SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: Acontecimento: a inversão na relação entre jornalista e fonte de informação evidenciada no blog da Petrobrás Eloisa Beling Loose1 Sabrina Franzoni2 Resumo: Este artigo trata sobre a articulação entre o acontecimento jornalístico e acontecimento discursivo, tomando como exemplo um caso de inversão de lugares de fala, na relação entre a fonte de informação e o jornalista. Esse deslocamento ocorreu quando a Petrobrás, em junho de 2009, divulgou, em seu blog, a entrevista feita pelo jornal O Globo, com as perguntas que foram feitas a estatal e suas respectivas respostas, antes da publicação da matéria no veículo jornalístico. Essa situação criou outro lugar de fala para a fonte, rompendo com o habitual processo de produção da notícia e repercutindo com ênfase no interior do campo midiático. Nessa perspectiva, ao eleger para a análise o discurso do jornal O Globo, explicita-se o uso das estratégias de autoreferencialidade como legitimadora do seu discurso e desestabilizador do da Petrobrás. Palavras-chave: jornalismo; acontecimento; discurso; estratégias; autoreferencialidade. 1. Considerações Iniciais Propõe-se discutir a inversão do lugar de fala das fontes jornalísticas a partir da articulação dos conceitos de acontecimento jornalístico e acontecimento discursivo. Para tanto, toma-se como exemplo dessa mudança da relação entre a fonte e o jornalista, o caso da divulgação, pela Petrobrás, das perguntas feitas pelo jornal O Globo e as respostas dadas pela estatal, em seu blog3 Fatos e Dados, antes da veiculação da 1 Jornalista. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: [email protected]. 2 Jornalista. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Membro do Núcleo de Pesquisa em Jornalismo - CNPq (NUPJOR). Email: [email protected]. 3 O blog institucional da Petrobrás surgiu na internet no dia 1º de junho. Segundo a empresa: “Neste blog, apresentaremos fatos e dados recentes da Petrobrás e o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Leia, comente e divulgue para seus amigos’”. Nos 7 SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: matéria pelo referido veículo de comunicação. Para essa análise, utilizam-se as manchetes e as respectivas cartolas de duas notícias publicadas pelo jornal O Globo, e, veiculadas logo após o ocorrido, que ilustram o debate sobre a inversão de “fala” e as alterações que possam ter motivado a transformação desse acontecimento em notícia. Toma-se dos enunciados, a palavra ‘vazar’ e suas derivações, presentes na manchete da notícia publicada do dia 6 de junho de 2009 “Petrobrás vaza em seu blog informações obtidas por jornalistas”, e, na chamada, do dia 9 de junho de 2009 “Imprensa: entidades criticam Petrobrás por vazar em um blog informações obtidas pelos jornalistas”, como centrais para explicitar tanto uma relação com a noção de “antecipação” quanto com a de “quebra de confiabilidade”. Essa construção e ressignificação dos sentidos se estabelecem numa ruptura, mesmo que momentânea, das relações entre a instituição Petrobrás – fonte de informação e o jornal O Globo – empresa de comunicação. Com isso, o jornal tem alterada a maneira “naturalizada” de se relacionar com a estatal, desestabilizando a prática já estabelecida de coletar informações e divulgá-las com exclusividade. Além disso, nessas notícias, identificam-se alguns recortes que mostrem as estratégias de autoreferencialidade como conectoras entre o acontecimento discursivo e jornalístico. Essa nova situação que antecipa as informações jornalísticas em um espaço que não é o do jornalismo e que ‘envelhece’ ou ‘fura’ a pauta pensada pelo jornal frente ao público, pode ser vista, ao mesmo tempo, como um acontecimento jornalístico e discursivo. Tal engendramento é percebido através de estratégias de autoreferencialidade, entendidas como aquelas que articulam um meio de comunicação a outro(s) por meio da citação em outro. Atualmente essas estratégias são muito comuns no campo midiático4: jornais, canais de televisão e, principalmente sites de informação costumam trazer links que remetem a fatos, dados e/ou acontecidos em outros veículos. (sete) primeiros dias recebeu mais de 100 mil acessos, conforme o Blog do Noblat e Mistura Fina e provocou manifestações da grande mídia. O jornal O Globo o considera como ‘chapa branca’. 4 O campo midiático inclui todos os discursos veiculados na mídia, entre eles o jornalístico, o ficcional, o de entretenimento, o publicitário, etc. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: 2. Articulação entre o Acontecimento Jornalístico e o Discursivo Para o campo jornalístico, o acontecimento pode ser visto como aquele fato que supera os obstáculos vinculados aos valores-notícia e consegue adentrar o espaço das redações para transformar-se em produto jornalístico. Sob esse ponto de vista, além de revelar certa atualidade (intrínseca ao acontecer), o acontecimento jornalístico deve demonstrar algo inusitado, imprevisto ou relevante publicamente. Com isso, o discurso jornalístico – chamado também de discurso do acontecimento – busca sempre pelo efeito de realidade e pelos registros de notabilidade de excesso, de falha, de inversão. Conforme Adriano Rodrigues “o discurso do acontecimento pertence ao mundo do acidente ele deixa vestígios e altera a substância do mundo das coisas, sendo imprevisível” (RODRIGUES, 1990, p.30). A ênfase no ‘acidente’ será relativizada em Antunes (2008), ao afirmar que somente num primeiro momento o acontecimento jornalístico está fortemente relacionado à ruptura, como emergência do novo5. Este autor lembra, citando Charaudeau (2006), a necessidade de se levar em conta os critérios internos da produção do discurso jornalístico, responsáveis pela definição dos valores que tornarão o acontecimento algo compreensível e inteligível: Ocorre, assim, que o jornalismo também opera exatamente em direção oposta a essa idéia de ruptura, promovendo a integração do “novo” às categorias do já existente, como construído pelo sistema de informação e pela própria experiência social. Há, pois, uma figuração dos acontecimentos com base em uma estrutura arquetípica, há um padrão que retém alguns acontecimentos e despreza outros, os fatos visam os acontecimentos procurando de certa maneira estabilizá-los. (ANTUNES, 2008, p. 4) Assim, juntando as categorias do ‘novo’ ao do ‘já existente’, esse autor mostra que ao pautar um assunto e dar a ele um determinado enfoque, os meios de comunicação estão fornecendo um espaço de articulação social em que valores, percepções e significados estão sendo interpretados com base em uma estrutura arquetípica. O jornalis5 Adriano Rodrigues caracteriza o acontecimento jornalístico como “tudo aquilo que irrompe na superfície lisa da história entre uma multiplicidade aleatória de factos virtuais. Pela sua natureza, o acontecimento situa-se, portanto, algures na escala das probabilidades de ocorrência, sendo tanto mais imprevisível quanto menos for a sua realização” (RODRIGUES, 1993, p.27). SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: mo é fortemente condicionado por uma série de convenções estilísticas e mitológicas que fornecem ao público uma percepção de um relato da realidade. Para Fausto Neto (1991), os jornais constroem referências amparadas no cotidiano que possuem e do lugar de onde se situa permite que seus discursos ordenem conceitos e valores, estabelecendo o lugar do bem e o do mal. Nesse âmbito de poder simbólico6, a notícia acontece como elo do discurso e, não há discurso que para ter acesso ao debate público, não se submeta a seleção jornalística. Nas sociedades tradicionais eram os mitos que asseguravam o quadro de referência comum da experiência do mundo, hoje são os discursos midiáticos que surgem como nova modalidade organizadora da experiência do aleatório. Ao invés de somente produzir notícias sobre a atualidade dos eventos, hoje os meios de comunicação também alavancam acontecimentos. Para, além disso, precisa-se ter em mente que a idéia de acontecimento jornalístico só existe em função do espaço midiático. Os fatos só se tornam acontecimentos porque são midiatizados, disponibilizados a um vasto público heterogêneo devido ao olhar jornalístico. Essa é a opinião de Rodrigues (1993), ao falar que os registros da notabilidade dos fatos são muitos, porém é o dispositivo de visibilidade universal (intrínseco ao campo da mídia) que favorece o discurso do acontecimento, aquele que assegura uma identificação, uma referência com as pessoas, com as instituições e com as coisas. De maneira semelhante, Charaudeau (2006) observa que o acontecimento midiático (no qual está inserido o jornalístico) é sempre construído, é uma visão social do mundo: O acontecimento se encontra nesse “mundo a comentar” como surgimento de uma fenomenalidade que se impõe ao sujeito, em estado bruto, antes de sua captura perceptiva e interpretativa. Assim sendo, o acontecimento nunca é transmitido à instância de recepção em seu estado bruto; para sua significação, depende do olhar que se estende sobre ele, olhar de um sujeito que o integra num sistema de pensamento e, assim fazendo, o torna inteligível. (CHARAUDEAU, 2006, p.95) Na sua concepção de acontecimento midiático são citados três operadores que atuariam na sua construção: o da ‘atualidade’ (avaliado segundo a distância espaço6 Sobre o poder simbólico ver Bourdieu (1997). SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: temporal que separa o átimo da aparição do fato até o momento da informação), o da ‘socialidade’ (avaliado segundo a aptidão em representar o que acontece num mundo em que nada está organizado coletivamente) e o da ‘imprevisibilidade’ (que tem o objetivo de capação no contrato de informação). Tais operadores possuem co-relação com os critérios de noticiabilidade embutidos nas Teorias do Jornalismo. A partir dessas referências, evidencia-se o que é o acontecimento discursivo e quais as possíveis relações que ele tem com o acontecimento jornalístico. No caso da disponibilização das perguntas do jornal O Globo pelo blog institucional da Petrobrás junto com as respostas dadas pela empresa, entende-se que sua repercussão pelo próprio jornal nas matérias “Petrobrás vaza em blog informações obtidas por jornalistas” e “Imprensa: entidades criticam Petrobrás por vazar em um blog informações obtidas pelos jornalistas” por si só, é o como acontecimento jornalístico. O acontecimento discursivo estaria na ruptura ou no deslocamento da forma, que alteram tanto a relação dos jornalistas e das fontes de informação, pois a entrevista formulada pelo jornalista d’O Globo foi divulgada pela fonte antes da publicação da matéria, quanto os discursos produzidos nessa mesma relação. Toma-se, então, o acontecimento discursivo como a junção entre a ação de “antecipação” e o formato “questionário-resposta” divulgado pela Petrobrás em seu blog, Fatos e Dados, percebe-se, que, esse evento mobiliza tanto a temporalidade quanto à discursividade, estabelecendo uma relação paradoxal entre o acontecimento jornalístico e o discursivo. Para esse encadeamento reflexivo é necessário recorrer ao referencial teórico-metodológico da análise do discurso de filiação francesa, que contribui para tecermos relações entre os textos e sua rede de significados. Sob o enfoque da temporalidade, considera-se que algo é acontecimento enquanto diferença na sua própria ordem. Pelo ângulo do jornal O Globo, que identifica a “antecipação” da divulgação com “vazamento” de informação, a ação da Petrobrás é categorizada como uma “violação de sigilo” por parte da fonte “com os órgãos de imprensa”. Dessa forma, o jornal tem alterada a, já naturalizada, maneira de se relacionar com a instituição Petrobrás, sofrendo uma desestabilização em sua prática de coleta de informação. Nesse momento, há um estranhamento. Por isso, no caso em questão, a diferença se dá pela desconformidade com a prática estabelecida, instaurando a partir desse SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: acontecimento, uma temporalidade própria. Como bem nos apresenta Eduardo Guimarães, ao refletir sobre o acontecimento como algo que não está num presente de um antes e de um depois do tempo do acontecimento: [...] este presente e futuro próprio do acontecimento funcionam por um passado que os faz significar. O passado é no acontecimento, rememoração de enunciações, ou seja, se dá como nova temporalização, tal como a latência de futuro. É dessa maneira que o acontecimento é diferença na sua própria ordem. O acontecimento é sempre uma nova temporalização, um novo espaço de conviviabilidade de tempos, sem o qual não há sentido, não há acontecimento de linguagem (GUIMARÃES, 2002, p. 123). É na compreensão dessa temporalização do acontecimento que se faz perceber a convivência de tempos distintos. Isto é, a latência tanto de passado, de práticas estabilizadas na relação da imprensa com fontes de informação, rememoradas nas relações cotidianas, como as de futuro, do que há por vir, promovendo o deslocamento de sentidos, resignificando o papel da fonte nos textos veiculados pelo O Globo. O acontecimento discursivo é apreendido, assim, não mais somente como uma ruptura, mas como um deslocamento, na consistência de enunciados que se cruzam nesse momento dado. Michel Pêcheux (2006)7, teórico da análise do discurso, explica que em um acontecimento o que está em questão são as discursividades que trabalham esse acontecimento, entrecruzando proposições de aparência logicamente estável, susceptíveis de respostas unívocas e formulações irremediavelmente equívocas. Com isso, investiga as relações do descritível e do interpretável, reconhecendo a existência de vários tipos de “real” (Pêcheux, 2006, p. 28). A partir dessa noção de acontecimento discursivo, percebe-se, então, um duplo movimento, que hora desestabiliza o discurso, em virtude da relação intrincada com o acontecimento, e que hora, em virtude da absorção e acomodação desse mesmo acontecimento, o estabiliza. 7 Para explica o acontecimento discursivo Pêcheux usa como exemplo o termo “on a gagné”, expressão traduzida como “ganhamos”, que era utilizada comumente como um grito de torcida de futebol, e foi reutilizada quando François Mitterand, vence as eleições na França, acontecimento do dia 10 de maio de 1981, quando em praça pública, lentamente, às 20hs, os telões, apresentam a imagem recomposta eletronicamente do futuro presidente. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: Nesse lugar de articulação entre a memória e o esquecimento8 – a estabilização e a desestabilização - é que podemos situar o discurso da mídia, ao provocar a ativação de certos fatos tornados acontecimentos, ou promover o esvaziamento de outros tantos, sujeitos ao apagamento. Para Maria Cristina Leandro Ferreira (2008), o discurso midiático promove um processo de saturação pelo excesso de informação despejada sob a forma de um elástico e descontínuo espectro de assuntos: Do mesmo modo como somos invadidos e nossos arquivos preenchidos por tantos sentidos “evidentes”, precisamos esvaziar com a mesma urgência esses reservatórios, pois eles têm de estar aptos a receber atualizações constante, o que demanda espaço disponível. E por aí segue o processo de saturação e esvaziamento incessante da memória. (FERREIRA, 2008, p. 14) No campo jornalístico pode-se notar esse efeito de esvaziamento de sentido para fazer aparecerem outros, através do encadeamento discursivo “da fala” das diversas fontes que são acionadas pelo sujeito-jornalista na produção da notícia, que se inicia com um acontecimento. O elo entre acontecimento-fonte-notícia é básico para a construção da realidade jornalística, pois é o sujeito observador que confere sentido ao acontecimento. Como nos diz Miquel Alsina (2009) “os acontecimentos estariam formados por aqueles elementos externos ao sujeito, a partir dos quais ele mesmo reconhecerá e constituirá o acontecimento” (ALSINA, 2009, p. 113). Esta é uma das reflexões possíveis, a ser discorrida na análise interpretativa do corpus, constituída pelas textualizações de O Globo e referentes à divulgação de informações pelo Blog da Petrobrás. 8 Orlandi (2001) comenta que segundo Michel Pêcheux (1975) podemos distinguir duas formas de esquecimento no discurso. O esquecimento número dois é enunciativo, o sujeito ao pronunciar uma palavra, esquece de outras que poderiam ser distas ali. Esse esquecimento refere-se à ilusão que o sujeito tem de controlar o que diz, de supor existir uma correspondência direta entre linguagem e o mundo. Em relação ao esquecimento número um, também chamado de esquecimento ideológico, o sujeito é afetado pela ilusão de ser a origem do que diz, como se as palavras brotassem no momento em que são ditas e surgissem nele mesmo no momento da enunciação. De acordo com esse esquecimento temos a ilusão de ser a origem do que dizemos quando, na realidade retomamos sentidos pré-existentes. (ORLANDI, 2001, p. 34-36) SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: 3. Estratégias de autoreferencialidade do campo midiático As estratégias de autoreferencialidade estão intimamente ligadas à questão do agendamento, à questão de quais fatos irão se tornar acontecimentos. A seleção do que poderá ou não ter espaço no âmbito jornalístico além dos valores-notícia, requer que os profissionais da área façam uso de estratégias que promovam um efeito de sentido de verdade, de testemunhalidade. É preciso que o dito seja amparado em vestígios do real, em relatos de pessoas que entendem e/ou presenciaram o fenômeno. Essas estratégias estão articuladas a referencialidade e transmitem uma sensação de confiança aos públicos. A autoreferencialidade da esfera midiática é um processo contemporâneo no qual o sistema refere-se a si mesmo para ‘comprovar’, legitimar o que diz, o que transforma em acontecimento. Ferreira (2005) fala da autoreferencialidade que existe dentro de um mesmo grupo ou veículo de comunicação. [...] Os conteúdos jornalísticos auto-referenciais caracterizam-se essencialmente pela abordagem da actualidade ligada à empresa proprietária do meio de comunicação ou com o próprio acontecimento, processo e/ou temática ligado à actividade dos meios/empresas e grupos econômicos de comunicação. Os conteúdos jornalísticos referenciais abordam acontecimentos, processos e temáticas relevantes para o grupo econômico proprietário da empresa/meio de comunicação social que o difunde promovendo sua visibilidade e imagem pública de forma directa ou indirecta, de modo organizado e coerente (FERREIRA, 2005, p. 130). Aqui se extrapola a idéia de estratégias de autoreferencialidade veiculadas somente no interior de meios de comunicação. Assume-se a premissa que a autoreferencia circula (de maneira positiva e/ou negativa) por todo campo jornalístico. Percebe-se que os profissionais da imprensa muitas vezes buscam respaldo entre seus pares para certificar e dar credibilidade às suas informações, criando um ciclo vicioso entre os jornalistas que buscam checar nos colegas os principais temas que auxiliam seu trabalho editorial. Dessa maneira, um acontecimento jornalístico em dado veículo pode vir a se tornar o fato de outro. Fausto Neto trata desse assunto: “o trabalho das operações de auto- SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: referência, gera um valor, o de um sistema que se basta, ao lado de suas realidades, para construir a sua e outras realidades” (FAUSTO, 2006, p.60). Entretanto, com um enfoque distinto, do proposto por Fausto Neto, a teórica Lúcia Santaella (2007), ao discorrer sobre os games, aborda a problemática da “auto referencialidade” ou da “reflexividade” da mídia, como uma questão da semiótica. Santaella envolve não apenas o discurso verbal, mas, sobretudo, os mais variados sistemas de signos: [...] não só a imagem, mas também as tradicionais formas híbridas de linguagem e comunicação (cinema, televisão), para culminar nas novas hibridizações sígnicas que populam nas hipermídias das redes de comunicação até atingir o seu paroxismo nos games. A autoreferencialidade ocorreria quando um discurso, um texto, um processo de signos, de certo modo, com maior ou menor intensidade, refere-se a si mesmo, ao invés de referir-se a algo de fora da mensagem transmitida (SANTAELLA, 2007, p. 430). Com isso, Santaella esclarece que quanto mais os tipos de mídias se multiplicam, mais aumenta a interação entre elas. A multiplicação das mídias tende a acelerar seus intercâmbios dinâmicos, resultando em uma proliferação de citações, repetições, intertextualidades e referências mútuas. Isso gera o fenômeno da interminalidade ou da hibridização, isto é, uma mistura de textos, discursos e processos sígnicos, que vai se constituir como uma das características mais centrais da cultura dita pós-moderna (SANTAELLA, 2007, p. 431). Este novo espaço de trocas e cruzamentos de mídias e processos sígnicos torna-se fértil e propício à expansão de todos os tipos de processos autoreferentes com a resultante impressão de que, em muitas ocasiões, o que a mídia faz é falar da própria mídia. A análise proposta neste artigo, próximo do que faz Santaella, desloca a atenção para as estratégias de autoreferencialidade imersas na web, um espaço de circulação intensa de informações. Isso porque esse acontecimento dá-se no cruzamento de discursos de um meio de circulação impresso e digital, o do jornal O Globo, com outro, de caráter somente virtual, o Blog da Petrobrás9. A comunicação digital cria, então, novas 9 Segundo Santaella, no livro Linguagens líquidas na era da mobilidade, uma das palavras de ordem do ciberespaço é “expor-se” e nada melhor para isso que criar um blog: “o termo deriva de web log. As versões em que os blogs se apresentam são as mais variadas: foto-blogs, áudio-blogs, vlogs, e ainda moblogs, estes atualizados a partir de tecnologias móveis: celulares, laptops, palmtops. O blog tem um caráter indi- SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: formas de relação com a materialidade do discurso, através do hipertexto e das infinidades de links, sendo o espaço propício para a interação. Assim, na averiguação do exemplo nota-se à intensa citação de meios de comunicação que são afetados ou não, mas que sofrem comentários e fazem referências entre si. Para se ter uma idéia, nas duas matérias publicadas pelo jornal O Globo, pelo menos cinco referencias são identificadas, tem-se na primeira, publicada dia 6 de junho, a citação dos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo e o blog Dados e Fatos da Petrobrás; na segunda, publicada dia 9 de junho, além de citar novamente os jornais brasileiros de referência, mencionou o site Observatório da Imprensa, o blog do jornalista Noblat, além de nomes de outros jornalistas e associações relacionadas à área. Essa referencialidade do campo jornalístico, ao ser encarada como uma ponte entre o acontecimento discursivo (a publicação da entrevista pelo blog) ao jornalístico (matérias sobre a repercussão e comentários em outros meios de comunicação), já trás indícios das estratégias de legitimação do discurso d’Globo. 4. Trazendo a Teoria para a Análise... Com base nos postulados teóricos citados, promove-se uma analise observando o diálogo entre os títulos e cartolas, através da verificação de como se inscrevem os sentidos na materialidade lingüística, construídos pelo e no discurso jornalístico. Lembra-se que este não é homogêneo e sim formado por falas antagônicas e/ou concordantes. Busca-se, assim, compreender o funcionamento discursivo a partir das redes de filiação entre a lembrança e o esquecimento. Delineando-se a relação entre a rede de significações que perpassam tanto o acontecimento discursivo como o jornalístico. Em primeiro lugar, debruça-se sobre os títulos das matérias publicadas no jornal O Globo: vidualizador, seja o indivíduo uma pessoa, uma instituição ou uma organização (Santaella, 2007, p. 181). Enquanto esta teórica enfoca o caráter individualizador e personalista do blog, Alex Primo, em Interação mediada por computar diferencia dois momentos distintos dos blogs: inicialmente “surgiram como uma ferramenta para os internautas disponibilizarem seus diários pessoais e suas impressões sobre os mais diversos assuntos”, permitindo apenas uma interação reativa; e, posteriormente, “com a incorporação do recurso de comentário, os blogs se tornaram verdadeiros fóruns para discussão, dos mais diferentes tópicos. “Um verdadeiro debate de fato passa a ocorrer entre os visitantes, nas janelas que se abrem para discussão, não se respondendo apenas ao responsável pela página” (Primo, 2007, p. 132.). SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: Quebra de confidencialidade Petrobras vaza em blog informações obtidas por jornalistas (O GLOBO, 06,06,2009)10 'Fatos e Dados' Imprensa: entidades criticam Petrobras por vazar em um blog informações obtidas pelos jornalistas (O GLOBO, 09,06,2009)11 Nos dois títulos pode-se observar a repetição da palavra ‘vazar’. Num primeiro olhar, nota-se o sentido de perda, prejuízo, pois para o jargão jornalístico ‘vazar’ informação remete à perda de exclusividade do conteúdo a ser noticiado. Por outro lado, o ‘vazamento’ também pode ter o efeito de sentido de antecipação, que está implícito, somente sendo acionado no decorrer do texto como justificativa para ação da divulgação da Petrobrás. Soma-se a isso, o fato da expressão ‘vazar’ ser típica do meio jornalístico, de uso comum, fazendo-se presente nas ‘falas’ dentro das redações. No entanto, ao ser posta como uma das palavras que compõe o título, espaço que tem por objetivo captar o leitor para a leitura da matéria, acaba por extrapolar esse lugar de “fala” da organização interna do fazer jornalístico. Assim, o ‘vazamento’, que se faz presente nas palavras utilizadas pelos jornalistas, através de uma expressão que remete à auto referência da mídia, é levado, por outro lado, ao público, com o intuito de demarcar o acontecimento, e não, no sentido de rememoração do que é intrínseco ao campo. Ainda, a partir dos títulos, identifica-se em “Petrobrás vaza em blog informações obtidas por jornalistas” o encadeamento discursivo que gera o acontecimento jornalístico. Nessa seqüência discursiva verificar-se que a ação da fonte (a Petrobrás) ter vazado a informação (antecipado, quebrado a exclusividade) do veículo de imprensa (O Globo) já caracteriza tanto o inusitado como a inversão. É nesse movimento que se identifica a alteração da concepção naturalizada da produção da notícia e além de ser significativo para verificar as motivações que levaram esse assunto a ser pautado na e pela mídia. 10 Matéria veiculada no Jornal O Globo, do dia 06/06/2009, com acesso pela internet http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/06/06/petrobras-vaza-em-blog-informacoes-obtidas-porjornalistas-756233232.asp. 11 Matéria veiculada no Jornal O Globo, do dia 09/06/2009, com acesso pela internet http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/06/08/imprensa-entidades-criticam-petrobras-por-vazar-em-umblog-informacoes-obtidas-pelos-jornalistas-756245246.asp. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: Na mesma seqüência discursiva, o operador de atualidade se faz presente, já que a empresa estatal ‘Petrobrás’ está em evidência devido às discussões relativas à CPI, que está em destaque na mídia. O sentido de ‘vazamento’ instaura a temporalidade do acontecimento, pois, ao mesmo tempo em que rememora outros acontecimentos que levaram até esse dado momento (por exemplo, o questionário enviado pelo O Globo para a Petrobrás), provoca um efeito de expectativa, de como irão se construir as relações entre fonte e imprensa, daqui para frente. É, ainda, por meio da expressão ‘vazar’ que o discurso se faz atual, por ser esse e não outro ‘vazamento’. A “quebra de confiabilidade”, destacada na cartola, está presente tanto na primeira quanto na segunda chamada, vinculada a “informações obtidas por e pelos jornalista(s)” que são vazadas pela Petrobrás. As manchetes parecem alertar para uma inversão de papeis, pois há um implícito, amparado no senso comum, de que quem tem o “direito” de vazar informações é o jornalista e não a fonte. Essa duas chamadas tem efeitos de sentidos muito semelhantes, criando um consenso em torno do discurso de critica a Petrobrás. Quanto à presença das estratégias de autoreferencialidade, várias seqüências discursivas identificadas nas duas notícias corroboram para apontar sua relevância na sustentação do discurso do jornal. A crítica a estatal apóia-se em lugares de ‘fala’, por princípio, antagônicos, isto é de entidades profissionais e de entidade empresarial, que na produção da notícia são usados para apresentar pontos de vista distintos. Mas que no caso em estudo, convivem harmonicamente sob o mesmo enfoque, reforçando a crítica ao vazamento, na internet, a partir das autoreferencias jornalísticas. Como mostra a sequência a seguir: A Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) condenaram nesta segunda-feira a Petrobras pelo vazamento, na internet, de informações obtidas pelos órgãos de imprensa. (O GLOBO, 09,06,2009) O que se busca sublinhar é que esse fato transforma-se em algo de relevância pública ou adquiri um sentido de inusitado para os leitores, tornando-se algo que deve- SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: ria ser publicado, porque os jornalistas certificam seu discurso utilizando-se de estratégia de autoreferencia. No próximo recorte, há uma caracterização moral, ao trazer, agora, além do nome, a declaração da ANJ que manifesta repúdio pela atitude “antiética e esquiva”. Assim, ao fazer o rol dos atingidos pelo tratamento diferenciado da estatal, O Globo se inclui na ‘fala’ da fonte, demonstrando que não é o único prejudicado. Em nota, a ANJ também chama de antiética a divulgação das perguntas enviadas pelos jornais antes da publicação das reportagens. "A ANJ manifesta seu repúdio pela atitude antiética e esquiva com que a Petrobras vem tratando os questionamentos que lhe são dirigidos pelos jornais brasileiros, em particular por O GLOBO, 'Folha de S.Paulo' e 'O Estado de S.Paulo', que nas últimas semanas publicaram reportagens sobre evidências de irregularidades e de favorecimento político em contratos assinados pela estatal e suas controladas", diz o texto, assinado pelo vice-presidente da entidade, Júlio César Mesquita. (O GLOBO, 09,06,2009) O assunto noticiado interessa em especial e particularmente aos veículos de comunicação e profissionais da área, podendo a discussão ter sido reservada a um espaço interno do campo jornalístico. Porém, por meio dessas estratégias discursivas que legitimam a inquietação do jornalista em relação à atitude da fonte, o fato torna-se acontecimento nas páginas dos jornais e ainda obtém repercussão em várias mídias (como observatório de mídia, blogs de jornalistas e blogs de anônimos). O blog criado pela assessoria de comunicação da estatal foi alvo de críticas em notas divulgadas por ANJ e Abraji e pelo presidente da Fenaj, Sergio Murillo de Andrade. (Blog Diário de uma Repórter: A Petrobras começa a mostrar a sua cara ). Na opinião de Andrade (presidente da Fenaj), a impressão que se tem é que houve uma tentativa de coação e constrangimento. ( Leia a íntegra da nota da ANJ no Blog do Noblat). (O GLOBO, 09,06,2009) É na mudança da forma da relação e do discurso produzido, pontuado nessa análise, que se vê implicada as expectativas do jornalista nessa inversão, identificada como uma tentativa de “coação” e “constrangimento”. Acredita-se que o caso da publicação das perguntas feitas pelo jornal O Globo no blog Fatos e Dados foi exemplar para identificar e refletir sobre a passagem do acontecimento discursivo em acontecimento jornalístico e posteriormente em notícia. Além disso, pensar a autoreferencialidade como elo SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: desses dois tipos de acontecimento faz com que seja repensada a própria construção da notícia, baseada, majoritariamente, por operadores da ordem da atualidade, do inusitado e, amparado no já existente. As peculiaridades desse acontecimento fizeram com que fosse necessário acionar noções de áreas de estudos diferentes, o jornalismo e a análise do discurso, que permitiram trazer questionamentos que, de alguma maneira, contribuem para reforçar a opinião, que na modernidade, o campo jornalístico está amparado em estratégia de autoreferencia como forma de credibilizar seu próprio discurso. Identificadas nas sequências discursivas, acima, as condições de produção do texto jornalístico levaram em consideração tanto elementos de estabilização como de desestabilização. Isto é, os jornalistas se utilizaram de argumentos para desestabilizar o discurso da Petrobrás, ou seja, marcas textuais que evidenciavam crítica à ação da estatal. Por outro lado, buscaram estabilizar o seu próprio discurso, a partir de marcas que reforçam o seu ponto de vista, de forma a criar um consenso em torno do enfoque da notícia. Com isso, criou-se a própria discursividade do acontecimento. Essa estabilização e desestabilização ficaram evidentes quando observadas as estratégias de autoreferencialidade. Com esse estudo evidencia-se que todo acontecimento jornalístico é discursivo, mas que o inverso nem sempre é verdadeiro. Isso implica na compreensão de duas noções de acontecimentos, que mesmo de campos distintos, são complementares. Aqui, o acontecimento discursivo não é idêntico ao jornalístico, ainda que isso possa ocorrer em situações específicas. O que se vê no caso da divulgação da entrevista no blog da Petrobrás é o surgimento do jornalístico em razão do discursivo. Por fim, percebe-se que são múltiplos e complexos os processos envolvidos na construção de uma notícia, e que o jornalismo, cada vez mais, corrobora para a instauração de uma forma específica de sentido de ordenação dos acontecimentos no mundo. Afinal, o ‘vazamento’ ou a ‘antecipação’ das informações do jornal O Globo só se tornaram uma notícia na esfera midiática porque existiu uma ação de interpretação dos sujeitos-jornalistas que construíram seus discursos de modo a fazerem com esse acontecimento se enquadrasse em critérios de noticiabilidade. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo USP (Universidade de São Paulo), novembro de 2009 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: Referências ALSINA, Rodrigo Miquel. A construção da notícia. Trad. Jacob A. Pierce. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009. ANTUNES, Elton. Acontecimento, temporalidade e a construção do sentido de atualidade no discurso jornalístico. In: Revista Contemporanea. Vol. 6, nº 1. Jun.2008. BOURDIEU, Pierre. 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