ALEX DA SILVA DENADAI
OPINIÃO PÚBLICA E PESQUISA DE SURVEY:
Uma Análise do Projeto Assessoria Popular em Mariana 2001-2008
Mariana
Instituto de Ciências Humanas e Sociais
Universidade Federal de Ouro Preto
2009
ALEX DA SILVA DENADAI
OPINIÃO PÚBLICA E PESQUISA DE SURVEY:
Uma Análise do Projeto Assessoria Popular em Mariana 2001-2008
Monografia apresentada ao Curso de História do
Instituto de Ciências Humanas e Sociais da
Universidade Federal de Ouro Preto, como
requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel
em História.
Orientador: Prof. Adriano Sérgio Lopes da Gama
Cerqueira.
Mariana
Instituto de Ciências Humanas e Sociais
Universidade Federal de Ouro Preto
2009
A todos os pesquisadores, estagiários e
coordenadores que fizeram e fazem parte da
história do Neaspoc-UFOP.
AGRADECIMENTOS
Primeiramente devo agradecer à Universidade Federal de Ouro Preto pelo ensino
público, gratuito e de qualidade e por ter me acolhido e proporcionado anos valiosos de
ensino e aprendizado.
Ao Neaspoc-UFOP pelo aprendizado profissional durante os anos de estágio e
pesquisas realizadas. Em especial a figura do Professor, Amigo e Chefe Adriano Cerqueira,
orientador desta monografia, e peça extremamente importante para minha formação como
pesquisador e observador social. Também ao ex-coordenador do Neaspoc-UFOP, Professor e
Amigo Fábio Faversani por toda a supervisão que nos prestou durante o estágio (e pelas
brincadeiras) sou extremamente grato.
Ao Professor e Amigo Álvaro pela oportunidade que tivemos em trabalhar juntos e
pelo aprendizado que tive com este em sala de aula.
À equipe de trabalho e amigos que estiveram presentes comigo durante esses anos de
estágio. Emerson, Pablo e Tais, obrigado por termos encarado os diversos desafios de
pesquisa, em especial o projeto Estrada Real e as Eleições de 2008, depois de muitas
madrugadas em claro, discussões e finais de semanas sacrificados, mas resultados altamente
positivos.
Não poderia deixar também de agradecer ao grande amigo e camarada Antônio Neto
Júnior (Tchuim) por todo o apoio e companheirismo no meu primeiro ano como estagiário, e
a Humberto José Bis companheiro de equipe em 2006.
À república Trem de Doido, casa onde morei durante a maior parte da minha
graduação na UFOP.
À querida Roberta, por todo o apoio e paciência que teve comigo durante o tempo de
confecção desta monografia.
E por fim a todos os pesquisadores que participaram da coleta de mais de 11 mil
entrevistas durante esses oito anos do Projeto Assessoria Popular em Mariana.
O império da opinião pública sobre as opiniões
particulares é doce, salutar, natural,
irresistível; o da autoridade e da força é
necessariamente tirânico, odioso, absurdo,
monstruoso.
ROBESPIERRE
Como pode, então, o governo agir sobre os
costumes? Respondo que através da opinião
pública. Se na solidão nossos hábitos nascem
de nossos próprios sentimentos, na sociedade
eles nascem da opinião dos outros.
ROUSSEAU
RESUMO
Esta monografia de Bacharelado em História do Brasil avalia aspectos políticos,
sociais e econômicos, através da análise de pesquisas do tipo survey, de informações colhidas
junto à população de Mariana. O Projeto Assessoria Popular, do qual se extraíram as
informações empíricas, reuniu uma gama de 30 pesquisas entre os anos de 2001 a 2008,
totalizando mais de 11 mil entrevistas. Anterior a análise dos dados, trabalhou-se com a
discussão acerca de aspectos do debate sobre a opinião pública, um tema ainda pouco
discutido, e também com a metodologia de pesquisa do tipo survey, um método bastante
trabalhado em universidades norte-americanas, adotada para a realização das pesquisas.
Posterior a isso, analisando-se os dados, pode-se chegar à percepção de como o Marianense
avaliou positivamente, em alguns momentos, questões ligadas à área social, política e
econômica abordada nas pesquisas.
LISTA DE ABREVIATURAS
DEEDU – Departamento de Educação da Universidade Federal de Ouro Preto
ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio
FGV-RJ – Fundação Getúlio Vargas do Estado do Rio de Janeiro
FIEMG – Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
NEASPOC – Núcleo de Estudos Aplicados e Sociopolíticos Comparados
PROUNI – Programa Universidade para Todos
REUNI - Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades
Federais
SEBRAE-MG – Serviço Brasileiro de Apoio o Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais
SETUR-MG – Secretaria de Turismo de Minas Gerais
UFOP – Universidade Federal de Ouro Preto
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO....................................................................................................................... 9
I. ASPECTOS DO DEBATE SOBRE A OPINIÃO PÚBLICA ..................................................... 11
I.1- ASPECTOS DA OPINIÃO PÚBLICA NA ANTIGUIDADE ................................................. 11
I.2- ASPECTOS DA OPINIÃO PÚBLICA NO PERÍODO MODERNO..................................... 14
I.3- ASPECTOS DA OPINIÃO PÚBLICA NO PERÍODO CONTEMPORÂNEO....................... 19
II. METODOLOGIA DE PESQUISA: OS SURVEYS ................................................................. 22
II.1- UM BREVE HISTÓRICO ................................................................................................. 22
II.2- OS SURVEYS NA ELABORAÇÃO DE PESQUISAS ......................................................... 24
III. O NEASPOC-UFOP E PROJETO ASSESSORIA POPULAR EM MARIANA........................ 32
III.1- METODOLOGIA EMPREGADA NAS PESQUISAS DO PROJETO ASSESSORIA POPULAR
............................................................................................................................................ 34
III.2- ANÁLISE DE VARIÁVEIS EMPREGADAS NAS PESQUISAS DO PROJETO ASSESSORIA
POPULAR ............................................................................................................................ 35
III.3- DADOS DA AMOSTRA ................................................................................................ 36
III.4- AVALIAÇÃO DE PROBLEMAS..................................................................................... 45
III.5- AVALIAÇÃO DE GOVERNOS ..................................................................................... 49
III.6- AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO ECONÔMICA............................................................... 61
IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................................. 64
FONTES DE DADOS EMPÍRICOS ......................................................................................... 67
LIVROS E ARTIGOS CITADOS E/OU CONSULTADOS ......................................................... 67
INTRODUÇÃO
Estudar a opinião pública foi para nós o primeiro passo para a efetivação de um
trabalho que começou a fazer parte do cotidiano do curso de história ainda nos primeiros
períodos da faculdade. As primeiras pesquisas realizadas junto às populações de Mariana e
Ouro Preto, já nos mostravam o quanto é importante ouvir a opinião pública para se ter uma
dimensão mais ampla dos problemas e demandas sociais que norteiam essas populações.
Dado o primeiro passo, manifestamos o interesse de acompanhar mais de perto todo o
processo de trabalho desenvolvido no Neaspoc-UFOP, que se consagrou como um respeitável
núcleo de estudos e laboratório de pesquisa da Universidade Federal de Ouro Preto.
Surgiu-nos então, a idéia de investigar os dados levantados nas pesquisas do Projeto
Assessoria Popular em Mariana, realizado entre os anos de 2001 a 2008. Tal projeto consiste
em investigar junto à população de Mariana temas ligados à área social, política e econômica
a fim de disponibilizar informações que podem ser tanto usadas pelo poder público - como
uma forma de ouvir a população acerca do que pensam e o que querem - como por
pesquisadores com o intuito de conhecer melhor determinados aspectos dessa população.
Nosso objetivo, com este trabalho, foi desenvolver um estudo introdutório que
discutisse a questão da opinião pública, a metodologia de pesquisa utilizada e, por fim, a
análise dos temas que foram abordados nas pesquisas do Projeto Assessoria Popular.
No primeiro capítulo trabalhos a questão da discussão acerca do debate sobre a
opinião pública e ação política na antiguidade, no período moderno e no contemporâneo e
pudemos ter uma percepção de como o termo passou por sucessivos debates ao longo dos
séculos. Tendo em vista todo o debate realizado, a opinião que nos interessa para este
trabalho, diz respeito aos assuntos da nação ou a outro agregado social, expressa de maneira
livre por cidadãos que estão fora do governo, mas que reclamam o direito de que suas
opiniões possam influenciar ou determinar ações governamentais.
No capítulo dois optamos por abordar a metodologia de pesquisa empregada pelo
Neaspoc-UFOP - os chamados surveys - na realização das pesquisas do Projeto Assessoria
Popular em Mariana e também em outras ações de pesquisas promovidas pelo núcleo.
Realizamos uma breve introdução do que se convém chamar de metodologia de pesquisa de
survey além de citarmos alguns exemplos de trabalhos desenvolvidos nesses dez anos de
existência do núcleo.
9
No capítulo três apresentamos um pouco do histórico da criação do Neaspoc-UFOP e
analisamos a fundo as variáveis empregadas nas pesquisas do Projeto Assessoria Popular.
Dentre os diversos resultados oriundos dessas análises, podemos perceber como o Marianense
avaliou de forma positiva a atuação dos governos federal, estadual e municipal; como a
questão do nível de escolaridade precisa sofrer avanços, principalmente com a efetivação de
mais pessoas ingressarem e concluírem o ensino superior; e como a distribuição da renda
familiar ainda é baixa.
Para a composição do banco de dados, reunimos as trinta pesquisas realizadas entre os
anos de 2001 a 2008. Uma série de questões foi abordada, como avaliação de governos
federal, estadual e municipal; faixa de renda familiar; grau de instrução; religião; cor de pele;
maior problema do Brasil, de Minas Gerais e de Mariana; expectativas quanto à situação
econômica; dentre outras; mas nem todas corresponderam às trinta pesquisas. Procuramos
então indicar nas tabelas o número de casos relativos à variável analisada e em algumas
ocasiões, no texto referente ao comentário das tabelas, o número de pesquisas que tal variável
se repetiu.
Todos os dados relativos às pesquisas do Projeto Assessoria Popular, bem como outros
que usamos no capítulo dois, encontram-se em poder do Neaspoc-UFOP. Alguns estão
disponibilizados na internet, através do site do Neaspoc, e outros ainda aguardam para serem
incluídos na rede.
10
I. ASPECTOS DO DEBATE SOBRE A OPINIÃO PÚBLICA
I.1- ASPECTOS DA OPINIÃO PÚBLICA NA ANTIGUIDADE
Opinião Pública e Ação Política são reflexões que tem norteado o contexto e a
formulação de diversos trabalhos de pesquisa realizados em Universidades e institutos de
pesquisa no Brasil. Ainda não muito bem estudado no campo da história, ou compreendido
em outros contextos, o termo opinião pública caminha conjuntamente com a ação política,
ação esta que provém das massas, dos grupos, das associações, ou seja, dos indivíduos que se
organizam enquanto agentes coletivos para expressarem seus ideais, seus questionamentos,
suas reivindicações e seus interesses.
Estudar a opinião pública não parece uma tarefa simples. Ainda mais se fizermos
referência à antiguidade, onde apesar da inexistência do uso do termo, ele já podia ser
compreendido nas manifestações da coletividade, como podemos perceber nas obras de
Homero, Platão, Aristóteles, Sêneca, entre outros.
Para relatarmos melhor o termo opinião pública e a atuação dos agentes nesse
processo, partiremos com a discussão dos marcos das filosofias políticas clássicas antigas,
pensadores modernos e autores contemporâneos, com a intenção de discutir as possibilidades
e propriedades da intervenção desses agentes que, a primeira vista, não se qualificam para
atuar na esfera política institucional como indivíduos, mas que tem a possibilidade de fazê-los
enquanto agentes coletivos; ou seja, quando e de que maneira a opinião pública e a ação
popular devem aparecer.
Os primórdios do debate acerca da opinião pública e da representação política fazem
com que comecemos nossa análise do termo no período da antiguidade – embora a expressão
opinião pública ainda não existisse, tal como se denomina a partir do século XVIII, mas já
estivesse implícita nos escritos de várias obras filosóficas, a saber: Homero, Platão,
Aristóteles, Sêneca, entre outros.
Comecemos por Platão. Para ele o cidadão comum era desconsiderado para atuar no
mundo público ou na esfera pública, pois, de acordo com sua argumentação, o povo se
apresentava incapaz de compreender o funcionamento do governo e o mesmo não devia se
preocupar com suas reivindicações. Assim, Platão desconsiderava a opinião pública para o
bom funcionamento do governo. A doxa platônica, que se contrapõe à ciência ou saber
11
verdadeiro, representa o mais baixo nível de conhecimento, identificada como uma forma de
semi-ignorância baseada em ambigüidades que são consideradas reais pelo cidadão comum,
segundo a visão de Emerson Urizzi Cervi (2006, p. 107). Platão considera o público como um
grande sofista por avaliar o vínculo entre opinião e povo como despreparado. A participação
política dos indivíduos, neste caso, estaria condicionada aos sábios.
Já nos poemas homéricos, a Ilíada e a Odisséia, pode-se perceber que a participação
política dos cidadãos sempre está ligada à mobilização militar, quando a questão da luta é
algo necessário e os cidadãos são convencidos para isso. Alguns cidadãos se qualificam à
participação política através de caracteres individuais como nobreza, riqueza, instrução,
prestígio, representatividade, etc. Porém, em sua minoria, pois a maioria se qualifica como
indivíduo e sua possibilidade de intervenção no jogo político mais efetivamente é agir no
âmbito da coletividade. Em ocasiões como essa é que a população ganha força para decidir
nos processos políticos (CERQUEIRA; FAVERSANI, 2001, p.434-435).
A possibilidade de indivíduos não socialmente qualificados participarem de processos
de decisão sempre preocupou os que se afirmam como mais capazes de decidir. Aristóteles e
Sêneca, autores da antiguidade clássica, deixaram evidente em alguns de seus textos essa
preocupação, onde a participação política se mostrou evidente.
Em A Política, Aristóteles (1999) expõe o que considera ser o governo ideal, pois para
ele só são considerados verdadeiros cidadãos os que participam do governo exercendo cargos
e os pobres não devem participar do governo, pois exercem profissões desprezadas diante do
que se considera ser um cidadão de bem.
No livro III apresenta partes que compõem a população incluindo os pobres e os
colocando em oposição aos ricos, pois seria “impossível que as mesmas pessoas sejam pobres
e ricas. Os pobres e ricos parecem, portanto, formar a principal divisão das classes do Estado.
Aliás, como ordinário uns contam um número bem pequeno e outros um número bem maior,
é claro que são partes contrárias entre si” (apud CERQUEIRA; FAVERSANI, 2001, p.435).
Ainda no livro III o governo do povo seria inaceitável, pois se trata de um regime
tirânico e injusto fazendo com que os homens de bem sejam sujeitados a tal. Apesar de não
governar, o povo também não deve ser excluído. Mas o povo estaria sujeito a desempenhar
que papel na sociedade então? Nas palavras de CERQUEIRA e FAVERSANI (2001, p. 436),
“o mérito do povo, para Aristóteles, não está nos indivíduos que o compõem. O povo só deve
ser levado em consideração como um conjunto, jamais como indivíduos. Podemos perceber
em Aristóteles o reconhecimento do poder do público no julgamento e na apreciação, o que,
12
sem dúvida, diz respeito à dimensão da opinião pública, conceito que, entretanto, não foi
formulado pelo autor, apesar de tratá-lo nos seus efeitos”. A força de expressão do público
estaria então no conjunto da coletividade, pois aí parece que se apresenta o seu poder.
Nessa medida, o governo ideal para Aristóteles, que seria então o julgamento do
coletivo formado pelos pobres acrescidos dos ricos que daria origem ao governo dos ricos,
pois reunidos em conjunto com pessoas de nível mais elevado eles seriam melhores
aproveitados, não era um consenso para os pensadores da antiguidade. Platão, por exemplo,
propunha como governo ideal o governo do sábio, pois seria o mais virtuoso e governaria para
todos os homens.
Outro pensador da antiguidade que não compartilha com a idéia de Aristóteles de que
o povo, em conjunto, poderia ter virtudes o bastante para julgamento, ou seja, o povo em
conjunto decide melhor do que apenas um indivíduo isolado, é Sêneca1. Filósofo do século I
d.C., conselheiro do imperador Nero, Sêneca teria esboçado na obra De Clementia o que seria
a relação entre o governante e o povo. O imperador seria uma espécie de sábio, de guia para a
multidão que se encontra desamparada. Ele dá a liberdade e a justiça aos súditos que o
mantém como governante numa relação de auxílio e existência.
Para Sêneca o imperador seria a peça que faz o povo existir; não só o povo, mas
também a sua personalidade política, a república. Por seu intermédio nada de mal aconteceria
ao estado, pois imperador e estado seriam algo semelhante. Com isso, a população
desarticulada só promoveria a sua própria autodestruição e para que tivesse algum poder seria
preciso que alguém a conduzisse, no caso o imperador, que deve atender aos interesses desse
povo em detrimento de ser destronado (CERQUEIRA; FAVERSANI, 2001, p.438).
Nesse caso, o governante só se sustentaria se tivesse apoio da opinião, ou seja, do
povo. Entretanto, essa opinião deveria ser bem moldada, pois quando a opinião errônea de uns
se torna geral, a mesma pode condicionar as demais. A opinião não seria um elemento inerte,
mas sim passível de mudança.
Nesse caso, para Sêneca, o comportamento de um indivíduo influencia os demais,
gerando uma resultante que é o comportamento geral. Quanto mais percebido pelos demais se
fizer o comportamento de um indivíduo mais ele irá gerar influência sobre os outros. Daí a
preocupação de Sêneca acerca da postura do imperador, pois seria o mais visível de todos
(CERQUEIRA; FAVERSANI, 2001, p.440).
1
Para uma melhor compreensão sobre as ações desse filósofo que foi preceptor do Imperador Nero, ver:
FAVERSANI, F. A sociedade em Seneca. Tese de doutorado, FFLCH, São Paulo, 2000.
13
Desse modo, a opinião aparece como algo essencial por moldar os mecanismos
relacionados à existência dos indivíduos. Mesmo sabendo que a opinião sofre influência de
ações e pensamentos que são originários dos indivíduos em si, é no campo geral que se
encontram os elementos de fundamental importância para a existência humana. A forma pela
qual os indivíduos constrangem a opinião geral depende de sua capacidade de tornar a razão
exercitável e de fazer perceptível sua forma de agir e de pensar ao maior número de pessoas
(CERQUEIRA; FAVERSANI, 2001, p.441).
Contudo, mesmo amparados por mecanismos de constrangimento da ação de cada
indivíduo e de potencialização da capacidade de alguns indivíduos fazerem de sua opinião ou
ação uma opinião pública ou ação coletiva (CERQUEIRA; FAVERSANI, 2001, p.441), os
elementos que destacamos através de autores da antiguidade nos parecem de fundamental
importância para compreendermos a questão da representação política e da configuração da
opinião pública. A intervenção de agentes coletivos nas agências do estado, talvez seja a
forma mais viável para expressarem seus ideais, seus questionamentos, suas reivindicações,
suas finalidades.
Ao expormos alguns aspectos da opinião pública e da representação política na
antiguidade, partiremos agora para a análise do termo no período moderno.
I.2- ASPECTOS DA OPINIÃO PÚBLICA NO PERÍODO MODERNO
Alguns dos estudos característicos do período moderno dizem respeito à investigação
da opinião pública sobre a dinâmica das políticas dos Estados em consolidação. Nessa época,
houve uma maior participação dos agentes políticos no processo de definições de mandatos
dos governos nos Estados, porém, não culminando efetivamente em uma democracia tal qual
como a conhecemos. Por outro lado, essa época também é marcada por um aparato de
controle administrativo estatal cada vez mais intenso na dinâmica da população que teria
resultado na ampliação dos direitos civis, políticos e sociais.
Determinados pensadores desse período, como Maquiavel (1991), identificaram a
questão da opinião pública como sendo algo útil para os interesses do governante e para o
bem comum do Estado. Ele reconhece que a opinião pública poderia ser algo de grande
utilidade para o governante, como também, para o Estado, e pode-se dizer que “foi o primeiro
a dar uma feição pragmática ao uso da opinião pública como instrumento para alcançar e
14
manter o poder, pois sugere que a opinião pública pode ser manipulada ou acomodada, mas
nunca ignorada” (CERVI, 2006, p. 108). Na obra O Príncipe, que reflete a figura de um
governante capaz de assegurar a ordem e a manutenção de um Estado onde houvesse a união
do território e a população vivesse sobre as regras de um governo maior, é possível
encontrarmos elementos científicos de uma ciência da opinião e propaganda2, bem como
aspectos iniciais de relações públicas que, todavia, devem ser levados em consideração por
um governante precavido. No capítulo IX, Maquiavel destaca a importância do apoio popular
para se manter no poder, pois o pior que um príncipe pode esperar do povo hostil é ser
abandonado por ele [...]. Precisa ainda o príncipe viver sempre com o povo [...] e quem se
torna príncipe mediante o favor do povo deve manter-se seu amigo, o que é muito fácil, uma
vez que este deseja apenas não ser oprimido. Mas quem se torna príncipe contra a opinião
popular, por favor dos grandes, deve, antes de mais nada, procurar conquistar o povo
(MAQUIAVEL, 1991, p. 40). Já no capítulo XVIII, chama a atenção para a questão da
infidelidade do príncipe em não se preocupar para com as suas promessas, porém, tornando-se
fundamental que se esconda a natureza de suas ações, pois é necessário disfarçar muito bem
esta qualidade e ser bom simulador e dissimulador (MAQUIAVEL, 1991, p. 74). Por fim, no
capítulo XIX, reitera a importância de haver uma harmonia entre os poderosos e o povo em
favor da governabilidade do Estado, pois a um príncipe pouco devem importar as
conspirações se é amado pelo povo, mas quando este é seu inimigo e o odeia, deve temer tudo
e a todos. Os Estados bem organizados e os príncipes prudentes procuram-se sempre em não
reduzir os grandes ao desespero e satisfazer e contentar o povo, porque essa é uma das
questões mais importantes que um príncipe deve ter em mente (MAQUIAVEL, 1991, p. 79).
Percebe-se, entretanto que, Maquiavel, um autor que é considerado teórico da
monarquia e que se preocupa com a imagem do Príncipe, leva em consideração a opinião
pública com uma visão pejorativa inaugurada pelos gregos. Até finais do século XVIII, a
opinião pública não é valorizada, devendo ser levada em consideração apenas em função de
sua utilidade, como no caso de quem deseja manter-se no poder. Maquiavel também não a
considera geradora de posições sociais consistentes a respeito das questões do Estado
(CERVI, 2006, p. 109-110).
Já para Thomas Hobbes, um dos principais teóricos do poder do Estado, a opinião
pública deve ser condenável por introduzir no Estado um germe de anarquia e de corrupção
(BOBBIO, 1986, p. 842).
2
Para uma melhor discussão sobre o termo ver: MUÑOZ-ALONSO, Alejandro et al. Opinión Pública Y
Comunicación Política. Madrid (Espanha): Editora Eudema, 1992.
15
Contudo, é nos primeiros séculos da Idade Moderna que se criaram condições para a
existência de uma opinião pública autônoma a respeito do poder político. Ao mesmo tempo
em que os governantes passavam a ter consciência de que necessitavam da opinião e da
reputação como fundamento de seu poder3. Nesse período reaparece, então, uma distinção
nítida entre o público e o privado4 (apud CERVI, 2006, p. 109).
No período renascentista, a ênfase no indivíduo e em sua razão dá aos pareceres
individuais um valor que não tiveram no universo medieval - época de obscuridade –
baseados em critérios de autoridade e enfoques dogmáticos. A passagem do teocentrismo
medieval para o antropocentrismo moderno oferece uma das principais condições para a
consolidação da opinião individual, ultrapassando o monolitismo ideológico da Idade Média,
substituído por um pluralismo que teria de fato contribuído para a consolidação da opinião
pública expressiva e valorizada (CERVI, 2006, p. 109).
A primeira reivindicação clara da autonomia da opinião pública consistente e coerente
só se dá no Iluminismo e é impulsionada pelo pensamento liberal. Em seu Ensaio sobre a
inteligência humana, John Locke fala de uma lei da opinião ou reputação que é uma
verdadeira e autêntica lei filosófica: ela é a norma das ações, serve para julgar se os atos
públicos são virtuosos ou viciosos. Para Locke, ao formar a sociedade política, os homens
abdicaram, a favor do poder político, do uso da força contra os cidadãos, mas mantiveram
intangível o poder de julgar à virtude e o vício, alem da bondade e maldade de suas ações.
Sendo juízo expresso pelos cidadãos, apoiado pelo oculto e tácito consenso, toda a sociedade,
de acordo com seus próprios costumes, estabelecerá leis da opinião, que serão diversas
conforme os países. Na estruturação do Estado liberal, há de se salientar uma radical distinção
entre lei e moral, expressa pela opinião pública, e lei civil, expressa pela assembléia
representativa, algo que se distingue como verdadeiro e autentico entre o poder político e o
filosófico; um claro contraste entre moral e política5.
Na obra de Rousseau, a opinião pública continua com o caráter em expressar juízos
morais, mas tais juízos estão em consonância direta com a política e com os canais
institucionais por meio dos quais se exprimem. No Contrato Social, há uma revalorização da
instituição da censura, sendo o censor o ministro da lei da opinião pública. Assim como a
declaração da vontade geral se faz por meio da lei, assim também a declaração do juízo
3
Maquiavel parece ter expressado claramente essa idéia em sua obra O Príncipe.
Para uma melhor discussão sobre o termo ver: MUÑOZ-ALONSO, Alejandro et al. Opinión Pública Y
Comunicación Política. Madrid (Espanha): Editora Eudema, 1992.
5
Cf. BOBBIO, 1986.
4
16
público se faz por meio da censura (apud CERVI, 2006, p. 109). O censor não é o árbitro da
opinião do povo, mas apenas sua expressão e não pode, portanto, afastar-se do costume6.
Deste modo, a censura pode ser útil para conservar os costumes, mas não o é para restabelecêlos, quando se corrompem. Rousseau que, com sua vontade geral, quer superar a distinção
entre política e moral, apresenta uma estreita correlação entre soberania popular e opinião
pública, leis e costumes, política e moral, vendo na opinião pública a verdadeira constituição
do Estado (BOBBIO, 1986, p. 843).
Atrelado ao pensamento de Rousseau, alguns intelectuais presentes na Revolução
Francesa vão levar a cabo as idéias contidas tanto no Contrato Social, como em outros
escritos, no intuito de identificar na opinião pública o verdadeiro e único poder soberano.
Nascimento (1989) trabalha em seu livro Opinião pública e revolução, a análise de um grupo
de intelectuais que atuaram durante a Revolução Francesa, o chamado Círculo Social, e que
foram defensores ferrenhos da opinião pública, acreditando, então, que ela seria o único
poder, o juiz supremo, a própria verdade. O seu objetivo foi investigar o discurso político e
ideológico de alguns dos membros desse Círculo Social, tendo como viés sua concepção de
opinião pública.
Alguns pensadores liberais ingleses e franceses dão continuidade ao pensamento de
Locke com Burke, Bentham, Constant e Guizot com a novidade da função pública, ou melhor,
política, da opinião pública como instância intermediária entre o eleitorado e o poder
legislativo. A opinião pública tem por função permitir a todos os cidadãos uma ativa
participação política, colocando-os em condições de poder discutir e manifestar as próprias
opiniões sobre as questões de interesse geral. Há pelo menos três décadas a teoria social
brasileira tem se ocupado em estudar o tema, entretanto, sendo bem recente na literatura
política nacional, em vista das discussões que já se estabelecem desde a década de trinta,
principalmente, nos Estados Unidos.
Após o Iluminismo, o conceito de opinião pública obtém uma nova importância, e a
partir dos escritos de John Locke, sobre a lei da opinião pública como uma forma de controle
útil para o Estado, há uma primeira desvalorização da opinião pública que aparece no
pensamento de Hegel. Para ele, a opinião pública é a manifestação dos juízos, das opiniões e
dos pareceres dos indivíduos acerca de seus interesses comuns. Trata-se de um saber apenas
como fenômeno, que possui uma generalidade meramente formal, incapaz de atingir o rigor
da ciência. A sociedade civil, onde há a formação da opinião pública, seria um conjunto
6
Quem trabalhou bem essa questão foi Milton Meira do Nascimento em seu livro Opinião Pública e Revolução.
Cf. em: NASCIMENTO, Milton Meira. Opinião pública e revolução. São Paulo: Edusp; Nova Stela, 1989.
17
anárquico e também antagônico de tendências que não elimina a desigualdade. Com isso, a
partir dos interesses particulares não se pode chegar à universalidade, pois a sociedade civil se
apresenta de forma desorganizada (BOBBIO, 1986, p. 844).
A mesma geração de liberais que sucedeu Constant e Bentham começou a temer que a
opinião pública não fosse assim tão incorruptível como se havia acreditado até então, pois,
segundo Kant, o perigo da corrupção não vinha tanto do governo, mas sim da própria
sociedade, através do despotismo da maioria ou do conformismo de massa. Alexis de
Tocqueville e John Stuart Mill, o primeiro em Democracia na América e o segundo em Sobre
a Liberdade, mostram como o despotismo da massa opera não tanto através da autoridade
pública, através do aparelho do Estado, mas, sobretudo, mediante pressão psicológica da
sociedade sobre a alma e não sobre o corpo do indivíduo, para quem resta somente a escolher
entre o conformismo e a marginalização. Percebe-se com isso que há um controle social mais
que um controle político, impedindo desse modo o livre desenvolvimento da personalidade do
indivíduo, bem como a formação de um público deles mesmos que faça uso da razão para
raciocinar7.
Na análise do Estado liberal, Kant tratou de modo sistemático a função da opinião
pública, mesmo sem ter usado esse termo, pois ele fala sobre a “publicidade” ou o “público”.
Quando perguntado a si mesmo sobre o que é iluminismo, responde que o termo consiste em
fazer uso público da própria razão em todos os campos. Este uso público da razão, que há de
ser sempre livre, possui uma função dupla tendo em vista dois destinatários: por um lado se
dirige ao povo, para que se torna cada vez mais capaz da liberdade de agir; por outro se dirige
ao Estado, para lhe mostrar que é vantajoso tratar o homem não como uma máquina, mas
segundo sua dignidade. Antes de tudo, quem deve esclarecer o povo sobre os seus direitos e
deveres não podem ser pessoas oficias designadas pelo Estado, mas livres cultores do direito,
filósofos: aqui, na desconfiança para com o Governo, pronto sempre a dominar, fica clara a
distinção entre política e moral, bem como a autonomia da sociedade civil, composta por
indivíduos racionais e autônomos frente ao Estado (BOBBIO, 1986, p. 843).
Como se vê, o debate histórico conceitual sobre a opinião pública no período moderno
foi bastante intenso diante do processo de refutação pelo qual passou o termo. Desde
Maquiavel, passando por Hobbes, Locke, Rousseau, Kant, entre outros, não se chegou
claramente a esboçar um conceito de opinião pública aceitável pela maior parte desses
pensadores. Tal dificuldade parece esbarrar em uma série de questões que, aja vista, ainda
7
Cf. BOBBIO, 1986.
18
permeiam em nossos tempos atuais. A literatura política brasileira ainda é tímida no
tratamento dispensado a essa discussão, iniciada com mais afinco a partir da década de 70,
ainda assim, sobre o papel da opinião pública nos processos políticos, em destaque, aqueles
ligados às formas de representação.
Ao expormos alguns aspectos da opinião pública e da representação política no
período moderno, partiremos agora para a análise do termo no período contemporâneo.
I.3- ASPECTOS DA OPINIÃO PÚBLICA NO PERÍODO CONTEMPORÂNEO
Na contemporaneidade, o debate relativo ao papel da opinião pública ainda continua a
ser objeto de investigação, mas de maneira bem tímida frente a temas considerados mais
relevantes principalmente nas ciências humanas. Dá-se uma maior importância para o termo a
partir do final da década de 80 com o advento das pesquisas de opinião pública. Desde então,
os brasileiros se familiarizaram com o termo opinião pública que passou a aparecer com certa
freqüência em jornais, revistas, rádios e televisão, além de fazer parte de discursos de
candidatos e justificativas para escolhas de ocupantes de cargos públicos. Entretanto, pouco
se discutiu até o momento - no plano acadêmico - sobre a natureza da opinião pública e sua
importância para os processos democráticos.
Um dos problemas para a dinâmica do debate sobre a opinião pública nas ciências
humanas brasileira esbarra na questão de haver poucos estudos acerca desse objeto.
Trabalhando mais sobre temas gerais como os da ordem institucional, do autoritarismo, da
dominação, da democracia e do voto, autores como Victor Nunes Leal, Oliveira Vianna,
Gilberto Freire, Octávio Ianni, principalmente, tratam do público, das massas, dos eleitores,
das classes sociais e do papel da opinião pública indiretamente. Mais recentemente, através
dos estudos sobre eleições, voto e sistema partidário, o debate sobre a gênese da opinião
pública no Brasil começou a ganhar corpo e tais estudos ocupam-se mais do comportamento
eleitoral do que propriamente da formação da opinião (CERVI, 2006, p. 113).
Ainda que de forma indireta, existe na literatura política brasileira um início de
discussão sobre o papel da opinião pública nos processos políticos com destaque para aqueles
ligados às formas de representação. No Brasil, a partir da década de 70, já com o uso de
pesquisas quantitativas, entra na agenda dos pesquisadores a necessidade de estabelecer, de
início, um perfil do eleitor. E foi a partir desses trabalhos que o tema opinião pública passou a
19
ser tratado, ainda que de maneira marginal, nos estudos nacionais de áreas como a da ciência
política. Essas pesquisas iniciais constatavam baixos níveis de informação política no eleitor
médio e por isso ele é visto como sendo amorfo, com pouca participação política e quase
nenhuma capacidade de conscientização (CERVI, 2006, p. 113).
No plano teórico da literatura mundial autores como Habermas (1984) trataram do
estudo da opinião pública, porém ligado à questão da esfera pública8. Em seu estudo clássico
Mudança estrutural da esfera pública, escrito em 1961, onde há a reunião de um público
formado por pessoas privadas que constroem uma opinião pública com base na racionalidade,
e fora da influência do poder político e econômico e da ação estratégica, Habermas deixa
evidente que a sua tarefa nesta obra não é o estudo da esfera pública e da opinião pública em
geral, mas a análise das origens e transformações de uma esfera pública com um caráter de
classe bem definido: esfera pública burguesa como categoria historicamente definida e ligada
ao desenvolvimento da sociedade burguesa e da opinião pública burguesa. Para ele, a esfera
pública burguesa pode ser entendida inicialmente como a esfera de pessoas privadas reunidas
em um público para defender a sua liberdade econômica e atacar o próprio princípio de
dominação vigente, ou seja, torná-lo racional: não baseado numa superioridade determinada
por uma origem hereditariamente nobre, mas no melhor argumento racionalmente submetido
à opinião pública. Ainda segundo Habermas, o processo de transição que se dará terá claras
marcas nacionais, mas mantém uma série de características básicas semelhantes como a
reunião permanente de pessoas privadas num público buscando formar racionalmente uma
opinião pública baseada no melhor argumento (ALMEIDA, 2001, p. 3-4).
Outro autor que estabeleceu um debate mais significativo sobre a opinião pública e
também acerca das pesquisas de opinião, os chamados surveys, foi Pierre Bourdieu. De
acordo com seu argumento, “a opinião pública não existe, pelo menos na forma que lhe
atribuem os que têm interesse em afirmar a sua existência”. Bourdieu considera, entretanto,
que existem “por um lado, opiniões mobilizadas, opiniões constituídas, grupos de pressão
mobilizados em torno de um sistema de interesses; e, por outro lado, disposições, isto é, a
opinião no estado implícito, que, por definição, não é opinião se com isso se compreende algo
que pode ser formulado em discurso com certa pretensão à coerência”. Entretanto, apesar de
admitir a existência de vários tipos de “opiniões” conclui que: “Digo simplesmente que a
8
Para uma maior discussão sobre o tema ver: CERVI, E. U. Opinião pública e política no Brasil. O que o
brasileiro pensa sobre política e porque isso interessa à democracia. Tese de doutorado, IUPERJ, Rio de Janeiro,
2006.
20
opinião, no sentido da definição social implicitamente admitida pelos que fazem sondagens de
opinião, não existe” (BOURDIEU, 1980-a, p.151).
Bourdieu também afirma que “toda pesquisa de opinião supõe que as pessoas tenham
uma opinião, ou seja, que possam produzir uma opinião; que todas as opiniões são
equivalentes; pressupõe que exista um consenso sobre os problemas e, portanto sobre as
perguntas feitas na sondagem” (ALMEIDA, 2001, p. 8). Ele acredita também que as
sondagens criam a ilusão de que existe uma opinião pública, quando na realidade se trataria
de uma somatória de opiniões individuais, ou ainda, em determinados casos, de “tomadas de
posições particulares” diante de “opções” colocadas por quem pergunta. Neste caso, “a
interrogação politicológica mede não a opinião política, mas a aptidão para produzir o que se
entende por opinião pública” (BOURDIEU, 1980-b, p.166).
Como tentamos demonstrar até aqui, durante grande parte da historia sobre o debate
conceitual e mesmo entre determinados autores que trataram mais recentemente da opinião
pública, o tema passou a ser entendido como vulgar, comum ou majoritário, transformando-se
em opinião popular com repercussão política na forma de vontade geral, ou ainda, um
conjunto de opiniões coletivas organizadas, de autoridade moral na sociedade estabelecida ou
discutida, com consenso social básico, representação institucional de várias opiniões;
chegando até a opiniões sobre temas concretos ou um conjunto de opiniões (apud CERVI,
2006, p. 117).
Sendo assim, sem termos a pretensão de chegar a estabelecer um conceito de opinião
pública como fizeram alguns autores, mas cientes que de é preciso se balizar em algumas
definições, compartilharemos a nação de opinião pública com o fato de que ela é de um duplo
sentido. Primeiro, porque ela não é privada e nasce do debate público, e segundo, porque o
seu objeto é qualquer coisa, desde que seja público (BOBBIO, 1986, p. 842).
Para este trabalho, a opinião que nos interessa diz respeito aos assuntos da nação ou a
outro agregado social, expressa de maneira livre por cidadãos que estão fora do governo, mas
que reclamam o direito de que suas opiniões possam influenciar ou determinar ações
governamentais.
A discussão que faremos nos próximos capítulos irá abordar a metodologia de
pesquisa empregada pelo Neaspoc-Ufop nas pesquisas do Projeto Assessoria Popular em
Mariana e que foi usada na coleta de dados da população, e através da análise de algumas
variáveis procuraremos demonstrar como esse Projeto pode fornecer à população informações
de qualidade dos mais variados temas de interesse popular e governamental.
21
II. METODOLOGIA DE PESQUISA: OS SURVEYS
No capítulo anterior tratamos dos aspectos da Opinião Pública dando ênfase ao seu
contexto histórico ao longo dos séculos e sua importância para a definição de ações
governamentais, considerando que a população deve ser o foco de análise. A nosso ver, o
debate acerca da definição de políticas públicas que realmente atendam aos anseios da
população se caracteriza cada vez mais como algo necessário para a consolidação do regime
democrático. As pesquisas de Opinião Pública, quando bem formuladas e bem executadas,
podem trazer muitos aspectos relevantes e de grande contribuição para essas ações. As
respostas a isso são diversos trabalhos desenvolvidos em Universidades, a citar como
exemplo a UFOP, em especial o NEASPOC, que tem como foco principal a análise junto à
população, de questões de interesse público e que sejam relevantes para contribuir em
melhorias sociais.
Ao longo deste capítulo procuraremos abordar a metodologia de pesquisa empregada
pelo Neaspoc-UFOP - os chamados surveys - na realização das pesquisas do Projeto
Assessoria Popular em Mariana e também em outras ações de pesquisas promovidas pelo
núcleo. Traçaremos uma breve introdução do que se convém chamar de metodologia de
pesquisa de survey e citaremos alguns exemplos de trabalhos desenvolvidos nesses dez anos
de existência do núcleo.
II.1- UM BREVE HISTÓRICO
Os surveys são modelos de pesquisa que se assemelham com muitos outros métodos.
Para efeito de comparação, são muito semelhantes a censos, sendo a diferença principal entre
eles que um survey, tipicamente, examina uma amostra da população a ser investigada,
enquanto que o censo implica em uma análise que busca o total da população a ser
investigada. Estes remontam à antiga civilização egípcia, onde os governadores julgavam útil
colher dados empíricos como uma forma de descrever seus súditos. As funções políticas da
pesquisa de survey continuam até os dias de hoje com uma série de pesquisas desenvolvidas
seja para trabalhos acadêmicos, partidos políticos, candidatos, pesquisas de mercado, etc.
22
Um dos primeiros usos políticos dos surveys de atitude ocorreu em 1880. Um
sociólogo político alemão enviou pelo correio questionários a 25000 trabalhadores franceses
com o intuito de averiguar em que grau eles eram explorados pelos patrões. O questionário
era bem extenso, incluindo mais de 100 questões e um texto inicial cujo alguns fragmentos
eram:
Nenhum governo (monárquico ou republicano burguês) ousou fazer uma
investigação séria a respeito da situação da classe operária na França. Mas, por outro
lado, muitas pesquisas já foram feitas a respeito das crises agrárias, financeiras,
industriais, comerciais ou políticas. [...] Estes cadernos do trabalho constituem o
primeiro passo que a democracia socialista tem que dar para abrir caminho à
renovação social (Karl Marx).9
O pesquisador em questão era Karl Marx, um dos grandes pensadores do século XIX
extremamente preocupado com a exploração da classe operária. E não se tem notícia de
qualquer registro que comprove o retorno de pelo menos parte dos 25000 questionários
enviados aos trabalhadores.
Outro sociólogo que fez uso dos surveys foi Max Weber, um dos fundadores da
sociologia moderna, usando métodos de pesquisa de survey no seu estudo sobre a ética
protestante. Além do exame histórico comparativo do desenvolvimento econômico, ele
também estudou operários protestantes e católicos, para obter dados confirmatórios em nível
individual (BABBIE, 1999, p. 78).
Nas décadas passadas do último século grande parte das pesquisas de survey foi
realizada por pesquisadores norte-americanos. O método utilizado resulta de importantes
trabalhos desenvolvidos em três setores diferentes da sociedade americana. A primeira
compreende “o trabalho ininterrupto do U.S. Bureau of Census que fez importantes
contribuições aos campos de amostragem e coleta de dados” [...] tendo desempenhado “um
papel singularmente importante no desenvolvimento de definições padronizadas de
amostragens e de métodos para a implementação destas definições no campo”. A segunda
fonte de desenvolvimento caracterizou-se em atividades desenvolvidas por firmas comerciais
de pesquisas de opinião, “entre elas as organizadas por George Gallup, Elmo Roper, Loius
Harris e outros. Estas firmas foram uma fonte contínua de fundos para apoiar o
desenvolvimento e o uso de métodos de survey, principalmente nas áreas de marketing de
9
Para ter acesso ao texto por completo e as perguntas do questionário, conferir em: THIOLLENT, Michel (org.).
Crítica metodológica, investigação social e enquete operária. São Paulo, Editora Polis, 1980.
23
produtos e de pesquisas políticas”, sendo muitas destas pesquisas aproveitadas para trabalhos
acadêmicos. Já a terceira fonte de desenvolvimento compreendeu o “refinamento científico da
pesquisa de survey, sobretudo métodos sofisticados de análise”, sendo em considerável parte
o produto de algumas universidades americanas - em específico, “dos esforços de dois
homens, Samuel A. Stouffer e Paul F. Lazarsfeld, que devem se considerados pioneiros da
pesquisa de survey como ela é conhecida hoje” - e mais tarde, de centros de pesquisas de
surveys (BABBIE, 1999, pp. 78-79).
No Brasil encontramos registros de surveys ainda nos anos de 1940, mas bem
timidamente. Porém, o advento se dá a partir dos anos 80, em especial com as eleições
presidenciais, onde vários institutos de pesquisa, ao retratarem o cenário político e os
principais problemas do Brasil, se consolidaram no cenário nacional como captador de
informação em grande escala. No início dos anos 90 algumas Universidades preocupadas em
desenvolver metodologias de pesquisa, em específico os surveys, criaram os primeiros
núcleos de pesquisa de opinião que atuam como grandes centros de apoio tanto para pesquisas
acadêmicas como para determinadas demandas da sociedade em geral. Um exemplo disso é o
Neaspoc-UFOP, núcleo de pesquisas da Universidade Federal de Ouro Preto, que além de
fornecer apoio para pesquisas acadêmicas também está comprometido em prestar auxílio a
projetos das populações, em especial, as de Mariana e Ouro Preto.
II.2- OS SURVEYS NA ELABORAÇÃO DE PESQUISAS
Suponhamos como exemplo qualquer que a nossa lógica de estudo seja traçar o perfil
dos estudantes de uma Universidade. Para tanto, selecionamos uma amostra de centenas de
estudantes da totalidade do corpo discente. Um questionário altamente estruturado é
elaborado para obter informações relevantes como escolaridade dos pais, nível de renda, local
de moradia (república particular ou federal), expectativas quanto à formação acadêmica,
ocupação, se concorda ou não com a política de cotas nas Universidades, e etc. Os
questionários são aplicados à amostra de alunos através de entrevistas pessoais, por telefone
ou pelo correio, caso seja necessário. As respostas de cada questionário aplicado aos
estudantes são codificadas de forma padronizada, as perguntas “abertas”
10
são analisadas
10
Classificamos como pergunta aberta aquela em que a variável a ser investigada não fornece, de antemão,
respostas para o entrevistado ou não se estabelece medições. Por exemplo, pergunta-se para o entrevistado qual a
percepção que ele tem da Justiça no Brasil. A princípio, aparecerá uma série de respostas distintas, mas que
24
mais a fundo, e registra-se de forma quantitativa. Em seguida, tabulam-se as respostas
codificadas de cada questionário para um programa específico de análise de dados11. Os
registros padronizados de cada questionário são submetidos a uma análise agregada, para
fornecer descrições do perfil dos estudantes entrevistados na amostra e determinar correlações
entre diferentes respostas. As conclusões descritivas e explicativas obtidas na análise são,
então, generalizadas para a população da qual a amostra foi selecionada, no caso, todo o corpo
estudantil.
O que acabamos de descrever é característico de uma típica pesquisa de survey e o
exemplo foi baseado em uma pesquisa realizada pelo Departamento de Educação da UFOP
em parceria com o NEASPOC. De acordo com a metodologia empregada pelo DEEDU12 e o
NEASPOC, selecionou-se uma amostragem de 380 alunos. Foram aplicados até o momento,
244 questionários, sendo 143 respondentes do sexo masculino e 101 respondentes do sexo
feminino. Todos os informantes são estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto, dos
cursos do Campus de Mariana e do Campus de Ouro Preto (o campus de João Monlevade não
foi analisado nessa fase da pesquisa). Essa pesquisa quantitativa do tipo survey, baseou-se na
amostragem realizada por conglomerado (ou cluster) tornando-se representativa do universo
de estudantes em cada curso anterior ao REUNI13. Pesquisou-se até o momento 5,8% dos
alunos nos dois Campi em 2008. A amostra alcançou alta representatividade da população,
pois foram selecionados alunos de ambos os sexos dos cursos diurnos e do noturno, dos
períodos iniciais, intermediários e finais de todos os cursos da Universidade e a amostragem
obedeceu à distribuição dos alunos proporcionalmente a cada curso da Universidade.
Posteriormente a seleção e tabulação dos questionários foram feitas entrevistas semi diretivas
com 10 alunos selecionados entre os questionários de cada instituto/curso. As entrevistas
foram transcritas, tabuladas e estão em processo de análise14.
posteriormente podem ser agrupadas em características semelhantes para fins de análise. Feito isso, pode-se
chegar a escalas de medições ou características básicas semelhantes para grande parte dos entrevistados sobre a
percepção da Justiça no Brasil. Ao contrário de uma pergunta aberta, uma fechada, como a variável sexo, admite
a princípio somente uma resposta, masculino ou feminino. Sobre elaboração de questões, conceituação e desenho
de instrumentos ver: BABBIE, Earl. Métodos de Pesquisa de Survey. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999,
capítulo 7. Ver também: ALMEIDA, Carlos Alberto. Como são feitas as pesquisas eleitorais e de opinião. Rio
de Janeiro: FGV, 2002.
11
O principal programa por nós utilizado para análise dos dados é o SPSS (Statistical Package for
the Social Sciences).
12 Departamento de Educação da Universidade Federal de Ouro Preto.
13 Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais – REUNI. Instituído a
partir do Decreto Presidencial nº 6.096, de 24 de Abril de2007.
14
Fonte: Pesquisa Jovens Universitários 2008/ 2009/ DEEDU/ Neaspoc-UFOP.
25
Um segundo exemplo de pesquisa realizada pelo Neaspoc-UFOP que podemos citar
diz-se da percepção dos estudantes de escolas públicas e privadas da região de Ouro Preto e
Mariana sobre a avaliação de políticas educacionais do governo federal. Seguindo a
metodologia empregada pelo núcleo, a pesquisa foi o resultado de um trabalho final de curso
da disciplina eletiva HIS 694 do curso de História da Universidade Federal de Ouro Preto e
foi integralmente feita pelos alunos regularmente matriculados na mesma, o que compreende:
a definição do objeto de investigação; o cálculo e desenho amostral; a elaboração do
questionário; o treinamento para aplicação dos questionários; a crítica dos mesmos; o
processo de codificação de questões abertas e o processo de digitação. Ficou por conta do
coordenador da pesquisa e do NEASPOC a elaboração do relatório final.
Esta pesquisa de opinião pública foi realizada junto aos estudantes de ensino médio e
superior de instituições de ensino público e privado das cidades de Mariana e Ouro Preto. O
método utilizado para a seleção dos estudantes foi o sorteio no momento da aplicação dos
questionários em instituições de ensino médio e superior e instituições públicas e privadas,
selecionadas segundo seu porte. Para a coleta de dados, foi utilizado um questionário
estruturado especialmente elaborado com base nos objetivos da pesquisa. As entrevistas de
caráter pessoal foram realizadas por uma equipe de entrevistadores especialmente treinada
para esse tipo de abordagem. Após a coleta foi realizada a codificação das perguntas para que
os questionários fossem digitados, vindo em seguida, a verificação da consistência dos dados.
Encerrada a crítica eletrônica, os dados foram processados segundo um plano tabular
previamente definido. Um ponto importante na execução das tabelas é a definição das
variáveis que as compõem. Essas variáveis são muitas vezes sintéticas, resultando da
combinação de mais de uma resposta do questionário.
A amostragem da pesquisa do tipo survey, baseou-se em amostra representativa dos
estudantes de instituições públicas e privadas de ensino médio e superior das cidades de
Mariana e Ouro Preto. As quotas de questionários foram definidas em cerca de cem por
segmento, sendo quatro os segmentos estruturados, a saber: estudantes de ensino médio de
instituições privadas; estudantes de ensino médio de instituições públicas; estudantes de
ensino superior de instituições privadas e estudantes de ensino superior de instituições
públicas. As entrevistas foram realizadas individualmente com cada entrevistado e o número
total foi de 409 respondentes, sendo o intervalo de confiança da amostra 95% (noventa e
26
cinco por cento) e a margem de erro aproximadamente 5 (cinco) pontos percentuais dos
resultados para a amostra como um todo15.
Um dos resultados interessantes desta pesquisa diz respeito à forma de política
educacional preferida pelos estudantes. De acordo com as respostas, cerca de 61,4% dos
entrevistados preferem o ENEM como política a ser adotada no aproveitamento do vestibular.
Outros 25,7% acham o PROUNI como alternativa mais viável e apenas cerca de 5,9%
preferem as políticas de cotas, de acordo com a tabela abaixo.
Qual destas políticas educacionais o(a) Sr(a) prefere mais?
Qual destas políticas você
prefere mais?
Casos
251
%
61,4%
105
25,7%
Política de Cotas
24
5,9%
Nenhuma delas
26
6,4%
3
,7%
409
100,0%
Aproveitamento do ENEM no vestibular
PROUNI
NR/NS
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP/ Alunos HIS 649
Um terceiro exemplo de pesquisa realizada pelo NEASPOC que também vale apena
citarmos ocorreu recentemente na fábrica de veículos da Wolkswagem Caminhões e Ônibus
no Estado do Rio de Janeiro, mais precisamente na cidade de Resende. O objetivo da pesquisa
pautou-se em dar prosseguimento a outro trabalho realizado em 2002 na mesma fábrica, e
teve o intuito de traçar o perfil dos funcionários e estabelecer possíveis comparações e
avanços em determinadas áreas de atuação dos metalúrgicos nesses últimos anos.
O método utilizado para a seleção dos respondentes foi o da abordagem pessoal feita
no interior da fábrica em três dias de campo. Para a coleta de dados, foi utilizado um
questionário estruturado especialmente elaborado com base nos objetivos da pesquisa. As
entrevistas foram realizadas por uma equipe de entrevistadores especialmente treinada para
esse tipo de abordagem, pois contou com estagiários altamente capacitados bem como
também com alunos de iniciação científica que desenvolvem trabalhos sobre a classe operária.
Após a coleta foi realizada a codificação das perguntas para que os questionários fossem
15
Fonte: Alunos HIS 694/ Neaspoc-UFOP.
27
digitados, vindo em seguida a verificação da consistência dos dados. Encerrada a crítica
eletrônica, os dados foram processados segundo um plano tabular previamente definido.
Já a amostra da pesquisa foi calculada com um intervalo de confiança de 95% e
margem de erro de 5 pontos percentuais. A população de trabalhadores na fábrica da
Volkswagen em Resende é de 1767. O cálculo do tamanho da amostra ficou em 300
entrevistas. Foram feitas ponderações quanto às empresas e os turnos de trabalho (diurno e
noturno). Para que houvesse um número significativo de entrevistas do turno noturno da
empresa Volkswagen tomou-se a decisão de se fazer mais entrevistas que a ponderação
indicava. Deve ser ainda ressaltado que, em decorrência do esforço da pesquisa ser elevado (a
amostra representa 17% da população) e o campo ter se realizado dentro da fábrica em apenas
três dias, a cota efetivada não necessariamente coincidiu com a ponderação. A orientação foi
para que se alcançasse a maior proximidade possível, o que foi alcançado e assim não alterou
significativamente a margem de erro da pesquisa.
O interessante dessa pesquisa foi que de antemão já se estimava que a aplicação das
entrevistas no interior da fábrica seria algo bastante difícil por conta da rotina de trabalho dos
funcionários. A linha de produção estava funcionando em dois turnos que, por sua vez,
compreendem cerca de dois terços de um dia, e a maneira com que se teve que lidar com as
dificuldades para que não houvesse problemas com a coleta dos dados foi decisiva. Como a
equipe estava bem preparada, conseguiu-se ao final do terceiro dia atingir os objetivos
previstos.
Os dados da pesquisa ainda estão sendo analisados para efeito de comparação com
pesquisas anteriores. Entretanto, o que se percebeu, foi que o perfil dos metalúrgicos atuais
sofreu mudanças significativas para com os das históricas décadas de 70 e 80, época em que o
movimento sindical era extremamente expressivo no Brasil.
Um quarto exemplo de pesquisa que merece atenção é o projeto que está em
andamento entre o Neaspoc-UFOP e o Instituto Estrada Real em Minas Gerais. O objetivo
deste projeto visa traçar os principais aspectos dos turistas que freqüentam os circuitos
históricos da Estrada Real e também algumas outras regiões turísticas do estado. A pesquisa,
desde o primeiro momento, foi trabalhada com o intuito de tentar captar informações mais
precisas de como seria o perfil dos turistas freqüentadores dessas regiões. Perguntas como
“qual o principal meio de hospedagem utilizado, meio de transporte mais utilizado, previsão
de gastos na viagem, qual o principal motivo da viagem, número de pernoites realizados,
avaliação sobre as condições do local visitado, estado e cidade de residência permanente”,
28
além de dados socioeconômicos, são algumas das questões que compõem o questionário de
perfil. Já o de contagem, um questionário mais curto, é composto por questões como “qual a
cidade de residência permanente, número de acompanhantes na viagem, principal motivo da
viagem”, entre outras.
O método utilizado para a coleta de questionários é o da aplicação em fluxo de turistas
em pontos selecionados das cidades, em dois ou três dias de campo. Para a coleta de dados, é
utilizado um questionário estruturado, conforme abordado anteriormente, especialmente
elaborado com base nos objetivos da pesquisa e hipótese levantadas. As entrevistas de caráter
pessoal são realizadas por uma equipe de entrevistadores (na maioria deles estudantes
universitários) especialmente treinada para esse tipo de abordagem. Após a coleta é realizada
a codificação e críticas das perguntas para que os questionários sejam digitados, vindo em
seguida a verificação da consistência dos dados.
A pesquisa compreende cerca de 38 municípios e 14 circuitos turísticos distribuídos
pelas principais regiões turísticas de Minas Gerais. A saber, os municípios são: Araxá, Barão
de Cocais, Barbacena, Belo Horizonte, Caeté, Camanducaia (Monte Verde), Carandai,
Carrancas, Catas Altas, Caxambu, Conceição do Mato Dentro, Congonhas, Conselheiro
Lafaiete, Cristina, Diamantina, Itabira, Itabirito, Itamonte, Itanhandu, Lambari, Lima Duarte,
Lima Duarte (Conceição de Ibitipoca), Maria da Fé, Mariana, Milho Verde, Nova Lima
(Macacos), Ouro Preto, Passa Quatro, Poços de Caldas, Santana do Riacho, São Gonçalo do
Rio das Pedras, São João Del Rei, São Lourenço, São Roque de Minas, Serro, Tiradentes,
Uberaba, Uberlândia.
O plano amostral para a quinta etapa da pesquisa (até o momento foram realizadas oito
etapas) previa um total de 3.950 questionários, mas foi aplicado um total de 4.003
questionários, distribuídos em 2.299 questionários de Perfil aplicados (previstos 2.295) e
1.704 de Contagem (previstos 1.655). A razão do maior número de questionários aplicados foi
uma estratégia de pesquisa de campo que investiu no aumento do número de questionários
aplicados nos municípios onde o processo estava ocorrendo acima do que foi estimado, no
intuito de compensar eventuais campos onde o volume de questionários ficasse abaixo do que
havia sido estimado.
Os questionários utilizados na pesquisa se prestam a objetivos diferentes. O de Perfil
levanta mais informações sobre o turista, enquanto o de Contagem contém poucas perguntas e
é aplicado em um município por cada Circuito, pois tem por objetivo facilitar a estimativa do
total da movimentação de turistas no circuito.
29
Este último exemplo de pesquisa pode ser considerado como bastante trabalhoso para
ser executado, tendo em vista a dificuldade de aplicação das entrevistas em todos os campos
simultaneamente e também o alto custo financeiro, quando a região onde acontece a pesquisa
é muito ampla. Distribuir os pesquisadores em todas as cidades e acompanhar os trabalhos em
uma central de monitoramento, demanda certa qualificação de quem está à frente da
coordenação da pesquisa. É imprescindível que se conheçam as características das regiões que
compreendem a pesquisa, para que se possa, de antemão, evitar possíveis problemas na coleta
dos dados. Quando pesquisadores, supervisores e coordenadores estão bem treinados, as
probabilidades de problemas estruturais acontecerem são bem menores aumentando o sucesso
do trabalho e a confiabilidade nos resultados da pesquisa.
Técnicas de survey também podem ser aproveitadas para a confecção de bancos de
dados de tipos variados. Diversas vezes, em pesquisas acadêmicas, realiza-se a coleta de
informações sem se ter a preocupação de como será a confecção do banco de dados no
momento da compilação dessas informações, principalmente quando se quer quantificar e
qualificar algumas variáveis. Muitos pesquisadores acabam deixando de produzir resultados
mais apurados em seus trabalhos por pecarem em ter pouco preparo para confeccionar uma
ficha ou questionário adequados para a coleta de informações, e que sejam pensados, em
princípio, de acordo com a estrutura do banco de dados a ser confeccionado16. Algumas
informações coletadas acabam tendo uma análise pobre, estatisticamente falando, e outras
nem se quer são aproveitadas. Podem-se evitar problemas dessa natureza quando se realiza
um pré-teste da pesquisa e se tem significativo conhecimento prévio da estrutura e montagem
do banco de dados, pois precauções como essas, contribuem para resultados mais apurados.
Como vimos nos exemplos citados, a metodologia de survey pode ser utilizada para
uma série iniciativas de pesquisas das mais variadas. Tal metodologia, neste sentido, é algo
que apresenta uma lógica, tem regras, é coerente, mas também pode ser adaptada de acordo
com a natureza do trabalho, pois suas técnicas contemplam diversas áreas do conhecimento.
16
É aconselhável, se possível, que se consulte qual o programa mais adequado para a análise e confecção do
banco de dados da pesquisa, antes da coleta das informações. Um programa muito usado nas Ciências Sociais é o
SPSS - Statistical Package for the Social Sciences. Pré-testes com fichas ou questionários também são
aconselháveis, pois na maioria das vezes, eliminam uma série de problemas posteriores quando do término da
pesquisa. Perde-se muito tempo quando se tem que reaplicar uma entrevista ou voltar a um arquivo para buscar
uma informação mal coletada ou que passou despercebida. Para mais informações sobre pré-testes, elaboração
de questionários e estudo piloto ver: BABBIE, Earl. Métodos de Pesquisa de Survey. Belo Horizonte: Ed.
UFMG, 1999, capítulo 12. Ver também: ALMEIDA, Carlos Alberto. Como são feitas as pesquisas eleitorais e
de opinião. Rio de Janeiro: FGV, 2002, capítulo 3. Ver ainda: ZALLER, John R. The Nature and Origins of
Mass Opinion. New York: Cambridge University Press, 1992.
30
Nas Ciências Humanas e Sociais o método é bem aceito por algumas áreas como a Sociologia
e a Ciência Política, e não muito bem visto por outras. Ainda assim, deixar de lado uma
ferramenta amplamente valiosa para a elaboração de trabalhos sociais e acadêmicos parece
desperdiçar algo que pode auxiliar na compreensão de muitas lacunas.
No capítulo seguinte, faremos uma análise das pesquisas realizadas durante os oito
anos do Projeto Assessoria Popular em Mariana procurando explicar e exemplificar alguns
resultados dessas pesquisas e como o projeto pode contribuir para o direcionamento de
demandas sociais, tanto para o poder público, como também para a população em geral, além
de reunir uma gama imensa de dados disponíveis para pesquisas.
31
III. O NEASPOC-UFOP E PROJETO ASSESSORIA POPULAR EM MARIANA
Antes de discutirmos as questões referentes ao Projeto Assessoria Popular, se faz
necessário que relatemos um pouco, ainda que de maneira introdutória, da história do
Neaspoc-UFOP.
Em princípio, partindo da iniciativa de dois professores do Departamento de História
da UFOP, o núcleo surgiu em 1999 com uma dupla finalidade: 1. incentivar as abordagens
ligadas à história comparada; 2. estimular a utilização de metodologia quantitativa e
qualitativa na área das Ciências Humanas, especialmente na História, através de pesquisas que
produzam um conhecimento específico. Além desse objetivo vinculado ao ensino e à
pesquisa, foi proposto um perfil extensionista onde, através de pesquisas, se possam produzir
um conhecimento qualificado acerca de quem são, o que pensam e o que querem as
populações de Ouro Preto e de Mariana, que abrigam a UFOP. Nesse aspecto, pesquisas de
professores e alunos dos mais variados departamentos da UFOP têm sido apoiados pela
estrutura do Neaspoc.
Já no ano 2000, O Neaspoc-UFOP acompanhou as eleições em Mariana e Ouro Preto,
prosseguindo também nos anos de 2004 e 2008. O objetivo, de acordo com professores do
núcleo, foi o de gerar um conhecimento de qualidade e independente sobre as tendências
políticas organizadas que atuam junto às populações de Mariana e Ouro Preto. Como é de
conhecimento geral, as coligações têm recursos para investir em pesquisas que orientem suas
ações, algo que é extremamente pouco compartilhado com a população. Entretanto, o
resultado dessas pesquisas só é divulgado de forma seletiva e parcial, criando desigualdades
entre o nível de informação que têm os candidatos e os eleitores.
Objetivando diminuir essa desigualdade, criou-se nos anos de 2000, 2004 e 2008 o
projeto de acompanhamento das eleições municipais. Foram realizadas três pesquisas, em
cada ano, em Mariana e Ouro Preto, com ampla divulgação dos resultados pela imprensa –
TV local, Rádio, Jornal – bem como também pela internet, além de coletivas aberta ao
público nas dependências da UFOP. Através desse tipo de ação, os eleitores de Mariana e
Ouro Preto foram contemplados com mais um canal para orientar suas opções, cientes de que
era pertencente a uma instituição pública, da qual muito se espera e muito pouco se conhece,
por contraditório que possa parecer.
32
Ao longo desses mais de dez anos o Neaspoc-UFOP realizou dezenas de pesquisas de
âmbito nacional, estadual e municipal. Já atuaram no núcleo centenas de alunos, de vários
cursos e departamentos, especialmente dos cursos de História e Letras. Esta atividade garantiu
oportunidades de qualificação para os alunos gerando informação original e isenta sobre
diferentes comunidades, notadamente as de Mariana e Ouro Preto, que abrigam a UFOP.
Destarte para o desenvolvimento de pesquisas regulares junto a estas populações desde sua
fundação reunindo um valioso acervo que tem sido permanentemente utilizado tanto por
pesquisadores quanto por membros externos à comunidade acadêmica.
Atualmente, o Neaspoc-UFOP tem dado continuidade ao projeto Assessoria Popular,
no qual realiza pesquisas na região de Ouro Preto e Mariana avaliando as características
político, social e econômica da população, juntamente com temas que dizem respeito às
questões que estão em evidência nos municípios e que são, ao nosso ver, pertinentes para
serem analisadas.
Outro projeto que tem apresentado resultados significativos tem sido a parceria com o
Instituto Estrada Real (FIEMG), SETUR-MG, SEBRAE-MG e FGV-RJ para a realização de
uma série de pesquisas sobre o turismo em algumas regiões turísticas e nos circuitos que
integram o projeto Estrada Real, como relatado no capítulo anterior. Entre julho de 2006 e
julho de 2008 foram executadas 8 pesquisas, cada uma envolvendo de 25 a 38 municípios de
Minas Gerais e cerca de 80 alunos, professores e pesquisadores.
Retomando a questão do Projeto Assessoria Popular, procuraremos evidenciar
algumas questões que se repetiram ao longo de uma série de 30 pesquisas que foram
realizadas entre 2001 e 2008 pelo Neaspoc-UFOP. Entretanto, nem todas as variáveis tiveram
recorrência constante nas pesquisas, que hora abordavam uma gama de temas específicos que
pudessem vir, ou não, a serem retomadas em fazes posteriores. Diante disso, especificaremos
nas tabelas o total do número de casos ocorridos que se referem aos questionários aplicados
com as respectivas variáveis.
33
III.1-
METODOLOGIA
EMPREGADA
NAS
PESQUISAS
DO
PROJETO
ASSESSORIA POPULAR
Como relatado e exemplificado no capítulo anterior, os surveys seguem uma
metodologia que é empregada para uma série de demandas de pesquisas onde se deseja
investigar questões das mais variadas.
As pesquisas de opinião pública do Projeto Assessoria Popular são de caráter
domiciliar ou de fluxo nos setores, e foram realizadas junto aos moradores do município de
Mariana. O método utilizado para a seleção dos domicílios foi o arrolamento nos quarteirões
de todos os setores censitários dos dez distritos que compõem o município, com saltos
sistemáticos para efeito de sorteio. Para a coleta de dados, foi utilizado um questionário
estruturado especialmente elaborado com base nos objetivos da pesquisa. As entrevistas de
caráter pessoal e domiciliar foram realizadas por uma equipe de entrevistadores especialmente
treinada para esse tipo de abordagem. A pessoa entrevistada no domicílio selecionado, ou
abordada no setor censitário, foi algum morador com pelo menos 15 anos de idade e que
morasse em Mariana. Após a coleta dos dados, foi realizada a codificação das perguntas para
que os questionários fossem digitados, vindo em seguida a verificação da consistência dos
mesmos. Encerrada a crítica eletrônica, os dados foram processados segundo um plano tabular
previamente definido. Um ponto importante na execução das tabelas é a definição das
variáveis que as compõem. Essas variáveis são muitas vezes sintéticas, resultando da
combinação de mais de uma resposta do questionário.
As pesquisas foram realizadas no município de Mariana (distrito-sede de Mariana e
demais distritos), sendo o universo pesquisado a população que reside em setores censitários.
A unidade básica da pesquisa é o domicílio, que segundo o IBGE, é o local de moradia
estruturalmente independente, constituído por um ou mais cômodos, com entrada privativa
nas quais vivem uma família, caracterizada como um conjunto de pessoas ligadas por laços de
parentescos ou de dependência doméstica e que vivem no mesmo domicílio; pessoa que vive
só; conjunto de no máximo cinco pessoas que vivem em domicílio particular sem estarem
ligadas por laços de parentesco ou de dependência doméstica.
Foram excluídos da pesquisa os domicílios considerados coletivos ou casas
comerciais; instituições (igrejas, conventos, quartéis, hospitais, asilos, prisões, etc.); casas
comerciais (lojas, padarias, hotéis, pensões, etc.); cortiços e casas de cômodos; república de
estudantes, albergues estudantis e pensionatos.
34
As pesquisas basearam-se ainda em amostra representativa da população do município
de Mariana, com cotas proporcionais de acordo com sexo, grupo de idade e setores
censitários. As quotas de sexo e idade foram baseadas nos dados do Censo do IBGE, feito em
2000, no município de Mariana.
Já o plano de amostragem das pesquisas usou o esquema clássico de desenhos autoponderados, com probabilidades de seleção das unidades amostrais proporcionais ao tamanho.
O desenho da amostra para as áreas pesquisadas está baseado no planejamento amostral
empregado no Censo 2000 do IBGE, onde cada um dos distritos do município está dividido
em setores censitários. A amostra da pesquisa foi selecionada em estágio de sorteio de
domicílios ou de pessoas nos setores, onde foram aplicadas as cotas de sexo e idade.
O número total de entrevistas realizadas nas 30 pesquisas foi de 11383 respondentes,
sendo o intervalo de confiança da amostra de 95% e a margem de erro de 5 pontos percentuais
dos resultados para a amostra como um todo.
Por fim, a área de aplicação das pesquisas compreendeu o Município sede de Mariana
e os seguintes distritos: Bandeirantes, Cachoeira do Brumado, Camargos, Cláudio Manoel,
Furquim, Monsenhor Horta, Padre Viegas, Passagem de Mariana e Santa Rita Durão.
III.2- ANÁLISE DE VARIÁVEIS EMPREGADAS NAS PESQUISAS DO PROJETO
ASSESSORIA POPULAR
As 30 pesquisas realizadas de 2001 a 2008 na cidade de Mariana abordaram uma gama
bastante significativa de questões que puderam ser consultadas junto à população. Cada
pesquisa, além possuir questões padrão como sexo, renda, faixa instrução, escolaridade,
abordou uma temática diferente que pode ser, ou não, repetida posteriormente em outras
pesquisas. Para efeito de análise dos casos, e procurando estabelecer dados mais consistentes
naquilo que convencionamos mensurar, optamos por selecionar as variáveis que se repetiram
em maior número de recorrência. Estas dizem respeito aos dados da amostra, que são questões
padrão, avaliação de problemas federal, estadual e municipal, e avaliação, também, de
governos federal, estadual e municipal. Optamos ainda, trabalhar com avaliação da situação
econômica e tendência de voto, pois nos pareceram variáveis interessantes para a composição
do trabalho. Por fim, realizamos alguns cruzamentos que puderam nos relatar uma dimensão
35
mais precisa sobre a auto-identificação da cor de pele, faixa de renda e faixa de instrução dos
Marianenses.
Para efeito de estética e de melhor compreensão das questões, optamos por realizar a
apresentação dos dados através de blocos para que o leitor possa ter uma melhor visualização
dos mesmos.
III.3- DADOS DA AMOSTRA
Conforme a variável sexo e os dados da amostra das pesquisas, a distribuição dos
sexos em Mariana revela uma proporção maior de mulheres. Das 11383 entrevistas, 5680
foram realizadas com homens e 5703 com mulheres, de acordo com a tabela abaixo.
Sexo
Sexo
Masculino
Feminino
Total
Casos
5680
%
49,9%
5703
50,1%
11383
100,0%
Fonte: Neaspoc-UFOP
Com relação à faixa etária dos Marianenses, os dados da amostra revelam uma maior
proporção de pessoas entre 15 e 34 anos como o maior grupo da população, representando
cerca de 54,4%. Já a população idosa, na casa dos 60 anos ou mais, compõe cerca de 9,7%.
Esses dados indicam que a população de Mariana é ainda relativamente jovem.
36
Faixa Etária
Faixa Etária
15 a 24
Casos
3327
%
29,2%
25 a 34
2874
25,2%
35 a 44
2164
19,0%
45 a 59
1914
16,8%
60 ou mais
1104
9,7%
11383
100,0%
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Já para a faixa de instrução, identificamos uma realidade preocupante junto à
população de Mariana. Embora os índices de escolaridade da população brasileira serem
historicamente baixos, mas terem passado por avanços significativos nos últimos anos, com
um maior acesso da população às escolas, desde o ensino primário até o de nível superior, há
entre os Marianenes um nível de escolaridade ainda considerado baixo. Apesar de 42,5%
terem concluído ou não o 2º grau, outros 42,5% tem o 1º grau incompleto ou completo.
Apenas 6% têm curso superior incompleto ou mais e 9% nunca foram à escola. Esses
números podem refletir uma baixa qualificação dos moradores para as áreas do comércio e
indústria, tendo a cidade que importar mão-de-obra para alguns segmentos.
Faixa de Instrução
Faixa de Instrução
Casos
1019
%
9,0%
Até 4ª Série incompleto e completa
1254
11,0%
De 5ª a 8ª Série incompleto e completa
3589
31,5%
2º Grau incompleto e completo
4837
42,5%
679
6,0%
NR
4
,0%
NS
1
,0%
11383
100,0%
Nunca foi à escola
Superior incompleto ou mais
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Com relação ao aspecto religioso, os Marianenses de auto-identificam como sendo de
maioria católica, chegando a somar cerca de 80,5% da população. Isso pode se explicar pelo
37
fato de Mariana, além de ter sido a primeira cidade de Minas Gerais, ter também sido sede do
primeiro bispado da região do ouro ainda na primeira metade do século XVIII. Assim como
ocorreu em outros países colonizados por Portugal e Espanha, a Igreja Católica fez parte da
implementação do processo de colonização nessas nações, levando seus ideais religiosos para
o Novo Mundo. Outros 11,3% se consideram evangélicos e apenas cerca de 0,8% tem outra
religião, segundo a amostra.
Religião
Religião
Casos
6113
%
80,5%
Evangélica
861
11,3%
Espírita
104
1,4%
60
,8%
Acredita em Deus mas não tem religião
354
4,7%
Ateu/ não acredita em Deus/ Agnóstico
71
,9%
NR
19
,3%
NS
9
,1%
7591
100,0%
Católica
Outra religião
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Sobre a questão da renda familiar, perguntou-se ao entrevistado a seguinte questão:
“Somando o seu salário e outras rendas suas, com os salários e as rendas das pessoas que
moram com o(a) Sr(a), de quanto foi aproximadamente a renda familiar em sua casa no mês
passado?”. De acordo com as respostas, 43% da renda familiar dos Marianenses está na casa
de 1 a 3 salários mínimos, ou quase a metade da população. Cerca de 15,8% das famílias
recebem de 3 a 5 salários mínimos e 11% de 5 a 10. Apenas 4,4% das famílias têm renda
acima de 10 salários mínimos.
38
Renda Familiar
Grupo de Renda
Casos
2017
%
17,7%
Mais de 1 até 3 salários mínimos
4898
43,0%
Mais de 3 até 5 salários mínimos
1796
15,8%
Mais de 5 até 10 salários mínimos
1255
11,0%
Mais de 10 até 20 salários mínimos
389
3,4%
Acima de 20 salários mínimos
110
1,0%
NR/NS
918
8,1%
11383
100,0%
Até 1 salário mínimo
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Perguntou-se também, se ele realizava algum tipo de trabalho. Os que responderam
sim foram enquadrados como os que fazem parte da população economicamente ativa.
Destes, cerca de 49% são assalariados com ou sem carteira assinada. Em segundo estão os
autônomos com 29,8%. Em terceiro os funcionários públicos com 13,6%. Os demais são
profissionais liberais, empregadores, realizam outro tipo de atividade remunerada, ou não
souberam responder.
População Economicamente Ativa
PEA (População
Economicamente Ativa)
Casos
2853
%
49,0%
1735
29,8%
Funcionário público(a)
792
13,6%
Profissional liberal
157
2,7%
Empregador
111
1,9%
Outros
Assalariado(a)
Autônomo
151
2,6%
NR
25
,4%
NS
4
,1%
5828
100,0%
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Para aqueles que responderam não realizar nenhum tipo de atividade remunerada,
perguntou-se, então, qual era a sua ocupação, e os mesmos foram enquadrados como estando
39
fora do mercado de trabalho, ou que não fazem parte da população economicamente ativa. As
donas de casa representam cerca de 30% desse universo, os estudantes 25,8% e os
aposentados e pensionistas 24,5%. Já os desempregados somam 17,3%.
Fora do Mercado de Trabalho
Fora do Mercado de
Trabalho
Casos
1669
%
30,0%
Estudante
1435
25,8%
Aposentado(a)
1222
22,0%
Está desempregado
960
17,3%
Pensionista
139
2,5%
Outros
109
2,0%
NR
19
,3%
NS
2
,0%
5555
100,0%
Dona-de-casa
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Ainda em quase metade das pesquisas, perguntou-se ao entrevistado qual a cor de pele
que ele se auto-identificava. Das categorias usadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatísticas (IBGE), optou-se por considerar a escala “Branca, Parda, Preta, Indígena ou
Amarela”. Segundo a amostra, 41,8% dos Marianenses se consideram parados. Já 28,4% se
consideram brancos e 20,3% pretos. Apenas 6,3% se consideram indígena ou amarelo. O fato
de 20,3% da população se considerar preta, pode estar ligado à questão de que boa parte
dessas pessoas possivelmente serem descendentes de familiares negros, oriundos de fatores
históricos da colonização da região do ouro.
40
Auto-identificação da Cor de Pele
Cor de Pele
Casos
2066
%
41,8%
Branca
1400
28,4%
Preta
1003
20,3%
309
6,3%
NR
46
,9%
NS
114
2,3%
4938
100,0%
Parda
Índígena/Amarela
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Observando a auto identificação dos que se consideram pardos, optou-se por melhor
mensurar a questão das respostas para o item. Em quatro pesquisas, além da pergunta
tradicional sobre qual a cor que a pessoa se considera, foi feita uma investigação mais
detalhada do processo de auto-reconhecimento da cor da pele. Como muitos, geralmente,
preferem optar pela cor “parda”, rejeitando as opções mais extremadas (“branca” e “preta”),
resolvemos perguntar aos que indicaram a cor parda se a cor deles seria “parda para branca”,
“parda para preta” ou “parda mesmo”. A grande maioria preferiu se dividir nas opções “parda
para branca” e “parda para preta”. Em seguida, somamos quem indicou “parda para branca”
com os que haviam indicado a cor “branca” na pergunta anterior e criamos o índice
“branca/parda branca”. Somamos também quem indicou “parda para preta” com os que
haviam indicado a cor “preta” na pergunta anterior e criamos o índice “preta/parda preta”. Os
que continuaram com a opção “parda” ficaram com essa cor mesmo.
Auto-identificação da Cor de Pele
Parda mais para branca ou parda mais para preta?
Cor de Pele
Casos
Parda
Parda mais para branca ou
parda mais para preta?
%
659
Casos
43,3%
%
Branca
448
29,5%
Parda mais para branca
Preta
293
19,3%
Parda mais para preta
235
35,7%
Indígena/Amarela
77
5,1%
Parda
179
27,2%
NR
13
,9%
NR
1
,2%
NS
31
2,0%
NS
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
1521
100,0%
Total
239
36,3%
5
,8%
659
100,0%
Fonte: Neaspoc-UFOP
41
A distribuição considerou que cerca de 45,2% se auto identificaram como sendo da cor
“branca/parda branca”, 34,7% da cor “preta/parda preta”, e apenas 11,8% se consideraram
como pardos.
Índice de auto-identificação da cor da pele
Índice de auto-identificação
da cor de pele
Casos
687
%
45,2%
Preta mais parda-preta
528
34,7%
Parda
179
11,8%
77
5,1%
Branca mais parda-branca
Indígena/amarela
NR/NS
Total
50
3,3%
1521
100,0%
Fonte: Neaspoc-UFOP
Essa mensuração mais detalhada da auto identificação da cor de pele, mostra que os
entrevistados nessas quatro pesquisas se identificam mais na cor “branca/parda branca”
enquanto que cerca de um terço se identifica na cor “preta/parda preta”. Esse resultado
contesta a tendência de se somar os que se identificam na cor “parda” com os que se
identificam na cor “preta”. Uma parcela significativa dos que se identificam na cor “parda”
tendem a se ver mais como “brancos” do que como “pretos”. A percepção de cor da
população nos mostra que a criação da categoria “negros”, com o somatório de “pretos” com
“pardos”, apresenta-se como um equívoco.
Fizemos também o cruzamento da auto identificação da cor de pele dos “pardos”,
“pardos mais para brancos” e “pardos mais para pretos” pela faixa de instrução. Daqueles que
se auto identificaram como pardos mais para brancos 57% possuem nível superior completo
ou mais, enquanto que os pardos mais para pretos somam 26%, e os que continuaram na cor
parda somam apenas 17%, dos que possuem nível superior ou mais. Com isso, podemos
perceber que os “pardos mais para brancos” estão em maior número no ensino superior do que
os “pardos” e “pardos mais para brancos”.
42
Auto-identificação de cor de pele por Faixa de Instrução
Faixa de Instrução
Parda mais para branca
Parda mais
para branca Parda mais para preta
ou parda
Parda
mais para NS
preta?
NR
Total
Total
Nunca foi à
escola
Até 4ª Série
incompleto
e completa
De 5ª a 8ª Série
incompleto e
completa
2º Grau
incompleto
e completo
Superior
incompleto
ou mais
%
%
%
%
%
%
33%
32%
34%
35%
57%
36%
33%
34%
38%
38%
26%
36%
33%
31%
28%
27%
17%
27%
0%
2%
1%
1%
0%
1%
0%
1%
0%
0%
0%
0%
100%
100%
100%
100%
100%
100%
Fonte: Neaspoc-UFOP
Fizemos ainda o cruzamento da auto identificação da cor de pele dos “pardos”,
“pardos mais para brancos” e “pardos mais para pretos” pela faixa de renda. Percebemos que
a renda dos “pardos mais para brancos” é maior em relação à dos “pardos mais para pretos” e
“pardos”. Os “pardos mais para brancos”, na faixa de 3 a 10 salários mínimos, ganham quase
o dobro do que os “pardos mais para pretos”, e na faixa de 10 a 20 salários mínimos esse
número chega a quase três vezes mais.
Auto-identificação de cor de pele por Faixa de Renda
Grupo de Renda
Parda mais
para branca
ou parda
mais para
preta?
Total
Até 1
salário
mínimo
Mais de 1
até 3
salários
mínimos
Mais de 3
até 5
salários
mínimos
Mais de 5
até 10
salários
mínimos
Mais de 10
até 20
salários
mínimos
Acima de
20 salários
mínimos
NR/NS
%
%
%
%
%
%
%
%
Parda mais
para branca
28%
32%
46%
45%
74%
50%
36%
36%
Parda mais
para preta
45%
39%
22%
26%
26%
33%
42%
36%
Parda
26%
29%
32%
27%
0%
17%
23%
27%
NS
2%
1%
0%
2%
0%
0%
0%
1%
NR
0%
0%
0%
0%
0%
0%
0%
0%
100%
100%
100%
100%
100%
100%
100%
100%
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Esses dados reforçam a hipótese de que aqueles que se auto identificam como pardos
mais para brancos tem melhores condições de escolaridade e renda e, conseqüentemente, de
nível social, do que aqueles que se auto identificam como pardos mais para pretos.
43
Optou-se também por fazer um cruzamento da auto identificação da cor de pele pela
faixa de renda familiar do Marianense. Analisando a maior faixa de renda do Marianense, na
casa de 1 a 3 salários mínimos, cerca de 44% dos pardos estão nesta faixa, em quanto que os
pretos somam apenas 21%. Os brancos são os que mais concentram a renda de 10 a 20
salários mínimos, pois representam a fatia de 42,%, enquanto que os negros na mesma faixa
de renda detêm apenas 15%.
Auto-identificação de cor de pele por Faixa de Renda
Grupo de Renda
Cor
de
Pele
Total
Até 1
salário
mínimo
Mais de 1
até 3
salários
mínimos
Mais de 3
até 5
salários
mínimos
Mais de 5
até 10
salários
mínimos
Mais de 10
até 20
salários
mínimos
Acima de
20 salários
mínimos
NR/NS
%
%
%
%
%
%
%
%
Parda
41%
44%
43%
40%
35%
32%
35%
42%
Branca
21%
26%
32%
40%
42%
39%
31%
28%
Preta
30%
21%
16%
13%
15%
10%
18%
20%
Índígena/Amarela
5%
7%
6%
5%
5%
12%
7%
6%
NS
3%
2%
2%
1%
2%
7%
5%
2%
NR
1%
1%
1%
0%
1%
0%
3%
1%
100%
100%
100%
100%
100%
100%
100%
100%
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Realizamos ainda o cruzamento da auto identificação da cor de pele pela faixa de
instrução dos entrevistados. Dos que tem o 2º grau incompleto e completo, 42% são pardos e
apenas 19% são negros. Já aqueles que têm o ensino superior incompleto ou mais, 44% são
brancos, 39% são pardos e apenas 12% são negros. Se observarmos as proporções de
escolaridade, veremos que os brancos têm uma tendência de crescimento do nível escolar de
acordo com cada grupo de série analisada. Com os negros, porém, acontece o inverso. A
proporção é maior para aqueles que nunca foram à escola e vai decaindo ate chegar ao nível
superior com apenas 12%. Os pardos se mantêm numa proporção relativamente estável, assim
como os indígenas/amarelos, de acordo com a tabela abaixo.
44
Auto-identificação de cor de pele por Faixa de Instrução
Faixa de Instrução
Nunca foi à
escola
%
Cor
de
Pele
Até 4ª Série De 5ª a 8ª Série
incompleto
incompleto e
e completa
completa
%
%
Total
2º Grau
incompleto
e completo
Superior
incompleto
ou mais
NR/NS
%
%
%
Parda
44%
42%
43%
42%
39%
Branca
21%
26%
23%
31%
Preta
25%
23%
23%
19%
Índígena/Amarela
5%
4%
8%
NS
4%
3%
3%
NR
Total
%
25%
42%
44%
0%
28%
12%
50%
20%
7%
4%
25%
6%
2%
1%
0%
2%
2%
2%
1%
1%
0%
0%
1%
100%
100%
100%
100%
100%
100%
100%
Fonte: Neaspoc-UFOP
III.4- AVALIAÇÃO DE PROBLEMAS
Na maioria das pesquisas realizadas pelo Projeto Assessoria Popular, uma das
perguntas constantes dizia respeito sobre a percepção dos Marianenses quanto ao que eles
consideravam como o principal problema do Brasil, de Minas Gerais e de Mariana. Como
principal problema do Brasil, a maior recorrência de casos foi a questão do desemprego, com
34%. O segundo maior problema apontado diz respeito a violência/drogas, com 21,3%. Já a
fome/pobreza, ficou caracterizada como terceiro maior problema, somando cerca de 10,1%
dos casos.
45
Maior problema de Brasil
Maior problema do Brasil
Casos
3352
%
34,0%
2103
21,3%
Fome/ pobreza
997
10,1%
Muitos
639
6,5%
Corrupção
556
5,6%
Política
382
3,9%
Saúde
363
3,7%
Educação
316
3,2%
Economia
260
2,6%
Administração
241
2,4%
Infra-estrutura
21
,2%
Desemprego
Violência/ drogas
Outros
333
3,4%
NR
51
,5%
NS
237
2,4%
9851
100,0%
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Com relação ao maior problema de Minas Gerais, os Marianenses também elegeram o
desemprego em primeiro lugar, com 33,2% dos casos. Em segundo, também ficou a questão
da violência/drogas, somando 19,6% dos casos. Já em terceiro lugar ficou a questão da saúde,
como um dos maiores problemas de Minas Gerais.
46
Maior problema de Minas Gerais
Maior problema de Minas
Gerais
Casos
3263
%
33,2%
1924
19,6%
Saúde
734
7,5%
Fome/ pobreza
570
5,8%
Muitos
513
5,2%
Educação
395
4,0%
Política
313
3,2%
Administração
313
3,2%
Corrupção
226
2,3%
Economia
141
1,4%
Infra-estrutura
128
1,3%
Outros
443
4,5%
NR
122
1,2%
NS
730
7,4%
9815
100,0%
Desemprego
Violência/ drogas
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Agora em relação ao maior problema de Mariana, o histórico das pesquisas mostrou
que os maiores índices de ocorrência foram bastante parecidos com o dos maiores problemas
de Minas Gerais, porém com algumas variações de porcentagem. O desemprego, que aparece
em primeiro, soma cerca de 24,9% de maior problema da cidade, um nível significativamente
menor, se comparado com os 34,0% de maior problema do Brasil e os 33,2% de maior
problema de Minas Gerais. O segundo maior problema, violência/drogas, com 22,8%, nos
chama a atenção, pois está acima do apontado para o Brasil e para Minas Gerais e pode ser
um indicador de que há problemas sociais para serem mais bem acompanhados e combatidos
pelas autoridades. Em terceiro maior caso de recorrência ficou a questão da saúde, com 8,8%.
Os demais casos citados envolvem problemas dos mais diversos, como mostra a tabela
abaixo.
47
Maior problema de Mariana
Maior problema de
Mariana
Casos
2832
%
24,9%
Violência/ drogas
2596
22,8%
Saúde
1004
8,8%
Infra-estrutura
593
5,2%
Muitos
523
4,6%
Política
496
4,4%
Administração
496
4,4%
Educação
293
2,6%
Fome/ pobreza
237
2,1%
Água
225
2,0%
Corrupção
139
1,2%
Desemprego
Economia
85
,7%
Outros
850
7,5%
NR
206
1,8%
NS
808
7,1%
11383
100,0%
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
A fim de termos uma dimensão mais apurada acerca da evolução e oscilação dos
maiores problemas de Mariana apontados nas pesquisas, decidimos construir um gráfico que
nos desse uma visão mais dinâmica, ou longitudinal. Percebemos que entre os anos de 2001 a
2004 o desemprego foi o maior vilão dos Marianenses, variando de 31% a 34,5%, como
sendo o maior problema apontado e caindo significativamente nos anos seguintes. A partir de
2005 esse dado se inverte passando a ser a questão da violência/ drogas o maior problema,
variando até 2007 na casa de 29,1% a 33,7% e chegando em 2008 com um patamar menor,
19,8%, mas sendo ainda um dos maiores problemas considerado pelos Marianenses. A queda
do desemprego, como sendo um dos maiores problemas de Mariana, pode estar atrelada a
uma onda de crescimento econômico pela qual passou a região com diminuição do número de
desempregados impulsionados pelos significativos índices positivos de emprego no Brasil e
crescimento da economia nacional entre os anos de 2005 a 2008. Outro dado que merece
destaque é a questão da saúde. Apesar de ter variado na casa de 7,6% e 5,4% entre 2001 e
2004 e ter mantido um patamar baixo de casos, a partir de 2005 esse número de reclamações
48
sofre um aumento considerável, chegando em 2008 quase como o maior problema
identificado pelos Marianenses, com 19,6%.
III.5- AVALIAÇÃO DE GOVERNOS
Nos primeiros dois anos do Projeto Assessoria Popular, o presidente do Brasil na
época era Fernando Henrique Cardoso. Exercendo o primeiro mandato de 1995 a 1998 e se
reelegendo para mais quatro anos de governo, Fernando Henrique terminou o seu segundo
mandato de governo no final de 2002. De acordo com os dados mensurados nas pesquisas, a
avaliação do Marianense foi pouco positiva frente ao governo de FHC, nesses últimos dois
anos de governo. Apenas 26,7% dos Marianenses avaliaram o governo como ótimo e bom.
Cerca de 18,9% acharam que o governo foi regular e 52% avaliaram como ruim e péssimo,
um dado bastante preocupante para a figura de um chefe de Estado. Vale ressaltar que os
últimos dois anos do governo de FHC (2001 e 2002) foram marcados por crise econômica e
problemas de maior expressão no Brasil, o que pode ter certamente afetado a popularidade do
presidente.
49
Avaliação do Governo Fernando Henrique Cardoso
Avaliação do governo de
FHC
Casos
Ótimo
55
%
1,8%
Bom
754
24,9%
Regular
572
18,9%
Ruim
554
18,3%
1021
33,7%
NR
29
1,0%
NS
47
1,6%
3032
100,0%
Péssimo
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Nas eleições presidenciais de 2002 o eleito para o mandato de mais quatro anos na
cadeira de presidente da república foi Luiz Inácio Lula da Silva. Este, ao contrário de
Fernando Henrique Cardoso, teve uma popularidade mais elevada, sendo bem avaliado pela
população no seu primeiro mandato de governo (2003 a 2006) e também nos anos seguinte ao
seu segundo mandato. De 2003 a 2007 cerca de 55,2% dos Marianenses avaliaram o governo
Lula como ótimo e bom, em quanto que 26,6% acharam o seu governo como regular, e apenas
15,6 avaliaram como ruim e péssimo.
Avaliação do Governo Lula
Avaliação do Governo Lula
Casos
464
%
6,4%
Bom
3509
48,8%
Regular
1915
26,6%
Ruim
626
8,7%
Péssimo
498
6,9%
NR
30
,4%
NS
153
2,1%
7195
100,0%
Ótimo
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
No gráfico abaixo podemos acompanhar a evolução dos Índices de Avaliação do
Governo do Presidente Lula. Já em 2003, no início do seu primeiro mandato, o governo Lula
50
começou com um índice de avaliação positiva para o quesito ótimo e bom com 58%. Manteve
uma média de crescimento até o final do ano quando no início de 2004, o índice de ótimo e
bom caiu para 46%. A partir de julho do mesmo ano ouve uma retomada no índice voltando a
sofrer uma queda significativa somente em outubro de 2005, certamente, efeito das denúncias
do esquema conhecido como “Mensalão” que afetou a maioria da cúpula do governo federal e
de vários partidos da base aliada. Em dezembro de 2005 Lula retoma o crescimento de
popularidade, chegando a 68% de avaliação ótima e boa em dezembro de 2006. Esse índice se
manteve estável com pequenas oscilações até final de 2007, última pesquisa do Projeto
Assessoria Popular, a qual se avaliou o índice de governo do presidente Lula.
A partir do ano de 2005, decidiu-se então mensurar melhor a questão do item regular
na variável sobre avaliação de governo. Como nesta pergunta 30% dos respondentes
avaliaram o governo Lula como regular, perguntamos a estes se o regular era “regularpositivo”, “regular-negativo” ou “regular-regular, nem positivo nem negativo”. Com as
respostas pudemos construir o índice de aprovação ao presidente Lula. Somamos os índices
de ótimo e bom com o regular-positivo e obtivemos 64,1%, significando o índice de
51
aprovação. Somamos em seguida aos índices de ruim e péssimo e o regular-negativo e
obtivemos 26,2%, significando o índice de desaprovação. Os que se mantiveram no regularregular viraram o índice dos que não aprovam nem desaprovam, que foi de 8,6%, conforme
mostra a tabela em seguida.
Índice de Aprovação do Governo Lula
Índice de Aprovação do
Lula
Casos
2669
%
64,1%
1089
26,2%
357
8,6%
NR
21
,5%
NS
28
,7%
4164
100,0%
Aprova
Desaprova
Não aprova e nem desaprova
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
No gráfico abaixo, podemos observar melhor a evolução dos Índices de Avaliação
Positiva e Negativa do Governo Lula. Já no início de 2005, primeiro ano da mensuração do
índice, o governo Lula começa com uma avaliação positiva na casa de 62%. Em outubro do
mesmo ano o índice sofre uma queda significativa para 45% e mantém a retomada do
crescimento no final do ano. A avaliação positiva chega ao ápice em novembro de 2006
batendo na casa de 81%. No ano seguinte há uma pequena queda, mas o índice ainda se
mantém em patamares elevados.
52
Feita a análise da avaliação do governo federal, passemos agora para a do governo
estadual. Assim como se avaliou o governo federal nos dois primeiros anos de do Projeto
Assessoria Popular, aconteceu o mesmo para o governo do estado de Minas Gerais. O
governador da época era o ex-presidente Itamar Franco, eleito para governar Minas entre os
anos de 1999 e 2002. O seu governo foi marcado por crises econômicas e por uma série de
problemas na administração. Ao contrário dos índices de baixa avaliação do governo FHC, o
de Itamar Franco foi mais bem avaliado pelos Marianenses. Cerca de 47,8% avaliaram o
governo como ótimo e bom, 21,5% acharam que foi regular e 23,8% ruim ou péssimo, de
acordo com resultados das pesquisas.
53
Avaliação do Governo Itamar Franco
Avaliação do governo de
Itamar Franco
Casos
130
%
4,3%
1320
43,5%
Regular
651
21,5%
Ruim
419
13,8%
Péssimo
316
10,4%
NR
34
1,1%
NS
162
5,3%
3032
100,0%
Ótimo
Bom
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Assim como o ocorrido para presidente, nas eleições de 2002 o eleito para o mandato
de mais quatro anos na cadeira de governador estadual foi o então candidato Aécio Neves.
Este teve uma popularidade mais elevada, sendo bem avaliado pela população no seu primeiro
mandato de governo (2003 a 2006) e também nos anos seguinte ao seu segundo mandato.
Entre os anos de 2003 e 2007, 61,5% avaliaram o governo de Aécio como ótimo e bom. Já
18,5% acharam que o seu governo foi regular e apenas 11,3% ruim ou péssimo. Um índice de
rejeição bastante baixo se comparado com outros governos. Apenas 8,7 não responderam ou
não souberam responder.
Avaliação do Governo Aécio Neves
Avaliação do Governo
Aécio Neves
Casos
640
%
8,9%
Bom
3785
52,6%
Regular
1332
18,5%
Ruim
520
7,2%
Péssimo
298
4,1%
NR
47
,7%
NS
572
8,0%
7194
100,0%
Ótimo
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
54
No gráfico abaixo podemos acompanhar a evolução dos Índices de Avaliação do
Governo de Aécio Neves. Já no início de seu primeiro mandato, Aécio começa com um índice
de avaliação ótimo e bom na casa dos 50% mantendo certa estabilidade. A partir de 2004 a
sua avaliação segue em ritmo positivo de crescimento chegando a junho de 2005 com 70% de
avaliação de ótimo e bom. Em outubro do mesmo há uma queda significativa na avaliação
ótima e boa, provavelmente reflexo da crise do “mensalão” pela qual passou o governo
federal e que se refletiu nos demais governos. Em momentos de crise política nacional como
este, a opinião pública tende a ver com olhos negativos a figura dos políticos, pois uma
imagem negativa como a que se teve do congresso nacional pode contaminar também as
esferas estadual e municipal de governos, levando os índices de popularidade para níveis
menores. A nosso ver, parece uma forma da população reagir às denúncias de corrupção que
tanto assombram a imagem dos governantes como provocam na opinião pública uma visão
negativa da política no Brasil, que constantemente é marcada por escândalos e denúncias de
corrupção. Ainda assim, a partir de dezembro de 2005, Aécio Neves retoma o crescimento de
avaliação ótima e boa do seu governo chegando a certa estabilidade na casa dos 70% até o
final de 2007.
55
Do ano de 2005 em diante, decidiu-se então mensurar melhor a questão do item
regular na variável sobre avaliação de governo. Como nesta pergunta 15% dos respondentes
avaliaram o governo Aécio Neves como regular, perguntamos a estes se o regular era
“regular-positivo”, “regular-negativo” ou “regular-regular, nem positivo nem negativo”. Com
as respostas pudemos construir o índice de aprovação ao governador Aécio Neves. Somamos
os índices de ótimo e bom com o regular-positivo e obtivemos 74,8%, significando o índice
de aprovação. Somamos em seguida aos índices de ruim e péssimo e o regular-negativo e
obtivemos 14,4%, significando o índice de desaprovação. Os que se mantiveram no regularregular viraram o índice dos que não aprovam nem desaprovam, que foi de 5,1%, conforme
mostra a tabela seguinte.
Índice de Aprovação do Governo Aécio Neves
Índice de Aprovação do
Aécio Neves
Casos
3113
%
74,8%
Desaprova
598
14,4%
Não aprova e nem desaprova
212
5,1%
NR
39
,9%
NS
201
4,8%
4163
100,0%
Aprova
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
No gráfico seguinte, podemos ter uma percepção melhor acerca da evolução dos
Índices de Avaliação Positiva e Negativa do Governo Aécio Neves. Percebemos que os
índices de avaliação do governo Aécio Neves se mantiveram com variações na casa dos 70%
a 80% exceto em outubro de 2005, onde o patamar positivo baixou para 64% provavelmente
sofrendo efeito da crise do “mensalão” no governo federal.
56
Feita a análise da avaliação do governo estadual, passemos agora para a do governo
municipal. Esta avaliação, em específico, pode mensurar a trajetória dos dois mandados
consecutivos de governo do então ex-prefeito de Mariana Celso Cota. Eleito para o primeiro
mandato de 2001 a 2004, Celso Cota se reelegeu para mais quatro anos de governo
terminando a sua administração no final de 2008. O seu governo foi marcado por uma série de
disputas políticas que envolveram personalidades fortes no contexto político municipal, e
também passou por um período de crescimento econômico significativo para o
desenvolvimento do município de Mariana. Toda a trajetória política dos dois mandatos do
ex-prefeito Celso Cota pode ser avaliada pela população de Mariana nas trinta pesquisas do
Projeto Assessoria Popular realizadas até o final de 2008. De acordo com os dados apurados,
cerca de 64% avaliaram o governo de Celso Cota como ótimo e bom. Já 17,3% acharam que o
seu governo foi regular e 14,9% avaliaram como ruim ou péssimo, um índice de rejeição
significativamente baixo.
57
Avaliação do Governo Celso Cota
Avaliação do governo de
Celso Cota
Casos
1635
%
14,4%
Bom
5650
49,6%
Regular
1966
17,3%
Ruim
880
7,7%
Péssimo
815
7,2%
NR
83
,7%
NS
354
3,1%
11383
100,0%
Ótimo
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
No gráfico abaixo podemos acompanhar a evolução dos Índices de Avaliação do
Governo Celso Cota. Percebemos que no início do seu primeiro mandato os índices de ótimo
e bom seguiram em ritmo de crescimento chegando a 75% em setembro de 2002. Estes se
mantiveram na casa dos 60% e 70% até dezembro de 2004, final de seu primeiro mandato. A
partir de 2005, já no seu segundo mandato, os índices de popularidade sofreram uma queda
significativa, em especial no mês de abril, onde a avaliação do item ruim e péssimo chegou a
34%, o seu maior nível negativo nos oito anos de governo. Isso talvez se explique por uma
eventualidade política ocorrida no período ou por certa incerteza da população acerca de
como seria o segundo mandato de Celso Cota. Entretanto, a partir de junho do mesmo ano, os
índices de ótimo e bom retomam o patamar da casa dos 60% chegando a 72% em dezembro
de 2007 e se mantendo estável até o final de 2008. Se formos estabelecer uma comparação
entre os índices de popularidade do governo, veremos que a aprovação foi maior no primeiro
do que no segundo mandato. Todavia, Celso Cota termina o seu segundo mandato com uma
avaliação significativamente positiva pela população de Mariana.
58
Como nas avaliações dos governos federal e estadual, a partir de 2005 decidiu-se então
mensurar melhor a questão do item regular na variável sobre avaliação de governo. Como
nesta pergunta 21,4% dos respondentes avaliaram o governo Celso Cota como regular,
perguntamos a estes se o regular era “regular-positivo”, “regular-negativo” ou “regularregular, nem positivo nem negativo”. Com as respostas pudemos construir o índice de
aprovação ao prefeito Celso Cota. Somamos os índices de ótimo e bom com o regularpositivo e obtivemos 69,6%, significando o índice de aprovação. Somamos em seguida aos
índices de ruim e péssimo e o regular-negativo e obtivemos 22%, significando o índice de
desaprovação. Os que se mantiveram no regular-regular viraram o índice dos que não
aprovam nem desaprovam, que foi de 5,6%, de acordo com a tabela abaixo.
59
Índice de Aprovação do Governo Celso Cota
Índice de Aprovação do
Celso Cota
Casos
3701
%
69,6%
1168
22,0%
300
5,6%
NR
54
1,0%
NS
97
1,8%
5320
100,0%
Aprova
Desaprova
Não aprova e nem desaprova
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
No gráfico seguinte, podemos ter uma percepção melhor acerca da evolução dos
Índices de Avaliação Positiva e Negativa do Prefeito Celso Cota. Podemos perceber que já em
julho de 2005 a avaliação positiva do prefeito Celso Cota beirou a casa dos 70%, chegando a
este índice no final do mesmo ano e no início do seguinte. Houve uma pequena queda no
índice de popularidade em março de 2007, porém o crescimento foi retomado em outubro do
mesmo ano e prosseguiu na casa dos 70% até o final do seu segundo mandato em 2008.
60
A avaliação positiva do prefeito Celso Cota certamente contribuiu para que nas
eleições de 2008 ele tivesse um papel decisivo na sucessão do governo municipal. Índices de
popularidade significativos somados a uma boa articulação política e um candidato da
situação bem preparado politicamente contribuem em muito para se projetar um sucessor que
leve a bandeira do governo em exercício. Durante as últimas três pesquisas do Projeto
Assessoria Popular em 2008, no período no período das eleições municipais, a fim de avaliar
o efeito dos índices de aprovação e desaprovação à administração municipal, perguntou-se aos
moradores de Mariana a sua disposição de votar em candidaturas da situação ou da oposição.
Cerca de 61,5% dos Marianenses gostariam de votar em uma candidatura que representa-se a
continuidade da atual administração, enquanto que 26,2% gostariam de votar em uma
candidatura que represente-se a oposição a atual administração.
Tendência Votar na Continuidade ou na Oposição
Tendência de votar na
continuidade ou na
oposição
Casos
711
%
61,5%
303
26,2%
NR
58
5,0%
NS
84
7,3%
1156
100,0%
Continuidade
Oposição
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Para efeito de comparação, essa tendência de votar em uma candidatura que
representa-se a continuidade da atual administração foi confirmada nas urnas, pois a candidato
da situação Roque Camello venceu as eleições para prefeito de Mariana.
III.6- AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO ECONÔMICA
Avaliar a situação econômica do país e da população é um fator de grande peso para
acompanhar o desenvolvimento econômico tanto do país como da própria sociedade. Diversas
pesquisas são realizadas mensalmente no Brasil para se acompanhar hábitos de consumo
interno da população e balanços de empresas são constantemente divulgados para se ter uma
61
idéia de aumento ou retração na economia. Pensando na situação econômica do Brasil, de
Mariana e na Pessoal, perguntou-se ao Marianense em oito das trinta pesquisas realizadas
durante o Projeto Assessoria Popular, qual era a sua expectativa quanto a essas três esferas da
economia. Os índices ficaram relativamente parecidos e aparentam ter configurado uma
situação de otimismo do Marianense com o futuro crescimento da economia e também das
expectativas pessoais.
Com relação à situação econômica do Brasil 41,8% dos Marianenses afirmaram que
ela iria melhorar. Cerca de 29,6% disseram que ira piorar e 22,5% que ficaria no mesmo
patamar.
Avaliação da Situação Econômica do Brasil
Avaliação da situação
econômica do Brasil
Casos
1010
%
29,6%
Não mudará
766
22,5%
Vai melhorar
Vai piorar
1427
41,8%
NR
25
,7%
NS
184
5,4%
3412
100,0%
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
Já com relação à situação econômica de Mariana houve uma expectativa maior, pois
46,2% afirmaram que a situação econômica iria melhorar. Já 23,6% afirmaram que iria piorar
e outros 23,6% disseram que não mudaria.
Avaliação da Situação Econômica de Mariana
Avaliação da situação
econômica de Mariana
Casos
805
%
23,6%
Não mudará
805
23,6%
Vai melhorar
1578
46,2%
NR
29
,8%
NS
195
5,7%
3412
100,0%
Vai piorar
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
62
Agora com relação à situação econômica pessoal os índices são bem parecidos com o
gráfico acima. Cerca de 44,7% dos Marianenses afirmaram que a situação econômica iria
melhorar, em quanto que 26,2% afirmaram que iria piorar. Já 24,9% afirmaram que não
mudaria e 4,3% não responderam ou não souberam responder, conforme a tabela abaixo.
Avaliação da Situação Econômica Pessoal
Avaliação da situação
econômica pessoal
Casos
893
%
26,2%
Não mudará
848
24,9%
Vai melhorar
1524
44,7%
NR
13
,4%
NS
134
3,9%
3412
100,0%
Vai piorar
Total
Fonte: Neaspoc-UFOP
63
IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As pesquisas de opinião levantam dados extremamente importantes para a
compreensão de alguns aspectos investigados junto à população - principalmente quando são
de interesse popular - e podem contribuir para ações mais efetivas na melhora e elaboração de
projetos sociais. Os dados que analisamos na série de oito anos de pesquisa em Mariana nos
mostraram um pouco do olhar do Marianense sobre questões de caráter social, político e
econômico que estão presentes no cotidiano. O nosso objetivo foi desenvolver um estudo
introdutório que discutiu a questão de alguns aspectos da opinião pública, a metodologia de
pesquisa utilizada pelo Neaspoc-UFOP e a análise dos principais temas que foram abordados
nas pesquisas do Projeto Assessoria Popular.
A primeira discussão, acerca de aspectos da opinião pública, desde o período antigo
até o contemporâneo, nos deu uma visão mais apurada sobre o debate estabelecido ao longo
dos séculos pelo qual passou e ainda passa a questão da opinião pública. No mundo antigo
percebemos que a população para expressar seus ideais, seus questionamentos, suas
reivindicações e seus interesses tinha como um canal de reivindicação organizar-se no âmbito
da coletividade - o que ainda é bastante presente -, a fim de atuar enquanto agentes coletivos
nas esferas do Estado e conseguir benefícios de cunho social, comprovando que a ação
política coletiva pode promover bons resultados e que a opinião pública já se fazia presente,
ainda nessa época. No mundo moderno o debate histórico sobre a opinião pública pautou-se
mais na questão conceitual. Desde Maquiavel, passando por Hobbes, Locke, Rousseau, Kant,
entre outros, não se chegou claramente a esboçar um conceito de opinião pública aceitável
pela maior parte desses pensadores, mas ficou evidente a importância e o poder que tem a
opinião pública quando das suas ações, pois nessa época, houve uma maior participação dos
agentes políticos no processo de definições de mandatos dos governos nos Estados, ainda que
não culminasse efetivamente em uma democracia tal qual como a conhecemos. No mundo
contemporâneo o debate relativo ao papel da opinião pública ainda continua, mas é bem
tímido frente a temas considerados mais relevantes e termo passou a não circular somente no
âmbito acadêmico, mas também a ser mais bem conhecido pelas camadas populares a partir
do final da década de 80, no Brasil, com o advento das pesquisas de opinião pública.
Trabalhando com a técnica das pesquisas de survey, através da análise de extratos da
população que garantiu uma representação abrangente de todo o corpo populacional
investigado, as pesquisas do Projeto Assessoria Popular levantaram dados importantes da
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população de Mariana e comprovaram algumas hipóteses por nós levantadas. Uma delas diz
respeito à avaliação positiva dos governos federal, estadual e municipal. Desde 2003 até 2008
a avaliação positiva do Marianense frente aos dois mandatos (ainda incompletos) do
presidente Lula e do governador Aécio Neves acompanharam os índices de pesquisas
nacionais e estaduais realizadas por outras instituições. A questão da administração municipal
do ex-prefeito Celso Cota pode ser acompanha em toda sua trajetória, pelas pesquisas, e ficou
evidente que a população de Mariana avaliou positivamente os dois mandados de governo. A
nossa visão acerca desse fato é que uma combinação de fatores sociais pode levar essas
administrações aos índices de avaliação tão significativos como esses. O Brasil, desde o
primeiro mandato do presidente Lula, passou por uma guinada de crescimento econômico,
diminuição do desemprego e investimentos fortes nas áreas sociais. A trajetória histórica do
presidente Lula e do governador Aécio Neves somados a uma boa administração em áreas
estratégicas, bem como a questão da boa fase da economia, talvez possa ser uma explicação
para essas avaliações positivas. No caso do ex-prefeito Celso Cota podemos também
acrescentar os pontos acima destacados como fatores que contribuíram para uma avaliação
significativamente positiva dos seus dois governos.
A questão dos problemas sociais apontados por nós, através das pesquisas, deixa
evidente que Mariana ainda precisa melhorar bastante em índices de escolaridade e
distribuição de renda. Como apontado no terceiro capítulo 31,5% dos entrevistados tem
somente da 5º a 8º séries do primeiro grau completa e incompleta, ou cerca de quase um terço
da população entrevistada. Na questão da renda familiar 43% das famílias que foram
entrevistadas recebem cerca de 1 a 3 salários mínimos. Já no quesito dos maiores problemas
apontados pelos Marianenses, a questão do desemprego que até 2005 era um dos fatos mais
preocupantes, sofreu uma queda significativa, e algo que passou a preocupar mais os mesmos
foi a questão da violência/ drogas e a saúde. Sinal de que as administrações competentes têm
problemas evidentes para serem combatidos e reparados.
Com esse estudo, chegamos à idéia de que trabalhos de pesquisas como esses ajudam
em muito as administrações a balizarem políticas sociais de governos para a efetivação mais
direta da resolução de problemas que se fazem mais presentes junto às populações. A nosso
ver, o debate acerca da definição de políticas públicas que realmente atendam aos anseios da
população se caracteriza cada vez mais como algo necessário para a consolidação do regime
democrático. As pesquisas de Opinião Pública, quando bem formuladas e bem executadas,
podem trazer muitos aspectos relevantes e de grande contribuição para essas ações. Quando a
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opinião pública é ouvida e ações governamentais são efetivadas em prol de melhorias sociais
para as populações, governo e sociedade são vitoriosos.
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FONTES DE DADOS EMPÍRICOS
NEASPO-UFOP – Banco eletrônico de relatórios de pesquisa de opinião pública municipal
do Núcleo de Estudos Aplicados e Sociopolíticos Comparados da Universidade Federal de
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ALEX DA SILVA DENADAI