Estudo sobre o impacto das mudanças climáticas na ocorrência de doenças vetoriais como dengue e malária nos biomas brasileiros Palavras-chave: Mudanças climáticas; Doenças Vetoriais; Situação de saúde; Indicadores ambientais; Vigilância em saúde Responsável: Christovam Barcellos Introdução As mudanças climáticas e ambientais globais, que vêm se agravando nas últimas décadas, podem produzir impactos sobre a saúde humana com diferentes vias e intensidades. Por um lado, essas mudanças impactam de forma direta a saúde e bem estar da população, como no caso das ondas de calor ou outros eventos extremos como furacões e inundações. No entanto, na maior parte das vezes, esse impacto é indireto, sendo mediado por mudanças no ambiente como a alteração de ecossistemas, sua biodiversidade e de ciclos biogeoquímicos. No caso das doenças infecciosas, os mecanismos de produção de agravos e óbitos são condicionados por inúmeros fatores ambientais e sociais. Dentre os grupos de doenças que podem ser afetados pelas mudanças climáticas e ambientais, além das consequências diretas dos eventos climáticos e meteorológicos extremos, encontram-se as doenças transmitidas por vetores. Também é importante destacar que os impactos dessas mudanças sobre a saúde são extremamente diferenciados, dependendo da vulnerabilidade dos grupos populacionais e de sua resiliência. Diferentes populações, vivendo em espaços diferenciados, apresentam distintas constituições para suas vulnerabilidades, entendida neste contexto mais amplo como a capacidade de resposta de indivíduos, grupos e comunidades aos potenciais perigos deflagrados por eventos relacionados a mudanças climáticas e ambientais em qualquer fase dos ciclos dos diversos processos saúde-doença. Segundo esta concepção, a vulnerabilidade destas populações está associada ao seu lugar, e sua caracterização não pode prescindir de uma visão ecológica e de abordagens espaciais em saúde pública. Observar a distribuição espacial da população e sua dinâmica, os indicadores locais de pobreza e segregação sócioespacial, a situação dos programas de monitoramento e controle, bem como a dinâmica dos elementos naturais dos ecossistemas urbanos e dos biomas em que estão inseridos são alguns dos componentes que permitirão descrever, medir e acompanhar a vulnerabilidade em saúde de grupos populacionais aos potenciais cenários climáticos futuros e preparar o setor saúde para o seu enfrentamento. As doenças transmitidas por vetores constituem, ainda hoje, importante causa de morbidade e mortalidade no Brasil e no mundo. O ciclo de vida dos vetores, assim como dos reservatórios e hospedeiros que participam da cadeia de transmissão de doenças, está fortemente relacionado à dinâmica ambiental dos ecossistemas onde estes vivem. A dengue é considerada a principal doença reemergente nos países tropicais e subtropicais. A malária continua sendo um dos maiores problemas de saúde pública na África, ao sul do deserto do Saara, no sudeste asiático e nos países amazônicos da América do Sul. As leishmanioses, tegumentar e visceral, têm ampliado sua incidência e distribuição geográfica. Outras doenças, como a febre amarela, a filariose, a febre do oeste do Nilo, a doença de Lyme, e outras transmitidas por carrapato e inúmeras arboviroses, têm variável importância sanitária em diferentes países de todos os continentes. O aquecimento global do planeta tem gerado ainda uma preocupação sobre a possível expansão da área atual de incidência de algumas doenças transmitidas por insetos. Porém, deve-se levar em conta que são múltiplos os fatores que influenciam a dinâmica das doenças transmitidas por vetores, além dos fatores ambientais (vegetação, clima, hidrologia); como os sócio-demográficos (migrações e densidade populacional); além dos biológicos (ciclo vital dos insetos vetores de agentes infecciosos) e dos médico-sociais (estado imunológico da população; efetividade dos sistemas locais de saúde e dos programas específicos de controle de doenças, etc.) e a história da doença no lugar, estes dois últimos sempre muito esquecidos nas apressadas análises causais entre o impacto das mudanças climáticas e as doenças vetoriais. As doenças transmitidas por vetores, mais freqüentes nos países de clima tropical, aparecem como um dos principais problemas de saúde pública que podem decorrer do aquecimento global. Vários modelos matemáticos foram construídos a fim de prever as conseqüências do aumento da temperatura sobre a malária, por exemplo. Contudo, a relação entre o clima e a transmissão da malária continua bastante complexa e pode ser modificada de acordo com os lugares que se estuda. Pelo menos para a malária, a dengue e a febre amarela, raramente o clima foi o principal determinante para sua prevalência ou seu alcance geográfico. Ao contrário, impactos nos ecossistemas em nível local provocados por atividades humanas têm se mostrado muito mais significativos. A maior parte dos modelos é baseada em dados restritos a alguns locais e variáveis ambientais vinculadas sobretudo aos vetores ou ao plasmódio, sem levar em conta os fatores sociais e de políticas de desenvolvimento e controle que são igualmente importantes na dinâmica da malária, assim como nas demais doenças vetoriais. Diante da complexidade dos processos que estão envolvidos entre as mudanças ambientais e climáticas globais e seus efeitos sobre a saúde, é imprescindível a reunião e análise de dados que permitam acompanhar e antever essas mudanças. Para a realização desse acompanhamento é necessário um conjunto mínimo de dados em quatro dimensões: 1. Dimensão Ambiental: Os dados ambientais devem caracterizar as alterações de cobertura e uso do solo e seus reflexos nos ecossistemas locais, incluindo possibilidades como dados de medidas relativas às queimadas, uso e cobertura do solo e estimativas de material particulado na atmosfera; 2. Dimensão Climática: Os dados sobre tempo e clima são principalmente de temperatura, umidade e precipitação em uma escala de previsão sazonal e também de clima futuro; 3. Dimensão Humana: Dados Socioeconômicos com base censitária que descrevem a composição etária e por sexo, condições de habitação, saneamento, migração, educação e renda, entre outros índices e indicadores, caracterizando as populações e suas vulnerabilidades; 4. Dimensão de Saúde Pública: Dados de Saúde: contendo as informações sobre os serviços de saúde, mortalidade e morbidade para doenças sensíveis às mudanças climáticas. Todas as dimensões abordadas têm uma natureza espacial. Uma vez georreferenciados, isto é, todos os dados podem ser localizados no território brasileiro por meio de mapas digitais. Este esforço de reunião e integração de dados em uma plataforma única está sendo coordenado pelo Observatório do Clima e Saúde, criado em 2010. Estes dados são recolhidos em três fontes principais: INPE (CPTEC e OBT), ANA e bases tratadas dos Sistemas de Informação de Saúde, via DATASUS. No entanto, a simples reunião de dados não permite cumprir os objetivos finalísticos do Observatório. Somente a formulação de modelos que relacionem os componentes ambientais, climáticos, sociais e de saúde, permite que esse conjunto de dados seja útil para visualização de situação e tendências, bem como a tomada de decisões. Alguns modelos devem ser buscados para concatenar processos climáticos com eventos de saúde. Além disso, como os fatores climáticos raramente representam um risco por si só, os dados climáticos devem ser complementados por dados ambientais e sociais. O projeto Observatório procurou recolher de pesquisadores ideias sobre a relação entre o clima e processos de saúde-doença, por meio de oficinas temáticas. Os especialistas listaram os principais fatores envolvidos neste processo, bem como a necessidade de dados para a formulação de modelos de previsão. Estas informações estão sendo sistematizadas e permitirão identificar variáveis importantes para a construção de modelos que permitam avaliar os riscos de difusão das doenças transmitidas por vetores no Brasil. Objetivos Os objetivos principais do presente projeto são: 1) Análise da presente distribuição espacial e variabilidade de doenças transmitidas por vetores nos biomas brasileiros, com ênfase em dengue e malária; 2) Avaliação do peso dos fatores climáticos, sociais e ambientais nesta distribuição; 3) Construção de modelos de predição para os efeitos das alterações climáticas na dinâmica de doenças transmitidas por vetores, com ênfase em dengue e malária;; 4) Criação de plataforma para troca de dados e debate entre pesquisadores e gestores sobre a incidência de doenças transmitidas por vetores e sua variabilidade; 5) Proposição de recomendações que permitam o controle dos vetores da dengue e da malária considerando os eventos climáticos nos diferentes biomas brasileiros. Plano de trabalho O período de estágio de pós-doutorado será realizado em sua maior parte na Université Montpellier 2, sob supervisão do pesquisador Serge Morand. Nesta cidade, o grupo do Institut des sciences de l'évolution está articulado com a Maison de la Télédétection para o estudo da distribuição de espécies vetores de doenças usando conceitos de ecologia e técnicas de geoprocessamento. O estágio nestas instituições permitirá elaborar modelos de nicho ecológico que expliquem a distribuição atual da incidência de malária e dengue no Brasil. Estes grupos possuem ainda uma forte inserção na América do Sul, garantida pela atuação do centro de pesquisas em Cayene, Guiana Francesa, onde existe uma estação de sensoriamento remoto. Recentemente, o projeto de pesquisa Regional Epidemiological Landscape Amazon Information System (RELAIS), coordenado por Laurent Durieux foi aprovado pelo CNPq (Brasil) e IRD (França), o que permitirá aumentar a interação entre estes grupos de pesquisa. Pretende-se ao final deste estágio publicar um artigo em revista científica sobre a distribuição atual e cenários futuros da transmissão de dengue e malária no Brasil. Outra parte do período de pós-doutorado será realizada em na Université Pierre et Marie Curie (Sorbonne – Paris), sob supervisão do professor Guy Thomas. Neste centro existe um grupo de pesquisa dedicado a sistemas de informação e modelagem de dados epidemiológicos (UMR S 707). Nesta fase, serão estudados meios de coleta e análise de dados, formais e informais, que permitam caracterizar quadros epidemiológicos complexos. A experiência de pesquisadores franceses com o monitoramento de surtos de gripe e óbitos decorrentes de ondas de calor será de grande importância para adaptar modelos de vigilância para situações de crise sanitária, como aquelas encontradas após desastres climáticos. Pretende-se ao final deste estágio publicar um artigo em revista científica sobre a recuperação e análise de dados epidemiológicos em situações de desastre climático. Cronograma O período proposto para a execução de cada atividade é: - Université Montpellier 2, Montpellier, França, de janeiro a maio de 2013. - Université Pierre et Marie Curie, Paris, França, de junho a agosto de 2013. Referências bibliográficas Araujo JR, Ferreira EF, Abreu MHNG. Revisão sistemática sobre estudos de espacialização da dengue no Brasil. Rev Bras Epidemiol 2008; 11:696-708 Barbosa, Gerson Laurindo; Lourenco, Roberto Wagner. Analysis on the spatial-temporal distribution of dengue and larval infestation in the municipality of Tupã, State of São Paulo. Rev. Soc. Bras. Med. Trop, v. 43, n. 2, Apr. 2010 . Barcellos C, Pustai AK, Weber MA, Brito MRV. Identificação de locais com potencial de transmissão de dengue em Porto Alegre através de técnicas de geoprocessamento. Rev Soc Bras Med Trop 2005; 38:246-250. Barcellos, C.; Monteiro, A.M.V.; Corvalán, C.; Gurgel, H.C.; Carvalho, M.S.; Artaxo, P.; Hacon, S.; Ragoni, V. 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