Alimentação Escolar e Educação Física num Colégio Interno Masculino na Década de 40: um remédio universal capaz de eliminar muitos males Profa. Dda. Roseli B. Klein Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória – PR (FAFIUV), Campus da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR). Email: [email protected] RESUMO O Colégio São José pertencente à Congregação dos Irmãos Pobres de São Francisco Seráfico, na cidade de Porto União, Santa Catarina, iniciou suas atividades como Escola Paroquial no ano de 1932. A princípio ofereceu a Escola Primária e a Escola Complementar, depois denominada de Escola Normal Regional Primária. No ano de 1940 foi elevado a categoria de Ginásio. No dia 17 de maio deste mesmo ano foi concedida a inspeção preliminar através da Portaria Ministerial no 91, do Ministério da Educação e Saúde Pública, assinada pelo Ministro Gustavo Capanema. Através de trabalho de catalogação de fontes primárias do acervo histórico desta instituição observou-se a existência de um movimento higienista muito intenso, na década de 40, verificado sob análise dos Relatórios de Regime Higiênico Dietético dos alunos internos do educandário e dos Relatórios de Educação Física. Documentos estes redigidos pelo Inspetor Federal responsável, e, enviados ao Departamento Nacional de Educação no Rio de Janeiro. A preocupação com a higiene estava relacionada com a intenção de cuidar da criança, livrando-a de moléstias: febre amarela, cólera, varíola, tifo, tuberculose e outras doenças do início do século XX, que dizimavam muitas crianças, diminuindo a expectativa de vida e a possibilidade de vêlas como sujeitos produtivos numa sociedade que se transformava. As medidas estavam voltadas para a repetição de hábitos de higiene que eliminassem a vulnerabilidade das doenças como: o asseio corporal e do ambiente, bem estar físico, ausência de doenças e alimentação saudável entre outros. Também a educação física higienista teve como meta resolver o problema da saúde pública pela educação, tornando a sociedade livre da letargia, da indolência e dos vícios deteriorados da saúde e do caráter do homem. O objetivo deste estudo é realizar uma análise sobre como estas práticas educativas, se tornaram uma alternativa mais acessível para não somente se atingir a higiene física, mas também a higiene moral, nesta instituição católica, cujos frades/ professores eram de origem alemã. Justifica-se esta investigação pelo fato do Colégio São José ser, na época, um colégio interno para meninos pertencentes à elite local e regional, responsável pela formação de importantes lideranças em vários setores sociais. A metodologia empregada utiliza-se de estudos bibliográficos tomando por base autores pesquisadores sobre o movimento higienista no Brasil, e, também se utiliza de uma pesquisa de campo junto às fontes primárias da instituição. Palavras- chave: Alimentação. Educação Física. Práticas Educativas INTRODUÇÃO A ênfase na construção de uma identidade nacional se intensificou no período republicano, onde educação e saúde interligaram-se como centro de atenção e preocupação dos intelectuais tornando-se objetos de intervenção do Estado. A elite aspirava a construção de uma nação através da modernização, e as reformas sanitárias e educacionais constituíam-se em estratégias de salvação. Esta preocupação se prolongou ainda durante o período do Estado Novo, momento em que se apresenta este estudo. Sob análise das fontes primárias do acervo histórico do curso ginasial do Colégio São José, no município de Porto União (SC), especificamente dos Relatórios do Regime Higiênico Dietético e dos Relatórios de Educação Física, durante a década de 1940, observa-se o rigor exigido quanto aos aspectos alimentares dos educandos internos, e, ao mesmo tempo, a disciplina rígida no trato com as questões relativas às aulas de Educação Física dos meninos. Ao ser criado o Ginásio, em 1940, havia pré-requisitos extremamente rígidos não sujeitos a quaisquer alterações, detalhadamente exigidos pelo Departamento Nacional de Educação no Rio de Janeiro, como condição para o bom funcionamento do estabelecimento de ensino e rigorosamente fiscalizado pelo Inspetor Federal de Ensino. Este remetia ao referido Departamento, pontualmente, o relatório bimestral das atividades desenvolvidas no educandário e redigia-o de forma minuciosa, sob a supervisão de um médico local. O COLÉGIO O colégio iniciou suas atividades no ano de 1932, no município de Porto União, estado de Santa Catarina, sob a denominação de Escola Paroquial São José, sob a supervisão dos frades pertencentes à Congregação dos Irmãos Pobres de São Francisco Seráfico, vindos da Alemanha. No Brasil a Congregação tem sua sede na cidade de Pindamonhangaba, no Estado de São Paulo. A escola primária iniciada em 1932 esteve organizada em 4 séries iniciais e em 1936 o Curso Complementar, já existente, através do Decreto Estadual no 173, de outubro deste mesmo ano, foi equiparado às Escolas Normais Primárias do Estado de Santa Catarina. No dia 17 de maio de 1940 foi concedida a inspeção preliminar pela Portaria Ministerial no 91, do Ministério da Educação e Saúde Pública, assinada pelo Ministro Gustavo Capanema, assim, o colégio passou a denominar-se Ginásio São José (MELO JÚNIOR, 1993). A criação de mais um grau de ensino, o Curso Ginasial, foi muito festejado por toda a comunidade, pois ainda não existia um colégio na região que oferecesse aos meninos esta modalidade de escolarização. Este acontecimento trouxe estudantes de localidades próximas e longínquas para receberem, o que se tinha na época, do mais refinado modelo educacional, moldando seu caráter e fazendo com que dentre estes educandos emergissem lideranças políticas, religiosas e sociais. De Escola Paroquial ainda precária, passou a Curso Ginasial formando a elite republicana. Os professores eram, na maioria, frades de ascendência alemã, que ao mesmo tempo pregavam a doutrina católica com o intuito de conquistar seu rebanho espiritual, e também tinham por objetivo oferecer um currículo oficial sugerido pelo Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, o qual foi considerado um ensino de excelência e deveria servir de modelo a todos os cursos secundários do Brasil. Este ensino necessitaria privilegiar um currículo científico, com línguas modernas européias, como o francês e o inglês utilizadas no universo cultural das elites. Deveria propor uma ênfase na gramática, tendo em vista que se queria contribuir com o processo de nacionalização da população brasileira evitando-se dialetos de culturas imigrantes, uniformizando a língua nacional. Segundo Dallabrida (2001, p. 92): O ensino da gramática normativa partia de exercícios da ortografia e desembocava em análises sintáticas detalhadas, passando pelos estudos morfológicos. Em todos os anos contemplava-se regularmente o exercício de redação, que iniciava com narrações e descrições simples e terminava com dissertações de maior fôlego, indicando a importância do aprendizado da arte de redigir. Além das disciplinas exigiam-se atividades físicas e esportivas que estimulassem os educandos a uma vida saudável e a manterem corpos sadios formando a nova nação brasileira de indivíduos de raça pura que a República queria instaurar. Eram comuns os torneios esportivos, as sessões práticas de educação física, a corrida, os saltos, a marcha, os desfiles, etc. Tal era a importância, que o Departamento Nacional do Rio de Janeiro propunha que as escolas ginasiais tivessem um espaço especial para a prática de esportes, materiais adequados, bem como equipamentos esportivos e piscina. Para tal foi construído um pórtico e um espaço coberto para a prática de educação física. Esta atividade física era aliada a formação recebida no Grupo Escoteiro, que existia em conjunto com a escola. Ações voltadas para área da saúde foram muito valorizadas na escola. O exame médico e biométrico era exigido no início e no final do ano letivo, sendo supervisionado pelo professor de educação física e por um médico voluntário que realizava este serviço. O resultado destes exames deveria ser enviado a um departamento especializado no Rio de Janeiro para fins de controle. Todo aluno ingressante ao ginásio necessitava apresentar um atestado médico e um comprovante de vacinação contra varíola. O educandário precisava estar equipado com aparelhos sanitários, água corrente, fossas sépticas, chuveiros, etc.. A alimentação dos alunos internos era verificada pelo Inspetor com periodicidade e descrita em forma de relatórios mensais, enviados ao Departamento de Regime Higiênico Dietético no Rio de Janeiro, a fim de fiscalizar se os mesmos estavam recebendo adequada alimentação. Todo este cuidado com a área da saúde se tornou uma prática da política republicana que tinha por objetivo fazer da escola um meio de formar uma nação brasileira ao mesmo tempo culta e saudável. Com esta apresentação resumida destaca-se a importância que teve o Curso Ginasial na década de 1940 para a formação dos jovens ginasianos de Porto União. Todo este rigor do trabalho docente foi efetivado com muita disciplina, amparado sempre por um Inspetor Federal que atuava como membro fiscalizador e motivador das ações da Instituição. Da pequena escola paroquial criada em 1932, em instalações improvisadas, passou a um moderno espaço físico. IDEAIS NACIONALISTAS Os ideais nacionalistas no Brasil, em 1920, já vinham sendo discutidos desde 1916 quando se formou a Liga de Defesa Nacional, que entre outras ações difundiu a instrução militar nas instituições, fundou as associações de escoteiros, avivou o estudo da história do Brasil e das tradições brasileiras. Estes ideais levaram ao desencadeamento do processo de nacionalização da escola primária, tendo em vista que se tratava de um grau de ensino freqüentado por descendentes de imigrantes, muitas vezes, no seu próprio núcleo de imigração (NAGLE, 1976). Esta atitude deveria prevenir o desaparecimento da língua Pátria em virtude do surgimento da língua e dos costumes dos imigrantes europeus. Após a consolidação deste propósito a idéia de nacionalizar se amplia para outros graus de ensino. De acordo com Dallabrida (2012, p. 169): Durante o Estado Novo, sob o comando do ministro da educação Gustavo Capanema, foram realizadas várias reformas parciais na educação escolar brasileira – as chamadas “Leis Orgânicas do Ensino”. Trata-se de um conjunto de decretos-leis imposto à sociedade brasileira, pela ditadura getulista, com o intuito de centralizar e nacionalizar os diferentes níveis de ensino. O decreto-lei no 4244 de 9 de abril de 1942 estabelecido pela Lei Orgânica do Ensino Secundário, em seu artigo 22 reestruturou o ensino secundário em dois ciclos: um primeiro ciclo que se chamava ginasial e um segundo ciclo, subdividido em clássico e científico. Segundo Romanelli (1999) ambos os ciclos tinham um caráter de cultura geral e humanística em seus currículos acrescentando prestígio aos educandos que os cursassem. Neste prestígio estava incluída a formação dos alunos com base num espírito patriótico e num corpo saudável. Manter um corpo saudável fez parte dos princípios higienistas adotados pelo sistema educacional brasileiro, uma prática instaurada no início do século XX que se prolongou pela década de 1940. “A criança passou a ser objeto de intervenção educacional sistematizada pela escola quando a família passou a ser alvo de intervenção das ações médico-higienistas com o advento da modernidade” (JUNIOR; BOARINI, 2007); esta preocupação parte dos médicos higienistas que salientavam as condições insalubres das aglomerações urbanas que se intensificavam no Rio de Janeiro e outros locais, apresentando-se como solo fértil para a proliferação de doenças. Era necessário estabelecer normas e hábitos para conservar a saúde coletiva e individual. A sociedade brasileira, no início do século, aspirava a modernização. O atraso econômico e social pelo qual passava o país foi creditado ao pensamento de que o Brasil estava constituído por raças inferiores com baixa capacidade produtiva. Estas raças inferiores poderiam ser recuperadas oferecendo-lhes melhores condições sociais e de saúde. O papel da educação era, portanto, corrigir os defeitos e/ou promover o ajustamento dos desadaptados como forma de alcançar o progresso desejado (JUNIOR; BOARINI, 2007). A partir da década de 1930 a cultura brasileira superou as teorias sobre raça, e a preocupação do recém formado Estado Nacional de Getúlio Vargas estava centrada no desenvolvimento social, impondo estas explicações para o atraso do Brasil, como já pregavam os escritores modernistas (MARQUES apud GOIS JUNIOR, p. 132, 2000). Fernando de Azevedo, como diretor geral da Instrução Pública do Distrito Federal entre 1926 e 1930 e defensor das idéias escolanovistas, tentou organizar uma escola com a prática de hábitos higiênicos e saudáveis. No seu programa a educação higiênica e a educação física tiveram lugar central. A escola nova defendida por Fernando de Azevedo deveria ser dotada de edifícios amplos e arejados que inculcassem nos educandos hábitos higiênicos que se difundissem em todos os lares através da educação; o investimento do Estado neste setor e na saúde precisaria receber destaque; o povo necessitaria adquirir qualidades físicas e intelectuais necessárias para alavancar o progresso econômico; as condições sociais deveriam ser melhoradas para se garantir a saúde da população, estas eram as reivindicações deste educador e também do meio político, das produções literárias e didáticas e de outras produções culturais (BORGES; BOARINI, 2006). ALIMENTAÇÃO ESCOLAR Por se tratar de um colégio de regime interno havia a preocupação em verificar se a alimentação oferecida aos alunos correspondia aos critérios estabelecidos pela Comissão de Alimentação do Departamento Nacional de Educação no Rio de Janeiro. O Inspetor Federal realizava uma verificação do preparo do cardápio mês a mês e enviava à referida Comissão para que fosse avaliado e sugestões fossem apontadas. O Relatório do mês de abril de 1940 foi endereçado ao Exmo. Sr. Dr. Abgar Renault, D.D Diretor Geral do Departamento Nacional de Educação, no Rio de Janeiro, conforme transcrição que segue (COLÉGIO SÃO JOSÉ, 1940): Dando cumprimento aos termos da portaria Nº132 de 2 de maio do ano p.p., passo às mãos de V. Excia. O relatório referente ao regime higiênico-dietético deste Ginásio. Em ação conjunta com o Dr. Lauro Soares, inspecionamos os dias 16 e 17 de abril p.p., os gêneros alimentícios, o modo de preparo dos alimentos e as refeições dos alunos deste Ginásio. Durante nossas visitas tivemos oportunidade de constatar serem de primeira qualidade os gêneros alimentícios; assistimos o preparo dos alimentos, o qual é escrupulosamente asseado. Quanto às refeições dos alunos, são as mesmas rigorosamente sadias. As refeições dos alunos, quando de nossas visitas eram as seguintes: Dia 16 Pequena refeição da manhã - Leite, café, pão e manteiga. Almoço - sopa de sagu, cozido de carne com várias verduras, salada de alface e cenouras. Bananas. Jantar - sopa de lentilhas, picadinho com abóbora, carne em fatias, arroz, feijão, farinha, salada de repolho e agrião. Goiabada. Dia 17 – Almoço Rosbife com salada de alface, bolinho de arroz, farinha, feijão, salada de alface. Bananas. Jantar - Sopa Juliana, bife com ovos, fígado assado, arroz, feijão, farinha, salada de repolho e cenouras. Abacate. Observação: O estado sanitário do Ginásio é excelente. Sem mais aproveito o ensejo que se me depara para reiterar a V. Excia. com elevado apreço, os renovados protestos da minha mais alta consideração. Saúde e Fraternidade. Dr. Lauro Soares (médico) e Elpídio Caetano da Silva (Inspetor Federal). 8 de maio de 1940. Em maio do mesmo ano foi enviado outro relatório (COLÉGIO SÃO JOSÉ, 1940): [...] As refeições dos alunos são sadias e racionais. O cardápio nos dias das nossas visitas era o seguinte: Dia 7- Pequena refeição da manhã - Leite, pão, café e manteiga. Almoço - Sopa de macarrão, carne assada em fatias, pirão de batatas, salada de alface. Laranja. Jantar - Sopa Juliana, rosbife, feijão, arroz, bolinhos de cenouras, farinha, salada de agrião, Laranjas. Dia 8 – Almoço Sopa de feijão, cozido de carne com várias verduras, salada de repolho e cenouras, farinha. Bananas. Dia 29 – Jantar - Sopa de sagu, carne em fatias, picadinho com abóbora, arroz, farinha, salada de alface. Goiabada. Dia 30 – Almoço - Sopa de aletria, ensopado de peixe, feijão, arroz, farinha, salada de agrião. Laranja. Dia 31- Jantar - Sopa Juliana, macarronada, carne assada, bolinho de miolos, arroz, salada de alface. Laranjas. Observação: O estado sanitário do Ginásio é excelente. Sem o mais aproveito o ensejo que se me depara para reiterar a V. Excia. Com elevado apreço, os renovados protestos da minha mais alta consideração. Saúde e Fraternidade. Dr. Lauro Soares (médico) e Elpídio Caetano da Silva (Inspetor Federal). 4 de junho de 1940. A Comissão de Alimentação do Rio de Janeiro, sob a responsabilidade do Dr. Ruy Coutinho, tendo recebido o referido relatório, avaliou o cardápio a fim de verificar se a alimentação oferecida estava de acordo com os princípios da boa nutrição. Entretanto, não são raras às vezes, que a Comissão elabora sugestões nutricionais a fim de prevenir várias doenças ocasionadas pela má alimentação. Com o intuito de melhorá-la envia correspondência ao Inspetor do Colégio São José para que este tome as providências cabíveis (COLÉGIO SÃO JOSÉ, 1940): Departamento Nacional de Educação. Comissão de Alimentação. Rio de Janeiro. D.F, em 20 de junho de 1940. Sr. Elpídio Caetano da Silva, Inspetor do Ginásio São José. Porto União, Santa Catarina. Senhor Inspetor: o diretor Geral do Departamento Nacional de Educação recebeu o seu relatório sobre o regime higiênico-dietético do São José em maio p.p. Não convém fornecer bolinhos. Estes exigem muita gordura para o seu preparo, o que os torna de digestão difícil. No jantar do dia 29, houve dois pratos de carne, o que é excessivo, cada refeição deve ter apenas um prato de carne, fígado ou peixe. Peço o favor de nos enviar às seguintes informações: número de alunos internos e semi-internos; consumo diário de leite e manteiga; consumo semanal de ovos; horário das refeições e o cardápio de toda a semana. Atenciosas Saudações. Dr. Ruy Coutinho, da Comissão de Alimentação do Departamento Nacional de Educação. O Chefe da Comissão de Alimentação do Rio de Janeiro envia material próprio para instrução higiênico - dietética. Um recurso que pode ser utilizado nas aulas com os alunos e, também, aproveitado para explicação aos pais sobre a importância da boa alimentação (COLÉGIO SÃO JOSÉ, 1940): [...] Remetendo-lhe o exemplar anexo das palestras de instrução higiênicodietética, elaboradas pelos Drs. Ruy Coutinho (alimentação) e Paulo Araújo (exercício e repouso), recomendo-lhe, de ordem do Sr. Diretor. Geral, lê-las e comentá-las em reuniões especiais, de 10 a 15 minutos, que se realizarão quinzenalmente e para as quais deverão ser convidados os professores e os pais dos alunos. É aconselhável que nas aulas de ciências os ensinamentos sobre alimentação sejam aproveitados para explicação e ilustração dos assuntos conexos e, quando possível, em trabalhos práticos, e outros exercícios didáticos. No refeitório dos Colégios deverão ser afixados, em cópia legível, os dispositivos do item 1 da portaria Nº 153, reimpressa no folheto das palestras. Saudações. Dr. Carlos Sá. Chefe de Comissão de Alimentação do Departamento Nacional da Educação. 20 de setembro de 1940. Ainda em outubro do mesmo ano, há um convite da Comissão de Alimentação, reforçando novamente a importância de uma alimentação saudável, desta vez, por parte do Senhor Abgar Renault, Diretor Geral do Departamento Nacional de Educação (COLÉGIO SÃO JOSÉ, 1940): [...] Tenho o prazer de remeter-vos, em volume, as palestras, sobre a alimentação nos Colégios como complemento à portaria nº 153, de 2 de maio de 1939. Nesse trabalho encontrareis esclarecimentos do mais alto valor para a interpretação do pensamento oficial no que diz respeito à defesa do organismo do estudante e espero tomeis as providências ao vosso alcance para que aqueles folhetos sejam entregues, em meu nome, aos professores do estabelecimento que dirigis. Para que finalidade mais alta seja alcançada, lembro-vos a conveniência de serem as referidas palestras lidas e comentadas em reuniões especiais, de 10 a 15 minutos, que deverão realizar-se quinzenalmente e para as quais deverão ser convidados os professores e os pais dos alunos, por forma que o regime higiênico-dietético seja considerado, não como uma imposição feita ao acaso, mas como medida, cujo resultado visa à defesa do indivíduo e ao engrandecimento da coletividade. Inútil será repetir que este Departamento encara o problema da alimentação nos Colégios como questão da mais alta relevância. É necessário, que conjugueis os vossos esforços e toda a vossa boa vontade à ação da administração federal, colaborando na realização da tarefa educativa a que se dá início no campo, até agora obedecendo, da alimentação dos escolares brasileiros. Atenciosas Saudações. Abgar Rennaut. Diretor Geral. Porto União em 2 de outubro de 1940. AS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA Quanto às aulas de Educação Física e ao material utilizado, há no relatório de 1942 uma ficha descritiva elencando algumas informações, conforme quadro 1 a seguir (COLÉGIO SÃO JOSÉ, 1942): Endereço: Rua José Boiteux, 676. Porto União. Estado de Santa Catarina. Internato, semi-internato ou externato? Todos. Quantos turnos? Dois: manhã tarde Número de alunos: 11 a 13 anos – 13 a 16 anos – 16 a 18 anos – mais de 18. TOTAL Masculinos 32 48 12 5 A educação física é ministrada no estabelecimento? Sim Desde que ano? 1940. Qual o Método de Ed. Fís. Adotado? Francês Quantas sessões por semana para cada turma? Três. Qual o horário? Anexo. Quem dirige as do sexo masc.? Prof. Antônio Homéro Ramos. Desde quando? 1940. É especializado? Sim. Por onde? Pela Escola de Ed. Física de Florianópolis. Qual a natureza do diploma? Oficial. Qual a remuneração? 200$000. É registrado como professor de Ed. Física? Não. Mantém assistência médica à Ed. Fís.? Sim. Nome do médico? Dr. Lauro Soares Coutinho. É especializado em Ed. Fís.? Não. Em que época há a assistência médica? Março e Novembro. O educandário possui área livre e apropriada aos exercícios? Sim. Quais as suas dimensões? 90 x 50. Possui Ginásio? Não. Tem piscina? Sim. Quais as dimensões? 10 x 15. Qual o processo de tratamento da água? Água corrente. Está situada próximo do rio. A que distância? Mais ou menos 400ms. Possui vestiário? Sim. Qual a sua capacidade? 15. E Chuveiros? Sim. Quantos? 10. Dispõe de material fixo para os exercícios? Sim. E móvel? Sim. Dispõe de instalações e material biométrico? Sim. Qual o uniforme de educação física? Calção preto e camiseta branca. Há no estabelecimento alguma agremiação desportiva? Sim. Qual a denominação? Botafogo Futebol Clube Distintivos? Sim. Uniforme? Sim. Mantêm alguma publicação? Não. 97 Quadro 1 – Ficha de Informações sobre Educação Física. Fonte - COLÉGIO SÃO JOSÉ. Caixa Arquivo 003. Documentos Diversos. Porto União; Santa Catarina, 1942. Através do quadro anterior é possível verificar que o curso ginasial estava dotado de uma boa infra-estrutura com equipamentos esportivos para a prática de educação física e também com piscina, chuveiros e vestiários... Quanto ao método ministrado, adotava-se o método Francês, segundo Goellner (apud GOIS JUNIOR, 2000, p. 150): [...] o método francês estava preocupado em exigir práticas físicas que possibilitassem a economia do esforço e a execução dos exercícios. Era um estudo anatomo-fisiológico que procurava determinar o aperfeiçoamento do gesto técnico. Ou seja, o movimento deveria ser executado com o menor dispêndio de energia possível. Na França este método foi amplamente utilizado, colaborando com a formação de um homem apto ao trabalho industrial e de um bom soldado. “Os higienistas consideravam que o método poderia auxiliar no desenvolvimento físico e moral da população, o que significava desenvolvimento econômico para a nação” (GOIS JUNIOR, 2000, p. 150). Os higienistas brasileiros perceberam que este método era mais científico e sendo as atividades físicas prioridades do sistema educacional, foi amplamente divulgado entre os cursos ginasiais no período do Estado Novo. O quadro 2 apresenta o programa de Educação Física para o ano letivo de 1942. SETEMBRO OUTUBRO 2 1 9 10 11 12 77 2 2 2 1 3 13 2 1 3 4 2 1 4 19 3 2 2 2 3 3 2 3 20 1 2 1 1 1 5 2 MAIO 3 2 Lições física educação 9 10 grandes 2 1 Sessões de desportos individuais 2 Sessões de desportos coletivos Natação Excursões Sessões jogos de JUNHO JULHO ABRIL MARÇO Sessões de estudo de educação física 2 6 10 1 OBSERVAÇÕES DEZEMBRO TOTAL AGOSTO 3 ASSUNTO de NOVEMBRO NÚMERO DE SESSÕES DE TRABALHO POR MÊS 13 As sessões de jogos, desportos individuais, coletivos e natação serão oferecidas independentemente das aulas de Ed. Física. NATAÇÃO: Durante os meses de Junho, Julho e Agosto, as aulas de natação não serão possíveis devido ao Desfiles 1 1 2 4 rigoroso inverno. Exames Médico1 1 2 Biométricos Exames práticos 1 1 2 SOMA 23 19 9 19 21 21 19 26 157 Quadro 2 - Programa de Educação Física para o ano de 1942. Turma A. 4º grau ciclo elementar masculino. Fonte - COLÉGIO SÃO JOSÉ. Caixa Arquivo 003. Documentos Diversos. Porto União; Santa Catarina, 1942. Além do programa contido no quadro anterior, os relatórios apontam as seguintes práticas: evoluções ou rodas, flexionamentos, sessão preparatória envolvendo atividades com braços, pernas, tronco, combinados, assimétricos, caixa toráxica. As categorias envolviam: Marchar, Saltar, Levantar, Correr, Lançar, Atacar, Defender, Jogos (futebol). No programa são incluídos, ainda, os jogos de Voleibol, Bola ao Cesto, Lançamentos de Dardo, Disco e Peso e Natação. A figura 1 apresenta os materiais esportivos utilizados na época: Figura 1 – Materiais de Educação Física, 1942. Fonte - COLÉGIO SÃO JOSÉ. Caixa Arquivo 003. Documentos Diversos. Porto União; Santa Catarina, 1942. As atividades esportivas estavam presentes nas datas comemorativas. Na programação alusiva ao Dia da Juventude Brasileira, 1942, o programa consta, em sua primeira parte, de atividades cívicas e desfile, e, no segundo momento, de atividades esportivas competitivas: futebol (equipe do internato X externato); corrida do saco; corrida de três pernas; salto em altura; lançamento de dardo e disco; demonstrações nos aparelhos; corrida de obstáculos; cabo de guerra. Ainda no mesmo ano, as comemorações referentes ao Dia da Proclamação da República, contemplam: corrida de 100 m, corrida de 200 m, corrida de 800 m, corrida de estafeta 4 X 100 m, salto em altura, salto em distância, salto mortal, equilíbrio, lançamento de discos, lançamento de pesos, jogo de vôlei, partida de futebol. No ano de 1945, os Relatórios das Atividades de Educação Física enviados à Inspetoria Geral de Educação Física, no Rio de Janeiro, e, remetidos todos ao Major João Barbosa Leite, responsável pela mesma, foram redigidos mês a mês. Estes relatórios eram datilografados, e, os existentes em arquivo, são cópias dos originais, ainda datilografados sob papel carbono. O roteiro do relatório segue sempre a mesma estrutura, inicia com uma apresentação dos documentos que o compõe, na sequência as atividades realizadas como: lista de alunos, freqüência, atividades desenvolvidas, avaliações médicas e biométricas, competições esportivas realizadas no Colégio, campeonatos de futebol, e outras. Todas as atividades foram registradas com muito rigor e detalhes, incluindo até mesmo, os telegramas recebidos e enviados a referida Inspetoria, demonstrando a comunicação existente entre Colégio e a Inspetoria de Educação Física, respondendo a todas as exigências da época. CONSIDERAÇÕES FINAIS A princípio, a elite da sociedade brasileira tinha por meta garantir a eugenia da população, como forma de melhorar a espécie humana a partir da regeneração social usando como meio a escola com ações voltadas para a saúde (alimentação e atividades físicas). Num segundo momento se queria valorizar esta população existente e impor-lhe comportamentos alimentares, físicos e morais a fim de higienizar os costumes, conduzindo a um modelo ideal de ser humano. Desta forma, a educação escolar passou a ocupar papel de destaque no novo projeto higiênico da sociedade. A Comissão de Alimentação no Rio de Janeiro, não queria apenas verificar o cardápio adotado no colégio interno, mas o mais importante era a divulgação do material relativo à alimentação, que deveria ser usado para palestras com os alunos e os pais. Assim, esta educação alimentar se estenderia às famílias como forma de ampliar o alcance da proposta higienista, inculcando atitudes que desencadeariam, também, numa formação moral. Quanto às atividades de educação física, estas se espelhavam no modelo francês, cujos resultados estavam voltados para a formação de um homem apto ao trabalho, tendo em vista que a meta brasileira era tornar-se uma nação moderna. As sessões de educação física valorizavam as atividades individuais como forma de autocontrole, e, as coletivas como propostas de trabalho socializador. As atividades competitivas, em datas comemorativas, eram atração para a comunidade local, entretanto vinham sempre precedidas de uma sessão solene cívica (desfiles, hasteamento da bandeira, declamações, homenagens, celebração religiosa...). Este trabalho conjunto seria capaz de formar o caráter desta nova geração e prepará-la intelectualmente para assumir liderança em vários setores sociais. REFERÊNCIAS BORGES, Roselania Francisconi; BOARINI, Maria Lúcia. A Pedagogia de Manoel Bonfim: uma proposta higienista na educação. ANAIS. COLUHE 6. 2006. DALLABRIDA, Norberto. A Fabricação Escolar das Elites. O Ginásio Catarinense na Primeira República. Florianópolis; Santa Catarina: Cidade Futura, 2001. DALLABRIDA, Norberto. Usos Sociais da Cultura Escolar Prescrita no Ensino Secundário. Revista Brasileira de História da Educação. v. 12, n. 1 (28). Jan/abril 2012. p. 167-192. GOIS JUNIOR, Edivaldo. Os Higienistas e a Educação Física: a história de seus ideais. Dissertação. Rio de Janeiro: PPGEF Universidade Gama Filho, 2000. JUNIOR, Durval Wanderbrook; BOARINI, Maria Lúcia. Educação Higienista, Contenção Social: a estratégia da Liga Brasileira de Hygiene Mental na criação de uma educação sob medida. ANAIS. VII Jornada do HISTEDBR. 2007. MELO JÚNIOR. Cordovan Frederico de. História do Colégio São José. Porto União; Santa Catarina: Uniporto, 1993. NAGLE, Jorge. Educação e Sociedade na Primeira República. São Paulo: Editora universitária e Pedagógica, 1974. ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da Educação no Brasil. 23 ed. Petrópolis; Rio de Janeiro: Vozes, 1999. VAGO, Tarcísio Mauro. Início e Fim do Século XX: Maneiras de fazer educação física na escola. Campinas; São Paulo: Caderno Cedes. v. 19, n 48. ago 1999. FONTES PRIMÁRIAS COLÉGIO SÃO JOSÉ. Caixa Arquivo 001. Documentos Diversos. Porto União; Santa Catarina, 1940. COLÉGIO SÃO JOSÉ. Caixa Arquivo 003. Documentos Diversos. Porto União; Santa Catarina, 1942. COLÉGIO SÃO JOSÉ. Caixa Arquivo 006. Documentos Diversos. Porto União; Santa Catarina, 1945.