamentos genéricos no Brasil (ANVISA, 2010) % unidades comercializadas % faturamento US$ <2 <2 2,9 2,6 6,2 5,5 8,7 6,5 10 8,2 11,7 9,2 13,98 11,3 14,9 11,3 17,5 14,2 18,9 15,4 Tabela 1 – Participação dos medicamentos genéricos no mercado brasileiro (Pró-Genéricos apud IMS Healt) 2.2 Produção A indústria contemporânea competitiva é aquela que atende aos seus clientes cada vez mais rápido e conseguem oferecer produtos cada vez mais customizados – uma exigência do mercado atual (STEVENSON et al., 2009). A busca pelo equilíbrio entre a agilidade de produção e a otimização dos tempos dos equipamentos é uma busca constante do setor de Planejamento da Produção das indústrias farmacêuticas. Necessita-se, então, de buscar uma 3 XXXI ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual: Desafios da Engenharia de Produção na Consolidação do Brasil no Cenário Econômico Mundial Belo Horizonte, MG, Brasil, 04 a 07 de outubro de 2011. nova organização industrial mais adequada à dinâmica do ambiente. Este novo paradigma produtivo apóia-se sobre três pilares: qualidade, flexibilidade e integração (MARTINS e SACOMANO, 1994). Nessa busca, alguns problemas podem ser destacados: A indústria farmacêutica passa por uma urgente necessidade de redução de seus custos fabris, necessidade esta que não fazia parte do histórico destas empresas na época em que não havia os genéricos e similares, notadamente devido à redução de suas margens, principalmente da década de 70 ao final da década 90, onde observou uma queda de 50% em suas margens (PAULA, 2001). Na década atual (2000 – 2010) as margens não sofreram alterações em relação à década de 90 (WORD HEALTH ORGANIZATION, 2010) mas estão sobre constante pressão, como na recente crise grega (2010), onde o governo grego cortou, em 25%, o preço dos medicamentos (GRUPEMEF, 2010). Outro paradigma que a indústria farmacêutica enfrenta: Reduzir os estoques e correr risco de desabastecimento ou manter os estoques altos e arcar com os custos desta política. A solução parece ser uma solução alternativa, que é a reestruturação de sua cadeia logística (CORREIA, 2010). O paradigma da redução dos custos através da redução dos estoques em conflito com o nível de atendimento logístico necessário a produtos do tipo “conveniência”, uma vez que esta redução (estoques) poderá gerar diminuição na velocidade de ressuprimento dos produtos solicitados pela rede de distribuidores. 3. Metodologia A pesquisa-ação é o método escolhido para o desenvolvimento deste trabalho, pois, como explica Thiollent (2009) é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação, ou do problema, estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo. Para início do trabalho, ou fase exploratória, o pesquisador escolheu a técnica de estudo de caso, considerado como relevante quando se procura explicar alguma circunstância presente e podem-se definir estas explicações com o uso de perguntas tais como “como” ou “por que” (YIN, 2010). O pesquisador inicia o trabalho pelo estudo teórico da situação, ou, como descrevem Voss, Tsikriktsis e Frohlich (2002), realizando a “construção da teoria”, onde se busca a identificação e descrição das variáveis chaves; buscando-se, então, a interligação entre estas variáveis e o porquê destas interligações. Conhecendo, então, as variáveis bases e as variáveis de relação, foi possível relacioná-las com os possíveis padrões ou as causas destas ocorrências através de entrevistas com os gestores e a triangulação dos dados como os gestores das variáveis de relação, como indicado por Voss, Tsikriktsis e Frohlich (2002). Fez-se, então, a constituição dos grupos que conduziram as investigações, conforme orientação de Thiollent (2009). A investigação foi delimitada no campo de observação, ou limites da pesquisa, definidos para permitir a coleta de dados, que foram realizadas por grupos de observação e tendo o pesquisador sob controle do seminário central (THIOLLENT, 2009). Finalmente, o pesquisador propõe medidas e ações para os problemas estudados, visto que uma pesquisaação trás, entre suas necessidades básicas, ações, como escrito por Altrichter (2002): “as pessoas envolvidas deverão refletir e implementar (ou desenvolver) seu próprio trabalho em suas próprias situações”. 3.1. Levantamentos das Variáveis Chaves De acordo com Kaipia (2009), existem, basicamente, dois tipos de cadeia de suprimentos: a 4 XXXI ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual: Desafios da Engenharia de Produção na Consolidação do Brasil no Cenário Econômico Mundial Belo Horizonte, MG, Brasil, 04 a 07 de outubro de 2011. efetiva (pró-ativa), usada em sistemas do tipo lean operations, e a responsive ou, numa tradução livre, reativa, adaptada às demandas do cliente. Levando-se este conceito de sistema pró-ativo ou reativo para dentro da empresa, podemos determinar, através do diagrama de fluxo de informação e materiais, quais setores ou departamentos possuem qual comportamento e qual resultado deste posicionamento nos objetivos deste trabalho. Para a identificação dos elementos chaves do processo - ou “variáveis chaves”, como proposto por Voss, Tsikriktsis e Frohlich (2002) - um fluxograma teórico do processo é usado como suporte, desde a previsão de demandas, passando pela entrada dos pedidos pela área comercial, até a expedição dos mesmos. Para início da construção, tomando como referência Bowersox, Closs e Cooper (2006), mostrando uma disposição geral do fluxo de informação e materiais numa empresa, como mostrado a seguir na Figura 2. Construiu-se, com apoio de entrevistas com os gestores, outro fluxograma, com maior proximidade à realidade da empresa, detalhando, as interligações e relações entre os setores fabris, como detalhado na Figura 3. Figura 2 – Fluxo de informações e materiais (BOWERSOX, CLOSS e COOPER, 2006) 5 XXXI ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual: Desafios da Engenharia de Produção na Consolidação do Brasil no Cenário Econômico Mundial Belo Horizonte, MG, Brasil, 04 a 07 de outubro de 2011. Figura 3 – Fluxo de informações e materiais na empresa estudada Conhecendo os setores envolvidos no processo que podem, a princípio, influenciar na ocorrência de uma falha, validou-se o fluxograma com todos os responsáveis por cada setor. É importante que todos os envolvidos analisem todos os fluxos de informação e materiais, mesmo que não seja o responsável pelo setor ou que não esteja diretamente ligado a ele, pois, para a validade do construto, ao se tentar explicar como e por que um evento x levou ao evento y, se concluir, incorretamente, que existe uma relação causal entre x e y, sem saber que um terceiro elemento – z – pode ter causado y, o projeto de pesquisa falhou quanto à validade interna (YIN, 2010). 3.2. Relações entre Variáveis Após validado por todos gestores do processo, o fluxograma apresentado na Figura 3 possibilitou a montagem da Tabela 2, relacionando variáveis bases e suas variáveis de relação. Tais relações foram validadas junto aos gestores responsáveis por cada setor, pois, como Voss, Tsikriktsis e Frohlich (2002) propõem, a questão de pesquisa é determinar quais são as variáveis chaves, quais são os padrões ou ligações entre as variáveis e o porquê da existência destas variáveis e que a principal fonte de coleta de dados é através do uso de entrevistas estruturadas. Variável base Variáveis de relação Expedição Est. Produtos Acabados TI Est. Produtos Acabados Produção CQ / GQ TI Produção Almoxarifado matérias primas Manutenção CQ / GQ TI PCP Almoxarifado matérias primas CQ / GQ compras PCP pcp MPS compras TI fornecedores mps Vendas Tabela 2 – Variáveis de estudo e variáveis de relação 3.3. Interligações entre Variáveis Para a montagem da interligação entre variáveis, quais são os padrões ou ligações entre as variáveis e o porquê da existência destas variáveis, a triangulação deverá ser considerada, como afirmam Voss, Tsikriktsis e Frohlich (2002). Esta triangulação foi realizada através da análise de documentação, entrevistas e observação direta, como orientado por Yin (2010). Para isto, estudou-se a ocorrência de faltas de produtos acabados durante 01 (um) mês para então o pesquisador e os gestores das áreas validarem as variáveis, suas relações e os motivos da relação entre estas variáveis. Foi montada, então, uma listagem com os principais motivos geradores de falhas identificados no processo (Tabela 3). Esta tabela traz as principais ocorrências levantadas, tanto pelos gestores como pela documentação estudada, além da observação do pesquisador; mostra uma relação entre o gestor de cada área envolvida (gestor da área considerada “variável base”), responsável pelas informações que servem de base para a relação das ocorrências de interferência entre as áreas estudadas – atendimento ao primeiro quesito de Voss, Tsikriktsis e Frohlich (2002). De acordo com Voss, Tsikriktsis e Frohlich (2002), que ressaltam a necessidade de validação das informações, a Tabela 3 foi apresentada aos gestores das áreas com contato direto às áreas 6 XXXI ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual: Desafios da Engenharia de Produção na Consolidação do Brasil no Cenário Econômico Mundial Belo Horizonte, MG, Brasil, 04 a 07 de outubro de 2011. estudadas (gestores das áreas consideradas “variáveis de relação” com a “variável base”), buscando a triangulação das informações com os gestores de relação direta e, finalmente, a documentação usada para verificação das informações. Com isso foi elaborada a Tabela 4, relacionando a documentação e fontes consultadas para validação dos dados, buscando a triangulação das informações 7 XXXI ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual: Desafios da Engenharia de Produção na Consolidação do Brasil no Cenário Econômico Mundial Belo Horizonte, MG, Brasil, 04 a 07 de outubro de 2011. Variável base Expedição Variável de relação Est. Produtos Acabados TI Produção Est. Produtos Acabados Qualidade TI Almoxarifado de matérias primas Produção PCP Manutenção Qualidade TI Qualidade Almoxarifado de matérias primas Fornecedores Compras PCP Compras PCP MPS TI Vendas MPS Principais Ocorrências Falta de Produtos em Estoque Produtos danificados Sistema inoperante / com falhas Atraso na programação de produção Atraso na transferência Produto não previsto para ser produzido Atraso na liberação de produtos acabados Não liberação de produtos acabados Sistema inoperante / com falhas Atraso na transferência de matérias primas Atraso na transferência de material de embalagem Atraso na pesagem de matérias primas Falta de matérias primas Falta de material de embalagem Atraso na liberação de ordens de fabricação Produto não previsto para ser produzido Falhas em máquinas e equipamentos Atrasos na liberação de lotes para produção Não liberação de lotes para produção Sistema inoperante / com falhas Atrasos na liberação de lotes Não liberação de lotes Não envio de matérias primas Atraso no transporte de matérias primas Atraso no faturamento de matérias primas Atraso na compra de matérias primas Não compra de matérias primas Atraso na realização do pedido de compras Não realização de pedido de compras Diferença entre programado e realizado Sistema inoperante / com falhas Vendas concentradas Previsão abaixo do realizado Tabela 3 – Relação entre variáveis de estudo e possíveis ocorrências 3.4. Seminário da Pesquisa-Ação Em reunião entre o pesquisador e o Diretor da área produtiva da empresa, a área Produção (Tabela 3) foi escolhida e, dentro desta área, foi escolhido o tópico “atraso na programação de produção”. A escolha por este tópico deu-se devido à função básica de toda empresa: produzir (SLACK, 2008). Considerou-se este fator como objetivo central empresa e, por este motivo escolheu-se iniciar o trabalho neste ponto especificamente. Em entrevista com o gestor da área produtiva e o gestor da área de PCP, a escolha recaiu sobre o grupo de equipamentos conhecidos como emblistadeiras, que realizam o acondicionamento dos comprimidos em envelopes vedados. Este setor é considerado “gargalo” da fábrica, ou seja, este recurso impacta em restrição de capacidade da fábrica, visto que são os equipamentos com a menor disponibilidade da planta, como explicado por Souza (2005). Além disto, as máquinas emblistadoras são críticas no processo quando se fala em boas práticas de fabricação (ANVISA 2, 2003), pois antes delas o medicamento encontra-se exposto, com riscos de contaminação. Somente após o processo de blistagem o medicamento encontra-se protegido em sua embalagem primária. 8 XXXI ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual: Desafios da Engenharia de Produção na Consolidação do Brasil no Cenário Econômico Mundial Belo Horizonte, MG, Brasil, 04 a 07 de outubro de 2011. variável gestor responsável Gestores clientes / fornecedores documentação / recurso Expedição Coordenador de Logística Gerente de PCP Relatório de cortes de produtos Est. Produtos Acabados Coordenador de Logística Gerente de PCP / Gerente de Produção Produção Gerente de Produção Gerente de PCP Gerente de PCP Gerente de Produção Compras Coordenador de Almoxarifado Gerente de PCP PCP Gerente de PCP Gerente de Produção Gerente de Garantia de Qualidade Coordenador de Logística Gerente de PCP Gerente de Produção Alm. Matérias Primas Qualidade Vendas TI MPS Manutenção Gerente de PCP Gerente de PCP Gerente de Produção Gerente de Produção Gerente de PCP Gerente de Manutenção Gerente de Produção Coordenador de TI relatório de estoques relatório de cortes de produtos relatório de produtos retidos ordens de produção controles de produção ordens de produção relatório de estoques pedidos de compras ordens de produção previsão de MPS Pedidos de compras ordens de produção relatório de entradas relatório de faturamento previsão de MPS observação direta previsão de MPS relatório de horas paradas Tabela 4 – Documentação utilizada Foi identificado um processo denominado “limpeza total”, que é a limpeza do equipamento no momento em que vai se trocar de lote ou de produto no equipamento. Esta limpeza constitui-se de limpeza do equipamento e lavagem da sala e foi apontado pelos gestores como um dos motivos geradores de atrasos na programação, visto que é a única operação obrigatória no processo que não gera produção, reduzindo a disponibilidade de tempo do recurso, como dito por Souza (2005). Do grupo de emblistadeiras, o equipamento escolhido foi a de menor capacidade produtiva, com uma capacidade máxima de produção de 150 blister’s por minuto. A fábrica possui um grupo de 6 equipamentos que realizam tal atividade, com valores de até 600 blister’s por minuto. Este equipamento foi escolhido por possuir a menor velocidade produtiva do setor. Assim sendo, a produtividade (Blister’s produzidos por mês) deste equipamento é a menor do grupo, uma vez que o tempo de limpeza total da sala não possui relação com a velocidade de produção do equipamento. 3.5. Campo de Observação e Coleta de Dados Foram levantados 80 valores de tempos para a realização das limpezas totais do equipamento obtendo os resultados abaixo, compreendendo as limpezas realizadas do dia 31 de março de 2010 ao dia 23 de julho de 2010, através dos relatórios de produção. Selecionaram-se somente os tempos de limpeza deste equipamento quando existiam lotes aguardando a liberação da linha para produção, tendo em vista que não havendo programação para a linha, pode ocorrer a transferência do pessoal envolvido no processo para outros setores, aumentando o tempo de realização da limpeza total da sala. Tempo médio de limpeza (minutos) de 87,72 Desvio Padrão da amostra de 29,99 Tempo máximo (minutos) de 210 9 XXXI ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual: Desafios da Engenharia de Produção na Consolidação do Brasil no Cenário Econômico Mundial Belo Horizonte, MG, Brasil, 04 a 07 de outubro de 2011. Tempo mínimo (minutos) de 50 Ainda ocorreu o levantamento das atividades de cada grupo de colaboradores, permitindo a montagem da Tabela 5 com a descrição das atividades e marcação das atividades consideradas gargalo do processo. Grupo Operador Auxiliares Movimentadores Ocorrência Levantamento dos volumes produzidos fechamento da ordem de fabricação Fechamento do log book Fechamento dos registros de limpezas Abertura do log book Abertura do registro de limpezas Desmontagem da máquina Montagem da máquina (incluindo set-up) Preparação de data / lote da ferramenta de selagem Retirar materiais da sala Fechamento dos pesos de blister vazios Fechamento dos pesos de retalhos Fechamento dos comprimidos danificados Lavagem da máquina Lavagem da sala Lavagem de peças Transporte de comprimidos à serem blistados para sala de blistagem Transporte de material de embalagem à ante-sala de entrada de matéria prima Observação Gargalo Gargalo Gargalo Gargalo Gargalo Tabela 5 – Atividades por grupo de operador A especificação dos critérios gargalos baseou-se em Souza (2005), visto que são atividades que restringem o sistema, pois limitam todas as outras atividades. Estudou-se, então, as outras atividades, que devem se subordinar à restrição, como proposto por Souza (2005) nos relatórios de controle de produção e, dentre todos os motivos de atrasos no início das operações, as maiores perdas ocorreram no abastecimento de material de embalagem primária, ou seja, perde-se tempo numa atividade não gargalo. 3.6. Aprendizagem Estudando-se o problema da falta de embalagem primária no processo produtivo foram detectados alguns fatores geradores da ocorrência: A separação do material de embalagem primária ocorre sem critério de prioridades, seguindo, apenas, a relação de ordens de produção a serem realizadas no dia. Não há separação prévia do material devido à falta de local adequado para sua separação, conforme norma de boas práticas de fabricação (ANVISA 2, 2003). A comunicação entre o setor produtivo e o almoxarifado ocorre de maneira não padronizada, com coordenadores ou encarregados de produção tomando caminhos diferentes para a realização desta comunicação (uso de e-mails, ligações telefônicas, envio de auxiliares para a realização das solicitações e ou uso de rádio comunicadores) além de receptores diferentes (coordenador do almoxarifado, separador, movimentador, dentre outros). 4. Conclusões Lockett, Johnson, Evans e Bastl (2010) ilustram o problema anteriormente relatado, de falta 10 XXXI ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual: Desafios da Engenharia de Produção na Consolidação do Brasil no Cenário Econômico Mundial Belo Horizonte, MG, Brasil, 04 a 07 de outubro de 2011. de comunicação numa cadeia logística, sugerindo que os gestores devem repensar as relações cliente / fornecedores, visto que esta relação pode trazer soluções e grandes benefícios para os consumidores. Já Daugherty (2011) apresenta como fatores fundamentais para o sucesso deste tipo de relações o conhecimento das informações, as especificações, as regras e as provisões. Assim sendo, a comunicação entre os departamentos deverá ser padronizada, assim como a forma de disseminação das comunicações e os responsáveis pelo envio e recebimento da informação. Prazos para respostas devem ser adotados, assim como prazos para envios de materiais e horários das necessidades. Este investimento é o de menor custo e o de aplicação mais rápida no processo, devendo, assim, ser o primeiro a ser adotado. A criação de locais próprios e adequados às boas práticas de fabricação (ANVISA 2, 2003) para a realização prévia da separação dos materiais a serem utilizados deve ser o segundo ponto a ser investido. Como exposto por Enomoto e Lima (2007), uma distribuição bem planejada e realizada pode trazer redução de custos às operações. Mesmo sendo um departamento da empresa, seus clientes internos esperam os mesmos resultados dos exigidos junto aos fornecedores externos. O atraso dos setores produtivos devido ao atraso no fornecimento de matérias primas – principalmente se tratando de um gargalo – deve ser evitado. O uso de sistemas de gerenciamento de armazéns é um terceiro investimento a ser adotado. As reduções de custos finais e as reduções no número de atrasos de entrega são fatores que justificam o investimento, como mostrado por Ribeiro, Silva e Benvenuto (2006). Agradecimentos Os autores agradecem ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e a FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais), pelo apoio financeiro concedido a diversos projetos que subsidiaram o desenvolvimento desse trabalho. Referências ALTRICHTER, H. ; KEMMIS, S.; McTAGGART, R.; ZUBER-SKERRITT, O. The concept of action research. Disponível em <http://www.emeraldinsight.com/0969-6474.htm> . 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