A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA ENVOLVENTE, IMPORTÂNCIA E EVOLUÇÃO RECENTE 2010 DEZEMBRO 2011 ÍNDICE Pág. 1. ENVOLVENTE MACROECONÓMICA 5 2. O COMPLEXO AGROFLORESTAL: PRODUÇÃO, EMPREGO E PRODUTIVIDADE 7 3. COMPLEXO AGROFLORESTAL E COMÉRCIO INTERNACIONAL 11 4. EVOLUÇÃO RECENTE DA ECONOMIA AGRÍCOLA PORTUGUESA 12 4.1. EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO E DO PRODUTO AGRÍCOLA 13 4.2. EVOLUÇÃO DO PRODUTO, DO EMPREGO E DA PRODUTIVIDADE DO TRABALHO AGRÍCOLA 17 4.3. EVOLUÇÃO DO RENDIMENTO DA ATIVIDADE AGRÍCOLA 20 4.4. EVOLUÇÃO DA PROCURA INTERNA E DO COMÉRCIO INTERNACIONAL AGROALIMENTAR E 23 FLORESTAL GPP – A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA GPP – A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA ÍNDICE DE QUADROS E GRÁFICOS QUADROS Pág. Quadro 1 Enquadramento Internacional 5 Quadro 2 PIB e componentes em Portugal 6 Quadro 3 Importância do Complexo Agroflorestal no PIB 7 Quadro 4 Importância do Complexo Agroflorestal no Emprego 8 Quadro 5 Importância do Complexo Agroflorestal no Comércio Internacional 11 Quadro 6 13 Quadro 8 Evolução da Produção, Consumos Intermédios e VABpm Agrícolas e PIBpm (valor, volume e preços) Taxa média de crescimento anual da Produção, dos Consumos Intermédios, do VAB Agrícola e do PIB Estrutura da Produção agrícola e respetiva variação Quadro 9 Produção, Emprego e Produtividade Agrícolas 18 Quadro 10 20 Quadro 11 Indicadores por Classes de Dimensão Económica das Explorações Agrícolas (2007) Produto, Emprego e Rendimento da Atividade Agrícola Quadro 12 O Investimento na Atividade Agrícola a preços correntes 23 Quadro 13 Evolução do Comércio Internacional Agroflorestal e da Economia 23 Quadro 14 Orientação Exportadora 24 Quadro 15 Grau de autoaprovisionamento de bens alimentares 26 Quadro 16 Cenário Grau de autoaprovisionamento do setor agroalimentar 2018 26 Gráfico 1 Saldo Comercial do CAF, agroalimentar e florestal 12 Gráfico 2 Evolução do VABpm agrícola 2000-2010 14 Gráfico 3 Índices de Preços Implícitos na Produção, Consumos intermédios e 15 Quadro 7 14 16 21 GRÁFICOS VAB agrícola Gráfico 4 Evolução da produtividade parcial do trabalho agrícola e respetivas 19 componentes 2000-2010 Gráfico 5 Composição e Evolução do VABcf, preços correntes 20 Gráfico 6 Índices de preços implícitos no VABcf agrícola e no PIB 22 Gráfico 7 Evolução da rendibilidade real do trabalho agrícola 2000-2010 22 Gráfico 8 Despesa das famílias em bens alimentares e evolução da Produção, 25 Consumo e Importações de bens alimentares. GPP – A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA GPP – A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 1. ENVOLVENTE MACROECONÓMICA A atividade agrícola, tal como as outras atividades económicas inseridas no mercado global, está sujeita à influência do ambiente macroeconómico. O comportamento da procura é influenciado por fatores como o rendimento das famílias e a taxa de desemprego, quer em termos nacionais quer mundiais, dada a crescente importância da procura externa direta e, sobretudo, indireta (através de bens agrícolas transformados). Embora exista alguma rigidez (inelasticidade) na procura de bens alimentares, a evolução das variáveis referidas poderá implicar reajustamentos, nomeadamente na estrutura dessa procura. Do lado da oferta, o preço dos consumos intermédios, como o petróleo ou os alimentos para animais, e o valor das taxas de juro repercutem-se nos custos de produção. Quadro 1: Enquadramento Internacional 2000 2005 2006 2007 2008 2009P 2010P Taxa de crescimento média anual (%) Taxa de variação anual real PIB (%) EUA Zona euro OCDE PT 4,1 4,0 4,2 3,9 3,1 1,7 2,7 0,8 2,7 3,1 3,1 1,4 1,9 2,9 2,7 2,4 0,0 0,4 0,3 0,0 -2,7 -4,1 -3,5 -2,9 2,9 1,8 3,0 1,4 1,7 1,1 1,6 0,6 4,0 8,3 6,2 3,9 5,1 8,9 6,6 7,6 4,6 8,2 6,1 7,7 4,6 7,4 5,6 8,0 5,8 7,4 5,9 7,6 9,3 9,3 8,1 9,5 9,6 9,9 8,3 10,8 5,9 8,5 6,7 7,0 Taxa de Desemprego (%) EUA Zona euro OCDE PT Taxa de Variação anual real do Consumo privado (%) EUA Zona euro OCDE PT 6,5 8,5 6,8 8,5 Taxa de crescimento média anual (%) 5,1 3,1 4,2 3,8 3,4 1,9 2,9 1,7 2,9 2,2 2,8 1,8 2,4 1,7 2,6 2,4 -0,3 0,4 0,3 1,3 -1,2 -1,1 -1,5 -2,4 1,7 0,7 1,9 2,1 2,0 1,1 1,9 1,2 1,1 0,7 1,2 1,0 Taxa média (%) 6,5 4,4 3,5 2,2 5,2 3,1 5,3 4,3 3,0 4,6 0,6 1,2 0,3 0,8 2,9 3,0 3,0 2,7 Taxa de crescimento média anual (%) Índice de preços (Base 2005) Petróleo Matérias primas agrícolas 0,9 0,8 1,1 0,4 Taxa média (%) Taxa de juro de curto prazo (%) EUA Zona euro 2000-2010 2005-2010 52,2 86,6 100,0 100,0 119,8 111,8 133,4 135,3 178,4 130,2 113,1 108,5 143,2 145,6 10,6 5,3 7,4 7,8 P - dados provisórios Fonte: OCDE e Contas Nacionais, INE. Em 2010, o PIB das economias desenvolvidas, os principais destinos das exportações portuguesas, incluindo as agroalimentares, voltou a crescer, recuperando da crise de 2008/2009, mas sem alcançar ainda os níveis anteriores nem os valores do produto potencial, em particular na UE, e portanto não se refletiu ainda no desemprego, que continuou a GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 5 aumentar, o que não impediu o aumento do Consumo Privado. As taxas de juro desceram para níveis historicamente baixos, embora com prémios de risco diferentes nos vários Estados Membros da Zona Euro. Em contrapartida, os preços do petróleo e das matérias-primas agrícolas registaram uma subida assinalável, atingindo máximos históricos neste último caso. Quadro 2: PIB e componentes em Portugal 2000 2005 2006 2007 2008 2009 P 2010 Taxa de crescimento média anual (%) 2000-2010 2005-2010 Taxa de variação real (%) PIB 3,9 0,8 1,4 2,4 0,0 -2,9 1,4 0,6 0,4 Consumo privado 3,8 1,7 1,8 2,4 1,3 -2,4 2,1 1,2 1,0 Consumo público 4,3 3,3 -0,6 0,5 0,3 4,7 0,9 1,8 1,2 Investimento 1,6 -0,9 -0,6 2,1 -0,1 -13,3 -3,6 -2,6 -3,3 Procura interna 3,3 1,4 0,8 2,0 0,8 -3,3 0,8 0,5 0,2 Exportações 8,8 0,2 11,6 7,5 -0,1 -10,9 8,8 2,8 3,0 Importações 5,6 2,3 7,2 5,5 2,3 -10,0 5,4 1,9 1,9 P- Dados provisórios Fonte: Contas Nacionais, INE Em Portugal, o ano de 2010 foi marcado também por um crescimento do PIB, embora moderado, para o que contribuiu a boa recuperação das exportações. Verificou-se um aumento muito significativo do desemprego, que atingiu proporções não conhecidas nas últimas décadas. Apesar disso, o Consumo Privado registou uma subida mais acentuada que a do PIB e muito superior à observada na zona euro e na generalidade dos países desenvolvidos. Também as importações voltaram a registar um grande crescimento, apesar da continuada e forte quebra do investimento, o que revela um agravamento da dependência real de importações, pois a taxa de crescimento desta variável, embora inferior à das exportações, foi muito superior à do PIB e às da Procura Interna e de todas as suas componentes. Em termos nominais, as consequências negativas do aumento das importações foram ainda agravadas pela subida já mencionada dos preços do petróleo e das matérias-primas agrícolas, duas componentes fundamentais da nossa dependência externa e que contribuem decisiva e estruturalmente para os elevados défices da balança comercial de Portugal com o exterior. Do lado da oferta, as taxas de juro do euro registaram níveis muito baixos mas os prémios de risco nacionais contrariaram esse impacto. Adicionalmente aumentou a perceção dos agentes sobre a retração futura da procura interna e sobre a manutenção de uma tendência altista dos preços do petróleo e das matérias-primas agrícolas, num contexto de grande volatilidade. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 6 A perceção negativa sobre a evolução futura da procura interna insere-se na previsão da degradação global da conjuntura económica portuguesa a partir de 2010, motivada pela crescente consciência e verificação das dificuldades de financiamento da nossa economia, em virtude do persistente agravamento da dívida pública e da dívida global perante o exterior. Como sabemos, a evolução em 2011 iria confirmar e mesmo exceder as previsões mais pessimistas de 2010 e exigir uma reorientação das políticas públicas, subordinando-as à exigência de contenção e inversão da tendência de agravamento dos défices das contas públicas e com o exterior. Estes fatores, conjugados com a persistência de debilidades estruturais nacionais na envolvente institucional da atividade empresarial e nas capacidades endógenas de importantes segmentos da estrutura produtiva nacional, explicarão a continuação da queda do investimento. 2. O COMPLEXO AGROFLORESTAL: PRODUÇÃO, EMPREGO E PRODUTIVIDADE O complexo agroflorestal inclui o complexo Agroalimentar (agricultura e indústrias alimentares, bebidas e tabaco) e o complexo florestal (silvicultura e as indústrias transformadoras de produtos florestais) e tem um peso importante na economia nacional, gerando aproximadamente 6% do PIB e 15% do emprego (cf. Quadros 3 e 4). Quadro 3: Importância do Complexo Agroflorestal no PIB (%) P 2000 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Agricultura Ind. Alimentares, Bebidas e Tabaco Silvicultura 2,5 1,9 2,0 1,7 1,6 1,6 1,6 2,1 2,1 2,1 1,9 2,0 2,1 2,1 0,8 0,5 0,5 0,5 0,4 0,4 0,5 Ind. Florestais 2,2 1,7 1,7 1,7 1,5 1,3 1,3 Complexo Agro Florestal 7,5 6,2 6,2 5,7 5,5 5,5 5,5 Agricultura 2,7 2,3 2,3 2,1 2,2 2,0 nd Complexo Agro Florestal 7,7 6,6 6,5 6,2 6,0 5,8 nd Preços base Custo de factores P – Dados provisórios Fonte: GPP, a partir de Contas Nacionais, INE. Como se explica na Nota metodológica 1, a valorização do produto agrícola ao custo de fatores, isto é, somando ao VABpm todos os subsídios líquidos de impostos, aumenta a sua importância e contribui para uma maior estabilidade da sua evolução ao longo da década em GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 7 análise. É pertinente tomar esta medida (VABcf) em consideração não só na ótica do rendimento, mas também da produção, pois parte dos subsídios agrícolas destinam-se a pagar bens públicos não remunerados pelo mercado. Quadro 4: Importância do Complexo Agroflorestal no Emprego (%) 2000 2005 2006 2007 2008 2009 2010P Agricultura 11,5 10,9 10,9 10,7 10,5 10,7 10,4 Ind. Alimentares, Bebidas e Tabaco 2,4 2,3 2,3 2,3 2,3 2,3 2,3 Silvicultura 0,2 0,2 0,2 0,2 0,2 0,2 0,2 Ind. Florestais 2,0 1,8 1,8 1,7 1,6 1,5 1,5 Complexo Agro Florestal 16,1 15,2 15,1 14,9 14,7 14,7 14,3 Nº individuos Equivalentes a tempo completo Agricultura 10,0 8,8 8,5 8,3 8,2 8,3 nd Complexo Agro Florestal 14,6 13,1 12,9 12,6 12,4 12,4 nd P – Dados provisórios Fonte: GPP, a partir de Contas Nacionais, INE. Em 2009, o peso do emprego agrícola no emprego total representava 8,3% e 10,7%, se avaliado, respetivamente, em equivalentes a tempo completo de trabalho e em número de ativos empregues. A comparação do peso da Agricultura no PIBcf (2%) com o seu peso no volume de trabalho (8,3%), em 2009, mostra uma produtividade parcial do trabalho agrícola inferior a 1/3 da do conjunto da economia1. Este valor tão diminuto da produtividade média do trabalho na agricultura deve-se a uma conjugação de diferentes fatores, que precisam de ser tidos em conta, para que tal valor seja corretamente interpretado. Primeiro, é necessário ter presente que muitas das explorações agrícolas portuguesas, em regra de pequena dimensão, constituem um complemento de outras atividades e fontes de rendimento, aproveitando uma reserva de trabalho sem outras alternativas de utilização, quer devido ao desemprego ou subemprego quer porque realizada por pessoas idosas e/ou com habilitações escolares muito baixas, o que implica que o seu custo de oportunidade seja muito baixo. 1 A relação entre a produtividade do trabalho num setor e a produtividade no conjunto da economia é igual ao quociente (resultado) da divisão do peso desse setor no PIB pelo seu peso no emprego, ou seja, neste caso 2%/8,3% = 0,241. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 8 Nota metodológica 1 – Valorização do Produto Agrícola Definição Observações VABpm = (Produção – Consumos Intermédio)pm Os preços de mercado resultam do confronto entre a oferta e a procura, mas reflectem igualmente medidas de política como barreiras alfandegárias, incluindo tarifas, quotas de produção, intervenção, etc. VABpb=VABpm + subsídios aos produtos líquidos de impostos A valorização a preços base é igual ao preço de mercado acrescido do apoio específico aos produtos, que engloba as ajudas pagas por unidade de bem ou serviço produzido. Consideram-se, entre outros, os pagamentos por área semeada de cereais, os pagamentos por cabeça normal dos ovinos e bovinos e as ajudas à produção de azeite. VABcf=VABpb + subsídios desligados líquidos de impostos A valorização a custo de factores inclui o preço de mercado, os subsídios aos produtos (preços base) e os subsídios desligados da produção, de que são exemplos, o regime de pagamento único (RPU), as bonificações de juros, as ajudas às retiradas de terras, as indemnizações compensatórias e os pagamento no âmbito das medidas agro-ambientais. A análise da evolução do produto agrícola deverá ter em atenção que as alterações de política se repercutem de forma muito diferente nos valores do produto resultantes destas três óticas de medição, nomeadamente: • A Reforma da PAC de 1992, aprofundada na Agenda 2000, determinou a diminuição do apoio aos preços de mercado (p.e. a diminuição do preços de intervenção) compensando-a com o aumento das ajudas diretas específicas aos produtores de culturas arvenses, carne de bovinos e pequenos ruminantes, etc. (AD). Como as AD são contabilizadas no VABpb e não o são no VABpm, tais alterações contribuem para a diminuição do produto a preços de mercado, mas não afetam o valor do produto a preços base desde que o aumento das ajudas diretas compense o efeito da diminuição do apoio através do preço; • A Reforma de 2003, ao incorporar a maioria das AD ligadas num Pagamento Único Desligado de atividades específicas, através da criação do RPU (Regime de Pagamento Único), induziu a diminuição do produto a preços base, mas não afetou o valor do produto a custo de fatores, pois este ao contrário do anterior inclui todas as AD aos produtores, quer sejam ligadas ou desligadas da produção. Assim, como o produto medido ao custo de fatores é o menos afetado pelas sucessivas alterações de política nas últimas duas décadas, constitui a medida mais adequada para estudar a sua evolução não só na ótica do rendimento mas também na ótica da oferta, na medida em que as AD são formas de compensar quebras de preços, mas também de remunerar a produção pela agricultura de bens públicos que o mercado não remunera. Adicionalmente, deve lembrar-se que uma parcela considerável da produção agrícola das explorações mais pequenas não é dirigida para o mercado, destinando-se diretamente ao consumo das famílias, que assim evitam a sua aquisição a preços do mercado a retalho, em geral superiores aos preços no produtor. A conjugação destes dois tipos de fatores permite compreender que significativos segmentos da produção agrícola possam persistir com níveis de produtividade do trabalho muito reduzidos, uma vez que no contexto da sua situação objetiva e da sua racionalidade própria, obtêm benefícios a que atribuem um valor superior aos custos em que incorrem. Contudo, as explorações agrícolas de maior dimensão e plenamente inseridas no mercado já não seriam viáveis economicamente com níveis de produtividade do trabalho tão reduzidos. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 9 Assim, se analisarmos apenas as explorações agrícolas portuguesas de grande e média dimensão, verifica-se que detêm pesos relativos semelhantes no produto e no emprego total da economia (1,6%2) o que significa que a produtividade média do trabalho nesses estratos da produção agrícola se equipara à do conjunto da economia. Nota Metodológica 2 Trabalho agrícola: emprego vs volume de trabalho O volume de emprego é contabilizado pelas Contas Nacionais: • em número de indivíduos, incluindo todas as pessoas que exercem um atividade produtiva, como trabalhadores por conta de outrem ou por conta própria, independentemente do tempo que dedicam à sua efetivação; • em equivalentes a tempo completo, que assume a denominação de UTA - Unidade de Trabalho Agrícola no caso da Agricultura, dividindo o total das horas trabalhadas pelos indivíduos empregados pela média anual de horas trabalhadas em empregos a tempo completo. Para cálculo das UTA, converte-se assim o valor do emprego medido em nº de indivíduos empregados, a tempo completo ou parcial, em unidades que equivalem ao volume de trabalho prestado por um indivíduo empregado a tempo inteiro. Deste modo, o volume de trabalho medido em UTA é, por regra, inferior ao volume do emprego em n.º de indivíduos e a diferença entre ambos será tanto maior quanto maior for o volume de trabalho prestado a tempo parcial. Como uma das características da agricultura é a grande importância relativa do trabalho a tempo parcial, a quantificação do trabalho agrícola deverá basear-se preferencialmente nas UTA e não no n.º de indivíduos empregues, em particular quando se quer aferir a importância do emprego agrícola na economia ou proceder à análise da produtividade do trabalho. 2 Estimativas GPP, a partir de INE. Estas explorações representam 2/3 da produção agrícola mas apenas 20% do respetivo volume de trabalho. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 10 3. COMPLEXO AGROFLORESTAL E COMÉRCIO INTERNACIONAL Os produtos do Complexo Agroflorestal são bens internacionalmente transacionáveis, isto é, que podem ser importados e exportados e estão, portanto, sujeitos à concorrência internacional nos mercados externos e no mercado interno. Quadro 5: Importância do Complexo Agroflorestal no Comércio Internacional (%) 2005 2006 2007 2008 2009 2010P 6,6 8,1 8,1 8,8 10,0 11,6 10,6 12,1 12,2 12,1 12,9 13,2 15,0 14,0 22,4 20,1 20,8 21,7 19,0 21,7 21,8 2000 Complexo agroalimentar no total da Economia (Bens) Exportações EXP agroalimentar /EXP Bens Importações IMP Saldo Comercial agroalimentar /IMP Bens SC agroalimentar /SC Bens Complexo Florestal no total da Economia (Bens) Exportações EXP florestal /EXP Bens 9,4 8,4 8,1 8,0 7,7 7,9 9,3 Importações IMP florestal /IMP Bens 3,9 3,5 3,3 3,5 3,2 3,4 3,3 -6,3 -5,7 -7,0 -6,5 -5,1 -5,5 -10,1 Saldo Comercial SC florestal /SC Bens Complexo Agro-florestal no total da Economia (Bens ) Exportações EXP agroflorestal /EXP Bens 16,0 16,5 16,2 16,8 17,7 19,5 19,9 Importações IMP agroflorestal /IMP Bens 16,0 15,7 15,4 16,3 16,3 18,4 17,4 agroflorestal /SC Bens 16,1 14,4 13,8 15,3 13,9 16,2 11,7 Saldo Comercial SC Complexo Agro-florestal no total da Economia (Bens e Serviços) Exportações EXP agroflorestal /EXP Bens+serviços 12,6 12,6 12,2 12,4 13,0 13,9 14,4 Importações IMP agroflorestal /IMP Bens+serviços 14,0 13,7 13,4 14,1 14,1 15,6 14,8 agroflorestal /SC Bens+serviços 17,9 16,9 17,3 20,7 17,9 21,8 16,3 Saldo Comercial Nota: • • SC Uma vez que a balança comercial é deficitária, um valor positivo no saldo comercial significa um contributo negativo para o saldo da Balança Comercial da Economia, por sua vez, um valor negativo no saldo comercial significa um contributo positivo para o saldo da Balança Comercial (ver gráfico 1). A Balança Comercial da Economia regista as transações de comércio internacional de bens e serviços. Alguns dos indicadores apresentados foram construídos contemplando apenas as transações de bens da Economia, dado o carácter maioritário destas no Complexo Agroflorestal. P - dados provisórios. Fonte: GPP, a partir de Contas Nacionais, INE. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 11 As atividades do complexo agroflorestal têm por isso um papel importante no comércio internacional representando, atualmente, cerca de 20% e 18%, respetivamente, dos valores das exportações e das importações de bens da Economia. O saldo da balança comercial é negativo, correspondendo a 21,8% do défice comercial da Economia Portuguesa, em 2009. Em 2010, ainda que preliminarmente, verifica-se uma melhoria substancial do saldo comercial agroflorestal passando aquele indicador para 16,3%. O fator que mais dificulta a redução do défice comercial externo das atividades agroflorestais é a forte dependência de importação de cereais e de outros produtos para alimentação animal, agravada pela tendência de crescimento dos respetivos preços. A melhoria significativa do défice comercial agroflorestal em 2010, resultará do crescimento substancial das exportações florestais. Gráfico 1: Saldo comercial do CAF, agroalimentar e florestal (milhões de euros) Excedente 2.000 1.000 0 Défice -1.000 -2.000 -3.000 -4.000 -5.000 2000 2001 CAF 2002 2003 2004 2005 2006 Agroalimentar 2007 2008 2009 2010P Fileira Florestal P – Dados provisórios Fonte: GPP, a partir de Contas Nacionais e Estatísticas do Comércio Internacional de bens, INE. 4. EVOLUÇÃO RECENTE DA ECONOMIA AGRÍCOLA PORTUGUESA Neste ponto apresentam-se os dados relativos à evolução recente do produto agrícola português com referência ao início da década, avaliando as repercussões da evolução das diferentes componentes na respetiva evolução (ponto 4.1). É, também, efetuada uma análise à evolução do rendimento da atividade agrícola centrando-se a atenção na produtividade do GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 12 trabalho e na relação preços/subsídios (pontos 4.2 e 4.3). Conclui-se o ponto analisando a procura de produtos agroalimentares e florestais, nomeadamente a evolução do respetivo comércio internacional (ponto 4.4). 4.1. EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO E DO PRODUTO AGRÍCOLA A atividade agrícola caracteriza-se por uma enorme volatilidade em resultado da elevada exposição a fatores, quer de natureza económica, quer de natureza climática. Esta característica deverá estar presente na análise da evolução da produção agrícola. A evolução do produto agrícola, em volume (a preços constantes), traduziu-se num ligeiro decréscimo de 5,7% (média anual3: -0,6%) no período 2000-2010. Contudo, em valor (a preços correntes), esta tendência é mais pronunciada, diminuindo 20,1% (média anual: -2,2%) no mesmo período. Quadro 6: Evolução da Produção, Consumos Intermédios e VABpm Agrícolas e PIBpm (valor, volume e preços) P P 2000 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Preços correntes 100,0 95,9 100,3 104,2 109,3 102,6 105,5 Preços constantes 2006 100,0 99,3 100,6 99,8 102,4 101,3 99,4 IPI Produção 100,0 96,6 99,7 104,5 106,8 101,3 106,2 Preços correntes 100,0 108,1 109,0 122,7 131,5 122,2 128,1 Preços constantes 2006 100,0 103,7 101,8 104,5 105,9 104,5 103,2 IPI Consumos intermédios 100,0 104,2 107,1 117,3 124,2 116,9 124,1 Preços correntes 100,0 82,1 90,4 83,3 84,0 80,3 79,9 Preços constantes 2006 100,0 93,4 99,0 93,5 97,6 97,1 94,3 IPI VABpm 100,0 88,0 91,3 89,1 86,1 82,7 84,7 Preços correntes 100,0 121,2 126,3 133,0 135,1 132,3 135,5 Preços constantes 2006 100,0 104,2 105,7 108,2 108,2 105,1 106,5 IPI PIB 100,0 116,3 119,5 122,9 124,8 126,0 127,3 Produção agrícola Consumos intermédios VABpm agrícola PIBpm Nota: O Índice de Preços Implícito (preços correntes /preços constantes *100) expressa a evolução dos preços ou de valorização de determinada variável. P - dados provisórios. Fonte: GPP, a partir de Contas Nacionais e Contas Económicas da Agricultura (Base 2006), INE. 3 Em média trienal o crescimento foi de -0,3%. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 13 O contraste observado entre as evoluções do produto agrícola em valor e em volume deveu-se à forte diminuição dos preços implícitos no produto agrícola (-15,3%) no período 2000-2010 (média anual de -1,6), em virtude da conjugação de um crescimento acentuado dos preços dos consumos intermédios (24,1%, média anual 2,2%) com uma relativa estabilização dos preços do conjunto da produção agrícola, que cresceram 6,2% no mesmo período, (média anual 0,6), a qual se verificou a par de uma forte volatilidade dos preços de alguns bens agrícolas, com uma subida acentuada no ano 2010 (4,9%). Gráfico 2: Evolução do VABpm Agrícola 2000-2010 (2000=100) 125 100 75 50 25 0 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Valor 2007 2008 2009P 2010P Volume P - dados provisórios. Fonte: GPP, a partir de Contas Económicas da Agricultura (Base 2006), INE. Quadro 7: Taxa média de crescimento anual da Produção, dos Consumos Intermédios, do VAB Agrícola e do PIB (%) Preço Volume Valor Volume 2010/2000 Preço Valor 2010/2009 Produção agrícola pm -0,1 0,6 0,5 -1,9 4,9 2,9 Consumos intermédios 0,3 2,2 2,5 -1,3 6,2 4,9 VABpm Agricultura -0,6 -1,6 -2,2 -2,9 2,4 -0,5 PIBpm 0,6 2,4 3,1 1,4 1,0 2,4 Fonte: Resultados preliminares GPP, a partir de Contas Nacionais e Contas Económicas da Agricultura (Base 2006), INE. Um dos traços mais marcantes da evolução agregada da economia agrícola portuguesa na última década foi, pois, a forte degradação da relação entre os preços da sua produção e os preços dos bens intermédios por ela utilizados. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 14 Este facto provocou que a relativa estabilidade em volume do valor acrescentado pela produção agrícola fosse revertido para uma forte quebra em valor (20% do período 20002010). Além disso, aquela degradação dos preços da produção agrícola face aos dos bens intermédios implicou que o peso dos consumos intermédios na produção tenha passado de 53% em 2000 para 64,6% em 2010, quando na ausência de tal degradação dos preços relativos este peso seria apenas 55%. Em conclusão, assistimos à intensificação dos consumos intermédios na produção agrícola, em resultado do incremento das atividades fortemente consumidoras de bens intermédios e, portanto, com menor capacidade de gerar valor acrescentado4. Gráfico 3: Índices de Preços Implícitos na Produção, Consumos intermédios e VAB agrícola 150 (2000=100) 125 100 75 50 25 0 2000 2001 2002 2003 Produção 2004 2005 2006 2007 Consumos intermédios 2008 2009P 2010P VABpm P - dados provisórios. Fonte: GPP, a partir de Contas Económicas da Agricultura (Base 2006), INE. Uma breve incursão pela análise da estrutura da produção agrícola portuguesa e da dinâmica de evolução nos períodos 2000-2010 e, especificamente, 2009-2010 (cf. Quadro 8), permite constatar: A acentuada prevalência da produção vegetal (57,6%) sobre a produção animal (37,1%); A concentração da produção em quatro setores, três deles de produtos vegetais (hortícolas, frutos, vinho) e um de produção animal (leite); 4 O rácio VAB agrícola e Consumos intermédios (produtividade parcial dos consumos intermédios) passou de 0,88, em 2000 para 0,55 em 2010 a preços correntes e de 0,75 para 0,68 a preços constantes. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 15 Se a análise da estrutura produtiva for realizada com base no VAB o peso do setor vegetal é ainda significativamente reforçado, pois a produção de alguns produtos animais, com destaque para a carne de suínos, carne de animais de capoeira e ovos, tem uma dependência de consumos intermédios muito superior à média; A perda de importância relativa dos cereais na produção agrícola devido à forte quebra da sua produção em volume; A importância crescente dos hortícolas, com 20,5% da produção em 2010, imediatamente seguidos do vinho e dos frutos; Quadro 8: Estrutura da Produção agrícola e respetiva variação Estrutura em 2010 Cereais Plantas industriais Plantas forrageiras Vegetais e Produtos hortícolas Batatas Frutos Vinho Azeite Outros produtos vegetais PRODUÇÃO VEGETAL Bovinos Suínos Aves de capoeira Leite Outros produtos animais PRODUÇÃO ANIMAL PRODUÇÃO DE SERVIÇOS AGRÍCOLAS ACTIVIDADES SECUNDÁRIAS PRODUÇÃO 2,8 0,8 3,5 20,5 1,6 12,2 13,9 2,1 0,1 57,6 6,9 8,7 6,0 9,7 5,8 37,1 4,8 0,5 100,0 Taxa de variação 2010/2000 Taxa de variação 2010/2009 Volume Volume Preço Valor -47,7 -34,1 -19,5 7,9 -25,9 -3,8 -2,6 22,2 231,2 -6,4 5,1 18,4 16,8 -4,6 -3,5 5,0 20,9 8,4 -6,4 -5,7 -5,5 -2,4 -12,1 -9,2 8,4 13,2 0,0 -1,6 -11,9 3,2 3,0 -2,5 28,0 0,5 7,7 10,5 47,8 2,9 2,5 -2,5 -3,1 7,4 6,3 3,3 2,1 -6,7 19,8 -5,2 1,8 7,9 29,9 -6,6 11,2 10,4 -3,1 5,6 -6,3 6,6 5,2 -9,1 -1,4 -1,3 -0,2 1,3 5,6 -0,4 -0,2 4,3 -0,6 Fonte: GPP, a partir de Contas Económicas da Agricultura (Base 2000), INE. Considerada de modo agregado, a produção animal apresenta uma dinâmica positiva de crescimento no período em análise, contrastando com a variação negativa da produção vegetal; contudo duas das componentes mais dinâmicas da produção animal, suínos e aves de capoeira, são fortemente subsidiárias de consumos intermédios de bens (cereais, alimentos para animais e energia) maioritariamente importados; assim, na suinicultura e na avicultura o custo com alimentação animal, largamente dependente direta ou indiretamente de importações, ultrapassa 80% dos custos totais; GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 16 Em síntese, a estagnação da produção agrícola global em volume no período 2000-2010 resulta da conjugação de evoluções muito diversificadas dos seus vários subsetores e essa diversidade de comportamentos torna-se ainda mais expressiva quando se considera a variação dos preços, que está bem evidenciada nos dados para 2009-2010. A sustentabilidade do crescimento da produção agrícola tem dependido parcialmente de setores de produção animal fortemente consumidores de consumos intermédios importados, cujos preços têm tido um comportamento muito volátil e tendencialmente crescente. As repercussões deste facto ao nível dos custos de produção dos setores do leite e da pecuária, que representam 9,7% e 22%, respetivamente, da produção agrícola nacional, conjugadas com prováveis alterações de política incidentes também nestes subsetores, virão a ter impactos muito relevantes a acompanhar com especial atenção. Acrescente-se que, pelo fato do setor animal ser fortemente utilizador de consumos intermédios o seu valor acrescentado representa uma parcela diminuta do valor da produção, pelo que o crescimento da sua produção tem um impacto muito inferior no valor acrescentado. O setor animal representa5,, em média no período 2007-2010, apenas 16% do VAB agrícola a preços base, isto é incluindo os subsídios ligados, e 11% do VAB agrícola a preços de mercado isto é sem subsídios, o que contrasta com o peso na produção agrícola (cerca de 44%). 4.2. EVOLUÇÃO DO PRODUTO, DO EMPREGO E DA PRODUTIVIDADE DO TRABALHO AGRÍCOLA O emprego na agricultura, medido em volume de trabalho, tem vindo a diminuir continuamente na última década: redução de 23% de 2000 a 2010 ou seja 2,6% em média anual (cf. Quadro 9). Conforme ilustrado no Gráfico 4, a conjugação desta acentuada quebra do volume de trabalho agrícola no período 2000-2010 com uma diminuição menor do produto agrícola, -0,6% neste caso contra -2,6% do volume de trabalho, em média anual, revela um forte acréscimo da produtividade parcial do trabalho no conjunto do setor agrícola: 22% no período 2000 a 2010 ou seja 2% em média anual. 5 De acordo com estimativas do GPP, baseadas nos dados do INE. VAB setor animal= Produçãoanimal – alimentos para animais – despesas veterinárias – energia (em que, a energia afetada ao setor animal foi estimada proporcionalmente ao peso da produção animal na produção total). GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 17 Quadro 9: Produção, Emprego e Produtividade Agrícolas 2005 2006 2007 2008 2009P 2010P Taxa de crescimento média anualP (2000-2010) Taxa de variação anual (%) Produçãopm Preços correntes -5,7 4,6 3,9 4,9 -6,2 2,9 0,5 Preços constantes 2006 -6,4 1,3 -0,8 2,6 -1,0 -1,9 -0,1 VABpm Preços correntes Preços constantes 2006 -10,7 -12,0 10,1 6,0 -7,8 -5,6 0,9 4,4 -4,4 -0,6 -0,5 -2,9 -2,2 -0,6 Emprego (UTA) -2,1 -2,6 -2,3 -1,5 -1,3 -5,3 -2,6 Produtividade* -10,1 8,9 -3,4 6,1 0,7 2,6 2,0 * VABpm (preços cons ta ntes ) /UTA p- da dos prel imi na res GPP Fonte: GPP, a partir de Contas Económicas da Agricultura (Base 2006), INE. Deste modo, a produtividade do trabalho agrícola vindo tem a crescer a um ritmo substancialmente superior ao verificado no conjunto da economia, embora se situe ainda em níveis médios muito reduzidos. Note-se que, este resultado contrasta com o verificado com a produtividade parcial dos consumos intermédios. No âmbito do ponto 2, já se analisaram os fatores explicativos dos reduzidos níveis de produtividade média do trabalho agrícola, tendo-se destacado o facto de os diferentes estratos de agricultura apresentarem níveis de produtividade muito distintos, sendo acentuadamente crescentes à escala, isto é, tanto maiores quanto maior a dimensão das explorações agrícolas. O aumento da produtividade média do trabalho que se tem verificado relaciona-se quer com redução da diminuição acentuada do número e do peso relativo das explorações mais pequenas, confirmado recentemente pelo RA09, quer pelo aumento da produtividade média do trabalho nos diferentes estratos de agricultura, como reflexo de melhorias tecnológicas e de alterações da ocupação cultural reveladoras de capacidades de inovação e de adaptação dos agricultores. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 18 Gráfico 4: Evolução da produtividade parcial do trabalho* agrícola e respetivas componentes 2000-2010 150 125 100 75 50 25 0 2000 2001 2002 2003 2004 VABpm 2005 2006 2007 Produtividade 2008 2009P 2010P UTA *Produtividade = VABpm (preços constantes)/UTA Fonte: GPP, a partir de CEA (Base 2006), INE Tomando por referência o indicador MB6/UTA que é conceptualmente próximo, embora menos rigoroso que o indicador de produtividade do trabalho que temos vindo a considerar, e conjugando-o com outros indicadores de caracterização das explorações agrícolas por classes de dimensão económica, podemos confirmar o aumento sensível da produtividade parcial do trabalho agrícola em função da dimensão das explorações e, também, compreender que essa diferenciação se deve em boa medida, embora não só, ao facto de as quantidades de terra e capital mobilizadas por cada UTA serem fortemente crescentes à escala. Desta forma, a produtividade parcial do trabalho cujo valor médio é bastante inferior ao total da Economia, 6,8 face aos 28,5 mil euros/unidade de trabalho, apresenta nas grandes explorações agrícolas, um valor próximo da produtividade média da Economia. A apreciação da produtividade parcial do trabalho terá, assim, que atender à coexistência de tipos de agricultura muito distintos no tecido agrícola português, o que reduz o interesse analítico e o alcance interpretativo da observação apenas dos valores médios deste indicador de caracterização do setor agrícola, como aliás de muitos outros. 6 Margem Bruta - o valor monetário de uma produção (produção bruta) deduzida dos principais custos específicos proporcionais, correspondentes à produção em questão. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 19 Quadro 10: Indicadores por Classes de Dimensão Económica das Explorações Agrícolas (2007) Nº Expl. UTA 77,7 16,6 3,9 1,8 100 60,6 20,0 7,7 11,7 100 SAU MB 18,2 20,4 17,7 43,7 100 16,0 19,6 16,6 47,8 100 SAU/Expl MB/ SAU MB/UTA % MP P M G Total ha euros/ha euros 3,2 16,8 62,0 325,9 13,3 512 560 548 639 583,5 1.616 6.021 13.208 25.174 6.136 NOTA: Classificação por classe de DE com base na tipologia comunitária RICA Dimensão Económica MP (Muito Pequenas) P (Pequenas) M (Médias) G (Grandes) < 4 800€ [4 800€,19 200€[ [19 200€,48 000€[ >=48 000€ Fonte: GPP, a partir de INE . 4.3. EVOLUÇÃO DO RENDIMENTO DA ATIVIDADE AGRÍCOLA Compensando parcialmente a degradação dos preços agrícolas, os subsídios cresceram, em média anual no período 2000-10, 4% (3,8% líquidos de impostos) em termos nominais, ou seja, 1,6%7 em termos de poder aquisitivo real. Gráfico 5: Composição e Evolução do VABcf, preços correntes (milhões de euros) 3000 2000 1000 0 2000 2001 VABpm 2002 2003 2004 2005 2006 Subsídios* aos produtos 2007 2008 2009P 2010P Subsídios aos produtos, englobam as ajudas ligadas a produções específicas, consideram-se, entre outros, os pagamentos aos produtores de cereais, os pagamentos aos ovinos e bovinos e as ajudas à produção de azeite. Subsídios desligados, consideram-se os subsídios de que as unidades produtoras beneficiam devido às suas atividades de produção, mas que não são ligados nem a produções específicas nem ao volume da produção. Incluem, por exemplo, o regime de pagamento único (RPU), as bonificações de juros, as ajudas às retiradas de terras, as indemnizações compensatórias e as medidas agroambientais. A introdução do RPU a partir de 2005, em substituição de ajudas diretas, foi o fator determinante do forte crescimento dos subsídios desligados e da redução dos subsídios aos produtos, com os correspondentes efeitos no aumento do peso dos primeiros e na redução do peso dos segundos no VABcf, bem visível neste Gráfico. Subsídios* desligados *Líquidos de impostos Fonte: GPP, a partir de Contas Económicas da Agricultura (Base 2006), INE. 7 Recorrendo ao deflator do PIB (GPP a partir de CN, INE). A evolução anual dos subsídios apresenta alguns comportamentos atípicos devido ao calendário de pagamentos (Dezembro ano n a Junho ano n+1) que pode levar à concentração da contabilização dos subsídios em determinados anos em detrimento de outros. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 20 O peso dos Subsídios no VABcf tem aumentado (cf. Gráfico 5), representando, atualmente, 30% do valor desse agregado (média 2008-10). As ajudas diretas pagas aos agricultores (AD), que constituem o essencial dos subsídios ao produtos (AD ligadas à produção) e dos outros subsídios à produção, neste segundo caso só a partir de 2005 devido ao desligamento da maioria das AD e à sua integração no Regime de Pagamento Único (RPU), representam uma parcela importante do VABcf. O crescimento e a maior estabilidade temporal destas ajudas amorteceram significativamente a redução do rendimento agrícola e a sua variabilidade no período considerado, embora sem inverterem o seu sinal negativo. Quadro 11: Produto, Emprego e Rendimento da Atividade Agrícola Taxa de crescimento 2000 2005 2006 2007 2008 2009P 2010P média anual (2000-2010) IPI VABpm 100,0 88,0 91,3 89,1 86,1 82,7 84,7 -1,6 IPI VABcf 100,0 103,2 96,2 100,6 100,4 91,9 98,6 -0,1 IPI PIBpm 100,0 116,3 119,5 122,9 124,8 126,0 127,3 2,4 IPI VABcf /IPI PIBpm 100,0 88,7 80,5 81,8 80,5 72,9 77,5 -2,5 Subsidios liquidos de impostos 100,0 155,5 115,5 138,4 153,2 119,4 144,6 3,8 VABcf em valor 100,0 96,3 95,2 94,0 98,0 89,2 93,0 -0,7 VABcf real* 100,0 82,9 79,7 76,5 78,3 71,1 73,1 -3,1 Emprego (UTA) 100,0 88,0 85,7 83,8 82,5 81,5 77,1 -2,6 VABcf/UTA em valor 100,0 109,4 111,1 112,2 118,9 109,5 121,2 1,9 VABcf real*/UTA 100,0 94,1 93,0 91,3 94,9 87,2 94,7 -0,5 P * Deflacionado pelo IPI PIBpm. Fonte: GPP, a partir de Contas Económicas da Agricultura (Base 2006), INE. Assim, quando se passa da valorização a preços de mercado para a valorização a custo de fatores, ou seja quando se adicionam os subsídios líquidos de impostos ao VABpm, a diminuição do valor do VAB da Agricultura em valor no período 2000-2010 é consideravelmente amortecida, como se pode verificar pelas taxas de crescimento médio anual do VAB apresentadas no Quadro 11 e no Quadro 7: -2,2 % (-20,1% no período) e -0,7% (-7% no período), respetivamente, a preços de mercado e a custo de fatores. Apesar do contributo do aumento dos subsídios para o amortecimento da redução do VABcf, a forte degradação dos preços implícitos no produto agrícola relativamente aos preços implícitos no PIB da Economia exerceu uma influência muito negativa sobre o rendimento da atividade agrícola, de tal modo que prevaleceu sobre aquele fator positivo e conduziu a uma diminuição em valor e, ainda mais acentuada, em termos de poder aquisitivo real. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 21 De facto, apesar do forte crescimento da produtividade real do trabalho8 no período 20002010 (22% ou seja 2% em média anual – quadro 9), o poder aquisitivo do rendimento unitário do trabalho agrícola9 conheceu uma variação no mesmo período de -5,3 %, ou seja -0,5% em média anual, decréscimo este que só não foi maior porque, como vimos anteriormente, o considerável aumento do valor dos subsídios permitiu que o VABcf (ótica do rendimento) tivesse uma redução muito inferior à do VABpm (ótica da produção). Gráfico 6: Índices de preços implícitos no VABcf agrícola e no PIB 140 120 100 80 60 40 20 0 2000 2001 2002 2003 IPI VABcf 2004 2005 2006 IPI PIBpm 2007 2008 2009P 2010P IPI VABcf /IPI PIBpm Fonte: GPP, a partir de CEA e Contas Nacionais (Base 2006), INE Gráfico 7: Evolução da Rendibilidade real do Trabalho Agrícola 20002010 120 100 80 60 40 20 0 2000 2001 2002 2003 VABcf real* 2004 2005 Emprego (UTA) 2006 2007 2008 2009P 2010P VABcf real*/UTA *Deflacionado pelo IPI preços PIBpm Fonte: GPP, a partir de CEA (Base 2006), INE 8 9 Produtividade do trabalho: VABpm a preços constantes por UTA. VABcf por UTA deflacionado pelo Índices de Preços Implícitos no PIB (CN, INE). GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 22 À semelhança do conjunto da Economia, o investimento na atividade agrícola sofreu uma queda no período 2000-2010: -2,8% em média anual, a preços de 2006. Tal evolução, dever-seá quer à conjuntura económica, quer à descida do rendimento, mas também à transição entre períodos de programação dos apoios comunitários e nacionais ao investimento na agricultura. Sem se inverter a trajetória do rendimento, a manutenção de níveis de investimento indispensáveis para aumentar a competitividade será muito exigente para os agricultores. Quadro 12: O Investimento na atividade agrícola a preços correntes FBCF 2000 2005 2006 2007 2008 2009P 2010P (2000=100) 100,0 97,8 97,5 100,0 95,2 89,4 86,8 % 23,2 23,5 23,7 24,6 22,5 23,2 21,6 FBCF/VABcf Fonte: GPP, a partir de Contas Económicas da Agricultura (Base 2006), INE. 4.4. EVOLUÇÃO DA PROCURA INTERNA E DO COMÉRCIO INTERNACIONAL AGROALIMENTAR E FLORESTAL A atividade agrícola é, também, influenciada pelo lado da procura. As repercussões do ambiente macroeconómico no comportamento do consumo e das exportações poderão implicar reajustamentos substanciais na respetiva composição, afetando diferenciadamente os vários produtos, nomeadamente em função da sua qualidade e do nível dos preços. Quadro 13: Evolução do Comércio Internacional Agro-florestal e da Economia 2000 2005 2006 2007 2008 2009 P 2010 preços correntes (milhões de euros) Taxa de crescimento média anual 2000-2010 (preços 2006) % Complexo Agro-alimentar Importações 5.389 6.092 6.681 7.556 8.326 7.561 7.884 3,6 Exportações 1.910 2.652 3.044 3.560 4.098 3.904 4.132 7,7 Saldo comercial -3.479 -3.439 -3.637 -3.995 -4.228 -3.657 -3.752 Complexo Florestal Importações 1.740 1.761 1.825 2.034 2.011 1.731 1.867 1,4 Exportações 2.717 2.740 3.040 3.221 3.145 2.662 3.528 2,3 977 980 1.216 1.188 1.134 930 1.662 Saldo comercial Complexo Agro-Florestal Importações 7.129 7.852 8.506 9.589 10.337 9.292 9.750 3,1 Exportações 4.627 5.393 6.084 6.782 7.243 6.566 7.660 4,8 Saldo comercial -2.502 -2.460 -2.421 -2.808 -3.094 -2.726 -2.090 Total da economia - Bens Importações 44.429 49.878 55.155 58.747 63.271 50.574 56.194 1,9 Exportações 28.909 32.750 37.670 40.343 41.000 33.717 38.936 2,8 Saldo comercial -15.520 -17.128 -17.484 -18.404 -22.271 -16.857 -17.258 p – dados provisórios GPP, a partir de CAE, INE. Fonte: GPP, a partir de Contas Nacionais, INE. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 23 A procura externa aumentou, apresentando as exportações do complexo agroflorestal um crescente dinamismo, que se traduziu em taxas de crescimento superiores ao resto da economia: o valor a preços constantes das exportações de bens agroalimentares e florestais cresceu 4,2% em média anual no período 2000-2010, quando a taxa de crescimento anual do total de bens exportados por Portugal foi de 1,5% no mesmo período. O dinamismo das exportações baseou-se principalmente no complexo agroalimentar: a taxa de crescimento média anual das exportações agroalimentares no período 2000-2010, em volume, foi de cerca de 7,6%. As exportações do complexo florestal, tradicionalmente o setor exportador mais importante, têm vindo a perder representatividade nas exportações, o que reduziu a dimensão do seu contributo positivo para o saldo da balança comercial nacional, sem contudo pôr em causa a sua grande importância. Contudo, os dados preliminares de 2010, revelam um crescimento substancial das exportações florestais (cerca de 33% em valor) para níveis superiores aos do início da década. (cf. Quadro 13 em análise e Quadros 5 no Capítulo 3). A orientação setorial para o mercado externo tem aumentado, acompanhando a tendência global da economia, mas de modo ainda mais acentuado. Esta perfomance resultou da dinâmica do setor, que conseguiu responder a uma crescente abertura dos mercados e a um assinalável aumento do consumo de bens alimentares, e é visível nos valores Indicadores de especialização do Complexo Agroalimentar: a capacidade de cobertura das necessidades internas manteve-se ao longo da década um nível próximo dos 70%, apesar do forte aumento dessas necessidades. Quadro 14: Orientação Exportadora (%) 2000 2005 2006 2007 2008 2009 P 2010 Agricultura 3,4 6,4 6,9 7,3 8,4 9,4 9,1 Ind. Alimentares, bebida e tabaco 15,1 18,2 20,6 22,8 24,1 23,9 25,5 Silvicultura 6,8 14,2 15,2 17,2 20,4 9,6 nd Indústrias Florestais 35,9 36,3 39,0 38,8 39,3 36,0 45,7 Complexo Agro-Florestal 18,0 20,4 22,4 23,7 24,4 23,4 nd Transacionáveis 22,5 22,8 25,4 26,1 25,9 26,9 nd Total da economia - Bens 15,3 14,9 16,7 17,2 16,9 15,2 nd Fonte: GPP, a partir de INE. A agricultura apresenta ainda os valores mais baixos de orientação exportadora dos setores em análise: as exportações representam apenas 9% da produção interna. Tal deve-se, em certa medida, à especificidade de parte dos produtos agrícolas que requerem algum grau de transformação para poderem ser exportados. Deste modo, 65% da produção de produtos GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 24 agrícolas é incorporada nas indústrias alimentares, bebidas e tabaco cujas exportações10 representam cerca 25% da produção. Este facto é positivo, pois quanto maior for o grau de transformação da produção exportada, maior será o valor acrescentado nacional nela incorporado. O consumo interno de bens alimentares registou um crescimento médio anual de 1,5%, em volume (3,2% em valor) entre 2000 e 2010, ou seja, 15% (37,5% em valor) no conjunto deste período temporal. Este forte crescimento do consumo interno agroalimentar constitui um fator fundamental explicativo da evolução do saldo da balança comercial agroalimentar, dado que este corresponde à diferença entre o valor total da produção interna de bens agroalimentares, consumidos internamente ou exportados, e a procura interna total dos mesmos bens, satisfeita quer pela produção interna, quer por importações. O mesmo é dizer que a evolução do défice da balança comercial agroalimentar portuguesa no período em análise resulta da conjugação do forte crescimento do consumo interno com o menor dinamismo da produção interna e não apenas de um desses fatores. Gráfico 8: Despesa das famílias em bens alimentares e evolução da Produção, Consumo e Importações* de bens alimentares (preços correntes) 25.080 45,0 Produção e Importações - milhões de euros 20.080 35,0 30,0 15.080 25,0 20,0 10.080 15,0 10,0 5.080 Despesa das familias em bens alimentares pagas ao exterior (%) 40,0 5,0 80 0,0 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Despesa das familias em bens alimentares pagas ao exterior 2007 2008 Produção 2009 2010P Importação *Corresponde ao agregado agricultura (sem tabaco e algodão), pescas e indústrias alimentares e bebidas. P - dados provisórios, GPP. Fonte: GPP, a partir de Contas Nacionais (Base 2006) e Estatísticas do Comércio Internacional, INE. 10 Em 2009, segundo estimativas do GPP, as exportações das IABT incorporam 17% de bens agrícolas nacionais, o que corresponde a cerca de 9% da produção agrícola. O que significa que, em 2009, a orientação exportadora direta e indireta seria de, aproximadamente, 18%, o que mais do que duplica o valor de 9% deste indicador em sentido estrito. A substituição de importações agrícolas por produção nacional é, portanto, uma maneira de aumentar a orientação exportadora da agricultura, em sentido lato. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 25 Segundo cenários construídos pelo GPP, a manutenção dos níveis de consumo de 2010 acompanhada pelo ritmo atual do crescimento real das exportações (7% média anual do período 2000-2010) e por um crescimento na produção alimentar de 1,5% para 2% em média anual, traduzir-se-ia num significativo aumento do grau de autoaprovisionamento alimentar e numa diminuição das importações (cf. Quadro 16). Quadro 15: Grau de autoaprovisionamento1 de bens alimentares2 (%) Grau de autoaprovisonamento P 2000 2005 2006 2007 2008 2009 2010 83,2 83,6 82,8 82,1 82,2 83,0 83,0 71,3 70,9 73,0 1 Grau de autoaprovisonamento corrigido 1 Ver nota metodológica 3. Corresponde ao agregado agricultura (sem tabaco e algodão), pescas e indústrias alimentares e bebidas. P - dados provisórios, GPP. 2 Fonte: GPP, a partir de Contas Nacionais (Base 2006) e Estatísticas do Comércio Internacional, INE. Contudo, realça-se que o aumento verificado no grau de autoaprovisionamento estaria sobreavaliado, na medida em que um aumento da produção alimentar nacional implica sempre um aumento das importações destinadas aos intraconsumos e este efeito não está quantificado no cenário apresentado. A repercussão no aumento de importações seria tanto menor quanto maior fosse o aumento da produção em setores pouco importadores ligados à produção vegetal face aos ligados à produção animal intensiva, de que seriam exemplo, as fileira do azeite e do vinho, a indústria transformadora do tomate e as conservas hortofrutícolas. Quadro 16: Cenário Grau de autoaprovisionamento do setor agroalimentar1 2018 Hipóteses % Produção 2,0 Exportações 7,4 Importações Consumo 0,0 Grau de auto-aprovisionamento Saldo comercial 2010 2018 mio euros 20.810 Taxa de variação Taxa de crescimento período médio anual 2010-2018 2010-2018 % % 24.382 17,2 2,0 4.163 7.394 77,6 7,4 8.249 7.907 -4,1 -0,5 24.896 24.896 0,0 0,0 83,6 97,9 17,2 -4.086 -513 -87,4 1 Corresponde ao agregado Agricultura, Pescas e Indústrias Alimentares, Bebidas e Tabaco. Fonte: GPP. GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 26 Nota metodológica 3: Grau de autoaprovisionamento O estudo do aprovisionamento alimentar baseia-se seguinte indicador: Produção Interna/Consumo Interno Aparente em que, Consumo Interno Aparente = Produção Interna + Importações – Exportações Este indicador é utilizado habitualmente como uma aproximação à capacidade de autoaprovisionamento (e o seu complementar à dependência do exterior) mas deve ser interpretado com prudência, em particular, quando calculado a um nível agregado. Mesmo quando calculado para um produto específico (como por ex. na Balança Alimentar do INE), o facto de ser superior a 100% não permite concluir sobre a capacidade de o país se abastecer desse bem sem recurso ao exterior. Efetivamente, o facto de o país estar a produzir uma quantidade suficiente para satisfazer todo o consumo interno não significa que o conseguisse fazer no caso de não poder importar os fatores de produção necessários para essa produção (por ex., combustíveis, máquinas, rações). Em sentido contrário, o facto de o país não estar a produzir a quantidade necessária de certo bem, num determinado momento, não significa que não o pudesse fazer com os recursos disponíveis internamente (por ex., há terra e capacidade de trabalho não utilizadas ou com outras utilizações que poderiam ser afetadas à produção desse bem). Para além disso, as necessidades de consumo, para efeitos de sobrevivência, por exemplo, não têm de corresponder ao consumo atual. Quando se está a analisar a questão em termos agregados para todos os bens alimentares, aumenta a complexidade da análise já que o valor dos bens alimentares reflete custos de fatores de produção que provêm quer do resto da economia quer do próprio setor alimentar (que são relacionados utilizando preços que variam intensamente com frequência e são influenciados pelas políticas, nomeadamente, pelos subsídios). O somatório de todas as produções alimentares comporta algumas contabilizações repetidas. É o caso das produções alimentares que são sucessivamente transformadas antes de serem consumidas pelo consumidor final (por ex., cereais que são incorporados nas rações que são, por sua vez, usadas na alimentação dos animais, que irão ser abatidos e transformados até terem uma forma que permita o seu consumo pelas pessoas). Este fator pode ser corrigido, deduzindo ao valor da produção os denominados intraconsumos, ou seja aquelas produções que são consumidas pelos ramos de produção alimentar e não pelos consumidores finais. O indicador transformado é o seguinte: Produção consolidada/Produção consolidada + Importações - Exportações Com esta correção chega-se a valores próximos dos 73% (2009, GPP a partir das CN, INE). GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 27 GPP - A AGRICULTURA NA ECONOMIA PORTUGUESA 28