77 3 Serviço Social, formação graduada e projeto profissional Ana Maria de Vasconcelos* Juliana Ferreira Baltar** Bruna Caroline Pinheiro Batista Malafaia*** Natália Cristiane Faro Rodrigues*** Tamires da Silva Albuquerque*** Vitória Monteiro Neri*** Introdução O estudo a seguir tem como objetivo abordar a realidade da formação graduada no curso de Serviço Social da FSS/UERJ frente à dicotomia teoria-prática. Tal estudo é parte da investigação desenvolvida no Núcleo de Estudos, Extensão e Pesquisa em Serviço Social Social (NEEPSS/FSS/ UERJ-CNPq/FAPERJ), que vem revelando, dentre outras questões, que os profissionais de saúde dos hospitais universitários não vêm conseguindo rea* Pós-Doutora em Serviço Social, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (ESS/UFRJ). Assistente social, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pesquisadora com financiamento FAPERJ/CNPq/UERJ - Bolsista PQ/CNPq e coordenadora do NEEPSS (Núcleo de Ensino, Extensão e Pesquisa em Serviço Social). ** Assistente social e mestranda da FSS/UERJ; assistente de pesquisa do NEEPSS/FSS/UERJ/ CNPq//FAPERJ; assistente social HUPE/UERJ *** Graduanda FSS/UERJ; bolsista de Iniciação Científica do NEEPSS/FSS/UERJ/CNPq// FAPERJ miolo_Livro_servico_social.indd 77 4/11/2014 18:00:03 Trajetória da Faculdade de Serviço Social da UERJ: 70 anos de história 78 lizar as possibilidades de prática contidas na realidade, o que tem resultado em práticas pontuais e conservadoras. Temos observado ainda, no processo de formação graduada, um distanciamento dos futuros assistentes sociais com o projeto de profissão do Serviço Social brasileiro expresso no desconhecimento, pelos alunos, dos princípios, valores e referências teórico-metodológicas que norteiam a profissão; na dificuldade de identificação dos usuários dos serviços públicos e do Serviço Social; no desconhecimento dos deveres e direitos expressos no Código de Ética, além da nula e/ou frágil apropriação da teoria necessária à transformação do projeto em realidade − a teoria social de Marx e o marxismo. Esses são fatores que dificultam a realização de uma prática profissional que, mediada pelo projeto profissional, possa reverter em ganhos para os diferentes segmentos de trabalhadores, contribua com a consolidação do projeto do Serviço Social brasileiro e com o projeto de sociedade ao qual ele está articulado. Como base empírica da pesquisa, utilizamos um questionário de 21 variáveis abertas e fechadas que vem sendo aplicado ao longo de mais de 10 anos de coleta de dados com os discentes do 6º período do curso de graduação em Serviço Social da FSS/UERJ, que cursam a disciplina Processo de Trabalho do Serviço Social III1. Esta disciplina é ministrada no período em que os alunos dão início ao Estágio Curricular obrigatório, já tendo cursado todas as disciplinas de fundamentos, inclusive Ética em Serviço Social. Para este estudo, destacamos variáveis referentes à idade, bairro onde reside, atividade de trabalho, inserção no estágio, bolsas; princípios e valores que tomam como referência e por que e posição quanto ao projeto ético político e por quê. Apresentaremos as respostas de 10 turmas dos últimos cinco anos (2006.2 à 2011.1). Abordamos a formação graduada em Serviço Social numa faculdade que tem importância nacional e latino-americana a partir dos estudos e produção de seus docentes, num contexto que vem tencionando o papel da universidade na sociedade e transformando a forma como vem acontecendo 1 No último questionário aplicado em 2011, foram incluídas variáveis relacionadas à inserção dos alunos nos espaços democráticos da universidade e participação no movimento estudantil. miolo_Livro_servico_social.indd 78 4/11/2014 18:00:03 3 Serviço Social, formação graduada e projeto profissional o acesso ao ensino superior no Brasil, as condições desse acesso e a qualidade (ou inexistência) das atividades próprias da universidade: o ensino, a pesquisa e a extensão. 79 Formação graduada e projeto profissional As relações entre Estado e sociedade atualmente vêm se resumindo a uma progressiva desresponsabilização daquele diante da garantia dos direitos sociais desta. Isto se intensifica ainda mais quando tratamos da desresponsabilização do Estado frente à garantia da educação de qualidade, em seus diferentes níveis (fundamental, médio e superior), pois, cada vez mais, o Estado vem propondo uma formação despreocupada com a produção de conhecimento e com a formação crítica e generalista, refletindo num completo descompromisso com a universidade e tudo o que ela representa para a sociedade. Isto pode ser observado na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) para a educação, promulgada em 1996, que definiu e regularizou o sistema de educação no Brasil, instituindo para todas as categorias profissionais Diretrizes Curriculares Gerais (DCs) para os cursos de graduação, esvaziadas de conteúdo, extinguindo os Currículos Mínimos, referência das universidades e cursos superiores isolados, na elaboração dos seus currículos plenos. Este processo trouxe uma maior flexibilização para a constituição dos mesmos, assim como abriu a possibilidade da instituição dos cursos à distância. Quando da instituição das diretrizes curriculares (DCs) pela LDB de 1996, a ABEPSS convocou uma comissão de especialistas de ensino em Serviço Social para a estruturação das novas DCs para o curso de Serviço Social, por meio de discussões em todo o Brasil. Finalizadas e entregues em 1999, em 2001, o MEC institui as DCs nacionais para o curso de Serviço Social, com alterações que esvaziaram completamente de conteúdo teórico-crítico a formação do assistente social proposta pela ABEPSS, colocando em xeque todo o projeto de formação de um assistente social generalista e crítico. A proposta do MEC visa à formação de profissionais técnicos e pragmáticos, na direção de uma formação que fortaleça os interesses do capital, ao, dentre outras coisas, restringir o comprometimento do assistente social com os princípios e valores constantes do Código de Ética e retirar a miolo_Livro_servico_social.indd 79 4/11/2014 18:00:03 Trajetória da Faculdade de Serviço Social da UERJ: 70 anos de história 80 noção de que o profissional é dotado de formação intelectual e crítica, com capacidade de ação criativa e propositiva. A proposta do MEC retirou, inclusive, a possibilidade da convivência acadêmica entre professores, alunos e sociedade, descaracterizando uma visão de universidade, na qual o ensino busca apreender o movimento dinâmico da realidade social, destacando a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, considerando a relação indissociável teoria-prática. Diante disso, o Serviço Social brasileiro, atualmente, convive com duas referências para a formação profissional graduada: as DCs da ABEPSS e as DCs oficiais do MEC. Diretrizes estas que, como são as oficiais, favorecem o descomprometimento das unidades de ensino com o projeto profissional, contribuindo para uma formação profissional que priorize o atendimento das requisições institucionais, ou seja, uma prática conservadora. Este processo é fruto do neoliberalismo, quando se tornam hegemônicas e “legitimas” na sociedade intervenções conservadoras e reacionárias na economia, na política e na cultura, impactando diretamente as relações sociais. Essas intervenções vêm sendo materializadas por meio da implementação de políticas sociais focalistas e restritivas para o trabalho – com sua precarização –, na busca de financiamento público da acumulação privada, o que exige a irradiação da ideologia dominante que difunde em todas as instâncias da vida social uma cultura contrária a uma vivência democrática e emancipatória, ao priorizar e incentivar o individualismo exacerbado e condenar tudo o que é público e coletivo. As massas trabalhadoras, neste contexto, vivem um retrocesso no seu processo de mobilização e organização política e sindical, assim como, na conquista e ampliação dos direitos sociais. Isto porque as alterações na configuração política, econômica e social advindas da contrarreforma do Estado trazem prejuízos objetivos e subjetivos para a maioria. Todo esse processo trazendo repercussões negativas para todas as instâncias da vida social, consequentemente, repercute negativamente no Serviço Social brasileiro que, além de estar submetido no cotidiano da prática às consequências da desresponsabilização do Estado, sofre consequências na estruturação da formação graduada de novos profissionais. É diante dessa realidade que se torna relevante observar como vem se dando a formação graduada. A pesquisa foi realizada em uma unidade de miolo_Livro_servico_social.indd 80 4/11/2014 18:00:03 3 Serviço Social, formação graduada e projeto profissional ensino que toma o projeto da ABEPSS como referência para a formação graduada e pós-graduada, assim como, para a realização de pesquisas e produções científicas. Como unidade pertencente a uma universidade pública, institucionalmente busca realizar o ensino, a pesquisa e a extensão, de forma indissociável. Elegemos apresentar 9 (nove) variáveis do questionário utilizado, com 10 turmas, dos últimos 5 (cinco) anos, que se encontram em meados do curso, aptos a realizar estágio supervisionado2. Ressaltamos que não foi possível utilizar todas as variáveis contidas no questionário (25 variáveis) por conta da dimensão exigida para este trabalho. Sinalizamos aspectos relacionados às condições de vida e trabalho dos discentes, ao abordar a inserção e a ocupação dos graduandos nos espaços da universidade, destacando as condições de acesso dos mesmos. Quando perguntados sobre a idade, dos 326 graduandos que responderam ao formulário entre os anos citados anteriormente, 53% possuem idade entre 19 a 25 anos; 18% afirmam ter idade entre 26 a 30 anos; 7% apresentam idade entre 31 a 35 anos; 4% entre 36 a 40 anos e 4% têm idade acima de 40 anos; 14% dos discentes não responderam a esta questão. Esses dados nos permitem identificar a existência de um predomínio de jovens tendo acesso ao ensino superior público. O acesso dos jovens ao ensino superior público no Brasil vem sendo cada vez mais burocratizado pelos vestibulares e, atualmente, por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o que dificulta, muita das vezes, o acesso. É importante sinalizar que se a maioria dos sujeitos da pesquisa é de jovens entre 19 e 25 anos, não podemos perder de vista que somente 5% da população jovem no Brasil está realizando um curso superior e que, desses 5%, apenas 1% o cursam em universidades públicas. Quanto ao local de moradia, 43% dos alunos respondem morar na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, enquanto 24% afirmam residir em outros Municípios, 14% moram na Zona Oeste e 5% domiciliam-se na Zona Sul. Apenas 1% dos graduandos reside no Centro do Rio de Janeiro; 13% não responderam a esta questão. O fato de 43% dos alunos residirem nas proximidades da universidade é um elemento positivo no que tange 81 2 Os alunos, antes do preenchimento dos questionários, são informados sobre o anonimato dos mesmos e consultados quanto à possibilidade de utilização dos dados. miolo_Livro_servico_social.indd 81 4/11/2014 18:00:04 Trajetória da Faculdade de Serviço Social da UERJ: 70 anos de história 82 ao seu deslocamento, difícil e dispendioso nos grandes centros urbanos. Assim, é relevante o quantitativo de graduandos que reside distante da universidade, o que resulta em dificuldade de locomoção, principalmente aos discentes que utilizam transporte público, interferindo de forma negativa, tanto no aproveitamento dos espaços da universidade quanto na permanência do aluno durante o período das aulas, visto que estamos nos referindo a um curso noturno. Ressaltamos que a faculdade está localizada numa universidade que se encontra numa zona urbanizada da área norte do Rio de Janeiro e não possui alojamento estudantil, dificultando a permanência de alunos não residentes no município a permanecerem nos cursos de graduação, o que vem resultando em abandono do curso. Aliado a isso, os alunos de baixa renda não possuem incentivo financeiro – exceto os cotistas – por parte da universidade para se manterem nela e muitos, por precisarem realizar atividades laborativas para acessar renda e se manterem na universidade, ficam impossibilitados de dedicação exclusiva ao ensino, e apartados das possibilidades de realizar de forma articulada a ele, a pesquisa e a extensão. São os próprios alunos que ressaltam a importância e os aspectos favoráveis que resultam de uma participação dos alunos em atividades de pesquisa e extensão, tendo em vista a formação de um profissional com perfil intelectual. Sobre a necessidade de trabalhar para sobreviver, visto que a maioria dos alunos de Serviço Social pertence a segmentos da classe trabalhadora, nestes cinco anos, 37% dos alunos no 6º período da faculdade afirmam trabalhar, enquanto 48% não trabalham e 15% não responderam à pergunta. Consideramos positivo o fato de a maioria não trabalhar, principalmente no período de estágio curricular que vai exigir do aluno mais tempo de dedicação à universidade. Estamos nos referindo a um curso realizado no período noturno, voltado para alunos trabalhadores, e que, no período de estágio, exige do aluno disponibilidade no período diurno para a realização do mesmo. Os alunos que trabalham não possuem as mesmas possibilidades de se inserir tanto nos espaços da universidade quanto nas alternativas oferecidas para a realização do Estágio, o que gera uma demanda para os “estágios de final de semana”. Estes, além de serem difíceis de serem operacionalizados e mantidos pela própria faculdade, nem sempre expressam a realidade a ser enfrentada pelo futuro profissional. miolo_Livro_servico_social.indd 82 4/11/2014 18:00:04 3 Serviço Social, formação graduada e projeto profissional Conforme as Diretrizes Curriculares da ABEPSS (1996), “o Estágio Supervisionado é uma atividade curricular obrigatória que se configura a partir da inserção do aluno no espaço sócio-institucional, objetivando capacitá-lo para o exercício profissional, o que pressupõe supervisão sistemática”. O Estagio Supervisionado configura-se numa experiência de formação profissional que possibilita a aproximação do estudante com a realidade vivida pelos assistentes sociais, além de viabilizar a articulação dos espaços sócio-ocupacionais com a academia. Quando o aluno do curso em questão − que tem previsão de ser realizado em 10 períodos − não inicia o estágio no 6º período, isso tem como consequência um atraso na formação. Das turmas estudadas no período, estavam inseridos no Estágio Supervisionado 59% dos discentes; 26% ainda não estavam realizando estágio e 15% não responderam. Mesmo considerando que o levantamento é realizado no primeiro dia de aula do semestre e que o aluno, a cada semestre, tem um tempo limite para a inserção no estágio, observamos que é relevante que, tendo iniciado o período, 41% dos alunos não tenham o que dizer sobre sua inserção no estágio, uma atividade que, nas Diretrizes Curriculares da ABEPSS, é obrigatória para a formação do estudante de graduação. Como indicado pelos próprios alunos, as principais causas da não inserção em estágios é a falta de oferta de vagas não só em estabelecimentos em convênio com a Faculdade de Serviço Social, como nos estabelecimentos da universidade considerados como campos próprios. Diante da necessidade de parte dos alunos trabalharem, é relevante a indicação da necessidade de maior intervenção da Coordenação de Extensão e Estágio da unidade de ensino, na busca de realização dos convênios necessários para a articulação de estágios no final de semana e de estágios remunerados. A remuneração torna-se de fundamental importância num curso de Serviço Social noturno, onde parte dos alunos necessita trabalhar para sobreviver, conforme citado anteriormente. Fundamentada nas Diretrizes da ABEEPSS, a formação em Serviço Social tem como um dos princípios a indissociabilidade entre ensino, pesquisa, extensão. Assim, atividades complementares como a monitoria, a iniciação científica, a extensão, a participação em seminários, a publicação científica e outras atividades definidas no plano acadêmico do curso, devem miolo_Livro_servico_social.indd 83 83 4/11/2014 18:00:04 Trajetória da Faculdade de Serviço Social da UERJ: 70 anos de história 84 complementar a formação. Articulando essas atividades, os espaços de pesquisa e extensão contribuem para a formação acadêmica, na medida em que incentivam e possibilitam o aprofundamento de estudos, analises e questões que surgem ao longo da graduação, além de se constituírem em locais de aperfeiçoamento e formação de pesquisadores. Ao serem indagados sobre a inserção nesses espaços, observamos que 43% dos alunos foram ou são bolsistas; 39% não e 18% não responderam. Notamos que os alunos que responderam afirmativamente estavam inseridos em espaços de pesquisa/extensão ou bolsas de cotas. Os demais alunos não recebem qualquer tipo de auxílio que estimule e contribua com sua permanência na universidade pública. Diante disso, a universidade, apesar de salientar a importância da indissociabilidade ensino/pesquisa/extensão, conta com mais de 40% dos alunos do curso de Serviço Social sem qualquer inserção/participação em espaços privilegiados como a pesquisa e a extensão e/ou sem nenhum estímulo para a permanência no curso e a vivência integral do espírito universitário. O impacto desses espaços na formação graduada nos permite indicar o incentivo da participação dos alunos cotistas, desde o início da sua formação, que poderiam ser inseridos, automaticamente, em espaços de pesquisas e/ ou extensão. Ressaltamos que o incentivo que se dá por meio de financiamento − bolsas, auxílios de pesquisa ou de cota − está baseado em valores simbólicos que não cobrem as reais despesas do aluno com transporte, alimentação, moradia em localidades próximas à universidade, acesso a materiais (xerox, livros) essenciais à formação. Por outro lado, as bolsas mais valorizadas − Iniciação Científica Faperj, UERJ, CNPQ − são poucas, disputadas entre os alunos que contam com tempo para um maior investimento na sua formação. Não podemos deixar de sinalizar ainda que o Serviço Social está situado no âmbito das Ciências Sociais Aplicadas, num contexto em que os órgãos de fomento dão prioridade absoluta às chamadas “ciências duras” que contam com a possibilidade de articulação com o mercado por meio da criação de patentes. Assim, se não é difícil para um projeto na área das Ciências Biológicas receber um financiamento de 500 mil dólares para a aquisição, manutenção e operação de um microscópio eletrônico, no Serviço Social, não se pode contar com mais de um bolsista em cada projeto de pesquisa, o que na nossa miolo_Livro_servico_social.indd 84 4/11/2014 18:00:04 3 Serviço Social, formação graduada e projeto profissional área de conhecimento é fundamental. Uma situação que prejudica tanto a realização de pesquisas quanto a formação de pesquisadores na área. Agora, resta abordarmos a forma como vem se dando a apreensão por parte dos discentes dos princípios e valores que referenciam o projeto de profissão que a faculdade toma como referência, pautado nas Diretrizes Curriculares da ABEPSS que definem a formação de um profissional crítico, criativo e propositivo, não apenas um profissional conformador da ordem. Quando perguntados sobre os princípios e valores que tomam como referência como profissionais, 50% dos alunos afirmaram tomar como referência “Princípios do Código de Ética ou do Projeto Ético-Político do Serviço Social”. Ressaltamos que as respostas em que princípios expressos no Código de Ética não foram indicados na sua totalidade ou seja, os 11 princípios −, mas indicados alguns princípios de forma isolada, foram considerados nessa categoria; 35% dos alunos, ao indicarem princípios e valores tais como: amor, bondade, humildade, caridade, amor ao próximo etc., foram agrupados na categoria “Ecléticos”; 15% dos discentes não responderam à esta pergunta. Essa realidade revela que, ainda que 50% dos alunos façam referência ao Código de Ética e/ou ao projeto profissional, permanece uma tendência à não-superação de valores religiosos e morais anteriores à reformulação do Código de Ética vigente, além de um distanciamento e uma dificuldade em se colocar diante dos princípios que referenciam o projeto do Serviço Social. Este fato, tendencialmente, implicará a atuação destes futuros profissionais frente aos usuários. É a partir da formação até aquele momento garantida que o aluno dará início ao seu contato com os usuários/trabalhadores. Ao serem perguntados sobre o porquê da escolha desses princípios e valores de referência para a profissão, 33% dos alunos responderam que tais princípios são importantes para uma prática profissional que visa aos interesses dos usuários e que são estes princípios que norteiam a profissão. Como destacaram alguns alunos, a partir dos princípios e valores fundamentais indicados: 85 − A competência, a responsabilidade e a dedicação: “Para conseguir ser um bom profissional”; miolo_Livro_servico_social.indd 85 4/11/2014 18:00:04 Trajetória da Faculdade de Serviço Social da UERJ: 70 anos de história 86 − A igualdade, liberdade, respeito e compromisso: “Porque julgo como sendo importantes para a prática profissional e bem como de bom tratamento com usuários.” − A igualdade, justiça e dignidade da pessoa humana: “Porque essa profissão atua, primordialmente, onde há uma demanda social, decorrente do não exercício desses princípios e valores, onde muitas vezes, estão enunciados, mas não efetivados.” Ressaltamos que 15% indicaram que são princípios e valores que estão instituídos pela profissão, mostrando que os tomam institucionalmente como referência e não como escolha. Parecendo desconhecer a complexidade da sociedade do capital e das possibilidades de transformação social, 13% responderam que são princípios e valores que tornam possíveis o alcance da justiça social, da democracia e da igualdade social; 12% responderam que são princípios capazes de tornar possível a transformação da sociedade; 8% responderam que escolhem tais princípios e valores por se identificar e por ter como referência pessoal e 19% dos discentes não responderam. Como destacaram alguns alunos, a partir dos princípios e valores fundamentais indicados: − O respeito ao outro e o acesso à informação: “Por acreditar que estes levam a uma consideração do usuário para consigo”; − Defende como princípios e valores os que estão contidos no código de ética, que levarão à defesa da democratização do país e ao acesso e ampliação dos direitos sociais: “Porque defendo uma democracia de massa, com ampliação dos direitos econômicos, políticos e sociais”; − Defende a ética e a responsabilidade como princípios e valores de referência profissional: “Porque são a base dos outros princípios.” Ao serem perguntados se tomam ou não o Projeto Ético-Político do Serviço Social como referência, 76% responderam positivamente; 7% afirmam não o tomarem como referência e 17% não responderam. Sobre o porquê terem ou não este projeto como referência 27% não responderam; 22% respondem que é o projeto que foi instituído pela profissão, destacando: − “Porque serei assistente social e ele foi instituído pela categoria e preciso tê-lo como referência.” miolo_Livro_servico_social.indd 86 4/11/2014 18:00:04 3 Serviço Social, formação graduada e projeto profissional − “Porque foi construído democraticamente pelos profissionais e lá estão os princípios que norteiam esta profissão.” 87 Dos 22% que responderam que tomam como referência o projeto por considerá-lo capaz de possibilitar uma prática coerente com os interesses dos usuários e também por ser capaz de nortear a profissão para um desenvolvimento profissional, destacamos: − “É o óculos da atividade profissional, deve nortear as ações do profissional.” − “Através dele podemos orientar nossa prática, assim como, proteger nossos interesses.” − “Tem valores essenciais para a prática profissional.” Responderam que é um projeto capaz de transformação da sociedade, 10% de alunos e 12% responderam que tomam o projeto como referência por ele conter princípios contrários à sociedade atual; 7% responderam que não o defendem por não terem compreensão do que seja o projeto, dos quais destacamos: − “Ainda não consigo segui-lo, mesmo porque com todas as cláusulas não tive oportunidade de me espelhar em nenhum profissional (atuante) para ter uma referência de sua real e concreta funcionalidade. Apesar de reconhecê-lo como “bonito”, me parece pouco funcional.” − “Tenho como referência devido à forma dialética de analisar as múltiplas expressões da questão social.” − “Pois acredito que é o projeto profissional mais digno, este visa assegurar direitos imprescindíveis para a caracterização de uma sociedade realmente justa.” − “Tenho ele como referência do que quero alcançar, porém ainda não me sinto preparada para adotá-lo como projeto ético político de referência.” Além da não apreensão dos princípios do Código de Ética do assistente social como uma totalidade que expressa o sentido anticapitalista do projeto, miolo_Livro_servico_social.indd 87 4/11/2014 18:00:04 Trajetória da Faculdade de Serviço Social da UERJ: 70 anos de história 88 podemos observar um profundo distanciamento entre os princípios que são indicados como referência e a justificativa para tal indicação. Frequentemente, os alunos tomam o projeto profissional não como um processo em construção e disputa, mas como uma coisa estática a ser seguida ou porque é “lei”, ou porque é “bom”, “justo”. Para que este discente/futuro profissional tome conscientemente este projeto como referência é necessário um aprofundado conhecimento da realidade social e um enfrentamento dos valores e princípios sob os quais foi socializado. A dificuldade em estabelecer uma conexão entre esses aspectos certamente implicará tanto o estágio como a futura atuação profissional destes discentes. Como aponta Vasconcelos (2010): Os assistentes sociais, reconhecidos pelos usuários como ‘seres humanos’ interessados em ‘AJUDAR’, ao se limitarem à ajuda ou transfigurando o direito em ajuda, a partir de ações como fim em si mesmo e independente dos objetivos almejados, contribuem na reprodução da organização social dominante. Desse modo, mesmo acolhendo com respeito e/ou ‘humanizando relações’ funcionamos como braço da elite econômica – para reprodução de sua ideologia (para que esta continue a ideologia dominante) o que resulta em perdas e não ganhos para os trabalhadores. A partir destes dados, podemos afirmar que os discentes estudados almejam ter suas ações mediadas pelo projeto do Serviço Social, porém sem condições ético-políticas de tomarem este projeto como referência de forma consciente e crítica, sem considerar as implicações teórico-metodológicas. A partir do projeto tomado como um “dever ser”, pouco se estabelece as relações com o cotidiano dos assistentes sociais. Considerações Finais Compreendemos que é na graduação que se tem o primeiro contato e as primeiras indagações quanto ao “projeto ético-político”, a partir de um processo que possa contribuir para que o aluno realize escolhas conscientes quanto às referências ético-políticas e teórico-metodológicas correspondentes, como cidadão e como profissional, a partir de uma reflexão crítica que miolo_Livro_servico_social.indd 88 4/11/2014 18:00:04 3 Serviço Social, formação graduada e projeto profissional inclua o acesso aos variados direcionamentos teóricos e políticos presentes na vida social, o que pode resultar na possibilidade de decisão consciente sobre assumir ou não o atual projeto da profissão. Sabemos que a simples inserção dos estudantes nos espaços universitários não é suficiente para dar conta da formação de um intelectual que possa, no exercício profissional, pensar e realizar práticas na direção do projeto profissional. Diante disso, este estudo revela que o projeto pedagógico tomado como referência para a formação graduada pela unidade de ensino pesquisada, com base nas DCs da ABEPSS, pode não estar contribuindo para a formação de profissionais críticos e reflexivos como almejado. Isso é mais preocupante quando se trata de uma unidade em que o projeto de formação da ABEPSS é tomado como referência, o que pode repercutir em perdas significativas para a categoria, visto que um conjunto de profissionais formados nessa direção pode fazer a diferença para a consolidação do projeto de profissão no cotidiano sócio-institucional. Mas o que podemos observar é que a formação de um técnico especialista e bem preparado para atender às requisições do mercado de trabalho, como indicado pelas DCs do MEC, vem sendo concretizada não só em cursos à distância ou naqueles que se pautam nas diretrizes oficiais. A formação profissional, sem criar condições de o aluno superar seu processo de socialização, não tem oferecido as condições necessárias para a maioria dos assistentes sociais fazer a crítica das consequências da sua inserção de classe/ processo de socialização sob o domínio do capital e identificar o alcance e efeito da vinculação histórica religião/profissão no Serviço Social, o que nos leva, pelo menos no âmbito da prática profissional, a encontrar razões para responder negativamente às questões acima, não só diante dos dados que esse estudo revela, mas, principalmente, frente à formação da maioria dos assistentes sociais em unidades privadas e, atualmente, nos cursos a distância. Como continua Vasconcelos (2010): 89 no âmbito da formação profissional, as unidades de ensino que tomam como referência a proposta para o projeto de formação profissional da ABEPSS não estão conseguindo ‘forjar/formar/preparar profissionais que empreendam ações na direção social proposta pelo referido projeto’. Uma atividade profis- miolo_Livro_servico_social.indd 89 4/11/2014 18:00:04 Trajetória da Faculdade de Serviço Social da UERJ: 70 anos de história 90 sional que, ‘fruto de uma “formação generalista e crítica, possa empreender respostas na direção dos interesses das classes trabalhadoras’”. Referências ABEPSS. Diretrizes Gerais para o curso de Serviço Social. In: CRESS 7ª Região. Assistente social: ética e direitos. Coletânea de Leis e Resoluções. Rio de Janeiro, 2010. ABEPSS. Diretrizes curriculares para o curso de Serviço Social, 1996. BRAZ, M.M.R. Notas sobre o projeto ético-político do Serviço Social. In: Assistente social: ética e direitos. Coletânea de Leis e Resoluções – 3ªedição (atualizada) – CRESS 7ª Região – RJ/ Outubro de 2001. CEFESS. Código de ética da profissão, 1993. ______. Lei de regulamentação da profissão. 1996. NETTO, José Paulo. A construção do projeto ético-político do Serviço Social. In: MOTA, Ana Elizabete et al. (Org.). Serviço Social e Saúde. São Paulo: Cortez; Brasília- DF: OPAS, OMS, Ministério da Saúde, 2009. RODRIGUES, Jacqueline Freire da Silva. Projeto ético político do Serviço Social: graduação e especialização da FSS/UERJ. Trabalho de Conclusão de Curso. Rio de Janeiro: FSS/UERJ, 2012. VASCONCELOS, Ana Maria de. Serviço Social e prática reflexiva. Revista Em Pauta, n. 10, Rio de Janeiro, 1997. ______. O trabalho do assistente social e o projeto hegemônico no debate profissional. In: CFESS/ABEPSS/CEAD/UnB Programa de capacitação continuada para assistentes sociais, Módulo 4. CFESS/ABEPSS/CEAD/UnB. Brasília, 2000. ______. A prática do Serviço Social: cotidiano e práticas democráticas. Projeto de Pesquisa, Faculdade de Serviço Social/UERJ/FAPERJ/CNPq, Rio de Janeiro, 2002. ______. A prática do Serviço Social. Análise concreta de situações concretas. Eixo de Análise. Rio de Janeiro: FSS/UERJ. Rio de Janeiro, mimeo, 2010. _____. Os assistentes sociais e o projeto ético-político profissional: entre a boa intenção/ajuda e a teoria social crítica. FSS/UERJ. Rio de Janeiro: 2010. miolo_Livro_servico_social.indd 90 4/11/2014 18:00:04