A POLÍTICA BRASILEIRA PARA O ETANOL: UMA ANALISE DO APARATO HISTÓRICO-INSTITUCIONAL Paula Meyer Soares Passanezi /UNINOVE Jouliana Jordan Nohara /UNINOVE Claudia Rosa Acevedo/ UNINOVE RESUMO: Em meio a crise do petróleo que vem assolando o mundo nos últimos tempos, alguns especialistas consideram o etanol uma das fontes de energia viáveis e capazes de suprir parte da demanda por combustíveis fosseis, como o petróleo. A produção de etanol no Brasil vem crescendo a cada ano e a discussão em torno da viabilidade da sua produção tem sido tema central no que tange a conservação do meio-ambiente, produtividade, produção de alimentos. O referido artigo tem o objetivo realizar um estudo da evolução do aparato institucional considerando seus efeitos na produção e na comercialização do etanol. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa bibliográfica focada nas alterações legais e conjunturais e no seu impacto sobre a produção, produtividade, geração de postos de trabalho, de renda e inclusão social. Os resultados mostram que as mudanças institucionais corroboraram para o desenvolvimento do setor sucro-alcooleiro brasileiro. Palavras-Chave: Etanol, Proálcool, crescimento econômico. ABSTRACT: In the midst of oil crisis that is sweeping the world in recent times, some experts consider ethanol a viable energy sources, and able to partially meet the demand for fossil fuels, like oil. Ethanol production in Brazil is growing every year and the discussion on the feasibility of its production has been a central theme in regard to conservation of the environment, productivity, food production. The article aims to undertake a study of the evolution of the institutional apparatus considering its effects on production and marketing of ethanol. Methodologically, this is a literature focused on legal changes and cyclical and their impact on production, productivity, generating jobs, income and social inclusion. The results show that institutional changes to corroborate the development of sugar and alcohol sector in Brazil. Keywords: Ethanol, alcohol program, economic growth VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br INTRODUÇAO A eclosão da crise energética mundial por elevações dos preços de fontes energéticas fósseis e o desenvolvimento em paralelo de fontes alternativas de energia no Brasil transformaram o etanol como uma das principais alternativas energéticas mundiais. Atualmente são produzidos cerca de 16 bilhões de litros de álcool combustível em uma área agrícola correspondente a cerca de 5,5 milhões de hectares. Segundo Luiz Cortez, pesquisador e especialista em energia da UNICAMP, avalia que se país planejasse atingir a marca de 110 bilhões de litros anuais, os canaviais ocupariam uma área equivalente a 75 milhões de hectares, o que ultrapassaria os 55 milhões que perfazem toda a área usada hoje pela agricultura nacional. (UNISINOS, 2007). O Brasil dispõe de 71 milhões de hectares agriculturáveis, sendo que 7 milhões destes destinam-se ao cultivo da cana-de-açúcar, sendo 3,6 milhões para a produção de etanol. (Jornal Estado de São Paulo, 13/04/2008). A alta do preço dos alimentos é alarmante e preocupa principalmente governantes de países subdesenvolvidos que não tem como arcar com estes preços. Segundo dados da ONU, desde 2002 a inflação acumulada é de 220%. (ONU, 2008) Em meados da década de setenta o Brasil lançou o Programa Nacional do Álcool- o Proálcool’, visando ao atendimento das necessidades do mercado interno e externo e da política de combustíveis automotivos. A criação deste programa possibilitou o aprimoramento e a busca de uma nova fonte alternativa de energia – o álcool1 - como combustível. Apesar da descontinuidade do programa Proálcool, o Brasil apresenta uma enorme vantagem sobre os demais países. Tais vantagens são capitaneadas não somente pelo avanço da produtividade que possibilitou a liderança do país como também pelos inúmeros incentivos governamentais e políticas de aprimoramento de tecnologia , reserva de mercado e etc.. que ajudaram o setor a se manter. Este trabalho pretende analisar dentro de uma perspectiva histórica o aparato institucional e seus impactos no que tange aos incentivos de produção e pesquisa e desenvolvimento – em relação ao etanol nos últimos trinta anos. O trabalho divide-se em três seções. A primeira seção descreve a cadeia produtiva do etanol e as principais regiões brasileiras produtoras. A segunda seção mostra quais as nações produtoras de etanol e as características dos principais países que comercializam o etanol. A terceira seção faz uma retrospectiva histórica do Proálcool desde a sua criação com uma ênfase especial as políticas públicas adotadas para o setor ao longo destas três décadas. Por fim teceremos as considerações finais. 1. CADEIA PRODUTIVA DO ETANOL O Brasil está a um passo para tornar-se o principal produtor de etanol no mundo. O etanol é produzido a partir da fermentação dos açucares encontrados em alguns produtos vegetais, como cereais, milho, beterraba e cana-de-açúcar. A fermentação ocorre por meio da utilização de leveduras que são agentes biológicos que permitem a obtenção do etanol em baixas concentrações. A obtenção do etanol só é possível após a remoção do excesso de água por meio da destilação. Quando a concentração de etanol ultrapassa 96%, temos o que denominamos de álcool hidratado quando essa concentração chega a 99,5% temos o álcool anidro. Ambos são utilizados como combustíveis , o hidratado, nos carros a álcool e flex e o anidro misturados a gasolina. (MILANEZ, FILHO e ROSA, (2008) 1 VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br O etanol pode também ser produzido sinteticamente a partir do eteno derivado do petróleo ou ainda a partir da utilização da biomassa lignocelulósicas proveniente de resíduos naturais como sabugo ou palha do milho, o bagaço, as palhas ou sobras do mesmo. A obtenção do etanol ocorre a partir da utilização de processos químicos por meio do emprego de enzimas e ácidos que ajudam na quebra das moléculas de celulose e na produção de açucares. A utilização da biotecnologia para a produção do etanol é indiscutivelmente considerado um avanço na cadeia produtiva do combustível (BASTOS, 2007). Atualmente o Brasil prepara-se para colher a maior safra de cana-de-açúcar da sua história. Cerca de 85% do etanol brasileiro é consumido no mercado interno. O setor gera atualmente mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos e investimentos da ordem de US$ 30 bilhões (projeção ate 2012) (Jornal Estado de São Paulo,18/04/2008). Ademais com a evolução tecnológica, atualmente são extraídos 7 mil litros por hectare contra 3 mil litros extraídos durante a década de 70. (Jornal Estado de São Paulo, 18/04/2008). Esse aumento da produtividade é um fator que deve ser considerado em questão sobretudo em um momento em que Estados Unidos e União Européia abrem-se cada vez mais para a utilização de outras fontes alternativas de energia, buscando o equilíbrio e a diminuição de emissão de gases. A produção nacional de etanol assenta-se basicamente na região Centro-Sul, sendo responsável por cerca de 85% da produção nacional de etanol. O estado São Paulo, por exemplo é responsável pela produção de 60% de cana. Em 1990, a região Centro-Sul produziu cerca de 9.707.850 mil litros de etanol, já a Região Nordeste a produção ficou em 1.807.301 mil litros. Em 2006, a produção da Região Centro-Sul atingiu o patamar de 14.352.542 mil litros perfazendo um crescimento de mais de 35 por cento em relação a 1990. A produção na Região Nordeste foi medíocre, havendo um decréscimo da produção de alguns anos. (Ver quadro 01). Quadro 1 – Produção Nacional de Etanol – Brasil e demais Regiões (1990 a 2006) CentroSul NorteNordeste Brasil 90/91 9.707.850 1.807.301 11.515.151 92/93 10.044.941 1.630.565 11.675.506 94/95 11.132.760 1.549.613 12.682.373 96/97 12.078.035 2.266.093 14.344.128 98/99 12.216.817 1.631.216 13.848.033 `01/02 9.064.364 1.528.671 10.593.035 VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br `03/04 11.152.084 1.471.141 12.623.225 `05/06 14.352.542 1.594.452 15.946.994 Fonte: Elaboração própria, 2009. Extraído de www.unica.com.br Fazendo-se uma análise histórica dos incentivos e da origem da indústria canavieira brasileira observar-se-á que o seu crescimento e evolução estiveram fortemente atrelados à concessão de incentivos fiscais e públicos. Essa tendência manteve-se ao longo da década de 90 após a eclosão dos dois choques de oferta do petróleo ocorridos respectivamente em 1972 e 1979. 2. PRODUÇAO BRASIL E MUNDO DE ETANOL O Brasil é uma referência na produção mundial de etanol, o que lhe confere o segundo lugar no ranking de países produtores perdendo apenas para os Estados Unidos porém ao lado de países como Índia, China Tailândia e Paquistão. Os maiores produtores estão dentre os maiores consumidores também. O principal uso do etanol é como combustível líquido, misturado a gasolina ou usado como insumo na fabricação de aditivo a gasolina.(BASTOS, 2007) Os Estados Unidos atualmente importam cerca de 60% do petróleo que consome e a dependência é crescente. Apenas 3% das reservas de petróleo estão em seu poder, as demais estão em áreas “voláteis” no mundo. Em 2005, os gastos foram da ordem de US$ 250 bilhões. (BASTOS, 2007) Por outro lado, a produção norte-americana de etanol é oriunda basicamente do milho. A partir de 2000, o governo americano adotou política de construção de novas plantas. São mais de cem plantas em operação. Em 2005, a sua produção foi de 16 bilhões de litros, superando apenas em 1% a produção brasileira. Por outro lado o etanol supre apenas 3% do combustível consumido nos EUA, enquanto no Brasil responde por 40% do consumo. (BASTOS, 2007) Nos Estados Unidos, cerca de 86% da produção de milho é destinada a consumo humano e animal, sendo reservada 14% desta cultura a produção de etanol. A expectativa é que em 2014, 36% da colheita de milho destine-se a produção de etanol. O Brasil possui um enorme potencial de produção agrícola, seja para o cultivo da cana-de-açúcar seja para o cultivo de outras culturas. O Gráfico 01 mostra claramente o potencial do País frente a outras economias como China e EUA. Podemos afirmar que o Brasil ainda é um país inexplorado. Cerca de 50 milhões de hectares são explorados para a agricultura no Brasil restando ainda cerca de 350 milhões hectares. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Gráfico 01 - Área Agriculturável e Área Potencial 400.000 350.000 Área agricultável potencial Área agricultável atual (2005) 300.000 1.000 ha 250.000 200.000 150.000 100.000 50.000 Nigeria Indonesia Sudan Angola Canada Argentina Congo Fonte: FAO. Elaboração: MB Agro Australia India China EU Russia USA Brasil - As mudanças climáticas em curso e a pressão de ambientalistas e autoridades especializadas têm pressionado pela busca de novas alternativas de energia gerando por sua vez alterações no mercado de biocombustiveis, mais especificamente o etanol. Até o ano de 1992, as exportações brasileiras de etanol quase não existiam, era inferior a 3% do total produzido. (MILANEZ, FILHO e ROSA (2008) A partir de 2004 com a adição de etanol a gasolina nos países desenvolvidos, as exportações brasileiras de etanol ganharam novo fôlego. Atualmente os Estados Unidos e Países Baixos são os principais destinos do etanol produzido no Brasil. Em 2008, EUA importou 1.519,4 milhões de litros de etanol quase o dobro em relação ao ano anterior, no total o país exportou 5.11,7 milhões de litros contra 3.530,1 de litros exportados em 2007. Quadro 2- Exportações Brasileiras por País de Destino 2006-2008 Costa Rica PAÍS 92,2 172,2 109,4 VOLUME (milhões de litros) 2006 2007 2008 Total 3.416,6 3.530,1 5.118,7 Estados Unidos Países Baixos Jamaica El Salvador Japão Trinidad e Tobago Virgens, Ilhas Am. Coréia do Sul 1.749,2 344,5 133,0 182,7 227,7 849,7 800,9 312,1 226,8 367,2 1.519,4 1.331,4 436,1 355,9 263,2 72,3 160,5 - 52,7 93,4 67,4 224,3 187,9 186,6 VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Fonte: Única, 2008. Ademais, observa-se uma tendência crescente a introdução do etanol à gasolina, isso se deve a elevação dos preços do petróleo no mercado internacional e a pressão por parte de ambientalistas e governos no controle da poluição e da degradação do meio-ambiente. Vários países instituíram a adoção da mistura como forma a conter o repasse ao preço final da gasolina. O quadro 4 mostra os países que adotam legalmente a mistura de etanol a gasolina. Quadro 3 – Estágio da Legislação de Utilização do Etanol. Países Brasil Legislação Exige 25% de mistura a gasolina atualmente (percentual entre 20 e 25%) Estados Unidos Percentual de até 10% em alguns estados, como é o caso da Califórnia, Nova York e Minnesota. União Européia A partir de 2010 exigira a mistura de 5,75%. Canadá Exige 5% de adição, devendo aumentar para 7,5% até o final de 2005, para 10% em alguns estados. Japão Instituiu a mistura de 3% voluntaria e deve aumentar para 2009 a mistura de 10% compulsória. Índia Exige 5% de mistura a gasolina e deve aumentar esse percentual para 10% até 2009. Colômbia A mistura é de 10% a gasolina em cidades grades desde setembro/2005. Tailândia Exige a mistura é de 10% a gasolina em todos os postos de gasolina de Bangkok. China Exige diferentes percentuais de mistura a gasolina, chegando a 10%. Venezuela Criou programa que exige 5% de mistura de etano a gasolina. Argentina Implementou 5% de mistrua para os próximos 5 anos. Fonte: Extraído de RIBEIRO e VIAN (2009) No Brasil, o consumo de etanol explodiu após a revitalização do mercado produtor de automóveis movidos a álcool e a gasolina, são os carros total flex. Em 2003 a produção foi de 48 mil unidades contra 328 mil unidades no ano seguinte, um aumento de mais de 150%. A expansão da produção destes automóveis está associada a VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br incentivos fiscais e regulação de preços neste segmento. Essa estratégia fez com que mais uma vez o país despontasse a frente das economias desenvolvidas que buscam alternativas para meios de locomoção. Quadro 4 – Brasil- Vendas de Automóveis e Comerciais Leves por tipo de Combustível GASOLINA ALCOOL TOTAL FLEX 1979 905.706 3.114 - 1982 365.434 232.575 - 1985 28.655 645.551 - 1990 542.855 81.996 - 1992 498.927 195.503 - 1994 1.127.485 141.834 - 1996 1.621.968 7.647 - 1998 1.388.734 1.224 - 2000 1.310.479 10.292 - 2002 1.283.963 55.961 - 2004 1.077.945 50.950 328.379 2006 316.561 1.863 1.430.334 2007 245.660 107 1.995.090 Fonte: Elaboração própria (2009) O mercado consumidor interno de etanol do país é bastante desenvolvido. A expansão da indústria canavieira brasileira não depende exclusivamente do mercado internacional. Por outro lado, o país possui vantagens competitivas – preços e tecnologia – que permitem a expansão da participação nacional neste mercado capitaneado pela adoção de políticas públicas e de incentivos recebidos ao longo destas três ultimas décadas. A seguir focaremos atenção neste aspecto. 3. A EXPERIENCIA BRASILEIRA DO ETANOL COMBUSTIVEL Em 1930 com a criação do Instituto do Açúcar e do Álcool, o IAA, o setor sucroalcooleiro inicia uma nova trajetória no contexto nacional e internacional no que tange a VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br produção de álcool e açúcar. Amparado por arranjos institucionais que corroboravam os interesses organizados do setor, o produtor da agroindústria canavieira vê-se em um ambiente totalmente favorável a consolidação de seu negócio. A produção assentava-se em uma série de arranjos institucionais que beneficiavam e protegiam a produção nacional de açúcar e álcool. Os mecanismos de regulação da atividade produtiva iam desde o estabelecimento de quotas de produção, fixação de preços para a canade-açúcar, açúcar e álcool, até a concessão de subsídios. (PAULILLO, 2007, p.533). A institucionalização da produção e o estabelecimento desta reserva de mercado propiciaram uma certa acomodação no que tange buscar novas alternativas tecnológicas. Por outro lado, a parceria com o Estado favoreceu a busca por outras localidades para a instalação de novas usinas e destilarias. (PAUILILLO et alli, 2007) Em 1975, o país viu-se diante de uma profunda crise externa de petróleo. Os preços do barril de petróleo explodiram e o país e tantos outros perceberam que a dependência energética pelo uso do petróleo precisava acabar. Em meio a crise do petróleo, o país lançou mão de um ambicioso projeto de produção de álcool, era conhecido como Programa Nacional de Álcool, o Proálcool. O Proálcool contemplava a construção de novas usinas de álcool a empréstimos com juros baixos, alem do estabelecimento da mistura obrigatória de etanol a gasolina (cerca de 20%). A adoção destas medidas permitiu um aumento de mais de 500% da produção de etanol entre 1975-1979. (BASTOS, 2007). Na verdade, a crise do petróleo teve uma correlação positiva favorecendo a criação do Proálcool e o uso de opções alternativas energéticas como por exemplo: álcool, carvão e do óleo vegetal. Ademais a criação do Proálcool incorporou o interesse de usineiros, Estado e empresários do setor automobilístico além de criar um novo mercado diante das inúmeras crises na qual enfrentava a economia açucareira. (PAULILLO, 2007).2 Para o Estado, a implantação de um programa dessa natureza também proporcionava o alcance metas sociais e econômicas, como por exemplo: diminuição das desigualdades regionais; alavancagem do crescimento em regiões inóspitas; expansão do setor produtivo de bens de capital além de proporcionar uma economia de divisas com a expansão dos carros movidos a álcool. (PAULILLO et alli, 2007) Ao final da década de setenta, eclode mais uma crise do petróleo. A elevação abrupta e inesperada nos preços internacionais do petróleo colocam o Brasil novamente em uma situação delicada financeiramente. Por outro lado, o aprofundamento do “gargalo” provocado por mais uma crise do petróleo favoreceu a consolidação da produção nacional de álcool. 2 Entre 1973 e 1989, estima-se que o Proálcool recebeu em torno de 7 bilhões de dólares em subsídios. (SCHERER, 2007) VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Observou-se um movimento pró-inovação e expansão da produção nacional por meio da concessão de financiamentos por parte de bancos comerciais e de investimentos. (Ver Decreto no 84.575, de 1980, do Quadro 5). Essa fase de maturidade do Proálcool voltada para o desenvolvimento tecnológico perdurou até 1985 e ocorreu de modo diferente para cada região e estado. Na época, governo adotou uma série de medidas que incentivassem a demanda por estes automóveis. O preço do litro do álcool chegou a ser comercializado em nível inferior ao da gasolina em 65%. O valor dos impostos para os carros a álcool era reduzido se comparado com os dos automóveis movidos a gasolina. (BASTOS, 2007) A partir de 1985, iniciou-se uma trajetória de desaceleração da economia brasileira que culminou em uma enorme crise. Segundo PAULILLO et alli (2007), este período foi marcado pela redução drástica dos investimentos públicos no Programa e um forte desequilíbrio entre oferta e demanda de álcool combustível. Isso repercutiu como uma redução na venda de automóveis movidos a álcool assim como na produção destes automóveis. A crise no Programa deveu-se ao “gargalo“ tecnológico e a orquestração dos interesses – do Estado e dos produtores. Apesar do “gargalo” tecnológico ter impulsionado a expansão e consolidação do Programa na fase inicial, neste momento desaparece a justificativa para a manutenção do corporativismo em torno do Programa. A assimetria de interesses entre – produtores, empresários do ramo automobilístico e a forte crise financeira que assolava as contas públicas, que por sua vez limitava a capacidade de expressão financeira do Estado favoreceram ao enfraquecimento do projeto nacional de produção de álcool, o Proálcool. (PAULLILO etr alli, 2007) . Ademais como mostra PAULLILO et alli (2007, p.537) : “[...] seja na deserção da indústria automobilística e/ou na falta de interesse do consumidor pelo carro movido exclusivamente a álcool, motivados pela diminuição das vantagens outrora concedidas para este tipo de veículo e diante das incertezas reinantes sobre o futuro do Proálcool [...] ” Quadro 5 – Legislação do Álcool Combustível no Brasil Decreto no 76.593, de 14/11/75 Lançou o Proálcool, tendo como finalidade incrementar a produção de álcool combustível e sua utilização como aditivo da gasolina. Foi instituída a Comissão Nacional do Álcool (CENAL) com a finalidade de substituir gasolina pelo etanol na frota de carros nacionais. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Decreto no 83.700, de 05/07/79 Criação do Conselho Nacional do Álcool (CNAL) com a competência em formular a política e fixar as diretrizes do Proálcool, entre os quais a definição da produção anual de álcool. Tinha a competência por meio do Conselho Monetário Nacional propor as bases e condições a serem concedidos os financiamentos com o objetivo de expandir a produção e utilização de álcool. Decreto no 84.575, de 18/03/80 Instituiu que bancos comerciais e de investimentos poderiam conceder financiamentos para a modernização e ampliação de destilarias, instalação de unidades armazenadoras ate então financiados apenas por entidades publicas. Decreto no 85.698, de 04/02/81 Regulamentava a produção de álcool hidratado em unidades com capacidade de produção de até 5.000 litros por dia, o que deu vazão ao surgimento das microdestilarias. Regulamentava as normas referentes ao tratamento de efluentes industriais (vinhoto, água de lavagem da cana) Decreto no 87.079, de 02/04/82 Definiu medidas de incentivo a pesquisa e ao desenvolvimento de óleos vegetais. Lei no 8.723, de 07/10/93. Fixou percentual obrigatório de álcool etílico anidro combustível a gasolina em todo o território nacional. Dispõe também sobre a redução de emissão de gases poluentes por veículos automotores. Decreto no 3.546, de 07/10/00 Criou o Conselho Interministerial do Açúcar e do Álcool (CIMA) cuja missão é deliberar sobre as atividades do setor sucroalcooleiro. Lei no 10.203, de 22/02/01 Fixou entre 22% e 24% o percentual de adição ao álcool etílico anidro VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br combustível a gasolina comercializada em todo o território nacional. Lei no 10.696, de 02/07/03. O Poder Executivo pode elevar o referido percentual até o limite de 25% ou reduzilo a 20%. Em novembro de 2006, este percentual passou a 23% Lei no 10.833, de 29/12/03 Reduz a zero as alíquotas da contribuição para o Programa de formação do Patrimônio do Servidor Publico (PASEP) incidentes sobre a receita bruta decorrente da venda do álcool etílico hidratado carburante. Fonte: PAULILLO, et alli (2007), elaboração própria. Ao longo de três décadas a produção a regulação de álcool e açúcar sempre estiveram amparadas e protegidas pelo aparato institucional e jurídico brasileiro além da adoção de políticas públicas de incentivo e estímulos a produção nacional. A evolução e mudanças ocorridas nesse aparato estavam por sua vez associadas as mudanças e alterações que ocorriam no cenário interno e externo. NORTH (1990) mostra que o crescimento econômico de nações está intimamente associado ao desenho das instituições3 e o direito de propriedade entre as partes envolvidas. A configuração do aparato institucional brasileiro do setor canavieiro foi moldada a mercê dos interesses desta classe, cabendo ao Estado o papel primordial de assegurar os ganhos e rentabilidade dessa classe. A partir da década de setenta, após a criação do Proálcool, observou-se a adoção nos anos seguintes de medidas legais e políticas publicas voltadas a sustentabilidade do Programa e consequentemente dos rendimentos da classe de usineiros e produtores de cana-de-açúcar. Na década de 80, por meio do Decreto no 84.575, incluiu-se na relação de instituições financeiras autorizadas a conceder linhas de credito do Proálcool os bancos de investimento e as caixas econômicas. Outras medidas aprovadas favoreceram a expansão e consolidação da atividade do setor, como a permissão da mistura de álcool a gasolina e os incentivos fiscais e tributários direcionados ao setor produtor de álcool (Vide quadro 5) A adoção de tais iniciativas favoreceram de certa maneira o setor sucro-alcooleiro. Em 1985, o Brasil produziu 645 mil carros movidos a álcool contra 28 mil movidos a gasolina. (ÚNICA, 2008). 3 As instituições correspondem as leis, ao códigos jurídicos ,aos costumes, etc.. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Segundo especialistas a produção de álcool nessa época propiciou a substituição de mais de 1,44 bilhão de barris de petróleo em 1976. (BASTOS,2007).Durante este período (1970-1980) a economia brasileira cresceu vigorosamente em torno de 7,5%. Em 1977, o crescimento da agricultura foi de 12,1% (GREMAUD, 2004). Com o abrandamento da crise do petróleo e a queda de seus preços, a indústria automobilística brasileira volta a enfrentar dificuldades. A elevação da cotação do preço do açúcar aliado a queda do preço do petróleo imprimiram um novo ritmo na demanda por automóveis movidos a álcool. A produção de etanol foi reduzida no âmbito mundial cedendo lugar a produção de açúcar. Em 1990, o governo obrigou a mistura de etanol a gasolina, porém tias medidas não impediram que o Proálcool fosse extinto. No inicio da década de 90, mesmo com a interrupção virtuosa da produção de etanol em resposta a queda dos preços relativos do petróleo e a eliminação dos subsídios, um novo ímpeto foi garantido ao álcool combustível graças aos novos carros total flex a partir de 2003. Segundo dados da Única, em 2007, o pais produziu quase 2 milhões carros flex. A expectativa futura é de expansão e aumento no numero de vendas destes carros. O Brasil é um dos precursores na fabricação destes automóveis e a degradação do meio-ambiente e a pressão das nações e ambientalistas pela busca de fontes alternativas de energia colocam o pais em uma posição favorável e oportuna no que tange a diminuição das desigualdades regionais e expansão da sua atividade econômica. CONSIDERACOES FINAIS A eclosão da crise do petróleo na década de 70 foi o estopim para o inicio de uma empreitada corajosa e de sucesso da indústria nacional. O governo brasileiro iniciou investimentos na produção de álcool combustível. Na época, a adição de álcool a gasolina já era permitida. Surge então o mais novo programa de energia, o Proálcool – Programa Nacional do Álcool (Decreto 76.593/75). O Proálcool contemplava a construção de novas usinas de álcool a empréstimos com juros baixos, alem do estabelecimento da mistura obrigatória de etanol a gasolina (cerca de 20%). A adoção destas medidas permitiu um aumento de mais de 500% da produção de etanol entre 1975-1979. (BASTOS, 2007). Na década de 80 o país é novamente atingido por mais um choque externo de petróleo. Na época, o país era pioneiro na produção de carros movidos a álcool. O governo adotou uma serie de medidas que incentivassem a demanda por estes automóveis. O preço do litro do álcool chegou a ser comercializado em nível inferior ao da gasolina em 65%. O valor dos impostos para os carros a álcool era reduzido se comparado com os dos automóveis movidos a gasolina.(BASTOS, 2007) Em 1984, 94,5% da produção nacional de automóveis correspondia a automóveis movidos a álcool. Nesse época, a produção de álcool permitiu a substituição vigorosa de milhares de barris de petróleo. (BASTOS,2007) VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br A queda no preço internacional do petróleo gerou uma crise interna no setor sucroalcooleiro. As dificuldades de caixa e de venda do álcool traz consigo iniciativas de cunho público de abrandamento com a aprovação de medidas de isenção fiscal e de redução de alíquotas tributárias (Lei 10 833) para produtores do setor. Outras medidas também foram adotadas visando a manutenção da demanda pelo etanol, como por exemplo a elevação do percentual da mistura de etanol a gasolina vigente desde 2001. É fato que o aparato institucional, ou seja, a adoção de políticas publicas que visam atender os interesses de uma determinada classe desempenharam papel importante no crescimento e evolução do setor sucro-alcooleiro. A volatilidade dos fatores externos, preço do barril de petróleo e condições climáticas adversas, influíram na trajetória do setor ao longo destas décadas porém não podemos ignorar a importância do aparato institucional na consolidação do setor. O Brasil possui forte potencial para dominar esse mercado de biocombustíveis apresentando vantagens comparativas frente a outras nações. O momento atual é de franca expansão por essas novas fontes e ainda que tenha um solo rico em petróleo a produção de etanol poderá suscitar um novo ciclo de crescimento da economia brasileira. A adoção do Proálcool na década de 80 e o surgimento e fortalecimento da indústria automotiva movida a álcool mostram a potencialidade do pais nesta área. A diminuição progressiva das reservas de petróleo é uma realidade que deve ser enfrentada pelos países desenvolvidos. Os avanços tecnológicos permitirão que a produção de alimentos não se arrefeça, garantindo a produção suficiente para o abastecimento do consumo mundial. O Brasil deve também considerar os investimentos em novas plantas de produção alem do aproveitamento do bargaço da cana que serve como importante fonte de energia, a biomassa. O crescimento da economia brasileira depende de outros fatores, institucionais, política econômicas, a expansão da produção do etanol propiciará o crescimento da atividade econômica em varias regiões do país e consequentemente da economia como um todo. Podemos afirmar que o Brasil é referencia na produção de etanol e na produção de automóveis flex de certo modo graças a adoção de políticas publicas adotadas ao longo destes anos voltadas ao incentivo a produção e ao aprimoramento da tecnologia e pesquisas para o setor. Referências Bibliográficas VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br ÂNGELO. Carlos A. D. (2007). Célula Combustível de Etanol no Brasil. (On-line). Ambiente Brasil. Disponível: http://www.ambientebrasil.com.br/composer.php3?base=./energia/index.html&conteudo=./en ergia/artigos/celula_combustivel.html, (12 de maio de 2007). BASTOS, Valeria D. Etanol, Alcoolquímica e Biorrefinarias, Estudo Setorial, BNDES, 2007. CBTO, MB Agro, apresentação sobre Etanol e as Perspectivas Futuras, 2008. Etanol reagindo ao tiroteio global . JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO, B2, 18/04/2008 GREMAUD, Amaury. Economia Brasileira contemporânea, São Paulo, Ed. Atlas, 2004. JARDIM, Arnaldo. 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