ALEX DA SILVA DENADAI OPINIÃO PÚBLICA E PESQUISA DE SURVEY: Uma Análise do Projeto Assessoria Popular em Mariana 2001-2008 Mariana Instituto de Ciências Humanas e Sociais Universidade Federal de Ouro Preto 2009 ALEX DA SILVA DENADAI OPINIÃO PÚBLICA E PESQUISA DE SURVEY: Uma Análise do Projeto Assessoria Popular em Mariana 2001-2008 Monografia apresentada ao Curso de História do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto, como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em História. Orientador: Prof. Adriano Sérgio Lopes da Gama Cerqueira. Mariana Instituto de Ciências Humanas e Sociais Universidade Federal de Ouro Preto 2009 A todos os pesquisadores, estagiários e coordenadores que fizeram e fazem parte da história do Neaspoc-UFOP. AGRADECIMENTOS Primeiramente devo agradecer à Universidade Federal de Ouro Preto pelo ensino público, gratuito e de qualidade e por ter me acolhido e proporcionado anos valiosos de ensino e aprendizado. Ao Neaspoc-UFOP pelo aprendizado profissional durante os anos de estágio e pesquisas realizadas. Em especial a figura do Professor, Amigo e Chefe Adriano Cerqueira, orientador desta monografia, e peça extremamente importante para minha formação como pesquisador e observador social. Também ao ex-coordenador do Neaspoc-UFOP, Professor e Amigo Fábio Faversani por toda a supervisão que nos prestou durante o estágio (e pelas brincadeiras) sou extremamente grato. Ao Professor e Amigo Álvaro pela oportunidade que tivemos em trabalhar juntos e pelo aprendizado que tive com este em sala de aula. À equipe de trabalho e amigos que estiveram presentes comigo durante esses anos de estágio. Emerson, Pablo e Tais, obrigado por termos encarado os diversos desafios de pesquisa, em especial o projeto Estrada Real e as Eleições de 2008, depois de muitas madrugadas em claro, discussões e finais de semanas sacrificados, mas resultados altamente positivos. Não poderia deixar também de agradecer ao grande amigo e camarada Antônio Neto Júnior (Tchuim) por todo o apoio e companheirismo no meu primeiro ano como estagiário, e a Humberto José Bis companheiro de equipe em 2006. À república Trem de Doido, casa onde morei durante a maior parte da minha graduação na UFOP. À querida Roberta, por todo o apoio e paciência que teve comigo durante o tempo de confecção desta monografia. E por fim a todos os pesquisadores que participaram da coleta de mais de 11 mil entrevistas durante esses oito anos do Projeto Assessoria Popular em Mariana. O império da opinião pública sobre as opiniões particulares é doce, salutar, natural, irresistível; o da autoridade e da força é necessariamente tirânico, odioso, absurdo, monstruoso. ROBESPIERRE Como pode, então, o governo agir sobre os costumes? Respondo que através da opinião pública. Se na solidão nossos hábitos nascem de nossos próprios sentimentos, na sociedade eles nascem da opinião dos outros. ROUSSEAU RESUMO Esta monografia de Bacharelado em História do Brasil avalia aspectos políticos, sociais e econômicos, através da análise de pesquisas do tipo survey, de informações colhidas junto à população de Mariana. O Projeto Assessoria Popular, do qual se extraíram as informações empíricas, reuniu uma gama de 30 pesquisas entre os anos de 2001 a 2008, totalizando mais de 11 mil entrevistas. Anterior a análise dos dados, trabalhou-se com a discussão acerca de aspectos do debate sobre a opinião pública, um tema ainda pouco discutido, e também com a metodologia de pesquisa do tipo survey, um método bastante trabalhado em universidades norte-americanas, adotada para a realização das pesquisas. Posterior a isso, analisando-se os dados, pode-se chegar à percepção de como o Marianense avaliou positivamente, em alguns momentos, questões ligadas à área social, política e econômica abordada nas pesquisas. LISTA DE ABREVIATURAS DEEDU – Departamento de Educação da Universidade Federal de Ouro Preto ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio FGV-RJ – Fundação Getúlio Vargas do Estado do Rio de Janeiro FIEMG – Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística NEASPOC – Núcleo de Estudos Aplicados e Sociopolíticos Comparados PROUNI – Programa Universidade para Todos REUNI - Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais SEBRAE-MG – Serviço Brasileiro de Apoio o Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais SETUR-MG – Secretaria de Turismo de Minas Gerais UFOP – Universidade Federal de Ouro Preto SUMÁRIO INTRODUÇÃO....................................................................................................................... 9 I. ASPECTOS DO DEBATE SOBRE A OPINIÃO PÚBLICA ..................................................... 11 I.1- ASPECTOS DA OPINIÃO PÚBLICA NA ANTIGUIDADE ................................................. 11 I.2- ASPECTOS DA OPINIÃO PÚBLICA NO PERÍODO MODERNO..................................... 14 I.3- ASPECTOS DA OPINIÃO PÚBLICA NO PERÍODO CONTEMPORÂNEO....................... 19 II. METODOLOGIA DE PESQUISA: OS SURVEYS ................................................................. 22 II.1- UM BREVE HISTÓRICO ................................................................................................. 22 II.2- OS SURVEYS NA ELABORAÇÃO DE PESQUISAS ......................................................... 24 III. O NEASPOC-UFOP E PROJETO ASSESSORIA POPULAR EM MARIANA........................ 32 III.1- METODOLOGIA EMPREGADA NAS PESQUISAS DO PROJETO ASSESSORIA POPULAR ............................................................................................................................................ 34 III.2- ANÁLISE DE VARIÁVEIS EMPREGADAS NAS PESQUISAS DO PROJETO ASSESSORIA POPULAR ............................................................................................................................ 35 III.3- DADOS DA AMOSTRA ................................................................................................ 36 III.4- AVALIAÇÃO DE PROBLEMAS..................................................................................... 45 III.5- AVALIAÇÃO DE GOVERNOS ..................................................................................... 49 III.6- AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO ECONÔMICA............................................................... 61 IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................................. 64 FONTES DE DADOS EMPÍRICOS ......................................................................................... 67 LIVROS E ARTIGOS CITADOS E/OU CONSULTADOS ......................................................... 67 INTRODUÇÃO Estudar a opinião pública foi para nós o primeiro passo para a efetivação de um trabalho que começou a fazer parte do cotidiano do curso de história ainda nos primeiros períodos da faculdade. As primeiras pesquisas realizadas junto às populações de Mariana e Ouro Preto, já nos mostravam o quanto é importante ouvir a opinião pública para se ter uma dimensão mais ampla dos problemas e demandas sociais que norteiam essas populações. Dado o primeiro passo, manifestamos o interesse de acompanhar mais de perto todo o processo de trabalho desenvolvido no Neaspoc-UFOP, que se consagrou como um respeitável núcleo de estudos e laboratório de pesquisa da Universidade Federal de Ouro Preto. Surgiu-nos então, a idéia de investigar os dados levantados nas pesquisas do Projeto Assessoria Popular em Mariana, realizado entre os anos de 2001 a 2008. Tal projeto consiste em investigar junto à população de Mariana temas ligados à área social, política e econômica a fim de disponibilizar informações que podem ser tanto usadas pelo poder público - como uma forma de ouvir a população acerca do que pensam e o que querem - como por pesquisadores com o intuito de conhecer melhor determinados aspectos dessa população. Nosso objetivo, com este trabalho, foi desenvolver um estudo introdutório que discutisse a questão da opinião pública, a metodologia de pesquisa utilizada e, por fim, a análise dos temas que foram abordados nas pesquisas do Projeto Assessoria Popular. No primeiro capítulo trabalhos a questão da discussão acerca do debate sobre a opinião pública e ação política na antiguidade, no período moderno e no contemporâneo e pudemos ter uma percepção de como o termo passou por sucessivos debates ao longo dos séculos. Tendo em vista todo o debate realizado, a opinião que nos interessa para este trabalho, diz respeito aos assuntos da nação ou a outro agregado social, expressa de maneira livre por cidadãos que estão fora do governo, mas que reclamam o direito de que suas opiniões possam influenciar ou determinar ações governamentais. No capítulo dois optamos por abordar a metodologia de pesquisa empregada pelo Neaspoc-UFOP - os chamados surveys - na realização das pesquisas do Projeto Assessoria Popular em Mariana e também em outras ações de pesquisas promovidas pelo núcleo. Realizamos uma breve introdução do que se convém chamar de metodologia de pesquisa de survey além de citarmos alguns exemplos de trabalhos desenvolvidos nesses dez anos de existência do núcleo. 9 No capítulo três apresentamos um pouco do histórico da criação do Neaspoc-UFOP e analisamos a fundo as variáveis empregadas nas pesquisas do Projeto Assessoria Popular. Dentre os diversos resultados oriundos dessas análises, podemos perceber como o Marianense avaliou de forma positiva a atuação dos governos federal, estadual e municipal; como a questão do nível de escolaridade precisa sofrer avanços, principalmente com a efetivação de mais pessoas ingressarem e concluírem o ensino superior; e como a distribuição da renda familiar ainda é baixa. Para a composição do banco de dados, reunimos as trinta pesquisas realizadas entre os anos de 2001 a 2008. Uma série de questões foi abordada, como avaliação de governos federal, estadual e municipal; faixa de renda familiar; grau de instrução; religião; cor de pele; maior problema do Brasil, de Minas Gerais e de Mariana; expectativas quanto à situação econômica; dentre outras; mas nem todas corresponderam às trinta pesquisas. Procuramos então indicar nas tabelas o número de casos relativos à variável analisada e em algumas ocasiões, no texto referente ao comentário das tabelas, o número de pesquisas que tal variável se repetiu. Todos os dados relativos às pesquisas do Projeto Assessoria Popular, bem como outros que usamos no capítulo dois, encontram-se em poder do Neaspoc-UFOP. Alguns estão disponibilizados na internet, através do site do Neaspoc, e outros ainda aguardam para serem incluídos na rede. 10 I. ASPECTOS DO DEBATE SOBRE A OPINIÃO PÚBLICA I.1- ASPECTOS DA OPINIÃO PÚBLICA NA ANTIGUIDADE Opinião Pública e Ação Política são reflexões que tem norteado o contexto e a formulação de diversos trabalhos de pesquisa realizados em Universidades e institutos de pesquisa no Brasil. Ainda não muito bem estudado no campo da história, ou compreendido em outros contextos, o termo opinião pública caminha conjuntamente com a ação política, ação esta que provém das massas, dos grupos, das associações, ou seja, dos indivíduos que se organizam enquanto agentes coletivos para expressarem seus ideais, seus questionamentos, suas reivindicações e seus interesses. Estudar a opinião pública não parece uma tarefa simples. Ainda mais se fizermos referência à antiguidade, onde apesar da inexistência do uso do termo, ele já podia ser compreendido nas manifestações da coletividade, como podemos perceber nas obras de Homero, Platão, Aristóteles, Sêneca, entre outros. Para relatarmos melhor o termo opinião pública e a atuação dos agentes nesse processo, partiremos com a discussão dos marcos das filosofias políticas clássicas antigas, pensadores modernos e autores contemporâneos, com a intenção de discutir as possibilidades e propriedades da intervenção desses agentes que, a primeira vista, não se qualificam para atuar na esfera política institucional como indivíduos, mas que tem a possibilidade de fazê-los enquanto agentes coletivos; ou seja, quando e de que maneira a opinião pública e a ação popular devem aparecer. Os primórdios do debate acerca da opinião pública e da representação política fazem com que comecemos nossa análise do termo no período da antiguidade – embora a expressão opinião pública ainda não existisse, tal como se denomina a partir do século XVIII, mas já estivesse implícita nos escritos de várias obras filosóficas, a saber: Homero, Platão, Aristóteles, Sêneca, entre outros. Comecemos por Platão. Para ele o cidadão comum era desconsiderado para atuar no mundo público ou na esfera pública, pois, de acordo com sua argumentação, o povo se apresentava incapaz de compreender o funcionamento do governo e o mesmo não devia se preocupar com suas reivindicações. Assim, Platão desconsiderava a opinião pública para o bom funcionamento do governo. A doxa platônica, que se contrapõe à ciência ou saber 11 verdadeiro, representa o mais baixo nível de conhecimento, identificada como uma forma de semi-ignorância baseada em ambigüidades que são consideradas reais pelo cidadão comum, segundo a visão de Emerson Urizzi Cervi (2006, p. 107). Platão considera o público como um grande sofista por avaliar o vínculo entre opinião e povo como despreparado. A participação política dos indivíduos, neste caso, estaria condicionada aos sábios. Já nos poemas homéricos, a Ilíada e a Odisséia, pode-se perceber que a participação política dos cidadãos sempre está ligada à mobilização militar, quando a questão da luta é algo necessário e os cidadãos são convencidos para isso. Alguns cidadãos se qualificam à participação política através de caracteres individuais como nobreza, riqueza, instrução, prestígio, representatividade, etc. Porém, em sua minoria, pois a maioria se qualifica como indivíduo e sua possibilidade de intervenção no jogo político mais efetivamente é agir no âmbito da coletividade. Em ocasiões como essa é que a população ganha força para decidir nos processos políticos (CERQUEIRA; FAVERSANI, 2001, p.434-435). A possibilidade de indivíduos não socialmente qualificados participarem de processos de decisão sempre preocupou os que se afirmam como mais capazes de decidir. Aristóteles e Sêneca, autores da antiguidade clássica, deixaram evidente em alguns de seus textos essa preocupação, onde a participação política se mostrou evidente. Em A Política, Aristóteles (1999) expõe o que considera ser o governo ideal, pois para ele só são considerados verdadeiros cidadãos os que participam do governo exercendo cargos e os pobres não devem participar do governo, pois exercem profissões desprezadas diante do que se considera ser um cidadão de bem. No livro III apresenta partes que compõem a população incluindo os pobres e os colocando em oposição aos ricos, pois seria “impossível que as mesmas pessoas sejam pobres e ricas. Os pobres e ricos parecem, portanto, formar a principal divisão das classes do Estado. Aliás, como ordinário uns contam um número bem pequeno e outros um número bem maior, é claro que são partes contrárias entre si” (apud CERQUEIRA; FAVERSANI, 2001, p.435). Ainda no livro III o governo do povo seria inaceitável, pois se trata de um regime tirânico e injusto fazendo com que os homens de bem sejam sujeitados a tal. Apesar de não governar, o povo também não deve ser excluído. Mas o povo estaria sujeito a desempenhar que papel na sociedade então? Nas palavras de CERQUEIRA e FAVERSANI (2001, p. 436), “o mérito do povo, para Aristóteles, não está nos indivíduos que o compõem. O povo só deve ser levado em consideração como um conjunto, jamais como indivíduos. Podemos perceber em Aristóteles o reconhecimento do poder do público no julgamento e na apreciação, o que, 12 sem dúvida, diz respeito à dimensão da opinião pública, conceito que, entretanto, não foi formulado pelo autor, apesar de tratá-lo nos seus efeitos”. A força de expressão do público estaria então no conjunto da coletividade, pois aí parece que se apresenta o seu poder. Nessa medida, o governo ideal para Aristóteles, que seria então o julgamento do coletivo formado pelos pobres acrescidos dos ricos que daria origem ao governo dos ricos, pois reunidos em conjunto com pessoas de nível mais elevado eles seriam melhores aproveitados, não era um consenso para os pensadores da antiguidade. Platão, por exemplo, propunha como governo ideal o governo do sábio, pois seria o mais virtuoso e governaria para todos os homens. Outro pensador da antiguidade que não compartilha com a idéia de Aristóteles de que o povo, em conjunto, poderia ter virtudes o bastante para julgamento, ou seja, o povo em conjunto decide melhor do que apenas um indivíduo isolado, é Sêneca1. Filósofo do século I d.C., conselheiro do imperador Nero, Sêneca teria esboçado na obra De Clementia o que seria a relação entre o governante e o povo. O imperador seria uma espécie de sábio, de guia para a multidão que se encontra desamparada. Ele dá a liberdade e a justiça aos súditos que o mantém como governante numa relação de auxílio e existência. Para Sêneca o imperador seria a peça que faz o povo existir; não só o povo, mas também a sua personalidade política, a república. Por seu intermédio nada de mal aconteceria ao estado, pois imperador e estado seriam algo semelhante. Com isso, a população desarticulada só promoveria a sua própria autodestruição e para que tivesse algum poder seria preciso que alguém a conduzisse, no caso o imperador, que deve atender aos interesses desse povo em detrimento de ser destronado (CERQUEIRA; FAVERSANI, 2001, p.438). Nesse caso, o governante só se sustentaria se tivesse apoio da opinião, ou seja, do povo. Entretanto, essa opinião deveria ser bem moldada, pois quando a opinião errônea de uns se torna geral, a mesma pode condicionar as demais. A opinião não seria um elemento inerte, mas sim passível de mudança. Nesse caso, para Sêneca, o comportamento de um indivíduo influencia os demais, gerando uma resultante que é o comportamento geral. Quanto mais percebido pelos demais se fizer o comportamento de um indivíduo mais ele irá gerar influência sobre os outros. Daí a preocupação de Sêneca acerca da postura do imperador, pois seria o mais visível de todos (CERQUEIRA; FAVERSANI, 2001, p.440). 1 Para uma melhor compreensão sobre as ações desse filósofo que foi preceptor do Imperador Nero, ver: FAVERSANI, F. A sociedade em Seneca. Tese de doutorado, FFLCH, São Paulo, 2000. 13 Desse modo, a opinião aparece como algo essencial por moldar os mecanismos relacionados à existência dos indivíduos. Mesmo sabendo que a opinião sofre influência de ações e pensamentos que são originários dos indivíduos em si, é no campo geral que se encontram os elementos de fundamental importância para a existência humana. A forma pela qual os indivíduos constrangem a opinião geral depende de sua capacidade de tornar a razão exercitável e de fazer perceptível sua forma de agir e de pensar ao maior número de pessoas (CERQUEIRA; FAVERSANI, 2001, p.441). Contudo, mesmo amparados por mecanismos de constrangimento da ação de cada indivíduo e de potencialização da capacidade de alguns indivíduos fazerem de sua opinião ou ação uma opinião pública ou ação coletiva (CERQUEIRA; FAVERSANI, 2001, p.441), os elementos que destacamos através de autores da antiguidade nos parecem de fundamental importância para compreendermos a questão da representação política e da configuração da opinião pública. A intervenção de agentes coletivos nas agências do estado, talvez seja a forma mais viável para expressarem seus ideais, seus questionamentos, suas reivindicações, suas finalidades. Ao expormos alguns aspectos da opinião pública e da representação política na antiguidade, partiremos agora para a análise do termo no período moderno. I.2- ASPECTOS DA OPINIÃO PÚBLICA NO PERÍODO MODERNO Alguns dos estudos característicos do período moderno dizem respeito à investigação da opinião pública sobre a dinâmica das políticas dos Estados em consolidação. Nessa época, houve uma maior participação dos agentes políticos no processo de definições de mandatos dos governos nos Estados, porém, não culminando efetivamente em uma democracia tal qual como a conhecemos. Por outro lado, essa época também é marcada por um aparato de controle administrativo estatal cada vez mais intenso na dinâmica da população que teria resultado na ampliação dos direitos civis, políticos e sociais. Determinados pensadores desse período, como Maquiavel (1991), identificaram a questão da opinião pública como sendo algo útil para os interesses do governante e para o bem comum do Estado. Ele reconhece que a opinião pública poderia ser algo de grande utilidade para o governante, como também, para o Estado, e pode-se dizer que “foi o primeiro a dar uma feição pragmática ao uso da opinião pública como instrumento para alcançar e 14 manter o poder, pois sugere que a opinião pública pode ser manipulada ou acomodada, mas nunca ignorada” (CERVI, 2006, p. 108). Na obra O Príncipe, que reflete a figura de um governante capaz de assegurar a ordem e a manutenção de um Estado onde houvesse a união do território e a população vivesse sobre as regras de um governo maior, é possível encontrarmos elementos científicos de uma ciência da opinião e propaganda2, bem como aspectos iniciais de relações públicas que, todavia, devem ser levados em consideração por um governante precavido. No capítulo IX, Maquiavel destaca a importância do apoio popular para se manter no poder, pois o pior que um príncipe pode esperar do povo hostil é ser abandonado por ele [...]. Precisa ainda o príncipe viver sempre com o povo [...] e quem se torna príncipe mediante o favor do povo deve manter-se seu amigo, o que é muito fácil, uma vez que este deseja apenas não ser oprimido. Mas quem se torna príncipe contra a opinião popular, por favor dos grandes, deve, antes de mais nada, procurar conquistar o povo (MAQUIAVEL, 1991, p. 40). Já no capítulo XVIII, chama a atenção para a questão da infidelidade do príncipe em não se preocupar para com as suas promessas, porém, tornando-se fundamental que se esconda a natureza de suas ações, pois é necessário disfarçar muito bem esta qualidade e ser bom simulador e dissimulador (MAQUIAVEL, 1991, p. 74). Por fim, no capítulo XIX, reitera a importância de haver uma harmonia entre os poderosos e o povo em favor da governabilidade do Estado, pois a um príncipe pouco devem importar as conspirações se é amado pelo povo, mas quando este é seu inimigo e o odeia, deve temer tudo e a todos. Os Estados bem organizados e os príncipes prudentes procuram-se sempre em não reduzir os grandes ao desespero e satisfazer e contentar o povo, porque essa é uma das questões mais importantes que um príncipe deve ter em mente (MAQUIAVEL, 1991, p. 79). Percebe-se, entretanto que, Maquiavel, um autor que é considerado teórico da monarquia e que se preocupa com a imagem do Príncipe, leva em consideração a opinião pública com uma visão pejorativa inaugurada pelos gregos. Até finais do século XVIII, a opinião pública não é valorizada, devendo ser levada em consideração apenas em função de sua utilidade, como no caso de quem deseja manter-se no poder. Maquiavel também não a considera geradora de posições sociais consistentes a respeito das questões do Estado (CERVI, 2006, p. 109-110). Já para Thomas Hobbes, um dos principais teóricos do poder do Estado, a opinião pública deve ser condenável por introduzir no Estado um germe de anarquia e de corrupção (BOBBIO, 1986, p. 842). 2 Para uma melhor discussão sobre o termo ver: MUÑOZ-ALONSO, Alejandro et al. Opinión Pública Y Comunicación Política. Madrid (Espanha): Editora Eudema, 1992. 15 Contudo, é nos primeiros séculos da Idade Moderna que se criaram condições para a existência de uma opinião pública autônoma a respeito do poder político. Ao mesmo tempo em que os governantes passavam a ter consciência de que necessitavam da opinião e da reputação como fundamento de seu poder3. Nesse período reaparece, então, uma distinção nítida entre o público e o privado4 (apud CERVI, 2006, p. 109). No período renascentista, a ênfase no indivíduo e em sua razão dá aos pareceres individuais um valor que não tiveram no universo medieval - época de obscuridade – baseados em critérios de autoridade e enfoques dogmáticos. A passagem do teocentrismo medieval para o antropocentrismo moderno oferece uma das principais condições para a consolidação da opinião individual, ultrapassando o monolitismo ideológico da Idade Média, substituído por um pluralismo que teria de fato contribuído para a consolidação da opinião pública expressiva e valorizada (CERVI, 2006, p. 109). A primeira reivindicação clara da autonomia da opinião pública consistente e coerente só se dá no Iluminismo e é impulsionada pelo pensamento liberal. Em seu Ensaio sobre a inteligência humana, John Locke fala de uma lei da opinião ou reputação que é uma verdadeira e autêntica lei filosófica: ela é a norma das ações, serve para julgar se os atos públicos são virtuosos ou viciosos. Para Locke, ao formar a sociedade política, os homens abdicaram, a favor do poder político, do uso da força contra os cidadãos, mas mantiveram intangível o poder de julgar à virtude e o vício, alem da bondade e maldade de suas ações. Sendo juízo expresso pelos cidadãos, apoiado pelo oculto e tácito consenso, toda a sociedade, de acordo com seus próprios costumes, estabelecerá leis da opinião, que serão diversas conforme os países. Na estruturação do Estado liberal, há de se salientar uma radical distinção entre lei e moral, expressa pela opinião pública, e lei civil, expressa pela assembléia representativa, algo que se distingue como verdadeiro e autentico entre o poder político e o filosófico; um claro contraste entre moral e política5. Na obra de Rousseau, a opinião pública continua com o caráter em expressar juízos morais, mas tais juízos estão em consonância direta com a política e com os canais institucionais por meio dos quais se exprimem. No Contrato Social, há uma revalorização da instituição da censura, sendo o censor o ministro da lei da opinião pública. Assim como a declaração da vontade geral se faz por meio da lei, assim também a declaração do juízo 3 Maquiavel parece ter expressado claramente essa idéia em sua obra O Príncipe. Para uma melhor discussão sobre o termo ver: MUÑOZ-ALONSO, Alejandro et al. Opinión Pública Y Comunicación Política. Madrid (Espanha): Editora Eudema, 1992. 5 Cf. BOBBIO, 1986. 4 16 público se faz por meio da censura (apud CERVI, 2006, p. 109). O censor não é o árbitro da opinião do povo, mas apenas sua expressão e não pode, portanto, afastar-se do costume6. Deste modo, a censura pode ser útil para conservar os costumes, mas não o é para restabelecêlos, quando se corrompem. Rousseau que, com sua vontade geral, quer superar a distinção entre política e moral, apresenta uma estreita correlação entre soberania popular e opinião pública, leis e costumes, política e moral, vendo na opinião pública a verdadeira constituição do Estado (BOBBIO, 1986, p. 843). Atrelado ao pensamento de Rousseau, alguns intelectuais presentes na Revolução Francesa vão levar a cabo as idéias contidas tanto no Contrato Social, como em outros escritos, no intuito de identificar na opinião pública o verdadeiro e único poder soberano. Nascimento (1989) trabalha em seu livro Opinião pública e revolução, a análise de um grupo de intelectuais que atuaram durante a Revolução Francesa, o chamado Círculo Social, e que foram defensores ferrenhos da opinião pública, acreditando, então, que ela seria o único poder, o juiz supremo, a própria verdade. O seu objetivo foi investigar o discurso político e ideológico de alguns dos membros desse Círculo Social, tendo como viés sua concepção de opinião pública. Alguns pensadores liberais ingleses e franceses dão continuidade ao pensamento de Locke com Burke, Bentham, Constant e Guizot com a novidade da função pública, ou melhor, política, da opinião pública como instância intermediária entre o eleitorado e o poder legislativo. A opinião pública tem por função permitir a todos os cidadãos uma ativa participação política, colocando-os em condições de poder discutir e manifestar as próprias opiniões sobre as questões de interesse geral. Há pelo menos três décadas a teoria social brasileira tem se ocupado em estudar o tema, entretanto, sendo bem recente na literatura política nacional, em vista das discussões que já se estabelecem desde a década de trinta, principalmente, nos Estados Unidos. Após o Iluminismo, o conceito de opinião pública obtém uma nova importância, e a partir dos escritos de John Locke, sobre a lei da opinião pública como uma forma de controle útil para o Estado, há uma primeira desvalorização da opinião pública que aparece no pensamento de Hegel. Para ele, a opinião pública é a manifestação dos juízos, das opiniões e dos pareceres dos indivíduos acerca de seus interesses comuns. Trata-se de um saber apenas como fenômeno, que possui uma generalidade meramente formal, incapaz de atingir o rigor da ciência. A sociedade civil, onde há a formação da opinião pública, seria um conjunto 6 Quem trabalhou bem essa questão foi Milton Meira do Nascimento em seu livro Opinião Pública e Revolução. Cf. em: NASCIMENTO, Milton Meira. Opinião pública e revolução. São Paulo: Edusp; Nova Stela, 1989. 17 anárquico e também antagônico de tendências que não elimina a desigualdade. Com isso, a partir dos interesses particulares não se pode chegar à universalidade, pois a sociedade civil se apresenta de forma desorganizada (BOBBIO, 1986, p. 844). A mesma geração de liberais que sucedeu Constant e Bentham começou a temer que a opinião pública não fosse assim tão incorruptível como se havia acreditado até então, pois, segundo Kant, o perigo da corrupção não vinha tanto do governo, mas sim da própria sociedade, através do despotismo da maioria ou do conformismo de massa. Alexis de Tocqueville e John Stuart Mill, o primeiro em Democracia na América e o segundo em Sobre a Liberdade, mostram como o despotismo da massa opera não tanto através da autoridade pública, através do aparelho do Estado, mas, sobretudo, mediante pressão psicológica da sociedade sobre a alma e não sobre o corpo do indivíduo, para quem resta somente a escolher entre o conformismo e a marginalização. Percebe-se com isso que há um controle social mais que um controle político, impedindo desse modo o livre desenvolvimento da personalidade do indivíduo, bem como a formação de um público deles mesmos que faça uso da razão para raciocinar7. Na análise do Estado liberal, Kant tratou de modo sistemático a função da opinião pública, mesmo sem ter usado esse termo, pois ele fala sobre a “publicidade” ou o “público”. Quando perguntado a si mesmo sobre o que é iluminismo, responde que o termo consiste em fazer uso público da própria razão em todos os campos. Este uso público da razão, que há de ser sempre livre, possui uma função dupla tendo em vista dois destinatários: por um lado se dirige ao povo, para que se torna cada vez mais capaz da liberdade de agir; por outro se dirige ao Estado, para lhe mostrar que é vantajoso tratar o homem não como uma máquina, mas segundo sua dignidade. Antes de tudo, quem deve esclarecer o povo sobre os seus direitos e deveres não podem ser pessoas oficias designadas pelo Estado, mas livres cultores do direito, filósofos: aqui, na desconfiança para com o Governo, pronto sempre a dominar, fica clara a distinção entre política e moral, bem como a autonomia da sociedade civil, composta por indivíduos racionais e autônomos frente ao Estado (BOBBIO, 1986, p. 843). Como se vê, o debate histórico conceitual sobre a opinião pública no período moderno foi bastante intenso diante do processo de refutação pelo qual passou o termo. Desde Maquiavel, passando por Hobbes, Locke, Rousseau, Kant, entre outros, não se chegou claramente a esboçar um conceito de opinião pública aceitável pela maior parte desses pensadores. Tal dificuldade parece esbarrar em uma série de questões que, aja vista, ainda 7 Cf. BOBBIO, 1986. 18 permeiam em nossos tempos atuais. A literatura política brasileira ainda é tímida no tratamento dispensado a essa discussão, iniciada com mais afinco a partir da década de 70, ainda assim, sobre o papel da opinião pública nos processos políticos, em destaque, aqueles ligados às formas de representação. Ao expormos alguns aspectos da opinião pública e da representação política no período moderno, partiremos agora para a análise do termo no período contemporâneo. I.3- ASPECTOS DA OPINIÃO PÚBLICA NO PERÍODO CONTEMPORÂNEO Na contemporaneidade, o debate relativo ao papel da opinião pública ainda continua a ser objeto de investigação, mas de maneira bem tímida frente a temas considerados mais relevantes principalmente nas ciências humanas. Dá-se uma maior importância para o termo a partir do final da década de 80 com o advento das pesquisas de opinião pública. Desde então, os brasileiros se familiarizaram com o termo opinião pública que passou a aparecer com certa freqüência em jornais, revistas, rádios e televisão, além de fazer parte de discursos de candidatos e justificativas para escolhas de ocupantes de cargos públicos. Entretanto, pouco se discutiu até o momento - no plano acadêmico - sobre a natureza da opinião pública e sua importância para os processos democráticos. Um dos problemas para a dinâmica do debate sobre a opinião pública nas ciências humanas brasileira esbarra na questão de haver poucos estudos acerca desse objeto. Trabalhando mais sobre temas gerais como os da ordem institucional, do autoritarismo, da dominação, da democracia e do voto, autores como Victor Nunes Leal, Oliveira Vianna, Gilberto Freire, Octávio Ianni, principalmente, tratam do público, das massas, dos eleitores, das classes sociais e do papel da opinião pública indiretamente. Mais recentemente, através dos estudos sobre eleições, voto e sistema partidário, o debate sobre a gênese da opinião pública no Brasil começou a ganhar corpo e tais estudos ocupam-se mais do comportamento eleitoral do que propriamente da formação da opinião (CERVI, 2006, p. 113). Ainda que de forma indireta, existe na literatura política brasileira um início de discussão sobre o papel da opinião pública nos processos políticos com destaque para aqueles ligados às formas de representação. No Brasil, a partir da década de 70, já com o uso de pesquisas quantitativas, entra na agenda dos pesquisadores a necessidade de estabelecer, de início, um perfil do eleitor. E foi a partir desses trabalhos que o tema opinião pública passou a 19 ser tratado, ainda que de maneira marginal, nos estudos nacionais de áreas como a da ciência política. Essas pesquisas iniciais constatavam baixos níveis de informação política no eleitor médio e por isso ele é visto como sendo amorfo, com pouca participação política e quase nenhuma capacidade de conscientização (CERVI, 2006, p. 113). No plano teórico da literatura mundial autores como Habermas (1984) trataram do estudo da opinião pública, porém ligado à questão da esfera pública8. Em seu estudo clássico Mudança estrutural da esfera pública, escrito em 1961, onde há a reunião de um público formado por pessoas privadas que constroem uma opinião pública com base na racionalidade, e fora da influência do poder político e econômico e da ação estratégica, Habermas deixa evidente que a sua tarefa nesta obra não é o estudo da esfera pública e da opinião pública em geral, mas a análise das origens e transformações de uma esfera pública com um caráter de classe bem definido: esfera pública burguesa como categoria historicamente definida e ligada ao desenvolvimento da sociedade burguesa e da opinião pública burguesa. Para ele, a esfera pública burguesa pode ser entendida inicialmente como a esfera de pessoas privadas reunidas em um público para defender a sua liberdade econômica e atacar o próprio princípio de dominação vigente, ou seja, torná-lo racional: não baseado numa superioridade determinada por uma origem hereditariamente nobre, mas no melhor argumento racionalmente submetido à opinião pública. Ainda segundo Habermas, o processo de transição que se dará terá claras marcas nacionais, mas mantém uma série de características básicas semelhantes como a reunião permanente de pessoas privadas num público buscando formar racionalmente uma opinião pública baseada no melhor argumento (ALMEIDA, 2001, p. 3-4). Outro autor que estabeleceu um debate mais significativo sobre a opinião pública e também acerca das pesquisas de opinião, os chamados surveys, foi Pierre Bourdieu. De acordo com seu argumento, “a opinião pública não existe, pelo menos na forma que lhe atribuem os que têm interesse em afirmar a sua existência”. Bourdieu considera, entretanto, que existem “por um lado, opiniões mobilizadas, opiniões constituídas, grupos de pressão mobilizados em torno de um sistema de interesses; e, por outro lado, disposições, isto é, a opinião no estado implícito, que, por definição, não é opinião se com isso se compreende algo que pode ser formulado em discurso com certa pretensão à coerência”. Entretanto, apesar de admitir a existência de vários tipos de “opiniões” conclui que: “Digo simplesmente que a 8 Para uma maior discussão sobre o tema ver: CERVI, E. U. Opinião pública e política no Brasil. O que o brasileiro pensa sobre política e porque isso interessa à democracia. Tese de doutorado, IUPERJ, Rio de Janeiro, 2006. 20 opinião, no sentido da definição social implicitamente admitida pelos que fazem sondagens de opinião, não existe” (BOURDIEU, 1980-a, p.151). Bourdieu também afirma que “toda pesquisa de opinião supõe que as pessoas tenham uma opinião, ou seja, que possam produzir uma opinião; que todas as opiniões são equivalentes; pressupõe que exista um consenso sobre os problemas e, portanto sobre as perguntas feitas na sondagem” (ALMEIDA, 2001, p. 8). Ele acredita também que as sondagens criam a ilusão de que existe uma opinião pública, quando na realidade se trataria de uma somatória de opiniões individuais, ou ainda, em determinados casos, de “tomadas de posições particulares” diante de “opções” colocadas por quem pergunta. Neste caso, “a interrogação politicológica mede não a opinião política, mas a aptidão para produzir o que se entende por opinião pública” (BOURDIEU, 1980-b, p.166). Como tentamos demonstrar até aqui, durante grande parte da historia sobre o debate conceitual e mesmo entre determinados autores que trataram mais recentemente da opinião pública, o tema passou a ser entendido como vulgar, comum ou majoritário, transformando-se em opinião popular com repercussão política na forma de vontade geral, ou ainda, um conjunto de opiniões coletivas organizadas, de autoridade moral na sociedade estabelecida ou discutida, com consenso social básico, representação institucional de várias opiniões; chegando até a opiniões sobre temas concretos ou um conjunto de opiniões (apud CERVI, 2006, p. 117). Sendo assim, sem termos a pretensão de chegar a estabelecer um conceito de opinião pública como fizeram alguns autores, mas cientes que de é preciso se balizar em algumas definições, compartilharemos a nação de opinião pública com o fato de que ela é de um duplo sentido. Primeiro, porque ela não é privada e nasce do debate público, e segundo, porque o seu objeto é qualquer coisa, desde que seja público (BOBBIO, 1986, p. 842). Para este trabalho, a opinião que nos interessa diz respeito aos assuntos da nação ou a outro agregado social, expressa de maneira livre por cidadãos que estão fora do governo, mas que reclamam o direito de que suas opiniões possam influenciar ou determinar ações governamentais. A discussão que faremos nos próximos capítulos irá abordar a metodologia de pesquisa empregada pelo Neaspoc-Ufop nas pesquisas do Projeto Assessoria Popular em Mariana e que foi usada na coleta de dados da população, e através da análise de algumas variáveis procuraremos demonstrar como esse Projeto pode fornecer à população informações de qualidade dos mais variados temas de interesse popular e governamental. 21 II. METODOLOGIA DE PESQUISA: OS SURVEYS No capítulo anterior tratamos dos aspectos da Opinião Pública dando ênfase ao seu contexto histórico ao longo dos séculos e sua importância para a definição de ações governamentais, considerando que a população deve ser o foco de análise. A nosso ver, o debate acerca da definição de políticas públicas que realmente atendam aos anseios da população se caracteriza cada vez mais como algo necessário para a consolidação do regime democrático. As pesquisas de Opinião Pública, quando bem formuladas e bem executadas, podem trazer muitos aspectos relevantes e de grande contribuição para essas ações. As respostas a isso são diversos trabalhos desenvolvidos em Universidades, a citar como exemplo a UFOP, em especial o NEASPOC, que tem como foco principal a análise junto à população, de questões de interesse público e que sejam relevantes para contribuir em melhorias sociais. Ao longo deste capítulo procuraremos abordar a metodologia de pesquisa empregada pelo Neaspoc-UFOP - os chamados surveys - na realização das pesquisas do Projeto Assessoria Popular em Mariana e também em outras ações de pesquisas promovidas pelo núcleo. Traçaremos uma breve introdução do que se convém chamar de metodologia de pesquisa de survey e citaremos alguns exemplos de trabalhos desenvolvidos nesses dez anos de existência do núcleo. II.1- UM BREVE HISTÓRICO Os surveys são modelos de pesquisa que se assemelham com muitos outros métodos. Para efeito de comparação, são muito semelhantes a censos, sendo a diferença principal entre eles que um survey, tipicamente, examina uma amostra da população a ser investigada, enquanto que o censo implica em uma análise que busca o total da população a ser investigada. Estes remontam à antiga civilização egípcia, onde os governadores julgavam útil colher dados empíricos como uma forma de descrever seus súditos. As funções políticas da pesquisa de survey continuam até os dias de hoje com uma série de pesquisas desenvolvidas seja para trabalhos acadêmicos, partidos políticos, candidatos, pesquisas de mercado, etc. 22 Um dos primeiros usos políticos dos surveys de atitude ocorreu em 1880. Um sociólogo político alemão enviou pelo correio questionários a 25000 trabalhadores franceses com o intuito de averiguar em que grau eles eram explorados pelos patrões. O questionário era bem extenso, incluindo mais de 100 questões e um texto inicial cujo alguns fragmentos eram: Nenhum governo (monárquico ou republicano burguês) ousou fazer uma investigação séria a respeito da situação da classe operária na França. Mas, por outro lado, muitas pesquisas já foram feitas a respeito das crises agrárias, financeiras, industriais, comerciais ou políticas. [...] Estes cadernos do trabalho constituem o primeiro passo que a democracia socialista tem que dar para abrir caminho à renovação social (Karl Marx).9 O pesquisador em questão era Karl Marx, um dos grandes pensadores do século XIX extremamente preocupado com a exploração da classe operária. E não se tem notícia de qualquer registro que comprove o retorno de pelo menos parte dos 25000 questionários enviados aos trabalhadores. Outro sociólogo que fez uso dos surveys foi Max Weber, um dos fundadores da sociologia moderna, usando métodos de pesquisa de survey no seu estudo sobre a ética protestante. Além do exame histórico comparativo do desenvolvimento econômico, ele também estudou operários protestantes e católicos, para obter dados confirmatórios em nível individual (BABBIE, 1999, p. 78). Nas décadas passadas do último século grande parte das pesquisas de survey foi realizada por pesquisadores norte-americanos. O método utilizado resulta de importantes trabalhos desenvolvidos em três setores diferentes da sociedade americana. A primeira compreende “o trabalho ininterrupto do U.S. Bureau of Census que fez importantes contribuições aos campos de amostragem e coleta de dados” [...] tendo desempenhado “um papel singularmente importante no desenvolvimento de definições padronizadas de amostragens e de métodos para a implementação destas definições no campo”. A segunda fonte de desenvolvimento caracterizou-se em atividades desenvolvidas por firmas comerciais de pesquisas de opinião, “entre elas as organizadas por George Gallup, Elmo Roper, Loius Harris e outros. Estas firmas foram uma fonte contínua de fundos para apoiar o desenvolvimento e o uso de métodos de survey, principalmente nas áreas de marketing de 9 Para ter acesso ao texto por completo e as perguntas do questionário, conferir em: THIOLLENT, Michel (org.). Crítica metodológica, investigação social e enquete operária. São Paulo, Editora Polis, 1980. 23 produtos e de pesquisas políticas”, sendo muitas destas pesquisas aproveitadas para trabalhos acadêmicos. Já a terceira fonte de desenvolvimento compreendeu o “refinamento científico da pesquisa de survey, sobretudo métodos sofisticados de análise”, sendo em considerável parte o produto de algumas universidades americanas - em específico, “dos esforços de dois homens, Samuel A. Stouffer e Paul F. Lazarsfeld, que devem se considerados pioneiros da pesquisa de survey como ela é conhecida hoje” - e mais tarde, de centros de pesquisas de surveys (BABBIE, 1999, pp. 78-79). No Brasil encontramos registros de surveys ainda nos anos de 1940, mas bem timidamente. Porém, o advento se dá a partir dos anos 80, em especial com as eleições presidenciais, onde vários institutos de pesquisa, ao retratarem o cenário político e os principais problemas do Brasil, se consolidaram no cenário nacional como captador de informação em grande escala. No início dos anos 90 algumas Universidades preocupadas em desenvolver metodologias de pesquisa, em específico os surveys, criaram os primeiros núcleos de pesquisa de opinião que atuam como grandes centros de apoio tanto para pesquisas acadêmicas como para determinadas demandas da sociedade em geral. Um exemplo disso é o Neaspoc-UFOP, núcleo de pesquisas da Universidade Federal de Ouro Preto, que além de fornecer apoio para pesquisas acadêmicas também está comprometido em prestar auxílio a projetos das populações, em especial, as de Mariana e Ouro Preto. II.2- OS SURVEYS NA ELABORAÇÃO DE PESQUISAS Suponhamos como exemplo qualquer que a nossa lógica de estudo seja traçar o perfil dos estudantes de uma Universidade. Para tanto, selecionamos uma amostra de centenas de estudantes da totalidade do corpo discente. Um questionário altamente estruturado é elaborado para obter informações relevantes como escolaridade dos pais, nível de renda, local de moradia (república particular ou federal), expectativas quanto à formação acadêmica, ocupação, se concorda ou não com a política de cotas nas Universidades, e etc. Os questionários são aplicados à amostra de alunos através de entrevistas pessoais, por telefone ou pelo correio, caso seja necessário. As respostas de cada questionário aplicado aos estudantes são codificadas de forma padronizada, as perguntas “abertas” 10 são analisadas 10 Classificamos como pergunta aberta aquela em que a variável a ser investigada não fornece, de antemão, respostas para o entrevistado ou não se estabelece medições. Por exemplo, pergunta-se para o entrevistado qual a percepção que ele tem da Justiça no Brasil. A princípio, aparecerá uma série de respostas distintas, mas que 24 mais a fundo, e registra-se de forma quantitativa. Em seguida, tabulam-se as respostas codificadas de cada questionário para um programa específico de análise de dados11. Os registros padronizados de cada questionário são submetidos a uma análise agregada, para fornecer descrições do perfil dos estudantes entrevistados na amostra e determinar correlações entre diferentes respostas. As conclusões descritivas e explicativas obtidas na análise são, então, generalizadas para a população da qual a amostra foi selecionada, no caso, todo o corpo estudantil. O que acabamos de descrever é característico de uma típica pesquisa de survey e o exemplo foi baseado em uma pesquisa realizada pelo Departamento de Educação da UFOP em parceria com o NEASPOC. De acordo com a metodologia empregada pelo DEEDU12 e o NEASPOC, selecionou-se uma amostragem de 380 alunos. Foram aplicados até o momento, 244 questionários, sendo 143 respondentes do sexo masculino e 101 respondentes do sexo feminino. Todos os informantes são estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto, dos cursos do Campus de Mariana e do Campus de Ouro Preto (o campus de João Monlevade não foi analisado nessa fase da pesquisa). Essa pesquisa quantitativa do tipo survey, baseou-se na amostragem realizada por conglomerado (ou cluster) tornando-se representativa do universo de estudantes em cada curso anterior ao REUNI13. Pesquisou-se até o momento 5,8% dos alunos nos dois Campi em 2008. A amostra alcançou alta representatividade da população, pois foram selecionados alunos de ambos os sexos dos cursos diurnos e do noturno, dos períodos iniciais, intermediários e finais de todos os cursos da Universidade e a amostragem obedeceu à distribuição dos alunos proporcionalmente a cada curso da Universidade. Posteriormente a seleção e tabulação dos questionários foram feitas entrevistas semi diretivas com 10 alunos selecionados entre os questionários de cada instituto/curso. As entrevistas foram transcritas, tabuladas e estão em processo de análise14. posteriormente podem ser agrupadas em características semelhantes para fins de análise. Feito isso, pode-se chegar a escalas de medições ou características básicas semelhantes para grande parte dos entrevistados sobre a percepção da Justiça no Brasil. Ao contrário de uma pergunta aberta, uma fechada, como a variável sexo, admite a princípio somente uma resposta, masculino ou feminino. Sobre elaboração de questões, conceituação e desenho de instrumentos ver: BABBIE, Earl. Métodos de Pesquisa de Survey. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999, capítulo 7. Ver também: ALMEIDA, Carlos Alberto. Como são feitas as pesquisas eleitorais e de opinião. Rio de Janeiro: FGV, 2002. 11 O principal programa por nós utilizado para análise dos dados é o SPSS (Statistical Package for the Social Sciences). 12 Departamento de Educação da Universidade Federal de Ouro Preto. 13 Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais – REUNI. Instituído a partir do Decreto Presidencial nº 6.096, de 24 de Abril de2007. 14 Fonte: Pesquisa Jovens Universitários 2008/ 2009/ DEEDU/ Neaspoc-UFOP. 25 Um segundo exemplo de pesquisa realizada pelo Neaspoc-UFOP que podemos citar diz-se da percepção dos estudantes de escolas públicas e privadas da região de Ouro Preto e Mariana sobre a avaliação de políticas educacionais do governo federal. Seguindo a metodologia empregada pelo núcleo, a pesquisa foi o resultado de um trabalho final de curso da disciplina eletiva HIS 694 do curso de História da Universidade Federal de Ouro Preto e foi integralmente feita pelos alunos regularmente matriculados na mesma, o que compreende: a definição do objeto de investigação; o cálculo e desenho amostral; a elaboração do questionário; o treinamento para aplicação dos questionários; a crítica dos mesmos; o processo de codificação de questões abertas e o processo de digitação. Ficou por conta do coordenador da pesquisa e do NEASPOC a elaboração do relatório final. Esta pesquisa de opinião pública foi realizada junto aos estudantes de ensino médio e superior de instituições de ensino público e privado das cidades de Mariana e Ouro Preto. O método utilizado para a seleção dos estudantes foi o sorteio no momento da aplicação dos questionários em instituições de ensino médio e superior e instituições públicas e privadas, selecionadas segundo seu porte. Para a coleta de dados, foi utilizado um questionário estruturado especialmente elaborado com base nos objetivos da pesquisa. As entrevistas de caráter pessoal foram realizadas por uma equipe de entrevistadores especialmente treinada para esse tipo de abordagem. Após a coleta foi realizada a codificação das perguntas para que os questionários fossem digitados, vindo em seguida, a verificação da consistência dos dados. Encerrada a crítica eletrônica, os dados foram processados segundo um plano tabular previamente definido. Um ponto importante na execução das tabelas é a definição das variáveis que as compõem. Essas variáveis são muitas vezes sintéticas, resultando da combinação de mais de uma resposta do questionário. A amostragem da pesquisa do tipo survey, baseou-se em amostra representativa dos estudantes de instituições públicas e privadas de ensino médio e superior das cidades de Mariana e Ouro Preto. As quotas de questionários foram definidas em cerca de cem por segmento, sendo quatro os segmentos estruturados, a saber: estudantes de ensino médio de instituições privadas; estudantes de ensino médio de instituições públicas; estudantes de ensino superior de instituições privadas e estudantes de ensino superior de instituições públicas. As entrevistas foram realizadas individualmente com cada entrevistado e o número total foi de 409 respondentes, sendo o intervalo de confiança da amostra 95% (noventa e 26 cinco por cento) e a margem de erro aproximadamente 5 (cinco) pontos percentuais dos resultados para a amostra como um todo15. Um dos resultados interessantes desta pesquisa diz respeito à forma de política educacional preferida pelos estudantes. De acordo com as respostas, cerca de 61,4% dos entrevistados preferem o ENEM como política a ser adotada no aproveitamento do vestibular. Outros 25,7% acham o PROUNI como alternativa mais viável e apenas cerca de 5,9% preferem as políticas de cotas, de acordo com a tabela abaixo. Qual destas políticas educacionais o(a) Sr(a) prefere mais? Qual destas políticas você prefere mais? Casos 251 % 61,4% 105 25,7% Política de Cotas 24 5,9% Nenhuma delas 26 6,4% 3 ,7% 409 100,0% Aproveitamento do ENEM no vestibular PROUNI NR/NS Total Fonte: Neaspoc-UFOP/ Alunos HIS 649 Um terceiro exemplo de pesquisa realizada pelo NEASPOC que também vale apena citarmos ocorreu recentemente na fábrica de veículos da Wolkswagem Caminhões e Ônibus no Estado do Rio de Janeiro, mais precisamente na cidade de Resende. O objetivo da pesquisa pautou-se em dar prosseguimento a outro trabalho realizado em 2002 na mesma fábrica, e teve o intuito de traçar o perfil dos funcionários e estabelecer possíveis comparações e avanços em determinadas áreas de atuação dos metalúrgicos nesses últimos anos. O método utilizado para a seleção dos respondentes foi o da abordagem pessoal feita no interior da fábrica em três dias de campo. Para a coleta de dados, foi utilizado um questionário estruturado especialmente elaborado com base nos objetivos da pesquisa. As entrevistas foram realizadas por uma equipe de entrevistadores especialmente treinada para esse tipo de abordagem, pois contou com estagiários altamente capacitados bem como também com alunos de iniciação científica que desenvolvem trabalhos sobre a classe operária. Após a coleta foi realizada a codificação das perguntas para que os questionários fossem 15 Fonte: Alunos HIS 694/ Neaspoc-UFOP. 27 digitados, vindo em seguida a verificação da consistência dos dados. Encerrada a crítica eletrônica, os dados foram processados segundo um plano tabular previamente definido. Já a amostra da pesquisa foi calculada com um intervalo de confiança de 95% e margem de erro de 5 pontos percentuais. A população de trabalhadores na fábrica da Volkswagen em Resende é de 1767. O cálculo do tamanho da amostra ficou em 300 entrevistas. Foram feitas ponderações quanto às empresas e os turnos de trabalho (diurno e noturno). Para que houvesse um número significativo de entrevistas do turno noturno da empresa Volkswagen tomou-se a decisão de se fazer mais entrevistas que a ponderação indicava. Deve ser ainda ressaltado que, em decorrência do esforço da pesquisa ser elevado (a amostra representa 17% da população) e o campo ter se realizado dentro da fábrica em apenas três dias, a cota efetivada não necessariamente coincidiu com a ponderação. A orientação foi para que se alcançasse a maior proximidade possível, o que foi alcançado e assim não alterou significativamente a margem de erro da pesquisa. O interessante dessa pesquisa foi que de antemão já se estimava que a aplicação das entrevistas no interior da fábrica seria algo bastante difícil por conta da rotina de trabalho dos funcionários. A linha de produção estava funcionando em dois turnos que, por sua vez, compreendem cerca de dois terços de um dia, e a maneira com que se teve que lidar com as dificuldades para que não houvesse problemas com a coleta dos dados foi decisiva. Como a equipe estava bem preparada, conseguiu-se ao final do terceiro dia atingir os objetivos previstos. Os dados da pesquisa ainda estão sendo analisados para efeito de comparação com pesquisas anteriores. Entretanto, o que se percebeu, foi que o perfil dos metalúrgicos atuais sofreu mudanças significativas para com os das históricas décadas de 70 e 80, época em que o movimento sindical era extremamente expressivo no Brasil. Um quarto exemplo de pesquisa que merece atenção é o projeto que está em andamento entre o Neaspoc-UFOP e o Instituto Estrada Real em Minas Gerais. O objetivo deste projeto visa traçar os principais aspectos dos turistas que freqüentam os circuitos históricos da Estrada Real e também algumas outras regiões turísticas do estado. A pesquisa, desde o primeiro momento, foi trabalhada com o intuito de tentar captar informações mais precisas de como seria o perfil dos turistas freqüentadores dessas regiões. Perguntas como “qual o principal meio de hospedagem utilizado, meio de transporte mais utilizado, previsão de gastos na viagem, qual o principal motivo da viagem, número de pernoites realizados, avaliação sobre as condições do local visitado, estado e cidade de residência permanente”, 28 além de dados socioeconômicos, são algumas das questões que compõem o questionário de perfil. Já o de contagem, um questionário mais curto, é composto por questões como “qual a cidade de residência permanente, número de acompanhantes na viagem, principal motivo da viagem”, entre outras. O método utilizado para a coleta de questionários é o da aplicação em fluxo de turistas em pontos selecionados das cidades, em dois ou três dias de campo. Para a coleta de dados, é utilizado um questionário estruturado, conforme abordado anteriormente, especialmente elaborado com base nos objetivos da pesquisa e hipótese levantadas. As entrevistas de caráter pessoal são realizadas por uma equipe de entrevistadores (na maioria deles estudantes universitários) especialmente treinada para esse tipo de abordagem. Após a coleta é realizada a codificação e críticas das perguntas para que os questionários sejam digitados, vindo em seguida a verificação da consistência dos dados. A pesquisa compreende cerca de 38 municípios e 14 circuitos turísticos distribuídos pelas principais regiões turísticas de Minas Gerais. A saber, os municípios são: Araxá, Barão de Cocais, Barbacena, Belo Horizonte, Caeté, Camanducaia (Monte Verde), Carandai, Carrancas, Catas Altas, Caxambu, Conceição do Mato Dentro, Congonhas, Conselheiro Lafaiete, Cristina, Diamantina, Itabira, Itabirito, Itamonte, Itanhandu, Lambari, Lima Duarte, Lima Duarte (Conceição de Ibitipoca), Maria da Fé, Mariana, Milho Verde, Nova Lima (Macacos), Ouro Preto, Passa Quatro, Poços de Caldas, Santana do Riacho, São Gonçalo do Rio das Pedras, São João Del Rei, São Lourenço, São Roque de Minas, Serro, Tiradentes, Uberaba, Uberlândia. O plano amostral para a quinta etapa da pesquisa (até o momento foram realizadas oito etapas) previa um total de 3.950 questionários, mas foi aplicado um total de 4.003 questionários, distribuídos em 2.299 questionários de Perfil aplicados (previstos 2.295) e 1.704 de Contagem (previstos 1.655). A razão do maior número de questionários aplicados foi uma estratégia de pesquisa de campo que investiu no aumento do número de questionários aplicados nos municípios onde o processo estava ocorrendo acima do que foi estimado, no intuito de compensar eventuais campos onde o volume de questionários ficasse abaixo do que havia sido estimado. Os questionários utilizados na pesquisa se prestam a objetivos diferentes. O de Perfil levanta mais informações sobre o turista, enquanto o de Contagem contém poucas perguntas e é aplicado em um município por cada Circuito, pois tem por objetivo facilitar a estimativa do total da movimentação de turistas no circuito. 29 Este último exemplo de pesquisa pode ser considerado como bastante trabalhoso para ser executado, tendo em vista a dificuldade de aplicação das entrevistas em todos os campos simultaneamente e também o alto custo financeiro, quando a região onde acontece a pesquisa é muito ampla. Distribuir os pesquisadores em todas as cidades e acompanhar os trabalhos em uma central de monitoramento, demanda certa qualificação de quem está à frente da coordenação da pesquisa. É imprescindível que se conheçam as características das regiões que compreendem a pesquisa, para que se possa, de antemão, evitar possíveis problemas na coleta dos dados. Quando pesquisadores, supervisores e coordenadores estão bem treinados, as probabilidades de problemas estruturais acontecerem são bem menores aumentando o sucesso do trabalho e a confiabilidade nos resultados da pesquisa. Técnicas de survey também podem ser aproveitadas para a confecção de bancos de dados de tipos variados. Diversas vezes, em pesquisas acadêmicas, realiza-se a coleta de informações sem se ter a preocupação de como será a confecção do banco de dados no momento da compilação dessas informações, principalmente quando se quer quantificar e qualificar algumas variáveis. Muitos pesquisadores acabam deixando de produzir resultados mais apurados em seus trabalhos por pecarem em ter pouco preparo para confeccionar uma ficha ou questionário adequados para a coleta de informações, e que sejam pensados, em princípio, de acordo com a estrutura do banco de dados a ser confeccionado16. Algumas informações coletadas acabam tendo uma análise pobre, estatisticamente falando, e outras nem se quer são aproveitadas. Podem-se evitar problemas dessa natureza quando se realiza um pré-teste da pesquisa e se tem significativo conhecimento prévio da estrutura e montagem do banco de dados, pois precauções como essas, contribuem para resultados mais apurados. Como vimos nos exemplos citados, a metodologia de survey pode ser utilizada para uma série iniciativas de pesquisas das mais variadas. Tal metodologia, neste sentido, é algo que apresenta uma lógica, tem regras, é coerente, mas também pode ser adaptada de acordo com a natureza do trabalho, pois suas técnicas contemplam diversas áreas do conhecimento. 16 É aconselhável, se possível, que se consulte qual o programa mais adequado para a análise e confecção do banco de dados da pesquisa, antes da coleta das informações. Um programa muito usado nas Ciências Sociais é o SPSS - Statistical Package for the Social Sciences. Pré-testes com fichas ou questionários também são aconselháveis, pois na maioria das vezes, eliminam uma série de problemas posteriores quando do término da pesquisa. Perde-se muito tempo quando se tem que reaplicar uma entrevista ou voltar a um arquivo para buscar uma informação mal coletada ou que passou despercebida. Para mais informações sobre pré-testes, elaboração de questionários e estudo piloto ver: BABBIE, Earl. Métodos de Pesquisa de Survey. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999, capítulo 12. Ver também: ALMEIDA, Carlos Alberto. Como são feitas as pesquisas eleitorais e de opinião. Rio de Janeiro: FGV, 2002, capítulo 3. Ver ainda: ZALLER, John R. The Nature and Origins of Mass Opinion. New York: Cambridge University Press, 1992. 30 Nas Ciências Humanas e Sociais o método é bem aceito por algumas áreas como a Sociologia e a Ciência Política, e não muito bem visto por outras. Ainda assim, deixar de lado uma ferramenta amplamente valiosa para a elaboração de trabalhos sociais e acadêmicos parece desperdiçar algo que pode auxiliar na compreensão de muitas lacunas. No capítulo seguinte, faremos uma análise das pesquisas realizadas durante os oito anos do Projeto Assessoria Popular em Mariana procurando explicar e exemplificar alguns resultados dessas pesquisas e como o projeto pode contribuir para o direcionamento de demandas sociais, tanto para o poder público, como também para a população em geral, além de reunir uma gama imensa de dados disponíveis para pesquisas. 31 III. O NEASPOC-UFOP E PROJETO ASSESSORIA POPULAR EM MARIANA Antes de discutirmos as questões referentes ao Projeto Assessoria Popular, se faz necessário que relatemos um pouco, ainda que de maneira introdutória, da história do Neaspoc-UFOP. Em princípio, partindo da iniciativa de dois professores do Departamento de História da UFOP, o núcleo surgiu em 1999 com uma dupla finalidade: 1. incentivar as abordagens ligadas à história comparada; 2. estimular a utilização de metodologia quantitativa e qualitativa na área das Ciências Humanas, especialmente na História, através de pesquisas que produzam um conhecimento específico. Além desse objetivo vinculado ao ensino e à pesquisa, foi proposto um perfil extensionista onde, através de pesquisas, se possam produzir um conhecimento qualificado acerca de quem são, o que pensam e o que querem as populações de Ouro Preto e de Mariana, que abrigam a UFOP. Nesse aspecto, pesquisas de professores e alunos dos mais variados departamentos da UFOP têm sido apoiados pela estrutura do Neaspoc. Já no ano 2000, O Neaspoc-UFOP acompanhou as eleições em Mariana e Ouro Preto, prosseguindo também nos anos de 2004 e 2008. O objetivo, de acordo com professores do núcleo, foi o de gerar um conhecimento de qualidade e independente sobre as tendências políticas organizadas que atuam junto às populações de Mariana e Ouro Preto. Como é de conhecimento geral, as coligações têm recursos para investir em pesquisas que orientem suas ações, algo que é extremamente pouco compartilhado com a população. Entretanto, o resultado dessas pesquisas só é divulgado de forma seletiva e parcial, criando desigualdades entre o nível de informação que têm os candidatos e os eleitores. Objetivando diminuir essa desigualdade, criou-se nos anos de 2000, 2004 e 2008 o projeto de acompanhamento das eleições municipais. Foram realizadas três pesquisas, em cada ano, em Mariana e Ouro Preto, com ampla divulgação dos resultados pela imprensa – TV local, Rádio, Jornal – bem como também pela internet, além de coletivas aberta ao público nas dependências da UFOP. Através desse tipo de ação, os eleitores de Mariana e Ouro Preto foram contemplados com mais um canal para orientar suas opções, cientes de que era pertencente a uma instituição pública, da qual muito se espera e muito pouco se conhece, por contraditório que possa parecer. 32 Ao longo desses mais de dez anos o Neaspoc-UFOP realizou dezenas de pesquisas de âmbito nacional, estadual e municipal. Já atuaram no núcleo centenas de alunos, de vários cursos e departamentos, especialmente dos cursos de História e Letras. Esta atividade garantiu oportunidades de qualificação para os alunos gerando informação original e isenta sobre diferentes comunidades, notadamente as de Mariana e Ouro Preto, que abrigam a UFOP. Destarte para o desenvolvimento de pesquisas regulares junto a estas populações desde sua fundação reunindo um valioso acervo que tem sido permanentemente utilizado tanto por pesquisadores quanto por membros externos à comunidade acadêmica. Atualmente, o Neaspoc-UFOP tem dado continuidade ao projeto Assessoria Popular, no qual realiza pesquisas na região de Ouro Preto e Mariana avaliando as características político, social e econômica da população, juntamente com temas que dizem respeito às questões que estão em evidência nos municípios e que são, ao nosso ver, pertinentes para serem analisadas. Outro projeto que tem apresentado resultados significativos tem sido a parceria com o Instituto Estrada Real (FIEMG), SETUR-MG, SEBRAE-MG e FGV-RJ para a realização de uma série de pesquisas sobre o turismo em algumas regiões turísticas e nos circuitos que integram o projeto Estrada Real, como relatado no capítulo anterior. Entre julho de 2006 e julho de 2008 foram executadas 8 pesquisas, cada uma envolvendo de 25 a 38 municípios de Minas Gerais e cerca de 80 alunos, professores e pesquisadores. Retomando a questão do Projeto Assessoria Popular, procuraremos evidenciar algumas questões que se repetiram ao longo de uma série de 30 pesquisas que foram realizadas entre 2001 e 2008 pelo Neaspoc-UFOP. Entretanto, nem todas as variáveis tiveram recorrência constante nas pesquisas, que hora abordavam uma gama de temas específicos que pudessem vir, ou não, a serem retomadas em fazes posteriores. Diante disso, especificaremos nas tabelas o total do número de casos ocorridos que se referem aos questionários aplicados com as respectivas variáveis. 33 III.1- METODOLOGIA EMPREGADA NAS PESQUISAS DO PROJETO ASSESSORIA POPULAR Como relatado e exemplificado no capítulo anterior, os surveys seguem uma metodologia que é empregada para uma série de demandas de pesquisas onde se deseja investigar questões das mais variadas. As pesquisas de opinião pública do Projeto Assessoria Popular são de caráter domiciliar ou de fluxo nos setores, e foram realizadas junto aos moradores do município de Mariana. O método utilizado para a seleção dos domicílios foi o arrolamento nos quarteirões de todos os setores censitários dos dez distritos que compõem o município, com saltos sistemáticos para efeito de sorteio. Para a coleta de dados, foi utilizado um questionário estruturado especialmente elaborado com base nos objetivos da pesquisa. As entrevistas de caráter pessoal e domiciliar foram realizadas por uma equipe de entrevistadores especialmente treinada para esse tipo de abordagem. A pessoa entrevistada no domicílio selecionado, ou abordada no setor censitário, foi algum morador com pelo menos 15 anos de idade e que morasse em Mariana. Após a coleta dos dados, foi realizada a codificação das perguntas para que os questionários fossem digitados, vindo em seguida a verificação da consistência dos mesmos. Encerrada a crítica eletrônica, os dados foram processados segundo um plano tabular previamente definido. Um ponto importante na execução das tabelas é a definição das variáveis que as compõem. Essas variáveis são muitas vezes sintéticas, resultando da combinação de mais de uma resposta do questionário. As pesquisas foram realizadas no município de Mariana (distrito-sede de Mariana e demais distritos), sendo o universo pesquisado a população que reside em setores censitários. A unidade básica da pesquisa é o domicílio, que segundo o IBGE, é o local de moradia estruturalmente independente, constituído por um ou mais cômodos, com entrada privativa nas quais vivem uma família, caracterizada como um conjunto de pessoas ligadas por laços de parentescos ou de dependência doméstica e que vivem no mesmo domicílio; pessoa que vive só; conjunto de no máximo cinco pessoas que vivem em domicílio particular sem estarem ligadas por laços de parentesco ou de dependência doméstica. Foram excluídos da pesquisa os domicílios considerados coletivos ou casas comerciais; instituições (igrejas, conventos, quartéis, hospitais, asilos, prisões, etc.); casas comerciais (lojas, padarias, hotéis, pensões, etc.); cortiços e casas de cômodos; república de estudantes, albergues estudantis e pensionatos. 34 As pesquisas basearam-se ainda em amostra representativa da população do município de Mariana, com cotas proporcionais de acordo com sexo, grupo de idade e setores censitários. As quotas de sexo e idade foram baseadas nos dados do Censo do IBGE, feito em 2000, no município de Mariana. Já o plano de amostragem das pesquisas usou o esquema clássico de desenhos autoponderados, com probabilidades de seleção das unidades amostrais proporcionais ao tamanho. O desenho da amostra para as áreas pesquisadas está baseado no planejamento amostral empregado no Censo 2000 do IBGE, onde cada um dos distritos do município está dividido em setores censitários. A amostra da pesquisa foi selecionada em estágio de sorteio de domicílios ou de pessoas nos setores, onde foram aplicadas as cotas de sexo e idade. O número total de entrevistas realizadas nas 30 pesquisas foi de 11383 respondentes, sendo o intervalo de confiança da amostra de 95% e a margem de erro de 5 pontos percentuais dos resultados para a amostra como um todo. Por fim, a área de aplicação das pesquisas compreendeu o Município sede de Mariana e os seguintes distritos: Bandeirantes, Cachoeira do Brumado, Camargos, Cláudio Manoel, Furquim, Monsenhor Horta, Padre Viegas, Passagem de Mariana e Santa Rita Durão. III.2- ANÁLISE DE VARIÁVEIS EMPREGADAS NAS PESQUISAS DO PROJETO ASSESSORIA POPULAR As 30 pesquisas realizadas de 2001 a 2008 na cidade de Mariana abordaram uma gama bastante significativa de questões que puderam ser consultadas junto à população. Cada pesquisa, além possuir questões padrão como sexo, renda, faixa instrução, escolaridade, abordou uma temática diferente que pode ser, ou não, repetida posteriormente em outras pesquisas. Para efeito de análise dos casos, e procurando estabelecer dados mais consistentes naquilo que convencionamos mensurar, optamos por selecionar as variáveis que se repetiram em maior número de recorrência. Estas dizem respeito aos dados da amostra, que são questões padrão, avaliação de problemas federal, estadual e municipal, e avaliação, também, de governos federal, estadual e municipal. Optamos ainda, trabalhar com avaliação da situação econômica e tendência de voto, pois nos pareceram variáveis interessantes para a composição do trabalho. Por fim, realizamos alguns cruzamentos que puderam nos relatar uma dimensão 35 mais precisa sobre a auto-identificação da cor de pele, faixa de renda e faixa de instrução dos Marianenses. Para efeito de estética e de melhor compreensão das questões, optamos por realizar a apresentação dos dados através de blocos para que o leitor possa ter uma melhor visualização dos mesmos. III.3- DADOS DA AMOSTRA Conforme a variável sexo e os dados da amostra das pesquisas, a distribuição dos sexos em Mariana revela uma proporção maior de mulheres. Das 11383 entrevistas, 5680 foram realizadas com homens e 5703 com mulheres, de acordo com a tabela abaixo. Sexo Sexo Masculino Feminino Total Casos 5680 % 49,9% 5703 50,1% 11383 100,0% Fonte: Neaspoc-UFOP Com relação à faixa etária dos Marianenses, os dados da amostra revelam uma maior proporção de pessoas entre 15 e 34 anos como o maior grupo da população, representando cerca de 54,4%. Já a população idosa, na casa dos 60 anos ou mais, compõe cerca de 9,7%. Esses dados indicam que a população de Mariana é ainda relativamente jovem. 36 Faixa Etária Faixa Etária 15 a 24 Casos 3327 % 29,2% 25 a 34 2874 25,2% 35 a 44 2164 19,0% 45 a 59 1914 16,8% 60 ou mais 1104 9,7% 11383 100,0% Total Fonte: Neaspoc-UFOP Já para a faixa de instrução, identificamos uma realidade preocupante junto à população de Mariana. Embora os índices de escolaridade da população brasileira serem historicamente baixos, mas terem passado por avanços significativos nos últimos anos, com um maior acesso da população às escolas, desde o ensino primário até o de nível superior, há entre os Marianenes um nível de escolaridade ainda considerado baixo. Apesar de 42,5% terem concluído ou não o 2º grau, outros 42,5% tem o 1º grau incompleto ou completo. Apenas 6% têm curso superior incompleto ou mais e 9% nunca foram à escola. Esses números podem refletir uma baixa qualificação dos moradores para as áreas do comércio e indústria, tendo a cidade que importar mão-de-obra para alguns segmentos. Faixa de Instrução Faixa de Instrução Casos 1019 % 9,0% Até 4ª Série incompleto e completa 1254 11,0% De 5ª a 8ª Série incompleto e completa 3589 31,5% 2º Grau incompleto e completo 4837 42,5% 679 6,0% NR 4 ,0% NS 1 ,0% 11383 100,0% Nunca foi à escola Superior incompleto ou mais Total Fonte: Neaspoc-UFOP Com relação ao aspecto religioso, os Marianenses de auto-identificam como sendo de maioria católica, chegando a somar cerca de 80,5% da população. Isso pode se explicar pelo 37 fato de Mariana, além de ter sido a primeira cidade de Minas Gerais, ter também sido sede do primeiro bispado da região do ouro ainda na primeira metade do século XVIII. Assim como ocorreu em outros países colonizados por Portugal e Espanha, a Igreja Católica fez parte da implementação do processo de colonização nessas nações, levando seus ideais religiosos para o Novo Mundo. Outros 11,3% se consideram evangélicos e apenas cerca de 0,8% tem outra religião, segundo a amostra. Religião Religião Casos 6113 % 80,5% Evangélica 861 11,3% Espírita 104 1,4% 60 ,8% Acredita em Deus mas não tem religião 354 4,7% Ateu/ não acredita em Deus/ Agnóstico 71 ,9% NR 19 ,3% NS 9 ,1% 7591 100,0% Católica Outra religião Total Fonte: Neaspoc-UFOP Sobre a questão da renda familiar, perguntou-se ao entrevistado a seguinte questão: “Somando o seu salário e outras rendas suas, com os salários e as rendas das pessoas que moram com o(a) Sr(a), de quanto foi aproximadamente a renda familiar em sua casa no mês passado?”. De acordo com as respostas, 43% da renda familiar dos Marianenses está na casa de 1 a 3 salários mínimos, ou quase a metade da população. Cerca de 15,8% das famílias recebem de 3 a 5 salários mínimos e 11% de 5 a 10. Apenas 4,4% das famílias têm renda acima de 10 salários mínimos. 38 Renda Familiar Grupo de Renda Casos 2017 % 17,7% Mais de 1 até 3 salários mínimos 4898 43,0% Mais de 3 até 5 salários mínimos 1796 15,8% Mais de 5 até 10 salários mínimos 1255 11,0% Mais de 10 até 20 salários mínimos 389 3,4% Acima de 20 salários mínimos 110 1,0% NR/NS 918 8,1% 11383 100,0% Até 1 salário mínimo Total Fonte: Neaspoc-UFOP Perguntou-se também, se ele realizava algum tipo de trabalho. Os que responderam sim foram enquadrados como os que fazem parte da população economicamente ativa. Destes, cerca de 49% são assalariados com ou sem carteira assinada. Em segundo estão os autônomos com 29,8%. Em terceiro os funcionários públicos com 13,6%. Os demais são profissionais liberais, empregadores, realizam outro tipo de atividade remunerada, ou não souberam responder. População Economicamente Ativa PEA (População Economicamente Ativa) Casos 2853 % 49,0% 1735 29,8% Funcionário público(a) 792 13,6% Profissional liberal 157 2,7% Empregador 111 1,9% Outros Assalariado(a) Autônomo 151 2,6% NR 25 ,4% NS 4 ,1% 5828 100,0% Total Fonte: Neaspoc-UFOP Para aqueles que responderam não realizar nenhum tipo de atividade remunerada, perguntou-se, então, qual era a sua ocupação, e os mesmos foram enquadrados como estando 39 fora do mercado de trabalho, ou que não fazem parte da população economicamente ativa. As donas de casa representam cerca de 30% desse universo, os estudantes 25,8% e os aposentados e pensionistas 24,5%. Já os desempregados somam 17,3%. Fora do Mercado de Trabalho Fora do Mercado de Trabalho Casos 1669 % 30,0% Estudante 1435 25,8% Aposentado(a) 1222 22,0% Está desempregado 960 17,3% Pensionista 139 2,5% Outros 109 2,0% NR 19 ,3% NS 2 ,0% 5555 100,0% Dona-de-casa Total Fonte: Neaspoc-UFOP Ainda em quase metade das pesquisas, perguntou-se ao entrevistado qual a cor de pele que ele se auto-identificava. Das categorias usadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), optou-se por considerar a escala “Branca, Parda, Preta, Indígena ou Amarela”. Segundo a amostra, 41,8% dos Marianenses se consideram parados. Já 28,4% se consideram brancos e 20,3% pretos. Apenas 6,3% se consideram indígena ou amarelo. O fato de 20,3% da população se considerar preta, pode estar ligado à questão de que boa parte dessas pessoas possivelmente serem descendentes de familiares negros, oriundos de fatores históricos da colonização da região do ouro. 40 Auto-identificação da Cor de Pele Cor de Pele Casos 2066 % 41,8% Branca 1400 28,4% Preta 1003 20,3% 309 6,3% NR 46 ,9% NS 114 2,3% 4938 100,0% Parda Índígena/Amarela Total Fonte: Neaspoc-UFOP Observando a auto identificação dos que se consideram pardos, optou-se por melhor mensurar a questão das respostas para o item. Em quatro pesquisas, além da pergunta tradicional sobre qual a cor que a pessoa se considera, foi feita uma investigação mais detalhada do processo de auto-reconhecimento da cor da pele. Como muitos, geralmente, preferem optar pela cor “parda”, rejeitando as opções mais extremadas (“branca” e “preta”), resolvemos perguntar aos que indicaram a cor parda se a cor deles seria “parda para branca”, “parda para preta” ou “parda mesmo”. A grande maioria preferiu se dividir nas opções “parda para branca” e “parda para preta”. Em seguida, somamos quem indicou “parda para branca” com os que haviam indicado a cor “branca” na pergunta anterior e criamos o índice “branca/parda branca”. Somamos também quem indicou “parda para preta” com os que haviam indicado a cor “preta” na pergunta anterior e criamos o índice “preta/parda preta”. Os que continuaram com a opção “parda” ficaram com essa cor mesmo. Auto-identificação da Cor de Pele Parda mais para branca ou parda mais para preta? Cor de Pele Casos Parda Parda mais para branca ou parda mais para preta? % 659 Casos 43,3% % Branca 448 29,5% Parda mais para branca Preta 293 19,3% Parda mais para preta 235 35,7% Indígena/Amarela 77 5,1% Parda 179 27,2% NR 13 ,9% NR 1 ,2% NS 31 2,0% NS Total Fonte: Neaspoc-UFOP 1521 100,0% Total 239 36,3% 5 ,8% 659 100,0% Fonte: Neaspoc-UFOP 41 A distribuição considerou que cerca de 45,2% se auto identificaram como sendo da cor “branca/parda branca”, 34,7% da cor “preta/parda preta”, e apenas 11,8% se consideraram como pardos. Índice de auto-identificação da cor da pele Índice de auto-identificação da cor de pele Casos 687 % 45,2% Preta mais parda-preta 528 34,7% Parda 179 11,8% 77 5,1% Branca mais parda-branca Indígena/amarela NR/NS Total 50 3,3% 1521 100,0% Fonte: Neaspoc-UFOP Essa mensuração mais detalhada da auto identificação da cor de pele, mostra que os entrevistados nessas quatro pesquisas se identificam mais na cor “branca/parda branca” enquanto que cerca de um terço se identifica na cor “preta/parda preta”. Esse resultado contesta a tendência de se somar os que se identificam na cor “parda” com os que se identificam na cor “preta”. Uma parcela significativa dos que se identificam na cor “parda” tendem a se ver mais como “brancos” do que como “pretos”. A percepção de cor da população nos mostra que a criação da categoria “negros”, com o somatório de “pretos” com “pardos”, apresenta-se como um equívoco. Fizemos também o cruzamento da auto identificação da cor de pele dos “pardos”, “pardos mais para brancos” e “pardos mais para pretos” pela faixa de instrução. Daqueles que se auto identificaram como pardos mais para brancos 57% possuem nível superior completo ou mais, enquanto que os pardos mais para pretos somam 26%, e os que continuaram na cor parda somam apenas 17%, dos que possuem nível superior ou mais. Com isso, podemos perceber que os “pardos mais para brancos” estão em maior número no ensino superior do que os “pardos” e “pardos mais para brancos”. 42 Auto-identificação de cor de pele por Faixa de Instrução Faixa de Instrução Parda mais para branca Parda mais para branca Parda mais para preta ou parda Parda mais para NS preta? NR Total Total Nunca foi à escola Até 4ª Série incompleto e completa De 5ª a 8ª Série incompleto e completa 2º Grau incompleto e completo Superior incompleto ou mais % % % % % % 33% 32% 34% 35% 57% 36% 33% 34% 38% 38% 26% 36% 33% 31% 28% 27% 17% 27% 0% 2% 1% 1% 0% 1% 0% 1% 0% 0% 0% 0% 100% 100% 100% 100% 100% 100% Fonte: Neaspoc-UFOP Fizemos ainda o cruzamento da auto identificação da cor de pele dos “pardos”, “pardos mais para brancos” e “pardos mais para pretos” pela faixa de renda. Percebemos que a renda dos “pardos mais para brancos” é maior em relação à dos “pardos mais para pretos” e “pardos”. Os “pardos mais para brancos”, na faixa de 3 a 10 salários mínimos, ganham quase o dobro do que os “pardos mais para pretos”, e na faixa de 10 a 20 salários mínimos esse número chega a quase três vezes mais. Auto-identificação de cor de pele por Faixa de Renda Grupo de Renda Parda mais para branca ou parda mais para preta? Total Até 1 salário mínimo Mais de 1 até 3 salários mínimos Mais de 3 até 5 salários mínimos Mais de 5 até 10 salários mínimos Mais de 10 até 20 salários mínimos Acima de 20 salários mínimos NR/NS % % % % % % % % Parda mais para branca 28% 32% 46% 45% 74% 50% 36% 36% Parda mais para preta 45% 39% 22% 26% 26% 33% 42% 36% Parda 26% 29% 32% 27% 0% 17% 23% 27% NS 2% 1% 0% 2% 0% 0% 0% 1% NR 0% 0% 0% 0% 0% 0% 0% 0% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% Total Fonte: Neaspoc-UFOP Esses dados reforçam a hipótese de que aqueles que se auto identificam como pardos mais para brancos tem melhores condições de escolaridade e renda e, conseqüentemente, de nível social, do que aqueles que se auto identificam como pardos mais para pretos. 43 Optou-se também por fazer um cruzamento da auto identificação da cor de pele pela faixa de renda familiar do Marianense. Analisando a maior faixa de renda do Marianense, na casa de 1 a 3 salários mínimos, cerca de 44% dos pardos estão nesta faixa, em quanto que os pretos somam apenas 21%. Os brancos são os que mais concentram a renda de 10 a 20 salários mínimos, pois representam a fatia de 42,%, enquanto que os negros na mesma faixa de renda detêm apenas 15%. Auto-identificação de cor de pele por Faixa de Renda Grupo de Renda Cor de Pele Total Até 1 salário mínimo Mais de 1 até 3 salários mínimos Mais de 3 até 5 salários mínimos Mais de 5 até 10 salários mínimos Mais de 10 até 20 salários mínimos Acima de 20 salários mínimos NR/NS % % % % % % % % Parda 41% 44% 43% 40% 35% 32% 35% 42% Branca 21% 26% 32% 40% 42% 39% 31% 28% Preta 30% 21% 16% 13% 15% 10% 18% 20% Índígena/Amarela 5% 7% 6% 5% 5% 12% 7% 6% NS 3% 2% 2% 1% 2% 7% 5% 2% NR 1% 1% 1% 0% 1% 0% 3% 1% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% Total Fonte: Neaspoc-UFOP Realizamos ainda o cruzamento da auto identificação da cor de pele pela faixa de instrução dos entrevistados. Dos que tem o 2º grau incompleto e completo, 42% são pardos e apenas 19% são negros. Já aqueles que têm o ensino superior incompleto ou mais, 44% são brancos, 39% são pardos e apenas 12% são negros. Se observarmos as proporções de escolaridade, veremos que os brancos têm uma tendência de crescimento do nível escolar de acordo com cada grupo de série analisada. Com os negros, porém, acontece o inverso. A proporção é maior para aqueles que nunca foram à escola e vai decaindo ate chegar ao nível superior com apenas 12%. Os pardos se mantêm numa proporção relativamente estável, assim como os indígenas/amarelos, de acordo com a tabela abaixo. 44 Auto-identificação de cor de pele por Faixa de Instrução Faixa de Instrução Nunca foi à escola % Cor de Pele Até 4ª Série De 5ª a 8ª Série incompleto incompleto e e completa completa % % Total 2º Grau incompleto e completo Superior incompleto ou mais NR/NS % % % Parda 44% 42% 43% 42% 39% Branca 21% 26% 23% 31% Preta 25% 23% 23% 19% Índígena/Amarela 5% 4% 8% NS 4% 3% 3% NR Total % 25% 42% 44% 0% 28% 12% 50% 20% 7% 4% 25% 6% 2% 1% 0% 2% 2% 2% 1% 1% 0% 0% 1% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% Fonte: Neaspoc-UFOP III.4- AVALIAÇÃO DE PROBLEMAS Na maioria das pesquisas realizadas pelo Projeto Assessoria Popular, uma das perguntas constantes dizia respeito sobre a percepção dos Marianenses quanto ao que eles consideravam como o principal problema do Brasil, de Minas Gerais e de Mariana. Como principal problema do Brasil, a maior recorrência de casos foi a questão do desemprego, com 34%. O segundo maior problema apontado diz respeito a violência/drogas, com 21,3%. Já a fome/pobreza, ficou caracterizada como terceiro maior problema, somando cerca de 10,1% dos casos. 45 Maior problema de Brasil Maior problema do Brasil Casos 3352 % 34,0% 2103 21,3% Fome/ pobreza 997 10,1% Muitos 639 6,5% Corrupção 556 5,6% Política 382 3,9% Saúde 363 3,7% Educação 316 3,2% Economia 260 2,6% Administração 241 2,4% Infra-estrutura 21 ,2% Desemprego Violência/ drogas Outros 333 3,4% NR 51 ,5% NS 237 2,4% 9851 100,0% Total Fonte: Neaspoc-UFOP Com relação ao maior problema de Minas Gerais, os Marianenses também elegeram o desemprego em primeiro lugar, com 33,2% dos casos. Em segundo, também ficou a questão da violência/drogas, somando 19,6% dos casos. Já em terceiro lugar ficou a questão da saúde, como um dos maiores problemas de Minas Gerais. 46 Maior problema de Minas Gerais Maior problema de Minas Gerais Casos 3263 % 33,2% 1924 19,6% Saúde 734 7,5% Fome/ pobreza 570 5,8% Muitos 513 5,2% Educação 395 4,0% Política 313 3,2% Administração 313 3,2% Corrupção 226 2,3% Economia 141 1,4% Infra-estrutura 128 1,3% Outros 443 4,5% NR 122 1,2% NS 730 7,4% 9815 100,0% Desemprego Violência/ drogas Total Fonte: Neaspoc-UFOP Agora em relação ao maior problema de Mariana, o histórico das pesquisas mostrou que os maiores índices de ocorrência foram bastante parecidos com o dos maiores problemas de Minas Gerais, porém com algumas variações de porcentagem. O desemprego, que aparece em primeiro, soma cerca de 24,9% de maior problema da cidade, um nível significativamente menor, se comparado com os 34,0% de maior problema do Brasil e os 33,2% de maior problema de Minas Gerais. O segundo maior problema, violência/drogas, com 22,8%, nos chama a atenção, pois está acima do apontado para o Brasil e para Minas Gerais e pode ser um indicador de que há problemas sociais para serem mais bem acompanhados e combatidos pelas autoridades. Em terceiro maior caso de recorrência ficou a questão da saúde, com 8,8%. Os demais casos citados envolvem problemas dos mais diversos, como mostra a tabela abaixo. 47 Maior problema de Mariana Maior problema de Mariana Casos 2832 % 24,9% Violência/ drogas 2596 22,8% Saúde 1004 8,8% Infra-estrutura 593 5,2% Muitos 523 4,6% Política 496 4,4% Administração 496 4,4% Educação 293 2,6% Fome/ pobreza 237 2,1% Água 225 2,0% Corrupção 139 1,2% Desemprego Economia 85 ,7% Outros 850 7,5% NR 206 1,8% NS 808 7,1% 11383 100,0% Total Fonte: Neaspoc-UFOP A fim de termos uma dimensão mais apurada acerca da evolução e oscilação dos maiores problemas de Mariana apontados nas pesquisas, decidimos construir um gráfico que nos desse uma visão mais dinâmica, ou longitudinal. Percebemos que entre os anos de 2001 a 2004 o desemprego foi o maior vilão dos Marianenses, variando de 31% a 34,5%, como sendo o maior problema apontado e caindo significativamente nos anos seguintes. A partir de 2005 esse dado se inverte passando a ser a questão da violência/ drogas o maior problema, variando até 2007 na casa de 29,1% a 33,7% e chegando em 2008 com um patamar menor, 19,8%, mas sendo ainda um dos maiores problemas considerado pelos Marianenses. A queda do desemprego, como sendo um dos maiores problemas de Mariana, pode estar atrelada a uma onda de crescimento econômico pela qual passou a região com diminuição do número de desempregados impulsionados pelos significativos índices positivos de emprego no Brasil e crescimento da economia nacional entre os anos de 2005 a 2008. Outro dado que merece destaque é a questão da saúde. Apesar de ter variado na casa de 7,6% e 5,4% entre 2001 e 2004 e ter mantido um patamar baixo de casos, a partir de 2005 esse número de reclamações 48 sofre um aumento considerável, chegando em 2008 quase como o maior problema identificado pelos Marianenses, com 19,6%. III.5- AVALIAÇÃO DE GOVERNOS Nos primeiros dois anos do Projeto Assessoria Popular, o presidente do Brasil na época era Fernando Henrique Cardoso. Exercendo o primeiro mandato de 1995 a 1998 e se reelegendo para mais quatro anos de governo, Fernando Henrique terminou o seu segundo mandato de governo no final de 2002. De acordo com os dados mensurados nas pesquisas, a avaliação do Marianense foi pouco positiva frente ao governo de FHC, nesses últimos dois anos de governo. Apenas 26,7% dos Marianenses avaliaram o governo como ótimo e bom. Cerca de 18,9% acharam que o governo foi regular e 52% avaliaram como ruim e péssimo, um dado bastante preocupante para a figura de um chefe de Estado. Vale ressaltar que os últimos dois anos do governo de FHC (2001 e 2002) foram marcados por crise econômica e problemas de maior expressão no Brasil, o que pode ter certamente afetado a popularidade do presidente. 49 Avaliação do Governo Fernando Henrique Cardoso Avaliação do governo de FHC Casos Ótimo 55 % 1,8% Bom 754 24,9% Regular 572 18,9% Ruim 554 18,3% 1021 33,7% NR 29 1,0% NS 47 1,6% 3032 100,0% Péssimo Total Fonte: Neaspoc-UFOP Nas eleições presidenciais de 2002 o eleito para o mandato de mais quatro anos na cadeira de presidente da república foi Luiz Inácio Lula da Silva. Este, ao contrário de Fernando Henrique Cardoso, teve uma popularidade mais elevada, sendo bem avaliado pela população no seu primeiro mandato de governo (2003 a 2006) e também nos anos seguinte ao seu segundo mandato. De 2003 a 2007 cerca de 55,2% dos Marianenses avaliaram o governo Lula como ótimo e bom, em quanto que 26,6% acharam o seu governo como regular, e apenas 15,6 avaliaram como ruim e péssimo. Avaliação do Governo Lula Avaliação do Governo Lula Casos 464 % 6,4% Bom 3509 48,8% Regular 1915 26,6% Ruim 626 8,7% Péssimo 498 6,9% NR 30 ,4% NS 153 2,1% 7195 100,0% Ótimo Total Fonte: Neaspoc-UFOP No gráfico abaixo podemos acompanhar a evolução dos Índices de Avaliação do Governo do Presidente Lula. Já em 2003, no início do seu primeiro mandato, o governo Lula 50 começou com um índice de avaliação positiva para o quesito ótimo e bom com 58%. Manteve uma média de crescimento até o final do ano quando no início de 2004, o índice de ótimo e bom caiu para 46%. A partir de julho do mesmo ano ouve uma retomada no índice voltando a sofrer uma queda significativa somente em outubro de 2005, certamente, efeito das denúncias do esquema conhecido como “Mensalão” que afetou a maioria da cúpula do governo federal e de vários partidos da base aliada. Em dezembro de 2005 Lula retoma o crescimento de popularidade, chegando a 68% de avaliação ótima e boa em dezembro de 2006. Esse índice se manteve estável com pequenas oscilações até final de 2007, última pesquisa do Projeto Assessoria Popular, a qual se avaliou o índice de governo do presidente Lula. A partir do ano de 2005, decidiu-se então mensurar melhor a questão do item regular na variável sobre avaliação de governo. Como nesta pergunta 30% dos respondentes avaliaram o governo Lula como regular, perguntamos a estes se o regular era “regularpositivo”, “regular-negativo” ou “regular-regular, nem positivo nem negativo”. Com as respostas pudemos construir o índice de aprovação ao presidente Lula. Somamos os índices de ótimo e bom com o regular-positivo e obtivemos 64,1%, significando o índice de 51 aprovação. Somamos em seguida aos índices de ruim e péssimo e o regular-negativo e obtivemos 26,2%, significando o índice de desaprovação. Os que se mantiveram no regularregular viraram o índice dos que não aprovam nem desaprovam, que foi de 8,6%, conforme mostra a tabela em seguida. Índice de Aprovação do Governo Lula Índice de Aprovação do Lula Casos 2669 % 64,1% 1089 26,2% 357 8,6% NR 21 ,5% NS 28 ,7% 4164 100,0% Aprova Desaprova Não aprova e nem desaprova Total Fonte: Neaspoc-UFOP No gráfico abaixo, podemos observar melhor a evolução dos Índices de Avaliação Positiva e Negativa do Governo Lula. Já no início de 2005, primeiro ano da mensuração do índice, o governo Lula começa com uma avaliação positiva na casa de 62%. Em outubro do mesmo ano o índice sofre uma queda significativa para 45% e mantém a retomada do crescimento no final do ano. A avaliação positiva chega ao ápice em novembro de 2006 batendo na casa de 81%. No ano seguinte há uma pequena queda, mas o índice ainda se mantém em patamares elevados. 52 Feita a análise da avaliação do governo federal, passemos agora para a do governo estadual. Assim como se avaliou o governo federal nos dois primeiros anos de do Projeto Assessoria Popular, aconteceu o mesmo para o governo do estado de Minas Gerais. O governador da época era o ex-presidente Itamar Franco, eleito para governar Minas entre os anos de 1999 e 2002. O seu governo foi marcado por crises econômicas e por uma série de problemas na administração. Ao contrário dos índices de baixa avaliação do governo FHC, o de Itamar Franco foi mais bem avaliado pelos Marianenses. Cerca de 47,8% avaliaram o governo como ótimo e bom, 21,5% acharam que foi regular e 23,8% ruim ou péssimo, de acordo com resultados das pesquisas. 53 Avaliação do Governo Itamar Franco Avaliação do governo de Itamar Franco Casos 130 % 4,3% 1320 43,5% Regular 651 21,5% Ruim 419 13,8% Péssimo 316 10,4% NR 34 1,1% NS 162 5,3% 3032 100,0% Ótimo Bom Total Fonte: Neaspoc-UFOP Assim como o ocorrido para presidente, nas eleições de 2002 o eleito para o mandato de mais quatro anos na cadeira de governador estadual foi o então candidato Aécio Neves. Este teve uma popularidade mais elevada, sendo bem avaliado pela população no seu primeiro mandato de governo (2003 a 2006) e também nos anos seguinte ao seu segundo mandato. Entre os anos de 2003 e 2007, 61,5% avaliaram o governo de Aécio como ótimo e bom. Já 18,5% acharam que o seu governo foi regular e apenas 11,3% ruim ou péssimo. Um índice de rejeição bastante baixo se comparado com outros governos. Apenas 8,7 não responderam ou não souberam responder. Avaliação do Governo Aécio Neves Avaliação do Governo Aécio Neves Casos 640 % 8,9% Bom 3785 52,6% Regular 1332 18,5% Ruim 520 7,2% Péssimo 298 4,1% NR 47 ,7% NS 572 8,0% 7194 100,0% Ótimo Total Fonte: Neaspoc-UFOP 54 No gráfico abaixo podemos acompanhar a evolução dos Índices de Avaliação do Governo de Aécio Neves. Já no início de seu primeiro mandato, Aécio começa com um índice de avaliação ótimo e bom na casa dos 50% mantendo certa estabilidade. A partir de 2004 a sua avaliação segue em ritmo positivo de crescimento chegando a junho de 2005 com 70% de avaliação de ótimo e bom. Em outubro do mesmo há uma queda significativa na avaliação ótima e boa, provavelmente reflexo da crise do “mensalão” pela qual passou o governo federal e que se refletiu nos demais governos. Em momentos de crise política nacional como este, a opinião pública tende a ver com olhos negativos a figura dos políticos, pois uma imagem negativa como a que se teve do congresso nacional pode contaminar também as esferas estadual e municipal de governos, levando os índices de popularidade para níveis menores. A nosso ver, parece uma forma da população reagir às denúncias de corrupção que tanto assombram a imagem dos governantes como provocam na opinião pública uma visão negativa da política no Brasil, que constantemente é marcada por escândalos e denúncias de corrupção. Ainda assim, a partir de dezembro de 2005, Aécio Neves retoma o crescimento de avaliação ótima e boa do seu governo chegando a certa estabilidade na casa dos 70% até o final de 2007. 55 Do ano de 2005 em diante, decidiu-se então mensurar melhor a questão do item regular na variável sobre avaliação de governo. Como nesta pergunta 15% dos respondentes avaliaram o governo Aécio Neves como regular, perguntamos a estes se o regular era “regular-positivo”, “regular-negativo” ou “regular-regular, nem positivo nem negativo”. Com as respostas pudemos construir o índice de aprovação ao governador Aécio Neves. Somamos os índices de ótimo e bom com o regular-positivo e obtivemos 74,8%, significando o índice de aprovação. Somamos em seguida aos índices de ruim e péssimo e o regular-negativo e obtivemos 14,4%, significando o índice de desaprovação. Os que se mantiveram no regularregular viraram o índice dos que não aprovam nem desaprovam, que foi de 5,1%, conforme mostra a tabela seguinte. Índice de Aprovação do Governo Aécio Neves Índice de Aprovação do Aécio Neves Casos 3113 % 74,8% Desaprova 598 14,4% Não aprova e nem desaprova 212 5,1% NR 39 ,9% NS 201 4,8% 4163 100,0% Aprova Total Fonte: Neaspoc-UFOP No gráfico seguinte, podemos ter uma percepção melhor acerca da evolução dos Índices de Avaliação Positiva e Negativa do Governo Aécio Neves. Percebemos que os índices de avaliação do governo Aécio Neves se mantiveram com variações na casa dos 70% a 80% exceto em outubro de 2005, onde o patamar positivo baixou para 64% provavelmente sofrendo efeito da crise do “mensalão” no governo federal. 56 Feita a análise da avaliação do governo estadual, passemos agora para a do governo municipal. Esta avaliação, em específico, pode mensurar a trajetória dos dois mandados consecutivos de governo do então ex-prefeito de Mariana Celso Cota. Eleito para o primeiro mandato de 2001 a 2004, Celso Cota se reelegeu para mais quatro anos de governo terminando a sua administração no final de 2008. O seu governo foi marcado por uma série de disputas políticas que envolveram personalidades fortes no contexto político municipal, e também passou por um período de crescimento econômico significativo para o desenvolvimento do município de Mariana. Toda a trajetória política dos dois mandatos do ex-prefeito Celso Cota pode ser avaliada pela população de Mariana nas trinta pesquisas do Projeto Assessoria Popular realizadas até o final de 2008. De acordo com os dados apurados, cerca de 64% avaliaram o governo de Celso Cota como ótimo e bom. Já 17,3% acharam que o seu governo foi regular e 14,9% avaliaram como ruim ou péssimo, um índice de rejeição significativamente baixo. 57 Avaliação do Governo Celso Cota Avaliação do governo de Celso Cota Casos 1635 % 14,4% Bom 5650 49,6% Regular 1966 17,3% Ruim 880 7,7% Péssimo 815 7,2% NR 83 ,7% NS 354 3,1% 11383 100,0% Ótimo Total Fonte: Neaspoc-UFOP No gráfico abaixo podemos acompanhar a evolução dos Índices de Avaliação do Governo Celso Cota. Percebemos que no início do seu primeiro mandato os índices de ótimo e bom seguiram em ritmo de crescimento chegando a 75% em setembro de 2002. Estes se mantiveram na casa dos 60% e 70% até dezembro de 2004, final de seu primeiro mandato. A partir de 2005, já no seu segundo mandato, os índices de popularidade sofreram uma queda significativa, em especial no mês de abril, onde a avaliação do item ruim e péssimo chegou a 34%, o seu maior nível negativo nos oito anos de governo. Isso talvez se explique por uma eventualidade política ocorrida no período ou por certa incerteza da população acerca de como seria o segundo mandato de Celso Cota. Entretanto, a partir de junho do mesmo ano, os índices de ótimo e bom retomam o patamar da casa dos 60% chegando a 72% em dezembro de 2007 e se mantendo estável até o final de 2008. Se formos estabelecer uma comparação entre os índices de popularidade do governo, veremos que a aprovação foi maior no primeiro do que no segundo mandato. Todavia, Celso Cota termina o seu segundo mandato com uma avaliação significativamente positiva pela população de Mariana. 58 Como nas avaliações dos governos federal e estadual, a partir de 2005 decidiu-se então mensurar melhor a questão do item regular na variável sobre avaliação de governo. Como nesta pergunta 21,4% dos respondentes avaliaram o governo Celso Cota como regular, perguntamos a estes se o regular era “regular-positivo”, “regular-negativo” ou “regularregular, nem positivo nem negativo”. Com as respostas pudemos construir o índice de aprovação ao prefeito Celso Cota. Somamos os índices de ótimo e bom com o regularpositivo e obtivemos 69,6%, significando o índice de aprovação. Somamos em seguida aos índices de ruim e péssimo e o regular-negativo e obtivemos 22%, significando o índice de desaprovação. Os que se mantiveram no regular-regular viraram o índice dos que não aprovam nem desaprovam, que foi de 5,6%, de acordo com a tabela abaixo. 59 Índice de Aprovação do Governo Celso Cota Índice de Aprovação do Celso Cota Casos 3701 % 69,6% 1168 22,0% 300 5,6% NR 54 1,0% NS 97 1,8% 5320 100,0% Aprova Desaprova Não aprova e nem desaprova Total Fonte: Neaspoc-UFOP No gráfico seguinte, podemos ter uma percepção melhor acerca da evolução dos Índices de Avaliação Positiva e Negativa do Prefeito Celso Cota. Podemos perceber que já em julho de 2005 a avaliação positiva do prefeito Celso Cota beirou a casa dos 70%, chegando a este índice no final do mesmo ano e no início do seguinte. Houve uma pequena queda no índice de popularidade em março de 2007, porém o crescimento foi retomado em outubro do mesmo ano e prosseguiu na casa dos 70% até o final do seu segundo mandato em 2008. 60 A avaliação positiva do prefeito Celso Cota certamente contribuiu para que nas eleições de 2008 ele tivesse um papel decisivo na sucessão do governo municipal. Índices de popularidade significativos somados a uma boa articulação política e um candidato da situação bem preparado politicamente contribuem em muito para se projetar um sucessor que leve a bandeira do governo em exercício. Durante as últimas três pesquisas do Projeto Assessoria Popular em 2008, no período no período das eleições municipais, a fim de avaliar o efeito dos índices de aprovação e desaprovação à administração municipal, perguntou-se aos moradores de Mariana a sua disposição de votar em candidaturas da situação ou da oposição. Cerca de 61,5% dos Marianenses gostariam de votar em uma candidatura que representa-se a continuidade da atual administração, enquanto que 26,2% gostariam de votar em uma candidatura que represente-se a oposição a atual administração. Tendência Votar na Continuidade ou na Oposição Tendência de votar na continuidade ou na oposição Casos 711 % 61,5% 303 26,2% NR 58 5,0% NS 84 7,3% 1156 100,0% Continuidade Oposição Total Fonte: Neaspoc-UFOP Para efeito de comparação, essa tendência de votar em uma candidatura que representa-se a continuidade da atual administração foi confirmada nas urnas, pois a candidato da situação Roque Camello venceu as eleições para prefeito de Mariana. III.6- AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO ECONÔMICA Avaliar a situação econômica do país e da população é um fator de grande peso para acompanhar o desenvolvimento econômico tanto do país como da própria sociedade. Diversas pesquisas são realizadas mensalmente no Brasil para se acompanhar hábitos de consumo interno da população e balanços de empresas são constantemente divulgados para se ter uma 61 idéia de aumento ou retração na economia. Pensando na situação econômica do Brasil, de Mariana e na Pessoal, perguntou-se ao Marianense em oito das trinta pesquisas realizadas durante o Projeto Assessoria Popular, qual era a sua expectativa quanto a essas três esferas da economia. Os índices ficaram relativamente parecidos e aparentam ter configurado uma situação de otimismo do Marianense com o futuro crescimento da economia e também das expectativas pessoais. Com relação à situação econômica do Brasil 41,8% dos Marianenses afirmaram que ela iria melhorar. Cerca de 29,6% disseram que ira piorar e 22,5% que ficaria no mesmo patamar. Avaliação da Situação Econômica do Brasil Avaliação da situação econômica do Brasil Casos 1010 % 29,6% Não mudará 766 22,5% Vai melhorar Vai piorar 1427 41,8% NR 25 ,7% NS 184 5,4% 3412 100,0% Total Fonte: Neaspoc-UFOP Já com relação à situação econômica de Mariana houve uma expectativa maior, pois 46,2% afirmaram que a situação econômica iria melhorar. Já 23,6% afirmaram que iria piorar e outros 23,6% disseram que não mudaria. Avaliação da Situação Econômica de Mariana Avaliação da situação econômica de Mariana Casos 805 % 23,6% Não mudará 805 23,6% Vai melhorar 1578 46,2% NR 29 ,8% NS 195 5,7% 3412 100,0% Vai piorar Total Fonte: Neaspoc-UFOP 62 Agora com relação à situação econômica pessoal os índices são bem parecidos com o gráfico acima. Cerca de 44,7% dos Marianenses afirmaram que a situação econômica iria melhorar, em quanto que 26,2% afirmaram que iria piorar. Já 24,9% afirmaram que não mudaria e 4,3% não responderam ou não souberam responder, conforme a tabela abaixo. Avaliação da Situação Econômica Pessoal Avaliação da situação econômica pessoal Casos 893 % 26,2% Não mudará 848 24,9% Vai melhorar 1524 44,7% NR 13 ,4% NS 134 3,9% 3412 100,0% Vai piorar Total Fonte: Neaspoc-UFOP 63 IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS As pesquisas de opinião levantam dados extremamente importantes para a compreensão de alguns aspectos investigados junto à população - principalmente quando são de interesse popular - e podem contribuir para ações mais efetivas na melhora e elaboração de projetos sociais. Os dados que analisamos na série de oito anos de pesquisa em Mariana nos mostraram um pouco do olhar do Marianense sobre questões de caráter social, político e econômico que estão presentes no cotidiano. O nosso objetivo foi desenvolver um estudo introdutório que discutiu a questão de alguns aspectos da opinião pública, a metodologia de pesquisa utilizada pelo Neaspoc-UFOP e a análise dos principais temas que foram abordados nas pesquisas do Projeto Assessoria Popular. A primeira discussão, acerca de aspectos da opinião pública, desde o período antigo até o contemporâneo, nos deu uma visão mais apurada sobre o debate estabelecido ao longo dos séculos pelo qual passou e ainda passa a questão da opinião pública. No mundo antigo percebemos que a população para expressar seus ideais, seus questionamentos, suas reivindicações e seus interesses tinha como um canal de reivindicação organizar-se no âmbito da coletividade - o que ainda é bastante presente -, a fim de atuar enquanto agentes coletivos nas esferas do Estado e conseguir benefícios de cunho social, comprovando que a ação política coletiva pode promover bons resultados e que a opinião pública já se fazia presente, ainda nessa época. No mundo moderno o debate histórico sobre a opinião pública pautou-se mais na questão conceitual. Desde Maquiavel, passando por Hobbes, Locke, Rousseau, Kant, entre outros, não se chegou claramente a esboçar um conceito de opinião pública aceitável pela maior parte desses pensadores, mas ficou evidente a importância e o poder que tem a opinião pública quando das suas ações, pois nessa época, houve uma maior participação dos agentes políticos no processo de definições de mandatos dos governos nos Estados, ainda que não culminasse efetivamente em uma democracia tal qual como a conhecemos. No mundo contemporâneo o debate relativo ao papel da opinião pública ainda continua, mas é bem tímido frente a temas considerados mais relevantes e termo passou a não circular somente no âmbito acadêmico, mas também a ser mais bem conhecido pelas camadas populares a partir do final da década de 80, no Brasil, com o advento das pesquisas de opinião pública. Trabalhando com a técnica das pesquisas de survey, através da análise de extratos da população que garantiu uma representação abrangente de todo o corpo populacional investigado, as pesquisas do Projeto Assessoria Popular levantaram dados importantes da 64 população de Mariana e comprovaram algumas hipóteses por nós levantadas. Uma delas diz respeito à avaliação positiva dos governos federal, estadual e municipal. Desde 2003 até 2008 a avaliação positiva do Marianense frente aos dois mandatos (ainda incompletos) do presidente Lula e do governador Aécio Neves acompanharam os índices de pesquisas nacionais e estaduais realizadas por outras instituições. A questão da administração municipal do ex-prefeito Celso Cota pode ser acompanha em toda sua trajetória, pelas pesquisas, e ficou evidente que a população de Mariana avaliou positivamente os dois mandados de governo. A nossa visão acerca desse fato é que uma combinação de fatores sociais pode levar essas administrações aos índices de avaliação tão significativos como esses. O Brasil, desde o primeiro mandato do presidente Lula, passou por uma guinada de crescimento econômico, diminuição do desemprego e investimentos fortes nas áreas sociais. A trajetória histórica do presidente Lula e do governador Aécio Neves somados a uma boa administração em áreas estratégicas, bem como a questão da boa fase da economia, talvez possa ser uma explicação para essas avaliações positivas. No caso do ex-prefeito Celso Cota podemos também acrescentar os pontos acima destacados como fatores que contribuíram para uma avaliação significativamente positiva dos seus dois governos. A questão dos problemas sociais apontados por nós, através das pesquisas, deixa evidente que Mariana ainda precisa melhorar bastante em índices de escolaridade e distribuição de renda. Como apontado no terceiro capítulo 31,5% dos entrevistados tem somente da 5º a 8º séries do primeiro grau completa e incompleta, ou cerca de quase um terço da população entrevistada. Na questão da renda familiar 43% das famílias que foram entrevistadas recebem cerca de 1 a 3 salários mínimos. Já no quesito dos maiores problemas apontados pelos Marianenses, a questão do desemprego que até 2005 era um dos fatos mais preocupantes, sofreu uma queda significativa, e algo que passou a preocupar mais os mesmos foi a questão da violência/ drogas e a saúde. Sinal de que as administrações competentes têm problemas evidentes para serem combatidos e reparados. Com esse estudo, chegamos à idéia de que trabalhos de pesquisas como esses ajudam em muito as administrações a balizarem políticas sociais de governos para a efetivação mais direta da resolução de problemas que se fazem mais presentes junto às populações. A nosso ver, o debate acerca da definição de políticas públicas que realmente atendam aos anseios da população se caracteriza cada vez mais como algo necessário para a consolidação do regime democrático. As pesquisas de Opinião Pública, quando bem formuladas e bem executadas, podem trazer muitos aspectos relevantes e de grande contribuição para essas ações. Quando a 65 opinião pública é ouvida e ações governamentais são efetivadas em prol de melhorias sociais para as populações, governo e sociedade são vitoriosos. 66 FONTES DE DADOS EMPÍRICOS NEASPO-UFOP – Banco eletrônico de relatórios de pesquisa de opinião pública municipal do Núcleo de Estudos Aplicados e Sociopolíticos Comparados da Universidade Federal de Ouro Preto. LIVROS E ARTIGOS CITADOS E/OU CONSULTADOS ALMEIDA, Carlos Alberto. Como são feitas as pesquisas eleitorais e de opinião. Rio de Janeiro: FGV, 2002. ALMEIDA, Jorge. Pesquisas de opinião e cenário de representação da política. 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