ESTÁTUAS DE POETAS QUE AMARAM O RECIFE
Rua da Aurora – Rua do Sol – Praça Maciel
Pinheiro – Praça da Independência
Declarar o amor pela cidade e seus recantos foi a
inspiração de poetas como Manuel Bandeira, que em
seu poema Evocação do Recife fala de locais como a
Rua do Sol, a Rua da Aurora e o Rio Capibaribe. Para
homenagear aqueles que enaltecem a Veneza Brasileira,
a Prefeitura do Recife, em parceria com o Banco do
Brasil e a Emlurb, lançou o projeto Circuito da Poesia Cantos do Recife.
Dividido em duas etapas, o Circuito da Poesia instalará
estátuas de concreto em tamanho real de dez artistas
em locais estratégicos. Na primeira fase, os
homenageados serão João Cabral de Melo Neto, Capiba,
Carlos Pena Filho, Manuel Bandeira e Clarice Lispector.
Questionado sobre o critério utilizado para a seleção
dos poetas, o prefeito da cidade do Recife, João Paulo,
lembrou da importância dos dez escolhidos. “Recife é
uma cidade com inúmeros artistas. Porém, esses dez
dão um panorama geral da cultura da nossa cidade”.
Além dos cinco já citados, serão homenageados na
segunda fase Antônio Maria, Chico Science, Luiz
Gonzaga, Ascenso Ferreira e Solano Trindade.
A escolha dos locais onde as esculturas serão colocadas
foi especialmente pensada para que, assim, tivesse
alguma relação afetiva com o artista em questão. No
caso de Clarice Lispector, por exemplo, a estátua será
instalada na Praça Maciel Pinheiro, onde a poetisa
passou parte de sua infância. Uma outra preocupação é
no que se refere à interatividade das obras com o
público. “Cada poeta será representado de maneira que
o visitante possa interagir com a estátua. João Cabral
de Melo Neto estará sentado em um banco de praça,
assim, quem quiser poderá sentar ao seu lado, tirar
fotos ou até mesmo conversar", disse Demétrio
Albuquerque, o escultor responsável pela execução das
esculturas, que já assinou outra obra pública: o
monumento Tortura Nunca Mais.
ESCULTURAS - O poeta modernista Manoel Bandeira
está, na escultura, sentado ao lado de um portal de
onde observa a paisagem do rio Capibaribe e as pontes
do Palácio do Campo das Princesas. Na Rua da
Aurora, o poeta Manuel Bandeira descansa num banco,
parece que pensa na vida, com a mão esquerda
segurando a cabeça e a perna esquerda apoiada na
direita. Fica perto do Ginásio Pernambucano, nas
imediações da Rua da União, onde ficava a casa do avô
do poeta, citada em Evocação do Recife. Em pose com
ar pensativo, ele lê trechos do poema Evocação do
Recife. As inovações literárias do Modernismo de 22, e
mais especificamente da poesia de Bandeira, serão
representado no portal.
A escultura que apresenta João Cabral de Melo Neto
traz o escritor sentado em um banco de praça em um
gesto contemplativo, com um dos seus livros no colo.
Um cachorro dormindo nos pés de Cabral representa
uma alusão à obra O Cão sem Plumas. Na Rua da
Aurora (em frente ao Teatro Arraial), o poeta contempla
o Capibaribe que ele tão bem descreveu em seus
versos.
Carlos Pena Filho está sentado à mesa, em que se
encontram bancos e copos. A escultura é uma
referência ao famoso poema O Chope que imortalizou
o escritor. Na Praça da Independência, sentado à mesa,
com dois bancos vazios, é como se convidasse o povo
para um dedo de prosa. A figura da consagrada literata
ucraniniana Clarice Lispector é apresentada sentada
numa cadeira, de frente para uma mesa pequena em
que se encontra uma máquina de escrever. A autora de
Laços de Família segura uma xícara de café. A peça
trará um clima de intimidade e casualidade no momento
de criação. A infância de Clarice na Praça Maciel
Pinheiro também é evocada na escultura.
Capiba está em pé num balcão antigo. A figura tenta
relembrar os velhos carnavais. A tentativa do escultor é
provocar interatividade com o público, já que se pode
subir no balcão e assistir ao carnaval passar na Rua do
Sol. O compositor de frevo Capiba surge de pé,
acenando para a cidade, na Rua do Sol. “Ele gostava
desse lugar, foi uma boa escolha”, diz Maria José da
Silva, Zezita, a viúva.
Recife em poesia
Paola Araújo
Uma constatação: alguns dos maiores poetas e
compositores brasileiros são pernambucanos. E, para
recifenses e turistas não deixarem de perceber esse
detalhe, onze esculturas, em tamanho real de artistas
pernambucanos (com exceção da escritora Clarice
Lispector, que nasceu na Ucrânia, mas foi criada no
Estado) estão espalhadas pelo centro da cidade. Manuel
Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Capiba, Antônio
Maria, Clarice, Mauro Mota, Carlos Pena Filho, Ascenço
Ferreira, Joaquim Cardoso, Salomão Trindade e Luiz
Gonzaga convidam os transeuntes a um passeio pelo
Recife da prosa, poesia e música. O projeto Circuito da
Poesia, da Prefeitura do Recife em parceria com a
Fundação Banco do Brasil, chama a atenção para mais
esse potencial turístico. O escultor Demetrio
Albuquerque, responsável pelas estátuas, caprichou nos
detalhes. “A idéia é fugir da homenagem convencional,
com esculturas de busto”, ressalta Demetrio. Para
começar, a editoria de Turismo da Folha resolveu dividir
o passeio.
·Ponte Maurício de Nassau (Joaquim cardozo);
·Praça da Independência (Carlos Pena Filho);
·Pátio de São Pedro (Francisco Solano Trindade);
·Casa da Cultura (Luiz Gonzaga);
·Praça Maciel Pinheiro (Clarisse Lispector);
·Rua da Aurora (Manuel Bandeira);
·Rua do Sol (Capiba);
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Poetas que amaram o Recife ganham
estátuas
ESTÁTUAS DE POETAS QUE AMARAM O RECIFE
(Continuação)
Cristina Dias
O rio de João Cabral
Num dos poemas mais famosos, “O Cão sem Plumas”, o
escritor fala sobre o Rio Capibaribe.
À beira do rio, na Rua da Aurora, João Cabral de Melo
Neto lê seu poema “O Cão sem Plumas”, dedicado ao
Capibaribe: “Aquele rio está na memória como um cão
vivo dentro de uma sala...”. O mesmo Capibaribe está
em “Morte e Vida Severina”, servindo de guia para o
retirante nordestino, fugitivo da seca. Avesso a
entrevistas e homenagens, declarou certa vez:
“Nenhum nordestino é indiferente ao meio em que vive,
em que se criou”. Em seus poemas, o Sertão nordestino
e a Zona da Mata dividiam as atenções do poeta que
em suas poesias passeia pelas ruas do Recife e Olinda,
pelos seus casarões históricos e as águas do mar e de
seus rios Beberibe e Capibaribe. Nas proximidades da
escultura, encontramos o Tribunal de Justiça, o Palácio
do Campo das Princesas e o Teatro de Santa Izabel, em
volta da Praça da República, formada por três jardins
com palmeiras imperiais e um baobá. Próximo está a
Capela Dourada.
Maestro da alegria
Cristiana Dias
Do outro lado do rio, na Rua do Sol, o mais famoso
compositor do frevo do País, Capiba. “Madeira que
Cupim não Rói”, “É Frevo Meu Bem” e “É de Amargar”
são algumas de suas composições, que podem ser
definidas como hinos da grandiosa festa. Hoje, a
imagem do maestro de alegria está próximo aos
Correios, que nos dias de folia é ponto de concentração
da multidão agitada. No sábado de Zé Pereira, uma
multidão se “espremendo” passa por lá, sem reclamar
do calor e do empurra-empurra, atrás do Galo da
Madrugada. Nos dias “comuns”, o movimento também é
grande devido ao comércio, vigoroso nessa parte do
Centro do Recife. O compositor nasceu em Surubim,
formou-se em Direito - profissão que nuca exerceu, e
na década de 70 inaugurou, com Ariano Suassuna, o
Movimento Armorial. Musicou várias peças do amigo e
escreveu “Sem Lei Nem Rei”, título do romance de
Maximiano Campos. O samba “A Mesma Rosa Amarela”
e o maracatu “Verde Mar de Navegar” são mostras da
versatilidade do artista.
Romântico moderno
Cristiana Dias
Manuel Bandeira em estátua
Seguindo pela Imperatriz, chega-se à Aurora de Manuel
Bandeira, autor de “Evocação ao Recife”. A estátua do
poeta está à beira do Rio Capibaribe, próximo do prédio
da Assembléia Legislativa, na Rua da União, onde
passou sua infância. Na Rua Mamede Simões, ao lado
do prédio histórico, você pode comer ou fazer um
lanche no restaurante Central (atenção à radiola de
ficha no local). A Aurora é também a rua do Teatro
Arraial, do Museu da Imagem e do Som, do Museu de
Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam) e do, ainda
desativado, Cinema São Luiz.
A hora da estrela
Capiba na Rua do So
Carlos Drummond de Andrade definia Clarice Lispector
como um mistério. Foi aqui que a ucraniana,
naturalizada brasileira, aprendeu a ler e deu seus
primeiros passos no universo literário escrevendo sua
primeira peça: “Pobre Menina Rica”. E como citar Clarice
sem lembrar de sua Macabéia, personagem do livro “A
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·Pátio do Sebo (Mauro Mota);
·Cais da Alfândega (Ascenso Ferreira);
·Rua da Moeda (Chico Science);
·Rua do Bom Jesus (Antônio Maria);
·Rua da Aurora (João Cabral de Melo Neto);
ESTÁTUAS DE POETAS QUE AMARAM O RECIFE
(Continuação)
Hora da Estrela”? Tentando desvendar um pouco do
universo da escritora, vamos ao Centro do Recife, na
Praça Maciel Pinheiro, onde ela morou na infância. Hoje,
sua casa é um sobrado laranja, bem em frente à praça,
onde já funcionou uma casa de móveis. O ponto de
partida, na verdade, pode ser a Conde da Boa Vista,
onde está o Shopping Boa Vista, com cinemas, praça de
alimentação e lojas variadas. A praça está localizada no
final da Rua do Hospício, onde encontramos o Teatro do
Parque (que funciona também como cinema, aliás a
entrada é baratinha, apenas R$1,00).
mesmo bairro fica a Praça do Carmo, na Avenida Dantas
Barreto, onde está a Basílica do Carmo, que teve sua
construção iniciada em 1687 e concluída 80 anos
depois. Nela acontece, anualmente, a festa da padroeira
do Recife, Nossa Senhora do Carmo, no dia 16 de julho.
Cristiana Dias
Entre os livros
Na Praça do Sebo está a imagem de Mauro Mota
Na Praça Maciel Pinheiro, encontramos a escritora
Clarice Lispector
REI DO BAIÃO
Cristiana Dias
Os temas nordestinos estão descritos na poesia de
Mauro Mota, como em “Boletim sentimental da guerra
do Recife”, parte do primeiro livro “Elegias”. A escultura
do jornalista está na Praça do Sebo, na Rua da Roda,
no Bairro de Santo Antônio. O local abriga diversos
espaços informais de comercialização de livros que
viraram redutos de boêmios e apaixonados por
literatura, como Mauro Mota. Discos de vinil e revistas
também são encontrados com facilidade no local. Poeta,
professor, cronista e memorialista, Mota foi diretor do
Arquivo Público, que fica pertinho, na Rua do
Imperador, e membro da Fundação Joaquim Nabuco.
Em suas canções, Luiz Gonzaga falou sobre
dificuldades de seu povo
Devidamente “equipada” com sua sanfona, chapéu de
couro e lenço de papel, a imagem de Luiz Gonzaga
recebe os passageiros e visitantes da Estação
Ferroviária do Recife, no bairro de Santo Antônio.
Cantando as dores e amores do nordestino em suas
viagens pelo mundo, “seu Lua”, como ficou conhecido
em todo País, simboliza o que há de melhor em nossa
música. Entre as várias composições do Rei do Baião,
não podemos deixar de destacar “Asa Branca”, “Assum
Preto”, “Paraíba e “Vozes da Seca”. Para embarcar em
uma viagem pelo tempo, o turista pode aproveitar para
visitar o Museu do Trem, na Avenida Rio Capibaribe. No
Poeta convida a um passeio pelo Rio Capibaribe
Órfão aos 13 anos, Ascenso Ferreira nasceu no
município de Palmares, onde publicou seu primeiro
soneto, intitulado “Flor Fenecida”. A imagem do escritor,
no Cais da Alfândega, convida turistas e “passantes” a
parar e contemplar a beleza do Capibaribe. O local foi
escolhido por causa do prédio do Restaurante
Gambrinus (em reforma), que era freqüentado por ele e
muitos outros boêmios. Em frente está o Shopping Paço
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O boêmio
Ascenso
ESTÁTUAS DE POETAS QUE AMARAM O RECIFE
(Continuação)
Alfândega e a Livraria Cultura. No Paço, além de fazer
compras, o turista pode degustar várias opções
gastronômicas. Continuando a excursão, você pode dar
uma passada na Rua da Moeda e fazer uma parada em
um dos bares: Novo Pina, Casa da Moeda, Mangá ou no
Restaurante Villa Vecchia.
Bom de papo
Em seu livro “O Coronel de Macambira”, usando figuras
do folclore local, Joaquim Cardozo faz uma sátira a
exploração do homem do campo pelos coronéis e
proprietários rurais. Já em “Os demônios de Deus”, o
poeta usa elementos do pastoril para contar sua
história. Seja em prosa ou em versos, o Nordeste está
retratado em toda a obra de Cardozo. A imagem do
poeta, que esse ano completaria 110 anos, está na
Ponte Maurício de Nassau, que liga os bairros de Santo
Antônio e do Recife Antigo. No Cais do Apolo, lado
esquerdo, está o Teatro Hemilo Borba Filho, e na rua
paralela, o Teatro Apolo.
Cristiana Dias
O
revolucionário
O boêmio Antônio Maria está na Rua do Bom Jesus
Poeta centenário
Cristiana Dias
Estátua de Solano Trindade
No Pátio de São Pedro, no bairro de São José, está a
estátua de Solano Trindade. Freqüentador assíduo do
local, o poeta foi o fundador da Frente Negra
Pernambucana, e fez parte do Centro de Cultura Afrobrasileiro, ambos criados com o objetivo de divulgar os
intelectuais e artistas negros. Recentemente, o Pátio de
São Pedro passou por uma reforma: o casario secular
restaurado e a Igreja de São Pedro dos Clérigos ganhou
iluminação especial. Nas noites de terça-feira acontece
a Terça Negra. O projeto da Prefeitura do Recife abre
espaço para apresentações culturais e shows de artistas
ligados à cultura negra. No mesmo bairro está o
Mercado de São José, o mais antigo prédio préfabricado em ferro no Brasil. Cantadores, emboladores e
literatura de cordel são figuras comuns no local. Além
de encontrar artesanato, frutas, verduras e comidas
típicas, nos 46 pavilhões, o visitante pode levar para
casa uma série de ervas medicinais. Segundo os
vendedores, cada especiaria serve para um mal
determinado.
Apaixonado pelo Recife
Cristiana Dias
Joaquim Cardozo está na ponte Maurício de Nassau
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De bem com a vida, Antônio Maria não perdia o bom
humor por nada. Cardíaco, foi proibido pelo médico de
comer costela e feijoada, seus pratos favoritos. No
segundo enfarte, declarou em tom de deboche: “Com
você, por mais incrível que pareça, Antônio Maria,
brasileiro, cansado, 43 anos, cardisplicente. Profissão:
esperança”. Bom de papo e de copo, é na Rua do Bom
Jesus que a figura do cronista, compositor, radialista e
entrevistador observa o movimento no bairro do Recife
Antigo, que nos dias de folia é passarela para o desfile
de blocos líricos. “Manhã de Carnaval” é um dos frevos
canções que embalam os saudosos. Bares e
restaurantes estão espalhados no Bom Jesus. Nela está
o prédio onde funcionou a primeira Sinagoga das
Américas, a Zur Israel. O domingo é dia de passear com
a família, curtir uma das apresentações musicais
(gratuitas) e comprar artesanato na feirinha. No Bairro
do Recife, ainda temos o Marco Zero, a Torre Malakoff e
a Praça do Arsenal.
ESTÁTUAS DE POETAS QUE AMARAM O RECIFE
(Continuação)
Confira obras criadas pelos homenageados no
Circuito de Poesia
» Testamento
(Manuel Bandeira)
O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros - perdi-os...
Tive amores - esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.
Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não
passava de nove horas da manhã.
Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto
da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava
para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua
intimidade com indiferença, não souberam dizer se era
gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de
curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances,
alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou
- o tempo da cozinheira dar um grito - e em breve
estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo
desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno
deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família
foi chamada com urgência e consternada viu o almoço
junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se
da dupla necessidade de fazer
esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu
radiante um calção de banho e resolveu seguir
o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o
telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com
urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais
intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um
quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais
selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si
mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de
sua raça.
Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por
mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia
soado.
Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria,
arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava
ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz
galgava outros com dificuldade tinha tempo de se
refazer por um momento. E então parecia tão livre.
Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um
galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que
fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que
não se poderia contar com ela para nada. Nem ela
própria contava consigo, como o galo crê na sua
crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas
que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra
tão
igual como se fora a mesma.
Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!
(29 de janeiro de 1943)
Poesia extraída do livro "Antologia Poética - Manuel
Bandeira", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro,
2001, pág. 126.
» Uma Galinha
(Clarice Lispector)
Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua
fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi
presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa
através das telhas e pousada no chão da cozinha com
certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em
cacarejos roucos e indecisos. Foi então que aconteceu.
De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida,
exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois,
nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha
mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou,
respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu
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Em seu “Guia Prático da Cidade do Recife”, Carlos Pena
Filho registrou todo seu encanto pelo Recife. Renomado
músico, ele é autor de canções de sucesso, como “A
mesma Rosa Amarela”, incorporada ao movimento da
Bossa Nova, na voz de Maysa. Na Praça da
Independência, em frente ao prédio do antigo Diário de
Pernambuco, está a imagem do poeta. A escultura de
Demétrio Albuquerque foi inspirada no poema “O
Chope”, e os versos no extinto Bar Savoy (Avenida
Guararapes), reduto de literatos e boêmios da época:
“Na avenida Guararapes, o Recife vai marchando. O
bairro de Santo Antônio, tanto se foi transformando.
Que, agora, às cinco da tarde, mais se assemelha a um
festim”.
ESTÁTUAS DE POETAS QUE AMARAM O RECIFE
(Continuação)
- Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um
ovo! ela quer o nosso bem!
Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a
jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era
nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era
nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum
sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já
há algum tempo, sem propriamente um pensamento
qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de
galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:
- Se você mandar matar esta galinha, nunca mais
comerei galinha na minha vida!
- Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe,
cansada, deu de ombros.
Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha
passou a morar com a família. A menina, de volta do
colégio, jogava a pasta longe sem interromper a
corrida para a cozinha.
O pai, de vez em quando, ainda se lembrava: "E dizer
que a obriguei a correr naquele estado!"
A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos
ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço
dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia
e a do sobressalto.
Mas, quando todos estavam quietos na casa e pareciam
tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem,
resquícios da grande fuga - e circulava pelo ladrilho, o
corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num
campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendose rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já
mecanizado.
Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de
novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do
telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia
os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse
dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria
muito mais contente. Embora nem nesses instantes a
expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga,
no descanso, quando deu à luz ou bicando milho - era
uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada
no começo dos séculos.
Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaramse anos.
Texto extraído do livro "Laços de Família", Editora Rocco
- Rio de Janeiro, 1998, pág. 30.
» Morte e Vida Severina (Trecho)
(João Cabrail de Melo neto)
... E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."
» Soneto do Desmantelo Azul
(Carlos Pena Filho)
Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
» Maria Bethânia
(Capiba)
Maria Bethânia
Tu és para mim
A senhora do Engenho
Em sonhos te vejo
Maria Bethânia
És tudo que eu tenho
Quanta tristeza, sinto no peito
Só em pensar
Que o meu sonho está desfeito
Maria Bethânia
Te lembras ainda daquele São João?
As minhas palavras
Caíram bem dentro do teu coração
Tu me olhavas, com emoção
E sem querer
Pus minha mão em tua mão
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coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava
as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca
passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu
a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu
desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do
chão e saiu aos gritos:
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Maria Bethânia
Tu sentes saudades de tudo bem sei
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43 estátuas dos poetas