TEMPO JOVEM
Aprender a linguagem do mar
texto Teresa Carvalho foto Ana Paula
De mãos nos bolsos, assobiando baixinho, Guilherme, ansioso e enérgico, olhava o medo nos olhos e
desafiava-o a vergar-se frente à sua
coragem traquina. Estava habitua­
do a alimentar os seus sonhos com
esforços determinados que lhe
faziam crescer os músculos e cons-
truir o carácter. Desenhava devagar, mas decidido, o que queria.
Não sabia ainda para onde ir. Nem
sabia bem o que poderia fazer ou o que
era esperado realizar. Simplesmente
sabia que precisava embarcar. E não
num barquinho pequenino. Não podia
ser coisa pequena, onde o seu sonho
corresse risco de naufragar. Tinha de
ser um navio, um daqueles barcos
grandes que aguentam tempestades,
ventos cruzados e até furacões. Quer
embarcar num destes navios, porque
acredita que na sua aventura haverá de tudo isto. É assim mesmo, já
sabe, não há que assustar-se. Tem
simplesmente que preparar-se para o
momento. É por isso que não tem pres-
sa de embarcar. O segredo é mesmo
saber escolher: o navio, a tripulação, o
momento da partida, a rota, o destino.
O assobio aquece o Sol
Enquanto aguarda, não se limita a
assobiar. Assobia sim, porque tem o
Sol na alma. E o assobio dele aquece
o Sol. Aprende quais as estrelas que
orientam direcções e descobre onde
estão, mesmo quando o nevoeiro ou
as nuvens as encobrem. Guilherme
vai para junto dos barcos atracados e
aprende a consertar as velas, a reparar
os mastros, a reajustar as varandas de
protecção que já se tornaram ineficazes. Também observa a importância
da precisão dos momentos: o tempo
de levantar âncora, ou de a lançar e
parar; o tempo de recolher velas ou de
aproveitar o vento; o tempo de vestir
roupa de trabalho ou o fato domingueiro. Guilherme até aprendeu a
ouvir a linguagem do mar, de tão íntimo que se lhe tornou. Se ia e queria
embarcar numa aventura de descobrir
novos mundos – “o seu mundo nos
outros mundos” – então fazia todo o
sentido aprender a comunicar, a escutar os sons, os sinais que o envolviam,
e a entender o seu significado. Desta
aprendizagem podia depender o resultado da sua viagem.
Quanto mais Guilherme se preparava no
cais, mais assobiava, e mais o seu assobio aquecia o Sol que trazia na alma.
Os dias foram passando, e o seu
sonho foi ganhando configurações
mais precisas, ao mesmo tempo que
ele ia melhorando a sua aprendizagem de ler as estrelas, de entender
a linguagem do mar, de aprender a
lançar e a levantar âncora, de conser-
tar as velas, os mastros, as varandas
de protecção. Até parece que quando
aprendia, todas as coisas ganhavam
nova dimensão.
Guilherme deu-se conta que estava a
crescer e que agora, também ele, os seus
músculos, o seu assobio, o que aprendera, já aguentavam ventos cruzados.
Talvez estivesse na hora de embarcar!
Com o sonho no coração
Olhou o horizonte: os barquinhos
atracados no cais não eram de certeza suficientemente fortes para o
“Não
esperes
pelo
teu
barco:
nada
em
direcção
a ele"
Samuel Johnson
FÁTIMA MISSIONÁRIA
26
Edição LIII | Julho de 2007
FÁTIMA MISSIONÁRIA
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Edição LIII | Julho de 2007
transportar a si e ao seu sonho.
Precisa esperar, tranquilo. Isto ainda
não sabia fazer, no seu modo irrequieto e curioso de ser. Mas foi a vez de
treinar também este pormenor: esperar
tranquilo… mas atento ao Horizonte!
O seu sonho fora-lhe confiado, e agora
era responsável por ele.
Foi então que viu a ponta de um
mastro e uma bandeira, ao longe. A
aproximação permitiu ver um navio
grande, robusto, seguro. Aos poucos, percebia-se que a tripulação se
concentrava no convés. Tinha fato
domingueiro, com certeza, pelo colorido alegre e o vai-vém de saudação.
Lançaram âncora. O navio parou ao
largo. Guilherme não teve dúvidas.
Escutou a linguagem do mar, e lançou-se sem medo. Tinha tudo o que
precisava: o Sol na alma, o assobio que
aquece o sol, a barreta, as certezas, as
dúvidas e tudo quanto aprendera. O
seu lugar, agora, seria noutro lugar.
A embarcação pequena remou até ao
“seu navio”.
Guilherme subiu a escada de corda.
Uau! Que grande que ele era! Quantas
escotilhas! Quantas paisagens diferentes se poderiam permitir dali!
Foi recebido pela tripulação, sorridente.
Olhares experientes, curiosos compreenderam o olhar de Guilherme. Todos
falavam a linguagem do mar, que
deixa em terra tudo o que pode pesar,
e libertos, lançam-se a desfrutar e a
conquistar as aventuras que a sua
liberdade e os seus sonhos exigem.
Quando a âncora foi erguida e as velas
desfraldadas, o mastro afastou-se, afastou-se até não se ver mais, do cais. Só
ficou gravado na voz do mar o calor do
assobio do Guilherme, que aquece o Sol
que crescia e preenchia a sua alma!
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