SUSTENTABILIDADE DO MANEJO FLORESTAL COMUNITÁRIO: O CASO DO PAE CHICO MENDES NO ESTADO DO ACRE CARLOS ALBERTO FRANCO COSTA; PABLO MARQUES DA SILVA. UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE, RIO BRANCO, AC, BRASIL. [email protected] APRESENTAÇÃO ORAL AGRICULTURA, MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL SUSTENTABILIDADE DO MANEJO FLORESTAL COMUNITÁRIO: O CASO DO PAE CHICO MENDES NO ESTADO DO ACRE RESUMO A primeira experiência com o manejo florestal comunitário na Amazônia foi realizada em 1993 em Marabá no Estado do Pará, levando a campo a exploração madeireira em áreas de colonos. Essa experiência teve inicio com uma ação-teste de comercialização de madeira oriunda de áreas de roça, conduzida por agricultores, lideranças e pesquisadores, posteriormente evoluindo para um projeto de manejo florestal comunitário. A partir de seus resultados positivos a experiência foi replicada em diversas comunidades da Amazônia. Uma destas experiências foi realizada no Projeto de Assentamento Agroextrativista Chico Mendes (PAE – Chico Mendes) no município de Xapurí, no Estado do Acre, onde vem apresentando bons resultados tanto do ponto de vista econômico, como social e ambiental. Este trabalho visa expor as principais características econômicas, sociais e ambientais do projeto de manejo florestal comunitário no PAE Chico Mendes, mostrando que pode servir de exemplo de conciliação de exploração madeireira em comunidades tradicionais na Amazônia. ABSTRACT The first experience with the communitarian forest handling in the Amazônia was carried through in 1993 in Marabá in the State of Pará, leading the field the lumber exploration in areas of colonists. This experience had beginning with an action-test of deriving wooden commercialization in areas of agriculturists, leaderships and researchers, later evolving for a project of communitarian forest handling. From its positive results the experience was talked back in diverse communities of the Amazônia. One of these experiences was carried through in the Project Agroextrativista Chico Mendes (PAE - Chico Mendes) in the city of Xapurí, in the State of the Acre, where it comes in such a way presenting good results of the economic point of view, as social and ambient. This work aims at to display the main economic, social and ambient characteristics of the project of communitarian forest handling in the PAE Chico Mendes, showing that it can serve of example of conciliation of lumber exploration in traditional communities in the Amazônia. O MANEJO FLORESTAL COMUNITÁRIO NA AMAZÔNIA Em abril de 1998 foi realizado no seringal Porto Dias no Acre a primeira oficina de Manejo Florestal Comunitário da Amazônia. O encontro contou com a participação dos principais projetos-piloto que estavam explorando ou planejavam explora recursos madeireiros em bases comunitárias, sendo que uma das principais considerações do encontro foi a de que o manejo florestal comunitário, apesar de recente, poderia ser visto como um avanço em direção ao manejo florestal sustentável na Amazônia (Amaral, 2000: 16). Atualmente estão implantados 16 projetos de Manejo Florestal Comunitário na Amazônia, sendo 7 no Estado do Pará, 5 no Estado do Acre, 2 no Amazonas, 1 em Rondônia e 1 no Amapá. Entre as principais razões para a adoção do Manejo Florestal Comunitário na Amazônia estão: (a) a conservação da floresta; (b) a possibilidade de aumento da receita dos produtores durante o ano; e (c) a diversificação das formas de uso da terra, considerando-se a aptidão natural da área. Assim, o MFC não pretende substituir a agricultura e o extrativismo, mas sim complementar a renda já propiciada às famílias por estas atividades, aumentando o leque de opções para a formação e incremento da renda familiar (Armelin, 2000: p. 9). No manejo coletivo, alguns princípios básicos que regem a utilização comunitária de espaços e recursos devem ser obedecidos, tais como: fronteiras definidas; mecanismos para escolhas coletivas (para elaboração de regimentos internos); monitoração do uso dos recursos naturais pelos comunitários; sanções aplicáveis aos que desobedecem os regulamentos; mecanismos de resolução de conflitos; e reconhecimento mínimo do direito das populações à organização social (Ostrom apud Amaral, 2000: p. 21). De maneira geral os projetos de manejo exigem cerca de três anos desde sua concepção até o inicio do processo de extração de madeira. As principais causas da demora são: a) dificuldades na discussão das bases sociais dos projetos; b) demora na liberação de recursos; c) lentidão na apreciação e aprovação dos planos de manejo; d) situação fundiária não regularizada (Amaral, 2000: p. 21). Por toda a região amazônica, os projetos apresentam uma grande diversidade de experiências em aspectos como: 1. Tipos de organização: Sindicatos de trabalhadores rurais e Associações Extrativistas. 2. Tipo de acesso aos recursos florestais: Reservas extrativistas, lotes individuais de posseiros. 3. Produtos: Madeireiros e não madeireiros. 4. Tipos de floresta: Terra firme e várzea. 5. Cultura e tempo de atividade: Extrativista, ribeirinho, indígena, agricultor. A maioria do projetos de Manejo Florestal Comunitário na Amazônia tem como ator principal: comunidades de agricultores (44%), ribeirinhos (21%), indígenas (21%), extrativistas (14%). Os projetos tem recebido apoio financeiro de fontes diversas, sendo que a principal fonte de financiamento é oriunda do Programa Piloto para a Proteção das Florestas-PPG-7, através do programa do Ministério do Meio Ambiente, o ProManejo. Em geral, os contratos de apoio são de curta duração com orçamento para no máximo três anos de atividades, sendo que os projetos requerem um prazo mínimo de cinco anos, uma vez que a grande maioria começa suas atividades em três anos, que é o tempo que tarda para a elaboração do plano de manejo e discussão da estrutura social do projeto, enquanto os dois anos seguintes são destinados à execução do plano (Amaral, 2000: p. 25). A EXPERIÊNCIA DO PAE CHICO MENDES O Projeto de Assentamento Agroextrativista Chico Mendes foi criado através da Portaria nº 158 do Ministério da Agricultura de 08.03.1989, contemplando 68 famílias, localizado no município de Xapuri – Acre, com uma área de aproximadamente 24.098ha. O projeto surgiu com a finalidade de respeitar a forma de exploração e posse da terra, cabendo aos colocados respeitarem as tradições de exploração dos recursos naturais de forma sustentável, conservando assim a biodiversidade ali existente. Atualmente existem no Projeto 75 áreas chamadas regionalmente de “colocações” sendo que em cada colocação reside apenas uma família e tem em média 300 ha. A entidade responsável pelo projeto de manejo comunitário é a Associação de Moradores e Produtores do PAE-Chico Mendes (AMPPAECM), que, segundo o seu presidente Antonio Teixeira Mendes, foi fundada em 1995 com o objetivo de organizar a comunidade para defender seus interesses e atrair a atenção de outros atores para as necessidades do PAE-Chico Mendes, sendo que neste mesmo ano de fundação, foram iniciadas as discussões com o Centro dos Trabalhadores da Amazônia (CTA) e a comunidade sobre as possibilidades de implantar um projeto de manejo comunitário no local, mas que somente no ano 2000 foi possível viabilizar a elaboração do plano de manejo e assim pôr em prática o manejo comunitário. Desde então, os resultados econômicos, sociais e ecológicos para a comunidade tem sido significativos, tanto que com apenas dois anos de implantação, o projeto de manejo comunitário do PAE-Chico Mendes, recebeu em fevereiro de 2002 o selo verde do programa SmartWood 1, ligado ao FSC (Forest Stewardship Council). Existem atualmente nove famílias participando do Manejo Comunitário em uma área total de 900 hectares, sendo que cada participante maneja uma área total de 100ha, divididos em 10ha por ano, ou seja, anualmente são explorados 90ha de floresta com um ciclo previsto de 10 anos. A área onde está localizado o projeto era uma fazenda que foi desapropriada em 1987 pelo Ministério da Agricultura para fins de um Projeto de Assentamento Extrativista, desta forma, o proprietário da terra é o INCRA, e a regularização fundiária é feita de forma coletiva, através de um Contrato de Concessão e de Direito Real de Uso (CCDRU/Nº 01/98). Este contrato foi firmado entre o INCRA e a AMPPAECM em abril de 1998 e tem validade de dez anos, podendo ser prorrogado 1 O programa SmartWood é implementado a nível mundial por organizações sem fins lucrativos membros da rede SmartWood. A rede é coordenada pela Rainforest Alliance, uma organização internacional sem fins lucrativos. O SmartWoor é credenciado pelo FSC para a certificação de operações de manejo de florestas naturais, plantadas e de cadeias de custódia. se for verificado o cumprimento do Plano de Utilização elaborado para o PAE-Chico Mendes. O Plano de Utilização é o documento que rege as atividades produtivas dentro do projeto de assentamento, ele contém as diretrizes para as atividades a serem realizadas na área, e foi aprovado por todos os moradores do PAE, que são responsáveis pelo seu cumprimento (Imaflora, 2003 (c)). O Plano de manejo foi feito no ano 2000, levando-se em consideração 100% das árvores de valor comercial, sendo estas marcadas com uma plaqueta de identificação e mapeadas para futuras explorações. No inventário florestal foi identificada a área de menor volume de extração com 2,9 m3 por hectare, e o maior volume previsto foi de 15,1 m3 por hectare. Também no inventário florestal foram identificadas 26 espécies diferentes de árvores com valor comercial, onde a árvore comercial com maior incidência foi o Breu-Vermelho (Protium Altosonii). As árvores da área manejada foram identificadas como mães, filhas, netas 1, netas 2 e árvores não selecionadas para corte, em função principalmente de suas características de diâmetro e altura. As árvores-mãe são árvores que serão utilizadas na primeira exploração e as árvores-filha são árvores que serão utilizadas no ciclo seguinte, ou seja, em dez anos, as netas 1 e netas 2 são árvores que serão utilizadas em 20 e 30 anos respectivamente, ou seja, o planejamento da exploração florestal é feito com uma perspectiva de longo prazo, em ciclos de 30 anos. Também é importante ressaltar que para que seja possível o corte de uma árvore-mãe em cada ciclo de extração é necessário que exista, pelo menos, uma filha e duas netas da mesma espécie, ou seja, quando uma árvore-mãe é cortada, a manutenção da espécie está assegurada para 10, 20 e 30 anos, pela confirmação da existência de outras três dependentes desta, evitando-se assim a possibilidade de redução da espécie explorada. Os manejadores estão divididos em grupos de 3, de acordo com a proximidade de suas áreas (vizinhança), e a extração da madeira ocorre em função de pedidos de compradores, porém obedecendo ao potencial de cada área, onde cada pedido de compra é executado pelo grupo que melhor se enquadre no perfil da solicitação, ou seja, se o pedido não coincide com as características das disponibilidades de madeira existente na área do manejo, o pedido não é efetivado. A jornada de trabalho também é estabelecida em função do pedido, sendo que no período da coleta da castanha ou látex quase não se trabalha com a extração madeireira, uma vez que suas atividades principais estão baseadas nestes dois produtos e o manejo aparece como uma atividade complementar (Imaflora , 2003 (c)). A tabela a seguir indica a quantidade de madeira disponível para corte no ano de 2001 por colocação: Tabela 01 Volume de corte no PAE-Chico Mendes (ano de 2001) Colocação Alto Duro Cachoeira Lago-Manoel Viana Pontão I Pontão II Retiro I RetiroII São Luis I São Luiz III TOTAL Fonte: Imaflora, 2003 (c). Volume de madeira (m3) 46,00 51,40 46,50 97,80 66,70 20,00 44,90 45,70 135,3 554,30 Os moradores do PAE-Chico Mendes tem como principal atividade econômica o extrativismo tradicional do látex e da castanha, também realizam a prática da agricultura de subsistência e a criação de pequenos animais. Segundo o Imaflora (2003 (c)), a renda média familiar do PAE-Chico Mendes é de R$ 1.400, 00 por ano, obtida com a venda de produtos extrativistas, principalmente a borracha e a castanha. A receita gerada no ano de 2001 na colocação Cachoeira foi de R$ 6.640,00, resultado do processamento de 51,4 m3 de madeira. A média de preço da madeira vendida foi de de R$ 129,18 o metro cúbico. (Gabinete Dep. Ronald Polanco, 2003, documento não publicado). Considerando-se um custo de 60% sobre este valor, a renda líquida obtida foi de R$ 2.656,00 com a venda de madeira manejada, ou seja, a renda liquida da colocação gerada com a atividade madeireira foi 89,71% maior que a renda obtida com outros produtos florestais, e a renda liquida total ficou em R$ 4.056,00, ou 189,71% maior que a renda média dos produtores que não participam do manejo florestal, o que demonstra a viabilidade econômica em termos de aumento da renda familiar para os manejadores. Também verificam-se evidentes benefícios ecológicos na área onde é praticado o manejo, esses benefícios são materializados na redução do desperdício de madeira e na redução dos danos à floresta, sendo que pode-se verificar sua importância do ponto de vista ecológico nas conclusões do relatório do Imaflora para certificação do projeto de manejo do PAE-Chico Mendes, onde este afirma que: “A intensidade e escala do manejo florestal praticado no PAE-Chico Mendes podem ser consideradas baixas, o que aliado à utilização de tração animal para o arraste das peças de madeira e às atividades de derrubada direcionada e cuidados na exploração, resulta em um pequeno impacto na floresta como um todo“ (Imaflora, 2003 (c): p. 15). Quanto aos resultados sociais, verifica-se um fortalecimento da organização comunitária e a valorização do conhecimento tradicional da comunidade, onde também pode-se fazer referência às conclusões do relatório do Imaflora, que indica que: “A organização comunitária dentro do PAE-Chico Mendes pode ser considerada boa, o que contribui para o fortalecimento do projeto de manejo. Além disso, a participação e apoio de diversos atores no manejo florestal aliados aos conhecimentos tradicionais da comunidade contribui bastante para a consolidação técnica e prática do projeto. (...) [onde] cada manejador conhece os recursos florestais, as potencialidades e limitações da área de manejo de suas colocações“ (Ibid: p. 15). Portanto, verifica-se que o Manejo Florestal Comunitário no PAE-Chico Mendes tem gerado benefícios econômicos, sociais e ecológicos manifestados no aumento da renda familiar, no fortalecimento da organização comunitária, na valorização do conhecimento tradicional e na preservação das funções ecológicas da floresta. RESULTADOS OBTIDOS COM O MANEJO FLORESTAL COMUNITÁRIO Sociais Os principais benefícios sociais advindos da utilização do manejo florestal comunitário tem se materializado no fortalecimento das organizações comunitárias responsáveis pelos projetos, uma vez que estes projetos tem respaldado as principais reivindicações das comunidades por uma maior atuação do poder público, bem como tem-se conseguido uma representação política significativa capaz de viabilizar políticas públicas destinadas ao fortalecimento destas iniciativas. Veja-se como exemplo a criação do ProManejo pelo governo federal como uma resposta às suas reivindicações, que consiste em um programa de apoio financeiro às atividades de manejo sustentável na Amazônia. Também, tem-se viabilizado parcerias com ONG`s como o Centro dos Trabalhadores da Amazônia (CTA) e com organizações governamentais como a EMBRAPA e a Secretaria de Florestas do Estado que tem viabilizado assessorias técnicas, apoio logístico, treinamentos e qualificação dos participantes dos projetos de manejo. Esses benefícios sociais condizem com a afirmação de Barreto(1998), onde segundo este, o desenvolvimento de um setor florestal que use de forma inteligente as florestas nativas da região amazônica dependerá de uma ampla participação da sociedade e do governo, sendo que essas ações envolvem: (i) a educação sobre o manejo florestal e seus benefícios; (ii) controle e fiscalização eficiente da atividade madeireira; (iii) planejamento da ocupação de terras públicas de forma justa, respeitando as populações tradicionais; (iv) incentivos econômicos diretos e mudanças na legislação que estimule a valorização dos recursos florestais. Sendo que se prevalecerem a apatia e/ou incapacidade social para resolver estes problemas, o desmatamento e a exploração desordenada de madeira vão continuar predominando na Amazônia (Barreto, 1998: p. 41). Econômicos As experiências práticas de Manejo Florestal mostram que seus benefícios econômicos superam os custos adicionais, sendo que a curto prazo estes benefícios decorrem do aumento da produtividade do trabalho e da redução dos desperdícios da madeira (Amaral, 2000). A longo prazo, tais benefícios resultam no maior crescimento das árvores remanescentes e maior rendimento dos produtos não madeireiros, em virtude da redução dos danos ambientais. No entanto, dados específicos sobre os custos e benefícios do Manejo Florestal Comunitário são demasiadamente limitados para permitir sua quantificação confiável em pequena escala, uma vez que a maioria dos projetos em andamento não tem avaliado os benefícios, custos e aspectos econômicos dos empreendimentos, e portanto, existe a necessidade de aprofundamento da análise econômica mais precisas para que os responsáveis pelos projetos de manejo comunitário possam julgar melhor o potencial de sustentabilidade econômica desta atividade (Amaral, 2000: p. 41). No projeto de manejo do PAD-Peixoto, Araújo, (1998) faz uma projeção de renda familiar considerando uma produção média anual de madeira serrada de 12m3 por propriedade, e um valor de mercado da madeira girando em torno de R$ 120,00 o metro cúbico (US$ 40,00), onde este obtém uma receita bruta média de cada produtor estimada em R$ 1.440,00, sendo que os custos representam uma média de 60% deste valor, segundo o autor, isto significa um incremento na renda bruta das familias participantes do projeto da ordem de 50%, comparado com um outro produtor típico do PAD Peixoto, que tem uma renda anual média de R$ 2.750,00 (Araújo, 1998). Observe na seguinte citação que esta projeção condiz com a realidade vivida no PAD-Peixoto. Segundo o produtor Antonio Alexandre de Andrade, manejador do projeto: “O metro cúbico de madeira manejada custo 150 reais, enquanto no passado a gente vendia uma árvore inteira por 20 ou, no máximo 30 reais. Hoje com um jequitibá de 14 metros cúbicos líquidos eu comercializo por dois mil e cem reais“ (Jornal A Tribuna, 21.06.2003). Portanto, os maiores benefícios econômicos verificados nas comunidades que praticam o manejo florestal são relativos ao incremento na renda das famílias, decorrentes da redução dos desperdícios da madeira, do aumento da produtividade e do melhor preço no mercado da madeira oriunda de projetos de manejo. Barreto (1998), estima em US$ 3,68 (R$ 11,30 ao câmbio de 01.07.2004), o sobre-preço médio do metro cúbico da madeira manejada em relação à madeira oriunda de áreas não manejadas, ou seja, mesmo que um produtor tenha como componente de sua renda a venda de madeira, se esta não é oriunda de áreas manejadas, ainda assim, sua renda será inferior à de um produtor que pratique o manejo florestal. O principal aspecto econômico negativo do manejo florestal se refere aos altos custos de elaboração do plano de manejo, principalmente para os pequenos projetos comunitário, mas que acabam sendo compensados a médio e longo prazo pelo melhor preço da madeira manejada. Este aspecto também tem sido compensado pelos recursos de entidades financiadoras de projetos ambientais como o WWF, o PPG-7 e o Ministério do Meio Ambiente do Brasil, através do programa de financiamento das atividades de manejo sustentável, o ProManejo. Este tipo de financiamento tem favorecido a implantação dos projetos de manejo em áreas de comunidades tradicionais da Amazônia, como seringueiros, ribeirinhos e índios. Ecológicos As experiências conhecidas de utilização do Manejo Florestal tem apresentado resultados positivos do ponto de vista ecológico, segundo Amaral (2000), a principal vantagem é que o manejo florestal é desenvolvido com base em um planejamento do uso das florestas para oferecer benefícios a longo prazo, veja-se que em três exemplos no Estado do Acre, no PAE-Chico Mendes e no PAD-Peixoto o ciclo de exploração é de 10 anos, enquanto no PAE-Porto Dias o ciclo é de 30 anos, ou seja, existe uma baixa intensidade de exploração, com uma média de 8,05 m3 por hectare, o que garante um bom nível de recuperação natural da floresta2, como pode ser visto na tabela a seguir. Tabela 03 Intensidade e ciclo de exploração Localidade PAD-Peixoto PAE-Chico Mendes PAE-Porto Dias TOTAL MÉDIO Fonte: Elaboração própria. m3/ha 8 6,16 10 8,05 Ciclo/Anos 10 10 30 16,67 As principais experiências citadas por Amaral (1998 e 2000), se referem a modelos praticados na Costa Rica, na India, no Nepal e na Amazônia brasileira, nestes países nas áreas onde foram adotados projetos de manejo comunitário a cobertura florestal está crescendo e as florestas estão sendo menos degradadas (conforme pode ser visualizado na figura abaixo), sendo que Amaral considera como fatores chave para o sucesso destes projetos a definição clara dos direitos de propriedade, o direito ao uso e gestão dos produtos e o controle dos recursos florestais pelas comunidades locais(Amaral, 2000: p. 40). 2 Este volume de exploração pode ser considerado baixo se levarmos em consideração que o potencial madeireiro da região é de 105,41 metros cúbicos por hectare (Carvalho, 2000, p. 94). Os projetos de Manejo Florestal tem apresentado as seguintes vantagens em relação a outras formas de utilização do solo: maior ordenamento do solo; melhor planejamento dos recursos naturais; valorização dos recursos florestais; aumento da eficiência no combate ao fogo (Diégues, 1997). Em relação à utilização da floresta os principais aspectos positivos são a redução das áreas desmatadas e a recuperação natural das funções ecológicas da floresta, devido aos processos de exploração obedecerem o ciclo de reprodução natural das árvores, a redução dos incêndios devido a menor abertura da cobertura florestal, além de proporcionar uma redução na exploração ilegal nas áreas onde esta sendo praticado o manejo florestal. Também é importante observar que estas características ecológicas do manejo florestal comunitário se enquadram perfeitamente com as características de um agroecossitema com um padrão de uso sustentável do espaço apontados por Altieri (1997): a) Adequação às especificidades dos ecossistemas de forma a propiciar a reprodução dos processos e ciclos ecológicos que garantam a sua estrutura e função e a manutenção a longo prazo dos recursos naturais. b) Manutenção de níveis sustentados e estáveis de produtividade produtiva e ecológica. c) Potencialização dos recursos internos e utilização mínima de insumos externos e combustíveis fósseis, conciliando redução de custos com eficiência energética. d) Satisfação das necessidades das famílias (inseridas num determinado agroecossistema) em alimento e renda e distribuição eqüitativa da produção e da riqueza por elas geradas. Político-Legais Um dos grandes desafios para a legalização dos planos de manejo dos projetos de manejo comunitário tem sido a falta de documentação que comprove a justa posse da terra. O simples cumprimento ou adequação da legislação em vigor poderia resolver o problema. A portaria do Ibama nº 48/95 estabelece uma lista de 17 documentos que caracterizam a justa posse da terra, podendo ser apresentados junto com o plano de manejo. Porém, pelo fato das comunidades não possuírem documentação da terra, os órgãos de controle e fiscalização ambiental dificultam ou inviabilizam os planos de manejo comunitário. O tempo médio de aprovação dos planos de manejo submetidos pelos projetos tem sido de dois anos (Amaral, 2000: p. 42). No entanto, alguns avanços na legislação começam a ocorrer. O Ibama, pressionado pelos projetos, aceitou discutir com as ONG´s e outros grupos locais a revisão das normas que regulam o manejo florestal, especialmente para as florestas comunitárias. O desdobramento das discussões estabelecidas foi a edição de uma Instrução Normativa que trata especificamente do manejo florestal comunitário na bacia amazônica (Instrução Normativa nº 4, de 28 de dezembro de 1998), sendo que a grande novidade dessa medida foi a simplificação dos requerimentos técnicos e legais do manejo sustentável para projetos comunitários. Outro aspecto significativo, decorrente das experiências desenvolvidas por comunidades locais e de suas demandas por políticas públicas de apoio a este tipo de iniciativa, foi a criação em 1999 pelo Ministério do Meio Ambiente do Brasil de um programa especial de apoio às atividades de manejo florestal sustentável na Amazônia, o Pró Manejo. Isso demonstra que, assim como o governo incentivou atividades econômicas insustentáveis na Amazônia, ele é o elemento chave para criar mecanismos capazes de incentivas as experiências sustentáveis na região. Também é importante lembrar que os projetos de manejo florestal proporcionam um devido cumprimento da legislação ambiental brasileira, que obriga a utilização de manejo sustentável da exploração madeireira, mas que na prática não vem sendo cumprida na grande maioria das atividades de exploração madeireira tradicional. Técnicos O manejo dos recursos florestais pelos comunitários tem-se apresentado como uma opção viável tecnicamente para gerar benefícios econômicos, sociais e ambientais duradouros. As experiências práticas de Manejo Florestal Comunitário para a produção madeireira e não madeireira tem demonstrado que os comunitários bem treinados podem atender às exigências técnicas das etapas do manejo florestal tendo como principal aliado o conhecimento tradicional das comunidades. As técnicas desenvolvidas dependem das características de cada floresta e dos objetivos de cada projeto. Segundo Amaral (1998), a utilização do manejo florestal na Amazônia tem apresentado uma redução dos danos ecológicos nas florestas manejadas, onde se constata um aumento na produtividade através da utilização das técnicas de manejo, sendo que tem evitado que, em média, 1,8 m3 de madeira por hectare fossem desperdiçados (Amaral, 1998: p. 90), ou seja, tem-se aumentado o volume final de madeira, sem aumentar a área explorada, via aumento da produtividade. Ainda tem-se verificado uma redução nos índices de acidentes de trabalho em até 18 vezes em relação à exploração tradicional, devido aos treinamentos dos trabalhadores em normas de segurança, e às técnicas de “queda direcionada“ utilizadas. A utilização do manejo florestal também tem apresentado uma redução nos incêndios nas áreas manejadas, uma vez que o manejo florestal proporciona uma redução do tamanho das clareiras na floresta, evitando o acúmulo de material comburente e a redução da umidade da floresta, e evitando uma maior incidência solar sobre a mata explorada, isto faz com que se reduza o risco de incêndios. CONCLUSÕES A utilização do Manejo Florestal Comunitário por comunidades tradicionais no Acre tem apresentado resultados positivos nos três aspectos que devem conter uma proposta de sustentabilidade: No aspecto econômico: os resultados econômicos para as famílias participantes de projetos de manejo florestal já começam a aparecer, inclusive mostrando que o principal entrave para esta forma de utilização da floresta começa a ser superado, uma vez que, desde a implantação das reservas extrativistas, o aspecto de viabilidade econômica vem sendo questionado por muitos autores, que vêem nestas uma forma de preservar a natureza, mas questionam sua viabilidade enquanto alternativa de exploração econômica viável, capaz de garantir a subsistência digna para as populações tradicionais nela residentes. Assim, tem-se verificado a ocorrência de maior renda e melhores padrões de qualidade de vida nas famílias que utilizam o manejo em relação às que não utilizam. Especificamente, nos três casos citados como exemplo no Estado do Acre, verificou-se que as famílias que praticam o manejo tem uma renda 102,16% superior às famílias que não utilizam o manejo florestal. Ainda se verificam aspectos econômicos referentes à maior valorização monetária de cada árvore, onde uma árvore que com a forma de exploração tradicional era vendida por R$ 30,00, hoje, com a utilização do manejo é vendida por R$ 1.300,00. A maior produtividade, uma vez que os manejadores obtêm uma maior renda com a venda de uma menor quantidade de árvores. No aspecto social: o principal aspecto social que o manejo tem favorecido é o fortalecimento das organizações comunitárias e os conseqüentes benefícios através de parcerias com órgãos governamentais e não governamentais, o que tem se materializado em ações de melhoria na oferta de serviços de saúde e educação. Além do fortalecimento da representação política, que tem se traduzido na efetivação de políticas públicas para o fomento das comunidades e do manejo florestal na Amazônia, como o caso do PróManejo, que é resultado da demanda destas comunidades por apoio governamental, e tem sido um instrumento básico na concessão de incentivos financeiros para fortalecer as comunidades que já estão organizadas em torno do manejo comunitário, e incentivar novos projetos em outras comunidades tradicionais. No aspecto ecológico: pode-se seguramente afirmar que este é o principal ponto forte do manejo florestal comunitário, se comparado à exploração madeireira convencional, uma vez que este tem proporcionado a redução dos impactos negativos da exploração madeireira sobre a floresta, isso materializado na redução dos desperdícios de madeira, na redução do tamanho da área desmatada, na redução dos incêndios florestais e no menor número de árvores danificadas, além do mais, os ciclos de exploração com média de 16 anos tem proporcionado uma recuperação natural da floresta com a tendência a manter seu equilíbrio e dinamismo. BIBLIOGRAFIA ACRE, Governo do Estado do (1996). II seminário: produção madeireira e desenvolvimento sustentado. Rio Branco. ACRE, Governo do Estado do (2000). Zoneamento ecológico-econômico do Acre, Rio Branco. ALIER, J. M., y Schlupmann, K., (1992). La ecología y la economía. México, D.F, Fondo de Cultura Económica. ALIER, J. M., (1995). 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