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AS INSTITUIÇÕES EDUCACIONAIS COMO PORTADORAS DE UMA MEMÓRIA
E DE UMA HISTÓRIA - UBERLÂNDIA 1957 / 1978
Elisabetta Greco de Guimarães Cardoso
Centro Universitário do Triângulo
Décio Gatti Júnior
Universidade Federal de Uberlândia e Centro Universitário do Triângulo
RESUMO
Introdução - Esta comunicação insere-se no campo da História das Instituições de Educação Superior, pretende
compreender o processo de nascimento das instituições de Ensino Superior de Minas Gerais, especificamente da
Faculdade de Artes de Uberlândia, considerada como a primeira escola superior da cidade, fundada em 1950, um
período marcado pela idealização das Faculdades no Brasil. A escolha desse tema partiu da necessidade de
trabalhos acadêmicos voltados para o resgate histórico dos processos sócio-culturais ocorridos em Uberlândia.
Do ponto de vista social, este trabalho se reveste de uma importância centrada na História das Instituições,
particularmente no que diz respeito às instituições voltadas para a formação de profissionais da educação.
Objetivos – Objetiva-se apreender o processo de gênese e desenvolvimento inicial da Faculdade de Artes de
Uberlândia, no período de 1957-1978; compreender os aspectos fundamentais da pesquisa em História da
Educação, especificamente a História das Instituições Educacionais; apreender o contexto sócio-político no qual
surge a Faculdade de Artes de Uberlândia; investigar o processo de criação dessa Faculdade , desde a fundação
do Conservatório Municipal, em 1957, estendendo-se até 1978, ano de sua inserção à Universidade Federal de
Uberlândia, além da análise da coleta de dados e informações sobre o período de vigência do curso, observando
motivações da criação, alunos, professores e infra-estrutura. Metodologia – Para melhor compreensão desta
proposta, for-se-á um balanço historiográfico a respeito das funções objetivas da proposta curricular do curso de
Artes. Evocar-se-á os principais acontecimentos sócio-políticos e econômicos que, de certa forma, influenciaram
o processo de constituição da Educação Superior Local. Para efetivação dessas investigações serão consultadas
diversas fontes bibliográficas, matérias jornalísticas, discursos de inauguração e formatura. Resultados
alcançados – O caráter tardio da implantação dos processos de escolarização nesta região do Brasil, fez com que
a educação escolarizada só se desenvolvesse de modo mais significativo na década de 50, e alcançasse o seu
boom educacional no final dos anos 60, com a implantação de diversas instituições educacionais. Conclusão Verifica-se o grande significado dessa Instituição no contexto nacional, a política de interiorização do país,
guiada pela transfer6encia da capital do litoral para o interior. A cidade de Uberlândia geograficamente bem
situada diante da perspectiva da nova sede do governo federal, cresceu em diversos segmentos do comércio e da
indústria. Desde o início desta pesquisa, constata-se que a história da escola de Artes de Uberlândia está repleta
de movimentos sociais e políticos, de sonhos e de inter-relações entre diversas pessoas que trabalham, lutam e
principalmente, constróem um mundo agrícola, industrial, uma sociedade de serviços, de conhecimentos, da
cultura, da arte, da música e do cinema.
TRABALHO COMPLETO
As relações que os homens estabelecem entre si para produzir a cultura se dão em
diversos níveis que não se excluem, mas que se completam e se interpenetram. Essas relações
distinguem-se em: relações de trabalho, que são materiais, produtivas e caracterizadas pelo
desenvolvimento das técnicas e atividades econômicas; as relações políticas, ou seja, as
relações de poder, que possibilitam a organização social e a criação das instituições sociais; as
relações culturais, que resultam da produção e difusão do saber.
Ao tentar resolver seus problemas o homem produz os meios para a satisfação de suas
necessidades e, com isso, transforma o mundo natural e a si mesmo. Por meio do trabalho
instaura relações sociais, cria modelos de comportamento, instituições e saberes.
O aperfeiçoamento dessas atividades, no entanto, só é possível pela transmissão dos
conhecimentos adquiridos de uma geração para outra, permitindo a assimilação dos modelos
de comportamento valorizados. É a educação que mantém viva a memória de um povo e dá
condições para sua sobrevivência material e espiritual .
A educação é, portanto, fundamental para a socialização do homem e sua
humanização. Trata-se de um processo que dura a vida toda e não se restringe à mera
continuidade da tradição, pois supõe a possibilidade de rupturas, pelas quais a cultura se
renova e o homem faz a história.
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Nas sociedades primitivas a educação se acha difusa, integrada ao próprio
funcionamento da sociedade como tal, de modo que todos educam a todos. À mediada que os
agrupamentos humanos se tornam mais complexos, surgem organizações especificamente
encarregadas da transmissão da herança cultural, como a escola.
Para o professor LIBÂNEO:
Educar é conduzir de um estado a outro, é modificar numa certa direção o que é
suscetível de educação. O ato pedagógico, pode, então, ser definido como uma
atividade sistemática de interação entre seres sociáveis, tanto no nível intrapessoal
como no nível da influência do meio, interação essa que se configura numa ação
exercida sobre sujeitos ou grupos de sujeitos visando provocar neles mudanças tão
eficazes que os tornem elementos ativos desta própria ação exercida...1
Conclui-se, então, que a educação não pode ser compreendida à margem da história,
mas apenas no contexto em que os homens estabelecem entre si as relações de produção de
sua própria existência.
A instituição da escola surgiu entre os povos orientais, Egito, China, Babilônia e Índia,
onde o poder está nas mãos da classe dos guerreiros e sacerdotes, tinha um caráter
tradicionalista, cuja finalidade era transmitir as tradições e costumes, principalmente de ordem
religiosa, com ênfase na educação dos letrados, a cujo cargo estava a manutenção dos cultos
religiosos, com o ensino da escrita e leitura.
Na Grécia clássica, berço da democracia, no apogeu do século V ª C., em Atenas,
existem apenas dez por cento dos cidadãos livres. Entre estes, muitos são artesãos simples,
pobres e que, consequentemente, não têm acesso aos ginásios, onde jovens e adultos se
exercitam fisicamente e se reúnem para debates intelectuais.
Na antiguidade romana a situação é semelhante, mas com uma diferença: no século IV
de nossa era, o imperador Juliano oficializa o ensino. Trata-se do primeiro momento na
história da humanidade em que o Estado assume o encargo da educação. Tal fato se explica
ante a necessidade de formação do quadro de funcionários exigido pela ampliação e
burocratização do Estado.
Na antiguidade clássica, Grécia e Roma, assumiu duas expressões características: a
pedagogia da personalidade, com caráter de desenvolvimento individual, e a pedagogia da
humanitas, que procurava desenvolver o homem dentro de um sistema educacional,
representativo da realidade social.
Na Idade Média, com a queda do Império Romano e a formação dos reinos bárbaros,
as escolas desaparecem. A Igreja Católica surge como poder aglutinador, unindo sob a fé os
inúmeros reinos bárbaros em que se fragmentara o antigo Império. Nesse período, apenas os
monges se ocupam com o saber, enquanto os nobres permanecem analfabetos uma vez que a
nobreza dominante é guerreira e mais interessada na formação dos cavaleiros. Somente na
Baixa Idade Média começam a aparecer algumas escolas nos palácios.
Durante esse período, a educação concentrava-se, nas catedrais e nos mosteiros.. No
séc. VIII, Carlos Magno resolveu organizar o ensino por todo o seu império e fundar escolas
ligadas às instituições católicas. Na renascença carolíngia grande estímulo foi dado à cultura.
Abriram-se escolas, mosteiros, estimulou-se a tradução de livros antigos, patrocinou-se o
trabalho dos artistas A cultura greco-romana, guardada nos mosteiros até então, voltou a ser
divulgada, passando a ter uma influência mais marcante nas reflexões da época.
A fundação dessas escolas e a educação romana como modelo, fez surgir no séc. XI as
primeiras universidades. A igreja foi uma grande instituição que se desenvolveu no período
do Império Romano e, que apesar das invasões, conseguiu conservar uma certa unidade.
1
Libâneo, J. Carlos. Democretização da Escola Pública. São Paulo, Loyola, 1985, pág. 97
1105
No fim desse período começou a desenvolver-se uma educação menos dependente do
clero, com caráter social. Nas principais cidades européias surgiram as escola elementares
urbanas, municipais e particulares, com a responsabilidade de formar futuros comerciantes e
homens de letras.
Profundas modificações vão-se verificar com o advento do humanismo e da Reforma,
no séc. XVI. As escolas se destinam à nobreza e à burguesia ascendente, esta última desejosa
de alcançar postos na administração pública, já que aspira tornar-se classe dirigente. Os
burgueses esperam que uma formação adequada permita a ascensão social e política de seus
filhos.
No Renascimento, portanto, é retomada a tradição do ensino elitizado, que se
caracteriza pela formação do cortesão. A ele é destinado um ensino enciclopédico,
desinteressado e literário. Surge uma proposta de implantação da instrução universal, idéia de
Lutero, iniciador da Reforma protestante que considera a educação para todos uma atribuição
do Estado. Consciente da importância da alfabetização como instrumento de divulgação da
Reforma e na esperança de possibilitar a todos os homens a leitura e a interpretação da Bíblia.
Persiste, contudo, a distinção tradicional: para os trabalhadores se destina um tipo de
educação primária e elementar e, para as camadas privilegiadas, o ensino médio superior.
A instalação da nova concepção de escola contou com a contribuição dos jesuítas,
cujos internatos se espalharam por toda a Europa ao longo de 200 anos, do século XVI ao
XVII. No Brasil, eles estão presentes desde o início da colonização, marcando definitivamente
nossa educação.
A Revolução Industrial, iniciada no século XVII, altera em alguns aspectos as
exigências da escola burguesa: à formação acadêmica predominantemente humanística se
contrapõe a necessidade de formação técnica e especializada, além do estudo das ciências.
Nesse período, chamado de “tecnicista”, a escola abandonou os princípios humanistas e deu
ênfase à ciência e à técnica.
No século XIX, com a burguesia já triunfante, o pedagogo alemão Herbart enfatiza a
importância da instrução completa até como condição de formação moral. Além disso
acelera-se o processo de democratização do ensino, com as reivindicações de uma escola
pública, leiga, gratuita e obrigatória a que possam ter acesso as camadas não privilegiadas da
sociedade.
O desafio a ser enfrentado pelos governos e pela sociedade civil – abrangendo aí as
forças organizadas dos excluídos do sistema – está na universalização de um sistema básico
de qualidade, que prepare para o trabalho e para a cidadania. A solução do impasse já vinha
sendo implantada. Para os filhos da elite é reservada a educação humanística de tipo
“clássico”, desinteressada, aparatosa e brilhante. Trata-se da educação para aqueles que
podem desfrutar o “ócio digno”. Para as massas reserva-se a educação primária , elementar,
restrita à instrução, com os rudimentos do ler, escrever e contar, indispensáveis para o manejo
das máquinas.
A formação desse pessoal diferenciado exige escolas técnicas. Na Europa, a
Alemanha cria escolas profissionais elementares, médias e superiores . Esse pioneirismo é
seguido mais tarde pela França e pela Inglaterra.
Nos estados Unidos, a instalação pública começa bem cedo. Já na primeira metade do
século XIX vários estados possuem departamentos para supervisionar e organizar a educação.
A nação americana conseguira, antes de todos os países citados, tornar o ensino leigo e
gratuito. O primário por volta de 1830 e o secundário em torno de 1850. Em 1820 se iniciara
o ensino profissional para a indústria, a agricultura e o comércio, além da criação de
universidades estatais.
Do final do século XIX até a década de 40, aumentam as oportunidades de estudo,
com consequente mobilidade e ascensão social, sobretudo para a classe média No século XX,
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em função das necessidades econômicas advindas da intensa industrialização, é inevitável
uma maior extensão da escolarização.
Cabe observar que não se compreende a escola fora do contexto social e econômico
em que está inserido. Sempre que se exige mudança da escola, a própria sociedade está em
transição e precisa de outro tipo de educação. Nenhuma reforma educacional é apenas técnica
e neutra: por trás das decisões existem posições políticas. A escola não transmite apenas
conhecimentos intelectuais por meio de uma prática neutra, mas repassa valores morais,
normas de conduta, maneiras de pensar. Por isso, Gramsci pôde escrever:
Nós não podemos afirmar em sã consciência que a burguesia faça uso da escola
no sentido de sua dominação de classe; se assim ela o fizesse isso significaria
que a classe burguesa tem um programa escolar a ser cumprido com energia e
perseverança; a escola seria uma escola viva. Isso não acontece: a burguesia
classe que domina o estado, desinteressa-se da escola, deixa que os burocratas
façam dela o que quiserem, deixa que os ministros da educação sejam escolhidos
ao acaso de interesses políticos, de intrigas, de “conchavos” de partidos e
arranjos de gabinetes...2
Em síntese, a escola é transmissora da herança cultural, especializada na educação de
futuras gerações, mostra-se necessária quando a sociedade atinge um nível de divisão de
trabalho que traz implicações no uso da escrita, na existência do Estado e no surgimento de
grandes grupos sociais. Cabe lembrar a propósito da educação aquilo que Gramsci afirmou a
respeito do folclore:
A educação não deve ser concebida como algo bizarro, mas como algo muito sério
e que deve ser levado a sério. Somente assim o ensino será mais eficiente e
determinará realmente o nascimento de uma nova cultura entre as grandes massas
populares, isto é, desaparecerá a separação entre cultura moderna e cultura
popular ou folclore.3
Segundo PETITAT4 a escola diferencia-se da família e da comunidade que sào
consideradas formas básicas de educação, tidas como esparsas e fragmentadas. Assim a escola
contribui para produzir e reproduzir a homogeneidade cultural que está relacionada com a
divisão de trabalho e parcialmente determinada pelos conflitos sociais e as relações de
dominação.
As pesquisas e os estudos das instituições escolares, estão diretamente ligados a
assuntos referentes à História Regional e Local. O ressurgimento da História Regional e
Local, na França e na Inglaterra, durante os anos 50, trouxe novas perspectivas para a sua
inserção na História Social. A história local expandiu-se muito, justamente por explorar
aspectos ligados à memória que até então eram considerados sem importância.
Segundo Justino Magalhães:
Compreender e explicar a existência histórica de uma instituição educativa é, sem
deixar
de integrá-la na realidade mais ampla que é o sistema educativo,
contextualizá-la, implicando-a no quadro de evolução de uma comunidade e
2
Gransci, A. L’ Ordine Nuovo: 1915 – 1920. Torino, Einaudi, 6ª ed. , 1975. ( do L. Saviano : Educação do
Senso Comum à Consciência Filosófica – pag. 14 )
3
Gransci , A. Literatura e Vida Nacional, pp. 186-187. N. B
4
Petitat, André. Produção da Escola/Produção da Sociedade. Tra. Eunice Gumam. Porto Alegre. Artes
Médicas, 1994, pg. 200
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de uma região, é por fim sistematizar e (re)escrever-lhe o itinerário de vida na sua
dimensionalidade, conferindo-lhe um sentido histórico.5
A História Local é uma nova perspectiva de análise histórica, que traz à tona temas
singulares até então desvalorizados e que podem ser importantes para a construção de uma
história regional, nacional e com grandes contribuições para o debate historiográfico
nacional..
Memórias de Uberlândia – cenário econômico e social
A cidade de Uberlândia, descoberta pelos bandeirantes em meados do século XIX,
passou a integrar o cenário nacional como fornecedora marginal de metais preciosos e ponto
de apoio para suprimentos alimentícios, aos núcleos mineratórios do Centro-Oeste.
Vários pesquisadores, entre eles historiadores, geógrafos e economistas6 , mostram que
seu desenvolvimento econômico foi progressivamente se caracterizando por atividades
comerciais, desde a ‘’ultima década do século XIX, acelerando-se e tornando-se significatico
com a melhoria dos meios de transporte – notadamente o ferroviário, com a chegada da
Mogiana, em 1880 a Uberaba, 1886 a Uberlândia e 1887 a Araguari.
A formação de uma estrutura de transportes foi fator importante na diferenciação dos
diversos núcleos urbanos, nos seus respectivos contatos com o mercado nacional. O
município de Uberabinha (atual município de Uberlândia) foi privilegiado com a construção
da Ponte Afonso sobre o Rio Paranaíba, em 1909, que lhe possibilitou um contato comercial
mais estreito com todo sul e sudeste de Goiás.
A localização estratégica da cidade e suas condições topográficas favoráveis foram
bem aproveitadas através da construção de uma estrada de rodagem, em 1912, pela
Companhia Mineira de Auto-Viação Intermunicipal, ligando a cidade à ponte acima referida,
numa iniciativa privada considerada arrojada para a época.
Assim, com a expansão da malha de transportes, cresceu o fluxo rodoviário e
ferroviário, interligando os estados de São Paulo, Goiás e Mato Grosso. Com isso, Uberlândia
teve seu desenvolvimento acelerado e começou a firmar sua supremacia em relação às demais
cidades da região, a partir da Segunda década desse século, até os dias atuais.
Um dos fatores que nos permite afirmar isto é o crescimento populacional, sobre o
qual DEL GROSSI afirma que:
A população do município de Uberlândia teve, em 40 anos, um crescimento
demográfico acentuado, que se acelera na década de 70-80, quando, em apenas 10
anos sua população dobra, passando de 124.706 para 240.180 hab. Esse quadro
impressiona ainda mais quando se verifica que esta população é
predominantemente urbana .7
5
Magalhães Justino. Contributo para a história das instituições educativas – entre a memária e o arquivo.
Instituto de Educação e Psicologia, Universidade do Ninho, Portugal, s.d. 18 p
6
GUIMARÃES, E. N. “A Transformação Econômica do Sertão da Farinha Podre: O Triângulo Mineiro na
divisão inter-regional do trabalho. História & Perspectiva. Uberlândia, 4:7-35, jan/jun. 1991, p.8 ;
ALMEIDA, M. F. R. “A Organização dos Trabalhadores nos Anos 50 e 60” . “Cadernos de História
Especial”. Uberlândia, V.4, n.4, Jan/1993, pp. 17-23;
DEL GROSSI, S. “Histórico da Urbanização em Uberlândia e Suas Relações com a Natureza”. Cadernos de
História especial. Op. Cit., pp. 69-79;
GOMIDE, J. F. S. “Nas Sendas do Progresso”: Tabalho e Disciplina. Uberlândia, um Percurso Histórico”.
Cadernos de História Especial. Op. Cit., pp. 9-16
7
DEL GROSSI, Sueli. “Histórico da Urbanização eme Uberlândia e Suas Relações com a Narureza”. In:
Cadernos de História Especial. Uberlândia, UFU / LEAH. V. 4, nº 4, jan. 1993.
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Este crescimento também favoreceu o fortalecimento dos políticos locais, que sempre
procuraram influenciar o governo federal no sentido de resguardar os “interesses da cidade”.
As lideranças locais tiveram consciência desse aspecto favorável e trabalharam no sentido de
fortalecê-lo, principalmente no aspecto comercial. A geração de riquezas advindas das
atividades econômicas, ao invés de migrarem para outras regiões, foram utilizadas no próprio
município, possibilitando um crescimento industrial significativo.
Selmane Felipe de Oliveira afirma o seguinte:
(...) Uberlândia estava localizada geograficamente entre o planalto central e o
centro industrial do país – São Paulo e Rio de Janeiro. Ou seja, este aspecto
fortaleceria ainda mais a postura da cidade enquanto entreposto comercial.” 8
A história tradicional da cidade referencia-se, frequentemente, aos feitos desses
“grandes homens”, que se estabeleceram na região com o propósito definido de ocupação e
fixação econômica e que foram criando escolas, aconselhando moradores, organizando as
relações sociais da cidade local – o que lhe dava, além de tudo, prestígio – combinando, para
tal, mecanismos de poder pessoal e institucionais.
Ainda hoje, os políticos tradicionais costumam ressaltar que o crescimento de
Uberlândia se deve, em grande parte, à capacidade e desprendimento da classe política, que
sempre se uniu quando estava em jogo os “interesses maiores do povo uberlandense”.
RODRIGUES (1993), pontua que a história de Uberlândia está intimamente ligada ao
poder de seus “líderes”, das famílias pioneiras, dos forasteiros que se deram bem. Portanto,
não é de surpreender as estranhas alianças políticas, que são perfeitamente compreensíveis
quando localizadas em seus devidos contextos históricos.
Estes estranhos acordos políticos podem ser explicados pela natureza endogâmica que
marcou a constituição da cidade. Apesar das divergências , as famílias tradicionais sempre
procuravam realizar os casamentos de seus filhos com membros da mesma classe social.
Desta maneira, diversos segmentos da elite mantinham estreitas relações de parentesco.
Um aspecto do progresso da cidade, iniciado no século XIX e estendido até hoje, foi o
da disciplina e do controle sobre a cidade e seus habitantes, os quais eram exercidos pela
imprensa, os políticos e a polícia, como mostra RODRIGUES ( 1993):
Estabelece-se uma rede de poder tanto vertical quanto horizontal ao longo de
todas as instâncias do social, cujo objetivo era o de assegurar o espaço da
reprodução do capital e, por conseguinte, do ideário burguês. A política de
higienização física e moral da cidade estava em todos os lugares, desde a limpeza
urbana, a proibição do jogo, a repressão à prostituição, a condenação do aborto,
até ao policiamento ideológico de pessoas, partidos e instituições. O discurso
normatizador e disciplinador, expresso no binômio ordem/progresso fez sentir sua
ação em todos os setores da vida do município, moldando comportamentos,
organizando a produção, ordenando o espaço urbano, impondo regras e
subjugando os contrários.9
História de Uberlândia – cenário educacional
8
OLIVEIRA, Selmane Felipe. “Crescimento Urbano e Ideologia Burguesa: Estudo do desenvolvimento
capitalista em cidades de médio porte: Uberlândia – 1950/1985 . Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro, UFF.
1992.
9
RODRIGUES, Jane de Fátima Silva. “Nas Sendas do Progresso: Trabalho e disciplina, Uberlândia um percurso
histórico” . IN: Cadernos de História Especial. Uberlândia, UFU/LEAH, v.4, jan. 1993
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Uberlândia, no final da década de 1950 estava crescendo em todas as áreas, começava
a necessitar de um grande número de profissionais, seja na área de educação (professores),
no comércio (economistas, contabilistas) , na administração municipal (advogados), etc..
Tais profissionais poderiam ser trazidos de fora, mas como a demanda era muito grande, e
por haver interesse em se formar mão de obra especializada na própria cidade, geram-se
condições para que se criasse instituições de ensino superior que atendesse a tal mercado.
Para que isso ocorresse era necessário que o ensino implantado em Uberlândia
atendesse, não só às necessidades do município, mas também à política educacional do
Governo Federal. O atendimento dessas necessidades é visto por FÄVERO como uma das
funções do ensino universitário ou superior:
(...) uma das formas de a universidade desempenhar as funções de ensino e
pesquisa é através da formação de profissionais liberais e especialistas altamente
qualificados nos diversos campos do conhecimento10.
Uberlândia por volta dos anos 50 e 60, apesar do grande crescimento e
desenvolvimento, do ponto de vista educacional deixava muito a desejar, principalmente no
que se refere ao ensino de 3ª grau. No aspecto cultural, destacavam-se o Ginásio Mineiro e,
posteriormente, o Colégio das IRMÃS DE “Jesus Crucificado”., instituições ligadas às letras
e artes em geral.
Com a construção de Brasília e a construção de toda malha rodoviária que visava ligar
a nova capital com todo país, Uberlândia se viu muito beneficiada pela sua posição geográfica
estratégica. A nível governamental, as condições para a implantação do ensino superior em
Uberlândia também eram extremamente favoráveis . Havia toda uma política pró-criação
escolas como atesta CUNHA:
O Conselho Federal de Educação dava sua contribuição a esse “esforço” da
iniciativa privada, facilitando a concessão de autorização para funcionamento e
credenciamento das faculdades particulares por se multiplicarem a cada dia11
Como resultado direto desse estímulo, criou-se as primeiras faculdades. Estas não
surgiram por acaso, mas devido às condições históricas específicas favoráveis da época e das
necessidades do município, alé do fato de já se encontrar bem servida em escolas de 1º e 2º
graus, como atesta os dados do IBGE de 1962:
Segundo o IBGE em 1962 o município possui 99.000 habitantes, contando a cidade
com 80.000. O Triângulo Mineiro apresenta um dos maiores índices de
desenvolvimento agro-pecuário do Estado de Uberlândia , uma das cidades mais
importantes. O município dispõe de 90 escolas primárias, 9 de nível médio, 1
escola vocacional para a indústria e 3 escolas superiores12
O crescimento populacional do município, aliado ao grande número de escolas de 1º e
2º graus, possibilitaram que a idéia de criação da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras
deixassem de ser apenas uma idéia e se concretizasse. O ensino universitário em Uberlândia
iniciou-se através da criação de faculdades isoladas, precedendo a própria idéia de se formar
uma Universidade, devido à necessidade de situar rapidamente o contexto de nascimento das
10
FÄVERO, Maria de Lourdes de Alburquerque. Universidade Brasileira em Busca de sua Identidade.
Petrópolis: Vozes, 1977, p. 4
11
CUNHA, Luiz Antonio. O Golpe na Educação. 2º ed. Rio de Janeiro, Zahar, 1985, p.49
12
TEIXEIRA,, Tito. Bandeirantes e Pioneiros do brasil Central. Uberlândia: Uberlândia Gráfica LTDA, 1970,
pg.91
1110
mesmas. Desde o início dos anos 50 ocorreram, na cidade, alguns movimentos em prol da
criação do Ensino Universitário público, notadamente dos cursos de Medicina e Direito,
promovidos pelo Dr. Homero Santos13.
O processo de criação da Universidade Federal de Uberlândia foi marcado por muitas
etapas, tendo início com a criação de faculdades isoladas: Música em 1957 ; Filosofia
Ciências e Artes em 1960 ; Direito em 1960 ; Engenharia em 1961 ; Ciências Econômicas em
1963 ; Escola de Medicina e Cirurgia em 196814.
A união das faculdades isoladas e a criação da Universidade de Uberlândia sempre
apareceu como um empreendimento de poucas pessoas de visão – educadores e políticos –
que souberam atrair o entusiasmo da cidade inteira em torno desse projeto. Essa Universidade
é colocada como um desejo da cidade inteira . Seus fundadores são lembrados como idealistas
que trabalharam em consonância com o que se chamava o “espírito uberlandense”.
O crescimento da Universidade causou um forte impacto, com seu orçamento bem
maior do que o da prefeitura, representando um fator econômico para o desenvolvimento da
cidade, cumprindo as expectativas da elite. Segundo a professora Ângela Gonçalves de
Oliveira:
Depois que a Universidade foi instalada em Uberlândia, você vê que o próprio
crescimento, não só de Uberlândia, mas da região, se cabe, também, a essa
oportunidade de polo irradiador. A quantidade de pessoas que hoje nós temos em
Uberlândia – São consideradas imigrantes – que vieram é ... devido à
Universidade ... ou vieram ser docentes, ou vieram trabalhar na Universidade, ou
vieram trazer seus filhos e aí trouxeram outro tipo de cultura, trouxeram outro tipo
de mercado de trabalho, instalaram firmas, instalaram indústrias, porque vieram
acompanhando os filhos que tinham que cursar uma Universidade. Então, é um ...
um emaranhado de benefícios que a Universidade traz prá uma região. Eu vejo
assim15
Como foi possível observar, a criação da Universidade Federal de Uberlândia foi de
grande importância para a elite local que a utilizou como alicerce de um projeto
desenvolvimentista. Em torno das poucas pessoas que idealizavam a universidade, foi se
construindo grupos e a idéia foi crescendo. O sonho de poucos se transformou no esforço de
muitos. E o esforço de muitos se transformou no esforço de todos.
Atualmente, Uberlândia constitui-se num dos mais importantes centros regionais do
Estado de Minas Gerais. Nos meios políticos locais, as potencialidades da cidade são
destacadas, com base em indicadores econômicos e sociais, sendo considerada o pólo da
região em que se situa, mantendo ainda um ritmo vertiginoso de crescimento.
13
Homero Santos foi vereador de Uberlândia, de 1954 a 1962 ( PSD ); deputado estadual de 1963 a 1970
(ARENA ) ; deputado federal de 1971 a 1988 ( ARENA-PDS ) e até poucos anos atrás foi Ministro do Tribunal
de Contas da União
14
RIBEIRO, Eleonora Estela Tofolli. A Construção da Universidade Federal de Uberlândia e Suas Articulações
com a Educação Fundamental, Através das Memórias de Seus Autores. São Paulo, 1995. Dissertação de
Mestrado, PUC – São Paulo
15
Ribeiro, Eleonora E. T. , A Construção da Universidade Federal de Uberlândia e suas Articulações com a
Educação Fundamental, através das Memórias de seus Autores.São Paulo, 1995. Dissertação de Mestrado, PUC
– São Paulo
1111
REFERÊNCIAS BBLIOGRÁFICAS
ARANHA, Maria Lúcia de Aruda, Filosofia da Educação. Editora Moderna, São Paulo, 1996
ALMEIDA, M. F. R. “A Organização dos Trabalhadores nos anos 50 e 60”. “Cadernos de
História especial”. Uberlândia, V.4, nº 4, Jan/1993, pp. 17-23.
CUNHA, Luis Antonio. O Golpe na Educação. 2ª edição. Rio de Janeiro, Zahar, 1985, pág.
49.
DEL GROSSI, Sueli . “Histórico da Urbanização em Uberlândia e suas Relações com a
Natureza”. Cadernos de História Especial. Op. Cit., pp. 69-79
--------------------------- “Histórico da Urbanização em Uberlândia e Suas Relações com a
Natureza”. In: Cadernos de História Especial . Uberlândia. UFU / LEAH. V.4, jan. 1993.
FÁVERO, Maria de Lourdes de Alburquerque. Universidade Brasileira em Busca de sua
Identidade. Petrópolis: Vozes, 1997, pág. 4
GOMIDE, J. F. S. “Nas Sendas do progresso: Trabalho e Disciplina. Uberlândia, um
percurso Histórico”. Cadernos de História Especial. Op. Cit., pp. 9-16
GUIMARÃES, E. N. “A Transformação Econômica do Sertão da farinha Podre: O
Triângulo Mineiro na divisão inter-regional do trabalho.” História & Perspectiva.
Uberlândia, 4: 7-35, jan/jun. 1991, pág. 8.
GRANSCI, Antonio. Do livro do Saviano: Educação do senso Comum à Consciência
Filosófica, pág. 14
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As relações que os homens estabelecem entre si para produzir a